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nยบ 35 | julho de 2011 |

pi

Na estrada Histรณrias da BR-116

primeira impressรฃo


AO LEITOR

CLARA ALLYEGRA

A

inda que a ideia seja tentadora, não falaremos em metáforas neste número da Primeira Impressão. Falaremos de um caminho mesmo, uma estrada, dessas que nos levam e trazem de volta. Vindos do Sul ou do Norte, quase todos que trabalham, estudam e convivem na Unisinos passam pela BR-116. Passagem que, por princípio, é tempo e deslocamento. É também vivência. Mais que um espaço de trânsito, a estrada é espaço de vida. Foram essas vidas, pelas quais simplesmente passamos, que dessa vez tentamos enxergar. Afinal, de quem são as roupas penduradas naqueles varais embaixo da ponte? Quem vende e que produtos são aqueles nas vendas pelas quais passamos velozmente? Um jardim em plena brutalidade da rodovia? Quem toma chimarrão naquela sacada? Quais as dores de quem faz a manutenção desse caminho? Quem é chapa ou não? Aprofundamos nossa percepção e contamos essas histórias. A edição 35 da Primeira Impressão — pautada e produzida por alunos do final do curso de Jornalismo da Unisinos — tem esta marca, uma das marcas que faz do jornalismo algo tão instigante: a possibilidade de ir atrás do que ainda não foi suficientemente contado e de perceber como as experiências podem ser narradas por quem as vive, longe do espaço confortável da redação. Para ser produzida, precisou que todos nós, intuições ligadas, olhássemos um pouco mais atentamente para o que se passa fora do carro, do trem, da van, do ônibus. E, lá fora, descobrimos um mundo cheio de histórias e de vida.

ANDRÉ ÁVILA

Eduardo Veras Flávio Dutra Thaís Furtado Professores-orientadores


ÍNDICE

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CLARA ALLYEGRA

8 Viagem no tempo: como se fez a BR

Remendo: borracharias contemporâneas

14 Rota: o Rio Grande de ponta a ponta

Hoje é festa na BR: bailes e bailões

20 Samu: socorro sobre quatro rodas

Bem passado, mal passado: churrascaria

24 Autoridade: quem vigia a estrada

Na lona: vou correndo ao encontro dela

28 Confusão: imagens que poluem

Acelerando: diários de motocicleta

32 Política visual: grafite e pichação

Meu chapa: quem ajuda o caminhoneiro

36 Religiosidade: “Só Jesus salva!”

À margem do caminho: vida de índio

40 Manutenção: homens trabalhando

Vem comigo: em busca do sexo

46 Andança: um quilômetro a pé

Sustento: uma tenda familiar

50 Rota Romântica: o lado bom da rodovia

Caos: morando ao lado de um viaduto

54 Afivele o cinto: na Praça do Avião

Habitação: oito debaixo da ponte

58 Entrevista: uma pista e dois mundos

Recortes urbanos: uma cidade dividida

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ATENÇÃO

CLARA ALLYEGRA

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cartola

BR-116 chega ao extremo sul do Brasil na dテゥcada de 1950, atravessando os campos dos arredores de Pelotas

Uma histテウria em li 8 | PRIMEIRA IMPRESSテグ | JULHO/2011


nha longitudinal PRIMEIRA IMPRESSテグ | JULHO/2011 | 9


Engenheiro civil e especialista em pavimentação rodoviária, Mauri Panitz, 69 anos, fez carreira na BR-116 desde os 26 TEXTO DE TAÍS SEIBT | FOTOS REPRODUÇÕES E PEDRO BARBOSA

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uando era criança, Mauri Adriano Panitz tornou-se popular entre os colegas de escola e vizinhos de rua porque gostava de desenhar. De família católica, ia à igreja aos domingos, mas desviava facilmente a atenção do sermão do padre para os afrescos no teto do templo. No centro de Porto Alegre, parava para ver um desenhista rabiscar pinturas de prédios públicos na Praça da Matriz. Mas o traçado que marcou a vida de Panitz seria bem mais simples de representar. Bastaria rabiscar uma linha longitudinal cortando o mapa do Brasil de norte a sul. De chinelo de dedo, na sala de seu apartamento, o engenheiro aposentado rabisca na fotocópia de um

antigo croqui o ponto inicial e o final de sua jurisdição como engenheiro residente do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), em São Leopoldo. Aos 69 anos, Panitz fala com saudosismo de seu trabalho pela BR-116, no trecho de aproximadamente 300 quilômetros entre São Marcos e Camaquã, numa época em que as rodovias estavam em franca expansão no Brasil. Desde o Plano Rodoviário Nacional (PRN) criado em 1944, que pretendia ligar o país de ponta a ponta, foram feitos vários investimentos na construção de estradas. Especialista em pavimentação rodoviária e formado em Engenharia Civil, Panitz foi contratado em 1968 para ser assistente do então engenheiro residente

do DNER em São Leopoldo, Nei Nunes Fortes de Oliveira. Um ano depois, o titular deixou a vaga em aberto e Panitz assumiu o comando da residência. O DNER, atual Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (DNIT), chama de “residências” as unidades do órgão distribuídas pelas rodovias federais para monitorar os trechos. Cabia àquele jovem de 26 anos comandar quase 500 empregados nas mais variadas funções: topógrafos, mecânicos, sobretudo operários. “Consegui me entrosar tão bem que eu gozava da confiança dos meus superiores e tinha a empatia dos subordinados”, diz Panitz. Os operários viviam em acampamentos, chamados de capatazias, à beira da estrada. “Era gente muito

Na década de 1930, a BR-116, ainda chamada de BR-2, era apenas um traçado de chão batido entre áreas pouco urbanizadas

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simples, mas com grande espírito de doação”, lembra. “Muitos vinham da colônia, estavam acostumados a trabalhar na terra.” Daí o capricho que tinham com os canteiros da rodovia. Foi feita nesta época toda a arborização do trajeto entre Nova Petrópolis e Novo Hamburgo, com os plátanos amarelados no outono que estampam cartões-postais das cidades que se divulgam como a Rota Romântica. “Eu achava que plantar árvores na beira da estrada era uma maravilha, porque deixava o caminho mais bonito, mas com o tempo vi que causa alguns transtornos, como quedas de troncos e obstrução da sinalização”, avalia hoje, com a visão sistêmica que o tempo lhe deu.

Tratores, NÃO carroças Cada capatazia tinha, além do acampamento dos trabalhadores, pedreira, usina de asfalto, depósito de sucata e horto florestal. Quando era preciso fazer um reparo, retirar árvores caídas ou remover pedras de quedas de barreiras, o material vinha da capatazia mais próxima. Na gestão de Panitz, já se dispunha de facilidades como tratores, carregadeiras, serra elétrica e dinamite

Área central de Canoas nos anos 1950, hoje um dos trechos mais movimentados da BR-116

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para executar o trabalho, mas a BR116 começou a tomar forma no Rio Grande do Sul em tempos bem mais precários. A implantação do primeiro trecho, entre a divisa com o estado de Santa Catarina e a cidade gaúcha de Caxias do Sul, na Serra, data de 1938, “aproveitando a mão-de-obra abundante, com auxílio de transporte em carroças, obedecendo aos padrões e possibilidades da época”, conforme registros do DNIT. Como “possibilidades da época”, entendase o uso de foices para afastar o mato e picaretas para detonar pedras. Até 1974, a rotina de Panitz foi dividida entre a burocracia de dar pareceres, despachar processos, fazer estudos técnicos, participar de reuniões e a parte técnica de visitar trechos, acompanhar obras, orientar trabalhos de campo. Não tinha jornada definida nem horário fixo. Fim de semana, feriado, madrugada. Era preciso estar sempre pronto para cair na estrada. O escritório, quase sempre, era a própria rodovia. Uma ocorrência no inverno de 1971 é representativa para Panitz. Havia muitos buracos na pavimentação da ponte sobre o Rio Gravataí, entre Porto Alegre e Canoas. A lenti-

dão no trecho, que já registrava um fluxo de 50 mil veículos por dia na época, obrigava os motoristas a enfrentar longos engarrafamentos todas as manhãs. “Mobilizei a equipe, pedi o apoio da Polícia Rodoviária Federal e passamos a madrugada trabalhando, das 23h às 5h, para recuperar a pavimentação”, conta. “Era um inverno rigoroso, fazia quase zero grau, mas todos estavam lá. Tinham um grande espírito de desafio”, completa. Na manhã seguinte, os usuários já podiam usufruir das melhorias no trecho, que, 30 anos mais tarde, continua sendo um dos grandes nós do trânsito na Região Metropolitana de Porto Alegre. “É um coração enfartado”, define Panitz, citando um artigo seu publicado recentemente. Ele compara a BR-116 à artéria principal de um coração que não suporta mais o alto fluxo de veículos, superior a 100 mil por dia. “A 116 precisa de safenas, estradas paralelas interligadas a ela, para desobstruir o entupimento”, ilustra. Vencer os desafios que a rodovia lhe oferecia a cada dia era a maior realização para aquele jovem engenheiro – e hoje a grande lição que ficou da BR-116 para sua vida.

Nos anos 1960, a rodovia já estava pavimentada e com duplicação em alguns trechos


PEDRO BARBOSA

Panitz: “A BR-116 é um coração enfartado”

“Nessa rodovia adquiri toda minha experiência, pelo método mais eficiente do mundo: errando e acertando”, avalia. Em 1974, Panitz deixou a residência do DNER em São Leopoldo, mas não se afastou da BR-116. Assumiu a chefia do serviço de trânsito da Polícia Rodoviária Federal. Segundo ele, 40% das ocorrências que precisava atender se concentravam

na rodovia, por ter o maior tráfego do Estado. Paralelamente, a BR-116 estava chegando ao seu quilômetro final no Rio Grande do Sul. O quilômetro 654,2, em Jaguarão, na fronteira do Brasil com o Uruguai, foi concluído em 27 de abril de 1974. O Brasil enfim podia festejar a construção de sua “mais importante rodovia radial”, como registram os arquivos do Ministério dos Transportes. “Ter trabalhado em uma obra importante como a da BR-116 é fantástico!”, sintetiza Panitz. A dificuldade para encontrar as palavras certas para definir a importância da rodovia em sua vida se compara ao silêncio que ele faz quando tenta achar resposta para o que não gostava no trabalho. “É difícil achar o que era ruim”, dispara após alguns instantes. “A falta de recursos sempre atrapalhava”, comenta depois de pensar mais um pouco. Na linha longitudinal da vida de Mauri Panitz, houve tempo ainda para trabalhar no setor de planeja-

Vista aérea do trecho CanoasPorto Alegre na década 1960 mostra o desenvolvimento da região metropolitana da Capital

Em 1968, o traçado da rodovia corta a cidade de Canoas, separada de Porto Alegre pelo Rio Gravataí, como mostra a imagem aérea 12 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | JULHO/2011


mento do DNIT, ser diretor técnico da Secretaria de Transportes do Estado, integrar conselhos de engenharia, dar aulas na universidade, ministrar palestras e cursos, participar de debates e escrever artigos e livros. Além de casar e ter filhos. O mais velho, Carlos Eduardo, formou-se em Engenharia Civil, como o pai, e depois cursou Administração de Empresas. Luis Fernando, o mais novo, estudou Direito. Se é que a máxima consagrada faz algum sentido, Panitz pode considerar que cumpriu sua missão na vida: plantou árvores às margens da BR-116, teve filhos e escreveu livros. Uma das obras extrapola o conhecimento técnico que acumulou entre um quilômetro e outro da estrada mais importante do Brasil. Em A linguagem do silêncio, Panitz traça o próprio perfil a partir de sua paixão pelo desenho. De todos, o da fotocópia de um croqui amarelado resgatado dos arquivos do DNIT é a sua mais significativa contribuição.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER

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odovias não são obras da criação divina. São frutos do trabalho braçal de homens, quem sabe também de algumas mulheres. Para podermos hoje atravessar o Brasil de Norte a Sul pela BR-116, totalmente pavimentada, foi preciso que técnicos projetassem a estrada e operários fornecessem sua mão-deobra. Não fazíamos ideia de quando a rodovia tinha começado a ser construída, mas queríamos encontrar uma das pessoas que trabalhou na sua construção. Foi preciso insistir em contatos com Ministério dos Transportes, Instituto de Pesquisa Rodoviária, banco de dados de Zero Hora, Museu da Comunicação e Câmara dos Deputados, todos muito prestativos. Descobrimos que a BR-116 começou a ser construída na década de 1930. Seria muito difícil que algum operário dessa época ainda estivesse vivo ou ao menos lúcido até hoje. A última esperança era a memória de um engenheiro aposentado do Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (DNIT), que nos levou à fonte desta reportagem. Ainda foi possível ilustrar a matéria com a colaboração da historiadora Danielle Heberle Viegas, que disponibilizou fotografias usadas em sua dissertação de mestrado. A lição que fica é acreditar na pauta, não desistir na primeira negativa.”

Imagem de 1983 mostra a região metropolitana de Porto Alegre amplamente urbanizada às margens da BR-116 O tráfego no trecho Canoas-Porto Alegre era intenso desde os anos 1970: cerca de 50 mil veículos por dia. Na foto, imagem registrada em 1972 PRIMEIRA IMPRESSÃO | JULHO/2011 | 13


Seiscentos e cinquenta e nove TEXTO DE ANDRÉ ÁVILA E EDUARDO HERRMANN | FOTOS DE ANDRÉ ÁVILA

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maior rodovia pavimentada do Brasil percorre o Rio Grande do Sul em 659 quilômetros. Começa em Vacaria, divisa com Santa Catarina, e termina em Jaguarão, na fronteira com o Uruguai. Nesse percurso, a BR-116 cruza áreas urbanas de outros 23 municípios. Em alguns deles, a estrada funciona da mesma maneira que uma rua bastante movimentada, cortando seu bairro central. Seja na selva de pedras ou no meio dos pampas, muita gente tem o nome da rodovia em seu endereço residencial, comercial, ou em ambos. O asfalto da BR liga pessoas tão distantes e tão diferentes, mas que garantem vida à via que muitos, entediados pela rotina, deixam cair na indiferença.

Km 0 – No recuo da estrada, logo após a primeira curva da BR-116 gaúcha, alguns carros param. Famílias tiram fotos junto à cuia gigante que dá as boas vindas no canteiro e depois seguem seu rumo. Poucos param na lancheria de Izeu Otílio Coelho da Silva, alguns metros acima. A pouca luz que entra pela janela ilumina mais que a lâmpada do bar — a penumbra parece dar o tom. Há mais de duas décadas no local, o tranquilo e descansado senhor de 60 anos conta com a companhia de gatos, cachorros, galinhas, do amigo José e do tempo. Depois de 25 anos no final daquela curva, a única história que o dono da lancheria narra com emoção sobre a região onde sempre morou é de quando a ponte que separa os dois estados caiu, em 1964. Na época, o jovem Izeu trabalhava em uma serraria de Vacaria, perto da divisa. Foi com esse ofício que perdeu quatro dedos da mão esquerda (restou o polegar), deficiência que ele afirma não atrapalhar em nada o seu dia a dia, antes de chamar o amigo pedindo ajuda para abrir um garrafão de vinho: “Ô, José! Abre aqui, faz favor”. Do vinho tinto do garrafão, à temperatura ambiente, serve um

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LOGO DEPOIS DE ENTRAR NO ESTADO, A BR DESCREVE UMA CURVA EM DIREÇÃO AO SUL

copo até a boca para outro senhor, morador das redondezas e cliente usual. No curto e desapressado diálogo dos senhores, a pauta é o tempo. Tempo, nesse caso, meteorológico. O tempo cronológico espera na penumbra, parece não importar muito para nenhum dos viventes. Km 9 – Dois casais param com certa pressa para tomar um café, deixando os apetrechos apoiados no balcão. “Não queremos chegar tarde”, avisa Hilário Herken Hoff. O destino é a festa de aniversário de um amigo, na cidade de Feliz, cerca de 180 quilômetros distante. No estacionamento do restaurante Bela Vista, na beira da estrada, duas imponentes motocicletas Harley Davidson esperam os quatro e destacam-se em meio aos demais veículos. É esse o hobby dos dois casais. Sempre que arranjam um tempo, viajam com suas motos. O último grande passeio teve origem em Daytona, nos Estados Unidos. Os casais, moradores de Blumenau, voaram até lá e alugaram motocicletas idênticas às que possuem para viajar por dois mil quilômetros pelo estado da Flórida em um encontro de motociclistas. Os funcionários já limpam o balcão enquanto os casais se preparam para seguir caminho. “Vamos lá, estamos atrasados”, insiste Hilário para sua mulher, Denise, enquanto acomoda o capacete na cabeça. Na outra moto, ao mesmo tempo em que Marcelo Teixeira acerta os braços na jaqueta, sua mulher, Izabete, testa o microfone que garante a comunicação entre o piloto e a carona. A mão já protegida com luva veste a outra. Os motociclistas ligam o motor, despedem-se e pegam a estrada novamente. Km 29 – “MAÇÃ 50MT” avisa a placa, fixada em uma pedra à beira da BR. A grafia esquisita não é problema, pois a placa é desnecessária, já que a pequena casa de madeira pode ser vista de uma distância muito maior. Gelson Mikna e sua mulher, Daniela, vendem maçãs e cuias na beira da estrada. Saíram de Iraí, 400 quilômetros distante, buscando melhores condições de vida e de trabalho. Com certa lástima, o vendedor conta que o local, com pouco mais de 25 metros quadrados, serve também de moradia ao casal — até mesmo no gelado inverno de Vacaria. É difícil de adivinhar onde fica a cama e o banheiro, pois só o que se vê é a pequena televisão ligada, presa à parede. Por R$ 4, o casal vende dois quilos de maçã fuji. Por R$ 1 a mais, o cliente leva 2,5 quilos. As frutas são compradas de um agricultor cujo pomar tem quatro hectares. Uma pequena parcela, se comparada aos milhares de hectares das grandes empresas, onde trabalham milhares de homens. Essa abundância transforma o município no segundo maior produtor de maçãs do Brasil. Com a voz mansa, Gelson conta que o movimento é modesto, mas melhora no verão, quando o destino dos carros é o litoral catarinense e os motoristas param na

única casa em uma distância que é bem maior do que 50 metros. Km 101 – A caricatura do gringo italiano da serra gaúcha prevê uma pessoa faladora e hospitaleira, que vive contando sobre sua família. O estereótipo é personificado atrás do balcão, na figura de Teresinha Mascarello Menegon. O estabelecimento que mantém com seu marido, Telipor Antônio Menegon, fica ao lado de sua casa, no sinuoso trecho da rodovia em São Marcos. Como a casa está em um pequeno recuo entre a estrada e a montanha, grandes caminhões — significativa parte do trânsito da região — têm dificuldade em estacionar no local. Dessa forma, famílias que viajam de carro representam a maior parte de sua clientela. Os produtos vão de guloseimas a souvenirs, incluindo toucas e luvas para proteger os mais friorentos no rigoroso clima serrano. O destaque fica para as comidas feitas pela Agroindústria Menegon 0151 marca da família —, como mandolates, geleias e sucos. Km 159 – O antigo casarão de madeira chama a atenção de quem passa pela estrada em Galópolis, bairro do interior de Caxias do Sul. Mesmo com sua beleza rústica e centenária, a habitação não é tombada pelo patrimônio histórico do município. A explicação está no logradouro

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onde se encontra. Por estar fixada às margens de uma rodovia federal, pode, futuramente, ser um empecilho para possíveis obras na via. Ao mesmo tempo em que poderia implicar em uma triste derrubada do belo casarão, uma eventual duplicação da BR-116 no local resolveria um recente problema. O trecho, que antes garantia tranquilidade para Otília Marchesini Stragliotto, de 85 anos, há meia década se transformou em um local movimentado, com engarrafamentos diários. Seu filho Geraldo, que passa alguns dias da semana na casa, está até construindo um cômodo na parte de trás do terreno, para sua mãe descansar melhor. Ele conta que o barulho dos caminhões começa às 4h30min, e o movimento acalma apenas depois das 7h30min. No outro lado da estrada há uma pousada. Maria Eliza, outra filha de Otília, conta que frequentemente flagra hóspedes registrando em fotografias a bela imagem da habitação, que começou a ser construída há mais de cem anos pela família Stragliotto e foi finalizada em 1914. O casarão, que já foi casa de comércio e restaurante, parece que, infelizmente, não chegará nem perto de mais um século de história. E quem se interessa em comprá-lo, diz Geraldo, ao invés de adquirir parte da história de Caxias, vislumbra apenas uma enorme quantidade de madeira.

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Km 609 – De março a setembro, a vida de Astrogildo Lemos Gonçalves — curiosamente conhecido como Dudu — é pura tranquilidade. Com sua esposa e seus cachorros, apenas espera o tempo passar. No restante do ano, o zelador do Aeroporto Municipal de Arroio Grande, há seis anos na função, tem bastante trabalho. “O movimento começa às 5h30min e só para de noite”, conta. O destino das máquinas que levantam voo da pista de mais de um quilômetro são as grandes plantações da região. Km 610 – O Brasil é um dos maiores exportadores de commodities do mundo. Entre as principais mercadorias de origem primária produzidas no país, estão o arroz e soja. O sul do estado se destaca no plantio desses produtos. Para ajudar no cultivo desses infinitos hectares, entra em campo aquele que é um vilão aos olhos de muita gente: o agrotóxico. Utilizados no combate a pragas que danificam as grandes plantações, os produtos são mal vistos porque poluem o solo e são prejudiciais à saúde humana. Como grandes símbolos dessas substâncias, estão os aviões para pulverização da lavoura, que despejam enormes quantidades de pesticidas, herbicidas e fungicidas nas plantações. Vogler Fernandes e sua família, proprietária da Aero Agrícola Quatroas, sofrem com essa ideia. “Agrotóxico não é veneno, é defensivo agrícola. A aviação agrícola é vista como mau troço, mas não é. É uma ferramenta para o produtor rural”, afirma Vogler. Fundada em 1980 por Ariel Fernandes, a empresa respeita todas as exigências ambientais legais para funcionar, segundo Vogler. Por conta disso, enfrenta uma concorrência desleal de quem aplica agrotóxicos com tratores e não tem os mesmos cuidados com o meio ambiente. Além desse fator, a manutenção dos aviões custa caro, tendo em vista que as peças vêm do exterior. Sendo assim, apesar dos cerca de 30 clientes fixos da empresa, o negócio não é tão bom quanto antigamente, admite Vogler.

Izeu (À ESQUERDA) PERDEU OS DEDOS AINDA JOVEM, QUANDO TRABALHAVA EM UMA SERRARIA. HOJE, DONO DE LANCHERIA, TEM A companhiA DOS BICHOS NO combate à solidão. Gelson (ACIMA) aguarda clientes nA PORTA DE CASA, NO KM 29 DA BR, enfrentando A concorrência dOS grandes produtores de maçã


O casarão da família Stragliotto chama a atenção de quem passa por seu quintal: a BR-116

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Km 657 – Nas últimas décadas, a humanidade evoluiu incrivelmente em termos tecnológicos. O leque de eletrônicos e máquinas que facilitam nossa vida apenas aumenta. No meio de tudo isso, porém, parece que algumas coisas nunca mudarão. A vida no campo, por exemplo, não deixará de ter a simplicidade e pureza da natureza. O cavalo será sempre, ao lado do cão perdigueiro, o grande companheiro dos peões. Ou será possível uma máquina substituí-lo? Winston Batalla revende, há seis meses, quadriciclos motorizados da marca argentina Zanella, fabricados na China. O castelhano confirma que os veículos de maior porte estão sendo usados no campo para, entre outros afazeres, recolher o gado. Os quadriciclos, vendidos a um preço de R$ 4 mil a R$ 9 mil, são tão econômicos — no consumo de gasolina — quanto uma moto. A vantagem para seu uso no campo é a estabilidade em terrenos mais difíceis. Os de menor porte são mais procurados para trilhas. Grande parte dos clientes mora na serra gaúcha, mas já saíram vendas até para Santa Catarina. Segundo o vendedor, são pessoas que viajam a Jaguarão e, ao percorrer os últimos quilômetros da BR-116, interessam-se pelos quadriciclos, que chegam ao seu destino via frete.

Km 659 – Após ser reconhecida pelo Brasil como nação independente, a República Oriental do Uruguai permaneceu com uma dívida de mais de cinco milhões de pesos-ouro com os vizinhos do leste. O pagamento aconteceu entre 1927 e 1930, não em dinheiro, mas com a construção da Ponte Internacional Barão de Mauá. A imponente construção, erguida sobre o Rio Jaguarão, liga a cidade gaúcha de Jaguarão a Rio Branco, no Uruguai. A ponte é um belo cartão de visitas, com intenso trânsito de turistas em finais de semana – especialmente quando há um feriado colado. A maioria se hospeda em Jaguarão, mas o motivo de sua passagem fica no outro lado do rio. Na zona franca de Rio Branco estão os adorados free-shops, lojas com isenção ou redução de impostos que, em razão disso, oferecem produtos mais baratos e atraem viajantes de muito longe que buscam economia na compra de, principalmente, bebidas e perfumes. O extremo sul da BR-116 no Brasil termina exatamente na Ponte Mauá, e os viajantes que vão e voltam, carregados de mercadorias, mal sabem que ali é a ponta de uma rodovia repleta de histórias. Novas estradas surgem no horizonte e novas vidas, novas histórias, novas rotinas e novos sentimentos se apresentam ao viajante que, de fronteira em fronteira, tem sempre a estrada como inseparável companheira.

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Novas histórias surgem a partir da bela ponte sobre o Rio Jaguarão, destino final da BR no sul do Brasil

IMPRESSÕES DE REPÓRTER

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epois da primeira entrevista, o silêncio tomou conta do carro. O entrevistado era a personificação da melancolia, da tristeza, da vida tortuosa. ‘A BR-116 vai ser assim?’, vai, também. A nossa pauta teve de tudo. Vimos e ouvimos muitas histórias distintas, mas sempre interessantes. A única coisa em comum entre os protagonistas é a rodovia, aspecto fundamental em seus cotidianos. Pessoas, só pessoas interessavam. Cruzar o estado ao longo de 659 quilômetros nos permitiu ver que a vida também está na curva, no acostamento, quase dentro da estrada. O movimento de todos os personagens que moram, trabalham, atravessam ou simplesmente estão ali, nos mostra que, para a história ser interessante, basta haver alguém interessado em ouvi-la. E se tivéssemos parado em todos os lugares que nos chamavam minimamente a atenção durante o trajeto, as histórias caberiam apenas em um livro. A estrada que, antes, representava para nós apenas uma via de locomoção, ganhou outro significado. Virou, na nossa percepção, uma estrada cheia de vida.”

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A aflição da demora TEXTO E FOTOS DE LIEGE FREITAS

QUASE METADE DOS CHAMADOS PARA A SAMU DE SÃO LEOPOLDO É PARA A BR-116

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ete médicos, seis enfermeiros, 12 técnicos de enfermagem e 21 motoristas revezam em turnos de 24 horas no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) na unidade da cidade de São Leopoldo, Região Metropolitana de Porto Alegre. A base recebe por dia mais de 24 chamados, são mais de 600 pedidos de ajuda por mês pelo telefone 192. Três ambulâncias - duas de atendimento básico e uma de atendimento avançado -, um carro e uma moto, para o deslocamento rápido, fazem a cobertura do trecho da BR-116 que corta a cidade ao meio. Quarenta e cinco por cento dos chamados mensais são para atendimentos na rodovia no trecho de São Leopoldo. Muitas pessoas dizem que trabalhar com urgência é algo para quem tem sangue frio. Nas horas que passei naquela unidade, percebi que, além de sangue frio, o importante é ter amor pela vida. Não digo amor pela própria vida, mas sim pela vida do próximo. A unidade está localizada em uma casa nos fundos do Hospital Centenário, o único da cidade. Lá a equipe tem dois quartos com camas, banheiro com chuveiro, uma sala de estar, cozinha, escritório, expurgo, farmácia e almoxarifado. O lugar de troca da equipe é a sala da frente, com um sofá de dois lugares doado e banquinhos para sentar. É ali que eles ficam entre um chamado e outro. A equipe faz uma caixinha para comprar móveis ou eletrodomésticos, e o dinheiro é arrecadado dos funcionários todos os meses. Quando dá, eles próprios fazem alguma manutenção nos veículos, tudo para evitar que uma ambulância fique parada na oficina esperando que o Governo Estadual libere a verba para o conserto, o que pode demorar até dois meses. Júlio de Oliveira Espineli,

chefe médico da unidade, conta que, em outra cidade da região, fazia o mesmo tipo de trabalho. Faltavam ambulâncias para o atendimento devido à demora na liberação da verba de manutenção das mesmas. “A gente usava as ambulâncias do município, sempre acompanhados de um carro de resposta rápida. E, quando não tínhamos mais o carro, continuamos com os atendimentos mesmo assim. O importante era o serviço não parar.” Com a BR-116 cortando São Leopoldo ao meio, existem cinco jeitos de se ir de um lado para o outro: a entrada da Unisinos, pela Avenida João Correa, pelo viaduto do Centro, pela Avenida Caxias do Sul e pela entrada da RS-240. São cinco bairros de um lado e 19 de outro. A base fica no lado com maior número de bairros, mas um dos grandes problemas é a locomoção até o outro lado. Devido ao congestionamento da BR-116, o deslocamento da base até um dos cinco bairros é mais demorada que nos outros 19. Dependendo de onde é o local do chamado, a ambulância fica parada na estrada. “Não podemos passar por cima dos outros carros. Quando é possível, andamos pela lateral da rodovia, ou pelo meio da pista, obrigando os carros a irem para o lado, senão, é esperar pela boa vontade dos motoristas”, relata o coordenador da unidade, o enfermeiro Roberto Tiska. Quanto à quantidade de acidentes graves que tem na rodovia, a resposta é otimista: “Antes havia bem mais. Como vão ter acidentes graves se o motorista não pode mais correr? A BR está simplesmente parada”. Uma das alternativas é a utilização de duas motos de resposta imediata para a locomoção mais rápida, mas São Leopoldo só tem uma moto e aguarda a segunda.

ADRENALINA E INCERTEZA Toda a vez que uma equipe entra numa das ambulâncias, a adrenalina sobe juntamente com a vontade de atender o paciente o mais rapidamente possível. Com as dificuldades de locomoção por causa do congestionamento, aumenta a tensão com a incerteza de que o tempo perdido no trânsito, durante o trajeto, pode ser crucial para salvar uma vida. Quando ocorre um acidente na BR-116 na divisa da cidade de São Leopoldo com Sapucaia do Sul, no sentido norte, a equipe percorre mais de cinco quilômetros no sentido sul para conseguir voltar

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para o sentido norte, através do viaduto da RS-118. Existe um principio no atendimento pré-hospitalar que é preservar a segurança da equipe durante o deslocamento das ambulâncias. Por mais importante que seja a vontade de atender o paciente, a equipe não pode se expor a riscos. Andar na contramão e fazer um retorno no meio da rodovia só quando for muito seguro, e mesmo assim não é aconselhado. O chefe médico da equipe, Dr. Espineli, explica que, de acordo com a gravidade da ocorrência, os profissionais que se deslocam para atender utilizam códigos. “Para cada gravidade o motorista deve empregar uma maneira diferente de conduzir a ambulância de forma segura. Assim como deve ser o tom emitido pela sirene. O código vermelho, por exemplo, é usado em

casos de vida ou morte. O motorista emprega uma velocidade maior e o aviso sonoro é intenso, com pequenos espaços de tempo”. Engana-se quem pensa que o deslocamento para o hospital, após o atendimento, deve ser igualmente rápido. Júlio explica que existem procedimentos médicos de salvamento que exigem que a ambulância esteja a uma determinada velocidade e ângulo para a estabilização do enfermo. “Cabe em uma mão as vezes em que tive que pedir para o motorista pisar no acelerador e chegar o mais rápido possível ao hospital, porque a vida do ferido dependia disso. O movimento dentro da ambulância em alta velocidade pode dificultar a estabilização do paciente. Se há necessidade, peço para o motorista parar, esperar até eu estabilizar o paciente e

depois continuar com o trajeto”, conta Espinelli. Durante o deslocamento de um chamado, ou até uma ida ao posto para abastecer, as atividades podem ser interrompidas para um atendimento, e ele nem precisa vir da central de regulamentação. Uma normativa internacional diz que nenhuma equipe de salvamento pode negar atendimento a um paciente em via pública. Todos conferem o material e reabastecem as ambulâncias depois de cada atendimento. “Tratamos todo paciente como se fosse nossa mãe, pai ou algum irmão. O paciente deve ser tratado como nós queríamos que um familiar nosso fosse, com todo o empenho e dedicação possível”. Segundo Roberto Tiska, todo o dia acontece alguma coisa para marcar a memória desses profissionais da saúde.

O SAMU NÃO PODE NEGAR ATENDIMENTO, MESMO DURANTE UMA IDA AO POSTO DE GASOLINA

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ANTES DE QUALQUER SAÍDA, A EQUIPE CONFERE O MAPA

MANUTENÇÕES SIMPLES, COMO TROCAR A BATERIA, SÃO FEITAS NA PRÓPRIA BASE

NA AMBULÃNCIA, O SOCORRISTA CONFERE OS SINAIS VITAIS DO PACIENTE

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uando escolhi fazer o curso de jornalismo, minha mãe achou que eu iria passar fome no futuro, então me obrigou a fazer o curso Técnico de Enfermagem. Assim, eu teria outra opção se no jornalismo não desse certo. Por isso tive autorização para fazer esta reportagem e acompanhar alguns deslocamentos da Unidade do Samu de São Leopoldo. Por ser, também, profissional da área de enfermagem, durante duas sextas-feiras, por três horas, fiquei lá na unidade conversando, perguntando, fotografando, absorvendo e observando tudo. Vi o cuidado e a dedicação que as equipes de socorro empregam nas suas atividades diárias. Desde limpar, abastecer e checar tudo nas ambulâncias após cada atendimento, até gritar e gesticular para que os outros carros saiam da frente durante um trânsito pesado na BR-116. Agradeço a todas as equipes que me deixaram acompanhar nos deslocamentos, a paciência que o enfermeiro Tiska teve comigo e ao Dr. Júlio, por sempre explicar tudo nos mínimos detalhes, mesmo quando não precisava.”

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TROTE Quando alguém liga para o 192, a ligação cai na central de regulamentação do Samu, localizada em Porto Alegre. A central faz perguntas importantes para determinar se é trote e depois avalia o caso. Em seguida, entra em contato com a unidade mais próxima do chamado. O Rio Grande do Sul é líder em trotes passados para o 192, 60% dos chamados.


Os homens DA O POSTO DA POLÍCIA RODOVIÁRIA FEDERAL NO TRECHO ENTRE DOIS IRMÃOS E PORTO ALEGRE É RESPONSÁVEL POR ATENDER 30% DAS OCORRÊNCIAS NA BR-116 NO RIO GRANDE DO SUL TEXTO DE GUILHERME MÖLLER FOTOS DE GABRIEL GABARDO


LEI


U

ma brincadeira que virou profissão. Assim Luciano Lawisch começou a carreira na Policia Rodoviária Federal. Ele era empresário no ramo de Instalações Elétricas quando apostou com o sócio para ver quem ficava em melhor colocação na prova da PRF. Se inscreveu no último dia e teve ajuda apenas de um polígrafo. Sorte, destino, não se sabe ao certo. O que Luciano tem certeza é sobre sua profissão. Sempre foi sua vocação ajudar os outros e esse é seu principal objetivo no trabalho diário. A rotina dos policiais rodoviários federais é observar o que acontece na BR-116, atentos aos problemas do trânsito na rodovia. Eles trabalham na prevenção de acidentes e buscam evitar a criminalidade. O posto da PRF em São Leopoldo presta atendimento na rodovia no trecho de Dois Irmãos até Porto Alegre, sendo responsável por atender 30% das ocorrências na BR-116 no Rio Grande do Sul. O principal posto do Estado, que fiscaliza a Região Metropolitana, calcula um fluxo de mais de 100 mil veículos diariamente. Para os policiais Luciano Lawisch e Alberto Magnani, a quantidade grande de veículos é um problema na maioria das rodovias do Brasil. “Houve um aumento significativo no número de veículos nas autoestradas nos últimos anos, sendo que a tecnologia e a potência dos automóveis evoluíram. Porém as estradas seguem iguais”, explica Lawisch. A BR-116 sofre com problemas em sua infraestrutura, sendo que a maior parte do percurso fica localizada em áreas urbanas, o que dificulta a trafegabilidade e aumenta o número de ocorrências. O fluxo de pedestres é intenso na rodovia que corta cidades da região metropolitana como Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapucaia do Sul, Esteio, Canoas e Porto Alegre. Conforme estatísticas da PRF, 90% das ocorrências na rodovia acontecem no perímetro urbano, onde o fluxo de pedestres é maior.

MAIS DE 100 MIL VEÍCULOS PASSAM DIARIAMENTE PELO POSTO DA PRF

Para os policiais, a melhor maneira de evitar transtornos é a educação do motorista. “Precisamos educar adultos e crianças, futuros usuários. Assim teremos condutores mais conscientes, e o número de acidentes tende a diminuir”, ressalta Magnani. Hoje as ocorrências mais frequentes acontecem devido à falta de atenção dos condutores. “A maioria dos problemas ocorre por falta de preparo. É o caso das colisões traseiras e infrações como alta velocidade e desrespeito às leis de trânsito. Essas situações ocupam a maior parte do tempo dos policiais”, explica Lawisch. A BR-116 é usada como rota da criminalidade, servindo de ligação entre Brasil e Paraguai. “Hoje temos um grau de alerta maior contra a criminalidade na rodovia, sendo que o trecho é rota para o Paraguai”, conta Lawisch. Apreensões de drogas e contrabandos são comuns no trecho. “Abordamos muitos usuários de drogas, principalmente porque a rodovia é passagem para diversas festas na região. O consumo de álcool é o mais comum, mas também há usuários de maconha e cocaína”, cita Magnani. O consumo de bebidas alcoólicas é outra situação que agrava os problemas no trânsito da rodovia. Depois da entrada em vigor da lei seca, a fiscalização aumentou e o número de autuações também. Mesmo assim, fica impossível fiscalizar todo mundo. “É difícil conter todos os condutores que trafegam sob o efeito do álcool. Como há muitas casas noturnas no trecho da BR, é impossível cuidar o deslocamento que ocorre todas as noites. Os motoristas precisam se conscientizar que bebida alcoólica e direção não combinam”, diz Lawisch. O trabalho da PRF não se limita apenas ao trânsito, são diversas ocorrências. “Atendemos tudo que é tipo de caso, muitas vezes somos mais que policiais. Somos um pouco psicólogos, conselheiros, amigos... É muito bom poder

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ajudar a sociedade, ficamos felizes com nosso trabalho”, DIZ Lawisch. Ele cita casos de pessoas que procuram o posto da PRF solicitando auxílio em situações que não são de sua competência. “Teve um homem aqui no posto pedindo ajuda, pois ele estava sendo traído pela esposa. Ele nós procurou para ser escutado, queria conselhos, atenção. Nesses casos, conversamos, aconselhamos e procuramos encaminhar o caso para o órgão responsável”, conta Magnani.

uma tarde, duas infrações Numa tarde de trabalho, os policiais se depararam com dois casos de infração na rodovia. O primeiro foi a abordagem de um caminhão parado em local impróprio e com problemas de documentação. “O caminhão estava estacionado num acesso da rodovia, o que não pode acontecer. Mesmo com o caminhoneiro alegando que o veículo tinha problema, ele deveria ter parado no acostamento ou em algum local que não atrapalhasse o trânsito. Além disso, o tacógrafo (equipamento que monitora o tempo de uso, velocidade e a distância percorrida pelo veículo) não estava funcionando”, explica Magnani. A segunda infração é comum de ver no trecho, o tráfego de motos e veículos pelo acostamento. Em hipótese alguma o motorista pode dirigir pelo acostamento, sendo que está infração é considerada gravíssima, com a perda de sete pontos na carteira de motorista e multa no valor de R$ 574. Em Sapucaia do Sul, Lawisch e Magnani abordaram um motociclista trafegando pelo acostamento. Este foi imediatamente parado e a multa foi aplicada. “Não estamos aqui para tirar dinheiro do motorista. Não recebemos nada ao dar multas. Queremos que os condutores entendam que o trânsito tem leis e elas precisam ser seguidas. Nossa função é fiscalizar para que as leis sejam cumpridas e os acidentes evitados”, ressalta Lawisch. Mesmo com problemas, como

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a falta de efetivo e equipamentos em boas condições, a Policia Rodoviária Federal atende a demanda de mais de 100 mil veículos por dia. “Nem sempre temos à disposição equipamentos e efetivo para combater todos os problemas da rodovia. Porém, com muito trabalho, conseguimos atender o grande número de ocorrências todos os dias. É um trabalho gratificante, mas gostaríamos de poder fazer mais pela rodovia e pela sociedade que depende dela”, concluí Lawisch.

MUITAS VEZES OS POLICIAIS ACABAM AUXILIANDO PESSOAS EM SITUAÇÕES QUE NÃO SÃO DE SUA COMPETÊNCIA

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uando a BR-116 foi o tema escolhido para a Primeira Impressão, minha preferência foi acompanhar o trabalho da Polícia Rodoviária Federal . Sempre achei fundamental e interessante as ações desenvolvidas pela PRF. Tinha curiosidade sobre a rotina e os problemas enfrentados diariamente pelos policiais com o trânsito caótico da rodovia. Naquela tarde de sol, aprendi que o trabalho de policial não se limita apenas às ocorrências. Na rodovia não há uma rotina, um dia sempre é diferente do outro. Assim, ser apenas policial não basta, é necessário ser humano para lidar com todos os transtornos. Entendi como é importante a educação e o cumprimento das leis para termos uma trafegabilidade mais segura. Como motorista, a matéria desenvolvida para revista, mostrou-me as reais dificuldades enfrentadas no trânsito. Foi gratificante esta tarefa, pois passar um dia acompanhando os policiais me trouxe lições de vida, como, por exemplo, respeitar as leis. As pessoas precisam saber que as regras foram criadas para serem seguidas, principalmente no trânsito.”


O crescimento da publicidade ao ar livre às margens da BR-116 desperta diversas sensações e opiniões ENTRE os motoristas TEXTO DE ARLETE ROUSSELET E ELLEN MATTIELLO FOTOS DE DÉBORA SOYLO

VIA MULTIMÍ 28 | PRIMEIRA IMPRESSÃO | JULHO/2011


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uarta-feira, 22h. Uma noite de outono, com o céu reluzente de estrelas cintilantes: cenário escolhido para um passeio rumo à região metropolitana, saindo de Porto Alegre em direção a Canoas. Trafegamos em uma estrada iluminada, não pelas estrelas do céu, mas pelo contraste das luzes coloridas e ofuscantes em toda a parte. Lá estão eles: frutos da mídia visual, num verdadeiro show pirotécnico, outdoors, frontlights, painéis, logos e paredões pintados, cada um dividindo e querendo roubar o cenário das estrelas que brilham no céu. Espalhados pelas laterais da via, num verdadeiro descompasso visual e desencontrados, são captados por nossas mentes ao longo do percurso. Desordenados, confundem grifes de roupas femininas com casas de massagem, carros com anúncio de sapatos, postos de combustíveis com fast-foods... E tudo passa a fazer parte de um universo de informações caóticas. Passando a Estação Niterói do metrô, há um anúncio de sapatos que duas semanas antes era de uma concessionária. Em seguida, avistamos um enorme letreiro luminoso com a marca de um combustível, sinalizando se tratar de um posto com loja de conveniência. Perfilado, segue um gigantesco e desproporcional painel em formato de retrato, espelhando uma atriz de novela que cede sua imagem à campanha publicitária de uma marca de cozinha da indústria moveleira. Tudo isso vai sendo registrado, silenciosamente, pelo nosso cérebro, despertando a atenção de milhares de pessoas que trafegam, diariamente, às margens dessa via multimídia. O cenário descrito acima é familiar àqueles que percorrem a BR-116 com frequência, no trecho Porto Alegre–Canoas e vice-versa. O excesso das mídias visuais, além de chamar a atenção do público, modifica a paisagem urbana e pode ser prejudicial à saúde. Sendo assim, surge o conceito de poluição visual, que se tornou muito comum, sobretudo nas rodovias das grandes cidades. De acordo com o coordena-

dor do curso de Publicidade e Propaganda da Unisinos, Sérgio Roberto Trein, nos últimos anos, tem crescido muito a publicidade externa em geral: “Quanto mais surgem novas tecnologias, surgem novos espaços, e maior acaba sendo a poluição visual nas estradas e nas ruas. Como o texto, por si só, não é tão atraente, começa o uso de imagens, cada vez maiores e mais coloridas. E, evidentemente, elas acabam sujando um pouco a paisagem”. Para Cristiano Peraço, usuário da BR-116 e motorista de van há dez anos, qualquer tipo de publicidade é válida, desde que não atrapalhe os motoristas. “Já presenciei muitos acidentes provocados pela distração causada pelo acúmulo de anúncios.

Nunca aconteceu algo semelhante comigo. Geralmente, esse tipo de situação ocorre com pessoas mais inexperientes no trânsito”, afirma. De acordo com o secretário municipal do Meio Ambiente de Canoas, Celso Baroni, a Polícia Rodoviária Federal estima que 40% dos acidentes acontecem justamente pelo excesso de mídias visuais. Considerando esse fator e pensando na revitalização da rodovia, o prefeito de Canoas, Jairo Jorge da Silva, desenvolveu um projeto que prevê a diminuição dos anúncios na BR-116. A minuta do projeto está sob a análise técnica do Diretor de Relações Governamentais do município, Ernani Daniel, para que uma nova lei possa ser sancionada e pro-

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mulgada pelo prefeito, após ser votada e aprovada pela Câmara Municipal de Vereadores. A iniciativa visa a padronização dos painéis, limitando a distância, o tamanho e a quantidade de texto. Baroni explica que as mídias indicativas, utilizadas para sinalizar que há um estabelecimento no local, também terão de se adequar às normas estabelecidas. “Com esse regramento, temos como pretensão reduzir pelo menos 50% da mídia existente”, projeta. Atualmente, aqueles que desejam anunciar às margens da rodovia necessitam ter a autorização da Secretaria Municipal do Meio Ambiente. No entanto, a presença de anúncios clandestinos é grande, pois muitos donos de terrenos baldios vendem o espaço para diferentes empresas, sem a licença da secretaria do Meio Ambiente. Na visão do secretário, essa atitude compromete a segurança, pois se trata de algo feito de maneira irregular, além de aumentar a poluição visual. Outra questão muito presente, em se falando de publicidade ao ar livre, são os anúncios de motéis e casas de massagem. “A ideia é impor a utilização de chamamentos mais discretos nesse desse tipo de anúncio, pois, desse modo, sem elementos apelativos na estrada, podemos evitar acidentes”, frisa Baroni. João Pedro Nunes da Silveira, diretor geral da Hmídia, empresa desenvolvedora de publicidade ao

ar livre e presidente da Associação Gaúcha das Empresas de Propaganda ao Ar Livre (Agepal), acredita que os anúncios irregulares prejudicam o conceito de mídia exterior. “A empresa possui um engenheiro responsável pela estrutura dos painéis, além de trabalhar com designers e agências de publicidade no desenvolvimento do conteúdo dos anúncios. Tudo é planejado para oferecer um bom serviço”, garante. Além disso, crê que o projeto de lei só trará benefícios para as empresas e seus clientes. “A fiscalização vai aumentar, e os espaços para a publicidade serão restritos, fazendo com que os anúncios fiquem mais destacados. O conceito de mídia visual vai melhorar muito”, prevê. A publicidade externa é uma das mais acessíveis, juntamente com a publicidade feita no rádio. Pequenas e médias empresas veem nela a possibilidade de fornecer maior visibilidade ao seu produto, principalmente nas estradas mais movimentadas, como a BR-116, que já carece de vagas para anúncios. O custo varia de R$ 800 a R$1.500 reais, dependendo do tipo de mídia utilizada. Usuária da BR-116, a presidente da OAB, Subseção de Canoas, Neusa Maria Rolim Bastos, acredita que o projeto irá melhorar o aspecto visual da cidade: “As propagandas chamam a atenção de uma forma indevida. Com a padronização, teremos maior possibilidade de perceber a nossa cidade”. Para o motorista

Jacques Cardoso, que há sete anos realiza o transporte universitário de Porto Alegre até a Unisinos, a publicidade na rodovia é indiferente. “Até percebo que o anúncio mudou, mas como sou responsável por outras vidas, procuro não prestar muita atenção nisso. Já vi um anúncio caindo dentro de um pátio, durante uma ventania”, relata. De acordo com o coordenador Trein, a sanção do projeto não prejudicará a comunicação: “Os anunciantes podem perder o espaço, mas vão achar outras formas de anunciar seus produtos”. As mídias visuais abrangem um universo composto por desejo, economia, produtos, cores, formas e polêmicas que transmitem diferentes sensações aos espectadores. Diante do universo das mídias visuais, que contracenam com o brilho das estrelas, não podemos negar que esse desordenado mundo midiático protagoniza nossa viagem. Centenas de apelos publicitários roubam o cenário da natureza, a fim de compor o desejo do ser humano, seja ele qual for. Cabe a cada um de nós refletir até onde queremos ser abduzidos pelos apelos publicitários e conviver em harmonia com essa imensidade de tecnologias desenfreadas e largadas ao léu, sem que haja prejuízo para a nossa saúde. Quiçá que as estrelas permaneçam protagonizando o cenário de nossas rodovias e possamos andar livres das amarras da poluição visual.

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uando o tema BR-116 foi escolhido, a primeira impressão que nos veio à mente foi a da poluição visual que ladeia a rodovia. Lembranças dos mais variados tipos de frontlights, outdoors e painéis nos fizeram refletir sobre o contexto que está inserido em uma propaganda externa. Além disso, o município lembrado como o mais “poluído” pelas mídias foi Canoas. Tínhamos a ideia de que essa poluição visual era bem aceita por todos que desfrutavam dos anúncios publicitários espalhados ao longo da rodovia.

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Entendíamos, ainda, que a iniciativa do projeto legalizando e limitando o número dessas mídias traria impactos negativos à população em geral. A partir do momento em que começamos a ouvir nossas fontes, constatamos que a nossa primeira impressão era contrária à realidade investigada. Foi muito gratificante realizar esta pauta. Corremos contra o tempo e passamos vários dias em Canoas, ouvindo diferentes fontes, que geraram as opiniões e nos ajudaram a refletir sobre o tema.”


GUILHERME BARCELOS

Na ponta do spray Três coisas não mudam na BR-116: o constante fluxo, o stress e a informação gráfica. Em um emaranhado de cores e formas, o grafite e a pichação dão um toque artístico à paisagem urbana TEXTO DE CAROLINA TREMARIN E CRISTINA ARIKAWA FOTOS DE CLARA ALLYEGRA E GUILHERME BARCELOS

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o trecho da BR-116 que compreende as cidades da Região Metropolitana de Porto Alegre (RS), um misto de arte e manifestação política converge com a desordem urbana. A paisagem, ladeada por edificações cinzentas, ganha um toque de cor a partir do grafite e da pichação, que adornam os prédios que a compõe. Como em uma gigantesca tela em branco, imagens e frases de diferentes temáticas permitem uma reflexão nada óbvia: seria a BR-116 um palco da arte de rua? Por definição, o grafite é caracterizado pela intenção artística e estética extremamente comunicacional. A pichação tende ao apelo político-social. Na prática, porém, essa diferenciação é dificilmente aplicada e reconhecida, como explica Fabrício Silveira, professor de Comunicação da Unisinos e autor do livro O parque dos objetos mortos — E outros ensaios da comunicação urbana: “O grafite tem uma intenção que é estética, expressiva, de embelezamento. De certa forma, pode ser considerado político por popularizar essa poética

Intervenções gráficas renovam o visual de espaços mal aproveitados na BR, como pontes e viadutos

visual. A pichação vai explorar, sobretudo, a tipografia, as letras. É uma fala para iniciados, eu falo para quem me conhece, quem é da minha crew [grupo] ou rival. Eu falo para alguém do meu meio ”. Em São Leopoldo, no bairro Scharlau, a extinta fábrica de artefatos de borrachas Franca optou por enfeitar suas paredes externas justamente com o grafite. A imagem, composta por desenhos gigantescos, coloriu o edifício de cima a baixo. Orgulhosamente, a frase “Espaço reservado para os artistas do grafite” passou a estampar a empresa. A ousadia, porém, ainda é bastante incomum na rodovia. Por estar à margem de diversas cidades, a BR-116 poderia ser ainda mais explorada pelo uso do grafite devido à sua intrínseca visibilidade. Segundo Fabrício, a comercialização dessa arte tem se mostrado muito mais presente do que a pura arte-manifesto. Também é o que diz o grafiteiro Jonathan Peres, o Jotapê, do grupo Núcleo Urbanóide, de Porto Alegre. Segundo

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ele, a ideia e o propósito do grafite vão além das formas que enfeitam as fachadas de estabelecimentos comerciais. “Na verdade, o grafite tem uma característica muito mais street, mais marginal, que é o spray, a latinha. É pegar uma parede suja e pintar. Grafite em si não é comercial. Grafite é apropriar-se do lugar que está sendo mal utilizado e fazer o que você quiser. No momento em que alguém pede pra você fazer uma arte, te dá um briefing para isso, se perde o sentido do grafite original.” Em contraposição, a pichação pode ser associada a dois grandes problemas enfrentados na estrada: o trânsito e a poluição. “A pi-

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CLARA ALLYEGRA


Os traços do grafite e da pichação se fundem nas criações estampadas na BR-116

chação é uma resistência em relação a isso. Mas só aumenta a experiência de uma coisa tensa, carregada e suja que temos quando atravessamos aquele trecho”, explica Fabrício. Até onde isso pode se tornar um problema, considerando o aspecto funcional da BR-116? Fabrício explica que alguns estudos analisam os riscos que as manifestações poderiam causar à atenção do motorista. “Houve uma intervenção urbana em Porto Alegre em que um grupo de pessoas limpou o túnel da Conceição e escreveu a frase ‘Por uma Porto Alegre mais limpa’. O órgão encarregado da prefeitura apagou a manifestação sob a alegação de que estava chamando atenção demais e atrapalhando o trânsito. Talvez isso tenha um fundo de verdade.” É de se pensar, portanto, que o ato de livrar o motorista das distrações deveria se estender a uma das estradas gaúchas que mais registra acidentes. Em 2010, a BR-116 ficou em primeiro lugar no ranking que elegeu as cinco rodovias mais violentas do Rio Grande do Sul, com 117 mortes. Porém, uma pausa no excesso de informação existente na BR causaria, na opinião de Fabrício, ainda mais estranhamento, já que a população que faz uso da estrada convive diariamente com a aparência carregada do local. “O que muitas vezes me chama atenção são os outdoors em branco. Existem espaços que não têm nada anunciado. Essa não-ocupação é que seria curiosa, quando o ‘normal’ é a sujeira. Não consigo imaginar aquilo

branco, milimetricamente organizado”, afirma. Pelo lado do artista, Jotapê não diminui nem nega a distração que as manifestações podem causar, mas não acredita ser essa a razão para tantos transtornos na rodovia. Para ele, deveria haver uma mudança no modo como cada cidade lida com a ação. “Acho que falta uma parceria com as prefeituras para apoiar um pouco mais o grafite em lugares como pontes e viadutos, espaços mal utilizados. Para que, quando se pare no sinal, se possa ter uma arte para apreciar, prestigiar”, completa. Ou seja, fazer grafite, em meio ao caos que toma grandes centros urbanos, pode representar um lugar de escape para a correria frenética e – por que não? – democratizar uma arte urbana que tem no grafite uma das suas formas mais antigas de manifestações, presente desde a década de 1980 e vinda de lugares como Filadélfia e Nova Iorque para o mundo. FOTOS GUILHERME BARCELOS

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Assim como o material, a forma e o público para o qual se dirigem definem o que é pichação e o que é grafite. O espaço onde a intervenção é feita também merece atenção especial. Pensar grafite para uma cidade é bem diferente de sair por uma rodovia, como é a BR-116, com uma lata de spray na mão: apesar de ambas apresentarem um tráfego constante — seja de motoristas, seja de pedestres — o desenho em um muro dentro de um bairro qualquer permite uma apreciação muito mais atenta do trabalho. Segundo Jotapê, o grafite já é algo grande, pensado para ser visto e compreendido rapidamente. Na BR-116, essas mesmas dimensões teriam de ser retrabalhadas e outros elementos ainda seriam adicionados: a estrutura da parede, sua forma e sua textura, por exemplo. “O grafite em si é feito para ser visto de longe. Não se preocupa muito com detalhes”. O artista explica que o spray tem como característica o escorrido, uma linha mais esfumaçada, diferente do que se pinta em uma tela. “No caso de uma rodovia, o grafite precisa apresentar uma leitura mais rápida, mais simplificada, porque a pessoa deve entender se estiver passando de carro, de ônibus. É uma coisa que ninguém vai parar para perceber detalhes.”

A pichação na BR-116, ao mesmo tempo que contrasta, pode contribuir com a poluição urbana

COMUNICAÇÃO ESTÉTICA Apesar de não serem poucos aqueles que veem a pichação como um ato de vandalismo, essa manifestação consiste em uma forma de comunicação estética muito reconhecida fora do Brasil. Em 2009, a Fundação Cartier, em Paris, realizou uma retrospectiva mundial do grafite. O destaque ficou por conta de Djan Ivson, paulista, convidado a realizar uma intervenção no muro do museu com os traços brasileiros da pichação — a linha preta, vertical, geralmente explorando a caligrafia. Portanto, para você que acha que perde muito tempo parado na BR-116, em vez de ficar só bufando, dê uma olhada em volta. Se o que você vê é arte ou não, pode ser assunto para outro engarrafamento. Mas o fato é que à sua frente está, literalmente, um traço da arte urbana brasileira.

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uando a pauta BR-116 foi escolhida, ficamos muito desanimadas. Como tornar a estrada, nosso elemento diário de tortura, um assunto interessante e que fugisse da obviedade? Certamente não queríamos abordar a bagunça do trânsito, já que é justamente isso que nos tira do sério logo pela manhã. Foi assim que surgiu a idéia de enxergarmos a BR-116 a partir da expressão gráfica impressa em muros e viadutos das suas margens. Não podíamos ter feito aposta melhor: quebramos um tabu interno e aprendemos que até mesmo a pichação tem sua função informativa no cenário da estrada. Amparadas pelo registro de imagens, pudemos casar as informações textuais com as fotografias, o que facilitou a análise artística dos elementos do grafite e da pichação. Mas nem tudo são flores. Uma de nossas intenções de fonte havia falecido no último ano, informação que não tínhamos até tentar o contato com o finado. Já que a contratação de um médium não seria a melhor solução, resolvemos procurar outra pessoa com propriedade para falar sobre o assunto. Muitos e-mails e um feriado depois, pudemos orgulhosamente finalizar esses 7.000 caracteres, escritos com muito entusiasmo.”


A Palavra no Caminho PLACAS E PICHAÇÕES AO LONGO DA RODOVIA INCLUEM FRASES QUE ANUNCIAM A FÉ EM CRISTO E OUTROS AFORISMOS RELIGIOSOS TEXTO DE BRUNA ELIDA CONFORTE E MARCO ANTONIO FILHO FOTOS DE MARCO ANTONIO FILHO

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placa apoiada na árvore ao lado da estrada está pintada de branco, mas, olhando de perto, percebe-se o que ela trazia anteriormente: um anúncio publicitário de certa agência imobiliária. Era a forma que o dono do negócio utilizava para se comunicar com seus possíveis clientes. Agora há outra mensagem nela. Sobre a tinta branca – com aspecto de que foi pintada às pressas, sem muito cuidado –, vemos letras tortas que parecem ter sido escritas por um analfabeto, que as desenhou em um exercício de caligrafia. O texto, um tanto quanto surreal, apresenta um alerta: “Não saia de casa sem convidar Jesus”. Ao lado, em letras menores, completa: “Ele te ama”. Logo em seguida, se avista um viaduto. Inúmeros carros cruzam-no, por cima e por baixo; de um lado e de outro; zunindo como moscas, soltando fumaça, deixando o ar de fim de tarde tão cinza quanto o cimento do viaduto. Eis que em um canto de difícil acesso, na parte de baixo do viaduto, sobre o cinza, surgem as letras brancas que formam outra mensagem. Tão surreal quanto a primeira, o texto parece suplicar: “Deixa Jesus agir na tua vida”. E completa, como na placa escorada na árvore: “Ele te ama”. Jesus Cristo – aquele que, afirmam, morreu na cruz para nos salvar, ressuscitou no terceiro dia e depois subiu aos céus – é o assunto de inúmeras intervenções encontradas ao longo da BR-116. Assim como seu pai – o onipresente Deus –, o nome de Jesus aparece em várias marquises, viadutos, placas e pedras, nas quais podemos ler, em linhas tortas, mensagens que afirmam que ele voltará, que nos ama, e que, como sugere a placa escorada na árvore, nunca devemos sair de casa sem convidá-lo. São mensagens anônimas, que não buscam vender nada (como os anúncios publicitários), marcar território (como as pichações comuns) ou informar (como os sinais de trânsito). Buscam, talvez com certo desespero, levar uma mensagem que possa ajudar os desamparados, ou simplesmente tentar salvar suas almas. Por trás dessas mensagens estão personagens invisíveis, cuja motivação e a forma de agir são um mistério para as milhares de pessoas que, diariamente, cruzam com elas na BR-116.

Fantasmas As inscrições, sem identidade, ou qualquer tipo de assinatura que possibilite rastrear os responsáveis pela sua produção, tornam os autores fantasmas. Fantasmas pairados em suas próprias mensagens. Sua aparição é dada sem que estejam no local, são autores flutuantes expondo uma verdade pessoal sem a preocupação de se fazer entender. É um estado de presença/ausência, como afirma o doutor em Comunicação Fabrício Silveira. A mensagem não deve ser entendida literalmente, mas analisada em paralelo ao gesto utilizado na produção. A importância está na ação. Autor de artigos sobre o espaço da cidade, Fabrício volta sua pesquisa para o que é conhecido como “fantasmagoria urbana”, conceito que pode ser definido, em bre-

ves palavras, como um lugar conceitual no limite do real e da imaginação, uma indefinição sobre a veracidade de algo encontrado no espaço urbano. Segundo Fabrício, os personagens por trás das intervenções religiosas – e as próprias inscrições – se enquadrariam nesse conceito de “fantasmagoria”, por estarem nesse estado limite entre presença e ausência: “É alguém que fala, mas quem é esse alguém? É alguém que está ali presente, mas que presença é essa?”, questiona-se Fabrício. Apesar da dificuldade em localizar e identificar essas pessoas, é possível ir atrás de seus rastros na tentativa de traçar um perfil. Esse perfil também está ligado à ação e à forma que esses autores utilizam. “O que motiva o cara a escrever lá no muro, subir em cima de uma ponte, é fazer aquilo. Ele poderia escrever ‘Inter’ lá, mas escreveu ‘Jesus voltará’. O que motiva ele, o que dá a adrenalina não é escrever ‘Inter’ ou ‘Jesus’, é escrever lá, naquele lugar.”, reflete Fabrício. Seguindo sua linha de raciocínio, Fabrício afirma que, em contrapartida, o autor que pinta suas inscrições em placas e pedras assume sim um caráter de pregação: “Isso não é pichação. Isso é anunciabilidade. Tosca, informal. Eu acredito que quem fez tinha um propósito religioso”, afirma Fabrício. Já o autor das placas “Jesus breve voltará” – fixadas em inúmeros postes ao longo da região metropolitana de Porto Alegre e também da BR-116 – utiliza o caráter de bordão, e isso também revela algo em relação a seu perfil. Para Fabrício, a ação praticada por esse autor é a de esvaziar o seu sentido ao torná-lo reprodutível, atribuindo à frase um caráter de slogan, assim ela deixa de ter o caráter da pregação. Esse jargão vai ser encontrado onde as pessoas menos esperam, e nesse sentido ele é fantasmagórico. Para Adriana Daccache, artista plástica e pesquisadora, que há 11 anos desenvolve ações inspiradas em José Datrino, o Profeta Gentileza (conhecido a partir de 1980 por fazer inscrições sob um viaduto do Rio de Janeiro), esses autores anônimos se utilizam das palavras para, de alguma maneira, levar as pessoas a Deus. “A diferença entre eles é a intenção da palavra. Talvez um acredite na palavra de Deus, como ‘Cristo salva’, e o outro na ação da palavra gentileza, por exemplo, no efeito de sua ação”, afirma ela. Assim como Fabrício, Adriana também pensa que a importância está na ação. Ao ser questionada se encontra alguma relação entre as inscrições dessas pessoas e as do profeta Gentileza, ela responde enfaticamente que não. “Na verdade, ambos usam a palavra como veículo, mas são ações diferentes. Basta saber sobre o Gentileza: ele tinha contato direto com as pessoas, ele distribuía flores e palavras de gentileza, de ajuda ao próximo, largou sua vida em função do outro”, explica. “Acredito que façamos, a princípio, o que conhecemos. Escrever, grafitar ou pintar em um muro é mais fácil que qualquer outra coisa.” Adriana já perdeu a conta de quantos mil adesivos

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com a frase “Gentileza gera gentileza” ela produziu ao longo de 11 anos. Para ela, estar em uma via de acesso não garante que o passante, seja pedestre ou condutor, lerá o escrito, a mensagem. “Portanto, não garante também um seguidor”, conclui.

O vendedor de sucos e o profeta Airton Valenti, está parado no canteiro central da Avenida dos Estados – ligação direta entre Porto Alegre e a BR-116 – com seus olhos de um brilho úmido fitando o movimento de carros que vêm e vão. Não é ele o homem que pinta mensagens religiosas nas placas brancas, mas diz conhecê-lo. “Somos amigos, é uma pessoa muito querida”, afirma com um sorriso largo, de poucos dentes. O amigo – do qual não sabe o nome – vende suco de laranja no local, rodeado pelas placas com mensagens religiosas que ele próprio pinta. É conhecido de quem costuma entrar ou sair de Porto Alegre pela avenida como uma espécie de profeta. Airton é um grande admirador do trabalho de seu amigo: “É comovente, dá um astral para quem está chegando a Porto Alegre. É como chegar na casa de Deus”. Se autodenominando “crente”, conta que muitas vezes a prefeitura recolhe as placas que ficam dispostas em diversos pontos ao longo da avenida, que vai do Viaduto Leonel Brizola à divisa com a cidade de Canoas. Mas isso não desmotiva o vendedor de sucos a produzir novas mensagens. “Ele procura viver em um mundo melhor, ele é bom para humanidade. Hoje em dia, com tanta violência é importante lembrar de Deus”, finaliza Airton.

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER

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osso maior desafio nessa pauta era o fato de nossas principais fontes serem praticamente inacessíveis. Verdadeiros ‘fantasmas’, como destacamos na matéria. Fomos então, primeiramente, investigar os locais, buscando rastros e evidências – se não das identidades, pelo menos da personalidade desses homens invisíveis. Na saída de Porto Alegre, na divisa entre a Avenida dos Estados e a BR116, encontramos placas e pedras pintadas de branco com inscrições religiosas pintadas em preto, em um padrão que não deixava dúvida de que se tratava do mesmo autor. Por perto residia ainda o pote de tinta, mas nenhum pincel. Algumas pessoas afirmaram ter visto em um cruzamento um senhor que seria o autor das placas brancas, mas não conseguimos localizá-lo nas tentativas que fizemos. Dizem que se chama Paulo – assim como o apóstolo que se converteu cristão após ter uma visão de Cristo na cruz – e que, entre uma pregação e outra, vende sucos. Porém, para nós, Paulo continua sendo apenas um fantasma.


Engenharia a s ENGENHEIROS, TÉCNICOS E OPERÁRIOS PRECISAM MANTER A RODOVIA EM CONDIÇÕES TRAFEGÁVEIS PARA OS 120 MIL VEÍCULOS QUE POR ELA PASSAM DIARIAMENTE

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eu serviço JANKIEL AZEVEDO

ESTUDO, PLANEJAMENTO E EXECUÇÃO GARANTEM A SEGURANÇA DAQUELES QUE TRAFEGAM PELA VIA

TEXTO DE Tárlis Schneider FOTOS DE CLARA ALLYEGRA E JANKIEL AZEVEDO

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eixando o engarrafamento de lado, a BR-116 se mantém em excelente forma, silhuetada e com uma “textura de pele” de dar inveja às “coroas” como ela. Impressiona quando se pensa na relação entre volume de fluxo de veículos e estado de conservação. A difícil tarefa de manutenção dessa que é uma das principais vias do Rio Grande do Sul fica a cargo de dezenas de profissionais, entre engenheiros, técnicos e operários. São eles os encarregados da recuperação asfáltica contínua, com a importante missão de manter a rodovia em condições trafegáveis para os 120 mil veículos que por ela passam diariamente. Há mais de 30 anos, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) não mantém funcionários próprios com as atribuições de realizar obras ou reformas em vias federais. Desde a década de 70, a principal função do órgão é fiscalizar as obras realizadas por empresas licitadas. Os contratos limitam o tempo necessário para realização do projeto e ditam quais recursos materiais serão utilizados, segundo informa o engenheiro civil e analista em

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CLARA ALLYEGRA

A MANUTENÇÃO CONSTANTE É FUNDAMENTAL PARA O ANDAMENTO DA ESTRADA JANKIEL AZEVEDO

infraestrutura de transportes Luciano Santarém. Além dele, outros 24 engenheiros são os responsáveis por analisar e fiscalizar cada operação nas estradas federais do Rio Grande do Sul. Cada projeto licitado tem a supervisão de dois engenheiros, sendo um titular e outro reserva. “Temos uma função muito importante, pois trabalhamos para melhorar as condições das estradas”, comenta o engenheiro. Ele enfatiza que a segurança dos motoristas aparece como um dos objetivos de seu trabalho. Santarém salienta que o serviço prestado pelos profissionais responsáveis pela fiscalização poderia ser melhor. “Temos boas condições materiais, carros para locomoção e uma situação predial boa, mas o ideal seria duplicar a quantidade de fiscais”, comenta. O trabalho de fiscalização de Santarém também conta com o auxilio de técnicos como Eloir Sehnem, 60 anos, 23 deles passados dentro do DNIT. “Sou da época em que calculávamos tudo a mão. Hoje a tecnologia nos ajuda muito para a realização do trabalho. Vai tudo para um chip!”, diz o técnico que carrega na genética a profissão. Seu pai foi funcionário do DNIT por décadas e exercia praticamente a mesma função de Eloir. Por ser um trabalho que envolve alto risco, o técnico relembra fatos que marcaram sua trajetória no órgão, como um deslizamento de encosta que atingiu operadores de máquinas durante uma intervenção em Galópolis, ou a explosão de um caminhão de combustível durante a duplicação da BR-116 entre São Leopoldo e Estância Velha. Na mesma época, um acontecimento que ainda arranca sorrisos do técnico foi o pouso de um pequeno avião em uma cancha de brita que serviria de base para a atual rodovia. “Estávamos trabalhando na via lateral, perto do antigo aeroporto de Novo Hamburgo, quando vi o teco-teco pousando na estrada de brita. Paramos o trabalho e fomos ver se estava tudo bem. O piloto saiu caminhando, como se nada tivesse acontecido”.

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Santarém e Sehnem afirmam que, mesmo com o intenso fluxo de veículos que trafegam diariamente pelo trecho da BR-116 entre Porto Alegre e Nova Petrópolis, as condições físicas da via são excelentes devido à forma como a rodovia foi construída. Eles comentam que o tipo de construção e o solo no qual a rodovia foi concebida propicia uma manutenção de qualidade, dotando-a de grande durabilidade.

Quem executa? Se a principal finalidade do DNIT é fiscalizar, então, quem executa as operações de manutenção? Atualmente, o trecho entre Porto Alegre e Nova Petrópolis é atendido pela empresa Sultepa sob regime de contrato através de licitação federal. Nos últimos dois anos, quem esteve e permanece à frente da árdua incumbência de manter em boas condições físicas a BR-116 é o engenheiro Marco Túlio Britto Macedo. Formado em 1987, comandou no auge das obras de recuperação efetiva da via, cerca de 100 operários, divididos em equipes pré-definidas de acordo com as funções a serem desempenhadas. “Hoje contamos com um efetivo de cerca de 40 operários, responsáveis pela roçagem e operações emergenciais, como conserto de fissuras ou buracos”, relata o engenheiro. Ele diz que se sente gratificado ao finalizar os serviços de reparo sem que acidentes de trabalho graves aconteçam com algum de seus subordinados. “A segurança é fundamental em nosso trabalho”. No trecho da região metropolitana, em julho de 2010, as equipes de engenharia da BR-116 enfrentaram um desafio inédito na via: a substituição de um viaduto de 50 metros, localizado próximo à Refinaria Alberto Pasqualini, em Esteio. Com ajuda de um guindaste de 500 toneladas, o uso de explosivos e da força de trabalho de uma equipe de 50 homens, foi possível retirar a antiga estrutura de concreto, dando lugar ao novo viaduto de aço. Após 56 horas de operação sob o tempo chuvoso do inverno gaúcho, os quatro módulos de metal, pesando

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60 toneladas cada, foram içados e montados no mesmo local. Esse tipo de ação nunca havia sido realizado no Rio Grande do Sul, e pela primeira vez na história do trecho gaúcho da BR-116 houve o fechamento total da via, obrigando o tráfego de veículos a ser desviado pelas vias laterais. Mas o rápido transtorno valeu a pena. A nova estrutura de R$ 6,8 milhões tem previsão de durabilidade de 80 anos, sendo dez vezes mais resistente que sua predecessora. Uma simples roçagem, ou a pintura rápida de um trecho, até a substituição de todo um pavimento... se for preciso, move-se pontes! A necessidade em qualificar a problemática BR-116 é o desafio que move esses profissionais. A luta constante contra o tempo, que urge em se fazer de tudo um pouco; intempéries que variam temperaturas e níveis de umidade que desmotivam até o mais afinco trabalhador; em amenizar congestionamentos causados por reparos e conseqüências sofridas pelos usuários já cansados com a falta de alternativa em mobilidade urbana; e na busca constante em adequar os recursos à realidade pela qual passa a BR-116. Aos serviços da rodovia mais movimentada do Rio Grande do

Sul, estão todos esses profissionais: engenheiros e suas equipes, diariamente em planejamento, executando e finalizando obras. O ciclo não se encerra, apenas é repassado para a próxima equipe. Os escultores de rodovia fazem a sua parte. Os milhares de motoristas que penam ao tomar a estrada como caminho, também têm a sua participação, quando no final das contas segregam uma porção dos seus ganhos aos impostos, confiando-os aos administradores desse pais. Quantas horas perdidas no caos do trânsito, nesta e em outras BRs, serão necessárias para que se deixe de apenas amenizar os problemas de locomoção urbana, e sim, investir massivamente em alternativas que modifiquem o perfil do transporte brasileiro? Nem engenheiros, nem matemáticos, nem ninguém é capaz de responder essa questão. A mudança é bem-vinda, e, quem sabe, as próximas histórias a serem contadas serão a de outros engenheiros civis, responsáveis por trens que não poluam, por aeromóveis silenciosos ou pela simples integração entre bicicletas e veículos. O que mais precisamos para qualificar nossa logística?

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or questões acadêmicas e pessoais, trafego quase que diariamente pela BR-116. Todos sabemos dos problemas causados pelo intenso fluxo de veículos, como bem conhecemos os transtornos decorrentes das obras de recuperação. Ao fazer a reportagem sobre a manutenção da rodovia, conheci o outro lado: o lado dos engenheiros. Descobri as dificuldades e as preocupações pelas quais passam esses profissionais, que diariamente trabalham para melhorar (e amenizar) os obstáculos que enfrentamos ao pegar a estrada. Os cuidados com a segurança dos usuários estão entre os principais pontos citados por eles. São conscientes de que suas ações atrapalham o trânsito, mas o fazem da maneira mais otimizada possível, afim de não interromper ou prejudicar o fluxo da BR-116. Sentem-se satisfeitos com seu trabalho, pois sabem da importância em manter a via nas melhores condições. Tudo para transformar o trajeto numa via mais agradável e segura para todos àqueles que por ela se deslocam, seja a trabalho, estudo, passeio...”


ATENÇÃO

CLARA ALLYEGRA


Um quilômetro P

PASSO A PASSO, passa um quilômetro. e a cada passo, curiosidades e personagens aparecem sutilmente. sob os nossos olhares, o espaço entre os km 264 e 265 da br se torna mais humanO, ganha vida, ou melhor, as vidas e histórias se apresentam TEXTO DE ANA PAULA FIGUEIREDO E TAMIRES GOMES FOTOS DE ATHOS BEUREN E ROBERTA REIS

assos curtos e olhos atentos, debaixo de uma sombrinha, observamos o que havia ao redor. Era difícil andar por entre os obstáculos: lixo, pedras, poças de água, garrafas e até mesmo roupas jogadas pelo caminho. Depois de alguns metros de andança, uma surpresa. Uma casinha, perdida em meio à paisagem de concreto, asfalto e prédios monocromáticos, chama a atenção por manter um pátio florido de hibiscos e parreiras. Ali mora há mais de 50 anos o aposentado Vitalino Angelo Frá. O senhor de 62 anos gasta pouca saliva para contar as lembranças do seu tempo de piá. “Lembro quando era menino, eu e meu irmão jogávamos bola aqui na faixa, agora está muito perigoso. Naquela época ficávamos até tarde na rua e era bem iluminado”, compara Vitalino, que se refere à BR-116 como faixa, assim chamada popularmente. O trecho da rodovia entre os quilômetros 264 e 265, um local inóspito, com calçadas irregulares e prédios depredados, foi definido como roteiro da nossa caminhada, em uma manhã fria e chuvosa de sábado. Ao explorar

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de histórias esse percurso, acompanhadas pelos colegas fotógrafos, encontramos essa e outras histórias, que talvez nunca fossem contadas. Vitalino preserva o legado dos pais, mas informa que o pátio já esteve mais bem cuidado, hoje o tempo escasso impede que a jardinagem esteja em dia. O aposentado dedica seu tempo para plantar alguns pés de alface, cuidar dos três cachorros e dos afazeres domésticos. Mesmo assim, a residência se destaca pela grande quantidade de verde avistada de longe, e assim o contraste da natureza com o urbano é inevitável. Localizada entre um hotel e um motel, onde as pessoas costumam permanecer por poucas horas, ou no máximo por alguns dias, a casa de Vitalino resiste ao tempo e ultrapassa gerações. “O hotel existe há muitos anos, mas era bem diferente. No lugar do motel havia um ferro velho, com sucata de caminhão. Tinha poucas casas e a estrada

era uma única pista larga de paralelepípedos.” A família veio da cidade de Farroupilha no início dos anos 60 para tentar uma vida melhor em Canoas, conta Vitalino. Depois de perder a esposa, ele assumiu os cuidados da residência onde cresceu e passou a dividir o espaço com o irmão mais novo, Luiz. No pátio, estão duas casas, uma onde a família morou, e onde ele ainda reside, e a outra que serviu de estabelecimento comercial. Ambas foram construídas pelo seu pai na época em que o trânsito e o barulho não eram constantes. Hoje, o som ATHOS BEUREN

CANOAS CRESCEU, E A CASA DE VITALINO CONTINUA LÁ, DO MESMO JEITO QUE FOI CONSTRUÍDA, HÁ MAIS DE 50 ANOS

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FOTOS ATHOS BEUREN

dos veículos torna impossível imaginar a cena presente somente na memória de Vitalino. Até uma hora da manhã o tráfego é intenso, e, mesmo sendo difícil de se acostumar, ele já tira de letra e dorme bem à noite. “Entre uma e três da madrugada, o barulho diminui um pouco, mas sempre tem movimento. Caminhões e motos passam a toda hora.” Mesmo habituado aos incômodos provenientes do fluxo dos carros, Vitalino sonha com o dia em que poderá retornar para a terra natal. “Tenho vontade de voltar para Farroupilha, mas falta coragem para a mudança, pois vivo aqui há 50 anos”, confessa. Chega a hora da despedida, a caminhada segue no ritmo anterior, frio e cinza. Não há mais flores e jardins.

O sustento à beira da estrada Cerca de 400 metros à frente, há o comércio do casal Magda Isabel Pizzi Rodrigues e José Carlos Rodrigues. Estabelecidos no ponto comercial há dez anos, trabalham com a venda de kits para identificação de cargas perigosas, via telefone. A renda obtida com o trabalho financiou a formação em ensino superior de seus três filhos. O casal conta o que já presenciou nessa década de ofício, descrevendo com detalhes os acidentes e atropelamentos ocorridos no local. Magda chama a atenção para outro ponto crítico, o transporte público. “Os ônibus aqui são precários. Não ando de ônibus, mas a minha secretária precisa usar o transporte e passa muito trabalho. Diminuíram a quantidade de veículos, e alguns nem param, passam reto ou ficam cheios de gente”, avalia. Magda e José apenas utilizam o ônibus quando é estritamente necessário, como

no caso de algum serviço a ser realizado fora do município. “Quando vamos a Porto Alegre, procuramos cuidar para não sair em horários de pico, pois, caso contrário, já sabemos, será preciso ter paciência, ligar o radinho”, brinca Magda. As paradas lotadas são alvo para assaltantes, o que mostra a insegurança presente às margens da rodovia. O estabelecimento de Magda e José Carlos também já foi vítima de roubos. “Arrombaram aqui quatro vezes, mas sempre à noite, quando já tínhamos ido embora”, afirma Magda.

Andança solitária O que mais se encontra no trecho são concessionárias de carros, postos de gasolina, motéis, casas noturnas, mas gente pouco se vê pelos arredores. Andamos um pouco desconfiados com a falta de vida aparente nas imediações, receio típico provocado por lugares desertos. Volta e meia surge um vivente apressado, principalmente nas proximidades do supermercado Zaffari Bourbon, que emprega muitos funcionários. Allane Rodrigues Pereira trabalha no local e está acostumada com o percurso. Moradora de Esteio, ela vai ao hipermercado pelo menos seis dias por semana para trabalhar em uma loja de roupas. “Seguro não é, mas medo não tenho”, conta. A segurança vem da experiência. Com apenas 20 anos, Allane já teve outros empregos e precisava andar sozinha até o serviço. “Trabalhei em Esteio, também na BR.” Mais alguns metros à frente, surge um ponto interessante do percurso: uma estreita e alta passarela de madeira, cujos vãos permitem enxergar os carros passando

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VITALINO SE ACOSTUMOU COM O BARULHO DO TRÂNSITO INTENSO DA BR. UM DIA, ELE PRETENDE PERCORRÊ-LA PARA VOLTAR A SUA TERRA NATAL, FARROUPILHA

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Finda a jornada Um trecho curto, de carro, é atravessado em apenas dois minutos. Porém, as histórias interessantes que descobrimos pelo caminho fizeram com que a caminhada durasse mais de uma hora. O trajeto compreende uma das passagens da BR-116 mais movimentadas da Região Metropolitana. Mesmo com tanta gente indo e vindo, nitidamente é um lugar não planejado para o passeio, por isso a caminhada por ali é solitária. A placa que marca o quilômetro 265 indica que chegou a hora de ir embora. Vamos. Todos cansados, molhados e com coisas para contar em forma de texto e fotografias. As histórias que ficaram por ser contadas são muitas. A cada esquina, com um pouco mais de tempo e atenção, seria possível extrair um caso merecedor das páginas da revista. A correria do dia a dia torna as milhares de pessoas que passam pelo local indiferentes às peculiaridades do caminho, que, como comprovado pela jornada descrita, escondem casos interessantes em meio à paisagem embrutecida e envelhecida pela fumaça dos carros e caminhões. Cada colega leva para casa suas impressões sobre a tarefa e uma conclusão em comum: possuímos visão seletiva.

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ROBERTA BECKER

por baixo dos pés. Reza a lenda que a Passarela da Cabeça, como é conhecida, recebeu este nome por causa de uma briga, em que um dos inimigos jurou que mataria o outro e colocaria a cabeça dele exposta na passarela. O homem jurado de morte, sabendo da ameaça, adiantouse e reverteu a situação, expondo a cabeça daquele que desejava ser seu algoz.

uantas vezes andamos por aí sem olhar para os lados, concentrados no destino e não no percurso. Depois de caminhar com esse objetivo pela BR-116, os lugares comuns se apresentaram sob nova forma, quase sempre negativa. Entre as fontes, sem desmerecer ninguém, o senhor Vitalino ganhou destaque, não só pelas histórias de infância, mas por manter vivo o ambiente em que cresceu, mesmo que tudo na volta tenha mudado. Todos os sentidos foram explorados. A visão não foi a mais privilegiada, pois o cenário incomoda, perturba no início. Foi difícil acreditar que boas histórias poderiam surgir daquele espaço aparentemente desabitado. A audição não teve paz, solicitada a todo instante pelo barulho dos carros, que abafam a maioria dos sons ao redor. Os cheiros se misturavam, o nariz não diferenciava mais o odor de lixo, combustível e fumaça dos carros. O tato foi sentido pelos pés, que pisavam o chão irregular e as poças de água. O único que escapou foi o paladar, mas por pouco. No caminho, o aroma de carne assada vindo de uma churrascaria atiçou as papilas gustativas. O percurso foi igual, os sentidos é que ficaram mais aguçados.”


encantos da O ANTIGO MOINHO FAZ PARTE DAS ATRAÇÕES DO PARQUE HISTÓRICO MUNICIPAL JORGE KUHN

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subida da Serra TEXTO DE FERNANDA BRANDT E RENATA PARISOTTO FOTOS DE ROGERIO BERNARDES

A Rota Romântica, que ATRAVESSA 13 cidades entre São Leopoldo e São Francisco de Paula, é um dos caminhos mais visitados pelos turistas no Rio Grande DO SUL

N

ão são em paisagens verdes, riachos despoluídos, obras de arte e em calmaria que você pensa quando falamos da BR-116. O trânsito lento, acidentes, as horas perdidas dentro de um automóvel, a poluição sonora e visual parecem combinar bem mais com ela. No entanto, um trecho da estrada que passa pelo caminho turístico conhecido como Rota Romântica, no Rio Grande do Sul, tem grandes chances de isentá-la, pelo menos por alguns quilômetros, de tantas reclamações. Localizada entre as cidades de São Leopoldo e São Francisco de Paula, a Rota tem diversos pontos bem conhecidos, como a Cascata do Caracol, em Canela, e o Labirinto Verde, em Nova Petrópolis. Anualmente milhares de turistas movimentam a economia dos municípios, especialmente no inverno. O charme do roteiro não está somente nesses lugares já tão badalados, mas também em pequenas raridades cortadas pela BR-116. Entre Dois Irmãos e Picada Café, respectivamente quinta e nona cidades do roteiro, é possível se surpreender. A primeira parada, no sentido

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Capital-Interior, é ponto de encontro de motociclistas e turistas de passagem. Não somente pela roda de conversa que pode se formar, mas pela vista panorâmica de Dois Irmãos e outras cidades do Vale do Sinos. O Belvedere fica no quilômetro 218, na entrada de Morro Reuter, ex-distrito da cidade, emancipado em 1992. Com extensão de cerca de 60 metros, o Belvedere oferece um espaço para estacionamento e é rodeado por plátanos, árvores que estão por boa parte do caminho e que, no outono, trocam o verde das folhas pelo amarelo queimado e pelos tons avermelhados. São os plátanos, aliás, que em vários trechos da BR-116 formam túneis naturais que encantam. Um quilômetro após, está o ateliê da artista plástica Anelise Bredow. Visitado por turistas do mundo todo que passam pela região do Vale do Sinos e sobem a Serra através da Rota Romântica, o ateliê representa bem o que os turistas podem encontrar pelo caminho. A beleza e originalidade do trabalho da artista ganharam destaque ainda maior em 2010, quando suas peças foram parar na decoração de cenários das novelas Passione e Ti Ti Ti, da Rede Globo. A casa antiga, com traços da colonização alemã, transformada em ambiente de trabalho, chama a atenção. No entanto, de acordo com a artista, o vermelho das paredes não é suficiente para atrair um maior número de pessoas que seguem pela rodovia. “Os turistas chegam aqui por acaso. A gastronomia ou a indicação de alguém que já conhece meu trabalho ajudam.” O fato se justifica pelo ponto comercial, que fica alguns metros antes do trevo de acesso à cidade de Morro Reuter, por isso tem pouca visibilidade, além da falta de espaço para


o estacionamento de veículos. No entanto, a artista não pensa em sair do local. “Não existem pontos comerciais na BR-116, desde Ivoti até São Francisco de Paula. Esse é um grande problema que enfrentamos. Certamente, se houvesse novas opções e maior divulgação do turismo na BR, o movimento de turistas poderia ser muito maior”, destaca a artista. A falta de imóveis para locação pode ser verificada durante todo o trajeto entre as duas cidades. A geografia do local, composta por paredões, penhascos e vegetação fechada, impede que novos estabelecimentos sejam construídos. Além disso, aponta Anelise, a estrada sem acostamentos em alguns pontos e a neblina prejudicam a visitação: “A maior parte da divulgação para subir a Serra é através da RS-122. Em dias nublados, a BR-116 se torna mais perigosa, e acabamos perdendo grande parte do movimento. No entanto, em dias de sol, os turistas podem apreciar uma paisagem muito mais bonita através dos caminhos da Rota. Para se ter uma ideia, nos finais de semana com tempo bom, são cerca de 100 a 150 pessoas que vêm visitar o ateliê. Nos dias com neblina, o número cai para 20 a 25.” Apesar dos problemas de divulgação e infraestrutura da BR-116, as obras de arte encantam visitantes brasileiros e estrangeiros. São vasos em cerâmica, quadros, pequenas lembranças, como chaveiros, expostos por todo o ateliê, com estilo próprio. Uma geladeira antiga vermelha, mesas de madeira, móveis brancos, estantes e até um velho baleiro transformam um simples ambiente

de casa em obra de arte. Anelise reforça: “Eu não me inspirei no estilo de ninguém, tenho minha linguagem própria”. É por isso que o ateliê se torna um dos pontos atraentes do caminho.

A parada obrigatória da BR Seguindo viagem, a Tenda do Umbu, em Picada Café, chama a atenção pelo número de motociclistas que ali param para descansar, realizar suas refeições, conversar. Há possibilidade também de fazer compras. Afinal, são inúmeros itens à venda, que vão desde casacos de couro e lã, artigos femininos, peças decorativas, até pequenas lembranças, como enfeites para o chimarrão, cuias e chaveiros. De acordo com uma das proprietárias da Tenda do Umbu, Miriam Rückert Maurer, aos finais de semana cerca de mil pessoas se reúnem no local. Os turistas são de todo país, e, no período de férias, chegam por ali até estrangeiros. A tenda teve início em 1963, antes da emancipação do município, em 1992, quando o pai de Miriam comercializava frutas à sombra de um umbuzeiro, à beira da BR, atividade que ainda pode ser vista em trechos da Rota Romântica. O negócio da família foi aumentando com o tempo, e atrás da árvore foram construídas as primeiras instalações. Hoje, o local abriga loja, restaurante e área com churrasqueiras para quem prefere preparar o almoço. “O nosso objetivo é oportunizar lazer para todos nossos clientes, por isso a diversidade”, diz Miriam. Ainda na cidade de 5.182 habitantes, o Parque Histórico Municipal Jorge Kuhn integra os pontos que valem a pena vi-

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sitar na rodovia. Com um acervo histórico que inclui construções centenárias, como moinho, armazém, residência, cozinha com sala de refeições, açougue, galpões, estrebarias, chiqueiros e matadouro. No local, encontra-se também a Biblioteca Municipal José Lutzemberger e o prédio de uma antiga funilaria.

Arte na beira da estrada Em meio às árvores, é possível avistar uma pequena casa de madeira e teto baixo. No alto, do lado direito, um distintivo do tricolor gaúcho, Grêmio, e do lado esquerdo, o do time rival, Internacional. Feitos em madeira maciça, pintados cuidadosamente, os escudos são amostras do que pode ser encontrado no local. Outros pequenos e enormes quadros, esculpidos artesanalmente, retratam cenas como a da Santa Ceia, cidades pacatas, pais e filhos, animais e até um pôr do sol. José Dércio Knorst e Ilaine Schnorenberger são os responsáveis por encantar turistas dos Estados Unidos, Alemanha e também brasileiros, que pagam até R$ 3.200 por uma peça com dois metros de largura. Para quem não pode pagar esse valor, mas quer ter a exclusividade em casa, a opção é o número de residência, que sai por cerca de R$ 180. Há 15 anos no local, Ilaine atribui à BR-116 o sucesso das vendas, mas admite que a Rota Romântica ainda é pouco divulgada. Mesmo assim, o casal não pretende sair do local onde nasceu. Do negócio, vem a principal renda da família, mas não a única. Durante a semana, Ilaine trabalha em uma fábrica de calçados de Dois Irmãos para complementar o orçamento. Na pequena casa de beira de estrada, além dos quadros, são comercializadas ainda flores e mel, uma opção para turistas e também para os vizinhos da localidade de Picada São Paulo. Paisagens, centros culturais, esculturas, produções locais. As atrações encontradas entre as cidades de Dois Irmãos e Picada Café remetem a uma vida simples de cidade do interior. A calmaria encontrada no trecho pode amenizar as impressões ruins de quem enfrenta diariamente o lado exaustivo da rodovia.

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um pedacinho da alemanha no brasil A inspiração para a criação da Rota Romântica brasileira veio do norte da Alemanha. Engana-se quem pensa que é apenas a beleza dos plátanos ao longo da BR-116 que impõe o ar europeu. A região que abriga as cidades da Rota Romântica foi colonizada pelos imigrantes alemães que povoaram a região em meados do século XIX. Vindos de regiões do Norte da Alemanha, 5.350 alemães chegaram à encosta do Vale do Sinos, à Serra Gaúcha e ao Nordeste do Rio Grande do Sul entre 1824 e 1830, uma região desabitada até então. A influência germânica pode ser vista hoje nas casas em estilo bávaro e enxaimel, no dialeto deixado pelos imigrantes e nas festas populares com bandas típicas, regadas a muito chope e alegria. A culinária local também é repleta de iguarias da típica culinária alemã, com um bom schmier colonial, o delicioso apfelstrudel (torta de maçã) ou uma cuca bem caseira.

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“Q

uando o assunto em pauta é a BR-116, a primeira lembrança que a grande maioria das pessoas tem é da poluição, dos engarrafamentos e do estresse causado pelos grandes congestionamentos, principalmente no trecho que liga a Grande Porto Alegre ao Vale do Sinos. E essa também era a nossa ideia. Foi nessa hora que a colega e amiga Gabriela Silva sugeriu mostrar que nem só de fumaça vive a 116. E aceitamos o desafio. Escolhemos uma manhã de sábado para subir a Serra e, mesmo com chuva, a cada quilômetro era possível apreciar belas paisagens, conversar com moradores e descobrir pequenos detalhes que fazem da região um dos berços da colonização alemã. A saída foi da cidade de Dois Irmãos, e, conforme percorríamos a Rota Romântica, a reportagem se construía em pensamento. Seria impossível não falar dos plátanos, que, em alguns pontos, chegam a formar túneis verdes. Como não se encantar com a beleza natural e ainda pouco explorada pelos pontos comerciais? Aliás, a maioria dos entrevistados reclamou da falta deles. Mas seria tão prazeroso andar por ali se o trecho fosse igual ou muito parecido com o restante da BR-116?”


Quando テゥramos crianテァas 54 | PRIMEIRA IMPRESSテグ | JULHO/2011


JOANNA GIL CECÍLIA MEDEIROS CECÍLIA MEDEIROS JOANNA GIL

QUEM PASSA PELA PRAÇA SANTOS DUMONT, JUNTO À BR-116, NA ALTURA DE CANOAS, NORMALMENTE DÁ UMA ESPIADINHA NO MONUMENTO DO AVIÃO. MAS COMO ELE FOI PARAR ALI? AS CRIANÇAS TÊM ALGUMAS VERSÕES

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TEXTO DE HECTOR MORAES FOTOS DE CECÍLIA MEDEIROS, CLARA ALLYEGRA E JOANNA GIL

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Praça Santos Dumont, em Canoas, popularmente conhecida como “Praça do Avião”, desperta a atenção de qualquer um que trafegue pela BR116. Seja durante o dia, sob um céu de brigadeiro, ou então à noite, quando é iluminada pelas luzes que destacam a aeronave, não há quem passe pela rodovia sem dar uma conferida no monumento. Visitei a Praça em um domingo à tarde e pude ver o modelo F-8 Gloster Meteor de perto. Bem maior do que parece quando visto da BR-116, ele é sustentado por um suporte de concreto e fica levemente inclinado, passando uma sensação de movimento e voo infinitos. O desgaste do tempo é perceptível, principalmente nas asas e na cauda, partes que estão um pouco descascadas. Pudera, como monumento, foi inaugurado em 1968, como uma homenagem da Força Aérea Brasileira (FAB) para a comunidade canoense, que tem o desenvolvimento municipal diretamente ligado à Aeronáutica. Trazido para o Brasil em 1953, o F-8 Gloster Meteor foi o primeiro modelo à jato do país, e podia atingir a velocidade máxima de 960Km/h. Todas essas informações perdem o sentido quando perguntamos a uma criança se ela saberia responder por que aquele avião está ali. É na imaginação delas que a homenagem da FAB ganha contornos mágicos, com histórias de guerra, salvação e combates ingênuos. Histórias sempre contadas rapidamente, com palavras curtas e em volume baixo. Quase um contraste com as mais de 21 mil horas de voo e o ruído dos motores do hoje aposentado Gloster Meteor. São contos que atravessam a tênue linha entre o sonho e a realidade, sem se preocupar com as barreiras possível. E foi isso o que fizeram alguns ilustres visitantes da Praça do Avião, com idades entre cinco e 10 anos, quando perguntados: “De onde veio este avião?”

A IMAGINAÇÃO VOA De calça laranja e moletom azul, com cabelo cortado no melhor estilo tigelinha, Lucas Azevedo, de apenas cinco anos, conta que viu o avião caindo do céu até aterrissar ali: “Eu estava aqui com meu pai e aí BUUUUM! ele veio descendo... descendo... e parou aí.” O que aconteceu depois? A resposta do pequeno foi um envergonhado sorriso que se escondeu nos braços da mãe. Mas essa não é a mesma história que o Jonatas Barcelos, de camiseta do Grêmio e oito anos, conta: “Acho que teve uma guerra, lá em cima derrubaram ele, e ele caiu aqui.” Mas e por que não explodiu? “Meu avô disse que tinha acabado a gasolina.” Avô? “É, meu avô era o piloto. Ele que me contou essa história”, disse ele. Janaína Pereira, de 10 anos, conta uma versão bem mais tranquila que a dos meninos: “Ahh, esse avião

aí meu pai falou que o quartel não queria mais, que ele estava velho. Daí colocaram ele aí. No colégio também contaram algo tipo isso, que foi o quartel que deu ele pra cidade.” Mas antes de saber a verdadeira história, ela conta que achava que ele não era de verdade, que era só imitação. Sara Silveira, de sete anos, tem certeza que o avião é de verdade porque a mãe dela contou que esse avião caiu. “Daí colocaram ele aqui”. Mas ela vai mais além: “Eu queria entrar lá. Pode?”, pergunta apontando para o cockpit da aeronave. Mesmo sem ligar as turbinas e alçar voo há 43 anos, o velho Gloster Meteor ainda mexe com a imaginação das pessoas. Mantém a mesma magia que faz com que tanto os que freqüentam a Praça Santos Dumont quanto os que passam pelo Km 256 da BR-116 voltem a ser criança por alguns instantes.

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JOANNA GIL

CLARA ALLYEGRA

IMPRESSÕES DE REPÓRTER

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ive sorte e azar quando visitei a Praça Santos Dumont, mais conhecida como Praça do Avião, em Canoas. Sorte porque fazia um dia bonito e ensolarado nas duas vezes em que estive lá, o que tornou minha viagem de trem uma espécie de relaxante passeio de domingo. Azar porque, apesar do clima agradável, não encontrei tantas crianças quanto imaginava que poderia encontrar. É que a idEia era conversar apenas com os pequenos para tentar entender como a imaginação deles explicaria o fato de um avião estar no meio de uma praça localizada justamente ao lado de uma estrada. Convenhamos, algo bastante inusitado. No início, apenas observava a movimentação deles, tentando entender do que estavam brincando e o que poderiam estar imaginando. Depois, localizava os pais, me aproximava e explicava o motivo de querer entrevistar o filho deles. Não ouvi nenhuma negativa por parte dos adultos, mas não posso dizer o mesmo dos meus entrevistados mirins. Mas eu os compreendia, afinal, quem nunca se sentiu envergonhado? Em outros casos, eles apresentarem aquela bonita falta de articulação e conexão textual natural da idade, o que me deixava ainda mais curioso pra saber o que será que eles me contariam, caso pudessem fazer isso. E ainda teve aqueles que seguiram brincando ainda mais entusiasmados, porque finalmente podiam fazer aquilo que mais gostam: utilizar superpoderes mágicos para impressionar estranhos como eu.”


DOIS A

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CLARA ALLYEGRA

RODAR

Na principal rodovia do Brasil, ela cansa da rotina conforme desbrava caminhos, enquanto ele procura um teto para sobreviver e agradece pelo dia de hoje TEXTO DE EDUARDO PEDROSO FOTOS DE ANDRÉ ÁVILA E CLARA ALLYEGRA

U

m trecho da BR-116 que corta São Leopoldo serve de fronteira para o bairro mais rico da cidade. Neste local, a estrada muda um pouco sua configuração convencional, pois há um viaduto, usado para que o intenso fluxo não seja interrompido pelos cruzamentos, retornos e sinaleiras. No bairro, entre outros estabelecimentos menos representativos, há uma universidade, um grupo de artilharia do exército brasileiro, um clube de futebol e até um cemitério. Com tanta estrutura, o bairro Cristo Rei é quase como uma cidade dentro de outra, e fica fácil entender sua valorização. Difícil é entender como alguém consegue morar de graça nele. Números de distâncias que separam mundos normalmente são estratosféricos, mas neste caso mal ultrapassam os 1500 m, distância percorrida em pouco mais de três segundos pelos melhores competidores do atletismo. Estranho é que se ele fosse até ela, seriam ao menos 20 minutos, mas se ela fosse até ele, não seriam nem cinco. Nenhum dos dois quis dizer o nome. Ela iria sozinha, dirigindo o terceiro carro da família, que lhe fora presenteado há pouco mais de um ano. Os dois dizem ter 21 anos. Morador de rua, ele iria caminhando, acompanhado de Belo, Sextafeira e Pipo. A seguir, ambos caminham sobre um muro entre dualidade e dueto enquanto respondem as mesmas perguntas de perspectivas opostas, mas conectadas pelo asfalto da principal rodovia do Brasil.

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“Já vi carro bater em caminhão, carro bater em carro e um carro pegando fogo sozinho”

Quem mora contigo?

Ela: Minha mãe, meu pai e meu irmão. Meu irmão tem duas cadelas, uma labradora e uma border collie. Ele: Só eu. Aqui eu fico mais na minha. Gosto de ficar na minha. Meu parceiro que me trouxe pra São Leopoldo já morreu, e foi por causa de cabeça fraca, indo pelas ideias dos outros. Gosto daqui. Tem só três cachorros que ficam por aqui. Mas só o Belo é meu, os outros são do Belo, ele que cuida deles e divide comida, eu não sou assim. Sempre fui mais sozinho.

O que é a BR-116 para você?

Ela: Uma estrada que é para ser de fluxo rápido, mas que acaba se tornando um pesadelo devido ao movimento e aos engarrafamentos. Ele: Um cantinho. Tem muita paz das pessoas e abrigo da chuva, mas o barulho é chato mesmo.

Há quanto tempo você usa a via?

Ela: Desde que tirei a carteira, há três anos. Foi bem diferente, essa foi a primeira estrada de fluxo mais intenso que encarei. No início, lembro que achava 80 km/h muita coisa, hoje é normal. Ele: Não sei. Mas já tem mais de ano.

Quanto tempo por dia fica nela?

Ela: Em média uma hora e meia, mas cheguei a ficar quase três horas, quando peguei tranqueira. Agora evito ao máximo trafegar entre 7h30min e 9h e entre 17h30min e 19h. Só ando nesses horários quando preciso. Ele: Mais é na noite. De dia eu fico no centro, ou perto da rodoviária.

De onde sai e para onde vai?

Ela: Saio de São Leopoldo, vou até a Feevale, em Novo Hamburgo, ou até Porto Alegre para trabalhar. Fazendo uma média semanal, ando cerca de 50 quilômetros diariamente. Ele: Nasci em Sapucaia, já tive casa lá, mas já morei na rua lá e depois vim para São Leopoldo. Um amigo disse que aqui era melhor, mas não viemos para esse viaduto direto, fomos no palco do metrô. O “palco” citado por ele é uma área da Estação São Leopoldo que tem apenas dois degraus de elevação e é usada de entrada pelos funcionários do local. Protegida da chuva pela pista elevada do metrô, nunca está vaga, sempre serve de lar para algum desabrigado. De fato, é um palco, menor do que a menor das peças da casa dela, onde se desenrola uma peça sobre descaso e abandono. Males que também circulam pela BR-116.

O que deveria ser melhorado na BR-116?

Ela: O fluxo de veículos nos horários de pico, com mais organização ou mais pista. A estrada não é ruim, não tem muito buraco e anda bem nos horários normais, mas está mais largada de uns tempos para cá. Ele: Não sei. Era bom ter um fogãozinho. Na real, só não gosto de pessoas que passam aqui por baixo e ficam com medo de mim. Não sou ladrão nem nada.

Ela Qual o acontecimento mais inusitado que já viu na via?

Ela: Uma vez estava engarrafado no viaduto e havia um carro voltando de ré pelo acostamento. Muita imprudência, algo que não vi em nenhum outro local. Ele: Uma briga de skatistas com uma torcida organizada. Foi uma barbaridade, ver uma gurizada da minha idade, mas com condição, se matando. E tem o perigo dos carros ainda, por pouco não atropelaram uns.

O que mais te preocupa ao estar na BR-116?

Ela: Os motoqueiros e pedestres que atravessam. E os engarrafamentos repentinos, com paradas bruscas. Ele: Não tenho medo de ser abordado pelos homens (policiais), sou homem também. Tenho medo é de dormir e ser pego de surpresa. Tem que dormir de olho aberto, mas aqui é mais tranquilo que o metrô. Se passa menos pessoa, corro menos risco. Costuma ver muitos acidentes? Ela: Não muitos. Mas já vi carro bater em caminhão, carro bater em carro e um carro pegando fogo sozinho. Ele: Vi alguns, mas é mais é buzinaço e pneu cantando, só, mas isso é normal. Acho que posso dizer que eu sou um acidente da BR-116. Não era para eu estar aqui, né? Não se sabe como ele chegou até a BR-116, assim como não se sabe como ela decidiu fazer duas faculdades e trabalhar. Essas questões, ainda que de cenários antagônicos, são muito semelhantes na origem. Surgem, não são escolhidas. São moldadas mais pelas negativas do que pelos desejos e aspirações. Eu poderia exigir uma explicação, mas ela surgiria mutilada, obscura ou límpida demais. Voltar os olhos para um passado distante ou conturbado é como tentar iluminar uma paisagem imersa na neblina com uma lanterna. Não se vê muito mais do que fumaça.

É uma via limpa ou não?

Ela: A principal poluição é a fumaceira dos carros e fábricas. No geral é limpa. É mais poluída nos acostamentos, nos canteiros. Cai muita sujeira de outdoor. Há também mau cheiro de caminhões, normalmente em péssimas condições. Esses caminhões carregam entulho que cai na estrada, então procuro ficar longe deles. Ele: Eu mesmo tento manter limpa a minha área, ninguém gosta de morar na sujeira. Mas cai muito lixo dos carros. Cai não, os caras jogam mesmo, não estão nem aí. Sei que eu moro na rua, mas é minha casa. Eu não jogo lixo na casa de ninguém.

O que muda quando chove e você está na BR?

Ela: Fico muito mais atenta, a visibilidade piora e eu diminuo a velocidade. Dependendo da intensidade, forma poças

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Ele nas faixas periféricas. Aliás, tem muitas poças na parte de Esteio, até a Unisinos. Ele: O melhor daqui é isso, não chove, tenho um teto, bem grosso até. O bom é que posso caminhar aqui sem me molhar também, mas sair já fica complicado. Me sinto meio preso quando chove, mas é bom estar seco.

Durante a noite, a BR muda muito?

Quando o assunto é ajuda, ambos se apoiam de alguma forma na fé. Quando o assunto é obras, quem tem algo para falar é quem vai passar pelos futuros viadutos, não quem adormece diariamente sob os blocos de concreto de um que já existe. Quando as perguntas recorrem mais ao imaginário do que à realidade, as mentes viajam em velocidades semelhantes.

Quando acredita que vai deixar de usar a BR-116?

Ela: Não vislumbro este dia. Enquanto morar no Rio Grande do Sul, tenho que usar, mas acredito que vou morar no exterior dentro de alguns anos. Ele: Não tem como dizer. Gosto daqui e não tenho outro lugar. Só se eu mudar de cidade.

Ela: Depois das 20h é mais tranquilo de andar, mas muitos trechos não têm iluminação, Acredito que vai mudar em vista das câmeras que serão instaladas. Fico mais tensa em relação a assaltos em sinaleiras. No trecho de Sapucaia, no pórtico, principalmente. Ele: Passa menos carro, tem menos barulho, e isso engana, mas tem que ficar ligado igual. Tudo é menos, só aumenta o frio, tem muito vento aqui.

O que pensa sobre a outra pessoa que entrevistei?

Como é a iluminação da BR?

Ela: Deve ser bem complicada. Qualquer pessoa que mora na rua vai estar numa situação ruim, mas ele ainda vai ter o negócio da poluição. Ainda tem muita gente voltando da balada, que dirige bêbada e pode atropelar até quem toma cuidado. Ele: Comer, beber e dormir todo mundo faz. Não deve ser muito diferente da minha. Também tenho uns parceiros, uns trocados e uns problemas, sabe? Rico e pobre é assim, não adianta. É ser humano. Mas deve ser uma vida bacana.

Ela: É boa, mas no trecho do Zoológico é muito escura. Na chegada de Esteio também. Ele: Onde eu fico até que é ruim, mas gosto assim. Eu vejo eles e ninguém me vê.

Já precisou de ajuda em alguma ocasião na BR?

Ela: Não. Graças a Deus. Ele: A gente sempre precisa de ajuda, né? De fé também. Fazem muita barbaridade com quem mora na rua. Eu já escapei de ser esfaqueado, gritei por socorro e algumas pessoas gritaram também. Mas na rua tu não pode precisar da ajuda de ninguém. Aquilo foi sorte, por acaso. Ninguém vai se meter em nada com morador de rua no meio.

Ela: Só pode estar com grandes dificuldades, morar na faixa deve ser pior do que nas ruas da cidade. Ele: Deve ser legal ter um carro e tal, eu queria um. Acho que dá dignidade e tu ainda te diverte. Mas não ia correr tanto eu acho, não sei. Trabalhar também, se ela gosta e é feliz. Estudar tanto que não deve ser bom.

Como deve ser a rotina dessa pessoa?

Se pudesse fazer uma pergunta para a outra pessoa, qual seria? Ela: Como ela foi parar ali? Ele: Sei lá. Se ela já me viu aqui?

E o policiamento na BR?

Ela: Não há, só em momentos de acidente. Ele: É difícil virem aqui, mas não devo nada. Podem vir.

Se sentir fome, consegue comida na BR?

Ela: Sim, em posto de gasolina, tem vários postos. Ou no Bourbon de Canoas. Ele: Tem uma moradora daqui de perto que seguido me dá alguma coisa. Ela me ajuda, mas não é sempre. Às vezes peço nos restaurantes aqui perto, outras fico no McDonald’s, mas não é bom. Prefiro ganhar dinheiro e comprar comida do que ganhar comida direto.

Costuma ver muitas obras na BR?

Ela: Ultimamente não, mas há uns anos, estavam recapando. Agora acredito que estão focando o viaduto da Unisinos e perto da Feevale. O da Feevale está demorando demais, mas o da Unisinos até que está bem rápido. Ele: Não. Aqui nunca fizeram nada.

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER

“M

eu principal receio foi como expor de maneira compreensível minha proposta ao leitor. Não é uma matéria convencional, por isso a opção de lidar com um jornalismo mais literário. Abordei cada um deles de diferentes maneiras, mas ambos me trataram da mesma forma, foram abertos e se mostraram interessados em contar o que pensam sobre a rodovia. Creio que o anonimato dos envolvidos contribuiu para que a história fosse narrada de maneira direta e mais focada apenas no convívio com a rua em si.”

ANDRÉ ÁVILA

“Sei que eu moro na rua, mas é minha casa. Eu não jogo lixo na casa de ninguém”


Consertam-se pneus


Estabelecimentos agregam histórias que misturam asfalto e borracha à BR-116

TEXTO DE FELIPE NABINGER E RICARDO SANTOS FOTOS DE LISIANE AGUIAR

S

er um dos maiores inventos criados pelo homem não coloca a roda como item de colecionador e sim como um objeto constantemente em dia com as necessidades culturais e tecnológicas das diversas sociedades. Desde as origens, atribuídas às civilizações suméria e egípcia, na Idade Antiga, às eras seguintes, o deslizar sob esse tão famoso círculo propicia menos esforços, mais celeridade e a sucessão de criações que revolucionam as práticas humanas de modo intenso. Artesanato, tecelagem, carro de boi, bicicleta, relógio, máquinas à vapor e trem são alguns itens cujo desenvolvimento está ligado à roda. Mas o veículo automotor é talvez o primeiro que vem à mente, pela disponibilidade em número de unidades e o acesso a praticamente todos os bolsos. Essa liberdade para atingir distâncias movimenta uma indústria variada que abrange a siderúrgica, têxtil, química, eletrônica, publicitária, e, claro, a pneumática. Todo o aparato automobilístico gera cifras astronômicas, porém, nada seguiria adiante, literalmente, de pneus vazios! Os motores que locomovem cidadãos e riquezas não iriam longe, portanto, sem as borracharias. A BR-116, no trajeto de Porto Alegre a Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, pode ser considerada uma síntese do exposto. Detentor do maior tráfego do Estado e o quarto em nível nacional, o trecho metropolitano apresenta o índice de aproximadamente 1,5 milhões de veículos por mês ou 120 mil por dia, segundo dados de 2008 da Polícia Rodoviária Federal. Afinal, da capital gaúcha ao seu destino final constam mais quatro municípios que, junto a outras 28 cidades da região, respondem por 4 milhões de pessoas. Trânsito é o que não falta. Viajar desde Porto Alegre, passando por Canoas, Sapucaia, Esteio, São Leopoldo e Novo Hamburgo, revela a conurbação que mais se assemelha a um só logradouro, ou uma sucessão de vários com poucos espaços de densidade populacional e comercial. Todo o aparato de suporte mercadológico encontra-se às margens da rodovia nas ruas laterais, além de algumas residências. Apesar da importância das borracharias, não significa que os melhores pontos de venda do trajeto, tanto em localização quanto em construção vistosa, sejam delas. Lembrados basicamente quando o sinal de pisca-alerta


e o acostamento fazem companhia aos motoristas, os borracheiros ocupam espaços em forte disputa com a especulação imobiliária, fato que nem os 100 quilômetros de ida e volta conseguem amenizar. Se a quebra de braço fosse literal, a turma que cuida dos calibradores de pneus ficaria com os melhores locais, mas na economia nem sempre é a imprescindibilidade que voga. Ainda mais ante a diversidade de ramos que margeiam uma pista de rolagem com as características da BR-116.

A alma do negócio É verdade que erros de Português são recorrentes no universo das borracharias, mas nunca fizeram tão bem como para Marcos e Luiz Collor. A placa “Borraxaria” é familiar para os condutores da BR-116 que passam por Sapucaia do Sul. E o letreiro não está em carcaças de pneus ou madeiras, mas num vistoso fundo branco de letras azuis bem escritas. Desde 1994 em funcionamento, sem atender veículos de grande porte, reclamações, até mesmo por e-mail, não calibram uma eventual alteração do “erro”. Sagazes, os proprietários da borracharia próxi-

ma ao Zoológico têm até pasta com recortes da mídia espontânea que a brincadeira proporciona. Como se fossem poucas as curiosidades, eles contam com dois carros em serviço de táxi... com “x”.

o grande E o pequeno Juarez Melo, no bairro Campina, em endereço limítrofe com o bairro Scharlau, em São Leopoldo, é a antítese da maioria dos borracheiros, que preferem trabalhar com veículos de pequeno e médio porte. “O que faz o pesado faz o leve, o que faz o grande faz o pequeno, o pessoal já não quer mais fazer força”, afirma enquanto troca os pneus de uma carreta. Sem escolher o tipo de veículo, não é à toa que Melo construiu junto com o pai a estrutura de um comércio que pelo nome deve acalmar muita gente à deriva – Borracharia do Salvador! Salvador era o seu pai, falecido recentemente. Hoje, a vistosa oficina está envolta no barulho da maré de máquinas com a pressa contemporânea de chegar, própria da rodovia. Para não perder clientes, o local conta com teleatendimento, mas, por questões de (in)segurança, subme-

te a antiga Blazer e o saudoso Fusca apenas para a clientela assídua.

Local e dono sem nomeS No bairro Rio Branco, em Canoas, há 20 anos no ramo das marretas e macacos hidráulicos – e há sete neste local –, um borracheiro sorve seu chimarrão em uma tarde fria. Tímido, assustado, ele é o contraponto do cachorro que, alegre, salta sobre os clientes. O profissional aceita contar sua história, porém não quer dizer seu nome completo. Júnior, como pede para ser chamado, personifica o receio e a desconfiança que parece ser regra nos profissionais do ramo. Na empresa de pequeno porte, ele trabalha com venda e reparos de câmaras de ar e pneus, quase sempre usados: “Aqui é um negocinho pequeno, só pra mim, têm muitos que são maiores. Vendem escapamentos, material para suspensão... A diferença entre a minha e essas outras é o caixa, o dinheiro. Estar na BR facilita, mas depende do ponto”. A placa que indica seu estabelecimento diz apenas “Borracharia” e traz uma seta apontando para a pequena oficina. Assim como ele, sem nome. “Graças a Deus, tenho o nome

O GIRO DOS PNEUS SE CONFUNDE COM O MOVIMENTO EVOLUTIVO: OS DOIS CADA VEZ MAIS VELOZES E DESGASTANTES


limpo. Mas a gente ouve tanta coisa que fica com medo”, conclui ao voltar para seu chimarrão.

Calendários e Sex Appeal Apesar da correria, houve momento para descontrair e sanar dúvidas do imaginário popular atribuído aos borracheiros. Do riso, inevitável para Juarez e Luiz, logo veio a negativa de um estereótipo do borracheiro: não há uma provocante modelo sequer em calendários nas paredes. Juarez garante que as marcas de pneus ainda produzem os impressos com fotos de mulheres nuas, mas a coisa mudou devido à alteração de tática publicitária dos donos dos recintos. Borracharias são agora um “ambiente familiar”. Quanto ao fetichismo em torno da categoria, garante que tanto ele quanto a rapaziada com quem trabalha não recebem propostas indecentes das clientes. No caso do Luiz, além de não constar qualquer garota sexy em versão impressa, vê-se um violão pendurado e, ao lado, uma sanfona! A metrópole exige discrição nessas paredes onde a música dá lugar à frenética sinfonia dos carros.

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omo nenhum de nós, repórteres, tem carro, a familiaridade com borracharias era quase nula. Assim, pudemos observar com olhos totalmente desprovidos de preconceitos esse tipo de estabelecimento. O problema foi o tempo. Do mesmo modo que os pneus rodam pela BR-116, os ponteiros dos nossos relógios pareciam não se sincronizar. Problemas com trabalho, estudos e até a forte gripe de um dos componentes do grupo tiveram que ser superados. Impressionou a forma tímida e até mesmo desconfiada com que fomos recebidos em algumas visitas. O estereótipo do borracheiro bonachão, com fotos de mulheres nuas nas paredes, ruiu ante nossos olhos. A fotógrafa Lisiane, única motorizada, teve uma curiosa relação com a pauta: calibrou os pneus de seu carro com nitrogênio na “Borraxaria”. Por fim, conseguimos cases que valem ouro, pois encontrar borracharias e, principalmente, profissionais que aceitassem falar com a reportagem foi mais difícil que o esperado! A BR-116, diferente do automóvel da Lisi, anda com pneus murchos.“

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PREPARADAS PARA ARRASAR NA PISTA, AS AMIGAS LUCIANA E VERA LÚCIA ESPERAM A FESTA COMEÇAR


ATÉ A MEIA-NOITE, ELAS NÃO PAGAM TEXTO DE GABRIELA DA SILVA E PATRÍCIA CARVALHO | FOTOS DE MAURÍCIO WOLF

S

exta-feira à noite é dia de casa cheia no clube de dança Gigante do Vale, às margens da BR-116, em São Leopoldo. Falta meia hora para a festa começar e os músicos fazem uma última passagem de som no palco secundário. A pista de madeira, marcada por sinais de bailados e rodopios, espera por novos passos. Do lado de fora, já há dezenas de pessoas na fila. Iluminadas pelos holofotes voltados para o nome da casa, as amigas Luciana Marcante, 29 anos, e Vera Lúcia Flores, 24, também esperam sua vez. Há poucas horas, as duas estavam cada uma em sua casa, em Portão, sem grandes planos para a noite. “Liguei pra ela e disse: bota uma roupa que eu estou subindo”, conta Vera. Depois de encontrar com um conhecido no caminho, as amigas acabaram indo para o Gigante do Vale. “Sempre ficamos sozinhas, viemos para curtir uma festa mesmo, beber, dançar”, conta Vera. Entusiasmada com a música que está por vir, ela já começa a cantar e ensaiar uns passos para arrasar na pista. Timidamente, Luciana apenas comenta: “O pessoal é bem festeiro por aqui”. O público começa a chegar aos poucos, entrando quase em coreografia, à procura daquilo que todos foram ali encontrar: diversão. E pode entrar todo mundo. O jeito de vestir e o tamanho da conta bancária é o que menos importa.

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Não há pré-requisito para entrar na festa do clube de dança Gigante do Vale, EM sÃO LEOPOLDO. basta querer diversão A NOITE INTEIRA

Alguns começam a se ajeitar às mesas, cadeiras e camarotes ao redor do salão. O centro fica para a penumbra que acoberta os casais dançarinos. Mal começou a música, e uma jovem loira de cabelos até a cintura já é conduzida com habilidade por seu par, deixando o restante do público só a assistir. O corredor lateral é iluminado por lâmpadas fluorescentes que indicam o caminho para a copa. É ali que os encontros cara a cara acontecem. Um grupo de amigas chega e uma a uma vão acendendo seus cigarros. São surpreendidas por um já empolgado dançarino, querendo um par para bailar. Diante da recusa das moças, e segue o compasso com sua companheira imaginária, sem perder o ritmo. Próximo ao palco, o estudante de Direito Mateus da Silva, 21 anos, de Novo Hamburgo, vai entrando no clima. Junto com os amigos e com o irmão, o estudante de Engenharia Química Cássio da Silva, de 17, Mateus já se sente em casa: “Conheço todo mundo. Aqui a festa é certa”. Com o gel bem aplicado no cabelo, para garantir os topetes armados até o fim da noite, os dois irmãos parecem ter combinado no modelito: camiseta colorida, calça jeans e tênis novinho. Visual caprichado.


è UM TROUXE O OUTRO, E AGORA OS IRMÃOS CÁSSIO E MATEUS SÃO PRESENÇAS CONFIRMADAS NAS FESTAS DE SEXTA-FEIRA

Afinal, segundo Mateus, a paquera pode rolar e é sempre bom causar uma ótima impressão.

Para ficar na história Um senhor de cabelos brancos bem penteados, camisa engomada e jeito manso de falar, espera por novos clientes sentado em uma das mesas à beira do salão. O funcionário público aposentado Henrique Sales Fagundes tem 74 anos, 32 deles trabalhando como fotógrafo do Gigante do Vale. Presença confirmada nas sextasfeiras, sábados e domingos, ele faz o retrato em um final de semana e entrega no seguinte. Todo o ma-

terial produzido com sua nova câmera digital é exposto em álbuns que carrega para lá e para cá. As imagens revelam casais, amigos e também festeiros solitários. Todos são só sorrisos. “É bom para o bolso e bom para a saúde”, comemora o morador de Porto Alegre. Por isso, pegar a estrada todos os finais de semana a caminho da festa não é problema nenhum, mesmo que o número de “modelos” tenha diminuído nos últimos anos, em função das câmeras no celular, considera Fagundes. Só quem não acha esse passatempo tão bom assim é a sua esposa, Idalva. O aposentado conta que ela não gosta muito do hobby que lhe rende uns extras. “Fazer o quê?”

O dono da festa

NALDO GARANTE QUE COLOCA EM PRIMEIRO LUGAR O ATENDIMENTO AO PÚBLICO

A festa no Gigante do Vale só começa com a autorização de Reginaldo Vitorino da Rosa ou Naldo, como é chamado carinhosa e respeitosamente pelos funcionários e frequentadores da casa noturna. Aos 55 anos, ele chega poucos minutos antes do baile começar e logo é cercado por seguranças. Antes de seguir para o escritório, Naldo ainda recebe o pedido de emprego de duas moças. Ambas gostariam de uma oportunidade para trabalhar na copa. O administrador pensa por alguns minutos, avalia a situação e, no seu estilo

boa praça, aceita que as meninas façam um teste naquela mesma noite. Em seguida, as duas já estão ajudando a ajeitar garrafas nos refrigeradores e limpando o balcão à espera do público. Há 23 anos, Naldo administra o clube de dança junto com o sogro, Dezidério Luiz Brusda, e o cunhado, Luiz Carlos Brusda. A posição de gerente veio a convite do pai de sua esposa, um dos fundadores do local. Seu escritório fica instalado em uma modesta sala aos fundos do salão, praticamente escondido atrás do palco principal. É dali, em meio a papéis e em frente a uma fotografia com a vista aérea do Gigante do Vale, devidamente emoldurada, que ele toma as decisões e faz os negócios necessários para o andamento do clube. Com os três no comando, a casa está sempre lotada, de sexta-feira a domingo. “Fazemos reformas para acompanhar o que o público gosta”, afirma Naldo. Diz que o trabalho de sua equipe e o desempenho das bandas que se apresentam contribuíram para que o local tenha chegado ao ponto que chegou. “Aqui vem desde o grupo Fama até o Tchê Barbaridade. Mas os que mais lotam são San Marino, Toque de Mágica e Passarela”, comenta Naldo. Como bom empresário, ele acredita que a fórmula para fidelização

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dos seus clientes é andar junto com eles, acompanhar suas modificações, seus gostos, comportamentos, ir se modernizando e atendendo a todos como merecem. Enquanto Naldo fica na retaguarda, atento à movimentação, a festa segue no clube, cada vez mais cheio. O público não para de chegar ao longo da madrugada, e a banda leva todos para o centro do salão. Alguns casais fazem da pista o seu palco. Com técnica, habilidade e coreografias que parecem ter sido ensaiadas em casa. Dão um show à parte. Mas não ter par e não saber dançar não significa estar de fora. Dança-se de qualquer jeito, vale mulher com mulher, amigo com amigo e até sozinho. Só não pode ficar parado. O importante mesmo é se deixar levar pela música e curtir a festa até o fim.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER

“D

ecidimos escrever sobre festas às margens da BR-116 e logo entramos em contato com as duas principais casas noturnas de São Leopoldo instaladas próximo à rodovia. A primeira nos disse não, mas a segunda aceitou e nos recebeu muito bem. Era sexta-feira, chegamos ao clube Gigante do Vale. Logo percebemos que o principal desafio que encararíamos ao preparar esta reportagem seria deixar os preconceitos de lado. Nem nós, repórteres, e nem o fotógrafo que nos acompanhou, conhecíamos o lugar. Tínhamos uma imagem pré-concebida do local, construída apenas em cima de comentários alheios. Algumas expectativas foram confirmadas e tantas outras derrubadas. Nos surpreendemos com pessoas completamente diferentes de nós. De certa forma, conhecemos um outro mundo, onde valores, sonhos, vidas são tão diferentes e tão iguais às nossas. A grande lição que tivemos ao escrever sobre um lugar que não conhecíamos foi a de que ser ‘filho da pauta’ é absolutamente sem graça. Se tivéssemos seguido exatamente aquilo que nos propomos logo no início do semestre, não teríamos encontrado os personagens fantásticos que encontramos e também não teríamos nos divertido, mesmo concentradas na coleta de informações, como nos divertimos.” HÁ 32 ANOS FAGUNDES REGISTRA OS MELHORES MOMENTOS DA FESTA


ACEITA UMa PICANHA?


A CHURRASCARIA SAPATÃO EXISTE HÁ MAIS DE 50 ANOS, MAS A ORIGEM DE SEU NOME É UM MISTÉRIO

TEXTO DE LUCIANO NUNES FOTOS DE BRUNO BITTENCOURT

M

al o carro estaciona e um homem já vai em direção aos clientes para recepcioná-los. Em dias de chuva, o rapaz utiliza um enorme guarda-sol para conduzir os frequentadores até um lugar coberto. Dali até a porta de entrada, são necessários apenas 20 passos. Percorrida a distância, os clientes encontram-se dentro da Churrascaria Sapatão. O restaurante existe há mais de 50 anos, sendo que há sete foi comprado por três novos sócios: Atacir Ferreira, Rosimeri Ongaratto e Amarildo Mello. Eles não sabem exatamente a origem do nome Sapatão, mas Amarildo acredita que o fato da região ser forte na indústria calçadista possa ter alguma relação. A churrascaria está localizada no quilômetro 234 da BR-116. Fica ao lado de um movimentado posto de gasolina, que possui loja de conveniência e até uma barbearia. Quando se entra na Sapatão, o espaço interno surpreende. Por fora não parece, mas o restaurante pode acomodar até 330 pessoas. Com volume baixo, uma música alegra o ambiente em alguns momentos. Pelas caixas de som, ouve-se desde temas tradicionalistas até musicas sertanejas. Em dias de semana, durante o almoço, as três televisões espalhadas pelo local ficam passando noticiários locais e esportivos. Existe uma divisão de lugares dentro da churrascaria, o que facilita o atendimento. De preferência, clientes que escolhem se servir somente do bufê se acomodam de um lado, enquanto os que escolhem espeto corrido sentam-se em outro lugar. Segundo o garçom Luciano Ongaratto, graças a esse estratagema, seus colegas não precisam ficar caminhando muito pelo salão e também diminui o risco de servir carnes frias. O almoço é servido diariamente a partir das 11h15min, porém o movimento começa mesmo pelo meio dia. O almoço segue até às 15h. De noite, a janta vai das 19h30min às 23h30min. Os garçons e demais funcionários preferem comer antes de servir a comida. “É melhor assim, senão a gente acaba servindo a carne de olho nos espetos e nos pratos dos clientes, com fome não dá para trabalhar”, diz Ongaratto. Todos os dias, os funcionários comem chur-


è

rasco. “Hoje fiz um franguinho para mim, é bom dar uma variada, mas não me importo em comer churrasco todos os dias.” Ongaratto é um dos garçons mais antigos da Sapatão. Está há seis anos na empresa. Ele responde pela área do bufê e se alegra quando a casa está lotada. “É muito bom poder interagir com as pessoas”, diz. O pai e a mãe de Ongaratto trabalhavam em uma churrascaria quando ele era pequeno. “A profissão está no meu sangue. Meu pai era assador e minha mãe servia, enquanto isso eu e meu irmão ficávamos dormindo no escritório”, lembra. Depois, seu pai comprou um restaurante, e ele e o irmão começaram a servir desde cedo. “Em duas oportunidades trabalhei em São Paulo, como garçom também. Voltei ao Rio Grande do Sul e tentei trabalhar com meu sogro em uma mercearia, mas não deu certo. Daí comecei aqui na Sapatão, onde estou até hoje.”

Ongaratto trabalha o dia inteiro na churrascaria, pois precisa juntar dinheiro para arrumar seu carro. Folga apenas às segundas-feiras, dia que a churrascaria não abre. O garçom gosta muito de conversar e fazer brincadeiras com os clientes. “Ainda ontem havia um corintiano aqui. Ele começou a pegar no meu pé por causa do Grêmio. Depois eu lembrei que eles não possuem nem mesmo um estádio próprio”, recorda, dando risada.

NOS Bastidores Nos bastidores, assim como durante o serviço, os garçons demonstram muito bom humor, entre eles e também com os clientes. Internamente, piadas, gozações e apelidos fazem parte do dia a dia. Uns revelam os apelidos dos outros. Luciano Ongaratto é conhecido como NH, pois, segundo os colegas, ele, assim como o jornal NH, sempre tem informações para dividir com os amigos. Só que as

dele, dizem, na maioria das vezes são irrelevantes. Ongaratto prefere se apresentar de outra maneira: “Pode colocar aí que estou solteiro, sou gremista e procuro uma namorada de 18 a 25 anos, de preferência morena, e, se não for abusar, que a mãe dela já esteja morta. Odeio a ideia de ter uma sogra”, brinca. Alexssandro da Silva Pinheiro também é um dos garçons mais antigos, mas não possui apelido, como Adriano Fecco. Adair Vieira é o Chocolote. Isaias dos Santos tem o apelido de Paulista. Eloir Jesus da Silva é o Mixaria. A lista continua com Eliseu Sampaio dos Santos, conhecido como Tatu; Joel Oliveiro, chamado de Mostarda; e Erasmo Isaias de Senna, conhecido como Ligeirinho. Os dois assadores são Milton Graf e Arsenio Renner. O apelido de Arsenio é muito engraçado, mas impublicável. O resultado de tanta irreverência por parte dos atendentes reflete-se

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O RESTAURANTE ACOMODA ATÉ 330 PESSOAS E OFERECE, ALÉM DA COMIDA, O BOM HUMOR DOS GARÇONS

diretamente nos clientes. Para a frequentadora Vera Lúcia da Silva, que trabalha perto do restaurante e vai na Sapatão diariamente há mais de cinco anos, o atendimento é fantástico. “Adoro a comida e o atendimento. Infelizmente não posso mais almoçar com toda a família em dias de semana, e o clima aqui, de uma certa maneira, acaba preenchendo este vazio para mim. O cardápio variado e o tempero único também ajudam na escolha da churrascaria”, elogia. Cabe a cada garçom, se necessário, salgar a carne e recolocá–la no fogo. O chão escorregadio, em frente da churrasqueira, já proporcionou cenas engraçadas. “Uma vez um garçom caiu na frente da churrasqueira. Eu não sabia o que fazer, se ria ou ajudava. O tombo foi bonito de ver. Daí fui ajudar e não é que eu acabei caindo também! Por sorte, ninguém se machucou e logo voltamos a trabalhar”, lembra Ongaratto.

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER

“M

uitas vezes, ao pararmos para comer em um lugar, pensamos na agilidade do atendimento. Raramente percebemos a importância do árduo trabalho de pessoas que se esforçam muito para oferecer, além de uma boa comida, um atendimento diferenciado. No dia em que observei a Churrascaria Sapatão, o empenho por parte dos garçons em servir bem os clientes era notório. Enquanto havia clientes dentro do salão, eles se esforçavam muito para satisfazê-los da melhor maneira. O entrosamento entre todos os setores do restaurante é fundamental. Presenciei o serviço deles por quase seis horas. Mesmo sendo um lugar sério, o clima muito descontraído entre os funcionários acaba ajudando no atendimento. Eu me senti muito a vontade no lugar, todos me trataram muito bem. Por estar com um fotógrafo durante um determinado tempo, era engraçado ver os garçons fazendo pose com espetos de carnes nas mãos. A experiência certamente foi muito válida, pois valeu para mostrar os bastidores de um grande restaurante.”


ATENÇÃO

aNDRÉ áVILA


ティ

De dentro da cab 76 | PRIMEIRA IMPRESSテグ | DEZEMBRO/2010


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Para quem atravessa O PAÍS acompanhado apenas por lembranças, a vida na estrada é muito mais que passagem – é construção


TEXTO DE Daniela Fanti e Lílian Stein | FOTOS DE RAMIRO FURQUIM

“Esse é o meu cantinho. É a minha casa.”

É

recomendável tirar os sapatos para entrar. O carpete vermelho mantém a mesma aparência de quando passou a revestir o espaço de 2,10m por 1,70m. Os bancos, de estofado preto confortável, transformam-se em cama tão logo seja preciso descansar durante mais uma travessia pela BR-116. À direita, dependurado no para-brisa, um apanhado de amuletos: fitas do Senhor do Bonfim, pés

de coelho, um escapulário. Crenças de quem vê a vida passar pelo asfalto. Ao centro, a foto de uma mulher de 28 anos, abraçada a uma menina de pouco mais de quatro, reacende o desejo e a espera pelo retorno. Tudo é diferente para quem sente a vida passar de dentro da cabine. O sol quente de um típico domingo de outono ilumina a carroceria do caminhão da empresa de transportes de Garibaldi. Perto das 13h, mala feita, chega a hora de partir. O “cebolão”, como é chamada a carreta específica para o transporte de cimento, está vazio, mas a ida até o Paraná vai garantir, já no dia se-

guinte, a volta com o veículo completamente carregado – mais de 31 toneladas da matéria-prima estarão sob responsabilidade do motorista. A previsão é pegar a BR-116 em Caxias do Sul, seguindo pelo caminho que leva a Vacaria, na divisa com Santa Catarina. A chegada a Curitiba ainda no domingo à noite assegura a volta para casa na segunda-feira. Ao longe, o horizonte escuro, prenúncio de forte temporal, não parece assustar: “Já passei por coisa muito pior.” É diferente a vida de quem vê a BR-116 de dentro da cabine. Luiz Aurélio Chesini dirigiu um caminhão pela primeira vez aos 16 anos.

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A curiosidade era aguçada pelo avô, que havia anos embarcava em longas viagens pelas estradas brasileiras. O neto, aos 18, logo depois de conquistar a licença para dirigir, começou a prestar serviços de entrega. A cabine que o leva a tantos lugares pelo Brasil é a mesma que guarda uma imensidão de histórias. As lembranças são capazes de transformar o semblante do motorista com a mesma rapidez com que o cenário vai mudando. Enquanto atravessa serra, campo e planície, tal qual um baú de histórias, ele relembra as diversas fases pelas quais passou durante os 20 anos dedicados à estrada.

ESTRADA SEM LIMITES Antes mesmo de qualquer pergunta, despeja algumas de suas piores lembranças: “Já estive em meio a tiroteio, soube de amigos que caíram em golpe de mães que usavam as filhas, prostitutas menores de idade, como isca para denunciar e prender caminhoneiros. Fiquei dias ilhado pela chuva, sem ter o que comer, precisei cumprir prazos que me obrigavam a colocar minha vida em risco.” Com a mulher e a filha recém-nascida, de apenas 20 dias, Luiz presenciou um assalto a um supermercado em uma favela de São Paulo. O carregamento de leite sob sua responsabilidade chegava ao destino no momento em que o estabelecimento era saqueado. “Nesses casos, a sensação de impotência é gigante. Simplesmente não havia o que fazer”, recorda. “Em muitas situações nós simplesmente não temos opção.” A frase serve como explicação para o restante do balaio de más recordações: Luiz presenciou a prisão de um conhecido que, em um posto de gasolina, foi abordado por uma mulher que oferecia a filha me-

POR INFLUÊNCIA DO AVÔ, CHESINI TORNOU-SE CAMINHONEIRO AOS 18 ANOS

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nor de idade para uma das práticas mais comuns na vida de muitos dos que passam meses em longas viagens. O sexo fácil e barato, dentro da cabine, também é atalho para detrás das grades, tal qual aconteceu com o amigo do caminhoneiro. “Ele caiu na conversa. Foi pego com a menina dentro do caminhão. Está preso até hoje.” Chesini não sabe o que as mães ganham com essa prática. Ter recorrido ao rebite também foi resultado da falta de opção. “Precisava fazer uma entrega no prazo”, justifica. As anfetaminas são uma constante na vida de quem trabalha com prazos bastante limitados. Estimulantes, se ingeridas com café garantem que o motorista dirija por horas a fio ignorando necessidades biológicas, como sono e fome. “Cheguei a dirigir 13 horas sem parar para ir ao banheiro e tomar água.” O uso do rebite não é a única prática ilegal à qual grande parte dos caminhoneiros se sujeita. Nos postos de gasolina em que costumam passar a noite, aproveitamse da pouca fiscalização para fazer uso explícito de drogas mais potentes. Luiz já perdeu a conta de quantas vezes traficantes bateram à sua porta para oferecer-lhe papelotes de cocaína: “Nem é preciso sair do veículo para cair na perdição”. Outra prática constante dos caminhoneiros nas noites solitárias na estrada é a parada em boates e casas noturnas, onde o consumo de drogas e bebidas alcoólicas é ainda maior. Depois das festas, seguem viagem alcoolizados, sob efeito de entorpecentes e, sem tempo para descansar, extrapolam na velocidade para não perder prazos e, consequentemente, o emprego. Luiz afirma estar longe dessa realidade, mas confidencia, em meio a um sorriso tímido, que nos anos em que permaneceu solteiro não conseguiu resistir à tentação. “Aí eu fiz de tudo”, confessa. Quem vê a vida passar de dentro da cabine é obrigado a aceitar as imposições do asfalto. Para Luiz, a primeira delas foi o fim do casamento.

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A namorada da época de escola, que havia se tornado esposa tão logo a gravidez foi descoberta, não aceitava a constante ausência do marido. Entre amor e profissão, Luiz optou pela segunda alternativa. “A gente sofre muito, mas sempre vale a pena”, diz. Relembrar os piores momentos de suas passagens pela estrada faz com que o caminhoneiro fale por diversas vezes em sofrimento. O tom melancólico, no entanto, transforma-se em risada ao avistar um caminhão vindo em sentido contrário. Enquanto o companheiro buzina e anda em ziguezague fazendo uma espécie de cumprimento, Luiz recorre a um aparelho de rádio que possibilita a comunicação entre motoristas a distâncias. “E aí, Risadinha? Vais para onde? Que tu faças ótima viagem, tudo de bom para ti!”. Ao encerrar a ligação, explica: “Sabe quando eu digo que vale a pena? É disso que estou falando.” Os laços criados no asfalto mostram-se realmente fortes. Os caminhoneiros adotam apelidos entre si e frequentemente seguem viagem juntos. As histórias de estrada, além de amizade, são marcadas também por outros fins e recomeços. “Foi por causa de uma mulher que conheci na beira do asfalto que decidi largar de novo a vida de solteiro. Me apaixonei pela neta do dono de uma lancheria. Um dia ela me convidou para ir a um baile, e acabamos ficando juntos”, relembra. “Hoje, temos uma filha. Sempre levo as duas comigo, em uma foto, na cabine do caminhão. Foram dois amores que a estrada me deu.” Luiz Aurélio Chesini simboliza apenas um dos milhares de caminhos traçados na BR-116. Sua trajetória é uma das tantas marcadas – e construídas – no asfalto da maior estrada pavimentada do Brasil. Para quem vive percorrendo curvas, retas, momentos e pessoas, cada quilômetro reacende uma lembrança e cada chegada é sinônimo de um novo porto seguro. Coisas de quem sente a vida de dentro da cabine.

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“Q

ueríamos uma pauta que nos colocasse diante de uma situação até então desconhecida. A escolha do tema “BR-116” impulsionou o desejo: decidimos partir em uma viagem de caminhão que nos permitisse conhecer um pouco mais da rotina de quem passa grande parte do tempo sobre o asfalto. No dia 17 de abril, perto das 13h, nos encontramos com o personagem principal da tarde. Luiz Aurélio Chesini estava na sede da empresa de transportes para a qual trabalha, em Garibaldi. Embarcamos rumo a uma viagem de pouco mais de três horas, no trecho entre Garibaldi e Vacaria – cerca de 200 km de BR-116. A dúvida quanto à possível timidez de Chesini – acostumado à solidão da cabine – caiu por terra tão logo pegamos a estrada. Parecíamos grandes amigos. Enquanto atravessávamos serra e campo, uma porção de histórias nos mostrava que, muito mais que perigos da estrada ou rotinas de caminhoneiro, nossa pauta nos havia colocado em frente a alguém que construiu a vida a partir de uma cabine de caminhão. Chesini mostrou para nós aquilo que, mesmo tão evidente, fica escondido por detrás do senso comum: a BR-116 vai muito além do calor do asfalto, do cinza clichê, do barulho dos carros. Ela é, antes de tudo, caminho de vida. É caminho de construção.


Easy Riders GAÚ Donos de um estilo highway, os Guardiões de Hades compartilham uma única e adrenalinada paixão: o asfalto TEXTO DE SIMONE NÚÑEZ REIS FOTOS DE GUILHERME BARCELOS


CHOS

“(...) a motocicleta entra nas curvas sem esforço, inclinando-se de modo que nosso peso exerça força sobre a máquina, seja qual for o ângulo da inclinação (...). Curvas e mais curvas e mais curvas fechadas, fazendo com que o mundo inteiro gire, dê piruetas, se eleve e caia em seguida (...)”

L

embro desse trecho do romance Zen e a arte de manutenção de motocicletas, escrito por Robert M. Pirsig, que narra, em estilo poético-literário, a ótica de um escritor-motociclista que percorreu a América do Norte levando seu filho na carona. Assim como Pirsig, que dividiu com o filho sua paixão pela velocidade sob duas rodas, no município de Esteio, o casal de motociclistas Pedro Oliveira dos Santos e Cléier Salete Cezarino Severo também dividia a mesma paixão e sonhava em criar um motoclube. Foi numa noite quente de março de 2004 que o sonho do casal recebeu apoio dos filhos e de mais cinco amigos motociclistas. Surgia então o Motoclube Guardiões de Hades. Inspirados em roads movies norte-americanos, como Easy Rider (1969), eles escolheram o nome do grupo, o estilo de roupa e o brasão. Por fim, um estatuto deu início ao motoclube. O encontro para criar o clube durou cerca de nove horas na Taverna de Hades — pub localizado em Esteio. Os integrantes só saíram de lá para procurar um desenhista profissional que criaria o logotipo para o uniforme do grupo. Mais tarde, os fundadores do Guardiões de Hades decidiram abrir sua própria sede nos fundos da residência de Pedro e Cléier, no bairro Santo Inácio, em Esteio. Em pouco tempo tornou-se um ponto muito visitado por aficionados por motociclismo. Quando entrei na sede dos Hades, parecia que eu estava ouvindo a trilha sonora Born to be wild, de Steppenwolf, principalmente quando visualizei um imenso painel da marca de motocicletas Harley Davison pendurado na parede. Jaquet & Mythology Escolhido para batizar o motoclube, o nome Hades homenageia o deus mitológico grego de segunda geração – em grego clássico, Άδης; em grego contemporâneo, Hádēs – que é uma espécie de guardião do mundo inferior dos mortos. Um croqui rascunhado transformou-se no brasão bordado nas jaquetas dos Hades, que elegeram três símbolos para compô-lo: um cérbero (cão trícefalo), posicionado sobre o segundo símbolo, um motor de dois cilindros em forma de “V”, envolvido por uma chama de fogo, que é o terceiro símbolo e representa a paixão pelas pistas. Atualmente o motoclube tem 18 integrantes, incluindo pilotos e caronas, com 11 motocicletas e é fi-


liado à Associação dos Motociclistas do Rio Grande do Sul (Amors), instituição que promove eventos voltados à conscientização e educação no trânsito. Esse é o caso da campanha “Zoeira, estou fora”, evento realizado em várias capitais brasileiras com o objetivo de reunir motociclistas para integração saudável e em clima de segurança das irmandades motociclísticas. O motoclube organiza ações solidárias como a realizada em 2009 no Hospital da Criança Santo Antônio em Porto Alegre, voltada a crianças portadoras de câncer. Na ocasião, os Hades passearam de moto levando pacientes com bom quadro clínico como caronas pelo pátio do hospital, depois de visitarem os leitos de quadros mais agudos. Numa segunda oportunidade, organizaram um galeto em prol do Asilo Esperança, de Sapucaia do Sul, onde arrecadaram a quantia de R$ 2 mil. Noutra ocasião, em parceria com o motoclube Tchucos, de Sapucaia do Sul, apoiaram uma ação natalina na Vila Palmira, arrecadando brinquedos e alimentos para crianças e adolescentes carentes. BR-116 afora Militar da reserva, Pedro destaca a importância do planejamento prévio antes de criar um roteiro de viagem. Frequentemente os Hades circulam pela BR-116, considerada um portal de belezas naturais a partir do município de Novo Hamburgo. Nos últimos cinco anos, os integrantes viajaram ao Rio de Janeiro, Santa Catarina, Uruguai e Argentina pilotando suas motocicletas, entrando em contato com vários motoclubes nacionais e internacionais e conhecendo inúmeros eventos motociclísticos. Um dos locais de encontro é a Tenda do Umbu, considerada o principal ponto mototurístico do Estado. A tenda fica localizada no quilômetro 203 da BR-116, no município de Picada Café. “É um point destinado aos motociclistas em fi-

nais de semana que existe há 46 anos. Ali pessoas de vários municípios, se reúnem para lanchar e trocar informações sobre o mesmo assunto: motos”, comenta Pedro. Segundo os Hades, mototurismo é uma das modalidades exercidas no motociclismo. Ela exige um certo grau de conhecimento sobre uso de navegadores GPS, roteiros, mapas, planejamento financeiro, pesquisa em sites especializados sobre mototurismo, manutenção do veículo, primeiros socorros na estrada e aplicativos móveis como os Google Maps e Google Street View, acessados através de smarthphones. Sobre o vestuário dos motociclistas, Pedro explica que são confeccionados em materiais como couro ou cordura — tecido com textura similar à lona — que, sob forma de calças e jaquetas, recebem reforços nas articulações e aplicações de fluorescências para visualização noturna. Pedro destaca que os motociclistas devem ficar atentos ao adquirir um capacete com a certificação do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro), que prevê durabilidade de até três anos. Quando estão vianjando, os Hades consomem alimentos energéticos como chocolates, barrinhas de cereais, água, chimarrão, que os deixam mais dispostos e atentos na estrada. Quanto aos cuidados com o corpo, não dispensam o uso de filtro, adesivos analgésicos para dores musculares e repelentes contra picadas de insetos que entram por baixo do capacete. O Hades Egon Marques recorda de um episódio em que um Hades foi atingido por um voo rasante de coruja em plena BR-116. “Foi tão forte o impacto do pássaro no capacete que poderia ter gerado um acidente”, recorda. Outro episódio aconteceu com o próprio Egon. “Um guaxinim se atravessou na frente da minha moto e eu tive de parar até o bicho atravessar a pista.”

Motoqueiros e Motociclistas Pedro, também conhecido com Amigão Hades, explica que a expressão “motoqueiro” é usada para mencionar maus pilotos que andam em altíssima velocidade, não usam capacete e conduzem o veículo sem habilitação ou com licença vencida. A participação em rachas e arruaças, prática de manobras arriscadas como aceleraço, zerinho, wheeling amador — provas de habilidade em que o piloto ergue a roda traseira —, tiros de escapamentos, cavalo-de-pau ou andar deitado sobre a moto (aviãozinho), são o que há de pior quando se trata do comportamento dos condutores. Por outro lado, a expressão motociclista designa o piloto que respeita o código de trânsito, a vida humana, a vida dos animais e o meio ambiente. Uma das competições mais importantes é o Iron Button. A tradução literal da expressão é “bunda de ferro”. A competição surgiu nos Estados Unidos e virou febre no Brasil, com motociclistas que percorrem 1.000

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MOTOCICLETAS OSTENTAM COM ORGULHO ADESIVO DOS GUARDIÕES DE HADES

PEGUE CARONA O motoclube gerencia duas comunidades na rede social Orkut, ambas lotadas de recados quando o assunto é modelos de motocicletas. Respondendo os internautas, os integrantes dos Guardiões de Hades dizem preferir as de estilo Custom, também conhecidas como Estradeiras Esportivas, ou Big Traillers, das marcas Kasinski, Suzuki, Yamaha e Honda, que chegam a atingir potências de 250 a 1.000 cilindradas. Interessados em contatar o motoclube podem fazê-lo através do e-mail guardioesdehades@pop.com.br ou pelos telefones (51) 8144- 8462 ou (51) 3459-4175.

milhas em 24 horas. Os Guardiões de Hades participaram da prova em 2010, sem atingir pontuação suficiente segundo as normas da Iron Butt Association (IBA). Tentaram percorrer seis estados pela BR-116, mas um acidente nas imediações da Rodovia Ayrton Senna impediu que continuassem. Cut Interview Ao desligar o gravador, recebo um convite para ir até o quilômetro 230 da BR-116 e lanchar na Tenda do Umbu. O local me surpreendeu, e naquele instante novamente recordei Pirsig:

“(...) Esta estrada continua descendo, coleante, através do desfiladeiro. O sol matinal matiza a paisagem ao nosso redor. A motocicleta zune, através do ar frio e dos pinheiros da montanha (...). Diminuímos a velocidade, fazemos a conversão e seguimos uma estrada de terra (...). Estacionamos a moto sob uma das árvores, desligamos o motor, fechamos a gasolina (...).”

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IMPRESSÕES DE REPÓRTER

“P

arecia tudo tranquilo durante os primeiros encontros da turma, quando sugerimos temas até elegermos a BR-116. Comecei a apurar uma deteminada pauta, não deu certo e acabei mudando. Encontrei uma colega motociclista integrante de um motoclube de Esteio. Ainda estava estressada e em dúvida sobre a pauta. Após devorar uma barrona de chocolate e trocar ideias com os professores, recebi a indicação da leitura de um romance de Robert M. Pirsig, um autor norte-americano, para que eu fosse entrando no clima da nova matéria. Isso foi decisivo. Acompanhada de uma colega da disciplina de fotografia, cheguei até o motoclube, onde fui hiperbem recebida. Na sede do Motoclube Guardiões de Hades, tudo deu certo. Após desligar o gravador, tive a certeza que poderia emitir um Ômmmm, aliviada. Minha primeira impressão aconteceu em meio a um tsunami chamado TPM, misturada com um pouco de azar. Foi uma Primeira Impressão literalmente kármica... Só me resta desejar Amém, Shalom, Saravá!”


À ESPERA DO TRABALHO PROFISSIONAL EM VIAS DE EXTINÇÃO, O CHAPA É CONTRATADO ÀS MARGENS DA RODOVIA PARA AUXILIAR O CAMINHONEIRO NA ENTREGA DA CARGA TEXTO DE DANIELA VILLAR E PAOLA MADEIRA FOTOS DE CECÍLIA MEDEIROS


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anhã fria com transito agitado, crianças tentando atravessar a BR-116 para chegarem até a escola, homens parados conversando entusiasmados ao lado do de um posto de gasolina. Esse é o cenário encontrado em diversos trechos dessa movimentada rodovia. Januário Oliveira, 54 anos, é um dos trabalhadores que se aventuram todos os dias em um dos trechos mais tumultuados da cidade de São Leopoldo. Casado e pai de oito filhos, conta que acordar às 5h da manhã não é mais novidade, já faz 20 anos que ele trabalha como chapa. Chapa é sinônimo de camarada, amigo, mano e, como neste caso, ajudante. São profissionais que auxiliam os caminhoneiros a se locomoverem em uma cidade des-

conhecida. E principalmente a carregar e descarregar a carga que o caminhão leva. Esses trabalhadores são facilmente identificáveis por quem interessa: os caminhoneiros. Placas escritas à mão com a palavra “chapa” são a porta de entrada para o motorista de caminhão pisar no freio. E como se estivesse em um supermercado, o caminhoneiro escolhe a sua mercadoria. Não se engane pensando que os mais jovens são a prioridade. Nessa profissão é preferível optar por homens que pareçam mais experientes do que moços fortes que podem se revelar ociosos durante o trabalho. Há quem diga que pode ser perigoso convidar um homem para entrar em seu caminhão, alguém que o motorista não conhece e que é forte. No entanto, isto não é


problema nem para os chapas, nem para os caminhoneiros. Juarez Maciel, 72 anos, conta que passou 40 anos como caminhoneiro e que nunca teve problemas com os chapas: “Eles estão ali para ajudar”, enfatiza. “É mais fácil o chapa entrar numa de pegar uma carga roubada para descarregar”, conta Januário, explicando os perigos que existem na profissão. Apenas um dos oito filhos de Januário optou por seguir a mesma profissão do pai. Marciário, de 18 anos, que já trabalha há três como chapa. Pai e filho têm clientes fixos. Hoje é mais fácil o caminhoneiro encontrar um bom chapa, pegar o numero de celular e, sempre que precisar do serviço naquele ponto do mapa, ligar antes e agendar. Januário é facilmente encontrado ao lado do Posto Ipiranga na divisa entre São Leopoldo e Novo Hamburgo. E assim como ele, é possível também encontrar, diariamente, pelo menos 10 chapas fixos neste local. Ele repara a hora “São 6h45min faltam 15 minutos para o horário combinado”. O encontro será com Machado, o cliente que virou amigo e, que sempre que tem carga na cidade liga e agenda com Januário o serviço. Dessa vez o chapa vai descarregar bobinas de ferro em Estância Velha, o valor pelo serviço é R$ 130. “Hoje ganho uns trocos a mais porque é pesado o negócio”, conta Januário. A diária de um chapa varia. João Francisco Lima, 59 anos, conta que na BR-116 uma saída custa R$80,00. Nesse valor, está incluído auxílio o motorista a chegar a seu destino e descarregar o caminhão. Se o que o caminhoneiro precisa é apenas um auxilio para chegar ao local, o custo cai para R$ 30. “Mas aí não vale a pena, a gente tem que voltar de ônibus”, explica João. Januário e Francisco aguardam um tanto quanto desanimados pelo futuro de sua profissão, afinal o trabalho como chapa está cada vez mais escasso. Percebe-se que esse serviço está perdendo o seu lugar para uma nova configuração nos modelos de prestação de movimentação de carga. Titulo que rendeu o nome para a profissão: movimentadores de carga. Hoje já existe uma regulamentação e o serviço é oferecido dentro de associações e cooperativas. Algumas, entretanto, um tanto duvidosas, é preciso ficar atento às promessas de 13º, indenizações e aposentadoria. Afinal, mesmo legalizado, este profissional estará atuando como autônomo, com a diferença de fazer parte de uma cooperativa ou associação. Ao se tornar sócio ou cooperativado, quem passa a agenciar a contratação é a cooperativa que cobrará um valor em cima do serviço prestado pelo movimentador de carga. Em uma cooperativa na cidade de São Leopoldo a diária do movimentador é de R$ 33, esse é o valor pago ao profissional, a vantagem encontra-se no fato de que, se a cooperativa fizer bem o seu trabalho, o movimentador estará contribuindo para o INSS e poderá garantir a sua aposentadoria. No entanto, a realidade afasta os chapas da legalidade. Não há como prover uma família com R$ 33 diários sabendo que é só andar algumas quadras, para aguardar os caminhoneiros que estão dispostos a pagar até R$ 130 por trabalho.

As associações e cooperativas possibilitaram a inserção de mulheres neste mercado de trabalho. Outrora era inimaginável uma mulher querendo trabalhar como chapa. No entanto, hoje, a empresa que precisa do movimentador de carga solicita diretamente à associação ou cooperativa que encaminhe a pessoa com o perfil desejado. As mulheres têm se mostrado tão capazes quanto os homens na hora de pegar no pesado e algumas empresas já preferem o trabalho das meninas ao dos rapazes. Contudo, será muito difícil ver uma mulher na beira da BR-116 procurando trabalho como chapa.

As inovações tecnológicas Um dos principais inimigos dos chapas é a tecnologia. Com a popularização do GPS (sistema de posicionamento global), os caminhoneiros passaram a utilizar o aparelho, reduzindo a necessidade de alguém que lhe mostre como chegar a determinado local. Outro fator que induz os chapas a crer que a profissão está em risco é o fato das empresas adotarem como forma de trabalho as empilhadeiras e os paletes. O palete é uma tábua de ma-

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ANÚNCIOS PINTADOS A MÃO OFERECEM MÃO-DE-OBRA PARA DESCARREGAR CAMINHÕES

deira, estrategicamente posicionada em baixo da carga. Assim a empilhadeira é encaixada nos paletes e não é preciso nenhum tipo de força humana para descarregar a mercadoria. “Eu acho que a profissão vai durar mais uns três, quatro anos” afirma João Francisco. Januário discorda. “Acho que só vai reduzir o trabalho.” O chapa é mais um representante do vasto mercado de trabalho informal que ainda existe no Brasil, um prestador de serviços, um freelancer. Não tem carteira assinada, não paga INSS, não tem direito a aposentadoria, e em caso de acidente, terá que ficar em casa, sem trabalhar e sem receber. È o risco que esses pais de família têm corrido dia após dia. Enfrentar o mercado clandestino de trabalho, não precisar declarar ganhos, não pagar aposentadoria. Tudo para ter um poucos reais a mais mensais. Os chapas vão continuar trabalhando em um ambiente fragilizado e perigoso, além de disputar espaço com as novas tecnologias. Entrar para o mercado legal de trabalho representaria um custo muito alto no orçamento desses profissionais que já possuem ganhos tão baixos.

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escolha da pauta foi influenciada por nossa infância. Somos duas estudantes de jornalismo que contaram com caminhoneiros dentro da família. Ver uma pessoa querida ir e vir durante toda a vida nos remetia a correr o mundo sem rumo. Um pouco de Jack Kerouac com uma forte pitada de responsabilidade. A ideia seria ver como se comportam aquelas pessoas que ajudam os caminhoneiros. Queríamos saber como se sustentavam os chapas e suas famílias. E se vale à pena madrugar e passar horas a fio na beira de uma estrada, esperando que alguém precise de ajuda. No dia em que fomos encontrar os “nossos chapas”, passamos frio e sentimos o gosto amargo do café ruim de beira de estrada. Não conseguimos acompanha-los em um dos seus trabalhos, nem conseguimos sentir o peso de puxar uma pilha de caixas de dentro de um caminhão. Como jornalistas, conseguimos captar a dura vida que eles levam e transparecer isso em um texto. No entanto, para nós, o mais importante foi enxergar a simplicidade na qual eles vivem e, vivenciar um pouco daquilo que sempre ouvíamos falar em nossa infância.“


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Tekoá Porã TEXTO DE SÍLVIA DALMAS E VANESSA RAMOS | FOTOS DE EDER ZUCOLOTTO

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alaios e cestas pendurados nas tendas próximas à BR116 nos sinalizam o caminho para o destino de nossa reportagem. A três quilômetros da rodovia, no quilômetro 335, encontramos uma escola, um pequeno posto de saúde e diversas moradias simples. Ao longo da estrada de chão batido, as crianças guaranis acenam alegres para os visitantes que entram em seu território, mesmo sem saber quem realmente são. Com apenas 27 anos, Arnildo Vera Moreira é o cacique da aldeia Tekoá Porá de Barra do Ribeiro. Em um primeiro contato, mostrou-se receoso em conceder a entrevista e, após uma rápida explicação sobre nosso trabalho, partimos dali, para que ele pudesse conversar com os índios mais velhos, os conselheiros da aldeia, e avaliar se era seguro ou não repassar informações. Após duas horas e meia, regressamos ao local: “Olhando nos olhos das pessoas, a gente já sabe se é do bem ou não”, diz o cacique, afirmando que iria colaborar com a equipe de reportagem. Depois de algumas apresentações para nos conhecermos melhor, Arnildo nos ofereceu um tronco de árvore na sombra para nos acomodarmos e ouvirmos a história da aldeia, enquanto os conselheiros apenas o observavam. Ali compreendemos que esse lado mais fechado é uma forma de proteção, já que cabe a ele a responsabilidade de zelar pelas 35 famílias que vivem na região, totalizando cerca de 200 pessoas.

O começo

Atualmente, 35 famílias vivem na aldeia localizada na cidade de Barra do Ribeiro. sua principal fonte de renda vem do artesanato COMERCIALIZADO NA BR PRIMEIRA IMPRESSÃO | JULHO/2011 | 91

Conviver durante 24 horas por dia com um trânsito intenso, barulhento e perigoso, sem água e saneamento básico, era a maior dificuldade das famílias indígenas que moravam próximas à BR. Depois de perder suas terras em questões judiciais e sem ter lugar para construir suas moradias, os guaranis não tiveram outra opção a não ser ficar no “espaço que sobrou”. Como se a vida já não estivesse bastante complicada dessa maneira,


O jovem cacique Arnildo conta a história da aldeia ao lado do experiente conselheiro artur

por volta do ano 2000, as famílias começaram a sofrer muita pressão para que se retirassem do local e fossem para o Amazonas. “O que o governo não entende é que a gente já era dessa região. Lugar de índio é em todo lugar, não só no Amazonas”, defende o cacique. Esses fatos foram os principais motivos que os levaram a se mudar dali. Foi a partir desse momento que os irmãos guaranis Artur, 48 anos, e Ricardo Souza, 43, começaram a batalhar por um espaço digno e de qualidade para poderem ter uma vida de paz e sossego, pensando na necessidade de todos. “O sonho”, como eles chamam, estava perto dali, em uma fazenda de 12 hectares, localizada em Barra do Ribeiro. Depois de várias negociações intermediadas pelo governo federal, o fazendeiro que ocupava as terras concordou em cedê-las para sete famílias, para que pudessem começar a construir um futuro melhor. Assim, em meados de 2001, a pequena comunidade começava a se formar. A aldeia faz jus ao nome com o qual foi batizada: Tekoá Porã, que na língua tupi significa “terra bonita”, é considerada um exemplo para as outras tribos. Segundo o cacique, o que contribui para isso é o fato de que eles mesmos escolheram o local, em vez

de serem obrigados a se alojar em qualquer pedaço de terra. A boa convivência que eles mantém com os brancos e outras aldeias próximas dali também ajuda para esse destaque. “Às vezes colocam índio em solo que não dá para produzir, aí não adianta, aqui a terra é boa porque foi nossa gente que escolheu, é um exemplo de aldeia e tem espaço para criar os filhos, pois construímos conforme a nossa ideia”, diz Arnildo. Estrada de chão batido e um amplo espaço para as crianças brincarem com cachorros, gatos e galinhas soltos pelo local. Esses são os sinais da tranquilidade que a tribo conquistou ao longo desses 11 anos. A casa que o fazendeiro ocupava tornou-se a escola da comunidade e marcou o início da nova vida que os indígenas passaram a ter. É lá que, aos cinco anos, as crianças aprendem a falar o português, para poder entender os dois mundos nos quais convivem. Dois professores índios ensinam as matérias de religião, educação física, artes e língua guarani, as demais são repassadas por um professor branco. Apesar de não exibirem a mesma vestimenta que os índios nativos, a calça jeans e os sapatos não escondem o orgulho e a vontade de preservar a cultura de seus antepassados. Por isso, os guaranis evitam ao

máximo fazer uso de artefatos modernos como celular e, até mesmo, energia elétrica. O principal sustento dos índios vem do artesanato e das plantações e, nesse ponto, a BR-116 ainda é fundamental na vida das famílias. Eles produzem seus objetos na aldeia e se deslocam até a beira da estrada, todos os dias, para vendê-los: “A caminhada até lá, se eu vou com calma, olhando a paisagem, demora mais ou menos uma hora”, calcula o líder. A rodovia, que antes era um local perigoso para morar, agora é fundamental para a renda da tribo, pois é graças a ela que conseguem vender seus produtos. “A estrada nunca traz coisas ruins, só depende de saber usá-la. Se não tivéssemos ela, teríamos que mendigar até o centro das cidades, como muitos índios fazem”, diz Arnildo. Há pouco tempo, a tribo construiu uma casa de artesanato na beira da BR, onde as famílias passarão a vender seus produtos em vez de comercializá-los nas tendas. Porém, eles aguardam a duplicação da rodovia para começar as atividades por lá. O preconceito que ainda existe contra os indígenas parte de quem não conhece a sua realidade e sua cultura: “Às vezes as pessoas pensam que índio que vende artesanato é vagabundo, mas nosso trabalho é esse, não é nosso papel trabalhar em fábrica, é conhecimento do índio trabalhar na agricultura e com artesanato, porque a gente não faz isso pensando em comprar carro, só faz pensando no alimento para os filhos”, argumenta Arnildo. Como eles nos explicam, aprender o português é necessidade, pois é a forma que encontram para poder lutar por seus direitos: “É muito importante conhecer a escrita, antes índio não sabia se defender no papel e foi assim que acabou ficando sem terra para viver e morando onde ninguém incomodaria. Antes se lutava contra escravidão, e agora a luta é por terra”. Apesar de terem vencido grandes batalhas, a tribo ainda enfrenta muitos problemas, como falta

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o recreio é também a hora das crianças se alimentarem

de atendimento e incentivo do governo. “Não é só dar as terras, tem muita coisa que poderiam fazer pela gente, e precisamos dessa ajuda. Se fosse como antigamente, a gente não precisaria de branco, mas, como é proibido caçar, temos que entrar nas leis deles, porque nosso jeito de viver muda conforme elas”, diz o cacique. Além da Funai e da Funasa, a maior atenção que os índios recebem vem das ONGs, que fornecem auxílios com as plantações e incentivos a diversos projetos. Mas a maior ajuda parte de dentro da comunidade, que compartilha os alimentos entre os moradores e realiza reuniões mensais para solucionar os problemas. “As pessoas só vem conversar com a gente quando precisam fazer trabalho, até mesmo os antropólogos muitas vezes nos veem como objeto de pesquisa, mas nós somos gente como eles também.”

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trabalho em uma redação de jornal é sempre uma luta diária contra o tempo. Tudo é para ontem e as informações para completar as matérias não chegam. Acostumados com essa rotina, nos programamos para ir até a aldeia indígena ainda pela manhã, para conseguirmos explorar o máximo de informações possíveis. Chegamos até a localidade e conversamos com o cacique, perguntando se poderia nos contar a história da aldeia e pedindo permissão para tirar fotos e entrevistar famílias. Tudo já planejado nas nossas cabeças e dentro do nosso tempo. Com poucas palavras, porém diretas, o cacique nos fez entender como realmente deveria fluir uma reportagem: ‘Sei que com branco a conversa é nas pressas, mas aqui a gente procura se conhecer e falar um pouco sobre nossa vida antes de passar informação’. Um diálogo com calma, conhecendo um pouco sobre a vida de cada um, foi fundamental para descobrirmos a essência da nossa reportagem, o que acabou mudando o foco dela também. A nós, que trabalhamos e estudamos comunicação, o cacique nos ensinou uma das maiores lições para nossa vida jornalística: aproveitar cada instante da conversa sem se importar com o relógio.”


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Um ambiente com diferentes opções, proporcionando prazer aos seus clientes, é a marca da Sauna CoqueteL

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Sexo na estrada COMO VIVEM AS MENINAS QUE TRABALHAM às margens da BR-116 TEXTO DE CLARISSA FIGUEIRÓ E SUÉLEN DAL’AGNOL FOTOS DE THAYNÁ CANDIDO

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oite de segunda-feira, 20h30min, pegamos o carro com uma amiga disposta a dirigir e a participar de uma romaria noturna. Percorremos a BR-116, em meio a becos, viadutos, passarelas, sinaleiras, paradas de ônibus e postos de gasolinas para encontrar prostitutas trabalhando. Primeiro viaduto, escuridão, duas garotas e um susto, uma delas jogou-se contra o carro. Estávamos andando lentamente e prosseguimos, a menina estava exaltada e fora de si, mas não foi dessa vez. Próxima parada, posto de gasolina. Indicaram-nos uma moça loira que faz ponto na Estação Rodoviária de Canoas, situada às margens da BR-116, esquina com a Rua Sete Povos. Pegamos o carro e, quando passamos pela rodoviária, a loira surgiu. Imediatamente, descemos e pedimos para conversar alguns minutos com ela. Até então ela achava que seria um programa, mas, no momento em que falamos se ela aceitaria participar de uma reportagem, instantaneamente recebemos como resposta um não. Ao voltar para o carro, fomos chamadas pela mulher e surpreendidas. Sem notarmos, tínhamos lhe chamado de “senhora”, e ela nos corrigiu: “Só vou falar uma coisa para vocês, gurias, se continuarem chamando as meninas de ‘senhoras’, não vão conseguir nada”. Pedimos desculpas e conseguimos contornar a situação, e, para nosso espanto, ela começou a conversar conosco. Maria* é loira, cabelos longos, olhos azuis, lábios pequenos, com alguns dentes faltando, seios fartos e extremamente carismática. Dizendo ter mais de 40 anos e menos de 50, não quis nos revelar a idade exata. Vestese como uma menina, calça e casaco de suplex e chinelos de dedo. Ela faz ponto no mesmo local há 12 anos, diz que não é apenas pelo dinheiro e, sim, também por gostar de fazer sexo. Não a encontramos mais cedo porque ela trabalha das 22h às 3h da manhã, todos os dias. O valor cobrado por programa é R$ 40. “Sem negar nada ao cliente”, completa Maria. O público que lhe procura varia, desde pessoas novas e solteiras a homens velhos e casados. Não escolhe os clientes, todos são bem atendidos, sua única restrição é não atender casais. “As pessoas que me buscam querem algo diferente, porque feijão com arroz todos os dias enjoa.’’ Na hora do programa, ela não se preocupa com o horário e sim com o carinho e atenção aos clientes, porque, segundo ela, qualquer atividade que é desempenhada com pressa nunca sai bem feita. Maria foi casada e engravidou de seu marido, porém preferiu criar o filho apenas com a ajuda de seus pais. Hoje o menino tem 16 anos e já sabe sobre a profissão da mãe. Ela sempre morou em Novo Hamburgo na casa dos pais, mas, devido a alguns conflitos com o pai, saiu de casa durante três anos, deixando o filho com os avós. Acabou voltando, pois seus pais possuem muitos problemas de saúde e é ela quem os ajuda financeiramente. Já trabalhou em eventos e como telefonista e vendedora. Acabou optando pela atual profissão porque estava desempregada e com o filho pequeno para criar. Não pensa em largar a prostituição, mesmo já tendo sido as-

saltada e espancada. Devido a esse assalto e à agressão, ela precisou realizar uma cirurgia, ficou três meses em recuperação e passou a ter a impressão de que estava sendo perseguida, mas voltou a trabalhar. Estar na BR-116 pode parecer favorável devido ao grande fluxo de pessoas e carros. Maria diz que o ponto é bom, todos os dias tem clientes, mas que a BR não influencia no movimento. Conhecida pelos vizinhos e pessoas que passam, ela acredita que não incomoda ninguém.

Da rua para as suítes Maria optou por trabalhar às margens da estrada, mas, outra alternativa são as casas noturnas. No decorrer da rodovia, as pessoas passam por diversas boates, uma delas é a Sauna Coquetel, que, por estar localizada na BR-116, em Canoas, recebe muitos clientes de outras cidades e pessoas que passam e acabam parando para conhecer. A casa noturna funciona há 38 anos no mesmo local. Sua infraestrutura é composta por três suítes, sete quartos simples, piscina, sauna a vapor, banheiros, bar e danceteria. Atualmente, conta com 70 garotas, com idades acima de 18 anos. A entrada custa R$ 10, e o cliente ganha uma cerveja. De acordo com Rafael Nunes Feijó, filho do dono e responsável pelo local, o público varia de milionários com carros importados a pessoas que economizam o mês inteiro para ir ali. As garotas podem trabalhar fora da casa, nesse caso a boate não ganha nada pelo programa. As formas pelas quais a Sauna recebe Coquetel são pelo quarto utilizado

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o escolhermos a pauta, sabíamos que seria um assunto delicado para se tratar. A procura por casas noturnas localizadas na BR-116 começou através da internet, pois não conhecíamos a região. Buscamos indicações e pesquisamos em mapas e blogs, os contatos, porém não obtivemos nenhum sucesso. Então, o desespero prevaleceu. “O que vamos fazer? Desistir da pauta? Não!” Partimos para a rodovia aflitas, por não sabermos o que estava nos esperando, afinal eram lugares desconhecidos e pessoas estranhas, tudo poderia acontecer. Conhecemos dois lados diferentes, a vida de uma pessoa que faz programas nas ruas e a de garotas que tem o local de trabalho pré estabelecido. Entretanto, ambas estão na profissão por apenas um motivo: o dinheiro. Contudo, entrevistá-las nos mostrou que as garotas são mulheres como nós, que trabalham, precisam de dinheiro, tem seus sonhos e acreditam em um futuro melhor. Conhecemos uma realidade diferente da que imaginávamos, além de nos fazer refletir sobre a nossa própria vida.”

(R$ 30 a cada 30 minutos), pela sauna (R$ 20 por garota dentro do lugar), pela piscina (R$ 15 por garota), pela entrada e pela bebida. Entretanto, dentro da piscina não ocorre programa e, se na sauna houver, o cliente deve pagar o valor correspondente para a garota. Conversamos na boate com Letícia*. Com 27 anos, há seis ela trabalha na noite. Loira, cabelos curtos, alta, pernas grossas, piercing no umbigo e no nariz, fumante, não bebe cerveja e está na noite pelo dinheiro. Odeia bêbados. Sua preferência é por homens mais velhos. Natural de Porto Alegre, hoje reside no centro de Canoas com a irmã. Seus pais não sabem, porém desconfiam de sua profissão. A irmã que mora com ela já foi prostituta, e Letícia convenceu-a sair da vida noturna, mas, oito meses depois, ela própria foi quem ingressou. Estudava e trabalhava, largou tudo a partir do momento em que descobriu que poderia ganhar mais dinheiro em pouco tempo. A Sauna Coquetel não foi a única boate em que fez programas, já esteve na Carmen’s Club e no La Barca na cidade de Porto Alegre, além de casas noturnas de cidades do interior do Rio Grande Sul. Letícia é homossexual, e sua namorada também é garota de programa. No entanto, conta ela que a partir do momento em que entra para a boate esquece da vida privada. Um programa de 30 minutos com ela custa R$ 100, mais R$ 30 pelo quarto ou R$ 50 pela suíte. Esse valor não dá direito a tudo. Caso o cliente queira outro serviço, além do sexo, o preço vai aumentando. O valor arrecadado em

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uma noite de programa varia de R$ 400 a R$ 1.200. Embora a quantidade de dinheiro seja alta, até o momento ela não adquiriu nenhum bem material. Existem colegas de trabalho que possuem apartamentos e carros. “Para uma menina obter algo com a grana é preciso ter a cabeça boa”, diz. Letícia já usou drogas todos os dias da semana, mas hoje ela consegue se controlar. Diz que a única maneira de aguentar os clientes chatos é estando “louca” e não apenas bêbada. Brigas entre as garotas não há, mas muitas já foram agredidas. A boate não interfere caso algo aconteça, cada uma tem de ter o domínio da situação. Letícia, quando esteve afastada da Sauna Coquetel, foi morar e trabalhar em Bento Gonçalves e, por não querer transar com o filho de um cliente, este acabou rasgando sua roupa na frente de todos, virando-lhe bebida e, por fim, lhe dando um tapa no rosto. “Homem que bate pode esquecer, mas mulher que apanha nunca esquece”, diz ela. Letícia conclui que, com a vida na noite, adquiriu conhecimento, experiência e dinheiro. Também acredita que é impossível gostar de vender o corpo, ela e as outras estão trabalhando dessa forma porque há um motivo. Maria e Letícia, duas mulheres que vivem do dinheiro que a prostituição possibilita. Fazem das ruas ou da boate seu local de trabalho. São felizes? Quem sabe... Entretanto, apesar das diferenças, vivem a mesma realidade, o mundo da prostituição na BR-116. * Nomes fictícios para preservar a identidade das fontes.


UMA TENDA DE


HISTÓRIAS Comércio de produtos coloniais, na beira da rodovia, é alternativa de sustento para a Família Weber TEXTO DE RAFAELA KLEY E STÉFANIE TELLES FOTOS DE BRUNO BITTENCOURT

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m um pequeno espaço na lateral do quilômetro 215 da BR-116, em Morro Reuter, uma simples casa de madeira foi construída há três anos. Nesse lugar, encontram-se histórias de um casal de descendência alemã que, junto com seus três filhos, busca na beira da estrada o sustento diário através do comércio de produtos coloniais. Mãe, esposa e responsável por administrar a tenda, Milita Weber, sempre quis ter sua própria lanchonete, mas viu seu objetivo se distanciar ao ficar desempregada. Para recomeçar a busca pelos seus sonhos, contou com a ajuda do cunhado, Fernando Weber, que incentivou e financiou a abertura do comércio. Era preciso, entretanto, encontrar um local próximo da casa da família para a construção do estabelecimento. “Fomos conversar com a dona do terreno para alugar o espaço, mas ela nos disse que não seria preciso pagar. Ela é uma senhora de mais idade, está sempre na janela nos observando e diz ficar feliz quando vê os carros parando aqui”, revela Milita, que trabalha desde os oito anos. Com a ideia formulada e o terreno acertado, restava apenas iniciar a construção da tenda. “Meu cunhado fez tudo, comprou o material, pagou e a construiu junto com meu marido e alguns parentes. Foi ele quem comprou as primeiras mercadorias e ainda me deu R$ 130 para começar”, conta. Pães, compotas e geleias, produzidos a dez mãos pela família Weber, de segunda a


AO FICAR DESEMPREGADA, MILITA TEVE A OPORTUNIDADE DE ABRIR O SEU PRÓPRIO NEGÓCIO. NO DIA A DIA, ELA CONTA COM A AJUDA DA FAMÍLIA

segunda, dão o colorido de boas-vindas aos clientes. “Pão, eu faço todos os dias de manhã cedo e os outros produtos geralmente produzimos à noite, dia sim, dia não”, explica. Com 31 anos, Milita nunca fez aulas de culinária, tampouco aprendeu truques com suas avós. A vendedora aprendeu tudo o que sabe sozinha. “Fui inventando, me virando. Com o tempo, aprendi alguns truques, testando dicas das clientes”, conta. Além do que é produzido pela família, o local oferece frutas e verduras, vinhos, cachaças, queijos, linguiças, mel, bolos e biscoitos, expostos de maneira organizada e atrativa. A maioria dos produtos é da própria região, comprados na Feira do Colono do município. Durante algum tempo, Milita produziu suas próprias frutas e verduras, mas hoje consegue encontrar tempo apenas para cultivar caqui e chuchu em seu quintal. “A gente já plantou muita coisa, mas não conseguimos dar conta. Por um tempo também fiz rapaduras e amendoins para vender. Tenho muitas ideias, mas não tenho tempo para colocá-las em prática”, comenta. Dia após dia, a família luta e conta com a sorte para conquistar o seu sustento financeiro. “É um jogo diário. Estou investindo muito nos doces e geleias. Quando percebo que vou perder alguma fruta, faço doce. O problema é que preciso comprar os vidros, as tampas e o açúcar, que está com o preço lá em cima”. O melhor dia de vendas tem sido os domingos, mas muitas vezes a tenda fica sem capital de giro. “Teve dias que eu vim com R$ 20 trabalhar. Se alguém me desse uma nota de R$ 50 não teria como dar o troco”, desabafa. O fluxo de carros, caminhões e motos na BR-116 foi aos poucos se tornando dependência e distração para Milita,

que abre a tenda às 11h nos dias de semana, chegando mais cedo aos sábados e domingos, e fechando sempre ao anoitecer, quando recolhe todos os produtos para levá-los de volta para casa. “Nosso maior problema é não ter água e luz, o que nos impede de armazenar os produtos, trabalhar até mais tarde, cozinhar ou fazer sucos naturais aqui”, explica. Além dos desafios financeiros, a família ainda precisa estar atenta com os clientes que visitam a tenda pela primeira vez. Milita conta que já foi vítima do golpe da nota falsa e do cheque sem fundo e, por isso, mantém na fachada de estrutura rústica uma placa sinalizando: “Não aceitamos cheques”. “Quando o cliente chega pegando várias coisas sem pedir o preço, a gente começa a desconfiar”, conta. A família também já teve produtos roubados. “Uma vez parou um ônibus de turismo, e uma turma de senhoras entrou da tenda. Não consegui acompanhar o movimento e me roubaram. Você vai confiar em quem? Não tive lucro algum naquele dia”, recorda. A vendedora também precisa lidar diariamente com gritos e buzinaços. “Tem que ter jogo de cintura. Entra num ouvido e sai no outro, mas como não fico sozinha, nunca aconteceu nada”, revela. Mesmo com o barulho do trânsito que muitas vezes impossibilita uma simples conversa na tenda, Milita ouve músicas pelo celular e lê a Bíblia para passar o tempo. “Sou católica, mas por causa do trabalho não consigo participar das missas. Rezo todo dia aqui, não falho nunca”, explica. Além disso, Milita brinca com seus três filhos nos momentos de tranquilidade nas vendas. Carlos Alexandre, Carla Suelen e Lucas Mateus, de 14, 12 e 11 anos, respectivamente, frutos de 15 anos de casamento com o pintor

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Carlos Roberto Weber, auxiliam seus pais no comércio no contra turno da escola. “As crianças ajudam a organizar uma ou outra coisa, mas estão aqui mais para me fazer companhia e não ficarem sozinhas em casa”, conta. Diferente dos filhos, que contam com todo o apoio e incentivo dos pais para estudar, a comerciante não teve a mesma sorte. “A gente era muito pobre, muito mesmo, e no interior não tinha escola perto. Estudei só até a segunda série”, relembra emocionada. Milita conta que seus pais não tinham emprego fixo, a mãe era dona de casa e o pai fazia bicos como segurança. A falta de estabilidade financeira induziu a família a mudar de cidade inúmeras vezes, impossibilitando que ela e alguns dos dez irmãos prosseguissem com os estudos. Natural de Três Passos, Milita tinha oito anos quando seus pais se separaram. Com o término do casamento, sua mãe fugiu para Boa Saúde, levando Milita e outra filha. “Um dia fomos visitar o pai e ele não deixou mais a gente voltar. Passávamos fome e, como ele tinha mais condições, nos convenceu a ficar com ele.” Hoje, o pai de Milita mora em Portão, e a mãe, no interior de Canoas. Desde que abriu a tenda, Milita não possui mais tempo para visitá-los, pouco tempo resta também para os oito irmãos ainda vivos. “Teve apenas um Natal que eu fechei a tenda para passar o dia 24 com meu pai e o dia 25 com minha mãe”, conta. O quilômetro 215 da BR-116 é para muitos apenas parte de um percurso diário, mas para a família de Milita representa a doação de boa parte de seu tempo na esperança de dias melhores. As histórias tornam este lugar um “Encanto da Serra”, fazendo jus ao nome que Milita escolheu para denominar a tenda quando seu sonho de reformá-la tornar-se realidade.

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sábado destinado a percorrer a Rota Romântica em busca de fontes nos presenteou com um forte temporal, mas nada que desanimasse. No malabarismo de lidar com a chuva, o vento e o frio, encontramos uma pequena casinha de madeira que abrigava toda uma família. Ao parar o carro, guarda-chuvas foram prontamente abertos para nos receber. Foi o que bastou para sabermos que tínhamos encontrado o que tanto procurávamos. Alguns dias depois, em uma visita marcada, subimos a serra e fomos de encontro com a família Weber. Com bloco de notas, cadeiras de praia, gravadores e muitas expectativas, fomos recebidas carinhosamente com um bom chimarrão. Horas voaram como se fossem segundos. Este espaço é pequeno para descrever tudo que esta pauta nos fez sentir e vivenciar. Cabe-nos, sobretudo, agradecer à família por toda a receptividade, pelo carinho e pelas confidências. Impressões que ficarão marcadas, para sempre, em nossas histórias.”


O BARULHO ATRAVESSA AS PAREDES DO PRÉDIO 4449, EM FRENTE AO VIADUTO, EM CANOAS

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quintal de casa TEXTO DE ALESSANDRO OLIVEIRA E CAROLINA KAZUE | FOTOS DE KENIA FERRAZ

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ruído dos veículos ecoa no corredor de azulejos desbotados e impregnados de sujeira. As marcas de fuligem nas paredes evidenciam os anos seguidos de incessante fluxo de veículos. Ao subir as escadas antigas do prédio sem nome de nº 4449, localizado na cidade de Canoas em frente ao viaduto da Avenida Getúlio Vargas, o síndico e morador Paulo César Nix, 42 anos, fala sobre como é viver ali, na encruzilhada de um viaduto com a BR-116. Durante o trajeto até o segundo andar, onde mora com a família, mal era possível ouvir sua voz. Quando ele abre a porta do seu apartamento, o silêncio é interrompido apenas pelo som da televisão que prende a atenção de sua esposa e de dois de seus quatro filhos. Há 15 anos, a família Nix saiu do sossego do Interior, na cidade de Santa Rosa, em busca de

oportunidades de trabalho na região metropolitana de Porto Alegre, e já faz 12 anos que reside no prédio. Na casa de Paulo não há sons da rua, buzinas, motores de carro, nem a conversa dos pedestres. Na aconchegante sala de estar, que fica ao lado da sacada, em frente ao viaduto, se escuta apenas o barulho da TV. Porém, quando se abre a porta da sacada, a sensação é de estar no meio do congestionamento. Segundo Nix, a solução encontrada para obter uma vida mais silenciosa foi mudar do apartamento nº17, no quarto andar, atualmente ocupado por seu sobrinho, para o de nº 11, localizado no segundo andar, que recebe a proteção sonora do viaduto. “Como o viaduto fica bem na frente da minha casa, o som dos carros é bloqueado”, explica. Para ele, o único empecilho é ter que manter as janelas e portas que ficam na frente da

BR-116 fechados o dia inteiro. Se o barulho dos carros não entra no lar da família Nix, a poluição não dá trégua. O ar carregado de fumaça não pode ser evitado com janelas e portas fechadas. Paulo conta que a fuligem nunca deixa as roupas recém-lavadas continuarem limpas por muito tempo e é preciso constantemente limpar os móveis e o chão. Outra possibilidade é abrir as janelas para os fundos e arejar a casa da fuligem, que impregna os móveis, as roupas e, principalmente, os pulmões.

volume máximo No próximo andar, outra moradora, Janaína Velado, 28 anos, fecha a porta do seu apartamento. Quando ela para, acende um cigarro e atenciosamente começa a contar um pouco sobre sua vida no prédio nº 4449. Ela mora com o marido Fabio Santos e as filhas Maria e Gabriela, de dois e quatro

DA SACADA DE SEU APARTAMENTO, PAULO CÉSAR NIX TEM UMA VISÃO COMPLETA DO VIADUTO

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anos, respectivamente. Contrastando com a família Nix, que vive há mais de uma década no prédio, eles se mudaram há um mês para o local e ainda não tiveram tempo de se acostumar. A casa parece recém-ocupada e ainda se percebem os restos da confusão que uma mudança traz. O apartamento do casal não fica em frente à rodovia, mas nos fundos do prédio, bastante próximo a um posto de gasolina, o que literalmente tira o sono da família. “É um horror, muito barulho. É impossível dormir bem”, conta Janaína. Segundo ela, os motoristas passam horas bebendo, com os rádios em volume máximo, além de haver muita briga e gritaria. O casal, que vive junto há cinco anos, também veio do interior em busca de trabalho. Deixaram Pelotas em 2006 e foram morar na Vila Maria, em São Leopoldo, de onde saíram devido ao alto valor do aluguel para morar no centro da cidade de Canoas. Desde então, a família vive no seu atual endereço, alugado da cunhada de Fabio, com a intenção de ficar temporariamente. Durante o dia, o volume da televisão é extremamente alto para abafar o barulho vindo da rua, mas a família nem percebe mais. Fabio fez uma cirurgia recentemente e por isso fica mais tempo em casa do que Janaína. Ele conta que tem a impressão de que no último mês sua audição piorou, o que é improvável, já que, apesar do incômodo, o som não parece chegar a níveis insalubres. Ele já deve ter se acostumado com mais decibéis do que a maioria das pessoas para conseguir amenizar o barulho do trânsito. Indiferentes ao incômodo dos pais, as filhas dormem sossegadas entre plimplins, vruuuns e beepbeeps. Apesar de não ter a fachada do seu apartamento de frente para a rodovia, a família sente também os grandes transtornos causados pela poluição do ar e a fumaça dos carros. Segundo Janaína, toda vez que sai de casa com as filhas, as roupas precisam ser lavadas devido ao cheiro ruim que fica impregnado. Por outro lado, dentro da casa, eles não sentem nada fora do normal. “Aqui não vem muita fumaça. Acho que fica mais na parte da frente do prédio”, conta Janaína. Morar na beira de uma estrada movimentada tem ou-

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tras peculiaridades. A segurança e a mobilidade são pontos delicados no cotidiano das famílias, especialmente para os pequenos. Paulo Nix conta que as crianças precisam sair sempre acompanhadas, mas a principal preocupação é o trânsito, e não a criminalidade. A falta de áreas de lazer, o tráfego intenso e a estrutura precária para pedestre põem em alerta o instinto protetor dos pais. O mesmo acontece com Janaína e Fabio. Eles contam que a dificuldade para se locomover é imensa, especialmente com os filhos. “É horrível atravessar a estrada com as crianças, porque não tem faixa de segurança nem sinaleira. Precisa fazer uma volta imensa para atravessar com segurança”, diz Janaína. A sensação é justamente essa: como se o mundo fosse dividido em dois pela BR-116 e atravessar a fronteira, uma aventura heroica.

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aímos de Porto Alegre decididos em relação ao prédio no qual entrevistaríamos famílias que moram em frente a BR-116. Chegando ao local, percebemos uma das dificuldades que essas pessoas enfrentam. Não conseguimos fazer com que nenhum dos moradores nos ouvisse, porque além de não haver interfone, era inútil bater na barulhenta porta de metal entre os corredores do prédio e a calçada, pois cada tentativa era abafada pelos carros que passavam ao lado da estreita calçada. Decidimos tentar outro lugar, mas mesmo com muitos prédios, encontrar alguém disposto a atender desconhecidos foi uma tarefa árdua. Após algumas tentativas frustradas, encontramos um casal entrando no prédio que tínhamos escolhidos inicialmente, em frente ao viaduto, e de imediato saímos correndo para então começar a entrevista. Os avistamos há menos de 10 metros de distância, mas não importava o quanto gritássemos, o coro dos motores superou nossas vozes. Corremos e batemos na porta com força. Alguns instantes depois, o casal deu meia volta e fomos convidados a entrar. “


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um lar em qual

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quer lugar

TEXTO DE DÉBORA SILVA E SINDY LONGO FOTOS DE JULIO BONORINO E ANA LUÍZA TRINDADE

família encontra EM um local público a solução para a falta de ABRIGO PRIMEIRA IMPRESSÃO | DEZEMBRO/2010 | 107


Família que mora embaixo da ponte conta um pouco sobre sua realidade

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ocê passa por várias pontes no seu dia a dia e por várias pessoas que fazem desses locais o seu lar. Mas você já se perguntou como essas pessoas foram parar lá? O artigo XXV da Declaração Universal dos Direitos Humanos diz que “Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle”. Porém, na prática, o que ocorre é totalmente o oposto. José Leonir Pires, casado há 14 anos, 10 filhos, é um desses personagens anônimos que passam por nossos olhos despercebidos. Há nove anos, ele e sua família moravam em Canoas, de aluguel, no bairro Mathias Velho. “Não conseguimos mais pagar o aluguel, daí o dono nos botou para fora”, afirma. Desde então, mora debaixo da ponte que liga Esteio a Canoas, entre a BR-116 e a Avenida Guilherme Schell. O acesso à morada é por meio de uma escada esculpida na terra e por uma espécie de pórtico, feito de plantas verdes. O local simples revela-se muito limpo e organizado. A família usa um tanque elétrico para lavar suas roupas, com energia procedente de fiações próximas. Depois de lavadas, as roupas são estendidas em um varal improvisado com arame e madeira. Cada um ajuda no que pode para melhorar o convívio e a vida complicada.

Leonir luta diariamente para que suas filhas tenham a oportunidade de estudar e alcancem um futuro melhor. Para isso, além do trabalho de reciclagem, José bate de casa em casa oferecendo pequenos serviços como corte de grama, pintura e capina. Seu turno de trabalho, das 22h às 5h, é longo e cansativo, pois percorre a cidade de Esteio em busca de materiais para reciclagem. O que consegue recolhe, leva para três postos de coleta, conforme o tipo de material. Para complementar o sustento da família, eles mantêm uma horta, onde plantam limão, moranga, abacate e tomate, entre outros. “O solo aqui é muito fértil e fácil de cultivar sementes”, afirma Leonir. De “bicos” aqui e ali, o morador do viaduto batalha para ganhar seu pão. Emocionado e com lágrimas nos olhos, ele conta que teve de largar a escola na terceira série, pois perdeu o pai quando tinha apenas nove anos, tendo que começar a trabalhar para ajudar a mãe a criar os irmãos. Hoje, incentiva suas filhas a não desistir de estudar, apesar de estarem atrasadas em relação às crianças da sua idade. “Boa educação é conversa. Nunca bati em nenhum filho, nem nunca precisei levantar a mão para nenhum deles”, diz Leonir. Sua esposa, Sandra Mara Bampé Rodrigues, também acredita que bater não seja a garantia de uma criação exemplar. Ela, que disse ter apanhado muito quando criança, observa que isso não preveniu que errasse e nem fez com que crescesse na vida.

AS CRIANÇAS DE JOSÉ, MEIO TÍMIDAS, MOSTRAM SEU LAR

Junto de Leonir, embaixo dessa mesma ponte, moram quatro de seus 10 filhos e sua esposa. Os outros seis já são casados e moram na cidade de Venâncio Aires. Recentemente abrigou mais dois jovens, que tenta ajudar, mantendo-os fora da violência das ruas. Ele, que se autodenomina “chefe do clã”, diz que lá ninguém tenta invadir, nem vender drogas ou roubar. A todo o momento, deixa bem claro que moram embaixo da ponte, mas que são uma família. Como bichos de estimação, têm um cachorro e dois gatos, seus xo-

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dós, que segundo ele, mantêm os ratos longe do lar. O clima de carinho, amor e respeito entre eles é evidente. Encontramos apenas duas de suas filhas, que estudam em uma escola pública próxima da ponte. Thainara, 10 anos, está na primeira série, e Maiquelli, 13, está na segunda série. Maiquelli confessa: “Quero mudar de vida. Casar, ir embora daqui e arrumar um lugar para os meus pais também”. Leonir diz não ter religião, porém afirma várias vezes durante a conversa que acredita muito em Deus. Ele faz questão de garantir que não rouba, nem pede nada para ninguém, tem saúde para trabalhar. “Essa mão aqui é de trabalhador”, orgulha-se, e segue acreditando em um futuro melhor.

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interessante como é fácil julgar as pessoas dizendo que elas vivem no seu próprio ‘mundinho’, porém, de repente, fazemos uma matéria para uma disciplina e nos descobrimos também vivendo no nosso ‘mundinho’ sem perceber. A expectativa de fazer essa matéria era enorme, pois não sabíamos se a família, que morava numa das pontes da BR-116, iria nos receber ou não. Ao chegar lá e encontrar o ‘cacique’ da família, percebemos que não seria fácil, pois em um primeiro momento recusou-se a nos dar a entrevista e, inclusive, fez uma pergunta que nos levou a pensar: ‘Todo mundo vem aqui, mostra na TV a minha vida e a da minha família, mas e o que muda para mim? Nada! Eu continuo aqui! Por que eu deveria dar entrevista para vocês?’. O que nos fez repensar o nosso papel de jornalistas na sociedade. Qual seria a função de apenas reportar os acontecimentos, se vemos todos os dias coisas cada vez piores? E o pior; nos acostumamos a vê-las, de forma que nem nos surpreendemos mais. A única reação que temos é nos horrorizar por alguns minutos, tecer alguns comentários e, quando o telejornal acaba, voltamos ao nosso ‘seguro mundinho’.”


O homem de um

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quilômetros

milhão de

Para Adelino Ascari, a vida não existe sem A BR-116 e vice-versa. Atravessá-la é como cumprir uma rotina, sem a qual não há histórias para contar TEXTO DE ANDRESSA PAZZINI E LUAN IGLESIAS FOTOS DE CARINA MERSONI

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ão cerca de 20 mil habitantes. Duas emissoras de rádio. Um jornal quinzenal e 35 quilômetros de BR-116 que cruzam toda a sua extensão. Assim é São Marcos, localizado na Serra Gaúcha, a 160 quilômetros de Porto Alegre. A cidade, com 48 anos de emancipação, foi colonizada no final do século XIX por italianos e poloneses. Não se sabe ao certo como algumas peculiaridades tomaram forma. São diferenças físicas e geográficas dispostas aos curiosos motoristas e transeuntes de passagem. O lugar transparece simpatia, como a maioria das pequenas cidades do interior. Dividida pela BR-116, São Marcos apresenta duas realidades. De um lado, para quem segue em direção ao interior, após o quilômetro que carrega o nome da BR, reina a calmaria de um local onde as residências são maioria. De outro, uma agitação típica de cidade: praça central, mercados, farmácias, bares, lojas, lanchonetes, hospital e igreja. Entre as duas realidades, está a vida de muitas pessoas, que diariamente atravessam a BR-116 para cumprir seus deveres ou, simplesmente, acessar a outra metade da cidade. Recostado no banco da praça central, com uma expressão cansada e olhar baixo, Adelino João Ascari, ou apenas Ascari, como é conhecido na pequena São Marcos, passa ali boa parte do dia. Pela manhã, perto das 8h, sai de sua casa, no bairro Francisco Doncatto e, a passos lentos, atravessa a rodovia. A falta de paciência de alguns motoristas obrigam-no a caminhar mais depressa. “Se eu atravesso na faixa (de segurança) alguns param, mas 50% não param”, calcula Adelino. Apesar das dificuldades, ele conta que, em cerca de 40 anos que faz o trajeto, nunca foi vítima de um acidente. Caminhando mais algumas quadras, apoiado em sua velha bengala, o simpático senhor acomoda-se no banco da praça. Ao seu encontro, vêm apostadores do Jogo do Bicho, atividade desempenhada por ele há 24 anos. Além de uma forma de garantir um sustento extra, é também um motivo para que Adelino não se entregue ao ócio nem à acomodação. Aos 84 anos, gosta de estar entre as pessoas, estar na rua, conversar e fazer amigos. “Estou vivo porque estou passando o tempo. Tenho muitos amigos”, relata. Essa parece ser a força que leva Adelino a atravessar a tão famosa rodovia. Todos os dias. Mais do que permitir o acesso de Adelino ao outro lado da cidade, a BR-116 faz parte de sua vida desde os tempos em que garantia o sustento como borracheiro. Sua colocação às margens da BR foi fundamental para que conquistasse uma vasta clientela, que por muitas vezes esperava o conserto de carros e caminhões de um dia para o outro. As filas de veículos danificados faziam jus à qualidade dos serviços prestados por ele que, no final da década de 80, ganhou o título de melhor borracheiro da cidade, reconhecido pela prefeitura de São Marcos: “Naquela época os materiais dos carros eram piores do que agora, então tínhamos muito serviço”. Contando com o auxílio de um único ajudante, Adelino relembra o esforço que fazia para manter a borracharia: “Tinha dias em que eu amanhecia trabalhando e anoitecia trabalhando”. Tanto trabalho como borracheiro rendeu a Adelino um dedo torto. “Esse dedo, antes não era torto assim, isso é de segurar a marreta, de tanta pancada”. Ao que parece, Adelino abandonou a borracharia quando sentiu que seu corpo não


A CIDADE DE SÃO MARCOS, COM 20 MIL HABITANTES, É CORTADA PELA BR-116

dava mais conta do ofício que escolheu com a ajuda de um cunhado. Em 1999, após 18 anos como borracheiro, trocou a rotina de consertos por uma prancheta, anotações e cálculos. Se ele chegara a São Marcos vindo de Flores da Cunha na intenção de prosperar sua condição social, conseguiu. As mesmas mãos que consertaram pneus de carros, ônibus e caminhões também cultivaram plantações no antigo distrito de Criúva, hoje pertencente ao município de Caxias do Sul, onde também morou. Pelo visto, as marcas do tempo não deixam de cultivar, igualmente, sorrisos. É inevitável. A cidade muda, a profissão muda, e os motivos que lhe convencem a atravessar a BR diariamente mudam. Por ironia ou não, a cultura que se formou em torno de Adelino é fiel. Muitos dos clientes da borracharia se tornaram adeptos do jogo da sorte. Afetuoso e com sabedoria de um avó, o ex-agricultor, exborracheiro e agora bicheiro não conhece muito além dos limites que a própria vida lhe impôs. Seja onde e como for, a BR conta a sua história e viceversa: “Para mim, a BR significa muita coisa, foi onde comecei a ganhar meu dinheirinho com os carros que passavam aí”. Por fim, esta reportagem só poderia terminar com a seguinte cena, praticada por Adelino há décadas: com a bengala amarrada ao cinto, apoia o braço. Alguns motoristas buzinam amigavelmente. Outros apenas o fitam. Adelino completa a passagem sobre a BR para não sair de São Marcos. E, como um bom bicheiro, aposta nos números para definir alguma circunstância: “Nunca ninguém atravessou tantas vezes essa BR como eu. Dá para botar bastante coisa. Dá para botar um milhão de quilômetros. São 42 anos atravessando a BR, já pensou?” Não Adelino. Nunca pensamos. E só por isso, nunca poderemos duvidar.

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R-116. Uma pauta que, a princípio, nos preocupou. Não sabíamos o que esperar dela, nem como chegaríamos até nossas fontes. Recebemos uma lista de alguns possíveis entrevistados, mas, justamente pelo “frio na barriga” que nos traz o inesperado, optamos por encontrá-lo aleatoriamente, assim que chegássemos à cidade de São Marcos. E assim foi. Sábado de sol, 7h30min da manhã. Embarcamos no ônibus na rodoviária de São Leopoldo e partimos rumo a Garibaldi, onde encontramos nossa fotógrafa, Carina. De lá, seguimos de carro até São Marcos, em uma viagem que rendeu boas risadas e algumas pérolas, como a inversão dos nomes de duas cidades: “Dois Marcos” e “São Irmãos”. Chegando ao destino, logo nos deparamos com uma praça central, que parece ser unanimidade em pequenas cidades do interior. Andamos um pouco e procuramos por um restaurante. O relógio já marcava 12h. Saindo de um bom almoço, avistamos um senhor solitário, recostado no banco da praça. Nos aproximamos, trocamos algumas palavras e não tivemos dúvidas: aquele seria o nosso entrevistado. Jeito simples, cativante e uma vida construída a partir da BR-116. era o que precisávamos para cruzar a sua história com a história de São Marcos e mostrar como a divisão da cidade pela rodovia interferiu e continua a interferir em suas rotinas.”


EXPEDIENTE

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