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EDITORIAL

Revista da Agência Experimental em Comunicação e Cultura Tutor da Agência José Roberto Severino Editora-chefe Annandra Lís Repórteres Adriano Motta Álene Edriele Annandra Lís Carla Nogueira Erick Barbosa Igor Brito Lais Rocha Maria Eduarda Mascarenhas Yasmin Cade Diagramador Erick Barbosa Revisão Anderson Alcântara Júlia Lobo Maria Clara Andrade Fotografia Adriano Motta Álene Edriele Annandra Lís Erick Barbosa Igor Brito Yasmin Cade Imagem de capa Annandra Lís Agradecimentos Tainá Almeida

Em 14 de março de 2018, a jovem vereadora do Rio de Janeiro, pelo PSOL, Marielle Franco, foi brutalmente assassinada no Centro do Rio. Cria da favela da Maré, como se autorepresentava, foi a quinta vereadora mais votada nas eleições de 2016, em sua primeira disputa eleitoral. Com a mandata (como assim denominaram sua equipe de trabalho na Câmara) marcada pela defesa das mulheres negras, LGBTs e jovens negros/as das periferias do Rio, sua ação política refletia sua experiência como militante e defensora de direitos humanos, inclusive como coordenadora da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Quem mandou executar e quem executou Marielle mal podia imaginar que ela seria uma semente para o surgimento de várias outras Marielles. Das ruas da cidade, periferias, de dentro de suas casas, nas escolas, nos coletivos, nos terreiros, nas igrejas e em inúmeros espaços de tensão política e de expressividade social, que a segunda edição da revista Jaé viabiliza como pauta, as Marielles Francos de Salvador. Mulheres que ao seu modo, em seu cotidiano de resistência, fora dos grandes meios de circulação, militam e alteram a difícil realidade das comunidades em que fazem parte. Essa edição da revista conta com diversos depoimentos de mulheres que sonham e atuam por um país mais justo onde as pretas, lésbicas e candomblecistas tenham espaço de fala, onde a produção acadêmica feita por mulheres não sofra repressões, nem sejam minimizadas pela cultura machista presente na universidade. As mulheres entrevistadas pela reportagem da Agência Experimental em Comunicação e Cultura são ativistas em seus locais de pertencimento, nos núcleos sociais e são anunciadas pelos trabalhos que desenvolvem. Diante ao cenário inquietante dos novos tempos, de ataques às duras mudanças conquistadas até aqui, precisamos combater qualquer tentativa de retrocessos e redução de direitos. A democracia precisa ser aprimorada, incluindo mulheres, pessoas negras, LGBTs, pessoas com deficiência e todas e todos aqueles que são impedidos de escolher o seu futuro. Contra o extermínio violento de Marielle Franco e a honra à sua memória, gritamos: PRESENTE!


SUMÁRIO

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RAIZ 04 A cultura não morre, ela se une e

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EIXO 36 Conheça o NEIM

samba junto COMUNIDADE 08 A luta é desde o começo 12 Dona Olga e o bairro da Mata Escura

PÁGINAS VERDES 40 Comissão de Promoção da Igualdade Racial OAB-BA

18 Direito à cidade PERFIL 24 Azul é a cor mais forte - o perfil de Mirian Hapuque

ESPECIAL 45 Cronista do Rolé 46 Mulheres da AECC

CAPA 28 O que falta para melhorar é tudo

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RAIZ

A cultura não morre A ancestralidade e a união de mulheres para não deixar a cultura popular morrer Por: Annandra Lís

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atureza França é uma mulher retada que mobiliza culturalmente a comunidade de Tubarão, no subúrbio ferroviário de Salvador. Mãe, mulher, suburbana, sambadeira, angoleira, de Cachoeira. Natureza Acácio Fraça é pau para toda obra ou multiartista como gostou de ser chamada. Foi backing vocal numa banda de reggae, sempre gostou de cantar, dançar, cresceu indo para Cachoeira sambar nas férias e, apesar de sempre ter feito ações sociais no subúrbio, sua missão ficou clara após largar a área comercial e morar seis meses no Rio de Janeiro quando se viu sambando na ponta dos pés. A sua natureza pediu-lhe para voltar para Salvador e criar o grupo de samba de roda A Corda.

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Natureza em seu lar: o samba de roda. Foto: Zuruba Artes

O grupo nasceu em 2013 na comunidade Zeferina e em 2014 foi para a comunidade de Tubarão por entender que era necessário fazer o samba de roda, não como apresentação, mas para cantar as dores e alegrias desse povo. O A Corda foi construído com amor para

recuperar uma tradição adormecida e com uma vontade imensa de ser protagonista da sua própria história. Pois como Natureza disse e repetiu: “O subúrbio vai além do que a mídia sensacionalista dita.” O grupo A Corda nasce em uma comunidade matriarcal


Ela se une e samba junto formação em suas comunidades. O grupo sai para beber água da fonte, para ver dona Dalva e aprender com a família de mestres (mestre Gilson, mestra Ana Olga, mestra Ane). Vai para ilha visitar dona Aurinda que é mãe de santo e mestra do A Corda. O A Corda sai para Saubara visitar tia Gelita quando ainda viva, vai para Acupe aprender com Joanice. Raízes compartilhadas

A AECC acompanha há oito anos o Encontro de Samba de Roda Raízes de Acupe, produzimos um documentário sobre o encontro em 2011, Acupe Terra Quente, que é idealizado e organizado também por uma moradora local. É impossível não assimilar as lutas dessas mulheres. Dona Joanice, idealizadora do encontro Raízes de Acupe e Natureza França, idealizadora do A Corda, além de compartilharem a naturalidade, já que ambas são do Recôncavo Baiano, elas são

onde as mulheres se reuniam para fazer brincadeiras a noite, para cozinhar nas casas umas das outras. Onde todo mundo se conhece e tem muitos laços, não só sanguíneos, mas de coração. O samba também é essa “instituição matriarcal”. Nasceu como um canto de trabalho

(quando as mulheres iam lavar roupas à beira do rio, por exemplo). A roda é a forma como essa manifestação se dá, horizontal e circular onde todo mundo é igual. O A Corda cresce a cada saída para aprender com outras mestras, mulheres que movimentam a trans-

“Meu grupo não é um grupo de apresentação. Essa corda é a corda que me liga à minha avó, à minha bisavó, às caboclas, às pretas...” 5


Dona Joanice, idealizadora do encontro Raízes de Acupe. Foto: Camila Brito/Arquivo AECC

mulheres que se esforçam para não deixar morrer a cultura do samba de roda em suas comunidades. Natureza conta que possui uma ligação forte com Cachoeira, seu umbigo foi enterrado lá, foi onde sua mãe pariu todos os filhos- na casa da sua avó-, as raízes são bem fixadas. Mas, apesar de ter nascido em Cachoeira, renasceu em Tubarão. O A Corda samba de roda é uma forma de manter um elo entre as duas comunidades. “Meu grupo não é um grupo de apresentação. Essa corda é a corda que me liga à minha avó, à minha bisavó, às caboclas, às pretas...” No início, muitas vezes, só aparecia uma menina ou menino para ensaiar no sábado, mas Natureza se manteve forte. É o espiritual quem lhe guia. E é só nisso em que ela acredita. 6

O grupo A Corda abriu caminho para que muitas das manifestações culturais que estavam adormecidas na comunidade voltassem a respirar com mais motivação. À partir

“Ele pode estar embriagado, enquanto ele estiver respeitando a entidade toda, ele vai ser respeitado ali dentro” do momento em que o grupo foi reconhecido pela vanguarda de Tubarão, ele começou a ser chamado para puxar a saída do boi, para o quarto dia da reza de Santo Antônio (momento do

samba de roda), para puxar a percussão na saída da barquinha de ano novo, participando de todos os movimentos culturais da comunidade. Não como protagonistas, mas contribuindo para que essas manifestações aconteçam. Papel social

O grupo A Corda em Tubarão tem uma papel importante nessa contemporaneidade “violenta, racista, genocida, exterminadora,” pois começa a trazer os jovens para a roda, juntos, sem distinção. É dessa forma respeitosa e virtuosa que Natureza França vai aos poucos ajudando a mudar o estigma que as pessoas daquela área têm. Todos que chegam na roda são bem-vindos. “Ele pode estar embriagado, enquanto ele estiver respeitando a entidade


toda, ele vai ser respeitado ali dentro”. Participaram do grupo crianças filhas e netas de sambadeiras, que hoje jovens, respondem o coro e chegam junto na roda, mesmo já tendo se distanciado para fazerem outras coisas. “A Corda fala para que não falem mais da gente e ainda que falem, que a gente possa falar outra coisa”. Por esse motivo que Natureza se faz presente na universidade: para abrir caminho para que os próprios sujeitos falem da sua realidade sem o olhar colonizador dos pesquisadores.

Com direito a citação de Stuart Hall, Tubarão é um “caldeirão de contenção e resistência”. Ela afirma que estar na universidade é uma resistência não dela, mas de Tubarão.

“A Corda fala para que não falem mais da gente e ainda que falem, que a gente possa falar outra coisa”

Choro. Pausa. Risos. Emoção.

É preciso ocupar os lugares de fala, é preciso movimentar a cultura regional e fazer com que os jovens se reconectem com sua história. É um processo de união onde Natureza, dona Aurinda, dona Dalva, dona Joanice e as jovens mulheres juntem seus conhecimentos e força para não deixarem o samba (de roda) morrer. Não deixarem a cultura popular acabar.

Natureza França, criadora do grupo A Corda. Foto: Annandra Lís

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COMUNIDADE

Foto: Álene Edriele/AECC

A Luta é desde o começo A escola construída com a força de mulheres que acreditam no poder da mudança começando por sua comunidade Por: Álene Edriele e Igor Passador

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star diante da Escola Comunitária Luiza Mahin faz o pensamento viajar longe, nos levando para os lugares encantados dos contos de fadas onde tudo pode ser real, desde que estejamos dispostos a imaginar. Por isso, não tem forma melhor de entrar nessa história senão pelo bom e velho “Era uma vez”.

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Sendo assim: Era uma vez, um grupo de pessoas que não tinha muito dinheiro e vivia numa área da cidade de Salvador chamada Alagados, que recebeu esse nome porque por baixo das casas de palafita passava as ondas do mar que traziam das terras distantes de outros continentes as sabedorias e histórias ancestrais. Nem tudo eram flores, e as ondas que traziam os conhecimentos também vinham carregadas de dor e sofrimento. Eram as lágrimas das avós e avôs da maioria dos moradores

de Alagados que foram sequestrados da África e escravizados nesse novo continente. Muito tempo se passou desde então, mas os estigmas e vivências dos moradores de Alagados continuaram sendo mais ou menos os mesmos. Com uma diferença que depois de anos de exploração e dificuldades, as histórias do outro continente foram sendo apagadas e, com elas, a autoestima, a identidade, a valorização e tantas outras coisas que não caberiam nesse pedaço de papel.


Nos anos 80, uma política pública na região pôs fim às casas de palafitas e criou um conjunto chamado Santa Luzia. A questão da moradia digna era um assunto muito pautado há bastante tempo, porém, as relações de vizinhança foram destruídas e as casas novas, não trouxeram a tão sonhada dignidade, pois a ausência do Estado na região não permitia que as necessidades básicas dos moradores de Alagados fossem atendidas. Como nos contos tradicionais, a nossa história contará com a presença de um super-herói. Em nosso caso, super-heroínas. Mulheres como Marilene da Conceição e Jandayra Bonfim buscaram fazer a diferença no seu bairro.

"Eu acho que a gente nunca deve desistir dos nossos sonhos. Os sonhos estão aí pra gente pensar neles e conquistá-los" Jandayra Bonfim Mulheres da laje

As mulheres da laje, fazendo jus à esse título, colocaram a mão na massa, e ocuparam em 1986 um espaço que inicialmente foi uma associação de moradores. Transformando-o, em 9 de março de 1990, na Escola Comunitária Luiza Mahin.

Desde o começo da caminhada, essas mulheres se preocuparam em contar e construir as suas próprias histórias, fazendo do espaço conquistado um lugar que representasse a coragem e resistência de Luiza Mahin, nome escolhido carinhosamente pelos próprios alunos da escola.

"A gente nunca teve essa concepção de trabalho voluntário, a gente sempre ganhou as pessoas por outra metodologia, pela metodologia política mesmo" Marilene da Conceição

Para Marilene (Leninha), a força que essa escolha representa é a apropriação da história pelos alunos enquanto meninas e meninos negros. Ter uma influência como Luiza Mahin, que tanto lutou contra imposições que tentassem retirar sua africanidade, faz com que os moradores da região, principais afetados pelo trabalho da escola, entendam os seus direitos enquanto mulheres e homens negros, assim como o papel político a ser desempenhado. Desde a escolha do nome às individualidades da instituição comunitária como o empoderamento negro -fortemente trabalhado entre as crianças-, é

possível perceber o diferencial da escola para outras organizações. O trabalho feito nesse espaço não é enxergado como voluntário, e sim, um ato político. Pensado para além da caridade, é trabalhado o afeto ao invés da pena. “A gente nunca teve essa concepção de trabalho voluntário, a gente sempre ganhou as pessoas por outra metodologia, pela metodologia política mesmo” relata Marilene. Os funcionários muitas vezes são da própria comunidade e livres para saírem quando encontrarem outras oportunidades. Parceria de todos

Ainda que seja uma escola comunitária, como todas as outras, precisa-se de um suporte financeiro para que a organização seja mantida. Esse suporte veio com a ajuda de uma linda coincidência: O nome da escola era o mesmo nome da filha de um militante do movimento negro do Rio de Janeiro que se identificou com a proposta e apresentou Leninha para a futura parceira, a instituição Visão Mundial. Desde então essa parceria tem alimentado a escola com material didático, ajuda na formação dos professores e recursos financeiros que permitem a escola se manter por essas quase três décadas. Outro pilar que mantém a escola funcionando é a reciprocidade vinda da própria população de Alagados. Cada família retribui todo o carinho e afeto dado pela escola por meio de uma taxa simbólica que continua sendo o mesmo 9


COMUNIDADE valor, independente da quantidade de integrantes que frequentem a Luiza Mahin. Revolução educacional

O encanto que a escola provoca está baseada numa metodologia diferente que tem como influenciadores Paulo Freire, Emília Ferreira e outras figuras da educação que iam contra os formatos mais tradicionais. Como diz Leninha: “Essas figuras sempre nos influenciaram, sempre nos encantaram e contribuíram para fazer essa educação mais livre, mais solta, sem essa pegada de formalidade que a gente sempre trabalha na educação. A Luiza Mahin sempre deixou os meninos à vontade. O que faz com que essa escola seja procurada é o encantamento. A metodologia”. Além disso, a proposta de ser uma escola comunitária, fez com que ela tivesse mais liberdade para trabalhar temas relevantes da sociedade, fugindo do básico de apenas ensinar a ler, escrever e fazer contas. A escola prepara as crianças para serem pessoas que consigam romper com as opressões.

"A Luiza Mahin sempre deixou os meninos à vontade. O que faz com que essa escola seja procurada é o encantamento" Marilene da Conceição

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"Ensinar a ler e escrever é normal. No que a gente fez a diferença? Foi introduzir essa questão racial. A gente já discutia isso dentro da Luiza Mahin antes da lei 10.639. Já discutíamos essa transversalidade de que é importante você se assumir enquanto mulher e negro" Marilene da Conceição

“A gente sempre tem essa discussão, o papel da mulher, essa coisa dos meninos... Por que que menino não pode ir para cozinha? Essa relação de liberdade e de expressão, foi sempre uma coisa que a gente trabalhou. Ensinar ler e escrever, estudar português e matemática, história... Isso é normal. Mas o que é que a gente fez na diferença? Foi introduzir essa questão racial, antes da lei 10.639 [que tornou obrigatório o ensino da história afro-brasileira e africana] a gente já discutia isso dentro da Luiza Mahin, já fazia essa transversalidade de que é importante você se assumir enquanto mulher e negro”.

Futuro de esperança

Analisando tudo o que já passaram com a escola, tanto Leninha quanto Jandayra observam o quanto essa caminhada provocou mudanças, muitas delas internas, mas que sempre refletem de alguma forma na comunidade: O cuidado com as colegas, o carinho dado para os alunos, a retomada da auto-estima, a identificação com as pessoas e personagens das histórias


Jandayra e Leninha, super-heroínas de uma linda história de luta. Foto: Igor Brito/AECC

contadas pelas professoras é o que torna a escola Luiza Mahin um centro de resistência e luta. Dar e receber afeto é algo constantemente negado às periferias. No meio dessas grandes batalhas, Leninha e Jandayra não perdem o imenso sorriso e a simpatia incomum que transborda em felicidade e orgulho de ver até onde chegaram, conquistando com amor e

muito trabalho a confiança da comunidade. Mesmo com tantas dificuldades, a mensagem deixada por essas superheroínas é de esperança. Uma esperança que vem acompanhada de luta, resistência e muito, muito amor. O próximo projeto da escola é a criação de uma creche (Rubi) para as crianças da região de Alagados e entorno, para aumentar as formas de atingir a

comunidade. “Eu acho que a gente nunca deve desistir dos nossos sonhos. Os sonhos estão aí pra gente pensar neles e conquistá-los. Eu tenho só essa mensagem. E eu penso isso todos os dias, nunca eu desisto, e eu tenho certeza que nossa creche vai sair”, nos conta Jandayra, com a sensação de que as histórias construídas com amor devem ter um final feliz para todos. 11


COMUNIDADE

Foto: Arquivo AECC

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Dona Olga e o bairro da Mata Escura Mãe de santo, mãe de tantos que circundam o Terreiro Bate Folha A Mata Escura

Por Carla Nogueira e José Roberto Severino

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nome dos bairros são um inspirador pretexto para se conhecer um pouco mais de uma cidade. Eles ganham sentidos variados, são palco de disputas e constituem as ambiências da existência das pessoas. O que um nome forte como Mata Escura nos diz sobre Salvador e seus habitantes? Quantas histórias e encantamentos este bairro guarda? Localizado a 15 km de distância do Centro de Salvador, o bairro da Mata Escura limita-se com o Cabula, a Estrada das Barreiras, o Jardim Santo Inácio e a Brasilgás, com prolongamento até a BR 324. Situado em meio à vegetação remanescente de Mata Atlântica, resguarda importante memória do processo de urbanização da capital baiana.

A Mata Escura se apresenta como um típico bairro popular de Salvador, com muita vida, cores, sons e movimento. Na rua principal e nas adjacências da rua direta da Mata Escura, serpenteiam ônibus, carros, motocicletas, bicicletas, pedestres, ambulantes. Ali está grande parte do comércio local, com mercadinhos e supermercados, terreiros, igrejas católicas e evangélicas, bancas de hortifrutigranjeiros e padarias, bares, farmácias e escolas. Sendo, portanto, a área de maior movimentação por conta dos principais atrativos da localidade, as vias mais centrais do bairro. De onde vem o nome Mata Escura? Os geradores de energia no terreiro são lembranças de tempos nem tão distantes assim. Não havia rede de energia elétrica. Não havia a pavimentação das ruas. Não existia qualquer serviço básico de saúde e segurança. Na verdade, era como em todos os rincões mais ou menos afastados das cidades. A densa floresta, como nos explica o historiador Carlos Bahia, no caso específico de Salvador, permite pensar que as

localidades receberam seus nomes a partir de referências tomadas da flora, fauna e, sobretudo, dos costumes adquiridos nessas relações. Complementa o antropólogo Roberto Albergaria, afirmando que os nomes de logradouros na cidade da Bahia tiveram a influência indígena (os nativos tupinambás), da presença da igreja católica, dos usos populares, da matriz africana e a de figuras ilustres de cada período. Assim, pode-se afirmar que se manteve o nome popular da Mata Escura, apesar da diminuição da área verde e do crescimento impressionante na ocupação de todos os espaços do atual iluminado bairro. Mas a mata resiste na Mata Escura, representada na memória de seus residentes e no espaço que circunda o Terreiro Bate Folha. Há cem anos encantando toda a região. É desse Terreiro que emerge a figura daquela que acolhe, aconselha, alimenta, ampara e cuida, a grande mãe da casa. Dona Olga, mais precisamente, Olga Conceição Cruz, também conhecida pelas filhas e filhos 13


da casa pelo seu nome de iniciação, Nengua Guanguasese. Moradora da Mata Escura desde muito jovem, hoje com 93 anos de idade, é considerada um arquivo vivo do bairro. A roça é um lugar de acolhimento, se configura como um espaço majoritariamente negro e popular.

Moradora da Mata Escura desde muito jovem, Nengua Guanguasese é considerada um arquivo vivo do bairro. A roça é um lugar de acolhimento, se configura como um espaço majoritariamente negro e popular No bairro, ouvindo os moradores do local, a figura de Dona Olga é invariavelmente tida como a respeitável representação para o bairro. O que dizem sobre a mãe do bairro da Mata Escura? A Mãe do Bairro

A dançarina e cantora Lívia Luzia Conceição, 42 anos, moradora da Mata Escura há 38 anos, revelou que conhece e conviveu com Dona Olga desde a infância. Relembra que também aprendeu muito com seus 14

ensinamentos e a considera uma figura representativa para o bairro. Recordou-se de um episódio familiar, quando seu irmão e outro jovem foram confundidos com bandidos e colocados numa viatura. Se não fosse a interferência de Dona Olga, eles não seriam libertados. Destacou que a atuação da mãe foi muito significativa para a sua família. Por meio de outras histórias foi tendo conhecimento ao longo de sua vida sobre a importância de Dona Olga para além do Terreiro, alcançando todo o bairro. Sua mãe, Dona Alexandrina Luzia Conceição, de 79 anos, moradora do bairro há mais de 30 anos, também afirma, categoricamente, que Dona Olga além de ser bastante conhecida, é uma pessoa “boa, boa, boa mesmo”. Repetição de adjetivos, aqui observada, para reiterar a ativa participação social dessa grande mãe, pois, ainda conforme relato, “as pessoas, recorrendo ou não, têm a sua ajuda.” Assim como sua filha, Lívia Conceição, Dona Alexandrina pontua a generosidade de Dona Olga como um elemento principal de seu jeito de ser. O poder dos comuns

O papel desempenhado por pessoas comuns na periferia de Salvador, no enfrentamento de ações deliberadas do Estado, a exemplo da atuação de Dona Olga em diálogo com a polícia, evidencia que esse território (a periferia, os bairros populares) é também lugar de fala e de

[A dançarina Lívia Conceição] Recordou-se de um episódio familiar, quando seu irmão e outro jovem foram confundidos com bandidos e colocados numa viatura. Se não fosse a interferência de Dona Olga, eles não seriam libertados pertencimento, permitindo, assim, discussões acerca dos desafios vividos por mulheres na formação de cidadãs/ãos diante das adversidades socioeconômicas, raciais e de gênero tão arraigadas em nossa sociedade. A representatividade de Dona Olga está, exatamente, em sua dilatada percepção de comunidade e família ampliada, aos moldes da herança tradicional africana. Mais um importante registro obtido em conversa com o Tata Niukabukila, o qual mesmo em intensa atividade de preparação para a festa ao final do dia, deu uma pausa. Relatou que em tempos de outrora Dona Olga circulava no bairro, caminhava tranquilamente, ia ao mercadinho, ao açougue e em outros lugares da área. Por isso, afirma ser ela conhecidíssima.


Terreiro Bate Folha, o lar de Dona Olga. Foto: Arquivo AECC

Considera-a importante para ele e sua família. Destaca que, na década de 70, morava vizinho ao Bate Folha. Durante um inverno chuvoso, sua casa, feita de taipa, caiu. A sua família e a de outras pessoas foram acolhidas por esta senhora e pelo antigo pai de santo do Bate Folha, Tata Nebanji. A roça como abrigo. A cosmovisão da distribuição do ngunzo (força/energia). Neste sentido, destaca que o mundo religioso a considera como uma referência para o candomblé de Angola do Brasil.

Por todos os cantos

A projeção social de Dona Olga na extensão territorial do bairro pode ser ouvida em todos os cantos. Como no ponto de vista de um comerciante da região, o senhor Everaldo Ramos dos Santos, 60 anos, proprietário de uma loja de roupas, afirmou: “Eu conheço Dona Olga aqui na Mata Escura há 35 anos. É fiel, possui uma característica de respeito é bem querida por todos... uma pessoa maravilhosa, merecedora e correta com todas as suas responsabilidades.”

Ainda ouvindo pessoas do comércio local, temos a senhora Ava-nice de Jesus Santos, 57 anos, costureira que trabalha em seu ateliê no fim de linha da Mata Escura. Ao falar sobre Dona Olga, muito emocionada, rela-tou que a conhece há 35 anos, mesmo período quando passou a residir no bairro. Revela que a maioria de suas máquinas foi comprada com o dinheiro ga-nho costurando para Dona Ol-ga, a quem é muito grata por tudo. Dada às suas indicações, foi costurando “pra um e pra outro” até se 15


estabelecer com o seu ponto. Tomada por muito sentimento, dona Avanice, mais conhecida por Avani, se desculpa e explica a grande emoção sentida ao se referir a Dona Olga.

Os princípios da economia solidária, do trabalho em rede, o apoio às atividades relacionadas aos ganhos reais de membros da própria comunidade foi fomentado desde a produção e circulação de serviços por Dona Olga A fala de Dona Avani evidenciou a participação de Dona Olga nesse empreendimento, bem como seu protagonismo e a capacidade de constituir redes e espaços de geração de trabalho e renda a partir das atividades apreendidas ao longo da socialização da mulher. Um desses exemplos é a costura enquanto profissão e forma de rentabilidade. Os princípios da economia solidária, do trabalho em rede, o apoio às atividades relacionadas aos ganhos reais de membros da própria comunidade foi fomentado desde a produção e circulação de serviços por Dona Olga.

Nessa perspectiva, suas iniciativas contribuíram para a superação e o enfrentamento das relações discriminatórias e dos mecanismos de negação do Bairro. Como atesta o relato de Seu Duda, Agnaldo Damião de Castilho, 69 anos, vizinho e morador há muitos anos daquela localidade. Ele afirma que desde menino conhece dona Olga, ressaltando as qualidades desta como uma pessoa excelentíssima para o bairro e para as pessoas que a procuram: “Eu a respeito de tal forma que não sou do Candomblé, mas a chamo de mãe e tomo a bênção”.

“Eu a respeito de tal forma que não sou do Candomblé, mas a chamo de mãe e tomo a bênção” Agnaldo Damião

Dona Olga, moradora da Mata Escura, é lembrada por sua significativa contribuição para o Terreiro Bate Folha, seu entorno e de maneira geral para todo o bairro. Cuidado com as pessoas, com a terra, a água, com as plantas, cosmovisão que integra e implica todos com a existência. Como tantas mães, carrega também as dores de perdas, a desconfiança das mudanças fáceis, a preocupação com os destinos dos lugares. Parabéns Dona Olga Conceição Cruz - Nengua Guanguasese. Foto: Arquivo AECC

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COMUNIDADE

A cidade é de quem? Direito à cidade em Salvador

Por Annandra Lís, Laís Rocha e Yasmin Cade* *Com colaboração de Adriano Motta e Erick Barbosa

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orar é pra quem tem coragem. O negro, o pobre, as mulheres vítimas de violência doméstica, o descaso estatal, as ocupações, drogas e o sono sem sonhos de vários moradores de rua fazem parte do complexo sistema de urbanismo de diversas cidades do país. A questão da moradia em Salvador é visivelmente demarcada. É fácil de ler quem tem direito à cidade e quem fica à própria sorte nas ruas. Os repórteres da Revista JaÉ ouviram três ativistas que militam em diferentes frentes do movimento por moradia na cidade. Cada uma, em seu núcleo de militância, participa de movimentos e ações para modificar a estrutura excludente em que a cidade se sustenta, fazendo valer o parágrafo primeiro da constituição: Todo poder emana do povo.

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Eu preciso morar e eu vou para essa luta

Salvador vive um movimento de expulsar os moradores das suas casas devido à valorização de algumas áreas. A especulação imobiliária acaba afastando famílias que nasceram e cresceram nesses locais para a construção de novos prédios mais modernos e mais caros. Esse afastamento se dá diretamente com desapropriações ou indiretamente com aumento de impostos e custo de vida nessas áreas. Os desalojamentos forçados para a reestruturação da cidade não são diferentes em outros estados. Maura Cristina nos conta que já militava em sua cidade de origem (São Paulo) pela questão de moradia. Sua vinda para Salvador foi motivada justamente pela busca de tranquilidade para criar seu filho longe da luta por permanência. Porém, na vida, batalhas não se escolhem.

Hoje Maura é ocupante e militante do Movimento Sem Teto da Bahia. Movimento instituído por baianos da capital, do interior e por uma paulistana que lutam juntos contra as pressões empresariais e governamentais que afastam o povo do direito à habitação no estado. “Eu preciso morar e eu vou para essa luta” afirma. “Quando você expulsa pessoas do seu território, você tira


“Feminismo achado na rua”

Vista de Plataforma, bairro do Subúrbio Ferroviário de Salvador. Foto: Adriano Motta

dessas pessoas a história, você tira a vida delas”. Maura fala sobre o descaso dos gestores públicos em desapropriar as áreas que lhes interessam sem buscar compreender as necessidades das famílias e a memória afetiva que foi criada por elas nesses lugares. O incêndio na Baixa dos Sapateiros é um exemplo do descaso do Governo. As 32 famílias que moravam ali foram desalojadas. “O

governo chama a gente pra conversar e aí é estabelecido o aluguel social, na época era pra ser 230 reais. E aí nós fomos adiante nas negociações e provamos que com 230 reais não se mora. Pois bem, conseguimos provar e foi aprovado o valor de 450 reais. Estamos a cinco anos, essas famílias, sobrevivendo de 450 reais. Em quantas moradias, em cinco anos [o Governo] já teria in-

vestido em empreendimentos e reformas dos prédios do Centro Histórico? Por que não há interesse? São homens inteligentes que fazem isso, não é?” O Centro Histórico é um território majoritariamente negro. Não por acaso, é onde se encontra grande parte das ocupações de Salvador. “Aí nós temos que nos voltar pra história, como é que o Centro Histórico foi estruturado? 19


Reunião de mulheres da RENFA. Foto: Reprodução Facebook

Quando [os donos dos casarões] vão embora quem é que fica? Quem fez o Centro Histórico viver até hoje? Se não foi o povo negro?!” A divisão espacial da cidade é feita por nível social e, consecutivamente, pela cor de pele. Feminismo achado na rua

Os corpos femininos que vivem nas ruas de Salvador são os corpos mais vulneráveis da cidade. Caso durmam, as mulheres de rua podem ser estupradas e mesmo acordadas elas são as mais invisibilizadas e atingidas pelas agressões sociais. É para lhes dar espaço em um ambiente hostil que surge a RENFA, Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas. 20

“Em nome de uma guerra às drogas trava-se uma guerra às pessoas [sobretudo às moradoras de rua]. Nesse contexto, é o corpo da mulher que está sob a mira.” Luana Malheiros, ativista da RENFA e pesquisadora da UFBA sobre mulheres em situação de rua e substâncias psicoativas, nos conta quais as prioridades da rede: “Entendemos que não existia aqui na Bahia um campo onde as mulheres pudessem se organizar em torno dessa pauta. Você pode usar o crack que for, nada dá o direito de violar o seu corpo. A grande missão do nosso feminismo, que é algo que Maria Lúcia dizia, é o ‘feminismo achado na rua’, ou seja, estar nos ter-

ritórios onde as mulheres são mais vitimadas por essa guerra e construir a luta com elas”.

"Foi o que aprendi nesse feminismo achado na rua. Vale mais o que construímos aqui" Edisleide Bonfim

A violência de gênero é um pontapé para o envolvimento das mulheres em situação de rua com as drogas. Para tentar apagar as dolorosas marcas da violência, elas passam a abusar


do crack. Luana Malheiros, pesquisadora do tema, reitera que o crack não é o maior problema. “Passamos a entender que a questão não era o crack, era sobre esse conjunto de violências que a mulher sofria.” A violência não vem só de casa com os maridos abusadores ou a rejeição das famílias quando as vêem nas ruas. A agressão contra elas vem também do Estado, que deveria protegê-las. Luana nos conta que foi acompanhar uma companheira que tinha sofrido violência na rua à DEAM, Delegacia Especial de Atenção à Mulher. Ela morava com sua filha pequena na rua e o cônjuge a ameaçou de morte. Ao chegar à delegacia, Luana conta que ouviram de um funcionário que a Casa Abrigo não era para pessoas como sua companheira de luta porque ela é da rua e usa drogas. Luana complementa: “Ela saiu de lá completamente revoltada e fez uma pergunta que me deixou refletindo: ‘Então quer dizer que sou menos mulher que as outras mulheres só porque moro na rua?’." O projeto “Mulheres e Drogas: Nada sobre nós sem nossa participação” começou com o esforço das militantes da RENFA Luana Malheiro e Edisleide Bonfim, pesquisadora da área de saúde mental a respeito das políticas antidrogas atualmente impostas à sociedade brasileira, reuniu em um grande encontro em Recife mulheres e crianças em situação de rua para debater com conhecimento de causa sobre a realidade que vivem.

“Foi uma experiência maravilhosa, pois foi a chance de debater com uma companheira que está usando crack. Falando uma linguagem diferente da feminista da academia”. Para Edisleide, que milita na área da saúde mental nas ruas há mais de uma década, a experiência com a RENFA a transformou. “O feminismo, para mim, foi o pontapé que faltava. Me modificou e me deu autoafirmação enquanto mulher.”

Diante de um Estado agressor e uma sociedade preconceituosa, para as mulheres em situação de rua só existe um consenso: confiança, só nas próprias companheiras. Diante de um Estado agressor e uma sociedade preconceituosa, para as mulheres em situação de rua só existe um consenso: confiança, só nas próprias companheiras. “Nós discutimos sobre política no Brasil e na Bahia, mas também perguntamos sobre a companheira que nunca mais veio. Foi o que aprendi nesse feminismo achado na rua. Vale mais o que construímos aqui.”

Processo de formação da cidade

Salvador possui uma distribuição de serviços, equipamentos e investimentos, extremamente desigual. O Estado dispõe de uma burocracia que exclui as comunidades periféricas do planejamento urbano. Mesmo as reivindicações da população sendo entendidas como importantes, são muito pouco incorporadas nos planejamentos oficiais, que muitas vezes já vêm prontos dos gabinetes. “O processo de produção da cidade passa também por definições políticas delimitadas. Quais são os bairros que recebem maior tipo de investimento em iluminação pública? Quais são os bairros que recebem maior tipo de investimento em mobilidade, infraestrutura urbana? A gente tem a cidade muito demarcada nos espaços de privilégio e nos espaços de negligência. Em termo de violência por exemplo… A gente pega as taxas de homicídio de Salvador e territorializa. É muito evidente quais são esses territórios onde a morte é autorizada”, nos conta Gabriela Leandro, professora adjunta da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFBA e coordenadora da linha “Presença Negra na Produção da Cidade” do grupo de pesquisa Lugar Comum. Desde a graduação Gabriela (conhecida por seu apelido, Gaia) percebeu que os espaços públicos são esquecidos na formação dos profissionais que constroem a cidade. “A periferia realmente é muito pouco 21


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Gaia Leandro, professora adjunta da FAUFBA. Foto: Arquivo AECC

encarada, a não ser como objeto de estudo muito específico, mas não como status de vivência cotidiana.” A academia reflete muito bem como se dá a formação das cidades e os privilégios de certas áreas. A elite que ocupa as cadeiras na universidade não anda pelos espaços públicos, não conhece a realidade das periferias e das ruas. “Temos historicamente a construção de um campo, que ainda que discuta questões sociais, é majoritariamente composto por profissionais que, em sua maioria, não vêm de realidades populares. Então, se pegarmos o Brasil, o corte racial vai ser bem explícito. A gente não tem muitos 23

arquitetos e arquitetas negras. Não temos dados sobre isso.” Na FAUFBA Gabriela desenvolve uma pesquisa com um time de estudantes de graduação (voluntários e bolsistas)

"O processo de produção da cidade passa também por definições políticas delimitadas" Gaia Leandro

para mapear onde estão esses arquitetos, para construir novas (e negras) referências na área. Entender o que esses

arquitetos têm produzido, começando de Salvador e partindo para o mundo. Gaia reconhece que a historiografia da arquitetura brasileira se debruça muito sobre o sudeste e frisa a importância desse mapeamento no Nordeste. “Estamos tentando construir contranarrativas sobre esses espaços de atuação. Trazer outras referências, conhecer esses trabalhos. Trazer a discussão desse campo para outras dimensões que não estão estabelecidas.” Pesquisar sobre esses profissionais e conhecer seus trabalhos é fundamental para acompanharmos o desenvolvimento das cidades sob o olhar de quem realmente a ocupa.


PERFIL

Azul é a cor mais forte Mirian Hapuque, estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes, faz da sua militância uma forma de combater os diversos preconceitos que circundam sua vivência de mulher, negra e mãe Por Annandra Lís e Maria Eduarda Mascarenhas

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er mãe é um ato de coragem. Mirian Hapuque (27) é uma amostra de mãe que vai de encontro aos dogmas sociais impostos às mulheres. O azul do seu cabelo reflete bem a personalidade de Mirian, pois o azul demonstra força - bem diferente do estereótipo de feminilidade e fragilidade que é imposto às mulheres desde crianças, geralmente associado à cor rosa. Quando se é mãe a sociedade espera um comportamento de submissão e entrega. A sexualidade é constantemente negada, ao que Mirian reage levantando a bandeira da bissexualidade e da liberdade de expor e compartilhar seu corpo como e com quem desejar. Os julgamentos vêm por todos os lados. Os mais afiados são da família do seu ex-marido, que

por vezes entram em contato pelas redes sociais apontando suas fotos sensuais ou postagens sobre seus desejos, como uma falta de vergonha e respeito pelo título de mãe que Mirian possui. "É como se eu não tivesse vez nem voz. Eu não posso simplesmente falar, senão, recebo uma taxação”, desabafa. “É como se eu fosse uma mulher sempre disponível pra quem quiser chegar do meu lado só porque eu falo abertamente da minha sexualidade e da minha orientação sexual. É como se meu corpo fosse público e é horrível isso. Me machuca ver a galera brincando com isso, é como se a minha vontade não existisse.” A solidão da mulher negra, principalmente das mães, é trazida por Mirian com um pesar que só quem ocupa esse lugar de fala consegue exprimir. “Ser mulher preta e arranjar um outro companheiro/a ou até mesmo amizades é muito difícil porque na real ninguém quer andar lado a lado com a gente. A galera paga de inclusiva mas essa relação vai até certo nível”.

Seu tom de voz baixo e calmo, se contrapõe à sua personalidade combativa. Mirian reconhece que, por mais que tenhamos avançado historicamente, ainda persiste à mulher um papel de submissão em relacionamentos heteronormativos. Entre um suspiro e outro ela vai contando como, mesmo inserida no movimento feminista, foi difícil sair do ciclo de violência que sofreu pelo seu ex-marido. Sem ter a quem recorrer, a agressão persistiu a um ponto que ou Mirian denunciava ou morria. Ainda assim faltavam forças para gritar socorro, até porque o ato de denunciar vai além do “disque 180”. Por não conseguir fazer ecoar sua aflição, foi preciso que um grupo de 30 feministas ligassem continuamente para que a polícia fosse

"É como se eu fosse uma mulher sempre disponível pra quem quiser chegar só porque eu falo abertamente da minha sexualidade. Me machuca ver a galera brincando com isso, é como se a minha vontade não existisse”


até o Parque São Cristóvão colocar um fim nessa situação. Pelo menos esse era o esperado. O agressor alegou que Mirian estava se envolvendo com outras mulheres e que por tal motivo as agressões eram justificáveis. O policial, amparado pelo machismo e na tentativa de proteger o seu gênero, acatou as manifestações do agressor e tentou distorcer todo o depoimento de Mirian, tentando fazê-la desistir da denúncia. “Ele perguntava ‘Você tem certeza que ele bateu mesmo em você? Não foi você que acabou batendo a cabeça na parede?’ E eu respondia, irritada com aquela situação e com minha filha nos braços ‘Você acha que eu faria isso com minha cara? Você acha mesmo?’ E o tom da conversa foi aumentando até que fizeram uma rodinha de 8 policiais armados. Depois ele [o policial] veio até mim e falou ‘Você vai mesmo insistir em denunciar? Se você insistir eu vou jogar você e sua filha no camburão, você vai mesmo querer que ela passe por isso?’”. Exprimindo a fibra e força que nem sabia que tinha, a mulher que hoje tem cabelos azuis, recorreu à defensoria pública e conseguiu abrigo. Lugares que teve que encarar sozinha e machucada tanto física quanto emocionalmente. Mírian veio do Mato Grosso do Sul passar por uma transformação profunda na Bahia. A luta junto ao feminismo, às

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questões político-partidárias, raciais e sociais/econômicas foi uma bandeira levantada com muito custo por Mírian. Ela sentiu na pele as agressões por ser mulher e bissexual. Começou a luta pelo direito à moradia após ser obrigada a sair da casa do agressor. Assim como outras mulheres em situação de violência doméstica, Mírian passava pela dependência econômica, o que a fez recorrer à ocupação Luísa Mahin, no bairro do Comércio levando junto a sua filha ainda pequena. “Eu vi a ocupação como uma saída. Descobri outras mulheres na mesma situação que eu. Que viam no abrigo, na luta por moradia, uma outra saída para a situação de violência doméstica.” A luta feminista começou um pouco antes disso, quando Júlia, sua filha, ainda estava na barriga. Mírian nos conta que não se identificava com o processo de maternidade e passou por depressão pós-parto. Foi nas leituras feministas que encontrou um apoio para suas preocupações de uma gravidez não planejada. “Eu me vi ali como uma pessoa fora da caixa, achando que eu não era normal porque não conseguia ter o afeto que dizem que a gente tem. Encontrei então textos que me contemplavam e eram no sentido feminista. Aí que fui conhecendo o feminismo. Fui me engajando no movimento.” A relação com sua filha foi construída com muito custo. Não foi algo que brotou magicamente com o nascimento. Como uma jardineira, Mírian regou sua filha de cuidados e amor, mas nem sempre o amor

“Pra eu tomar a decisão de deixar ela ir com o pai, que além de tudo é meu agressor, entrou aí a questão econômica que é algo que me dói muito. Mas assim, na medida do possível eu tento manter o máximo possível do vínculo mas dói muito”

é suficiente para nutrir um jardim. Num ato de coragem e resignação, mais uma vez a jardineira precisou extrair coragem de onde não imaginava que tinha e enviou sua filha de volta ao Mato Grosso do Sul para viver com a família do seu agressor. Que, embora toda a problemática da violência doméstica, era quem possuía mais condições de amparar a pequena Júlia e lhe proporcionar uma vida que a situação econômica e psicológica de Mírian não poderia sustentar. “Pra eu tomar a decisão de deixar ela ir com o pai, que além de tudo é meu agressor, entrou aí a questão econômica que é algo que me dói muito. Mas assim, na medida do possível eu tento

Mirian com sua filha, a pequena Júlia: criança feliz é criança na luta. Foto: Arquivo pessoal


manter o máximo possível do vínculo - mas dói muito.” A essa altura da entrevista, a equipe de reportagem da AECC já estava a beira de um choro copioso e com soluços, mas Mírian se mantém serena em meio aos relatos de dor, o que passa força e confiança a todos que estão ao seu redor. Quem acompanha a trajetória dessa mulher percebe que as situações de risco deixaram marcas em seu caule, mas não deixou morrer a sua sensibilidade. Algumas pessoas ainda apontam como desumana por ter deixado Júlia ir. “Me negam. E eu? Será que eu tenho capacidade pós um trauma tão grande desse dar todo o suporte para minha filha? Eu não tenho privilégio nenhum, ele (o agressor) tem – de classe, de cor, de tudo. Eu imagino que muitas mulheres passam por esse dilema.” A denúncia, as passagens pela delegacia, IML, abrigo. O desamparo do Estado com a vítima e a culpabilização são nuances de uma experiência que Mirian luta para que seja suprimida da realidade de tantas outras mulheres. Sua filiação ao PSOL também é um meio que ela encontrou para que as vozes dessas mulheres fossem ecoadas de uma maneira mais efetiva. Mírian acredita também que a arte tem um papel fundamental na construção de uma nova cultura, principalmente o cinema, área de sua concentração, que mexe com a subjetividade das pessoas e atinge todos os públicos. Atualmente cursa Bacharelado Interdisciplinar em Artes, onde se encontrou. Além do curso, a Bahia trouxe muitos encontros

Miriam, comunista à flor da pele. Foto: Arquivo pessoal

“Eu vi a ocupação como uma saída. Descobri outras mulheres na mesma situação que eu. Que viam no abrigo, na luta por moradia, uma outra saída para a situação de violência doméstica”

com o seu próprio íntimo. Estar em uma cidade onde não se é a única mulher negra, a única cacheada, a única que luta contra padrões historicamente estabelecidos, fez uma Mírian mais comprometida com o outro. Quando ela pensa em não ir para um ato por ser perigoso, pensa “Eu não tenho mais do que ter medo. Todas as possíveis violências que eu poderia passar eu já passei… O que me resta? É isso. Vou sem medo.”. E ao término da entrevista, Mírian vai sem medo para mais uma manifestação, a Marcha Anti-facista. Ela segue com a tatuagem do símbolo marxista no pescoço, com as marcas das opressões, com a sua filha Júlia Áurea plantada no coração e um grito sincero por liberdade para todos os feridos.

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CAPA

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O que falta para melhorar é tudo

A luta pela visibilidade das mulheres que estão na base da pirâmide de privilégios Por Álene Edriele e Yasmin Cade

Foto: Yasmin Cade

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A

s mulheres negras, gordas e lésbicas necessitam de muito mais força para lutar contra os preconceitos enraizados historicamente. Militante desde sempre, Milly Costa, como prefere ser chamada, aprendeu ainda cedo que a sociedade estabelece níveis de poder entre as pessoas para que a estrutura social -baseada em uma pirâmide de privilégios- seja mantida. As diferentes rotulações de gênero, raça e orientação sexual ficam ainda mais pesarosas quando se acumulam em um corpo gordo. Por mais resistentes que sejam esses conceitos antigos e visões deturpadas acerca de assuntos tão simples, embora delicados, Jamile Costa é ainda mais resistente. Ela vê nas diversas causas uma oportunidade de fazer a mudança, mesmo sabendo que esse processo será tardio.

Começo na militância

Os estudos sobre gordofobia são recentes, no entanto, Milly nos conta que começou a militar por essa causa desde os seus 20 anos devido a todo sofrimento que passou durante sua infância e adolescência. Desde então, segue pesquisando para buscar formas de entender e amenizar esse problema social. O corpo gordo é rejeitado na catraca do ônibus, nas lojas de roupa, no banheiro da faculdade e, principalmente, pela indústria da beleza que alimenta um estereótipo ma30

gro. “Eu descubro que eu sou uma mulher gorda e que isso incomoda muito a sociedade, porque quando você cresce você vê um mundo totalmente diferente”. Milly explica como a falta de conhecimento, inclusive dos próprios cursos de saúde, contribuem para manter as mulheres negras, lésbicas e gordas, como ela, na base da pirâmide de privilégios. Essa negação alimenta a indústria da magreza e um empoderamento artificial que se apropria do plus-size para vender.

"Eu descubro que eu sou uma mulher gorda e que isso incomoda muito a sociedade, porque quando você cresce você vê um mundo totalmente diferente" É necessário que outras pessoas abram mão de seus privilégios para que todos os corpos sejam vistos como iguais. Que a gordura deixe de ser considerada um sinal de doença e passe a ser entendida como peculiaridade do organismo de cada ser humano. Recentemente, Jamile começou a se movimentar também contra a LGBTfobia. Batalhar tanto para não ver o preconceito fez com que ela não o percebesse. Seu despertar veio após uma cena vexatória

causada pela lesbofobia. Uma senhora no shopping se retirou de uma mesa próxima em que Jamile e a namorada estavam, arrastando sua filha pequena consigo e dizendo 'Isso aqui não é coisa para você estar perto,


Para exemplificar como funciona a pirâmide de privilégios, apresentamos dois gêneros e duas sexualidades. A dinâmica social pode mudar mediante diferentes sexualidades, padrões estéticos e classes sociais.

vamos sair daqui'. A partir dessa situação, o esforço íntimo que Milly desprendia para não ver a LGBTfobia, foi substituído por observar tais comportamentos, se sentir atingida e fazer algo a respeito deles.

Coletivo Elekô

A urgência em retratar assuntos em que a mulher negra, gorda e LBT estivesse inserida, resultou na criação do Elekô. A ideia que surgiu no 8 de março, abarca de maneira transversal vários assuntos e assume um

papel importante nas discussões feministas. Milly explica que a função do Elekô é se infiltrar. Adentrar em outras reuniões, em outros movimentos. Pautando a questão da mulher negra, lésbica e bissexual, para 31


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Milly Costa relata a insuficiĂŞncia do feminismo praticado atualmente Foto: Yasmin Cade

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Milly Costa durante reunião do Coletivo Elekô. Foto: Arquivo pessoal

que essa mulher também possa ser notada. O olhar que Jamile direciona para o feminismo, à partir da vivência do coletivo, é para discutir o que esse feminismo realmente tem feito. Qual o impacto que esse movimento gera. Principamente em comunidades mais distantes, locais invisibilizados onde os costumes não são os mesmos. “São muitas dificuldades que as pessoas poderiam estar discutindo mas elas não estão. Porque elas estão escolhendo as pautas que vão chamar mais atenção, tipo, quem tá com cabelo na perna e quem não tá” explica Jamile. Reforçando a ideia do Elekô, ela fala que as integrantes do coletivo se conectam. Existe uma desunião dentro dos movimentos. Existe o medo de perder o poder e existe o apagamento de ques-

"São muitas dificuldades que as pessoas poderiam estar discutindo mas elas não estão. Porque elas estão escolhendo pautas que vão chamar mais atenção, tipo, quem tá com cabelo na perna e quem não tá" tões que ferem os direitos da mulher. À partir do momento que o feminismo teve o seu ‘início’ através da luta de mulheres brancas para trabalhar, por exemplo, as mulheres ne-

"A gente vem de uma sociedade que é estruturada por mulheres. As sociedades africanas são estruturadas por mulheres, então a gente não trouxe isso na nossa bagagem. Mas as mulheres brancas vêm totalmente de uma história de subserviência a homem" gras já exerciam esse papel. “A gente vem de uma sociedade estruturada por mulheres, as sociedades africanas elas são estruturadas por mulheres, então a gente não trouxe isso na nossa bagagem. Mas as mulheres brancas vêm totalmente de uma história de subserviência a homem”. A disparidade entre as lutas da mulher negra e da mulher branca fez com que essa ação excluísse grande parcela das questões mais violentas. Insuficiência do feminismo atual

Milhares de mulheres morrem devido ao feminicídio - o Brasil é o 5° país com maior taxa de assassinatos femininos no mundo, segundo o dossiê feminicídio - elencando a gordofobia, pressões estéticas também matam as meninas 34


diariamente. Mulheres indígenas ainda são marginalizadas e sofrem com a ausência de representatividade. Existem mulheres nas ruas, nas periferias que não recebem qualquer tipo de suporte e não se identificam com o discurso pouco acessível quando o recebem. “Esse feminismo que está aí não chega na periferia. Nem essas mulheres negras que estão aí falando chegam à periferia. Você vai pegar uma fala de Djamila e vai levar para uma mulher da periferia. Ela vai ficar olhando para aquilo ali e vai dizer ‘han'? É isso que acontece. Eu me preocupo muito pelo discurso, pela linguagem que tá sendo usada”. Quando perguntada sobre o que falta no feminismo atualmente, Jamile responde: Tudo.

“Quem ganhou com isso aqui? Porque a gente tem pessoas que ganharam notoriedade, mas a gente não tem causas que ganharam. Tá tudo ainda no mesmo. Todo mundo morrendo em maternidade, sendo espancado. O índice de assassinato de mulheres só sobe. Mulheres depressivas e pessoas que as famílias abandonam por ques-

"Esse feminismo que está aí não chega na periferia. Nem essas mulheres negras que estão aí falando chegam à periferia"

tão de sexualidade, e aí? As mulheres estão na rua e são profissionais do sexo. As mulheres negras que ainda estão em casa de família. Pessoas que não conseguem nem sair do lugar que nasceram. Não é preciso ir longe, você chega em Periperi e é praticamente uma outra Salvador, tem gente ali dentro que nunca saiu dali.” Lutar para derrubar esses estigmas é para muitas uma sobrevida, por vários motivos. Pessoas como Jamile Costa tentam acabar com essas formas de ver o mundo, que muitas vezes internalizamos de maneira inconsciente e reproduzimos, ferindo a nós mesmas e as que sequer chegaram. Mesmo sem saber se um dia vai alcançar, Jamile persiste.

Milly fala sobre sua vivência durante a mesa Feminismos Singulares. Foto: Arquivo AECC

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EIXO

Conheça o NEIM: o primeiro centro de estudos feministas do país O pioneirismo das mulheres da UFBA que levam para a academia discussões sobre gênero e suas problemáticas Por: Yasmin Cade* *Com colaboração de Adriano Motta

O

Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM) é o núcleo de estudos feministas mais antigo do país. Inaugurado em 1983 e sediado no campus de São Lázaro-UFBA, o Núcleo tem sua atuação direcionada para a promoção de atividades nas áreas de ensino, pesquisa e extensão. Seu principal objetivo é a construção de uma consciência crítica acerca das relações de gênero hierárquicas predominantes, levando à permanência de comportamentos machistas e misóginos na nossa sociedade.

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O NEIM, quando foi criado, estava vinculado ao curso de Ciências Sociais da UFBA, sendo transformado em órgão suplementar da universidade apenas em 1995. Desde então, as pesquisas e os trabalhos foram evoluindo. Com isso, o Núcleo conquistou grande reconhecimento nacional e internacional, o que permitiu a criação do primeiro programa de pós-graduação (mestrado e doutorado) em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo (PPGNEIM) da América Latina. Seu objetivo é atender às crescentes demandas de profissionais especializados no desenvolvimento de perspectivas críticas acerca das questões de gênero, sexualidade, raça, etnia, entre outros. OBSERVE

Entre os projetos ativos, um dos mais importantes é o Observatório para Implementação da Lei Maria da Penha

(OBSERVE), que funciona como instância autônoma através de um consórcio liderado pelo NEIM. É formado por outras 8 organizações não-governamentais de várias partes do país, como o AGENDE (Ações em Gênero, Cidadania e Desenvolvimento), de Brasília, e

“A gente tem uma legislação, no entanto ainda existem professores que se recusam a chamar o nome social de um aluno ou de uma aluna. Isso não nos cabe. Você pode até não aceitar, mas você tem que aprender a respeitar”


Marca utilizada pelo NEIM. Imagem: Reprodução Internet

a CEPIA (Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação, Ação), do Rio de Janeiro. Márcia Tavares, professora do mestrado e pós-doutorado do PPGNEIM e pesquisadora associada do NEIM, é a coordenadora do OBSERVE Regional Nordeste. “O nosso trabalho é feito através de pesquisas nas DEAMs, nos serviços da rede de proteção - a exemplo do Loreta Valadares, de CRAS e de CREAS, centros de referência que atendem às mulheres em situação de violência. Também trabalhamos muito com rodas de conversa, ouvindo as histórias dessas mulheres”. Segundo a professora, um trabalho recente com alunas e bolsistas da universidade, realizado através de rodas de conversa e de questionários eletrônicos, revelou que a falta de uma política combativa é a principal dificuldade enfrentada pelas estudantes que sofrem violência dentro do ambiente universitário. Muitos episódios de preconceito, assédio e violência ainda são enfrentados cotidianamente pelas mulheres na universidade, o que reforça a

“O que contribui para que isso continue acontecendo é o silêncio. Quando a gente fala de alguém que mora em uma residência, mesmo que seja uma residência universitária, é o lar [dela]. Então é uma violência doméstica. São questões que a universidade não pode ignorar” necessidade das discussões sobre gênero no ambiente universitário. Em 2015, segundo pesquisa do Instituto Avon, 2 em cada 3 universitárias brasileiras disseram já ter sofrido algum tipo de violência (física, sexual, moral ou psicológica)

dentro da universidade. Tentativas de estupro, racismo, violência verbal e LGBTfobia são algumas das situações que permeiam o dia a dia de alunas e funcionárias. Essas situações são fruto de uma ordem patriarcal de gênero que ainda se faz muito presente no imaginário da sociedade e que rege comportamentos e atitudes preconceituosas de muitos. “A gente tem uma legislação, no entanto ainda existem professores que se recusam a chamar o nome social de um aluno ou de uma aluna. Isso não nos cabe. Você pode até não aceitar, mas você tem que aprender a respeitar”, conta Márcia. Essa situação caracteriza um tipo de violência cujas marcas ficam cravadas na pessoa pelo resto da vida: a violência moral ou psicológica. “Essas situações adoecem. Causam isolamento, depressão, solidão e são expressões de violência.” Para enfrentar esse problema, a atual gestão da UFBA estuda a criação de um observatório da violência na universidade. O objetivo seria dar visibilidade a essas situações e estudar a melhor forma de combatê-las. “O que contribui para que isso continue acontecendo é o silêncio. Quando a gente fala de alguém que mora em uma residência, mesmo que seja uma residência universitária, é o lar [dela]. Então é uma violência doméstica. São questões que a universidade não pode ignorar”. 37


Avanços e Retrocessos

Mesmo com muitas mudanças e algumas conquistas, como a Lei Maria da Penha, que já tem 11 anos de vigência, a violência ainda é um fenômeno social que não possui o amparo necessário. “Não basta criar leis, é preciso consolidar serviços e uma rede especializada de atendimento para dar proteção a essas mulheres e garantir que elas consigam se libertar da violência”, explica Márcia.

“Não basta criar leis, é preciso consolidar serviços e uma rede especializada de atendimento para dar proteção a essas mulheres e garantir que elas consigam se libertar da violência” Atualmente, o Brasil sofre com a perda de direitos que foram duramente conquistados pelas mulheres. Muitos serviços de apoio à mulher estão sendo fechados por causa da redução de investimentos na área das políticas públicas. Isso pode implicar no aumento da impunidade dos agressores e do desamparo às vítimas. Em 2013, uma pesquisa divulgada pelo Senado Federal 38

apontou que a dependência financeira da mulher em relação ao seu marido é a segunda maior causa para a não-formalização das denúncias de violência por parte das vítimas, perdendo apenas para o medo do agressor. “A dependência econômica da mulher é uma das coisas reforçadas nessas relações assimétricas. Dessa forma, ela se vê sem saída, principalmente quando tem filhos”. Essa situação é causada pela própria divisão sexual do trabalho que cria a noção de que o mercado de trabalho é para o homem e que à mulher resta os serviços domésticos. “As mulheres, mesmo as que estão inseridas no mercado de trabalho, exercem funções menos qualificadas e, mesmo quando estão no mesmo escalão do homem em termos de qualificação, os salários são inferiores”. Para que a mulher vítima de um agressor do qual é submissa financeiramente se torne independente, é necessário que haja uma atuação intersetorial de apoio à ela. “Um dos fatores que a lei prevê é que haja serviços que possam apoiar a mulher nesse momento. Além de ir para uma casa-abrigo, onde ela possa se libertar do agressor, é necessário ter um serviço que promova a inscrição ou o cadastro dessa mulher em uma bolsa para que possa ter uma renda mínima e articular com outros serviços para capacitar e inserir essa mulher no mercado de trabalho”, explica Márcia.

Outra questão ainda não solucionada é a impunidade. Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e de relatórios do Departamento Penitenciário Nacional, compilados pela Agência Lupa, apenas 28,25% dos acusados de estupro entre 2012 e 2014 foram presos no país. Esse dado, além de demonstrar que a justiça e os serviços de proteção à mulher são falhos, expõe a desvalorização dos relatos das vítimas por parte dos componentes da burocracia judicial brasileira, desde o juiz ao policial que faz a triagem nas delegacias. Para Márcia Tavares, isso reflete a cultura da mulher como objeto:

“As mulheres, mesmo as que estão inseridas no mercado de trabalho, exercem funções menos qualificadas e, mesmo quando estão no mesmo escalão do homem em termos de qualificação, os salários são inferiores”


“Essa objetificação da mulher faz com que determinadas convenções de gênero impliquem [em] ‘para onde’, ‘c omo’, ‘quando’ e ‘c om quem’ a mulher deve sair. Essas convenções definem comportamentos distintos para homens e mulheres”. Então, determinados comportamentos, como sair sozinha à noite, usar um batom vermelho ou uma roupa mais chamativa servem como justificativas que apenas reforçam a ideia de que “a mulher ainda é objeto, é corpo do qual não é proprietária. Esse corpo tem como proprietário o homem, que pode fazer com ele o que bem entender”. Contra-Movimento e Resistência

“A revolução sexual do final dos anos 60 constrói uma nova mulher que não aceita mais ser objeto. É uma mulher que é senhora de seu destino e isso passa a incomodar setores conservadores que querem manter seus privilégios”. Segundo Márcia, para impedir que as mulheres conquistem a igualdade e para manter sua posição privilegiada, os setores conservadores criam uma série de instrumentos para inibir a luta feminista, como a disseminação através da mídia de uma leitura errônea do movimento.“ A ignorância faz com que as mulheres e os homens pensem que o feminismo é o contrário de machismo e não é. O feminismo nada mais é do que a luta por justiça social, para eliminar a desigualdade de gênero”.

“A revolução sexual do final dos anos 60 constrói uma nova mulher que não aceita mais ser objeto. É uma mulher que é senhora de seu destino. Isso passa a incomodar setores conservadores que querem manter seus privilégios” Apesar das conquistas dos movimentos feministas nas últimas décadas, ainda há muito pelo que lutar. “Esse é um processo de educação da sociedade. Por isso que as mudanças são muito lentas. Quando a gente fala de mudança, falamos de mudança histórica. A história é muito mais lenta do que a forma como pensamos o tempo no dia a dia”. Para as mulheres do NEIM, cada pequeno passo é uma grande conquista. “Não é fácil. A gente está falando em mudar uma cultura que perdura há bastante tempo. Acho que nós estamos dando os primeiros passos. Acho que uma grande iniciativa é a gente estar conferindo visibilidade a essas situações. Não dá mais para mascarar”. O NEIM procura trabalhar de acordo com a realidade de cada

mulher, pois as situações das mulheres são diversificadas. Enxergar essas diferenças é um dos primeiros passos. “Não existe uma mulher universal. Existem mulheres, cujas demandas são completamente diferentes umas das outras a depender do lugar, da região onde ela mora, da condição de classe, da condição de raça, da geração ou faixa etária e de sua orientação sexual. O que une os movimentos é a luta pela igualdade de gênero”. O trabalho do Núcleo, suas pesquisas, seus estudos e suas orientações são voltados para a conquista da equidade social e, para que isso ocorra, é necessário reconhecer que existem diferentes lutas femininas, as quais se entrelaçam na necessidade de se alcançar uma sociedade justa e igualitária.

“Não é fácil. A gente está falando em mudar uma cultura que perdura há bastante tempo. Acho que nós estamos dando os primeiros passos. Acho que uma grande iniciativa é estarmos conferindo visibilidade a essas situações. Não dá mais para mascarar” 39


PÁGINAS VERDES

Representatividade

IMporta Mulheres negras descolonizando espaços segregadores

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andara Lucas Pinho é verdadeiramente porto-farol dos seus. A advogada, atualmente na presidência da Comissão da Promoção da Igualdade Racial da OAB Bahia, entende sua representação política como essencial na construção e abertura de um espaço em que outras mulheres negras podem e devem estar. Dandara entrou na faculdade aos 16, e, desde então, procurou representar o seu local de fala. Hoje ela entende que sua responsabilidade perante a igualdade racial é muito grande.

Por Álene Edriele e Maria Eduarda Mascarenhas* *Com colaboração de Erick Barbosa

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Foto: Erick Barbosa


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De que forma a Comissão de Igualdade Racial faz diferença na busca pela igualdade? Como funciona? A Comissão de Promoção da Igualdade Racial está na 12ª gestão, ou seja, há 12 gestões a Comissão está trabalhando na estrutura da OAB-Bahia. Em todas as gestões foi presidida por mulheres negras. A CPIR tem vários projetos que trabalham unificados para com a advocacia e para com a sociedade civil. Desenvolvemos um trabalho também com as mulheres negras – com a comunidade negra, no geral – numa perspectiva de resgate da autoestima e da ancestralidade. Essa ancestralidade em nada tem a ver com escolha de religião; mas tem a ver com religiosidade. Esse resgate da ancestralidade em que diversas vertentes religiosas têm a base no continente africano e nessa diáspora que é a Bahia e o

"Nosso principal papel para com as pautas de igualdade racial é justamente a articulação e o diálogo entre as instituições que pensam e que devem monitorar as políticas públicas de promoção da igualdade racial" 42

Brasil. Um dos nossos projetos mais fortes é: “A Consciência Negra para além do Novembro negro”. Inicialmente visava levar atributos atinentes ao Estatuto da Igualdade Racial e de Combate à Intolerância Religiosa na Bahia que, inclusive, tem um capítulo que trata especificamente das mulheres negras. Esse capítulo está em âmbito de regulamentação junto com a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e a Secretaria de Política para as mulheres – eu sou representante da Ordem na Rede de Combate ao Racismo e Intolerância religiosa desde o ano de 2015. A gente vem dialogando nessa perspectiva de construção, sobre o que vai ser essa regulamentação e de que forma essa política que versa sobre mulheres negras vai transversalizar com as demais políticas. A OAB, através da Comissão, vem dialogando numa perspectiva institucional com o governo do Estado, secretarias, conselhos. Nós tomamos assento no Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra, um conselho consultivo. Eu sou representante da Ordem nesse ambiente. A gente vem dialogando sobre como a própria legislação pode ser menos racista, machista, LGBTQI+fóbica e em todos esses aspectos as mulheres estão envolvidas. Estamos nesse processo fazendo uma política de articulação e visando principalmente promover essa igualdade racial no que tange às mulheres negras. Recebemos denúncias sobre racismo institucional e uma denúncia das

"Então perceba como representatividade importa. Esse é o meu lugar de fala: candomblecista, negra, mulher, que vem dialogando nessa perspectiva [da igualdade racial]"

mais corriqueiras é da violência obstétrica em hospitais de cunho público. A demora no atendimento a mulher negra e todas as nuances que envolvem a morosidade do atendimento para com essa mulher. Então a gente vem dialogando com as instituições numa perspectiva coletiva – e não apenas em casos pontuais. Nosso principal papel para com as pautas de igualdade racial é justamente essa articulação e esse diálogo entre as instituições que pensam e que devem monitorar as políticas públicas de promoção da igualdade racial.

Como você entende o poder de fala de uma mulher negra que luta pela igualdade racial? Eu entrei na Comissão como presidente em 2015, e desde então várias pessoas vem se autodeclarando hoje participantes/simpatizantes de religiões de matrizes africanas. E isso se deve, não quero ser pedante não, após o meu ingresso nesse


espaço de construção de política que é a OAB. Então perceba como representatividade importa. Esse é o meu lugar de fala: candomblecista, negra, mulher, que vem dialogando nessa perspectiva. “Nós somos porque todos são. E nada sobre nós sem nós” e o que isso quer dizer? Que estamos aqui pensando e fazendo política, construindo um espaço para que outras advogadas mulheres negras permaneçam. Não apenas nessa pauta de cunho racial, igualdade religiosa ou esporte; mas em pautas como a Comissão da Mulher Advogada, Comissão de Ensino Jurídico, Comissão da Mulher, Comissão de Prerrogativas, dentre outras. O nosso principal anseio é de que tenhamos mulheres negras em outros espaços de direção na Ordem, no conselho seccional e nas presidências de Comissão que não tenham a pauta racial como elemento central.

Como você enxerga a participação feminina em trabalhos da OAB? O Plano de Valorização da Mulher Advogada, que foi aprovada em 2015, fez com que essa gestão MAISOAB tivesse a participação de 30% de mulheres. Só que desses 30%, quantas são negras? A nossa vice-presidente é negra; a Conselheira Federal é parda [o IBGE classifica pretos e pardos na mesma categoria]. O espaço da mulher antes era na consultoria e na organização. Ficou claramente cristalino para a OAB-BA que

as mulheres fazem o diferencial no que cerne a colocar as pautas para frente e a sobrepor o conteúdo das pautas, inclusive no âmbito jurídico. Nós somos 56% de advogadas inscritas que pagam anuidade e agora vamos numa perspectiva de termos a paridade participativa 50-50, levando em consideração o objetivo de pelo menos 25% de advogadas negras nos conselhos, na direção e nas presidências de comissão.

"A companhia dessas mulheres [Silvia Cerqueira, Luislinda Valois, Patrícia Lima Lacerda, entre outras] e o papel que essas mulheres desempenham na advocacia e com a sociedade civil faz com que essa diferença [de gênero] diminua aos poucos" Você acha que a Ordem ainda é um espaço segregador? A própria constituição da profissão em sua gênese é segregadora. Perceba, quem eram os advogados? Homens, heterossexuais e que fazia as vezes do colonizador. Mas veja como isso

já evoluiu; será que três gerações atrás você iria dialogar com uma advogada candomblecista a frente de uma Presidência de Comissão? Perceba. “Apesar de tanto não e toda dor que nos invade, somos nós a alegria da cidade”, já dizia Lazzo Matumbi. Apesar desse histórico segregador estamos nós nessa labuta cotidiana, não pra desmanchar, mas pra evoluir, para descolonizar essa profissão. A OAB-BA fez alguns meses inteiros em homenagens para algumas advogadas que trabalham para advocacia de maneira voluntária. Esse espaço o qual eu e outras colegas ocupamos é voluntário; a gente trabalha gratuitamente para a advocacia da Bahia. Nessa homenagem eu recebi várias mensagens como “eu nunca vi uma mulher candomblecista na página da OAB que não fosse algo vinculado a intolerância religiosa”/“Eu nunca vi uma mulher de turbante advogada”. Sabe esse ineditismo? Então, o cenário vem se descolonizando sim, graças a mulheres outras que estiveram nesse espaço, como por exemplo a Silvia Cerqueira, a própria Luislinda Valois, Patrícia Lima Lacerda (ex-presidente da Comissão da Promoção da Igualdade Racial), Cleia Costa dos Santos, Maira Vida, dentre outras. A companhia dessas mulheres e o papel que essas mulheres desempenham na advocacia e com a sociedade civil faz com que essa diferença diminua aos poucos. Mas isso não quer dizer que nós estamos no momento ideal, que estamos num espaço confortá43


vel, num espaço ideal. Quer dizer que depende de nós e das próximas gerações – e é por isso que Juliana Pereira [presente com Dandara na entrevista] está na Comissão ainda enquanto estudante de Direito, exatamente para compreender esse pertencimento da identidade afro-brasileira, esse legado africano que verdadeiramente a gente tem e conceber a importância que é fazer o Direito com a influência desse legado.

Você acha que ainda falta um suporte jurídico para os negros que sofrem com o racismo? O que falta é uma reformulação no currículo da graduação do curso de Direito, tendo como base uma perspectiva de inserir as legislações que tratam sobre as discriminações raciais. E uma das principais é essa aqui: Estatuto de Promoção da Igualdade Racial e de Combate à Intolerância do Estado da Bahia.

"A gente precisa ir em busca dessa igualdade material no cotidiano, no palpável, e não essa igualdade que está aí no campo da idealização de Aristóteles, de Platão" 44

"Existem 222 processos de cunho de racismo em trâmite no Tribunal de Justiça-BA; apenas 7 [de 2015 até 2018] foram julgados. Será que o problema é apenas de cunho processual ou será que aí está imbricado nuances e influências do racismo institucional?" Por que do Estado da Bahia e não o nacional? Porque o nosso Estatuto – para além dos seus capítulos que tratam especificamente de segurança pública, de cultura, de juventude e mulheres negras, do acesso à Justiça – traz os conceitos do que é intolerância religiosa, discrimi-nação racial, desigualdade racial, racismo, racismo institucional. Nosso estatuto é extremamente metodológico e pedagógico, mas não é ministrado nas faculdades de Direito. Como teremos então profissionais especializados na temática? Como teremos juízes, promotores, procuradores, defensores que saibam exatamente qual é a nossa pauta se na

graduação de Direito o Estatuto não é ministrado? Se nos concursos públicos o Estatuto não é cobrado? Então perceba o quão é difícil labutar cotidianamente com essa questão do racismo institucional. Nós ficamos sabendo que existem 222 processos de cunho de racismo em trâmite no Tribunal de Justiça do Estado da Bahia; apenas 7 (de 2015 até 2018) foram julgados. Será que o problema é verdadeiramente apenas de cunho procedimental/processual ou será que aí está imbricado nuances e influências do racismo institucional?

O que Dandara Pinho considera indispensável para que essa igualdade, seja de raça, gênero, assuntos que a gente está pautando, seja atingida/alcançada? O princípio da igualdade precisa ser analisado numa perspectiva material e não em uma perspectiva meramente formal. Todos são iguais perante a lei, mas será que todos são iguais perante a lei mesmo? Porque se fossem, e a gente sabe que não é, não tinha que ter a lei Maria da Penha, o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Estatuto do Idoso, o próprio Estatuto da Polícia Militar ou legislações específicas de outros pontos. Então a gente precisa ir em busca dessa igualdade material no cotidiano, no palpável, e não essa igualdade que está aí no campo da idealização de Aristóteles, de Platão.


ESPECIAL

Cronista do Rolé Cronista, contista e poetisa, Tainá Almeida é a Cronista do Rolé, que retrata a realidade da vida dos jovens suburbanos de Salvador através das suas vivências nos rolés pela cidade. Tainá parte do princípio da democratização da literatura. Escrever para se fazer entender: esse é o lema. Levar para pessoas como ela o contato com a leitura sem que seja algo chato ou difícil de ser compreendido. Ela nos conta que vai de encontro a essa cultura academicista. Apesar de ter vontade de cursar Ciências Sociais, Tainá se diz fluente em linguagem popular e que isso é suficiente para cumprir sua missão. Longe dos rótulos da academia e vendo e vivendo de perto a realidade de negros da periferia, ela exclama o seu desejo: “Poder se despir e não ter vergonha de quem vai nos ver.” A revista JAÉ traz nesta edição uma crônica de Tainá Almeida e espera provocar nos leitores a sensibilização às vivências do subúrbio de Salvador.

12/05/2018, Véspera do dia das mães Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite, mas era véspera do dia das mães, viatura e camburão saíam do estacionamento do hospital e naturalmente já sabemos o que é. Não deve ter sido um parto, mas eu queria que fosse. Eu caminhando... Quando a viatura cruzou do meu lado ecoaram gargalhadas, eu ainda não entendo até hoje esta emoção positiva de tirar coisas alheias. Nunca hei de entender! Arrancar à força aquilo que não é seu, a vida, aquela que não é sua, principalmente de outrem que entrelaça outras vidas. Véspera de dia das mães, e eu estava conversando sobre uma ultrassom, “é menina”, vem na época junina! No céu os fogos anunciarão indiretamente a sua chegada (tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais). Toda ultrassom é um choro. Essa emoção eu entendo, não que eu tenha tido um filho, mas entendi que é a felicidade. Ainda é véspera do dia das mães, na sala de espera do hospital acumularam-se corpos que davam anúncio de agonia. "Fulano, me dê notícia do meu menino!" "Meu menino!" ecoou por horas em minha mente e eu tinha outra preocupação para lidar. Minutos depois a repetição: "Acompanhante de A?!" Seu nome tinha a primeira letra do alfabeto, talvez fosse sua felicidade ser um dos primeiros nomes da chamada, mas creio que não essa. Chamaram por três vezes. Quando chamaram "Mãe de A?!" eu não quis levantar a cabeça. Não queria ver aquela cena. Quando chamam

acompanhante é um peso. Eu pensei em um parto, todos do lado de fora esperando notícia, o coração reage estranho, ele palpita tão rápido... Independente da notícia. E era uma maiêutica pra mãe do menino A, se ele sobrevivesse ela diria que seu menino nasceu mais uma vez, até as contrações ela iria descrever. Mas na véspera do dia das mães ela sentiu contrações, mas o corpo foi levado pelo Estado. Pelo desespero da voz na chegada e pela esperança que ainda restava. Ela queria comemorar ser mãe com mais glória, acredito que não reclamaria ficar no hospital enquanto o almoço do domingo rolava nas casas; sábado 12/05/2018 em seu rosto certamente rolaram lágrimas. Na volta pra casa uma esperança estava pousada no vidro do carro. A gente agradecia que a mãe que estava conosco estava bem. E, por dentro, nós três no carro sabíamos que existia uma outra contração para além do parto. A contração do corpo quando há despedida. Eu não vi, mas diziam que no corredor da emergência o corpo da mãe do menino A se contorcia, parecia um ataque epilético… a única coisa que eu ouvia era o choro estridente. Na volta pra casa a gente fingia alívio: ”Se a esperança for no vidro do carro até chegarmos, a sorte é nossa!” Mas sabíamos que a esperança ia além daquele bicho pousado no vidro do carro. Seguimos por minutos em um silêncio reflexivo, mas compactuávamos da mesma esperança. Aquela em que haja vida. 45


ESPECIAL

MULHERES DA AECC Por Adriano Motta Na agência temos mulheres de força Mulheres de pompa Mulheres que somam Mulheres que encantam Do YouTube saiu uma, cantora prodigiosa Da crítica outra, altamente meticulosa Da cultural Utinga Terra de brilho sagaz Veio uma mina cabulosa E até mesmo uma intelectual de Itaberaba fez da agência sua casa Por último, mas não menos importante Tem uma de brilho fulgurante Direto de sua TV Aqui para você ver

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Não iríamos esquecer Somos banhados pela alegria do Bate Folha Já que ser feliz É só uma questão de escolha E escolhemos a agência pois No forró de pé de Serra, na cultura de Itaberaba no poder de Utinga Vem a força do interior Força essa que nos moldou Assim somos a agência Felizes, interioranas, de luz e sorte Mas acima de tudo Pelo povo somos fortes


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Profile for Agência Experimental em Comunicação e Cultura

Revista Jaé 2018: Edição Especial Mulheres Atentas  

Organizada pelos membros da Agência Experimental, a Jaé, revista da AECCl, visa informar o público a respeito da realidade sociocultural da...

Revista Jaé 2018: Edição Especial Mulheres Atentas  

Organizada pelos membros da Agência Experimental, a Jaé, revista da AECCl, visa informar o público a respeito da realidade sociocultural da...

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