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NÚMERO

ANO VII

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REVISTA LABORATORIAL DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL - JORNALISMO DA ULBRA CANOAS


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Reitor: Marcos Fernando Ziemer Vice- Reitor: Ricardo Willy Rieth Pró-reitor de Planejamento e Administração: José Paulinho Brand Pró-reitor Acadêmico: Pedro Antonio González Hernández. Capelão Universitário: Mário Rafael Yudi Fukue Coordenadora de Ensino: Lucimar Filot da Silva Brum Coordenador do curso de Jornalismo: Deivison Campos Professor responsável: Jorge Gallina (RPMT/RS 4043) Projeto Gráfico: Ana Maciel Szezecinski e Caroline Andreoli (Agex) Jornal Ensaio é produzido pelos alunos da disciplina de Produção de Impresso – Revista - 2017/1. ALUNOS: Fotografia: Arquivo Ensaio e fotos públicas. Revisão: Fátima Giuliano

Editorial

odo mundo sabe que a internet é algo revolucionário. Não é de hoje que as facilidades e respostas que podemos encontrar nela ajudam e muito o dia a dia das pessoas. Mas tudo tem dois lados, não é mesmo?! Com isso, a internet ajuda na propagação rápida de notícias, mas a veracidade entra em questão. Ao longo desta edição da Revista Babel será possível encontrar diversas reportagens sobre a era da pós-verdade, onde a internet entra como maior e principal ferramenta. Notícias falsas sempre existiram, o que modificou foi a forma de repassá-las. No ramo da política, por exemplo, não é novidade um candidato plantar uma informação sobre seu adversário ou criar boatos sobre a sua vida privada para que ele perca votos. Robert Darnton, historiador, confirma em entrevista para a Folha de São Paulo que não é de hoje que diversas fake news foram disseminadas com diferentes objetivos. Com essas notícias falsas se espalhando pelo mundo, um termo tornou-se popular nos noticiários com o crescimento dessas veiculações: Post-truth (pós-verdade). A expressão define a propagação de ideias baseadas nas emoções ou crenças pessoais e sem nenhum embasamento teórico/científico, porém facilmente aceitas pela sociedade. Segundo a Oxford Dictionairies, a palavra vem sendo empregada em análises de acontecimentos políticos. Um deles é tema de reportagem aqui na Babel: a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. A campanha fez uso de mentiras, como a de que Barack Obama é fundador do Estado Islâmico. Redes sociais como Facebook, Twitter e Whatsapp favorecem a replicação de men-

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tiras e boatos. Grande parte dessas notícias são compartilhadas por conhecidos o que faz os usuários criarem confiança, aumentando a aparência de verdade nas histórias. Os algoritmos utilizados pelo Facebook colaboram, de certa forma, pois fazem com que os usuários recebam as informações e concordem com seu ponto de vista, formando bolhas que isolam as histórias. Transitam no Congresso Brasileiro projetos de lei que buscam punir quem divulga notícias falsas, ou seja, as famosas fake news. Porém, para estudiosos do tema, algumas simples mudanças legislativas pouco ajudariam a punir os responsáveis e poderiam influenciar a liberdade de expressão. Pode-se dizer que o jornalismo sempre foi o canal que espalhava as notícias e conteúdos para as pessoas, seja a respeito da sua própria comunidade ou sobre o mundo. Hoje, já há dificuldade na troca e emissão de informações entre os jornalistas, os meios de comunicação tradicionais e o público. O público não quer mais ser refém do que só uma emissora de TV, de rádio ou jornal têm vontade de veicular. O problema do público querer seu próprio meio de informação é que muitas vezes o que é disseminado são informações com conteúdo falso, exageradas ou erradas de alguma maneira. Isso mostra a importância da imprensa, que tem a formação jornalística necessária para apurar fatos, checar informações e entrevistar as diversas partes envolvidas nessas diversas situações. A décima quinta edição da revista Babel traz para você informações sobre essa nova era e sobre a propaganda nazista, dando exemplos e citando sua importância. Boa leitura!


Como surgem as notícias falsas? Suélen Farias

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ano de 2016 foi marcado por muitos eventos inesperados e diversas polêmicas no panorama político e social em várias partes do mundo. A saída do Reino Unido da União Européia (Brexit) e a eleição de Donald Trump, foram os mais surpreendentes do ano. Ambos os eventos, motivados por decisões eleitorais sem precedentes e imprevisíveis, entraram no ranking das notícias mais acessadas do mundo e as informações, junto com outros incidentes polêmicos desse ano, circularam em grande fluxo nas redes e, junto delas, também foram veiculadas diversas inverdades sobre os fatos. A partir disso, os usuários de redes sociais, que já possuíam o costume de compartilhar notícias na internet, começaram a repassar informações falsas criadas na tentativa de confundir os eleitores, interferir na opinião pública e aumentar os acessos aos de sites mal intencionados. Com essas fake news se espalhando pelo mundo, um termo tornou-se popular nos noticiários ao mencionar o aumento da veiculação de notícias falsas: Post-truth (pós-verdade). A expressão define a propagação de ideias baseadas nas emoções ou crenças pessoais e sem nenhum embasamento teórico/científico, e mesmo assim amplamente aceitas pela sociedade.

O uso desta palavra (Post-truth) pela imprensa mundial em 2016 cresceu 2.000% em relação ao ano anterior, principalmente na cobertura de fatos políticos. A expressão começou a ser tão mencionada nos noticiários, pelos jornalistas e estudiosos políticos que foi escolhida como “palavra do ano” pelo Dicionário Oxford. David Roberts, cronista e criador do termo, afirma em sua coluna para o site Grist. org (2010), que a origem desse fenômeno está ligada a uma cultura política focada nos apelos emocionais desconectados dos detalhes e pela repetida negação dos fatos concretos, que se tornam secundários. Para entender melhor o que é a pós-verdade, podemos citar como exemplo a campanha de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Marcada pelo desdém total da veracidade dos fatos mencionados, e repleta de ataques à Hillary Clinton, a campanha divulgou diversas notícias como a de que Hillary foi a criadora do Estado Islâmico, que Barack Obama era muçulmano, que o desemprego nos EUA chegava a 42% e que o papa Francisco apoiava sua candidatura. Nenhuma dessas informações era verdadeira, mesmo assim foram usadas sistematicamente para ganhar apoio e atingir a imagem de adversários. Segundo o jornalista Luiz

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Claudio Latgé, em sua coluna para o site O Globo (2016), as pessoas escolhem no que acreditar, mesmo que a informação fuja da realidade: “a verdade perdeu o valor, não nos guiamos mais pelos fatos, mas pelo que escolhemos ou queremos acreditar que é verdade”. Neste sentido, a Internet e consequentemente as redes sociais representam um desafio a mais na questão das notícias falsas. As redes tornaram-se ferramentas de disseminação de notícias falsas criadas por grupos políticos em disputa. Por este motivo, em junho deste ano, o Facebook alterou seu algoritmo de forma a diminuir o alcance de postagens de sites noticiosos e privilegiar o de amigos. O Facebook também criou uma ferramenta para denunciar mentiras na rede e gerar um alerta para os usuários quando for detectado um fato mentiroso. Para o jornalista Gabriel Pirolli (2016) em sua coluna para a revista Carta Capital, a pós-verdade também está totalmente relacionada ao pós jornalismo, no qual as pessoas sabem que determinado fato é ou pode ser verdadeiro, mas, se não gostam dele, preferem desconsiderá-lo, não querem que a crueza da realidade perturbe a tranquilidade de suas certezas. A pós-verdade tornou-se a informação que buscamos para satisfazer nossas crenças e desejos.


Verdade foi substituída pela opinião Laiani Santos

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ós-verdade definiu 2016 sendo eleita a palavra do ano pelo dicionário “Oxford”. Isso porque atualmente os fatos importam menos do que aquilo em que as pessoas escolhem acreditar - ou seja, são tempos em que a verdade foi substituída pela opinião. Também conhecida como a era em que a mentira ganhou força. A campanha de Donald Trump foi o maior exemplo de pós-verdade, com desdenho total pela veracidade dos fatos mencionados. Durante a corrida eleitoral, o republicano Trump afirmou que Hillary Clinton criou o Estado Islâmico, que Barack Obama era muçulmano, que o desemprego nos EUA chegava a 42% e que o papa Francisco apoiava sua candidatura. Nenhuma dessas informações é verdadeira. Não importou. Muitas outras foram usadas sistematicamente para ganhar apoio e atingir a imagem de adversários. Tanto é que hoje, a ferramenta Facebook usa um espaço para que consiga monitorar as informações, matérias que são veiculadas para analisar se as mesmas são verdadeiras. O que de certa forma não está funcionando muito bem, pois ao que tudo indica a internet realmente deu voz “aos idiotas”. Alguns empregos requerem mais cuidado, como, por exemplo, na hora de assessorar uma pessoa/setor público. Cristiane Franco costuma dizer que informação na rede social é como um travesseiro de pena aberto ao vento, “depois de solto, nunca mais tu reúne todas as penas” Sempre vai ter alguém para encontrar alguma coisa e fazer referência negativa ou positiva a um fato antigo. Por isso é preciso tomar muito cuidado com o que é postado. Uma foto tirada hoje, na companhia de alguma figura reconhecida, pode servir de munição para um desafeto, ou oposicionista daqui a alguns meses. Dependendo do assessorado, é preciso estar muito atento ao momento, à agenda. Mais do que medo, é necessário muita atenção. Por exemplo, como cita Cristiane, no período em que atuou na Secretaria

Estadual do Trabalho, o maior cuidado que tinham era com a pauta das entrevistas que o secretário era convidado. Em 2016 tiveram um pico de 11 milhões de desempregados. Estavam sempre muito atentos aos locais e ao tipo de foto postada pelo secretário, para que evitassem interpretações distorcidas, como se o secretário não estivesse preocupado com o momento. Em Esteio, local em que ela trabalha atualmente, a grande preocupação está direcionada aos dias de chuva e à área da saúde. Nesses casos, é preciso estar atento em dar respostas objetivas e com alternativas viáveis, sem demagogia. Qualquer pu-

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blicação feita pode ter uma distorção enorme, gerando um conflito muito grande que pode ser um ponto negativo para a pessoa que está sendo assessorada. É como dizer que Dilma Rousseff ou Lula não fizeram nada para arruinar a economia do país. Que tudo o que está acontecendo era para acontecer e que o Impeachment foi um golpe. Pode esse golpe ter acontecido por causa de pós-verdade? Talvez a presidência do Brasil também possa ter acontecido por causa disso, ter eleito seus candidatos por causa de mentiras sobre os outros apenas para destruir a imagem do adversário e favorecer a própria.


Lidando com notícias falsas na internet

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s redes sociais se tornaram um meio de comunicação muito bom para quem, de certa, forma quer se “promover”, mas também é algo que requer muito cuidado, principalmente quando você assessora alguém que trabalha em um setor público. Cristiane Franco pode nos dar algumas dicas de como lidar com notícias falsas na internet: “Primeiro, mostrar de forma transparente e objetiva que a notícia é falsa e ter sempre contrapontos consistentes e que garantam que a notícia falsa será desmentida. Contar com a ajuda de colaboradores, no auxílio da divulgação das informações corretas também é importante. “ Há uma grande responsabilidade quando você assessora uma pessoa. Franco cita que a responsabilidade com as postagens é sempre muito grande quando se trata de uma pessoa pública. Tanto as postagens da assessoria, quanto as feitas pelo próprio assessorado devem ser monitoradas com atenção. O momento, o espaço e o ambiente em que as informações são divulgadas vão dar o tom das reações públicas.” Todo cuidado é pouco. Então, além de você estar assessorando alguém você tem que se auto assessorar, unindo o útil ao agradável. Muitas vezes quem assessora uma Prefeitura, querendo ou não, acaba assessorando também os demais servidores, que são os secretários. Mas por quê? Bom, quando você quer ter um controle do seu trabalho, automaticamente você também precisa ter um controle dos demais, pois o resultado deles também será da pessoa que está a frente. Por exemplo, se um secretário acaba publicando algo que não deveria e isso reflete diretamente no Prefeito, isso pode causar um tumulto que não tem volta.

Fonte: Senado Federal

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Notícias falsas ajudaram a mudar o rumo das eleições norte-americanas Emanuel Tanski

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quela velha máxima que diz “uma notícia repetida tantas vezes pode se tornar verdade” nunca esteve tão válida como na era das redes sociais. Em 2016, houve quem atribuísse a derrota da democrata Hilary Clinton para o republicano Donald Trump, nas eleições para presidência dos Estados Unidos, em boa parte, a divulgação de notícias falsas. Na reta final da campanha, diversas notícias falsas foram publicadas na rede social Facebook, a mais famosa do mundo, a respeito da candidata Hilary Clinton, gerando um total de 8,711 milhões de reações nas redes. Este número expressivo deve ser considerado, não? Entre os absurdos publicados, destaca-se: “Wikileaks confirma que Clinton vendeu armas para o Estado Islâmico” e “Papa Francisco choca o mundo e apoia Donald Trump”. É inegável o fato de que analisando o teor das matérias e o número de engajamento levantado que isso, de uma forma ou de outra, tenha influenciado na derrota democrata nestas eleições. Em uma sociedade cada vez mais globalizada e conectada, enfrentamos um problema que não deveria fazer sentido, que seria o “abuso da liberdade de expressão”. Contraditório, não? Mas a liberdade de criar uma página, produzir uma notícia falsa e espalhar em redes sociais nunca foi tão perigosa para influenciar pessoas. E neste caso americano, manipular.

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Buzzfeed: os rumos do jornalismo, o alcance das notícias e a era da pós-verdade Josiele Rangel de Campos e Rafaela Contini

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ocê até pode nunca ter entrado no site do Buzzfeed, mas certamente já esbarrou em algum assunto nascido nesse site especializado em viralidade. O Buzzfeed foi fundado em 2006 pelo americano Jonah Peretti como um laboratório viral. De acordo com a revista Época o site é fruto de um projeto paralelo que ele iniciou anos antes, cujo o objetivo era entender o que motivava as pessoas a compartilhar um conteúdo na internet. “Eram tempos pré-Facebook e Twitter. Para um conteúdo viralizar, era preciso mandar por e-mail para um grupo de amigos e esperar dias para que ele se tornasse conhecido. Hoje, depois da populari-

zação das redes sociais, basta compartilhar algo e aguardar algumas horas”, afirmou Peretti, em entrevista à revista Época. Já deu para perceber que o Buzzfeed é especializado em conteúdo viral. Em 2011, a empresa contratou o jornalista americano de sucesso Ben Smith e a ideia, segundo a revista Época, era fazer o site ir além das listas engraçadinhas e bichos fofos. Então entre uma lista e outra começaram a surgir notícias e reportagens. O sucesso da empresa não está atrelada apenas a questão do conteúdo viral, mas ao modelo editorial que consegue suprir as demandas do mercado publicitário. Várias empresas pagam o Buzzfeed para criarem listas, jogos e outros conteúdos.

“22 provas de que os gringos copiam os brasileiros sem a menor vergonha” “17 coisas que quem tem memória horrível já esqueceu que falou” “Teste se você sabe soletrar essas palavras que todo mundo erra”. ( De quem é a frase?)

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Força das notícias nas redes sociais Com o passar do tempo as notícias foram ganhando muita força nas redes sociais. Hoje em dia o mundo vive em torno da informação que recebemos da internet. Cristiane Franco, formada em Jornalismo pensa que o número de informações falsas na internet surgiu da mesma forma que surgiram as verdadeiras. A diferença é que o acesso às ferramentas digitais foi ampliado de forma significativa. Com isso a “proliferação” de notícias falsas ou de fonte duvidosa, ganharam uma proporção muito expressiva. Segundo ela, isso quer dizer que a internet realmente querendo ou não tem uma voz muito ativa. A Internet é a maior fonte de notícias atualmente, tanto é que hoje as notícias se espalham rapidamente, por isso o cuidado tem que ser cada vez maior. Há empresas que contratam pessoas apenas para fiscalizar aquilo que se fala sobre a mesma na internet, o que mostra que o mundo realmente gira em torno da informação que as pessoas estão procurando na Internet.

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primeiro “braço” do site em outro país foi o Brasil, em 2013, no qual possuem uma redação com jornalistas e um departamento comercial. O Buzzfeed Brasil News também produz um conteúdo jornalístico forte. O site está presente em mais de 10 países, produzindo seu próprio conteúdo local e também com traduções. O repórter do Buzzfeed BR, Alexandre Aragão, disse que nunca sofreu preconceito por fazer parte desse site midiático. “Os jornalistas e as fontes, de maneira geral, já nos conhecem e sabem do nosso trabalho. Em algumas ocasiões, tivemos que explicar que o BuzzFeed também estava fazendo jornalismo no Brasil, e não apenas entretenimento, como as pessoas tendem a achar. Mas nada que tenha atrapalhado o trabalho de maneira significativa”. E complementa que a diferença do Buzzfeed para os demais jornais é que o foco são as redes sociais. “Enquanto no jornal a preocupação maior era burilar um texto para a edição impressa, ou um rascunho para o site, no BuzzFeed nós fazemos a cobertura em tempo real’, disse Alexandre. Em 2016, durante as eleições americanas, o Buzzfeed News analisou quarenta notícias (verdadeiras e falsas) nos últimos três meses das eleições, na qual vinte falsas informações tiveram mais alcance no Facebook do que grandes fontes de notícias. Sendo que no período anterior aos três últimos meses a performance do conteúdo dos principais veículos superou as notícias falsas mas, à medida que a eleição se aproximava, os conteúdos falsos ultrapassaram as grandes fontes. No entanto, o próprio site foi acusado de divulgar notícias impróprias como os documentos secretos que supostamente continham evidências da ligação entre a Rússia e Donald Trump. Nenhum outro veículo midiático, exceto o Buzzfeed, divulgou essa informação porque não pu-

Fundador do Buzzfeed Jonah Peretti deram confirmar o conteúdo. De acordo com o site independente Proxima, em resposta a seus colaboradores internos, o editor-chefe Ben Smith justificou sua decisão alegando que o público tem o direito de conhecer o documento e que não publicá-lo seria um desserviço ao jornalismo. Os leitores e seguidores do BuzzFeed devem decidir sobre sua veracidade por si só. Levando em conta essas informações é importante citar a questão da pós-verdade, que são circunstâncias nas quais as crenças pessoais têm mais importância do que fatos objetivos. As informações divulgadas por esse site mudam as questões de apura-

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ção das informações, se não há provas suficientes não se pode compartilhar. Deixar para o público decidir se acredita ou não vai depender das ligações políticas dessas pessoas, fortalecendo a pós-verdade. Em uma palestra feita em São Paulo, no ano de 2014, o editor-chefe do Buzzfeed, Ben Smith, disse que esse site de viralidade não está destruindo o jornalismo. “Estamos contratando jornalistas criativos na área social. O desafio para nós é fazer um material bom o suficiente para ser publicado em redes sociais como Facebook e Twitter. Isso é mais difícil do que simplesmente escrever um bom título”.


Buzzfeed e o conteúdo jornalístico Apesar da fama do portal, a credibilidade das notícias ainda é discutida internacionalmente

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m 2011, com a contratação do jornalista Ben Smith para editor-chefe, do jornal Político, o Buzzfeed passou a aumentar seu conteúdo criando a sessão notícias. O portal começou a fazer reportagens longas, mas apesar da fórmula estar dando certo, muitas polêmicas surgiram. Em dezembro do mesmo ano, em uma entrevista para o jornal The New York Times, Smith afirmou que sua maior fonte de notícias era o Twitter. Além disso, o Buzzfeed vem recebendo acusações de plágio em seu conteúdo jornalístico. Desde 2012 as denúncias são cada mais extensas. Neste mesmo ano, o Buzzfeed publicou uma notícia em formato de lista que tinha uma cópia, sem crédito, do site IMDB. Em entrevista para o jornal Gawker, que agora está disponível para acesso apenas pelo Wayback Machine, para esclarecer o caso, Smith disse que estava tentando afastar o site desse tipo de abordagem. Como desculpa, ele afirmou que a empresa tinha nascido como um laboratório de conteúdo, mas que a partir daquele momento iam passar a usar formas de crédito tradicionais, já que antes dele chegar, ainda não se tinha clareza sobre isso. Em 2014 o Buzzfeed passou por outro problema similar, mas desta vez com um editor de conteúdo, Benny Johnson, que copiou partes de textos de vários locais, como Wikipédia e Yahoo!. Benny foi demitido e desde então todo conteúdo que ele produziu foi editado pela empresa. No início de 2017, já editor do jornal independente Interview, também foi acusado de plágio. Ao todo, Johnson teve 41 denúncias enquanto estava trabalhando para o Buzzfeed. Apesar dos problemas, o site de viralidade criou sua própria equipe de jornalismo investigativo; um time de jornalistas com prêmios Pulitzer e consagrados nos Estados Unidos. Em pouco mais de dois anos, a equipe conseguiu montar um tipo de estrutura que tem alto impacto no jornalismo digital, principalmente na era da pós-verdade. A equipe de jornalismo investigativo do Buzzfeed nos Estados Unidos também sofre com a dificuldade dos

Redação do Buzzfeed de Nova York. Foto: Brendan McDermid/Reuters (publicada no jornal Estadão) veículos tradicionais a se adequarem a maneira com que eles fazem as notícias. Já em 2017 o portal voltou a se envolver em uma polêmica pelas eleições presidenciais norte americanas. A polêmica se deu porque o site postou na íntegra um dossiê com informações não oficiais e não checadas sobre a relação da Rússia com o então eleito, Donald Trump. O documento, que foi feito pelo departamento de inteligência britânico, virou notícia, mas não foi publicado por nenhum outro portal ou site de veículos famosos. O documento ganhou ainda mais destaque quando o Buzzfeed foi processado por um investidor russo que teve seu nome divulgado no dossiê. Nenhum dado do possível julgamento foi revelado e o dossiê russo continua no site do Buzzfeed, na íntegra. No Brasil o portal de notícias também tem crescido. Apesar deles utilizarem muitas traduções de notícias internacionais, a maior parte das informações são conteúdos próprios, falando majoritariamente sobre política. A última reportagem de destaque do site brasileiro foi a exclusividade em obter o depoimento de Joesley Batista sobre o BNDES, na íntegra. Em 2016 o portal passou a separar as notícias de entretenimento e está cada vez mais investindo em vídeo. De acordo com o jornal Estadão, atualmente os vídeos representam 50% da receita

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gerada pelo site e a previsão é que nos próximos dois anos, seja 75%. “À medida que o vídeo digital se torna onipresente, todas as grandes iniciativas do BuzzFeed irão encontrar uma equivalência em vídeo”, afirmou o dono do Buzzfeed, Jonah Peretti, em um comunicado. Ainda de acordo com o Estadão à medida que os conteúdos em vídeos vão ganhando destaque como fonte de faturamento, geram reformulações e muitas incertezas nas redações. Em reportagem, o Estadão disse que, durante anos, o BuzzFeed foi visto como um caso de sucesso no mundo digital. “Seu conteúdo viral causa inveja em todo o setor de mídia e seu modelo de negócios, baseado em anúncios nativos, ao invés de anúncios exibidos tradicionalmente, atraiu marcas que estavam em busca de um público mais jovem”. Mas enfrenta desafios parecidos com os das demais mídias e as startups. Em 2016 o portal atraiu o volume mais baixo de acessos desde 2014. Além disso, ele não faturou o previsto para 2015. Em uma entrevista para a Revista Época, em 2015, o Jonah Peretti afirma estarem caminhando para tornar o Buzzfeed uma empresa global de mídia. “Estamos crescendo para nos tornar uma empresa de informação útil e entretenimento, investindo cada vez mais em vídeos”, afirmou ele.


O Buzzfeed na pós-verdade Como o portal de entretenimento se tornou um dos primeiros portais de notícias a desmentir notícias falsas

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ós-verdade é quando os fatos têm menos importância do que as crenças pessoais e o termo é amplamente usado por pessoas que acreditam que a verdade está perdendo cada vez mais sua importância. Em 2016, com as eleições presidenciais dos Estados Unidos, muitas notícias falsas foram publicadas. No dia 16 de novembro o Buzzfeed postou uma análise em seu site com 40 notícias dos principais portais de news americanos, como New York Times, Washington Post e NBC News, provando que as notícias falsas tiveram mais alcance no Facebook do que as verdadeiras. Um porta-voz do Facebook falou com o Buzzfeed News para explicar que as notícias falsas não refletiam o engajamento global da plataforma. No Brasil, um dos casos mais famosos envolvendo o Buzzfeed foi em relação a um suposto áudio do Senador Randolfe Rodrigues, do Rede-AP, primeiro partido a pe-

dir o impeachment do presidente Michel Temer. No áudio, um homem com a voz parecida com a de Randolfe diz que “a situação é gravíssima, por isso, vai haver golpe de estado. O que pode acontecer é a Carmem Lúcia (Presidente do Supremo Tribunal Federal) chamar as forças armadas, fechar o Congresso e convocar eleições gerais”. O Buzzfeed foi um dos únicos sites de notícias a desmentir o boato com uma entrevista com Randolfe Rodrigues. Além disso, no dia 1 de dezembro de 2016, o Buzzfeed fez uma reportagem falando sobre as matérias falsas mais compartilhadas durante o impeachment em uma jogada parecida com o que fizeram nas eleições americanas. O portal não ficou apenas no Facebook e partiu para outros portais de notícias, inclusive colocando a Veja em seu apanhado. A Lava Jato também recebeu o mesmo tipo de reportagem, com o Buzzfeed fazendo uma análise de discursos escritos nos sites e explicando em qual contexto eles tinham sido colocados e como tinham sido retirados de seu contexto original.

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TUDO QUE ESTÁ NA INTERNET É VERDADE?

Uma análise sobre a página boatos.org Jaqueline Zarpelon

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ocê é capaz de identificar uma notícia falsa dentre as várias que circulam nas redes sociais e até mesmo em grandes portais de notícias? Abaixo um teste com algumas manchetes que circularam nas redes sociais nos últimos meses. Aponte quais são verdadeiras e quais são falsas. ( ( ( ( ( ( ( ( ( (

) Quem trabalhou entre 1998 e 2016 pode receber dois salários mínimos. ) O Boticário está dando vale-presente para o dia dos namorados. ) Andreas von Richthofen, irmão de Suzane, foi encontrado na cracolândia. ) Delegado que investigava a morte de Teori Zavascki é assassinado. ) Projeto obriga o uso de uniforme unissex em todas as escolas do Brasil. ) Vídeo de Lula falando sobre sítio em Atibaia é encontrado. ) Atentado terrorista é realizado por muçulmanos em Goiás. ) México construiu muro na fronteira com a Guatemala. ) Marisa Letícia teve morte cerebral e mídia esconde que ela morreu. ) MEC diz que é preciso acabar com regalias dos professores.

O que todas as afirmações acima têm em comum? Todas elas são boatos que

circularam nas redes sociais e até mesmo em jornais impressos entre os meses de setembro de 2016 e junho de 2017. Os boatos foram retirados do site boatos.org. O mais comum na internet é a presença de boatos sobre a morte de alguém famoso, uma doença rara, tentativas de

golpes ou mesmo brincadeiras consideradas inocentes. Histórias incríveis de diferentes locais do mundo, sugestões de configurações para se proteger nas redes sociais e tantas outras coisas aparecem diariamente na tela dos nossos computadores, tablets e celulares. A página boatos.org foi criada em junho de 2013 com a intenção de mostrar o

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boato que está circulando e após a explicação do por quê ela ser uma mentira. A intenção da página é prestar um serviço de utilidade para o usuário da internet. Todos os dias dezenas de boatos são desmentidos pela equipe de três jornalistas. Fazem parte da equipe, o editor Edgard Matsuki e as jornalistas Hellen Bizerra e Carol Lira.


Legislação Brasileira: compartilhar notícias falsas é crime

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o ano de 2017 foi dado um novo passo para coibir a divulgação de notícias falsas na internet. O projeto de lei 6812/2017 torna crime a divulgação ou compartilhamento de notícia falsa ou prejudicialmente incompleta na internet. O autor do projeto é o deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB/PR). Ele alega que a rápida disseminação de informações pela internet tem sido um campo fértil para a proliferação de notícias falsas ou incompletas. O código penal brasileiro dispõe também sobre compartilhamento de notícias falsas nos artigos 138, 139 e 140 da Lei 2.848 de 07 de dezembro de 1940. Os artigos falam de injúrias, mas por se tratar de uma lei mais antiga entende-se que não se aplica às redes sociais digitais. A Lei 2.848 dispõe sobre crimes contra a honra. Prevê multa e detenção, de acordo com a gravidade da exposição. Enquanto que a proposta de lei é bem específica, detalhando os tipos de crimes no espaço cibernético. Também prevê multa e detenção, dependendo da gravidade das acusações. Qualquer pessoa que compartilhar uma notícia falsa pode responder no âmbito jurídico, mesmo que não tenha sido quem inventou o boato. Por isso a importância de analisar tudo que passa pela timeline com cuidado. Verificar a procedência do site e em caso de dúvida, não compartilhar. A equipe do On the Media esteve no 11º Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e apresentou um pequeno manual, com 11 dicas simples que ajudam a identificar notícias falsas. 1. Sinais de que uma notícia pode ser falsa: manchetes inteiras em caixa alata ou fotos obviamente manipuladas. 2. O site tem muita publicidade, banners ou pop-ups? É um bom sinal de que a notícia pode ser falsa e que foi criada só para atrair internautas para o site.

3. Verifique o endereço do site. Sites falsos frequentemente adotam nomes parecidos com os de veículos de comunicação reconhecidos. 4. Se o site for desconhecido, procure informações no link “sobre este site”. Ou faça uma pesquisa no Google, colocando o nome do site e a palavra “falso”. 5. Clique nos links da matéria. (Notícias falsas ou de baixa qualidade jornalística tendem a remeter para sites similares). E se a matéria não trouxer links, citações ou referências, esse é outro motivo para desconfiar. 6. Confirme uma notícia improvável procurando por um veículo reconhecido que tenha publicado a mesma informação.

Os 10 maiores sites de notícias falsas no Brasil

Um levantamento feito pela Associação dos Especialistas em Políticas Públicas de São Paulo (AEPPSP), identificou os maiores sites de notícias do Brasil que disseminam informações falsas, não-checadas ou boatos pela internet. São sites cujas informações não têm autoria, ou seja, nenhum jornalista assina as notícias e elas costumam ser cheias de opiniões e de discursos de ódio. Os sites mais compartilhados nas timelines são os seguintes: Ceticismo Político: http://www.ceticismopolitico.com/ Correio do Poder: http://www.correiodopoder.com/  Crítica Política: http://www.criticapolitica.org/  Diário do Brasil: http://www.diariodobrasil.org/ 

7. Confira a data original da notícia. Mídias sociais com frequência “ressuscitam” notícias antigas.

Folha do Povo: http://www.folhadopovo.com/ 

8. Leia além das manchetes. Elas frequentemente têm pouca relação com a matéria.

Folha Política: http://www.folhapolitica.org/ 

9. Fotos podem tanto estar identificadas incorretamente como podem ser antigas. Use um site de busca reversa de imagens, como o Google Imagens, para identificar a publicação original.

Gazeta Social: http://www.gazetasocial.com/ 

10. Use o seu instinto. Se uma notícia fizer você ficar com muita raiva, ela provavelmente foi construída para gerar essa reação. 11. Finalmente, se você não tem certeza de que a notícia é verdadeira, não reproduza. Na dúvida, não compartilhe!

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Implicante: http://www.implicante. org/   JornaLivre: https://jornalivre.com/  Pensa Brasil: https://pensabrasil.com


Países lidam de diferentes maneiras com o compartilhamento de notícias falsas

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om a proximidade das eleições na Alemanha, o governo alemão aprovou um projeto de lei que prevê multas de até 50 milhões de euros para as plataformas Twitter e Facebook, caso não removam em uma semana discursos de ódio e eventuais notícias falsas divulgadas por usuários em suas plataformas. As redes sociais também estarão propensas a multas individuais de até 5 milhões de euros em caso de não cumprimento da nova norma.

Desde a chegada de cerca de um milhão de requerentes de refúgio na Alemanha desde 2015, o volume de mensagens xenófobas e de ódio cresceu na internet. Alarmado pela natureza incendiária de muitas postagens, o governo alemão tem repetidamente advertido as empresas responsáveis pelas redes sociais para que tomem medidas que melhorem o policiamento do conteúdo em suas redes. A medida mais drástica foi proposta pelo fato

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dos gigantes das redes sociais não estarem fazendo o suficiente para apagar o conteúdo publicado de forma rápida. Se a lei for aprovada, as plataformas terão 24 horas para remover qualquer comentário que visivelmente fere a lei alemã, depois de serem denunciados por usuários. Qualquer outro conteúdo ofensivo terá de ser excluído dentro de sete dias depois de reportado.


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China controla todo o tráfego de notícias através da Xinhua News Agency. O governo determina como deve ser feita a cobertura de eventos e a Xinhua fica responsável pela produção de matérias. Como outros canais não podem fazer cobertura, tudo o que se lê ou vê na China é produzido pelo governo, de modo que a maior parte da população nem se dá conta da censura. A internet é controlada através do Escudo Dourado, um firewall, sistema de segurança que bloqueia sites que contenham certas palavras consideradas perigosas pelo governo. O escudo restringe também o acesso a sites como Google, Facebook, Twitter, YouTube, Instagram e Dailymotion. A primeira versão da proposta da lei de ciber segurança ampliou a proteção de dados dos usuários contra hackers e grupos de revenda de dados, mas também aumentou os poderes

do governo em acessar e bloquear a disseminação de registros privados que a legislação chinesa considera como ilegal. Em março de 2015, as autoridades chinesas intensificaram o controle sobre a informação na Internet. As novas regras proíbem o uso de qualquer informação que viole a Constituição e outras leis do país. A polêmica lei sobre a segurança cibernética limita a liberdade de expressão na internet e obriga as empresas, incluindo as estrangeiras, a cooperarem com o Estado para proteger a segurança nacional. Os artigos, blogs, fóruns e comentários nas redes sociais também podem ser censurados ou simplesmente apagados. A norma está centrada na proteção das redes nacionais e nos dados pessoais dos 710 milhões de internautas que há na China.

Boatos e falsas histórias que prejudicaram terceiros Vanessa Flaiban

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lataformas como o Facebook, juntamente com jornalistas, estão repensando seus sistemas e algoritmos para evitar que notícias falsas sejam legitimadas na rede. O Facebook já tomou medidas para ajudar os usuários a combater a disseminação de conteúdo falso. Por trás desta prática, de espalhar notícias falsas, existe muitas vezes um crime, tanto para quem cria o boato como para quem ajuda a espalhá-lo. Ainda que o boato não tenha como alvo uma pessoa em especifico, ele pode ser considerado contravenção penal referente à paz pública, caso tenha gerado pânico na população por

alertar para um perigo inexistente. O boato pode ir desde uma simples fofoca, que não gera dano mensurável nem pode ser penalizada, até uma atitude que provoca dano a todo um país ou morte de pessoas. Há também o cyberbullying, injúria e golpes financeiros, que são situações criminosas. Muitas vezes os usuários não checam as fon-

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tes, ou não tem conhecimento e acabam repassando notícias e correntes falsas. Para que as pessoas tenham certeza do que estão lendo ou repassando, é importante checar as fontes, em caso de dúvidas consultar sites como: denuncie.org. br, boatos.org, e-Farsas, entre outros. O ideal é sempre ter certeza de que o que está sendo repassado é verdadeiro, pois há muitos casos que provocaram desde terror a homicídio, tais como: O caso da mulher do Guarujá, em São Paulo, que foi linchada e morta injustamente, após um boato nas redes sociais afirmando que ela praticava magia negra com crianças, em 2014.


“Recebia seis ligações por minuto”, diz Catarina Paladini sobre fraudes online em seu nome Emanuel Tansky

Deputado contou como foi ter falsas ofertas de emprego veiculadas a seu nome

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ivemos em uma era dominada pelo digital, onde as redes nos conectam e são vitrine para grandes jornais, revistas e outros meios de comunicação compartilharem matérias, reportagens, informações, etc. No meio de todos estes fatores, como em tudo na nossa sociedade, existem pessoas procurando maneiras de tirar vantagem. Informações falsas são compartilhadas em redes sociais em tempo real, muitas vezes sem punição e sem medir consequências. Entrevistamos o Deputado Estadual do Rio Grande do Sul, Catarina Paladini, que teve falsas informações divulgadas na rede social Facebook, em seu nome, onde ofertas de emprego inexistentes eram oferecidas na região sul do estado, zona que o Deputado iniciou sua carreira como político. Fraudes como a que ocorreu com o Deputado Catarina Paladini são cada vez mais frequentes, o que ascende os debates sobre a liberdade na internet. Até que ponto ela deve ser “regulamentada” e livre? O quão tênue é esta linha? Confira abaixo a nossa conversa com o Deputado que nos conta o caso e também sua opinião sobre este problema na internet:

Como você e sua equipe tiveram conhecimento das falsas ofertas de emprego? Qual foi sua reação? Comecei a receber diversas mensagens pelo whatsapp, recebi mais de 15 mil currículos para uma vaga que não existia, me vinculando como contato para a possibilidade de emprego com salário de R$ 5,5 mil, alimentação e vale-transporte. Meu celular ficou indisponível por cerca de um mês. Recebía 6 ligações por minuto, todas pelo ocorrido.    Quais foram as atitudes feitas em relação ao caso? Entrei em contato com a Polícia Civil e registrei ocorrência, desliguei o celular e coloquei a disposição o nosso telefone do gabinete.  Na sua visão, como é possível controlar este tipo de fraude? Em termos de internet, muitas vezes é difícil controlar e impedir fraudes. No entanto, já há uma lei federal que regulamenta esta área e aqueles que cometem abusos e crimes já podem ser responsabilizados e há meios para rastrear aqueles que abusam da liberdade de postagens.     Você é a favor da lei de regulamentação da internet? Sim, sou. A lei vem para regulamentar um setor, uma área, que traz inúmeros benefícios, mas não pode ser usada indevidamente. 

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Utilização das mídias como ferramenta

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ara reforçar seu discurso e espalhá-lo a todo povo alemão, Hitler nomeou Joseph Goebbels como Ministro de Propaganda. Este ficou responsável em propagar os ideais e conseguir o apoio total da população. Seu plano de propaganda era baseado em alguns princípios básicos. Um deles, consistia em tentar destruir um inimigo de cada vez. Deveriam simplificar, ignorando os alvos secundários. Já o princípio de contágio era baseado em divulgar a capacidade que o inimigo possuía de fazer o mal. Colocava-se um “antes” perfeito ao lado do presente e o futuro “depois” sendo contaminados pelo adversário. Também era atribuído a ele todos os males sociais. Como em qualquer governo totalitarista, a imprensa era controlada e manipulada a fim de atender as expectativas desejadas. As más notícias eram exageradas e aumentadas até que fossem desfiguradas, transformando um crime em mil crimes e criando assim um clima de profunda insegurança e temor. Os boatos eram replicados e amplamente divulgados até se transformarem em notícias veiculadas pela “imprensa oficial’. Com o controle das mídias, tudo que os ditos “inimigos” faziam, era transformado em algo torpe e de má índole. As ações deles eram vulgares e ordinárias. E não se dava tempo ao receptor para que ele duvidasse das informações divulgadas. O povo era sempre bombardeado com novas notícias, claro, todas elas exageradas e distorcidas. Para proteger todo esse engodo, eram convocados especialistas para fazer interpretações sobre as informações. Porém, eles procuravam reforçar o que o governo pretendia passar para o povo sobre os tais “inimigos”. O objetivo dos falsos debates era não deixar os receptores perceberem que os assuntos interpretados não eram verdadeiros. Além disso, as informações que

não eram convenientes eram ocultadas ao público leitor. Havia, também, o “princípio da transferência”. Os fatos do presente eram potencializados com fatos do passado. Sempre que fossem noticiados determinados fatos, estes eram acrescidos com outros que haviam acontecido antes. Tudo isso era para que houvesse uma unanimidade, para implantar uma convergência de assuntos de interesse geral, apoderando-se assim do sentimento produzido por estes e colocá-los contra o inimigo escolhido. Para disseminar as ideias em larga escala, o nazismo utilizou os meios de comunicação de massa como o rádio para a transmissão de discursos políticos de Hitler e, sem dúvida, isso foi uma peça chave para convencer a população. Viam nele uma figura “redentora”, “messiânica”. No livro “Consciência e inconsciência do nazismo”, o pesquisador Luiz Sérgio Krausz, afirma que “A gradativa entrega ao fanatismo que se observa na Alemanha dos anos 1933-1945 revela-se como o triunfo de uma retórica e de uma língua cujo objetivo é conduzir à criação de hordas e não de um corpo de consciências individuais”. Jornais alemães, como o Der Stürmer, por exemplo, publicavam caricaturas anti-semitas para descrever os judeus. Após os alemães invadirem a Polônia, em setembro de 1939, o regime nazista utilizou propagandas para causar a impressão de que os judeus não eram apenas sub-humanos, mas que eram também perigosos inimigos do Reich alemão. O regime tinha como objetivo aumentar o apoio ou o consentimento tácito da população alemã para as políticas, que tinham como objetivo a remoção permanente dos judeus das áreas onde viviam alemães.

Importância do cinema na propaganda nazista

A lém do rádio, o cinema também foi utilizado em larga escala. Teve um papel importante na disseminação das ideias do antissemitismo racial, da superioridade do poder militar alemão e da essência malévola de seus inimigos, como eram definidos pela ideologia nazista. Os filmes nazistas retratavam os judeus como seres inferiores que se infiltraram na sociedade ariana. O filme “O Eterno”, diri-

gido por Fritz Hippler, retratava os judeus como parasitas culturais ambulantes, consumidos pelo sexo e pelo amor ao dinheiro. O documentário “O Triunfo da Vontade”, de 1935, de Leni Riefenstahl, exaltava Hitler e o movimento Nacional-Socialista. É um dos filmes de propaganda política mais conhecidos na história do cinema, com grande reconhecimento das técnicas uti-

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lizadas, influenciando filmes, documentários e comerciais que viriam depois. Leni também dirigiu “Das Blaue Licht” (1932), “Der Sieg des Glaubens” (1933), “Tag der Freiheit - Unsere Wehrmacht” (1935), “Festliches Nürnberg” (1937) e “Olympia” (1938). Todos os filmes tinham o intuito de reforçar a supremacia nazista e a figura de líder supremo do movimento.


Como medir a credibilidade jornalística

Felipe Rodrigo Borba

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om a internet a chegada da informação se tornou muito rápida. A cada minuto temos em nossas mãos uma nova notícia. Por um lado, isso é ótimo, pois estaremos sempre bem informados. Mas com tanta rapidez é possível que os consumidores de conteúdo busquem informações nos lugares errados. Mas como medir a credibilidade de um veículo de comunicação ou de um profissional jornalista, que leva essas informações ao público? Hoje em dia é muito comum vermos pessoas compartilharem notícias falsas de sites sem credibilidade. Com a polarização política que vive o país, as coisas se intensificaram. Muitos sites e jornalistas levam em seu produto um discurso carregado de ideologia. Mas até que ponto isso é errado? Um profissional de comunicação, em específico o jornalista, tem sua credibilidade medida pela checagem das informações que recebe. Quem afirma, é a jornalista Ana Rita Marini. Ela já exerceu cargos de editora no jornal Correio

do Povo e foi diretora de Jornalismo na Prefeitura de Canoas. “O jornalista tem que ir na fonte e ver se a informação é verdadeira. Se não existe isso, não pode ser crível aquilo sobre o que ele está falando”, afirmou. Ela afirma que, se por exemplo, um jornalista sabe de um fato e publica sem checar, está perdendo sua credibilidade com o público consumidor. “Ir ao local nem sempre é possível, mas checar sempre é possível”, diz. Quando o assunto é ideologia, ela afirma que pode atrapalhar na construção de uma notícia, mas isso não é uma regra. “Se o jornalista deixa clara sua posição ideológica, seja qual for, não estará enganando o público. Agora, se ele deixar que essa ideologia interfira na busca pelo contraditório, fica difícil de aquela notícia ou reportagem ser abrangente ou credível”, afirma. Sobre os veículos que se posicionam ideologicamente, como as revistas CartaCapital (esquerda) e Veja (direita), Ana Rita afirma que se há essa afirmação pelo veí-

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culo sobre sua ideologia, podem ser dignos de credibilidade. “Acho que todos os veículos teriam mais credibilidade se deixassem claro em seus editoriais que eles têm opinião política e têm viés ideológico”. Para Ana Rita, o que não dá credibilidade ao veículo é a falsa ideia de isenção. “Eles fazem um discurso de isenção, mas estão fazendo um recorte totalmente moralista. Deixando clara essa linha ideológica, sim, são críveis. Do contrário não”, conclui. A opinião política é muito comum em jornais e revistas. Localmente, o Sul21 é um jornal que se posiciona como uma mídia de esquerda. Leva em seu site artigos de personalidades e políticos de esquerda. A posição política é natural e existe, mas a credibilidade está presente, pois são sinceros com os consumidores de que eles têm uma posição e que isso não atrapalha, como disse a entrevistada, na busca pelo contraditório.


Propaganda no fim do regime nazista

Thiago Ribeiro

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urante a implementação da chamada Solução Final, que consistia no extermínio em massa de judeus nos campos de concentração, os soldados da SS (organização paramilitar ligada ao partido nazista) forçavam os prisioneiros a apresentar um semblante de normalidade em ocasiões em que vinham visitas ou quando eram feitas fotos e filmagens nos campos. Chegavam a obrigar aqueles que iam para as câmaras de gás a enviar cartões-postais para amigos e parentes dizendo que estavam sendo bem tratados e que viviam em excelentes condições. Isso servia para acalmar as pessoas contrárias e também para acobertar as atrocidades e o extermínio em massa que era praticado naqueles locais. Em junho de 1944, uma equipe da Cruz Vermelha Internacional inspecionou o gueto de Theresienstadt, localizado no Protetorado de Boêmia e Moravia, hoje República Tcheca. O local havia sido transformado em um instrumento de propaganda para consumo doméstico, e era usado como uma explicação para os alemães que ficavam intrigados com a deportação de judeus alemães e austríacos de idade avançada, de veteranos de guerra incapacitados, ou artistas e músicos locais famosos para “trabalharem no leste”. Com isso, o gueto passou por um processo de melhoria. Após a inspeção, foi produzido um filme usando os residentes do local para demonstrar que eles estavam sendo bem tratados. Após o documentário ser finalizado, todos foram enviados para o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. O regime nazista utilizou até o fim a propaganda de forma efetiva para mobilizar a população alemã no apoio à sua guerra de conquistas. A propaganda era essencial para dar motivação aos soldados envolvidos nos extermínios em massa de judeus e de outras vítimas do regime nazista. Também serviu como forma de aceitação das pessoas que permaneceram como espectadoras diante da perseguição racial e do extermínio em massa de que eram testemunhas indiretas.

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Goebbels, o gênio da propaganda nazista

aul Joseph Goebbels nasceu no dia 29 de outubro de 1897 numa casa na Odenkirchener Strasse em Rheydt, uma pequena cidade industrial ao sul de Mönchengladbach perto de Düsseldorf. Os seus pais eram católicos e de poucos recursos. Seu pai Friedrich era empregado de uma fábrica, e sua mãe, Katharina, era dona de casa. Goebbels tinha ainda cinco irmãos, e todos viviam em uma casa simples. Durante a sua infância, Goebbels sofreu vários problemas de saúde, como inflamação dos pulmões. Tinha no pé direito uma deformidade congênita. Passou por uma operação, sem sucesso, antes de entrar para a escola. Teve que usar um aparelho metálico e um sapato especial por causa da sua perna mais curta. Não chegou a lutar na Primeira Guerra Mundial, pois foi dispensado do serviço militar devido à sua deformidade. Em 1922, doutorou-se com muito esforço em Filosofia na Universidade de Heidelberg. Nesta época, Goebbels ainda não estava envolvido na política, mas já apresentava um fervor nacionalista, intensificado pelo resultado frustrante da Primeira Guerra Mundial. Antes de apoiar e fazer parte de um governo antissemita, Goebbels tinha uma postura diferente na universidade. Um colega lhe apresentou ideias socialistas e comunistas: era antiburguês, mas não antissemita. Admirava os professores judeus e chegou a ficar noivo de uma moça de família judaica. Em 1924, Goebbels aproximou-se de um grupo de nacional-socialistas. Por ser um ótimo orador, foi colocado no posto de administrador do distrito do Partido Alemão Nacional-Socialista (NSDAP) de Trabalhadores em Elberfeld e editor de um magazine nacional socialista quinzenal. Após obter o doutorado, Goebbels juntou-se ao Partido Nazista e foi nomeado líder do distrito de Berlim por Adolf Hitler, em 1926. Suas habilidades com os discursos fizeram Goebbels tornar-se editor do jornal do partido. Começou então a criar o mito do “Führer” (líder, dirigente) ao redor da pessoa de Adolf Hitler e a instituir o ritual das celebrações

e demonstrações do partido, o que teve um papel decisivo para converter as massas ao Nacional Socialismo. Aparecia constantemente perante o público, diferente dos outros líderes nazistas. Após Hitler assumir o poder em 1933, Goebbels foi nomeado para chefiar o Ministério Nacional para Esclarecimento Público e Propaganda, e passou a controlar a máquina de propaganda nacional. Ficou marcado por sua aversão aos judeus e comunistas, sua admiração pela figura de Hitler e seu fanatismo pelo poder. Durante a Segunda Guerra Mundial, ficou responsável pela blitz de propaganda para aumentar as esperanças alemãs no confronto. No ministério, controlava a imprensa, o rádio, o teatro, os filmes, a literatura, a música e também as belas artes. O objetivo de sua propaganda na mídia era criar esperanças, citando paralelos históricos e fazendo outras comparações, conjurando leis de história pretensamente imutáveis ou, como último recurso, referindo-se a algumas armas secretas. Casou em 1931 com Magda Behrend, uma mulher de classe média alta, que deu à luz a seis crianças. Segundo historiadores, todas elas foram batizadas com nomes começados pela letra “H”, a fim de homenagear Hitler. Nos anos de 1937 e 1938, chegou a se envolver com uma estrela de cinema tchecoslovaca, que quase o levou a deixar a sua carreira e família. Foi o único líder nazista que ficou ao lado de Hitler até o fim, mostrando de fato a sua fidelidade ao “Führer”. No dia 1º de maio de 1945, um dia após o suicídio do líder alemão, o ministro e sua mulher se suicidaram, matando também seus seis filhos, no abrigo do líder nazista situado em Berlim. No dia anterior havia sido nomeado chanceler do “Reich” por vontade de Hitler. Por um dia chegou, assim, a ser o último sucessor de Otto von Bismark.

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Como funcionava a propaganda nazista

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uando se fala em nazismo, a primeira figura que vem à cabeça é a de Adolf Hitler, o líder máximo do movimento que liderou a Alemanha entre 1933 e 1945. Entretanto, é sabido que a política de propaganda imposta naquela época, aliada aos discursos e a ótima retórica de Hitler, foi o principal combustível para convencer e doutrinar a população alemã. Em 1933 Hitler foi eleito chanceler pelo Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Neste período a Alemanha ainda sofria com uma crise política, econômica e social. O orgulho do povo alemão estava ferido após a derrota que sofrera na I Guerra Mundial. Essa atmosfera produziu um enorme ressentimento nos alemães com relação aos outros países, facilitando assim

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o rápido domínio e aceitação do povo ao Nazismo. Após chegar ao cargo, o segundo de maior importância do país, ocorreu um incêndio criminoso do parlamento alemão. Este, por sua vez, foi atribuído aos comunistas, e Hitler passou a pressionar o então presidente Von Hindenburg pedindo mais poder. Com a morte de Hindenburg, Hitler assumiu o cargo, implantando assim um governo totalitarista. Hitler, com o apoio de seu partido, já havia tentado tomar o poder em 1923, porém, sem sucesso. Enquanto estava preso, aperfeiçoou o conceito do nazismo e escreveu o livro “Mein Kampf” (“Minha Luta”). O programa de governo nazista seria posteriormente baseado na obra. O objetivo da ideologia era resgatar a dignidade política da Alemanha, o passado glorioso alemão, com a implantação do Terceiro Reich.


Os blogs financiados em meio a era da pós-verdade Rodrigo Cassol

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logs são veículos de publicação digital, geralmente associados à ideia de diários virtuais. Neles, um ou mais autores publicam seus textos - normalmente acerca de um tema específico. O termo ‘weblog’ foi criado em dezembro de 1997, pelo americano Jorn Barger. Em maio de 1999, abreviando as palavras web e log, Peter Merholz decidiu passar a pronunciar weblog apenas como ‘blog’. A necessidade de expressar suas opiniões a todo o momento e a facilidade para se criar um blog fizeram com que a ferramenta alcançasse popularidade em boa parte do mundo. Entretanto, na era da pós-verdade, alguns diários virtuais têm sido usados para propagar ideologias políticas. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, no ano passado, o presidente Michel Temer (PMDB) cortou recursos de blogs e sites considerados “aliados” da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Conforme a publicação, Temer bloqueou ao menos R$ 8 milhões dos R$ 11 milhões previstos para serem liberados até dezembro, em publicidade. Documento obtido pelo jornal O Globo mostrou que 19 sites e blogs de notícias recebiam patrocínio do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobras, Ministério da Justiça, Ministério da Previdência Social, Ministério da Educação e Ministério da Saúde. Ainda segundo o Estadão, deixaram de receber recursos os sites Brasil 247, Diário do Centro do Mun-

do e Conversa Afiada, do jornalista Paulo Henrique Amorim. Também estão na lista O Cafezinho, Pragmatismo Político e o Blog do Esmael, entre outros. Conforme fontes do Palácio do Planalto, a justificativa para a suspensão dos contratos é que o dinheiro público estava abastecendo blogs de opinião, o que, na avaliação da nova gestão, contrariava o interesse público. Para a jornalista, professora da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio do Sinos (Unisinos), Vanessa Hauser, esses tipos de blogs são importantes porque evidenciam o contraditório. “Acredito que esses blogs cumprem uma função mui-

to importante hoje em dia – que é a do contraponto. Não vejo prejuízo com a existência deles e tampouco que eles sejam financiados pelos governos. Vejo isso como um ponto positivo para que as pessoas possam ter uma visão mais plural do que está acontecendo”, disse. Hauser acredita que o problema não está no financiamento dos blogs, mas sim na busca das pessoas por informação. “A maior dificuldade que vejo é essa ideia que chamamos de bolha. Se sou de esquerda, por exemplo, só leio o Brasil 247, a Carta Capital ou o Pragmatismo Político. Se quiser ter uma visão real e crítica do que está acontecendo, tem que fazer o esforço de sair da bolha e buscar o contraditório. Dessa forma, vamos conseguir construir uma visão de mundo mais correta”, afirmou.

Outros tipos de influência Além de sites e blogs financiados, existem outras formas de influência patrocinada por partidos políticos. Em uma gravação do ano passado em que o site Uol teve acesso, Renan Antônio Ferreira dos Santos, um dos três coordenadores nacionais do Movimento Brasil Livre (MBL) – movimento autodefinido como apartidário e sem ligações financeiras com siglas políticas - diz em mensagem a um colega que tinha fechado com partidos políticos para divulgar os protestos do dia 13 de março usando as “máquinas deles também”. Ainda segundo o Uol, o MBL recebeu apoio financeiro, como impressão de panfletos e uso de carros de som, de partidos políticos como o PMDB e o Solidariedade. Em nota enviada, Renan Santos confirmou a autenticidade do áudio e informou que o comitê do impeachment contava com lideranças de vários partidos, entre eles, DEM, PSDB, SD e PMDB. Santos, entretanto, disse que considera normal que partidos de oposição se juntem à causa. “As manifestações não são do MBL. Nada mais natural que os partidos de oposição fossem convidados a usar suas redes de divulgação e militância para divulgar a data. Não houve nenhuma ajuda direcionada ao MBL. Pedimos apenas para que divulgassem com toda energia possível. Creio que todos o fizeram”, afirmou.

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O combate a pós-verdade

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omo saída para superar a divulgação de falsas notícias, Vanessa Hauser acredita que o caminho é a verificação. “Acho que a grande tendência do jornalismo é a checagem das notícias. Os grandes jornais estão apostando muito nisso - verificando notícias falsas que circulam pela rede. Acho que isso vai acabar se desenvolvendo muito daqui para a frente no jornalismo e vai ser importante para ajudar a esclarecer como se verifica e se trabalha com uma informação de forma mais correta possível. Em abril, o Facebook anunciou um filtro para falsas notícias, alertando seus usuários sobre a pouca veracidade do conteúdo visto. Em princípio, segundo o site do El País, a ferramenta estará disponível em 14 países – incluindo o Brasil. “Queremos que a informação compartilhada no  Facebook  seja séria e verdadeira”, afirmou Adam Mosseri, vice-presidente do News Feed, o alimentador de notícias do Facebook.

Kaue Camargo

Sites pagos

Vanessa Hauser, professora da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) e doutora em Ciências da Comunicação.

MBL

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m dos principais opositores do Governo do PT e da ex-presidente Dilma nas redes sociais e nos protestos, o Movimento Brasil Livre, MBL, fundado em 2014 e que se dizia apartidário teve, em 2016, conversas divulgadas revelando diálogos que poderiam ser, no mínimo, constrangedores para o futuro do movimento. Segundo áudios divulgados nos principais meios de comunicação como UOL, Bandeirantes, Folha de S. Paulo, o grupo teria recebido dinheiro de partidos políticos para os atos pró-impeachment. Ainda de acordo com as matérias, o PMDB, atual partido que comanda o Brasil, teria financiado 20 mil panfletos pró-impeachment. 

Segundo os portais, o MBL (que se dizia apartidário) também recebeu apoio nas manifestações de partidos como Solidariedade, Democratas e PSBD.  Inclusive, nas últimas eleições, o grupo apartidário acabou elegendo parlamentares, ligados a partidos como PSDB e DEM. Nas últimas eleições foram eleitos, Fernando Holiday (SP), Marschelo Merche (SP), Carol Gomes (SP), Ramiro Rosário (RS), Leonardo Braga (RS), Filipe Barros (PR) e Homero Marchese (PR), todos ligados ao MBL. A época o MBL divulgou nota ao site UOL esclarecendo o assunto e que não houve ajuda direcionada ao Movimento Brasil Livre “As manifestações não são

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do MBL. 13 de Março pertence a todos os brasileiros, e nada mais natural que os partidos de oposição fossem convidados a usar suas redes de divulgação e militância para divulgar a data. Não houve nenhuma ajuda direcionada ao MBL. Pedimos apenas que divulgassem com toda energia possível. Creio que todos o fizeram” Blogs PT. O outro lado da política também não fica muito longe de ser um suposto financiador de propagandas petistas. Na tabela divulgada no blog do colunista Felipe Moura, o governo de Dilma aumentou a publicidade em mídia para sites que poderiam apoiar o governo. Chamados de blogs patrocinados pelo PT para atacar jornalistas e mídias independentes que deunciavam a roubalheira do suposto partido, os sites em questão estão listados em uma tabela com a manchete “Quanto você paga para os blogs sujos do PT”. Sites como Brasil 247, Brasil de Fato, Brasil Econômico, Luís Nassif, Diário do Centro do Mundo, Carta Maior, Paulo Henrique Amorin, Opera Mundi, Fórum e Kennedy Alencar estão na lista como supostos meios de comunicação que fazem a agenda positiva para o Partido dos Trabalhadores. Outro fato abordado à época foi que a publicidade aumentou de R$6,9 milhões em 2015 para R$9,2 milhões em 2016. Justamente em ano eleitoral para o cargo de Presidente da República.


A ERA DA PÓS-VERDADE CORRESPONDE UM PÓS-JORNALISMO Darwin Nascimento Segundo o Dicionário Oxford, a pós-verdade é relativo ou referente a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais.

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ós-verdade foi a palavra do ano (2016) para o Dicionário Oxford, que constatou que o seu uso cresceu no contexto do referendo britânico sobre a União Europeia e nas eleições presidenciais dos Estados Unidos”, até converterse em um termo comum nas análises políticas. O TERMO O termo foi utilizado pela primeira vez em um artigo de Steve Tsich, publicado em 1992 na revista The Nation, no qual ele falava sobre a primeira Guerra do Golfo. Tsich lamentava que “nós, como povo livre, decidimos livremente que queremos viver em uma espécie de mundo da pós-verdade”, ou seja, um mundo no qual a verdade não é mais tão importante ou relevante. O Oxford ainda citou um artigo do Independent, publicado antes mesmo das eleições americanas que afirma que depois das eleições, passamos a viver na sociedade da pósverdade: “A verdade desvalorizou-se tanto que passou de ideal ao debate político a uma moeda sem valor”. Outro texto, do The Economist, com o título “A arte da mentira”, diz que “Trump é o principal expoente da política da pós-verdade, que se baseia em frases que ‘passam a sensação de serem verdadeiras’, mas que não têm nenhuma base real”. PINÓQUIO AMERICANO Se você está pensando que isso sempre aconteceu em campanhas políticas, bem, você não está sozinho. Mas muita gente defende que este é um fenômeno novo e com alcance inédito na história. Por exemplo, Donald Trump demorou anos para admitir que o presidente Barack Obama é, de fato, cidadão americano. Uma teoria conspiratória popular nas redes da direita norte-americana diz que Obama teria nascido no Quênia, terra natal de seu pai, o que o tornaria inabilitado para ser comandante-chefe. Trump cavalgou nesta história o quanto pode, usando a raiva de uma parte do eleitorado para arregimentar apoio. Trata-se de apenas um exemplo. Há uma extensa lista de mentiras que o milionário contou e usou como propaganda política e subsídios para debates. Mesmo assim, Trump conseguiu ser eleito.

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a discussão política, não se leva em conta a realidade, mas se escolhem ideias e se buscam os argumentos que melhor as defendam. Tanto faz que eles tenham sido negados anteriormente: uma vez que se diz alguma coisa, mantém-se até o fim. Vale lembrar que não estamos falando de opiniões ou interpretações, mas de discursos que se apresentam como relatos de fatos. Como, por exemplo, que Obama fundou o Estado Islâmico. No pior dos casos, sempre é possível dizer que era sarcasmo. E, em seguida, acrescentar: “Mas nem tanto”. Esse comportamento não se limita às campanhas eleitorais. Trump segue com o mesmo tom. Por exemplo, o atual presidente americano publicou um tuíte no qual dizia que o New York Times estava perdendo seguidores por causa da cobertura equivocada na época da sua campanha. O jornal respondeu em outro tuíte, no qual dizia que estava acontecendo exatamente o contrário: as assinaturas estavam crescendo. De onde Trump havia tirado essa informação? Não importa: ele já a havia considerado digna de ser compartilhada em um tuíte porque correspondia com sua visão da realidade, ou, pelo menos, com a visão que quer que os demais tenham.

De fato, o uso que alguns veículos de imprensa fazem das redes sociais também contribuiu para a difusão desse termo. Lembremos, por exemplo, as críticas ao Facebook por permitir a difusão de notícias falsas, especialmente durante a campanha eleitoral americana (e não apenas a favor de Trump, é claro).

No final das contas, o que importa é que a notícia chegue a mais pessoas que o desmentido, se houver um. Por exemplo, o tuíte deTrump foi compartilhado 35.000 vezes, e o do diário, 2.600.

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o Brasil, aliás, a “pós-verdade” é a linguagem da moda na política e não ocorre apenas nos delírios fundamentalistas. Como vários parlamentares admitiram, Dilma Rousseff não cometeu nenhum crime de responsabilidade na Presidência da República, condição indispensável para o impeachment, mesmo assim foi deposta pelo “conjunto da obra” e nada foi capaz de impedir. A Operação Lava Jato mistura intencionalmente doações legais que empresas fizeram a candidatos nas eleições com propinas que pagaram a parlamentares, criminalizando a política como um todo, e o eleitorado conservador vai às ruas para apoiar o juiz Sergio Moro e seus cruzados da moralidade pública, sem fazer qualquer ressalva. É um eleitorado capaz de jurar sobre a Bíblia que o “filho do Lula”, esse ser abstrato e afortunado, é dono da Friboi e de quase tudo no País. E que se preocupa seriamente quando a “musa do impeachment”, a advogada Janaína Paschoal, comenta sobre a possível instalação de uma base naval russa na Venezuela e diz que Vladimir Putin está prestes a invadir o Brasil. O PASSADO NOS CONDENA Houve outros momentos, porém, em que as pessoas foram levadas a acreditar em coisas que não eram verdade. Na Alemanha nazista, por exemplo, a eugenia era tratada como verdade científica apesar de não se basear em dados, apenas em preconceitos, racismo e antissemitismo. A caça às bruxas nos Estados Unidos dos anos 50, marcado pelo macartismo, mandou muito inocentes para a prisão sob a acusação de serem “espiões comunistas”. O comunismo é, aliás, até hoje um bicho papão universal, que serve para acusar qualquer política minimamente progressista de ser stalinista e totalitária.

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“pós-verdade” talvez expresse, no plano da mídia, a mesma perda de credibilidade que afeta a política. Uma imprensa que se acredita “a serviço do Brasil”, “de rabo preso com o leitor”, que “faz a diferença”, que tem “tudo a ver”, padece hoje da desconfiança tanto do público de esquerda quanto daquele de direita. Ambos sabem que essa imprensa lê o mundo pela ótica estrita de seus interesses – de classe, políticos, empresariais etc. – e que são eles que definem as notícias, não a importância dos fatos. Se é assim, se a notícia é o que o veículo quer que ela seja, se a “verdade” é tão relativa e subjetiva quanto qualquer opinião, por que o espanto com a explosão da “pósverdade”? O cidadão comum posiciona-se

sobre um terreno movediço de informações, cada vez mais instável, e precisa angustiadamente da segurança das certezas. Vai encontrá-la na própria posse de ideias que lhe foram induzidas pela educação familiar, a formação escolar e o convívio social. Se os fatos se ajustarem a essas ideias, ótimo. Caso contrário, não virão ao caso. À era da “pós-verdade”, portanto, corresponde um “pós-jornalismo”. Não é mais aquele que duvida, pergunta, reflete, busca interpretar a complexidade do mundo, mas que afirma peremptoriamente, sentencia, reitera, constrói a realidade conforme os lobbies que faz ou defende. Na balbúrdia da vida digital, no caos informativo das redes sociais, ele é apenas uma fonte a mais de “convicções”, não uma

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bússola para a informação confiável. Mas, prepotente, prefere atacar o Facebook e demais distribuidores de conteúdos do que fazer a autocrítica dos próprios defeitos. Em meio a tudo isso, o cidadão vai desanimando. Pesquisa da empresa de tecnologia Kaspersky apurou que 73% dos usuários brasileiros de redes sociais pensam em excluir seus perfis e só não o fazem para não ficar longe dos amigos e das recordações. No mesmo estudos, os americanos insatisfeitos são 78%. O porquê da insatisfação? Todos consideram as plataformas uma perda de tempo. Estão saturados das meias-verdades e mentiras inteiras que alimentam indistintamente notícias ou delírios, em tempos obscuros de “pós-verdade”.


Revista Babel 15  

Revista semestral produzida pelos alunos da disciplina de Produção para Impresso 2017/1

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