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Movimentos sociais

e, dessa forma, a reflexão e ação política constituem-se dividual é, sem dúvida, a identidade com um grupo possibilidade de objetivação da dimensão humano-ge- que compartilha das mesmas experiências sociais e nérica do indivíduo. apresenta os mesmos interesses. Não por acaso a tradição marxista atribui signifiFaz-se necessário, porém, que as diversas identidacativa importância para a ação coletiva da classe des (gênero, raça/etnia, orientação sexual, idade, cultutrabalhadora por meio dos diversos instrumentos ra etc.) sejam percebidas como dimensões que, ao invés político-organizativos. Em O Manifesto do Partido de negarem a classe social, como querem as posições Comunista3, Marx e Engels destacam que, em uma so- pós-modernas5, estão relacionadas e submetidas à ciedade marcada pela divisão de classes, são os inte- identidade de classe. A perda desse referencial e a resses antagônicos que impulsionam a política, por ausência do sentimento de pertencimento de classe meio do cotidiano enfrentamento de forças entre as compromete, profundamente, as possibilidades de classes. Discorrem, ainda, sobre as diversas etapas do construção de outra sociabilidade, fundamentada na desenvolvimento do proletariado em sua luta contra liberdade e na emancipação humana. a burguesia, bem como o processo de construção da Dessa forma, embora se organizar para reivindicar identidade coletiva, transitando da consdireitos seja uma das formas da classe Marx e Engels destacam ciência em si para a consciência para si. trabalhadora fazer política, tal fato não Nessa direção, Ramos (2002), ao necessariamente significa uma consciênque, em uma sociedade analisar os elementos determinantes cia classista. Muitas vezes a ação política marcada pela divisão de para a materialização da ação política, se limita ao aspecto imediatista da reivinclasses, são os interesses com o objetivo de problematizar os dicação, sem a vinculação com um projeto antagônicos que aspectos que levam os indivíduos a político emancipatório. Entretanto, não agirem coletivamente, aponta: a necespodemos perder de vista a potencialidade impulsionam a política, sidade, a consciência e a vontade – assodas lutas sociais cotidianas em evidenciar por meio do cotidiano ciada à paixão – como componentes as contradições do modo de produção enfrentamento de forças presentes no processo que impulsiona capitalista e potencializar a acumulação entre as classes. os indivíduos a saírem do âmbito da de forças para o desenvolvimento do singularidade e se comprometerem na processo revolucionário, pois “a ação afirmação da dimensão humano-genérica, por meio coletiva coloca as relações vividas num novo patamar. de ações coletivas. Vislumbra-se a possibilidade de não apenas se revoltar Vale ressaltar que compreendemos, com base em contra as relações predeterminadas, mas de alterá-las” Iasi (2007b), que a consciência não pode ser “adqui- (IASI, 2007b, p. 29). rida” como se antes não a tivéssemos de forma alguEssa perspectiva é aprofundada por Gramsci ma. Partimos, portanto, do princípio de que todas as ao denominar de ‘catarse’ o processo de elevação pessoas têm consciência, sendo esta formada nas re- do nível da consciência corporativa para o nível da lações concretas estabelecidas socialmente4. Afinal, consciência de classe. Para o pensador italiano, é intrata-se de um processo não linear, tendo em vista que concebível a reflexão sobre a organização política elementos anteriormente superados podem retornar, sem considerarmos a divisão da sociedade em classes trazendo concepções e posturas de uma forma de antagônicas: [...] governados e governantes, dirigidos e dirigentes consciência anterior. existem realmente. Toda ciência e arte da política se Embora a alienação seja a forma inicial de manifesbaseiam nesse fato primordial, irredutível (em detertação da consciência no sentido da naturalização da minadas condições gerais) [...] a seguinte premissa é realidade, as experiências da existência social a colofundamental: queremos que governados e governantes cam em contradição, podendo provocar nos indivíexistam sempre ou queremos criar condições para que duos o conflito e a revolta para com as situações de a necessidade dessa divisão desapareça? Partiremos do injustiça vivenciadas. Nesse processo, um elemento princípio de que a perpétua divisão do gênero humano determinante para sairmos do campo da revolta in134 - DF, ano XXI , nº 48, julho de 2011

UNIVERSIDADE E SOCIEDADE

Revista Universidade e Sociedade - N°48  
Revista Universidade e Sociedade - N°48  

Revista do Sindicato Nacional ANDES-SN

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