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Afonso Nilson

CUIDADO PARA Nテグ SE APAIXONAR


Sumário

CUIDADO PARA NÃO SE APAIXONAR FICHA TÉCNICA SOBRE O AUTOR


Cuidado para não se apaixonar

Cuidado para não se apaixonar por mim, você me disse. Que diabo de frase é essa? Não entendo o que quer dizer? Que você não presta? Que é perigoso gostar de você? Pra quê isso? Devo agora ter medo de me aproximar porque você vai me fazer mal, decepcionar, trair, o quê? Não entendo. Do que é que devo ter medo? Não precisa vir com essas desculpas. Basta dizer, não gosto de você! Ou, até te acho legal, mas não pra mim. É mais honesto dizer isso. E menos dolorido também. Eu até tento entender. Nós já tivemos tantos amores desfeitos, tanta gente já nos usou como um capacho, como algo descartável, como um produto com preço, que temos medo, eu sei. O que fazer? Viver só enquanto o medo de sofrer nos dilacera continuamente até uma velhice solitária? Basta dizer eu não te quero. É o suficiente. Agora, recusar o meu amor com a desculpa de me proteger é muita falta de afeto, é como tentar me proteger do seu desprezo. Não há proteção pra isso. “Cuidado para não se apaixonar por mim!” Não entendo. O que você quer dizer? É mais fácil pensar que o que você quer que eu tenha é coragem para me apaixonar por você, e por isso devo tomar cuidado. Mas acho que nem eu nem você precisamos desses avisos. Que o amor é perigoso nós já temos experiência de sobra. Que é preciso coragem para amar já é um lugar comum. Será que não sabemos disso o suficiente ainda? Sim, eu tenho medo também. Tenho medo de te perder ao dar um passo adiante. Aí sim, talvez possamos justificar o seu “cuidado para não se apaixonar”. Sim, eu tenho medo de te perder. Tenho medo de forçar a barra, de ser inconveniente, de ser chata... Mas tenho mais medo de que você se apaixone por outra pessoa antes que eu possa te dizer que eu tenho coragem de me apaixonar por ti. Eu tenho mais medo disso. Li há pouco, não sei onde, que não devemos esperar nada do amor. Que a esperança do amor só nos faz sofrer, que é a expectativa que nos destrói. Começo a achar que é a mais pura verdade, mas eu não consigo não ter expectativas. Eu não consigo não esperar te beijar cada vez que nos encontramos. Eu não consigo. Eu sei que seria mais fácil deixar o barco correr e ir vivendo como se o fluxo de nosso rio fosse desaguar num mar tranqüilo. Mas cada vez que te vejo é como se as águas desse rio se transformassem em uma corredeira perigosíssima, destruindo nas pedras e cachoeiras de meu peito esse pequeno barco que nos leva. Sim, eu agradeço teu aviso, mas ele é inútil. É como dizer cuidado com o ar! Não há alternativa, entende? Não tenho como evitar o risco. Outro dia você me disse que somos apenas amigas. E ainda me fez confirmar dizendo, não é verdade que ainda somos amigas? É claro que somos. Ou você acha que não há amizade no amor? Que amantes não são amigos, que um casal não pode ser amigo? Sim, somos amigas, se é o que você quer saber. Somos amigas tanto quanto éramos quando caminhávamos de mãos dadas, sem ressalvas pelo o que os outros iam pensar, ou pelo que nós mesmas iríamos pensar. Onde foi parar aquela


época em que éramos amigas de caminhar de mãos dadas? E hoje, que você me cumprimenta a distância, quase com um aceno, como se fôssemos estranhas, onde está nossa amizade? Escondida atrás do medo de se apaixonar? Sim, somos amigas. Somos amigas de um tipo de amizade cuja ressalva em se apaixonar poderia por tudo a perder, caso não fôssemos tão fiéis uma a outra. (pausa) Falando nisso, você nunca mais me beijou. Para não confundirmos as coisas, você me disse. Pois não funcionou. Agora é que tudo se tornou confuso. Eu não sei o que pensar. Eu não sei o que fazer. Era para esse perigo que você me alertava? Não funcionou. Eu estava tranqüila como um lago silencioso. E agora, com essa amizade distante e misteriosa, repleta de ressalvas e indefinições, de perigosas possibilidades e palavras que não devem ser ditas, me sinto em meio a uma tempestade no mar, me afogando em mim mesma. Como lidar com isso? Como lidar com o afogamento iminente de nossa relação? Eu gostaria tanto de nadar até a margem contigo, e nos salvarmos, e nos deitarmos na praia, exaustas, mas vivas, e nos beijaríamos pela alegria de termos sobrevivido, de ainda estarmos juntas após uma tempestade que poderia ter nos matado. Mas para isso é preciso ter coragem de se jogar no mar. De mergulhar até quase perder o fôlego, e confiar que caso a superfície não esteja tão perto, não estamos sozinhas no fundo do oceano. Você seria capaz? Não apenas de mergulhar, mas de olhar para o lado e confiar em mim? De confiar em nós? (...)

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Ficha Técnica Revisão: Maria Teresa Piccoli Foto de capa: Igor Martins. Modelo: Bruna Konder. Produção de foto: Rei Martin Produtora - http://vimeo.com/user16082952 Design de capa: Afonso Nilson. Catalogação: Claudia Cristina Manfredini Foto do autor: Álvaro Diaz Florianópolis, 2013. Todos os direitos reservados. ©Afonso Nilson, 2011. www.afonsonilson.com


Sobre o autor

Afonso Nilson Barbosa de Souza nasceu em Joinville, Santa Catarina, em 1977. Trabalhou como redator para publicidade, fotógrafo, músico de orquestra, produtor e gestor cultural. Como dramaturgo tem várias peças encenadas e publicadas em livros e periódicos. Mestre em teatro pela UDESC. Trabalha com curadoria de teatro, produção e logística de circuitos de espetáculos em Santa Catarina.


Todos os direitos Reservados Seis Pequenos Monólogos para Mulheres – 2011 Registro ISBN - 978-85-91440-0-7 Biblioteca Nacional do Brasil – 524.657/996/164

Esta é uma obra de ficção. Todas as personagens e fatos contidos neste texto são produtos da imaginação do autor, e não fazem referência a situações, empresas ou pessoas reais.


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Romualdo Ângelo Romualdo Ângelo - as demonstrações de amor e seus efeitos duradouros, às vezes mais duradouros do que o próprio amor. A história nada incomum de uma mulher que amou mais do que foi amada, acreditou mais do que as verdades que ouviu, e que desejou além do desejo que tinham por ela. Com humor e rancor, um texto sobre o ressentimento como forma de amor próprio. Monólogo teatral feminino.

Disponível em:

http://goo.gl/2UN4sD


Informaçþes e contato

www.afonsonilson.com


Cuidado para não se apaixonar