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MUITO MENOS QUE UM FRANGO Afonso Nilson


Ficha Técnica Revisão: Maria Teresa Piccoli Catalogação: Claudia Cristina Manfredini Capa: Afonso Nilson Barbosa, a partir da foto de Michele Diniz. Foto do autor: Álvaro Diaz Florianópolis, 2013. Todos os direitos reservados. ©Afonso Nilson, 2013. www.afonsonilson.com

SOUZA, Afonso Nilson Barbosa, 1977Seis pequenos monólogos para mulheres / Afonso Nilson Barbosa de Souza. ― Florianópolis : Ed. do Autor, 2013.

ISBN 978-85-914440-0-7 1. Teatro brasileiro. I. Título. CDD B869.2


Para Camila Miotto


Muito menos que um frango Eu corto o pescoço de galinhas. É isso que eu faço. Todo dia corto dois mil pescoços. Seguro pela cabeça e passo a faca, tomando o cuidado para não decepar totalmente. Eu ganho a vida assim. Meu uniforme é esse, sangue por todo o lado. Meu escritório é esse, com uma esteira de galinhas passando ininterruptamente enquanto eu as degolo. (pausa) E eu nem gosto de carne de galinha. Quando um namorado me pergunta o que eu faço pra viver, eu sou obrigada a dizer, trabalho no setor de galinhas. De frangos, ele pergunta. Não, de galinhas! Parecem menores quando as chamo assim, menos importantes. Tirar a vida de um frango é muito mais grave do que a de uma galinha. Uma galinha a gente não tem muita dó, mas um frango tem algo de nobreza que eu não consigo dizer o que é. Trabalho no setor de galinhas. E o que você faz exatamente, ele pergunta. Trabalho numa das primeiras etapas de embalagem. Ele quase fica satisfeito. Sim, porque as galinhas precisam estar mortas para serem embaladas, não é? Mas eu nunca entendo o porquê de os homens serem assim tão curiosos. Ele pergunta de novo: Não, mas o quê você faz mesmo, você empacota, você limpa, você varre o chão, você administra a produção? Meu amor, respondo, eu mato galinhas. Eu as degolo e faço todo sangue escorrer pelo pescoço fissurado, quebrado pela minha lâmina. Eu dou fim naquela vidinha curta de merda, corto em menos de meio segundo e tento evitar que o sangue jorre no meu olho. Sim, meu amor, eu mato galinhas. Eu as dilacero com minha faca, seguro suas cabeças e num gesto mais mecânico do que impulsivo, corto os seus pescoços. Você está feliz agora, com minha resposta conclusiva e objetiva sobre a minha profissão, meu amor? Vai ser difícil achar um homem desse jeito. Sei lá, talvez algum açougueiro se apaixone por mim. E então, vai me perguntar, você conhece todo métier do preparo da carne? Não, eu só mato galinhas. Frangos? Não, galinhas mesmo, do tipo mais desprezível. (pausa) Vou confessar que não tinha imaginado isso pra minha vida quando eu era criança. Mamãe, mamãe, quando eu crescer quero ser matadora de galinhas. Não, né? Não era isso que eu imaginava pra mim. Queria algo maior quando eu ainda tinha sonhos. (brincando) Matar porcos. Não, né? Não nesse sentido. Bem na verdade, eu não tinha lá muitos sonhos de profissão, não. Eu nunca quis ser médica, por exemplo. E na época eu dizia que era porque eu tinha pavor de sangue. Advogada? Ainda prefiro tirar o sangue só de galinhas. Não, não tinha muitas pretensões pra mim. O que eu queria mesmo, mas mesmo, mesmo era casar. Nada demais, sem muitas pompas ou luxos. Churrasco, bebidas, convidados... Não, nada disso. Eu só queria um homem pra mim, um casal de filhos e cuidar da casa. Não era pedir demais, era? Era assim tão pouquinho, tão singelo... E hoje o que eu faço? Mato galinhas. Que homem vai querer uma mulher que mata galinhas? Querido, compra pra mim um creme bem cheiroso pra tirar o cheiro de sangue das minhas mãos? Não é nada romântico, não é? Mas eu não perco as


esperanças. Nunca se sabe, não é? Tem louco pra tudo. Um homem que fosse incapaz de fazer pouco de mim pela minha profissão. Jamais toleraria piadinhas como “já matou nosso jantar hoje, querida?” ou, “querida, você podia emprestar seu uniforme pra uma festa à fantasia? Vou de serial killer”. Posso confessar, eu mataria alguém só por ouvir uma coisa dessas. Por que não vão gozar da cara dos professores? Poderiam dizer, de que adianta tanto estudo se a matadora de galinhas ganha o dobro com a metade da carga horária e apenas uma faca? Não, não deveriam fazer isso. Toda profissão tem sua dignidade, os garis, os professores, os maquiadores de defuntos, os mergulhadores de esgoto, as prostitutas, os degustadores de cerveja, os reconstrutores de hímen, todos. E até eu, que mato galinhas. (pausa) Certa vez ouvi que as pessoas que trabalham com esse tipo de profissão, tipo matança em escala industrial, esquartejamentos e evisceração de animais, acabam ficando doentes. Acabam tendo problemas na cabeça. Tem uns que começam a testar suas técnicas de descarnamento e desossagem em pessoas. Que perdem a noção do que é um bicho e do que é alguém. Eu sou alguém. Uma galinha não é ninguém. Os animais não são pessoas, não têm o mesmo valor e por isso precisam ser mortos para matar a nossa fome, das pessoas que são alguém. Não tenho remorso do que faço. Sei que cada vez que mato uma galinha alguém vai comer bem. Isso é bom, não é? Sustentar os matadouros com nossa fome é uma boa forma de se gerar empregos. Empregos como o meu que, às vezes, quando não tem nenhum homem na parada, eu até me orgulho. Você não está com pressa, não é? Matar galinhas... Mas aonde é que eu fui parar? Você entende, não é? Não foi minha culpa. De alguma maneira as coisas foram se organizando pra isso. Fui meio que seguindo o fluxo, de vento em popa, a favor da corrente... Mas a vida não precisa ser sempre assim. Posso escolher outras coisas agora. Posso escolher o meu rumo. Eu mato galinhas, é verdade. Mas não preciso fazer isso pra sempre. Posso começar a matar porcos. Brincadeirinha. Chega de sangue na minha vida. Quase tenho vontade de nunca mais comer carne. Quase. Eu penso às vezes... Às vezes não, eu penso quase sempre em voltar aos meus sonhos de infância. Eu ainda quero ter um marido. Filhos. Não é pedir muito, é? Sei que tem muitas mulheres que acham isso horrível, uma coisa antiga e tal. Mas as coitadas acabam sempre casando, veja só. E se não casam, têm pelo menos um filho. Acho, sei lá, que talvez faça parte da vida, um tipo de instinto, como o instinto de um bicho, como uma galinha que se debate furiosamente como se fosse escapar da morte depois que eu lhe corto o pescoço. (...) Para adquirir este texto acesse: goo.gl/zLhFN


Sobre o autor

Afonso Nilson Barbosa de Souza nasceu em Joinville, Santa Catarina, em 1977. Como dramaturgo tem vรกrias peรงas encenadas e publicadas em livros e periรณdicos.


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Muito menos que um frango