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INVASÕES INDÍGENAS Problema causa insegurança, gera instabilidade social, inibe investimentos e põe em alerta parte da população de Guaíra e região.


De Guahyrá a Guaíra, multiculturalidade marca cidade Desde o início Guaíra teve um diferencial, um punhado de etnias que compõem um rico mosaico cultural

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A história da região de Guaíra se confunde com a história da América do Sul.

história do que hoje entendemos como Guaíra compreende três grandes momentos. O primeiro deles data da época do primeiro contato entre os europeus e os nativos índios da etnia guarani, que viviam em abundância por toda essa região. Em 1557 foi fundada a Ciudad Real Del Guayrá, na confluência dos rios Piquiri e Paraná, área que hoje pertence ao município de Terra Roxa. Após 74 anos de administração dos Jesuítas espanhóis, vieram os bandeirantes e destruíram tudo. um grande hiato surge a partir de então. A região do Guairá de povoada passa a deserta e o que dela sobra são apenas as ruínas da antiga cidadezinha espanhola. Séculos depois, após o término da guerra do Para-

guai, a região voltaria a ser povoada. A Companhia Matte Laranjeira constrói na margem do Paranazão o Porto Guaíra, fundamental para o escoamento da erva-mate vinda do Mato Grosso do Sul com destino à Argentina. São décadas de domínio da companhia até que o governo brasileiro de Getúlio Vargas encampa o patrimônio da empresa e incentiva o povoamento das áreas então pouco habitadas no Brasil. Era a Marcha para o Oeste na versão tupiniquim. E é exatamente neste período que surge o terceiro momento de nossa história: a chegada dos desbravadores e pioneiros que vieram construir a vida na cidade e a emancipação política do município. São descendentes de italianos, portugueses, alemães, japoneses, árabes. Um punhado de et-

nias que compõem o rico mosaico de culturas. Este sempre foi um dos grandes diferenciais de Guaíra. As poucas famílias indígenas que prestaram serviços para a Matte em Guaíra (ao contrário do Mato Grosso do Sul, onde a mão-de-obra indígena foi mais explorada por conta do grande número de nativos que até hoje povoa o estado), continuaram a dar a sua parcela de contribuição. Assim como todos os outros brasileiros que aqui chegaram em busca de uma vida melhor. São gerações de guairenses que aprenderam a reconhecer esta terra como parte de sua identidade. Se no passado o extermínio de indígenas no Guairá foi algo digno de nota na historiografia nacional, é válido lembrar que em muitos outros momentos Guaíra sofreu com outros episódios amargos

em sua trajetória. Perdas irreparáveis. O confronto entre os guairenses nativos e agricultores é apenas mais um episódio lamentável. É justo que se permita uma nova página triste em nossa história? É justo negar a contribuição de todas as etnias em favorecimento a apenas uma? Os agricultores não são contra a criação de uma reserva indígena, desde que isso seja feito em uma área pública, não em terras invadidas e produtivas, como se tornou prática comum na região, tornando iminente o risco de confronto. Isso deve ser levado em conta também. Por que quem faz – e fez– Guaíra são as pessoas. Os guairenses de todas as culturas: a negra, a branca, a amarela, a vermelha. Não existe Guaíra sem esse conjunto. Que os guairenses possam continuar a viver em harmonia, sob a proteção do estado de direito, e que as autoridades responsáveis cumpram com seu papel institucional de preservar a ordem pública e garantir direitos constitucionais consagrados, porque neste triste episódio que a classe produtora da região vem vivenciando injustamente, o fator que gera a intranquilidade e a violência no campo é justamente as invasões destas dezenas de áreas particulares. As consequências que estes fatores acarretam são decorrentes da omissão daqueles que deveriam estar zelando pelo bem estar dos indígenas.


“O cacique me mandou procurar a justiça”, revela agricultor Agricultor espera solução para o impasse e que seus direitos também sejam garantidos.

Simião Neves e sua esposa querem os seus direitos constitucionais preservados.

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uando o proprietário do famoso Supermercado Neves resolveu abandonar o ramo comercial para se dedicar à vida no campo, ele não imaginava o quão delicada ficaria a sua situação. Nascido em Miraí/MG, Simeão Lopes Neves passou por Santa Tereza do Oeste/PR, Paranhos/ MS até se estabelecer em Guaíra no ano de 1982. O pequeno empresário ganhou a vida aqui: seu mercado cresceu, ganhou popularidade e Neves passou a participar ativamente da vida social de Guaíra, tendo sido inclusive candidato a prefeito em duas oportunidades. Com o passar dos anos, veio a vontade de abandonar o lado comercial para se dedicar à agricultura. A propriedade, de 241 hectares, comprada há 20 anos, passou

a ser então a principal fonte de renda da família. Tudo parecia dentro da normalidade, até que a invasão indígena o alcançasse em março deste ano.

rar a justiça”, recorda. O pedido foi acatado. Mas a invasão ganhou ainda mais força, para desespero do agricultor. “Quando entrei na justiça, encheu de índio

deixamos o ramo comercial para nos dedicarmos exclusivamente à agricultura. Antes eu me sentia muito bem indo até lá trabalhar. Depois que invadiram, já perdi várias noites de sono. Para falar a verdade, já fui ameaçado, quase fiquei refém durante uma de nossas conversas. Nós cumprimos com todas as nossas obrigações, as terras são produtivas e pagamos altas taxas de impostos. Durante 30 anos eu trabalhei no comércio, nunca tirei férias, sempre fiz investimentos com responsabilidade, na esperança de deixar algo bom para os nossos filhos e pensando numa velhice mais tranquila. E é por isso que eu lanço a pergunta: é justo a gente que sempre trabalhou para cumprir com as obrigações ficar passando por este constrangimento?”, indaga. Questionado sobre o que espera para o desfecho do caso, Neves é enfático: “Quero saber dos meus direitos, se a Constituição vale alguma coisa, porque eles estão demarcando a terra e é a justiça quem deve decidir”, conclui. Mapa das Invasões

De uma pequena mercearia, a família neves cresceu e conquistou com o trabalho um lugar de destaque na sociedade.

“Os índios alegam que ali foi um antigo cemitério indígena, mas nunca ninguém provou nada. Quando houve a invasão, fui falar com o cacique e ele me disse para procu-

vindo do Paraguai. Cada vez que a gente visitava aparecia uma nova casa”, afirma. Neves relata a experiência como traumática. “Já têm oito anos que


Empresa espera o direito de utilizar o seu próprio imóvel Nem a ligação histórica com o município de Guaíra impediu que a propriedade da antiga Cia Mate Laranjeira fosse invadida.

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A Companhia Mate Larageira teve uma importante participação da histótia de Guaíra.

alar da história de Guaíra e não mencionar a Companhia Matte Larangeira é praticamente impossível. Há exatos 110 anos a empresa foi a responsável pela colonização do município, no início do século passado e surgiu de uma concessão imperial ao comerciante Thomaz Larangeira pelos serviços prestados na Guerra do Paraguai. Tendo como principal atividade a extração de erva-mate, a companhia utilizou mão de obra argentina e paraguaia, além dos serviços dos índios das etnias kaiowá e guarani. Se no passado a relação com os índios ocorreu em forma de trabalho, agora o cenário é diferente. Dois grupos indígenas invadiram a propriedade da Companhia (que está hoje com sua sede no Mato Grosso do Sul) nas proximidades da Vila Eletrosul. Segundo o advogado

contratado pela empresa, João Fernando Grecillo, a ação indígena está prejudicando as áreas de preservação. “A primeira invasão ocorreu em 2010 numa área de

de reserva legal. Conseguimos uma liminar que impede os índios de outros atos predatórios, mas ainda aguardamos a decisão judicial para a reintegração de posse”,

(Plataforma Logística de Guaíra), projeto que o município está pleiteando junto ao Governo Federal. “Eles assentaram numa área do município e se estenderam para uma área da Matte. A administração municipal não adotou medida nenhuma. Só a Matte entrou para defender os seus interesses privados. O município em si, que teria maior interesse por ser a área do porto, a rigor ainda não ajuizou nenhum tipo de medida até onde tenho conhecimento”, alerta. Ainda de acordo com o advogado, a ocupação é recente e sem precedentes. “Essa propriedade, que foi invadida em duas partes, possui 1.122,20 hectares. Um imóvel adquirido pela companhia em 20 de abril de 1918. Pelo que se sabe, jamais houve caso parecido, ou mesmo discussão sobre isso. Desde 20 de abril de 1918 que a Companhia Matte Larangeira possui a propriedade de forma mansa e pacífica, sem qualquer tipo de reclamação ou questionamento neste sentido. O que ocorreu foram essas invasões recentes”, informa.maioria das terras invadidas são pequenas propriedades”, analisa. Mapa das Invasões

João Grecillo, advogado da empresa: “O real interesse dos proprietários é fazer jus ao seu direito de propriedade”.

preservação permanente, à margem do rio Paraná. Houve queimadas e derrubada de árvores. A segunda invasão, na outra ponta da propriedade, aconteceu agora em abril de 2012, numa área

afirma. Grecillo também revela que a área ocupada compreende a parte do que a companhia doou para a prefeitura, vislumbrando a criação do Porto Intermodal de Cargas


Invasões não respeitam nem reservas ecológicas particulares Destruição de reservas particulares está acabando com o cinturão verde que circunda o município de Guaíra. divulgado esse negócio de preservação que a coisa que mais me estranhou na época foi isso”, revela. Destruição da Mata

A Chico, como é conhecido, alerta para os crimes ambientais que estão sendo cometidos.

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preocupação com o meio ambiente é um tema de apelo mundial. Guaíra, uma cidade que foi abençoada pela natureza e que já teve perdas irreparáveis neste campo com o fim das Sete Quedas em 1982, mais uma vez passa por uma situação delicada no assunto ecologia. Segundo Eugenverner Durts, o mais estranho é que são os “filhos da floresta” os responsáveis pela derrubada indiscriminada de árvores em sua pequena reserva legal. Chico, como é conhecido, vendeu um pequeno posto de gasolina em Iporã para se estabelecer no Paraguai. Em 1992, aproveitou uma concorrência pública para comprar uma terra vendida pela antiga Eletrosul. A propriedade possui 80% de área preservada e é um corredor verde que faz conexão com o Parque de Ilha Grande. “A propriedade tem 27,6 hecta-

res e só utilizamos 20% disso tudo. O resto é um corredor verde e quando comprei eu já sabia que não poderia mexer na mata. Por ali, passam capivaras, já vi tatu e até

rei as autoridades quando percebi que os índios estavam derrubando as árvores. Eu procurei para que eles parassem de destruir, mas na verdade nem o IAP, nem o

Com um pedido de reintegração de posse desde 2010, Chico não se conforma com a destruição do espaço. “O que mais me magoou, o que mais me deixou revoltado é a destruição da mata. A minha família trabalhou com serraria. Então quando eu comprei essa propriedade o que eu queria mesmo era preservar essas árvores para sempre. É um sonho que eu tinha, deixar essa mata intacta. A gente pensava em fazer trilha para educação escolar e tudo isso está sendo destruído. Os índios estão derrubando tudo. Esse era o meu principal sonho, não a exploração e sim a preservação da mata”, afirma, emocionado. “Espero que seja resolvida essa questão o mais rápido possível. Se os indígenas tem o direito, que se desaproprie uma área, mas que seja uma área que condiga com a quantidade de indígenas. Hoje já temos 7, 8 grupos de índios e a maioria das terras invadidas são pequenas propriedades”, analisa.Ugitaepe ex Mapa das Invasões

Além de intimidar, índios alteram ecossistema local, derrubam mata, destroem fauna e dizimam animais do seu habitat.

bugio”, diz. Para ele, a invasão indígena tem causado danos inaceitáveis à reserva. No entanto, todos têm assistido a polêmica invasão indígena de forma impotente. “Eu procu-

Ibama, nem a prefeitura, nem a FUNAI, ninguém tomou uma providência. A verdade é que dizem para nós: ‘não, não pode derrubar’. Mas se for indígena pode fazer o que quiser. Hoje em dia é tão


“A minha vida sempre foi sofrida e trabalhosa”, desabafa pioneiro Agricultor reclama de prejuízos causados, afirma que está com a saúde debilitada e espera apoio para resolver a crise.

“Em todos estes anos nunca tive problemas com índios. Fiquei triste, a minha vida sempre foi sofrida e trabalhosa para conquistar o que tenho. Agora com essa invasão tivemos que vender os gados e a seca prejudicou a lavoura. Tivemos prejuízo”, afirma. Segundo o agricultor, as invasões acabam transformando o campo em um palco de disputas que precisam da intervenção do governo. “Fomos na polícia e os policiais pediram para não intervirmos. Eu evito o contato, estamos procurando os meios legais, mas o nervosismo acompanha a gente. O governo precisa mudar de sistema. Como um país pode Rosalino Weber e sua esposa esperam o amparo da justiça e das autoridades. viver na bagunça? Não vai pra frente. Isso é falta arroz nunca foi a Weber residiu em vários jeira, companhia que de governo e só traz pregrande aposta dos municípios de seu esta- colonizou o município e juízos. Para mim e para a agricultores locais. do natal até que a sorte que teve o patrimônio en- Nação”, concluiu. Um deles, entretanto, ga- o enviou a Guaíra. Foi nhou a vida com os arro- aqui no Paraná que ele zais. Rosalino Weber, 82 transformou a sua vida. anos, veio para Guaíra “Cheguei aqui em 1956. trabalhar na lavoura do Minha vida nunca foi fásenhor Cassol, patriarca cil, mas com meu esforço de outra tradicional fa- consegui terras que entre mília guairense. Com seu Guaíra e Terra Roxa cheesforço, porém, Rosalino gam a mil hectares”, concomprou seu pedacinho ta, enfatizando a força de de terra e com o passar seu trabalho. dos anos passou de em- Da Guaíra da época, pregado a patrão. Nasci- Rosalino se lembra do do em Santa Maria/RS, espólio da Matte Laran-

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O agricultor comprou uma seifadeira, aumentou a produtividade tornando-se um dos principais produtores de arroz do Paraná.

Com muito trabalho e esforço Rossalino passou de empregado a patrão, adquirindo um importante patrimônio.

campado pelo governo. Mapa das Invasões “Tinha até uma linha férrea que passava em frente à minha propriedade”, recorda. “Não me lembro de nenhuma aldeia indígena, só histórias”, menciona, ao comentar a recente invasão de suas terras por famílias indígenas. Segundo Weber, a invasão trouxe prejuízos.


“O Judiciário precisa tomar uma decisão”, afirma produtor Invasão está gerando prejuizo para quem tem contrato de arrendamento e tem prazos para cumprir.

A Vantuil Morra está impaciente e espera uma solução para o problema que está se agravando.

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novela já dura três anos. Tempo suficiente para que Vantuil Morra tenha adquirido uma ansiedade que lhe tem custado a paciência. Morador de Guaíra há mais de 40 anos, o empresário que revende insumos agrícolas resolveu também arrendar uma pequena propriedade rural no ano 2000. Nove anos depois, porém, o espaço foi dividido com um grupo de índios. “Eu tocava a terra desde o ano 2000 até que há três anos, um grupo de índios foi avistado em frente à propriedade. Eles alegaram que fariam um protesto pacífico, mas no dia seguinte todos estavam acampados na terra. Um ano depois, eles invadiram uma reserva que fica ao lado da propriedade, na Eletrosul”, relembra. Ciente de que a justiça resolveria o impasse, no começo até houve diálogo, conta Vantuil. “Após um ano e meio, eu e meu funcionário fomos lá plantar. Eles pegaram o meu peão e não nos dei-

xaram fazer o trabalho. Pedimos intervenção policial, mas nada aconteceu. Decidimos então ceder dois alqueires para eles, desde que eles nos deixassem trabalhar. Deixei nas mãos da justiça

na área. A área que eles teriam para plantar está puro mato, nada se planta, nada se produz e estão tentando me tirar a outra área. Não sei mais o que fazer”, ressalta. Para Vantuil, a Funai

mas esses índios saíram de algum lugar, ou eles ficam ou voltam para o lugar de origem”, opina. Morra também questiona o projeto indígena em Guaíra, já que, segundo ele, há rumores de que os indígenas que estão aqui estariam vindo do Paraguai. “A gente tem conversado com o pessoal da FUNAI e eles dizem que em Santa Helena tem uma aldeia, uma reserva de primeiro mundo, com escola, com tudo, mas que é difícil colocar na cabeça de eles irem para lá. Eu não sei por qual razão eles querem ficar aqui. Se eles ficassem em áreas da União, tudo bem, mas eles estão invadindo áreas agricultáveis, áreas que tem dono. Isso está criando um impasse que não sei como será resolvido. O que está acontecendo em Guaíra está acontecendo no Brasil inteiro. E o pior: parece que dezenas de índios que estão aí são do Paraguai. Espero que o Judiciário se sensibilize e decida logo”, argumenta, com aflição. Em tom de desabafo, o produtor resume a sua angústia. “Estou deixando de plantar, deixando de produzir e com isso tendo e gerando prejuízo. Eu deixo de ganhar e o dono da terra também. A gente não sabe como é que vai ficar isso aí, mas espero que a decisão saia logo para a gente saber o fazer a partir de então”, finalizou. Mapa das Invasões

Mata do Jacaré é uma das únicas matas urbanas de Guaíra e está ameaçada com as invasões indígenas.

e, claro, aceitei o acordo como provisório”, explica. Mas o pacto, segundo Vantuil, também foi quebrado. “Agora em setembro eu tirei um milho que tinha lá e eu simplesmente não pude mais entrar

precisa ser mais atuante e o Poder Judiciário também. “Já se passaram três anos. Não existe laudo de antropologia, a FUNAI não apresentou. O Judiciário não toma uma decisão. A gente entende que existe uma lei indígena,


“Tenho medo dos índios demarcarem a terra para eles” Paulo Braga ainda não teve as terras de sua família invadida, mas convive com a ameça nas proximidades.

Agricultor possui 40 alqueires de terras agricultáveis e está com medo das invasões.

Nas imediações da propriedade, o que chama a atenção é o número de barracos abandonados pelos índios.

Nos últimos 90 dias, Paulo Ferraz de Braga, o Paulinho, tem convivido com uma desconfiança: quais são as intenções dos índios que estão nas proximidades da propriedade que sua família vive há muitos e muitos anos? Com o recente histórico de invasões em Guaíra, o agricultor teme pela integridade das terras, fonte de sustento de gerações. “Meu pai veio para cá em 1955, quando tinha 18 anos. Ele começou a vida com um mercadinho de secos e molhados e aos poucos foi comprando estas terras. Hoje temos 90 alqueires ao todo. Tenho medo dos índios demarcarem as terras alegando que elas são deles”, afirma. Os índios a que ele se refere estão muito próximos de sua propriedade. São cerca de 70, mas o mais estranho é que muitas barracas só estão lá para ocupar espaço. “O número de barracas não

condiz com o número de moradores. Eles foram chegando aos poucos e logo somaram um bom número”, conta. Segundo Braga, os índios disseram que não vão incomodar, contudo ele desconfia. “Perguntei o que eles queriam e eles só me disseram que não iriam incomodar. Que eram amigos. Se não houvesse casos de invasão na cidade, eu ficaria tranquilo, mas infelizmente muitos colegas me disseram que com eles no começo foi assim também. Por isso eu estranho. Acho que a intenção deles é outra”, diz. A presença incomoda pelo risco de invasão, que ele enxerga como iminente, entretanto essa não é a única reclamação. O agricultor evita passar agrotóxicos, o que poderia prejudicar a saúde das famílias indígenas. “Como é que eu vou pulverizar ali? Como é que nós vamos trabalhar com eles no local? Ficamos sem saber o que fazer”, comenta. Para o agricultor, a recente reivindicação dos índios é novidade. “O meu pai veio de Portugal para cá nos anos 50, mas meu avô estava antes. Não havia aldeias indígenas. Nunca tivemos problemas dessa natureza”, conclui. Mapa das Invasões


“Nós contribuímos com o Brasil, não podemos ser esquecidos” Para Ermínio Vendruscolo a causa indígena é justa, mas agricultores também devem ser valorizados.

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Agricultor alerta para as invasões estranjeiras que estão acontecendo.

família Vendruscolo administra as Organizações Lex, uma das grandes geradoras de emprego do município. Quem deu início a essa tradicional história foi Ermínio Vendruscolo, gaúcho que veio para as terras paranaenses em 1956. Em 1964, Ermínio resolve se instalar na sede urbana de Guaíra para iniciar a sua trajetória dentro do Escritório Contábil Lex, já há 48 anos no mercado. “Na época se falava da construção de uma usina muito grande e que Guaíra ia crescer muito. Depois essa usina foi construída em Foz, mas eu gostei da cidade e pretendo ficar aqui até o fim da vida”, afirma Ermínio. Depois do sucesso do escritório, o grupo Lex fundou uma cerâmica e depois uma gráfica. A cerâmica tem uma relação estreita com os remanescentes indígenas que habitam até hoje a região da Vila Malvinas, sede da empresa. “A cerâmica Lex era conhecida por empregar “bugres” (remanecentes indigenas da região), como se dizia na época.

Muitos destes indígenas trabalharam com a gente e muitos ainda trabalham. Alguns se aposentaram dentro da empresa. São pessoas quietas, trabalhadoras, que nunca tiveram problemas conosco”, dis-

ram a cerca, derrubaram meio alqueire de milho de nossa propriedade. Na verdade, já tivemos 300 e poucos sacos a menos em nossa produção. Tenho a posse daquelas terras há 36 anos, sempre cul-

quistou foi fruto de um trabalho sério e contínuo. “Sou filho de agricultor, lembro que desde criancinhas íamos para a escola a pé ou a cavalo. Quando chegávamos em casa, almoçávamos e íamos trabalhar como uma pessoa adulta. Agradeço por meus pais terem me ensinado, dado o exemplo. Nós progredimos, evoluímos, mas com muito sacrifício. Tivemos sorte também de termos vindo para cá em época de colonização, com oferta de terras boas e mais baratas”, relembra. Ermínio encerra seu depoimento ressaltando a importância da intervenção do governo na defesa dos interesses da manutenção da ordem pública. “Eu espero que o governo seja um governo para o povo brasileiro. E espero que ele nos dê a proteção, que proteja as propriedades privadas. Caso contrário eu tenho temor de confrontos futuramente. Por que se continuar é lógico que as pessoas vão querer defender as suas propriedades. Os agricultores não podem ser esquecidos, porque os agricultores podem contribuir inclusive para a causa indígena, que é justa, mas que estes indígenas sejam ao menos brasileiros, pois sabemos que a maioria dos invasores é oriunda de países vizinhos. Os agricultores são parceiros do Brasil, do governo brasileiro e são muito importantes para a economia e para o abastecimento”, conclui. Mapa das Invasões

Segundo agricultores, uma grande maioria de invasores está vindo de outros países, como o Paraguai, por exemplo.

se. Ermínio também é um investidor do setor agrícola, possui trinta e quatro alqueires e meio na região da Eletrosul, alvo de recentes invasões. “Ocorreu uma invasão próxima à fazenda da Matte Larangeira. Depois eles pula-

tivando. Nunca tivemos problemas com invasores. Não entendo, a gente produz, paga impostos, deixa tudo em dia, inclusive temos a reserva legal”, explica. O patriarca da família Vendruscolo lembra que tudo o que a família con-


“Não posso pagar por algo que podem tirar de mim” Luíz vendeu uma terra que possuia no Paraguaí para garantir a sua aposentadoria no Brasil, mas isso não está acontecendo.

Agricultor possui apenas 3 alqueires, mas isso não impediu que suas terras fossem invadidas.

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Casas indígenas foram erguidas às margens da reserva legal da Itaipú, e invadiram terras produtivas.

estavam invadidas”, conta. De acordo com o agricultor, a ocupação foi relatada à Justiça, mas nenhuma providência foi tomada. “Pelo que sei, eles até foram autorizados a plantar mandioca em minhas terras”, conta. O caso tem deixado o pequeno agricultor com o estado e saúde abalado. “Isso me deixou até doente. Nunca tive nem dor de cabeça e recentemente tive um princípio de AVC, estou com parte do meu corpo paralisado devido a esse stress. A gente fica preocupado. Só tenho aqueles três alqueires de terra lá. Não tenho trator, não tenho aposentadoria e dependo daquilo lá para viver”, revela. Como a maioria dos casos, a disputa foi parar na justiça. Com efeito, o agricultor espera logo por uma decisão sensata e conclui de maneira amarga. “Quero minha propriedade de volta. Pago imposto, eu sempre paguei. Mas esse ano não paguei, vou pagar como? Não posso pagar por algo que podem tirar de mim. Eu vendi um imóvel no Paraguai na época para investir naquelas terras e as quero de volta. Infelizmente, virou bagunça e não posso fazer nada”.

rram aqueles que pensam que as terras invadidas são todas grandes ou médias propriedades. O caso do senhor Luís é um bom exemplo de como as ocupações estão acontecendo em Guaíra. Localizada na comunidade rural de Santo Antônio, o sítio de 3 alqueires deste agricultor de 60 anos é mais uma das propriedades privadas transformadas em aldeias. O caso aconteceu há apenas alguns meses de maneira gradativa. “Primeiro eles entraram na igreja da comunidade, ficaram acampados lá. Depois, passaram a invadir as Mapa das Invasões terras. Um dia estava com o meu filho lá e eles estavam ao redor da minha chácara. Eu não queria sair, porque sabia que se fosse embora no outro dia eles invadiriam. Depois de muita insistência meu filho me convenceu a ir para casa. No outro dia quando voltei as terras


Mata do Jacaré está ameaçada pela presença indígena Além de ameaçar as reservas ecológicas as invasões gera insegurança aos empresários da cidade.

O Empresário José Correa está apreensivo com o problema que afugenta investidores.

estão mexendo com meninas. Não podemos generalizar e nem apontar os índios como os culpados, mas os relatos que ouvi são preocupantes. As invasões estão afetando muitas pessoas e até atrapalhando o mercado imobiliário”, comenta. José Aparecido Correa conhece bem o setor habitacional de Guaíra. Dono da Imobiliária Corrêa, o empresário diz que as invasões estão tendo efeito negativo nos negócios. “Temos um déficit habitacional em nosso município. Acho que o governo deveria estar preocupado em construir casas, resolver o impasse, demarcar uma reserva indígena se for o caso. O que não dá é para ficar como está. As

Os governos só prometem, prometem e agora eles resolveram tentar reivindicar os seus direitos à força. Mas é preciso que alguém tome uma atitude. Hoje as pessoas trabalham com medo”, afirma. Para ele, a decisão judicial deve levar em conta o fato de não haver indícios de presença indígena no local. “Nós provamos que não existiram ocupações indígenas naquela mata e isso está no processo”, Invasões atrapalham o mercado imobiliário, dá insegurança a declara. investidores e afasta a clientela da cidade de Guaíra. Correa também revela uma parte obscura das invasões, que estão sendo invasões atrapalham emprejudiciais ao meio am- preendimentos, dão insebiente. “No nosso caso o gurança a investidores e que a gente quer é preser- afastam a clientela do envar. Aquela propriedade é torno”, finaliza. a única mata nativa pre- Mapa das Invasões servada da área urbana. E a gente tem interesse em preservar. Já os índios estão destruindo. Hoje nós não podemos nem entrar na área”, diz. Mas este não é o único problema. Segundo Correa, há casos de violência física e verbal. “Infelizmente temos ouvido casos de brigas entre índios População reclama que já existe casos de violência física e brancos, dizem que eles e verbal de índios contra brancos.

Quem é de Guaíra com certeza conhece a Mata do Jacaré, que fica próximo à Vila dos Técnicos, na Eletrosul. Única mata preservada na zona urbana, o espaço está sendo alvo de uma ocupação indígena, a exemplo de várias outras propriedades privadas. Para José Aparecido Correa, é preciso que o governo adote uma política mais ágil para lidar com o tema. “Está faltando uma política nacional de demarcação de terras para os índios. Eles querem terras demarcadas.


“Os índios estão sendo induzidos”, acredita proprietária Laura Scarpa, profissional de odontologia, acredita que toda a estrutura de politica aos indígenas está errada.

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Laura: “Não tem mocinho e vilão. O governo é que precisa achar uma solução”.

aura Scarpa é uma profissional requisitada em Guaíra. Há 20 anos ela mantém um consultório odontológico de sucesso, o que lhe permitiu a compra de 20 alqueires de terra para o cultivo de soja. Sua propriedade, no entanto, passou a ser rota de indígenas que invadiram uma fazenda vizinha. “Não invadiram a minha terra, eles passam por ela para chegar à fazenda do Neves, que fica atrás da minha propriedade. O problema é que eles passam pelo meio da soja, o que acaba prejudicando a plantação”, reclama. Para ela, o problema não está nos índios, mas nas pessoas que podem estar por trás da onda de invasões. “A verdade é que o índio é massa de manobra, tem alguém por trás induzindo e dizendo: ‘invade ali que ninguém vai te tirar’. Aí fica esse confronto entre proprietário e índio. É isso que ninguém está vendo. Não tem mocinho e vilão. O índio não é o vilão. O governo é que precisa achar uma solução para que estes

impasses não ocorram”, opina. Laura também discorda da tese de que as terras invadidas devam ser desapropriadas por terem sido um dia terras indígenas. “O que a gente está ouvindo

vendidas pelo próprio governo. Então se você for ver a história, o próprio governo vendeu essa terra. Ninguém roubou, ninguém invadiu, essa terra foi comprada”, defende, exemplificando: “O que a gente per-

de São Paulo e pode achar um cemitério indígena. Se você for a Brasília de repente encontra embaixo do Palácio do Planalto um cemitério indígena. E aí? Vai ceder o Palácio do Planalto também? Então você vê que as coisas não têm muito sentido”, afirma. Para ela, o governo tem a obrigação de resolver a questão da melhor maneira possível, ainda que a solução encontrada seja a criação de reservas. “Eu não ganhei aquela terra de graça. Eu não passo o dia inteiro trabalhando aqui para nada. Se eu estou trabalhando, se eu comprei aquilo, não caiu do céu. É porque eu fico o dia inteiro dentro desse consultório para ter dinheiro para comprar alguma coisa. Eu chego aqui às 8h e saio às 21h30, a cidade inteira pode comprovar isso. Então não foi por acaso que eu comprei a terra. Acho que se o governo quer criar uma reserva, que pague uma indenização, mas não crie uma briga entre os índios e os proprietários das terras”, afirmou. Antes de encerrar a entrevista, Laura Scarpa fez questão de mencionar que não é insensível à causa indígena. “Eu acho que os índios merecem um olhar do Estado, mas penso que existem maneiras e “MANEIRAS” de se fazer isso. Eu já colaborei com doações na aldeia Tekohá Marangatu, acho que temos também o nosso compromisso social”, justificou. Mapa das Invasões

Dentista só quer que índios não trafeguem por sua propriedade que fica próxima a uma invasão.

falar é que a terra é do índio porque o índio estava aqui primeiro. Então se você for ver, o Brasil inteiro é do índio. A América do Norte, a América do Sul era ocupada pelos índios antes da chegada dos europeus. Só que estas terras foram

cebe é que toda a estrutura está errada. Vem um arqueólogo escava e diz que a terra é do índio. Ora, o Brasil inteiro está cheio de vestígios da ocupação nativa, os índios de fato moraram aqui muito antes de nós.Você vai para o centro


“Disseram que iriam tacar fogo no meu trator”

Além da violência, Anésio chama a atenção para os problemas sociais que envolvem as invasões.

Agricultor sofreu com a criminalidade e agora sofre com invasões indigenas.

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Índios se utilizam de capela da Igreja e na falta de ter o que comer, reviram o aterro sanitário da redondeza.

Segundo o agricultor, os indígenas que estão na região não são amistosos. “Eles acampavam na igreja em Santo Antônio e não são de diálogo. Eu tenho um casal de velhinho como vizinho. Os índios entram lá na casa deles, levam frutas. Eu não quero conflito com índio, porque a gente tem que respeitar as leis. Comigo também já teve problema. Não me deixaram plantar e disseram que se eu aparecesse com o trator lá iriam tacar fogo nele”, afirma. As informações dão conta de que existem 15 famílias na região de Santo Antônio. As condições não são das melhores. Muitos destes índios, pequenos e adultos, reviram o aterro sanitário todos os dias em busca de alimentos e roupas. Outros ganham a vida vendendo papelão, plástico e latinhas de bebidas. Anésio, que há 40 anos vive em terras guairenses, espera que as autoridades sejam sensíveis ao problema. “Não quero problemas com índios, quero que tudo se resolva de maneira pacífica, basta o que aconteceu com minha esposa na mão de bandidos”, conclui.

esidir na área rural nem sempre é sinônimo de paz, tranquilidade, vida saudável. Anésio Bitencout sabe muito bem disso. Residente na região da Faixinha (estrada rural que margeia o lago de Itaipu), o agricultor já sofreu com a violência. Há três meses sua esposa está em Cascavel se recuperando depois de ser atingida por dois tiros durante um assalto. Agora, Anésio está preocupado com as invasões indígenas que estão acontecendo em várias localidades rurais. Segundo ele, as terras da Itaipu já foram invadidas. De lá Mapa das Invasões para o seu sítio foi apenas questão de tempo. “Primeiro eles invadiram as terras da Itaipu e depois montaram uma barraca no meu sítio, um dia cheguei lá e não podia nem ficar perto deles que já cantavam grito de guerra e apontavam flechas para mim”, relata.


Invasão de reserva legal.

Lixo depositado por invasões.

Construções ilegais.

Próprios índios demarcam terras invadidas.

Casas abandonadas demarcando território.

Famílias chegam de caminhões no local da invasão.

Agricultores são intimidados nas suas próprias terras.

Índios trabalham em plantação de soja particular.



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