Page 189

188

Alberto DE LA HERA

a perseguição dos não-crentes por razões religiosas. Agora, a religião cristã é a religião oficial, e aqueles que não são Cristãos devem ser perseguidos. Estes dois modelos, o modelo político (perseguir qualquer religião – o Cristianismo, no caso de Diocleciano – porque se opõe à unidade política do poder) e o modelo religioso de Teodósio (perseguir uma religião porque é um impedimento para a prevalência religiosa de outro credo) chegaram ao nosso tempo na forma de perseguição política e religiosa. Gostaria de suavizar o que vou dizer em seguida, mas não vou fazê-lo, porque não tenho tempo. Se quiser dizer a um homem que é um tolo e tiver vinte minutos, vou suavizar a notícia; se não tiver tempo, digo-lhe diretamente: “Você é um tolo.” O modelo político envolve a perseguição das religiões porque o Estado tenta substituir-se a Deus. Deixem-me explicar. Justiça é o conceito que preside à vida do Homem. Uma lei tem que ser justa. Se uma lei determina que algo é obrigatório, mas essa coisa é injusta, essa lei é injusta. Mas, quem determina o conceito de justiça? Quem estabelece o conceito do bem e do mal? Há séculos que isso foi determinado pela Divindade. A Divindade disse: Isto é bom, e isto é maldade. Curiosamente, a maioria das religiões coincide (porque, em última análise, há apenas um Deus) no conceito de bom e mau, de justiça e injustiça, mas os Estados totalitários não querem que a Divindade seja a fonte de justiça. Quem é, então, a fonte de justiça? O indivíduo? Seria o caos. Alguém pensa que isto ou aquilo é bom, eu acho que é mau e um terceiro pensa que é medíocre; então, criamos o caos. Com a democracia, uma vez em cada quatro anos as coisas são justas ou injustas. Agora o aborto é legal, agora só sob estas circunstâncias; agora, sob circunstância nenhuma; agora é legal de novo; agora as mulheres podem abortar; agora não podem... O conceito de justiça é relativizado, e o Estado entra em jogo dizendo: eu dito o conceito de justiça. Justo é qualquer coisa que o Estado diz que é justo, e injusto é qualquer coisa que o Estado diz que é injusto. O bem e o mal são definidos pelo poder político. Este é o nosso tempo. Diocleciano está muito vivo: o poder totalitário tenta determinar o conceito de justiça; a lei é um dogma. Uma parte importante das perseguições religiosas deve-se ao facto de que o Estado assume o direito de determinar o que é justo e o que é injusto, o bom e o mau, o ético e o antiético, o moral e o imoral. No momento em que o Estado assume esse poder, Diocleciano está vivo: a política é uma razão para a perseguição religiosa. Estamos a presenciar hoje dois tipos de perseguição religiosa. Uma gira em torno de um motivo político. No fundo, os Estados totalitários e outros que se

Profile for AIDLR AIDLR

Consciência & Liberdade 30 (2018)  

Consciência & Liberdade 30 (2018)  

Profile for aidlr
Advertisement