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E N T R E V I S TA J O R G E SILVA M E LO

Falando agora de A Noite da Igua- 20 anos depois da derrota do nazismo, na. Porquê escolher esta peça que, por tenha “criado” esse grupo de nazis num sinal, nasce de um conto que Williams texto que parece ser, sobretudo, sobre pessoas em exaustão. escreveu na década de 1940? De todas as peças que levámos à cena É uma característica do seu teatro. Ele é a menos estudada. E é radicalmente adora colocar os torturados e amargudiferente do conto que escreveu numa rados ao lado de personagens grotescas pensãozinha boémia do México, mer- (repare-se nas criancinhas da Gata ou nos gulhado num estado de profunda de- fascistas do Doce Pássaro). Ele chamavapressão. Em 61, o autor desenvolve a -lhe “caricaturas à Hieronymus Bosch”. peça, recuperando a atmosfera descrita Essa presença do grotesco, ainda mais e uma personagem, uma puritana que nestes dias que vivemos, dará, de certo passa férias na pensão, tendo escrito, ao modo, uma nova atualidade ao teatro que se sabe, umas quatro versões. A que de Williams? Ou, para ser mais preciso, usamos é a que faz parte do espólio da será que ainda é um autor atual? É datado. Mas Bach não é rock, é datado, Library of America. Em 1964, John Huston adapta a peça e continuo a necessitar dele. Mozart, que ao cinema, num filme protagonizado ouço quase todas as noites, também não por Richard Burton, Ava Gardner e De- vestiu jeans e ainda bem… Não sou doido borah Kerr. Apesar de críptico, o filme pelo contemporâneo, até porque acredinão revela essa “desorto que todo o teatro o é ganização” que parece desde que representado. marcar a maior parte TENNESSEE WILLIAMS Uma das coisas bonitas FOI O MAIOR das obras de Williams… do teatro é, precisamenComo referi, os filmes são CRIADOR te, sentarmo-nos numa sempre diferentes das pe- DE PERSONAGENS sala e ouvirmos vozes de ças e A Noite da Iguana não DO TEATRO DO antes, de agora, de longe é exceção. Aliás, esta peça SÉCULO XX. e de sempre. é muito desequilibrada, Como em todo o teatro de talvez porque quase toWilliams, os protagonisdas as personagens estão em exaustão, a tas são personagens sempre fascinantes começar pelo protagonista, o Shannon, e e que, como o Jorge já referiu, fazem as acabando na galeria de personagens cur- delícias de qualquer ator ou atriz. Aqui, tas. A ação passa-se em 1940, ao contrário teremos Nuno Lopes, Maria João Luís e do filme, que a remete para os anos 60 e Joana Bárcia a interpretar o trio prosuprime o grupo de turistas alemães que tagonista… Williams usa para fazer o contraponto Os atores é que são decisivos para fazer entre os que vivem uma crise existencial esta peça e, diga-se, são a minha grande e uma Europa que se destrói – a Noite motivação para a encenar. O que é mais do título é, precisamente, a do grande belo no Tennessee Williams é essa capabombardeamento a Londres, que aquele cidade extraordinária de construção de grupo de nazis comemora na pensão me- personagens capazes de serem identifixicana à beira-mar. Aliás, o que se torna cadas por qualquer um de nós fora das crucial na peça é essa ideia de um mundo peças. Diria mesmo que Williams foi o exangue que não consegue lutar contra o maior criador de personagens do teatro fascismo crescente. do século XX. Não deixa de ser surpreendente que Williams, tendo escrito a peça quase Ver página 75


Agenda Cultural Lisboa | janeiro '17