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flash

Revista de Comunicação e Cultura - Edição nº1

A Tecnologia e a Liquidez na contemporaneidade


contato@revistaflash.com.br

Flash - Cultura e Comunicação. Edição nº1 - Tecnologia e Liquidez

Edição- Ana Luísa Saran; Instagram e a Democratização da Fotografia - Leonardo Mourão Carrara; Amores Plugados - Gabriela Pacheco Santos; Jonathan Harris e as Partículas Coletivas - Ana Luísa Saran; O Punk de Pelúcia - Lucas Carvalho; Ensaio Visual: Fotografia - Ana Luísa Saran, Modelo - Isabelle Ferrão Marques; Painel de Críticas - Leonardo Mourão Carrara, Lucas Carvalho, Gabriela Pacheco Santos, Ana Luísa Saran; Agradecimentos - Isabelle Ferrão Marques.


Indice 6

Instagram e a Democratização da Fotografia

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Amores Plugados

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Jonathan Harris e as Partículas Coletivas

O Punk de Pelúcia

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Ensaio Visual

Painel de Críticas

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Editorial

U

ma revista sobre comunicação. Não há como pensar no mundo atual sem relacioná-lo a todas as formas de se comunicar as quais o ser humano está sujeito. O Homem possui, em sua natureza, a extrema necessidade de se expressar e de transmitir alguma opinião, jeito de ser, enfim, de ser reconhecido. As pessoas estão constantemente se comunicando, sendo na maioria das vezes de forma inconsciente. O modo de se vestir, a escolha dos produtos consumidos, assim como as atividades realizadas, e os estilos de leitura são aspectos que dizem muito sobre uma pessoa, em um primeiro momento. Dança, artes visuais, música, moda, teatro, cinema, fotografia, literatura, televisão, blogs e redes sociais são alguns dos campos de comunicação e transmissão de informação que permeiam o modo de vida de uma sociedade, de acordo com sua cultura, tradição e valores. O fenômeno da globalização tem permitido a troca de uma quantidade cada vez maior de informação. Tal fato é positivo no que diz respeito a um enriquecimento cultural, a rapidez da troca de descobertas relevantes e de ações ocorrendo por todo o mundo, entre outros fatores. No entanto, o fluxo é tão intenso que é preciso haver uma seleção, por parte do receptor, daquilo que é importante. A facilidade que é se comunicar hoje em dia, e atingir um público considerável, exige um filtro cada vez mais aguçado por parte sociedade. A revista Flash tem por objetivo explorar, em cada edição, as formas com que o ser humano se comunica. Logo, ela parte para um viés um tanto quanto cultural, trazendo em suas matérias aspectos desde a música, moda, tecnologia, até filosofias e discussões de pensadores e filósofos sobre o mundo contemporâneo.

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Edição nº 1 - Tecnologia e Liquidez

O

desenvolvimento da tecnologia possibilitou o estabelecimento de conexões diretas com qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo. Esse foi o estopim para uma revolução na era da informação. As pessoas estão expostas a um fluxo informacional cada vez maior, e estão cada vez mais conectadas, de todas as maneiras possíveis. Os meios de comunicação crescem numa velocidade alucinante: são tantas as formas de se estar conectado uns com os outros que nada mais surpreende a população. Essa característica da sociedade contemporânea, que se acostumou a possuir instrumentos de comunicação imediata, interfere claramente nas relações sociais dentre seus indivíduos. Surgem novas “tribos”, novas prioridades, novos modos de agir e de se relacionar. Esses novos parâmetros caracterizam um mundo cada vez mais “líquido”, ou seja, mais escorregadio, frágil, superficial. Essa é a missão desta primeira edição: um panorama cultural ao redor da s teconologias da comunicação e como elas atingiram a sociedade contemporânea.

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I

nstagram Por Leonardo Mourão Carrara

O Instagram e outros aplicativos de modificação de imagens vêm mudando o jeito como se entende a fotografia, democratizando-a como arte. Porém, até onde isso é benéfico?

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O Instagram e a democratização da Fotografia

Q

uando Mark Zuckerberg, presidente do Facebook, visionário, e o segundo bilionário mais jovem do mundo, decidiu por comprar a empresa norte-americana Instagram, pouca gente se surpreendeu. Afinal, o aplicativo vem conquistando um número cada vez maior de fãs em todas as partes do mundo, enfeitiçados pela sua capacidade de modificar e digitalizar fotos, com um grande acervo de efeitos e telas. Sediada em São Francisco e com somente 13 funcionários, a empresa foi adquirida pela colossal soma de US$ 1 bilhão. O que o aplicativo faz é oferecer efeitos, nada mais do que filmes danificados, para suas fotos, dando a elas um aspecto antigo. Após a foto ser modificada, pode ser compartilhada em diversas redes sociais. O Instagram pode ser adquirido fácilmente; qualquer um com um Iphone ou tecnologia Android pode ter acesso ao aplicativo, o que levou a uma expansão rápida e massiva deste. Essa popularização da tecnologia em benefício da fotografia acabou por dividir os profissionais do ramo. Enquanto uma pequena minoria deu como por correta essa maior democratização da arte fotográfica, uma outra parcela dos profissionais continua contra o Instagram, alegando que o aplicativo banaliza a arte. Um aspecto não tão positivo na visão dos fotógrafos é que o Instagram permitiu que qualquer pessoa produza fotografias com um toque que, anteriormente, só era alcançado após muitos testes e trabalho em laboratórios, ou mesmo com a lente das câmeras. Os profissionais do ramo passam a ser seres em franca extinção. Os mais tradicionais, criticam os softwares de manipulação digital como o Photoshop e assemelhados, as câmeras digitais automáticas, e sentem a diminuição do uso de filmes fotográficos, assim como o uso dos laboratórios de revelação. É um seleção natural imposta pela tecnologia, na qual sobrevivem aqueles que se adaptam a esse novo.

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Mesmo na visão dos mais críticos, porém, esse não é o maior dos problemas. Em 1841 Fox Talbot criou o negativo, invenção que permitiu a reprodução infinita de uma imagem fotográfica. A fotografia destruía o “aqui e agora” (hic et nunc), permitindo a eternidade da imagem. Com essas novas tecnologias o revelamento não mais existe, e a divulgação ininterrupta das imagens pelas redes sociais propaga-as até que elas se tornem irrelevantes, invisíveis e rotineiras. Com efeitos que lembram a antiguidade, o Instagram transforma o presente imediato no passado distante. Simula uma realidade ultrapassada. Impede o presente. É a imitação da natureza, mas com ares de mentirinha. Não é mais a fotografia como antigamente, preocupada em capturar a imagem na sua essência. Essas novas tecnologias digitais vêm mudando a história da fotografia, de um modo que nem mesmo se entende fotografia como antigamente. O Instagram deturpa nossa visão, e nos impede de enxergar o óbvio: a fotografia, a câmera e os fotógrafos mudaram para sempre.

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amores plugados Por Gabriela Pacheco Santos

Tudo menos envolver-se, tudo menos a estabilidade.

Eis o que dita a modernidade líquida em que nos encontramos. Mudou a concepção de existência, a concepção de realidade. O virtual parece ter constutuído um padrão, e o amor, nesse desencontro, parece ter tomado um novo rumo.

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V

ive-se uma nova era, uma nova modernidade, marcada por uma total ruptura com o passado, e que provoca mudanças no campo das relações sociais, da ciência, da filosofia, da moral, da economia, da educação, enfim, de toda uma concepção de existência. Uma modernidade que se caracteriza pela inconstância e mobilidade. Uma modernidade essencialmente líquida, como bem definiu Zygmunt Bauman. Um mundo de oportunidades fluidas, valores inconstantes, regras instáveis. Uma vida propensa a mudar com rapidez e de maneira imprevisível. É nessa terra que floresce a nossa capacidade de amar. Amor direcionado ao próximo, ao nosso parceiro ou à nós mesmos. E assim, formam-se relações cada vez mais flexíveis, inconstantes e efêmeras. Relacões que são formadas e mantidas em "redes". À medida que vão facilmente se formando, nascendo, se constituindo, vão também acabando e morrendo. Não se sabe mais manter laços, compromissos, uniões. É nesse meio tão circundado pela tecnologia, que são desenvolvidas relações virtuais, que seduzem por serem flexíveis, uma vez que reduzem a pressão que a contiguidade não-virtual exerce. Homens e mulheres desesperados por um relacionamento, mas que se mostram desconfiados e inseguros ao optar pela condição de permanência, talvez eternidade. Tudo, menos envolver-se. E assim, o número de namoros virtuais cresce espantosamente, na mesma medida que aumenta também o número de término deles. Quer-se tudo, menos o atestado de estabilidade. O virtual parece ter virado realidade, constituído um padrão. Tudo é medido comparando-se à proximidade virtual. Uma realidade que se mostra menos arriscada, mais cômoda, e que tem colocado em desuso todas as habilidades exigidas pela realidade não-virtual. Pessoas que nunca se viram pessoalmente, nunca se tocaram, nem sabem seus cheiros, mas que mantém uma forte e íntima relação por trás de uma tela de computador. A proximidade virtual virou a realidade real, pela qual todos os outros que se dizem realidade devem ser avaliados e julgados. Um cenário líquido, que anseia que os relacionamentos surjam e desapareçam numa velocidade cada vez maior, enquanto tentam cumprir o título de ser o mais satisfatório e completo possível. Uma virtualidade que oferece aos relacionamentos um caráter mais fácil, mais compreensível e que apresenta uma grande vantagem, uma vez que sempre há a possibilidade de se deletar. Não se sabe mais conviver pessoalmente. Famílias que nunca mais desfrutam seu tempo juntos, uma vez que cada integrante encontra-se no seu quarto, de porta fechada, e em seu mundo, seja no atrás de uma tela de computador, de celular, ou na frente de uma televisão. Amigos que compartilham do mesmo espaço, seja no trabalho, na faculdade, mas que optam por trocar mensagens, no lugar de marcar um encontro cara a cara.

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Uma sociedade que parece ter sido traída pela qualidade, e assim, busca agora pela quantidade. Se as relações viraram tão desonestas e improváveis, talvez seja mais fácil substituí-las pelas redes. Relacionamentos que se iniciam por impulso, e que desfrutam dos mesmos comportamentos que clientes em meio ao mercado de consumo. Pessoas guiadas pelo impulso, que escolhem relacionamentos, assim como escolhem a marca de bolacha a ser colocada em seu carrinho de compras. Relacionamentos que devem ser consumidos instantaneamente, usados uma só vez, e claro, descartados logo em seguida. Assim, como tem-se feito com as coisas e pessoas, descartadas, e substituídas. Quando não atingem o nível satisfatório, são como meras mercadorias, e podem ser trocadas por outros, a espera de que agradem mais. Relacionamentos que se caracterizam como reais investimentos, uma vez que se é aplicado tempo, dinheiro e esforços. Não se deve culpar a tecnologia pelo lento recuo da proximidade contínua, direta, face a face, pessoal, uma vez que deve-se considerar que a proximidade virtual desfruta de características, consideradas muito vantajosas no líquido mundo moderno. A condição de se falar por trás de um telefone celular ou de uma tela de computador, talvez seja mais cômoda e menos arriscada do que compartilhar o mesmo teto ou olhar nos olhos da outra pessoa. Uma vez que se conhece a proximidade virtual, automaticamente se adere à ela. Relacionamentos que têm a vantagem de que podem acabar quando desejar, instantaneamente, sem confusão. Reduzem riscos, e evitam a perda de opções que tanto se valoriza em um mundo de oportunidades fluidas. Esse artigo não é apenas uma triste constatação ou a apresentação de uma realidade, mas um alerta, um grito, se é isso mesmo que queremos para o nosso futuro.

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Jonathan Harris e as Particulas Coletivas

Por Ana Luísa Hindrikson Saran

O artista americano que mistura artes visuais com com putação gráfica: Jonathan Harris desenvolveu projetos que trabalham com a questão da tecnologia e o ser humano. “We feel fine” capturou sentimentos expressos por pessoas através da internet, durante anos. Como funciona esse software e quais os resultados obtidos?

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O

mundo digital é um universo infinito o qual transmite ao ser humano, ao mesmo tempo, a sensação de exposição e de anonimato. A criação de um perfil na internet pode ser interpretada como uma ação que torna o íntimo público, ou que expõe qualquer característica relacionada a si próprio como vontades, desejos, até dados pessoais e opinões ao mundo todo. No entanto, existe um outro viés interpretativo, que rege a ideia de que imersos na rede, os indivíduos perdem a personalidade “real” e passam a se esconder atrás de uma máscara, onde podem agir ou expressar pensamentos muito íntimos, os quais não seriam capazes de serem expressos fora dessa “proteção”. Jonathan Harris, nascido nos EUA em 1979, identificou essa forte ligação do ser humano com a tecnologia, e passou a desenvolver projetos artísticos super elaborados, que permitem um amplo leque de críticas e interpretações de como a humanidade está lidando com o mundo digital. Formado em ciência da computação, Harris combina as artes visuais com computação, antropologia e dramaturgia, no intuito de reimaginar a forma como ser humano se relaciona com as máquinas. Seus projetos têm, em comum, a temática da vida: seja dele mesmo, ou de outras pessoas; e a utilização dessas máquinas como ferramentas para as artes visuais. Um grande trabalho realizado por ele foi o projeto “We Feel Fine”, concluído em 2009. Trata-se de um conjunto imenso de sentimentos humanos captados durante três anos na internet, organizados em uma animação lúdica formada por partículas geométricas coloridas, para apresentar a o panorama emocional do planeta. O funcionamento se dá da seguinte forma: um software criado por ele próprio recolhe sentimentos humanos expressos em uma extensa quantidade de blogs, do mundo inteiro, a cada dez minutos. O sistema busca pelas frases “I feel” (eu sinto) e “I am feeling” (eu estou sentindo). Encontradas as frases, ele capta a sentença completa; alguma foto postada junto (se houver); além do blog de onde foi retirada; e arquiva-os em seu banco de dados. Uma vez salvo, o software verifica se o sentimento expresso se encaixa nos 5000 outros pré-identificados. Se sim, então ele buscará pelos dados do autor da frase, para realizar o cadastro completo.

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Toda essa pesquisa é organizada em um sistema de partículas aleatórias, onde cada uma delas corresponde a um sentimento captado pelo programa, que pode ser alegria, tristeza, culpa, raiva, amor, etc. Suas cores e formas variam se o sentimento é positivo ou negativo e, ao clicar em uma delas, são exibidas a frase completa expressa, e de onde ela foi retirada. Por outro lado, também se pode visualizar as partículas de forma organizada por categorias, como por exemplo idade, gênero e localização. Manuseando o programa, é possível pesquisar como mulheres de 20 anos se sentem em Nova York em dias chuvosos, como italianos de meia idade se sentiram com relação a algum evento ocorrido, ou ainda qual é o sentimento que está sendo mais comentado no momento. Jonathan Harris apresentou esse software em uma conferência do TED – Ideas Worth Spreading, defendendo a idea de que o ser humano tem a necessidade de se expressar, seja da maneira que for. O Homem vai deixando pegadas ao longo de sua existência, e o “We Feel Fine” está captando todos esses resquícios deixados ou, para se adequar ao tema, postados. Foi publicado um livro sobre o projeto, que contém mais de mil fotografias de bloggers, milhares de dados estatísticos, centenas de infográficos e infinitos “insights” da vida cotidiana de pessoas comuns. Harris fez uso da tecnologia digital para desenrolar críticas sobre a necessidade do ser humano de se expressar constantemente, atrelada ao fato de que a internet permite e dá espaço à essa necessidade. Segundo ele, ���a web ajuda nossa espécie a entender que somos um só organismo interconectado, com uma consciência coletiva. Mas também somos indivíduos e não podemos nos esquecer que possuímos corpos físicos e que estamos vivos, podemos fazer escolhas, nos mover, realizar ações e viver”.

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Hipsters

Por Lucas Carvalho

Um grupo alternativo, ligado nas tendências, mas que traz ao conexto contemporâneo a pegada retrô. Admiradores da moda, música, fotografia e artes em geral, porém com um detalhe: buscam aquilo que ainda não foi muito divulgado. esquivam-se da cultura de massa.

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O PUNK DE PELUCIA

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amisa xadrez , óculos wayfarer , botas dobradas , bolsa de ombro e fones de ouvido coloridos . Mais um Hipster , é o que diriam os menos antenados no assunto. Mas o que seriam estes autênticos e coloridos seres , e porque se vestem deste jeito extravagante? A que grupo pertencem ? Cuidado , eles podem não gostar de receber este tipo de pergunta. Antes da sociedade compreender o conceito de contracultura , ela já estava morta . Quando surgiu , o mundo em sua organização era bipolarizado politica e economicamente entre o socialismo e o capitalismo e qualquer forma de escape a este regimento se caracterizaria automaticamente como “Alternativo” às visões de mundo predominantes naquela época. Sendo assim , novas tendências seriam tomadas de alguma ideologia política , seja ela qual fosse .Punk ou hippie trariam consigo uma forte relevância , clamando por reformas sociais ao mesmo tempo que expunham suas vestimentas que os diferenciavam dos demais. Nos tempos modernos, a busca da vez mais presente na mentalidade juvenil, que unifica e banaliza o ser humano como um mero ser funcional. Sendo assim , quanto mais rápido ele parecer feliz , mais feliz ele parecerá a si mesmo, numa rapidez carente de sentido real. Essa velocidade e variabilidade com que se estabelecem as conexões no mundo digital reflete no consumo de novas roupas e acessórios desnecessários e a preferência de diferentes estilos a rapidez em que se identifica um verdadeiro rebuliço sem rosto.

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Seria taxado aquele indivíduo que tenta cada vez mais reunir os seus mais variados gostos pessoais de forma mais autêntica possível. Formando assim uma miscelânea de difícil ou impossível categorização. Este comportamento visa uma diferenciação da maioria que o cerca. Sedentos por uma imediata formação de sua própria identidade e sua consequente exposição , passaram a misturar os principais elementos de um determinado período de vanguarda , formando assim o que os artistas chamam de pastiche : pedaços que imitam diferentes obras de arte, tentando parecer original. Isso já cria um aspecto visual diferenciado , o que dá a o tom de exclusivo ao arranjo no seu usuário. Há contudo , uma rejeição por parte dos hipsters em aceitar este rótulo. A diferenciação passa a permear todo o comportamento hipster , que vai desde a auto-citada tolerância até o mais infantil repúdio aos novos modismos ,pois querem o lado lúdico da contracultura sem abrir mão dos comodismos da riqueza e fartura que lhes permitem se produzir.

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Painel de Críticas Paralytic Stalks – Of Montreal

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Por Leonardo Mourão Carrara

m atividade desde 1996 e com 11 álbuns lançados, o grupo norte-americano é um dos poucos exemplos de longevidade dentro da música Indie, com um número invejável de aparições ao redor do globo. A pluralidade de influências, que vão de Kraftwerk a David Bowie, contribuiu para que o líder da banda, Kevin Barnes, pudesse trabalhar com uma multipluralidade de efeitos e técnicas. Assim, é difícil definir o estilo da banda Of Montreal. Em seu novo álbum, Paralytic Stalks, as músicas alteram instrumentos de sopro, guitarras frenéticas, synthpop e melodias melancólicas. O fato é que, em todas as faixas desse álbum, que chegou às lojas em 7 de Fevereiro de 2012, prevalece o psicodélico,o progressivo e o experimentalismo, transformando o álbum numa “orquestra pop” . As letras são bastante pesadas, a maioria delas baseadas na tumultuada relação de Kevin Barnes com sua esposa, a artista plástica Nina Aimee Grøttland. Como em Spiteful Intervention, a mais sombria do disco,que diz “I made the one I love start crying tonight-and it felt good.” Assim, Kevin Barnes acaba se transformando na matéria prima para o disco, que ainda trata de temas como vingança e a dura condição humana. O fato é que, apesar da loucura e psicodelismo que podem não agradar a alguns, Paralytic Stalks é um bom álbum, mantendo a tradição do grupo de sempre agradar a crítica. A banda se apresenta em Junho em São Paulo, no Cine Jóia. Recomendável.

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Willian Turner

Por Ana Luísa Hindrikson Saran

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intor inglês nascido em 1775, Willian Turner marcou, com seus trabalhos, um período da história da arte chamado Romantismo. Exaltação de sentimentos e uso intenso da emoção caracterizaram essa época, que rompeu com a formalidade clássica. Uma período que contemplava uma visão de mundo contrária ao racionalismo, e tanto valorizava a subjetividade, retratada no drama exalado pelos artistas em suas obras. Turner, por sua vez, desenvolveu um estilo muito particular em suas obras: suas pinceladas são bem difusas, sem haver preocupação com os contornos; a luz é muito bem estudada e bastante trabalhada; a temática dos quadros se dá, em grande maioria, por paisagens e aspectos naturais, como o céu, a água e o ar. A pintura também é um meio de comunicação do artista com a sociedade. Os românticos usaram dos pincéis e tintas para expressar dramas profundos através de imagens muito bem trabalhadas. Ao observar as obras de Turner, a sensação transmitida é de fluidez e continuidade, devido às suas pinceladas leves, porém muito ágeis, criando movimento e dinamismo. A água é um elemento quase onipresente em seu trabalho. Além disso, o artista explora muito o reflexo da luz e da natureza nos espelhos d’água, e a forma como as pinceladas são dadas passam também a impressão de um vapor d’água, ou uma névoa às paisagens, que muitas vezes transmitem um ar quase que divino. A fluidez encontrada nas obras remete à questão da fragilidade, aspecto discutido quando analisadas as relações sociais contemporâneas. O movimento, as linhas curvas e esfumaçadas são como a confusão e a falta de clareza na mente dos seres humanos: cada vez mais consumidos pelo contexto de vida atual, que exige muito de um indivíduo que acaba por se alienar com relação a si próprio. O artista romântico transpunha suas angústias para suas obras; e tais angústias continuam presentes. Uma paisagem refletida na água, por exemplo, é distorcida, assim como também se apresenta a realidade, uma vez que é diferentemente analisada diante de um grande leque de visões de mundo. 27


Lixo Extraordinário Por Gabriela Pacheco Santos

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ilmado ao longo de dois anos (agosto de 2007 a maio de 2009), o documentário Lixo Extraordinário, dirigido por Lucy Walker, aborda o trabalho do artista plástico paulista Vik Muniz em um dos maiores aterros sanitários do mundo, conhecido como Jardim Gramacho, na periferia do Rio de Janeiro. O artista inicia o trabalho com o objetivo de retratar um grupo de catadores de materias recicláveis, no entanto, esse trabalho mostra a realidade dessas catadores e revela o desespero que esses enfrentam quando propensos a imaginar suas vidas fora daquela rotina, daquele ambiente. O trabalho é fantástico, e pode revelar o poder transformador que a arte tem na alma das pessoas. O lixo, usado como matéria-prima, foi o agente modificador da realidade de muitos dali. Após toda a produção, o dinheiro arrecado na venda das obras, foi convertido para mudar a realidade daqueles catadores. Aqui, escrevo não só para elogiar tal documentário, e toda a ideia por trás do mesmo, mas também, para falar da matéria prima empregada, o lixo em si. O lixo representa o que descartamos, aquilo que não mais nos serve, ou não mais nos representa. A cada minuto, toneladas e toneladas de lixo são formadas no mundo. Um lixo que não é só físico, nem visível, mas um lixo que engloba pessoas, relacionamentos, sentimentos, atitudes. Vive-se numa sociedade cada vez mais descartável. O que foi pensado e dito como verdade ontem, já não mais pode traduzir o pensamento atual. Tudo é instantâneo, efêmero, e flexível. Vive-se numa modernidade fluida. Assim como os pensamentos, também são os relacionamentos, que parecem acabar cada vez mais rápido. Não mais se investe numa relação, já que podemos acabá-la a qualquer momento, e substituir o parceiro por um outro, também disponível por aí. Pessoas descartáveis, com atitudes descartáveis. Personalidades e identidades descartáveis.

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Hoje, se é uma pessoa em cada situação e ambiente, e no fundo, nao se é nada. Mudamos, e nos descartamos ao mudar de contexto. E assim, vai crescendo o lixo. Compra-se cada vez mais e mais, e ainda se acha que não tem nada. Uma necessidade de consumir, de atualizar, que parece nao saciar nunca. Produtos e gostos descartáveis. O que tanto se desejava, após a compra, já se parece obsoleto. Uma sociedade imediatista, que parece substituir tudo a todo instante. O mundo tem seguido uma velocidade tão incrível que nem mesmo há espaço e tempo para nos encontrarmos, e assim nos perdemos, e viramos lixo. Adquiri-se tudo a todo momento, supérfluos ou não, mas que um dia serão descartados, e nada mais significarão para ninguém. Até mesmo os gostos são descartados, pois não se encaixam a todas circunstâncias, e, portanto, devem ser substituídos. Coisas, pessoas, atitudes, gostos, relacionamentos, enfim, tudo no final vira lixo, e cabe a nós reciclá-lo ou não. Lixo para uns, e vida para outros. Para uns é inutilidade, para outros é o alimento. E toneladas e toneladas vão se acumulando, se não repensarmos a que fim irá chegar, e o que faremos com tudo isso. Ou os descartamos, ou fazemos desse lixo uma arte. E no fim, até mesmo esse artigo, fará parte desse lixo, pois o que foi dito aqui, talvez não sirva mais pro amanhã, nem faça mais parte da visão de mundo de quem o redigiu. Um lixo fluido e veloz que cresce, mas que pode não ser apenas lixo descartado como preconiza a modernidade liquida. Mas, lixo que se transforma e transforma vidas. Extraordinariamente lixo.

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Paulistano Também Sente

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Por Lucas Carvalho

ão é de hoje que a música brasileira tem o seu destaque mundo afora , ritmos envolventes , ginga melódica e o batuque afrodescendente podem ser algumas das principais vertentes das brasilidades musicais. A MPB e o Samba caracterizam essa variedade sonora , sendo reconhecidos como gênero típico das terras tupiniquins. A novidade desta vez vem , contudo , com uma variedade de ritmo que não era originalmente brasileiro , mas caiu nas graças do malandro que soube fazer o rap com o famoso tempero verde-amarelo: Percuções rebuscadas , letras urbanas e crônicas com sentimentalismo comum a suas canções , o novo albúm de Criolo , antes Criolo Doido — Nó Na Orelha— um dos novos expoentes da música brasileira contemporânea. Vindo de uma família de retirantes nordestinos , se assemelha com a esmagadora maioria trabalhadora paulistana , passando sua infância na região do Grajaú , zona sul de São Paulo.É Filho de professora , o que lhe permitiu um enriquecimento cultural de grande nível por meio dos livros que era incentivado a ler. Essa riqueza é observada na variedade lírica que o álbum apresenta , desde a linguagem urbana dos “muleks” em “Grajauex” até referencias a Turma Da Mônica , em “Linha de Frente”. Com um certo tom do Afrobeat , as batidas mesclam o sensual e a malandragem do samba com uma levada melódica de jazz. Como se não bastasse , ainda traz uma temática social , que pode ser notada em “Não existe amor em SP” , evidenciando a crueza nas relações entre os cidadãos e a massante aspecto cinzento da cidade onde os graftes gritam e a vaidade excita.

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