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Publicação semanal produzida pelos estagiários da Agência Experimental do curso de Comunicação Social da Ulbra/Canoas. Esteban Duarte, Andressa Araujo (textos) e Pedro Henrique Freitas (fotografia).

ANO 6 - NÚMERO 87 l 2 A 9 DE JUNHO DE 2014

Universidade inaugura Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas Foi inaugurado na última terça-feira, 27 de maio, o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI) da Ulbra Canoas. Como parte do evento, foi realizada uma palestra com o tema “Cultura e questões Indígenas no Rio Grande do Sul”, pelo convidado Zaqueu Kaingang, Presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Grande do Sul. Na abertura do evento, o membro do conselho do NEABI e coordenador do Curso de História, Roberto dos Santos, ressaltou a importância da ocasião: “esse é um momento histórico na Universidade, há mais ou menos 20 anos reivindicamos núcleos de pesquisas nesta área. Este núcleo, localizado no prédio 6, sala 21, servirá para dar conta de questões importantes na educação do Brasil. O Núcleo irá instrumentalizar e auxiliar todos os cursos, na busca de conhecimentos na área de culturas afro-brasileiras e indígenas”. O NEABI é um programa Institucional e está aberto a todos os cursos da Universidade. O diretor do campus Canoas, Erivaldo Diniz de Brito, exaltou a inauguração: “Nós acreditamos no avanço dessa pesquisa, no sucesso e importância do núcleo, para buscar cada vez mais qualidade de vida ao ser humano.” Já o Pró-reitor Adjunto de Ensino Presencial, Pedro Hernández, comentou a demora para que as culturas afro-brasileiras e indígenas fossem incorporadas ao ensino básico brasileiro.

Além de professores e alunos, também estiveram presentes a diretora geral de Ensino da Universidade, Graziela Oyarzabal, e a coordenadora de Ensino do campus Canoas, Lucimar Brum. Zaqueu iniciou a palestra falando sobre sua trajetória educacional, desde os primeiros anos no ensino fundamental, até a entrada no ensino superior. “Nasci e me criei em terras indígenas, e fui escolhido para ir até a grande cidade para estudar, voltar para minha aldeia e lutar pelo meu povo.” Kaingang comentou sobre o início de suas atividades escolares, sofrendo grave repressão da escola administrada na época pelo SPI (Serviço de Proteção aos Índios), “aos 13 anos entrei na escola do SPI e nem sabia falar português. Naquela época queriam que abandonássemos nosso idioma, nossas tradições. As escolas do SPI só serviam para acabar com a cultura e com o conhecimento indígena.” Conforme informações do site “Povos Indígenas do Brasil”, no início da década de 1960, sob acusações de genocídio, corrupção e ineficiência o SPI foi investigado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e em 1967, em meio à crise institucional e ao início da ditadura, foi extinta e substituída pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI).

FOTOS ACS

Zaqueu Kaingang, no detalhe, foi convidado para palestrar na inauguração do núcleo

Segundo o palestrante, diante das repressões e injustiças, os indígenas decidiram agir de forma diferente: “Dali em diante pensamos que teríamos que fazer uma revolução dentro das aldeias. Aos poucos, resolvemos ir até as cidades para estudar, pesquisar, buscar novos conhecimentos. Sempre pensando no futuro, na proteção do nosso povo.” Zaqueu também enalteceu a inauguração do NEABI, “Acho muito importante essa implantação de Núcleos. Se não fizermos com que entendam a importância de um povo que sobreviveu a tantos ataques, jamais teremos uma humanidade sadia. Se pensarmos nos núcleos como um ponto de valorização para discutir diversas culturas, estaremos formando uma nova geração que terá outro olhar sobre as questões de estudo das culturas Indígenas e Afro Brasileiras.” Com graduação em Pedagogia, especialização e mestrado em Educação Profissional, o líder indígena demonstrou sua insatisfação com a educação básica direcionada ao povo indígena: “A jurisdição da nossa educação está nas mãos do Estado. Os materiais e diretrizes são produzidos por eles, sem consulta ou colaboração dos povos indígenas. Lutamos para ter mais controle do ensino, para fazer uma escola com educação especializada, essa é a escola dos nossos sonhos, respeitando as culturas e tradições indígenas.” A distribuição das terras indígenas também foi discutida: “Nós queremos viver do jeito que nossos ancestrais viviam. Não estamos em confronto com ninguém, queremos apenas justiça, queremos nossas terras. Não queremos que o pequeno agricultor saia de mãos vazias, queremos que o governo assuma a responsabilidade, indenizando-os.” Após a palestra foi aberto espaço para perguntas, quando os presentes questionaram a adaptação dos indígenas à sociedade atual sem a perda de suas tradições. A visão que se tem do governo e seus modos de abordagem com os povos indígenas também foram questionadas, e Zaqueu disse que “existe muita morosidade estatal” no Brasil, segundo ele, os governantes não tem “pulso firme”.


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