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Movimentos sociais

pitalista, a acepção gramsciana a concebe como a esfera em que as classes organizam e defendem seus interesses (GRAMSCI, 2005, p. 11-12). e disputam hegemonia. A sociedade civil passa a ser, portanto, “palco Um segundo elemento que Gramsci considera é de um pluralismo de organismos coletivos ditos a necessidade de organização da classe para a cons- ‘privados’ (associações e organizações, sindicatos, trução de uma nova hegemonia, entendida aqui partidos, atividades culturais, meios de comunicação como a direção e o consenso ideológico que uma etc.), é a nova configuração da dinâmica social, na qual classe exerce sobre a sociedade. Para tanto, elabora se precisava repensar a política” (DURIGUETTO, estratégias anti-capitalistas com o objetivo de levar 2007, p. 55). Com isso, Gramsci demarca uma difea classe trabalhadora a ascender ao poder político, rença radical nas acepções do que se entende e se decomo por exemplo, a guerra de movimento e a guer- fende por sociedade civil e, consequentemente, que ra de posição6. A primeira se constitui como um en- projeto político deveria ser construído a partir desse frentamento direto ao poder do Estado, enquanto a entendimento. segunda se caracteriza por conquistas graduais de esAssim sendo, na abordagem marxista, a política é paços de direção ideo-políticos. determinada pela formação econômica da sociedade Para Gramsci, a construção de uma hegemonia das e, estando presente nas mais diversas esferas da vida classes subalternas requer uma intensa social, constitui-se como lócus privileA política é determinada “preparação ideológica das massas”, um giado para o exercício do potencial repela formação trabalho de construção de uma nova volucionário da classe proletária, por econômica da sociedade concepção de mundo. Dessa forma, a meio dos diferentes instrumentos polípartir de uma determinada compreensão tico-organizativos, no que se refere à e, estando presente nas do processo de transformação social, elaboração de um projeto de emancipamais diversas esferas da Gramsci amplia, consideravelmente, a ção humana. vida social, constitui-se noção de política ao se preocupar com os Nessa perspectiva, compreendemos como lócus privilegiado elementos de preparação das condições os movimentos sociais (MS) como um ideológicas da práxis revolucionária, dos sujeitos coletivos presentes na arepara o exercício do sem perder a dimensão da importância na política e com forte potencial de potencial revolucionário da articulação e complementaridade dos mobilização e articulação da classe trada classe proletária. processos cultural e econômico, entenbalhadora, na luta pela hegemonia de um dendo este último como determinante projeto societário anticapitalista. para a compreensão da realidade social e sua transformação. 3. O Movimento Estudantil no contexto Distingue, ainda, duas formas de política: a gran- dos Movimentos Sociais de política – ações que intencionam modificar ou Os movimentos sociais passam a ser objeto de preservar a ordem social – e a pequena política, ações estudo acadêmico nos anos 1960 em múltiplas aborvinculadas a questões parciais e cotidianas, como a dagens teórico-metodológicas7. As diferentes interprepolítica parlamentar. É no complexo processo de pas- tações e definições para movimento social têm provosagem da pequena para a grande política, ou ainda cado, muitas vezes, embaraços teóricos a fim de rotuda consciência e da prática egoístico-passional para a lar toda e qualquer ação coletiva em defesa de deterético-política, que se constitui e que se pensa a esfera minado interesse como sendo um MS. da política em Gramsci. Na realidade, é importante saber distinguir moO pensador italiano ressignifica, também, o con- vimento social e grupo de interesses, bem como formas ceito de sociedade civil, tornando o debate ainda mais de ação coletiva, tais como protestos ou manifestações, complexo. Em contraponto às posições que compre- e movimento social propriamente dito (GOHN, 2007), endem sociedade civil como funcional ao projeto ca- pois esses aspectos, de forma isolada, não conformam é inevitável ou acreditaremos que ela seja apenas um fa-

to histórico que responde a determinadas condições?

UNIVERSIDADE E SOCIEDADE

DF, ano XXI, nº 48, julho de 2011 - 135

Revista Universidade e Sociedade - N°48  

Revista do Sindicato Nacional ANDES-SN

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