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ENTREVISTA

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JORGE SILVA MELO

A Noite da Iguana FREDERICO BERNARDINO

Nos últimos dois anos, Tennessee Williams tem sido uma espécie de autor fetiche de Jorge Silva Melo. A Noite da Iguana segue-se às produções de Gata em Telhado de Zinco Quente (2014), Doce Pássaro da Juventude (2015) e Jardim Zoológico de Vidro (2016). Provavelmente, e como nos confessa, é a última peça que o encenador e diretor dos Artistas Unidos leva à cena com a assinatura do dramaturgo norte-americano. Estreia a 19 de janeiro, no Teatro São Luiz. Como surgiu este fascínio pelas peças de Tennessee Williams, autor que até há um par de anos nunca tinha encenado? Não diria que tenha sido um fascínio súbito, mas, na verdade, nunca pensei em encenar Tennessee Williams. Só quando percebi que os meus atores, e aqueles de quem gosto, estavam aptos a fazê-lo é que tomei a decisão de o fazer. No fundo, pus-me ao serviço desse elenco (a Maria João [Luís], o Rúben [Gomes], a Catarina [Wallenstein], o Américo [Silva] ou a Isabel Muñoz Cardoso) que ambicionava muito fazer Tennessee Williams. O que é que este autor tem de tão especial para os atores? São papéis complexos com que muitos

dos atores, legitimamente, sonham, e nem sempre é fácil surgir a oportunidade de os fazer. E para o encenador? Que motivações acrescidas surgiram? Pensei, desde a Gata, que era importante devolver Tennessee Williams ao teatro. A maior parte das pessoas conhece estes textos através das adaptações ao cinema que, apesar de muito interessantes, são muito, muito distanciadas das peças. Ao mesmo tempo, há um lado desorganizadíssimo nas suas peças, a par dos seus ritmos e pulsares… Gore Vidal chegou a confessar-se surpreendido pela forma como ele escrevia e reescrevia constantemente as peças. É a essa desorganização a que se refere? Williams era um indeciso permanente, com muita vontade de agradar! Consta que vivia, antes da estreia de cada peça, um voraz nervosismo que o levava a escrever novas cenas e a impor alterações momentos antes de os atores subirem ao palco. Margaret Leighton, que fez o papel de Hannah em A Noite da Iguana aquando da estreia na Broadway, conta isso mesmo. Essa desorganização, resultante do homem atormentado que era, acaba, no fundo, por surpreender quando estamos a trabalhar o texto.


Agenda Cultural Lisboa | janeiro '17