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Divinópolis 1º de junho de 2012

Caderno 5

Christyam de Lima

EDIÇÃO ESPECIAL CENTENÁRIO DE DIVINÓPOLIS - SEXTA-FEIRA - 1º DE JUNHO DE 2012

Cerco ao crime Os índices de criminalidade cresceram na mesma proporção do desenvolvimento do município. Crimes violentos aumentaram 100% em sete anos. Nos 107 anos da Polícia Militar, a corporação busca estratégias junto à

comunidade para prevenir e solucionar os crimes. *Ainda neste caderno, o professor José Dias Lara enumera algumas famílias que tiveram peso fundamental na história da cidade.

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Historiadores traçam perfil dos crimes na Divinópolis do século XIX

Análise do Rol de Culpados permitiu comprovar aspectos da lei, da violência e da escravidão com outros registros. - Fizemos um estudo do Código Penal da O Arraial do Espírito época, além de reescreSanto no final do sécu- ver todo o livro, devido lo XIX era descrito pe- ao estado do documento los historiadores como original, para trabalharpacato e tranquilo. Po- mos - informa Karine. rém, um estudo de historiadores da Secretaria Sociedade Municipal de Cultura (Semc) descobriu que Os historiadores fizehavia muita violência ram novas descobertas quando o arraial ainda sobre a sociedade da épopertencia à Pitangui. ca a partir da leitura do Através da pesquisa do Rol dos Culpados. Um documento então cha- exemplo é a forma como mado de Rol dos Culpa- as partes eram citadas dos de 1834 até 1863, foi na transcrição do prodescoberto que boa par- cesso. Quando a pessoa te dos crimes era contra era rica ou tinha status, o a vida, com diversos as- crime era o último item a sassinatos. Além de des- ser citado no rol. Apenas cobrir quem foram esses os homens livres tinham condenados, os historia- o nome todo transcrito; dores puderam enten- das mulheres constava der melhor a sociedade apenas o primeiro nome daquela época. seguido por “de tal”, e os O papel original está escravos eram registraaos cuidados do Arquivo dos como “crioulos”. Municipal e indisponível - Para a época, os esao público devido à sua cravos e as mulheres idade. Embora tão anti- não tinham importância, go, o documento permi- por isso eles não tinham tiu identificar os nomes o nome todo anotado dos culpados. Os histo- no livro. Já os mais ricos riadores Karine Mileibe gozavam de influência e e Faber Clayton Barbosa por isso seus crimes eram analisaram as 43 páginas minimizados na hora de do rol e as compararam serem descritos no rol Da Redação

reporta a historiadora. Outro detalhe encontrado no rol é a forma como os escravos eram tratados. Enquanto a maioria dos documentos históricos afirma que no Brasil todos os escravos que eram julgados condenados, o documento aponta exceções. Num crime ocorrido em 1841, quatro escravos foram absolvidos, o que era incomum, porque naquela época os escravos eram punidos com a morte - pena existente no Brasil. Cinco foram condenados por matar Manuel Francisco Ribeiro. - O interessante deste caso é que este mesmo Manoel teve um filho com uma escrava de sua irmã, escrava essa alforriada um mês antes do crime - afirmou.

Arquivo JA

após a morte do pai, recebeu uma herança, casouse e constituiu família. Porém, por causa de uma briga numa casa de jogos, acabou matando uma pessoa e se tornou um temido fora da lei. - Ele cometeu tantos crimes na região, que foi preciso que o imperador Dom Pedro II enviasse um destacamento especial para prendê-lo - conta. Ele foi enviado para a prisão de Fernando de Noronha, onde morreu. No Rol dos Culpados foi encontrada também Karine Mileibe e Faber Clayton com documentos antigos uma sentença em que Querubino teria matado Quando foi preso, seuma pessoa ao meio-dia, gar e trocado tiros com os policiais. ria levado para a Mata do com sol a pino, em noRio, lugar temido pelos vembro de 1848. Sabino escravos fugitivos. Ele fugiu com o companheiro a Mata-feio Um dos mais temidos quem estava acorrentado Outro criminoso criminosos era Sabino, e acabou matando-o com famoso na região era um escravo fugidio que socos e pancadas. - Relatos dizem que ele Os piores Francisco da Costa Mi- montou um quilombo onde era a usina do Gafafugiu por três quilômetros lagre, conhecido como nhoto. Ele arrebanhou oucom o corpo do morto Dentre os criminosos Mata-Feio. Ele matou tros fugitivos e era temido acorrentado a sua perna. descritos no documento, Severino José de Azepor sua força física e cruelCansado de carregar o faralguns eram realmente vedo com um tiro de dade. Ele mandava um do, ele teria se retirado o muito perigosos. O pri- pistola, foi perseguido de seus comandados até a corpo do grilhão mordenmeiro citado pelos his- por anos e morto aos toriadores foi Querubi- pés da escada da Ma- vila para informar que iria do e puxando a perna do no José dos Santos, filho triz de Carmo do Caju- buscar mantimentos e que morto, e chegado ao quido Padre Felício. Ele era ru pela polícia. Ele teria os comerciantes deveriam lombo ainda amarrado à corrente. um homem comum que, se recusado a se entre- deixar tudo separado.


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Baderna portuguesa revoltou moradores do arraial em 1890 Corpos dos portugueses mortos foram carregados e deixados sobre a estrada de ferro Ricardo Welbert Aos cem anos de idade, Divinópolis ainda é uma criança, tendo em vista a idade de vários outros municípios da região. Apesar do pouco tempo de fundação, o arraial do Divino cresce a cada dia, em um ritmo perceptível a olho nu. Quem pensa que o desenvolvimento faz a cidade mais violenta certamente não tomou conhecimento (ainda) de fatos acontecidos em meados de 1890. De acordo com o livro “Da História de Divinópolis”, obra dos autores Francisco e Antônio Azevedo, um episódio de resistência divinopolitana contra portugueses baderneiros deixou um significativo saldo de mortos e feridos. Tudo teria começado quando veio para cá a Estrada de Ferro Oeste de Minas, ramal de São João del Rei, que gerou rebuliço entre os moradores. Com gente vindo de todos os cantos trabalhar na ferrovia, o dinheiro começou a correr e aquecer a economia do arraial. Tudo seguia bem até que foi inaugurada a Estação do Ramal. Logo se percebeu a necessidade de uma oficina que oferecesse abrigo e manutenção às locomotivas estragadas. Em um barracão onde funcionou a Companhia Mineira de Siderurgia, portugueses montaram a oficina. Para tristeza dos moradores, eles eram bagunceiros, mal acostumados e bêbados. Também havia no barracão alguns brasileiros que se tornaram tão baderneiros quanto os

lusos. À noite, em busca de diversão, começavam tiroteios, pancadarias e insultos contra a população. Os policiais, por falta de instrução, tinham medo de entrar na briga e davam no pé para não apanharem. Enquanto nem o Estado nem a Comarca de Itapecerica interviam, a baderna persistia. Os portugueses passaram a abusar de moças inocentes, obrigando suas famílias a fugirem com elas para o mato, onde as mantinham protegidas. O “Capão dos Santos”, onde hoje é o bairro Sidil, era o esconderijo predileto dos portugueses. O líder deles era conhecido como “Banca”, criatura sem piedade. Nesse período, mudouse de Cláudio para cá um vendedor de nome Belmiro, que tinha ponto onde foi a Casa Nova e é hoje o encontro da Avenida 1o de Junho com Rua Itapecerica. Certa vez, apareceu no local um tal “Cabacinha”, oficial de justiça. Belmiro pôs na cabeça do oficial que era preciso reagir aos ataques dos portugueses e organizaram, ali mesmo, uma resistência. O plano Tendo em mãos uma lista com os nomes dos principais alvos entre os adversários, Cabacinha convocou outros homens, tornando-se o chefe da resistência. Belmiro financiou o armamento e ofereceu sua casa como quartel general. Em um domingo, às 14h, já sabendo dos planos de ataque pelos moradores locais, os

portugueses partiram em direção à residência aonde tudo vinha sendo tramado. Como sempre, estavam armados com porretes, facas e garruchas, levando caos às famílias, quebrando tudo o que achavam pelo caminho. Os defensores da terra souberam da aproximação dos inimigos e, tomados pelo medo, estiveram a ponto de fugir. Belmiro distribuiu armas, munições e incentivos aos divinopolitanos, que se posicionaram para o ataque. Ao sinal de “fogo”, dispararam suas armas contra os bandidos e, somente depois, fugiram de medo, restando apenas Paulinho Barra, um cidadão de foice em mãos e coragem no coração. Persistiu e desceu a foice nos portugueses, numa cena ao estilo de “Gladiador”, filme épico dirigido por Ridley Scott. Vendo que seria impossível matar todos os inimigos com uma foice, procurou se esconder atrás de um muro velho e depois, em um pulo de gato, passou por cima dele. Por sorte, nenhum dos porretes que voavam em sua direção o acertou, permitindo que fugisse por um quintal. Os malfeitores viraram sua fúria contra a residência de Belmiro. Consumiram todas as bebidas, carregaram todos os gêneros alimentícios e tudo mais de valor que havia por lá. Antes de irem embora, quebraram o imóvel o quanto puderam. O prejuízo financeiro de Belmiro foi grande. Ainda mais enfurecidos, os portugueses prometeram uma vingança arrasadora. O povo do lugar

teve medo, mente.

evidente-

Reprodu çã

o

Segunda resistência Havia no arraial um homem pobre, mas bastante disciplinado, chamado Antônio Hipólito Dias. Tratador de uma plantação de cereais, era dono de um poço na “Cachoeira do Bracinho”, ligado ao Rio Itapecerica, onde soltava peixes para desovarem. Certa vez, apareceu no lugar um mulato com um anzol. Hipólito explicou que aquele espaço era propriedade dele e o invasor respondeu que o rio não lhe pertencia. O proprietário do terreno agrediu o invasor, que se levantou e foi embora prometendo vingança. E cumpriu. De imediato, o homem procurou os portugueses e os incentivou a irem brigar com Hipólito. Sabendo disso, o cidadão local procurou o amigo e compadre, o coronel João Epifânio, e contou-lhe sobre o risco que corria. O coronel sugeriu que fosse chamado para a elaboração de um plano seu concunhado, Francisco Machado Gontijo, o “Patriarca”. Em um aposento particular, estudaram a gravidade da situação e organizaram os armamentos para uma nova resistência. Machado bancou os armamentos. Espingardas, garruchas, facões e muita munição. De acordo com obra dos autores Francisco e Antônio Azevedo, era sábado à noite e o povo estava escondido no mato quando os portugueses chegaram onde funcionou a Santa Casa de Misericórdia, hoje Lar dos

Livro de irmãos Azevedos conta detalhes da resistência contra portugueses baderneiros Idosos, à procura de São Sebastião Beba, que havia tomado parte na primeira ofensiva. Partiram para a casa de Hipólito, como sempre destruindo tudo. Hipólito convocou apenas familiares para a resistência. Dois filhos e dois genros. O único que não era da família era Belmiro. Cada um dos homens recebeu duas espingardas carregadas – uma na mão e outra encostada, na reserva. Os meninos e as moças deitaram-se no chão para recarregar as armas. Situada onde hoje é o cruzamento da Avenida 1o de Junho com a Rua Paraíba, a casa de Hipólito era isolada. Esperto, ele amarrou bem o portão, pois os portugueses precisariam parar para desamarrá-lo, fazendo com que pudessem ser “cordialmente” recebidos a bala. O tal “Banca” subiu no portão e Hipólito puxou o gatilho. Porém, a espoleta falhou e ele precisou recuar

antes de dar o primeiro tiro. Em seguida, toda a família descarregou as armas nos inimigos. Nem foi preciso recarregar, pois, surpresos com o ataque, os portugueses debandaram aos gritos. Os defensores atiraram tão bem que “Banca”, que havia escalado o portão, jazia ao chão. Estrada de ferro De acordo com os Azevedos, ao amanhecer do outro dia, os corpos dos portugueses mortos foram carregados e deixados sobre a estrada de ferro. Dias depois, um engenheiro da ferrovia chegou ao arraial. Veio saber o que havia acontecido. Ao se inteirar sobre a baderna que os portugueses promoveram, preferiu não tomar medidas contra os divinopolitanos. Hipólito nunca foi chamado a depor e a paz voltou a reinar.

Bate-pau das autoridades coloca ordem com porrete certeiro Mulato enfrentava assaltantes e até policiais arruaceiros no tempo do arraial, de acordo com a Azevedo Da Redação Sem destacamento policial e com as autoridades batendo cabeça para manter a ordem, o mulato Cândido Floriano acabou se tornando bate-pau das autoridades. Com foices e cacetes, Cândido e seus amigos resolviam na paulada os assuntos com os arruaceiros, embriagados, assaltantes e brigões. Em uma de suas brigas, bateu em seis policiais arruaceiros enviados pelo Estado. De acordo com o livro “A História de Divinópolis”, escrito por

Francisco Azevedo e Antônio Azevedo, em 1897 os forasteiros incomodavam o arraial. - As autoridades existentes se viam constantemente em dificuldade para manter a ordem, visto o poder da palavra nada valer diante de uns embriagados tanto pelo álcool como pela perversidade de maus costumes – escreveram os irmãos Azevedo. Nas horas de aperto, as autoridades chamavam Cândido Floriano para impor ordem no arraial. - Mulato trigueiro, esperto, ágil, ótimo porreteiro, de coragem pouco

comum, de confiança das autoridades e das famílias do próprio arraial ficou como batepau das autoridades. Representava seu papel de lutador. Trabalhou sem ordenado, sem remuneração, exclusivamente pelo prazer de ser valente e de ser útil – registraram. Além dos forasteiros, os destacamentos policiais enviados pelo Estado que passaram pelo arraial faziam algazarras e assaltavam as famílias, de acordo com os irmãos Azevedo. - Uma vez, lutou com destacamento de seis

soldados que estavam de passagens pelo arraial, vencendo todos, deixando-os de pernas e braços quebrados pelo seu certeiro porrete que nunca negou – explicam os autores, afirmando que ele foi convidado para fazer parte da força pública e nunca aceitou. Os autores do livro contam que Cândido nunca perdeu uma partida. Paulino Barra, David Carneiro, Olímpio Antônio Moreira e seu irmão Cassimiro Floriano eram seus companheiros para resolver a desordem no arraial.

Arquivo Municipal

Francisco Azevedo destacou que os forasteiros incomodavam o arraial


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Polícia Militar comemora 107 anos de atuação Destacamento Policial foi implantado em 1905, na época não havia viatura e a comunicação era feita por telégrafo

Assessoria/23o BPM

O número de militares que cobrem Divinópolis e mais cinco cidades atualmente é de 569

Gisele Souto A história da Polícia Militar se confunde com o centenário do município. São 107 anos de atuação na cidade, antes mesmo de o nome Divinópolis ser o escolhido, em 1912. Em 1905, foi instalado na então “Vila Henrique Galvão” o primeiro contingente, denominado Destacamento Policial, antecedendo a emancipação política do município, que ocorreria sete anos depois. De 1912 até 1968, com um contingente de apenas 12 policiais comandados por um sargento, a cidade era regida pelo Destacamento Policial, que primeiro pertencia ao Batalhão de Guardas de Belo Horizonte e depois ao 5o Batalhão, também da capital mineira. Naquela época, a cidade tinha cerca de 20 mil habitantes e o policiamento era feito a pé. Ainda em 1968, o Destacamento foi elevado à categoria de Pelotão, sob o comando do então tenente Pedro Magalhães de Faria, que chefiou a Fração Policial até 1970. A partir desse ano, com a patente de capitão, Faria estava à frente da corporação que foi elevada à categoria de Companhia de Policiamento, denominada 3a Companhia, posto ocupado até 1979. Então com 50 mil habitantes, apenas 25 militares cuidavam da segurança do município. Desde aquela época, o trabalho exigia dedicação e desdobramento, tendo em vista que eram 25 municípios sob a jurisdição de Divinópolis, dentre eles, Pimenta Bambuí, Cláudio, Formiga e Itaúna, chegando até Juatuba. Os demais sucessores do já capitão, patente conquistada em 1970, Pedro Magalhães de Faria aturaram até 1991. Hoje, na reserva como coronel, ele acredita que a principal diferença daquela época para cá é a comunicação. Como não

havia telefone, o diálogo com o comando em Belo Horizonte era feito através de telégrafo. Outro desafio, segundo o coronel, era o meio de transporte dos militares. - Usávamos um Jeepe da Polícia Civil, mas as ocorrências também quase não existiam. Para se ter uma ideia, se registrava apenas um homicídio a cada três anos - informa. Companhia Daquele período até os dias atuais, muita coisa mudou. Foram criadas companhias e com elas aumentou muito o número de militares. Em 1991, a Companhia PM, com denominação de 53a Cia. PM, foi elevada à categoria de Companhia Independente, e em 1992, foi criado o 23o Batalhão, cujo primeiro comandante foi o então tenente-coronel Júlio Maria da Silva. A demanda aumentou e, após a década de 90, comandantes, como o tenente-coronel Sebastião Paulino Neto, hoje na reserva, também chefiaram o 23o BPM. Ele ficou no comando de 2003 a 2006. Por fim, em 2010, foi instalada em Divinópolis a 7a Região da Polícia Militar comandada atualmente pelo coronel Eduardo Campos de Paulo. A circunscrição abrange 50 municípios do Centro-Oeste, dentre eles, Divinópolis. À frente do 23o está hoje o tenente-coronel Júlio Teodoro dos Santos. De acordo os atuais comandantes, nesse período houve ampliação de efetivo policial. Atualmente, 569 militares atuam na cidade e em mais cinco municípios subordinados: Carmo do Cajuru, Cláudio, Itaúna, Itatiaiuçu e São Gonçalo do Pará. Houve ainda, segundo eles, aumento da frota de viaturas.

de Divinópolis possui planejamento estratégico com ações e operações diversificadas, como o Programa de Resistência às Drogas - Proerd -, que já mobilizou 40 mil crianças, atuando na prevenção aos males causados pelas drogas. O Projeto Arte e Vida, desenvolvido pela Banda de Música do 23o BPM, já atuou junto a 330 crianças, buscando apoiá-las em situação de risco social através do aprendizado de música. Outra iniciativa em andamento, segundo as informações, é a Rede de Vizinhos Protegidos, que cobre 26 bairros. O Grupo Especializado em Prevenção de Áreas de Risco - Gepar - é apontado pelos chefes do policiamento como essencial dentro da corporação, já que o trabalho consiste em ações de promoção social, de polícia preventiva e de reação qualificada. - Essas são apenas parte da nossa investida no combate ao crime. Procuramos sempre aprimorar e criar estratégias no trabalho preventivo e repressivo. Outras ações desempenhadas pelo militares da Base Comunitária Móvel, da Ciclopatrulha e do Grupo Especial para Prevenção Motorizada Ostensiva Rápida (Gepmor), dentre outros, precisam ser destacadas - fala o comandante da 7a Região, Eduardo Campos de Paulo. Descentralização

Aliada aos projetos, ações e operações mencionados, houve a descentralização das companhias operacionais - a 53a Cia. se situa na rua Pernambuco, no Centro; a 142a está no bairro Interlagos; e a 240a Cia. Tático Móvel fica na avenida JK, no bairro Santa Clara, na região dos Shoppings, onde também funciona o comando reEstratégia gional. A descentralização Ainda de acordo com foi uma das estratégias informações dos dois co- adotadas pelo atual comandos, a Polícia Militar mando regional para po-

tencializar e aproximar a PM da população, em razão do crescimento municipal. A frota de viaturas foi terceirizada, facilitando e agilizando, segundo os comandantes, a manutenção e a substituição dos veículos danificados. Acasp A participação da comunidade nos assuntos de segurança pública foi possível através da Associação Comunitária para

Assuntos de Segurança Pública - Acasp, criada por através da mobilização comunitária feita pela Polícia Militar. Seu objetivo principal é atuar na prevenção, considerada a melhor ferramenta para se evitar violência. A Acasp se baseia na determinação da Constituição de que o cidadão também é responsável pela segurança pública. - O relacionamento da PM com os poderes Executivo e Legislativo tem sido também fator

preponderante para o fortalecimento das estratégias de segurança desenvolvidas em Divinópolis. Os desafios da segurança pública, na cidade, diante do aumento da criminalidade violenta em todo o Estado, exigem, cada vez mais, estratégias arrojadas e eficazes, por parte do comando, o que demanda o empenho dos militares para se promover a tão almejada paz social - finaliza o coronel Eduardo Campos de Paulo. Arquivo pessoal

O coronel Pedro Magalhães de Faria comandou o policiamento da cidade de 1968 a 1979


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Crimes violentos crescem 100% em sete anos Estatística comprova aumento; 23 pessoas foram assassinadas neste ano; tráfico de drogas é a principal causa Gisele Souto Três. É exatamente este o número que falta para se igualar a quantidade de homicídios registrados em Divinópolis até o último dia 28 em comparação com 2011, que contabilizou 26. O quinto mês de 2012 já soma 23 assassinatos, três a mais do que o total registrado em 2010, e esta quantidade foi ultrapassada no dia 7 de abril, Sábado de Aleluia, quando mais duas pessoas perderam a vida para o crime. O pior é que não parou por aí. Depois de uma trégua de praticamente um mês, no dia 5 do mês passado, um homem de 60 anos completou a estatística, somando 21. Já no dia 12, um duplo homicídio fechou o número em 23. A morte de um idoso, cometida de forma covarde, por espancamento, confirma que os executores não escolhem dia, hora, local e muito menos idade. A quantidade de homicídios deste ano já representa 88,4% do ano passado inteiro. Os criminosos vêm desafiando as autoridades e o resultado é o crescimento incontrolável da violência. Dados da Secretaria de Estado de Defesa Social - Seds - mostram a crescente evolução da violência no município. A estatística aponta que Divinópolis registrou aumento de crimes violentos no período 20102011. Considerando grupos de 100 mil habitantes, a taxa desta modalidade de crime passou de 191,06 em 2010 para 242,64 no ano passado. Em 2010, foram 418 ocorrências desta natureza, contra 537 em 2011. Mortes e roubo Quando o assunto são os crimes consumados, os números também são absolutos. Segundo o levantamento da Seds, para cada grupo de 100 mil habitantes, os aumentos variaram de 9,14 para 11,75. De 2004 para 2011, a taxa também cresceu, variando de 6,49 para 11,75. Foram 13 casos em 2004 e 26 no ano passado, aumento de 100%. A taxa de crimes violentos contra o patrimônio também se elevou. Segundo os números, a cada grupo de 100 mil habitantes, subiu de 174,15 para 220,05 no período 20102011. Foram 381 roubos a mão armada em 2010 contra 487 em 2011. Em oito anos A quantidade de crimes praticados cresceu com o desenvolvimento da cidade. Em 2004, por exemplo, quando o município tinha apro-

ximadamente 195 mil habitantes, foram 13 assassinatos, 10 a menos do que os cinco primeiros meses deste ano, em que a estimativa é de que Divinópolis já tenha chegado aos seus 230 mil moradores. Em 2005, foram apenas oito homicídios e já em 2007, chegava a 18, mais que o dobro. O crescimento da cidade, principalmente com a chegada de forasteiros em busca de trabalho, também é apontado como um dos responsáveis pela crescente onda de crimes pelo ex-comandante do 23º Batalhão da Polícia Militar, Sebastião Paulino Neto. O oficial da reserva comandou o policiamento da cidade e de mais cinco municípios de 2003 até fevereiro de 2006 e vê com preocupação as dificuldades das autoridades da segurança, hoje, devido às brechas nas leis. - Para o bandido, o crime compensa porque ele tem certeza de que não será punido imediatamente, ou, às vezes, nunca será. A confiança na impunidade é maior do que qualquer receio de se praticar um delito - completa.

Christyam de Lima

A PM dispõe de nomes de suspeitos que seriam cabeças dos grupos rivais e estes já foram apresentados aos juízes e promotores criminais, além da Polícia Civil. - Em alguns pontos problemáticos, com alto número de registros de ocorrências, como o Alto São João de Deus, temos a atuação do Gepar, que desenvolve inúmeras ações sociais, sempre com o envolvimento e a participação da comunidade - conta. Prevenção

Além do trabalho repressivo, a aposta da Polícia Militar é nas ações preventivas. Ainda de acordo com o tenentecoronel Júlio Teodoro, o trabalho vem sendo desenvolvido com base nas doutrinas de Polícia Comunitária e Direitos Humanos. Estes princípios, segundo ele, exigem que as investidas sejam desenvolvidas para a comunidade e com a comunidade. Um exemplo apontado pelo comandante é criação, em 2009, da primeira Rede de Vizinhos Protegidos, e hoje já são 27 redes instaladas em bairros distintos. Ele cita Causas e leis ainda a implantação da Rede de Postos ProtegiO tráfico de drogas dos e a Rede dos Shopé tido pelas autorida- pings Protegidos, todas, des de segurança como em sua análise, no intuio principal motivador to de aumentar os cuidos crimes, sobretu- dados visando prevenir do os violentos. Das 23 o crime, seja ele violento pessoas executadas na ou não. Quando se tracidade até agora, 19 ti- ta de homicídios, Júlio nham alguma ligação Teodoro cita o Grupo com entorpecentes. Po- Especializado em Porém, outros fatores vêm liciamento em Área de ganhando destaque no Risco, a Patrulha Escodesenrolar das apura- lar, a Equipe da Base ções. É o que destaca o Comunitária Móvel e comandante do 23º Ba- também o Programa talhão PM, tenente-co- Educacional de Resisronel Júlio Teodoro dos tência a Drogas - Proerd. Santos. Na opinião dele, - No início deste ano, as leis atuais privam a a Unidade criou a Paliberdade dos autores trulha de Prevenção a dos crimes somente nos Homicídios - PPH -, que casos mais extremos. A trabalha com informaconsequência, segundo ções repassadas pela coele, é que os autores não munidade, bem como, ficam presos, aumen- acompanhando sistematando de forma assus- ticamente aos registros tadora a reincidência, de homicídios tentados crescendo também o e ameaças. A integração número de autores mo- e envolvimento com os tivados a cometer novos demais órgãos do Siscrimes devido à sensa- tema de Defesa Social ção de impunidade. também tem sido enfatizada em todas as ações Disputa e suspeitos da Polícia Militar – destaca. Os assassinatos registrados até o momento Prioridade ocorreram em diferentes pontos da cidade, o As ações sociais tamque demonstra, segun- bém fazem parte do trado as polícias, que existe balho preventivo desendisputa pelos pontos de volvido pela PM, e os tráfico, pois o criminoso locais conhecidos como vê sua prática como uma “Zona Quente de Crimiatividade comercial. nalidade” são prioriza- O criminoso precisa dos. obter lucros e para isso - Citamos os projelançará mão do que for tos Arte e Vida e Novo preciso. Para ele, não Rumo, a constante pretem regras, não tem lei. sença da Banda de MúEle quer vender a dro- sica, dentre outros - figa e tentará sempre au- naliza o comandante mentar a “sua atividade Júlio Teodoro. comercial”- enfatiza o A delegada regional comandante Júlio Teo- da Polícia Civil, Apadoro. recida Dutra Quadros,

O Gepar da PM atua de forma preventiva na comunidade do Alto São João de Deus confirma que a principal causa de quase todos os homicídios ocorridos neste ano é o tráfico de drogas. Ela revela que uma equipe composta pelo delegado de Crimes Contra a Vida e cinco investigadores trabalha incansavelmente para identificar os criminosos. - São investigações feitas de forma minuciosa, em operações bem elaboradas, que levaram à identificação de quatro pessoas na primeira quinzena do mês passado: um maior de idade e três menores, suspeitos de participarem de dois homicídios que estão entre os 21 cometidos neste ano - explica. Município Uma força-tarefa composta pelo Ministério Público, polícias Militar e Civil e Prefeitura realizou no ano passado

a Operação Candidés. O objetivo foi a retirada de dezenas de usuários de drogas que frequentavam ou viviam no Carrapateiro. A ação foi elogiada, já que o espaço carecia de medidas similares, porém não resolveu o problema, porque houve migração para outros pontos da cidade. Para a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social - SMDS -, a situação melhorou no sentido de que indicou caminhos para o município fazer ações em outras frentes e articulou várias instituições em torno do problema. O secretário da pasta, Paulo dos Prazeres, explica que foi a primeira ação da Secretaria sobre drogas e direitos humanos, potencializando a discussão organizada sobre o tema na cidade. Ele revela que poucas pessoas continuam nas clínicas de recuperação, mas

que todas foram cadastradas nos diversos serviços do município, inclusive nas forças de segurança. O secretário explica ainda que atualmente a Secretaria faz acompanhamento em centros de saúde, no Sersam e na Clínica São Bento Menni e que atendimentos de urgência e emergência são realizados no Pronto-Socorro Regional. Segundo ele, lá são dadas orientações quanto a encaminhamentos e negociação de vagas para comunidades terapêuticas. - Estamos trabalhando na instalação do Centro de Atenção Psicossocial - Álcool e Droga (CAPS-Ad), na articulação e no auxílio de organização das comunidades terapêuticas, nas intervenções preventivas e na sensibilização da cidade para o problema - completa.

Análise da notícia A criminalidade é um fenômeno que se caracteriza pela frequência de crimes em determinado contexto social e num momento histórico específico. E o crime nada mais é do que a violação das leis morais, religiosas ou civis. Podemos considerá-lo uma patologia social, porque acontece em razão de uma disfunção, ou seja, por falhas na função socializadora das instituições. O crime constitui um delito quando é uma violação culpável da lei penal, portanto, uma transgressão imputável tanto dolosa (intencional) quanto culposa (não intencional). O crime que aqui citamos são os que se apresentam como violação culpável de natureza dolosa. São, portanto, os mais preocupantes, pela gravidade e pela intencionalidade e que, infelizmente, são os que têm sido frequentes em Divinópolis. É do conhecimento de todas as autoridades e profissionais da segurança pública uma causa circunstancial que vem motivando os referidos crimes: o tráfico internacional de drogas, com ramificações no município. Os envolvidos nesses crimes são bandidos com nível elevado de periculosidade, e reprimi-los requer aperfeiçoamento e inovação do sistema de repressão e combate ao crime organizado. Eu penso que investimentos no siste-

ma prisional; em capacitação física, psicológica e estratégica de recursos humanos; em equipamentos; valorização e exigência da qualidade dos profissionais da segurança pública e outras mais, poderá elevar a eficiência do sistema de repressão. Ajudaria muito a imprensa nacional não tratar com notoriedade criminosos reincidentes, desmotivando assim a criação de mitos em torno desses personagens. Há de se pensar ainda sobre a maioridade penal para não incentivar o uso de adolescentes na prática dos crimes. Não vejo solução a curto prazo, mas é importante que sejam já tomadas algumas providências: no mínimo, triplicar os investimentos em educação; combate ostensivo a toda corrupção, com punição de todos os envolvidos; desenvolvimento econômico com distribuição de renda; criação de empregos com salários dignos e não simplesmente exploração do trabalho a baixo custo; reduzir os salários elevados de categorias privilegiadas. Em relação aos políticos brasileiros, é importante ter exigência de qualificação científica e técnica ao lado do poder de atrair votos; combate ostensivo à corrupção e exigência de idoneidade ética como condição para a ocupação de cargos. Professor Márcio Zacarias Lara


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Famílias Divinopolitanas II José Dias Lara De início claudicante à perspectiva de metrópole. Assim é Divinópolis em seu centenário. Nesse transcurso glorioso, vale lembrar as famílias que deram sua contribuição inestimável, ao longo da história, para a grandeza sempre maior daquele pequeno burgo que hoje atinge os lauréis de grande cidade. Quando a direção do Agora me propôs ressaltar a ação de tradicionais famílias divinopolitanas, não titubeei, aceitei a incumbência, pois de pronto vi que nelas estão, por sem dú-

vida, os pilares de toda a grandeza de nossa terra. Lembro, por primeiro, a Família X. Gontijo. Foi o seu líder, Pedro Xavier Gontijo, quem levantou a bandeira da emancipação. O Arraial do Espírito Santo do Itapecerica dormia tranquilo, embalado pelo marulhar sonoro do Itapecerica. Pedro X. Gontijo, que para aqui voltava, nos idos de 1911, empunhando seu diploma, após brilhante curso na Faculdade de Farmácia de Ouro Preto, sabia da possibilidade de o distrito da cidade de Itapecerica pleitear sua emancipação. Convocou os maiorais do arraial para

uma reunião, em que se discutiria a questão. Não compareceu ninguém! Mas o Pedro não desistiu. Lembrou-se de um amigo que poderia ajudá-lo. E pediu ajuda. Numa tarde, aqui chegava, pelo trem do sertão, o Padre Matias Lobato, e foram os dois à casa do Patriarca Francisco Machado Gontijo e conseguiram convencêlo a abraçar a ideia. O Patriarca marcou uma reunião e compareceram todos os convocados. Decidiu-se formar uma comissão, constituída do Patriarca Francisco Machado Gontijo, X. Gontijo e Padre Matias Lobato, que teria a incumbência de ir ao Pre-

sidente do Estado, Júlio Bueno Brandão, pleitear a emancipação. A tarefa não foi fácil. Havia gente importante se posicionando contra, por interesses políticos, como Lamounier Godofredo, que era deputado federal por Itapecerica. Mas a Comissão saiu vitoriosa e foi criado o Município pela Lei Estadual N.556, de 30 de agosto de 1911, com território desmembrado de Itapecerica. E Pedro X. Gontijo, que afirmou, peremptoriamente, ser “Jesus, o Grande Cidadão de Divinópolis”, ficou satisfeito quando, a 1º de Junho de 1912, no sobradinho da Avenida

Independência, esquina c/ Rua Itapecerica, ao meio-dia, era empossada a primeira Câmara Municipal eleita, que se compunha de Antônio Olímpio de Morais, presidente; Adolfo Machado Gontijo, vice-presidente; José Nogueira Guimarães, secretário; e os demais membros: Manoel Antônio de Almeida, Otávio Machado Gontijo, João Severino de Azevedo e José Viegas. Concretizava-se a Emancipação PolíticoAdministrativa da cidade que o Pedro muito amou. Pedro X. Gontijo deixou uma família maravilhosa. De seu casamento com Maria José

Fotos: Arquivo Municipal

Pires, a querida Dona Zezé, nasceram os filhos Hindemburg Xavier Gontijo, o Bubu, Pedro Kropotiquini Gontijo, o Pedrinho, e Ascânio Gontijo, com bons trabalhos em favor do progresso desta terra.

FAMÍLIA DO PATRIARCA Francisco Machado Gontijo nasceu em Divinópolis, quando ainda Arraial do Espírito Santo do Itapecerica. O título nobiliárquico que lhe atribuíram tem sua explicação nos méritos pessoais de quem teve ação decisiva sobre os homens e os fatos da Terra do Divino. Nada se fazia sem o parecer abalizado do Patriarca, a sua palavra era a “Fala do Trono” de todo o arraial. Mas, como todos os grandes, ele começou de baixo. Era caixeiro de Jerônimo Dias Pereira, negociante de muitas posses. Dormia no próprio estabelecimento, improvisando uma cama sobre o balcão. Levava uma vida bem modesta. Um episódio novo quebrou a rotina do

quotidiano no Arraial: a Guerra do Paraguai. O Império, surpreendido pela inesperada ação bélica de Solano Lopez, viu-se na contingência de determinar que se formassem batalhões de civis para reforçar as fileiras de nosso exército. Iniciou-se, então, por toda parte, um movimento de ensaio militar dos homens válidos. O Arraial do Espírito Santo não quis ficar atrás, pelo arrojo e espírito cívico de Domingos Francisco Gontijo, Capitão da Guarda Nacional, na época, Juiz de Paz. E começou a preparação da turma, a começar por seguidas instruções de ordem-unida. Do contingente fazia parte o jovem Francisco Machado Gontijo. Jerônimo, receoso de

perder o eficiente funcionário, estava preocupado. Uma tarde, pensativo, foi inopinadamente abordado pela esposa que propôs: “Que tal o casamento da Nhana com o Chico?” Jerônimo assustou-se por instantes, mas logo entendeu a extensão da proposta. É que, àquele tempo, o casamento isentava o moço do serviço militar. E ele de pronto: “Fica bom”, com o semblante já desanuviado. E Fabiana Guimarães Pereira, a esposa de Jerônimo, foi logo procurar o Francisco e lhe propôs: “Chico, quer casar com a Nhana?” Francisco levou um choque ante o inesperado da proposta: “Quem sou eu?! Os meus pés nunca viram sapatos e eu casar com a filha do

patrão?...” Mas o casamento com Ana Leopoldina de Jesus, a Nhana, foi realizado e a vida do Chico transmudou, dando-lhe a estabilidade necessária para se tornar uma das mais respeitáveis figuras da história de Divinópolis. Desse primeiro casaento, teve sete filhos e mais oito, num segundo casamento. Faço ligeira menção a alguns de seus quinze filhos, de primeiras e segundas núpcias. Com Ana Leopoldina, Aurora Machado, Olímpia Gontijo, que era mãe de Rubens Gontijo, Francisco Machado Filho, que exerceu a função de tabelião da cidade, o qual se casou com a prima Rosa Machado Gontijo, tendo os filhos Lauro Macha-

do, que herdou parte do cartório, Fábio Machado e Cícero Machado, dentre outros; Adolfo Machado Gontijo, que se casou com Castorina, filha da segunda esposa do Patriarca, Donatila Eudóxia. Das segundas núpcias com Donatila, nasceram Osvaldo Machado Gontijo, que se casou com Maria de Lourdes Teixeira, diretora do Grupo Escolar Padre Matias Lobato, de que nasceram vários filhos, dentre os quais, o advogado Daniel Teixeira Machado e Galileu Teixeira Machado, prefeito de Divinópolis em três gestões; Totonho Machado, muito ligado à história do Divinópolis Clube; João Machado Primo, com seus dezessete filhos; Bernardino

Machado, hábil mergulhador que arrancou muito divinopolitano do fundo das águas do Itapecerica; Lincoln Machado, famoso por seu moinho de fubá; e a Ana do Minguinho, a última dos filhos a falecer dessa grande família.

FAMÍLIA JOVELINO RABELO Jovelino Rabelo aqui chegou em 1915, para ficar de vez e tornar-se num dos maiores propulsores do progresso de Divinópolis. Logo em 1916, casou-se com Dolores Aguiar, uma jovem de quatorze anos, e desse casamento nasceram cinco filhos, sendo que um deles, Reny Rabelo, elegeu-se deputado estadual. A ação de Jovelino iniciou-se em 1920, com a primeira fundição da Zona Oeste e uma oficina mecânica. Pouco antes adquirira a serraria de Castro Papa & Cia., no extremo da avenida Getúlio Vargas, na época, avenida Ipiranga, daí nascendo a firma que firmou conceito em todo o estado, J. Rabello & Cia. Eleito vereador, conseguiu com o Presidente da República Artur Bernardes um empréstimo para a prefeitura municipal no valor de oitenta contos de réis para

abastecer de água a nossa cidade. E logo após conseguiu com o Padre José Alexandre, vigário de Cajuru, a cessão da cachoeira do Rio Pará para instalação da primeira usina elétrica, sob a exigência de que ela pudesse servir também a Carmo do Cajuru. Associou-se, em 1938, a Joaquim Afonso Rodrigues, fazendeiro em Carmo da Mata, Licínio Notini e Amâncio Correa, para fundação da Cia. Fiação e Tecelagem Divinópolis que, dois anos depois, iniciava a sua produção. Nesse mesmo ano, fundava a Cia. Mineira de Siderurgia, com o industrial Frank Jorge L. Davis, a primeira usina siderúrgica a ser construída na região do oeste mineiro. Era o início da indústria de ferro gusa, contrariando a opinião de técnicos da Escola de Metalurgia de Ouro Preto que a consideravam inviável para a região.

Antes que essa entrasse em funcionamento, já se iniciara, em 1943, por sua iniciativa, a Cia. Industrial e Açucareira de Lagoa da Prata. Com tantos empreendimentos só lhe cabia o epíteto que lhe atribuíram de “Capitão da Indústria”, mas outras iniciativas tinha pela frente. Com seu filho Rody Rabelo, fundou, em 1945, a Cia. Melhoramentos de Divinópolis e, em 1954, com o Dr. Antônio Gonçalves de Matos e José Guimarães, a Cia. Laminação e Cimento Portland Pains, quando atingiu o resultado expressivo de levantar, em um mês, cem milhões de cruzeiros agrupados em cerca de três mil e quinhentos acionistas. Era o prestígio do Coronel Jovelino Rabelo! Essa companhia seria, mais tarde, dividida em dois grupos: Cia. Cimento Portland Pains, na cidade de Arcos, e Siderúrgica Pains S.A., em

Divinópolis, com produção de aço em lingotes, ferro redondo para construção e trefilaria. Como prefeito de Divinópolis, no período de 1947 a 1950, teve boa administração. Com participação ativa na fundação da Escola Normal Dr. Mário Casasanta, aceitou a sugestão de Frei Hilário Verhey que se transferisse sua direção para as Irmãs de Nossa Senhora do Sagrado Coração, com a firma J.Rabello financiando a construção do prédio da Rua Rio de Janeiro. Com a colaboração de Puntel Sobrinho, fundou a Rádio Cultura de Divinópolis. O terreno para a construção do campo de aviação foi por ele doado. Também sua obra, o primeiro Jardim de Infância da cidade. Embora o seu grau de escolaridade não tenha ultrapassado as primeiras letras, sem-

pre demonstrou grande preocupação em dar aos jovens divinopolitanos oportunidade de estudar. Foi assim, uma vez mais, ao conseguir a transferência do Ginásio São Geraldo, de Pará de Minas para Divinópolis. Em casa de Deolindo de Sousa, em encontro com o professor Martin Cyprien, tomavam-se as providências para a efetivação da medida, quando Jovelino, com a proficiência habitual,

enfatizou que as moças, com a Escola Normal, podiam sonhar com um futuro, enquanto os rapazes, até então, só tinham futuro nas oficinas da R.M.V. Foi Jovelino também o grande responsável pela criação do Ginásio Estadual, efetivada no Governo de Clóvis Salgado, que por muitos anos funcionou, sem ônus de aluguel, em prédio de sua propriedade.


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Licínio Notini era descendente de imigrantes italianos da Província de Luca que se estabeleceram em Carmo da Mata, onde ele nasceu. Ali fez os estudos primários e, em Oliveira, os secundários. Mas sua vocação era o comércio e não deu sequência aos estudos. Com ânsias de progredir na vida, buscou outros centros maiores e foi dedicar-se às atividades de exportação nas praças do Rio de Janeiro e São Paulo. Influenciado pelo mano

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João Notini, comerciante de muita expressão em Divinópolis, transferiu-se, em 1923, para nossa cidade. À época, encontrava-se à venda a usina hidrelétrica da Cia.Força e Luz Oeste de Minas, que fornecia energia à cidade. Era um negócio, de princípio, sem interessados, por se tratar de serviço público de concessão, sujeito a normas governamentais. O tino administrativo de Cínico, como era chamado, viu boas perspectivas na obra e

FAMÍLIA NOTINI

a adquiriu, assumindo a sua administração de imediato. Imprimiu-lhe competente e criteriosa orientação, o que redundou na constante expansão da empresa. Durante trinta e seis anos manteve, de forma normal, o suprimento de energia elétrica para a cidade. O extraordinário surto industrial de Divinópolis, com o crescente consumo de energia, levou Cínico a tomar uma decisão criteriosa, cedendo à evidência dos fatos, quando a demanda já

obrigava a sua empresa a adquirir quantidade de energia duas vezes superior à da capacidade instalada de sua usina. E negociou a transferência da concessão dos serviços de distribuição com a Cemig – Centrais Elétricas de Minas Gerais. Com o concurso valioso de um grupo de pessoas progressistas, tendo à frente Jovelino Rabelo, e mais Joaquim Afonso Rodrigues, Miguel Gontijo da Fonseca, Antônio Gonçalves

de Matos, Francisco Hilário Ribeiro e Amâncio Correa, fundou a Cia. Fiação e Tecelagem Divinópolis, com uma bem equipada fábrica de tecidos. Em 1970, dotou a cidade de uma obra de muita importância, a Clínica de Repouso São Lucas, nosocômio que prestou valioso serviço no tratamento psiquiátrico. De seu casamento com Maria José Botelho Notini, senhora de peregrinas virtudes, nasceram oito filhos, um dos quais,

Fábio Botelho Notini, foi prefeito de Divinópolis em duas eficientes gestões e igualmente, em mais de uma gestão, deputado estadual.

FAMÍLIA MESQUITA MOURÃO José Mendes Mourão e Maria Mesquita Mourão são os pais de Alvimar Mourão, o grande líder político da União Democrática Nacional – UDN, em Divinópolis, em oposição ao Partido Social Democrático – PSD, numa época de partidos políticos bem definidos. Seu tio, Lucas Mesquita, foi casado com Iracema Pereira Mesquita, pais de minha esposa, Neusa Mesquita Lara, bem como de Antônio Mesquita, casado com Ana Lúcia da Silva Mesquita, o qual se aposentou como gerente de agência do Banco do

Sebastião foi o líder da família Gomes Guimarães. Ele veio de Padilhas, município de Nova Serrana, onde nasceu em 16 de setembro de 1917, filho de Zacarias Fernandes Guimarães e Maria das Dores Gomes Guimarães. Formado pela Faculdade de Medicina da UFMG, de forma brilhante, radicou-se em Divinópolis em 1941, para o exercício de sua profissão. De pronto conquistou a confiança e o respeito de todo o povo divinopolitano, que passou a lhe devotar profunda veneração por sua extrema capacidade. Era dos que punham em prática os princípios de Hipócra-

Pedro Magalhães de Faria João Martins Lara e Joaquim Martins Lara aqui chegaram, ainda garotos, acompanhando os pais, José Martins Lara, que fora para aqui removido na ferrovia, e sua esposa Maria Umbelina Lara, vindos de Tiradentes. Cedo, os dois jovens começaram também a trabalhar na Estrada de Ferro Oeste de Minas, única oportunidade de trabalho que havia no então Arraial do Espírito Santo do Itapecerica. Vivenciaram todo o período de transição, que culminou com a emancipação político-administriva de Divinópolis E com o passar do tempo, tiveram ambos participação ativa na

Brasil, e Maria de Lourdes Mesquita Sousa, que foi casada com Sebastião de Sousa. Alvimar Mourão ocupou vários cargos na administração municipal e foi eleito, com expressiva votação, deputado estadual. Na vida particular, comerciante conceituado. Lucas Mesquita foi secretário da prefeitura de Divinópolis, por vários anos, numa época em que toda a responsabilidade na solução dos problemas administrativos municipais recaía no auxiliar imediato do prefeito. Essa foi a sua

função, exercida sempre com muita competência. Mais tarde trabalhou como comerciante. Iracema Pereira Mesquita era filha do farmacêutico Antônio Máximo Pereira Júnior, o Sinhô Máximo, de grande competência, autor de várias fórmulas de medicamentos, dentre as quais de vermífugos, fórmulas repassadas a laboratórios conceituados. Alvimar Mourão e sua esposa Nina Lucchesi Mourão constituíram uma bela família. Dentre os filhos, Geraldo Mourão, que se

integrou no comércio, Anamaria Mourão, que ilustra as páginas do Agora com suas crônicas bem elaboradas; Consuelo Mourão destaca-se como cultora das artes plásticas, Marli Mourão, casada com Dr. Hélio Coelho de Sousa, e Marlene Mourão, casada com o Dr. Gabriel Mendes. De José Mesquita Mourão e sua esposa Eremita Rocha Mourão é filho Edgar Mourão, que se esmera na excelência de fotos artísticas. Arízio Mourão e Lilica são os pais de Antônio Olivier Mourão, o

artista da pintura Olivier, que hoje brilha no cenário europeu como celebridade, com residência em Londres. O Olivier foi nosso aluno no Ginásio Estadual de Divinópolis. Geraldo de Magalhães Pontes e Leonice Mesquita Mourão Pontes são os pais de uma plêiade de artistas da música, como Túlio Mourão, hoje residindo em Belo Horizonte, onde também integra a diretoria do Clube da Esquina; Aulus Mourão é músico em Divinópolis e Marcus Mourão exerce a mesma profissão nos Estados Unidos da América. Das filhas, a

Clarice, grande musicista, e Meibe que reside em Belo Horizonte e é hoje, segundo palavras de seu irmão Túlio, o esteio da família, na falta de seus pais.

FAMÍLIA SEBASTIÃO GOMES GUIMARÃES

tes de forma cabal, como verdadeiro apóstolo da arte de curar, que jamais via em sua profissão um veículo de enriquecimento, mas um meio eficaz de ser útil ao ser humano. O seu zelo e dedicação como médico e seu desprendimento como profissional o fizeram benquisto à população, o que lhe valeu ser eleito prefeito de Divinópolis, cargo que exerceu em três mandatos, sempre deixando como principal característica a honradez em relação aos bens e aos interesses da coisa pública. Como médico e como cidadão é que mais ressaltam os méritos de sua permanente atuação em

vida da cidade. João Lara iniciou-se como aprendiz e chegou ao ponto máximo da carreira, auxiliar administrativo, passando a administrar as oficinas da Rede Mineira de Viação, já com esse designativo, na época, as maiores oficinas ferroviárias da América Latina, dividindo as atribuições com Pedro Silva e o Engenheiro Lucas Lopes, que depois foi Ministro da Viação. No campo social, João Martins Lara participou de várias associações de caráter beneficente, nelas atuando como dirigente, as mais das vezes. Integrou a “Liga da Instrução”, que cuidou da fundação da Escola Normal Dr. Mário Casasanta, a primeira da cidade, e a comissão que trabalhou para a constru-

Divinópolis. Seu consultório modesto, sem a sofisticação dos grandes aparatos, estava sempre repleto. E todos dali saíam com a tranquilidade de um diagnóstico perfeito, e os mais carentes, com a receita e os remédios ou o dinheiro para sua aquisição, doados pela magnanimidade de um grande coração. A vida de Dr. Sebastião tinha seus momentos de fatos por vezes hilariantes. Certa vez, na época em que atendia no velho Hospital N.S.Aparecida, deu-se um fato que provocou espanto e, logo após, gostosa hilaridade. Aquele hospital, o único na época, passava por

uma situação econômica muito difícil e a Irmã Diretora suspendeu todo o atendimento mais oneroso, como intervenções cirúrgicas de pessoas carentes. O Dr. Sebastião, ao chegar para os exames de rotina, constatou que determinado paciente, pessoa muito pobre, necessitava urgentemente de uma cirurgia. O nosso médico chamou o enfermeiro Sebastião e lhe recomendou que no dia imediato chegasse bem cedo que iria operar o paciente. O enfermeiro, apreensivo, lembrou-lhe que as operações estavam suspensas pela administração do hospital, e apontou as razões que o Dr. Sebastião bem co-

FAMÍLIA LARA

ção do Santuário de Santo Antônio. Joaquim Lara foi para o Setor de Tração da ferrovia e se tornou mais tarde o maquinista mais famoso da história de Divinópolis. Seu Quincas, como era chamado, trabalhou trinta e seis anos como maquinista, função para a qual ele mesmo se dizia talhado. E gostava de rememorar fatos pitorescos que ocorriam em seu trabalho, relatando-os com riqueza de detalhes. Gabava-se de haver sido escolhido para rebocar o Carro da Administração em que o Chefe da Locomoção, setor a que estava submetido, foi fazer a sua viagem de núpcias. Depois de aposentado, para quebrar certamente a monotonia da nova vida,

Joaquim Lara abriu uma vendinha, que o “fiado”, fruto de um coração generoso, levou logo à falência. Abriu, em seguida, uma padaria, com o mesmo destino. Por último, instalou no fundo do quintal de sua casa, local onde hoje se situa a agência do Bradesco, uma torrefação de café, também de vida efêmera. Desistiu de suas incursões nesse campo e foi dedicar-se à assistência aos pobres, chegando à presidência do Conselho Vicentino, cargo em que construiu, com seus pares, a Vila Vicentina que permanece no bairro Niterói. Com uma vida longa, chegou aos 102 anos bem vividos, ainda em plena lucidez. Tanto Joaquim Martins Lara, casado com Ma-

nhecia, mas ainda assim insistiu em sua decisão. No dia seguinte, quando foram cuidar do tal doente e mandaram que se levantasse para lhe arrumarem a cama, ele respondeu, entre gemidos, que estava operado, pedindo que olhassem o bilhete que o médico deixara debaixo do travesseiro. E lá estava o bilhete: ”Operei este doente por necessidade absoluta. (Assinado) Dr. Malaquias.” Foi aquele alvoroço de imediato, julgando a irmã que o grande amigo do hospital, o Dr. Malaquias, houvesse voltado ao mundo para operar aquele coitado!... Dentre os onze irmãos

do Dr. Sebastião, o Dr. Gumercindo Guimarães, conceituado advogado e escritor, Gumercinda, casada com meu primo Didico Lara, Gil Gomes Guimarães, que dirigia uma farmácia, Dra. Ivone Guimarães, Vicente que foi nosso aluno no Ginásio São Geraldo.

ria José Lara, como João Martins Lara, casado com Abigail Dias Lara, filha do Professor Chico Dias, constituíram, cada qual, família numerosa. Do primeiro, dentre outros, o jornalista José Lara, editor de revista, no Rio de Janeiro, assim como Dom Lélis Lara, Bispo Emérito de Itabira/Coronel Fabriciano, doutor em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Filhos de João Lara, dentre outros, Geraldo Dias Lara, diretor da Fábrica da Souza Cruz, em Belo Horizonte, dela se afastando quando transferida para Uberlândia, e o Professor José Dias Lara, fundador, com o Dr. Carlos Altivo, do primeiro curso superior de nossa cidade, a Faculda-

de de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis. O Professor Lara é membro da Academia Divinopolitana de Letras, autor de vários livros, inclusive um dicionário especializado, que lhe deu um prêmio da União Brasileira de Escritores, que ele foi receber na Academia Brasileira de Letras.


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Fineza, simpatia e qualidade de vida Aos 99 anos, a elegante Dona Cici viveu a época do glamour da centenária Divinópolis Gisele Souto e José Carlos de Oliveira Unhas feitas, cabelo arrumado e um batom que destaca o contorno da boca. Uma adolescente vaidosa? Que nada. Uma senhora centenária de uma elegância e comportamento de darem inveja a qualquer mocinha. Aos 99 anos, Maria Aparecida Duarte Meira, carinhosamente chamada de Dona Cici, esbanja simpatia e faz questão de preservar a qualidade de vida. Não pense que sua rotina se restringe a almoço com a família, assistir a TV e dar umas voltinhas na praça, pois o seu dia a dia tem muito mais. São atividades físicas, passeios mais demorados de carro ou a pé e até longas viagens, e sua última aventura foi passar uns dias em Copacabana, no Rio de Janeiro, onde já morou e possui uma casa. Porém, o mais interessante da viagem não foi o calçadão e as belas imagens das praias, mas sim a ida e volta de carro sem nenhuma reclamação de cansaço. Sua filha, a professora aposentada Marília Duarte Meira de Aguiar, 75 anos, confessa que a disposição da mãe é de dar inveja. O outro filho, Sebastião Maurício Pessoa, 72 anos, puxou a inquietude de Dona Cici: mora no Rio, mas vive se aventurando pelo mundo e esteve recentemente em Portugal. Os dois filhos são frutos de um casamento de 49 anos com o juiz Moacir Duarte, que morreu aos 77 anos, em 1986. Marília se casou o promotor de Justiça João Meira de Aguiar, dando origem à família Meira de Aguiar. Essa união rendeu à Dona Cici qua-

tro netos, um deles conhecido por atuações na cidade: Carlos Moacyr Duarte Meira de Aguiar, presidente da Associação Comercial, Industrial, Agropecuária e de Serviços de Divinópolis - Acid. Ela tem ainda quatro bisnetos. Apesar de o casal não ser natural de Divinópolis – ele, de Belo Horizonte, e ela, de Juiz de Fora -, foi aqui que juntos construíram a vida, se tornaram conhecidos e fizeram grandes amizades. Meio século Dona Cici chegou a Divinópolis há cerca de 50 anos e acompanhou de perto o desenvolvimento do município, que completa 100 anos. Apaixonada pela cidade, ela viveu a transformação local numa época inesquecível, de muito glamour, em reuniões com amigos, participação ativa em projetos sociais e bailes que deixaram saudades. Em meio às lembranças, no momento da entrevista surge um som baixinho e saudoso, um pequeno trecho da música de Haroldo Lobo: “Allah-la-ô, ô ô ô ô ô ô, Mas que calor, ô ô ô ô ô ô // Atravessamos o deserto do Saara / O Sol estava quente e queimou a nossa cara // Allah-la-ô, ô ô ô ô ô ô , Mas que calor, ô ô ô ô ô ô // Viemos do Egito e muitas vezes nós tivemos que rezar / Allah, Allah, Allah, meu bom Allah , Mande água pro ioiô, Allah, meu bom Allah //”. Ela cantarolava sorridente a antiga marchinha de carnaval que muitas vezes cantou e dançou nos tradicionais bailes de carnaval. Daquela época, confessa guardar boas lembranças.

José Carlos de Oliveira

Símbolos de uma época Se a juventude da década de 1970 vivia em ritmo de rock’n roll, com suas revoluções sociais e o nascimento de uma nova mentalidade, a sociedade em si ainda era fechada, com reuniões familiares; as senhoras tinham como prioridade viver para o esposo e os filhos e ajudar ao próximo com campanhas voluntárias, principalmente em finais de ano. As filhas eram educadas para seguirem o mesmo caminho. Como outros municípios, Divinópolis também viveu o auge das mães prepararem suas filhas durante meses para serem apresentadas à sociedade quando completassem 15 anos, no tradicional Baile das Debutantes. Naquela época, o Estrela do Oeste Clube, o Divinópolis Clube e o Salão Paroquial de Santo Antônio se esmeravam na escolha dos paraninfos e convidados especiais, normalmente um artista famoso, para anunciar a presença das moças na sociedade. Durante anos, promoções como “Estudante Girl”, realizadas por Carlos Alberto Justo Dias (Beto Carlos), “Sharme Girl”, “As 10 Mais Elegantes”, “Vips” e outras do gênero mereciam atenção especial da sociedade. Era o instante de exercitarem seu estilo de vida, seu modo de vestir e seu cuidado no trato com as pessoas, no falar, costumes muito valorizados naquele tempo. Muitas mulheres se destacaram no período de 1970 ao início do século XX, entre elas Dona Cici, que nestas festas e reuniões encontrou companheiras insepa-

Aos 99 anos, Dona Cici mantém a elegância e a simpatia

ráveis, como Martha Eugênia, Irene Silva, Helena Souza Ameno, Neuza Dias Lara, Cecília Guimarães, Maria de Lurdes Martins, Aldeci Pinto de Aguiar, Elza Martins Guimarães, Nízia Corrêa, Neuza Teixeira, Edna Rachid, Ênia Azevedo, Leila DªAlmeida Rodrigues e outras, que tinham nos Rotary Club Divinópolis, Lions Clube Candidés e Lions Clube Divinópolis Pioneiro ferramentas das quais se utilizavam para suas obras sociais. De forma decisiva e marcante, elas ajudaram a fortalecer instituições como a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais – Apae -, Lar das Meninas e Instituto Helena Antipoff. Era comum estas senhoras se reunirem às tardes, na casa de alguma delas, para um chá, momento de descontração que não poderia ficar de fora da agenda de compromissos.

regras de boas maneiras são admiradas e seguidas. A forma como se cuidavam era impecável: luvas brancas, em sua maioria; roupas adequadas para cada ocasião e pernas sempre cruzadas, costumes seguidos à risca por Dona Cici durante a entrevista. Preocupada em como se portar, ela manteve a postura ereta durante todo o tempo e as pernas elegantemente cruzada; para citar um exemplo, em determinado momento da entrevista, o seu blazer se desarrumou e ela, muito discreta, sutil e elegantemente, o reajustou. Rotina

Como os bons momentos do passado já se foram, Dona Cici trata de aproveitar o presente da melhor forma possível, e pensa no futuro. Há oito anos, dedica-se à atividade física duas vezes por semana, monitoraComportamento da pelo educador físico Humberto de Melo O modo de agir e de Oliveira. Ele conta vestir das damas da- que tudo começou a quele período chamava pedido da filha Maatenção, e até hoje as rília, para que a mãe

mantivesse qualidade de vida e autonomia. Preguiça e reclamação não fazem parte do cotidiano de Dona Cici, segundo o educador, muito pelo contrário: ela é uma aluna persistente e disciplinada, e o melhor - tem consciência da importância dos exercícios. O profissional aproveita para lembrar que, além de manter a força, o equilíbrio e a flexibilidade, as atividades retardam a perda da capacidade mental. - A prática estimula a ativação dos neurônios. O resultado é uma boa saúde aos praticamente 100 anos. Com essa idade, pode-se considerar que a Dona Cici tem boa saúde. Sofre apenas de perda de audição, questão hereditária; no restante, está ótima - explica. Assim como Divinópolis, Dona Cici chega a um século de existência com muita comemoração, alegria, vontade ver muitas coisas, cantar e dançar com novas conquistas e, acima de tudo, com esperança de dias melhores.

Quinze mil partos de Chiquita Parteira Viúva aos 23 anos, Francisca Moreira da Silva fez curso de obstetrícia em BH Da Redação Sofria quando perdia uma criança, mas vibrava quando o bebê nascia saudável e forte. Essa era Francisca Moreira da Silva, ou Chiquita Parteira, que fez 15 mil partos em Divinópolis na década de 1950. Ficou viúva aos 23 anos, com uma filha de nove meses. As três tias ajudaram a cuidar da criança e, para pagar as despesas de casa, começou a lavar roupa, torrava café e fazia pastel para vender. Ruth Gontijo, uma de suas amigas, a aconselhou a exercer a profissão de parteira e ela foi para a Escola Hugo Werneck, em Belo Horizonte, onde estudou

obstetrícia durante dois anos. - Este curso a fez parteira formada e pôde dedicar-se a esse mister com maior desvelo e muito altruísmo – afirmou José Dias Lara no livro “Divinópolis com Amor e Humor”. Naquele tempo, conta Lara, as mulheres não faziam pré-natal ou algum acompanhamento médico, e chegavam à dar a luz na completa escuridão. Às vezes, tinham surpresas. - Chiquita, usando de toda sua psicologia inata, ia preparando o espírito da mulher com palavras animadoras, para receber um, dois e três filhos, como aconteceu, certa vez, no Córrego do Barro. A mãe ficou alucinada com os três,

quando esperava apenas um – escreveu José Dias Lara, afirmando que foram 15 mil partos realizados por Chiquita. - Numa época de costumes bem arraigados, chegavam moças a sua casa, querendo, em gesto tresloucado, que ela lhes arrancasse a criança das entranhas, provocando o aborto de uma malsinada gravidez. Chegavam a oferecer-lhe vultosas importâncias em dinheiro - afirmou José Dias Lara. De acordo com o autor, Chiquita se ofendia e ainda aconselhava as mulheres que queriam fazer aborto. - Não faça isto. Está criança pode ser-lhe útil na vida - respondia Chiquita Parteira.

Arquivo Municipal


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Divinópolis chega ao seu Centenário como um dos mais importantes polos culturais, políticos,universitárioseeconômicosdoPaís, reconhecido como destino de excelência em novosinvestimentoseumdosmaioresÍndices deDesenvolvimentoHumanodeMinasGerais.  A Federação dos Empregados no Comércio e Congêneres do Estado de Minas Gerais - FECCOEMG- se orgulha de representar uma importante parceladeprofissionaisqueformamaprincipalriquezadestacidadeese associa a todos os Divinopolitanos na comemoração do Centenário. AtodososquefizeramefazemahistóriadeDivinópolis,osComerciários deMinasGeraisreverenciamocompromissoeotrabalhodospioneirosna construçãoenodesenvolvimentodessametrópoleerenovamsuaconfiança em um futuro de progresso, justiça e bem estar social. Levi Fernandes Pinto Presidente da Federação dos Empregados no Comércio e Congêneres do Estado de Minas Gerais - FECCOEMG


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Edição do Centenário 05