Page 1

Regresso às Origens “A vida não está fácil”. Esta é a frase que mais se faz ouvir nos dias que correm. Gostaria de poder dizer que um pouco por todo o país, mas infelizmente, “pouco” é nesta situação, em concreto, dizer pouco. Todo o país e toda a Europa vive, nos dias de hoje, uma conjuntura económica complicada e perturbante. Todos os dias nos deparamos com os preços a subir, o desemprego a aumentar, e consequentemente os impostos e os encargos económicos com os desempregados e com os desocupados. Este “flagelo” económico é a cada dia mais preocupante, especialmente porque, de um ponto de vista mais abrangente, acaba por funcionar como um ciclo fechado, ou seja, um aumento do desemprego provoca um aumento do número de dependentes do estado não produtivos, sejam de idade produtiva ou reformados, significando isso um maior encargo para o estado. Logo, se o estado vive uma conjuntura de


dificuldade económica por falta de capital, estes encargos terão que ser suportados pela classe trabalhadora e pelas empresas. Um aumento dos encargos significa, nos dias de hoje, um constante aumento de impostos, fazendo subir os preços, diminuindo os ordenados, e infelizmente em muitos casos, por todo o país, o fim de vida de inúmeras empresas, e a redução salarial e da massa trabalhadora de outras. Facilmente percebemos que chegámos ao ponto de partida, ou seja, ao aumento do número de desempregados. E este número não é só um número, são pessoas, são famílias, são vidas, é um sofrimento imenso espalhado e disseminado pelo país inteiro, em especial no interior do país e na nossa querida cidade. Se há alguns anos víamos a nossa cidade rodeada de indústria têxtil e outras, que empregavam uma percentagem significativa da população local, nos dias de hoje, esta atividade fabril é praticamente inexistente, tendo sobrevivido apenas um número muito reduzido, seja na área têxtil ou outras. O encerramento, em especial de uma das maiores empresas da nossa cidade, fez cair sobre a nossa população um manto negro de desconfiança no futuro, de dor, de desespero, levando a esperança, o espírito combativo que a história nos reconhece.


Todo este flagelo (porque é difícil encontrar termos para descrever o que se sento no seio da nossa população) já se abateu sobre o nosso povo vezes sem conta, de cada vez com maior impacto. Mas a Guarda não está perdida. Muito pelo contrário. A Guarda tem um trunfo, uma carta esquecida por muitos, mas que nos fez chegar longe, tal como reza a história. A Guarda tem gente com vontade, gente com iniciativa, com ideias. E foi num grupo de gente com ideias que surgiu mais uma que poderá ajudar o “cantinho que amamos tanto” a sair desta situação. Esta ideia passa pela promoção das atividades económicas mais características da nossa cidade: as atividades do sector primário. A nossa cidade sempre se viu rodeada de terrenos agrícolas, pastos e gado. Com o envelhecimento da nossa população, com a evolução da nossa sociedade e globalização, as atividades associadas à produção agrícola e pastorícia foram sendo perdidas, fosse pela dificuldade em competir com as grandes produções, com os baixos preços dos produtos importados, com a procura de melhores condições de vida por parte dos jovens, com a aplicação desmedida de subsídios à (não) produção, entre outros. A verdade é que a nossa região tem ótimos produtos, abundância de terrenos férteis, de irrigação natural, e tem ainda uma das raças de gado


com maior projeção mediática a nível nacional. E como se isso não bastasse, o flagelo anual dos incêndios aflige todos os anos a nossa população, muito devido ao abandono dos terrenos agrícolas, à necessidade de criação de pasto para o gado, entre tantos outros. E quando se pergunta a um bombeiro porque têm crescido as áreas ardidas nas últimas décadas, facilmente nos salientam que o abandono dos terrenos dificulta muito o combate e aumenta a proximidade das zonas de risco dos limites das zonas habitadas. Esta ideia passa pelo incentivo ao regresso “às origens”. A proposta de solução que proponho é bastante simples. Se, com um trabalho conjunto entre a câmara municipal e as juntas de freguesia do nosso concelho, fosse possível a criação de “hortas comunitárias”, ou seja, de um projeto de atribuição, para produção familiar, de terrenos estatais ou até mesmo privados, mediante uma anuidade simbólica, o potencial agrícola do nosso concelho poderia uma vez mais ser aproveitado. Deste modo, por processo de candidatura de qualquer cidadão da Guarda a um qualquer terreno, ficaria esse mesmo candidato apenas incumbido de pagar uma anuidade, sendo esse valor destinado a garantir os serviços prestados pela câmara municipal


ao cidadão candidato. Com a agilização dos processos camarários, ficariam a ganhar as três partes: o cidadão candidato teria uma forma de rentabilizar o seu tempo e o seu esforço, podendo encontrar neste projeto uma forma de subsistência ou de apoio à subsistência; A câmara da Guarda veria os seus terrenos tratados, a população do concelho com maior poder de compra, os produtos regionais mais acessíveis, uma maior dinamização do comércio local, um aumento do capital em circulação; A população teria acesso a preços mais baixos nos produtos, por aumento da oferta, e isso refletir-se-ia num aumento do poder de compra e da qualidade de vida. Nesta linha, as vantagens e as consequências conseguidas com o regresso à agricultura na nossa cidade são imensas. A nossa cidade tem ainda, para além deste potencial agrícola, um património gastronómico invejável. Seja pelos enchidos, de onde saliento a tão afamada morcela, seja pelos vinhos, acredito que a promoção e divulgação destes produtos poderia trazer à nossa cidade um aumento do turismo, uma vez que se tem visto nos últimos anos um crescimento do turismo rural em toda a Europa e em especial no nosso país. Penso que a nossa cidade tem um forte potencial a nível da gastronomia, de calma, de proximidade da Serra da Estrela, de acessos e mais


que tudo da simpatia e acolhimento da população que tanto nos caracteriza. Penso que a Guarda tem “pernas para andar” e que com ideias, vontade, dedicação e seriedade, o futuro da Guarda pode tornar-se promissor.

André Ramos Mestre em Engenharia Telecomunicações

de

Eletrónica

e


André ramos - Regresso às origens  
Advertisement
Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you