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Foto: Divulgação/ Yago Barbosa

Política

A UM MÊS DA CAMPANHA ELEITORAL, DEPUTADOS DA ALERJ ESTÃO DISTANTES DAS MÍDIAS SOCIAIS

Levantamento mostra que poucos dos parlamentares da Assembleia Legislativa do Rio usam bem as ferramentas digitais Os políticos “celebridades” lideram os rankings do Twitter e do Facebook Para especialista, o Brasil deveria ter lei eleitoral dirigida para a internet

GABRIELA CAESAR (TEXTO, ARTE E DIAGRAMAÇÃO)

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Política ano é de eleição. E a lista de candidatos, grande. Deputado estadual, deputado federal, senador, governador e presidente. Mais de 12 milhões de eleitores fluminenses votam no primeiro domingo de outubro, segundo o Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ). Para o cientista político da PUC-Rio Ricardo Ismael, apesar de ser preciso melhorar a representação, os votantes têm poucas informações, principalmente, sobre os candidatos para o Poder Legislativo e devem usar a internet para pesquisar antes de decidir o voto. “Existe um quadro de crise de representação. As pessoas precisam ir atrás de informação e mobilizar a comunidade”, sugere Ismael, ao lembrar o grande número de candidatos a deputado estadual.

Para o sócio-diretor da agência Salve! Digital Lucas Reis, a popularidade dos artistas se deve ao “capital social” que eles já tinham antes de entrar para a política. Assim, acredita Lucas, a quantidade de fãs se reverteu em seguidores nas mídias sociais. Ele aponta, porém, a internet como um campo importante, principalmente, para os candidatos que têm pouco tempo na televisão e querem alcançar um público mais amplo.

“Arriscaria a dizer que páginas em redes sociais tenderiam a configurar um ‘risco’ a esses perfis de políticos, no sentido em que as páginas deles estariam abertas a reclamos, intervenções de usuários que poderiam constrangê-los publicamente”, afirma.

“A literatura sobre campanhas online prega que, na internet, candidatos e partidos menores podem se equiparar aos grandes, pois os custos de atuação são menores, se comparados à comunicação de massa, ou mesmo ao corpo a corpo (tem custos de viagens, equipe, materiais etc)”, lembra Lucas.

Já os considerados deputados “celebridades”, como o apresenEmbora o Brasil seja, respecti- tador Wagner Montes (PSD) e vamente, o primeiro e segundo a ex-atriz Myrian Rios (PSD), país com mais usuários ativos estão no topo dos rankings. nas mídias sociais Facebook e Twitter, um levantamento, realizado em 14 de maio deste ano, mostra que os parlamentares da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) precisam melhorar as habilidades nas novas tecnologias. Mesmo nos últimos meses do mandato, são tímidas as atividades digitais de João Peixoto (PSDC), Gerson Bergher (PSDB), Fábio Silva (PMDB) e Edson Albertassi (PMDB). O deputado estadual Geraldo Moreira (PTN), com base eleitoral em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, não tem

Por outro lado, ele ressalva que a comunicação digital não é barata, mas permite o contato direto com potenciais eleitores Foto: Divulgação/Rafael Wallace

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sequer uma conta na rede. Procurada pela reportagem, a equipe do gabinete do deputado confirmou a informação. Para o cientista político e historiador Roberto Bitencourt da Silva, os deputados “profissionais”, aqueles que “se elegem e buscam reeleições sucessivas para exercer mandatos populares”, são mais propensos a inibir a própria inovação política e institucional e menos dispostos ao diálogo com a sociedade.

O deputado Geraldo Moreira (PTN) não tem qualquer conta em mídia social

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De olho no virtual Com mais conteúdos online, a Procuradoria Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (PRE-RJ) começou, em fevereiro, a vasculhar perfis nas redes sociais e blogs em busca de irregularidades. Pela legislação, só é permitido fazer campanha eleitoral, seja no meio físico ou digital, a partir de 6 de julho deste ano, três meses antes do primeiro

*da direita para a esquerda: Marcelo Freixo (PSOL), Myrian Rios (PSD), Wagner Montes (PSD), Roberto Dinamite (PMDB) e Clarissa Garotinho (PR).

Ranking de curtidas no

148 MIL

turno. Até 25 de março, a equipe encontrou 160 conteúdos com possíveis promoções explícitas, tendo a maioria sido publicada no Facebook. (Leia aqui o Guia do Direito Eleitoral para Campanhas na Internet – Eleições 2012, elaborado pelo pesquisador Alexandre Secco, da Medialogue Comunicação Digital)

A advogada considera um erro interpretar a Lei das Eleições para o universo virtual, enquanto o mais adequado, segundo ela, é ter uma lei eleitoral dirigida, especificamente, para o campo digital. Vânia lembra, ainda, que a Comissão Nacional das Eleições, em Portugal, foi pioneira nas eleições de 2014 ao estabelecer uma legislação Sócia do escritório Siqueira para a comunicação na web. Castro Advogados, Vânia Aieta afirma que há uma “subje- “Não vejo necessariamente um tividade forte” na legislação ‘prejuízo’ para as eleições, eneleitoral em relação à propa- quanto a lei não for aprovada ganda irregular ou antecipada adequadamente. Mas é inegána internet. Para ela, a norma vel que uma boa legislação na abstrata, unida à falta de bom área da propaganda na intersenso de alguns juízes, pode net, assegurando o princípio levar a punições mais rígidas. da igualdade entre os candidatos que disputam o pleito, “Eu observo muitas sentenças possibilitará maior oportuniabsurdas em processos que ver- dade para os desprovidos de sam sobre as redes sociais por recursos financeiros”, opina. absoluto desconhecimentos dos juízes acerca desse instrumen- No Brasil, segundo a reporto. É um campo desconhecido e tagem Proposta do Facebook espinhoso para muitas pessoas pode incitar campanha antecipade mais idade”, pontua Vânia. da nas redes, publicada no site UOL em 19 de maio de 2013, um escritório contratado pela Facebook* rede social de Mark Zuckerberg sugeriu mudanças em, pelo menos, três artigos da Lei Eleitoral. Um dos objetivos, 193 MIL conforme o texto, era liberar a internet para manifestação 185 MIL de candidatos, mesmo antes do período de campanha eleitoral.

151 MIL

A Justiça Eleitoral perderia, assim, o veto imediato ao conteúdo considerado propaganda antecipada, e a responsabilidade da publicação passaria a ser do autor, e não o provedor.

100 MIL

Foto: Divulgação/Alerj

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Foto: Divulgação/Gabriel Telles

por preço menor que o do horário eleitoral. Classificado por Lucas como novo e dinâmico, o campo digital muda constantemente. Ele recorda que, em quatro anos, a campanha eleitoral online já mudou. Em 2010, a rede social Orkut tinha mais espaço na vida do brasileiro e a internet no aparelho de celular não era tão difundida. Além disso, ele destaca a maior profissionalização das equipes de campanha e a atualização do conceito de “Big Data”, o armazenamento de dados grandes e complexos.


*da direita para a esquerda: Wagner Montes (PSD), Myrian Rios (PSD), Marcelo Freixo (PSOL), Carlos Minc (PT) e Felipe Peixoto (PDT).

O cientista político Ricardo Ismael lembra que a internet pode ser um importante instrumento na pesquisa do voto para fugir do descompasso na quantidade de informações sobre candidatos do Executivo e do Legislativo. “A eleição para deputado estadual não tem a mesma atratividade que para presidente e governador, quando há debate na TV, entrevista, cobertura da mídia”, compara.

e envio de relatórios mensais nas assembleias e câmaras de com os votos dos internautas. vereadores? Tudo é possível, vontade não falta!”, afirma. “A cada dia mais e mais depuFoto: Reprodução tados querem entender como funciona o site, como podem colaborar e participar. Muitos já entenderam que é preciso estar mais próximo dos cidadãos e a internet é um caminho mais fácil para isso”, acredita. O Facebook como instruDaniele espera que o site aju- mento tecnológico politizado de o eleitor na análise dos canUma das opções para acompa- didatos para as eleições des- E como os partidos PT, PSDB nhar mais de perto o trabalho te ano. Para a jornalista, uma e PSOL se comportaram no Fados parlamentares do Congres- estratégia é verificar o que os cebook durante as manifestaso é o site Vote na Web, lança- políticos fizeram nos últimos ções de junho de 2013? Esse é do em novembro de 2009. Por quatro anos de mandato, e não o tema do artigo Mídias sociais meio dele, o internauta encon- as promessas de campanha. Se- e política: os partidos no Facetra, de forma atraente e orga- gundo ela, a plataforma do Vote book, do cientista político e hisnizada, mais de 5 mil projetos na Web pode ser aplicada nas toriador Roberto Bitencourt da de lei que tramitam nas Casas. esferas estadual e municipal. Silva. Publicado na edição 28 da Revista de Comunicação, Cultura Lá ele é convidado a aprovar ou vetar e comentar os projetos. “Seria incrível se pudéssemos e Política (Alceu), o texto analiA coordenadora da plataforma, chamar a população para opi- sa as páginas das três legendas a jornalista Daniele Amaral, nar sobre os projetos de lei para identificar que o PSOL conta que, desde o ano passa- que interferem diretamen- teve mais “familiaridade com as do, a equipe procura se aproxi- te na vida, na região. Come- ações e as demandas repercutimar dos deputados federais e çamos pelo Congresso, mas das nas ruas”, em comparação senador, por meio de reuniões quem sabe quando estaremos com os dois outros partidos. Apesar de terem feito postagens atuais, de acordo com o estudo, Ranking de tweets no Twitter* PT e PSDB “revelaram estranhamento e hesitação em face 27 MIL das mobilizações cidadãs nas ruas”. Além disso, o autor ainda 24 MIL aponta o baixo número de se22 MIL guidores de PT, PSDB e PSOL 21 MIL no Facebook, se comparado à 19 MIL quantidade nas páginas dos líderes dos partidos. Num extremo, escreve Roberto, o estreitamento do laço entre cidadãos e políticos pode resultar em aumento no personalismo brasileiro. 4

Foto: Divulgação/Alerj


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