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Jose Miguel SERRANO

conflitos. Muitas vezes eles espalham-se por causa do desaparecimento de um Estado como resultado das manobras de um segundo participante, como no caso da Líbia. Apesar de usarem violência sectária, as razões subjacentes são estratégicas – um Estado contra outro – económicas – por exemplo, a passagem do petróleo – ou o autorretrato como protetor – “Protetor dos crentes” – de uma certa minoria ou da maioria, num Estado que procura um objetivo puramente político. Neste sentido, seria irónico, senão hipócrita, que aqueles que não fazem o seu trabalho de manter a paz entre os Estados, de proteger os deslocados, de impor sanções à interferência armada em países terceiros, devam dedicar-se, com a desculpa de alcançar paz ou segurança, a monitorizar o conteúdo de sermões ou até mesmo os fundamentos dogmáticos das religiões, ou devam procurar transferir para os líderes religiosos as responsabilidades que não lhes correspondem. Na verdade, em geral, e, sem dúvida, com muitas exceções, os líderes religiosos usam uma linguagem menos hipócrita do que os Estados que, por exemplo, permitem o financiamento dos grupos terroristas que lhes convêm, ao mesmo tempo que condenam o terrorismo. Neste sentido, não é de admirar que alguns possam descrever o terrorismo como a “violência de outro”. Perspetivando as coisas, devemos lembrar, por outro lado, que uma grande parte dos ataques contra a Liberdade Religiosa foi realizada não em nome da religião, mas do secularismo. Toda a Europa de Leste, grande parte da Ásia e, que se diga, uma parte da Europa Ocidental têm visto a aplicação de práticas contra o livre exercício da religião. De acordo com certas posições seculares, deve ser recordado, a própria religião organizada é fanática e deve ser evitada. Senti-me ultrajado ontem2 quando ouvi dizer que, para alguém, a Liberdade Religiosa excluía a possibilidade de viver a religião comunitariamente. Neste sentido, temos de insistir em que a Liberdade Religiosa não pode consistir numa prática adaptada ao comportamento politicamente correto, num sistema de controlo externo que impeça a livre expressão e a prática, geralmente imposto por aqueles que não compreendem o valor da transcendência para uma grande parte da Humanidade. Seguir esse caminho levaria a uma leitura ideológica do problema e das suas soluções. Isso aumentaria a distância entre as linhas partidárias e o que muitas pessoas sentem e vivem. Além disso, exacerbaria um problema que não tratámos, mas que está subjacente a toda a violência em nome da religião. Na verdade, na nossa experiência, os apelos dos líderes religiosos para protestar contra 2 Referência ao primeiro dia da Cimeira Global, a 23 de novembro de 2016.

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Consciência & Liberdade 30 (2018)  

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