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FADIGA DE VÔO

CONTEÚDO

Generalidades Elementos Essenciais A Fadiga do Aeronavegante Hipóteses de Explicação da Fadiga do Aeronavegante Tratamento e Profilaxia Quadro Sinótico do Problema


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I - GENERALIDADES A fadiga de vôo é um problema bastante complexo, pois normalmente, temos a nossa atenção chamada à importância da sensação subjetiva da fadiga e, por sua característica, dificilmente transmissível ao observador objeto. Procurou-se, depois de longo tempo de experiências, encontrar na fadiga elementos numéricos, mensuráveis. É preciso, entretanto, distinguir a fadiga, fenômeno agudo e transitório, da "sumennage" ou estafa, resultado de um acúmulo de "fadigas agudas", e que é um fenômeno crônico. Deve-se, também, separar a fadiga, que é reversível, do depauperamento, que pode ser definitivo. De mais a mais, não existe uma fadiga, mas sim, fadigas. Entre elas, algumas são simples, como a fadiga muscular do desportista, avaliável por método simples, ou a fadiga intelectual pura. No entanto, a fadiga do aeronavegante é uma "fadiga complexa". Vários métodos de estudo dessa fadiga podem ser empregados, como o estudo científico baseado em provas, testes, etc, ou o estudo das condições de trabalho, o que está mais de acordo com a realidade do problema.

II - ELEMENTOS ESSENCIAIS 1 - Natureza do Trabalho

Trataremos especialmente do trabalho do piloto, que é o que detém a carga mais pesada na aeronave. a) Trabalho Muscular É pouco significativo, pois a pilotagem é uma atividade sedentária. Tem chamado a atenção dos estudiosos do assunto, todavia, a importância do "trabalho muscular estático" desenvolvido pelo piloto. b) Trabalho Sensorial e Sobretudo Visual É muito significativa, colocando em jogo: a acomodação às distâncias, a luminosidade e outros fatores ambientais. C) Trabalho Neuro-Psíquico É fundamental para a pilotagem devido ao funcionamento das atividades superiores (memória, julgamento, etc.) e das atividades subcorticais e semiautomáticas. 2 - Duração do Trabalho


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Esta foi a primeira causa da fadiga a ser focalizada. É sobre a regulamentação das horas de vôo que as reclamações têm sido orientadas “na verdade, é uma visão simplista do problema. Particularmente, os erros são mais freqüentes na metade do que no fim de um vôo”, 3 - A mbiente de Trabalho

O microclima de cabine (despressurização, temperatura elevada, ar seco, radiação) desempenha, sem dúvida, um papel importante. Os estímulos gerais e as vibrações. (nas aeronaves convencionais e helicópteros) devem ser igualmente considerados. 4 - Características Operacionais • A realização de um vôo de oito horas sem escala é muito diferente da realização de vôos com trajetos curtos, tendo, em cada um deles, uma aproximação, uma aterragem e uma decolagem. • As aproximações nas grandes localidades são difíceis, sobretudo à noite e em áreas de tráfego aéreo intenso. • Têm-se insistido sobre o volume de tarefas a se efetuar em um dado tempo. A velocidade diminui o tempo disponível pelo piloto, aumentando a sua fadiga. • Inversamente, um trabalho monótono, não requerendo a atenção, é por vezes ainda mais fatigante. • Em função do horário de desenvolvimento de vôo, uma sonolência relativa pode ocorrer em percursos longos, à noite. • Papel do atraso na decolagem, com expectativa, nervosismo, etc., já é conhecido. • O ritmo trabalho-repouso é de grande importância. Um vôo seguido de uma possibilidade de repouso e sono não causaria fadiga. A rotura do ritmo nictemeral por mudanças rápidas de fusos horários também tem importância; os vãos Norte-Sul, por vezes mais longos que Este-Oeste são menos fatigantes, pois não há rotura do ritmo. • A personalidade somato-psíquica do indivíduo é igualmente um elemento de importância, tarefa do estado físico e, sobretudo, do psíquico.

A motivação dos aeronavegantes é sempre importante, pois se essa motivação desaparece, a fadiga surge rapidamente. É preciso, pois, levar-se em conta os problemas pessoais, o relacionamento com os outros membros da equipagem, com os superiores, etc., para se apreender todos os elementos que entram na gênese da fadiga do piloto.

III - A FADIGA DO AERONAVEGANTE É uma fadiga nervosa, que põe em causa: • As funções corticais; • As funções subcorticais, diencefálicas; • As funções sensoriais e o sistema neuro-vegetativo.


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Na colocação em jogo desta atividade complexa, mas muito habitual, é necessário frisar o papel desempenhado por: • condicionamento pavloviano - que comporta fenômeno de inibição córtico-talâmica, facilitando o trabalho; e • hábito - a fadiga é mais importante no início, depois, melhora com o costume.

As perturbações metabólicas podem acentuar o aparecimento da fadiga. Um indivíduo que se encontra em atmosfera hipóxica, quente e seca, não está, sem dúvida, em um estado de equilíbrio biológico satisfatório para realizar seu trabalho. Considerando-se que existem correlações estreitas entre o córtex, o diencéfalo, o sistema vegetativo e o conjunto de equilíbrios biológicos, dos quais alguns são regulados por uma homeostase humoral, enquanto outros são diretamente ligados ao funcionamento do sistema nervoso, concebe-se que perturbações metabólicas podem alterar o equilíbrio do indivíduo. A fadiga nervosa seria, então, um fenômeno cujo ponto de partida limitado aos centros nervosos, mas que, por uma série de reações em cadeia e de colisões em retorno, realizaria o equivalente a uma série se agressões, na qual não se saberia qual o órgão que interferiria mais do que o outro. As correções neuro-endócrinas têm sido, também, muito estudadas. Sabe-se que o eixo hipófise-supra-renal desempenha aqui um grande papel (Stress de Selye). Tudo isso é inseparável do estado somato-psíquico do indivíduo. Há, assim, duas maneiras de abordar o problema da fadiga. • biológica - estudando-se as perturbações biológicas; e • psicológica - que vê no psiquismo o motor de todas as perturbações possíveis.

IV - HIPÓTESES DE EXPLICAÇÃO DA FADIGA DO AERONAVEGANTE Os estudos sobre a fadiga muscular, por meio de ergografia, eletromiograma, pesquisa de creatinúria não são concludentes. O estudo das grandes funções, como a respiratória e a circulatória, não permite mais que estabelecer relações entre os números encontrados e a fadiga, levando o estudo para três áreas principais: • Os metabolismos; • As funções neurológicas; e. • As regulagens endócrinas.

1 - Os Metabolismos


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Tem havido especial interesse pela glicemia. Conhece-se, na verdade, sua importância no metabolismo cerebral, embora haja resultados discordantes. Haveria aí, igualmente, uma hemodiluição, uma retenção sádica fora da fadiga. A reação de Donnagio, pondo em evidência a presença de mucopolysacarídeos na urina é um achado favorável. Na verdade, tudo isto tem sido de pouco valor. 2 - As Funções Nervosas

Vários testes neurológicos têm sido utilizados. No domínio sensorial, as explorações têm sido igualmente numerosas. O teste de Flieker (fusão de imagem) mostra perturbações da acomodação, forias nos aeronavegantes fatigado. Os transtornos da função visual sob fadiga têm sido, também, evidenciados, com o eletro-retinograma e o eletropupilograma. 3 - As Regulagens Endócrinas

Os principais estudos têm-se orientado para as funções supra-renais. A maioria dos autores têm constatado que a fadiga aumenta a eliminação dos dezessete ceto-esteróides. Entretanto outros encontraram uma diminuição desses dezessete ceto-esteróides e um aumento dos dezessete-OH e um hiperaldosteronismo. A interpretação dessas dosagens permanece, pois, muito incerta. O balanço global dessas descobertas faz realçar o pouco de aplicações práticas que se podem tirar. E elas não são senão aproximação muito limitada do problema da fadiga. Esse estudo esbarra, então, em dois obstáculos: • ter uma visão limitada do assunto, em vista da necessidade de se fazer uma síntese; ou • realizar estudos globais, que não têm sido possíveis senão sobre um pequeno número de indivíduos.

Isto afasta toda a validade científica das constatações feitas, A mensuração da fadiga permanece muito difícil. A aferição quantitativa é possível. O início da fadiga é impossível determinar, pelos menos atualmente. Os testes propostos são de valor discutível. Demonstram eles, um excesso de funcionamento ou uma reação particular, uma adaptação do organismo colocado em certas condições de trabalho? Podemos considerar a fadiga como uma reação de alarme útil. Mas não se sabe onde fixar o limite além do qual "se pode" estar fatigado. É, pois, impossível, nas condições atuais, dar uma expressão biológica à fadiga, fora dos dados teóricos de laboratório, sem importância prática.


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Somente a clínica permite dizer que um indivíduo está estafado ou fatigado. As informações do paciente, os achados no exame permitem formar uma opinião.

V - TRATAMENTO E PROFILAXIA O tratamento é muito simples: repouso, sono, eliminar as causa da fadiga (eventualmente mudanças de função), às vezes, medicação (tranqüilizantes) agindo sobre o fator psicológico. A prevenção da fadiga é, em troca, muito mais complexa, e não pode ser realizada sem uma ação conjugada entre o médico e a chefia do paciente. Essa prevenção deve ser iniciada cedo, antes de tudo por uma boa seleção. A análise das condições de trabalho é um bom meio de abordar o problema da fadiga do piloto. Este problema é crucial em relação a eles, pois uma fadiga implica em problema de segurança. Além disso, o aeronavegante se ressente, ou corre o risco de se ressentir, precocemente da fadiga. Esse risco de envelhecimento precoce deve ser combatido firmemente, na atividade aérea.

VI - QUADRO SINÓTICO DO PROBLEMA A fim de facilitar o trabalho dos médicos envolvidos com acompanhamento fisiológico de tripulantes, na prevenção e combate da fadiga de vôo, preparamos o seguinte quadro sinóptico dos fatores em jogo, baseados na experiência de vários autores. Acrescentamos que a complexidade do problema, já exposta nos itens precedentes, justifica esse cuidado. 1 - Definição

Condição caracterizada por uma diminuição da eficiência no desempenho de uma atividade, relacionada com a duração ou repetição de vários estímulos. Estresses físicos, fisiológicos e psicológicos podem, isolados ou combinados, agravar o estado de fadiga. 2 - Tipos: • Fadiga operacional aguda; • Fadiga crônica de vôo; • Fadiga física ou muscular (importância restrita).

3 - Efeitos Sobre o Organismo: • Decréscimo das funções psicomotoras; • Estreitamento da faixa de atenção;


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7/10 • Aceitação de um baixo padrão de desempenho; • Diminuição da vigilância (estado de alerta); • Irritabilidade; • Ineficiência.

4 - Influência da Aeronave e do Vôo:

a) Duração dos Vôos • Falsas partidas; • Vôos retardados; • Períodos de espera nas escalas intermediárias.

b) Condições de Repouso • Leitos; • Condições de sono; • Refeitórios; • Recreação e diversão; • Organização de terra.

c) Apoio de Comunicações • Especialmente em regiões extensas e pouco habitadas (Ártico, florestas e oceano).

d) Equipamento Pessoal Desconfortável • Máscara de oxigênio; • Trajes pressurizados; • Trajes de flutuação.

e) Condições Meteorológicas • Antecipação do assento; • Mau tempo com tripulação auxiliar no limite do enjôo aéreo.

f) Desenho e Características da Aeronave • Conforto do assento; • Painel dos instrumentos; • Condições de repouso (sono); • Iluminação da área de trabalho; • Confiança na aeronave; • Sistemas eficientes de aquecimento e refrigeração para climas frios e tropicais; • Condições de alimentação em vôo; • Disposição de instrumentos de vôo.

g) Fatores Tóxicos • Vôo prolongado a 10.000 pés e pouco acima, sem suprimento de oxigênio;


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8/10 • Excesso de monóxido e dióxido de carbono na cabine.

h) Emergências não Previstas i) Ritmos Circadianos • A Real Força Aérea Britânica (RAF) estabelece que dez horas de vôo em aeronave convencional (motor a pistão) ou três incursões de uma hora em jatos de caça produzem graus significativos de fadiga operacional aguda.

5 - Influência do Indivíduo

a) Condições Físicas • Falta de exercícios; • Tônus corporal geral; • Maus hábitos alimentares; • Bebidas alcoólicas na noite anterior ao vôo e durante as paradas intermediárias; • Fumo.

b) Liderança e Espírito de Equipe • Relacionamento com o comandante da aeronave e com os superiores em terra; • Apoio adequado de infra-estrutura e Quantidade de burocracia; • Método de trabalho; • Volume de responsabilidade individual; • Responsabilidade em serviço e fora dele.

c) Fatores Pessoais • Experiência de vão (os primeiros vôos em uma rota costumam ser mais fatigantes); • Dificuldades domésticas • Segurança financeira; • Personalidade; • Motivação e conscientização; • Predisposição (temperamento) - faixa limiar nos testes psicológicos de seleção para • Ingresso.

6 - Profilaxia

a) Afastamento ou Atenuação das Condições Desencadeantes • Físicas; • Fisiológicas; • Psicológicas.

7 - Tratamento


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9/10 • Bebidas e estimulantes com moderação - café • Alimentação glicídica

Estimulantes medicamentosos devem ser evitados por causa dos efeitos colaterais que ocasionam.


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ÍNDICE

CONTEÚDO I - GENERALIDADES II - ELEMENTOS ESSENCIAIS 1 - Natureza do Trabalho 2 - Duração do Trabalho 3 - Ambiente de Trabalho 4 - Características Operacionais III - A FADIGA DO AERONAVEGANTE IV - HIPÓTESES DE EXPLICAÇÃO DA FADIGA DO AERONAVEGANTE 1 - Os Metabolismos 2 - As Funções Nervosas 3 - As Regulagens Endócrinas V - TRATAMENTO E PROFILAXIA VI - QUADRO SINÓTICO DO PROBLEMA 1 - Definição 2 - Tipos 3 - Efeitos Sobre o Organismo 4 - Influência da Aeronave e do Vôo 5 - Influência do Indivíduo 6 - Profilaxia 7 - Tratamento

Fadiga de Voo  

Generalidades, Elementos Essenciais, A Fadiga do Aeronavegante, Hipóteses de Explicação da Fadiga do Aeronavegante, Tratamento e Profilaxia....

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