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FACULDADE DA SERRA GAÚCHA JORNAL EXPERIMENTAL DO CURSO DE JORNALISMO Redação Jornalística I

Igor Farias Coelho

EDIÇÃO 4 | DEZEMBRO | 2016

Dossiê

Os impactos do hábito de beber Consumo de bebidas alcoólicas movimenta bilhões de reais a cada ano, mas tem consequências na saúde e pode impulsionar a violência doméstica.


EDITORIAL Matheus de Oliveira

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Os muitos aspectos do álcool

O consumo de bebidas alcoólicas integra a vida pública e privada das pessoas - com implicações na economia, na saúde e no convívio social. Beber é um hábito antigo que se transformou em um negócio bilionário nos dias atuais, com milhares de empreendimentos envolvendo a produção e o comércio, empregos diretos e indiretos e so-

mas gigantescas pagas em impostos. Os reflexos econômicos são evidentes, mas não são os únicos. Bebidas como cerveja, vinho, cachaça e uísque, principalmente quando consumidas em excesso, podem levar a sérios problemas de saúde e afetar o convívio social. Quem bebe em demasia costuma criar proble-

mas para sua família e, em muitos casos, pode perder o emprego. A bebida também tem relação com a violência. A edição deste Falatório se propõe a olhar sobre esses vários aspectos relacionados ao álcool. Com textos produzidos pelos alunos da disciplina Redação Jornalística I, e algumas imagens dos estudantes do

Com moderação

lacionados a divulgação de marcas. Em busca de informações, os alunos foram atrás de histórias interessantes, realizaram uma série de entrevistas, pesquisaram sobre o tema e procuraram compreender a complexidade do tema do álcool. Essa edição não esgota o tema mas auxilia na discussão sobre o assunto. Boa leitura!

Hoje é dia de comemorar!

Márcia Bastian Falkenbach

Nunca fiz amizade bebendo leite. Essa frase é comum de se escutar quando se debate o papel social do álcool. Sua presença em todos os momentos, bons ou ruins, é tão aceita que seus efeitos nocivos são comumente relegados a um segundo plano, afinal, ninguém nunca fez amigos bebendo leite. Sem demagogias: é difícil encontrar uma pessoa acima dos 14 ou 15 anos que jamais tenha consumido algum tipo de bebida alcoólica, e alguma talvez só um pouco mais velha que não tenha vivido ou visto acontecer casos de bebedeira extrema. Igualmente é raro um final de semana que não termine com mortos no trânsito por causa de direção embriagada em algum canto do país. Mas isso é o de menos, afinal, o álcool aciona aquela chavezinha no cérebro que nos liberta

curso de Fotografia, a edição aborda questões econômicas, culturais e sociais. Há relatos de pessoas que foram ao fundo do poço e, após muito esforço, conseguiram dar a volta por cima, de profissionais que trabalham com viciados, histórias de como os jovens começam a beber, de produtores e comerciantes de vinho e, também, de eventos re-

Douglas Goulart

das amarras morais e nos torna mais sociáveis, de mais fácil trato, mais divertidos. Certo? Certo. Vejamos do lado otimista, claro, sem considerar os que se tornam extremamente violentos, ou os que estragam a noite dos amigos precisando de companhia no banheiro enquanto choram e vomitam ao mesmo tempo. Proibir o álcool então? Não, nem ousaria sugerir isso, o ano novo tá chegando e o brinde de espumante é fundamental. Não apenas

porque o álcool está tão enraizado em nossa cultura que será impossível convencer qualquer autoridade a tirá-lo dela, mas porque o que é proibido é mais gostoso – outro dito popular que todo mundo já ouviu. O que fazer? Honestamente, não sei. Nem é meu papel propor soluções, estou aqui só pela polêmica! Então ok, antes que eu cause a discórdia, vou encerrar essa crônica como um bom comercial de cerveja: beba com moderação.

Sem demagogias: é difícil encontrar uma pessoa acima dos 14 ou 15 anos que jamais tenha consumido algum tipo de bebida alcoólica, e alguma talvez só um pouco mais velha que não tenha vivido ou visto acontecer casos de bebedeira extrema.

Quem de nós nunca esteve sozinho e sem nada para fazer em algum momento de nossas vidas, aquele tédio tomando conta e de repente aquele estalo, “vou tomar um choppinho”? Quem de nós nunca esteve procurando algo para fazer e recebeu uma mensagem no grupo daquele famoso aplicativo de mensagens: “Alguém afim de tomar uma cervejinha?”. Enfim, quem nunca achou que tomar uma bebida não iria melhorar nosso dia ou noite? A bebida sempre foi um objeto de interação na sociedade. E sempre será. Quantas vezes saímos para tomar aquela cervejinha básica (e gelada) com os velhos amigos ou colegas de trabalho, faculdade, etc e acabamos fazendo novas amizades, paixões e até amores? Dos novos amigos vem os novos encontros e com eles sempre uma bebida pra dar aquela relaxada básica e ver o tempo passar mais devagar. Afinal não existe um bom churrasco que não

Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG) Rua Os Dezoito do Forte, 2366 | Caxias do Sul-RS Reitor Adriano Pistore Vice-reitor Fabio Dall Alba Diretora Acadêmica Delzimar da Costa Lima Coordenador do curso de Jornalismo: Felipe Gue Martini

seja aberto por uma bela caipinha e depois uma boa cerveja. Não deveria existir um futebol com amigos sem uma cerveja após. Não existe um bom jantar romântico sem um bom vinho. Não existe uma comemoração especial sem algo que se beba. Sempre presente, a bebida nos traz momentos invariáveis de alegria, bom humor, lembranças e expectativas. É claro que sempre devemos tomar o cuidado com os abusos, mas se consumirmos sempre com moderação, como nos insiste as inúmeras propagandas, com certeza teremos uma vida mais leve e feliz. A vida passa tão depressa diante de nossos olhos. Então, por que não brindamos a ela sempre que tivermos a oportunidade? Vamos viver nossos sonhos e brindar sempre que possível. Vamos ser felizes. Vamos celebrar qualquer motivo hoje. Vamos. Tim tim...

Falatório é um jornal experimental do curso de Jornalismo. Neste segundo semestre de 2016, foi produzido pelos alunos de Redação Jornalística I e Introdução à Fotografia. Professor: Luiz Carlos Erbes Projeto gráfico e diagramação: Marcelo Aramis (TXT Produção de Conteúdo)


3 Studio Geremia/Acervo AHJSA

FALATÓRIO JORNAL EXPERIMENTAL DA FACULDADE DA SERRA GAÚCHA | DEZEMBRO.2016

Diante de pipas gigantes, funcionários da Vinícola Luiz Antunes e suas famílias participam de confratenização pela passagem do Dia do Trabalho, em 1939

Hábito de beber remonta à antiguidade Consumo de cervejas, vinhos e destilados integra as mais diversas culturas; século XX marca início de campanhas contra o álcool Michele Borges Durante milhares de anos, grãos fermentados, suco de frutas e mel vêm sendo utilizados para fazer álcool (álcool etílico ou etanol). Não há uma data precisa para o surgimento da bebida alcoólica como a conhecemos hoje. Porém, há evidências de que a primeira bebida alcoólica tenha sido provada em torno de 7000 a.C., na China. Uma análise feita em jarros encontrados em Jiahu, no norte do país, mostrou que eles continham um drinque feito de arroz, mel, uvas e um tipo de cereja, tudo fermentado. Não se sabe a graduação exata de álcool dessa poção, mas há pistas que indicam que ficava entre a cerveja e o vinho. Os sumérios, na confluência dos rios Tigre e Eufrates, atual Iraque, aperfeiçoaram a fórmula e conseguiram criar 19 tipos de bebidas alcoólicas. Dezesseis destas criações eram à base de cevada e trigo, resultando na cerveja. A bebida era usada como moeda de troca para os operários de Gizé, no Egito. Cada trabalhador ganhava cinco litros de cerveja por dia para construir a pirâmide. Era usado como um alimento fundamental para que os operários aguentassem a puxada jornada de trabalho. O consumo excessivo de cerveja se tornou um hábito comum em 2500 a.C.. O que levou a elite a migrar para o vinho. O rei Tutâncamon, egípcio, foi enterrado com

25 jarras de vinho, de 15 diferentes fórmulas, baseados na ideia de que existe vida após a morte. A intenção era não passar vontade no além. Os gregos desenvolveram 60 tipos diferentes de vinho e chegaram a criar um jogo baseado na bebida. O kottabos, que consistia em despejar numa vasilha o restinho de bebida que sobrasse no copo. Se o líquido não estalasse ao bater na vasilha, isso significava que Afrodite, a deusa do amor, estava de mal com o consumidor. Já na Índia, uma bebida alcoólica chamada Sura, destilada do arroz, foi utilizada entre os anos de 3000 e 2000 a.C. Na Babilônia, a deusa do vinho era venerada no ano de 2.700 a.C. O hidromel, primeira bebida que ganhou popularidade na Grécia, era uma fermentação de leite e mel. A literatura grega está repleta de advertências contra beber em excesso. Várias civilizações de índios americanos criaram bebidas alcoólicas nas épocas pré-colombianas. A “chica”, bebida fermentada na região dos Andes, na América do Sul, foi criada com milho, uvas e maçãs. No século XVI, o álcool, popular aguardente, foi amplamente utilizado para propósitos medicinais. Na Inglaterra, no início do século XVIII, o parlamento do país aprovou a lei que promovia o uso de grãos para a destilação

da bebida. Sendo muito barata, a aguardente inundou o mercado e chegou ao seu auge em meados do século XVIII. Na Grã-Bretanha, o consumo de gim chegou aos 70 milhões de litros, resultando em problemas sérios de alcoolismo. O hábito de beber se popularizou. No século XVI, a Inglaterra tinha 16 mil bares, o equivalente a um bar para cada 187 habitantes. Hoje, a quantidade é de um bar para cada 529 pessoas. No mundo, cada pessoa consome em média 5 litros de álcool puro por ano. Equivalem a 125 litros de cerveja, 45 litros de vinho e 12,5 litros de vodca. A declaração de Independência dos Estados Unidos foi escrita num bar no século XVIII. A República Checa, com a cerveja, França, com o vinho, Moldávia, com a vodca e destilados, são os países onde mais se consome bebida alcoólica. A partir do século XIX começou haver uma mudança de atitude e campanhas antialcoolismo começaram a promover o uso moderado de álcool. As campanhas tornaram-se tão consideráveis que em 1920, nos Estados Unidos, uma lei que proibia a fabricação, venda, importação e exportação de bebidas alcoólicas foi aprovada. O resultado foi desastroso. Houve um crescimento do comércio ilícito de álcool e, em 1933, a proibição que pesava sobre o álcool foi cancelada.

Um negócio bilionário Com o desenvolvimento da sociedade industrial, a produção de bebidas alcoólicas se transformou em um negócio bilionário. As bebidas mais conhecidas hoje no mundo são: cerveja, vinho, uísque, cachaça e vodca. A cerveja é a bebida alcoólica mais consumida no mundo atualmente, sendo a terceira bebida mais consumida, ficando atrás apenas da água e do chá. A lista dos cinco países que mais consomem cerveja no mundo é composta por: República Tcheca, Áustria, Alemanha, Irlanda e Polônia. Já no que se trata de produção desta bebida, os cinco maiores produtores são: China, Estados Unidos, Brasil, Rússia e Alemanha. Já o consumo de vinho pelo mundo é ranqueado do primeiro ao décimo lugar por Estados Unidos, Itália, França, Alemanha, Reino Unido, China, Argentina, Espanha, Rússia e Romênia. Em termos de consumo por pessoa, o Vaticano fica em primeiro lugar. O uísque tem seu maior consumo registrado no Brasil, em Recife. Já a cachaça, bebida tipicamente brasileira, é a segunda bebida mais consumida no país, perdendo apenas para a cerveja. Porém, se falarmos de bebidas destiladas, a cachaça é disparada a preferida entre os apreciadores. Os principais

destinos de exportação da bebida são Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido e França. A vodca é mais consumida em países com clima muito frio do leste europeu, como Rússia, Bielorússia e Ucrânia e nos países nórdicos. Em outros países, a vodca é consumida com outras bebidas, como sucos de frutas e refrigerantes. Nos países onde a bebida é mais popular seu consumo é puro. Entre os nove países mais poderosos no mercado das bebidas alcoólicas, a Escócia ocupa o primeiro lugar e tem o uísque como carro-chefe. Possui dezesseis marcas no top 100, entre elas Johnnie Walker, Chivas Regal e Ballantines. Nos Estados Unidos, o foco são o uísque e os vinhos leves, com dezoito marcas no top 100, entre elas Jack Daniel’s, Jim Beam, Gallo e Hardys. A França, com conhaque e champanhe, tem dezessete marcas no top 100, entre elas Hennessy, Moët e Chandon, Grey Goose. A Rússia ocupa a quarta posição, com grande importância na fabricação e consumo de vodca. Tem quatro marcas no top 100, as mais importantes são Smirnoff e Stolichnaya. Em quinto, a Itália lidera com drinks aperitivos e digestivos, com oito marcas no top cem. Ainda compõe a lista Cuba, República Dominicana, Inglaterra e México.


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FALATÓRIO JORNAL EXPERIMENTAL DA FACULDADE DA SERRA GAÚCHA | DEZEMBRO.2016

A bebida como coadjuvante

Entre as principais causas de mortes femininas, a violência doméstica revela a face sombria da mistura do machismo com o álcool Márcia Bastian Falkenbach Luiz Erbes

“Ele espancava minha mãe, não é justificativa para a violênbatia a cabeça dela contra a parecia. O álcool pode até facilitar de, a fez perder grande parte dos certos comportamentos violendentes da frente, além de estuprátos, mas isso só comprova que -la sempre que chegava alcooliestá havendo um mascaramento zado.” Essa é uma das maiores dos problemas enfrentados pelo lembranças de infância de Marília réu: a possibilidade da ação vio(nome fictício), ao longo do temlenta está ali, latente, não tratada, po em que sua mãe permaneceu e acabará surgindo mais cedo ou presa em um ciclo de violência mais tarde, com ou sem álcool.”. com seu marido que misturava É importante às vítimas de violêntortura psicológica quando sóbrio cia doméstica a ciência de que as e espancamentos e estupro quanagressões são praticadas pelo hodo bêbado. mem, independente do consumo Marília hoje tem 34 anos, mas de qualquer substância, e que esse lembra com exatidão as horas que consumo não é o único responsápassava trancada em um quarvel pela violência. to com os irmãos ouvindo o pai Fernanda Martins reforça a exespancando a mãe. Lembra tamperiência da juíza, apontando que bém das péssimas condições de cerca de 50% dos casos em sua vida morando de favor já que a atuação com advocacia criminal, mãe, constantemente machucadiretamente ligada à violência da, não podia trabalhar, e guarda contra a mulher, o álcool tem um marcas psicológicas até hoje. Foi papel fundamental no uso extremo uma criança irritadiça, insegura e Álcool tem papel secundário no problema da violência contra as mulheres, dizem especialistas de violência física. Ela destaca, no agressiva. entanto, que os estudos ainda são O reflexo foi além. Seu irmão como para 13 mulheres por dia no Papel Coadjuvante A advogada criminalista Fer- poucos no Brasil e os números que passou a reproduzir a violência ano de 2013. O mesmo estudo aponta a dife- nanda Martins traz outros dados ligam álcool e violência doméstido pai nas irmãs mais novas, inSegundo o Mapa da Violência rença de percepção quanto à into- sobre a violência doméstica que ca não passam por comprovação clusive no âmbito sexual, usando de 2015, o Brasil figura em quinto xicação dos envolvidos; em geral, vão além do álcool. Aponta que científica, ficando restritos às excomo justificativa a “preparação lugar no ranking de assassinatos de a sociedade costuma atribuir culpa há um elevado índice de feminicí- periências tanto nos escritórios de para o que os homens viriam a fa- mulheres. Dos 4.762 homicídios, à vítima alcoolizada e amenizar a dios (homicídios motivados pelo advocacia quanto nos fóruns. zer com elas no futuro”. Depois 50,3% foram praticados por fami- culpa do agressor alcoolizado, o gênero da vítima) principalmente Embora todas as entrevistas e as de um período enfrentando de- liares e 33,2% por parceiros ou ex- que reforça a cultura machista, entre mulheres negras e pobres, o próprias pesquisas na área aponpressão e automutilação, Marília -parceiros. A situação pode ser ain- foco da atenção da advogada de que se deve à dificuldade dessas tem a responsabilidade do álcool conseguiu se casar e ter um filho, da mais grave, pois os dados, além família Mônica Montanari. Mô- em garantir o sustento da família, em pelo menos metade dos casos levando uma vida aparentemente de datarem de 2013, não conside- nica defende que, embora o ál- tornando-as praticamente reféns de violência doméstica, é unânime normal. As marcas de entre as juristas e a víram os assassinatos de cool possa funcionar como fator dos relacionamentos uma família disfunciotima que o machismo e mulheres que reagiram estressor, ele atuará de forma tão abusivos. A comprovanal e violenta, contudo, o papel de dominância a assédios ou tentativas contundente no comportamento ção desse dado vem do sempre serão parte de masculina no lar têm de estupro. Já a Funda- do agressor se este já demonstrar Mapa da Violência de sua memória. preponderância nos ção Perseu Abramo, em um comportamento agressivo sem 2015, que aponta um A destruição da facasos de violência em 2010, apontava cinco o uso do álcool, corroborando o aumento de 54% dos mília pela violência e geral. Mônica reforespancamentos a cada próprio depoimento de Marília, homicídios de mulheabuso de álcool é ineça que “se o indivíduo dois minutos com víti- em que a violência existia mesmo res negras entre 2003 gável. “Ainda me sinto é agressivo, a bebida mas mulheres no Brasil, sem o álcool, mas de forma mais e 2013, enquanto o de muito insegura, ainda alcoólica serve como sendo o parceiro respon- psicológica do que física. mulheres brancas reacho que as pessoas gatilho desencadeando Mônica entende que a desinibi- duziu 9,8% no mesmo Fernanda Martins sável por 80% dos casos Uda Schwartz não gostam de mim e a situação de violência, e muitos sob efeito do ção promovida pelo álcool é um período. me excluem, ainda não caso o indivíduo não álcool. Fernanda aponta, cifator importante para o desencaaceito o carinho do meu sogro seja agressivo, não será a ingestão O papel do álcool nesdeamento da violência, tando o psicólogo Arilton Martins (que me trata como filha), ain- sas estatísticas, no ende álcool que o transformará em mas não o motivo em Fonseca, que é necessário afastar da não consigo perdoar meu pai, tanto, é controverso. Um um agressor.” si. “O fato gerador da a crença de que o álcool é responainda não consigo encarar minha estudo conduzido pelas violência doméstica é sável pela agressão, reduzindo asmãe por sua permissividade, ape- psiquiatras do Hospital um só: machismo. Toda sim a parcela de culpa que seria sar de saber, hoje, que ela é tão de Clínicas da Faculdaviolência deriva da exclusiva do agressor, concordanDENÚNCIAS vítima quanto eu. Ainda tenho de de Medicina da Unidesigualdade, quando do ainda com Mônica Montanari. nojo do meu irmão e já consigo versidade de São Paulo alguém está – ou acha A Juíza Uda Roberta Schwartz Se você sofre, sofreu ou conhefalar sobre isso mais abertamente. e pela State University que está – numa situa- reforça a responsabilidade do ce alguém em situação de violênNão mantenho contato com ele e of New York, Monica ção superior ao outro agressor no seu atendimento aos cia doméstica, pode entrar em nunca mais quero vê-lo”, relata Zilberman e Sheila BluMonica Montanari já há uma possibilidade casos referentes à Lei Maria da contato com a Central de AtendiMarília, em tom ressentido. me, aponta que o uso de de violência”, relata a Penha – que versa sobre violência mento à mulher. O telefone: 180. Apesar das sequelas que per- substâncias – o que enadvogada sem, no entanto, rene- doméstica – orientando as vítiPara denúncias, você pode durarão por toda a vida de Marí- volve álcool e outros tipos de dro- gar o peso do consumo do álcool, mas quanto à responsabilidade do procurar a Delegacia da Mulher lia, sua mãe e irmãos, o caso dela gas – pode estar envolvido em até apontando inclusive um aumento comportamento do agressor muito Caxias do Sul. Ela fica na Rua ainda pode ser considerado como 92% dos casos de violência domés- nas denúncias de violência do- acima do consumo do álcool. Dr. Montaury, 1387, no Centro um final feliz, uma vez que a mãe tica e 50% em relação às agressões méstica nos dias próximos ao paMesmo assumindo que por de Caxias do Sul. Os telefones de Marília conseguiu não apenas de ordem sexual. Entre esses, por gamento, em que a renda permite volta de 50% dos casos atendidos para contato são: (54) 3221sobreviver ao relacionamento volta de 93% já haviam praticado um abuso na compra e consumo no Fórum onde atua contenham 1357 e (54) 3214-4076. como romper o ciclo de violência. algum ato de violência contra a es- do álcool e outras drogas lícitas o elemento alcoólico no caso de Mas o desfecho poderia ser outro, posa, psicológica ou física. agressão, Uda afirma: “Álcool ou não.


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A luta diária contra o vício do álcool Ex-viciado relata vexames por consumo em excesso, internação e visitas constantes a grupos de AA para evitar recaída Edinéia Castilhos “Depois da internação e de participar ativamente do AA, tenho uma melhor qualidade de vida, ninguém se cura do alcoolismo, é uma doença, um ciclo vicioso, o que devemos é evitar o primeiro gole. Viver um dia de cada vez.” O relato é de Antônio (nome fictício), 61 anos, que está há 17 anos sem ingerir bebidas alcoólicas. Para ele, a ajuda de grupos de apoio é parte do processo diário de se manter sóbrio e, assim, evitar repetir vexames dos quais têm pouco orgulho. Antônio é uma das pessoas que encontrou o apoio que precisava em grupos de Alcoólicos Anônimos (AA). Desde que deixou a clínica de reabilitação, ele frequenta o AA, mesmo quando está longe de Caxias. “Viajei para muitos países, morei três anos fora do Brasil e em todos os lugares procurei o Alcóolicos Anônimos, que hoje tem em mais 180 países”, conta. Atualmente, ele frequenta o AA duas vezes por semana. Antônio começou a ter problemas com a bebida quando veio a Caxias do Sul. Na época, tinha 25 anos. Encontrou emprego em um frigorífico, num setor extremamente frio. “Tudo começou ali. Em uma das noites frias, meu colega me ofereceu um gole de conhaque. Não aceitei, mas meu colega, que já trabalhava há anos ali

e já fazia isso todas as noites, justificou que a bebida aquecia e assim espantava o frio, então resolvi experimentar. O gosto não me agradou, era forte, mas realmente aquecia”, lembra. “Comecei a fazer uso da bebida todas as noites seguintes, no começo descia pela garganta queimando, ardia, mas acostumei e virou rotina. ” Antônio conta que passou pelas três analogias que o alcoólatra passa: a fase do macaco, do engraçado da turma, que faz piadas com todos; a do leão, que logo quer partir para a briga; e por fim a fase do porco, que perde a noção até da higiene. “Muitas vezes, mal fazia a barba”, lembra Antônio. Apesar do uso da bebida, ele afirma que nunca foi agressivo e que gostava de reunir os amigos e a família em casa. “Em almoços de família não me continha, muitas vezes saía para comprar carnes para receber visitas no domingo e parava em algum bar e, na volta para casa, já embriagado, dormia na rua com a carne feita de travesseiro”, revela. Horas depois acordava sem saber onde estava, e boa parte da carne já tinha sido devorada pelos cães. “Quando voltava para casa, as visitas já tinham ido embora e minha esposa estava à minha espera preocupada. ” Depois do frigorífico, Antônio recebeu uma oportunidade de tra-

balhar em uma grande empresa, cujo nome pede para não revelar. Nessa empresa se aperfeiçoou, fez cursos, vários custeados pela companhia – e vários realizados sob o efeito da bebida. “Quando os cursos eram aqui na cidade, já embriagado, colava e recebia o certificado, mas alguns eram em outras cidades. Fui para São Paulo algumas vezes para outras especializações e lá o “bicho” pegava, não conseguia ficar longe da bebida, passava nos bares e antes mesmo de fazer as provas, bebia sem noção do quanto”, relata Antônio. A rotina de beber se intensificou. “Em uma noite, assistindo a uma partida de futebol, eu bebi como sempre, mas eu bebi como se não houvesse amanhã”, conta. Na manhã seguinte, sem lembrar-se do que tinha acontecido na noite passada, encontrou a mulher revoltada. “Minha esposa me pegou pelo braço e me levou até a sala, o estrago tinha sido enorme. Eu havia urinado por todos os móveis daquele cômodo, o sofá exalava o cheiro forte, o carpete estava deplorável e a televisão também foi atingida. ” Foi o fundo do poço – e o do início da virada. Naquele dia, Antônio foi à empresa e esperou à chegada da assistente social para pedir ajuda. Relatou o seu pro-

blema e pediu para ser internado, para tratar o vício. Antônio ficou internado 36 dias na clínica. Passou por um processo de desintoxicação, em um tratamento com medicamentos e reuniões constantes de grupos de apoio dentro da própria clínica. “Dos 36 dias, seis fiquei no isolamento”, diz. Antônio relata que vivenciou algumas cenas bastante dolorosas, como a morte de uma pessoa, pelos efeitos da abstinência. Ao sair de lá, Antônio começou uma vida sem bebidas alcóolicas e de incontáveis visitas aos grupos de AA. Mesmo quando morou na China, por um período, não deixou de frequentar o AA, apesar de pouco entender sobre os relatos. “O bonito é que depois de cada relato as pessoas batiam palmas para o colega”, conta. Mesmo em período de férias, quando vai à praia, costuma procurar um grupo de apoio. Sem beber há 17 anos, Antônio carrega mágoas, como não poder pedir perdão pelos transtornos que causou à mãe, já falecida, e por não ter acompanhado o filho na infância e adolescência. “Não vi o meu filho crescer”, diz. O que lembra não o deixa feliz. “Meu filho se envergonhava, não podia levar os amigos em casa por não saber qual seria sua atitude depois do primeiro gole no dia”.

ONDE BUSCAR AJUDA Os grupos de AA atuam há 38 anos em Caxias e oferecem ajuda gratuita para alcóolicos, familiares e toda a comunidade interessada. São independentes e não é necessário agendar para participar dos encontros. Confira os horários e locais das reuniões. GRUPO ALTRUÍSTA R. Alfredo Chaves, 915 – fundos da Igreja Anglicana SEG.20h | QUI.20h GRUPO SANTA CATARINA R. Tronca, 3076 – Rio Branco QUA.20h | Sáb.16h | DOM.16h GRUPO REENCONTRO R. Feijó Júnior, 269 TER.20h (fechada) SEX.20h (aberta) GRUPO MÃO AMIGA R.João Batista Longui, 249 Bairro Panazzolo QUA.20h GRUPO VIDA NOVA Próximo ao Colégio Padre João Schiavo Fazenda Souza Sáb.14h (aberta)


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Álcool, porta de entrada para as drogas Pesquisas apontam que as bebibas alcoólicas têm papel maior do que a maconha no caminho que leva os jovens ao crack e à cocaína Alex Paz Para a maioria das pessoas, a maconha é a porta de entrada para o mundo das drogas. A ciência, contudo, mostra que essa convicção é mais mito do que verdade. Segundo uma pesquisa publicada no mês de janeiro de 2016, pelo Journal of School Health, nos Estados Unidos, o álcool é a primeira substância consumida por pessoas que mais tarde apresentam problemas com o uso de drogas. Pesquisadores da Texas A&M Universty of Florida avaliaram os padrões de uso de drogas nos Estados Unidos ouvindo 2.835 estudantes. A pesquisa mostra ainda que o consumo de álcool entre os jovens, na maioria das vezes, precede do uso de tabaco ou maconha. Há também uma relação entre a idade em que os jovens começam a consumir álcool e a predisposição para o abuso de outras substâncias mais tarde. Conclusão: os resultados apontam que quanto mais cedo ocorre o contato com o álcool, mais provável é que as pessoas se envolvam com o uso de substâncias ilícitas no futuro. Portanto, apontar o álcool como grande vilão é novo. E esclarecedor também. Segundo o consultor terapêutico, Roben Roberto Braga, do centro de tratamento a dependentes químicos Casa Clara, o álcool é a porta de entrada para as drogas ilícitas. Ele ressalta ainda que a bebida alcoólica é uma droga lícita, de fácil acesso e que está presente em todos os ambientes, em toda e qualquer festa, muitas vezes até em festas para crianças e adolescentes. Braga ainda revela casos em que a clínica recebeu crianças de quatro anos de idade para desintoxicação, após terem ingerido

bebida alcóolica por um descuido dos pais. “A criança que passa por uma experiência como essa corre um sério risco de adquirir, no futuro, uma pré-disposição ao uso exagerado do álcool, podendo até mesmo vir a ser um adicto, pessoa dependente da bebida alcóolica. Outro risco é a cultura que temos de celebrar festas diretamente relacionadas a determinadas bebidas, sendo que muitas vezes as pessoas costumam levar os filhos ainda pequenos. É um erro grave que os pais têm o dever de rever”, alerta. Um risco adicional é a presença da bebida alcoólica em infinitas situações. Tudo se torna motivo para beber: se o time venceu, se o time perdeu, brigou com a mulher, teve um dia ruim no trabalho e outras razões banais que, na verdade, servem como constantes pretextos para se beber. Segundo especialistas, esses são alguns indícios de uma pessoa que já vive um quadro da dependência alcóolica, embora não grave. Roben Braga afirma que a pessoa nesse estágio deve analisar a possibilidade de um tratamento, antes que o problema se agrave. Na fase mais grave do alcoolismo, a pessoa modifica seu humor em caso de abstenção do álcool. Pode ficar mal-humorada, interagir menos com familiares. “O álcool é uma doença tão séria quanto as drogas ilícitas como a maconha, cocaína e outras, pois não afeta somente a si, mas toda sua família, que acaba adoecendo junto, assim como a sociedade, tendo em vista que muitos adictos do álcool costumam fazer uso de armas e dirigir o carro embriagados”, afirma Braga. Ainda segundo o terapeuta, a

sível recomeçar a luta contra o alcoolismo. Caso continue fazendo o tratamento, é importante relatar a recaída aos que estão cuidando do adicto. Caso não esteja, é importante retomar, pois a terapia ou grupos de ajuda mútua, como o Alcóolicos Anônimos, o ajudarão a superar esta recaída.

TIPOS DE INTERNAÇÃO

Roben Roberto Braga, da Clínica Casa Clara fase mais delicada do tratamento de um dependente do álcool é a pós-internação, quando é necessário evitar um novo contato. “Uma pessoa que tem uma recaída após ter ficado 10 anos em abstinência pode voltar bebendo até cinco vezes mais do que bebia anteriormente”, diz. A recaída pode acontecer com qualquer um, não importa há quanto tempo esteja sóbrio, embora seja mais comum no primeiro ano após o inicio do tratamento.

Os motivos podem ser diversos, como a ansiedade, problemas pessoais ou financeiros, estresse e depressão, entre outros. Quando acontece a recaída, é comum o adicto sentir-se fracassado, envergonhado ou até sem esperança alguma. Portanto, alerta Braga, é importante que tanto o alcoolista quanto aos que convivem com um saibam que é comum ter recaídas e, portanto, isso não significa que não tem mais jeito. Sempre é pos-

Conforme o nível de dependência de álcool, as vezes é necessário internar o individuo. Em um centro de tratamento como a Casa Clara, por exemplo, o paciente fica internado de 45 a 60 dias. Após a alta, os médicos estudam a personalidade de cada paciente e começam a trabalhar na prevenção da recaída e prepará-las para retornar ao convívio social. Existem três tipos de internação. São eles: Internação voluntária – quando o dependente de álcool admite e aceita que deva procurar ajuda. No caso, o paciente é internado com de forma consciente e deliberada. Internação Involuntária – Às vezes, o alcoolista não consegue reconhecer que está doente. Com isso, não aceita qualquer tipo de tratamento. Nesses casos, a família pode pedir a internação contra a vontade do dependente como forma de lhe assegurar a saúde e a vida. Internação Compulsória – Quando o alcoolista está colocando a própria vida ou de outras pessoas em risco, a Justiça pode solicitar a internação compulsória. O processo é semelhante ao da internação involuntária, porém, usa-se este termo porque a autorização é expedida pela justiça.

Riscos ao ambiente familiar e à saúde O aposentado Paulo Antônio Vaz, 66 anos, morador do bairro Jardim Iracema, em Caxias do Sul, começou a beber aos 14 anos de idade, casou-se aos 20 e teve cinco filhos. Está no terceiro tratamento para deixar a bebida alcóolica. Vaz conta que o primeiro tratamento partiu de uma decisão deliberada sua, porém, como todo alcoolista, sempre achava que não havia necessidades de procurar uma ajuda profissional, não admitia ser uma pessoa dependente do álcool. Ficou internado em uma clínica de reabilitação por seis meses. Após receber alta e retornar para casa, conseguiu abster-se do álcool por oito meses.

Somente 20 anos depois, já com os filhos adultos e sua família completamente desestruturada em função das consequências do álcool, Vaz descobriu que tinha um problema sério de saúde ocasionado pela bebida: um tumor no pulmão. Ficou internado no Hospital Geral por 30 dias, fez sessões de quimioterapia e passou por duas delicadas cirurgias. Paulo diz que depois de sair do hospital estava decidido a nunca mais beber. Não conseguiu. Menos de um ano depois, quando estava recuperado do problema de saúde, o aposentado voltou a beber e preocupar a família. Desta vez, o pai não estava sozi-

nho no vício do alcoolismo. O filho do meio, Alberto Antônio Vaz, 36 anos, dos cinco filhos, o que mais lutava pela recuperação do pai em relação ao álcool, também estava completamente dominado pela bebida. Entretanto, sempre que repreendido pela mãe e os irmãos, dizia ter o autocontrole e que sabia estabelecer um limite para a bebida, o que na verdade não se confirmava na prática. Alberto, então desempregado, bebia todos os dias, muitas vezes começava antes do meio dia e só parava à noite, na hora em que ia dormir. Foi então que a situação do filho comoveu Paulo, pois sentia-se

o principal responsável pela situação do filho, a medida que tinha plena consciência de ter sido um péssimo exemplo. “Ver meu filho desse jeito me dá uma profunda tristeza, não queria continuar sendo aquele tipo de exemplo para ele e os outros filhos, por isso resolvi mostrar que, se eu tinha forças para se recuperar, o Alberto também tinha, é isso que me resta passar para ele”, conta. Posteriormente, após conversas com amigos, esposa e os outros quatro filhos, o aposentado resolveu procurar ajuda do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Ficou internado por 30 dias. Hoje

segue o tratamento em casa, está em abstinência do álcool há quatro meses. Paulo diz que evita até olhar na direção de botecos que frequentava. O problema é que agora o filho Alberto, que encontra-se na mesma situação da qual Paulo sofreu praticamente a vida inteira, não se contém apenas em beber nos bares. Traz bebida para casa, o que segundo Paulo não está o atrapalhando na recuperação. Diz estar consciente e focado no seu tratamento. “Torço para que o meu filho admita o problema, que está doente e queprecisa de ajuda profissional paraparar de beber.”


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Jovens começam a beber aos 13 anos

Pesquisa realizada no Largo da Estação Férrea mostra que adolescentes têm primeiro contato com o álcool em casa ou em festas Vanessa Pedroso e Pedro Gutteres Com um total de 120 pessoas entrevistadas, sendo 60 rapazes e 60 meninas, a pesquisa revela que os adolescentes começam a consumir bebida alcoólica por volta dos 13 anos de idade. Para a maioria dos garotos, o primeiro contato com o álcool ocorreu em casa, junto com os pais, sendo cerveja a bebida escolhida. No sexo oposto, a experimentação iniciou em festas na casa de amigos ou em casas noturnas, com a ingestão de vodca e vinho. A maioria revelou ter passado pelo primeiro porre entre os 14

e 15 anos, com o uso abusivo de diferentes bebidas, entre elas, cerveja, vinho, vodca, wiski e caipira. Questionados se já passaram por situações constrangedoras ou de perigo em função do álcool, uma grande parcela diz já ter dado algum vexame entre o grupo de amigos e vomitado devido ao excesso de consumo. Em relação à vulnerabilidade, os jovens comentam que, a bebida corrobora para casos de insegurança e risco, pois perdem um pouco a noção do ambiente em que estão. Casos de possíveis

assaltos e atropelamentos foram os mais citados. Sobre o valor utilizado por mês na compra de bebidas alcoólicas, a maioria diz gastar, no mínimo, cerca de R$ 100. Entre os que frequentam assiduamente as casas noturnas, o valor é mais elevado, R$ 400. Os proprietários das casas noturnas relataram que a bebida mais pedida é a cerveja, de variadas marcas. Um catador de latas e papelão informou que, no primeiro final de semana do mês, ele con-

segue recolher cerca de 2 mil latas, entre a noite de sexta e a madrugada de sábado para domingo. A reportagem procurou os socorristas e enfermeiros do Postão 24 do município, e os profissionais disseram que, antes da Lei Seca, eles atendiam no final de semana de três a cinco casos de jovens em situação de embriaguez, sobretudo, meninas e menores de idade. Após a Lei, os casos diminuíram, caindo para uma média de dois registros por final de semana, a maioria homens e com mais de 18 anos. Vanessa Pedroso

Noite de sexta-feira, temperatura de 11º graus em Caxias do Sul e um ventinho gélido balançando os cabelos de quem transita pelo Largo da Estação Férrea, ou simplesmente “os trilhos”, como o lugar é popularmente conhecido entre os jovens. O frio não impede que várias tribos ocupem as calçadas e se espalhem pelos estabelecimentos do perímetro. Nas rodas de amigos, cerveja, vinho, drinks misturados, que foram comprados minutos antes em alguma loja de conveniência ou posto de gasolina nos arredores.

Arte para além dos gêneros

Garrafas de cerveja em uma madrugada de sábado, nas proximidades da Estação Férrea, local em que centenas de jovens se reúnem para beber cerveja e destilados

Relatos de ‘porres” e até de coma alcóolico Os “trilhos” e as suas calçadas vão recebendo jovens aos poucos. Eles conversam e vão escolhendo qual vai ser o ponto do grupo na noite, dando um certo marasmo ao lugar. Isso dura até por volta das 21h30, horário em que parece brotar gente de todos os cantos, com bonés de aba reta, camisas sociais, correntes reluzentes, moletons, piercings, fantasias, maquiagens sombrias e coloridas, topetes, cabelões, saias e vestidos, de pessoas que preenchem aquele ponto da noite caxiense. Antes do “boom” das 21h30, um jovem músico de 20 anos, cabelos longos e loiros com uma barba rasa, esperava com um amigo a chegada de um táxi em frente

a uma das casas mais frequentadas da estação. Ele conta que seu primeiro contato com bebidas alcóolicas foi aos 15 anos de idade, “em casa”, na companhia da família. “Minha mãe sempre disse que preferia que eu bebesse em casa do que na rua, sem a supervisão dela”, revela. No entanto, o consumo mais regular começou em uma reunião de amigos, quando decidiu-se comprar um fardo de “Ice’s” para embalar a noite. O músico contou que seu gosto foi sendo moldado, pois quando mais jovem não suportava cerveja, hoje, porém, seguida de uísque, é a sua bebida favorita. Seu primeiro porre foi aos 17 anos, quando deu conta de esvaziar uma garrafa

inteira de rum. Não por coincidência foi na mesma época em que havia começado a sair para conhecer mais sobre a Caxias noturna. De personalidade sociável, o rapaz afirmou só ter se embebedado por completo duas vezes, e que não vê na bebida alcoólica um meio de facilitar socialização com outras pessoas, independente da idade. Ele se autodefine como “expansivo”, no entanto reconhece que não são poucos conhecidos e amigos que usam de tal estratégia. Outro caso é de uma menina que começou a beber com 14 anos e que aos 17 teve seu primeiro porre, entrando em estado de coma alcoólico. Encostada na parede

de uma loja, ela divide o copo de vinho com uma amiga de 16 anos e fala sobre o episódio. “Fui para uma festa na chácara com outros jovens e eu estava bem. Acho que colocaram alguma coisa na minha bebida, porque a amiga que estava bebendo a mesma coisa que eu não ficou mal. Eu apaguei e quando acordei estava no hospital”, relata. Ela conta que beber socialmente ou radicalmente depende da ocasião. A amiga respalda a jovem: “Eu não sei beber socialmente, eu bebo pra fazer ‘chico’ (palavra que ela traduz como sinônimo de bagunça, alforria)”. De acordo com elas e com outros jovens que deram depoimentos para pesqui-

sa, a compra de bebida alcoólica naquela área da cidade é realizada sem grandes impedimentos, apesar de a legislação proibir o comérico de álcool para menores de 18 anos. “A maioria do pessoal prefere ficar na rua mesmo... A gente compra a bebida e ninguém pede documento. Mas, se a gente ‘entrar na festa’ vão pedir....”. Quando perguntados se havia uma mensagem que passariam ao adolescente que está começando a entrar na fase das festas e das bebedeiras, as moças e os rapazes, em sua maioria, aconselharam o equilíbrio aos mais jovens, que só assim se aproveita realmente a adolescência. “Não tenham tanta pressa, tudo tem seu tempo”.


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Raquel Spuldaro Salomão

Rafaela Panazzolo

Tiago Batista

Os vários aspectos do álcool


Nicole Boeira

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Gabriel Panizzon

Graciela Pauletti de Azevedo

Franciele Comerlatto Forner

Presente no nosso dia a dia, o consumo de bebidas alcoólicas tem uma série de reflexos na sociedade. De olho nisso, os alunos da disciplina de Introdução à Fotografia, do curso de Fotografia do Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG), produziram uma série de imagens para a edição do Falatório. Focaram na bebida e em suas consequências para as pessoas. O resultado está nessa seleção de fotos, produzidas durante o semestre. Euller Adão Peres Machado

Laura Rodrigues da Silva

Marcia Vilarino do Prado

Igor Farias Coelho

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Artesanais, opções às cervejas tradicionais Com aumento do número de pequenos fabricantes, produtos que seguem a lei de pureza alemã ganham espaço no Brasil

Luiz Erbes

Vitória Antunes Branco

PRINCIPAIS TIPOS

A seção de cervejas nos mercados brasileiros não é mais como antigamente. Nos últimos anos, a busca por novos sabores e aromas e a insatisfação com as cervejas “comuns” podem ser observadas pela crescente variedade de cervejarias que produzem a bebida artesanalmente, grande parte seguindo a receita alemã da exigência de pureza. Parte do descontentamento quanto ao clássico cenário cervejeiro do Brasil se deve ao fato de que as grandes marcas do país substituem relevante parte do tradicional malte de cevada por cereais não maltados, entre eles o milho. A Reinheitsgebot, que determina que a produção de cerveja seja somente feita com água, malte e lúpulo, foi decretada há 500 anos pelo duque Guilherme VI, no estado alemão da Baviera. A intenção seria controlar as produções locais que, ao tentarem inovar, utilizavam inúmeros ingredientes por vezes inapropriados. Muitas cervejarias pela Europa seguiram a lei como título de pureza e qualidade, enquanto outras continuavam com suas fabricações utilizando ingredientes alternativos para obter sabores e características diferenciadas das alemãs, como é o caso das belgas. No século XIX, nos Estados Unidos, a produção de cerveja sofria forte influência de seus antigos colonizadores ingleses e irlandeses, que costumavam produzir uma cerveja forte e pura. Porém, com a lei seca de 1920, os americanos ficaram 13 anos impedidos de produzir e consumir cervejas. Maurício Sechaus, da cervejaria Bunkedh – Craft Beer, explica que ao final deste período, os americanos que estavam acostumados com o consumo de refrigerante, achavam que as cervejas de antigamente pareciam muito fortes.

“Com a crise econômica e a falta de ingredientes enfrentada na época, o custo de sua produção se tornaria relativamente elevado. Então começou a questão da indústria cervejeira começar a usar matérias primas não tão nobres, deixando a cerveja mais fraca e mais barata para que o povo consumisse”, afirma. Assim, introduziram na receita cereais alternativos, como o milho e o arroz, que, assim como a cevada, fornece açúcar para ser transformado em álcool. O Brasil, como forte importador da cultura e dos hábitos americanos, concentrou sua produção de cerveja na receita das Lagers Americanas, desta vez utilizando o milho como um de seus principais ingredientes. A produção deu tanto sucesso e rentabilidade que a legislação brasileira passou a permitir por lei que até 50% da cevada possa ser substituída por ser cereais não maltados, promovendo assim o crescimento arrojado de macrocervejarias do país que fornecem uma bebida muito barata e de fácil drinkabilidade, tornando os brasileiros o terceiro país que mais bebe cerveja. Com as grandes marcas centradas nesse tipo de produção, as microcervejarias exploraram a busca por bebidas mais fortes e começaram a produzir, de forma artesanal, ao estilo alemão. Nesta briga por quem vende e se destaca mais, os “clássicos” cervejeiros condenam o uso do milho transgênico (que hoje já soma mais de 18 espécies) por não haverem estudos científicos que comprovem que o consumo seja saudável para o humano e para o equilíbrio do meio ambiente. A falta de transparência na ocultação do milho como ingrediente nos rótulos das cervejas comuns produzidas aqui no Brasil, que levam nas latas e garrafas legenda

“cereais não maltados”, é outro argumento utilizado pelos cervejeiros artesanais, como Rodrigo Parolin. “Como consumidor acho que todo alimento com cereal trans deveria ser identificado”, comenta o sócio proprietário da Cervejaria Landsberg, que considera que a utilização do milho seja apenas para baratear o seu custo. No mesmo pensamento, Augusto Scheifler, da Scheifler Bier, diz que “o milho não é um cereal que realmente dá sabor na cerveja. Para mim, ele só tem a função de baratear o custo da produção, porque a cerveja pode ser puro malte e leve”. A propósito, o milho e o trigo tornam a bebida mais frágil à ação do tempo e sem retenção de espuma, necessitando do uso de conservantes para estabilizar o colarinho branco. Afinal, quem está certo nessa história? As grandes cervejarias acompanham o mercado e como o consumidor está mais acostumado com uma cerveja mais leve a barata, colocar o milho como adjunto em sua produção garante um preço menor e sabor mais leve. “Culturalmente a gente comprou essa ideia porque as cervejarias vieram com esse molde de fazer uma cerveja mais fraca, com graduação alcoólica não tão grande e menos encorpada. Está errado? Não, é um estilo de cerveja”, afirma Sechaus. Por outro lado, a brecha no mercado fica para as pequenas cervejarias, que podem apostar em suas bebidas artesanais com totalidade no malte ou com misturas de frutas e especiarias, para atender à crescente parcela de consumidores que estão à procura de novos sabores personalizados, mais amargos, alcoólicos e encorpados. Nesta disputa, ganha o consumidor, com mais opções.

Pilsen/Pilsner Família: Lager Origem: Rep. Tcheca Fermentação: baixa ou a frio, leveduras agem no fundo do tonel Coloração: clara, varia do amarelo-palha para o dourado Álcool (ABV): 4,5-5,5% Amargor (IBU): 35-45 Temperatura de consumo: 3°C a 7°C Característica: límpida, seca e refrescante. As americanas e as brasileiras contam com milho ou arroz em sua produção Harmonização: queijos leves, nozes, amendoins ou castanhas, pastel, croquete e frutos do mar Copo: tumbler American Pale Ale (APA) Família: Ale Origem: EUA Fermentação: alta, leveduras agem no topo do tonel Coloração: amarelo-ouro a âmbar profundo Álcool (ABV): 4.5-6.2% Amargor (IBU): 30-50 Temperatura de consumo: 5°C a 10°C Característica: uso de maltes e lúpulos americanos, cerveja mais clara e de aromas e sabores mais cítricos e florais Harmonização: hambúrguer, pratos da culinária mexicana, amêndoas salgadas, atum, cuscuz, carne ou frango assados Copo: pint/tumbler americano India Pale Ale (IPA) Família: Ale Origem: Inglaterra Fermentação: alta, leveduras agem no topo do tonel Coloração: âmbar-dourado a cobre-claro

Álcool (ABV): 5.5-7.5% Amargor (IBU): 40-60 Temperatura de consumo: 7°C a 11°C Característica principal: bastante lúpulo no amargor, no aroma e no sabor Harmonização: salmão, carne assada, filé mignon, chouriço, grão de bico, pratos da culinária mexicana Copo: pint Weissbier Família: Ale Origem: Alemanha Fermentação: alta, leveduras agem no topo do tonel Coloração: clara, branca e turva ao âmbar Álcool (ABV): 4,3-5,6% Amargor (IBU): 8-15 Temperatura: 5°C a 7°C Característica principal: produzida com trigo, levemente lupulada, leveduras na garrafa Harmonização: caesar salad, pratos mais leves da culinária japonesa, queijo de cabra, pratos da culinária mexicana. Copo: weiss Stout Família: Ale Origem: Inglaterra e Irlanda Fermentação: alta, leveduras agem no topo do tonel Coloração: marrom escura a preta fechada Álcool (ABV): 4-8% Amargor (IBU): 25-75 Temperatura de consumo: 6°C a 8°C Característica principal: cevada não maltada torrada, baixo ou alto corpo, aroma e sabor de torrefação Harmonização: sobremesas à base de chocolate, pratos condimentados, ostras, grelhados, feijoada e queijo gorgonzola Copo: pint/nonic


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Cachaça ganha reconhecimento e status Bebiba produzida a partir da cana-de-açúcar ganha selo de produdo brasileiro. Empresas miram exportação à Europa Bruna Toledo indústria açucareira estava em ascensão. O mestre em história Rainer Sousa explica que, o processo de cozimento dos caules da cana com intuito de produzir um caldo mais grosso, chamado de cagaça, cuja finalidade era alimentar animais, gerava outro líquido com alto teor alcoólico, oriundo da fermentação da cagaça. Esta seria, portanto, a cachaça. Mas, segundo ele, há ainda a hipótese de que os escravos misturaram um melaço velho e fermentado com um melaço fabricado no dia seguinte, e o álcool que evaporava do melaço velho e pingava na cabeça das pessoas, era, portanto, a pinga, a cachaça. Ainda que as versões sejam diferentes, Souza destaca que o cenário era o mesmo, no início a bebida era limitada aos escravos, por isso a associação às classes mais baixas e, por conseqüência, o preconceito.

Entretanto, com a adesão das famílias nobres da época ao consumo e, por conseguinte, à produção desta bebida, abriu-se um nicho no mercado econômico. O fácil cultivo e as condições favoráveis do solo brasileiro também facilitaram o cultivo da cana-de-açúcar. Hoje, a industrialização da cachaça emprega cerca de 450 mil pessoas no país e a produção da bebida ultrapassa 1,3 bilhão de litros anualmente, conforme recente levantamento feito pelo jornal “O Estado de S. Paulo”. Conforme a pesquisa, o total de produtores de cachaça no Brasil já atingiu a marca dos 40 mil, sendo que cerca de 5 mil (12%) estão devidamente registrados. Os pequenos produtores da bebida trabalham, geralmente, em família e produzem em pequenas quantidades, garantindo a preservação da produção artesanal da cachaça. Fotos: Bruna Toledo

Popular e tradicional, neste ano a cachaça foi reconhecida como produto do Brasil. Para muitos, a medida pode não ter grande relevância, principalmente pelo fato de já ser considerada, automaticamente, “coisa desta terra”. Todavia, a mudança deve fortalecer a exportação para o mercado europeu, o maior importador da bebida destilada, e influenciar também na adesão pelo produto, pelos próprios brasileiros. Afinal, o reconhecimento internacional contribui para diluir o índice de rejeição dos conterrâneos com complexo de vira-lata, já que agora a cachaça atingiu o status de bebida chique, requintada e merecedora dos mais exigentes paladares. Conforme o Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac), a bebida foi criada a partir da cana-de-açúcar por imigrantes portugueses e escravos, em um período onde a

Irceu Roque Pellizer, que administra a Cachaçaria Sarau

Cachaçaria Sarau mantém tradição familiar Em suas paredes, a Cachaçaria Sarau guarda muitas histórias embaladas por uma boa música e inebriadas pela típica bebida brasileira. Há quase cinco anos localizada na Rua Coronel Flores, próximo a Estação Férrea de Caxias do Sul, oferece mais de 150 variedades de sabor, que vão do abacaxi ao zimbro, fabricados artesanalmente pela família Pellizer há três gerações. Atualmente administrado por Irceu Roque Pellizer, que trabalha no ramo há mais de 30 anos, o estabelecimento que funciona de terça a sábado, a partir das 18h, e emprega três pessoas, encontrou no segmento uma forma de manter acesa a tradição familiar. A fabricação artesanal de destilados está na família Pellizer há muitos anos. O ofício herdado passou de pai para filho, começando com o

avô paterno de Roque, que veio de Flores da Cunha para Caxias do Sul em 1961 e, em 1979, estabeleceu a Pelizzer Indústria e Comércio de Vinhos e Agricultura. Na empresa, eram fabricados xaropes, base para a fabricação de refrigerantes, dando o ponta pé inicial para a nova ideia de empreendimento. Mais tarde veio a iniciar a fabricação artesanal de destilados como cachaça, graspa, uísque, vodca, gim, run, licores, além do vinho (fermentado). A fabricação mantém a tradição da família. Atualmente trabalham na fábrica Renan, irmão de Roque, e o pai Fortunado. A produção em pequena quantidade garante a qualidade das bebidas que além de fazer parte do cardápio do estabelecimento de Roque, também são vendidas em alguns mercados da região.

Destilado x fermentado: entenda as diferenças Afonso Menegasso As bebidas alcoólicas se dividem em dois tipos: as destiladas e as fermentadas. As diferenças são grandes e começam com a graduação alcóolica, muito maior em produtos destilados, como cachaça, uísque e vodca. O que poucas pessoas sabem é que toda bebida destilada surge primeiro como fermentada. A primeira etapa na fabricação do uísque, por exemplo, é a fermentação dos grãos de cevada, que resultam na cerveja. Isso acontece porque a fermentação de cereais ou de frutas é a forma primordial de obter álcool. Para isso, os sucos extraídos dessas matérias-primas são misturados a leveduras, fungos que se alimentam de açúcar, produzindo álcool em troca. A destilação exis-

te para tornar mais concentrado o pouco álcool presente nos líquidos fermentados. O primeiro passo é ferver esses líquidos. Como o ponto de ebulição do álcool (78,5°C) é inferior ao da água (100°C), obtém-se um vapor rico no primeiro. Ao ser condensado, esse vapor forma um líquido que pode ter até 70% de álcool. Dependendo da bebida que está sendo fabricada, mistura-se, então, um pouco de água para suavizá-la. Confira, ao lado, os principais tipos de bebidas destiladas e fermentadas e sua graduação alcólica, medida pela Grau GL (sigla em referência a Guy Lussac), que indica a porcentagem de álcool no produto (10º de graduação, por exemplo, significa que 10% é álcool e o restante, água).

SAIBA MAIS Destilados Uísque: bebida obtida a partir da destilação de cereais envelhecidos e milho especial. Teor alcoólico: 43-55 °GL. Cachaça: é a famosa aguardente, tem como matéria prima a cana-de-açúcar, e a destilação do mosto (caldo de cana) é que dá forma à bebida. Teor alcoólico: 38-54 °GL. Conhaque: bebida preparada através da destilação do vinho. O curioso é que primeiro se obtém o vinho por fermentação e em seguida o líquido é destilado para a fabricação do Conhaque. Teor alcoólico: 40-45 °GL.

Vodca: bebida originária da matéria prima: batata e trigo. Teor alcoólico: 40-50 °GL. Fermentadas Vinho: bebida tradicional obtida a partir da fermentação do suco de uva. As uvas são esmagadas em um tanque de madeira e deixadas em repouso para fermentarem. Teor alcoólico: 12 °GL.

Espumante: bebida sofisticada para brindar momentos especiais. A matéria-prima para obtenção é a mesma do vinho, a uva, mas neste caso a fermentação só ocorre na garrafa, ou seja, o suco de uva é engarrafado e em seguida armazenado, a partir daí é que se tem a bebida fermentada. Teor alcoólico: 11 °GL.

Cerveja: bebida popular obtida a partir da fermentação de cereais: lúpulo, cevada, cereais maltados. Teor alcoólico: 3-5°GL, normalmente, mas existem cervejas mais fortes.

Sidra: ela possui características que imitam o espumante, mas com uma diferença, a bebida é obtida pela fermentação da maçã, e não do vinho. Teor alcoólico: 4-8 °GL.


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Hábito de beber traz efeitos na saúde Além de questões sociais, consumo em excesso pode levar a pessoa a ter cirrose hepática, trombose e até câncer João Santos Pereira, 57 anos, tem uma longa história com o álcool. Aos 14 anos já bebia doses que lhe deixavam praticamente sem consciência. Cachaça, cerveja e principalmente vinho eram seus alvos principais. A situação piorou nas décadas seguintes e por conta do consumo em excesso, João teve cirrose e encarou um longa luta para se livrar do vício. Apesar de suas nuances, o relato de João não é muito diferente de vários outras histórias em uma sociedade onde beber em festas, bares e até mesmo em casa se transformou em rotina. O consumo de álcool afeta a saúde de milhares de pessoas ao redor do planeta. Segundo levantamento feito pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2012, 3,3 milhões de pessoas morrem pelo consumo excessivo de álcool anualmente, totalizando 5,9% das mortes em todo o mundo. O prazer de beber até cair não vem sozinho, muitas doenças estão ligadas a este habito tanto para mulheres, quanto para homens. Pesquisas realizadas na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) apontam que o consumo em grande escala de álcool pode causar até 200 tipos de doenças, algumas de forma direta e outras como um agravante, como é o caso da cirrose hepática, trombose e câncer. João, por exemplo, integra a lista dos que encararam uma doença que pode ser fatal: a cirrose. Durante dois anos, ele se submeteu a tratamento médico e conseguiu se recuperar.

Luiz Carlos Erbes

Eduardo Villasnetto

Consumo de bebidas alcoólicas em grande escalar pode causa até 200 tipos de doenças, segundo estudo da Unifesp Para evitar novos problemas, lutou e conseguiu parar de beber. Em outro aspecto, João também reflete as estatísticas. Ele começou a beber desde jovem, vendo o pai beber. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, cada vez os jovens têm bebido mais e em maiores doses. Segundo o levantamento, a maior parte dos estudantes consumiu bebidas

alcoólicas pela primeira vez antes de completar 14 anos, e 14 mil morreram antes mesmo de completar 19 anos. A pratica do consumo excessivo é cada vez uma realidade mais comum. Entre os homens, a média é de cinco doses em um espaço curto de tempo, o que na grande maioria das vezes acarreta na perda total da consciência e na falta

Caxias tem queda nas mortes de trânsito Bruno Peruchin Trinta e três pessoas morreram no município de Caxias do Sul em ocorrências de acidentes com carros entre janeiro e outubro deste ano. Este é o menor índice desde 2010, quando morreram 67 pessoas. A redução é resultado de uma nova abordagem ao problema desde 2011. Após a morte de três jovens em frente à Igreja São Pelegrino, na região central da cidade, as autoridades criaram uma força-tarefa para atacar o problema. O condutor do carro em que estavam os três jovens dirigia embriagado, o que levou a uma intensificação da fiscalização. Desde então, as blitze nas madrugadas se tornaram costumeiras em Caxias do Sul. Os resultados não tardaram a aparecer. Não apenas o número de vítimas fatais diminuiu, o total de pessoas embriagadas também teve uma

queda nos últimos anos. Diferente de Caxias do Sul, no Estado não houve queda em flagrantes de embriaguez, mas sim um aumento três vezes maior desde o início da Lei Seca. Em 2014, o Rio Grande do Sul registrou 23,3 mil ocorrências com embriaguez ao volante. No ano passado, este número foi reduzido para 21,1 mil ocorrências. Apesar de o número de ocorrências estar se reduzindo gradativamente ano a ano desde a implantação da lei, o número geral de embriagados passou de 6,8 mil em 2008 para mais de 21 mil em 2015. Os números são reflexo da nova legislação, mais rigorosa, e da ampliação das blitze. A instrutora de CFC Sandra de Oliveira explica que até 2008 o nível de álcool permitido durante o teste do etilômetro era bem maior.

“Com a lei da tolerância zero, passou a vigorar a lei seca”, afirma. “Em outubro, tivemos 54 pessoas autuadas na cidade por alcoolemia.” Para Sandra, a legislação mais rigorosa é positiva. “Muitas vezes, os condutores autuados nos criticam, porém, meu pensamento é o seguinte: nunca poderei provar, mas pode ser que muitos que foram autuados e tiveram seu veículo removido, ou entregue a um condutor habilitado, deixaram de se envolver em um acidente que poderia ter lhes tirado a vida, ou de outras pessoas. Acredito que em nossa cidade houve uma redução muito grande no número de condutores que ainda insistem em dirigir alcoolizados, e a aplicação da lei existe em respeito às pessoas que cumprem as normas e contribuem para a preservação da vida.”

de controle sobre seus atos. Para as mulheres a média é de quatros doses, o que causa o mesmo efeito, segundo a OMS. Beber um pouco por dia ou beber muito em apenas um dia leva o consumidor a ter o mesmo resultado. Dados divulgados pelo Levantamento Domiciliar Sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil apontam que jovens entre

12 e 24 anos têm maior tendência em consumir bebidas em momentos distintos, mas em uma quantia maior, o que leva à dependência. Já as pessoas dos 30 anos em diante consomem um pouco por dia, o que lhes dá a falsa sensação de saúde. Porém os dois chegam ao mesmo resultado. A única diferença é o tempo que levarão para se encontrar com as doenças.

Entenda o bafômetro Para combater a embriaguez no trânsito, as policias rodoviárias federal (PRF) e estadual (PRE) possuem aparelhos conhecidos popularmente como bafômetros. Em termos científicos, são conhecidos como etilômetros, termo derivado de seu funcionamento, pois há uma reação entre o ar que o suspeito expeli e um reagente dentro do aparelho. Existem dois tipos de etilômetros: o que possui dicromato de potássio, em que a presença de álcool altera sua cor, e o outro feito com células de combustível, que geram uma corrente elétrica. Os bafômetros que possuem como principal reagente a célula de combustível são os mais encontrados. O funcionamento do bafômetro é relativamente simples. Com a ajuda de um catalisador dentro

do objeto o ar expelido pelo sujeito junto com o oxigênio presente reage, liberando elétrons de ácido acético e de íons de hidrogênio. Através de um fio condutor os elétrons transmitem uma corrente elétrica e um chip calcula a porcentagem de álcool e mostra num monitor a concentração de álcool no sangue. Quanto maior for a corrente elétrica transmitida pelos elétrons maior será o teor alcoólico no sangue do indiví duo. O aparelho necessita apenas de um litro de ar para ter a medição correta, o que equivale a um sopro de apenas cinco segundos. O local onde cada pessoa assopra é descartável e o bafômetro possui um dispositivo que impede o ar que está em seu interior de sair, tornando o aparelho totalmente seguro com relação à higiene.


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Do cultivo da uva à produção de vinho

Décio Rezzadori, de Farroupilha, aproveita parte da uva dos seus parreirais para preparar 3 mil litros de Niágara branco “Gosto de ver a uva florescer, amadurecer, colher e depois beber o meu vinho”. A frase é de Décio Rezzadori, que exibe com orgulho o resultado do seu trabalho no campo: a produção de cerca de 3 mil litros de vinho Niágara branca por ano. Casado com Nelite Rezzadori e pai de Eduardo e Rafaela, seu Décio foi o primeiro de sua família a iniciar a produção de vinho, na localidade de Linha Caravaggeto, interior de Farroupilha. Até então, a família tinha parreirais, mas vendia toda a uva para vinícolas da região. Hoje, só o excedente é comercializado. Décio tem clientes cativos devido à qualidade do seu vinho. É comum ele não conseguir atender a todas as pessoas. O agricultor revela o processo que usa para fazer o vinho. Depois de colhida, a uva é moída e colocada em repouso; em dois dias o bagaço e o suco se separam e, na sequência, há a retirada do suco. Atento aos detalhes do seu produto, Décio coloca açúcar até chegar ao nível 18 de doçura, a chamada graduação. Com a pipa limpa, o suco é despejado na mesma; passam-se 30 dias e o suco é tirado e a pipa, lavada. Com a pipa seca o suco é colocado de volta novamente. Depois de 30 dias o processo é repetido. Um repouso de cinco meses dentro da pipa é suficiente para o vinho ser degustado e vendido. Em um assunto sobre produtos orgânicos, que não contenham agrotóxicos, Nelite salienta que na região que eles moram é praticamente impossível a cultura vitícola não sofrer a interferência de agrotóxicos, devido ao clima, por vezes muito frio e em outros momentos com calor escaldante. Décio e Nelite vivem na linha Caravagetto, interior de Farroupilha. Convidado a um passeio pelas

William Bertuol

William Bertuol

Parreirais bem cuidados garantem um vinho de qualidade, que atrai uma clientela fixa, e maior a cada anoxos na saúde parreiras, na época de tratamento da cultura, ele recorre a máscaras para o veneno não prejudicar e intoxicar o visitante. É possível observar, por debaixo das vinhas, belos cachos de uva, grandes, “lustros”. É inegável a vontade de pegar, mesmo verde. Questionado sobre a liberdade que o casal tem, ambos salientam que nem pensam na hipótese de deixar o interior para morar na cidade. Décio diz que pela paixão que sente por trabalhar, sujar as mãos e ter o orgulho de beber uma bebida que faz, comer a carne do boi que trata, levantar todo o dia cedo, tratar os bois, as galinhas e os peixes. Tudo isso lhe dá um orgulho imenso. “Não somos muito ligados a impostos, importação e exportação”, afirma Nelite.

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Importação de vinhos se amplia

Dados fornecidos pela IBRAVIN (Instituto Brasileiro do Vinho) apontam que a partir do ano de 2006 as importações de vinho subiram consideravelmente, passando de 50,9 milhões de litros para 81,8 milhões em nove anos. O Chile é o país que mais lucra com as importações brasileiras. Em 2006, o país vendia 15,2 milhões de litros para o Brasil, contra 21,7 milhões de litros em 2015. O Brasil também importa de países como Argentina, Itália, França, Portugal e outros países europeus. Por ora, a comercialização de vinhos finos vem caindo no Rio Grande do Sul. As vendas, que em 2006 beiravam os 22 milhões de

litros, caíram para cerca de 20 milhões em 2015. Os mais vendidos são os vinhos tintos, com aumento de 13 milhões, em 2006, para 15 milhões, 2015. Os vinhos de mesa possuem uma queda mais elevada. Em 2006 eram comercializados cerca de 245 milhões de litros de vinho, no ano passado esse número caiu para 207 milhões. Novamente, os vinhos tintos são os mais comercializados, mas também perderam mercado. Houve queda de 28,3 milhões de litros - em 2006 eram 208,8 milhões e, no ano passado, 180,5. Ainda de acordo com dados IBRAVIN, os vinhos comuns são os mais produzidos no Estado.

Contudo os derivados da uva e do vinho (champagne, vinagre...) vem ganhando números significativos em evolução, passando de 59,13 milhões em 2006 para 193 milhões em 2015, aumento de 134 milhões de litros num período de nove anos. Sobre importações, os dados da UVIBRA (União Brasileira de Vitivinicultura) mostram que o Chile domina o mercado. Em agosto de 2016, o país importou 28 milhões de litros, representando 53% do total. A França lidera o quesito exportações de champagnes/espumantes. Em agosto de 2016, o país vendeu 587.769 litros para o Brasil.

anos. Roberto Tumelero, hoje com 76 anos de idade, nasceu em 30 de novembro, na Linha República, 2º Distrito de Farroupilha, Capela São José. Já atuou na empalhação de garrafões e vendas de geladeiras e, quando criança, trabalhou no plantio de uvas, trigo e milho. No dia 14 de maio de 2015, Roberto ganhou o título de cidadão Caxiense, em sessão solene, no plenário da Casa. A decisão foi aprovada por unanimidade pelos parlamentares. Após re-

ceber o diploma, Tumelero fez agradecimentos e destacou a importância de seus pais, que sempre lhe ensinaram o valor do trabalho. Diversos vereadores falaram da importância do trabalho de Roberto e como isso influencia no crescimento da cidade, Francisco Spiandorello falou em nome do prefeito Alceu Barbosa Velho, que destacou o espírito italiano em Roberto. Hoje em dia a empresa é administrada por Roberto e seu filho, Rudimar Tumelero.

A casa de vinhos de Caxias do Sul Gabriel Tadiotto

Caxias do Sul tem inúmeras casas de comércio de bebida. Porém, existe uma que se destaca no meio de tantas, pelo fato de estar há 48 anos em atividade na cidade: a Tumelero Comércio de Bebidas. Em 1968, Roberto Tumelero inaugurou a primeira casa de bebidas em Caxias do Sul. A loja, que leva seu sobrenome, começou trabalhando apenas com a venda de espumantes e vinhos da região e uísques nacionais. Em 1971, Tumelero ganhou um concorrente de renome na

cidade, a Bebidas Antunes. Isso não foi problema. Por volta de 1978, Roberto duplicava suas áreas de comércio e estoque, mesmo ano que surge mais um concorrente, a Indústria e Comercio de Vinhos Rossato, que também não influenciou no sucesso da loja. Exemplo de como o crescimento não parou, nos anos 80, a casa de bebidas, além de oferecer os produtos nacionais, passou a comercializar vinhos, espumantes e destilados importados. Nos anos 2000, voltou a

expandir seus espaços físicos e aumentou a diversidade de seus produtos, com novas linhas de vinhos europeus, sul-americanos e norte-americanos e, também, variedades nacionais. A Tumelero destaca três características fundamentais para se manter a tanto tempo no mercado: atendimento personalizado, diversidade de produtos e, algo fundamental para funcionar na Serra Gaúcha, o preço justo. Os três atributos, segundo o empresário, são essenciais a quem serve a sociedade há mais de 45


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FALATÓRIO JORNAL EXPERIMENTAL DA FACULDADE DA SERRA GAÚCHA | DEZEMBRO.2016

Vinícolas ignoram potenciais da publicidade Diretor de criação de agência afirma que investimentos ainda são baixos e, na maioria dos casos, se limitam às mídias sociais Douglas Goulart

Falatório: A Serra Gaúcha é uma região produtora de vinhos. Como alinhar os produtos daqui com veiculações publicitárias para ter um alcance ainda maior? Viana: O alcance sempre vai ser proporcional ao investimento do cliente, mesmo que seja uma comunicação digital. Nossos clientes ainda possuem um investimento baixo, comparado ao que seria um mínimo necessário para tornar o alcance realmente interessante. Um outro fator negativo é o preconceito com o vinho/ espumante nacional. Se tem muito a visão de que produto bom é o que vem de fora, do Chile, da Argentina. É necessário que haja uma mudança de cultura nesse sentido, gerando novos hábitos no brasileiro. Um exemplo muito interessante que aconteceu com a Salton, nosso cliente, foi que

Reprodução/Facebook

Thomaz Viana, chefe de criação da Agência Original, em Caxias do Sul, considera baixo o investimento da indústria de vinho da Serra Gaúcha em publicidade. Por conta disso, os resultados em mídia são pouco expressivos. Mídia com maior impacto, a televisão é ignorada, assim como o rádio. A principal aposta, diz, são as redes sociais, que garantem resultados que podem ser dimensionados, diferentemente do que ocorre com a TV e o rádio. A Agência Original já atendeu a empresas do segmento de vinho, como a Vinícola Salton, de Bento Gonçalves. Viana conversou, por e-mail, com o Falatório, em que falou sobre a experiência e abordou outros temas relacionados à publicidade de bebidas alcoólicas no Brasil. Confira a entrevista:

Thomaz Viana, da Agência Original, vê pouco investimento de mídia entre as vinícolas da Serra Gaúcha há alguns anos a maior parte do faturamento se dava através da venda de vinho branco. E teve um período onde a grande massa passou a falar muito sobre o vinho tinto, seus benefícios para a saúde. E esse contexto acabou por criar novos hábitos no consumidor, de passar a preferir o vinho tinto e de procurar mais por esse produto, o que fez com que a proporção do faturamento da Salton invertesse, passando a vender mais tinto do que branco. Falatório: Quais os principais veículos são visados para a reprodução de uma marca/cliente de vinhos? Viana: Redes Sociais, assessoria de imprensa e explorar o

próprio PDV (Ponto de Venda). Da mídia tradicional, o jornal é o mais utilizado. Rádio e TV são pouco explorados. Falatório: A televisão permite comerciais de vinho? Por que quase não vemos campanhas de vinho na televisão aberta? Viana: Por falta de visão e investimento dos clientes. E também quando o cliente investe em TV e não consegue enxergar o retorno sobre aquele investimento, ele passa a não ter uma continuidade nesse canal. Anuncia por três meses e abandona. Falatório: Quanto ao mercado online, o que é permitido? Quais são as estratégias para esse segmento?

Viana: É permitido e é o mais explorado pelos clientes da agência hoje, não só desse segmento. Visto que é uma forma mais barata, mensurável e de alcance segmentado muito maior. As principais estratégias são mídia em Facebook Ads e Google Ads, produção de conteúdo para blogs e redes sociais, loja virtual e e-mail marketing. Falatório: Comercias de vinho são em nível regional ou nacional? Quais os critérios para isso? Viana: Para nossos clientes deste segmento nunca fizemos TV. A abrangência vai depender muito do que está se veiculando naquele momento, mas ambas

podem ser interessantes, tanto regional como nacional. Falatório: Como você vê a publicidade de bebidas alcoólicas no Brasil? Viana: Como o vinho e o espumante são pouco vistos e explorados na publicidade, tenho como base a propaganda de cervejas. Na minha opinião, é uma área que sofreu muita mudança. Aquele foco em explorar a figura feminina como grande chamariz tem decaído para a maioria das marcas, principalmente pelo perfil do público que está cada vez mais crítico e “politicamente correto”, defendendo toda e qualquer injustiça com os grupos menos favorecidos (mulheres, homossexuais, etc.), se é que me entende. E também porque o CONAR não deixa passar nada. Falatório: Atualmente existe um projeto de lei no Senado que quer proibir toda e qualquer ação comercial de bebidas alcoólicas no Brasil. Qual tu opinião sobre isso? Viana: Desconhecia essa lei. Acredito que seja radical demais e desnecessária. Falatório: Você acha que a propaganda estimula o uso excessivo de alcool? Viana: Não. Elas tentam mostrar um estilo de vida, um estereótipo interessante que o consumidor se identifique e queira se associar aquilo. O storytelling que as marcas contam é envolvente, porém não creio que estimula de forma que todo mundo um dia vá parar no Alcoólicos Anônimos. O teor das propagandas, na verdade, vai contra isso, mostrando momentos legais, da pessoa aproveitando aquele instante, apreciando com moderação a bebida.

Cerveja puxa investimento em mídia O Brasil é um dos países que mais consomem bebida alcoólica no mundo e também é um dos que mais investem em publicidade quando o assunto é divulgar, cuidar, aproximar do cliente suas respectivas marcas. Segundo o grupo Mídia Dados Brasil, o país é o 5° colocado nesse quesito. A publicidade de bebida no Brasil é altamente rentável. Em 2015 o ramo de bebidas em geral investiu cerca de 6 bilhões de reais em publicidade nas mais diversas áreas. Na televisão (setor que mais lucra com comercias de cerveja) e no rádio, por exemplo, existe uma lei ( n. 9,294, de 1996) bem específica para as propagandas, ela permite somente que vinhos e cervejas tenham direi-

to a esses espaços comercializados, com horários predeterminados para veiculação, mas os chamados “spots” de poucos segundos são permitidos em todos os horários. Atualmente no Senado, existe um projeto de lei do deputado João Pizzolatti que quer proibir os comercias de bebidas alcoólicas em todos os meios de comunicação. Em abril de 2015, um projeto de lei semelhante foi negado pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Dentre as empresas que mais investem em bebidas, cerca de 80% são detentoras de marcas de cerveja. Na área publicitária em geral, a primeira empresa relacionada a bebidas que aparece na lista é a Ambev, em 7° lugar, segundo uma pesquisa referente

ao ano de 2015 e primeiro semestre de 2016. A companhia é dona de diversas marcas consumidas no Brasil, como as nacionais Bohemia, Skol, Brahma, Antarctica, Caracu, assim como as importadas Budweiser, Corona, Stella Artois, entre outras. As bebidas destiladas não podem ter comerciais em veículos de comunicação social. Suas campanhas são feitas de uma forma visual, com cartazes e pôsteres em bares, shows e baladas por exemplo.

CAMPANHAS

As campanhas publicitárias de qualquer produto são regulados no Brasil pelo Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária

(CONAR) . Até pouco tempo atrás os comercias de cerveja por exemplo, eram altamente apelativos em relação a sensualidade da mulher. Além dos apelos sensuais, o CONAR, não permite uso de crianças e adolescentes em nenhum tipo de comercial. Todas as campanhas devem vir atrelada ao slogan “Beba com Moderação”, “Produto destinado à adultos”, dentre outros semelhantes. Também deve conter nos rótulos a informação de que o produto é impróprio para menores de 18 anos.

CONTRA o ÁLCOOL

Não é incomum vermos campanhas contra as bebidas alcoólicas na televisão brasileira. Geralmen-

te as produções estão atreladas ao consumo de bebidas e trânsito. O trânsito brasileiro mata mais que algumas guerras mundo afora, e o álcool é um dos grandes responsáveis, senão o maior. As campanhas são quase sempre institucionais e veiculadas em todas as mídias abertas. Na mídia brasileira também vemos, com uma boa frequência, reportagens e programas especiais sobre o combate ao alcoolismo. Esses programas visam informar as pessoas sobre os problemas do álcool, assim como suas causas e consequências, além de orientação inicial para quem quer enfrentar essa doença.


FALATÓRIO JORNAL EXPERIMENTAL DA FACULDADE DA SERRA GAÚCHA | DEZEMBRO.2016

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Quando beber integra a produção cultural Com papel central ou coajuvante, bebida alcóolica está presente em inúmeras obras literárias, no cinema e na música Eduardo Villasneto, Luciano Pettorini e Márcia Bastian Falkenbach

Cinema 007 – James Bond “Batido, não mexido”. Se é assim que você pede seu drink ao barmen, certamente o charmoso agente britânico James Bond cumpriu seu papel. Os hábitos etílicos do lendário 007 não são mera coincidência literária/cinematográfica, e sim uma estratégia de marketing. Em toda a saga de filmes que envolve o universo James Bond, apenas uma vez a bebida foi substituída: Em Skyfall, o agente secreto deixou de lado o Martini e optou por tornar a cerveja sua bebida oficial. A Heineken, marca escolhida, desembolsou cerca de 28 milhões de libras pela ação.

Divulgação

Mesmo antes do surgimento do modo de produção moderno, com o desenvolvimento de tecnologias que permitiram a rápida reprodução de bens culturais, e antes do surgimento da bilionária indústria de bebidas alcoólicas, o ato de beber estava presente em pinturas e textos literários. Quadros da época da renascença comprovam isso, assim como textos antigos em que o vinho e a cerveja entram na história. Hoje em dia, a bebida está presente em tudo o que é produção cultural. A equipe do Falatório selecionou alguns filmes, livros e músicas que ilustram esse papel do vinho, cerveja ou uísque. Essa presença é, por ora, central, como no filme Sideways - Entre umas e outras ou na música de Zeca Pagodinho ou coadjuvante (embora importante), como em Iluminado. Confira a lista.

da nevasca, isolando o zelador e sua família. Cercados por temas sobrenaturais e um passado sombrio, Jack reencontra a perdição no álcool e a influência maligna dos espíritos que lá habitam. A Garota do Trem Paula Hawkins Rachel é apenas o que restou de si mesma. Desempregada e alcoólatra, viaja diariamente de trem para fugir da sua realidade depois de um passado feliz com seu ex-marido arruinado por uma traição. Nas suas viagens, sempre no mesmo horário, Rachel gosta de observar, quando o trem para num sinal, um casal apaixonado em uma casa, até que ela testemunha um fato crucial para elucidar o desaparecimento de uma jovem.

“Sideways – Entre umas e outras”, o cantor Zeca Pagodinho e O Iluminado, de Stephen King Califórnia. Com perfis diferentes, os dois viajam com objetivos distintos: um deles pretende aproveitar a semana pré-casamento como uma divertida despedida de solteiro; o outro, angustiado, aguarda a resposta sobre a publicação de um livro. O vinho entra na história o tempo todo, e, provavelmente, você passará a evitar a variedade Merlot após o filme.

bolos do álcool, o próprio retrato da cerveja e da cachaça brasileira. Apesar de seus grandes sucessos não falarem muito sobre o tema álcool o artista tem uma relação muito íntima com esta maravilha. Zeca participou de inúmeras propagandas de cerveja em marcas como Nova Schin e Brahma, na primeira dando seu próprio aval à bebida.

Quando um homem ama uma mulher “Quando um homem ama uma mulher” mostra a pior face do álcool (a capacidade de destruir não só o indivíduo, mas a família também). O filme relata a história de uma mulher que enfrenta uma crise devido ao alcoolismo, e o drama que envolve seu marido e suas filhas. Como ressalta o nome do filme (When a man loves a woman, em inglês) somente o amor é capaz de curar as feridas causadas pelo abuso de álcool. Fica o destaque também para a trilha sonora do filme, que fez grande sucesso no Brasil com a canção na voz de Michael Bolton, que dá nome ao filme.

Al Capone – Os Intocáveis A guerra contra as drogas é um dos assuntos mais controversos da atualidade, mas é consenso que o resultado de toda repressão contra o tráfico e consumo de entorpecentes está longe de ser o esperado. Agora, imagine uma lei que proíba a venda e consumo de álcool. Pois isso aconteceu nos EUA durante a grande crise das décadas de 1920 e 1930. A Lei Seca pretendia diminuir o caos em que o país estava mergulhado, onde a pobreza e a violência eram parte do cotidiano da sociedade norte-americana. O filme Os Intocáveis conta a história real do chefão da máfia Al Capone, cabeça da organização que corrompeu e controlou a cidade de Chicago. A trama gira em torno das atividades ilegais de Al Capone, que fez fortuna e fama com a distribuição ilegal de bebidas alcoólicas, driblando a Lei Seca.

Sertaneja A música sertaneja sempre teve uma certa ligação com o tema álcool seja para embalar grandes farras ou para se livrar das duras recaídas. Desde os primeiros sucessos do gênero, a famosa pinga já estava presente. Um dos maiores sucessos da música sertaneja de raiz, e considerado quase um clássico da música brasileira, é a famosíssima “Boate Azul”. A obra já foi interpretada por diversos artistas. A história conta a vida de um cabra que bebeu demais e não se lembra o nome de sua amada e nem onde mora. Eita lasquera.

Sideways – entre umas e outras Clássico quando se trata de vinhos, Sideways narra a história de dois amigos que realizam uma viagem a região das vinícolas da

música Zeca Pagodinho Para começar a lista nada melhor do que um dos artistas sím-

Rock Nacional Raul Seixas também entrou na onda das músicas sobre álcool, foi um dos responsáveis pela letra da música Movido a Álcool, assim como o próprio cantor diz na letra, “veja um poeta inspirado em Coca-Cola, que mensagem mais estranha ele iria expressar?”. O álcool, caros leitores, nos ajuda em muitas coisas e, sem dúvida, nos dá muita inspiração.

Funk O funk juntamente com a música sertaneja não tem nenhuma vergonha em falar da “marvada pinga”. São inúmeros os artistas que trazem para seus trabalhos, desde cerveja a uísque. Com inúmeras músicas dominando o Brasil inteiro. Nego do Borel é um bom exemplo, com clipes que ultrapassam os 30 milhões de acessos, dá uma verdadeira aula de como se utilizar as bebidas para justificar suas traições.

On the Road – Jack Kerouac Um dos grandes clássicos da Geração Beat, On the Road traz mais do que personagens sedentos de grandes aventuras regadas a álcool, drogas, sexo e jazz, traz a marca de toda uma geração de escritores que faziam exatamente o mesmo. A história é contada pelo escritor Sal que atravessa os Estado Unidos em companhia de seu melhor amigo Dean, e exemplar perfeito de uma geração pós-guerra sem medo de viver o dia de hoje.

Pop/Rock As obras internacionais não estão num caminho muito longe das brasileiras, são inúmeras as músicas que falam de baladas e bebedeiras. Até Rihanna, uma das maiores estrelas mundiais, está nesta febre. Um de seus lançamentos, a música Cheers (Drink To That), bateu a marca de 129 milhões de visualizações e retrata esta realidade. Realmente, a pinga enriqueceu muitas pessoas.

Pergunte ao Pó – John Fante Considerado o precursor da Geração Beat e adorado por Charles Bukowski, John Fante faz de “Pergunte ao Pó” uma espécie de biografia distorcida através de seu alter ego Arturo Bandini, pretensioso e miserável escritor com apenas um conto publicado e muitas contas. Bandini, dono de um ego inflado, vive uma história intensa de busca por inspiração em uma relação de amor e ódio por Camilla Lopez uma garçonete mexicana e pela ajuda ao vizinho alcoólatra e viciado em carne, Hellfrick.

Literatura O Iluminado – Sthephen King Jack Torrence é um ex-professor de literatura e aspirante a escritor que decide proporcionar um recomeço à sua família composta pela esposa Wendy e pelo filho Danny depois de perder o emprego ao agredir um aluno. Se recuperando do alcoolismo, Jack aceita um emprego de zelador no Hotel Overlock no inverno, quando o hotel fecha por causa

O Grande Gatsby F. Scott Fitzgerald Um dos grandes clássicos da literatura universal, O Grande Gatsby se passa da década de 1920 e é narrada por Nick Carraway, um correto de classe média que se muda para uma pequena casa próxima à mansão de Jay Gatsby. Através das muitas festas regadas à gim, o narrador vai descobrindo pouco a pouco quem é Jay Gatsby e suas motivações que o alçaram à riqueza.


Festivais divulgam bebidas de forma direta Eventos como o “Fantásticas Cervejas” e festas que celebram o vinho ajudam a ampliar o consumo de produtos específicos

Guilherme Zaniol

Luciano Pettorini

A previsão é que seja um cenário muito mais favorável nas próximas edições”. Com o sucesso, o festival “Fantásticas Cervejas” deve ser realizado duas vezes por ano. Provando que o conceito de festivais de cerveja é uma boa ideia e que pode se consolidar a médio e longo prazo, outro festival, o “CervaSerra”, foi realizado com sucesso pela quinta vez neste mês de outubro. Guilherme Zaniol, um dos fundadores do CervaSerra (evento que leva o mesmo nome da associação sem fins lucrativos que reúne 108 cervejeiros caseiros da Serra Gaúcha), destaca que a edição mais recente do festival reuniu mais de 2.100 pessoas no restaurante Tulipa, nos pavilhões da Festa da Uva. “A CervaSerra promove eventos mensais entre seus associados, cursos, seminários e workshops, média de um a cada dois/três meses, organiza compras coletivas para baratear os custos aos associados. Além disso, promove dois eventos anuais, sendo um aberto ao público, e outro restrito a associados e convidados, ambos para mais de 1.000 pessoas”, aponta Zaniol, esclarecendo que as atividades vão muito além de um único evento. O festival CervaSerra não foca na venda direta das cervejas no local do evento, mas prioriza o contato do consumidor com as marcas, com os produtores que estão expondo e servindo suas cervejas. O próprio cervejeiro explicar o processo de produção, os ingredientes e as ferramentas utilizadas é uma forma

de agregar valor ao conceito de cerveja caseira. “O foco não é o resultado financeiro, que, considerando o faturamento, é visto como bem baixo. Focamos na qualidade no serviço, no local, no atendimento, nas cervejas. O lucro do evento é reinvestido na Associação, na sede que dispomos aos associados, onde se pode fabricar levas de 30/80/100 litros, com câmaras de fermentação, equipamento para envase. Bem como, serve para que possamos trazer palestrantes de fora do Estado, e claro, manter a estrutura da Associação de forma legal, hoje dispomos de CNPJ, contador”, explica Zaniol. Ao contrário do setor cervejeiro artesanal, que está em plena expansão, a vitivinicultura vem enfrentando dificuldades há bastante tempo. A Festa do Vinho Novo, de Forqueta, distrito de Caxias do Sul, que acontece de dois em dois anos desde 2001, é considerada uma oportunidade de comemorar os resultados do setor, mesmo que tenham ficado abaixo do esperado. “A Festa do Vinho Novo nos mostra que devemos continuar batalhando pelo produto produzido na nossa localidade”, afirma Sandra Bonetto, presidente da sétima edição, que ocorreu em julho deste ano e contou com mais de 40 expositores, sendo oito da região de Forqueta. “É um momento de união, troca de experiências, de mostrarmos que, mesmo com tantos problemas, continuamos firmes e fortes, com muita fé e trabalho.”

Festa do Vinho Novo, em Forqueta, divulga a produção local Luana Belarmino

Uma das formas de divulgação e comercialização dos produtos alcoólicos são os eventos com foco direto no público consumidor. Festivais, encontros, festas na colônia e feiras são ambientes favoráveis para divulgar vinhos, espumantes, cervejas e afins, gerando bons resultados, financeiros e publicitários. Em Caxias do Sul, na Serra Gaúcha, além das tradicionais festas alusivas ao vinho, bebida derivada do principal produto agrícola da região (a uva), as cervejarias artesanais têm se destacado na valorização e divulgação das marcas locais e regionais. O festival “Fantásticas Cervejas” teve sua primeira edição nos dias 3 e 4 de setembro de 2016, na Praça das Feiras, em Caxias do Sul. A organizadora do evento, Luana Belarmino, destaca que o festival pretende promover a cultura cervejeira local na rua. “Um dos nossos principais objetivos é proporcionar um dia bacana para as pessoas. Paramos de interromper o interesse delas através das marcas e ações tradicionais e passamos a falar o que as pessoas querem ouvir/viver”, afirma. Quatorze cervejarias expuseram e serviram seus produtos às mais de 7 mil pessoas que circularam pelo festival no final de semana. Segundo Luana, apesar do mau tempo, o retorno foi satisfatório. “Financeiramente foi o que esperávamos. Fizemos um evento de qualidade sabendo que não teríamos grandes lucros nessa primeira edição.

Sedenir Taufer

Edição do CervaSerra de 2016, realizado nos Pavilhões da Festa da Uva, reuniu mais de 2 mil pessoas dispostas a conhecer o universo das cervejas artesanais

“Fantásticas Cervejas” teve a primeira edição em setembro


Falatório