Issuu on Google+

NORTE

FL RIPA JORNAL

FLORIANÓPOLIS, JUNHO DE 2014

14

HISTÓRIA BAIRRO DOS INGLESES

A transformação de uma vila de pescadores

C

onta à história que a origem do bairro de Ingleses é atribuída ao naufrágio de uma caravela inglesa, ocorrido na metade do século XVIII em frente à Ilha denominada Mata-Fome. Esta ilha serviu de abrigo aos náufragos, e alguns destes sobreviventes constituíram famílias com as nativas daquele lugar. Nesta época, era um povoado bastante habitado e todos se agrupavam em torno da pequena capela consagrada a Nossa Senhora dos Navegantes. Através de decreto em 1831 a vila passou a condição de Distrito. A capela foi construída em 1881 sobre os cômoros de areia, por um abastado lavrador. Na década de 1960, foi demolida com o objetivo de construir uma igreja maior, devido ao aumento da população. A festa de Nossa Senhora dos Navegantes, atrai multidões de romeiros e devotos vindos das circunvizinhanças, e até hoje é realizada anualmente. A vila original era cercada pelas dunas e pelo mar, com modestas e singelas casas. Algumas cobertas de sapé, mas a maioria delas e dos ranchos de pesca eram com telhas de calhas. Era uma vila de pescadores e agricultores, que se dedicavam a maior do tempo à agricultura, e também com a pesca, principalmente na época da safra da tainha e da anchova. Os engenhos de farinha e de açucar dominavam a paisagem local, mas na década de 70 estas atividades deixaram de existir. Os engenhos de açúcar não eram tão expressivos quanto aos de farinha e desapareceram nos anos 60. Naquele tempo, a atividade pesqueira era intensa, existiam as “Salgas” (tipo de armazém que estocava e comercializava o pescado). No final da década de 80, as terras que serviram para a agricultura, foram parceladas e transformadas em loteamentos e condomínios. Os acessos para chegar até Florianópolis eram difíceis, a pé, a cavalo ou de carroça. Outra opção era ir até Ratones e seguir de barco pelos meandros do Rio Ratones chegando à baía norte, alcançando o mar até a cidade de Desterro. O “boom” do turismo no balneário de Ingleses trouxe profundas modificações, tanto para a população nativa como para o meio ambiente, transformando a bucólica e pacata vila de pescadores. Os valores, os costumes e as atividades da agricultura e da pesca, foram substituídas pelo turismo, pela especulação imobiliária com enormes prejuízos ao meio ambiente. Este crescimento imobiliário, fez das antigas “vendas e salgas” e das moradias localizadas ao longo da estrada principal, serem substituídas por supermercados, restaurantes, shopping, empreendimentos imobiliários, hotéis, resorts, pousadas, conjuntos habitacionais, loteamentos e serviços diversos. O turismo passou a representar importante fonte de renda à população e trouxe profundas transformações para os moradores nativos e ao ambiente. A partir de 1980, a região de planície do Sitio do Capivari teve significativo aumento com a migração de gaúchos, paranaenses, paulistas e catarinenses do interior. Áreas de dunas foram invadidas pela população de baixa renda, originando grandes bolsões de pobreza. Nos anos 90, o turismo atingiu seu auge com a chegada em massa de turistas estrangeiros, sobretudo argentinos, uruguaios e paraguaios, beneficiando os nativos, com a supervalorização dos terrenos e casas localizados na orla e no acesso principal de entrado do bairro. A especulação imobiliária desencadeou o crescimento desordenado, afetando diretamente a vida e o cotidiano da população local. Hoje a região enfrenta problemas da sazonalidade, da mobilidade urbana, saneamento básico, alto custo de vida, violência, tráfico de drogas, bolsões de pobreza, poluição dos rios, das praias e mangues, ocupações clandestinas, invasões em áreas de preservação ambiental de dunas, das encostas e do cordão praial, entre outros problemas.


Página 14