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Movimentos sociais

um movimento social, embora a existência de objetivos em comum e estratégias de organização e mobilização, aliados a outros componentes, sejam importantes para a constituição de um MS. Entendemos que os movimentos sociais são expressões orgânicas do processo de construção de projetos coletivos a partir de uma consciência política. Referem-se à organização de um sujeito coletivo constituído por um grupo que compartilha identidades “[...] sob uma liderança determinada ou não; possuindo um programa, objetivos ou plano comum; baseandose numa mesma doutrina, princípios valorativos ou ideologia; visando um fim específico ou uma mudança social” (SCHERER-WARREN, 1987, p.12). Nesse sentido, Scherer-Warren (1987) argumenta que são elementos constitutivos fundamentais para a compreensão dos movimentos sociais: a práxis, o projeto, a ideologia e a direção e organização. A práxis é entendida como a prática refletida, não alienada, crítica. O projeto afirma o que o movimento social quer alterar na realidade. A ideologia conforma os valores e princípios que dão sentido e direção ao movimento e, portanto, perpassa tanto a práxis como o projeto de ação do MS. A direção e a organização referem-se às relações estabelecidas entre direção e base. Com isso, esboçamos uma noção dos elementos que estruturam um MS. É bem verdade que não se pode falar na existência de um paradigma latino-americano de análise dos movimentos sociais, inclusive porque ainda é bastante incipiente a produção teórica sobre o tema neste continente, mas algumas características revelam as particularidades dos movimentos sociais latino-americanos. Gohn (2007) assinala as principais especificidades dos movimentos sociais latino-americanos, dentre as quais destacamos: a diversidade de MS existentes, inclusive em relação às mesmas demandas, por apresentarem diferenciações internas entre eles quanto à forma de organização e projeto político; a hegemonia dos movimentos populares diante de outros tipos de MS, pois grande parte dos movimentos latino-americanos lutam por direitos sociais básicos e elementares; a relação dos MS com o Estado, pois esta sempre variou em função dos objetivos estratégicos dos próprios movimentos; e o fato dos partidos políticos te136 - DF, ano XXI , nº 48, julho de 2011

rem clara atuação junto aos movimentos sociais em geral, até porque muitos militantes dos movimentos são, também, militantes partidários. No caso específico da realidade brasileira, devemos partir da análise do Brasil colonial e demais elementos que definem sua formação histórica, econômica, política e social, pois estes são, constantemente, (re) atualizados e imprimem particularidades às relações entre Estado, classes e movimentos sociais. O próprio processo de transição do capitalismo competitivo ao capitalismo monopolista evidencia uma particularidade da formação sócio-histórica brasileira: Em síntese, no caso brasileiro, a expansão monopolista faz-se, mantendo, de um lado, a dominação imperialista e, de outro, a desigualdade interna do desenvolvimento da sociedade nacional. Ela aprofunda as disparidades econômicas, sociais e regionais, na medida em que favorece a concentração social, regional e racial de renda, prestígio e poder. Engendra uma forma típica de dominação política, de cunho contra-revolucionário, em que o Estado assume um papel decisivo não só na unificação dos interesses das frações e classes burguesas, como na imposição e irradiação de seus interesses, valores e ideologias para o conjunto da sociedade (IAMAMOTO, 2008, p. 132).

Nesse processo, no qual o Estado assume papel fundamental, o desenvolvimento capitalista brasileiro se dá de forma elitista e antipopular, marcada por apoios e negociações entre as classes dominantes, que, estrategicamente, antecipam as reivindicações da classe trabalhadora, pacificando-as e evitando grandes pressões populares em direção a uma ruptura radical com a ordem vigente8. Isso não significa ausência de reivindicações, protestos e lutas das forças democrático-populares, ao longo da história do país, mas sem dúvida a particularidade do desenvolvimento brasileiro reflete na forma como esses movimentos se organizam no país. Por ser ainda incipiente a produção teórica sobre os movimentos sociais na América Latina, as análises produzidas foram orientadas predominantemente pela produção teórica europeia, em específico a teoria dos Novos Movimentos Sociais (NMS) e a teoria marxista. Na abordagem dos NMS, o estudo dos movimentos sociais fundamenta-se na fenomenologia, com ênfase UNIVERSIDADE E SOCIEDADE

Revista Universidade e Sociedade - N°48  
Revista Universidade e Sociedade - N°48  

Revista do Sindicato Nacional ANDES-SN

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