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E N T R E V I S TA C L ÁU DI A VA R E JÃO

gostava de ir ainda mais longe. Quero Acho que é um retrato extremamente contar uma história, não estou preocu- contemporâneo. Embora, se retirássepada se manipulo ou não a história, é o mos esses elementos tecnológicos, de meu ponto de vista. Queria muito con- facto, não havia referência temporal. tar a história destas mulheres, dirigi-as Mas havendo, acho que retrata o moalgumas vezes, mas na maior parte do mento histórico que todos estamos a tempo é espontâneo. Houve algumas viver: agarramos a tradição ou evoluícenas que pedi para acontecerem, como mos? Seguimos em frente e esquecemos a cena do fogo-de-artifício, embora seja o passado? As Ama-San vivem esta duaalgo que costumam fazer. lidade. Por exemplo, já não mergulham O trabalho das Ama-San é algo extraor- nuas, isso já não é permitido, usam fadinário, pela sua dureza e dificuldade. tos de borracha. Usam o telemóvel para Mas estas mulheres são no fundo iguais saber como vai estar o tempo, embora a tantas outras que lutam todos os dias as mais velhas ainda se guiem pelo venpela família. Esta é também uma histó- to ou pelas nuvens. O número de Amaria universal? -San está a descer radicalmente, porque O extraordinário nas Ama-San é que é uma profissão sazonal, muito dura e elas conseguiram subverter a posição perigosa, muitas morrem. As novas geda mulher. Num país onde a figura fe- rações não querem arriscar. minina é a gueixa, suAma-San ganhou o prébalterna, submissa, as mio de melhor filme da Ama-San ganharam um O DOCUMENTÁRIO competição nacional no poder, que levou inclu- É SEMPRE UMA FICÇÃO Doclisboa este ano, assive a que os homens, DE ALGUÉM. sim como outros prémios nos anos 40, 50, 60, não A MIM INTERESSA-ME em festivais internaciotivessem que trabalhar ESBATER ESSAS nais. O que representam porque elas sustenta- FRONTEIRAS. para si estes prémios? vam toda a família. Esta Representam sobretudo é uma tradição que está a que estamos a trabalhar desaparecer, mas as que no caminho certo. Às vecontinuam têm um orgulho e um poder zes o trabalho no cinema é tão solitário, quotidiano que lhes dá uma certa liber- principalmente para os realizadores, dade. Isso fascinou-me. Elas são tão frá- por vezes não sabemos se estamos togeis como fortes. Algo que encontramos linhos ou a caminhar no sentido certo. nas mulheres de uma forma geral. Esta Os prémios representam só isso, não há é também uma história universal. Tam- vaidade que se sobreponha a isso, que é: bém procuro isso no cinema. O cinema continua. Há um grupo de pessoas, um quando é universal comove-nos. júri, um público que gostou também, A câmara filma vários objetos tecno- portanto estamos juntos e isso é muito lógicos e de consumo que nos remetem bom. para os dias de hoje, se não fossem esses As Ama-San já viram o filme? elementos (tablet, telemóvel, coman- Já viram o filme e escreveram-me, com do da televisão, karaoke) esta podia grande emoção, a dizer que gostaram e ser uma história de há cem anos atrás. que consideram o filme uma celebração Pretende demonstrar que esta é uma co- da vida. Achei muito bonito. munidade dividida entre a tradição e a Ver página 50 modernidade?

Agenda Cultural Lisboa | janeiro '17  

Em 2017, Lisboa será a Capital Ibero-americana de Cultura, um evento que trará a cerca de 40 equipamentos culturais e às ruas de Lisboa, exp...

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