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16 • Goiânia, novembro de 2015

Jornal do Professor

trajetória

Guerra do Vietnã fez Thomas vir para UFG

Fábio Alves

Quando jovem, professor americano instalou aparelho ortodôntico para fugir da lista de convocados para o conflito

Em 1967, Thomas Roland Hoag viu que era inevitável sua convocação para a Guerra do Vietnã (1955-1975). Três amigos já haviam ido e as notícias de jovens mortos o levaram a decidir deixar os Estados Unidos. O mais rápido possível. Com 23 anos e morador de Port Washington, município do Estado de Nova Iorque com poucos “voluntários” para a guerra, Thomas se inscreveu como voluntário da paz num programa que o levou a construir casas populares na desconhecida Gurupi, então Estado de Goiás, Brasil. Após dois anos, Thomas fez amigos e já estava adaptado quando lhe chegou uma carta do governo americano. Deveria retornar. Era a convocação para os exames físicos do exército. “Arrumamos um advogado em Nova Iorque para me tirar daquele pesadelo. Ele arrumou um dentista pra colocar aparelho nos meus dentes. Foi a saída. Não passei no exame”, conta, ainda comemorando. O plano lhe custou U$ 800. “Meu pai bancou. Era caro, mas no fim ficou barato. Valeu minha

vida”, diz. Valeu a grande guinada de sua vida. No Brasil, além de amigos, ele já tinha uma namorada e uma paixão por tudo que é árido e desigual, objeto de seu olhar fotográfico. Então voltou. Thomas estudou Comunicação na Universidade de Miami e Fotojornalismo com Wilson Hicks, então editor de Fotografia da revista Life. E com os contatos da época de voluntário da paz conseguiu uma carta-convite para dar aula na UnB. De volta, conheceu Arnaldo Niskier em Brasília e de lá foi trabalhar na Editora Bloch, no Rio de Janeiro. Fotografou para revistas como Enciclopédia e Pais e Filhos. Voltou a Brasília e conheceu Lena Castelo Branco. A então diretora do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da UFG lhe perguntou se além de fotografia Thomas ensinaria inglês. Ele topou e, em 1971, era o quarto professor admitido do curso de Jornalismo. Antes dele, apenas Antonio Maia Leite, Valquíria dos Santos e Modesto Gomes. Depois é que chegaram nomes como Francisco

Ponte Pierre e Hélio Furtado do Amaral. Como Thomas se aposentou em 2014, aos 70 anos, é o professor que mais tempo permaneceu na história do curso de Jornalismo da UFG. Neste tempo, Thomas ensinou fotografia a gerações de jornalistas, construiu o Laboratório de Fotografia da antiga Facomb, assessorou políticos – fotografou para Leonino Caiado, Irapuã Costa Junior, Iris Rezende –, e continuou fotografando, expondo (veja na página 15). “Não tem porque aposentar quando você faz o que gosta. Ainda tenho vontade de ensinar. Meus melhores professores nos EUA tinham mais de 70 anos. Foi com eles que aprendi mais. No mestrado, meu orientador tinha 86. Ele não era pós-graduado, mas tinha anos e anos de experiência que repassava para gente”, diz. “E 70 anos hoje não é uma idade de velho. Há 20 anos atrás, talvez. Com a cabeça boa, corpo bom, experiência acumulada, vontade de pesquisar e de ensinar, por que não continuar?”, lamenta.

Popularidade versus qualidade

Chivas na 1ª classe

Thomas usou máquinas analógicas Yashica, Rolleiflex, Miranda, Pentax e Nikon. Nos anos 90, aderiu à fotografia digital e por último comprou uma Nikon semiprofissional. Ele deu aula em digitais. “Mas nunca ao lado do computador. As câmeras de hoje têm recursos de computadores”, diz. A popularidade e as facilidades das câmeras digitais e aplicativos de edição fize-

Na primeira vinda ao Brasil, em 1967, Thomas chegou atrasado para o voo e acabou ficando sem vaga na classe econômica. “Perguntaram se eu não me importava em ficar na primeira classe. Tinha uma garrafa de Chivas (whisky) na mesa. Eu disse ‘por mim tudo bem’. Foi a única vez na minha vida que consegui isso. Vim tomando o Chivas”, conta rindo.

ram com que todo mundo se torne fotógrafo, o que não quer dizer que todos sejam bons fotógrafos. “No fotojornalismo, é importante entender a câmera e estar no lugar certo e no momento certo. Hoje temos o lugar certo, o momento, mas nem sempre fotos de qualidade. Fico horrorizado ao ver algumas imagens de celular na televisão”, diz. Ele não usa celular para fotografar.

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