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N.04 - JUNHO.2013

Os Muros do Instituto Os edifícios do ICBAS Relação ICBAS-FFUP “O Complexo está manco” Entrevista ao Arquiteto José M. Soares


Índice

DIREÇÃO Associação de Estudantes do ICBAS EDIÇÃO João da Eira, 3º ano MIM Micael Costa Pedro Reis Pereira, 3º ano MIM COLABORADORES Alexandra Xavier, 2º ano MIMV Fábio Santos, 5º ano MIM Filipe Martins, 2º ano MIM Joana Santos, 3º ano MIM Madalena Cabral Ferreira, 4º ano MIM Margarida Costa Pereira, 5º ano MIM Mariana Cubal, 3º ano MIMV Marisa Catita, 3º ano MIM Miguel Saraiva, 2º ano MIM Pedro Almeida, 5º ano MIM Raquel Borges, 3º ano MIM Tiago Pais, 2º ano MIM DESIGN E CONCEPÇÃO GRÁFICA SerSilito­‑Empresa Gráfica, Lda./Maia TIRAGEM 200 exemplares

Editorial Destaque Os Muros do Instituto Rua Arcediago de Van Zeller, nº 50 Seminário de Vilar Largo Professor Abel Salazar, nº 2 Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar Rua Jorge Viterbo Ferreira, nº228 Complexo ICBAS­‑FFUP A questão da cantina A relação ICBAS – FFUP Entrevista ao Arquiteto José Manuel Soares Acerca do I AEICBAS Biomedical Congress Opinião de uma participante Fora de Portas Programas de Apoios Financeiros Triatlo de 4 modalidades Ciclo de palestras ICBAS–FFUP Técnica de clonagem produz células estaminais humanas pela primeira vez Tese de Mestrado de Acupuntura utiliza estudantes do ICBAS como modelos de estudo Prémios Incentivo 2013 Economia para Totós Clínica in situ Medicina e Medicina Veterinária CAPs Ciclo de Tertúlias Grupos da Casa VI ICTUNAS – Rescaldo de um Festival Solidário CICBAS VO.U. pelos animais Cultura Ponto de Escuta Kadavar Jacco Gardner The Dark Side of The Moon: 40 Anos Festivais Literatura Domingo à Tarde O homem que escreveu a desmemória Corino Mad Aquela Página Aleatória

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Editorial Corino Mag nº2 – setembro de 2013 A Associação de Estudantes do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto é hoje constituída por (mais de) três mil estudantes, renovando­‑se todos os anos com a chegada de novos colegas que integram uma família que caminha para os quarenta anos. Somos hoje (mais de) três mil estudantes dotados de uma enorme vontade de crescer a todos os níveis: queremos ser dotados de um papel ativo no nosso âmbito profissional, mas também na nossa vida pessoal e na Sociedade em que estamos inseridos. A Sociedade de hoje encontra­‑se em plena mutação: buscam­‑se novas formas de fazer política, novas bases para uma economia global, novos caminhos de ação social. Esta última é, sob uma ótica Weberiana, dependente da atividade de todos e cada um de nós, mas com o fim de ser orientada para o outro. Somos hoje (mais de) três mil estudantes conscientes de que é na educação e através do seu investimento, que advêm, direta e indiretamente, as soluções para os problemas que nos são apresentados. A liberdade é, per si, dependente da educação. O crescimento individual é o reflexo da educação, sendo este catalisador do desenvolvimento de uma Sociedade progressivamente mais una, mais fraterna, mais justa. Somos hoje (mais de) três mil estudantes preocupados com o nosso futuro. Reunidos nos passados dias 14, 15 e 16 de Junho de 2013, no Encontro Nacional de Direções Associativas (ENDA) que decorreu na Universidade de Trás­‑os­‑Montes e Alto Douro (UTAD), foram discutidas várias problemáticas que afrontam o Ensino Superior, entre as quais questões relativas ao Financiamento, Ação Social e Emprego e Empreendorismo. A AEICBAS, em conjunto com as restantes Associações que constituem a Federação Académica do Porto, consideram que, apesar da postura construtiva do movimento estudantil, que apesar dos múltiplos esforços para dialogar, debater e concertar posições, a Secretaria de Estado manteve uma postura de quietude governativa e silêncio político. Ipso facto, estes três mil estudantes juntaram­‑se aos restantes mais de trezentos e noventa mil de todo o país, representados pelos seus dirigentes em sede de ENDA, e aprovaram, por unanimidade, a criação de uma comissão, pelo prazo de cinco meses, com vista a operacionalizar o calendário de coordenação e protesto, bem como a coordenar as ações concretas, em conjunto, a serem realizadas. A AEICBAS continuará, pois, através da FAP, a ser ouvida nesta Comissão, de forma a defender os melhores interesses dos estudantes do ICBAS. Somos hoje (mais de) três mil estudantes, defensores de uma multidisciplinariedade que nos diferencia, e por uma qualidade na educação à qual temos direito. Contamos contigo, para sermos mais fortes. Contamos contigo para sermos mais por Biomédicas! Pedro Ribeirinho Soares Presidente da Direção da AEICBAS­‑UP presidente@aeicbasup.pt

A entrevista ao Arquiteto José M. Soares definiu o rumo da nova edição. As revelações que fez e as questões que levantou tornaram premente uma reflexão sobre quais as condições e prioridades a que deve atender um projeto de uma faculdade, nomeadamente a nossa, reflexão sobre o que a define e o que deve oferecer, mas também uma imersão no arquivo de slides e na sua história para percebemos como foi sendo esta relação do ICBAS com o seu edifício. Sendo esta a última edição da revista em que participo enquanto editor, por terminar o meu manadto na Associação de Estudantes e ter decidido interromper o meu curso durante o próximo ano, considerando terminada a minha passagem pela revista, gostaria de deixar expresso aquele que penso ser o próximo passo a dar, após ter vincado na renovação de conteúdos e imagem que levámos a cabo: uma direcção autónoma em relação à Associação de Estudantes. São dois os principais argumentos para esta posição. Por um lado, a AE, financiando a sua publicação nestes moldes com o que faz no presente, garantiria aos estudantes que representa o direito de beneficiarem de um meio de comunicação entre si, direccionado, que, não protegendo nenhuma eventual posição, os consciencializaria de forma imparcial, condição necessária à sua seriedade. Por outro lado, estaria bem expressa a distinção entre as posições da AE e as que possam ser expressas em entrevistas ou artigos na revista. Estariam afastadas confusões e salvaguardadas posições sensíveis no que toca ao relacionamento com a Direcção da Faculdade, Reitoria ou FAP, por exemplo, sem impedir que temas possam ser abordados por poderem prejudicá­‑las ou levarem a contradição. A AE manteria, ainda assim, a total responsabilidade pela organização e elaboração dos conteúdos que constituem a secção da revista destinada à exposição das atividades e posições que vai tomando. Trata­‑se, a meu ver, de isentar a AE de responsabilidades e libertar a revista para que se possa afirmar definitivamente na vanguarda de uma universidade mais aberta, participativa e contestatária.

João Eira A MAGAZINE DE ESTUDANTES DO ICBAS PARA ESTUDAN T E S D O I C BAS 3


Os muros do Instituto Por João da Eira Fábio Videira Santos Margarida Costa Pereira Madalena Cabral Ferreira João Rui Seixas

Destaque

Pedro Reis Pereira

Os muros sustêm. Sustêm o projeto e os ideais. Moldam os passos de quem os vive à sua forma e deixam­‑se marcar também. No fim do primeiro ano passado nas novas instalações, encontramos o balanço da mudança todos os dias, na boca de quem as frequenta. “De quem vive a obra”, palavras de José M. Soares, o arquiteto responsável pelo projeto do Complexo, que entrevistámos para esta edição. Simultaneamente, surgem no edifício antigo os primeiros sinais de mudança, uma faixa da Faculdade de Nutrição. O que vai acontecer?

Os muros delimitam. Abel Salazar quebrou fronteiras. Entre arte e ciência, entre as ciências, entre académicos e sociedade. O ICBAS junta em si 5 cursos diferentes. Os seus estudantes convivem, agora, diariamente, com colegas de uma nova faculdade. Que muros os separam? Fronteiras concretas também. O edifício do Complexo está rodeado de um muro cego que nunca esteve previsto. Não está ligado ao Palácio de Cristal, como esteve previsto. Os espaços de convívio, de desafogo, são improvisados em recantos da construção imensa. O investimento em conforto é supérfluo e prescindível? 4 N . 0 4 - j u n h o 2 013


Rua Arcediago de Van Zeller, nº 50 Seminário de Vilar Facto pouco conhecido dos estudantes atuais é que o atual complexo ICBAS­‑FFUP não é a segunda casa do nosso Instituto, mas antes a terceira. Os primeiros anos do Instituto foram passados no Edifício do Seminário de Vilar (local onde decorreu este ano o AEICBAS Biomedical Congress – que se quis, de certo modo, um “regresso às origens”). A situação sempre foi temporária, o Professor Nuno Grande conseguiu a cedência do espaço para albergar

o recém­‑criado Instituto enquanto eram concluídas obras no edifício que lhe seguiu. Foi aliás, no sótão do edifício do seminário que o Professor Nuno fez a primeira peça do nosso Museu Anatómico (hoje Museu Anatómico Professor Doutor Nuno Grande, no piso do Departamento de Anatomia): o recém­‑nascido com os braços e pernas em extensão – peça ótima, aliás, para estudar o braço e antebraço e onde se pode ler, na etiqueta, em baixo, o nome do seu preparador.

Largo Professor Abel Salazar, nº 2 Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar

Como um espectador inseparável, a estátua de bronze de Júlio Dinis, ela própria já coberta pela pátina dos dias oxidados, não só vislumbrou a construção como tem acompanhado a maturidade e o envelhecimento deste nosso edifício do Largo do Professor Abel Salazar, o nostálgico «ICBAS velho». No seu átrio da entrada, ladeado pelos egrégios bustos de Abel Salazar, nosso patrono, e Corino de Andrade, um dos nossos pais fundadores, já ecoaram os céleres passos de um rodopio de estudantes, professores e outras tantas pessoas, de várias faculdades e de outros tantos cursos, que compõem a história da grande comunidade académica do Porto. Comecemos, como manda a etiqueta, pelo início, quando se fez luz sobre o ensino médico da cidade invicta. Em 1825, a par da sua congénere de Lisboa, foi criada a Régia Escola de Cirurgia, transformada, por decreto, em 1836, na Escola Médico­‑Cirúrgica do Porto. Esta funcionou, tal como a antecessora, nas instalações do Hospital de Santo António, não tendo demorado muito a notar­‑se a escassez de espaços que pudessem acomodar, convenientemente, quer o teatro anatómico, quer a biblioteca, pelo que a ideia de albergar a escola num edifício próprio ganhou pertinência. No entanto, essa decisão tardou. Virou­‑se o século e, em 1911, após a implantação da República, com a criação da Universidade do Porto através do decreto de 22 de Fevereiro, a Escola Médico­‑Cirúrgica deu origem à Faculdade de Medicina, que se confrontou com os mesmos problemas. Entretanto, a cedência do extinto Convento dos Carmelitas (hoje ocupado pela Guarda Nacional Republicana) não se verificou, pelo que se acordou a construção,

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no terreno adjacente, do edifício que conhecemos. O projeto, levado a cabo pelos arquitetos Rogério dos Santos Azevedo (1898­‑1983) e Baltazar Castro (1891­‑1967), e combinando os estilos neoclássico da frontaria com o “Art Déco” do interior, foi inaugurado em 1935. Já nessa altura, mais precisamente desde 1926, a estátua de bronze de Júlio Dinis – pseudónimo literário de Joaquim Guilherme Gomes Coelho (1839­‑1971), ilustre alumnus, e depois professor, da Escola Médico­‑Cirúrgica – habitava, serena, o seu espaço no antigo Largo da Escola Médica, hoje por todos conhecidos como o Largo do Professor Abel Salazar, e começava a testemunhar a sua vivacidade académica. Mas a Universidade é composta de dinâmica e, em 1960, a Faculdade de Medicina transferiu­‑se para o novo pólo da Asprela, beneficiando da construção do Hospital de São João. No hiato que vai desde esse ano até à criação do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) em 1975, o edifício esteve ocupado pelas Faculdades de Letras e de Ciências, acolhendo também outros serviços universitários, como a cantina dos Serviços Sociais. Se o ano de 1975 foi fértil na agitação política e social de Portugal, com o Processo Revolucionário em Curso (PREC) que se desencadeou após a Revolução dos Cravos, também a criação do ICBAS, e a sua instalação, com a duração prevista de três anos, encontraram um apertado circo burocrático, sendo conhecidas as famosas viagens do Professor Nuno Grande a Lisboa para obter autorizações ou outras assinaturas necessárias. Quando o primeiro ano letivo do novo Instituto, o de 1976/77, se iniciou, os cerca de duzentos alunos admitidos conviveram ainda com a antiga Cantina, o Orfeão, a Biblioteca da Faculdade de Letras (que ainda não tinha sido deslocada para o Campo Alegre), bem como algumas salas de aulas do Instituto Superior de Educação Física (embrião da atual Faculdade de Desporto) e dos departamentos de Química e Física da Faculdade de Ciências. E tudo isto impressiona pela capacidade de erguer uma escola multidisciplinar num edifício já muito povoado, esticado até ao limite dos seus recursos, para muito tendo contribuído a imaginação e a criatividade de fazer muito com pouco, algo que se tornou uma força motriz das «Biomédicas». Os primeiros passos do novo inquilino do edifício encontraram um primeiro e trágico obstáculo no ano de 1992, altura em que um grande incêndio deflagrou na madrugada de 5 de Março. Infelizmente, conhecem­‑se apenas as marcas e as cicatrizes deixadas, já que as causas do mesmo nunca se apuraram. Sabe­‑se que teve início no Salão Nobre, o qual ficou totalmente destruído, afetando vários pisos na ala sul e da nave central. Como se o incêndio

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não fosse só mau por si, o combate dos bombeiros trouxe com ele efeitos nefastos, com a inundação de várias salas e a inutilização de muitos dos seus componentes. Muitos dos serviços tiveram de ser transferidos, o que obrigou a mais contorcionismo logístico. Até à mudança para as novas instalações na Rua Jorge Viterbo Ferreira, em 2012, o edifício antigo manteve­‑se como a face visível e distinta da instituição, que floresceu e ganhou notoriedade científica e o reconhecimento da sociedade. Contudo, nos últimos anos, eram já muitas as dificuldades em suprir as exigências letivas. Disso eram exemplo as várias falhas diárias na rede elétrica de que os alunos mais velhos e funcionários certamente se lembrarão. O facto de a rede elétrica já não se coadunar com o equipamento tecnológico que foi sendo adquirido levava a que muitas experiências e processos de investigação fossem interrompidos e comprometidos, resultando em acentuadas perdas de tempo e dinheiro investidos. Para já mantém­‑se como suporte do Ciclo Clínico do curso de Medicina. Mas é já conhecido o seu destino. Sofrerá obras de remodelação e, ao que tudo indica, será partilhado com novos colegas, vindos da Faculdade de Nutrição. Esta terá como entrada a porta principal e desenvolver­‑se­‑á em altura em volta do conhecido corredor central. Existirá também uma outra porta na lateral, voltada para o Hospital, que dará acesso à parte do edifício que, depois da remodelação, continuará a apoiar o Ciclo Clínico. Ao longo dos tempos, o edifício antigo foi mudando porque as pessoas também mudaram, mas tem­‑se mantido como o cordão umbilical de todos os «icbasianos», numa forte vinculação que se estende até à memória coletiva de grande parte da Academia do Porto. Encerra segredos, desencontros, amores, desesperos, felicidade, objetivos e compromissos. E a sua história, felizmente, não acaba aqui.

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Rua Jorge Viterbo Ferreira, nº228 Complexo ICBAS­‑FFUP

Em Setembro de 2002 foi lançado o concurso público para a construção de um novo edifício que albergaria o ICBAS e a FFUP em terrenos pertencentes ao Hospital de Santo António e Universidade do Porto. Por volta de 1830, por alturas do Cerco do Porto, a área recebe várias tendas militares e, desde então, após a construção de um primeiro quartel, com uma planta em U semelhante à do edifício que foi restaurado, e sua posterior ampliação, os terrenos mantêm essa função até ao PREC no pós­‑25 de Abril, trata­‑se do CICAP (Centro de Instrução Auto do Porto). Aí, após aquele que ficou conhecido como o Verão Quente, no início de Outubro de 1975, dá­‑se uma manifestação dos soldados mais afetos aos setores da esquerda contra Pires Veloso, tido como contra­‑revolucionário, que ficou conhecida como conflito CICAP / RASP (Regimento de Artilharia da Serra do Pilar). A 4 de Outubro, Pires Veloso ordena a desativação do quartel do CICAP à qual se seguem confrontos violentos entre os militares do RASP que haviam ocupado o quartel do CICAP e militantes do PPD que apoiam Pires Veloso. Desativado o quartel, o edifício é depois dividido entre o Hospital de Santo António e a Universidade do Porto que o vem a usar para dar lugar à sua Reitoria que, mais tarde, é transferida para o edifício na Praça dos Leões. O vencedor do concurso é o projeto apresentado pelo gabinete Em 2005, fica concluído o projeto de licenciamento, projeto que é instruído de forma a obter uma aprovação oficial por todas as entidades competentes para o fazer: câmara municipal, CCDR, organismos centrais, bombeiros, IGESPAR, ASAE, entre outras. A construção é finalmente iniciada em 2007. Os fundos de que o ICBAS dispunha para a obra eram provenientes de

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um acordo previamente estabelecido entre o Ministério da Saúde e as várias Escolas Médicas As novas instalações, inauguradas a 20 de Janeiro de 2012, mas plenamente operacionais só alguns meses mais tarde, deveriam resolver alguns problemas que a situação anterior levantava. Reunir, o mais possível, os estudantes e corpo docente do ICBAS sob o mesmo teto, minimizando a dispersão existente dos alunos entre outras instituições como o IBMC, IPATIMUP, CIMAR, etc. Procurou­‑se igualmente a proximidade entre salas de aulas teóricas e práticas, se possível no mesmo edifício e mesmo piso, evitando as deslocações excessivas dos estudantes. Outra proximidade conseguida foi aquela entre pessoas e laboratórios pertencentes ao mesmo departamento. Apesar de se ter posto a hipótese da construção de uma biblioteca para cada uma das faculdades, a ideia rapidamente foi abandonada. Num dos exemplos de cooperação entre as duas instituições, juntaram­‑se as publicações e espólios bibliográficos num espaço comum dividido entre uma área reservada para estudo em silêncio e outra mais indicada para o trabalho em grupo. Por necessidade de um espaço amplo e com capacidade para um grande número de alunos esta última área é encerrada aos estudantes durante a época de exames para que eles lá possam ser realizados. Contudo, essa é, paradoxalmente, a época em que os estudantes de ambas as faculdades mais necessitam de espaços de estudo e trabalho. O horário de encerramento está para já fixado nas 19 horas. O Professor Baldaia revela a intenção do ICBAS de que este fosse estendido até à


meia­‑noite, algo que até agora não foi possível devido aos custos que isso implicaria em termos de horas de trabalho de funcionários. Falando ainda em termos económicos, o Professor Baldaia manifesta a vontade de partilhar alguns números connosco naquilo que à existência e funcionamento deste novo ICBAS concerne. São cerca de 32 000 euros de eletricidade e 5000 a 6000 euros em gás, para além das despesas com a limpeza e segurança, que são necessários despender por mês em manutenção. Contudo, segundo o Professor, estes números estão dentro daquilo que era o previsto e não houve ainda necessidade de cortes.

A questão da cantina

Com a mudança de instalações para o novo complexo ICBAS/FFUP, os estudantes, docentes e funcionários passaram a ter ao seu dispor um serviço de cantina e snack­‑bar. No entanto, os problemas deste espaço rapidamente se tornaram visíveis e um tópico comum nas conversas do dia­‑a­‑dia: o espaço é claramente insuficiente (168 lugares sentados, para uma comunidade de cerca de 4 000 pessoas), há frequentemente grandes filas de espera ao almoço e as senhas têm de ser compradas nos dias anteriores ou até às 10h do dia em que pretende adquirir a refeição, com um acréscimo de 0,60€ neste último caso. Para tentar perceber tudo isto e o que está a ser feito para se resolver, a Corino falou com o Professor Luís Baldaia, subdiretor do ICBAS, Joana Magalhães, presidente da Direção da AEICBAS e com Alice Jeri e Maria Cunha, estudantes de Medicina dos 6º e 3º anos de Medicina, respetivamente, que com mais duas colegas dinamizaram um protesto na cantina no dia 19 de março. O Professor Luís Baldaia começou por explicar que este não era um problema de projeto. Inicialmente, o novo Complexo ICBAS/FFUP não contemplava uma cantina,

mas apenas um snack­‑bar para cerca de 200 alunos, porque estava prevista uma cantina central da UP nesta zona, perto do Jardim do Carregal, que até à data, não foi construída. No entanto, só quando a obra do Complexo já estava em fase de acabamentos, em 2011, é que se percebeu que, devido a atrasos sucessivos no financiamento, o projeto da cantina central não iria avançar. O bar, de paredes ainda a ser pintadas, nunca considerado como cantina, teria também de o ser. A concentração foi convocada devido a todos os problemas mencionados, tendo o objetivo simbólico de ter 4 000 alunos na cantina. Segundo Alice Jeri e Maria Cunha, duas das organizadoras, este protesto, independente das Associações de Estudantes (AE’s), pretendeu pressionar as Direções de ambas as faculdades, a Reitoria e o Ministério de Educação e Ciência a procurar e executar soluções. Cientes dos entraves financeiros que se colocam a qualquer melhoria logística no espaço e condições da cantina, aquelas alunas fizeram circular uma petição, que ficou com cerca de 750 assinaturas e entretanto foi enviada ao Ministério da Educação e Ciência, com cópias com conhecimento das Direções A MAGAZINE DE ESTUDANTES DO ICBAS PARA ESTUDAN T E S D O I C BAS 9


José Manuel Soares); a esplanada vai ser aumentada; em conjunto com a Direção da Faculdade de Farmácia, vão ser adquiridos mais 5 microondas, que estarão ao dispor dos estudantes no piso 0 e as AEs falarão com os Conselhos Pedagógicos de ambas as faculdades para que os horários permitam a existência de mais turnos de almoço, evitando a existência de longas filas de espera, o que é crítico sobretudo pelas 13h.

do ICBAS e da FFUP e da Reitoria da Universidade do Porto (UP). O objetivo deste abaixo­‑assinado é pressionar o financiamento, por parte daquele Ministério. Em relação a este protesto, Alice Jeri e Maria Cunha consideram positiva a sua concretização e dizem que apesar de pouco participado (muitos estudantes não foram à cantina nesse dia, com receio de uma enchente), houve alguns alunos que se deslocaram de propósito para participar na concentração. Questionados sobre a mesma, Joana Magalhães diz preferir a via institucional para a resolução dos problemas e o Professor Luís Baldaia afirma que o protesto foi muito mediático e pouco participado, embora seja sensível às razões dos estudantes, referindo ainda que o bom funcionamento dos serviços sociais é ainda mais importante hoje em dia, devido à grave crise económicossocial que o País atravessa. Todos concordam que o protesto fez com que o assunto fosse debatido na comunidade ICBAS/ FFUP, o que originou um comunicado conjunto das AE’s, com informação do que estava a ser feito para resolver esta questão. Por fim, quanto à antecedência necessária na aquisição de senhas, a Direção do ICBAS mostra­‑se contra, sendo esta, contudo, uma exigência dos SASUP. Ambas as direções, refere o Professor Baldaia, prefeririam que fosse outra a empresa a explorar a cantina, ao invés dos SASUP. Quanto às soluções possíveis, Joana Magalhães e o Professor Luís Baldaia referem o que está a ser feito: há a hipótese de aumentar o espaço da cantina, em direção ao edifício da AEFFUP (esta possibilidade já foi falada com as Direções de ambas as faculdades e com o arquiteto responsável pelo edifício,

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A relação ICBAS – FFUP Desde Janeiro de 2013 que os estudantes do ICBAS e da FFUP partilham a mesma casa, conhecida como o Complexo ICBAS­‑FFUP. Muito mais do que viverem sob o mesmo teto, estes cerca de 4.000 estudantes da Universidade do Porto partilham diariamente uma rotina. Em jeito de balanço destes primeiros meses de convivência de alunos com tradições e áreas de estudo diferentes, fomos ouvir os Presidentes das Associações de Estudantes de ambas as faculdades, Joana Magalhães, da AEICBAS e Paulo Malta, da AEFFUP. O que pensam os estudantes desta mudança, depois de totalmente concluída? A Presidente da AEICBAS considera os estudantes têm duas posições quanto às novas condições atuais do quotidiano letivo, os que “já aceitaram a mudança e estão contentes” e os que “ainda não aceitaram bem esta junção”. No entanto, acredita que para aqueles que estudam no ICBAS e “acreditam na multidisciplinariedade, ter no mesmo espaço mais estudantes de outra faculdade e de outro curso, que é também da área das Ciências da Saúde, vai trazer inúmeros benefícios”.


O Presidente da AEFFUP é da opinião de que a relação entre os estudantes tem corrido sem grandes percalços. “Não há qualquer tipo de problema, acho que os estudantes têm sabido conviver.” E “se alguém pensou que poderia haver problemas, estava completamente enganado.” Paulo Malta tem testemunhado um “convívio diário”, na biblioteca e na cantina e nas salas de estudo e um relacionamento harmonioso entre os estudantes. “As pessoas têm começado a perceber que têm que ter respeito uns pelos outros. Os períodos de avaliação são diferentes: enquanto vocês têm uma altura em que estão a estudar, nós estamos mais livres e vice­‑versa”. O dirigente associativo pensa que “esse respeito tem existido.” Quanto ao estabelecimento de novas amizades entre os alunos das duas faculdades, Joana Magalhães conhece vários casos, que podem ser propiciados por pequenas coisas como “estarmos na fila da cantina e termos à nossa frente uma pessoa de Farmácia”. E à pergunta de se serão diferentes as razões que levam icbasianos e ffupianos a não travarem amizade das razões que levam estudantes de anos e cursos diferentes do ICBAS não se conhecerem, a resposta da Presidente é direta: “é a convivência com as pessoas que determina as amizades”. Paulo Malta acrescenta que muitos dos estudantes das duas faculdades já se conheciam, tendo mesmo sido colegas “antes de virem para a faculdade”. “Acima de tudo somos universidade e depois somos faculdade”, argumenta o Presidente da AEFFUP perante eventuais problemas de relacionamento. Afirma que a manutenção de boas relações entre os alunos “vai da mentalidade de cada um, não de uma mentalidade coletiva. Acho que isso não existe. Sem dúvida que há problemas a nível infraestrural, mas isso é a nível de faculdade, não são problemas entre as pessoas.” O Presidente refere ainda como ponto positivo que desde o início as relações tenham avançado “de uma forma natural, sem se tentar provocar propositadamente uma relação” entre os alunos de ambas as faculdades. No que toca à relação entre as duas associações de estudantes, o balanço é positivo para ambos os dirigentes associativos. “A relação entre as associações começou antes do início das mudanças. Todo o processo de mudanças foi acompanhado pelas duas associações e alguns problemas que foram detetados inicialmente foram discutidos entre as duas AE”, relata o presidente da AEFFUP. ”A colaboração tem sido notória. Se assim fosse, não haveria publicidade conjunta” às atividades de cada associação, exemplifica.

Joana Magalhães refere que, para a AEICBAS; o estabelecimento de uma boa relação com a associação de estudantes de Farmácia foi uma prioridade “desde o início”. “Temo­‑nos conseguido entender em relação às instalações e temos procurado em conjunto soluções para as instalações que partilhamos “ Ambos os dirigentes associativos referem a festa Complexus como o melhor exemplo da colaboração entre as AE. Paulo Malta afirma que o papel das AE é “dar oportunidades, e quem quer participar, participa”, sugerindo a continuação da realização de atividades, não só de índole lúdica, como a referida festa, mas também de índole científica, dando como exemplo as conferências “Avanços da Ciência”, organizadas em parceria pelas duas faculdades e que poderiam ser complementadas por iniciativas das AE. Conclui apelando aos estudantes para que sejam participativos, podendo estas iniciativas ser organizadas por “grupos informais de estudantes.” “Ter mais atividades em comum” e que “as associações vejam as atividades de uma e de outra um bocadinho mais como suas” procurando “estimulá­‑las perante os estudantes que representam.” São as sugestões de Joana Magalhães para promover as relações entre os alunos das faculdades. O presidente da AEFFUP chuta outra proposta: “Quem sabe, um torneio desportivo no complexo”, com o objetivo de “fomentar a prática desportiva” e melhorar as relações entre os alunos. Ao nível das Direções a relação tem sido igualmente positiva. O Professor Baldaia informa­‑nos acerca da existência de uma comissão paritária de 4 pessoas constituída por elementos de ambas as faculdades que reúne regularmente para discutir e decidir sobre os assuntos relativos aos Complexo, “sobre os problemas de condomínio”, brinca o Professor. Questionado sobre a possibilidade de uma futura fusão das 2 faculdades, afirma que tal não lhe parece provável – as faculdades têm estilos diferentes e os custos foram já diminuídos através do diálogo e de várias estratégias de cooperação, não encontra nenhuma vantagem adicional que a fusão pudesse trazer.

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Entrevista ao Arquiteto José Manuel Soares José Manuel Soares, nascido no Porto, formou­‑se em Arquitetura formou pela Escola Superior de Belas Artes do Porto e é docente na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto desde 1984. Para além do Complexo ICBAS­‑FFUP, foi responsável, entre outros, pelos projetos da Biblioteca Almeida Garrett, situada no Palácio de Cristal, do Planetário do Porto, do Instituto de Design da Universidade do Minho e da Porto Business School, agora em fase de construção. Extremamente cooperante na concretização desta entrevista, aceitou o nosso convite e convidou por sua vez a Revista Corino a deslocar­‑se ao seu escritório na Rua da Restauração onde nos expôs, numa conversa informal ilustrada acompanhada por maquetes, fotografias, vídeos e plantas, a sua visão sobre o projeto do Complexo, do papel às paredes. Quisemos, antes de mais, perceber a sua ideia sobre a identidade do ICBAS e começámos por questioná­‑lo sobre o antigo edifício. A pergunta agrada­‑lhe e confessa­‑nos que não podia deixar passar a oportunidade da entrevista sem falar, mais à frente, de um assunto em que ninguém tem tocado e que está a cair no esquecimento. Um assunto que tem muito a ver com a noção que eles tinham do que era a nossa antiga faculdade e daquilo em que se tornou. Comecemos então. “Conhecíamos o ambiente do ICBAS antigo muito bem, conhecíamos as coisas boas e as más também. Claro que

faltava espaço, os cursos estavam dispersos, o microscópio eletrónico estava onde estava. Mas o que é que tinha de bom? Espaços de convívio e encontro das pessoas. Um pouco desorganizado, é certo, lembro­‑me de entrar pelo corredor central de pé direito triplo e ver estudantes a comer, namorar, estudar, a ter reuniões, a circular, a falar com professores, até a dormir vi alguns. Este conjunto é o que se pode dizer que constitui o coração de uma escola, onde há troca, onde os alunos do 1º ano podem conhecer alunos do 5º. Sempre achei incrível o ambiente do ICBAS, diferente de quase todas as escolas que conheço, pela proximidade entre todos, sejam funcionários, professores ou alunos. A Corália conhecia os problemas mais íntimos da empregada de limpeza! E esse ambiente, esse contacto materializava­‑se naquele espaço de entrada. Um tipo de espaço que é impossível projetar desde há 20 ou 30 anos. Com a passagem melhoraram a qualidade dos espaços disponíveis mas passaram de uma escola onde o espaço principal era o espaço de convívio para uma onde o principal é o espaço de aulas.” Os terrenos que os edifícios novos do ICBAS foram ocupar situavam­‑se à mesma cota do pátio do edifício restaurado e anterior quartel e dos terrenos do Palácio de Cristal, sendo que a rua existente entre eles havia sido escavada para alcançar a Rua da Restauração. José Soares considera que o seu projeto terá vencido o concurso porque, ao contrário das restantes propostas, que apresentavam “projetos de construção”, o seu tratava­‑se de um “projeto de escavação”. Naquela que o Arquiteto considera a principal operação deste projeto, camiões desceram a rua da Restauração, durante um ano, carregados de terra retirada do sítio onde agora se situam as torres para descarregá­‑la depois no Porto de Leixões. É que a nova gare de receção dos passageiros de transatlânticos, agora em construção, a porta de entrada no Porto de quem chega pelo Oceano, está assente na terra retirada para dar lugar ao Complexo. E qual a vantagem desta opção? Erguer as três torres com as dimensões e alturas exigidas pelas faculdades a partir da cota inicial do terreno (que, lembramos, era a do pátio em frente ao edifício restaurado), levaria a que estas se impusessem de forma muito mais marcada na paisagem da cidade e iria configurar um tipo de projeto que não é o

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adequado para uma escola – obrigando à deslocação dos alunos em altura, subida de várias escadas, acarretando mesmo possíveis complicações ao nível da segurança. Os estudantes do Complexo vêem assim a generalidade das suas atividades quotidianas concentradas nos pisos inferiores, necessitando de subir no máximo dois lanços de escadas, numa grande extensão horizontal que se estende pelo espaço das várias torres e do edifício central sem denunciar as suas fronteiras. “Ganhou uma solução que tem muitos pisos térreos. Os alunos podem usar três plataformas para se deslocarem, correspondentes ao piso 2, 1 e 0.Deveria existir ainda uma quarta, sobre a qual falaremos adiante.” Quanto ao restauro do edifício do antigo quartel e a sua conciliação com os novos edifícios e espaços, José M. Soares afirma tratar­‑se de uma realidade cada vez

mais frequente, tendo sido a sua principal preocupação a “integração mantendo a qualidade conseguida nas novas instalações”. Já na biblioteca procurou erguer um “espaço com qualidades de estabilidade, recolhimento e síntese entre individualidade e comunidade.” Com uma localização privilegiada na encosta sobre o Rio Douro, impõe­‑se perguntar porque não foi tirado um maior proveito desta relação com o rio, os únicos espaços que permitem uma vista desafogada para este cenário tão portuense situam­‑se nas extremidades das 3 novas torres. O Arquiteto explica­‑nos que dadas as exigências feitas pelas Faculdades, a volumetria exigida, a solução quanto à forma dos espaços teria de ser mantida assim. A única hipótese era, então, mudar a orientação do conjunto, de forma a que as extremidades ficassem voltadas para a nascente do rio e a Baixa da cidade, ficando assim uma torre com a vista para o rio ao longo de todo o seu comprimento, mas as restantes sem acesso. Sendo essa uma opção injusta, procurou­‑se tirar o melhor partido dos pequenos espaços sobre o rio. E os espaços de convívio? Em entrevista anterior ao Professor Baldaia, é o próprio a apontar esta como uma das falhas das novas instalações; logo nos primeiros tempos a necessidade foi percebida e a solução improvisada envolveu as salas que estão no início do corredor no piso 1 do edifício 3. Mas lamenta que no projeto não estivesse previsto um espaço mais adequado. Tendo o Arquiteto já tocado neste ponto como uma grande diferença em relação ao antigo edifício, procurámos a sua justificação. “O espaço de convívio acabou por se limitar aquela cantina. Aquela cantina que foi projetada para 200 alunos, não como cantina mas sim como bar. Enquanto fazíamos o projeto desta cantina, estava igualmente a ser feito o projeto da cantina central da Universidade do Porto que se situaria no Jardim do Carregal e iria servir alunos de

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vários polos, das faculdades do centro da cidade.” Como já referimos nas páginas anteriores, a solução para este problema irá passar eventualmente por uma ampliação em direção à AE da FFUP, o que ainda assim não resolve a questão dos espaços de convívio. José M. Soares também não pensa que a solução esteja aí e prossegue. A verdade é que nem tudo o que estava projetado foi construído, um olhar mais atento e treinado percebe isso rapidamente e quem vive, como nós, a obra todos os dias, acaba por senti­‑lo. Perante as nossas perguntas sobre o contexto do Complexo, sobre a relação com os edifícios do CICAP e Palácio de Cristal que o ladeiam, José Soares deixa escapar alguns traços de satisfação sob o ar grave que agora assume. Tocámos, segundo ele, no ponto essencial desta entrevista, na coisa mais importante que tem para nos dizer. Não podia deixar passar a oportunidade sem falar de uma situação que está a ficar esquecida, da qual quer que tomemos consciência e que urge denunciar. Pede que nos aproximemos, puxa o computador e a maquete para junto de si e começa a explicar. Por volta do ano 2000, pensava fazer­‑se do Santo António um grande pólo da área da Saúde que continha tudo e Farmácia. No concurso foi pedido um projeto para os 3 edifícios do Complexo ICBAS­‑FFUP, o Hospital Joaquim Urbano, um siloauto para 1000 carros e um edifício para o CICAP. Mais tarde, no projeto de licenciamento enviado para a Câmara Municipal, em 2005, a ideia de transferir o Hospital Joaquim Urbano para esse recinto foi abandonada, tal como a de erguer o siloauto. Nesse espaço, em vez do siloauto, nasceria o edifício do CICAP, algo que se cumpriu­‑ podemos vê­‑lo hoje, pouco antes de chegar ao ICBAS, no edifício cilíndrico branco.

No mesmo projeto de licenciamento apresentado pelo gabinete do Arquiteto José Soares estava prevista uma relação contínua entre todos estes edifícios, não seria obviamente necessário contornar todo o antigo quartel para passar do CICAP ao ICBAS, como agora acontece devido a uma grade colocada no pátio junto ao espaço da AEICBAS. Mais, a escadaria principal que ladeia a biblioteca e domina o 2º piso iria ter, não a um muro, mas a um grande jardim, partilhado com os edifícios do Hospital e que podia também ser acedido a partir do piso da AEICBAS e CICAP. O jardim continuava e estendia­‑se contornando a terceira torre, prosseguindo paralelo a esta, alcançando a visão do rio e culminando, por fim, numa terceira ponte (atualmente só existem duas que, para além dos túneis, ligam as extremidades das três torres) que ligava estes jardins e todo o Complexo ao Palácio de Cristal. O estado de abandono dos terrenos onde tudo isto ia nascer e o aspeto provisório ou degradado dos edifícios que ficaram estão lá para atestar que o destino era outro mais ambicioso. Sem este elemento José Soares afirma: “o edifício está manco, inacabado”. Reconhece a grande densidade de construção que existe agora, foi a resposta possível às exigências das Faculdades em termos de espaços, mas esta encontraria o desafogo nos jardins que se estendiam por dois patamares e no Palácio de Cristal. Estava aí a possibilidade de espaços de convívio, porque dentro dos limites do atual Complexo, “não vale a pena inventar”, o Arquiteto afirma: “a capacidade construtiva esgotou­‑se, este projeto foi ao seu máximo.” “Os terrenos em causa [como mencionámos na história do encerramento do quartel] pertencem ao Hospital de Santo António. Seria necessária a sua cedência e a transpor dos edifícios que ocupam parte do espaço. Seria necessário também disponibilidade económica, a obra exigiria alguma escavação e movimento de terras à semelhança do que foi feito no Complexo. Contudo, os cuidados a ter nessa operação para que as estruturas já construídas não fossem danificadas iriam encarecê­‑la.” Trata­‑se no fundo de disponibilidade para garantir ”mais do que no estritamente necessário, mais do que em espaço

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de trabalho, laboratórios e salas de aula, “investir em espaço de conforto, em qualidade.” “Eu já começo a deixar de acreditar que isto vá acontecer tão cedo, principalmente dada a situação económica em que estamos. Começo a achá­‑lo meio utópico. Porque tudo isto devia ter sido feito na altura. Mas se não são vocês, quem é que vai fazer por isto? Por isso eu acho que se alguma Associação de Estudantes, tanto do ICBAS como de Farmácia, se unisse e lutasse por isto ia deixar um verdadeiro legado aos vossos próximos colegas.” “Questionado sobre esta situação, o Professor Baldaia diz-nos que quando se iniciou a obra do Complexo já estavam definidos os limites atuais, os restantes terrenos pertencem ao CHP e o muro cedo foi erguido para os suster, já que essa obra não iria avançar simultaneamente à do Complexo, “são dois projetos independentes, com financiamentos distintos”. Quanto ao futuro e à persistência da situação atual, apesar de não lhe agradar, depende unicamente do Centro Hospitalar do Porto. Procurámos obter o testemunho do Dr. Fernando Sollari Allegro, atual diretor do CHP. Na impossibilidade de realização de uma entrevista enviámos as nossas questões que foram respondidas por escrito. Segundo ele, o projeto do CHP está ainda incompleto mas refere apenas a falta de “um edifício de consultas e de um parque de estacionamento por baixo da parada [do antigo quartel]”, parecendo referir-se ao espaço que o Arquiteto referia estar destinado ao jardim. Quando questionado sobre esse jardim, se avançará, sobre quais os obstáculos à concretização desse projeto, nada esclarece sobre o fato de a sua localização estar sobreposta à do referido parque de estacionamento, afirmando: “Nesta fase de contenção económica dificilmente será feito. Mais tarde, em clima económico de crescimento, é exequível.” Aproveitámos para lhe pedir a sua opinião sobre o novo Complexo ICBAS-FFUP: “interessante mas muito árido”. Ao entrarmos no Complexo a escadaria surge altiva e, em degraus curtos, eleva­‑nos calmamente, concede­‑nos um olhar em volta, uma conversa com quem por lá se sentou. Eleva­‑nos. Lá em baixo, no início, não se antevê o que reserva o final. Eleva­‑nos. E ao ritmo dos passos que damos, vai­‑se mostrando um muro de betão, com pregagens, construído para suster a terra que ficavam do outro lado, a um nível mais alto, enquanto o projeto deste lado avançava rapidamente rumo à inauguração. Não foi pintado, tubagens projetam­‑se da parede, há peças que ganham ferrugem. “Não quer alindar aquilo?”, perguntam às tantas ao Arquiteto no decorrer da obra. Não, nem pensar, é uma denúncia. Mas o muro lá permanece cego e cinzento. Grito petrificado que se vai calando à medida que a vista se acomoda. Que gerações o vão questionar depois? Fará parte. É isso que preocupa o arquiteto. A MAGAZINE DE ESTUDANTES DO ICBAS PARA ESTUDAN T E S D O I C BAS 15


Acerca do I AEICBAS Biomedical Congress O I AEICBAS Biomedical Congress marcou profundamente a Associação de Estudantes do ICBAS, e a própria instituição, tendo sido um projecto que, pela primeira vez, juntou os cinco cursos de 1º ciclo do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, Bioengenharia, Bioquímica, Ciências do Meio Aquático, Medicina e Medicina Veterinária numa actividade de cariz científico e pedagógico. Desde fantásticas palestras dadas por nomes ilustres da ciência nacional, como o Prof. Doutor Mariano Gago, a Prof. Doutora Maria de Sousa, o Prof. Doutor Alexandre Quintanilha, ou o Prof. Doutor Artur Águas, a mesas redondas nas quais participaram também importantíssimos nomes da vida científica portuguesa, e a ciclos de conferências específicos de cada curso leccionado no ICBAS, o I ABC cumpriu a sua missão fundamental – a união da ciência e a sua interdisciplinaridade. Durante três dias, dezenas de oradores convidados e centenas de estudantes nacionais de diferentes áreas das ciências da vida trocaram ideias, opiniões, saberes e experiências, que fizeram cada um crescer como pessoa, e como membro integrante da sociedade portuguesa. Fez­‑se jus às palavras do Prof. Doutor Nuno Grande, “lado a lado sentam­‑se jovens que vão falar linguagens profissionais diferentes e que vão aprender as mesmas coisas em conjunto.”. Henrique Ruas Moreira

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Opinião de uma participante “A minha experiência no AEICBAS BIomedical Congress (ABC) foi muito positiva. Durante os três dias, consegui notar a enorme organização, dedicação e profissionalismo de todos os membros da associação. Quanto às palestras interdisciplinares, demonstraram temas muito interessantes e oradores excelentemente seleccionados. Enquanto aluna de medicina, gostei bastante dos ciclos de conferencias em que participei (politraumatizados e dispneia), especialmente dos workshops, que, em ambos, foram muito interactivos e práticos. Nestes workshops, aprendi vários conceitos e gestos que, a meu ver, são muito importantes na formação básica de um medico. Globalmente, penso que o ABC foi um evento extremamente inovador e diversificado por parte da AEICBAS e espero que seja continuado o esforço, para que todos os futuros alunos do ICBAS possam ter uma experiência equivalente à minha.” Mafalda Marques Pinto


Programas de apoio disponíveis É do conhecimento geral que neste momento os jovens do nosso país (e restante União Europeia) enfrentam grandes dificuldades económicas e cada vez mais com menos possibilidade de uma melhor formação e de exercerem a sua profissão. É nesse sentido que existem inúmeros apoios nacionais e da União Europeia permitindo uma formação profissional integrada e completa e uma maior facilidade de construção, manutenção e crescimento da carreira profissional. Apresenta­‑se assim alguns dos programas disponíveis para jovens estudantes universitários, de início de carreira profissional e de empreendorismo. (Pela impossibilidade de descrição completa dos programas, estes são apresentados apenas por uma descrição geral sendo dado os locais disponíveis para mais informações).

Programa APRENDIZAGEM AO

Resumo: Programa nacional de apoio financeiro anual para arrendamento jovem, podendo ser candidatos a este programa jovens entre os 18 e 30 anos, com arrendamento individual ou colectivo.

LONGO DA VIDA (PALV)

Candidaturas: Existem 4 fases de candidatura, sendo anualmente anunciadas no Portal da Juventude. A candidatura é submetida online em www.portaldahabitacao.pt/porta65j

Resumo: Este programa da UE tem como objetivo promover, em particular, os intercâmbios, a cooperação e a mobilidade entre os sistemas de ensino e formação na Comunidade. Programa

Mais Informações: www.portaldahabitacao.pt/pt/porta65j/home/documentos.html

Destinatários

Resumo/Duração

ERASMUS

Ensino Superior e Estágios

Apenas poderão usufruir o máximo de 2 bolsas: uma para o período de Estudos (3 a 12 meses) e outra para estágio (2 a 12 meses). Apoio em cursos Intensivos de Línguas.

LEONARDO DA VINCI

Profissionais formados

2 semanas a 2 anos.

GRUNDTVIG

Educação para Adultos

Duração Máxima de 2 anos

Candidaturas: Dirigidas à Agência Nacional ou à Agência Executiva (Europeia) dependendo do programa. As datas de candidaturas variam em cada programa, sendo a maioria até Dezembro do ano anterior da data da atividade. Mais Informações: Agência Nacional: www.proalv.pt. Agência Executiva: http://eacea.ec.europa.eu/llp/index_en.php.

Programa ERASMUS MUNDUS Resumo: Bolsas de cooperação entre a Europa com o restante mundo para cursos de mestrado e doutoramento. Duração mínima de 1 ano e máxima de 2 (4 em doutoramentos). Candidaturas: pelo site em datas específicas a anunciar. Mais Informações: http://eacea.ec.europa.eu/erasmus_mundus/index_en.php

Programa JUVENTUDE EM AÇÃO Resumo: Pretende proporcionar oportunidades de aprendizagem não formal e informal numa verdadeira dimensão europeia. A aprendizagem não formal refere­‑se à aprendizagem que ocorre fora do currículo educacional formal, envolvendo pessoas a título voluntário, que são cuidadosamente preparadas, de forma a incentivar o desenvolvimento pessoal, social e profissional dos participantes. A aprendizagem informal refere­‑se à aprendizagem prática que ocorre nas atividades do dia­‑a­‑dia, no trabalho, no seio da família, nos tempos livres. No sector da juventude a aprendizagem informal ocorre em iniciativas de jovens e de tempos livres, em grupos de pares e atividades voluntárias. Assim, estas atividades são um complemento à educação formal e ao sistema de formação.

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Fora de Portas

Programa PORTA 65


Programa JUVENTUDE EM AÇÃO Tem 5 objetivos gerais aos quais estão diretamente ligadas 5 ações/programas: Acções

Objectivos

Juventude para a Europa

Promover a cidadania ativa dos jovens

Serviço Voluntariado Europeu

Desenvolver a solidariedade entre jovens

Juventude no Mundo

Incentivar a compreensão mútua entre os jovens de diferentes países

Sistemas de Apoio à Juventude

Melhorar a qualidade dos sitemas de apoio às atividades juvenis e a capacidade das organizações da sociedade civil no domínio da juventude

Apoio à Cooperação Europeia no Domínio da juventude

Fomentar a cooperação europeia no domínio da juventude

Qualquer participante destes programas recebe um Passe Jovem, que descreve e valida os resultados e a experiência de aprendizagem não formal e informal adquirida durante o projeto. Candidaturas: Existem duas entidades responsáveis para fornecerem o apoio financeiro deste programa: a agência nacional e a agência Executiva (europeia). As candidaturas deverão assim ser enviadas para as mesmas, dependendo da ação a que se pretende participar. Existem 3 prazos específicos para entrega de candidatura, regra geral 3 meses antes para projetos apresentados à Agencia Nacional e 6 meses antes para projetos apresentados a nível centralizado (Europa). Mais informações: Agência Nacional: www.juventude.pt. Agência Executiva: http://eacea.ec.europa.eu/youth/index_en.php.

Programa ESTÁGIOS DE JOVENS ESTUDANTES DO ENSINO SUPERIOR NAS EMPRESAS (PEJENE) Resumo: Programa promovido pela Fundação da Juventude para apoio de estágios (de 2 a 3 meses) em empresas/organizações (previamente divulgadas) para jovens a frequentarem o penúltimo ou último ano do ensino superior. Os jovens são colocados nas empresas no período de interrupção das suas atividades letivas de verão. Estes estágios não são renumerados, no entanto, as entidades deverão pagar todos os meses de subsídios de alimentação e transporte, no mínimo, além de realizarem um seguro de acidentes pessoais coincidente com o período de estágio. Candidaturas: A partir de Maio. Mais Informações: www.fjuventude.pt/

Programa EURODISSEIA

Programa IMPULSO JOVEM

Resumo: Programa de intercâmbio entre regiões europeias que oferece apoios financeiros para estágios, de 3 a 7 meses, no estrangeiro. Em Portugal, este programa apenas é válido para jovens oriundos dos Açores ou Madeira. Candidaturas: On­‑line através da plataforma www.eurodyssee.eu/pt/traineeship­‑offers/backend/youth­ ‑form.html Mais Informações: http://www.eurodyssee.eu/pt/programa­‑eurodisseia­‑programa­‑de­‑estagios­‑europeu.html

Resumo: Programa com 4 medidas distintas: a) Estágios profissionais – fornece uma bolsa mensal de estágio, com duração de 12 meses, destinado a jovens a procura de emprego até aos 30 anos. Este apoio, no caso dos Mestrados Integrados, está tabelado no QNQ de 691,71€ excluindo os subsídios de alimentação e transporte. Este valor poderá ser suportado integralmente pelo programa se a entidade tiver menos de 10 colaboradores (se possuir mais, a entidade deverá suportar 20% da remuneração); b) Apoios à Contratação – apoios às entidades empregadoras que realizem contratos de trabalho por prazo igual ou superior a 6 meses e isenção do pagamento da taxa social única; c) Empreendorismo – apoio logístico, fincanceiro e técnico para estimular a realização de projectos de empreendorismo; d) Formação Profissional – apoio para formações adicionais. Candidaturas: na plataforma on­‑line, durante todo o ano Mais Informações: www.impulsojovemportugal.pt

Programa O TEU PRIMEIRO EMPREGO EURES Resumo: Apoia jovens na procura de emprego que estejam dispostos a trabalhar noutro estado membro da UE e concede apoios financeiros. Candidaturas: A qualquer altura, dirigida ao IEFP/EURES Portugal. Mais Informações: http://ec.europa.eu/social/yourfirsteuresjob

Programa ERASMUS PARA JOVENS EMPREENDEDORES Resumo: Tem como objetivo oferecer aos novos empreendedores uma oportunidade de adquirirem novos conhecimentos junto de um empreendedor experiente noutro país da UE. Duração de 1 a 6 meses Candidaturas: dirigidas para quem está a planear iniciar um negócio ou tiver iniciado nos últimos 3 anos, sem limite de idade. Mais Informações: www.erasmus­‑entrepreneurs.eu.

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Programa MARIE CURIE Resumo: Programa para dar impulso às carreiras de investigação na Europa. Programa

Destinatários

Resumo

Formação Inicial (ITN)

Início de carreira

Apoios para projetos nacionais

Formação ao longo da vida (IEF e CIG)

Investigadores doutorados ou com mais de 4 anos de experiência

Apoio para projetos em países externos ao de origem ou regresso a estes, da UE.

Dimensão Internacional (IIF e IOF)

Investigadores doutorados ou com mais de 4 anos de experiência

Apoio para projetos europeus que colaborem com restante mundo.

Candidaturas: pelo site, havendo épocas específicas para cada um dos programas. Mais Informações: www.ec.europa.eu/mariecurieactions. Mais informações disponíveis em: • http://eacea.ec.europa.eu/index_en.php • http://ec.europa.eu/education/index_en.htm • http://europa.eu/legislation_summaries/education_training_youth/index_pt.htm • http://juventude.gov.pt/EducacaoFormacao/AgirEuropa/Paginas/default.aspx • Livro: “Sem Fronteiras – Programas disponíveis para jovens”; Fernandes, José Manuel; IPDJ; 2012 (disponível na biblioteca ICBAS­‑FFUP) Micael Costa

Triatlo de 4 modalidades “Mens sana in corpore sano” –será que o conhecido axioma latino que clama pelo equilíbrio entre o corpo e a mente faz sentido para os alunos da Universidade do Porto e, em particular, para os estudantes do ICBAS? O dia­‑a­‑dia atribulado e condicionado por uma carga horária pesada e por incontáveis solicitações inerentes à vida académica pode parecer inconciliável com a prática de desporto e o exercício físico. O que queremos mostrar nesta edição CorinoMAG é que estas coisas não são, de todo, inconciliáveis – mais, a Reitoria da Universidade, através do Gabinete de Apoio ao Desporto da Universidade do Porto (GADUP), tem disponíveis sugestões muito acessíveis para a prática de desporto dos estudantes – contam­‑se mais de 30 modalidades diferentes e actividades desportivas em que os estudantes se podem inscrever. Quisemos trazer um exemplo vivo de alguém de fora do âmbito que conseguisse realmente conciliar o desporto com a vida académica. Segue­‑se, assim, entrevista com Pedro Palma, estudante do 5º ano de Engenharia Industrial e Gestão na Faculdade de Engenharia, que é triatleta de alta competição. 1) Desde quando praticas triatlo? Foi uma escolha deliberada desde cedo a prática desta modalidade? Pratico triatlo desde 2005, tinha 15 anos. Comecei nas férias escolares antes de entrar para o ensino secundário. 2) Do teu palmarés (diga­‑se de passagem muito recheado), qual o resultado mais importante? No contexto desta entrevista destaco a medalha de bronze nos mundiais universitários. Uma competição que reúne atletas nas mesmas condições que eu. Atletas que diariamente conciliam os estudos no ensino superior com as exigências dos treinos de um desporto como o triatlo. 3) Os teus objectivos desportivos passam por ganhar o próximo campeonato da europa e do mundo e jogos olímpicos? Gostava de poder ter objetivos tão ambiciosos. Este ano pretendo apenas melhorar a minha melhor classificação de sempre num Europeu, 8º lugar, e estar presente no Mundial do meu escalão, sub­‑23. Quanto aos Jogos Olímpicos, são o sonho de qualquer atleta. 4) Sentes que as vitórias são uma fonte de motivação e energia para estudar? A boa forma física contribui inegavelmente para uma melhor autoestima, uma mente mais alerta e com melhor capacidade de concentração. Ganhando ou perdendo, estes benefícios estão lá. Mas sem dúvida nenhuma que as vitórias, quer sejam no desporto ou no estudo, são uma grande fonte de motivação e energia para continuar a conciliar as duas atividades da melhor maneira.

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5) Já desde os primórdios que se afirma: “Mens sana in corpore sano” e nada melhor que uma pessoa expe‑ rimentada no mundo do desporto como tu. Concordas? É uma citação latina que dá nome a uma conhecida marca de equipamento desportivo. E que desde cedo me chamou a atenção. Aliás, mandei­‑a inscrever na parte de trás do meu leitor de MP3, que me acompanha em muitas horas de treino. Os benefícios da prática regular de atividade física são inegáveis. 6) Bem, o triatlo é um desporto fisicamente muito complexo e desgastante... Como consegues conciliar os teus treinos com os estudos? No início, quando frequentava o ensino secundário, era relativamente fácil. Estava a dar os primeiros passos na modalidade e o número de horas de treino era bastante reduzido. Com o passar dos anos as exigências foram aumentando dos dois lados. Os objetivos no desporto foram­‑se tornando mais ambiciosos e a faculdade apresentou dificuldades diferentes do ensino secundário. Não há milagres. Tenho a consciência que se me dedicasse totalmente ao desporto teria melhores resultados. Mas há um tempo para tudo. Neste momento a prioridade era adquirir uma boa formação académica. E como sabemos a vida familiar e as amizades são extremamente importantes. Quais os segredos para se obter sucesso em tudo? Não há segredos. Se há lição que o desporto me ensinou é que sem dedicação é impossível ter resultados. O talento, capacidades, aptidões, etc., só nos levam até certo ponto. Para

atingirmos o nosso verdadeiro potencial não há como dar a volta, é preciso horas, semanas, anos de trabalho contínuo. 7) Quando tens dias que “não apetece fazer absoluta‑ mente nada” onde arranjas motivação e força para continuar e enfrentar o dia? No desporto gosto de pensar que são esses dias que realmente contribuem para o meu sucesso. Se fosse fácil toda a gente conseguia. Assim o sucesso fica reservado para quem realmente se esforça e trabalha, o que lhe dá um sabor ainda mais especial quando o atingimos. 8) Achas que no futuro, aquando da exerção da tua profissão, vais conseguir manter este ritmo de vida? Como já disse anteriormente, há um tempo para tudo e não há milagres. Terminando o curso tenho a oportunidade de me dedicar totalmente ao desporto. Mas depois disso vejo­‑me a exercer a minha profissão como qualquer outra pessoa, obviamente guardando sempre algum espaço da minha semana para recordar os meus tempos de atleta. 9) Para terminar, se um dia te pedissem para te definires numa palavra em qual te definias? Definir­‑me numa palavra não consigo. Mas uma palavra de que gosto é “polímata”. Tenho bastante admiração por pessoas que possuem conhecimento em várias áreas. Na Renascença acreditava­‑se que “um homem pode fazer todas as coisas que quiser”. Tiago Pais

Ciclo de palestras ICBAS-FFUP O ciclo de palestras “Avanços da Ciencia em 2012” que decorreu entre março e maio deste ano no Complexo ICBAS­ ‑FFUP tratou­‑se de uma das primeiras provas do grande benefício que tem a coexistência das duas escolas no mesmo espaço. A ideia partiu da Professora Elsa Rocha, da FFUP, e do Professor Artur Águas, do ICBAS – e trataram­‑se temas relacionados com os avanços científicos de 2012, dentro das áreas de investigação/formação dos professores oradores. Numa entrevista recente à CorinoMAG, em março de 2013, o Professor António Sousa Pereira referiu­‑se à relação de convivência no mesmo espaço entre a Faculdade de Farmácia e o ICBAS como algo que cresceria gradualmente e de que poderíamos retirar grandes vantagens. Este ciclo de conferências – que é uma das primeiras iniciativas conjuntas desde que o Complexo ICBAS­‑FFUP foi inaugurado, no início do ano passado – permitiu, num ambiente muito informal, que se desse às pessoas das duas faculdades a oportunidade de estarem juntas – de se conhecerem –, de ficarem a conhecer mutuamente projetos e a imaginar novas possibilidades. É como o “tiro de partida”, o “passo seguinte”. De notar ainda a grande participação que houve quer de alunos, quer de docentes: o anfiteatro esteve muito preenchido e as pessoas envolveram­‑se muito nas discussões depois das apresentações. Pedro Reis Pereira 20 N . 0 4 - j u n h o 2 013


Técnica de clonagem produz células estaminais humanas pela primeira vez

Em 2004, um cientista veterinário (Hwang Woo­‑suk) já tinha anunciado esta conquista, mas mais tarde anunciou ter forjado os dados. Na realidade tinha “criado” células embrionárias a partir de… embriões! (Algo já conseguido em 1998 por James Thomson da Universidade de Wisconsin)

Já lá vão 17 anos desde que a ovelha Dolly foi clonada a partir de uma célula mamária. Agora, o mesmo conceito é utilizado para criar células estaminais embrionárias na espécie humana a partir de células da pele.

A reprogramação de células somáticas para que fossem pluripotentes através da técnica de transferência do seu núcleo para um oócito em desenvolvimento já era há muito ambicionada. Embora bem­‑sucedida noutros animais, que no caso dos anfíbios já tinha acontecido em 1962 (Gurdon), ou no mais famoso caso, a ovelha Dolly em 1996 (Wilmut), nos seres humanos a teoria não foi fácil de levar à prática. Após inúmeras tentativas, um grupo de cientistas liderado por Shoukhrat Mitalipov, conseguiu finalmente tornar realidade as esperanças de muitos. Por levantar diversas questões éticas, como a necessidade de utilizar embriões viáveis para a sua concretização, e a oportunidade (teórica) de criar um clone humano, esta técnica tinha já sido ofuscada pela

Um dos “ingredientes” chave que contribuiu resolver o impasse que acontecia nos humanos (dado que a técnica era a mesma da Dolly mas não estava a resultar) foi nada mais, nada menos que… cafeína! Esta foi introduzida no citoplasma do oócito para ajudar à divisão das células no seu interior.

possibilidade de reprogramar células diferenciadas em células pluripotentes, apresentada por Yamanaka, segundo outra técnica de indução de células estaminais pluripotentes, as iPS, que lhe valeu em Outubro do ano passado o prémio Nobel da Medicina. Nesta técnica são utilizados fatores de transcrição em vez da transferência do núcleo para um oócito, o que contorna os problemas éticos acima apresentados. Com este avanço abrem­‑se portas à possibilidade de pessoas diabéticas, por exemplo, através de células pluripotentes diferenciadas em células pancreáticas, conseguirem produzir a sua própria insulina, ou de tornar a doação de órgãos obsoleta, visto que através da bioengenharia, se poderiam construir órgãos com o código genético do indivíduo afetado, acabando com qualquer problema de incompatibilidade dador­‑recetor. Marisa Catita

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Tese de Mestrado de Acupuntura utiliza estudantes do ICBAS como modelos de estudo Duas semanas antes do início da época das primeiras frequências, uma aluna do mestrado de fisioterapia desenvolveu um estudo experimental com estudantes do ICBAS, com o objetivo de recolher dados para elaborar a sua tese. Tratou­‑se de um estudo que procurou avaliar os efeitos da auriculoterapia, recorrendo a acupuntura de microssistema, na redução dos níveis de stress e ansiedade dos estudantes. Selecionaram­‑se, portanto, estudantes em época de pré­‑frequências, do primeiro e segundo anos do Mestrado Integrado em Medicina e do primeiro ano do Mestrado Integrado em Bioengenharia. A amostra utilizada foi dividida em três grupos – alunos muitos ansiosos, moderadamente ansiosos e não ansiosos – e foram aplicados aleatoriamente aos membros de cada grupo três tipos de tratamento: tratamento de controlo (nada foi aplicado), tratamento falso (aplicação de sementes de mostarda sobre o pavilhão auricular – técnica que se designa por “acupuntura sham”) e tratamento verdadeiro (aplicação de micro­‑agulhas no pavilhão auricular). A experiência decorreu durante 48 horas e foram efetuadas três tipos de avaliações dos níveis de stress, antes e após a administração dos tratamentos. Assim, os estudantes foram submetidos a medições cardiovasculares, a um questionário baseado em escalas da Psicologia que aferia os níveis de ansiedade e a sua língua foi fotografada, uma vez que se supõe que os níveis de stress se reflitam na topografia desta região do corpo. A análise dos resultados obtidos revelou que não se verificaram alterações cardiovasculares significativas nos indivíduos estudados, tal como era expectável. Por outro lado, os resultados do questionário demonstraram melhorias estatisticamente significativas dos níveis de ansiedade. A análise das eventuais alterações da topografia lingual ainda está em curso.

Prémios Incentivo 2013 No passado dia 22 de Março (data em que se celebra o Dia da Universidade), a UP distinguiu Rafael Rocha, um estudante do segundo ano do Mestrado Integrado em Medicina do ICBAS, com o prémio Incentivo 2013. Trata­‑se de um prémio que é entregue anualmente, em todas as faculdades que integram a UP, aos alunos, ou aluno, com as melhores médias (ponderadas com os créditos europeus) de entre os estudantes que completaram o plano de estudos previsto para o 1º ano com média, calculada sem arredondamentos, não inferior a 15 valores. Rafael Rocha arrecadou este prémio de mérito graças à conclusão do primeiro ano de curso com uma média de 17,640 valores. Para este estudante, o prémio Incentivo representa a valorização do seu esforço e empenho ao longo primeiro ano de estudos na universidade. Mais ainda, trata­‑se de um elemento enriquecedor do seu currículo e que mais motivação lhe oferece para prosseguir com o seu trabalho profícuo. A entrega anual deste prémio prova que a Universidade do Porto procura prezar e incentivar a excelência dos seus alunos. Miguel Saraiva 22 N . 0 4 - j u n h o 2 013


Economia para Totós Este ano, a Associação de Estudantes do ICBAS foi de encontro a um dos temas mais discutidos na nossa sociedade, e organizou uma palestra cujo objectivo era ensinar as bases da economia e da gestão. Para tal, foi convidado o Professor Pedro Cosme da Faculdade de Economia do Porto, autor do já famoso blogue “Económico­‑Financeiro”, que através de uma apresentação repleta de humor conseguiu incutir algumas das ideias basilares da economia e da gestão – poupança, investimento, TAE, vendas, alugueres e o sistema bancário. A palestra contou com mais de 100 alunos no Salão Nobre do ICBAS e foi um verdadeiro sucesso, os alunos estiveram atentos, riram­‑se e colocaram questões pretinentes relativamente ao tema em questão. Esperemos que no futuro possamos contar com palestras que, tal com esta, exploram as áreas que os estudantes do ICBAS ainda não dominam.

Clínica in situ Medicina e Medicina Veterinária A atividade Clínica in situ, já conhecida pelos estudantes de Medicina, foi realizada novamente, este ano letivo, e com uma novidade! A 1ª Edição da Clínica in Situ para estudantes de Medicina Veterinária. Para quem não conhece, é um projeto que tem como objetivo facultar aos alunos curtos estágios extracurriculares (de 30 horas) em clínicas e hospitais na zona do grande Porto e arredores. Para os estudantes de Medicina foram abertas vagas em diversas especialidades (como por exemplo Ortopedia, Pediatria e Cirurgia Geral), em Hospitais privados de referência. Por sua vez, os estudantes de Veterinária tiveram acesso a cerca de 20 Clínicas/ Hospitais veterinários! Uma das limitações dos cursos médicos do ICBAS é a falta de contacto com a prática clínica e, desta forma, a AEICBAS espera que os alunos tenham tido a oportunidade de desenvolver as suas competências técnicas e pessoais, de se familiarizar com o ambiente hospitalar/clínico e, quiçá, adquirir conhecimentos que até então não tinham sido lecionados ou aprofundados nas aulas.  Esperamos que este projeto seja um incentivo para os nossos estudantes e que o contacto com a ‘’realidade’’ sirva de motivação para encarar a época de exames que se aproxima! 

CAPs A AEICBAS contou este ano com uma grande representacao nos Campeonatos Academicos do Porto. Foram quatro as modalidade em que as nossas equipas participaram. O futsal feminino, a equipa com maior tradicao do ICBAS, deu provas, mais uma vez, da sua grande capacidade de empenho e qualidade tecnica, conseguindo nestes campeonatos levar a reprentacao do ICBAS alem da fase de grupos. Esta epoca, com

uma equipa feita completamente de novo, o voleibol feminino, apesar da inexperiencia e ausencia de treinador, conseguiu oferecer bastante luta as equipas do seu grupo, contudo, a passsagem aos quartos de final nao foi possivel. O futsal masculino, apesar de manter alguns dos atletas da epoca passada, viu este

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ano o seu plantel ser remodelado quase por completo, sendo a maioria dos seus jogadores estreantres nestes campeonatos. Com um espirito que e caracteristico do nosso Instituto, souberam aliar a vontade de ganhar e espirito competitivo ao desportivismo, ganhando assim o merecido premio de equipa fair play. Formada no ano passado, a equipa de andebol masculino, como ja se poderia advinhar pelo grande empenho e espirito de equipa, consegui este ano melhorar em muito a sua performance nos campeonatos. Apesar de nao chegar aos quartos de final consegui que um dos

seus jogadores fosse o melhor marcador da modlidade, levando assim ao reconhecimento do merito das equipas da AEICBAS.

Ciclo de Tertúlias Doutor Carlos Antunes, director do Aquamuseu do Rio Minho, doutorado em Ciências biomédicas no ICBAS e investigador integrado do CIIMAR realizou a primeira tertúlia do ciclo de Palestras de Ciências do Meio Aquático. A sua exposição baseou­‑se no Rio Minho, divulgando algumas espécies com importância ecológica, projectos ciêntificos desenvolvidos no Aquamuseu, sensibilização ambiental, integração dos pescadores na investigação local e levantamento histórico pescatório da região. A edição Realizou­‑se a 12 de Dezembro de 2012 e teve a participação de 12 estudantes que tiveram a oportunidade de conhecer novas saidas profissionais bem como novos projectos ciêntificos, contribuindo para uma melhor formação académica e pessoal.

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VI ICTUNAS – Rescaldo de um Festival Solidário Foi já há alguns meses, dia 8 de Março de 2013, que o Teatro Sá da Bandeira quase esgotou para assistir a mais um ICTUNAS – Festival de Tunas Femininas de Biomédicas.

Grupos da Casa

Um cartaz de luxo, com quatro tunas a concurso: a Estudantina Feminina de Coimbra, a Legislatuna (Tuna Feminina da Faculdade de Direito da UP), as Levadas da Broca (Tuna Feminina da Faculdade de Medicina Dentária da UP) e a TeSuna (Tuna Feminina da Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Porto); duas tunas convidadas: a TunaF (Tuna Feminina do Orfeão Universitário do Porto) e a TEUP (Tuna de Engenharia da Universidade do Porto); e, claro, a nossa querida Tuna Feminina de Biomédicas, permitiu atingir todos os nossos objetivos a nível musical e artístico, mas o VI ICTUNAS foi muito mais do que isso… No ano do nosso décimo aniversário pareceu­‑nos essencial superar todas as expectativas, organizando um festival inesquecível, que vinha a ser preparado desde Outubro de 2012. Como tal, enveredamos pelo desafio de organizar um evento de carácter solidário, já que acreditamos que a responsabilidade social é prioritária, principalmente no momento que o nosso país atravessa. Deste modo, e inspiradas pela data do festival, Dia Internacional da Mulher, estabelecemos parceria com a APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima). Pretendíamos sensibilizar a comunidade universitária para a problemática da violência doméstica, pelo que divulgámos a campanha “Depois do não, pára!” no programa “Aqui Portugal” da RTP1, bem como no nosso próprio festival, com a ajuda de algumas voluntárias da própria APAV, através da distribuição de panfletos e da passagem de pequenos spots publicitários.

Além da APAV, também estendemos a mão ao Lar Luísa Canavarro (apoio à mãe adolescente), pois é impossível ficar indiferente ao esforço e trabalho das Irmãs que o coordenam. Realizámos então uma recolha de bens nas faculdades das tunas participantes, no próprio complexo ICBAS/FFUP, bem como no Teatro Sá da Bandeira, além de termos contado com a ajuda das tunas participantes, as quais, durante o seu Passe­‑Calles, angariaram um total de quase 250€ para este Lar. Todas as tunas participantes presentearam o público com excelentes atuações, mas convém realçar os prémios: a TeSuna arrecadou o prémio mais almejado da noite, o de Melhor Tuna, mas também os de Melhor Solista e Melhor Estandarte; a Legislatuna foi nomeada Tuna Mais Tuna, assegurando também os prémios de Melhor Instrumental e Melhor Pandeireta; a Estudantina Feminina de Coimbra levou consigo o prémio temático do festival, Tuna mais Diva, bem como o de Melhor Claque; e, por fim, as Levadas da Broca ganharam o prémio de Melhor Passa­‑Calles. Em jeito de brincadeira, nomeamos o nosso caro Filipe Castelo como Melhor Guia e entregamos ao nosso ensaiador uma pequena lembrança, elegendo o “Sôr Carlos” para Melhor Ensaiador. A noite terminou em beleza com a after­‑party no Boulevard Aliados! O balanço final do VI ICTUNAS é breve: foi um sucesso, graças ao trabalho de toda a TFB e de toda a estrutura que nos apoia. Aos nossos pais, amigos, patrocinadores e doadores, e a todas as tunas participantes, um grande, enorme, Obrigada. P’la Tuna Feminina de Biomédicas Penélope Almeida

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CICBAS Em plena época de exames, a Professora Graça Lobo, de Farmacologia, fez questão que o CICBAS estivesse presente na Reunião Anual da Sociedade Portuguesa de Farmacologia no dia 6 de Fevereiro. Numa atuação assente em músicas tradicionais portuguesas, o Coral de Biomédicas deixou a plateia de profissionais da área farmacêutica maravilhados com os seus dotes vocais. No dia 2 de Março, o CICBAS rumou a Vilamoura para atuar no VII Congresso Português de Hipertensão, que teve lugar no Hotel Tivoli Marina Vilamoura. Durante a tarde, o CICBAS agraceou turistas e locais na Marina de Vilamoura com “Acordai” de Fernando Lopes Graça, assim como algumas peças do repertório tradicional português, como “Trai Trai” e “Coletinho”, com uma receção calorosa por parte da audiência. No Jantar de Gala, que decorreu nessa mesma noite, surgiu mais uma oportunidade para atuação para os participantes do Congresso, com uma diversidade musical que abrangia desde medleys de tributo aos Beatles e ainda o mítico “Acordai”, com antigos coralistas presentes no evento. A 19 de Abril, o CICBAS foi convidado a atuar no 89º aniversário da Bial, empresa farmacêutica nacional de renome, apresentando um repertório baseado em obras dos Beatles. Num ambiente festivo e de convívio informal na Herança Magna em Vila Nova de Gaia, diversos medleys foram interpretados, abrangendo peças inesquecíveis como “Imagine”, “Hey Jude”, “Yellow Submarine” e “Ticket to Ride”. Nessa mesma noite, e a convite do Colégio de Nossa Senhora do Rosário, o CICBAS apresentou “Te Deum”

de Marc-Antoine Charpentier, uma obra clássica com acompanhamento orquestral de uma dificuldade exacerbada pelo curto período de tempo disponível à sua aprendizagem. Enquadrado nas comemorações do 140º aniversário do colégio na Igreja Nova de Ramalde, o CICBAS atuou com o Coro do Colégio do Rosário, Classes de Conjunto do Colégio, CAUM (Coro Académico da Universidade do Minho), OAC (Orfeon Académico de Coimbra), Solistas da ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo) e ainda a Orquestra Sine Nomine do Porto. Na semana seguinte, no dia 27 de abril, o Coral dirigiuse a Braga para atuar na XI edição do Encontro de Coros Universitários (ECU), a convite do Coro Académico da Universidade do Minho (CAUM). Nesta iniciativa o CICBAS partilhou o palco com diversos coros do País, tendo o repertório interpretado pelos diferentes coros passando por peças tão distintas como “Nella Fantasia” do filme “The Mission”, passando por “Fix You” dos Coldplay e “Rolling in the Depp” de Adele, até “A Gente Vai Continuar” de Jorge Palma. No contexto das atividades académicas da Queima das Fitas do Porto, o Coral de Biomédicas atuou no XVI ECAP (Encontro de Coros da Academia do Porto), que decorreu na Universidade Portucalense, a 5 de Maio, organizado pela Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (FFUP). Frederico Martins e José Nuno Monteiro

VO.U. pelos animais O projeto VO.U. pelos animais da Associação de Voluntariado Universitário realizou a primeira Semana de Promoção do voluntariado e bem estar animal, durante os dias 13 a 17 de Maio nas instalações do complexo ICBAS/FFUP. Esta semana teve como principal objetivo a apresentação do projeto de voluntariado para a comunidade académica do Porto e incluíu um conjunto de workshops sobre comportamento e bem estar animal nomeadamente de princípios básicos de comportamento de cães e gatos, de forma a ajudar os proprietários destes animais de estimação a se relacionarem­‑se melhor com os seus animais; seminário sobre raças de gatos e suas principais patologias; Aconselhamento Veterinário em farmácia, de forma a saber os princípios básicos de aconselhamento farmacológico dos mais diversos medicamentos. As inscrições para estes workshops foram totalmente gratuitas, sendo apenas necessário levar um bem para animais. Micael Costa

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Ponto de Escuta

The Dark Side of The Moon:

Não, Kadavar não é uma banda dos anos 70, mas podia muito bem ser. O trio oriundo de Berlim bebe muito de Black Sabbath e Led Zeppelin, mas sempre com toque contemporâneo e uma reciclagem do rock clássico sem falhas e fresca. Encontram­‑se actualmente em tour a apresentar o seu segundo álbum, Abra Kadavar, que, apesar de seguir a mesma linha do seu homónimo, foi bem recebido pelo público. Curiosamente o tour passa por Portugal, actuando a banda no SonicBlast Moledo, a realizar­‑se dia 24 de Agosto. Destaque: Doomsday Machine, All Our Thoughts, Living In Your Head

Jacco Gardner Jacco Gardner é um dos mais recentes nomes da música que tem vindo a dar cartas. Este rapaz holandês de 24 anos descreve­‑se como um “multi instrumentalista pop barroco, que cria sons únicos com o cravo, flautas e efeitos psicadélicos”. Jacco oferece­‑nos um cocktail psicadélico de magos dos anos 60 como Brian Wilson, Syd Barrett ou Billy Nicholls, com o seu um som denso, camadas de pequenos sons que vamos descobrindo a cada audição do seu álbum de estreia, Cabinet of Curiosities. Um nome a explorar para os amantes dos anos 60 ou simplesmente para quem quer ouvir algo calmo. Destaque: Clear The Air, The One Eyed King, Summerís Game

40 Anos A 27 de Março de 1973, a banda britânica Pink Floyd lança o que seria considerada a obra­‑prima da sua vasta discografia, The Dark Side of The Moon. 40 anos depois, aquele que é para muitos “o melhor álbum de sempre”, volta numa edição especial remasterizada com material inédito, tal como o restante trabalho da banda. A saída de Syd Barrett em 1968, (com inclusão de David Gilmour) entre especulações de doença mental devido ao uso de drogas, afecta grandemente a banda. Syd, um dos membros fundadores da banda (e aquele que sugeriu o nome Pink Floyd), compunha a maioria dos temas, ditando o som psicadélico e largamente influenciado pelos blues que a banda tinha na altura. Além disso, a pressão exercida pelo público, a editora, levaram Roger Waters a propor, durante os ensaios para a tour do Meddle, um novo álbum que expressasse todas estas vivências do grupo. Pretendia ser um álbum que abordasse as “coisas que levam as pessoas à loucura” como disse. As letras escritas por Roger Waters focam temas como o conflito interior, a inveja, a passagem do tempo e a, já referida, doença mental. Além das composições sofisticadas e das letras conceptuais, o álbum é conseguido fazendo uso de várias técnicas de gravação e mistura inovadoras nunca antes usadas, como a gravação dos relógios na música Time. The Dark Side of the Moon tornou­‑se um dos álbuns mais vendidos de todos os tempos, estando no Top 25 de álbuns mais vendidos nos EUA. Apesar de se ter mantido em primeiro lugar nos EUA apenas uma semana, permaneceu na Billboard umas impressionantes 741 semanas. No Reino Unido é o sexto álbum mais vendido de todos os tempos. Para assinalar o 40º aniversário da edição de The Dark Side of the Moon, foi lançada toda a discografia remasterizada da banda britânica, incluindo versões ao vivo, demos, conteúdo audiovisual e fotografias nunca antes lançadas. The Dark Side of the Moon será sempre um marco na história da música e um álbum de escuta obrigatória

Filipe Martins A MAGAZINE DE ESTUDANTES DO ICBAS PARA ESTUDAN T E S D O I C BAS 27

Cultura

Kadavar


Festivais Apesar do mau tempo, o Verão aproxima­‑se e, com ele, um sem­‑fim de festivais que trazem as mais variadas bandas a Portugal. Com tantas confirmações, notícias e rumores, torna­‑se difícil estar em cima do acontecimento, mas aqui terás um resumo de tudo isso. O primeiro grande festival de Verão, o Optimus Alive, ocorre entre os dia 12 e 14 de Julho, em Oeiras. Realiza­ ‑se desde 2007 e é dos festivais que mais pessoas tem a passar no recinto durante os dias em que decorre, pelo facto de ter bandas em cartaz tão distintas como Iggy Pop e Coldplay na mesma edição, tal como aconteceu em 2011. Os cabeças de cartaz dos dias 12, 13 e 14 são Green Day, Depeche Mode e Kings Of Leon, respectivamente. Além destes três nomes sonantes, outros se destacam como Vampire Weekend, Two Door Cinema Club, Editors e Phoenix na música alternativa e Crystal Castles, Steve Aoki e The Bloody Beetroots na electrónica. Os artistas a passar pelo Optimus Alive dividir­‑se­‑ão em três palcos, sendo que um deles, o Palco Optimus Clubbing, está reservado para o final de cada dia com Djs e música electrónica até o sol nascer. O Optimus Alive não possui parque de campismo próprio do festival, mas disponibiliza um nas imediações do recinto, com transportes gratuito entre o parque e o recinto, para os portadores do passe dos 3 dias. Uma semana depois, entre os dias 18 e 20 de Julho, há que viajar até à Herdade do Cabeço da Flauta, no Meco, pois lá se realiza o Super Bock Super Rock. Festival algo controverso pelas condições que oferece aos campistas e a falta de acessos ao espaço, parece que tornam o festival ainda mais apetecível para os amantes da música, com estas condicionantes a serem compensadas pelo cartaz recheado. Alguns dos nomes deste ano são cromos repetidos da caderneta SBSR, mas não é isso que atira a edição de 2013 por terra. Novamente este ano, Arctic Monkeys, a conhecida banda britânica que esteve presente na edição de 2011 a apresentar o terceiro álbum Suck It And See, volta para levantar mais pó e eventualmente trazer novo material. Brandon Flowers retorna a terras lusas (edição de 2011), desta feita acompanhado pela sua banda, The Killers, para encabeçar o segundo dia do festival. E por último, mas não menos importante, Queens Of The Stone Age, depois de um interregno

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de 8 anos, volta a Portugal. A banda, que tem um público fiel em Portugal, era pedida todos os anos aos organizadores dos principais festivais do país, mas a espera terminou e actuará dia 20 de Julho. Johnny Marr, ex­‑guitarrista de The Smith, Black Rebel Motorcycle Club, TOY, Midnight Juggernauts e Owen Pallet são outros dos nomes que vale a pena dar uma escutadela antes de dar um salto ao Meco. Chegados a esta altura, decisões terão de ser feitas, porque o festival Marés Vivas realizar­‑se­‑á nos exactos mesmo dias que o Super Bock Super Rock. Em edições anteriores, o Marés Vivas era aquele festival que tinha uns nomes engraçados e dava para os festivaleiros do Norte descansarem do Alive e fazerem um compasso de espera para o SBSR. Este ano as coisas não são bem assim e o festival volta com novo patrocinador e maior divulgação. Peculiar pela sua localização junto ao Rio Douro, o festival é sempre elogiado pelos artistas que pelo palco principal passam, que falam do pôr­‑do­‑sol, das pessoas e do clima nas conversas com o público entre músicas. Apesar de ter 30 Seconds To Mars e David Guetta como cabeças de cartaz, o Marés Vivas tem uma arma secreta, um nome que salta logo à vista quando olhamos para o cartaz: The Smashing Pumpkins. A banda americana, liderada por Billy Corgan, volta a Portugal para abanar o Cabedelo com o seu som denso, diverso e intenso em guitarras. The Smashing Pumpkins é outra das bandas que ao longo da sua carreira de quase 20 anos arrecadou bastantes fãs em Portugal, tocando várias gerações. É, portanto, de esperar uma faixa etária variada a assistir a este concerto. O festival conta também com nomes como Klaxons, que retornam depois de passarem por Paredes de Coura em 2010, La Roux e James Morrison. Mudando agora um pouco ares, em Sines, temos o cada vez mais conhecido Festival de Músicas do Mundo (FMM) característico por trazer a Portugal os mais conhecidos artistas da World Music. O festival realiza­‑se em dois fins­‑de­‑semana, coincidindo o primeiro com dois festivais já mencionados, de 18 a 20 de Julho, e o segundo de 25 a 27 de Julho. Este ano o FMM conta com música de sítios tão distintos como o Japão ou Marrocos. Destacam­‑se nomes como Bassekou Kouyate & Ngoni Ba (Mali) ou Femi Kuti & The Positive Force da Nigéria. O evento tem vindo a captar mais e mais festivaleiros que procuram passar um fim­‑de­‑semana


na companhia de artistas dotados de uma musicalidade fenomenal, capazes de fazer a festa com duas pedras e um pau de madeira. Barcelos é uma vila pacata que, desde 2010, é invadida por gente com gostos alternativos por receber o Milhões de Festa. Um festival perfeito para descobrir novas bandas de que ninguém ouviu falar e uma filial da agência Lovers & Lollipop, que muitas vezes aproveita para dar alguma visibilidade às bandas que alberga. Este ano realiza­‑se entre 25 e 28 de Julho no Parque Fluvial de Barcelos com o cartaz ainda a meio gás. Não são conhecidos todos os nomes, nem os dias em que tocam, mas pode­‑se destacar Orange Goblin, Mikki Blanco e Zombie Zombie. Na Herdade da Casa Branca, na Zambujeira do Mar, temos o conhecido Festival Sudoeste, organizado pela Música no Coração. É um dos maiores festivais a decorrer em Portugal, por não se cingir a um estilo particular de música, com nomes que vão desde o reggae ao rock, passando pela electrónica e até o fado. Com início em 1997, este ano o Sudoeste realiza­‑se de 7 a 11 de Agosto, com um cartaz bem recheado. O conhecido artista Cee Lo Green, do hit F*** You, vai marcar presença neste festival, acompanhado de nomes como Calvin Harris e Snoop Lion, antigamente conhecido por Snoop Dog. Por último, mas não menos importante, possivelmente o festival português mais antigo e ainda no activo, o último do circuito de festivais de verão, o Festival Paredes de Coura. O festival iniciou­‑se em 1993, numa altura em que escasseavam os eventos do género em Portugal. Desde então, este tem vindo a crescer e a ganhar nome, sendo hoje reconhecido como dos melhores festivais portugueses, e o melhor da zona Norte (nunca esquecendo Vilar de Mouros). Em 2005, a edição espanhola da revista Rolling Stone considerou­‑o como sendo um dos cinco melhores festivais de Verão da Europa. Na sua 21ª edição, vamos poder contar com os retornados The Kills, The Knife, das mais conhecidas duplas de música electrónica que existe, Belle and Sebastian, Calexico e Hot Chip para nos fazer abanar o capacete. E aqui fica um guia que pode ser útil para aqueles que não têm tempo de seguir as últimas novidades no campo dos festivais.

Literatura Domingo à Tarde A medicina predispõe à receptividade, ao solidarismo activo, e entrega­‑nos as chaves que abrem os esconderijos menos acessíveis, lá onde o homem é verdadeiramente o que é. Fernando Namora

Em 1960, foi publicado Domingo à tarde, de Fernando Namora, médico formado em Coimbra. Tinha­‑se estreado no panorama literário português em 1937 com a obra poética Relevos, ainda enquanto estudante. Neste romance, reflete­‑se sobre o papel do médico, a doença e o doente, a dor e a morte. A história é narrada pelo protagonista, Jorge, médico do serviço de Hematologia do IPO de Lisboa, portador de uma personalidade cáustica. É importante realçar que, na época, o diagnóstico de cancro era destruidor e praticamente uma sentença de morte. Jorge confessa: Tenho medo das palavras como de uma serpente enrolada. Nunca se sabe o tamanho que têm, antes de as forçarmos a desenroscarem­‑se. Tal justifica a distância e a máscara que adopta perante os doentes e o sofrimento destes. Encarava­‑os como pessoas já mortas, e apresentava ainda um preconceito contra todos eles, referindo­‑se­‑lhes diversas vezes como animais – Eram cavalos viciados no chicote. Aplica­‑se nas relações sociais dentro da estrutura do hospital, como meio de alcançar poder e autonomia profissionais. A sua rotina muda quando encontra Clarisse, doente terminal com leucemia, por quem se apaixona. Têm um relacionamento no curto tempo de vida que lhe resta.

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Vivem um frenesim, aproveitando cada instante. Jorge é, simultaneamente, o homem que vive e ama, e o médico que conhece a doença e a sua evolução. O sofrimento leva­‑o a questionar a sua postura e atitude, e a aperceber­‑se da empatia humana. Após a morte de Clarisse, o médico sofre um processo de auto­‑análise. Ganha consciência de que a vida não se restringe ao hospital, e das razões pelas quais deve lutar. Namora explora os temas mais dolorosos e profundos do ser humano – a dor de perder alguém amado, o lidar com a morte diariamente e a impotência de qualquer ação eficaz. Ao ser colocado perante a inevitável morte em cada momento da história, o leitor é conduzido ao seu âmago, a refletir sobre si e os outros e a avaliar os seus valores. Margarida Costa Pereira

O homem que escreveu a desmemória Ao longo da nossa formação académica, não chocará ninguém se se afirmar que podemos ter exames preferidos. Não porque deles tenham resultado, forçosamente, boas notas, mas por terem sido diferentes, por terem tocado em várias pontas do conhecimento e, principalmente, por terem apelado a uma preparação que não se fica pela memorização transitória de uns chavões que queremos esquecer tão rapidamente quanto os decorámos. Um desses exames foi o de Neurologia e Neurocirurgia, do 4º ano de Medicina. Com transcrições retiradas de vários livros canónicos, servindo como introdução às ludibriosas questões de escolha múltipla, acabou por resultar numa boa anastomose de duas áreas que sempre se imiscuíram bem uma na outra. Talvez pela inclinação literária de muitos médicos ou pela susceptibilidade de muitas afecções neurológicas ao olhar, quer do escritor, quer do leitor, por encerrar tanto de ciência como de mistério, a literatura tem sabido beber da neurologia histórias marcantes e provas de vida. Uma das passagens desse exame pertence ao livro De Profundis, Valsa Lenta, de 1997, o penúltimo livro de José Cardoso Pires, um dos autores portugueses mais relevantes do século XX, que se propôs escrever a «memória de uma desmemória», após um primeiro Acidente Vascular Cerebral (AVC), em 1995. Um coágulo alojado no cérebro, numa zona preponderante para o processo da fala e da escrita, rouba­‑lhe as memórias, deixa­‑o afásico (um distúrbio na formulação e compreensão da linguagem) e, durante uma semana, imerso naquilo a que chamou uma «morte branca». No relato dessa situação aguda, José Cardoso Pires narra a manhã em que se começou a afastar subitamente do seu «eu», e a consequente estadia numa enfermaria do Hospital de Santa Maria. Deambulamos por fragmentos serenos dessa experiência de quase­‑morte, e vislumbramos a sua relação alterada com os objectos, com as palavras, com os familiares. Sendo a razão como uma fresta na consciência, reaprende a interagir com o ambiente, amedronta­‑se pelo desprendimento das palavras e readquire a capacidade de ver, nos rostos, os afectos que os moldam. Acaba por recuperar, regressa a casa, e a memória, que se havia dissolvido, reorganiza­‑se aos poucos, permitindo­‑lhe escrever, numa prosa limpa, simples, impregnada da ironia de quem valsa lentamente com a morte e faz figas nas costas, a crónica de quem viveu a nulidade. Como diz o neurocirurgião João Lobo Antunes no prefácio, este livro é precioso, dado que escrever, neste caso, após esta patologia vascular cerebral, é muito difícil: «é que ela seca a fonte de onde brota o pensamento ou perturba o rio por onde ele se escoa». Enquanto estudantes de medicina, quando frequentamos as enfermarias e falamos com estes doentes, pretendemos, sobretudo, colher e escrever uma anamnese com linguagem neutra e técnica. Em De Profundis, Valsa Lenta, o escritor, por outro lado, expõe a semiologia neurológica num tom obviamente literário, partilhando os sentimentos que decorrem da doença. É um livro pequeno: lê­‑se numa manhã ou numa tarde. Porém, aperta bem as amarras da nossa própria memória, e não podemos ficar indiferentes, nem conseguimos. José Cardoso Pires morre em 1998, aos 73 anos, depois de sofrer um novo AVC, mas essa última valsa é já a de um homem que soube, depois da desmemória, reerguer o seu mundo. Fábio Videira Santos 30 N . 0 4 - j u n h o 2 013


Corino Mad • Este ano, todas as barracas da queima foram obrigadas a passar faturas. Pela primeira vez, ninguém se queixou de falta de papel higiénico. • Aneke Quijoa foi declarado Doutor Honoris Causa em Medicina Dentária porque se há coisa que sabe fazer é “txumbar”. • A AEICBAS organizou este ano o primeiro ABC. Apesar de ter sido muito bem organizado, talvez o local ideal para este congresso, que assinala a união de todos os cursos, fosse a assembleia da república: há burros, doentes mentais e sanguessugas. • Apesar das más línguas, a relação dos alunos do ICBAS com os de Farmácia não podia ser melhor: mesmo antes de as duas faculdades estarem “unidas”, já havia químicos nas flowers. • O ICBAS organizou este ano mais um ENEM, que mais parecia um INEM: tinha médicos, bêbados e ia havendo sangue. • Toda a gente acha que os estudantes de biomédicas não dormem – claramente nunca foram a nenhuma aula de imunologia. • Este semestre, um grupo de alunos resolveu manifestar­‑se pela falta de espaço e de condições da cantina. Infelizmente, a manifestação contou com poucos alunos porque os outros estavam na fila para o almoço. Clube de Comédia da UP

Está o quintanilha numa loja de ferragens quando chega um homem a reclamar com uma maquineta: “vocês sao uns aldrabões: aqui diz que a montagem precisa de cinco anilhas mas aqui nas instruções diz: insira a primeira, segunda, terceira, quarta e a quinta anilha? E lá no fundo ouve se: “estou aqui” Entro num hospital e escuto: “sabes, acabou de sair um novo iPad e eu já o tenho. É para juntar ao iPod e iPhone! E tu tens alguma maquineta destas?” E o amigo responde:”Sim, tenho ipex!”

A MAGAZINE DE ESTUDANTES DO ICBAS PARA ESTUDAN T E S D O I C BAS 31


Esta é aquela página aleatória cujo tema é qualquer um. Aleatória, pois os assuntos aqui presentes ganharam o direito de o estar por puro acaso. Esta página é ou uma sorte ou um acidente. A primeira será com certeza destino. A segunda, azar.

Aquela PÁGINA ALEATÓRIA

Juan Muñoz Juan Muñoz foi um conhecido escultor espanhol (1953­ ‑2001) Em princípios da década de 90, este começou a produzir obras de carácter narrativo: instalações de figuras monocromáticas, semelhantes entre si, com um tamanho um pouco inferior ao normal, em aparente interacção. Para além da escultura, Juan Muñoz produziu vários trabalhos para rádio. Em 2000 é­‑lhe atribuído o Prémio Nacional de Artes Plásticas de Espanha. Falece em 2001, aos 48 anos. O seu último trabalho encontra­‑se no Jardim da Cordoaria, no Porto, de nome “Thirteen Laughing at Each Other”.

O Conflito no Cáucaso O Cáucaso é uma região da Europa/Ásia situada entre o mar Negro e o mar Cáspio. Considera­‑se uma das regiões culturalmente mais diversas do planeta, pois existem aqui cerca de cinquenta etnias de diferentes linguagem, religião, aparência e costumes. Durante os últimos duzentos anos tem tido uma história turbulenta, contando com conflitos étnicos internos e sendo repetidamente conquistado e perdido pela Federação Russa. Na actualidade é geopoliticamente confuso, estando dividido em Cáucaso do Norte – parcialmente integrado na Federação Russa – e Cáucaso do Sul. Em 1991, com o colapso da União Soviética, várias regiões declararam a independência desta última. As repúblicas do Cáucaso do Norte – ao todo nove, incluindo a Chechénia, Daguestão, Ingushetia e Ossétia do Norte – obtiveram a independência, sendo reinvadidas pela Rússia em 1994. O Cáucaso Sul inclui os três países Arménia, Geórgia e Azerbaijão. A Geórgia inclui dois estados semi­‑independentes (Abecassia e Ossétia do Sul) e uma região política autónoma (República de Adjara); o Azerbaijão inclui um estado semi­‑independente (Nagorno­‑Karabakh) militarmente controlado pela Arménia, bem como uma região autónoma geograficamente separada (República de

Nakhichivan). Estes estados não reconhecidos funcionam há anos como independentes. Após enfrentar sérias guerras e massacres, o Cáucaso considera­‑se um conflito “congelado” com mais de 1 milhão de refugiados.

Os Xenartros Os xenartros, também conhecidos como mamíferos desdentados, são uma ordem de mamíferos placentários presente apenas no continente americano. Esta ordem inclui as preguiças, tamanduás (ou papa­‑formigas) e tatus (ou armadilhos). O nome “desdentados” advém da dentição incompleta destas espécies (ausência de molares). Possuem ainda as taxas metabólicas mais baixas de todos os mamíferos, à excepção das equidnas e ornitorrincos.

Corino MAG, nº4, Out'2013  

Aqui está a tão aguardada revista Corino do segundo semestre do Ano Lectivo 2012/2013, da Associação de Estudantes do Instituto de Ciências...

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