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A flor da pele

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Editorial “A flor da pele” surgiu como aquele sexto sentido que fica ali entre o inconsciente e o conhecido. Puro instinto. Um querer, sem querer, conjunto. Quatro meninas e uma vontade de falar sobre algo real, ousado, bonito, sensível. Tão vivo e sensitivo que ganhou forma feminina: a tatuagem. Tattoo expressão, poesia, personalidade, historia, design, arte de rua, rebeldia. Rabisco que encanta e vicia. Gente como a gente, que só admira e se inspira. Gente apaixonada, que não se satisfaz com um amor platônico, quer ser correspondida, se sentir preenchida. Um traço exige mais. Gente artista, que reinventa e cria. Todo dia. Fica aqui a nossa promessa de interagir conteúdo e imagem. Revista que ousa e esta determinada a te seduzir. Convence com as palavras e se exibe por meio da bela arte. Desafiamos você, leitor, a explorar seus sentidos. Abrir a cabeça para o desconhecido. Qualidade de quem não se cansa de aprender, admirar, sonhar e se conhecer. Identidade materializada, preto-ebranco, colorida, estilizada, abstrata ou realista. Desejo incontido. Para nos, o que ela significa? Digamos que a tatuagem é, por si só, um significado.


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Espelh o

Amanda: 19 anos. Garota internacional. Falou em viagem, passeio e intercâmbio, seja pra Piri ou fora do país, seus olhos brilham. Com idéias super criativas, tira do chapéu a solução para todos os problemas. Com sua sensibilidade, transpassa sua emoção do coração à ponta do lápis com facilidade. Escritora nata. Determinada, mostra que é preciso pé no chão mas sem exageros. Sua presença tem uma boa vibração. É animada e companheira. Se entrega. A filha do meio, vê a amizade como algo fundamental da existência humana

Meu

Ana Júlia: 21 anos. Canceriana. Não chega sem ser notada, sorri, gesticula e fala. Piercing, alargador, tatuagem de flor. Combinam com os cachos do cabelo e a vontade de ser. Ser e fazer. Não parar, viver. É engajada, acumula conhecimento. Não deixou o curso de serviço social pra trás, mas o trouxe pra Comunicação. Trocou o carro pela bicicleta, só não largou o brigadeiro. Com ela, não tem programa ruim, não tem monotonia. Najú é espontânea, é felicidade garantida.

ueM

Larissa: 21 anos, cara de artista, sotaque e jeito goiano. Loira que conquista não só pela beleza, mas pela simpatia. Exemplo de força de vontade. Protagonista de novela mexicana. Menina do interior que passou na UnB e hoje conhece mais gente que muita gente daqui. Pratica esportes, trabalha e viaja. Lari é atenciosa, nos faz sentir compreendida com seu olho no olho. Tem um instinto materno maior que ela. É mãe conselheira, preocupada, melhor amiga. Admira o céu porque acredita que um dia chega lá.

o h l e psE

Marcella: 19 anos. Pequena. Mas não a invocada, mandona ou boa de briga. Aquela que guarda uma forte personalidade e não a desconta nos outros. Tem sua opinião (sabe o momento certo de usá-la) e respeita a dos outros. Não se fecha pro mundo, mas tem um universo privado, só dela. Não dá confiança pra qualquer um. É preciso fazer algo mais para conquistá-la. Esforço que vale a pena. Lella tem um riso espontâneo, leve, contagiante. Nos faz sentir duplamente grande: toda conversa, por mais boba que seja, ganha importânica ou graça.

A Flor da Pele é uma projeto da disciplina Planejamento Gráfico, matéria ministrada pela professora Célia Matsunaga no curso de Comunicação Social da UnB. É uma publicação experimental das alunas de jornalismo do terceiro semestre, realizado no 1º de 2010.


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7: Sitatuado no Tempo

» E do rabisco, fez-se história

19: Estilo

» Identidade à flor da pele

10: Cultura nada inútil

23: Bate-papo

11: Click

26: Achados dos Perdidos

» Maori - uma cultura secular » Mente aberta, corpo fechado

» Conversando com quem entende


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E do Rabisco

Sitatuado No Tempo

Fez- se História Por Amandona Maia

Ö

tzi viveu a cerca de 5.300 anos e foi encontrado congelado nos Alpes em 1991. O corpo mais bem preservado da Idade do Bronze continha 57 tatuagens. Especialistas acreditam que elas foram aplicadas por razões terapêuticas e medicinais. Sabe-se que o desenvolvimento da arte de tatuar acompanhou a história da humanidade por séculos, mas seu local e época de origem são ainda desconhecidos. No Egito, o corpo da sacerdotisa Amunete, que viveu por volta de 2400 antes de Cristo possuía desenhos enigmáticos e uma elipse tatuada na barriga, ligada a um ritual de fertilidade. Registros escritos e físicos, e obras de arte que tratavam da tatuagem egípcia espalharam-se pelo mundo através do contato com outras civilizações, principalmente, com os nômades do oeste da Ásia. Múmias de diversas regiões possuíam inúmeros desenhos de animais, monstros e grifos. No restante da África, desenvolveu-se uma técnica diferente: por meio de cortes surgiam cicatrizes em relevo na pele e as formas não exigiam aplicação de tinta.

Nômades: Os celtas formavam uma tribo que migrou pelo oeste da Europa por séculos até chegar às ilhas britânicas por volta de 400 a.C. Levaram a sua body art, desenhos azulados e em forma de espiral.

Nas culturas do Pacífico, a tatuagem adquiriu mais significados. A mitologia sobre a tradição samoa de tatuar passou da Polinésia para povos da Nova Zelândia à Holanda e Havaí, por meio de lendas, músicas e rituais. Borneo, na Indonésia, manteve-se isolado do resto do mundo, e é um dos poucos lugares que até hoje se aplica à técnica tradicional de tatuar.

Motivos religiosos: Na Índia e Tailândia, permaneceu a crença de que monges, quando aplicavam a tatuagem, transmitiam poderes mágicos. O Hanuman, deus da casta dos guerreiros e admiradores, é um popular símbolo de força, quando desenhado nas pernas e braços. No Peru, múmias tatuadas do século 11 foram encontradas, e registros espanhóis da época da descoberta confirmam que esse era um costume dos nativos da América Central. Maias e Incas desenhavam símbolos de coragem e deuses na pele para adoração.

Charles Darvin, quando escreveu o livro “A Descendência do Homem” em 1871, afirmava que do Pólo Norte à Nova Zelândia não havia aborígine que não se tatuasse.


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Símbolo de exclusão

G

regos e romanos aprenderam a arte com os persas e a usavam para punição e inscrição em escravos e criminosos. Quando Constantine se tornou imperador, ele proibiu a tatuagem facial, que já era comum entre condenados, soldados e gladiadores.

Máfia Japonesa: Durante a Era Tokugawa, século XVII, os japoneses viviam um momento de tranqüilidade e os serviços dos samurais tornaram-se dispensáveis. Alguns juntaram-se a apostadores e ambulantes e deram início à Máfia Japonesa. O grupo ficou conhecido por seus rituais e modos de identificação. De uma antiga tradição de tatuar anéis negros por cada crime cometido, os membros passaram a desenhar dragões, flores, paisagens montanhosas, oceanos agitados e brasões de famílias no peito, costas, braços e pernas.

HOJE, A YAKUZA TEM APROXIMADAMENTE 83,1 MIL INTEGRANTES, MOVIMENTA 47 BILHÕES DE DÓLARES ANUALMENTE E COMANDA DIVERSOS SETORES DA SEGUNDA ECONOMIA MUNDIAL, ENTRE ELES, CASAS DE JOGOS DE AZAR, PROSTÍBULOS, CONSTRUÇÃO CIVIL, BANCOS, AGIOTAGEM E O TRÁFICO DE DROGAS

Nas culturas do Ocidente, o caráter marginal da tatuagem consolidou-se no imaginário popular quando prisioneiros passaram a usá-la como meio de afirmar sua identidade e conquistar autonomia. Para os membros de gangues, um sinal de lealdade e comprometimento com o grupo. Os significados podem indicar a qual grupo você pertence, quais são as suas crenças, quanto tempo passou na prisão - conhecido como tempo de morte - ou até quantas pessoas você matou.


9 Os marinheiros ingleses foram os responsáveis pela difusão da prática pelo mundo, após contato com os polinésios. Em meados do século 18 já era normal a presença de tatuadores nos portos. Os dragões, serpentes-marinhas e sereias eram feitos como prova de suas aventuras e coragem demonstrada diante do desconhecido. Desenhos básicos, com o mínimo de detalhes, bidimensionais e de motivos típicos: flores, corações, âncoras, cobras, pássaros e nomes. A tatuagem tornou-se popular entre as pessoas que freqüentavam os mesmos lugares dos viajantes, desocupados, lutadores de rua, criminosos e prostitutas. Até que o Príncipe de Wales, futuro rei Enrique VII, tatuou-se com uma cruz de Jerusalém. Dos guetos, prostíbulos e tavernas à nobreza.

Tatuagens permaceram como forma de expressão em diversas culturas do mundo por diferentes motivos. Em alguns lugares, símbolo de poder e coragem, em outros, exclusão e crime.


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Maori

Cultura Nada Inutil Por Lari Barreto

Uma cultura secular Maori, em sua língua original Reo Mãori, significa original, nativo; nomeia um povo reconhecido por seu caráter guerreiro e seu forte conteúdo cultural. Hoje, essa população, originária de ilhas da Polinésia, totaliza 15% dos neozelandeses. Nove em cada dez moram na Ilha Norte (uma das duas maiores ilhas da Nova Zelândia); e um em cada quatro fala a língua nativa. Muitos estão integrados às capitais, mas há ainda redutos onde a cultura original ainda é preservada. A Nova Zelândia foi um dos últimos lugares da Terra a serem descobertos e colonizados. Provas arqueológicas sugerem que os Maoris foram os primeiros povoadores da região, vindos do leste da Polinésia. Segundo a tradição oral das tribos, esse povoamento é descrito com a chegada de grandes canoas que cruzavam os oceanos, provenientes de Hawaiki (um local na parte tropical da Polinésia). A região possui riqueza cultural enorme se falan-

do em tatuagens, isso se deve aos Maoris e a sua arte Moko. A tatuagem tradicional Maori é feita com uma espécie de ancinho com uma agulha chamada Uhi, feita de ossos de Albatroz. Ela é percutida com um pequeno martelo, aplicando a tinta vegetal na pele. Do barulho desse processo, surgiu a onomatopéia tatau, que em inglês se pronuncia tattoo, a origem do termo “tatuagem”. A simbologia do Moko, na cultura Maori, está intimamente ligada à posição que o indivíduo ocupa na sociedade. O desenho na face tem um grande poder simbólico, podendo apontar a tribo a qual o indivíduo pertence, sua descendência, profissão, nível social, e até sua trajetória ancestral. Com a popularização das tatuagens tribais nos anos 80, houve um grande interesse pela tatuagem Maori e seus grafismos como o Koro e as espirais duplas ou triplas. E ainda hoje, a arte Moko tem um grande espaço no universo da tatuagem.

» Para conhecer melhor a cultura Maori, uma alter-

nativa é percorrer as trilhas de ecoturismo da floresta neozelandesa, uma das mais ricas do mundo. Há também visitas a parques nacionais e avistagem de baleias. Os passeios são guiados pelos próprios Maoris.

» Outro meio de adentrar a cultura Maori, em seus ritos, tradições e guerras, é ler “As Crônicas de Uitara”. Composta por vários volumes, conta a história do jovem maori Uitara, em seu sonho em virar um grande guerreiro e em suas aventuras, na mágica e rica cultura Maori.


11 Click

Mente aberta, corpo fechado Por Amandona Maia, Lari Barreto, Lella Fernandes e Naju Melo


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Lagarto, 21 anos.


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Gringo, 35 anos.


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Verruga, 32anos.


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Mila, 19 anos.


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Estilo

Identidade a flor da pele Tatuar-se foi por muito tempo associado à identificação de grupos, muitos marginalizados. Na contemporaneidade, contudo, a forma da tatuagem ser assumida e praticada socialmente mudou. Ela deixou de ser taxada como exclusiva da marginalidade e se inseriu nos mais variados contextos sociais, ganhando outros significados.

Por Lella Fernandes

Fotos do Festival Tattoo Show em Singapura por William Cho


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A construção do novo cenário A ideia da tatuagem como algo impuro é ligada ao pensamento religioso judaico-cristão, que considera a modificação corporal uma profanação do corpo. Ela é vista como contrária à ordem dita natural ao transgredir a normalidade por meio de uma marca definitiva. A impureza está também relacionada ao estilo de vida considerado típico dessa prática no mundo ocidental: a marginalidade, a rebeldia, o fora do convencional. O sentido estigmatizador começa a mudar a partir da década de 1980, quando ocorreu a profissionalização dos tatuadores, o incremento da técnica e as novas formas de conceber o corpo. O tatuador ganhou o status de artista e adquiriu, aos poucos, reconhecimento social.

Sendo tatuado O processo inicia-se com a definição do desenho. É a busca de uma ideia com a qual o tatuado identifique-se e, portanto, adquira valor para ser marcada em sua pele. Trata-se de reconhecer sua identidade em uma imagem corporal. Para entender essa escolha é preciso pensar na linguagem moderna da tatuagem mais do que nos

conteúdos. A imagem como representação de uma idéia é relevante pelo que ela é capaz de dizer sobre o indivíduo. É uma forma da pessoa estabelecer uma ligação entre quem se é e o mundo externo. Quando a agulha encosta na pele é apenas o final de um processo de busca de identidade e de significado, por mais que a escolha possa parecer impulsiva. É o momento de concretização da tatuagem. O corpo ocupa um lugar central nas sociedades ocidentais e a tatuagem é atualmente um dos principais objetos de representação da identidade do indivíduo. Modificações corporais são formas pelas quais os sujeitos revelam sua presença no mundo e afirmam sua singularidade. O ato de ser tatuado tem assim o significado de diferenciar-se, sair da multidão, ter algo que torne cada um único. Hoje, os significados são os mais diversos e subjetivos, dependendo do número de tatuagens, do tamanho, do local escolhido, da maneira de mostrálas ou escondê-las. Há desde desenhos pequenos e discretos, tidos como acessórios e ligados a noções estéticas a quem tatue o corpo todo e realize outros tipos de modificação corporal.


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O novo sujeito da tatuagem A prática da tatuagem rompeu diversas barreiras. Não é mais limitada à presidiários ou a marinheiros. Transita por diversas gerações, classes sociais e gêneros. Antes, tatuar-se era basicamente restrito aos homens, devido à associação entre marinheiros, motoqueiros e prisioneiros. Por esse motivo, era vinculada a valores associados culturalmente à masculinidade, como coragem, agressividade e força. O ingresso dessa prática no mundo do mercado neutralizou essas distinções e identidades, em um processo de desmasculinização.

Ainda é tabu? Mesmo com a disseminação da prática da tatuagem nos mais diversos contextos culturais, ainda há entraves nesse assunto. Até hoje há um estigma social incorporado a essa prática, apesar das diversas mudanças ocorridas. Por essa razão, muitos passam por dilemas ao resolveram fazer uma tatuagem. A vontade de

fazer um desenho em sua pele e dos conceitos de transgressão, individualidade e identidade relativos a essa prática convivem com preocupações em relação a aceitação na sociedade. Isso à escolha de locais pouco expostos do corpo para ser em tatuados.

Uma nova religião? A crise cultural e religiosa da sociedade ocidental motiva buscas mais íntimas de sentido. O sujeito moderno constrói, cada vez mais freqüentemente, uma religião pessoal, em um processo sincrético. Essa construção de sentido é bastante similar ao processo de escolha do desenho da tatuagem. Deixar-se tatuar reveste-se de certo sentido religioso, como um tipo de religião pessoal. A tatuagem cumpriria um papel similar ao da religião ao proporcionar ao indivíduo um pouco mais de sentido à dificuldade de existir, um sentido que faz do corpo o seu próprio ícone. Através do tempo e de suas próprias vidas, como uma elaboração incessante, os corpos vão sintetizando o processo de busca e de construção de si mesmos..


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Conversando com quem entende Por Naju Melo

» COMO TUDO COMEÇOU?

Bate-Papo

Sempre desenhei desde moleque, sempre gostei muito de desenhar, mas parei. Quando você cresce você não tem o incentivo. Acaba naquela de que desenhar é legal, é um dom, mas não dá dinheiro. A preocupação, eu acho que hoje na sociedade, é você ser bem sucedido. Depois comecei a desenhar muito com influência de desenhos japonês do tipo Cavaleiros dos Zodíacos e também de quadrinhos.

» ANTES DE SER TATUADOR VOCÊ ERA SERVI-

Sempre gostei de rock, via os caras das bandas todos tatuados e achava massa. Me tatuo porque acho bonito.

Além de tatuador, é estudante de artes visuais e desenhista. Faz cartazes, folders e capa de CD’s para bandas locais. Nascido em Fortaleza, Felipe 25 anos, mas conhecido como Manga, tatua desde 2006 e se mudou há mais de um ano para Brasília. Com clientela espalhada por Brasília, Goiânia e Fortaleza ele dá uma entrevista exclusiva à Flor da Pele e num bate-papo distraído fala sobre a profissão, experiências de vida e é claro sobre arte.

DOR PÚBLICO. COMO FOI ESSA TRANSIÇÃO? Depois de morar em São Paulo, quando eu mudei pra Fortaleza, tomei outro rumo. Fui trabalhar em escritório num órgão público Mas quem desenha desde moleque, quem gosta de verdade, mesmo que esteja trabalhando com algo que não tem anda a ver sempre vai pegar um papel e um lápis pra dar uma rabiscada. Mais ou menos nessa época, eu tava muito na pilha de voltar a desenhar e trabalhava do lado do SENAC e comecei a fazer um curso à noite. Quando comecei a aprender mesmo técnica de desenho, meus amigos botavam pilha dizendo que se eu começasse a tatuar me deixariam tatuar eles. Comprei um quite vagabundo e comecei a tatuar. Meus primeiros desenhos foram frustrantes, mas continuei. Menos de um ano depois, um tatuador tinha visto um desenho meu e queria falar comigo. Fui lá pensado que ia ouvir uma bomba, a tatuagem era bem amadora, mas ele disse que gostou e queria alguém pra trabalhar com ele. Eu disse que trabalhava no escritório e só tatuava a noite e fim de semana. Ele me perguntou se eu queria ser tatuador ou trabalhar num escritório e que se eu decidisse, era pra voltar lá. Depois ouvi de uns amigos a mesma coisa. Aquela pergunta ficou martelando na minha cabeça. No final de 2007, resolvi largar o emprego, largar tudo e me dedicar só à tatuagem. Foi uma das grandes revoluções da minha vida.

» VOCÊ TEM UM ESTILO PRÓPRIO?

Eu gosto do tradicional, o que a galera chama de oldiscool, tanto americano como o neotradicional. Acho o mais bonito, que não é uma tattoo da moda. Também gosto de oriental, na verdade de quase tudo. Não gosto de realismo, faço muito pouco apesar de gostar de desenhos retratistas. Mas pra tattoos não.


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“Misturo, pego a idéia de um e de outro e crio algo com a minha pegada.” diz Manga., sobre o processo de criaçaõ

» QUAL SEU PUBLICO?

É uma galera da cena do rock underground, do hardcore e do punk underground principalmente, porque eu já estou envolvido com isso a bem mais tempo do que a tatuagem. Comecei a tatuar essa galera e até hoje são a maioria do meu público. Com o tempo outras pessoas, amigos de amigos, acabam conhecendo seu trabalho e vira meio que um ciclo.

» PRA VOCÊ, ESTUDANTE DE ARTES E TATU-

ADOR, QUAL A RELAÇÃO EXISTENTE ENTRE TATUAGEM E ARTE? Difícil definir arte na contemporaneidade. Se você tiver um argumento, um objeto pronto, um readymade, que pode ser qualquer coisa, pode ser arte. Como o urinol de Duchamp. É diferente da tatuagem que é um custom-made, que você prepara, mas que também pode ser arte. Então é muito polêmico, porque a arte se define quando você domina a técnica, então tattoo pra mim é arte. É uma maneira de você se expressar e antes de se tornar pura vaidade, a tattoo era algo que definia o status de um individuo na sociedade. Por outro lado, eu gosto muito de ver a tatuagem como arte marginal, aquelas tatuagens de cadeia feitas com máquinas caseiras. Porque a tatuagem veio disso. Acho muito louca essa idéia de você marcar sua

pele com alguma coisa que você gosta muito, o desenho de uma banda que você pira, ou uma homenagem pra alguém especial, sua mãe, alguém que já morreu, e você olhar e aquilo às vezes te dar força. Considero sim tatuagem arte, mas não gosto de ser visto como artista.

» VOCÊ CRIA SEUS DESENHOS? COMO É ESSE

PROCESSO DE CRIAÇÃO? Prefiro criar todas as tatuagens, que é o que eu faço, customizar. Mas tem casos que o cliente chega com o desenho pronto e, dependendo, a gente faz. Às vezes é uma ilustração de um cara que ele gosta ou um desenho que ele mesmo fez. Pra mim, tatuador tem que estudar, tem que saber desenhar. Você tem que ver, observar e conhecer o trabalhos de outros tatuadores. Não é simplesmente comprar uma maquininha, molhar na tinta e sair riscando qualquer um. O processo de criação é referencial. Vou atrás dos desenhos de um cara que gosto, fico horas em sites, myspace e fotolog dessa galera. Baixo as imagens, crio um banco de dados e quando quero me inspirar, vou lá e fico olhando um por um. Misturo, pego a idéia de um e de outro e crio algo com a minha pegada. Meu curso de arte me influência, mas faço o curso mais pra adquirir conhecimento porque é a área da arte em geral que eu me interesso.


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» COMO É A RELAÇÃO DE CONFIANÇA ENTRE

TATUADOR E O CLIENTE? Do jeito que você gosta de um artista e quer ter um quadro dele você gosta da pegada de um tatuador e quer ter uma tatuagem dele. As pessoas de quem eu tenho tatuagem são pessoas de quem eu sou amigo e que eu gostei da pegada. É uma coisa que você vai ter pra sempre na sua pele. Acho que você tem que conhecer o trabalho do tatuador e também não ter vergonha de dizer que não gostou do desenho e que não quer tatuar. Ninguém é obrigado a tatuar. Mas essa relação de confiança é bem legal, eu tenho clientes que só tatuam comigo, mesmo sabendo que tem muita gente boa por ae. Fiz minha primeira tatuagem em 2004 em um estúdio e foi quando eu entrei nesse mundo da tatuagem. Depois disso eu fiquei amigo do cara e comecei a freqüentar o estúdio dele e me sentia a vontade lá. Eu acho massa esse tipo de relação.

» JÁ ACONTECEU DE VOCÊ INTERFERIR NA

TATUAGEM DE ALGUÉM? ACONSELHANDO OU MESMO RECUSANDO-SE A FAZER? Já sim. O que eu sempre aconselho é não fazer nome de namorado, namorada. Na maioria das vezes a pessoa volta querendo cobrir a tatuagem. Acho que é não dar valor ao trabalho, cobrir a tatuagem dá mais trabalho e nem sempre fica perfeita então às vezes eu prefiro até não fazer. Ou aquele tipo de tatuagem que seja muito manjada, que você vê em toda revista e que a galera só ta reproduzindo, também prefiro não fazer. Nem tudo que tá desenhado no papel vai fica le-

Paloma, de Mossoró, tatuada por Manga. “Porque tattoo não deixa de ser vaidade, é uma peça no corpo como uma peça de roupa” diz o tatuador.

gal na pele, então a gente propõem fazer alguma mudança no desenho. Isso tudo é coisa que tem que ser conversada, se o cliente insiste, dependendo, eu recuso. Também me recusaria a fazer uma tatuagem nazista ou algo assim.

» QUAL O SIGNIFICADO DA TATUAGEM PRA

VOCÊ? Tattoo pra mim? Hoje é tudo. Meu corpo tá todo marcado e não tem como eu esquecer isso. É a minha vida, não me imagino vivendo de outra forma. Foi a tattoo que me deu liberdade. É dedicar o meu tempo realmente pro que eu quero e realmente gostar do que estou fazendo.

www.flickr.com/photos/felipemanga http://www.fotolog.com.br/oldiscooltattoos

Manga tatua na Arte Crua com mais 3 colegas: Narmada, uma amiga e convidada do México, Téssia e Guga.


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Achados dos Perdidos O corpo como suporte da arte

Livro de Beatriz Ferreira Pires

Apresenta uma visão prática sobre body modification, relacionado-a com aspectos inconscientes, oníricos, lúdicos e sexuais. Fala das pessoas que fazem intervenções artísticas em seus corpos para reafirmar uma ideia e do caráter nada estático dessa arte.

Quem tem tattoo, quer uma tattoo ou já pensou em fazer uma vai se divertir folheando essas páginas. O livro vai agradar até quem não quer a agulha embaixo da pele. As imagens vão de raros símbolos célticos a simples inscrições, incluindo animais, criaturas míticas e elementos naturais.

Revista Inked Cultura, arte e estilo.

http://www.bmezine.com

O site conta com a contribuição dos usuários, que enviam fotos, vídeos e relatos pessoais. Há notícias e artigos sobre tatuagem, piercing e body modification. O site traz também informações sobre estúdios e sobre os variados processos de modificação corporal.

Todo artista precisa de uma tela. Para Steve Haworth, é carne humana. Documentário sobre o recordista em body modification no Guinness Book. Filmado durante 4 anos, fala de sua evolução como artista e de sua influência em difundir a cultura de procedimento dolorosos.

Modify Filme de Jason Gary e Greg Jacobson

Flesh & Blood Filme de Larry Silverman http://fleshandbloodmovie. com

Tatto you

500 designs for anywhere in your body Livro de Michal Rivilis

BME: Body Modification Ezine

A revista americana ganhou esse mês edição brasileira. Traz entrevistas com gente tatuada e com gente com estilo, ensaios fotográficos e informações sobre estúdios, tatuadores e desenhos.

Histórias de quem faz modificações corporais como estilo de vida, seja por motivos artísticos, seja por pura estética. Contem entrevistas com artistas inovadores nas áreas de tatuagem, piercing e suspensão, dentre outras.


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A Flor da Pele