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A Religião como Fonte de Conflito

O segundo modelo é o modelo social, modelo de Trajano: o governador da Bitínia escreve a Trajano a dizer que há muitos Cristãos na sua província e pede-lhe instruções sobre o que fazer. O Imperador diz-lhe: se não causam agitação social, é deixá-los em paz. Se causam agitação social, evita esses problemas, mete-os na cadeia, obriga-os de qualquer maneira a manterem-se calmos; impede-os de criarem um problema social. O Cristianismo como um problema social é repreensível. Trajano está a dizer que não se preocupa com o Cristianismo como um problema religioso. Na verdade, este é o modelo social: se o Cristianismo causar perturbação social, deve ser reprimido; se não originar agitação social, os seus motivos religiosos são irrelevantes. Os exemplos acima mencionados são os dois modelos históricos que não devem ser imitados. O terceiro modelo é o modelo político: Diocleciano. Diocleciano percebe que o grande Império que governa não pode ser controlado com medidas políticas, militares e económicas igualmente aplicáveis aos territórios distantes, com raças, línguas, religiões e culturas díspares. É por isso que ele cimenta toda a política imperial sobre um elemento: o prestígio do Imperador. Eles estão perfeitamente conscientes de que o Imperador não é um Deus, mas a divinização do Imperador é a divinização do poder político. Diocleciano decide divinizar o poder político para manter todo o Império unido em torno de uma política ditatorialmente estabelecida a partir do centro. Nesse caso, a única confissão religiosa que se opõe à divinização do poder político é precisamente o Cristianismo. Chegámos ao ano 300. Assim, no limiar do século IV, a única oposição religiosa é o Cristianismo, e é precisamente nesse momento que surge a perseguição política pensada. A sua lógica era: não me importo se os Cristãos acreditam na Trindade ou na virgindade de Maria; isso é irrelevante. Mas opõem-se à divinização do poder político, portanto, devem ser reprimidos por razões políticas. O Imperador não está determinado a reprimir os crentes humildes; ele está atrás dos líderes, dos ministros, dos arquivos, das bibliotecas, das igrejas. Ele vai atrás daqueles que representam um perigo para o conceito de unidade política do Império. Este é um modelo de perseguição por razões políticas. O quarto modelo é o de Teodósio: perseguição por motivos religiosos. Teodósio estabeleceu a unidade cristã no Império e ordena a perseguição dos pagãos. Até então, os pagãos tinham sido a religião maioritária, mas desde Constantino eles deixaram de o ser. No ano de 380 d.C., Teodósio estabelece

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Consciência & Liberdade 30 (2018)  

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