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www.missaoantioquia.com

NOSSO TEMPO, NOSSA MISSÃO

Uma revista nova reflete nosso tempo e nossa missão sem perder a essência e os princípios que nos trouxeram até aqui e nos fazem prosseguir para o alvo, pois o tempo em que vivemos é de oportunidades nunca antes experimentadas e, de fato, Deus tem operado em lugares e contextos inesperados! A missão é de Deus – o tempo é a oportunidade que Ele nos dá!

RONALDO LIDÓRIO

Reflexão sobre o chamado da igreja para ser sal da Terra e luz do mundo

MATÉRIAS CONTRIBUIÇÕES - Vídeos JORNALÍSTICAS - Fotografias - Filhos de missionários - Jovens em missões escrevem sobre o campo

- Receitas internacionais

PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Carlinhos Veiga Música comemorativa dos 40 anos da Missão Antioquia


ÍNDICE Editorial: MÁRCIA TOSTES: Nosso tempo - Nossa missão

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Artigo: DAVI RUIZ: Como você pode dormir? Artigo: PASTOR JONATHAN: O Reino de Deus na Terra

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Histórico: SERGIO DA SILVEIRA: Nosso tempo – Nossa missão

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CAPA – BERTIL EKSTRÖN: Nosso tempo

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CAPA – DURVALINA BEZERRA: Sustentabilidade pessoal e ministerial

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CAPA – JOSÉ RICARDO VELOSO: Temos razão para parar?

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Depoimentos – ANALZIRA NASCIMENTO: Vida missionária – Antioquia e eu

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Depoimentos – LEDA MARIA SCHOFIELD: Meu tempo na Missão Antioquia

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Depoimentos – CARLOS GOMES: A Missão Antioquia e nós

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Fotos do campo

Poesia – MARIA CRISTINA VIEIRA SOUTO: Voo da águia

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Filme – comemoração 40 anos – BETO FERNANDES

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Matéria jornalística – MARINA PONTES: Cidadãos do céu?

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Matéria jornalistíca – SARAH VALLEJOS: Quem são os filhos de missionários?

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Matéria jornalistíca – DINÁ MORAES: Cuidado de filhos de missionários

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Matéria jornalística – ANDRÉ TOSTES: O jovem ocidental

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Receita angolana

Perfil – LÍLIA LOBACK: Se seus cabelos brancos pudessem falar, o que diriam?

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Perfil – NOÊMIA RIBEIRO DE ALMEIDA: Servindo como enviadora

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MÚSICA – CARLINHOS VEIGA: Canção de gratidão

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Quadro – EDU DAS ÁGUAS: Jardim do túmulo

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CAPA – RONALDO LIDÓRIO: Nossa missão

Mundo em foco – região dos Bálcãs Mundo em foco – oeste africano

Receita boliviana Receita curda Receita peruana Receita espanhola Receita senegalesa

SILAS TOSTES: Percalços no envio de missionários brasileiros

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FICHA TÉCNICA: Coordenação geral: Márcia Tostes Colaboradores: Daiane Rosa e Diná Moraes Revisora de textos: Heloisa Menzen Assessoria editorial: Jamierson Oliveira - www.sotexto.com.br Capa e diagramação: Valdinei Gomes


EDITORIAL

Nosso tempo Nossa missão

Márcia Tostes

Diretora executiva Missão Antioquia

A

o celebrar 40 anos, a Missão Antioquia alcança a maturidade. Maturidade remete ao termo latino maturum– amadurecido ou pronto para ser colhido. De fato, este é o momento de colheita de frutos de uma longa semeadura! Celebramos nossa participação efetiva no despertar do movimento missionário brasileiro e no caminhar ao lado desse movimento por meio do envio de missionários – da própria Missão Antioquia, de igrejas e de outras agências missionárias. Temos atuado das mais diversas maneiras, desenvolvendo projetos transformadores e adequados às necessidades: plantação de igrejas, atendimento a crianças em situação de risco, saúde, educação e esporte. Temos estabelecido parcerias com igrejas que têm participado do envio de missionários e com intercessores e mantenedores que têm ajudado a sustentar a obra. Temos visto o surgimento de uma nova geração de jovens com desejo de servir a Deus de todo o coração para que Ele seja adorado em todas as nações. De fato, nesses 40 anos, temos cumprido o papel proposto por nossos fundadores e seguidores e colhido o fruto de milhares de pessoas salvas ao redor do mundo. Agora, porém, os tempos são outros – as mudanças têm ritmo galopante e são imprevisíveis! Sendo assim, com desejo de continuar a responder às reais necessidades nas diferentes regiões em que atuamos, reavaliamos nossa visão e estratégia de trabalho, visando a ser relevantes nos diversos contextos transculturais e a incentivar um trabalho de alta qualidade. Esta revista é fruto dessa reflexão! Com alegria, oferecemos mensagens de autores gabaritados que, por meio de articulações teóricas e práticas, oferecem uma perspectiva do tempo no qual vivemos – com dificuldades e oportunidades –, compreendendo que cada geração é responsável por encarar seus próprios desafios. Para que essa missão seja cumprida, em primeiro lugar, todos os cristãos e, principalmente, os chamados para comunicar o Evangelho devem atentar para a mudança do tempo e sua influência na missão. Em segundo lugar, há necessidade de uma nova geração – jovens que respondam ao chamado de Jesus. Nesse sentido, escolhemos apresentar a realidade dos Filhos dos Missionários (FMs), que, apesar de suas peculiaridades, são crianças, adolescentes e jovens normais que enfrentam desafios próprios da vida em outras culturas. Finalmente, oferecemos um delicioso passeio por experiências gastronômicas compartilhadas por missionárias que se esmeram na arte culinária internacional, o mundo visto pelo olhar de missionários – captado por suas câmeras – e outras contribuições criativas, como pintura e música. Uma revista nova reflete nosso tempo e nossa missão sem perder a essência e os princípios que nos trouxeram até aqui e nos fazem prosseguir para o alvo, pois o tempo em que vivemos é de oportunidades nunca antes experimentadas e, de fato, Deus tem operado em lugares e contextos inesperados! A missão é de Deus – o tempo é a oportunidade que Ele nos dá! Boa leitura!

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ARTIGO

Como você pode dormir? A

atual crise é de tal magnitude que ninguém está excluído! A diferença entre as crises anteriores e a crise a­ tual é que a crise atual tem lugar em um momento de grande avanço do cristianismo no nosso continente. As grandes potências estão destruídas diante dos bastiões que mantiveram esperança e nos quais colocaram seus recursos. O capitalismo falhou em cumprir a promessa de que esforço e empenho pessoal seriam recompensados. O militarismo mostrou sua ineficiência, de modo que a tão ansiada paz mundial não tem sido alcançada. A democracia se encontra sob análise – “o governo do povo, pelo povo e para o povo” é uma caricatura desenhada pelos que interpretam papéis políticos. Em alguns países, o quadro institucional é incerto, em outros, a polarização política destrói a unidade e, em outros, o narcotráfico luta para deter o poder. Em todos os países, porém, pessoas perguntam: Por que isso está acontecendo? O que podemos fazer? Há esperança? Tecnocratas e futuristas declararam suas respostas. Economistas dizem que se trata de um ciclo do mercado. Financistas advogam um novo sistema monetário. Presidentes colocam a culpa nos que os precederam. Empresários se apressam a pedir vantagens legais. O cidadão

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comum, porém, só pensa em questões simples, como sustento e segurança. O livro de Jonas reproduz uma situação de crise. Os marinheiros e os passageiros do navio estavam no meio de uma tempestade. A situação era tão desesperadora que clamaram aos seus deuses. Sem sucesso, porém, trataram de livrar-se do supérfluo, do importante e, por fim, do essencial, mas nada os ajudou. De repente, descobriram que Jonas dormia na parte inferior do navio. A pergunta do capitão refletiu a perplexidade de todos: “... Como você pode f icar aí dormindo?...” (1:6). O capitão personifica o Senhor, que pergunta à igreja: Como você pode dormir quando milhares de pessoas não discernem entre o bem e o mal e o juízo de Deus está sobre os desobedientes? Como Jonas, a igreja caiu em uma armadilha! Estimulada pelo crescimento numérico, tem buscado eficiência e eficácia de acordo com padrões mundanos: crescimento econômico, ampliação de mercado, criação de marca e desenvolvimento de novos segmentos. Agora, porém, se vê impotente, ocupada em resolver seus próprios negócios. Levante-se e clame ao seu Deus (1:6)! Na crise, as pessoas se voltaram para seus deuses. O que tinha possibilidade de ser

Davi Ruiz Pastor e missiólogo na Guatemala, vice-presidente do Caminho Global e diretor associado da comissão de missões da Aliança Evangélica Mundial (World Evangelical Alliance – WEA)

ouvido pelo único e todo-poderoso Deus, porém, estava dormindo. Poderia ter testemunhado sobre sua comunicação com Deus: “Em meu desespero, clamei ao Senhor, e ele me respondeu...” (2:2), pois era o único que tinha uma resposta: “... a salvação vem do Senhor” (2:9). A oração não deve ser tímida, contida nem repleta de fórmulas – deve ser sincera. Jonas disse: “Em meu desespero, clamei ao Senhor...” (2:2). Os ninivitas fizeram o mesmo – primeiro, quando ouviram o anúncio do juízo de Deus, “... proclamaram jejum...” (3:5) e, depois, quando seu rei os instruiu: “... clamem a Deus com todas as suas forças” (3:8). A oração deve contar com arrependimento. Jonas aprendeu isso no ventre do peixe: “... Fui expulso da tua presença; contudo, olharei de novo para o teu santo templo” (2:4). Por sua vez, o rei de Nínive reconheceu que a crise era resultado do seu pecado e decretou: “... E todos clamem a Deus com todas as suas forças. Deixem os maus caminhos e a violência” (3:8). A oração deve contar com ações deliberadas de não satisfação de desejos egoístas. Prosperidade e sucesso arrastaram o mundo para desperdício, opressão e depredação de recursos naturais, e a ética do mundo mudou – o bem e o mal não se referem mais a agradar a Deus, mas a produzir lucros.


A igreja tem sido arrastada por esse pecado. A lei da semeadura e da colheita, a prosperidade, a espiritualidade e o chamado para ofertar têm sido distorcidos para abusar da boa fé dos crentes, despojar viúvas e pobres e confundir ricos e poderosos, financiando construções, empresas e negócios milionários apresentados como “obra de Deus”. O que você fez (1:10)? Os marinheiros levaram Jonas a refletir sobre as consequências da sua rebelião. Ver a situação da perspectiva de Deus muda significativamente a percepção dos que estão em crise! Os marinheiros se voltaram para o Deus verdadeiro e temeram Sua justiça e Seu poder (1:16). Por sua vez, no ventre do peixe, Jonas foi confrontado e clamou pelo perdão de Deus: “Em meu desespero clamei ao Senhor...” (2:2), refletiu sobre as consequências do seu pecado: “... Fui expulso da tua presença...” (2:4) e agiu: “Quando a minha vida já se apagava, eu me lembrei de ti, Senhor...” (2:7). Precisamos de exame pessoal, reflexão sobre a situação de acordo com a perspectiva de Deus e arrependimento! Vá e pregue (1:2 e 3:2)! Sem dúvida, Jonas se tornou novo no interior e na aparência. O peixe vomitou Jonas em terra firme e, imediatamente, ele ouviu a instrução à qual havia ignorado: “Vá e pregue!”. O novo Jonas proclamou a mensagem de Deus em Nínive. Os ninivitas foram confrontados e levados a ver a crise de acordo com a perspectiva de Deus: “Os ninivitas creram em Deus. Proclamaram jejum, e todos eles, do maior ao menor, vestiram-se de pano de saco” (3:5). A mensagem permitiu que os ninivitas tivessem esperança e iniciou um movimento de arrependimento que afetou todos os níveis da sociedade – avivamento verdadeiro! “Deus viu o que eles f izeram e como abandonaram os seus maus caminhos. Então, Deus se arrependeu e não os destruiu como tinha

ameaçado” (3:10). Jonas apresenta características relevantes para os chamados por Deus para “ir e pregar”. Em primeiro lugar, a mensagem foi clara e eficaz na forma e no conteúdo: “Jonas entrou na cidade e a percorreu durante um dia, proclamando” (3:4). Em segundo lugar, a mensagem atendeu à clareza da exigência de Deus. O povo se arrependeu e clamou com oração e jejum. O rei desceu do seu trono, sentou-se no chão, rasgou suas vestes reais e colocou cinza e terra sobre sua cabeça à vista de seus súditos: “Talvez Deus se arrependa e abandone a sua ira, e não sejamos destruídos” (3:9). A igreja não foi chamada para dar respostas econômicas, administrativas, filosóficas ou comerciais. A resposta da igreja deve ser clara e contundente e deve mostrar que Deus é soberano – “... o Deus dos céus, que fez o mar e a terra” (1:9). Deus é justo, e Seu juízo é real e verdadeiro sobre os que “... acreditam em ídolos inúteis e desprezam a misericórdia” (2:8). Deus é compassivo e misericordioso. De fato, Ele terminou Sua argumentação com a pergunta: “... Não deveria eu ter pena...?” (4:11), afirmando Sua determinação de levar Sua mensagem a todas as nações. Você tem razão para essa fúria (4:4)? Como servos do Senhor chamados para uma tarefa especial, corremos o risco de ser vítimas do nosso eu – o pior inimigo do servo é ele mesmo! Quando nos concentramos em nós mesmos, perdemos a objetividade. Julgamos os outros e suas ações rigorosamente. Nosso egocentrismo nos impede de ver o mundo como Deus o vê! Quando nos concentramos em nós mesmos, perdemos a perspectiva. A atitude desafiante de Jonas evidenciou isso: “... ele saiu e sentou-se num lugar a leste da cidade. Ali, construiu para si um abrigo, sentou-se à sua sombra e esperou para ver o que aconteceria com a

cidade” (4:5). A primeira explicação para essa passagem indica um desafio ao caráter compassivo de Deus – Jonas esperou que Deus cumprisse Sua palavra e destruísse Nínive. A segunda indica que Jonas esperou que Deus fizesse algo ou que acontecesse algo para que ele entendesse a maneira de Deus agir. Ambas as possibilidades apontam para o mesmo problema – perda de perspectiva do servo que não se aproxima de Deus para ver Sua grandeza e sua própria pequenez. Finalmente, quando nos concentramos em nós mesmos, perdemos a compaixão – não somos movidos a mostrar o amor de Deus aos outros. Deus não havia terminado Sua obra em Jonas e, portanto, ensinou a ele que, por estar preocupado consigo mesmo, havia perdido a capacidade de compadecer-se dos ninivitas. Com certeza, Jonas teve compaixão – sentiu compaixão de si mesmo e de seu arbusto, pelo que significou para ele: comodidade e satisfação. Não teve, porém, compaixão dos ninivitas, que pediram para ser libertos do julgamento. Nosso egocentrismo nos impede de modelar o amor compassivo de Deus pelas nações. O livro termina com uma pergunta: “Não deveria eu ter pena...?” (4:11). Deus teve compaixão de Nínive e de Seu servo e tem compaixão de nós. Deus mostrou a Jonas e quer mostrar a nós que temos uma tarefa e que, se esta nos supera, podemos fazê-la quando nos levantamos, nos arrependemos, fazemos a obra, cuidamos para não cair e mostramos o amor de Deus em tudo o que fazemos. A igreja dará uma resposta clara para o mundo em crise? Terá coragem para se levantar, sair dos “guetos evangélicos” e se aproximar do mundo para que este conheça a verdadeira esperança? Articulará as respostas eternas de Deus em linguagem cultural sensível para que o mundo a entenda?

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ARTIGO

O Reino de Deus na Terra J

esus nos ensinou a orar: “Venha o teu reino, e seja feita a tua vontade na terra, como ela é feita no céu”. O que pedimos nessa oração é que o governo de Deus seja estabelecido na Terra. Que a Lei de Deus - Seus Preceitos e Suas Ordenanças - seja cumprida por todos. Esse é o anseio, o grande desejo, de todos aqueles que nasceram de novo e vivem a nova vida em Cristo Jesus. É a estupenda motivação de todos aqueles que vivem para servir o Senhor Jesus e para fazer Sua obra na Terra. Que o Reino de Deus seja estabelecido na Terra! O que é o Reino de Deus? É o governo de Deus em todo o Universo. Temos de lembrar que o Universo tem um governo central que emana do Trono do Deus Todo-Poderoso. Ele é o Criador de todas as coisas. O Apóstolo João, preso na Ilha de Patmos, teve o privilégio de ver esse trono. Ele disse que ouviu uma voz que dizia: “Suba para cá”. E acrescenta: “Imediatamente me vi tomado pelo Espírito, e diante de mim estava um trono nos céus”. Ele passou a ver a sala do Trono do Universo. A descrição é belíssima e extremamente significativa. “No trono estava sentado alguém”, escreveu ele. Era o Pai, o Deus Eterno, o Deus Infinito, o Soberano sentado no trono de Seu Reino, o Reino de Deus. O governo de todo o Universo (Apocalipse 4:1-6). A triste realidade é que a Terra é um pedacinho desse Universo que vive em estado de rebelião contra o Soberano Criador. Rebelada contra Aquele que reina sobre tudo o que existe. A população que habita nosso planeta rejeita o governo do Céu. Por isso há dor, sofrimento e morte. Por isso há pragas, doenças e

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misérias. O ser humano abandonou o governo divino e se submeteu à tirania satânica. A humanidade vive rebelada contra o Reino de Deus. Sabemos como começou essa rebelião. Tendo o Senhor Deus feito o homem e a mulher à Sua imagem e semelhança, entregou-lhes a Terra para que eles a governassem. Era o governo do homem na Terra, em submissão ao governo do Reino de Deus. O casal iria ter filhos submissos a Deus, e eles se multiplicariam e encheriam a Terra de homens e mulheres que viveriam vida plena em perfeita harmonia com o Reino de Deus (Gênesis 1:26-31). Como, porém, Adão e Eva foram enganados por Satanás, o mal penetrou e se estabeleceu no íntimo deles, e eles se tornaram seres humanos com uma natureza pecaminosa. Isso fez com que passassem a se identificar com o orgulho, a vaidade e a corrupção de Satanás. A partir daí, seus descendentes nascem com natureza humana pecaminosa. A rebelião passa de geração em geração, fazendo com que os habitantes da Terra vivam em estado de rebelião contra o Deus Eterno. O Senhor, porém, se propõe a salvar a humanidade, e a Bíblia Sagrada traz a revelação do plano divino da redenção. Deus age para libertar o ser humano do império de Satanás e colocá-lo de volta no Reino de Deus. Esse plano é realizado em Jesus Cristo. Jesus Cristo de Nazaré - o homem perfeito, o outro Adão - inaugurou o Reino de Deus na Terra. Ele disse: “Se expulso demônios pelo dedo de Deus, então chegou a vós o reino de Deus”. Ele disse aos Seus discípulos: “O Reino de Deus está dentro de vós”. O Reino de Deus está presente na Terra porque

Pastor Jonathan Santos

Presidente fundador do Ministério Vale da Bênção, idealizador do Movimento Nacional de Evangelização do Sertão Nordestino e casado com Adelaide Cavalcanti

uma parte da população já passou da morte para a vida - nasceu de novo, recebeu uma nova natureza! Essas pessoas, que são discípulos de Jesus, manifestam o Reino de Deus na Terra. Elas expulsam demônios, curam enfermos, levam homens e mulheres ao arrependimento e à conversão, discipulam os novos convertidos e fazem as obras de Deus. Essa parte da população ora: “Venha o teu reino, e seja feita a tua vontade na terra, como ela é feita no céu”. No presente estágio de rebelião da população da Terra, o Reino de Deus se manifesta por meio dos convertidos a Jesus Cristo. Essa gente redimida pelo Espírito Santo se torna agente do Reino de Deus em sua família, em seu grupo e em sua área de atividade. O missionário é aquele crente enviado como agente do Reino de Deus para grupos, tribos e povos que vivem sob a tirania satânica. Esses agentes do Reino de Deus se esforçam para se estabelecer em meio a esses povos. Para quê? Para proclamar as virtudes Daquele que nos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz. E para resgatar do império satânico todos os que vão sendo salvos, e levá-los para o Reino de Deus. É isso que a Missão Antioquia faz! Nascida em 1976, agora, por 40 anos, essa organização vem enviando missionários para diversas áreas da América Latina, da África, da Europa e da Ásia. É a primeira agência missionária transcultural e interdenominacional fundada e mantida por brasileiros. Tem se empenhado em preparar e enviar obreiros do Reino de Deus para países extremamente necessitados do Evangelho de Jesus Cristo.


HISTÓRICO

Nosso tempo Nossa missão N

ossa experiência missionária começou quase na mesma época da experiência missionária da Missão Antioquia. Em setembro de 1975, depois de havermos concluído nosso curso superior na Universidade Federal Fluminense – UFF –, Deus nos moveu para o campo missionário em Oruro (Bolívia).

MISSÃO ANTIOQUIA No ano seguinte – 1976 –, em Cianorte (PR), a Missão Antioquia foi fundada. É interessante a maneira pela qual a missionária Barbara Burns relata sua chegada à pequena cidade, em 1969, com seus questionamentos e seu “português americano”. Barbara Burns – pérola missionária e teológica lapidada para ensinar Romanos, Introdução Bíblica, Seitas, Como Estudar a Bíblia e História da Igreja! Seus olhos irradiavam sua maior aptidão – o intenso brilho deles expressava a necessidade de envolvimento do grupo de alunos com a pregação transcultural do Evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo. Nesse sentido, o ensino da matéria Missões era urgente! Sua dedicação e sua visão missionária foram tão grandes que, logo, formou-se um grupo de pessoas com visão missionária. A essa visão, juntou-se o tempero divino do coração dos pastores Décio Azevedo e Jonathan Ferreira dos Santos, que, tendo voltado de um encontro de renovação em Belo Horizonte (MG), foram movidos pelo Espírito Santo a respeito da obra missionária. Juntos, então, oficiali­ zaram a formação da primeira agência missionária interdenominacional

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genuinamente brasileira – Missão Antioquia! SERGIO E NILMA No afã de atender ao Ide de Jesus e ao toque do Espírito Santo, não nos importamos com a maneira pela qual chegaríamos ao nosso destino nem com nosso meio de sobrevivência. As circunstâncias não eram em nada alentadoras... Só tínhamos certeza de que Deus nos impelia à obediência e à prática do que, por anos e anos, havia nos motivado – sermos missionários. Tomando Paulo como exemplo, gostamos de chamar isso de soberana vocação! MISSÃO ANTIOQUIA Ao pensar na Missão Antioquia e em nós, observo pontos bem semelhantes. O grupo dos nove – Ademir Gaspar (secretário), Barbara Helen Burns, Décio de Azevedo, Jonathan Ferreira dos Santos, Eusa Almeida dos Santos, Roberto George

Sergio da Silveira Missionário da Missão Antioquia que serviu na Bolívia por 25 anos

Harvey, Luiz Antônio Cerqueira, Tirlei Mazon de Azevedo e Maria Pires da Luz – foi impulsionado! Como Abraão, eles saíram de “Ur” – Seminário Presbiteriano de Cianorte – e, como Paulo, por meio da concepção de uma nova mensagem, eles foram aguilhoados para um novo entendimento da palavra divina – um Evangelho mais arrojado e praticado na ousadia de uma visão abrangente, ampliada para os quatro cantos da Terra. SERGIO E NILMA Entre 1976 e 1981, certo fato trouxe muitas apreensões e dificuldades para missionários, igrejas e agências de missões. Tratava-se do imposto compulsório para brasileiros que viajavam para o exterior. Na época, o valor era de 12 mil cruzeiros novos por pessoa! Nós – missionários – precisávamos ter em mãos documentos comprovatórios para que o Governo nos proporcionasse isenção do imposto e autorização de viagem.


MISSÃO ANTIOQUIA Certa vez, em uma palestra, ouvi o pastor Jonathan Ferreira do Santos expressar um testemunho semelhante ao nosso em relação à saudosa missionária Maria Pires. De fato, ele abordou as dificuldades para as primeiras viagens da missionária ao campo justamente devido ao imposto compulsório. Foi uma época de dois recém-nascidos – estávamos distantes e não nos conhecíamos, mas tínhamos muitos pontos em comum! Deus estava fazendo nosso cronograma, isto é, desenhando nossa linha de tempo para que caminhássemos para o ponto no qual a convergência ocorreria e as experiências de ambos os lados seriam aglutinadas por Deus para glorificação do nome do nosso Senhor Jesus Cristo, culminando com salvação de vidas e envio e capacitação de novos missionários. Ainda que comente sobre uma instituição, nada me impede de aplicar a correlação, visto que abordo a ação de pessoas com profundo amor missionário – mesmo dentro de uma organização humana. Em certo dia de 1981, logo que havíamos voltado de Oruro (Bolívia) e eu havia me tornado um dos pastores do Centro Evangelístico de Icaraí, o jovem Olinto de Oliveira se aproximou de mim e fez algumas perguntas sobre o trabalho missionário (hoje, o Pr. Olinto é missionário na Ásia). Ele me deu informações sobre a, que tinha poucos anos de fundação Missão Antioquia. Ele disse que se juntaria àquela agência missionária, cuja base, na ocasião, funcionava no Ipiranga, em São Paulo (SP). Eu não sabia quase nada sobre a Missão Antioquia, mas nunca me esqueci daquele encontro nem do nome daquela agência missionária. O tempo passou, e só voltei a encontrar-me com Olinto muito tempo depois, em Hong Kong, no navio Logos Holp. Dez anos depois, fui adequadamente informado sobre a Missão Antioquia. Pastores da Assembleia de Deus que visitaram a primeira conferência missionária da igreja me

incentivaram a conhecer a base da agência missionária, em Araçariguama (SP). O sentido de destino uniu duas linhas paralelas – Sergio e Nilma e Missão Antioquia – com permissão do soberano Deus! Caminhando por estradas paralelas, vivendo momentos diferentes e experiências diversas, passando por provas de preparação e sendo lapidados para um mesmo futuro, lá estávamos nós! A abençoada Missão Antioquia desafiava as questões tão comuns da época. Uma série de interrogações precisava ser vencida com persistência, coragem, confronto e atrevimento. Afinal, muitos crentes – igrejas, pastores, empresários e denominações – não entendiam a obra do Evangelho transcultural. De fato, para muitos, a prática era desnecessária, pois ainda havia muitos a ser alcançados no Brasil, e cada país deveria cuidar dos seus. Parecia que a igreja estava adormecida, esquecendo-se dos missionários pioneiros que haviam desbravado nosso Brasil em todas as suas longitudes, levando multidões e multidões aos pés da cruz de Cristo. Permita-me um parêntese para mencionar uma música da época que comprova meu dito: “Ao pé da cruz, parei com os olhos rasos d’água, vendo os sinais dos cravos nas mãos do Salvador. Nas rugas do Seu rosto, eu vi tanto desgosto, um justo condenado por ter salvado um pecador, mas, para a cruz olhando, meu coração foi ferido, vendo, ali, tão aflito, mas belo e tão bonito, Jesus, por mim chamando” (Leocádio Teodoro). Enquanto os brasileiros não entendiam, missionários chegavam à nossa pátria e moviam nossa gente para a obra nacional e transcultural. Acompanhados por suas famílias, eles vieram em revoadas: Lourenço Olson, Robert George Harvey, Bernard Johnson, Barbara Helen Burns, Robert Maclister e muitos outros. SERGIO E NILMA Simultaneamente, longe das grandes cidades, caminhando por largas distâncias e, quando possível,


HISTÓRICO movendo-nos com uma velha Kombi, lá íamos nós, tentando levar um pouco de conforto e bênção a um povo bonito, receptivo e necessitado de um verdadeiro encontro com Jesus. Estávamos em Santa Maria Madalena (RJ), onde fomos tratados, lapidados e malhados na bigorna de Deus, subindo e descendo por serras com a Kombi branca e vinho, conhecida em toda a cidade como ponto referencial do Pr. Sergio. Tudo isso aconteceu para, sete anos depois, encontrarmos na estrada paralela outra referência histórica na nossa linha do tempo – a Missão Antioquia. Gostamos muito de pensar nas experiências passadas! As boas lembranças nos motivam e nos fazem sorrir. As lembranças difíceis nos impulsionam para uma avaliação mais detalhada. Não desprezamos o presente, pois nos dá a medida certa para tentarmos projetar nosso futuro. Infelizmente, este é limitado e nem sempre se dá como sonhamos e sonharemos. Parece contraditório, mas não é, principalmente para os que aprendem a viver pela fé! Por mais incrível que pareça, ao constatar as maravilhosas bênçãos que Deus proporciona – bênçãos que vão além da imaginação e ultrapassam os limites das projeções –, o cristão confesso, comprometido e predisposto se surpreende com o querer divino! Nesse sentido, ao explicar sobre os fundamentos soberanos, Larson diz: “Em Sua obra soberana, Deus permite que se desenvolva um sentido de destino”. Em primeiro lugar, há uma convicção interna que surge de experiências nas quais Deus põe Sua mão sobre nossa vida para algo especial. Em segundo lugar, há experiências preparatórias, de revelação e de cumprimento. O ensinamento de Larson sobre os fatores fundamentais do destino e da conversão está debaixo da soberania de Deus, que atua em nosso contexto de cultura, família e circunstâncias.

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Tudo começou quando, ainda bem criança, pela primeira vez, ouvi a “horrível notícia do fim do mundo”. Meu vizinho leu para sua esposa a notícia de um jornal: “O mundo vai acabar!” Para mim, isso foi terrível! Voltei para casa correndo e chorando e abracei minha mãe, exclamando: “O que será de nós?”. Anos mais tarde, tive minha primeira experiência com a morte. Nenhum conhecido meu havia morrido, mas, ao ensinar sobre o cuidado e o amor que devemos ter para com nossas mães, minha professora do primeiro ano básico havia dito: “Sua mãe é como uma vela. Ela se des-

gastará, desgastará e desgastará até não existir mais, portanto, cuide dela!”. Foi muito impactante! Como aquelas palavras afetaram minha mente quanto à realidade das coisas espirituais! Apesar de ser criança, questionei as leis sobrenaturais. Finalmente, minha família recebeu a visita de uns tios evangélicos. Eu nunca havia ouvido crentes protestantes. Eles compartilharam ensinos bíblicos e mensagens sobre o amor de Deus por nós. Em certa quarta-feira à noite, fomos a uma igreja evangélica com eles. Ao ouvir a mensagem, fui dominado por uma forte sensação de pecado e temor e, em seguida, arrependimento e confissão. Simultaneamente, a responsabilidade pela vida dos meus pais tomou conta do meu coração. Então, tive um encontro com Jesus! Poderia citar outros episódios, mas entendo que esses pontos

básicos trabalhados por Deus delinearam o futuro da minha vida, do meu ministério e da minha liderança cristã. Em cada acontecimento, observei que uma revelação divina muito pessoal me inquietou quanto às verdades espirituais, à minha necessidade de segurança em Deus e à minha responsabilidade para com o ensino e a salvação de outras pessoas. Ao refletir sobre esses fatos, tenho certeza de que tudo concorreu para minha salvação e que, de antemão, Deus preparou tudo para que eu O servisse em Sua obra. Falar sobre nosso tempo é caminhar sobre uma estrada especialmente nossa, delineada por Deus e com princípio, meio e convergência para uma celebração. No transcorrer da nossa vida, experimentaremos vivências positivas e negativas que marcarão nosso trabalho, nossos êxitos e nossos fracassos e convergirão para a razão da nossa existência terrenal, fazendo-nos atingir nossos momentos de celebração. Conforme nossa opção, sempre poderemos ter uma linha paralela à outra estrada, a qual contemplaremos constantemente. Desejaremos seguir pelo mesmo percurso até que, um dia, tudo venha a convergir para um período de celebração. Será a hora em que, com bagagens de imensas experiências, poderemos concluir a razão da nossa existência e da nossa missão e entender claramente o porquê da nossa contribuição àquela instituição que, por muitos anos ou sempre, foi a linha paralela aos nossos feitos. Então, olhando para trás de nossa linha do tempo, compreenderemos o quanto nossa história de vida contribuiu para, juntos, convergidos em um mesmo objetivo, desfrutarmos esse momento de celebração da nossa vitória de vida e da vitória da nossa Missão Antioquia – coincidentemente 40 anos de missões!


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CAPA

Nosso tempo C

ada época tem seus desafios, e cada geração é responsável por encarar os desafios do seu tempo. É fácil criticarmos os que nos antecederam, considerando errada a maneira pela qual pensaram e agiram ou avaliando que careceram de conhecimento. De fato, na história da igreja, há equívocos e iniciativas frustradas. Afinal, seres humanos como você e eu tentaram ser fiéis à vocação missionária, mas nem sempre conseguiram. Um dia, nossas obras também serão avaliadas! Isso não

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significa, no entanto, que não devemos continuar a buscar novas formas para fazer missões. Os tempos são outros, com mudanças em ritmo galopante e imprevisíveis. Seria no mínimo imprudente não tentarmos achar meios eficazes. Na verdade, pior do que sermos avaliados como os que fizeram e erraram é sermos vistos como os que nunca tentaram! O mundo da segunda década do século 21 é completamente diferente do mundo do fim do século passado. Há mudanças importantes

Bertil Ekströn

Diretor executivo da comissão de missões da Aliança Evangélica Mundial (World Evangelical Alliance – WEA)

em diversas áreas – política, economia, religião e comunicação. O tempo é favorável a estruturas flexíveis e leves – missões em países não identificados como colonialistas e imperialistas, missionários com facilidade de adaptação e igrejas que se envolvem na sociedade de forma serviçal. A comunicação tradicional e unilateral a partir do púlpito pouco influencia. De fato, redes sociais são bem mais assistidas do que cultos! Diálogo aberto e franco substituiu dogmatismo e intolerância. Para a geração jovem,


denominacionalismo e divisões eclesiásticas tradicionais são irrelevantes. Vemos o mover do Espírito, que não conhece (e, quem sabe, nunca conheceu) as barreiras que usualmente definimos. O tempo em que vivemos é de oportunidades nunca antes experimentadas! Deus tem operado em lugares e contextos inesperados. Nosso desafio é entender a obra do Senhor nesta época! A primeira área a ser considerada é a economia mundial, que tem forte influência em tudo o que acontece. Há poderes financeiros concentrados em algumas áreas e alguns países e em um único país – em determinadas famílias ou elites. Investimentos feitos a partir de poderes financeiros geralmente são financiamentos com ideologia definida. Há blocos econômicos que reúnem determinados países de uma região e há tendência para criação de mecanismos de proteção a economias fortes. A crise mundial tem afetado as economias fracas e instáveis e o trabalho missionário. Em meio à crise econômica mundial, porém, se olharmos para a história, constataremos que a visão missionária não teve seu início em países ricos. De fato, a história mostra que não foi na dependência de dinheiro que se fez missões! Apesar

disso, porém, a situação financeira nacional e a situação financeira internacional afetam a questão missionária. A segunda área a ser considerada é a política internacional – economia e política estão intimamente ligadas! Hoje, fala-se sobre a volta da guerra fria e sobre atitudes como as do presidente Putin em relação à Ucrânia e outros países da região, incluindo a tensa relação com a União Europeia, que ameaça a paz internacional. Isso certamente afeta o investimento missionário, principalmente no antigo leste europeu. Além disso, há a complicada situação de conflito entre Israel e Palestina, que contribui para insegurança em todo o Oriente Médio. A situação da Síria e do norte do Iraque tem trazido instabilidade para o Líbano, a Jordânia e a Turquia. Pode parecer que essas questões têm apenas caráter religioso, mas, na verdade, estão fortemente entrelaçadas ao poder político e afetam a igreja local e o envio de missionários. Um dos resultados de tudo isso é o aumento da migração, que, em nossos dias, tem assumido proporções inéditas. Calcula-se que, de alguma forma, fugindo de guerra, perseguição e miséria, 300 milhões de pessoas estão a caminho de algum lugar em

busca de condições melhores. A migração, porém, tem o aspecto positivo da evangelização, porque muitos em diáspora são crentes. A terceira área a ser considerada é o confronto religioso, que tem lugar entre grandes religiões e em cada religião maior. No caso das igrejas cristãs, há certa aproximação entre as três famílias eclesiásticas – Igreja Católica Romana, Igreja Ortodoxa e Igreja Protestante/Evangélica. A Igreja Católica Romana tem estabelecido uma nova imagem por meio do Papa Francisco, que tem amenizado atritos com outros grupos. Não podemos, porém, confundir a figura do Papa com a igreja em si – Vaticano –, com sua estrutura e riqueza. Há, no entanto, uma aproximação em relação a movimentos protestantes e ecumênicos e, de fato, em relação ao próprio Evangelho de Cristo. A Igreja Ortodoxa está fortemente dividida. Na verdade, não há uma Igreja Ortodoxa, mas sim várias igrejas ortodoxas a partir de tradições locais e nacionais. Vivem uma situação reacionária, principalmente em locais nos quais a Igreja Protestante/ Evangélica tem avançado, como, por exemplo, Grécia e Sérvia. A Igreja Protestante/Evangélica tem tido forte crescimento na América

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Latina, na África subsaariana, no sudoeste da Ásia e no leste europeu. Os desafios são: tendência a nominalismo e materialismo a partir da segunda ou terceira geração de crentes, falta de discipulado e divisões que geram um sem-número de denominações e ministérios independentes. Na segunda década do século 21, a perseguição aos cristãos continua a ser realidade! Calcula-se que 200 milhões de cristãos têm sido perseguidos. Ao mesmo tempo, porém, a plantação de igrejas tem crescido consideravelmente, como, por exemplo, no norte da Índia, onde tem havido forte perseguição por parte dos locais. Nesses últimos 15 anos, dezenas de milhares de igrejas locais foram plantadas por grupos familiares e caseiros liderados por novos convertidos. As igrejas caseiras da China continuam a crescer, mas há um interessante movimento de aproximação entre a igreja oficial da China e as igrejas subterrâneas, em parte, devido à liberdade concedida pelo Governo. Isso difere do que tem acontecido na Síria e no norte do Iraque, onde a igreja perseguida tem corrido risco de ser exterminada. Nem sempre,

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portanto, perseguição significa crescimento de igreja. O islamismo continua a avançar. É a religião que mais tem crescido, perdendo apenas para os evangélicos. A megaestratégia islâmica é eficaz – mesquitas têm sido construídas em todos os continentes. O mais preocupante é a ação dos grupos extremistas Alcaida, Boko Haram e Estado Islâmico. Um aspecto interessante é que, devido a movimentos extremos e agressivos, o conflito no islamismo tem gerado desgastes internos, levando a perguntas: Que religião é essa? Quem somos nós? O que é o Estado Islâmico? Há relatos de muçulmanos que têm se convertido ao cristianismo como resultado de insatisfação com a violência do extremismo religioso. Diante disso, surge uma pergunta: O mundo de hoje é mais perigoso do que o mundo dos anos anteriores? Violência e conflito chegaram mais perto, com atos terroristas em todo o mundo, sugerindo que não há lugar seguro. Por outro lado, sempre houve conflitos e guerras. A quarta área a ser considerada, que nos afeta de forma positiva, mas também traz preocupações, é a

comunicação global. As redes sociais – Internet,, e outras – trouxeram novas possibilidades. A socialização da informação é positiva e nos incentiva a ser exatos e corretos na transmissão de dados. Ao mesmo tempo, porém, expõe missionários que trabalham em áreas sensíveis. De fato, imprudência no uso de redes sociais pode prejudicar o trabalho missionário e as comunidades locais. Uma grande parte do mundo, porém, não tem acesso a redes sociais. As culturas orais, por exemplo, exigem uma estratégia própria para que o Evangelho se propague de forma compreensível. A quinta área a ser considerada é o aparente aumento de catástrofes, o que, naturalmente, é trágico, mas tem resultado em abertura para o Evangelho e atuação da igreja. O tsunami que ocorreu há alguns anos no sudeste asiático abriu portas para o Evangelho. Em alguns países, terremotos têm facilitado a entrada de organizações cristãs de socorro emergencial. Pastores japoneses afirmam que, depois do tsunami e do vazamento da usina atômica, muitos não sentiram segurança nas instituições governamentais e sociais do país e buscaram ajuda espiritual, aceitando a Jesus. Em termos de missões, o que isso significa? Como isso muda nossa própria estratégia, o grupo com o qual trabalhamos e o que fazemos? De fato, não podemos entrar em muitos lugares, e países se fecham por diversas razões. Sendo assim, o envio de missionários para certos lugares, principalmente com o título de missionário, é impossível e, para outros lugares, é extremamente perigoso. Sem dúvida, porém, temos oportunidade para inovar! Certamente, não possuímos os recursos nem a estrutura dos Estados Unidos ou da Europa para enviar missionários, mas podemos oferecer nossa contribuição, fazendo discípulos em todas as nações! A missão é de Deus – o tempo é a oportunidade que Ele nos dá!


Nossa missão A

Igreja de Cristo foi por Ele chamada para ser sal da Terra e luz do mundo, o que significa que todos os salvos em Cristo são chamados por Deus. Somos chamados para santidade, comunhão, oração, edificação, adoração e evangelização. Em meio aos salvos, porém, Deus chama alguns para ministérios específicos – apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres1. Todo o chamado de Deus para Sua Igreja possui dois

objetivos claros: edificar os salvos e anunciar a Cristo, ou seja, edificação e missão. A Igreja de Cristo, portanto, foi chamada por Deus para, ao mesmo tempo, crescer em Cristo e proclamar Seu nome, conhecer a Palavra e pregá-la, andar com Jesus e ensinar outros a fazê-lo, adorar Seu nome e convidar todos os povos à adoração. De fato, na Igreja de Cristo, edificação e missão devem ser partes indivisíveis! Uma igreja que é

Ronaldo Lidório

Pastor presbiteriano e missionário transcultural (APMT/WEC) que atuou entre os Konkombas, na África, por nove anos e, desde 2001, atua na Amazônia indígena brasileira

edificada na Palavra e na vida com Deus, mas não proclama o nome de Jesus e vive apenas para si mesma não é sal da Terra nem luz do mundo. Uma igreja que é envolvida com a proclamação da Palavra, mas não cresce nem amadurece em Cristo Jesus está sujeita a heresias e morte. Conheci uma igreja local na cidade de Toronto (Canadá) que, três décadas atrás, havia contado com três mil pessoas e havia se tornado centro missionário e de formação

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de pastores, influenciando a redondeza, servindo à comunidade e proclamando o nome do Senhor Jesus – uma igreja viva! Influenciados por uma teologia liberal, porém, os irmãos entenderam que não deveriam mais evangelizar, mas apenas viver para a própria igreja. Em menos de 30 anos, os jovens foram embora da igreja, membros e líderes desanimaram na caminhada e ninguém mais se converteu ao Senhor Jesus. Em três décadas, a igreja passou a contar com apenas uma dúzia de pessoas, que, não podendo sequer prover o mínimo para manutenção do templo, planejaram a melhor forma de vendê-lo. De fato, quando não concilia edificação com missão – crescimento em Cristo com proclamação intencional da Sua salvação –, a igreja morre. Em Suas últimas palavras, Jesus enviou Sua Igreja, representada pelos 11 apóstolos, a fazer discípulos

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entre todas as nações2. Jesus resumiu Seu ensino, dizendo que tem “toda a autoridade”. Sua Igreja, portanto, caminha não por força própria, mas por Sua força. Jesus enviou Seu povo a “todo o mundo”. Sua Igreja, portanto, não deve ser uma comunidade limitada a territórios e regiões, mas uma comunidade sem fronteiras. Jesus destacou que o Evangelho deveria ser conhecido por “todas as pessoas”, antecipando o que acontecerá no dia final, quando pessoas de todos os povos, línguas, tribos e nações celebrarão o Cordeiro. Por fim, Jesus afirmou que estaria com Sua Igreja “todos os dias”. Os que O amam, portanto, jamais estão sozinhos! É Cristo quem fortalece a Igreja na caminhada! Nessa convocação missionária, Ele não escolheu 11 homens resolvidos e prontos, mas sim temerosos e limitados. Ao encontrar Jesus ressurreto, alguns dos

apóstolos duvidaram que era Ele3! Isso ensina que Deus não chama os fortes e prontos, mas sim os fracos e temerosos. Ele os fortalece ao longo do caminho. É no caminho (caminhando) que a Igreja aprende a amar a Deus. É caminhando que passamos a conhecer a Cristo, viver em Sua dependência e proclamar Seu nome. Somos chamados para o caminho! Assim, o Evangelho saiu de Jerusalém, passou pela Judeia e por Samaria e chegou aos confins da Terra. Mais tarde, o apóstolo Paulo ensinou que, em meio a todo esse desafio mundial – o campo é o mundo –, há uma prioridade: anunciar Cristo onde Ele permanece desconhecido. A finalidade da Igreja é a glória de Deus, e sua prioridade é anunciar Cristo aos que pouco ou nada ouviram – o que pode ser perto ou longe, do outro lado da rua ou do outro lado do mundo4. Isso


significa que o campo é o mundo, e não há fronteiras ou barreiras para proclamação da verdade de Deus. Isso também significa que os que pouco ou nada ouviram devem ser priorizados. Nessa perspectiva, somos lembrados a valorizar os ministérios de pesquisa missionária que dimensionam e identificam os lugares e segmentos menos evangelizados na nossa geração. Dessa forma, podemos compreender que nossa missão é, de fato, a missão de Deus – missio Dei. É Ele quem nos convida a ver o mundo com compaixão. É Ele quem convoca toda a Igreja a proclamar todo o Evangelho em todo o mundo para todas as pessoas. É Ele quem chama e conduz a Igreja ao envio. E é Ele quem fortalece a Igreja na caminhada! Estou convencido de que a Igreja de Cristo não é movida por estatísticas, imagens tocantes ou projetos missionários, mas sim

por profunda compreensão e compromisso com a vontade de Deus. Somente em Deus, somos levados a amar e chorar com os que choram. Somente em Deus, somos despertados a sair da nossa rotina de conforto e envolver-nos com algo além de nossos interesses pessoais. Somente em Deus, somos convencidos a abraçar causas complexas, problemáticas e maiores do que nós. Somente em Deus, somos desafiados a doar, em lugar de acumular, fazer, e não apenas observar, e amar, mesmo quando fora do nosso círculo de afinidade. No livro de Atos, a primeira reação da Igreja cheia do Espírito Santo foi sair às ruas e proclamar as maravilhas de Deus a judeus e gentios de diferentes nacionalidades5. A Igreja cheia de Deus e que ouve Sua voz se envolve com a obra missionária, pois sua missão é a missão de Deus. A Igreja em Antioquia enviou como missionários dois dos maiores plantadores de igreja de toda a história do cristianismo – Paulo e Barnabé. A Palavra esclarece que aquela igreja os enviou porque ouviu a voz do Espírito Santo6. Um dos resultados claros de um povo que busca a Deus, ouve Sua voz e se dispõe a obedecer a Ele é envolvimento com o que Ele está fazendo em sua geração. O Evangelho nunca foi tão conhecido como o tem sido em nossa época! Jamais vimos tantas pessoas de tantas nações, tantos povos e tantas línguas se renderem todos os dias aos pés do Senhor Jesus! Ainda há, porém, um grande desafio missionário perante nós – quase seis mil grupos jamais ouviram o nome de Jesus! Há cerca de 1800 línguas sem um verso bíblico sequer traduzido para seu idioma. No Brasil, dentre os menos evangelizados, estão indígenas, ribeirinhos, ciganos, quilombolas, sertanejos, imigrantes, surdos e, nas cidades, os mais ricos dos ricos e os mais pobres dos pobres. É, portanto, injustificável que, após dois mil anos de história

cristã, o mundo possua tantos lugares e tanta gente que nada ouviu sobre Cristo – Sua morte e Sua ressurreição. Há, ainda, muito a caminhar! O Evangelho de Cristo foi desenhado por Deus para atingir, convencer e converter pessoas de todas as línguas, tribos, povos e nações7. O Evangelho é supracultural, pois define e explica o homem e sua cultura, cultural, por ter sido revelado à humanidade em seu próprio contexto e história, multicultural, pois se destina a todos os povos, intercultural, pois os salvos dentre todos os povos são um só corpo e chamados à comunhão, transcultural, pois deve ser transmitido de uma cultura a outra, e contracultural, pois confronta o ser humano em sua própria forma de pensar e viver. Deus chama toda a Sua Igreja para edificação e missão – para amadurecer na fé e na proclamação. A edificação se dá por meio de oração a Deus, comunhão com irmãos, adoração a Cristo, leitura da Palavra e santidade de vida8. A missão acontece quando Jesus (quem Ele é e o que Ele fez) é comunicado aos que ainda não O seguem. Toda a Igreja – você e eu – é convocada para edificação e missão – para crescer em Cristo e envolver-se com a evangelização do mundo, crer e praticar, orar e falar, adorar e convidar, ir a Cristo e ir ao mundo. A Igreja que é edificada e envolvida com a missão glorifica o Cordeiro que tira o pecado do mundo. Que possamos seguir a Cristo de perto, deslumbrados com Seu amor e envolvidos com Sua missão – e sempre na caminhada!

Notas: 1 Mt 5.13 e Ef 4.11. 2 Mt 28.18-20. 3 Mt 28.16. 4 Rm 15.20 e Rm 16.25-27. 5 At 2.7-11. 6 At 13.1-3. 7 Ap 5.9. 8 At 2.42-47.

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Sustentabilidade pessoal e ministerial

Durvalina Bezerra

Coordenadora geral de ensino, diretora e professora do Seminário Betel Brasileiro, em São Paulo

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ada época tem seus desafios. A sociedade não é estática. Linguagem, valores, conceitos e cultura se amoldam ao tempo em verdadeira roda viva! Sustentabilidade é assunto pertinente, pois todos os cristãos, principalmente os chamados para cumprir a missão de comunicar o Evangelho e torná-lo relevante para o homem na pós-modernidade, dentro ou fora de sua cultura, devem atentar para a mudança do tempo e sua influência na missão. De fato, no século 21, sustentabilidade é o assunto em pauta! Há, porém, diversas formas pelas quais podemos vê-lo. Há grande preocupação com a sustentabilidade ambiental. Devido às mudanças em nosso planeta, a Ecologia tomou uma proporção enorme! Escolas acrescentaram educação ambiental aos seus programas, e indústrias se empenham por usar o ecologicamente correto, fazendo bom uso de recursos naturais. Uma forte bandeira defende a sustentabilidade social – o que é direito e socialmente justo diante de diferenças de classe e diversidades culturais. O cristão não deve estar alheio a esse assunto! Deve desenvolver hábitos saudáveis e um ministério que também atenda à gritante necessidade de sustentabilidade do nosso planeta, pois o Evangelho é a boa nova da salvação para o homem e para a sociedade. Também deve desenvolver uma mentalidade quanto a coletivo, bem comum, equidade, igualdade e percepção das consequências do consumo de hoje no futuro e uma atitude cidadã para

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explorar o que é corretamente ecológico, manter o desenvolvimento de suas propriedades sem trazer prejuízos à comunidade, gerir crescimento equilibrado e preservar qualidade de vida para todos. Paulo exorta: “Não importa o que aconteça, exerçam a sua cidadania de maneira digna do evangelho de Cristo” (Fp 1.27). Refletiremos, portanto, sobre sustentabilidade pessoal e ministerial, tomando por base: “Atente bem para a sua própria vida e para a doutrina, perseverando nesses deveres, pois, agindo assim, você salvará tanto a si mesmo quanto aos que o ouvem” (1 Tm 4.16). 1.SUSTENTABILIDADE PESSOAL O apóstolo diz que, primeiro, devemos cuidar de nós mesmos. Quando fala aos presbíteros da igreja de Éfeso, ele é enfático: “Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho” (At 20.28). Devemos dar prioridade ao cuidado de nós mesmos – tanto emocional como espiritual. • Cuidar do coração Nosso coração é atingido por desejos e paixões carnais conflitantes. Nossa natureza humana é susceptível a sentimentos bons e maus. Cabe a nós discernir, lidar e vencer esses conflitos. Sabiamente, a Palavra exorta: “Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida” (Pv 4.23). Devemos proteger o coração de mágoas, ofensas e ervas daninhas. A Palavra adverte: “Esforcem-se para viver em paz com todos... Cuidem que ninguém se

exclua da graça de Deus; que nenhuma raiz de amargura brote e cause perturbação, contaminando muitos” (Hb 12.14,15). Para mantermos o equilíbrio ambiental, é necessário que cuidemos da natureza e, para que o fruto do Espírito Santo, com todas as suas manifestações, brote em nosso coração (Gl 5.20-22), é necessário que cuidemos da nossa natureza interior. • Vencer a pressão da vida moderna O século 21 é marcado pela pressão do tempo. Vivemos em uma sociedade plugada nas redes sociais. As gerações Y e Z dormem pouco para manter-se atualizadas com as inúmeras descobertas do mundo científico, tecnológico e outros aplicativos não tão bem recomendados. Novas informações abarrotam nossos celulares e computadores. A ansiedade provocada pela dificuldade de abarcar a tudo e a todos e manter relações com “milhões de amigos” tem levado o homem à depressão. Em função das inúmeras demandas sociais e das frustrações com política e sistema religioso, a sociedade está adoecida. Não temos tempo para refletir sobre nós mesmos, nossas convicções e nossa fé. Nas igrejas, o ativismo é tão devastador que obstrui a verdadeira relação pessoal com Deus, a relação familiar e a comunhão com o Corpo de Cristo. É necessário que redefinamos prioridades, agendando tempo para descanso, lazer, saúde e harmonia familiar. O rabino Nilton Bonder considera: “Pausa é saúde para tudo que vivo. Onde não há pausa, a vida


se extingue lentamente. A pausa dá sentido à caminhada. Não há maior sábio do que o que sabe quando algo terminou e quando começará. Por que o Criador descansou? Talvez, porque, mais difícil do que iniciar um processo do nada, seja dá-lo como concluído. A prática espiritual desse milênio será viver as pausas”. 2. SUSTENTABILIDADE ESPIRITUAL • Viver em novidade de vida Um grande perigo da vida cristã é o condicionamento às disciplinas espirituais. Oramos, lemos a Bíblia, participamos de cultos e damos ofertas, mas tudo isso pode tornar-se rotina, prática espiritual sem sentido. Fazemos nossas devoções, mas, sem perceber, ficamos espiritualmente estagnados. Confundimos

vida cristã com religiosidade. Devemos nos prevenir, não deixando que a vida espiritual se limite a normas e deveres. Há pessoas que conservam o estereótipo de cristãs, mas não usufruem a graça. A vida se torna um fardo pesado. Paulo disse que ser cristão é: “Viver em novidade de vida” (Rm 6.4). A cada dia, nosso tempo a sós com Deus deve ser regado pelo orvalho do céu! Devemos buscar uma nova percepção da graça de Deus, reconhecer as obras do Senhor, renovar nosso entendimento e viver de modo pleno. • Preservar a identidade de cristão Nosso DNA é o da videira verdadeira – nossa vida é mantida pela seiva da vida de Cristo! Se somos da videira, não podemos produzir outro tipo de fruto a não ser o da vide.

A malignidade sempre tenta desestabilizar o cristão, pondo em dúvida sua identidade. “Satanás tentou Jesus: “Se és o Filho de Deus...” (Mt 4.3). Colocando em dúvida a divindade de Jesus, Satanás atacou os fundamentos de Sua personalidade. Afinal, Jesus levaria em conta a palavra do Pai: “Tu és meu Filho amado” ou provaria Seu próprio valor, transformando pedra em pão? Confiaria Sua identidade ao Pai ou confiaria em Suas próprias realizações?” Esse foi o ponto central da tentação. Jesus se recusou a provar quem era. Isso foi mais profundo e extraordinário do que simplesmente fazer um milagre! A crise existencial e de identidade atinge o homem moderno, que vive em busca de significado. Questionamos nosso valor e somos tentados a exibi-lo por meio de grandes realizações. Nossos

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CAPA dons e talentos só glorificam a Deus quando expressam nossa filiação divina. Por isso, o Senhor Jesus disse que, no dia final, dirá aos que virão a Ele com uma boa lista de milagres realizados em Seu nome: “Nunca vos conheci, apartai-vos de mim” (Mt 7.22-23). O verdadeiro cristianismo ignora tudo que não é produzido a partir do ser. Esta é a genuína verdade do Evangelho: ser em Cristo! “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20). Nessa época pós-moderna, em função do uso da tecnologia, sofremos mudanças na forma de ver e fazer as coisas – cosmovisão que altera nossos valores e nossas convicções. Somos desafiados pelo compromisso de ficar firmes, preferindo a honra do nome de Deus a usufruir os prazeres transitórios do pecado (Hb 11:25). Custe o que custar, nossa meta deve ser amadurecimento espiritual, pois fomos chamados para sermos conforme a imagem do Filho: “... sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito” (2Co 3.18).

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3. SUSTENTABILIDADE MINISTERIAL • Plantar igrejas sustentáveis A história fala sobre algumas igrejas que se fecharam por diversos motivos e sobre outras que só se sustentaram enquanto o missionário esteve presente (quando este saiu para o ano sabático, o trabalho se esfacelou). A tríade não pode faltar: kerigma, didakê e diaconia – pregar, ensinar e servir. Essas ações eram praticadas pela igreja de Jerusalém (At 2.42-47). Quando se despediu da igreja de Éfeso, Paulo declarou seu compromisso com pregação e ensino: “Não deixei de pregar-lhes nada que fosse proveitoso, mas ensinei-lhes tudo” (At 20.20). A igreja que se alimenta com a substância rica do genuíno leite espiritual e com alimentos sólidos, sem ficar nos rudimentos, cresce com qualidade de vida e se torna forte para enfrentar qualquer vento de doutrina e pressão da sociedade. Em seu ministério, Paulo serviu aos necessitados. Ao escrever sobre

a igreja da Macedônia, ressaltou o espírito generoso dos irmãos, que atenderam às campanhas para suprir aos necessitados e compartilhar os bens (2Co 8,9). O Evangelho pregado deve ser acompanhado por ações que visem a melhorar a qualidade de vida das comunidades, amenizar a desigualdade social e oferecer acesso à educação, saúde e vida digna. Nesse sentido, que diferença a Missão Antioquia na Bolívia tem feito no trabalho de recuperação de dependentes químicos? Que mudanças a escola fundada e dirigida por missionárias em Moçambique tem trazido à população? Uma nova geração tem despontado por meio dos princípios e valores cristãos que permeiam o programa dessa escola. Se, porém, nossa missão se restringe a questões da alma, como podemos ser sal e luz para a sociedade? Nossa geração está farta de rituais e conceitos religiosos! As obras humanitárias devem acompanhar a mensagem do Evangelho – vida plena! Como diz a célebre frase de Lausanne: “O Evangelho


todo para o homem todo e para todos os homens”. • Multiplicar a produção da Palavra por meio de métodos apropriados à nossa geração O texto bíblico declara algo interessante acerca de Davi: “Tendo, pois, Davi servido ao propósito de Deus em sua geração...” (At 13.36). Para alcançar o objetivo do nosso trabalho, precisamos entender nosso tempo e primar por novos métodos. A verdade do Evangelho é intocável, mas a mudança da mentalidade da nossa geração requer uma roupagem contextualizada da exposição da mensagem. O método hermenêutico e exegético não pode ignorar o contexto dos acontecimentos da narrativa bíblica e a diferença entre a cultura bíblica e a cultura ocidental ou outra qualquer. A comunicação do Evangelho não se resume a palavras, mas a ideias, valores, crenças e emoções. Antropologia e contextualização devem nos preparar para conhecer não apenas a cultura de povos distantes, mas nossa própria cultura, nas

diversas expressões das gerações do nosso tempo, como, por exemplo, a das tribos urbanas. Quando pensamos em diferenças culturais, como Paul Hierbet, devemos afirmar categoricamente: “O Evangelho não pertence a nenhuma cultura. É a revelação que Deus faz de Si mesmo e de Seus atos sobre todos. Por outro lado, o Evangelho sempre deve ser entendido e expresso por meio de formas culturais humanas”. • Capacitar de modo integral O ministério múltiplo requer obreiros multiplamente capacitados para enfrentar os desafios do nosso tempo. O preparo teológico conceitual, fundamentalista, rígido e apenas teórico não prepara o líder que se insere em um contexto sociocultural com tantas demandas e influências ideológicas. Teologia e Missiologia se completam, pois Teologia é o estudo do Deus que se revela nas Escrituras ao homem para que ele o torne conhecido a todos. A falta de estudo de Missiologia, porém, tem atrasado a obra missionária. O missionário precisa ser

versátil no estudo formal, informal e não formal, isto é, além do ensino em sala de aula, deve ser instruído em relações interpessoais, testado no caráter e treinado em tarefas ministeriais. O modelo de missões, principalmente para povos não alcançados, é o do missionário com habilidade profissional e técnica. Quantas portas abertas há nos países fechados para os que têm capacitação integral! Buscando uma vida e um ministério sustentável, atentos aos desafios da contemporaneidade, estaremos bem conosco mesmos, estaremos bem com os outros e frutificaremos para o reino de Deus, desempenhando bem nossa missão.

Bibliografia Exley. Richard. Os 7 estágios da tentação. Ed. Vida. São Paulo. 2000. Hiebert. G. Paul. O Evangelho e as diversidades culturais. Ed. Vida Nova. São Paulo 1999.

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Temos razão para parar? Reflexão em Neemias

E

ste texto é parte de uma reflexão que ministrei em uma das reuniões para revisão do planejamento estratégico da Missão Antioquia, realizada em janeiro de 2016, – fui convidado a ministrar uma palavra em uma das devocionais matutinas.

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Na noite anterior, lembrei-me de como havia chegado àquele momento, no Vale da Bênção. Lembrei-me de que, em uma manhã de quinta-feira de 1993, levado por meu amigo e irmão Álvaro Cruz, fui à casa de sua mãe Terezinha – mulher que amava ao Senhor, era

José Ricardo Veloso

Pastor da Assembleia de Deus de Madureira e membro da diretoria da Missão Antioquia

cheia do Espírito Santo e foi usada por Deus para que eu conhecesse a Jesus. Citar seu nome neste texto é uma forma de agradecer a Deus por ela. Minha vida havia sido destruída por pecado e decisões equivocadas, e não me restou outro caminho, a não ser a graça do Senhor. Como boa


evangelista, ela cumpriu seu ministério, anunciando as boas novas de salvação para mim. Como agradeço a Deus pela irmã Terezinha! A partir dessa lembrança, fui inspirado a compartilhar uma reflexão baseada no livro de Neemias. Meu objetivo era incentivar os participantes a continuar a jornada com o Senhor. A base da minha ministração foi Neemias 6.1-4 – texto muito conhecido. De fato, a maioria de nós já deve ter participado de algum evento com esse tema. Na maioria das vezes, destacamos a primeira parte do versículo 3: “... Estou fazendo uma grande obra de modo que não poderei descer...”. Na ocasião, porém, o que me chamou a atenção foi a segunda parte do versículo 3 – a pergunta de Neemias: “... por que cessaria esta obra, enquanto eu a deixasse e fosse ter convosco?”. Entendi que Neemias disse aos opositores Sambalate, ­Tobias, Gesém e outros: “Apresente uma razão para que eu pare, e eu pararei!”. Imagino que, naquele momento, um filme passou pela mente de Neemias, fazendo-o recordar-se do momento em que ele havia começado a obra de reconstrução dos muros de Jerusalém. Não sei em que etapa da vida você está, mas imagino que, em algum momento, você já pensou em parar. Agora, porém, eu convido você a refazer sua caminhada, lembrando-se dos passos que você deu e dos passos que o Senhor deu por você. O agir do Senhor é tão intenso e claro que simplesmente não podemos parar! COMEÇO DE TUDO O capítulo 1 diz que a caminhada de Neemias começou com choro, quebrantamento, jejum e oração perante o Deus dos céus (Ne 1:4). Neemias fez uma oração de confissão de pecado, reconhecendo que a situação estava daquele jeito não por culpa do Senhor, mas porque “... eu e a casa de meu pai temos pecado” (Ne 1:6).

Em seguida, Neemias fez um pedido simples: “... Faze que hoje este teu servo seja bem sucedido...” (Ne 1:11). Neemias não começou de qualquer maneira; seu alicerce foi muito sólido! Houve choro e reconhecimento de que ele só poderia reconstruir os muros com o Senhor. VOCÊ SE LEMBRA DE COMO VOCÊ COMEÇOU? Ao combater seus opositores, Neemias disse: “Esta obra não começou de qualquer maneira! Esta obra tem fundamento! Sendo assim, não posso parar!”. Confiança no Senhor, temor e quebrantamento são alicerces fortes! Noites no Centro de Oração, caminhadas de oração pelo Vale da Bênção e preciosos conselhos são os alicerces do seu chamado! Diante do alicerce estabelecido, a resposta de Deus foi intensa! De fato, a intensidade foi tal que, ao ver Neemias, o rei perguntou: “Por que está triste o teu coração, pois não estás doente? Não é isso senão tristeza de coração”. A continuação do texto conta o que aconteceu: “Então, temi muito em grande maneira e disse ao rei: ‘Viva o rei para sempre. Como não estaria triste o meu rosto, estando a cidade, lugar de sepulcro dos meus pais, assolada e tendo sido consumidas as suas portas a fogo?’. E o rei me disse: ‘Que me pedes agora?’” (Ne 2:2-4). Você se lembra daquela visita que você fez a uma igreja, na qual Deus usou o pastor para perguntar a você: “O que você precisa? Como posso ajudar você?”? Então, o que faltava para seu sustento foi suprido e sua passagem aérea foi comprada! Você colocou sua vida em três ou quatro malas e atendeu ao chamado de Deus para as nações! Agora, porém, você diz que a crise chegou, seu sustento diminuiu e as taxas aumentaram. Não se esqueça de que Deus já abriu portas para você onde não havia nenhuma esperança! Agora, não será diferente!

CHEGADA AO CAMPO O capítulo 2 narra que, sem saber exatamente o que fazer, Neemias chegou a Jerusalém à noite. Ninguém o conhecia. A cavalo, caminhou para ver o estado das coisas. Andou para um lado, andou para o outro... Viu tudo. Não declarou nada a ninguém. O negócio realmente estava feio! Não era brincadeira! Tudo estava destruído – o cavalo mal pôde passar por alguns lugares! O versículo 17 conta que Neemias reuniu as pessoas e contou a elas como ele havia chegado até ali. Em seguida, ele as desafiou: “Levantemo-nos e edifiquemos!”. A resposta foi o esforço das mãos das pessoas para o bem. Você se lembra da época em que você chegou ao campo? Sem conhecer bem o idioma e a cultura, você conversou com alguns nacionais. Eles simplesmente acreditaram em você, ajudaram você, foram pacientes com seus erros e riram quando você se confundiu com os sinais da cultura. Você se lembra de que, tocados pelo Senhor, eles colocaram a mão na massa com você para o bem? Os desafios cresceram? O cenário do País mudou? Continue a ter a simplicidade do início, e Deus agirá em seu favor! Não dá para parar! INÍCIO – A INCÔMODA PRESENÇA DA DESCONFIANÇA O capítulo 3 relata que os israelitas iniciaram o trabalho. O capítulo 4 descreve um fato interessante sobre os opositores. Ao ouvir que os israelitas haviam começado a obra, eles disseram: “Ainda que edifiquem, vindo uma raposa, derrubará facilmente o seu muro de pedra” (Ne 4:3). Diante dessa ameaça, os israelitas oraram, e Deus os fortaleceu. Então, metade do muro foi reconstruída! Como vai seu projeto para implantar uma igreja no meio de uma tribo indígena, cuidar de meninos abandonados pela família no oeste africano, recuperar viciados em

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CAPA outra cultura, implantar uma igreja em um país com maioria muçulmana ou evangelizar em um país cuja constituição não admitia a existência de Deus? Não tenho dúvida de que o Senhor tem feito muito mais do que você pediu ou sonhou. Não dá para parar! Há, porém, momentos nos quais a poeira é maior do que o que já foi construído! O capítulo 4 (versículos 10 a 23) aborda momentos de muito pó – grande desgaste físico, emocional e espiritual! De fato, os problemas crescem. O pó encobre o que já foi construído e impede a visão do que falta ser construído. Tudo isso coopera para que você tenha vontade de parar e dizer: “Já fiz muito... Agora, é hora de retornar para minha nação e para minha família...”. A força dos ajudadores desfalece, e os opositores se agigantam, ameaçam e afrontam. As pessoas dizem para você que vão parar. Preste atenção! Exatamente

nesses momentos, o Senhor pode usar sua boca para, como Neemias, dizer: “Não temais, lembrai-vos do Senhor, grande e terrível, e pelejai...” (Ne 4:14). Então, seus ajudadores reagirão – com uma mão, farão obra e, com a outra, portarão o escudo da fé! Suas forças serão renovadas, a trombeta, que é sua voz, será tocada, e as brechas serão fechadas! Vocês caminharão firmes na direção do projeto do Senhor, e o que Deus colocou em suas mãos será realizado! NUVEM DE TESTEMUNHAS A história da Missão Antioquia foi construída por Deus na vida de homens e mulheres que ouviram o chamado do Senhor e decidiram dizer sim e continuar a jornada. Lembro-me de alguns nomes que fazem parte da história da Missão Antioquia. Apesar de correr o inevitável risco de ser injusto, cito alguns: Décio de Azevedo,

Eusa Santos, Maria Pires da Luz, Brasilino Ferreira – o grande Braza –, Margarete Salgado e a saudosa Terezinha. Eles simplesmente combateram o bom combate e não desistiram – só pararam quando o Senhor os chamou. Também cito os que continuam na peleja: Jonathan Santos, Maria Nazareth, Delci Esteves, Najua Diba e Sergio e Nilma Silveira. Eles não têm se ajustado ao pó e têm mantido as mãos no arado sem olhar para trás! Além disso, têm tocado a trombeta para que fiquemos atentos e não deixemos brechas abertas. Há, ainda, os que agora têm bradado com toda a força da juventude: “Nosso tempo! Nossa Missão” – André Tostes, Maria Odete Silveira e Cássia Coutinho. Essa é a valente e ousada Geração Antioquia! Vamos em frente! Estamos fazendo uma grande obra! Temos razão para parar?


DEPOIMENTOS

Vida missionária – Antioquia e eu

Analzira Nascimento

Missionária da Junta de Missões Mundiais – JMM – que serviu por 17 anos em Angola, mestre e doutora em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo e coordenadora do ministério com.vocação da JMM

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m 1980, terminei a graduação em Teologia na Faculdade Teológica Batista, em São Paulo. Eu era da turma da geral, da bagunça! Durante o curso, por meio do contato com os professores, Deus se revelou para mim e me deu sinais que queria que eu servisse em outro país. No final do curso, tive certeza da minha vocação missionária, mas penso que “meu passado me condenou”, pois não me levaram a sério – nenhuma organização confiou em mim... Para arrecadar fundos para ir para o campo missionário, trabalhei como empregada doméstica para colegas da faculdade e fiz geleia para vender. Tudo parecia indicar que eu realmente não havia sido chamada por Deus para servir em outra nação. Então, conheci o pastor Jonathan e passei a ajudá-lo em um programa da Rádio Trans Mundial

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irradiado para países africanos. Quando me dei conta, já estava morando no Vale da Bênção e fazendo o Curso de Preparo Missionário – CPM! Na época, os quartos estavam em obras, as salas estavam inacabadas e a estrutura era rústica, mas o ambiente era rico em amizade – um etos bem Antioquia, com vigílias de oração, estudos bíblicos e alegres celebrações! Minha vida missionária está ligada à Missão Antioquia. Posso dizer que começamos juntos! Sonhamos com o que, aos olhos dos homens, parecia impossível! A Missão Antioquia me acolheu quando ninguém acreditou em mim. Nessa querida agência missionária, entendi que Deus queria conduzir-me por um caminho diferente do que imaginei. Por meio do programa da Rádio Trans Mundial, fui convidada por um pastor angolano para trabalhar

na África. Quando o convite chegou, dei um passo de fé – fui para Angola sem sustento e sem apoio de uma instituição. Hoje, quando analiso minha coragem para sair do meu país sem garantias, percebo o quanto meu aprendizado na Missão Antioquia me inspirou e contribuiu para minha decisão! Meu trabalho na África avançou e, depois de cinco anos, fui adotada pela Junta de Missões Mundiais – JMM/CBB. Permaneci em Angola por 17 anos, desenvolvendo vários projetos, inclusive, um seminário teológico. Voltei ao Brasil e continuo na JMM. Tenho falado incessantemente para jovens, incentivando-os a não esperar reconhecimento nem vida “organizadinha” e estruturada para obedecer e servir a Deus. Como cristãos, nossa missão neste mundo é viver de modo a glorificar a Deus em qualquer lugar e em qualquer situação!


Meu tempo na Missão Antioquia

Leda Maria Schofield

Pastora da Park Baptist Church (Igreja Batista do Parque), em Great Yarmouth – Norfolk – Inglaterra

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u me converti a Cristo quando criança. Eu aceitei a Cristo como meu Salvador e Senhor na Igreja Metodista Livre do Brasil, fundada por missionários americanos e japoneses. O trabalho e a vida daqueles missionários produziram uma grande impressão na minha vida! Não muito tempo depois da minha conversão, senti o chamado de Deus para, como os missionários americanos e japoneses, usar minha vida para ministrar a outros. Durante minha adolescência, procurei informar-me sobre missões – como dar os primeiros passos nessa direção. Enquanto isso, estudei e me formei em Biologia e, por três anos, lecionei em escolas públicas. O desejo de fazer missões, entretanto, nunca saiu do meu coração! Nessa época, ouvi falar sobre a Missão Antioquia. Depois de contatos e entrevistas, em 1981, fiz o Curso de Preparo Missionário – CPM – curso básico de um ano

com matérias bíblicas e de missões. Essa capacitação me conferiu um entendimento fundamental sobre missões e me colocou na direção na qual eu precisava caminhar. Em 1982, quando terminei o CPM, fui enviada para Israel para trabalhar no Projeto Kibutz, que liderava programas de um ano em fazendas comunitárias – kibutzim (plural de kibutz) – nas quais jovens cristãos de vários países trabalhavam como voluntários e eram discipulados por líderes cristãos. Trabalhei também em um moshav (fazenda comunitária parecida com o kibutz). Em 1987, ao terminar meu tempo em Israel, retornei ao Brasil por um tempo e, em 1991, vim para a Europa. Trabalhei na Inglaterra e na França com o Centro de Literatura Cristã – CLC. Logo depois, Deus abriu uma porta para mim, por meio do Church’s Ministry Among the Jewish People – CMJ (ministério da Igreja entre o Povo Judeu) –,

organização cuja sede ficava na Inglaterra. Nesse mesmo país, casei-me com o inglês Colin Schofield. Durante 20 anos, fiz parte da Missão Antioquia. Depois que me assentei na Inglaterra, porém, resolvi que era tempo de deixar a querida agência. Afinal, estava casada e tinha moradia permanente na Inglaterra e, portanto, não poderia mais fazer viagens missionárias. Resolvi, então, fazer o que sempre havia tido desejo de fazer, mas, até àquele momento, não havia conseguido – faculdade de Teologia. Quando terminei o curso, entendi que deveria iniciar o ministério pastoral – é o que tenho feito nesses últimos anos até hoje! Ao olhar para trás, concluo que, sem dúvida, meu tempo com a Missão Antioquia foi formativo para minha vida. Agradeço a Deus pelos passos iniciais e pelo período no qual convivi com a Missão Antioquia,, que foi fundamental para mim e faz parte de quem sou hoje.

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DEPOIMENTOS

A Missão Antioquia e nós

Carlos Gomes

Pastor da Igreja Batista do Povo, em Grajaú – grande São Paulo

Carmen Gomes

Graduanda em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Serviram como missionários da Missão AMEM e da Missão Antioquia na Índia e na Inglaterra

H

á épocas que marcam profundamente nossa vida e fazem nosso aprendizado e crescimento espiritual se tornarem mais relevantes. Nesse sentido, louvo a Deus por ter me guiado ao Vale da Bênção, onde iniciei meu treinamento teológico e prático no

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Seminário Bíblico Antioquia. Os três anos que o Senhor designou para que eu estivesse lá foram fundamentais para meu crescimento espiritual e desenvolvimento do meu ministério como pastor e missionário no Brasil e fora do Brasil. A vida acadêmica e a prática de fé diariamente

experimentadas naquele lugar me ajudaram a estabelecer uma base sólida. O diferencial do treinamento foi baseado em um estilo de vida simples e disciplinado. Os ensinamentos bíblicos, como meio de sustentação da vida prática comunitária, fizeram-me experimentar lindas


evidências do caráter de Deus e moldaram minha vida por meio do trabalho diário. Experimentei uma vida de deserto de Deus no Vale da Bênção ou, como os alunos diziam, Vale da Prensa! Hoje, posso dizer que grande parte do treinamento que lá recebi continua a ecoar nesse processo contínuo de capacitação do Senhor Deus em minha vida e ministério. De fato, esse treinamento e a bênção de lá ter conhecido minha esposa Carmen (aluna do seminário) me levaram ao exercício do ministério pastoral. Inicialmente, trabalhamos em uma das congregações da Igreja Batista da Lagoinha, em Urucânia (MG), e na sede, em Belo Horizonte (MG). Posteriormente, trabalhamos no campo missionário transcultural, na Inglaterra. Depois, fomos convidados pelo pastor Jonathan dos Santos para assumir a função dos diretores da base da Missão Antioquia em Londres, onde

passamos a exercer o pastoreio dos missionários e o suporte aos que trabalhavam no leste europeu, no Oriente Médio, no norte da África e na Ásia. Hoje, 31 anos depois do nosso tempo no Seminário Bíblico Antioquia, vemos os frutos alcançados em nosso ministério – na igreja local e no trabalho missionário transcultural – e nos regozijamos no Senhor! Continuamos a prosseguir para o alvo de plantar igrejas e treinar líderes no Brasil, especificamente, no bairro Grajaú (zona sul de São Paulo). Somos apoiados pela Igreja Batista do Povo e estamos fraternalmente ligados à Missão Antioquia. Oramos para que o Senhor Jesus continue a despertar e levantar novos obreiros para Sua seara e nos ajude a capacitá-los e treiná-los a fim de cumprirmos a tarefa de evangelização das nações.


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FOTOS DO CAMPO

Cintia da Silva – missionária da Missão Antioquia no norte do Brasil Lindo amanhecer no Alto Rio Negro, em plena floresta amazônica

– beleza regional e imensos desafios! Alguns indígenas que vivem no local ainda não desfrutam o amanhecer em Cristo. Boa parte das aldeias que se encontra no noroeste

da Amazônia não sabe o que significa ter Cristo como luz – verdadeira luz que dissipa as trevas e ilumina todo o homem ( Jo 1:5,8b). O Rio Negro não serve apenas para ilustrar a imponência da natureza intocada, mas também para mostrar que tudo na aldeia depende do rio. Não há estradas e, assim, navegamos por suas águas negras para visitar um parente ou ir à roça. No rio, tomamos banho, lavamos nossas roupas e obtemos água para cozinhar – enfim, tudo acontece no rio! Quem dera fosse assim Cristo no coração de todos os nossos queridos indígenas! Navegando pela imensidão desse rio, levamos o Evangelho para mostrar que, em Cristo, temos a supremacia de Sua suficiência, sendo Ele nosso rio e experimentando dEle a água viva, o caminho, a verdade e a vida! Que a graça e a salvação alcancem e aqueçam o coração dos indígenas do Alto Rio Negro! Beto Fernandes - missionário da Missão Antioquia no oeste africano Pela primeira vez, crianças de povos africanos nunca antes evangelizados visualizam literatura bíblica. Por meio deste olhar de curiosidade, satisfação e sede de conhecer as Escrituras, o Evangelho tem avançado entre as crianças do oeste africano, povo não alcançado sem porção bíblica traduzida para sua língua. Reflete que a Missão Antioquia tem alcançado seu objetivo, e o Evangelho tem caminhado em direção a tribos, povos e raças não alcançados!

Maycon Teixeira – missionário da Missão Antioquia na Bolívia Nos mercados populares, vejo muita fartura, mas, ao mesmo tempo, muita miséria, especialmente em relação à história das pessoas... É triste ver o muito e o pouco caminharem juntos por questão de escolha...

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Cleres Pacheco – missionário da Missão Antioquia na Polônia Hoje, 95% da população da Polônia é católica, mas nem sempre foi assim! Antes da Segunda Guerra, grande parte da Polônia pertencia à Alemanha, e havia um grande montante de protestantes e judeus. Depois da guerra, porém, a Igreja Católica Romana assumiu o controle de todas as igrejas – 95% protestantes.

Este busto é de Dietrich Bonhoeffer – famoso teólogo e pastor protestante nascido na Polônia quando parte da Alemanha. Foi morto em um campo de concentração em abril de 1945. Ao fundo, uma Igreja Católica Romana mostra o contraste entre dois tipos de fé e convicção – a deterioração do monumento demonstra a deterioração da fé, que, anteriormente, tinha Jesus como centro, mas, hoje, tem somente a igreja.

absolutamente nada sobre Deus e a Bíblia. É necessário não encobrir os feitos do Senhor da próxima geração! É necessário

redescobrir o que foi descoberto há séculos! É necessário agir e contar à nova geração quem Deus é e o que Ele faz!

Tudo – inclusive evangelização – gira em torno do tradicional chá! Um irmão da igreja e eu fomos a

um local visitado por quem deseja saborear o gosto da região. Queríamos fotografar algo que expressasse o relacionamento diário em torno do chá. Para nossa surpresa, um dos jovens que trabalha no local viu o Evangelho e perguntou: “O İncil (Evangelho) não foi mudado? Vocês realmente acreditam que Jesus morreu e ressuscitou?”. Então, foi fácil registrar o que procurávamos! Pedimos permissão, e a foto ficou super original – de fato, o jovem foi evangelizado naquele momento! Ao não mostrar o rosto, esta foto expressa anonimato, curiosidade e medo, uma realidade na evangelização dentro do contexto de países fechados.

Paula Melo – missionária da Missão Antioquia na França. Para Nosso tempo – nossa missão, baseada em Salmos 78:3,4: “O que ouvimos e aprendemos, o que nossos pais nos contaram não os esconderemos dos nossos f ilhos; contaremos à próxima geração os louváveis feitos do Senhor, o seu poder e as maravilhas que fez”, concebi uma imagem para representar a Europa – uma senhora de idade mostra a Palavra para uma criança de quatro anos. Na Europa, os feitos do Senhor têm sido “ocultados” por toda uma geração! De fato, tenho o forte sentimento de que há toda uma geração que não sabe

Roberto Pontes – missionário da Missão Antioquia na Ásia Menor

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MUNDO EM FOCO

Mundo em foco – região dos Bálcãs Nájua Diba - missionária da Missão Antioquia na Albânia

A

Península dos Bálcãs é variada em geografia, divisão política e demais aspectos – povos, etnias, história e cultura. O significado do termo Bálcãs

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é amplo, mas pode ser entendido como Montanhas. A Península dos Bálcãs engloba os países do sudeste europeu: Eslovênia, Croácia, Sérvia, Bósnia-Herzegovina,

Monte Negro, Macedônia, Bulgária, Romênia, Grécia, Albânia e Kosovo. Dizem que, no início, os Bálcãs eram regiões habitadas por trácios, macedônios e ilírios.


Trácia, Macedônia e Ilíria são regiões cuja história remete a diversos impérios com vasta miscigenação e invasões consecutivas. Esse quadro nos traz à mente três grandes impérios: o de Alexandre, o grande, o Império Romano e o Império Otomano, que perdurou por cinco séculos. O Império Romano deixou pouca influência. O Império Otomano deixou uma herança consistente, principalmente na cultura e na religião do islã. Assim, o islamismo chegou aos Bálcãs

e se fixou entre albaneses e povos minoritários. A religião dos povos eslavos era pagã. Posteriormente, foram influenciados pela Igreja Bizantina. Atualmente, a maioria professa essa fé. De fato, a influência da Igreja Bizantina é muito forte na política e reflete o ideal dos povos eslavos. O Evangelho chegou aos Bálcãs no primeiro século, quando o apóstolo Paulo foi a Ilíria (Rm 15:19,20). No começo do século 20, alguns missionários lutaram para

levar o Evangelho aos Bálcãs. A Sociedade Bíblica Inglesa fundou uma agência em Istambul e expandiu o trabalho pelo Império Otomano, incluindo os Bálcãs. Em função da Segunda Guerra Mundial, porém, o trabalho missionário cessou, deixando a tarefa delegada aos crentes locais. Depois do término da guerra, o comunismo tomou conta de quase toda a região dos Bálcãs, e não se pôde mais pregar abertamente o Evangelho. A Albânia – pior reduto do comunismo – sofreu mais do que os países eslavos, que tiveram abertura para praticar sua fé, embora de maneira limitada. Na Albânia, sob pena de prisão, era proibido anunciar o Evangelho para pessoas de outras religiões. Sendo assim, a Albânia comunista teve apenas cinco remanescentes firmes no Evangelho! O país se declarou ateísta e passou a perseguir e martirizar os religiosos. Muitos deles morreram, dizendo: “Viva Cristo Rei e viva a Albânia!”. Os Bálcãs – tanto nos países eslavos como na Grécia e na Albânia – têm grande necessidade do Evangelho! Nesses últimos 25 anos, a Albânia tem recebido muitos missionários. Dessa forma, a despeito desse cenário árido, a Igreja do Senhor tem ressurgido! Apesar de ainda precisar da força missionária, a Igreja Evangélica da Albânia tem cumprido sua missio Dei. O que, porém, tem acontecido nos outros países? O Evangelho ainda não alcançou muitos povos nos outros países. Na Sérvia, por exemplo, há 35 etnias diferentes! Monte Negro, Bósnia, Macedônia, Kosovo e Croácia também contam com diversas etnias, inclusive, albanesa. Há regiões e cidades inteiras sem nenhum crente no Senhor. Deus tem dito que Sua Igreja deve ir aos Bálcãs! Este é o tempo dos Bálcãs!

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MUNDO EM FOCO

Oeste africano Regina Silva – missionária da Missão Antioquia no oeste africano

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ezesseis países fazem parte do oeste africano: Benin, Burkina Faso, Costa do Marfim, Cabo Verde, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné Bissau, Libéria, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa e Togo. A maioria da população de muitos

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deles é islâmica, somando um total de aproximadamente 170 milhões de pessoas. Algum tempo atrás, o oeste africano parecia estar muito distante da realidade do fundamentalismo religioso muçulmano em sua forma terrorista. Hoje,

porém, a região se tornou zona de turbulência, conflito, violência e terrorismo. Essas questões têm se tornado grandes ameaças à paz e segurança da região. De fato, o oeste africano tem convivido com movimentos estruturados e poderosos, que têm promovido insegurança e fragilizado ainda mais a já frágil economia. Na área política, muitos líderes no poder têm fragilizado a nação devido à má administração e a mudanças na constituição para manterem-se no poder por 20 anos ou mais. Na verdade, suas ações têm provocado conflitos


internos que têm levado a golpes de estado e guerra civil. Todas as reformas no sentido de que a população tenha mais e melhor acesso ao sistema de saúde têm fracassado... Mesmo quando há medicamentos em postos de saúde e hospitais, a maior parte da população não tem acesso a eles. O oeste africano também tem sofrido com doenças e epidemias. Em 2014, surgiram os primeiros casos do vírus ebola, que provocou um número espantoso de mortes. Guiné, Serra Leoa e Libéria foram gravemente atingidos – famílias foram completamente destruídas e devastadas.

Sem dúvida, isso enfraqueceu a economia e diminuiu o turismo. Ainda não foi descoberta nenhuma vacina contra esse vírus. Apesar disso – ou em função disso –, no início do século 21, houve grande crescimento de cristãos no continente africano! O cristianismo tem se tornado uma das religiões mais praticadas no sul do Saara. A razão do crescimento da igreja evangélica se deve ao envio e esforço dos missionários e ao interesse das igrejas africanas em preparar obreiros nativos e enviá-los a povoados não alcançados. Nesse sentido, um grande desafio é em relação a garibous ou

talibês, encontrados em Burquina Faso, Mali e Senegal. Entregues pelos próprios pais aos líderes religiosos marabous, que têm reputação social elevada, para ter aulas sobre o Alcorão, meninos de 4 a 14 anos conhecidos como garibous ou talibês vivem em condições degradantes – obrigados a pedir dinheiro e mendigar o alimento. São usados como mão de obra barata para construção, fabricação de tijolos, plantação e colheita. Passam por todo tipo de maus tratos – físicos e psicológicos – e são abandonados e rejeitados. Mal vestidos e humilhados, esperam adquirir conhecimento e estudar, mas a realidade que enfrentam é bem diferente – sofrem humilhações constantes, caminham sob sol escaldante e ficam vulneráveis a doenças e epidemias. Cerca de 40 meninos vivem em cada casa. Em coro e por repetidas vezes, recitam trechos do seu livro sagrado. Em um cômodo da casa, deitam-se sobre sacos plásticos ou papelões sujos de areia. Não têm camas nem cobertores nem travesseiros. Apesar disso, porém, não reclamam de nada, pois sabem que, se falarem sobre a realidade que vivenciam e os abusos que sofrem, serão violentados e punidos de maneira severa. Por volta das 5h, acordam e estudam sua religião. Depois, saem com latas ou potes de plástico para pedir dinheiro nas ruas e conseguir algo para comer. Cada marabou estipula uma quantia diária para que os garibous angariem. Quando não conseguem alcançá-la, são espancados, queimados com moedas quentes colocadas sobre a pele ou chicoteados de maneira violenta. Há muitos relatos de agressão e morte. O grande desafio é a luta pela causa justa do direito dos garibous – direito de estudar, fazer escolhas, alimentar-se, brincar, amar e ser amado. Juntos, podemos lutar por um futuro melhor para esses meninos!

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POESIA

Voo da águia

Maria Cristina Vieira Souto

Missionária que serviu em Israel e, atualmente, é professora de Missões e Teologia na Igreja Metodista Wesleyana

ra apenas uma pequena ave que nascia no ninho da oração. Frágil, mas determinada a crescer e a muito fazer. Cresceu em força de coração e em amor profundo pelas almas perdidas e sofridas, pelas crianças sem lar, perdidas nos cantos da vida e sem opção, e por homens e mulheres errantes. A pequena ave começou a aventurar-se em uma grande jornada de fé, destinada a conquistar um pedaço do céu e vários cantos da Terra. Era apenas uma pequena ave que crescia, fortalecia-se e ia em direção a um grande ideal – salvar os que se perdiam e trazer para a luz os que nas trevas jaziam. Que grande chamado! Era mesmo um tipo diferente de reinado! Em longos voos de fé, conquistava fronteiras estrangeiras, estabelecendo ninhos de descanso para o cansado, oferecendo água ao sedento e comida ao faminto, colocando a palavra da eternidade nos corações, cuidando do corpo, da alma e do espírito e sempre pregando a verdade. A pequena águia sabia que sua jornada era desbravar terras, fincar marcos e apertar passos, mas também sabia que tão simples não seria e que, no seu caminhar, haveria dificuldades. A tempestade viria e, muitas vezes, a faria esperar – não podia, então, para mais além voar. Quando, porém, chegavam os tempos favoráveis, com sua visão aguçada, ela espalhava sementes na terra fértil e no solo endurecido. Essas sementes cresceriam e se tornariam árvores de justiça – plantação para a glória do Senhor! A ave, já não tão pequena, vestia-se de penas tecidas pela oração, que protegiam seu corpo, muitas vezes, tomado pela exaustão e, às vezes, sem muita esperança no coração. Suas asas tão grandes se abriam e plainavam no ar com elegância, discernindo a hora de descer para mais fronteiras atravessar e seus filhos espalhar, pois a grande obra não podia parar. A águia guerreira aprendera a batalhar! A águia, já adulta, continuava a aninhar mais filhos e a treinar cada um para a difícil arte de conquistar e perseverar nos campos rochosos e produzir frutos em campos deleitosos, mas também regozijar-se com suas conquistas e para o alto levantar suas mãos em gratidão. A águia voou muito, sem cessar, apenas com pequenos momentos para descansar, mas chegou o tempo em que, por um período, teve que parar para renovar. A águia chegou aos seus 40 anos! Na dolorosa hora da renovação, em um voo solitário, retirou-se para a mais alta rocha no caminho do céu sob a graça do Criador. Em um processo de dor, começou sua transformação, e todas as suas penas caíram. Um lema, porém, a águia tem que seguir – morrer para ressurgir e prosseguir! Sua companheira é a solidão; sua fortaleza, sempre a oração. Seu consolo é a recordação de que muitos a esperam com som de festa, com verdadeira celebração! Finda-se o período de transformação, e a águia surge mais forte e mais bela, agora, para ficar e muito mais conquistar, muitos mais filhos aninhar e desafios novos enfrentar. Agora, ela está mais altaneira e mais confiante no seu Deus, seu provedor. A pequena águia que nasceu no ninho da oração tem mesmo um grande coração! Nesse período de renovação, surgiu com uma canção de gratidão, renovada, pronta para continuar a trabalhar e mais experiente para ensinar que, para efetuar uma grande obra, tem que estar guardada sob as grandes asas do Senhor, seguindo cada voo na Sua direção, sempre em adoração e sem achar que já fez demais, pois ainda há muito mais para alcançar. A pequena grande águia crê que ainda voará para terras novas muito mais além, sustentada no ninho da oração sempre forte no seu coração!

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FILME COMEMORATIVO

Beto Fernandes

Filme E

ditar 40 anos da história da Missão Antioquia e produzir um vídeo para comemoração de seu aniversário foi um privilégio e uma grande honra! Repletos de criatividade, unção e dedicação ao Reino, os vídeos e as fotos que recebi sobre o trabalho dos missionários renovaram minha fé e me inspiraram. Constatei a maravilhosa influência dessa agência missionária, que, durante anos, tem percorrido nações, fazendo discípulos e despertando a Igreja Brasileira para envio e sustento de homens e mulheres que decidem dizer sim ao chamado de Deus.

Missionário da Missão Antioquia no oeste africano

Na África, onde sou missionário, nas tribos indígenas do Brasil, nos países do sul da Europa e nos pequenos vilarejos do Oriente, observei que há obras sociais frutíferas, igrejas levantadas, tribos alcançadas, Bíblias traduzidas e, enfim, trabalhos maravilhosos! Creio que nem sequer o pastor Jonathan imaginou que Deus utilizaria essa agência de maneira a ter tal alcance e impacto global! O trabalho de conectar essas histórias e colocá-las na perspectiva da grande história da Missão Antioquia foi desafiador! Como fotógrafo e videomaker, tive que filtrar as melhores imagens com

bons enquadramentos e buscar as melhores resoluções. Como missionário, tive que olhar por trás das câmeras, entender a essência do trabalho de cada um e ver o que Deus queria que todos vissem. Agradeço à Missão Antioquia pela confiança e pela dupla honra de ser missionário dessa agência e eternizar sua história nesse vídeo. Espero que, por meio dessa produção, você seja impactado por essa história e motivado a fazer parte dela. Acesso pelo canal:

https://www.youtube.com/channel/ UCLVj6DjGnBajSn4n6My9i0w

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MATÉRIA JORNALÍSTICA

Cidadãos do céu? Marina Pontes – missionária da Missão Antioquia na Ásia Menor

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asci no Brasil. Passei seis anos na Albânia e nove anos na Turquia. Agora, estudo na Espanha.” “Minha mãe me concebeu no campo missionário na Albânia. Em função de atendimento médico, porém, nasci na Espanha. Voltei para a Albânia, onde fiquei quase dois anos. Há dez anos, moro na Turquia.” “Nasci no Brasil. Moramos no Paraguai, em Burkina Fasso e no Mali. Devido à guerra civil, porém, fomos para a França.” “Quantas línguas falo? Três! Com meus pais, falo português. Com meu irmão, às vezes, opto por inglês, às vezes, opto por turco. Com meus amigos nacionais, falo turco e, com meus amigos estrangeiros, falo inglês.” “Qual é minha nacionalidade? Brasileira! Passei, porém, boa parte da minha vida na Índia e na Inglaterra. Tenho duas nacionalidades – brasileira (do meu pai) e finlandesa (da minha mãe), mas minha casa é em Israel.” Que confusão é essa? É consequência da globalização do século 21? É devida aos tempos modernos, nos quais a distância não é mais tão distante e as facilidades de comunicação por meio das redes sociais ultrapassam fronteiras, culturas e barreiras linguísticas? Alguns chamam essa “confusão” de Crianças da Terceira Cultura (Third Culture Kids) ou MK’s – sigla em inglês que significa Filhos de Missionários – FM’s. Os FM’s crescem em uma cultura que não é a deles. Em casa, vivem sua cultura ou a cultura de seus pais, falando sua língua, praticando

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seus costumes e saboreando seus alimentos. Fora de casa, porém, têm contato com a língua, os costumes, os alimentos e a cultura locais. Nessa miscelânea, uma cultura se funde à outra e dá origem a uma terceira cultura! Os FM’s são crianças e jovens normais que se tornam especiais e privilegiados por ter nascido em uma família missionária e ter sido incluídos no chamado transcultural de seus pais. Não são missionariozinhos! Não fazem parte da classificação do missionário chamado, comissionado, treinado e enviado por uma igreja e/ou agência missionária, mas têm um papel importante na família que se tornou missionária. Os FM’s buscam uma identidade e querem pertencer a um lugar, que, muitas vezes, não é o indicado no passaporte deles. Não se sentem completamente inseridos em uma

única cultura! Apesar dessa complexidade, porém, o que importa é que eles se sintam em casa ainda que o lar deles não seja o país de seus pais. Por meio de intervenção, direção e planejamento de Deus, a maioria dos FM’s decide adotar a cultura na qual cresceu. Alguns FM’s optam pela cidadania dos pais – voltam para o lugar onde nasceram, entendem que o Senhor os chamou e, depois de capacitados, voltam ao país no qual cresceram e dão continuidade ao legado de seus pais. Alguns FM’s se casam com FM’s ou nacionais e permanecem no lugar em que cresceram ou vão para outro país, onde continuam a servir ao Senhor. Foi um prazer apresentar alguns aspectos da vida dos FM’s, que veem o mundo de forma ampla e colorida! De fato, a casa dos FM’s não pertence a esse universo, pois eles são cidadãos do céu!


Quem são os filhos de missionários? Sarah Vallejos – filha dos missionários Ismael e Gilvanete (Cochabamba – Bolívia)

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ilhos de missionários – FM’s – são filhos de sonho – filhos de visão –, pois seus pais disseram sim ao chamado de Deus! Sou FM’s – filha do sonho dos meus pais, um sonho maior do que posso imaginar! Muitos de nós – FM’s – fomos para o campo quando bebês ou bem pequenos. No meu caso, nasci no campo missionário! Não disse sim ao chamado de Deus, mas, de alguma forma, tenho feito a obra, ajudando aos meus pais. Ainda que eu não queira que isso aconteça, pessoas do campo missionário e do Brasil me veem como exemplo... Sendo assim, sei que sou especial, pois “vivo em uma casa de vidro” – de todos os lados, as pessoas veem o que faço! De fato, em todas as instâncias nas quais somos conhecidos – família, igreja, igreja que nos sustenta e igreja na qual trabalhamos – em todo o tempo, todos olham para o que fazemos! Mesmo quando não queremos estar nessa “casa de vidro”, sendo observados pelas pessoas, elas estão ao nosso redor... Isso pode ser muito difícil! Na verdade, queremos nossa privacidade – tempo para estarmos a sós sem nos importarmos com o que as pessoas pensam ou dizem e sem termos que ser perfeitos. Queremos ser apenas humanos! Nem tudo na vida dos FM’s, porém, é difícil! Há muitas coisas boas! De fato, temos grandes privilégios! Vamos a lugares aos quais muita gente nem sonha ir, conhecemos pessoas que nunca imaginamos conhecer e temos certas coisas que, se não fôssemos FM’s, certamente não teríamos! Como exemplo disso, cito uma amiga da minha mãe que contribui

para nosso sustento. Cada vez que nós a visitamos, ela nos leva à sua loja e nos dá muitas roupas de marca! Se eu não fosse FM’s, nunca teria as roupas que tenho! Meu tempo predileto da História é o medieval, quando havia reis e rainhas, príncipes e princesas. Então, imagino que ser FM’s é ter um pai rei e uma mãe rainha e ser princesa! As pessoas sempre olham para a princesa para ver se ela está gastando muito ou se não se importa com o povo! Da mesma maneira, as pessoas olham para mim para perguntar as coisas! Somos da realeza porque, mesmo quando não queremos ser especiais, as pessoas olham para nós e esperam algo de nós, como se fôssemos líderes. Temos, então, o privilégio de ser príncipes e princesas! Uma parte do trabalho, porém,

é bem dura – pessoas decidem o que devemos fazer. Um exemplo simples disso é termos que morar em outro país. Muitas vezes, enfrentamos grandes dificuldades quanto a isso, pois não somos aceitos pelas duas culturas – nossa cultura de origem e a cultura na qual estamos inseridos. De fato, somos de uma cultura, mas crescemos em um país com uma cultura diferente da nossa. Carregamos nossa própria cultura e nos deparamos com outra cultura. Por isso, muitas vezes, realmente não sabemos onde cabemos! Para falar a verdade, porém, acho que somos um sonho! Acho que, quando Deus sonhou enviar nossos pais para o campo, também sonhou nos enviar. Ele viu que seríamos fortes o suficiente para sermos FM’s – Ele sonhou com isso!

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MATÉRIA JORNALÍSTICA

Cuidado de filhos de missionários Diná Moraes – graduada em Psicologia e coordenadora do departamento Filhos de Missionários da Missão Antioquia

“Os filhos são herança do Senhor... Como flechas nas mãos do guerreiro são os filhos nascidos na juventude” (Salmos 127:3-4).

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uando consideramos aspectos como carisma, amor, serviço, gratidão e experiência, falar sobre filhos de missionários – FM’s – pode ser bem simples. Quando, porém, consideramos a grandiosidade de aspectos como sonhos, objetivos, história e herança, falar sobre FM’s pode ser extremamente complexo! Na verdade, todos esses aspectos são troféus adquiridos no decorrer da caminhada – não troféus tangíveis, mas troféus eternos! FM’s são como flechas lançadas em direção a um alvo certo. Atingir esse alvo, porém, não é a

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conquista final, já que eles foram forjados para persistir em busca de novos alvos. FM’s são valentes e incansáveis na caminhada. Lutam por ideais sólidos, mas necessitam mentores que os orientem quanto aos passos certos e os impulsionem diante dos obstáculos. Por outro lado, não são intocáveis ou grandes demais, como alguns os veem. São humanos como qualquer criança, adolescente ou jovem. Cumprem cada etapa da vida e vivem os conflitos normais de cada fase. FM’s têm uma dificuldade extra a ser enfrentada – a questão

relacionada ao pertencer, já que não são filhos de uma única cultura. Carregam a cultura mãe, mas esta se mistura à cultura dos locais pelos quais caminham. Alguns absorvem mais sobre a outra cultura, outros, menos. Com certeza, porém, todos experimentam certa crise e tentam adaptar-se à nova realidade. Nem sempre o coração de FM’s fica alegre por ter que partir para outro país. Cada um tem sua individualidade, e esta deve ser respeitada! Ao deixar família, amigos e, enfim, o porto seguro rumo ao desconhecido, alguns enfrentam muita dor. Outros, porém, encaram tudo como uma grande aventura. Ainda outros assumem o rol dos missionários, identificando-se com o chamado de seus pais. Depois de um tempo de prática de missões na Bolívia e, posteriormente, morando em Burkina Faso, ao visitar uma igreja com seus pais, o pequeno Pedro deu o seguinte testemunho na sala de aula das crianças: “Também sou missionário – um missionário pequeno, mas um missionário!”. Independentemente da posição assumida por FM’s, porém, é importante que estejamos atentos às suas emoções e reações, pois, na verdade, estas dizem muito, especialmente o que não costuma ser expresso por palavras. De fato, as emoções têm poder sobre nossa vida e podem fazer com que fracassemos ou vençamos. O ideal, portanto, é promovermos espaço para que as emoções de FM’s sejam verbalizadas e trabalhadas para benefício deles mesmos. FM’s têm grande possibilidade de seguir em frente, mas isso depende de grau de resiliência, estrutura familiar e raiz firmada em Deus. Justamente em função disso, no processo de envio, permanência no campo e reentrada no país de origem, o cuidado integral do missionário é de suma importância, e FM’s também devem ser alcançados por esse cuidado!


O jovem ocidental André Tostes – graduado em Administração de Empresas e Comércio Exterior pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e coordenador da atuação jovem da Missão Antioquia

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Missão Antioquia acredita no jovem e em seu potencial para manifestar o reino de Deus em todas as nações e em todas as esferas da sociedade. Na cultura ocidental contemporânea, porém, há uma realidade contrária ao reino de Deus. Apesar disso, a missão

é de Deus, e Ele “... é capaz de fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos...” (Ef 3:20). Que características da cultura ocidental contemporânea o jovem brasileiro tem vivenciado? Um jovem de 20 anos residente em Poá (SP), por exemplo, responderia que

vive em um mundo imediatista, consumista e materialista. Eu concordaria com ele – e me compadeceria dele –, principalmente, se não tivesse acesso à educação, fosse vizinho de um traficante de drogas e membro de uma igreja que ensina que Deus pode ser comprado. De fato, vivemos no “aqui e agora”! Vivemos em um mundo no qual o que é bom para mim pode não ser bom para você, mas, desde que eu não “interfira no seu espaço”, viveremos em paz! Vivemos em um mundo no qual passado e tradição não importam – o que realmente importa é o presente e suas oportunidades! Vivemos em um mundo no qual somos o que bebemos,

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MATÉRIA JORNALÍSTICA

compramos e vestimos! Vivemos em um mundo no qual um vídeo de Justin Bieber (22 anos) é o mais visualizado do YouTube e Neymar (23 anos) é o terceiro jogador de futebol mais rico! O seminário canadense Regent College lançou a série de vídeos Reframe (Remodele), que sugere que a sociedade ocidental vive uma crise de identidade porque não consegue responder à questão: “Quem sou eu?”, e apresenta quatro características da cultura ocidental contemporânea. A cultura ocidental contemporânea se caracteriza por deslocamento do passado e perda de identidade social. Rompemos com o passado e suas tradições – não importa o que nossos pais e avós viveram, o que realmente importa é o que estamos vivendo! O problema é que, se não soubermos de

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onde viemos, não saberemos para onde estamos indo! A cultura ocidental contemporânea se caracteriza por invenção. Temos direito de escolher o que queremos ser. Somos responsáveis por construir nosso “ser” – e o fazemos a partir da compra e da venda da nossa identidade, já que somos o que comemos, estudamos e sentimos! Certamente, porém, não podemos ser o que fazemos! Precisamos, portanto, de outra explicação para quem somos. A cultura ocidental contemporânea se caracteriza por fluidez. Tudo muda muito rapidamente! Quando achamos que descobrimos quem somos, a moda muda, e temos que ser outro alguém! Essa característica impede que o jovem sem identidade firme em Cristo guie sua vida sobre um único fundamento. Diante disso, portanto,

surgem as perguntas: Se há tantas verdades, como viver a verdade? Se há tantos caminhos, como seguir o caminho? A cultura ocidental contemporânea se caracteriza por confinamento. Privilegiamos o “politicamente correto”. Privadamente, cada indivíduo pode escolher o que quer, mas, publicamente, tem que haver conformidade! Se, porém, a maneira pela qual Jesus viveu e o que Ele disse sobre Si, o homem e o pecado ofendem as pessoas, como podemos ser jovens cristãos? Nenhuma crise de identidade, porém, é grande demais para Deus! Qualquer época e qualquer cultura podem ser redimidas pela supremacia de Cristo, pois foi vontade do Pai que “... por meio dele, reconciliasse consigo todas as coisas...” (Cl 1:20a), inclusive nossa cultura e nosso tempo!


Sendo assim, o jovem com identidade firmada em Cristo não está desconectado do passado, mas faz parte da história do Criador, na qual encontra identidade e conhecimento de seu caminho – para onde está indo. De fato, servir a Jesus não é uma ação isolada, mas faz parte de um plano redentor presente na criação do mundo e confirmado para Abraão (Gn 12:1-3), Israel e Igreja. Dessa maneira, ele não é o que faz, veste ou compra, mas o que Deus diz que ele é – filho amado! Faz parte de um propósito maior e é menos influenciado pelas rápidas mudanças da sociedade. Certamente, tem que adaptar-se a novas situações, mas não tem seu “ser” alterado a cada mudança social. Apesar disso, o jovem com identidade firmada em Cristo e consciente de que faz parte de um propósito maior sofre – e muito! Isso acontece pelo fato de que vivemos em um mundo no qual o ensino de Jesus não é reverenciado,

a história é deixada de lado e a verdade já não existe. De fato, nossos dias são de confronto – de contracultura! Ao mesmo tempo em que a Palavra enche essa geração de esperança, dando-lhe identidade e direção, portanto, também a coloca contra a parede, perguntando: Jovem, você está disposto a se entregar completamente a Deus e a servir a Ele de todo o seu coração? Isso implica deixar as riquezas que a cultura materialista proporciona, ser desconhecido e sofrer pelo nome de Jesus. Para alguns, também implica deixar sua cidade e anunciar Jesus em outra cultura. Que as palavras do encarcerado apóstolo Paulo aos filipenses ecoem na mente do jovem que responde sim a essa pergunta, pois “A nossa cidadania, porém, está nos céus, de onde esperamos ansiosamente um Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fl 3:20)! Há, portanto, esperança para

o jovem de 20 anos que mora em Poá! Se ele se encontrar com Jesus, será desvinculado de uma cultura que pensa no “aqui e agora” e poderá “ser” antes de “fazer”. Geração Antioquia existe para ajudar a juventude cristã brasileira a entender que faz parte da história de Deus e desafiá-la a servir a Ele de todo o coração para que Ele seja adorado em todo o mundo. Organizamos projetos de curto prazo no Brasil e em outros países durante férias e feriados. Mantemos uma reunião de oração mensal por necessidades missionárias. Visitamos igrejas para falar sobre vocação, compartilhar a missão de Deus e engajar jovens no que Ele tem feito ao redor do mundo. Fazemos encontros anuais – Confra-Jovem – na sede da Missão Antioquia, oferecendo vivências missionárias, oficinas, diversão e mensagens que inspiram a servir a Deus até os confins da Terra. Que o Senhor da missão levante esta geração!


RECEITAS INTERNACIONAIS

Receita angolana Janice Fernandes - missionária da Missão Antioquia em Angola

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uem vem a Angola e não prova fungi e kisaca jamais consegue conhecer a cultura angolana! Esses pratos caseiros são uma forte tradição entre os angolanos. Apesar de todas as precariedades do país, há muitos destaques positivos na cultura angolana, sobretudo, culinária! Fungi é o prato mais consumido no país. É feito à base de farinha de mandioca ou milho. Come-se fungi de bombo no norte do país e fungi de milho no sul do país. Na língua Umbundo, o fungi de milho é chamado de iputa. Serve-se fungi acompanhado por vários tipos de ensopados e assados de carne ou peixe.

Kisaca também é um prato típico angolano. É um cozido feito com folhas de mandioca. Sua preparação leva muito tempo – as folhas de mandioca são moídas e cozidas até que suas substâncias tóxicas sejam eliminadas. O azeite preferido pelas mulheres angolanas é o dendê. É usado em muitos pratos típicos. Outros ingredientes usados na preparação de pratos típicos angolanos são: folhas – de mandioca, batata doce e abóbora – e quiabo, que comi pela primeira vez aqui! Como me casei com um angolano, quis aprender a preparar os

pratos da terra. Fui ensinada pelas mulheres idosas, que consideraram que, para que eu me enquadrasse à cultura, era importante que eu aprendesse a cozinhar da maneira angolana. F UNGI COM CALULU DE CARNE SECA Fungi Ingredientes • 500ml de água; • 1kg de fubá de milho. Modo de fazer Em uma panela, coloque a água para ferver. Quando a água estiver fervendo, aos poucos, junte o fubá. Mexa muito bem para não formar grumos. Cozinhe e sirva. CALULU DE CARNE SECA Ingredientes • 1kg de carne seca ou peixe seco; • 1 cebola grande; • 3 tomates maduros; • 2 berinjelas; • Folhas de batata doce – gimboa; • 1/2kg de quiabo; • 2 copos de azeite-de-dendê; • Alho. Modo de fazer Dessalgue a carne seca. Tempere-a com alho e coloque-a para cozinhar. Quando estiver quase cozida, junte a cebola, os tomates, as berinjelas, as folhas e o quiabo. Coloque um pouco de azeite-de-dendê e deixe apurar. Quando tudo estiver bem cozido, sirva acompanhado do fungi.

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Receita boliviana Elisabete Andrade – missionária da Missão Antioquia no oeste africano

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heguei à Bolívia em janeiro de 2001. Como gosto de cozinhar, logo me interessei pelas receitas locais. A partir do momento em que decidi casar-me com um boliviano, porém, esse interesse ficou mais forte – tão forte que algumas irmãs me deram dicas de culinária para eu agradar a meu futuro esposo! Meu relacionamento com o Herbert começou a partir do nosso interesse pelo país do oeste africano no qual vivemos atualmente. Um dia, após ter conseguido meu e-mail com um missionário da Missão Antioquia, ele enviou a seguinte pergunta para mim: “Você conhece o Mali, no oeste africano, ou algum missionário que mora lá?”. Pensei: “Sobre o que será que ele está falando?”. Na verdade, nunca havia ouvido falar sobre aquele lugar... Escrevi para ele, confessando minha ignorância. Então, ele abriu seu coração, falando sobre seu chamado e sua preocupação com aquele país. A partir daquele momento, apesar dos 498 quilômetros que nos separavam, nós nos propusemos a orar por aquela nação. Nossa amizade e nossos interesses comuns cresceram e, menos de um ano depois, estávamos casados! Hoje, dizemos que aquele país nos uniu! Como todo boliviano, meu marido ama uma boa sopa! Compartilho, então, uma receita típica da Bolívia – sopa de amendoim – em uma versão brasileira! SOPA DE MANÍ (AMENDOIM) Ingredientes • 2 cebolas picadas; • 2 dentes de alho amassados; • 1 pimentão picado;

• 100gr de amendoim cru triturados; • 300gr de frango picados; • 2 tomates picados; • Sal, pimenta-do-reino e cominho a gosto; • 1 folha de louro; • 1 cubinho de caldo de galinha; • Salsinha; • 200gr de macarrão (rigatone, penne, conchinha ou caracol); • 1 cenoura grande picada; • 1 lata de ervilha; • 2 batatas cortadas em cubos; • 2 batatas cortadas em palitos finos; • Óleo. Modo de fazer • Amendoim: em um processador ou liquidificador, coloque os amendoins e triture-os bem (se quiser, acrescente um pouco de água para formar uma pasta). • Legumes: pique-os com capricho (na Bolívia, os legumes são picados em cubos pequenos).

• Macarrão: em uma frigideira (de preferência, antiaderente), toste o macarrão com um fio de óleo. • Batata palito: corte as batatas em palitos finos e frite-as em óleo quente. Em uma panela grande, coloque um pouco de óleo e refogue a cebola, o alho e o pimentão. Acrescente o frango picado, sal, pimenta-do-reino, cominho, louro, o cubinho de caldo de galinha e os tomates. Mexa bem. Coloque o amendoim processado. Acrescente mais ou menos quatro litros de água. Deixe o amendoim cozinhar bem. Preste atenção para que o cozido não entorne no momento da fervura. Quando o amendoim estiver bem cozido, acrescente a cenoura, as batatas e a ervilha. Deixe ferver. Acrescente o macarrão tostado. Deixe cozinhar. Sirva a sopa decorada com as batatas fritas e salsinha. Buen provecho!

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RECEITAS INTERNACIONAIS

Receita curda Marina Pontes – missionária da Missão Antioquia na Ásia Menor

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epois que aprendemos a língua, não víamos a hora de fazer algo para estabelecer relacionamentos com nossos vizinhos. No prédio em que morávamos, havia uma mercearia e, logo, começamos um bom relacionamento com os donos. Certo dia, convidamos a família toda para jantar em casa – seis pessoas (casal com filhos e filhas). No dia do jantar, pesquisei sobre receitas curdas na Internet. Graças a Deus por essa abençoada ferramenta! Passei o dia cozinhando receitas diferentes – não receitas brasileiras, receitas curdas! À noite, com a mesa posta e os alimentos prontos, esperamos pelos nossos convidados. A hora foi passando... E nada de eles chegarem... Os alimentos começaram a esfriar... E nada... O Ricardo telefonou para eles, para saber o que havia acontecido (eles moravam perto do nosso apartamento). Eles disseram que logo chegariam. Finalmente, eles chegaram! Nós os convidamos para sentarem-se à mesa. Quando comecei a trazer os alimentos, porém, eles olharam uns para os outros e conversaram na língua deles. Perguntamos o que estava acontecendo, e eles disseram que não haviam entendido muito bem nosso convite e, portanto, já haviam

jantado. Que frustração... Cometemos uma gafe cultural, pois, aqui, quando convidamos alguém para ir à nossa casa à noite, precisamos especificar se o convite é para um jantar ou apenas para um chá. Sem saber muito bem o que fazer, coloquei o último prato na mesa (receita que compartilho). Quando eles viram aquele prato, ficaram muito admirados por eu tê-lo feito e, então, disseram que poderiam comer um pouquinho, para não serem considerados mal-educados. A noite correu muito bem. Compartilhamos nossa fé com eles. Quando viu o Evangelho, uma das filhas pediu para pegá-lo com suas próprias mãos, pois estava curiosa. Por meio de expressões, sua mãe desaprovou seu pedido – para um muçulmano muito radical (e ela é!), apertar a mão de um cristão ou tocar no livro dele é uma blasfêmia contra Alá. Apesar da desaprovação da mãe, porém, ela pegou o Evangelho e pediu para ficar com ele. Continuamos a amizade com aquela família até mudarmos de cidade. Cremos que, apesar das muitas diferenças culturais, naquela noite, eles tiveram oportunidade de ouvir sobre a verdade que liberta! KUZU KÖFTESI FIRANDA PATATES ILE MINI HAMBÚRGUERES COM BATATAS AO FORNO Ingredientes Hambúrgueres • 320gr de carne de carneiro moída; • 30gr de farinha de rosca; • 2 dentes de alho amassados; • 1cebola média bem picadinha; • 1 colher de sobremesa de pimenta vermelha em pó; • Salsinha picada;

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• Azeite para fritar; • 3 tomates cortadas em rodelas; • Sal a gosto. Batatas • 2 batatas grandes cortadas em fatias de 2cm; • 1/2 cebola cortada bem fininha; • Orégano e sal a gosto. Molho • 1 lata de molho de tomate; • 400ml de caldo de carne. Modo de fazer Aqueça o forno – 180 graus. • Hambúrgueres Misture todos os ingredientes, exceto o azeite e os tomates. Faça hambúrgueres pequenos e frite-os no azeite quente. Reserve-os. • Batatas Cozinhe as batatas até que fiquem al dente (não devem ficar totalmente macias). Escorra a água. Reserve-as. • Molho Frite a cebola e coloque o molho de tomate. Acrescente a água com o caldo de carne. Espere até começar a ferver. Disponha as fatias de batata em uma assadeira e, em cima de cada uma delas, coloque um hambúrguer frito e uma fatia de tomate. Com cuidado, despeje o molho de tomate sobre as batatas, os hambúrgueres e os tomates de modo a cobrir toda a assadeira. Se quiser, nos lados da assadeira, coloque fatias de cebola e pimentão verde. Salpique orégano e páprica (opcional). Asse por 45 minutos. Sirva com folhas de salsinha e iogurte natural. Lüşecan (Lüshedjan) – bom apetite!


Receita peruana Rute Lea Silva – missionária da Missão Antioquia no Peru

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eviche tem origem antiga – mais de dois mil anos – no norte peruano, em Piura. É o prato que mais bem representa a culinária peruana em qualquer lugar do mundo! Em 2014, o Instituto Nacional de Cultura – INC – declarou que o ceviche é o patrimônio cultural da nação. O prato é tão importante para os peruanos que, em 28 de julho, comemora-se o Dia do Ceviche! Certo dia, fomos convidados para um almoço especial na casa de uma família peruana – era aniversário da Sra. Clara Hortega. Fomos recebidos com muito carinho! Nossos amigos disseram: “Para nós, é uma honra receber uma família brasileira pela primeira vez!” Depois de alguns minutos, eles perguntaram: “Vocês comem ceviche?”. Respondemos: “Sim!”. Então, eles disseram: “Hoje, o ceviche está saborosíssimo! É ceviche de frango!”. Ficamos muito curiosos. O almoço foi servido e, para nossa surpresa, misturado ao limão e aos demais ingredientes, o frango realmente ficou muito saboroso! Matou nossa curiosidade – e nossa fome! CEVICHE DE PESCADO (CINCO PESSOAS) Ingredientes • 600gr de peixe branco fresco; • 1 cebola roxa; • 1 espiga de milho cozido; • 1 batata doce cozida; • 2 ramos de coentro; • 12 limões; • 10 folhas de alface; • Pimenta e sal.

Modo de fazer Corte o peixe em cubos. Lave os cubos em água fria. Corte a cebola ao meio e, em seguida, em fatias bem finas. Coloque-as na água gelada por cinco minutos. Corte os ramos de coentro, a batata doce (fatias) e a espiga de milho (pedaços). Corte os limões ao meio. Em uma tigela, coloque o peixe, a cebola, o

coentro, pimenta, sal e limão espremido. Misture bem e deixe descansar por dez minutos. Modo de servir Forre um prato com duas folhas de alface. Coloque o peixe e os ingredientes no centro. Coloque fatias de batata doce de um lado e um pedaço de milho do outro lado.

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RECEITAS INTERNACIONAIS

Receita espanhola Maria José Olivato – missionária da Missão Antioquia na Inglaterra

MINHA EXPERIÊNCIA COM PAELLA Quando chegamos à Espanha, em maio de 1990, fomos diretamente para a ilha mediterrânea Ibiza. No primeiro domingo em que fomos à igreja, o pastor nos apresentou aos irmãos e intimou as famílias a convidarem-nos para almoçar. Assim, a igreja nos conheceria, e nós conheceríamos a igreja. Durante um ano, então, comemos paella quase todos os domingos! Confesso que amei tanto esse prato que nunca enjoei dele, principalmente quando feito no fogão à lenha! Paella se tornou nossa estratégia de evangelização, discipulado,

aconselhamento e amizade. Descobrimos que, na cultura espanhola, é difícil conversar sobre certos temas, a menos, é claro, que a conversa seja acompanhada por uma boa refeição! Se for paella, o sucesso está garantido! Paella é um dos pratos mais famosos da rica culinária espanhola, principalmente, na região mediterrânea. Pode ser de verduras, frutos do mar ou de uma mistura de carnes – frango, coelho e porco. Como as pessoas costumam dizer, parte do segredo da paella está no caldo colocado na preparação do arroz – quer este seja de carne, frango ou peixe, deve ser natural

e não de cubinho. Isso enriquece o sabor! PAELLA DE FRANGO Ingredientes • 4 coxas de frango; • Sal e pimenta; • 3 colheres de sopa de azeite de oliva; • 1 cebola cortada em cubinhos; • 4 dentes de alho; • 1 colher de sopa de pimentão em pó; • 1 colher de sopa de açafrão; • 2 xícaras de arroz; • 3 cubos de caldo de galinha; • 2 tomates pequenos; • 1 xícara de ervilha congelada; • 1 pimentão vermelho, amarelo ou laranja sem semente. Modo de fazer Tempere o frango com sal e pimenta e refogue-o no azeite de oliva até ficar dourado. Deixe cozinhar por 15 minutos. Reserve. Em uma paellera (panela própria para fazer paella), refogue a cebola e o alho por três minutos. Coloque o pimentão em pó e o açafrão e refogue por um minuto. Acrescente o arroz, o caldo de galinha, a ervilha congelada e, por último, o frango refogado. Quando o arroz estiver quase no ponto, acrescente o pimentão cortado em tiras. Desligue o fogo e cubra a paellera com um pano por cinco minutos. Modo de servir Sirva quente. Se quiser, sirva um limão cortado ao meio para ser espremido sobre o arroz.

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Receita senegalesa Nely Soares – missionária da Missão Antioquia no oeste africano

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pesar de yassa poulet ser um dos pratos típicos do Senegal, não é muito acessível à população em função do alto custo do frango. Sendo assim, esse prato é reservado para dias de festa, como a comemoração do fim do jejum do Ramadã, por exemplo, na festa chamada Korité. Cozinhar não é minha área forte... Então, aprendi a preparar esse prato em função da facilidade – simplesmente, uma delícia! YASSA POULET Yassa – molho à base de cebola Poulet – frango

Ingredientes • 1kg de frango; • Alho; • Sal; • Caldo de galinha; • Pimenta-do-reino e pimenta vermelha; • Óleo; • 500gr de cebola; • 2 pimentões; • 4 cenouras; • 1 porção de vagem; • 125ml de suco de limão; • 2 folhas de louro; • ¼ de um pote pequeno de mostarda. Modo de fazer Corte o frango em pedaços.

Tempere-os com alho, sal, caldo da galinha, pimenta-do-reino e pimenta vermelha. Frite-os em óleo até que fiquem bem dourados. Reserve. Em outra panela, coloque meio litro de óleo e frite a cebola e os pimentões cortados em tiras. Mexa devagar até que fiquem bem dourados. Acrescente as cenouras e a vagem. Acrescente 250ml de água, o suco de limão, o louro, a mostarda e, por fim, o frango frito. Deixe em fogo brando por 15 minutos. Modo de servir Coloque uma porção de arroz no prato e, em cima deste, coloque uma porção de frango com molho de cebola. Bom apetite!

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PERFIL

Se seus cabelos brancos pudessem falar, o que diriam? Lidía Loback

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asada com Lisâneas Loback, filho de Lília e Ananias Loback, serviram como missionários da Missão Antioquia em Portugal e, hoje, fazem parte do corpo de obreiros da Casa de Oração Para Todos os Povos, em Londrina (PR). “A beleza dos jovens está na sua força; a glória dos idosos, nos seus cabelos brancos” (Pv 20:29b). Esse texto leva à reflexão sobre os 76 anos da Lília, que nunca quis pintar seus cabelos. Cedo, eles branquearam e, ao longo do tempo, passaram a ser sua marca registrada. Se seus cabelos brancos pudessem falar, o que diriam? Diriam que a infância da Lília foi recheada de oração, da Palavra de Deus e do testemunho fiel de seus pais – Rev. Américo e Leonina. Diriam que muitas foram as vezes nas quais ela ouviu seu querido pai pedir a Deus obreiros para Sua seara. Reconheceriam que, para a jovem Lília, não foi fácil deixar a família e morar no Colégio Presbiteriano Mackenzie, em São Paulo, para estudar e, enquanto isso, cuidar de meninas mais jovens. Confirmariam que, um dia, a ainda jovem Lília, ajoelhada, em resposta à oração de seu pai, entregou sua vida a Jesus. Mostrariam que, quando trabalhava como bancária, Lília deixou seu serviço, colocou seus poucos pertences em uma mala e assumiu o cargo de secretária do pastor Jonathan Ferreira dos Santos no recém-formado Instituto Bíblico Presbiteriano de Cianorte, no norte do Paraná, onde estudou, preparando-se para o trabalho missionário. Informariam que, em março de 1970, Lília se casou com Ananias Loback, pastor ordenado que estudou no mesmo seminário que ela. Afirmariam que, depois de deixar o trabalho como secretária, Lília iniciou um novo tempo repleto de aventuras em família. Contariam que Lília teve quatro filhos em sete anos – em 1972, nasceu

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Lísias, seu primeiro filho, em 1974, nasceu Lisâneas, seu segundo filho, em 1977, nasceu Leonina, sua terceira filha, e, em 1978, nasceu Liliane, sua quarta filha. Explicariam que seus dois primeiros filhos nasceram em Manaus (AM), a terceira filha, em Humaitá (AM), onde trabalhavam entre os índios, e a quarta filha, em Iporã (PR), pois, na época, trabalhavam no Paraguai. Revelariam que, para Lília, não foi

Lília Loback

Casada com Ananias Loback, serviram como missionários entre ribeirinhos, no Amazonas, no Paraguai, em Portugal e, nos anos 2000, entre os índios Parintintins. Mãe de quatro filhos: Lísias, Lisâneas, Leonina e Liliane.

fácil viver na dependência de Deus, sendo secretária, tesoureira, esposa e mãe de quatro filhos, repartindo com a família e com os irmãos mandioca, farinha, leite e grãos, recebendo dos ribeirinhos caça e pesca e, mais tarde, recebendo o sustento necessário para servir em Portugal, quando seus filhos ainda eram pequenos (o mais velho tinha dez anos, e a menor tinha apenas quatro anos). Explicariam que, sempre que possível, as crianças estudaram música e que, por meio de uma máquina de costura, Lília transformou as roupas recebidas de modo a vestir a família. Apontariam que, quando seu esposo empreendeu mudanças para novos locais, Lília nunca disse não, mesmo em face às dificuldades em relação à escola das crianças, aos climas adversos, às moradias precárias e

às cidades e lugarejos pobres ou ricos, com ou sem estrutura. Indicariam que, muitas vezes, Lília viajou de barco – grandes ou pequenos –, dormindo em redes e cuidando das crianças durante as travessias perigosas, e, outras vezes, viajou de avião, ônibus, carro, bicicleta, motoneta e até a pé! Demonstrariam que em, muitos lugares, Lília foi professora de Português, Matemática, História e Geografia, lecionando para crianças, jovens e adultos e distribuindo gratuitamente o que havia aprendido. Falariam que, muitas vezes Lília chorou, cantou, tocou piano e se expressou, demonstrando a mulher que é, e nunca desistiu de sua missão. Observariam que Lília já lavou roupa em rios, morou em casas cobertas por sapê e soube portar-se perante pobres e ricos, jamais desmerecendo alguém por sua condição financeira, etnia, raça ou moradia. Apresentariam a mesa de Lília sempre pronta para receber pessoas que, ocasionalmente, foram à sua cidade e necessitaram acolhimento ou refeição. Anunciariam que os quatro filhos de Lília se graduaram no Ensino Superior, formaram família e se tornaram hábeis para amar o próximo. Elogiariam que Lília sempre tratou bem ao seu esposo, sentando-se à mesa com ele e andando com ele como jovem namorada e companheira fiel. Esclareceriam que, por onde passou ou passa, Lília deixa um testemunho de simplicidade, fé, amor e otimismo. De fato, os cabelos brancos da Lília teriam mais histórias para contar e, com certeza, testemunharão muitas outras! Quanto a mim, sou grata a Deus por acrescentar mais um ano de vida a Lília e presentear-me com essa querida amiga de cabelos brancos que tanto me alegra com sua presença e suas histórias!


Servindo como enviadora Márcia Tostes

N

oêmia é membro fundadora do Vale da Bênção. Tem sido usada como instrumento nas mãos do Senhor. Apesar de não ter ido para o campo, tem servido como enviadora. Nascida em um abençoado lar presbiteriano em 1952, em Coronel Murta (norte de Minas Gerais), Noêmia louva a Deus por seus pais, que, desde cedo, ensinaram-na nos caminhos do Senhor. Cursou o então primário no internato do Colégio Presbiteriano em Salinas. Em função de seu pai trabalhar com pedras preciosas, teve uma infância abastada. Em 1964, porém, devido a problemas de saúde de seu pai, a família mudou para Moreira Sales (norte do Paraná), onde os sete irmãos e as duas irmãs de Noêmia se adaptaram à nova vida, passando a depender de lavoura. Sendo assim, a vida ficou mais difícil. Com sacrifício, Noêmia terminou o então ginásio com 18 anos. Respondendo ao chamado de Deus para o ministério, estudou no Instituto Bíblico Presbiteriano de Cianorte durante quatro anos e completou o chamado Normal – curso formador de professores. Noêmia recebeu convites de várias igrejas da região nas quais havia desenvolvido seu trabalho prático – especialmente, escola bíblica de férias – durante fins de semana e férias. Diante da decisão, não soube o que fazer e, então, buscou ao Senhor em oração. Por fim, sentiu que o Senhor queria que seu ministério fosse exercido com a família do pastor Jonathan. Por 40 anos, tem obedecido a esse chamado, caminhando com a querida família!

Como exímia professora, Noêmia conseguiu dar aula em uma renomada escola de Cianorte (PR) e, posteriormente, de Londrina (PR), para onde a família do pastor Jonathan mudou em 1975, dando continuidade ao trabalho da Missão Antioquia. Como tinha profissão,

Noêmia Ribeiro de Almeida Professora, cozinheira por excelência e apoiadora que tem servido ao Senhor na Missão Antioquia e no Vale da Bênção desde o início.

também recebia suprimento por meio de seu salário, que lhe proporcionava tranquilidade. Em Londrina, teve oportunidade de prestar concurso para ser professora do Estado do Paraná, e foi bem-sucedida. Em 1980, a Missão Antioquia foi transferida para São Paulo. Abrindo mão de sua estabilidade financeira e entregando-se inteiramente aos cuidados do Pai celestial, Noêmia acompanhou a família do pastor Jonathan. Logo, todos foram para o Vale da Bênção, onde tudo era muito precário. Noêmia participou de

todo o esforço do início, ajudando a abrir estradas e fazer platôs para construções. De fato, nenhum trator conseguiu chegar ao local onde hoje fica o Centro de Oração e, sob a orientação de um arquiteto, a árdua terraplenagem foi feita pelos alunos e obreiros do recém-formado Vale da Bênção – enquanto uns escavavam e puxavam a terra, outros oravam. Dessa forma, o trabalho foi realizado com perfeição e em apenas um dia! Como, além de ser professora, Noêmia é exímia cozinheira, ela também foi convidada para ser chefe de cozinha do Vale da Bênção. Na verdade, chefe de uma cozinha bem simples e totalmente dependente do suprimento do Senhor. Nesse sentido, sempre foi capaz de produzir uma refeição gostosa para todos! Noêmia também colaborou como secretária do Seminário Vale da Bênção e monitora das moças, participando da formação de jovens que hoje são líderes e pastores em cidades do Brasil e do exterior. Noêmia renunciou a tudo que tinha para fazer parte dessa obra. Nunca foi para o campo missionário, mas, com afinco, tem participado da grande obra redentora do Senhor entre as nações como apoiadora. Baseada em 1 Samuel 30:24: “A parte de quem ficou com a bagagem será a mesma de quem foi à batalha. Todos receberão partes iguais”, Noêmia tem dedicado sua vida para servir na retaguarda. Em tempo oportuno, com alegria, Noêmia saberá quão importante tem sido seu trabalho para os que desceram à batalha e, com certeza, receberá uma parte igual no galardão!

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MÚSICA COMEMORATIVA

Canção de gratidão Carlinhos Veiga – cantor evangélico brasileiro de música popular brasileira radicado em Brasília (DF), pastor da Igreja Presbiteriana do Lago Norte e colunista da revista Ultimato

M

issões, adoração e música andam juntas! A Palavra de Deus está repleta dessa verdade, especialmente no livro de Salmos. O salmo 67, por exemplo, é conhecido como salmo missionário: “Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te todos os povos. Exultem e cantem de alegria as nações, pois governas os povos com justiça e guias as nações na terra” (3,4). O desejo do salmista é que todos os povos da Terra reconheçam a Deus – Suas obras maravilhosas e Seu governo de justiça – e, em resposta, cantem canções de louvor a Ele. Há, porém, um detalhe importante – isso só será possível se a Palavra for anunciada aos quatro cantos (Rm 10.13,14). Essa realidade futura ansiada pelo salmista só será cumprida se a salvação do nosso Deus tornar-se conhecida dos povos. Então, é assim que o salmo começa e termina: Abençoe-nos, Deus, para que anunciemos a verdade às nações (um compromisso) e todos louvem Seu nome, e proclamaremos Suas bênçãos. Em 2014, no Congresso Brasileiro de Missões, fui desafiado pela Márcia Tostes a compor uma canção para celebrar os 40 anos da Missão Antioquia. Apesar das minhas muitas limitações, aceitei o desafio! Recebi um livro e algumas revistas que contam a incrível

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história do surgimento da missão, que teve início no oeste do Paraná por meio da ação visionária dos líderes Jonathan dos Santos, Décio de Azevedo e Bárbara Burns e de muitos jovens. Li narrativas maravilhosas sobre a ação de Deus, que, a despeito das limitações próprias daquela época, reuniu um grupo de desconhecidos em uma região totalmente inapropriada para iniciar um projeto mundial sem recursos financeiros e sem estruturas adequadas. A história me encantou porque demonstra o grande amor de Deus e a resposta humana a esse amor – adoração! É a encarnação do salmo 67! Pensei, então, em compor um cântico missionário ou, quem sabe, um cântico de louvor e adoração, mas, por fim, decidi recontar essa história repleta do mover de Deus no meio do Seu povo. O início do cântico fala sobre a chegada do jovem pastor Jonathan e sua esposa Eusa, do pastor Décio – Barnabé daqueles dias, com sua dedicação e seu apoio – e sua esposa Tirlei e da missionária Barbara, vinda dos EUA, a Cianorte (PR). Barbara foi a principal responsável por desenvolver a visão de missões transculturais entre os alunos e os professores do humilde, mas ousado Instituto Bíblico Presbiteriano de Cianorte. É uma história repleta do poder de Deus e de milagres em

meio a avivamento – noites eram passadas em claro, em vigílias de oração! Nesse contexto, em 1976, movidos pelo Espírito Santo, eles fundaram a Missão Antioquia. Pouco tempo depois, enviaram Maria Pires – primeira missionária brasileira em campo transcultural – para Angola. Nos anos 80, a Missão Antioquia se transferiu para São Paulo. Algum tempo depois, foi construído o Vale da Bênção, em Araçariguama, onde a missão se firmou definitivamente. O trabalho de agência missionária que a Missão Antioquia hoje exerce é reconhecido internacionalmente. Igualmente inegável é a importante ação realizada pela Associação Educacional e Beneficente Vale da Bênção, exercida entre crianças e adolescentes em situação de risco – boas novas e boas obras de mãos dadas! O término do cântico deseja um futuro abençoador para o trabalho. A trajetória rica e bela só foi possível em função da irrestrita obediência ao Senhor. De fato, a missão não nasceu da Antioquia, mas de Deus! Agora, olhamos para o futuro com a convicção de que o trabalho só continuará firme se nossos olhos continuarem focados no Senhor Jesus, em obediência e amor. Missão Antioquia, parabéns por seus 40 anos de trabalho em prol do reino de Deus!


Missão Antioquia – 40 anos

Acesso pelo canal: https://www.youtube.com/channel/UCLVj6DjGnBajSn4n6My9i0w

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ENTREVISTA

Missão Antioquia – 40 anos Entrevista da Revista Antioquia com Márcia Tostes

Sabemos que a Missão Antioquia se dedica a treinamento e envio de missionários. Sempre foi assim? A Missão Antioquia, pioneira no envio de missionários do Brasil, foi oficialmente organizada em 1976 e teve como primeiros líderes: Barbara Burns, Décio de Azevedo (com o Senhor) e Jonathan dos Santos. Desde o início, propôs-se ser uma agência missionária interdenominacional (por definição, de todos e para todos) que atua em: mobilização, treinamento, envio e cuidado de missionários. Como a Missão Antioquia trabalha na formação de seus missionários? Formação de missionários é um dos valores da Missão Antioquia. De fato, os fundadores da Missão Antioquia sempre consideraram que formação de missionários é uma estratégia missionária. Esse fato pode ser comprovado pelo trabalho realizado por eles no Instituto Bíblico Presbiteriano de Cianorte (PR), onde, a partir dos anos 1960, eles colaboraram para alcance de uma região para o Evangelho. Atualmente, mantemos a Escola Ministerial Antioquia, que oferece cursos ministeriais, teológicos e missiológicos por meio de programas de formação integral com ênfase em ser, saber e fazer e foco em ensino bíblico, vida devocional e prática ministerial. Entre os cursos oferecidos, destaco o Curso de Preparo

Márcia Tostes

Diretora executiva Missão Antioquia

Missionário – CPM –, ministrado Participação efetiva no desno Vale da Bênção e aberto a can- pertamento missionário brasileiro, didatos da Missão Antioquia e de envio de missionários da própria outras organizações missionárias. Missão Antioquia, de igrejas e de outras agências missionárias, atuaAlém de treinamento e envio de ção das mais diversas maneiras no missionários, a quais outras frentes desenvolvimento de projetos transa Missão Antioquia se dedica? formadores e adequados às necessidades locais: plantação de igrejas, Além de treinamento e envio atendimento a crianças em situação de missionários, durante todos es- de risco, saúde, educação e esporte, ses anos, a Missão Antioquia tem parcerias com igrejas e pastores para atuado na mobilização missionária envio de missionários e surgimento da igreja brasileira, desempenhan- de uma nova geração de jovens com do um papel importante quan- desejo de servir a Deus de todo o to ao despertamento missionário coração para que Ele seja adorado no País e ao acompanhamento em todas as nações. de seus obreiros – cuidado dos missionários. Quais são os principais fatores que possibilitaram as realizações da Entre outras ações, a Missão An- Missão Antioquia nesses 40 anos? tioquia se dedica a alcançar pessoas em áreas negligenciadas de Palavra Sem dúvida, os principais fatoe obra. Há destaque para alguma res para cumprimento da missão região do Brasil ou do mundo? são obediência a Deus e total dependência dEle. Além disso, conO alvo da Missão Antioquia é tamos com inúmeras parcerias com transcultural. No Brasil, em parce- igrejas e outras organizações misria com agências especializadas no sionárias e com excelentes missiosetor, temos trabalhado com indíge- nários que têm desenvolvido trabanas. Nosso alvo é trabalhar onde há lhos multiplicadores nos campos menos de 1% de evangélicos. Nos- em que estão. sa visão é promover transformação através do Evangelho em áreas neEm função dos desafios do ségligenciadas de Palavra e obra. En- culo 21, como a Missão Antioquia, tendemos que somente Jesus salva e, que nasceu no século 20, tem sobrepor isso, é preciso que O anuncie- vivido? Como as crises econômicas, mos e demonstremos a vida que Ele morais e espirituais têm afetado oferece. as ações de promoção da transformação operada pelo Evangelho? O O que celebrar nos 40 anos de que a Missão Antioquia tem feito existência da Missão Antioquia? para resistir a elas?


Sempre houve crises! A Missão Antioquia surgiu em um momento histórico e social marcado por conflito político e financeiro no País. De fato, devido às restrições econômicas da época, foi com muito sacrifício que enviamos a primeira missionária – Maria Pires (com o Senhor) – para Angola, onde ela serviu ao Senhor, enfrentando, inclusive, a cruel guerra civil. Os que a seguiram também sofreram com dificuldades. Na verdade, portanto, sempre houve lutas! Elas, porém, não nos impediram de seguir adiante! O mundo dessa segunda década do século 21 é completamente diferente do mundo que terminou o século passado! Em todas as áreas – política, econômica, moral, religiosa, comunicacional e outras –, há mudanças importantes. Apesar disso, porém, temos que ficar firmes nos valores bíblicos e não abrir mão dos fundamentos da nossa fé. Diante disso, nada como bom ensino bíblico e teológico, comunhão com Deus, unção do Espírito Santo e fé para enfrentarmos as adversidades!

Qual é o perfil dos missionários que trabalham na Missão Antioquia? A Missão Antioquia busca missionários empreendedores capazes de trabalhar em contextos de pioneirismo que se esforcem para adaptar-se à cultura e ao idioma, formem parcerias, desenvolvam ministérios que, ao longo do tempo, tornem-se autossustentáveis, autogeridos e autopromotores e façam tudo isso na dependência e no poder do Espírito Santo. Como a Missão Antioquia se relaciona com outras organizações missionárias no Brasil e no exterior? Há parcerias para treinamento e envio de missionários ou ações estratégicas em missões? Parcerias fazem parte da cultura da Missão Antioquia! Ao longo da nossa história, temos feito parcerias com organizações internacionais e ministérios nacionais. Isso tem possibilitado o desenvolvimento da

nossa base no Brasil e das mais diversas frentes ao redor do mundo. Por princípio, não enviamos missionários sozinhos para áreas nas quais não estamos presentes. Em áreas nas quais não estamos presentes, buscamos parcerias – e temos sido abençoados por meio delas! Quando e onde possível, porém, gostamos de estar no campo como Missão Antioquia, pois, dessa forma, nossa identidade, com seus princípios e valores, é preservada. Há perspectivas para ampliação do trabalho da Missão Antioquia? Quais são elas? A Missão Antioquia deseja continuar a crescer! Para isso, estamos cientes da importância de levantarmos uma nova geração que se engaje na continuidade do alcance das nações para Jesus Cristo. Sendo assim, contamos com Geração Antioquia, cujo alvo é mobilizar e treinar jovens para cumprir sua vocação.

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QUADRO

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Edu das Águas Órfão de pai e mãe criado em orfanato, agraciado por Deus com o dom da pintura, por meio da qual tem viajado pelo mundo, mostrando as belezas da criação de Deus, casado com Etelvina e pai de três filhos, tem acompanhado a história da Missão Antioquia – foi um dos primeiros a ver a propriedade na qual foi instalado o Vale da Bênção e participou da composição das cotas para aquisição da mesma

Jardim do túmulo P

intar este quadro foi uma das minhas maiores emoções na arte! Mostrar esta cena em uma tela, porém, não foi simples... Por meio de flores e folhagens, procurei emoldurar o túmulo em pedra fria com esperança de renovação. A pintura deste quadro teve lugar em uma viagem que fiz a Israel, em 2010. Como parte do sonho de pintar rios ao redor do mundo, pintei o Rio Jordão. Aproveitando a estadia na Terra Santa, pintei outros quadros e, dentre eles, o Jardim do túmulo, local que cristãos de todo o mundo visitam, constatando a bela atmosfera de paz. No Jardim do túmulo, minha alma e meu espírito foram tomados por um misto de emoções. Não resisti e caí em prantos. Eu estava diante do túmulo vazio, onde se lê: “Ele não está aqui, ele ressuscitou!”. Não há cristão que resista a essa verdade e não se prostre de joelhos para adorar a Deus por

Sua bondade e misericórdia! De fato, Ele não está aqui, mas Seu Espírito vive no coração dos que creem em Seu nome – Jesus! Em função de Sua ressurreição, a história da humanidade mudou! Em minha vida, tudo também mudou! Minha família e meu trabalho são impregnados por essa verdade. Não é exatamente essa a mensagem que os missionários levam? “Está escrito que o Cristo haveria de sofrer e ressuscitar dos mortos no terceiro dia e que, em seu nome, seria pregado arrependimento para perdão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém. Vocês são testemunhas destas coisas” (Lc 24:46,47). Essa é mensagem da redenção! Essa é a mensagem que os missionários da Missão Antioquia pregam! Em função disso, creio que este quadro simboliza a celebração de 40 anos da história da Missão Antioquia – momento de esperança de renovação!

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SILAS TOSTES

Percalços no envio de missionários brasileiros

Silas Tostes

Presidente da Missão Antioquia e presidente do conselho gestor da Aliança Cristã Evangélica Brasileira.

E

nviar missionários brasileiros no contexto da nossa realidade eclesiástica não é fácil, mas, apesar das dificuldades, podemos fazer diferença! Segundo o censo de 2012 do IBGE, há 42,5 milhões de evangélicos no Brasil. Apesar de que nem todos realmente seguem a Jesus, temos grande potencial para enviar missionários!

Como enviar missionários se não nos diferenciamos do mundo sem Deus? No Brasil, há líderes megalomaníacos sem espírito de servo – pastores, apóstolos e obreiros do entretenimento e da “adoração” como show, distração e lazer. A propensão à grandeza produz uma papatização do poder e da vaidade expressa em títulos eclesiásticos cujo significado implícito parece denotar pessoas especiais Como enviar missionários sem espírito de servo? A obra missionária deve ser realizada com humildade para servir e abandono de cultura, posição e status. Na geração de discípulos, não podemos cortar caminhos, pois, para gerá-los, precisamos ensiná-los nos caminhos do Senhor. Como uma igreja que não gera discípulos em sua própria cultura pode gerá-los no campo missionário? Não se trata apenas de o missionário proclamar, mas de, enquanto o faz, ser discípulo de Jesus, demonstrando-o com vida, caráter e ação. A transformação começa de dentro para fora – do pessoal para o social! Em oposição a isso, observa-se a mercantilização de milagres e unções – a teologia da prosperidade foca a obtenção de bens como resultado de investimentos no Reino. É claro que o Senhor abençoa e faz Seus servos prosperar, mas, se desejamos fazer diferença, precisamos aprender sobre perdão, graça, amor e serviço. Como enviar missionários se nosso coração está no mercado e seus valores? A ação missionária se alinha a Deus e Sua natureza. O Reino está no mundo e age no mundo, mas não é desse mundo: “... o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). Em oposição a isso, porém, há disputas e debates em prol de partidos políticos no contexto da crise atual. Como as tensões entre evangélicos afetam a prática missionária? A ação missionária eficaz precisa refletir nossa unidade em Cristo – fundamental para que o mundo creia: “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” ( Jo 17.21). Como ser simultaneamente diversos e unidos em missões? A capacitação vem do Senhor. Por meio da comunhão com Ele, geramos frutos: “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15.5). Como igreja brasileira, portanto, temos grande potencial missionário! O sacerdócio universal dos crentes indica que participamos da missão redentora de Deus em nossa cultura e em outras culturas. A participação em nossa cultura, porém, não pode ser à custa do abandono das áreas menos evangelizadas. Que Cristo seja proclamado e demonstrado aos que nunca ouviram!

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Revista 40 anos - Missão Antioquia  
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