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ano XV | nº 68 | dezembro de 2013 - distribuição gratuita

Cresce o interesse por métodos alternativos e o debate entre a comunidade científica sobre o uso de animais em pesquisas

QUESTÃO DE ÉTICA Páginas 6 e 7

Ensino

Mobilidade

Ciência

Exame do MEC substitui o

Ação de reestruturação proposta

Desde Galileu o esforço da

vestibular no preenchimento das

para o Campus Central deve

Astronomia para entender as

vagas em 2014

chegar a outros campi

coisas do céu

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MEDICAMENTOS

Pesquisa do HUOL sobre adaptações farmacêuticas recebe Prêmio Nacional Wallacy Medeiros

Por Thyara DiaS

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nalisar as adaptações de medicamentos prescritos a pacientes do Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL). Esse foi o ponto de partida do trabalho da farmacêutica Michelle Nunes, pós-graduada pelo Programa de Residência Multiprofissional em Unidade de Terapia Intensiva do HUOL e ex-aluna do Curso de Farmácia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Adaptações de formas farmacêuticas são uma prática rotineira em hospitais e consistem na transformação da forma física de um remédio disponível no mercado em outra forma que viabilize a medicação em um paciente que apresente condições especiais. Um exemplo é triturar um comprimido e diluir seu pó em água, para tornar possível sua utilização em uma pessoa que se alimente por sonda. Por outro lado, “Adaptações inadequadas podem provocar a morte de pacientes hospitalizados ou retardar a recuperação, porque interferem negativamente no tratamento. São problemas de saúde pública ocultos”, explica Michelle. Durante a pesquisa, foram estudadas as adaptações mais prescritas, com o objetivo de desenvolver estratégias, que pudessem promover o uso racional de medicamentos e garantir o atendimento apropriado às necessidades individuais dos pacientes. A ideia de trabalhar a temática surgiu para Michelle ainda no primeiro ano de sua Residência, enquanto cursava a disciplina de “Adaptações de formas farmacêuticas”, ministrada pelos professores Idivaldo Micali e Waldenice Morais, do Departamento de Farmácia (DFARM). O assunto se transformou em um projeto de extensão, que

Michelle nunes, farmacêutica premiada, e equipe multidisciplinar do hUOl resultou em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), sob orientação da professora Kátia Solange, também do DFARM. O estudo teve o apoio de Luciana Barreto, chefe do Laboratório de Farmacotécnica do HUOL, e de Valdjane Saldanha, preceptora da Residência Multiprofissional do Hospital, bem como a colaboração das alunas voluntárias, Rayanne Gurgel, Renata Valença, Raquel Araújo e Erlhane Lourenço, que realizaram a coleta em mais de 37 mil prescrições médicas. No total, o projeto avaliou 2.462 solicitações de adaptações, totalizando 6.565 comprimidos triturados. Desses, pouco mais de 80% das adaptações foram consideradas necessárias, a maioria justificada pela indisponibilidade de medicamentos na forma líquida no mercado. Cerca de 40% das adaptações foram inadequa-

das, por se tratarem de comprimidos que não poderiam ser triturados, devido ao provável comprometimento da sua eficácia ou segurança. prêmios A pesquisa de Michelle Nunes gerou cinco artigos científicos. Desses, dois foram submetidos e aceitos pela Revista Brasileira de Farmácia Hospitalar e Serviços de Saúde (RBFHSS) e serão publicados nas edições de janeiro e fevereiro de 2014. O texto intitulado “Análise das Solicitações de Comprimidos Adaptados para Pacientes Críticos de um Hospital Universitário”, que enfoca resultados de adaptações de comprimidos em unidades de terapia intensiva, recebeu o Prêmio da Sociedade Brasileira de Farmácia Hospitalar (SBRAFH), de 2013, e ficou em primeiro

lugar entre mais de 100 trabalhos. “O estudo foi premiado porque é um assunto importante para a classe farmacêutica, preocupada cada vez mais com o uso racional dos medicamentos”, justifica Michelle. Além dos benefícios terapêuticos e maior segurança aos pacientes, que utilizem sonda, o trabalho também concluiu que o investimento nos laboratórios de farmacotécnica hospitalar e na pesquisa de adaptações tecnicamente elaboradas, pode reduzir significativamente os custos em saúde. Além das premiações que a pesquisa recebeu, o TCC de Michelle Nunes também concorreu ao Prêmio Nacional de Incentivo ao Uso Racional de Medicamentos, do Ministério da Saúde, e classificouse entre as 10 melhores monografias de residência apresentadas.

EXPEDIENTE Reitora Ângela Maria Paiva Cruz Vice-reitora Maria de Fátima Freire de Melo Ximenes Superintendente de Comunicação José Zilmar Alves da Costa Diretor da Agência de Comunicação Francisco de Assis Duarte Guimarães Editora Enoleide Farias (enoleide@yahoo.com.br) Jornalistas Antônio Farache, Cledna Bezerra, Eliana Lima, Enoleide Farias, Hellen Almeida, Juliana Holanda, Luciano Galvão, Marcos Neves Jr., Regina Célia Costa Fotógrafos Anastácia Vaz e Wallacy Medeiros Revisoras Regina Célia Costa e Karla Jisanny (bolsista) Foto de capa Anastácia Vaz

Diagramação Setor de Artes/Comunica Bolsistas de Jornalismo Aline Nagy, Ana Clara Dantas, Auristela Oliveira, Catarina Freitas, Ingrid Dantas, João Paulo de Lima, Júnior Marinho, Kalianny Bezerra, Rozana Ferreira, Silvia Paulo, Taís Ramos, Thyara Dias Bolsista de Letras Karla Jisanny Arquivo Fotográfico Saulo Macedo (bolsista) Endereço Campus Universitário - Lagoa Nova, Natal/RN - CEP 59072-970 Telefones (84) 3215-3116/3132 - Fax: (84) 3215-3115 E-mail boletim@agecom.ufrn.br – Home-page www.ufrn.br Impressão EDUFRN Tiragem 6.000 exemplares

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ENSINO

ENEM substitui vestibular na seleção

para ingresso no ensino superior

Cícero Oliveira

Por Kalianny Bezerra

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studar manhã, tarde e noite. Essa foi a rotina de Marina Caldas durante o ano de 2013, até a realização das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Aos 18 anos, Marina pleiteia uma vaga no Curso de Medicina, um dos mais concorridos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), como em várias outras instituições de ensino superior do país. Marina Caldas conta que começou a se preparar para o ENEM em janeiro. Assim como ela, mais de sete milhões de pessoas em todo o país se inscreveram no Exame e tentarão uma vaga em uma das universidades que aderiram ao Sistema de Seleção Unificada (SiSU), que usa as notas do ENEM para a seleção dos alunos. Quando for divulgada a nota da prova, a jovem pretende utilizá-la no processo seletivo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A Instituição adotou o SiSU em 2012, para ingresso no ano letivo de 2013, destinando 50% das vagas, dos mais de 50 cursos que oferece, para candidatos que se inscreveram no Exame Nacional. Em 2013, por resolução do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CONSEPE) 100% das vagas para os cursos presenciais em 2014, serão preenchidas pelo Sistema de Seleção Unificada. “Quero a UFRN porque sei da qualidade do ensino”, aponta Marina. Segundo ela, os estudos foram intensos. Com aulas pela manhã e, muitas vezes, à tarde, ela reservava, em média, seis horas por dia para estudar. “Quando chegava em casa, começava às sete horas da noite e só parava à meia-noite. Também fazia muitas listas de exercício”, relata. A estudante conta que no início não gostou de saber que a UFRN iria aderir ao SiSU, mas depois mudou de opinião. “O preço do vestibular ficou barato, isso possibilita que pessoas que têm menos condições o façam”, comenta. Marina também acredita que as 180 questões aplicadas pelo Ministério da Educação (MEC), organizador do ENEM, trazem temas mais diversificados, que parecem tornar as provas mais próximas da diversidade de conteúdos apreendidos em sala de aula. Em consonância com o que apontou a estudante, o pró-reitor de Graduação

Adelardo Adelino, pró-reitor de Graduação da UFRN: sistema facilita participação de estudantes do interior. Marina Caldas: “Quero a UFRN porque sei da qualidade do ensino” da UFRN, Adelardo Adelino Dantas de Medeiros, ressalta que uma das razões de a Ins­t ituição aderir ao SISU é que com o novo sistema, os interessados passam a ter mais chances de ingressar no ensino superior e mais conforto para realizar os exames. Ele explica como o SiSU facilitou a participação de estudantes de cidades do interior. “Antes, com o Vestibular ela­ borado pela própria UFRN, as provas eram aplicadas em poucos municípios do Rio Grande do Norte. Com o ENEM, acontece o contrário: ele é distribuído em um número maior de cidades do estado e isso faz com que questões como a mobilidade, por exem­plo, não atrapalhem o estudante”. Outra razão para que o CONSEPE fosse favorável à adoção do SiSU, ressalta Adelardo, é que o MEC já tem o Exame bastante consolidado. Segundo informou, mais de 100 universidades já utilizam o sistema. “Algumas o usam de forma parcial, outras já o fazem como requisito total para a entrada de alunos”, diz. Desde 2009, quando o MEC operou uma reformulação do ENEM, a UFRN promove reuniões e audiências para discutir o tema. A adesão da UFRN à proposta começou aos poucos. Em 2009, quando o MEC operou uma reformulação do ENEM – com vistas a sua utilização, como forma de seleção unificada nos processos seletivos das Instituições Federais de Ensino

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Superior (IFES), a Instituição deu início a uma série de reuniões e audiências para discutir o tema com a participação de professores, diretores dos centros acadêmicos e equipe administrativa da Instituição. Em 2012, a UFRN adotou o sistema de forma parcial. Segundo o pró-reitor, para que a mudança não fosse feita de forma brusca, naquele ano, apenas 50% das vagas seriam preenchidas por candidatos que obtiveram nota pelo ENEM. A partir de 2014, todas as vagas dos cursos presenciais serão preenchidas, considerando as notas obtidas no ENEM de 2013. “Demoramos a aderir porque tínhamos uma tradição no nosso Vestibular. Precisávamos refletir e esperamos o sistema se consolidar para que optássemos por ele”, esclareceu. As provas para ingresso na UFRN receberão pesos e exigências de notas míni­mas diferenciadas, de acordo com a área do conhecimento a que pertence o curso escolhido pelo candidato. As áreas são Biomédica, Humanística I, Humanística II, Tecnológica I e Tecnológica II. Para estudantes que desejam entrar em cursos como Dança, Artes Cênicas ou Música, além do ENEM é necessário que seja feito um Teste de Habilidade Específica (THE). “É como se fosse uma prova eliminatória, em que eles devem demons­ trar um pouco de domínio no que se propõem a estudar”, esclarece Adelardo. No próximo ano, serão reservadas 37,5% das vagas do SiSU para alunos de

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escolas públicas, tanto no primeiro quanto no segundo semestre. O pró-reitor de Graduação explica: “aderimos à Lei de Cotas, que estabelece que, até 2015, devem ser destinadas 50% das vagas para cotistas”. Novidades para Cursos de Graduação Para os alunos que já estão cursando o ensino superior na UFRN, também estão previstas mudanças para 2014. Em novembro, o CONSEPE aprovou o novo Regulamento dos Cursos de Graduação da Instituição, por meio da resolução nº 171/2013-CONSEPE que vigorará a partir de 2014. De acordo com Adelardo Adelino, as principais modificações no regulamento estão relacionadas ao novo sistema de avaliação nas disciplinas, à flexibilização nos pré-requisitos das matérias e à criação de turmas de reposição específicas para estudantes que já cursaram o componente curricular, podendo ser disciplinas, módulos, blocos ou atividades acadêmicas. As alterações foram feitas por uma comissão designada pela reitoria, que apresentou o material aos centros acadêmicos e ouviu as sugestões encaminhadas por alunos e professores. “Essas mudanças ocorreram com o objetivo de tornar o ensino na UFRN melhor. Procuramos dete­ctar as necessidades atuais da Universidade e as introduzimos no novo Regulamento”, explica o pró-reitor.


Wallacy Medeiros

NOTAS Aniversário Em 2014, a Agência de Comunicação (AGECOM) da UFRN completa 15 anos. As comemorações terão início em fevereiro, após o retorno das atividades acadêmicas. A AGECOM é responsável por publicar o Boletim Diário, o Boletim Especial e o Jornal da UFRN, além de cuidar do Portal da Universidade e das páginas da Instituição no Twitter e no Facebook. Nas escolas Desde novembro, o Jornal da UFRN chega também a escolas públicas de Natal. O objetivo é contribuir com o nível do conhecimento e do ensino no Rio Grande do Norte, alcançando professores, alunos e bibliotecas de 44 instituições de nível médio. Além dos campi da Universidade, a publicação é distribuída também nas principais bancas de revista da capital potiguar. Nas escolas 2 Segundo Francisco Duarte Guimarães, diretor da AGECOM, a ideia de levar o Jornal às escolas procura despertar o interesse pela pesquisa, pela extensão e pelo ensino produzido na UFRN, sobretudo em estudantes de nível médio – que estão prestes a ingressar na Instituição. A iniciativa contou com o consentimento da Secretaria Estadual de Educação. Vinícius A Orquestra Sinfônica da UFRN homenageou o centenário do Poetinha na terceira edição do projeto Parcerias Sinfônicas. Dividindo o palco com seis artistas, a OSUFRN apresentou o espetáculo cênico-musical “Vinícius – uma canção no ar”, que entre outubro e dezembro, passou por Natal, Mossoró, Currais Novos e Caicó, com destaque para o show na XIX CIENTEC. O tributo a Vinícius de Moraes contou com o apoio do SESC/RN. Demografia Um projeto que investigará o impacto dos programas de transferência de renda na migração de populações do semiárido ganhou financiamento do CNPq em dezembro. A pesquisa é coordenada pelo professor Ricardo Ojima, da Pósgraduação em Demografia, e deve dar destaque à UFRN no cenários dos estudos populacionais.

Procedimento envolve diferentes competências e áreas, integrando engenheiros, profissionais de computação e equipe de saúde

TECNOLOGIA

HUOL realiza experiência inédita com transmissão

de cirurgia cardíaca para os Estados Unidos Por Thyara Dias

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transmissão ao vivo de uma cirurgia auxilia o ensino e a pesquisa nas áreas médicas. Devido à importância acadêmica do procedimento, o Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL), que integra o complexo de hospitais da UFRN, tem investido na exibição Ultra HD 4K, tecnologia que possui qualidade de imagens quatro vezes superior às imagens em Full HD. A sua primeira experiência, a transmissão de uma cirurgia cardíaca, realizada neste ano, foi inédita no país. Após esse experimento, o Hospital participou de outro acontecimento iné­dito: a transmissão internacional de cirurgias em 4K. As operações foram realizadas simultaneamente em cinco cidades brasileiras: Natal, São Paulo, Porto Alegre, Brasília e Vitória. As exibições, por sua vez, aconteceram concomitantemente em dois pontos: na cidade de San Diego, Califórnia, nos Esta-

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dos Unidos, e em Brasília, dentro da programação do Evento da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (E­BSERH). Na cidade norte-americana, as imagens foram exibidas no CineGrid, durante a apresentação do professor Guido Lemos de Souza Filho da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). “O procedimento de alto custo socializa a experiência cirúrgica, a partir do momento que não limita os seus telespectadores ao centro cirúrgico”, explica Ricardo Valentim, coordenador do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS) do HUOL e um dos responsáveis pela organização da transmissão. Na capital potiguar, a cirurgia foi um procedimento de retirada do baço por a­bscesso hepático, realizada pelo médico Irami Araújo, no centro cirúrgico do HUOL. O procedimento envolveu diferentes competências e áreas, integrando engenheiros, profissionais de computação e toda a equipe de saúde. A tecnologia que permite a transmissão 4K é o pacote de software chamado “Suíte Fogo” desenvolvido pelo Laboratório de

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Aplicações de Vídeo Digital (LAVID) da UFPB, em parceria com a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP). O pacote é um conjunto de softwares que permite o armazenamento, transmissão ao vivo e execução de imagens em superalta definição na resolução 4K, além da comunicação instantânea entre os envolvidos no evento transmitido e o público receptor. No Brasil, existem aproximadamente 40 hospitais universitários. Desses, apenas cinco têm condições de realizar a transmissão em 4K, mas somente o HUOL está realizando o procedimento. “O investimento é alto. Muito mais caro que a transmissão em HD. A gestão do hospital entendeu que este é um meio importante de nos colocar na vanguarda de pesquisa e do ensino, projetando o HUOL no cenário nacional”, afirma Ricardo Valentim. O experimento foi coordenado pela RNP, por meio da Rede Universitária de Telemedicina (RUTE), que visa apoiar o aprimoramento de projetos em telemedicina já existentes, além de incentivar o surgimento de futuros trabalhos interinstitucionais.


INFRAESTRUTURA

Campus Central terá mudanças no trânsito

e melhorias em espaços de convivência

Cícero Oliveira

Por Luciano Galvão

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uando voltarem das férias, alunos, professores e servidores da Universidade Federal do Rio Grande (UFRN) vão encontrar o Campus Central de cara nova. A Superintendência de Infraestrutura (SIN) e a Pró-Reitoria de Planejamento (PROPLAN) anunciaram, para o início de 2014, melhorias dos espaços de convivência da Instituição, além da instalação de sinalização direcional, da criação de cliclofaixas e de alterações no tráfego de veículos nas dependências da Universidade. O aviso foi feito no final do último mês de novembro, em entrevista coletiva concedida em um dos estúdios da TV Universitária (TVU). Na ocasião, o superintendente de Infraestrutura, Gustavo Coelho, o arquiteto Nilberto Gomes e a engenheira de trânsito Magda Pinheiro comunicaram à imprensa as modificações que serão ope­ radas a partir do próximo semestre. No tráfego, a principal alteração se dará nas vias que contornam o quarteirão da Biblioteca Central Zila Mamede (BCZM) e do Centro de Convivência. O trecho, que hoje é de mão-dupla, passará a ser de mão única, e os carros irão circular exclusivamente no sentido anti-horário – direção na qual a movimentação é maior, segundo indicou uma avaliação. A mudança visa a ampliar a segurança no deslocamento de veículos e permitir a instalação de uma ciclofaixa, zona da pista exclusiva para bicicletas demarcada por tachões. “Nossa ideia é oferecer à comunidade universitária condições de fazer uma mo­ bilidade mais saudável”, aponta Magda Pinheiro, acrescentando que as ciclofaixas se estenderão pela área interna do Campus, chegando a todos os acessos principais até o fim de 2014. De acordo com a engenheira de trânsito, a criação das zonas exclusivas para bicicletas quer incentivar uso de meios diferentes dos automóveis no deslocamento diário de pessoas até a UFRN. “Além de ser muito bom para o trânsito, é bom também para a saúde”. O tráfego em mão-dupla será mantido na rua que passa por trás da BCZM, que deverá servir como via de escape para motoristas que não queiram contornar inteiramente o quarteirão. “A expectativa é tornar a circulação dos veículos mais segura e confortável. Quando nos deslocamos

Grupo de Trabalho da SIN apresenta projeto à imprensa nos estúdios da TV Universitária de maneira mais tranquila, garante-se a segurança tanto do carro, quanto do pedestre”, afirma Magda. Espaços As áreas de convivência da Universidade também ganharão melhorias. Mesas, bancos, pontos de acesso sem fio à Internet, iluminação, calçadas e jardins integram a lista de benfeitorias dos ambientes comuns do Campus Central. No primeiro semestre, ao todo dez espaços passarão por obras, algumas delas como parte de projetos de reurbanização de setores de aula, como o Setor II. Segundo o arquiteto Nilberto Gomes, a construção de novas edificações na UFRN supriu a necessidade de prédios mais amplos – gerada pelo crescimento da comunidade universitária nos últimos anos –, mas fez nascer uma nova demanda: a recuperação dos espaços externos existentes e a criação de novas áreas de convivência. “É uma ação de reestruturação que devemos estender aos demais campi, obedecendo às necessidades de cada um deles”, adianta Nilberto. Além do Setor II, o Setor IV, o entorno do Centro de Convivência, a Residência Universitária de Pós-graduação, o Departamento de Artes (DEART) e o Centro de Biociências (CB) receberão reformas urbanísticas até junho. Para o segundo semestre, estão previstas obras semelhantes no Centro de Ciências Sociais Aplicadas

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(CCSA) e no Centro de Ciências Exatas e da Terra (CCET). Haverá ainda intervenções com vistas à acessibilidade, como explica também Nilberto Gomes. Calçadas adequadas a cegos, a cadeirantes e a pessoas com mobilidade reduzida serão construídas formando caminhos que ligam estrategicamente os principais prédios da UFRN, o que os arquitetos da Universidade denominaram rotas acessíveis. “As rotas acessíveis não apresentarão as dificuldades que os passeios comuns impõem aos cadeirantes e cegos, como obstáculos, barreiras arquitetônicas, copas de árvores baixas em que eles possam esbarrar, pavimentos que provoquem trepidação ou a inexistência de rampas”, esclarece Nilberto. No total, serão construídos catorze percursos especiais, estando dois previstos para a primeira metade de 2014, que irão conectar os pontos de ônibus dos setores I e II ao Centro de Convivência, passando pela Biblioteca Central Zila Mamede – onde encontra-se o Laboratório de Acessibilidade. A prioridade às duas rotas se justifica por serem os setores I e II os que possuem o maior número de estudantes com necessidades especiais, além de ser este último o que irá abrigar a nova gradua­ção em Língua Brasileira de Sinais. Constam ainda entre as mudanças de infraestrutura anunciadas, a sinalização

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dos edifícios do Campus Central, a instalação de postes com placas que indicarão as direções de cada prédio e a escolha de nomes para as ruas da área interna da Ins­ tituição, que hoje não possuem qualquer identificação. Essas intervenções têm em vista facilitar a orientação e a locomoção de pessoas na Universidade, sobretudo de visitantes e novos alunos. Comissão As alterações são frutos dos trabalhos da “Comissão para Melhorias dos Espaços do Campus Central da Universidade Fe­ deral do Rio Grande do Norte”, designada pela Reitoria em maio. Composto por sete membros e sob a coordenação da professora Giovana Paiva de Oliveira, do Departamento de Arquiterura, o grupo avaliou as necessidades do Campus e apresentou as propostas que entram em execução a partir de 2014. Márcio Capriglione, assessor de Planejamento da PROPLAN, explica que as ações estavam previstas no plano de gestão da atual administração. “Basta andar pela UFRN que a gente percebe que a Universidade cresceu muito”, diz. “Praticamente dobramos de tamanho, então nós da PROPLAN começamos a diagnosticar pro­ blemas e a nos reunir para saber quais mudanças seriam mais importantes. Dessas reuniões surgiu a comissão para propor as realizações”, conta.


CIÊNCIA

Comissão de Ética normatiza estudos e pes Por João Paulo de Lima

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a mais simples aspirina ao mais moderno antidepressivo ou quimioterápico, tudo passou por testes e pesquisas em animais antes de ser usado como medicamento tanto para os próprios animais quanto para humanos. Nenhuma das terapias contra o câncer, nenhuma das drogas antiaids, dos antihipertensivos ou redutores de colesterol seriam viabilizados sem a experimentação animal. Tal procedimento garante a funcionalidade da substância, se é segura para o ser humano, principalmente. Também é por meio do teste em animais que é determinada a dosagem ideal, a técnica com melhor eficácia, entre outros aspectos importantes. As explicações são do professor do Departamento de Fisiologia (DFS) do Centro de Biociências (CB) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Jeferson Cavalcante. Segundo ele, os testes em animais visam perceber qual a atuação de determinadas substâncias no orga­nismo vivo. Os experimentos tendem, prioritariamente, a ser em um animal vivo, por suas características fisiológicas, morfológicas e o metabolismo bioquímico que se assemelham ao do organismo humano. Trata-se, portanto, de uma questão necessária para o desenvolvimento da ciência, da medicina humana e da medicina veterinária. Contudo, acrescenta o professor, com paixões e defesas de classe à parte, a mensagem que todas as entidades científicas passam é que em todo mundo se buscam alternativas para substituir o uso de animais. Alguns métodos já eliminaram a necessidade do uso de animais em determinadas etapas, porém, ainda não há o desenvolvimento completo de uma nova droga sem testá-la em bichos. “Diferente do que muitos imaginam, o interesse por métodos alternativos cresce dentro da própria comunidade científica na tentativa de diminuir o número de animais utilizados em experimentação e também reduzir o custo dos experimentos”, ressalta Jeferson Cavalcante. O professor destaca ainda que os animais utilizados em pesquisas precisam ser acondicionados, alimentados e mantidos nas melhores condições de saúde e de higiene possíveis, caso contrário não podem ser utilizados para propósitos científicos. Segundo ele, mesmo a Europa, que é mais rigorosa nos cuidados com os animais e já proibiu seu uso em testes de cosméticos, utiliza por ano cerca de 12

milhões de animais em estudos farmacológicos, segundo o último relatório de estatísticas da União Europeia. Apenas o uso de chimpanzés é proibidos. Os Estados Unidos também estão buscando alternativas e encerrando estudos com o uso desses grandes primatas. As alternativas, em algumas etapas, já conseguem reduzir o número de co­ baias. No Brasil, na Fiocruz, por exemplo, pesquisadores do Grupo de Estudos de Métodos Alternativos aos Ensaios Toxicológicos, ligado ao Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQ­S), buscam saídas para testes de irritação ocular de colírios e pomadas oftalmológicas. No processo-padrão, os primeiros testes seriam realizados em coelhos. Mas, os cientistas descobriram que, usando córneas de bois abatidos, é possível saber se o produto promove irritação severa ou corrosiva. O biólogo Octávio Presgrave em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo” declarou que “se der positivo, descartamos o produto e os coelhos são poupados. Se der negativo, os estudos seguem e testamos em animais”. ESTUDOS no Centro de Biociências Os estudos e pesquisas desenvolvidas no Centro de Biociências da UFRN que envolvam testes com animais são elaborados por profissionais capacitados e contam com o acompanhamento de um médico vete­ rinário, de modo a garantir o máximo de cuidado com o animal participante da experiência. O Centro abriga vários ambientes em que são criados animais para pesquisa, os chamados biotérios, todos credenciados junto ao Ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e que contam com a presença de médicos veterinários responsáveis pela saúde dos animais. Um desses recintos é o Laboratório de Estudos Avançados em Primatas (LEAP), ou Núcleo de Primatologia, que se cons­ titui num criadouro científico registrado pelo Instituto Brasileiro do Meio Am­ biente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), sob número 1/24/920039-1. O LEAP ocupa cerca de 500m de área cons­ truída, que compreendem oito blocos de corredores com recintos de alvenaria e tela, localizado em área totalmente arborizada, de acordo com especificações sugeridas pelo IBAMA. Além disso conta com uma Quarentena, área que inclui uma enfermaria e uma sala de procedimentos, medindo 60m²; cinco laboratórios, cada um medindo 18m²; área de serviços, medindo cerca de 50m e área administrativa, com secretaria, sala do veterinário e

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Animais presentes no laboratório do CB são provenientes de concessões feitas pelo IBAMA, de animais apreendidos em fiscalizações ou doações, que não podem ser devolvidos à natureza

banheiros, medindo cerca de 30m. O Núcleo está entre os cinco maiores centros de primatologia do Brasil, sendo o maior biotério de criação de primatas da espécie callithrix jacchus (sagui-detufos-brancos), com atividades voltadas, principalmente, às pesquisas desenvolvidas pelo Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia (PSICOB). São desenvolvidos cerca de 30 projetos de pesquisas que envolvem a participação de professores do Departamento de Fisiologia (DFS) em três bases de pesquisas: Endocrinologia Comportamental, Estudos do Comportamento e Laboratório de Cronobiologia, além da participação de colaboradores. Anualmente o LEAP envia ao IBAMA relatórios sobre a situação da colônia, no

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qual é descrita a condição geral dos animais e as atividades desenvolvidas na unidade. Os animais presentes no laboratório são provenientes de concessões feitas pelo IBAMA, de animais apreendidos em fiscalizações ou doações, que não possam mais ser devolvidos à natureza. pesquisa E formação NA ÁREA biomédicA No Centro de Biociências, pesquisas com animais também são utilizadas para fins acadêmicos, compondo a formação de estudantes do curso de Biomedicina. Amanda Medeiros, coordenadora geral do Centro Acadêmico de Biomedicina Ronaldo Amaral (CARA), destaca a importância da utilização de pesquisas


pesquisas realizados com animais na UFRN Anastácia Vaz

John Fontenele, coordenador da CEUA-UFRN: pesquisa ou atividade educacional envolvendo animais precisa ser aprovada pela comissão

com animais para formação biomédica: “é fato consolidado que a pesquisa é uma grande área de atuação para o profissional biomédico. Vários discentes se voltam para a área de produção e aplicação do conhecimento científico, antes mesmo de se formarem e desenvolverem projetos de mestrado e doutorado. Às vezes, são anos de trabalho como aluno de iniciação científica, até mesmo de forma voluntária”. Joelma Andrade, aluna do 6° período, colabora com a equipe de pesquisadores no Laboratório de Biologia da Malária e Toxoplasmose (LaBMaT). Ela explica que sua experiência no laboratório inclui o treinamento para que a manipulação dos animais (camundongos) seja feita

de modo a não causar qualquer trauma físico ou emocional aos mesmos. A estudante ressalta que participar da rotina de um laboratório, amplia os conhecimentos aprendidos em sala de aula, que são fortalecidos por meio da abordagem de forma prática. “O trabalho com modelos murinos (camundongos) fortaleceu meu lado humanístico, o que é necessário aos profissionais de saúde. Os animais de laboratório requerem cuidados de manutenção e manejo periódicos, que devem ser rea­ lizados de forma a proporcionar melhor qualidade de vida a eles, o que me deu, de forma significativa, mais responsabilidade, pois sei que vidas dependem dos meus cui­dados” relata Joelma Andrade.

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Legislação Com a finalidade de analisar à luz dos princípios éticos toda e qualquer proposta de atividade científica ou educacional que envolva a utilização de animais, sob a res­ ponsabilidade da Instituição, a UFRN criou em 2008 a Comissão de Ética no Uso Animal (CEUA). Essa comissão segue as orientações da Lei de Arouca (Lei Nº 11.794, de 8 de outubro de 2008), que regulamenta o inciso VII do § 1o do art. 225 da Constituição Federal, sobre procedimentos para o uso científico de animais. A Lei coloca a criação de Comissões de Ética no Uso de Animais (CEUAs) como condição indispensável para o credenciamento das instituições com atividades de ensino ou pesquisa com animais. A CEUA/UFRN constitui-se de 9 membros titulares, representantes dos Centros de ensino e de pesquisa da UFRN que se utilizam de animais, bem como re­ presentantes do Centro de Ciências Exatas e da Terra (CCET) e do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA), além de representantes discentes, um médico veterinário e representantes da Sociedade Protetora dos Animais. John Fontenele, coordenador da CEUAUFRN, explica que todos os procedimentos que implicam o uso de animais na UFRN, obrigatoriamente passam pela CEUA. “Quando um pesquisador vai realizar procedimentos que utiliza animais, ele encaminha o projeto justificando a iniciativa.

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É a CEUA que analisa a justificativa apresentada e que avalia a viabilidade ética do projeto, se está dentro das normas”. O pesquisador ou professor só pode iniciar a pesquisa ou atividade educacional envolvendo animais após a aprovação da Comissão, apresentada em Parecer. Também está entre os objetivos da CEUA promover o uso racional dos animais em pesquisas, buscando sempre o refinamento de técnicas e a substituição de modelos, que permitam a redução e me­ lhora na eficiência no uso de animais, seja na pesquisa seja no ensino. Além disso o órgão realiza palestras e fóruns de discussão relacionados ao tema. Lei de Arouca Aprovada em dezembro de 2008, a Lei de Arouca institui oficialmente a necessidade de que cada instituição de ensino e pesquisa tenha uma comissão para avaliar e aprovar as pesquisas científicas que envolvam animais. A análise é baseada em três princípios: reduzir o número de animais utilizados, substituir quando possível o uso de animais por outro método disponível e minimizar ao máximo o sofrimento dos mesmos. A matéria estabelece que, caso as instituições de pesquisa e ensino descumpram as regras, estarão sujeitas à advertência e multas, interdição definitiva ou outras penalidades. As multas variam entre R$ 1.000 e R$ 5.000, no caso de profissionais e entre R$ 5.000 e R$ 20 mil para as instituições.


SUSTENTABILIDADE

Incubadora de economia solidária assiste

produtores rurais do Seridó potiguar Wallacy Medeiros

Por Juliana Holanda

nidade nos processos de mudança é imprescindível”, avalia Laíse.

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Crianças e adolescentes Uma necessidade identificada pela equipe do programa foi a de atuar junto aos fi­ lhos dos produtores. De início, trabalhou-se a questão ambiental por meio de oficinas de reciclagem de garrafas pet nas escolas. “O material foi transformado em brinquedos para as crianças, fazendo com que trabalhássemos a preservação do meio ambiente de forma lúdica”, comenta a estudante da UFRN Luanna Dantas, que organizou e participou das atividades. Atualmente, os voluntários estão aplicando questionários para identificar as necessidades dos jovens. “A ideia é continuar com essas oficinas e criar um grêmio nas escolas para que os próprios alunos possam organizar atividades”, diz a universitária Fa­ brícia da Costa Silva. Nascida na zona rural do Seridó, Fabrícia se identifica com as ações do projeto. “Vi nesse programa de extensão uma oportunidade de ajudar no desenvolvimento da minha região”, ressalta.

o Povoado da Cruz, comunidade pertencente ao município de Currais Novos, no sertão do Rio Grande do Norte, a principal atividade econômica é a produção de polpa de frutas. A seca deste ano, considerada a maior estiagem das últimas cinco décadas, afetou a lavoura do local e, consequentemente, a maior fonte de renda da população. O açude da povoação está secando, o teor de sal e a poluição aumentaram e as plantas que estão sendo regadas com essa água estão morrendo. O maior produtor da comunidade tirava uma média de 40 caixas de goiaba por dia. Hoje, a produção diária desse agricultor resume-se a duas caixas. Todos os 27 agricultores do povoado têm sido atingindos pela crise. A associação local que produz as polpas recebia uma tonelada de frutas por dia e agora recebe 600 quilos por semana. Para a presidente da associação, Íris Lucimar da Silva Araújo, a esperança reside em um projeto de extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). “A situação é crítica. Desde que iniciamos a produção de polpas, em 2004, nunca passamos por algo parecido”, observa. A UFRN acompanha de perto os produtores do Povoado da Cruz. “A Universidade está trabalhando a questão administrativa no campo para o desenvolvimento e melhoria dos processos utilizados nos sítios”, explica Felipe Gomes, estudante de Administração na unidade de Currais Novos, do Centro de Ensino Superior do Seridó (CERES) da UFRN. Felipe faz parte de uma incubadora de economia solidária que pretende tornar as associações rurais do Seridó norte-riograndense mais competitivas no mercado, me­ lhorando os processos de gestão. Formada por alunos e professores da

Márcia Cristina Alves: associações estavam fragilizadas e precisavam de apoio UFRN, a Incubadora de Projetos em Economia Solidária (IPES) é uma atividade de extensão que conta com a participação de estudantes dos Cursos de Administração, Letras e Turismo do CERES. Coordenadora do programa, a professora Márcia Cristina Alves percebeu que o trabalho seria importante para o desenvolvimento econômico e social do Seridó porque, segundo ela, as associações rurais da região estavam muito fragilizadas e precisavam de apoio. Criado em 2011, o projeto atende, inicialmente, a grupos de pescadores e a produtores de leite e polpa de frutas, enquanto realiza um levantamento das associações locais. “Ainda não existe um mapeamento do que é produzido pelas comunidades e isso dificulta o planejamento de ações”, afirma

Márcia Alves. Os dados vão permitir que a equipe da UFRN conheça as necessidades das associações e possa atuar junto ao governo na busca por políticas públicas direcionadas aos grupos da região. “Nosso projeto não é de fomento, nós não temos dinheiro para solucionar os problemas desses produtores. O intuito é repassar nosso conhecimento por meio de intervenções, como facilitadores”, descreve a estudante Laíse Lima, membro da Incubadoras IPES. Alunos bolsistas e voluntários atuam como facilitadores, identificando a realidade de cada associação. Nas reuniões, os produtores percebem a conjuntura do grupo e tentam solucionar os problemas dentro de suas possibilidades. “Não adianta apresentar fórmulas mágicas. A participação da comu-

Administração Social O contato com as associações tem influenciado a escolha dos universitários. Participante do programa, o estudante Giovanne Cavalcante decidiu que vai focar seus estudos na administração social. “Quero que meu trabalho traga o bem para todos”, enfatiza o caicoense. A opinião é compartilhada pelo colega Diego Guerra. “O mais intere­ssante para o administrador é promover o desenvolvimento local”, acredita. Por meios da atividade de extensão, Natália Dantas desenvolveu afinidade com a economia solidária. “A gente aprende muita coisa com as comunidades e enxerga uma realidade que não conhecia”, analisa. “Trabalhar com associações é muito atrativo”, destaca a universitária Camila Brandão, que pretende trabalhar no terceiro setor.

Todos os agricultores do povoado foram atingidos pela crise: produção caiu de uma tonelada de frutas por dia para 600 quilos por semana

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CIDADANIA

Estudantes de Odontologia prestam atendimento

a dependentes químicos em reabilitação Anastácia Vaz

Por Auristela Oliveira

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a infância, os super-heróis povoam as mentes infantis com seus poderes especiais que salvam a humanidade do mal. Na vida real, algumas pessoas levam a brincadeira a sério, utilizando seus conhecimentos para fazer o bem. É o caso da Liga dos Dentistas, programa de extensão do Departamento de Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) que cuida da saúde bucal da sociedade. Uma referência à Liga da Justiça, que reúne super-heróis famosos, o projeto surgiu em 2011 a partir da vontade de um grupo de alunos do curso de Odontologia da UFRN. “Nosso objetivo é demo­ cratizar o atendimento de saúde e dar um retorno para a sociedade, transmitindo o que aprendemos na Universidade”, comenta uma das fundadoras, a estudante do 8º período Rayanne Karina Silva Cruz. Composta por 15 estudantes, a equipe já fez atendimentos em um orfanato e em um lar de idosos. Atualmente, o trabalho é voltado para dependentes químicos em reabilitação na Comunidade Terapêutica Nova Aliança (CTNA), localizada em Pium, região metropolitana de Natal. Coordenadora da Liga, a professora Maisa Paulino Rodrigues explica que as atividades são montadas de acordo com as necessidades do público. “Realizamos ações de assistência, de proteção e de pro-

Reabilitandos do CTNA participam de palestras e orientações sobre saúde moção da saúde efetivando o princípio da equidade proposto pelo Sistema Único de Saúde, o SUS”, esclarece. A professora conta que sempre gostou de trabalhar com práticas comunitárias em saúde e que ficou muito feliz quando os alunos a procuraram para coordenar a iniciativa. “Eles entenderam que é possí­ vel utilizar a odontologia para transformar o mundo em um lugar melhor”.

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Comunidade Terapêutica Nova Aliança Os reabilitandos do CTNA participam de palestras e orientações sobre saúde, além de terem atendimento em consultório todos os sábados pela manhã. O local abriga cerca de 70 homens que necessitam, em média, de 9 meses de tratamento para abandonar as drogas. Sem família em Natal, um gaúcho

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que estava morando nas ruas devido ao vício foi encaminhado para o CNTA. Em menos de um mês, tornou-se um dos coor­denadores do abrigo e vislumbra dias melhores. “Nosso tratamento dura o tempo de uma gestação. Isso nos faz renascer”, afirma. Na clínica há dois meses, um argentino que está no Brasil há 13 anos participou do atendimento odontológico promovido pelos estudantes da UFRN. “Essa atividade mostra que a juventude pode mudar a situa­ ção da saúde pública no Brasil”, comenta. A equipe da Liga dos Dentistas está ainda tentando instalar um consultório, que já conta com alguns equipamentos doados ao CNTA. “A ideia é de que os reabilitandos tenham um espaço de qualidade para tratar da saúde bucal”, enfatiza o estudante Humberto Chaves. Humberto ajuda a coordenação do projeto e destaca a importância da atividade para a formação dos futuros profissionais. “Nos tornamos pessoas melhores ajudando a quem precisa”, comenta. Doações A Comunidade Terapêutica Nova Aliança sobrevive de doações e da venda de vassouras e detergentes que são fabricados pelos reabilitandos a partir de garrafas pet. Para ajudar na manutenção do espaço, os alunos da UFRN realizam uma campanha permanente de coleta do material. Quem tiver interesse em ajudar o trabalho pode doar garrafas pet no Departamento de Odontologia da Universidade.


INTERIOR

Bacharelado em Turismo do CERES elabora

proposta pioneira em Currais Novos Wallacy Medeiros

Por Luciano Galvão

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ortear as políticas públicas para o turismo de Currais Novos. É esse o objetivo de um projeto do Centro de Ensino Superior do Seridó (CERES) de Currais Novos, unidade acadêmica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) no interior. A ideia é traçar diretrizes para o desenvolvimento da atividade na cidade, ao inventariar os atrativos e serviços turísticos do local, identificar seus pontos fortes e fracos e, ainda, diagnosticar as ameaças e as oportunidades que se apresentam para a atividade na região. Intitulada “Elaboração do Plano de Desenvolvimento Turístico do Município de Currais Novos 2014 a 2020”, a iniciativa é uma ação acadêmica associada, modalidade que agrupa, de uma só vez, atividades de ensino, pesquisa e extensão. Além de professores e alunos de Turismo do CERES Currais Novos, a proposta reúne pesquisadores dos campi de Caicó e de Natal, assim como colaboradores da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Segundo Marcelo Taveira, professor do Departamento de Ciências Sociais e Humanas do CERES e coordenador do estudo, nenhuma outra cidade do estado possui um plano como o que está sendo proposto. De acordo com o docente, a condução de um estudo do gênero requer quadros técni­ cos que os municípios normalmente não possuem. “Eles não contam com capital humano para realizar o trabalho, por isso precisam contratar consultorias. Mas nem todos têm recursos para isso”, comenta. Em novembro, os dados apurados e as primeiras análises foram discutidos com gestores públicos e empresários do turis­ mo da região, em reunião na Câmara de Dirigentes Lojistas de Currais Novos. Quando finalizada, a ação produzirá um documento, onde estarão definidas as estratégias para o desenvolvimento da atividade turística na cidade. O resultado será entregue à Prefeitura Municipal, em evento previsto para o primeiro semestre de 2014.

Estudantes A elaboração do Plano conta com a parti­cipação de alunos do Bacharelado em Turismo do CERES. Em abril deste ano, os estudantes foram selecionados e, a partir de setembro, passaram por oficinas em áreas como novas tecnologias, metodologias de pesquisa, cartografia e mapeamento turístico. Wilker Nóbrega, professor do Departamento de Turismo no campus Natal, participou da capacitação dos discentes no interior em setembro, quando ministrou oficinas sobre métodos de coleta de dados e análise das informações levantadas. Wilker explica que a ideia é não a­penas preparar os estudantes para o trabalho no projeto, mas também fornecer-lhes conhe­ cimentos que possam ser utilizados em outras situações profissionais. “Além de rever conteúdos, as atividades são uma oportunidade prática para discutir os assuntos pontualmente. Queremos que os alunos possam pensar de forma mais crítica frente aos cenários”, afirma o docente. “O objetivo é que eles consigam discernir pontos que aparentemente são homogêneos, mas que possibilitam compreensões diferenciadas. Essa é uma habilidade fundamental para atuar no mercado”, aponta Wilker. Iago Sales, bolsista do projeto, concorda com o professor. “Quando começamos as atividades, não tínhamos a visão que temos hoje, sequer percebíamos a importância da iniciativa. A experiência tem sido importantíssima para nossa vida acadêmica e deve inclusive facilitar a condução de ou­ tros trabalhos”. Estudante do CERES, Iago conta que os alunos participantes foram responsáveis pela atualização do inventário turístico da cidade – cujo último levantamento havia sido feito em 2009 –, realizaram coleta de dados com moradores, visitantes e empresários da cidade, através de 600 formulários aplicados, e construirão, na última etapa da ação, uma proposta de plano de marketing e um mapa turístico do município. “Como o projeto é pioneiro, ele deve despertar em outros municípios da região o interesse em ter um plano semelhante”, avalia o bolsista.

Marcelo Taveira: ação definirá estratégias para desenvolvimento turístico na cidade Geoparque Entre as diretrizes que serão apontadas pelo estudo, está também o aperfeiçoamento da utilização do patrimônio geológico da região do Seridó – onde está localizada Currais Novos. Marcos Nascimento, professor do Departamento de Geologia e cola­borador da iniciativa, explica que há locais de interesse dos visitantes em que as rochas e o relevo são “o carro-chefe” entre os atrativos. “Por que a Serra de Santana tem aquele topo retilíneo, enquanto em Currais Novos e Acari elas têm o topo pontiagudo?”, indaga o docente para citar uma questão recorrente entre turistas. “Porque a rocha e a história de formação daquelas paisagens são diferentes”, responde. “As pessoas que vêm conhecer o lugar não querem apenas deslumbrar, mas saber porque o espaço é daquele jeito. Eles estão cada vez mais interessados nesses detalhes”. O geólogo relata que desde 2009, elabora o inventário dos atrativos geológicos do Seridó e, por isso, foi convidado a contribuir também com o projeto coordenado pelo professor Marcelo Taveira. O trabalho realizado por Marcos Nascimento envolve ao todo 11 municípios, e quer transformar a região no que os pesquisadores chamam de geoparque. “Um geoparque é uma área onde existe uma nova forma de gestão territorial, que

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passa pela associação de temas como a biodiversidade, a história, a cultura e, também, a geodiversidade – os aspectos geológicos daquele lugar”, define Marcos. “Esse modelo interage com a comunidade do espaço territorial, de maneira que ela tire proveito financeiro daquilo que o espaço apresenta”, diz. Além do ganho econômico para as populações, o pesquisador indica ainda como benefícios a popularização do conhecimento científico e à preservação do ambiente. “Para que a população possa utilizá-los como atrativos, esses espaços têm que estar protegidos”, explica. Sobre os resultados que podem ser alcançados a partir dos estudos, o professor Wilker Nóbrega, de Turismo, levanta a importância de se considerar aspectos sociais e econômicos na definição das estratégias. “Não é da noite para o dia que se consegue mudar a realidade de uma região, até porque não podemos investir somente na atividade turística como filão que proporcionará o desenvolvimento local”, opina. “Entendemos que o turismo é uma atividade que complementa as demais atividades existentes, como a fruticultura, a pecuária, a caprinocultura, e os serviços”, continua Wilker. “A intenção de debater as estratégias com gestores públicos e com a sociedade é interligar essas coisas, conjugar os diferentes interesses em prol do crescimento turístico”.


entrevista

“A UFRN está fazendo Astronomia no mesmo nível de grandes instituições da Europa” José Renan de Medeiros é doutor em Ciências. Em novembro, o professor coor­ denou, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o Workshop 400 Anos de Rotação Es­ telar, que reuniu pesquisadores de todo o mundo em Natal, para avaliar resultados de três grandes estudos conduzidos pela comunidade científica internacional. O evento, que ocorreu entre os dias 21 e 26 daquele mês, foi organizado pelo Departamento de Física Teórica e Experimental (DFTE), em parceria com o Instituto Internacional de Física (IIF) e com Observatório Europeu Austral (ESO, na sigla em inglês) – maior instituição do gênero no mundo, composta por catorze países, com sede na Alemanha e instalações no Chile. A ocasião rendeu homenagens aos quatro séculos do

Wallacy Medeiros

Por Luciano Galvão

Por que o Work­ shop homenageou Ga­ lileu Galilei? Nosso evento re­ presentou um momento para reafirmarmos a importância desse cientista para o pensamento moderno. Todos ce­ lebramos esse monumento que foi a obra de Galileu Galilei. No dia em que apontou sua luneta – pequeníssima – para o céu e viu que existiam muito mais estrelas do que podíamos imaginar, que existiam luas em torno de Júpiter, que a superfície da nossa lua era cheia de saliências e crateras, que o sol tinha manchas, Galileu teve uma manifestação daquilo que permeou o avanço da humanidade: que a Natureza é laica. A Natureza é explicável pela Matemática, pelos números, pela Geometria. Ela não pertence a ideologias, a uma filosofia, a uma religião ou aos desejos humanos. Ao contrário, os desejos humanos não modificam a Natureza. Isso faz de Galileu o pai da Ciência moderna. Para cada fenômeno da Natureza há uma equação, uma relação matemática. Não adianta querermos traduzir a Natureza segundo os nossos sonhos.

É dele a frase que diz que o livro do Uni­ verso está escrito em caracteres matemáticos… E também que tudo se move, que a Natureza está sempre em movimento… Qual a atualidade dessas frases? Elas continuam atuais, absolutamente. Por que chegamos no ponto em que estamos, do ponto de vista da evolução da humanidade? Devido ao avanço da Ciência e da Tecnologia. De onde veio esse avanço? Da nossa capacidade de olhar para os fenômenos da Natureza, interpretá-los e colocá-los a serviço da Humanidade. Assim foi a descoberta da eletricidade, dos Raios X, a criação do computador. Utlizamos grandes redes de telecomunicações por satélite graças às leis de Kepler, fruto da Ciência, escritas para explicar o movimento dos astros e que observamos que mesmo um corpo como um satélite em órbita obedece às mesmas leis. O pensamento de Galileu é tão

Renan Medeiros, professor do DFTE mais presente porque esse avanço se processa pelo Método Científico. O que tem de mais grandioso no pensamento humano não é achar que pode modificar a Natureza, mas acreditar que é possível entendê-la. De cada fenômeno que se observa, se extrai um passo a mais da Ciência que ajuda a Humanidade a evoluir. Quais outros temas foram debatidos no evento? Aprendemos ao longo do tempo que a rotação solar influencia as condições de vida do Planeta. Como não temos condições de estudar o Sol ao longo de milhares de anos, já que a espe­ rança de vida de um ser humano está em torno de oitenta anos e nossa tecnologia é algo muito recente, procuramos estudar os diferentes tipos de estrelas – as mais jovens, as mais velhas e as que têm a mesma idade do Sol. A partir disso entendemos cada passo na evolução de sua rotação e de suas condições físicas, assim como de que maneira essas condições vão influenciar a Terra. Em certo sentido, os astrônomos predizem o comportamento do Sol no tempo, olhando sua história evolutiva.

anúncio público, pelo astrônomo Galileu Galilei, do fenômeno da rotação estelar – movimento de uma estrela em torno de seu próprio eixo, descoberto pelo cientista italiano por meio de suas observações do Sol. Em entrevista ao Jornal da UFRN, José Renan de Medeiros faz um balanço do Workshop, que, se­ gundo o professor, trouxe dados que encorajam os astrônomos a enveredar por novas pesquisas, em busca de dados que devem ajudar os estudiosos a compreender o comportamento do Sol – algo ainda não com­ pletamente desvendado pela Ciência. É positiva também a avaliação que faz o docente quanto ao estágio dos estudos da área na UFRN. Para José Renan, a Universidade quer fazer coisas grandes, e a Astronomia está fazendo sua parte.

Durante o workshop, reunimos cientistas de todo o mundo e pela primeira vez analisamos conjuntamente os resultados de três grandes missões dedicadas ao estudo do magnetismo e da rotação estelar. Missões são telescópios colocados no espaço que monitoram milhares e milhares de estrelas, e o DFTE participou de um desses três projetos. Quais resultados podemos destacar? Há um debate muito grande em que os estudiosos discutem se o nosso Sol é uma estrela particular, diferente das outras, e se, por isso, a vida somente existiria aqui. A partir dessas missões, sabemos que o Sol é uma estrela comum: existem muitas outras estrelas idênticas a ele espalhadas pelo Universo, com rotação e magnetismo iguais aos dele. Isso nos encoraja a construir outras missões para estudar essas estrelas parecidas com o Sol. A Astronomia está projetando uma quarta missão para até 2024, e nós estamos nos preparando para outra grande aventura, em que observaremos muito mais estrelas. É uma luta contínua que a Astronomia faz para entender as coisas do céu, o Sol e outros corpos que podem vir a afetar nosso planeta. Esses dados foram muito enriquecedores. Ao mesmo tempo, tivemos conclusões duras, no sentido de que entendemos que o Sol ainda é uma estrela perigosa, ou seja, ao mesmo tempo em que alimenta a vida na Terra, o Sol representa também uma ameaça, porque não conseguimos ainda entender seus humores: não podemos prever todas as suas explosões. Já conhecemos muita coisa do Sol, como seu ciclo de onze anos, a medida de sua rotação ou a intensidade de seu campo magnético. Mas os humores do sol, traduzidos por explosões, pelos ventos solares – que penetram nas camadas mais baixas da atmosfera terrestre – e as tempestades, ainda não dominamos. Isso abriu a perspectiva de que nós temos muito mais a fazer. Na UFRN, especificamente, qual o estágio das pesquisas em Astronomia? Vivemos um momento muito legal na Universidade. Fiz questão de citar, na solenidade de abertura do Workshop, que a Astronomia nasceu na UFRN há exatamente trinta anos, da minha ousadia própria. Naquele tempo falar de Astronomia aqui era quase uma heresia. Hoje vemos que ela é uma das áreas que dá brilho à Instituição, e nenhuma outra área oferece mais internaciona­ lização à UFRN. Isso porque a Astronomia é um tema universal e que tem muito apelo junto às pes-

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soas: ela tem a capacidade de mexer com o ima­ ginário humano, mas na época foi preciso ousar. Digo isso sem qualquer demérito para ou­ tras áreas, porque não existem áreas melhores que outras, e uma sociedade só é bem desenvolvida quando todas os campos brilham com a mesma intensidade. O que existem são cientistas, pensadores que dedicam mais energia do que outros. Mas todas as áreas têm a mesma importância. No presente, participamos na criação de ins­ trumentos junto ao maior observatório do Planeta, o ESO. Estamos associados a projetos em pé de igualdade com institutos de astrofísica europeus. Participamos da missão CoRot, trazendo resultados de impacto para a Instituição. Trinta anos depois, a UFRN está fazendo Astronomia no mesmo nível de grandes instituições da Europa, da América do Norte ou do Extremo Oriente. A própria vinda do Workshop para Natal é um reconhecimento do que a Universidade faz. Newton [Isaac Newton, matemático inglês] repetia que se ele conseguiu enxergar muito longe, é porque se colocou nos ombros de gigantes. Uma coisa que a gente aprende desde cedo em Astronomia, é que a afirmativa de Newton é mais do que verdadeira. A Astronomia é algo colaborativo. Ningúem faz nada sozinho, não se diz “eu faço”, “eu descobri”, se diz “eu participei dessa descober­ ta”. Tudo é em equipe. Uma coisa que me dá muita alegria é o fato de que eu sinto que na UFRN as pessoas percebem isso. Nós estamos fazendo coisas muito grandes na Universidade. Para dar um exemplo, com o instrumento que estamos construindo junto com o Instituto de Astrofísica Canalis, da Espanha, e com o ESO, seremos capazes de descobrir planetas idênticos à terra, coisa que não é possível hoje. Quando digo “nós”, digo “a Astronomia do mundo todo”. Quem sabe não sejamos nós da UFRN os primeiros a descobrirmos um planeta idêntico à terra. Em todo caso, alguém descobrirá, e o fará utilizando o instrumento que a UFRN ajudou a construir. Esse equipamento, nós chamamos de Pente em Frequências Laser e não existe no Brasil. Vamos trazer o know-how para o nosso país. Nossa Universidade, aparentemente tão pequena, consegue participar do círculo dos lobos da Ciência, sem complexo algum, nem de vaidade cega, nem de insignificância. Somos o que somos, uma Instituição que quer fazer coisas grandes e a Astronomia está fazendo sua parte.


Feliz 2014 Ao final de mais um ano, a Equipe do Jornal da UFRN congratulase com todos os nossos leitores e colaboradores. Alimentamos o forte desejo de que iniciemos em 2014 um tempo novo, de refazer planos, reconsiderar equívocos, renovar a esperança, promover a paz e divulgar o conhecimento para todas as pessoas em todos os lugares.

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Jornal da UFRN - Dezembro de 2013 - Ano XV nº 68