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The world is so big, so complicated, so replete with marvels and surprises that it takes years for most people to begin to notice that it is, also, irretrievably broken. We call this period of research “childhood�

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There follows a program of renewed inquiry, often involuntary, into the nature and effects of mortality, entropy, heartbreak, violence, failure, cowardice, duplicity, cruelty, and grief; the researcher learns their histories, and their bitter lessons, by heart. Along the way, he or she discovers that the world has been broken for as long as anyone can remember, and struggles to reconcile this fact with the ache of cosmic nostalgia that arises, from time to time, in the researcher’s heart: an intimation of vanished glory, of lost wholeness, a memory of the world unbroken. We call the moment at which this ache first arises “adolescence.� The feeling haunts people all their lives.

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Obviously, doctor, you’ve never been a 13-year-old girl

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the turning point of the still world


Fim de tarde sentada na cadeira da minha escrivaninha, as pernas dobradas, queixo apoiado no joelho,… olho pra baixo e vejo uma fotografia antiga que caiu de um livro meu enquanto fazia a arrumação da manhã. Nela vejo meus pais abraçados ainda jovens em sépia, apaixonados. Os dois vestem branco e minha mãe apoiada nos ombros dele, um homem grande, com a cabeça encostada em seu peito. Aquela fotografia me levou a lugares meus que jamais havia habitado, trouxe um riso, um choro, levou embora minhas angústias e dois segundos depois trouxe inúmeras novas. Pensei no amor extinto do meu clã que um dia sonhou em eternidade, em dois num só, em mim, em vida, animais, morte unida.

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Sinto que desde a separação até hoje minha mãe não é mais inteira, e da última vez que vi meu pai, ao pronunciar o nome dela disfarçou a mágoa com uma feição de ira. Contudo, nada me impede de enxergar a dor da frustração, de algo que nasceu, cresceu, se multiplicou e desmoronou… e sentir isso dentro da minha mãe, olhando pra ela e vendo a tristeza transbordando até mim, me faz aceitar em deixar ressentir o que um dia em minha vida também não funcionou, desmoronou. Todo mundo uma hora parte, mas a parte que fica de todo mundo completa um pouco do que não nasceu em nós. Sabe, já faz muito tempo que não vejo meu pai, que não sei mais o cheiro dele e o seu jeito tosco de fazer piadas cínicas contagiando até o mais malhumorado com uma gargalhada. Mas o que ele é, foi e será é parte da minha lembrança… aquela das minhas noites antes do sono quando fecho os olhos e lembro que ia ganhar um beijo, um carinho no cabelo louro escorrido e ele ia me embrulhar como um pãozinho que precisa crescer durante um tempo antes do forno. Talvez eu ainda seja pãozinho cru, crescendo e esperando o afago de fim de noite… e quem sabe um dia eu entenda que isso só deve existir na tela das minhas pálpebras, como um filminho que todos deixam em nós quando passam em nossas vidas.

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“The huge eye which had become an imense fear, was gently breathing; only it was not an eye nor a sphere, but a great wonderful animal covered in little waving legs like hairs, waving oh so gently as if they were underwater. All shall be well and all shall be well said the ocean. So the place of reconciliation existed after all, not like a little hole in a cupboard but flowing everywhere and being everything. I had only to will it and it would be, for spirit is omnipotent only I never knew it. Like being able to walk on the air, I could forgive. I could be forgiven. I could forgive, perhaps that was the whole of it after all. Perhaps being forgiving was just forgiving only no one had ever told me�

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A necessidade do significado o perseguia por todas as esquinas. Maroom, yellow, blue, gold and grey, dizia a música. “Por quê?”, indagava. O pior mesmo era com as janelas. Uma se abria enquanto outra se fechava, outra chorava enquanto outra sonhava, e um caos se formava em sua cabeça. Às vezes nem se lembrava mais, apenas que era um ciclo interminável.

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Por fim, a fadiga venceu, e deu descanso àqueles versos. Resolveu nunca mais ouvir canções, apenas as cantadas numa língua desconhecida.

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fim


“Antigamente, se alguém tivesse algum segredo que não quisesse partilhar, sabe o que ela fazia? Subia uma montanha, achava uma árvore, abria um buraco nela, sussurrava o segredo dentro do buraco e depois o cobria com lama. E lá ficaria o segredo para sempre...

Ele se recorda desses anos perdidos.

Como se olhasse através de uma janela empoeirada. O passado é algo que ele pode ver, mas não tocar. E tudo que ele vê é turvo e indistinto”

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A hora do banho é a única no dia inteiro em que mergulho em mim. Gotas caem, mas sinto apenas o coletivo da água. Quero sentir gota por gota, cada uma ao cair poder causar um arrepio, um susto ou quem sabe, um alívio. Sem tempo de gozar cada uma vão-se todas e a sensação também, desperdício de prazer e vida por segundos que perco procurando o relógio na parede e o caminho dos ponteiros. O coletivo de gotas cai tão rapidamente. -Já senti? Um caminho transitório de gotas que se identificam com os meus segundos de vida no banho, na verdade, na existência. Existência efêmera esta minha, que me alimento as nove pensando no trabalho das dez, trabalho pensando no almoço das doze, e assim por diante até o sonho, que se fecha num ciclo do pensamento do café da manhã das nove. -Quando começa o recreio da vida?

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Estender uma toalha de piquenique em cima da minha rotina e comer frutas, olhar pássaros, andar de pedalinho e comer algodão-doce. Acabou o banho, a relação entre corpo e água também. A toalha me assiste em seu semblante de esposa atenta, me espera. Caprichosamente enxugo gota por gota, afinal deixa de ser capricho se esta gota acabar na roupa. A linha tênue entre o desleixo de fim de gota na roupa e capricho do fim na toalha me deixa quebradiço diante do certo/errado que sempre me disseram existir. Quebrado, inteiramente, nunca saberei o jeito certo de colar, se errei no material, na técnica ou no resultado, se a perna esquerda deve ir antes da direita, onde posso ler estas leis todas. Junto à minha coleção de perguntas anoto uma resposta, que tem no meio a palavra indesfecho.

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mar/2013 Š adriana komura www.cargocollective.com/adrianakomura impresso na risograph em papel colorplus fidji, alaska e xxxxx e xxxxxx

apoio:

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i wish you could exist to live on my planet  

Title: i wish you could exist to live on my planet Author: Adriana Komura First Edition of 30 numbered and signed copies Year: 2013 Format:...

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