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http://enfoquevilabras.blogspot.com TAMIRES GOMES

vilabrás setembro / outubro

2010

distribuição gratuita edição 123

Sustento em duas rodas Bicicleta vira fonte de renda > Página 12

Personalidade SUELEN DAL’AGNOL

Estreia Michael Jackson, o pop da Brás > Página 18

consciente > Página 15

Pâmela, 18 anos, que vota pela primeira vez, simboliza a esperança de uma vida melhor na Vila


02 EXPEDIENTE Universidade do Vale do Rio dos Sinos Av. Unisinos, 950 Bairro Cristo Rei São Leopoldo/RS Reitor Marcelo Aquino Vice-reitor José Ivo Follmann Pró-reitor Acadêmico Pedro Gilberto Gomes Diretor da Unidade de Graduação Gustavo Borba

São Leopoldo, setembro/outubro de 2010

Da Redação

N

ovos ares sopram na Vila Brás. Na edição passada, há dois meses, eram novidade as novas habitações construídas para repor as casas que ficavam no caminho da extensão do Trensurb. Hoje, as famílias reassentadas já vão se acostumando com os novos lares. Fora alguns problemas pontuais, a mudança representa uma melhora em suas vidas e um tímido progresso para a Vila.

Um progresso mais significativo também pode ser alcançado. Ele depende muito do correto trabalho de nossas autoridades políticas, mas isso não quer dizer que não podemos fazer nada. Pelo contrário: como cidadãos, temos o direito ao voto e o dever de utilizá-lo. Nesta edição do Enfoque Vila Brás, jornal experimental produzido por alunos do curso de Jornalismo da

Unisinos, você encontra reportagens sobre as eleições 2010, que acontecem dia 3 de outubro. A responsabilidade é grande, pois elegeremos deputados estaduais, deputados federais, senadores, governador e presidente. É fundamental se informar bem sobre os candidatos e votar de maneira consciente, para que as coisas andem pra frente em nosso país, estado, cidade e bairro. n

Coordenador do Curso Comunicação Social – Jornalismo Edelberto Behs

de

vilabrás Jornal-laboratório produzido por alunos da disciplina de Redação Experimental em Jornal do Curso de Comunicação Social - Jornalismo da Unisinos.

Churrasco na calçada Casal vende assado preparado no passeio público e complementa sua renda

FALE CONOSCO!

E-mail: enfoquevilabras @gmail.com Edição: Eduardo Herrmann (editor-chefe), Adriano Carvalho, Daniela Fanti, Gutiéri Sanchez, Marco Rocha, Simone Núñez e Tarcísio Bertim Orientação: professores Eduardo Veras, Flávio Dutra e Nikão Duarte Monitoria: Eduardo Nozari Reportagem: Adriano Carvalho, André Ávila, Hector Moraes, Camila Nunes, Caroline Raupp, Cecília Medeiros, Clarissa Figueiró, Daniela Fanti, Débora Soilo, Eduardo Herrmann, Ellen Mattilelo, Fabrício Pretto, Fernanda Herrera, Guilherme Möller, Gustavo Alencastro, Gutiéri Sanchez, Frederico Dilly, Leandro Vignoli, Priscina Rodrigues, Liége Freitas, Lilian Stein, Luan Iglesias, Luana Guimarães dos Reis, Luciano Nunes, Manuela Teixeira, Priscila Carvalho, Marco Rocha, Matheus Cardoso, Miriam Moura, Paola Madeira, Patrícia Oliveira, Pedro Bicca, Priscila Zigunovas, Rafael Martins, Rafaela Kley, Roberta Roth, Roberto Ferrari, Rodrigo Rodrigues, Rogério Bernardes, Sabrina Schönardie, Simone Núñez, Stéfanie Telles, Suélen Dal’Agnol, Tarcísio Bertim, Thaís Jobim, Vanessa Wagner e Vanessa Lopes Fotografia: Ana Paula Figueiredo, André Ávila, Carina Mersoni, Cristiano Abreu, Daniel Elias, Débora Soilo, Fabiana Droescher, Harrison Andrade, João Pedro Zandonai, Kenia Ferraz, Leonardo Pedroso, Luana Elias, Magda Marques, Marco Antonio Filho, Maurício Rodrigues, Pedro Barbosa, Suelen Dal’Agnol e Tamires Gomes Arte: Produzida na Agência Experimental de Comunicação (agexCOM). Projeto gráfico e diagramação: Gabriela Schuch e Marcelo Grisa. Supervisão técnica: Marcelo Garcia.

Gutiéri Sanchez

HARRISON ANDRADE

Telefone: (51) 3590.8466

Q

uem chega pela Av. Leopoldo Wasun, na Vila Brás, nas manhãs de sábados e domingos, encontra um homem grande sentado à frente de uma churrasqueira repleta de espetos no meio da calçada. Há quatro meses, Valduir Barros, 55 anos, junto com sua esposa, Lenir de Barros, vende espetos de carne e frango assados. Os alimentos são comercializados por espetos e variam de R$ 12 os de frango e R$ 18 os de carne. Natural de Redentora, Noroeste do Estado, onde era agricultor, Valduir mudou-se há 21 anos para a Brás. Ele conta que complicações cardíacas o levaram a vender seu mini-mercado. “Tenho hipertensão, gota e problemas no coração, por isso não pude mais cuidar do mercado” revela. No começo, ele assava apenas seis espetos, pois não sabia se haveria aceitação. “Hoje eu faço 35 espetos

Fumaça do assado preparado por Valduir desperta a atenção das pessoas no sábado e outros 35 no domingo”, orgulha-se. Enquanto Valduir é entrevistado, o auxiliar

de soldador Jonatan Luiz, 23 anos, aproxima-se e pede um espeto de frango e outro de carne de gado.

Ele nunca havia comprado, mas revela que foi atraído pelo cheiro que a fumaça produzia na rua.n

Esclarecendo os fatos PEDRO BICCA Matéria publicada pelo jornal Enfoque em julho deste ano provocou descontentamentos em um grupo de moradores da Rua Margarida, na Vila Brás. A reportagem abordava o temor que um morador sente em residir no local. O medo deve-se a encontros de jovens nas esquinas da rua, principalmente à noite. Segundo ele, os rapazes fazem

uso de substâncias entorpecentes e acabam constrangendo as pessoas que vivem ali. Há treze anos no local, a moradora Mara de Fátima Streb possui uma lancheria junto à residência – e teme perder seus clientes, caso o boato se espalhe: “Posso perder meus fregueses por uma mentira.” Advertiu-nos que o restante dos moradores da rua é contra o que foi publicado e que os rapazes respeitam as pessoas: “Esses

jovens não nos causam medo, ao contrário, eles nos respeitam e de certa forma ajudam a cuidar de nossas casas.” A dona de casa Maria Ivonete Vieira Trein está chocada. Moradora há 17 anos no local, não tem queixas dos rapazes. Segundo seu relato, o problema está na falta de oportunidades para os jovens das classes mais baixas: “São jovens sem ocupação”.n


03

São Leopoldo, setembro/outubro de 2010

leonardo pedroso

Rua 04 está sem iluminação Moradores de novo loteamento fazem abaixo-assinado para a ligação de postes Adriano de Carvalho

O

tempo é de mudanças e construções na Vila Brás. Diversos moradores já foram deslocados de suas antigas moradias e realocados em suas novas casas por conta das obras de ampliação do Trensurb. Entretanto, nem todos dispõem de iluminação pública perto de suas residências. É o caso de Viviane da Silva, moradora da casa nº 11 na Rua 04. Ela aponta que, no local onde morava anteriormente, a luminosidade era adequada: “Antes, tínhamos uma casa ruim mas nossa rua era melhor alumiada. Aqui, temos uma casa boa mas durante a noite é uma escuridão total”, relata. Outro afetado pelo problema é Luis Fabiano Conceição, morador da casa nº 60. O residente alerta para o perigo que a escuridão na Rua 04 traz não só a ele como

Diga não ao gato

também aos vizinhos: “É perigoso. Fizemos até um abaixo-assinado para a instalação dos postes e ainda não fomos atendidos”, revela. Procurada pela reportagem do Enfoque, a secretária de Habitação de São Leopoldo, Isabella da Costa Albrecht, relatou que o Loteamento Brás 03 ainda está em fase de implantação. Segundo Isabella, a urgência na transferência das famílias fez com que os moradores fossem reassentados antes da conclusão das obras: “Temos ciência deste problema. No processo normal, acontece a conclusão da infra-estrutura para que só depois as famílias sejam reassentadas. Entretanto, como a necessidade de transferência das famílias é urgente, isto está ocorrendo simultaneamente. Temos o compromisso de concluir as obras no loteamento até o final deste ano.”, justifica. n

Luz só de dia: Rua 04 mergulha na escuridão quando cai a noite

“É só promessa” carina mersoni

Caroline Raupp As ligações clandestinas, conhecidas popularmente como “gato”, além de criminosas, podem causar muitos problemas aos moradores e seus vizinhos. Os riscos gerados por esse tipo de prática vão desde a queima de aparelhos elétricos e sobrecarga na rede até acidentes, como choque elétrico e princípio de incêndio. Porém, nem sempre as ligações irregulares são feitas por vontade do morador. É o caso de algumas localidades onde a rede elétrica ainda não está disponível, como nos conta André Sodeieray, 35 anos, que mora na Vila Brás há dez anos e somente nos últimos dois teve acesso a energia elétrica regular. Antes da obra ser realizada na Rua Das Piones, a única alternativa dos moradores era “puxar” luz da rua em frente, o que sempre ocasionou transtornos, principalmente queda de luz. Para quem deseja regularizar a energia, vale a pena saber sobre o desconto oferecido pelo governo federal às famílias de baixa renda. Clientes que recebem o Bolsa Família podem se cadastrar na AES SUL para receber um desconto na conta de luz, que pode chegar a 60% do valor final. Por exemplo, quem recebe o desconto e tem consumo mensal de 100 quilowatts/hora vai pagar aproximadamente R$16,00, enquanto um consumidor que não está inserido no programa, com o mesmo consumo irá pagar R$ 29,00. n

Zeli e José, donos da Lancheria Texas, reclamam da falta de iluminação na Rua Lions Padre Reus Rafaela Kley Zeli Oliveira Camargo e José Wilson Lore da Silva abriram, há mais ou menos três anos, seu próprio negócio na Vila Brás. O Bar e Lancheira Texas, localizado na Rua Lions Padre Reus, surgia como uma ótima fonte de renda, não fosse a escuridão. “Mensalmente pagamos R$ 9,80 de imposto e não temos iluminação pública. As pessoas que freqüentam nosso bar não ficam até tarde, pois sentem medo. Alguns vizinhos já foram assaltados”, conta José. A rua faz parte de um loteamento irregular, já possuindo postes de luz, contudo, sem luminárias. Segundo os proprietários, a reivindicação já foi protocolada na prefeitura municipal de São Leopoldo. “Quando reclamamos, eles dizem que vão

mandar um responsável e até hoje nada”, revela Zeli. Para amenizar o problema, lâmpadas extras foram instaladas na propriedade. “Estamos tentando vencer a escuridão, mas se colocarmos mais lâmpadas iremos trabalhar apenas para pagar a conta”, desabafa Zeli. De acordo com Celso Severo, responsável pelo setor de Iluminação Pública da prefeitura, o local passará por vistoria da equipe juntamente com o secretário de Obras Viárias e Serviços Urbanos, Armando Motta. “Por se tratar de uma área irregular, teremos que ver junto com a cooperativa responsável pelo loteamento como podemos acelerar a colocação destas luminárias. Se esta responsabilidade ficar a cargo da prefeitura, acredito que dentro de um mês sejam instaladas luminárias antifurto na região”, esclarece Severo. n


04

São Leopoldo, setembro/outubro de 2010

PEDRO BARBOSA

Oportunidade de emprego Morador que será removido para a Brás 3 constrói a própria casa Stéfanie Telles

M

embro da Comissão de Moradores da Vila Brás, Dilamar Junior Fagundes está na lista das últimas dez famílias que serão removidas no final do ano para o Loteamento Brás 3 devido às obras da Trensurb. A mudança, que trará melhorias na qualidade de vida de sua família, trouxe também uma oportunidade. Desempregado, fazendo bicos há alguns anos, Dilamar aproveitou seu conhecimento em obras para trabalhar construindo sua própria casa. “Aproveitei a oportunidade porque aí posso fazer bem feito”, comenta. Há dois meses, acompanhado de sua esposa Jane Pacheco Fagundes,

Dilamar constrói seu sonho com as próprias mãos. “Vai mudar a nossa vida, porque onde a gente mora o acesso é difícil e nós não temos iluminação pública. Aqui a gente vai ter tudo isso”, afirma ele. A casa, de 42m², conta ainda com adaptações realizadas por ele. Depois da tão esperada mudança, Dilamar pretende, juntamente com a Comissão de Moradores, criar um centro comunitário onde seja possível elaborar projetos sociais que atendam, principalmente, as crianças da Vila. A maior preocupação, segundo ele, é com o reforço escolar, pois apenas os esportes oferecidos hoje não suprem as necessidades educacionais das crianças do bairro.n

Jane e Dilamar em frente à futura casa no novo loteamento da Vila

Precisa-se de... HARRISON ANDRADE

A fábrica de bolsas Mouskelly à espera de candidatas para o trabalho Fernanda Herrera O comércio da Vila Brás apresenta diversos tipos de lojas, salões de beleza e lancherias. Esses locais fazem o giro econômico da comunidade, trazendo prosperidade e oportunidades para os moradores. Quem precisa de um emprego, por exemplo, pode caminhar pelas ruas da Vila e prestar atenção às placas presas nas paredes dos estabelecimentos. A Lancheria e Pizzaria Chuletão, que fica na Av. Leopoldo Wasun, precisa de funcionários devido ao aumento da clientela. O proprietário, Cláudio Nascimento, oferece vagas para atendente e chapista/cozinheiro. “Coloquei a placa de ‘Precisa-se’ esta semana

e muitas pessoas já apareceram com currículo. O problema é que os candidatos às vagas não são qualificados”, lamenta Cláudio. Também esbarrando na falta de qualificação, Diná Mousquer, dona da loja e da fábrica de bolsas Mouskelly, precisa de costureiras. E se propõe a ensinar as candidatas a operar as máquinas e a preparar as bolsas para a costura. Ela acredita que é muito importante estar motivada para o trabalho. E se considera um exemplo: tem a fábrica ativa há 25 anos. No ano passado, montou sua loja para venda direta ao público. “Também fabricamos bolsas para algumas marcas que exportam para diversos países, como a Irlanda, e mão-de-obra é sempre necessária”, enfatiza. n

Casa nova, vida nova

Falta luz e saúde

Suélen Dal’Agnol

André Ávila

Em meio a tantas obras, transtornos e inseguranças com a ampliação da linha do metrô, diversas famílias que viviam na Vila dos Tocos deixaram suas casas e foram removidas para a Vila Brás. Apesar da perturbação, as mudanças têm sido encaradas como um avanço. As moradias possuem dois dormitórios, banheiro, sala e cozinha, tudo em alvenaria. Os novos moradores da Brás mostraram-se bastante contentes. Segundo Ivone Camargo, 65 anos, a mudança foi um progresso para todos. “Me mudei em fevereiro deste ano. E, embora seja pouco tempo, estou muito feliz.” Os moradores afirmam ter diversos transtornos decorrentes às modificações que o local passou, mas que já estão sendo resolvidos. Conforme Mareni Paula da Silva, os problemas são relevantes. “A falta de água e de iluminação em algumas ruas são devido às obras no bairro”, ressalta. A Prefeitura de São Leopoldo e a Trensurb foram os responsáveis pela retirada das famílias e o fornecimento das novas casas.n

Maria Cristina Müller Meller, 40 anos, morava no Rio dos Sinos e mudou-se para o Loteamento Vila Brás 3 em dezembro de 2009. A nova moradora aprova a casa em que vive com duas filhas e mãe, porém algumas coisas precisam melhorar. “Ainda não temos iluminação pública. Nos postes não há luz, mas desde que me mudei pagamos a conta”, conta Cristina. A saúde também é assunto de preocupação. Agora, diz, não tem atendimento médico na Vila Brás por não ter o cadastro local. “O posto daqui não atende o pessoal do Rio dos Sinos. E lá não nos atendem por não fazermos mais parte daquela comunidade e, quando nos mudamos, perderam nosso cadastro”, queixa-se. Em sua casa mora a mãe, de 60 anos. “Ela já é idosa e tem osteoporose. Não conseguimos consultar em lugar nenhum. Não atendem ela”. São questões que, quando estiverem resolvidas, vão somar com a tranquilidade que encontrou na nova comunidade. “Faltava isso. Aqui é um lugar calmo, quieto. Antes era muito mais movimentado. Gosto daqui”.n


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São Leopoldo, setembro/outubro de 2010

Troca-se esta casa

Carine Mersoni

Morador aposta em jeito diferente de negociar nova moradia Daniela Fanti

“M

Depois de seis anos na Rua 26, Zeniro da Silveira pintou as janelas e rebocou os fundos para oferecer a própria casa

oro sozinho. Eu e Deus”, diz Zeniro da Silveira, 61 anos, morador há mais de seis da casa 120, na Rua 26. Desde 2009 tenta se mudar dali. Zeniro faz parte de um não tão restrito grupo de habitantes da Vila que utilizam a mesma artimanha quando o assunto é mudar de moradia: a troca de casas. Ao invés da venda, muitos optam pela troca para facilitar o processo e não sair no prejuízo. “Muitas vezes o pessoal não tem dinheiro, só a casa. E assim você também não corre o risco de alguém prometer e não pagar”, explica. A maneira como ele e tantos outros moradores negociam suas casas não é recente. Quando chegou à Vila, o costume já existia e, por isso, Zeniro resolveu apostar no então novo jeito de fazer negócio. “Troquei meu carro, um Logus, por essa casa e não me arrependo”, conta. O jeito é simples, mas Zeniro pretende fazer uma boa troca. Pintou as janelas, rebocou os fundos e até avaliou o imóvel. “Por uma de menos de R$ 20 mil, nada feito”, exige. Tudo o que quer com a troca é melhorar a qualidade de vida. “Desde que a casa seja boa e me faça viver melhor, topo qualquer negócio”. n

Frederico dilly Os latidos se ouvem de longe e anunciam que as ruas da Vila Brás estão repletas de cães. Alguns provocam os cavalos que comandam as carroças, outros atrapalham os carros que tentam passar pelas ruas estreitas e há ainda os que ameaçam algumas crianças em direção à escola. É um dos retratos da Vila: a proliferação de cachorros, grande parte deles abandonados. “Muitos carros passam e atiram filhotes na beira da rua”, conta Altamir Oliveira de Lemos, 49 anos, trabalhador da construção civil e que

mora há 23 anos na Brás. “Já ouvimos cães recém abandonados agonizando. Dá pra dizer que isso é até desumano”, diz Altamir enquanto observa três cachorros revirando amontoados de lixo perto de sua casa. Ex-presidente da associação de moradores, o construtor propõe a conscientização da comunidade para acabar com o problema. “As pessoas devem se educar para a questão. Deve haver uma discussão entre os próprios moradores, com um palestrante que venha para reforçar o assunto. Os coitados dos bichos não têm culpa nenhuma”, completa. n

leonardo pedroso

Cão sem dono

Abandonados, cachorros vagam soltos pelas ruas da Vila Brás, atrapalhando o trânsito


06

São Leopoldo, setembro/outubro São Leopoldo, XXXXXXXX de de 2010 2010

A festa da comunidade Moradores da Brás se empenham para realizar Festa Junina que reúne duas mil pessoas na escola

FOTOS MAGDA MARQUES

Patrícia Oliveira

H

á mais de 20 anos, a Escola Municipal de Ensino Fundamental João Goulart realiza a Festa Junina do bairro e conta com o apoio dos professores, alunos e também dos moradores da Vila. A festa surgiu com o objetivo de integrar a comunidade e também angariar verba para a escola. “No ano passado, arrecadamos R$ Fora de época, festa 4.000, que foram destinados para caipira é organizada melhorias na com doações da infraestrutura comunidade da instituição”, salienta Gardênia Lara Pacheco, há cinco anos na direção da João Goulart. A diretora da escola destaca que a realização da festa só é possível graças às doações da comunidade. “Não recebemos auxílio de empresas ou outro órgão, apenas dos moradores daqui”. O envolvimento dos estudantes também é de extrema importância,

já que boa parte dos donativos são arrecadados com uma gincana, realizada entre os 1.620 alunos. “Assim como os professores, os estudantes se empenham ao máximo para a realização do evento”, afirma Gardênia. Os funcionários da escola explicam que, para contar com a participação da comunidade, é possível realizar apenas uma grande festa por ano, já que o bairro apresenta uma população carente. “A comunidade se empenha muito nesse evento para melhorar a manutenção da escola”, destaca a professora do 4º ano, Adriana Silveira. Um dos diferenciais desse ano é que a Festa Junina precisou ser realizada no mês de agosto. “Não conseguimos os donativos para fazer a festa em junho, por isso tivemos que mudar a data”, explica a diretora. Com isso, o nome do evento também foi alterado: Festa Sertanejo Universitário, “já que está na moda e os alunos adoram esse estilo musical”, destaca. n

GUSTAVO ALENCASTRO Na única escola da Vila Brás há uma guarita junto ao portão de entrada. O local é “habitado” por uma equipe com quatro vigilantes, que cuidam do lugar à noite e aos finais de semana. O colégio João B. Goulart inicia o primeiro turno às 7h20, e todas as manhãs lá está Adão dos Santos, 62 anos, para abrir a instituição. O vigia também tem a responsabilidade de coordenar tudo que entra e sai. O colega de Adão, Alci Lopes, diz que só este ano foram três tentativas de invasão. “As investidas são sempre à noite, porém todas foram detectadas em tempo de reverter a situação”, conta. A equipe de segurança não usa armas, pois a ênfase é o serviço de portaria; nessas situações acionam a Guarda Municipal, em último caso a Guarda solicita a presença da Brigada Militar. É de responsabilidade

da portaria da escola a cobrança de uma autorização por escrito a qualquer aluno que precise sair antes do término da aula. Quanto ao comportamento dos alunos, Adão argumenta que as crianças são calmas e raramente é chamado por algum professor para possíveis confusões. “Em cinco anos trabalhando aqui nunca houve um fato violento. Sempre tentamos resolver as diferenças da melhor forma possível e, quando precisamos entrar em ação, tudo se resolveu”. No final da manhã, os vigias precisam ficar atentos à hora da saída e ao fechamento do portão. Adão faz um apelo às autoridades: “Precisamos que esta rua seja asfaltada. A escola está aqui há vinte anos e ainda falta este presente para nós.” O vigilante reside na Brás há trinta anos e sua residência fica em frente à escola.n

Alci Lopes e Adão dos Santos garantem a segurança dos alunos na entrada e saída do colégio

Magda Marques

A escola está vigiada


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São Leopoldo, setembro/outubro de 2010

MAGDA MARQUES

Parte do valor que a escola da Vila arrecadou na festa junina realizada em agosto foi investido na colocação de brita no pátio do estacionamento

João Goulart sofre com atraso no repasse de verbas Mantida pela prefeitura, com apoio do governo federal, escola depende de doações da comunidade para promover melhorias Luciano Nunes

A

Escola Municipal de Ensino Fundamental João Goulart, localizada na Av. Leopoldo Wasun, passa por dificuldades financeiras. Os problemas acontecem porque, no ano

de 2010, a escola recebeu apenas uma pequena parte da verba municipal destinada ao colégio. Segundo a diretora Gardênia Lara Pacheco, a instituição deveria receber R$ 3.000,00 a cada trimestre da

DANIEL NUNES

Prefeitura de São Leopoldo, porém este ano foi depositado somente R$1.000,00. A instituição ainda conta com uma pequena verba federal, que é depositada anualmente. Tendo em vista esta dificuldade, alunos e

professores organizaram a tradicional festa junina deste ano. O objetivo foi a arrecadação de fundos para futuras melhorias na escola. Mesmo antes da festa ser realizada, a diretora já havia adquirido brita e areia para oferecer

Na luta contra a repetência Camila Nunes

A diretora da Escola João Goulart, Gardênia Lara Pacheco, reclama da falta de apoio dos pais

melhorias aos alunos. O material foi espalhado no pátio da escola, em lugares onde antes havia muito barro e poças de água e será pago com parte dos lucros adquiridos na festa, que foi realizada no final de agosto.n

A Escola Municipal de Ensino Fundamental João Goulart, localizada na Vila Brás, periferia de São Leopoldo, foi contemplada para receber o projeto Mais Educação. O programa é implantado pelo governo federal em instituições de ensino que apresentam altos índices de repetência dos alunos. As atividades preveem que as crianças permaneçam em turno integral na escola, onde elas recebem alimentação, oficinas de taekwondo, artesanato, aulas de português,

matemática e canto. Devido a falta de espaço físico, somente alunos das segundas e terceiras séries estão sendo beneficiados. A diretora, Gardênia Lara Pacheco, vem demonstrando preocupação com o comportamento de alguns pais. Segundo ela, a orientação religiosa de determinadas famílias está fazendo com que crianças sejam retiradas das oficinas. “Como as aulas de canto não ensinam músicas evangélicas, muitas mães tiram as crianças”, relata. “O taekwondo também encontra resistência, pois é considerado violento”, conclui.n


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São Leopoldo, setembro/outubro São Leopoldo, XXXXXXXXde de2010 2010

Transporte ainda é problema

Magda Marques

Bicicletas são populares entre os moradores Rodrigo Rodrigues

A

vida de quem depende do transporte coletivo, seja em qualquer cidade, não é fácil. Na Vila Brás não é diferente. O agravante é ter linhas de ônibus que atendem somente a Av. Leopoldo Wasun. O serviço prestado custa de R$ 2,20 a R$ 2,40 (intermunicipal). Segundo moradores, o transporte melhorou. Porém, nos horários de pico, a lotação dos coletivos é um problema. “De uns cinco anos para cá, o transporte melhorou. Os ônibus passam em média a cada 20 minutos. Mas em certos horários tem que esperar para pegar sem estar lotado”, diz Maicon Gomes.

A preferência da maioria continua sendo a bicicleta. Muitos vão ao trabalho assim, seja em São Leopoldo ou Novo Hamburgo. O custo, claro, é um dos motivos. Uma novidade que atenderá a Vila Brás é a expansão da Linha 1 do metrô. Sua conclusão está prevista para o final de 2011. A Estação Liberdade, em Novo Hamburgo, ficará cerca de 600 metros distante da Brás. Ainda assim, a opção não será para todos. “Do ponto em que moro são mais de 20 minutos de caminhada. A distância faz com que não beneficie todo mundo. Seria necessário um ônibusintegração até a estação”, afirma José Gilson.n

Paola Nazário O descaso com a limpeza da Brás é lamentado por Joseane Lopes, 30 anos, mãe de três filhos e moradora do bairro desde que nasceu. A visão que a família da residente tem do quintal de sua casa, no final da Rua Leopoldo Wasun, é de um terreno baldio abarrotado de lixo. De acordo com Joseane, a rua não tem lixeiras adequadas para o depósito dos resíduos. A principal causa da indignação da moradora é o desrespeito da prefeitura quanto a higiene do local: “Há um ano atrás, a prefeitura despejou sete caçambas de entulho no terreno que fica na frente da minha casa. Nós reclamamos, mas os funcionários disseram que era para fazer um aterro onde os moradores poderiam construir algumas casas. Mas ali ninguém constrói casa alguma e o lixo está lá até hoje”, revela Joseane. A moradora, que nasceu na comunidade, afirma que gosta de criar seus filhos na Brás e que não pensa em sair do bairro: “Eu e meus filhos temos muitos amigos por aqui, e não existe tanta violência na Vila Brás como o pessoal da cidade comenta. Aqui é bom, gosto da minha casa e só peço que a prefeitura limpe mais as nossas ruas”, conta. Segundo a Prefeitura Municipal de São Leopoldo, o depósito dos materiais foi realizado por empresas privadas de limpeza e não se responsabilizou pelos despejos de entulho no local. n

Pedale bem na Brás Priscila Zigunovas “Atenção, atenção!” Num sábado de manhã, passa na avenida Leopoldo Wasun uma moto rodando devagarzinho, com uma caixa de som preta equilibrada na traseira. “Ponto Ciclista RGM, antiga Bike Mania, agora em novo endereço!” A moto segue dando voltas nos quarteirões da Vila, confundindo-se com as muitas bicicletas que percorrem a movimentada avenida. “Pedale bem com o Ponto Ciclista RGM!”, anuncia. O novo endereço é de uma pequena loja, atulhada de ferramentas e peças, onde trabalha sozinho e compenetrado o proprietário, Ronaldo Messa. Morador de Novo Hamburgo, ele passa o dia fazendo remendos nos pneus e centragem nas rodas das bicicletas. Cada remendo rende R$ 2. Para fazer a centragem, é R$ 6 cada roda. E dá para adquirir uma bicicleta por até R$ 50, garante Ronaldo, que também compra e revende os veículos. “Com o preço da

LUANA ELIAS

Excesso de lixo atormenta a comunidade

Lotação dos ônibus faz com que moradores optem pelo transporte individual

Ronaldo monta bicicletas desde criança gasolina e da passagem, não dá. E é bom que, quanto mais bicicletas, menos poluição”, diz. A vocação para o trabalho vem de longe: quando tinha nove anos de idade e ainda morava em São Francisco de Assis, Ronaldo ganhou uma bicicleta de presente. Desmontou-a

inteira e depois passou semanas tentando montar de volta. Conseguiu. Ia de bicicleta para todo lado. Acabou aprendendo sozinho a fazer os consertos, que, durante um tempo, garantiram um dinheiro extra nos fins de semana. Até que Ronaldo foi demitido da empresa em que trabalhava e

veio para a Brás abrir o Ponto Ciclista. O negócio vai bem: “Aqui é mais movimentado que no Centro de Novo Hamburgo”, afirma. E ensina: “É o jeito de trabalhar e tratar as pessoas que conquista a clientela”. E o Ronaldo, hoje, só anda de moto.n


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São Leopoldo, Leopoldo, setembro/outubro XXXXXXXX de 2010 de 2010 São

Aliando trabalho e família Ana Paula Fernandes deixou de ser costureira e abriu seu próprio negócio na frente de casa para poder dar mais atenção aos filhos

HARRISON ANDRADE

Roberto Ferrari

A

liar o papel de mãe com o de uma boa profissional é um dos grandes dilemas da mulher da atualidade. Que o diga Ana Paula Fernandes, de 34 anos, que para poder dedicar mais tempo com o filho, há dois anos largou o emprego de costureira e se tornou empresária: criou e gerencia até hoje uma lan house, na frente da sua casa. É um espaço modesto. Num canto da pequena sala destinado para o negócio, um carrinho de bebê fica ao lado dos quatro computadores disponibilizados. O quinto computador dá suporte à impressora, que, segundo Ana, serve principalmente para os jovens da Vila imprimirem seu trabalhos da escola. Mesmo com os problemas cotidianos da localidade, principalmente quanto à estrutura de internet – na lan house é usada a conexão via rádio – Ana se diz feliz com o empreendimento, já que pode ficar mais tempo junto do filho Wesley, de 11 anos, da pequena Yasmin, de apenas 11 meses e, claro, do marido Leandro Briske também.n

Graças à lan house, a pequena Yasmin pode desfrutar em tempo integral do carinho da mãe Ana Paula, que agora trabalha em frente à casa

Diversão que virou negócio MAURÍCIO RODRIGUES

Grandes amigos, grandes sócios PRISCILA CARVALHO

LIEGE FREITAS Com uma ideia na cabeça e um espaço sobrando ao lado do minimercado do pai, Giovane Bartissolo, 27 anos, montou uma casa de games. Tudo começou com um videogame Playstation 2 e uma TV de 32 polegadas. Enquanto instalava a aparelhagem, em cima de dois engradados de cerveja vazios, já foi abordado pelos primeiros clientes. Cobrando R$ 1 por hora de jogo, no segundo mês comprou seu segundo videogame. No terceiro, terminou de pagar o primeiro. Daí por diante não parou de crescer. “Só há dois lugares para onde devemos olhar: para frente e para cima”, acredita. Giovane disponibiliza aos jogadores a utilização de um memory card, para que possam salvar a sua evolução nos jogos.

“Muitas lojas como a minha já fecharam, mas eu tenho esse diferencial em relação a elas”, conta. O ex-estudante do curso Jogos Digitais da Unisinos já está no comércio há três anos e planeja muito bem o futuro. Buscando o público mais adulto, pretende disponibilizar, entre janeiro e fevereiro de 2011, dois videogames Xbox, a R$ 2 a hora e, futuramente, duas TVs LCD. “O mais importante é diversão”, afirma Giovane. A única regra estabelecida é que nenhuma criança pode entrar com mochila, evitando que elas matem aula para jogar videogame. A loja é aberta todos os dias a partir das 8h30min e fica na Avenida Leopoldo Wasun ao lado do Minimercado Sto. Antonio. Durante o verão os jogadores têm a opção de fazer “madrugadão” e virarem a noite jogando.n

FOTOS SUÉLEN DAL’AGNOL

Casa de games deve ganhar novos jogos eletrônicos nos próximos meses

Dois amigos com vontade de crescer. É assim que os colegas Ezequiel Vicente, 22 anos, e Cristiano da Silva, 23, se apresentam. Pensando em abrir um negócio em que a amizade e a juventude fossem revertidas em lucro, investiram em uma lan house. Foi assim que a convivência virou sociedade. Há um ano montaram a Play House. Três meses atrás, o comércio passou a se chamar Lan House e a Avenida Leopoldo Wasun, nº 1550, tornou-se o novo endereço. “Aqui é mais aberto e melhor localizado”, afirma Cristiano. Os sites de relacionamento são os mais acessados pelo público que, em sua maioria, é de adolescentes. O fácil contato com os jovens da Vila ajudou no negócio. Segundo Ezequiel, o movimento fica maior quando grande parte do público recebe seu salário. A procura por outros serviços também é grande. “Muitos pedem para que eu faça CDs e currículos”, comenta o rapaz. O comércio auxilia, ao mesmo tempo, na renda dos sócios e possibilita a inclusão digital dos moradores da Vila por apenas R$ 2 a hora.n

Ezequiel (no alto) e Cristiano são os donos da Lan House


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São Leopoldo, setembro/outubro de 2010

Brincar é alternativa kenia ferraz

Crianças da família Borges compensam a falta de brinquedos de luxo com a criatividade matheus cardoso

N

um rápido passeio pelas ruas da Vila Brás, o que fica evidente é a realidade socioeconômica dos seus moradores e os problemas acarretados por ela. Inúmeras famílias vivem no limite da pobreza e, mesmo assim, conseguem tocar suas vidas com dignidade e um largo sorriso no rosto. No caso da família Borges, Jocelaine Wagner Borges, 29 anos, saiu de São Miguel do Oeste, em Santa Catarina, e veio para São Leopoldo, mais precisamente para a Vila Brás, em busca de melhores condições de vida para ela e sua família. Junto com ela trouxe dois filhos do primeiro casamento e, já na Vila, casou-se novamente e teve os gêmeos Samuel e Isac, hoje com cinco anos, e Kauane, três anos. Jocelaine e seu marido não possuem emprego fixo, vivem de biscates. “Aqui na Vila a vida é muito difícil. Em dia de chuva nosso terreno fica cheio de barro e não temos dinheiro para aterrá-lo. Às vezes deixamos de comer para poder comprar sacos de terra. Meu marido não trabalha, só faz alguns “bicos”

Com um carrinho de mão e uma pá, filhos de Jocelaine se divertem na frente de casa quando aparece”, relata Jocelaine. Na tentativa de buscar um crescimento mais adequado aos filhos pequenos, a mãe os sujeitou a uma

realidade diferente da esperada. Apesar da parcimônia em que vivem, as crianças brincam felizes em frente à casa. Em meio a muito barro,

madeiras, ferramentas de construção, lixo e restos de comida, os pequenos constroem um novo mundo e fogem inocentemente da dura realidade. n

Além dos horizontes clarissa figueiró O grupo Explosão da Dança vem se mobilizando para a apresentação de final de ano. Pelo segundo ano consecutivo

será realizada no Teatro Municipal de São Leopoldo, dia 28 de novembro. Desde já, a expectativa dos dançarinos, que ensaiam a todo vapor, é grande. Preparam um espetáculo de hip-

hop abordando o tema “Profissões desvalorizadas”, que promete surpresas. O grupo, que já se apresentou em vários lugares e festivais, acredita que cada novo trabalho é um desafio. Em CRISTIANE ABREU

Dançarinos do projeto “Explosão da Dança” ensaiam para apresentação de 28 de novembro

julho deste ano, o Explosão da Dança venceu o concurso “Prêmio Coreográfico” no “São Leopoldo Fest”. À frente do projeto, a estudante de Educação Física da Unisinos Graciela de Oliveira Souza se diz apaixonada pela dança. Apelidada de Graci pelas crianças, percebeu na Vila Brás a oportunidade para desenvolver um trabalho socioeducativo. Criado em junho de 2005 por Graciela, o Explosão da Dança vêm crescendo rapidamente e hoje reúne cerca de 100 componentes com idades entre três e trinta e anos. Na opinião das crianças, participar do grupo é uma oportunidade de desenvolver talentos e aprender a cultura da dança. Os ensaios acontecem todas as terças-feiras e sábados. A educadora social treina o grupo através dos mais diferentes estilos musicais e dinâmicas corporais. As crianças realmente valorizam esse projeto. Para o menino Junior Faller de 16 anos, o projeto contribuiu inclusive no seu rendimento escolar. “Minhas notas melhoraram”, afirma.n


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São Leopoldo, setembro/outubro de 2010

Craques em busca de um palco Com sua principal praça abandonada, a Vila Brás carece de um lugar adequado para a prática do esporte preferido dos brasileiros

andré ávila

Eduardo Herrmann

O

futebol é o esporte mais popular do mundo. E quando se fala em popularidade, não se leva em conta apenas o número de pessoas que assiste às partidas nos estádios ou na televisão. Um esporte tão popular também leva qualquer pessoa, atleta ou não, a praticá-lo. Como bons brasileiros, os moradores da Vila Brás são apaixonados por futebol. Mas a prática exige uma estrutura básica: o campo. A principal praça da Vila é frequente alvo de reclamação dos moradores, por estar mal cuidada e pela falta de segurança. Outra opção é o campinho ao lado do Loteamento Padre Orestes. Mesmo com o chão batido, buracos e lixo, o local é bastante procurado. Porém está longe de ser o lugar adequado. Carlos Alberto Dias de Melo, o Betinho, joga no Brasão, tradicional time de várzea da Vila, e conta que às vezes é preciso jogar em localidades vizinhas, gastando com transporte e aluguel. Segundo ele, a prefeitura e a Associação dos Moradores já prometeram um novo campo aos moradores. Betinho acredita que essa área de lazer ajudaria a combater o problema das drogas. “Antes tínhamos muitos campinhos e pouca droga, agora muita droga e nenhum campinho”.

Sem espaço para o esporte, o garoto Lucas Evandro Dutra, de 15 anos, gasta três horas de seu sábado jogando futebol no videogame. “Na praça está tudo quebrado, e nos

outros campos não tem areia”, explica. Durante o final de semana, diz o proprietário da casa de games, Giovane Bertissolo, muitos jovens passam horas jogando virtualmente.n

Carlos Alberto Dias de Melo, jogador de tradicional time da Vila, se queixa da falta de um campo em boas condições

Juventude: medos e sonhos Vencer o medo da violência, se dar bem e melhorar de vida. Esses são alguns dos desejos de parte dos jovens que moram na Vila Brás. Os poucos espaços de educação, cultura e lazer fazem da juventude um espaço de raras oportunidades. Ultrapassar essas barreiras é passo indispensável para realizar os sonhos. “Antes de eu ir pra Igreja, nunca tinha dinheiro para nada. Gastava tudo em festa”. A nova vida de Josué Francisco, 18 anos, agora é distante dos bailes funk que lotam as noites de sexta e sábado no bairro. Participante de uma igreja evangélica,

Josué trabalha durante o dia em construção civil. Mesmo vivendo hoje distante das festas, o jovem revela que tem medo de se envolver em uma briga e acabar sendo atingido por uma bala perdida. O sentimento de Josué também faz parte da rotina de Danitiele Fátima, 12 anos. A esperança de encontrar na cidade melhores condições de vida trouxe a jovem e sua família para São Leopoldo. Danitiele ajuda a mãe a cuidar dos irmãos menores realizando os afazeres da casa. Sonha em morar em um lugar melhor, diferente da casa simples onde vive com a família. n

Kenia ferraz

Fabrício Preto

Danitieli diz ter poucos espaços de educação e cultura para a juventude


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São Leopoldo, setembro/outubro São Leopoldo, XXXXXXXXde de2010 2010

Trabalho além do limite DANIEL NUNES

Honório vai de bicicleta até Novo Hamburgo para trazer seus produtos Mesmo doente, verdureiro pedala mais de 30 quilômetros por dia para abastecer sua banca

Luana Reis

A

vida na Vila Brás nem sempre é fácil. Muitas vezes, quando o natural seria estar aposentado e aproveitando a vida, é a hora que

Pedalando o sustento DÉBORA SOILO

Muitas pessoas usam a bicicleta para malhar, Altamiro para trabalhar THAÍS JOBIM

Bike Delivery Débora Soilo Que a bicicleta é o meio de transporte mais utilizado da Vila Brás ninguém duvida. Basta dar uma volta na Avenida Leopoldo Wasun para observar o grande número de ciclistas. Morador da vila e proprietário da Lancheria Coma Bem, João Andrade da Cruz, 55 anos, utiliza a bicicleta para fazer entrega de lanches. Natural de Novo Hamburgo, João reside na Vila Brás desde 2005. No mesmo ano em que se mudou para o local, abriu seu próprio negócio. Ele e a esposa, Maria Jorgina Santos da Cruz, trabalham todos os dias da semana e, há cerca de um ano, utilizam a bicicleta para

fazer entregas. “Sou eu mesmo quem levo as encomendas. Começamos com as entregas a pedido dos clientes. A demanda maior acontece durante a noite”, afirmou o comerciante. Os pedidos só são aceitos dentro da vila, e é a esposa de João que explica o porquê. “Não tem como levar para os bairros vizinhos, a encomenda chegaria fria. Os clientes começariam a reclamar”, disse. Pai de oito filhos, João mora com a esposa e mais duas filhas na Vila Brás. Segundo ele, ali é um local tranquilo para se viver. “Não tenho do que reclamar. Gosto de morar aqui, é tudo muito calmo”.n DÉBORA SOILO

Com uma bicicleta, o senhor simpático puxa seu carrinho. Junto, uma caixa de som fazendo divulgações pela Vila Brás. Altamiro dos Santos, 44 anos, é casado, tem cinco filhos e é natural de Vacaria. Morou 20 anos na Brás, atualmente reside no bairro Progresso. Ele está há 20 dias no ramo e mostra satisfação pelo novo trabalho, “Vejo que este trabalho dá bastante retorno, consigo tirar até R$ 80 por dia”, conta. Ele é educador social por profissão, mas está aproximadamente há um mês desempregado e resolveu garantir o sustento de sua família de um modo

diferente e que chama a atenção por onde passa. Começou fazendo propaganda para os cultos da sua igreja. Durante as divulgações, os comerciantes começaram a contratar seus serviços. “Até os motoboys, quando tem muita demanda de serviço, me repassam”, declara. Com o custo de R$ 10,00 a hora, Altamiro percorre todo o bairro, entrando de rua em rua, fazendo seu trabalho. “Em média, faço de uma a duas horas todos os dias, de domingo a domingo”, afirma. Pensando em melhorar o seu negócio, o simpático senhor pretende comprar uma moto no futuro, pois afirma que cansa muito ficar fazendo divulgações pedalando.n

mais aparecem dificuldades. Este é o caso de um casal que está há mais de 20 anos morando na Vila. Apesar dos problemas na coluna e nos joelhos, todos os dias o verdureiro Honório da Silva Almeida, de 60 anos, pedala

mais de 30 quilômetros até Novo Hamburgo para buscar frutas, verduras e refrigerantes para vender em sua banca. Honório, mais conhecido na Brás como Chinês, também faz as vezes de pasteleiro enquanto espera que o seu pedido de aposentadoria seja aprovado. Como diz sua esposa, Cassiana Fontoura da Silva, “a gente tem que fazer de tudo para sobreviver, pagar as contas e cuidar das crianças”. Os problemas financeiros começaram quando Honório foi demitido da transportadora onde era vigia. “Se não tivessem aparecido os problemas de saúde eu poderia estar lá trabalhando”, diz. Como já teve experiências anteriores com comércio, ele decidiu abrir um minimercado, mas logo faliu porque vendia fiado para alguns moradores do bairro. “A gente confia nas pessoas, mas depois elas somem e nunca mais pagam”, lamenta Honório.n

Para o comerciante João Andrade da Cruz, a bicicleta é ferramenta de trabalho


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São Leopoldo, setembro/outubro de 2010

Alimentos frescos em casa Além de possibilitar refeições mais saudáveis, uma horta no pátio pode diminuir os custos com alimentação ANDRÉ ÁVILA

Roberta Roth

U

m passatempo relaxante que ainda garante alimentos para a família. Cultivar uma horta em casa é uma opção para quem tem espaço sobrando no jardim e vontade de ter alimentos frescos quando quiser e por um preço bem mais em conta. Clóvis Francisco da Silva, 51, é aposentado e possui horta há 26 anos. Nela, planta aipim, alface, repolho, tomate, além dos pés de laranja, bergamota e ameixa que tem no jardim. Tudo para consumo próprio. Não é só a família de Clóvis que se beneficia. Aquilo que sobra, ele distribui para os vizinhos e parentes. “A diferença em relação às hortaliças do mercado é que aquelas têm gosto de água”, diz Clóvis. “Aqui eu só uso o produto que precisa. Na minha horta não tem agrotóxico”. Outro “jardim comestível” é o de Edir Dirceu Grazer, de 38 anos. Desde que se mudou para a casa onde mora, há três anos, montou espaço para uma pequena horta. Já plantou aipim, batata-doce, pepino e atualmente colhe salsinha, cebola, alface e chás medicinais. Edir também garante parte da alimentação da família com algo que gosta de fazer. n

Clóvis Francisco da Silva mantém horta e pomar há 26 anos, com laranjeiras, bergamoteiras e ameixeiras Para ter sua própria horta, Edir Dirceu Grazer dá dicas: > > > >

O essencial é ter vontade de plantar e cuidar A terra ideal para o plantio é a preta Regar as plantas no fim da tarde Ter cuidado com a época certa para plantar e colher os alimentos

Rogério Bernardes No mundo competitivo, qualquer centavo economizado pode servir para pagar uma conta logo ali na frente. Com essa intenção, a Lancheria Bom Gosto, localizada na Rua Leopoldo Wasun, vai tocando “a vida” na Vila Brás. No local, para a alegria de seus clientes, é possível comprar um xis salada por apenas R$ 3,00, bebidas a partir de R$ 1,50, por exemplo. Há um ano à frente do negócio, Eva

Buratti, 47 anos, argumenta que nos dias atuais é mais vantagem ter um valor baixo no cardápio e atrair maior clientela: “É melhor cobrar barato e sempre ter freguesia do que ‘regalar’ os olhos e não ver ninguém aqui dentro”. A lancheria vende em média 60 xis por dia. O baixo valor, agregado a qualidade, tem agradado clientes, como José Nilson, 28 anos, trabalhador da construção civil, que encomendou dois xis saladas, para ele e sua mãe almoçarem: “Sempre venho

HARRISON ANDRADE

Lanches que cabem no bolso

Qualidade e preço baixo têm atraído grande clientela à Lancheria Bom Gosto aqui na Bom Gosto, o local é o mais barato da Vila e o atendimento é muito bom”. E a Vila Brás deverá ter

novidade até o final do ano, segundo Zenir Buratti, 50 anos, também proprietário: “Até dezembro,

mudaremos a lancheria para um local próprio”, confidencia, sem disfarçar a felicidade no rosto. n


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São Leopoldo, setembro/outubro de 2010

Negócio de família Leonardo pedroso

Comércio aposta na diversidade Liane Priscila Rodrigues

H

á oito anos o comércio de pequenos utensílios é a fonte de renda e o trabalho do jovem empreendedor Cícero Augusto da Silva. Logo na entrada já é possível perceber a variedade enorme de objetos comercializados: desde maquiagens, DVDs, guloseimas a ferramentas, como pá de cal. Além do proprietário trabalham mais quatro funcionários e que, apesar de não terem grau de parentesco, se tratam como irmãos. A labuta de Cícero, ou Lolinho, como é conhecido na vila, divide-se entre a sexta série do Ensino Fundamental na Escola Municipal João Goulart e as longas e, por vezes, divertidas horas de trabalho no bazar. Segundo ele, esse é o comércio mais procurado e movimentado na Brás e que pretende dar continuidade futuramente. “Era do meu avô, agora do meu pai e um dia também será meu”, afirma o comerciante. Cícero é jovem e gosta de trabalhar. Considera que, por meio de esforço e dedicação, um dia será o futuro dono do negócio. O reconhecimento dos clientes, ele já ganhou. n

Otimista, Cícero representa a terceira geração de sua família à frente do bazar

Para assistir ao futebol

Comércio focado em decoração luana elias

Leandro Vignoli Como nos grandes centros, na Vila Brás tem aquele lugar onde todo mundo se encontra para assistir os jogos da dupla Gre-Nal. E um desses pontos de encontro é o Chuletão Lanches, localizado bem no coração da Rua Leopoldo Wasum. No horário das partidas, ali se reúne uma média de 80 a 100 pessoas, e em dia de clássico Gre-Nal, a lotação passa dos 400 torcedores. A lancheria está instalada na vila há quatro anos, e segundo o proprietário Cláudio Adão do Nascimento, conhecido por todos como o Chuletão, transmitir os jogos foi um pedido dos clientes. “Muita gente não tinha onde assistir o futebol quando só passa na TV a cabo”, afirma. Os pontos altos são justamente essas partidas por canais fechados, em especial do Campeonato Brasileiro. A comprovação veio na final da Copa Libertadores, em que o Inter foi bicampeão. “Como o jogo passou em televisão aberta, não teve movimento”, conta Chuletão, que apesar de colorado, fechou o bar assim que terminou a decisão, preocupado com possíveis arruaças. n Harrison Andrade

Chuletão vazio: muito diferente dos dias de partidas na TV a Cabo

Taísma oferece grande variedade de kits para festas e eventos Hector moraes No variado comércio da Avenida Leopoldo Wasun é possível encontrar lojas de bicicletas, agropecuárias, bares, brechós, locadoras, lojas de presentes e outros tipos de estabelecimentos comerciais. Há pouco mais de um ano, a Taísma – Festas e Eventos passou a fazer parte desse cenário, oferecendo serviços de decoração para festas. Fundada pelo casal Ismael Pereira, 23 anos, e Tainá Pereira, 22, a loja atende, na maioria das vezes, solicitações de festas infantis e aniversários de 15 anos.

Assim como as lojas ao longo da avenida, os preços são muito mais baixos do que os praticados nos grandes centros. A média de valor para cada evento é de R$1.200,00. “O cliente é quem escolhe o que vai querer usar na decoração. Temos flores, toalhas de mesa, balões e bonecos personalizados, por exemplo” afirmou Ismael. A loja trabalha com três eventos por mês, já que somente o casal atende a todos os pedidos. A divulgação é feita apenas na rádio comunitária, mas futuramente a Taísma ganhará um site para melhorar a divulgação e expandir os negócios. n


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São Leopoldo, setembro/outubro de 2010

tamires gomes

Esperança no primeiro voto Jovens da Brás destacam a importância da estreia como eleitores Manuela Teixeira

E

sperança. Essa pode ser a palavra para definir a expectativa dos jovens da Brás sobre as eleições de 2010. No meio de tantos problemas que a comunidade enfrenta, eles refletem sobre a própria responsabilidade e se mostram motivados em ir às urnas pela primeira vez. “É o momento em que posso dar a minha opinião, mostrar o que eu quero”, conta Pâmela Fernanda da Rosa Vianna. A estudante tem 18 anos e se prepara para votar pela primeira vez. Com tantos candidatos e tantos projetos que são apresentados, como escolher? “Ainda não tenho os meus candidatos. Procuro analisar as propostas e ver aquelas que são mais viáveis. Não adianta prometer o impossível”, destaca a jovem. Outra forma é procurar conhecer a

trajetória daqueles que concorrem por um cargo político. Roberson da Silva Veriato tem apenas 16 anos. Embora a pouca idade possa aparentar insegurança na hora do voto, ele se mostra decidido sobre o pleito. “Já tenho meus candidatos. Comparei a história política dos que estão concorrendo. A maioria já ganhou alguma eleição anteriormente”, fala. São muitas as reivindicações sobre as mudanças que a nova geração de eleitores gostaria de ver na Vila. Segurança, pavimentação de ruas, saneamento básico, educação de qualidade e médicos nos postos de saúde estão entre as principais demandas. “Quem não quer melhorias na segurança e nas ruas? É acreditar que algo será diferente o que nos motiva a votar”, finaliza Roberson. Alguém duvida de que esses jovens estão preparados? n

Pâmela exibe o título eleitoral que a levará às urnas pela primeira vez

Eleição consciente

Responsabilidade na urna marco antOnio FILHO

Para Vó Neusa cada voto é importante: “Fiz 71 anos mas vou votar” Marco Rocha

Em época de eleição, a esperança de mudança reacende no coração da maioria dos moradores da Vila Brás. Ainda assim, existem pessoas já desacreditadas de que um parlamentar possa trabalhar em prol do povo e já sem expectativa de melhora de vida. O movimento que tem crescido na Brás é o de conscientização de voto, enfatizando a campanha que foi lançada pelo TSE, alertando a população dos perigos e consequências de vender o voto. Para Aderbal Farias Saldanha, ex-presidente da associação de moradores da Brás, tem crescido muito o número de moradores que pesquisam sobre seu candidato e acreditam em um progresso na Vila,

Aderbal acredita que comunidade hoje vota com mais consciência

mudança essa trazida pela pessoa a qual elegeram para representálos tanto no Legislativo quanto no Executivo. “A cultura de não saber quem é seu candidato está mudando no Brás, as pessoas já se informam mais sobre quem vão colocar no poder”, se entusiasma Saldanha. Para Dona Olga da Silva, o voto é coisa séria, e ela tem se engajado nessa campanha, incentivando moradores a questionar os candidatos e saber das obras que eles já fizeram antes de darem seu voto a eles. Afirma que muitas coisas já foram feitas na Vila Brás, como canalização e algumas construções, alguns cursos profissionalizantes gratuitos foram dados para os moradores. n tamires gomes

As eleições mobilizam o país inteiro. Logo estaremos escolhendo os governantes dos próximos quatro anos. Por essa razão, está todo mundo de olho nos candidatos, para votar consciente no dia 3 de outubro. É o caso do comerciante Raul Danilo Berliez, que acompanha pelos jornais os candidatos e aguarda pelos debates para escolher seu voto. Para ele, é importante se informar para votar consciente. “Tem gente que vota porque acha que o cara é bonito. Mas político e bandido não tem rosto”, afirma.

Outra pessoa na Vila Brás que está atenta aos acontecimentos políticos é Neusa de Castro Dias, a “Vó Neusa”. Mesmo o voto sendo facultativo para pessoas acima de 70 anos, Vó Neusa, que completou 71 recentemente, vai comparecer às urnas no dia 3 de outubro. Para escolher seus candidatos, ela não perde o Horário Eleitoral Gratuito. “Ali tu pode sacar quem está falando sério”, comenta. Para ela, “cada voto é importante”. E dá a fórmula para mudar a situação do país: “As coisas só mudam pela gente. Acompanhando o trabalho deles (políticos) e não votando naqueles envolvidos em corrupção.” n

Miriam Moura


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Vila Brás

Sãosetembro/outubro Leopoldo, XXXXXXXX de 2010 São Leopoldo, de 2010

Precisam-se de grafiteiros Para evitar os ataques dos pichadores, igreja inova buscando artistas voluntários para desenhar em sua fachada Sabrina Schonardie CRISTIANE ABREU

Sede da comunidade católica Cristo Operário na Vila Brás é alvo dos pichadores

Jovens missionários TARCÍSIO BERTIM Três meninos entre 11 e 13 anos contrariam a realidade que, geralmente, esperase dos jovens de lugares humildes. Eles percorrem a Vila Brás todo sábado pela manhã de terno e Bíblia na mão. Eles entregam panfletos com passagens bíblicas e apregoam as Boas Novas. São pequenos missionários locais tentando fazer a diferença na sua própria comunidade. Vinícius, 11, Bruno, 12 e Henrique, 13 anos, religiosamente podem ser encontrados nas manhãs de sábado de um lado a outro pela Rua Leopoldo Wasun. Segundo os garotos, esta iniciativa não foi influência dos pais ou líderes espirituais. Partiu deles mesmos, pois “queriam ajudar

na obra de Deus”. O que mais impressiona, não é o trabalho feito pelos meninos, mesmo na realidade em que vivem; e sim, a lucidez com que enxergam a própria fé: crêem que, através de suas palavras, Deus toque nas pessoas para que tenham vontade de ir à igreja. Os três são membros da Igreja Evangélica Deus é Amor, mas não têm nada contra outras instituições. A mensagem que procuram passar é a de Salvação por meio de Jesus Cristo. Os pequenos missionários pretendem mudar a realidade social dos moradores e jovens através da evangelização que, segundo eles, dá frutos: “Dessa forma, já levamos pessoas para Jesus”.n

N

as fachadas e muros das cidades, as pichações são tão comuns que já se tornaram parte da paisagem urbana. Na Vila Brás, isso não é diferente. Nem as igrejas foram poupadas. Uma das mais rabiscadas é a fachada da Comunidade Católica Cristo Operário, que, após diversas pinturas, receberá uma nova proposta visual: o grafite. A idéia só não foi posta em prática por falta de voluntários. A iniciativa é uma parceria da secretaria da igreja com o Grupo Explosão da Dança, cuja sede é emprestada pela igreja e fica no mesmo pátio. Segundo Graciela de Oliveira Souza, professora de dança do projeto, optou-se pelo grafite, pois as paredes apenas pintadas não são respeitadas, já os desenhos são preservados. Há menos de um ano toda a igreja e a sede haviam sido repintadas de verde. Infelizmente a pintura nunca dura muito. “A gente tenta fazer alguma reforma, tá meio difícil, mas tentamos”, disse Joelma Lencina Betinardi, secretária da igreja. Os grafiteiros que quiserem colaborar com a criação da nova fachada da Comunidade Católica podem mandar e-mail para graamodancar@pop.com.br ou ir ate a secretaria na Avenida Leopoldo Wasun, número 779. O grafite deve ter imagens preferencialmente religiosas.n

MAURÍCIO RODRIGUES

Todo sábado pela manhã, Vinícius, Bruno e Henrique evangelizam os moradores


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São Leopoldo, setembro/outubro de 2010

A rosa dos orixás Aos 14 anos, sofrendo de ameaça de aborto do primeiro filho, Rosa Rodrigues não imaginava que teria seu destino revelado pela espiritualidade Simone Núñez Reis

H

á 45 anos, quando pisou num terreiro de Umbanda pela primeira vez, entrando

em transe mediúnico, Rosa Carvalho Rodrigues sequer imaginou que a crença africana a transformaria em Mãe Rosa. Ela é fundadora

do Centro Afroumbandista Mensageiro de Ogum BeiraMar e Iemanjá, localizado na Rua 14 Bis, número 808, na Vila Brás, onde reside com

seus quatro filhos. Aberto para pessoas de todas religiões, a casa conta com 35 filhos-desanto, entre moradores e não moradores da Vila Brás. daniel NUNES

“Caô Cabeçilê”: no centro umbandista fundador por ela, na Vila Brás, Mãe Rosa saúda os orixás em dialeto nagô

A “ialorixá” recorda que desde a inauguração do espaço, nunca percebeu intolerância religiosa pela vizinhança evangélica e esclarece, que a origem da palavra Umbanda é herança dos escravos do passado, que proibidos de participar das missas dos sinhozinhos, criaram sua própria religião. “Somos brancos, mas carregamos o sangue do negro, pois todo o seguidor da umbanda veste-se de pele negra também”, enfatiza. Após um gesto de saudação aos orixás, a mãe-de-santo acredita desempenhar papel positivo na sociedade ao atender portadores de conflitos emocionais, espirituais, dependência química, depressão, Aids e câncer. Devota dos “caboclos e pretos-velhos”, esclarece que gerenciar um centro umbandista exige conhecimento de licenças e alvarás para “cortes” de aves e quadrúpedes utilizados nos rituais afro. “As comidas dos orixás, são feitas com galinha de angola, cabritos, patos e pombas e nossas festas não podem ultrapassar às duas da madrugada, pois somos filiados na Federação Afroumbandista e Espiritualista do Rio Grande do Sul (Fauers)”, explica. n

Luan Iglesias Quem pisa pela primeira vez na Vila Brás pode não se dar conta de que, embora o local seja marcado por casas humildes, de solo maltratado pelo transporte improvisado de carroças, bicicletas e veículos, a vila apresenta histórias reais, de personagens muitas vezes ignorados pelo olhar rotineiro. É comum cruzar na rua com uma jovem de 18 anos, como Daniela da Silva, sem aguçar a curiosidade para a função que ela desempenha no ambiente em que vive. Com os dedos

entrelaçados, ela aparenta um misto de sensações e sentimentos: era nervosismo, era alegria. Há poucas semanas Daniela se tornou uma das voluntárias da Pastoral da Criança: “Olha, eu tenho cinco irmãos, eu gosto muito de criança”, conta. Mas o gosto pelos pequenos não foi decisivo para o trabalho que realiza: bater de porta em porta e descobrir casos de crianças que necessitam de ajuda na área da saúde, alimentação, educação e cidadania. O que ela faz, poucos de fora da comunidade estão dispostos a cumprir: dar, a quem

Fabiana ELEONORA

O olhar da solidariedade

Daniela da Silva demonstra satisfação por ser voluntária na Pastoral da Criança precisa, o direito à qualidade de vida. “A minha expectativa é que eles (as crianças) não estejam precisando tanto de ajuda”, revela a jovem que se casou aos 15 anos

e desde cedo assumiu uma maturidade aparentemente incompatível com a pouca experiência de vida. Mas se idade não serve de parâmetro para

ações sociais, o olhar de Daniela não esconde a sua realização: “Pra gente, ver aquele rostinho feliz, sorrindo, nossa... é muito bom”, se emociona. n


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São Leopoldo, setembro/outubro de 2010

O Michael Jackson da Brás FOTOS suÉlen dal’agnon

“Da Hora” ou Michael é considerado o melhor dançarino da Vila Brás

Morador é conhecido por se apresentar com o nome do Rei do Pop ELLEN MATTIELLO

C

om a idade de Cristo, popular, carismático e querido por muitos, ao perguntar o seu nome responde apenas: “Michael Jackson”. No entanto, é conhecido como “Da Hora”, apelido mencionado pela comunidade ao caminhar pelas ruas. Sua casa encontra-se estacionada na Avenida Leopoldo Wasun, a principal da Vila. Ela não reúne móveis, aconchego ou conforto. Apenas dois bancos, um volante e o espaço necessário para dormir. Sim, ele “habita” uma Kombi, cedida por um comerciante. Com um jeito simples e descontraído, “Da Hora” conquistou grande parte dos moradores. Suas coreografias

são muito conhecidas na Vila Brás, pois tem o hábito de imitar o Rei do Pop. Realiza pequenos trabalhos na comunidade, como cortar grama e varrer calçadas. O pagamento é feito com lanches, mas geralmente cobra R$ 3, valor do ingresso para o baile funk que costuma frequentar. “É um cara legal, educado e trabalhador. Todos gostam dele”, conta a comerciante Viviane de Barros. “Da Hora” afirma que gosta da Vila Brás e que seu apelido surgiu da fama de bom dançarino. Sobre o futuro, pretende resgatar suas raízes. “Quando fizer 40 anos, vou sair aqui da Brás e voltarei pra São Luís Gonzaga. Estarei bem velhinho”, comenta. n

Rafael Soares Martins O vidro é talvez o único material 100% reciclável. Encantador pelas formas que assume, impera há séculos como matériaprima de garrafas, taças, vasos. Mas quem diz que é necessário destruir garrafas de vidro para fazer novas peças? Para o artesão Alcides Mattos, morador da Vila Brás, é mais simples transformá-las diretamente em copos ou taças, das mais variadas formas. São 20 anos de trabalho com garrafas e uma vida construída na reciclagem. Hoje, quatro pessoas trabalham no comércio que vende de três a seis mil peças por mês e abrange cidades do Rio Grande do Sul,

Santa Catarina, Paraná e as fronteiras com a Argentina, Uruguai e Paraguai. Os copos são confeccionados na garagem da residência, e Alcides trata de fazer as entregas de cidade em cidade. “No ano que vem, agora, vai fazer 20 anos que eu só mexo com garrafa. Há 10 anos estabeleci o comércio aqui, mas sem perder os clientes da fronteira. Enquanto estamos fazendo os copos, a gente liga para as lojas, daí quando tiver uma quantidade boa, eu saio a entregar. Hoje saio de mês em mês, mas teve época em que tinha que viajar de duas a três vezes por mês. Com a venda de copos, comprei a casa onde moro, o carro e um caminhão, que agora troquei pelo reboque, que uso para

LUANA ELIAS

Vidros ganham design ecológico

Alcides Mattos produz peças originais e criativas a partir do vidro reciclado fazer as entregas, porque é melhor viajar de carro”, concluiu Alcides. O trabalho é destinado a lojas de 1,99 e capetarias. A procura em restaurantes e pizzarias ainda é fraca, devido à concorrência com os fabricantes de copos. Sobre

a hipótese de trabalhar com vendas online, Alcides abdica, pelo menos no momento, porque não tem domínio do computador. O artesão oferece algumas dicas do processo, como a escolha da garrafa e precauções para trabalhar com vidro,

ferramentas, corte e acabamento. “Existem várias técnicas para cortar o vidro, mas algumas são mais simples para se fazer em casa, sem a necessidade de equipamentos caros ou coisas impossíveis de se encontrar ou improvisar.”n


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São Leopoldo, setembro/outubro de 2010

Adolescentes planejam a chegada dos 15 anos Lílian Stein

D

iscoteca no salão da Associação, torres de taças de champanhe, vestido rodado e muitos presentes. O esperado dia em que se completa 15 anos mexe com a imaginação das meninas da Vila Brás. Giovana Dornelles tem apenas 11 anos, mas já faz planos para o importante dia: “Quero uma grande festa na Associação. Meu vestido vai ser branco e lilás, e vou entrar com a música da Mariah Carey, que tocava na novela”. Com as amigas Cássia Vilanova Franco e Franciele da Silva, Giovana fala das festas na Vila: “As grandes são na Associação e vão até

tarde. A maioria termina às 2h, mas tem festa que vai até as 4h”. Cássia já completou 15 anos e não fez festa, mas diz que o aniversário rendeu presentes e uma comemoração surpresa na escola: “Ganhei um bolo”. São os amigos da escola que Franciele espera ver na noite de seus 15 anos, em 2013. As despesas serão bancadas pelos parentes.“Não vou escolher nem a cor do vestido, vou ganhar tudo dos meus familiares”, conta. O sonho de ser princesa por uma noite faz parte da vida de muitas meninas. O importante, com ou sem festa, é comemorar e fazer com que a chegada dos 15 anos seja inesquecível. n

ANA PAULA FIGUEIREDO

Debutantes da Brás sonham com festas incrementadas

Cássia, Giovana e Janaína com as amigas Renata e Franciele Gonçalves Moreira

O clube do carteado EDUARDO NOZARI

Saúde e artesanato geram renda cECÍLIA MEDEIROS

Aproximados pela canastra, os amigos apostam guloseimas e refrigerantes Vanessa Lopes Ramos

No ateliê do posto de saúde, artesãs criam acessórios

EDUARDO NOZARI

A cada semestre, a comunidade da Brás surpreende os alunos de redação experimental em Jornal com belas histórias. Durante uma visita, encontrei algo que me chamou a atenção. Na rua Leopoldo Wasun, avistei uma varanda onde um grupo de senhores concentravam-se numa partida de cartas. Formado por aposentados, o “clube de carteado” se reúne no mesmo local há cinco anos para praticar seu hobby: jogar canastra. O grupo, que começou com duas pessoas, hoje possui 30 membros da Vila Brás, que revelam os motivos pelo qual se encontram até hoje: Diversão e bem estar nas

horinhas que passam jogando, nas quais esquecem as dificuldades do cotidiano. Esbanjando bom humor ao contar histórias de vida, o carpinteiro Jurandir Alves de Mello conta que chegou na Vila Brás há 20 anos. “Todos os meus filhos já casaram e vieram morar aqui”, comenta. A organização dos amigos fez com que criassem regras: “Só aposentado pode jogar e ficar para o churrasco. Também não pode apostar dinheiro nas partidas, só rapadura, refrigerante ou cerveja”. O “clube” zela pela amizade e companhia uns dos outros. “Queremos saúde para todo mundo, mais nada”, enfatiza Almiro Alt, após boas risadas junto aos companheiros.n

O Posto de Saúde da Vila Brás encontrou um jeito diferente de ensinar cuidados com higiene, saúde e educação para as moradoras da comunidade. Todas as quartas feiras promove um curso de artesanato em que elas aprendem a confeccionar peças variadas. O resultado do trabalho pode ser vendido para ajudar na renda familiar. Entre “fuxicos” e “patchcolagens”, a agente comunitária de saúde passa orientações sobre cuidados como exames ginecológicos ou a contracepção. Conforme a médica Lisiane da Silva, “elas aprendem a cuidar delas próprias, melhorando a autoestima”. O projeto começou há dois meses com muitas dificuldades. Certo dia, um senhor foi

até o local fazer uma doação de tecidos. Foi o impulso que faltava. Dileta Silveira, uma das alunas do curso, achou a idéia muito boa para sair do estresse do dia a dia. Já sua colega Enelina Dorneles estava feliz, pois muitos dos produtos por ela confeccionados já tinham sido vendidos. Enelina chegou a ganhar num dia R$ 50. A médica Cíntia Marques de Quadros, coordenadora do posto, estava entusiasmada: “Ver as mulheres que antes do projeto tinham depressão e agora estão felizes, não tem preço” afirma. A equipe de artesanato funciona todas as quartas das 14h as 16h30. As interessadas podem procurar o posto de saúde da Vila.n


vilabrás

Enfoquinho

São Leopoldo, setembro/outubro de 2010

Produção: Ellen Mattiello Desenhos: Eduardo Herrmann

O som que toca a vida Promoção da Orquestra Unisinos, o programa Vida com Arte oferece iniciação musical para jovens

A

música é um instrumento de inclusão social. Na Vila Brás, a família da Silva acredita muito na força do projeto Vida com Arte, que há mais de um ano proporciona aulas de música para crianças de comunidades carentes. Márcia Maria Rosa da Silva é moradora da Brás há oito anos. Mãe de

Eraldo Fabiano Rosa da Silva e de Igor Gabriel da Silva Brodt, ela se mostra muito satisfeita com a participação dos filhos. “É muito importante para eles a oportunidade de adquirir novos conhecimentos no Vida com Arte”, explica Márcia. Na opinião de Igor, entrar para o programa melhorou seu desempenho na escola devido ao aprendizado adquirido com

os instrumentos musicais. Já Eraldo interessou-se pelo projeto devido ao incentivo do irmão. “O Igor foi o primeiro da família, e devido à empolgação, o Eraldo também quis fazer parte”, conta Márcia. Igor participa do Vida com Arte há quase um ano e está aprendendo a tocar viola. Eraldo começou há poucos meses e toca contrabaixo.n

Descubra o nome dos instrumentos musicais usando a primeira letra de cada símbolo Respostas: 1) Piano 2) Violino 3) Contrabaixo

Guilherme Möller


Enfoque Vila Brás – Ed. 123