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Prontos Para o Amor Bargaining For The Baby

Robyn Grady

Apesar de ser um bem-sucedido criador de ovelhas, Jack Prescott não estava pronto para ser pai em tempo integral. Ele cumpriria seu dever e cuidaria do sobrinho órfão, mas em seu coração não havia lugar para um bebê... ou para Madison Tyler, a outra tutora e a mulher que teimava em perturbar sua vida. Jack não podia ignorar a atração que sentia por ela, apesar de o caso entre eles ter sido curto, problemático e repleto de más lembranças. Agora, Madison estava de volta à fazenda de Jack, sendo que ele tinha de dar atenção ao menino. De que forma ambos poderiam desejar mais tempo juntos quando nenhum dos dois estava preparado para um compromisso?


Tradução Fernanda Lizardo Harlequin 2011 Querida leitora, Durante um casamento recente na família, eu aproveitei a companhia de uma senhora sábia que disse: "Se você realmente tem sorte para encontrar a pessoa no mundo que 'entende quem você é', deveria segurá-la com força e nunca mais soltar". Anos antes, essa senhora conhecera e se casara com o homem dos sonhos dela. Eles eram mais do que feitos um para o outro e foram muito felizes, particularmente quando tiveram uma linda filha de olhos escuros. Por infelicidade, quando aquela garotinha estava com apenas quatro anos, seu amado pai foi tirado delas. Olhar para os olhos dessa mulher é saber que ela vai amar o marido para sempre. E a lógica diz: se você já entregou seu coração a alguém, você não tem outro para dar. Para alguns, eu acredito que isso seja verdade. Mas não para todos. Quando sua esposa faleceu, Jack Prescott, meu herói em Prontos para o amor, sentiu como se sua vida estivesse acabada também. E saber que seu futuro bebê havia partido também, enterrara suas emoções. Mas quando o sobrinho de Jack precisou de um tutor permanente, a guardiã temporária do bebê, Madison Tyler, encontrou uma fenda em sua opulenta armadura de caubói. Entretanto, Jack estava relutante em apostar no amor... Tão relutante quanto Maddy estava em viver na parte rural da Austrália. E ainda assim um lado dessa garota urbana continuava a desejar que aquela atração aquecesse o coração de Jack o suficiente para fazê-lo perceber que ele ainda possuía amor para dar. Espero que você aprecie Prontos para o amor. Felicidades,

Robyn PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.à.r.l. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: BARGAINING FOR THE BABY Copyright © 2010 by Robyn Grady Originalmente publicado em 2010 por Silhouette Desire Arte-final de capa: nucleo-i designers associados Editoração eletrônica: ABREU'S SYSTEM Tel.: (55 XX 21) 2220-3654 / 2524-8037 . Impressão: RR DONNELLEY Tel.: (55 XX 11) 2148-3500www.rrdonnelley.com.br Distribuição, exclusiva para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil: Fernando Chinaglia Distribuidora S/A. Rua Teodoro da Silva, 907 Grajaú, Rio de Janeiro, RJ — 20563-900 Para solicitar edições antigas, entre em contato com o DISK BANCAS: (55 XX 11) 2195-3186/2195-3185/2195-3182 Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171,4° andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 Correspondência para: Caixa Postal 8516 Rio de Janeiro, RJ — 20220-971 Aos cuidados de Virgínia Rivera virginia.rivera@harlequinbooks.com.br


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CAPÍTULO UM

Jack Prescott saiu da sala do hospital público, os sentidos trancafiados em uma confusão entorpecente. Ele havia recebido um telefonema às dez horas daquela manhã. Entrou imediatamente em seu jato bimotor Piper Navajo e voou para Sidney, com o coração na boca durante todo o trajeto. Ele e Dahlia não se falavam havia três anos. Agora ele perdera a chance de se despedir. Ou de se desculpar. Ele adentrou o corredor movimentado sob olhares pungentes. O ar tinha cheiro de antisséptico e, sob aquele odor, de morte. A partir daquele momento, ele era o último Prescott sobrevivente e não havia uma única alma a culpar, senão a si mesmo. Um médico de passagem, absorto numa conversa, trombou no ombro de Jack. Ele oscilou, esticou as pernas e então colocou as mãos notavelmente calmas em frente a si para examinar suas palmas cheias de calos. Quanto tempo levaria até o pesadelo atingilo de verdade? Antes de ele cair de joelhos e amaldiçoar seu mundo desprovido de Deus? Onde estava a misericórdia? Dahlia tinha apenas 23 anos de idade. Uma mulher na sala lotada chamou sua atenção, os cabelos louros fluindo sobre um dos lados de um vestido vermelho. Ela segurava uma criança envolta em mantas. Jack esfregou um olho, que parecia conter areia, e refez o foco. Sob luzes fluorescentes, lágrimas reluziam sob os cílios dela, e quando ela o encarou, Jack se perguntou se eles já se conheciam. Quando os lábios dela se contraíram num sorriso que dizia "sinto muito", ele sentiu um vazio no âmago. Uma das amigas de Dahlia. Mas ele não tinha certeza se já era capaz de articular as palavras. Aqueles gracejos simbólicos como "Ah, você conhecia minha irmã. Sim, ela era muito bonita. Desculpe, mas preciso ir... tomar providências." A mulher continuou aguardando, a mão pálida apoiando a cabeça do bebê. Jack não conseguiu evitar um encontro. Ele forçou os pés a caminhar e, uma eternidade depois, parou em frente a ela. — Você é irmão de Dahlia, não é? — ela perguntou. — Você é o Jack. — As bochechas coradas dela estavam manchadas por lágrimas, as unhas estavam roídas no sabugo e os olhos... Os olhos eram cor de violeta. Jack sugou o ar. Quando foi a última vez que ele notara algo assim? Ele não tinha certeza se ao menos sabia qual a cor dos olhos de Tara. Após a morte de sua esposa há três anos, Tara Anderson havia passado cada vez mais tempo em Leadeebrook, a fazenda de ovinos em Queensland onde ele morava. Jack levara tempo para apreciar a companhia de Tara; ele não estava muito sociável nos últimos tempos. Mas considerando o quão próximas sua falecida esposa e esta mulher haviam sido outrora, então ele e Tara se tornaram bons amigos também. 3


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Daí, na semana anterior, Tara oferecera mais. Ele havia sido direto. Nunca amaria outra mulher. Sua aliança de casamento estava em uma corrente de ouro que nunca saía de seu pescoço, enquanto a aliança da esposa estava aos pés de uma fotografia que ele mantinha sobre a cômoda do quarto. Sue não havia sido apenas a esposa dele, ela tinha sido sua alma gêmea, sua metade. A metade melhor. Ainda assim, Tara seguiu com a argumentação. Ele precisava de alguém estável em sua vida, ela dissera. Ela precisava de alguém para ajudar a administrar sua propriedade. Aquilo captara a atenção de Jack. Vinte anos atrás, o pai de Jack se curvou sob uma época difícil e vendeu metade de suas terras ao vizinho, o tio-avô de Tara. Mais tarde, ele tentou comprar a terra de volta, mas Dwight Anderson não estava interessado. Após a morte de Sue, a vida de Jack pareceu sem sentido. Ele não encontrava satisfação nas tarefas que em outra época faziam seu sangue fervilhar e correr nas veias. Porém a ideia de satisfazer o sonho de seu pai recuperando aqueles acres ofereceram um lampejo de significado aos seus dias mais sombrios. Tara era uma mulher boa e atraente sob os critérios de qualquer homem. Talvez eles pudessem ajudar um ao outro. Mas antes de se casar novamente, um problema precisava ser resolvido. A raça humana se fiava no poder do instinto maternal: as mulheres queriam filhos e Tara seria uma mãe excelente. Mas ele não tinha vontade de se tornar pai. Ele cometera erros; um erro imperdoável. Ele pensava nisso com freqüência e não apenas quando visitava o pequeno túmulo ao lado do da esposa no jazigo da família em Leadeebrook. Ter o coração dilacerado uma vez era o suficiente para qualquer homem. Ele não iria pôr o destino à prova fazendo outro filho. Se Tara queria um casamento por conveniência, este seria sem planos de formar uma família. Embora ela tivesse concordado com um meneio de cabeça quando ele dissera exatamente aquilo, a névoa nos olhos dela entregara que ela esperava que ele mudasse de ideia. Não amanhã. Não daqui a dez anos. Ele estava firme naquele propósito. O olhar de Jack se pôs sobre o bebê levemente enrolado na manta quando a mulher de vestido vermelho falou outra vez: — Dahlia e eu éramos amigas — ela murmurou com uma voz falha. — Boas amigas. Ele inalou, correu uma das mãos pelos cabelos sem corte e ordenou os pensamentos. — O médico disse que houve omissão de socorro. Dentre tantos lugares, aconteceu bem em uma faixa de pedestre. Dahlia havia morrido devido a lesões internas apenas minutos antes de ele chegar. Ele tocou a mão dela, ainda morna, e se lembrou de como a ensinara a cavalgar Jasper, seu primeiro cavalo, e de como ele a consolara quando sua ovelha de estimação morreu. Quando ela esticou os braços e implorou a ele para compreender... quando sua irmã mais havia precisado dele... — Ela ganhou consciência brevemente. As palavras da mulher fizeram Jack sair da defensiva. As pernas amoleceram e ele se sentou, desejando não tê-lo feito. Ele olhou para cima muito rapidamente e a luz piscou. E o quê? 4


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— Ela falou comigo antes... Antes de ir. — Os lábios da mulher estavam cheios e rosados agora, o lábio inferior tremendo nitidamente. — Sou Madison Tyler. — Ela reposicionou o bebê e baixou para se sentar ao lado dele. — Os amigos me chamam de Maddy. Ele engoliu com força contra a garganta fechada, seca. — Você disse que ela voltou a ganhar consciência... Falou com você. Certamente não a respeito dele. Dahlia havia ficado destroçada após a morte dos pais deles. Nem mesmo a paciência e apoio da esposa dele serviram para ela. Naquela última noite, Dahlia havia gritado que não queria mais nada com o irmão, com suas regras estúpidas ou com Leadeebrook. Ela fora para o funeral de Sue, mas ele estava atordoado demais para conversar. Ao longo dos anos ele recebera cartões de natal, mas nenhum endereço para encaminhar a resposta. Ele cerrou as mãos sobre as coxas. Deus do céu, ele deveria ter deixado o orgulho de lado e procurado por ela. Deveria tê-la protegido. Trazido de volta para casa. O bebê se mexeu e Jack captou o rostinho adormecido, a sombra dos pequenos cílios sobre as rechonchudas bochechas coradas. Tão novo e cheio de promessas. Cheio de vida. Limpando a mente e o nó espesso na garganta, ele ficou de pé e recuperou o controle. — Podemos conversar no velório, senhorita... — Maddy. Ele puxou a carteira do bolso de trás da calça e caçou um cartão. — Vou checar se os avisos de falecimento foram realizados. Você pode me achar neste número se precisar. Se levantando também, ela buscou os olhos dele. — Preciso conversar com você, Jack. Preciso conversar com você agora. — Ela deu uma olhada no bebê. — Eu não sabia... Bem, Dahlia não tinha mencionado você antes. Quando o olhar dela se entrelaçou ao dele novamente, os olhos dela estavam arregalados e suplicantes, como se ela quisesse uma explicação. Ela parecia doce o suficiente, e compreensivamente emocionada, mas o que quer que Dahlia tivesse dito, não o faria se justificar para uma estranha. Para qualquer um, no que dizia respeito ao assunto. Ele desviou o olhar enquanto acenava o cartão. — Eu realmente preciso ir. — Ela me disse que te amava — ela falou sem pensar, se aproximando um pouco. — Que ela te perdoava. Inclinando-se, colocando o cartão sobre a cadeira, ele parou, apertou os olhos e desejou afastar a palpitação que irradiava nos ouvidos. Ele queria que essa semana acabasse. Queria voltar para casa. Voltar para sua terra. Para o que ele conhecia. Para o que ele conseguia manter. Ele se aprumou lentamente e exibiu um queixo rijo. O bebê estava remexendo, começando a guinchar e a reclamar. Um lado de Jack era arrastado pelo som enquanto 5


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outro queria colocar uma rolha nas orelhas e correr. A gota d'água seria ouvir um choro de criança. Exalando, ele enfiou a carteira no bolso de trás. — Não há nada que você possa fazer aqui. Você deveria levar este bebê para casa. — Estou tentando. Quando ela sustentou o olhar dele deliberadamente, ele balançou a cabeça e então deu de ombros. — Desculpe. Você me deixou perdido. Mas ela apenas mordeu o lábio inferior, os olhos arregalados e... Assustados? Será que ela estava sugerindo que o filho era dele? Algum tempo depois da morte da esposa dele, amigos preocupados tentaram atraílo de detrás das paredes que ele construíra em torno de si. Eles o convidaram para ir a Sidney, para apresentar moças adequadas em seu círculo social. Embora seu coração tivesse permanecido fechado, houve uma vez ou duas em que ele convidou mulheres para ir à sua cobertura na cidade. Era por isso que aquela mulher parecia familiar? Será que ele dormira com ela alguma vez no passado? Não. Ele teria se lembrado daqueles lábios. — Olha, senhorita... — Maddy. Ele deu um sorriso contraído. — Maddy. Nenhum de nós está no clima para joguinhos. O que quer que você tenha para dizer, eu ficaria grato se você despejasse logo. Ela não recuou ou se encolheu diante da franqueza dele. — Dahlia deixou o bebê comigo hoje — ela disse. — Ele não é meu filho. Esse bebê é seu sobrinho. Ele piscou rapidamente, tentou encontrar fôlego. Ele devia ter escutado errado. — Isso... não é possível. Uma lágrima rolou no rosto dela, formando uma gota sobre o capuz da manta azul de coelhinho do bebê, enquanto os olhos violeta reluziam com um vigor silencioso. — O último desejo da sua irmã foi que eu apresentasse vocês dois. Ela queria que você ficasse com ele, Jack. Leve-o para casa com você para Leadeebrook.

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CAPITULO DOIS

Quinze minutos depois, sentada à mesa do lado oposto ao de Jack Prescott, Maddy levou a xícara de porcelana aos lábios, certa de que nunca vira alguém parecer mais esgotado. Ou mais bonito. Jack mal havia olhado para o bebê, o encantador órfão que ele tinha acabado de conhecer. O homem sentado à mesa parecia ser feito de pedra, um perfeito enigma. Ela poderia nunca saber por que Dahlia havia excluído o irmão de sua vida. Se não fosse por causa do pequeno Beau, Maddy não iria querer saber. Jack pousou a xícara no pires e então lançou uma expressão gentil em direção ao bebê, que estava acomodado outra vez, dormindo no carrinho com o pequeno pulso cerrado perto do nariz. Foi Jack quem sugeriu um café, mas depois de tanto tempo em silêncio, Maddy não conseguia tolerar a calma indiferente dele nem por um minuto mais. Tinha uma tarefa a cumprir, uma promessa a manter e uma quantidade limitada de tempo para fazê-la. — Dahlia era uma ótima mãe — ela contou a ele. — Ela terminou a graduação em marketing de negócios antes de o bebê nascer. Estava tirando um ano de folga antes de encontrar um bom emprego e sossegar. — O olhar de Maddy decaiu sobre a xícara quando um sentimento devastador a atingiu. Agora era hora de dizer. Agora era hora de confessar. — Dahlia mal havia saído do apartamento desde que o levou para casa — ela continuou. — Eu disse a ela para ir ao cabeleireiro, fazer as unhas... Os músculos do estômago de Maddy se contorceram e ela fez uma careta sob o peso da culpa. Se ela não tivesse sugerido, não tivesse agendado e praticamente empurrado a amiga porta afora, Dahlia ainda estaria viva. O bebê ainda teria sua mãe e não precisaria se fiar no homem rude que parecia firme em ignorá-lo. — Ele está completando três meses hoje — ela acrescentou, caso ele estivesse interessado, mas Jack apenas se concentrou em colocar mais açúcar na bebida. Maddy piscou diversas vezes, então afastou a xícara e olhou, com dor no coração, em torno da sala movimentada. Esta permuta nunca iria ser fácil, mas poderia ter sido pior? O que ela deveria fazer agora? O homem era tão sensível quanto uma placa de aço frio. — Onde está o pai? Maddy deu um pulo diante da pergunta irritada. Mas a questão era óbvia, mesmo que ele não fosse gostar da resposta. Ela baixou a voz: — Dahlia foi vítima de um estupro. — O rosto dele ficou sombrio antes de ele xingar e enterrar uma das mãos nos cabelos negros como carvão. — E antes que você pergunte — ela continuou — ela não denunciou. Fagulhas douradas acenderam nas profundezas de seus olhos verdes hostis. — Por que diabos não? 7


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— Isso importa agora? Assim como tantas em sua situação, Dahlia não desejara a penúria de um julgamento. Ela não conhecia o homem que a atacara e preferia manter assim. Ela precisava se curar do melhor jeito possível e enterrar o horror, assim como a dor. Então Dahlia descobriu que estava grávida. Sufocando na emoção crua, Maddy se concentrou e endireitou as costas. — O que importa é que ela teve um lindo bebê. — Este garotinho brilhante que ela amava muito. Jack analisou o bebê. A pergunta seguinte foi um rosnado de má vontade. — Qual é o nome dele? — Beauford James. Jack Prescott inflou, as narinas e desviou o olhar. Maddy sufocou uma risada desprovida de humor. Será que este homem era uma máquina! Certamente estas eram circunstâncias especiais: ele perdera a única irmã hoje. Mas será que um dia ele se permitira mostrar ao mundo alguma emoção diferente de irritação? Ela não conseguia conter a língua. Nenhuma pessoa decente se conteria. Nada havia sido mais importante em sua vida do que a conseqüência desta reunião, cumprindo a promessa que fizera, e se ela precisava combater um ego exacerbado para conseguir resultados, então por Deus, seria precisamente o que iria fazer. — Ele é parte do seu sangue — ela desafiou. — Você não quer segurá-lo e abraçá-lo? Prometer a ele que tudo vai ficar bem? Que ele vai estar seguro? Um pensamento terrível fez os pelos dos braços de Maddy se arrepiarem ao mesmo tempo em que ela se inclinou para trás. — Ou você preferiria que ele fosse direto para um orfanato? Não que ela fosse deixar isto acontecer. Ela levaria Beau consigo primeiro. A própria mãe havia morrido quando Maddy tinha cinco anos. Enquanto crescia, ela ansiava por alguém para trançar seus cabelos de manhã, cobri-la e ler para ela à noite. O pai de Maddy era um bom homem, porém obcecado pelos negócios: algumas vezes parecia que a Tyler Publicidade era mais rebenta de Drew Tyler do que sua única filha. Ele administrava seu castelo corporativo com mão de ferro e não via lugar em sua equipe para uma "garota delicada" como Maddy. Ela discordava. Após um debate sério e longo, ela venceu e foi trabalhar na empresa. Nas últimas semanas, o pai dela ficara compreensivelmente irritadiço a respeito de sua filha fechar seu primeiro grande contrato sozinha. Sob o rosto corajoso, Maddy estava nervosa também. Mas, fizesse chuva ou sol, ela teria as assinaturas das quais precisava e na data prometida. Dali a um mês. Ninguém imaginaria o quanto ela fora dolorosamente tímida quando menina, o quanto se esforçara por sobre suas falhas a fim de refletir o celebrado estilo de negociação astuta e a determinação de seu pai. Agora, não havia se passado nem um dia desde que Drew de algum modo reconhecera os esforços da filha. Ainda assim, havia épocas em que ela desejava ter sabido o que era amor de mãe. O olhar dela decaiu sobre o bebê. 8


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Como aquele pequenino iria se alimentar? Os dedos bronzeados e longos de Jack alcançaram o açucareiro. — Eu não me recordo de dizer que não iria ficar com ele — ele falou de modo arrastado. — Você não parece atraído pela idéia — Maddy deslizou para trás e arqueou uma sobrancelha. — É melhor você não ser tão hostil — ele disse. — É melhor você não ser tão indiferente. Enquanto o coração dela palpitava loucamente, a expressão dele não mudava. Piscando rapidamente, ela se movimentou para trás na cadeira de plástico duro. Maddy afrouxou o aperto na xícara e encontrou o lugar calmo dentro de si que lhe convinha em situações de provocação. — Esse dia foi um choque para nós dois — ela admitiu — mas, acredite, eu só tenho um objetivo em mente, e é me certificar de que Beau vai ser cuidado do jeito que Dahlia teria desejado. — Ela se recostou outra vez, torcendo para que ele pudesse ver em seus olhos que ela falava de coração: — Jack... Ele precisa de você. Um músculo no rosto dele vergou duas vezes. — Assim lhe parece. Quando ele virou o restante do café, que deveria estar gelado a esta altura e com o triplo de açúcar, Maddy se eriçou. A pulsação quente que disparava no âmago dela toda vez que ela olhava para Jack Prescott era real. A presença dele era tão dominante, apesar dos acontecimentos do dia, que ela não conseguia evitar senão ficar intrigada. A amplitude de seus ombros, a força de seu pescoço... Sua estrutura de homem rústico era magnífica. Seus gestos, seu discurso, tudo nele murmurava confiança, inteligência. Superioridade. Desinteresse. O anjo dormindo no carrinho não tinha outro parente vivo sobrando no mundo. Ainda assim aquele espécime de perfeição masculina, aquele homem de gelo emocional não conseguia nem mesmo pedir para segurá-lo. Ela não teria sido capaz de deixar Beau com seu tio e simplesmente sair, mesmo que tivesse escolha. Com o estômago revirando, Maddy puxou a manta para mais acima, ajeitando-a sobre os ombros do bebê, e manteve os olhos no movimento do pequeno peito. — Tem outra coisa que preciso dizer — ela murmurou. — Sobre uma promessa que eu fiz. Jack consultou o relógio de pulso. — Estou escutando. — Prometi que não iria entregar Beau até você estar pronto. Enquanto o coração dela batia contra as costelas, o homem a frente franzia a testa lentamente e cruzava os braços. — Eu admito que vai levar tempo para me acostumar à idéia de ter... — As palavras dele correram secas, mas então ele pigarreou e aumentou o grunhido na voz. — Você só precisa saber que eu não renego minhas responsabilidades. Meu sobrinho não vai passar necessidade. 9


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Não era o suficiente. Se ele tivesse recebido o bebê de braços abertos, ela ainda precisaria manter sua palavra. Ela prometera sobre o túmulo da mãe dele se certificar de que Beau estivesse bem acomodado. — Eu prometi a Dahlia que ficaria com Beau até vocês ficarem à vontade um com o outro. Eu imagino que você tem um monte de quartos — ela se apressou em acrescentar — e fico satisfeita em pagar quaisquer despesas devidas. A frieza assustadora nos olhos dele se transformou em perguntas vacilantes. Ele inclinou a cabeça e uma mecha de cabelo negro caiu sobre a testa bronzeada, enquanto a boca esboçava uma paródia de um sorriso. — Preciso checar minha audição. Estou entendendo certo? Você está se convidando para ficar comigo? — Não estou me convidando para lugar nenhum. Estou transmitindo os desejos da sua irmã. Estou dizendo a você que fiz uma promessa. — Bem, não vai funcionar. — Ele balançou a cabeça, quase divertido. — Nem em um milhão de anos. Maddy encolheu os ombros. Ele poderia ser grande. Ele poderia ser intimidador. Mas se ele pensava que ela era inflexível, bem, ultimamente teimosia era o sobrenome dela. Ela tentaria uma conduta diferente. — Esse bebê me conhece. Eu o conheço. Sua rotina, seus choros. — E o que fazer quando ele acordar querendo a mãe, assim espero. — É de o seu maior interesse me deixar ajudar vocês dois a se adaptarem. — Vou ter ajuda. Ele disse aquilo sem piscar e o coração dela falhou. Dahlia contou naquela manhã que tinha acompanhado o que conseguiu sobre a vida do irmão. Ele ainda morava em Leadeebrook e não havia voltado a se casar desde a morte de sua esposa. É claro que ele precisaria contratar uma babá. Mas que tipo de pessoa iria cuidar de Beau? Será que ela seria severa e seguir tudo como manda o figurino ou usaria o coração da mesma forma que as habilidades? Será que ela o estimularia com palavras gentis de exaltação ou lhe daria piparotes nos dedos caso ele se esquecesse de dizer "por favor"? — Senhorita Tyler... — Um brilho de ternura cintilou nos olhos dele quando ele acrescentou: — Maddy. Tem certeza de que isso não tem mais a ver com sua inabilidade de se desapegar? Uma emoção sombria que Maddy não conseguia definir a eriçou e ela. ergueu o queixo. — Tenha certeza, se eu pudesse assegurar de que ele estaria feliz, se eu pudesse ir embora com a consciência limpa, nada iria me agradar mais do que dar minha bênção a vocês dois. — Exceto por eu não precisar de sua bênção, não é? — Suponho que não. Mas você não parece precisar de coisa alguma... — ela reprimiu as próprias palavras e então as deixou escapar assim mesmo — ... particularmente deste incômodo. — Cruzando os braços sobre o peito, ela desafiou o olhar duro dele. — Estou certa? Quando ele não respondeu e meramente a avaliou com aqueles olhos faiscantes, 10


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ela sentiu o âmago se contrair em um nó quente. Antes que o calor lhe subisse mais, ela extinguiu a chama e se pôs de pé. — Eu respeitava Dahlia — ela disse por sobre o bolo doloroso na garganta. — Eu a amei como uma irmã, mas não consigo imaginar o que ela estava pensando ao escolher você para cuidar dessa criança preciosa. Com lágrimas contidas lhe ardendo os olhos, Maddy preparou o carrinho e seguiu em direção à saída. Jack gritou o nome dela, mas ele poderia ir para o inferno. Ele estava tão interessado no bem-estar do bebê quanto ela estava em saber qual time venceu a competição nacional de dardos. Se ele era tão sem arrojo, ele podia voar de volta às planícies rubras ressecadas da zona rural australiana e deixar Beau aqui na civilização com ela. Nenhuma criança precisava crescer em uma terra devastada afinal. Em um instante a porta da cafeteria estava a um braço de distância, no instante seguinte a figura impressionante de Jack estava bloqueando a saída. Com as pernas levemente afastadas, ele posicionou os punhos fechados na altura do quadril deliberadamente. Maddy xingou sob um sorriso malicioso. — Aonde você vai? — Por que você quer saber? Ela manobrou o carrinho num ângulo para desviar dele, mas ele se movimentou para bloquear o caminho dela outra vez. — Eu me importo mais do que você jamais vai saber. Mas ela estava cansada de argumentar. Ela se movimentou de novo. Ele também. Estreitando os olhos, ela deixou escapar um suspiro exausto. — Tentei ser racional. Tentei entender. Tentei até mesmo apelar para o melhor lado da sua índole. Agora me rendo. Você me venceu, Jack Prescott. — Ela ergueu as mãos. — Você venceu. — Não percebi que estávamos competindo. Ah, por favor. — Apenas desde o instante em que você pôs os olhos em mim. — Ele queria que ela tivesse ido embora? Ele poderia se parabenizar com um tapinha nas costas. Missão cumprida. Se Dahlia tivesse escutado esta permuta, ela não culparia a amiga por sair. — Então, você se decidiu? — ele perguntou e sorriu docemente. — Se você puder fazer o favor de me dar licença. — E o bebê? — Nós dois sabemos como você se sente sobre criar Beau. Ele lançou um sorriso sarcástico de canto de boca. — Você acha que me desvendou, não acha? — Eu gostaria de dizer que tive o menor interesse nisso, mas temo ter tanta curiosidade sobre suas atitudes quanto você demonstrou pelo seu sobrinho hoje. Enquanto ela fervia por dentro, o olhar dele perfurava o dela durante um momento prolongado e tenso antes de a postura de realeza dele afrouxar levemente. — O que você está propondo? — O que você está morrendo de vontade que eu proponha. Vou te aliviar de 11


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qualquer obrigação e tirar Beau de suas mãos. — Ela iria criá-lo, e demonstrar amor e lealdade a ele, além de um milhão de outros valores dos quais aquele homem era claramente destituído. Ela daria Um jeito em relação ao trabalho, ao pai. — E se você está preocupado se vou pedir apoio financeiro, não fique. Eu preferiria lavar pratos durante quinze horas por dia do que tirar um centavo de você. O ar aqueceu mais, estalando e falseando entre eles antes de aquelas mãos bronzeadas enormes baixarem do cinto. — Como você se comporta em aeronaves pequenas? Ela ficou boquiaberta e então fechou os lábios outra vez. Do que ele estava falando? Será que ele não ouvira uma palavra do que ela dissera? — Eu voei para cá em um bimotor — ele continuou. — Há espaço para passageiros, mas algumas pessoas ficam enjoadas em aviões pequenos. — Ele contorceu a boca. Embora eu tenha a sensação de que você não seja do tipo enjoada. — Eu estava falando sério... — Você falou sério com Dahlia — ele interrompeu, mas então baixou a voz quando um casal mais velho curioso passou em volta deles. — Eu não preciso que você me compreenda. Acredite, você não vai querer isso. Mas saiba de uma coisa. Eu quero que você mantenha sua promessa. Eu quero me redimir através desse garoto. Quero dar um lar a ele. — Sob a luz artificial, os olhos verdes dele cintilaram. — Volte conosco para Leadeebrook. Maddy sentiu o peito apertado. Exasperante. Insuportável. Como ele ousava ser charmoso e sincero agora? Mas embora ela quisesse negar, o tom de carinho na voz dele a emocionou. Talvez houvesse uma ínfima dose de humanidade em Jack Prescott, afinal. Sentindo-a escapulir, ele se moveu para segurar a alça do carrinho. Ainda cautelosa, ela balançou a cabeça: — Eu não sei... Mas então ele realmente sorriu, um abominável sorriso lento e digno de fazer derreter os ossos. — Acho que você sabe, Maddy. — Ele começou a caminhar, e quando ela cedeu e o acompanhou, ele completou: — Você tem duas semanas.

CAPÍTULO TRÊS

Quatro dias depois, Maddy agarrava o apoio de braço da poltrona quando o avião particular de Jack Prescott pousava na pista aberta da fazenda Leadeebrook. Jack tinha dado a ela duas semanas para cumprir a promessa feita a Dahlia. Duas 12


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semanas, não mais do que isso, para fazer Beau se adaptar ao novo lar com seu novo guardião. Ela teria apreciado mais tempo, ou pelo menos a opção de discutir a possibilidade de uma extensão do prazo caso ela julgasse necessário. Mas no curto período em que ela conhecera Jack, de uma coisa estava certa: ele falava para ser ouvido. Ele estava pronto para tolerar a companhia dela por precisamente catorze dias. Ela supunha que deveria ser grata por ele ter sido iluminado e ter concordado sob qualquer condição. Quando ela saiu do avião e pisou fora da aeronave, o calor a atingiu como um enorme bafo de fogo. A ânsia de dar meia volta e de rastejar de volta para o frescor da suntuosa cabine era dominadora. Em vez disso, ela rangeu os dentes e saiu rumo ao sol que cegava. — Bem-vinda a Leadeebrook. Ao som da voz rouca detrás de si, Maddy se virou. Jack a havia seguido para fora do avião, usando óculos de aviador sobre o nariz empinado, carregando a bolsa de fraldas em um braço e Beau no outro. Nossa, seu caubói de ferro parecia quase relaxado. Aninhado contra aquele peito rijo, Beau certamente estava, o que era bom sinal. Ela andava tão preocupada. Desde o acidente, ela tirara uma folga do trabalho para ficar com o bebê 24 horas por dia, sete dias por semana. Ao mesmo tempo em que o pai dela era compreensivo com a situação, ele não estava satisfeito por sua executiva de contas júnior ter pedido para se ausentar. Ele ficara menos satisfeito ainda quando ela comunicara que precisava de duas semanas extras fora do escritório. Ele precisava que o anúncio nacional no qual ela estava trabalhando fosse fechado, sem desculpas. Ela se esforçara para tranquiliza-lo. Estaria de volta a tempo para acertar as pendências. Mas estas duas semanas pertenciam a Beau, e hoje, neste ambiente pouco familiar, ela se sentia mais responsável por aquele bebê do que jamais poderia ter sonhado ser possível. O trabalho dela aqui era fazer tudo que estava a seu alcance para cultivar um ambiente no qual aqueles dois pudessem se conectar, e então ela pudesse ir embora sabendo que Beau iria ser feliz e bem cuidado... Que, se Deus quisesse, ele seria amado e estimado como a pessoinha especial que era. Havia ocorrido uma mudança sutil na atitude de Jack em relação ao sobrinho. Parecia que, agora que o funeral tinha ficado para trás, ele começava a mostrar uma tentativa de interesse em sua tutela. Maddy deu um passo a frente. Mas em vez de pegar o bebê, ela envolveu a cabecinha delicada de Beau e sorriu. — Ele está acordado. Não consigo acreditar que ele dormiu durante o voo inteiro. — Não é isso que bebês fazem? Dormir? Quando o olhar dúbio de Jack a atingiu, um arrepio de consciência estalou pelas veias de Maddy. O apelo sexual dele era mais do que poderoso; era fascinante. A ânsia de tateá-lo e de saborear aquela sedução hipnótica era quase irresistível. Claramente, Jack não parecia se derreter por ela toda vez que eles ficavam a centímetros de distância. Ele não tinha o mínimo interesse por ela daquele jeito. Com a compostura restaurada, ela se endireitou e respondeu: — Bebês fazem um pouco mais do que dormir. 13


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— Claro. Eles comem. Quando ele arqueou uma sobrancelha e olhou para ela de um jeito inocente e ainda assim sexy, ela não pôde conter um sorriso. — Você não sabe nada sobre bebês, sabe? Ele baixou os óculos por sobre o nariz. — Se bebês de ovelha não contam na lista, não. Ele fez um sinal com a cabeça, o foco preso à propriedade rural de dois andares ali perto. Maddy desacelerou o passo quando tirou um instante para sorvera lugar que Jack chamava de lar. Ou, talvez, uma palavra melhor poderia ser palácio. A Fazenda Leadeebrook era uma estrutura impressionante que irradiava elegância e um sentimento orgulhoso de resistência. O cenário geral concretizava o que ela ouvira sobre a época em que a glória e a riqueza do campo pegavam carona na criação de ovinos. Maddy podia imaginar a mistura variada de personagens que freqüentaram seus andares e as histórias emocionantes dos colonizadores que aquelas paredes podiam contar. Quando uma nuvem de poeira apareceu ali perto, Maddy não ficou muito certa do que significava. Ela colocou as mãos acima dos olhos e estreitou a visão para focalizar. Um cão de pernas longas estava maculando a trilha em direção a eles levantando uma poeira leve em seu rastro. Uma pontada de pânico golpeou as costelas de Maddy. Jack resmungou um "Venha aqui, você" brincalhão e, com as orelhas alerta, a cadela foi para o lado de seu mestre, os olhos escuros cegos de adoração e expectativa enquanto ela esperava pelo próximo comando. — Conheça a Nell — ele disse. Maddy preferia não conhecer. Contudo ela assentiu brevemente para a cadelinha com a língua rosada de fora e olhos castanhos penetrantes enquanto se mantinha distante. — Alô, Nell. Jack pausou para olhá-la feio. — Você não gosta de cães? — Digamos que cães não gostam de mim. — Ela não tinha a intenção de explicar além. — Ela parece hesitar a cada palavra sua. — Nell é uma cadela de pastoreio. Ou era. Maddy inclinou a cabeça. Era uma cadela de pastoreio. Será que Nell sofrera um acidente? Deus sabia que ela parecia ágil o suficiente. Mas Maddy tinha uma pergunta mais importante para fazer. — Nell é boa com crianças? — Como vou saber? Enquanto eles iam em direção à casa, Nell trotava em círculos amplos para administrar seu rebanho humano, farejando-os de vez em quando. Embora Maddy permanecesse aparentemente calma, emaranhados sufocantes se formavam em sua garganta. Mas claramente aquele border collie era bem treinado. Não havia nada a temer, nem em relação a ela, nem ao bebê. Só porque ela fora maltratada por um cão há muitos anos não significava que aconteceria outra vez. — Tem sinal para seu celular se você precisar. — Bom saber. Obrigada. — Você trouxe alguma calça jeans? 14


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— É claro. — Ótimo. Ela sentiu os braços se arrepiarem. Algo no tom autoritário dele a preocupou.— Por que ótimo? — Você não pode cavalgar de vestido. Ela piscou. Cavalgar? Então ela riu. — Ah, eu não cavalgo. — Certamente não cavalos. Ela não havia nem mesmo subido de novo em uma bicicleta desde que tinha 12 anos. Jack franziu a testa. — Você não gosta de cavalos também? — Eu não percebi que era uma ofensa federal. — Então você não é fã de animais. — Não perto de mim. Ele resmungou. — Do que você gosta? — Gosto de cinema. Gosto de pudim de chocolate. Gosto de dias chuvosos quando eu sei que não tenho de me levantar. — E há muitos dias em que você não sai da cama? Maddy lançou um olhar estreito. Ele estava falando sério? O tom e a expressão dele eram tão secos, ela não sabia dizer. — O que quero dizer — ela explicou em um tom excessivamente paciente — é que adoro me escorar numa pilha de travesseiros, me aconchegar e ler quando a chuva está batendo no telhado. Ele resmungou outra vez, ou aquilo foi um rugido, e manteve seus passos largos enquanto ela limpava a testa úmida e se encolhia quando o suor escorria pela fenda das costas. Logo a frente, a casa cintilava como uma extravagante miragem no deserto. Alguns minutos depois eles chegaram à sombra. Mas o sol estava atrás deles, o bebê parecia sossegado e a cadela havia desaparecido. Em seu próprio ambiente, Jack parecia estar se abrindo, um pouco. Hora de saber mais sobre o guardião legal de Beau. — E você? — O que tem eu? Maddy revirou os olhos. Ela nunca iria ser capaz de conversar com aquele sujeito. — Você lê, Jack? — Não — ele estabeleceu em uma voz profunda e precisa. — Eu não leio. — Mas você cavalga. — Ele continuou andando a passos largos e ela deu um pulinho para acompanhá-lo. Resposta óbvia. Não precisa responder. — Imagino que você vai ensinar Beau a cavalgar também, um dia — ela tentou novamente. — Imagino que sim. Maddy assentiu lentamente, deixou as palavras perderem importância e, pela primeira vez, o objetivo daquela situação finalmente se abateu sobre ela. 15


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No momento em que ela saíra do avião, começara a contar os segundos até que pudesse voar para longe daquele lugar desolado. Mas quando fosse embora ela também estaria deixando Beau para trás, o lindo presente entregue ao mundo por sua melhor amiga. Quando ela veria Beau novamente, se é que veria? Devia haver situações nas quais Jack voava para Sidney. Talvez ele pudesse levar Beau também. Maddy estava ocupada em seus planejamentos quando eles circundaram a lateral da casa. Uma mulher estava descendo os amplos degraus da frente, esfregando as mãos em um avental branco amarrado à nuca assim como em torno de sua volumosa cintura. Seus cabelos brilhantes eram curtos, de um negro impecável com alguns fios grisalhos. Tinha pálpebras delicadas por sobre os curiosos olhos cor de cappuccino e, enquanto ela descia cada degrau, o nariz de Maddy captava o cheiro de dar água na boca de bolinhos de aveia frescos no forno. Vencendo o último degrau, a mulher ofereceu uma das mãos e um sorriso cordial. Maddy sorriu por causa do pouquinho de farinha no rosto da mulher e devido à aura de aconchego e bom humor que ela emanava. — Você deve ser a Madison. — O aperto de mão de mulher era firme, embora nem um pouco desafiador. Sou Cait. — Ela assentiu entusiasticamente, limpando a mão livre no avental. — Bem-vinda a Leadeebrook. Cait Yolsen era a governanta de Leadeebrook há dez anos. Ela era uma viúva com dois filhos e dois netos crescidos. Cait se aproximou de Jack e do bebê. O coração de Maddy derreteu quando Beau encarou a estranha, os olhos arregalados e espertos enquanto ele estava aninhado na curva do braço do tio. Um sorriso carinhoso reluziu nos olhos dela. — Ele não é lindo? — O olhar dela mirou Maddy. — Ele dormiu no trajeto todo? — Ele foi um anjo... — Maddy se virou para Jack -— ...não foi? Jack fez um som de afirmação, no entanto o espectro de um sorriso de aprovação surgiu no canto da boca. — Ele vai precisar de uma troca de fraldas — disse Cait. — Absolutamente — Maddy concordou. Então elas disseram juntas: — Eu levo ele. Mas Jack retirou o bebê das duplas de mãos ansiosas. Ele franziu a testa por sobre os óculos espelhados. — Eu pareço impotente? Maddy piscou. — Você quer trocar a fralda dele? — Em resposta, uma sobrancelha escura se ergueu. Ela reformulou a frase: — Quero dizer, você não quer uma aula ou algo assim primeiro? — Eu já tosquiei duzentas ovelhas em um único dia de trabalho. — Ele passou pelas mulheres de maneira furtiva e subiu os degraus. — Acho que posso polvilhar um pouco de talco e prender alguns alfinetes. Não havia alfinetes; Dahlia usava fraldas descartáveis em Beau. Mas Maddy mordeu a língua. Se Jack queria assumir as rédeas de uma vez, se ele precisava mergulhar de cabeça para se provar capaz, quem era ela para discutir? O sujeito podia tosquiar duzentas ovelhas em um dia. 16


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— Você deve estar com sede — Cait estava dizendo enquanto subia as escadas também. — Estou um pouco desidratada. — Que tal uma xícara de chá? — Eu preferiria algo gelado, se você tiver. No meio do caminho, Cait parou e tocou a mão de Maddy. — Sinto por saber sobre a pobre Dahlia. Você deve ter sido muito amiga dela para ajudá-la desse jeito. Maddy se lembrou de como enfrentara o velório no dia anterior, com Beau dormindo, em seus braços e uma torrente de lágrimas deslizando silenciosamente pelo seu rosto. Dando um suspiro, Maddy voltou à realidade e assentiu: — Dahlia foi a melhor amiga que eu já tive. Ela era a pessoa mais fácil de lidar que Maddy já conhecera. O que suscitava a questão: como dois irmãos dos mesmos pais tinham naturezas tão diferentes? — O bebê tem sorte de ter você. Maddy sorriu. — Dahlia queria que Jack o criasse — ela explicou. — Eu prometi que ajudaria com a transição. Cait baixou o olhar. — Tenho certeza de que ela sabia o que estava fazendo. Maddy hesitou. Cait também tinha reservas sobre a adequação de Jack com guardião? Dahlia não havia se dado bem com Jack; Maddy tinha certeza de que ela mesma nunca penetraria a armadura dele. Nell, por outro lado, o idolatrava. Mas Nell era uma cadela. Como será que Jack tratava sua esposa? Um xingamento irrompeu por uma janela próxima e as duas mulheres deram um pulo. Maddy pressionou a palma de uma das mãos contra o estômago. Jack. Será que ele estava tendo problemas para abrir o frasco de talco? Cait examinou cuidadosamente, abrindo a porta de tela da frente da casa, e quando ela acelerou em direção a um quarto à direita, Maddy rapidamente a seguiu. O olhar dela pousou sobre o bebê, deitado nu de costas sobre o trocador de fraldas que estava encostado em uma parede lateral. Jack estava em frente à mesa, os ombros caídos, as mãos expostas, os dedos abertos, a expressão mais sombria do que o normal. Ele estava olhando boquiaberto para uma trilha úmida na própria camisa enquanto Beau chutava e arrulhava. Quando Jack tirou a fralda, o bebê deve ter esguichado sobre ele. Maddy cobriu a boca para abafar a risada. Por que os homens mais fortes algumas vezes eram os mais parecidos com bebês? Lutando para se recompor, ela saracoteou para frente. — Vejo que você teve um acidente hidráulico. — Não fui eu quem teve o acidente. — Ele tocou o rastro úmido e então sacudiu a mão. — Pelo menos ele tem uma boa pontaria. A risada de Cait veio de trás. — Vou deixar vocês dois controlando os danos — ela disse, e então perguntou 17


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sobre o leite do bebê. Maddy entregou uma mamadeira e uma lata que tirou de uma divisória da bolsa de Beau. Quando Beau estava limpo e com fraldas novas, Maddy o ergueu cuidadosamente e roçou os lábios contra a testa sedosa dele. — Estou surpresa como ele não surtou quando você gritou — ela disse, esfregando as costas do bebê do jeito que ele gostava. — Pensei que você o tivesse deixado cair. Quando Maddy rodopiou, a mente dela congelou quando seu sistema de alerta foi sobrecarregado pela imagem diante de si. Com a testa profundamente franzida, Jack estava resmungando e se livrando da camisa molhada. Era bronzeado. Largo de tirar o fôlego. O peito de Jack Prescott era melhor do que qualquer um que ela vira, incluindo os dos outdoors retocados. Maddy olhou para baixo. E se aquela era a metade de cima...

Xingando baixinho, Jack arrancou as mangas dos braços e jogou a camisa úmida a seus pés. Ele fizera o parto de ovelhas mais vezes do que podia contar. Em comparação, isso era brincadeira de criança, literalmente. Ser molhado por um bebê não era grande coisa. Três anos atrás, ele teria feito qualquer coisa para ter experimentado exatamente aquele tipo de cena... Para ter tido a chance de cuidar de seu próprio filhinho. Uma emoção crua contorceu no peito dele. Mas ele nocauteou a dor antes que as memórias sombrias tomassem conta. Sentir nada era melhor do que sentir raiva. Do que se sentir impotente. Quando ele desviou o olhar da camisa, Maddy estava parada, boquiaberta. Abraçando Beau com força, ela estava encarando tudo entre o pescoço e o umbigo de Jack. Então o olhar dela foi mais para baixo. Desprevenidos, os músculos dele se contraíram quando uma ereção misteriosa serpenteou por suas pernas. Ele já reconhecia seus sentimentos por Madison Tyler. Ela era uma pessoa atraente, obviamente sábia. Também tinha conteúdo. Quando Jack Prescott sacava suas pistolas, a maioria das pessoas tinha o bom senso de fugir, mas lá em Sidney ela se mantivera firme. Ela insistira que lutaria pelos direitos da irmã dele. Ele a admirava por isso. Honestamente, a curiosidade dele fora provocada pelo pacote completo. Mas aquela atração física estava fadada a lugar nenhum. Ele estava praticamente noivo. Praticamente pronto para se casar. Mesmo que estivesse livre, esta mulher não era o que ele precisava. E vice-versa. Claramente, ela não estava nem um pouco impressionada pelo que ele mais prezava: sua terra vasta, rude. Diabos, ela nem mesmo gostava de cavalos enquanto Tara era a única mulher que ele conhecia que poderia ganhar caso apostassem uma corrida a galope abrindo caminho numa reta. Então por que o olhar dele estava preso às pernas daquela mulher? Porque elas eram simétricas, é esse o motivo. Longas e brancas, e os dedos dele cocaram para saber se elas eram tão boas e sedosas quanto pareciam. 18


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O bebê guinchou e Jack voltou à Terra num tranco. Precisando de uma distração, ele pegou a camisa do chão e a embolou enquanto Maddy, visivelmente necessitando de uma distração também, se voltou para o trocador, se ocupando com a bolsa do bebê. Jack já havia assumido a máscara fria outra vez no momento em que Cait apareceu e anunciou: — A mamadeira está pronta. Eu adoraria dar a ele. Já faz um tempo que fiz isso. — Cait estendeu os braços e Beau estendeu um braço também. Suspirando alegremente, ela carregou e embalou o bebê de olhos arregalados. — Parece que não perdi o jeito. Se preparando para sair, a governanta disse por sobre um dos ombros: — Há um pote de chá na varanda lá atrás e um jarro de refresco também. Maddy agradeceu a Cait, lançou um olhar ansioso para Jack e então, em busca de algo mais para fazer, usou um dedo inquieto para colocar o cabelo louro detrás da orelha. Todo o momento de "checagem um do outro" havia durado não mais do que alguns segundos. Eles eram um homem e uma mulher que haviam experimentado um instante no qual a atração natural e o impulso físico haviam dominado temporariamente. Não aconteceria outra vez; Ele não havia trazido Madison Tyler, a garota da cidade, para seduzi-la. Ela estava na propriedade dele apenas pelo bebê. Ele devia aquilo a sua irmã. Porém em duas semanas Maddy iria embora de Leadeebrook. Iria embora da vida dele. Seria inútil se enredar naquilo. Ele seguiu em direção à porta e não parou quando a voz dela veio de trás. — Cait vai ser de grande ajuda com Beau — ela disse, sociavelmente. — Ela vai cuidar bem dele. — Então você não vai contratar uma babá? — Não vou precisar de uma. Tara queria uma família. Agora, prontos ou não, eles tinham uma. Mas haveria tempo suficiente para contar a Maddy sobre a futura madrasta de Beau. E tempo suficiente para Tara ficar sabendo que estava prestes a se tornar mãe instantaneamente. Depois que as notícias fossem absorvidas, ele não conseguia imaginar Tara tendo outra reação, senão de satisfação. Mas aquele não era o tipo de informação a se compartilhar por telefone. Ele contaria a ela pessoalmente, em particular. No dia seguinte seria o momento ideal. Enquanto passeava pelo corredor, Jack sentiu o olhar de Maddy em suas costas. Sem encará-la, ele lançou um polegar em direção à porta do próprio quarto. — Vou pegar uma camisa e iremos tomar aquele chá. Um instante depois ele estava em frente ao guardarroupa, tirando uma camisa abotoada do cabide. Com o canto dos olhos, ele flagrou um movimento, provavelmente Nell examinando as coisas. Mas quando ele conferiu, era Maddy quem havia passado pela porta, e desta vez o olhar dela não estava fundido a ele. A atenção dela estava presa à cômoda à direita. Na foto que ele mantinha ali e nunca tirava. Com o rosto visivelmente pálido, o olhar dela pairou até o dele. — Eu... Eu sinto muito — ela gaguejou. — Eu não fazia idéia. Pensei que você devia estar indo à área de serviço. Pensei que o quarto principal pudesse ser no andar de cima. Com o queixo rijo, ele passou os braços pelas mangas e então, sem abotoar a 19


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camisa e com as pontas soltas, ele segurou o braço dela e a conduziu até o corredor. Será que ela precisava segui-lo para todo lugar feito um bezerro? Será que ela estava tentando ficar no meio do caminho e irritá-lo de propósito? Uma vez no corredor, ele a soltou e disse a si que seria a última vez que a tocaria. Se olhar era ruim, tocar era um milhão de vezes pior. Ou era um milhão de vezes melhor? Resmungando, ele afastou aquele pensamento indesejado da cabeça e seguiu em direção à varanda, fechando cada botão da camisa resolutamente e então arregaçando as mangas até o cotovelo. — Cait vai colocar a bandeja aqui fora. Já na varanda, ele caiu sobre uma cadeira, levantou a rede de proteção da comida e assentiu diante de uma porção de bolinhos de aveia e mini bolos. Depois que ela aceitou um bolinho de aveia, ele pegou um mini bolo. Ele mordeu um enorme pedaço e mastigou, observando as planícies e desafiando-a a fazer a pergunta que deveria estar formigando na ponta da língua. Ele podia ouvir as palavras chacoalhando na cabeça dela. A mulher na foto... era sua esposa? Mas Maddy não perguntou. Em vez disso, ela se sentou silenciosamente ao outro lado da mesinha quadrada, a cadeira de costas para a parede, assim como a dele. Serviu um corpo de limonada e uma xícara de chá e passou para ele. Após um instante tenso, Jack deu uma longa olhada de soslaio para ela. Ela estava dando um gole na bebida, inspecionando a faixa de terra favorita dele. Quando três cangurus cruzaram o horizonte reluzente, Maddy suspirou. — Não consigo lidar com o silêncio. — Ela esticou o pescoço, tentando ver mais a frente. — Onde você mantém as ovelhas? — Não tenho nenhuma. Ela lhe lançou um olhar. — Desculpe. Pensei que você tivesse dito que não tem nenhuma ovelha. — Eu me livrei delas... Há três anos. Ela piscou diversas vezes e então assentiu como se tivesse entendido. Mas não entendeu. A menos que tivesse vivido o pesadelo, ninguém poderia entender o que significava perder a esposa e o filho no mesmo dia. O mundo parecera sombrio depois daquilo. Tão sombrio e chamuscado quanto o coração dele havia ficado. Ele não ligava para ovelhas ou dinheiro mais. Não ligava para nada. — O que você faz em uma fazenda de ovelhas sem ovelhas? — ela perguntou após um tempo. — Você não fica entediado? A colega urbana não estava programada para apreciar o que a terra tinha a oferecer. A liberdade para pensar. A oportunidade de simplesmente ser. Por mais que o pai dele tivesse tentado convertê-la, a mãe dele nunca apreciara aquilo completamente também. Além disso, havia um monte de manutenção para ocupá-lo caso ele procurasse por isto. Ele colocou açúcar na xícara. — É um jeito diferente de viver aqui. Muito diferente da cidade. — Muito. 20


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— Sem poluição. — Sem pessoas. — Exatamente do jeito que eu gosto. — Você não sente falta da civilização? O rosto dele estava inexpressivo. — Ah, eu prefiro ser um bárbaro. Ela apertou os lábios, pensando. — Essa é uma palavra forte, mas numa situação de emergência... Ele tinha todas, as intenções de perturbá-la, mas uma emoção diferente erigiu e ele sorriu em vez disso. Vendo o sorriso largo dele, outro sorriso iluminou os olhos de Maddy e ela se recostou mais. — Quantos acres de terra você tem? — Atualmente, só uns cinco mil. No seu apogeu, Leadeebrook tinha mais de trezentos mil acres e possuía duzentas mil ovelhas, mas depois da Segunda Guerra Mundial a terra serviu para trabalhos de guerra e estabelecimento agrário, então meu bisavô e meu avô decidiram vender pedaços para os soldados colonizadores. O solo aqui era fértil. Os planos posteriores ajudaram a facilitar a transição entre pastoreio e lavoura. Essa indústria é o suporte principal desse distrito agora. Mantém as pessoas empregadas. — Retiro o que disse. — A voz dela carregava um tom sincero de respeito. — Você não é um bárbaro. Ela cruzou as pernas quando se virou em direção a ele: — Você teve uma infância feliz aqui? — Não poderia ter pedido por uma infância melhor. Minha família era rica. Provavelmente bem mais rica do que a maioria das pessoas percebia. Mas vivíamos uma vida relativamente simples, com um bom trabalho antiquado oferecido em boas doses. — Onde você estudou? — Ia à cidade a princípio, depois num internato em Sidney. Eu vinha para casa todas as férias. Ajudava na limpeza, na tosquia, no pastoreio e na etiquetagem. Com o sorriso melancólico, ela colocou o cotovelo sobre a mesa e pousou o queixo na palma da mão. — Você faz isso soar quase romântico. Quase? Ele obrigou o olhar a se desviar dos lábios dela e o deixou repousar no horizonte pitoresco. — Você já viu um pôr-do-sol assim? Eu sento aqui, sorvendo estas cores, e sei que é desse jeito que Deus tinha a intenção que vivêssemos. Sem correria, feito um bando de maníacos em autoestradas, acorrentados a um computador catorze horas por dia. Isso aqui é um paraíso. Sue teria pensado a mesma coisa. Eles ficaram sentados sem dizer palavra, simplesmente olhando para a paleta em ouro-vermelho escurecer contra uma mancha distante de colinas. — Você vai criar ovelhas um dia de novo? — ela perguntou depois de um tempo. Ele tinha investido bastante em apólices e ações imobiliárias pelo país. Apesar de 21


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a indústria de lá ter tido dias melhores, ele estava mais confortável financeiramente do que qualquer um de seus ancestrais, e havia nutrido sonhos de retomar Leadeebrook à sua glória original. Ele e Sue costumavam discutir suas idéias à noite, particularmente durante os últimos estágios da gravidez dela. Havia tanto a esperar e construir juntos. Agora... Ele sentiu o estômago revirar e deixou a xícara de lado. Agora ele era responsável pelo filho de Dahlia. Ele daria todas as oportunidades ao rapazinho. Cuidaria dele como um pai. Mas aquela sensação...? Ele engoliu o bolo que se formou em sua garganta. Desejava poder ser o homem que fora outrora. Mas quando a família dele morreu, aquele homem morreu também. — Não — ele disse, o olhar retornando ao pôr-do-sol. — Nunca mais vou criar ovelhas outra vez. Ela estava perguntando outra coisa, mas o foco dele havia mudado para um estrondo ao longe, o ronco distante de um motor. Ele conhecia o carro. Conhecia o motorista. Deus do céu. Ele descruzou a perna e gemeu. Ele ainda não estava pronto para este encontro.

CAPÍTULO QUATRO

O Land Cruiser branco derrapou numa parada a alguns metros de distância de um tanque de água, com grama seca sendo cuspida em nuvens poeirentas detrás de suas rodas monstruosas. Uma mulher saiu sem fechar a porta do motorista, subiu os degraus. Maddy agarrou os braços da cadeira enquanto seu olhar fuzilava Jack. Ele ouvira o motor antes dela. Ficara de pé e agora estava parado ao parapeito da varanda, o peso concentrado em um lado do corpo de modo que os bolsos de trás da calça e aqueles ombros enormes ficavam levemente tortos. Quando a mulher o alcançou, nenhuma palavra foi trocada. Ela meramente ficou na ponta dos pés, enlaçou os braços em volta do pescoço dele e, com o rosto colado ao dele, o abraçou. O olhar de Maddy buscou o chão. Ela era esguia e bronzeada; com longos cabelos negros, soltos e brilhantes, poderia ter sido o equivalente humano de um puro-sangue premiado. Sua pele morena sugeria descendência mediterrânea e seus olhos negros estavam repletos de afeto quando ela se afastou e olhou para Jack, apaixonada e leal. Parecia que Jack de fato havia seguido a vida desde a morte de sua esposa, a ruiva cuja foto ela vira naquela cômoda. 22


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Com um sorriso afetuoso, porém cansado, Jack se soltou do abraço da mulher e as palmas dela deslizaram uma boa distância do pescoço até a camisa dele. Ela brincava com um botão enquanto o fitava encantadoramente bem nos olhos e suspirava. — Você está em casa. — Então ela inclinou a cabeça, a crina negra caiu sobre o ombro e o sorriso dela se transformou em um olhar de censura moderada. — Queria que você tivesse me deixado ir a Sidney com você. Deve ter sido tão difícil encarar o funeral sozinho. Eu não deveria ter prometido que ficaria aqui. Jack pegou a mão dela no peito dele e a colocou de lado cuidadosamente. — Tara, eu trouxe alguém comigo. A mulher se aprumou lentamente, piscou. Então, tendo acionado seu radar pessoal, desviou a atenção para Maddy. Os olhos de cílios espessos da mulher escureciam mais enquanto sua pele mudava de nuance. O rosto de Maddy enrubesceu. Ela sabia o que aquela mulher, Tara, estava pensando. A acusação chamuscou nos olhos da outra. Maddy ficou de pé ao mesmo tempo em que Jack fez um gesto para ela se aproximar. — Esta é Madison Tyler — ele disse, então fez um sinal com a cabeça para a mulher. — Tara Anderson. Um sorriso irregular irrompeu no rosto de>Tara. — Madison. Não nos conhecemos ainda... — os olhos dela se estreitaram — ... conhecemos? Jack interveio. — Maddy vai ficar em Leadeebrook durante duas semanas. — Oh? — O sorriso falso de Tara quase estremeceu. — Por quê? Antes que alguém pudesse responder, Cait apareceu na porta detrás deles, segurando Beau. A expressão jovial da governanta desabou quando ela reconheceu a visitante. — Tara, querida, eu ouvi a caminhonete. Pensei que fosse Snow. A mão de Tara escorregou do parapeito e quando seu olhar chocado, resplandecente deslizou do bebê para Jack, o coração de Maddy afundou no peito. Os pensamentos de Tara eram tão altos quanto tambores de guerra. Ela pensava que a criança pertencia a eles, a Maddy e Jack. Apesar de tudo o que a expressão atordoada de Tara Anderson dizia, ela não podia se permitir acreditar no pior. Ela queria confiar no homem com quem tão obviamente se importava tanto. Como se estivesse com medo de ele desaparecer, Tara tentou tocar a mão de Jack e a voz dela falhou quando ela perguntou: — Jack...? — Este é o filho de Dahlia — ele disse em um tom lúgubre. — Não há um pai Maddy era amiga de Dahlia. Ela prometeu a minha irmã que ajudaria o bebê a se adaptar aqui. Dando um passo atrás, Tara suspirou de maneira audível, então tocou a testa com uma das mãos trêmulas. Ela balançou a cabeça como que para dispersar uma neblina, mas a expressão permaneceu aflita. — Filho de Dahlia... — Ela exalou outra vez antes de o olhar penetrar o dele. — 23


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Você concordou com isso, Jack? Com um bebê? Pensei que você tivesse dito... Ele franziu a testa. — Não vamos discutir isso agora. — Quando iríamos discutir isso? — ela perguntou. — Há quanto tempo você sabe? A ansiedade no estômago de Maddy aumentou. Ouvir que Jack era responsável por um bebê havia sido um enorme choque para Tara Anderson; ela queria respostas. Mesmo sem conhecer a história deles, Maddy não conseguia evitar, mas pensou que ela merecia tais respostas. E ainda assim Jack mantinha os ombros eretos e o olhar fixado em algo ao longe. Ele conseguia ser tão intratável às vezes. Não era função dela interferir, mas se pudesse amenizar a tensão um pouco estendendo uma mão amiga, Maddy decidiu que iria fazê-lo. Se Jack e aquela mulher eram tão íntimos quanto o cenário sugeria, Beau iria ter mais contato com Tara... mais do que ele teria com sua tia Maddy. Ela se aproximou. — Você mora na cidade, Tara? O olhar espantado de Tara açoitou o ambiente, como se ela tivesse se esquecido de que eles tinham companhia. — Sou dona da propriedade ao lado — ela disse distraidamente. Então uma emoção diferente purificou seu rosto e ela suspirou mais uma vez, desta vez, com um sorriso de desculpas. — Perdoe-me, por favor. Estou sendo rude. É só que... — Ela buscou o olhar de Jack. — Tenho andando preocupada nos últimos dias. — Você vai ficar para o jantar? — Cait perguntou da porta, dando uma sacudidela em Beau, que estava com metade do punho enfiado na boca. — Sempre tem bastante comida. Ao mesmo tempo em que Tara olhou de forma questionadora para o rosto de Jack esperando a reação dele Maddy sentiu um roçar contra sua perna. Nell havia subido num banco entre ela e Jack. Enrijecendo, Maddy esfregou os braços arrepiados e deslizou um pé para longe. Quando Jack se afastou do parapeito para encarar Tara, o franzir familiar entre as sobrancelhas dele havia desaparecido. Afável agora, ele pegou a mão dela. — Sim, é claro. Fique para o jantar. Mas Tara lançou um olhar furtivo entre o bebê e Maddy, então assumiu um ar despreocupado e sacudiu seus cabelos negros. — Eu gostaria, mas estou na cidade esta noite. Estou levando um comprador para jantar. Jack relaxou contra o parapeito e cruzou os braços no peito, interessado: — Qual cavalo? — Hendrix. — Ela se dirigiu a Maddy. — Eu crio Warmbloods. Maddy ergueu as sobrancelhas. E ela precisava saber o que significava aquilo? Mas ela imitou a postura de braços cruzados de Jack, fingindo estar interessada também. — Isso é... ótimo. — Warmbloods são cavalos criados para esportes eqüestres — Jack explicou. — Tara treinou um estábulo repleto de campeões, principalmente hanoverianos. 24


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Maddy intensificou seu sorriso escorregadio. Se ela estava se sentindo desconfortável antes... Não era surpresa Jack estar envolvido com aquela mulher. Linda, graciosa sob pressão no fim das contas, e uma renomada criadora de campeões como vantagem. O que mais um homem poderia querer? Com um ar elegante, levemente possessivo, Tara enlaçou o braço ao de Jack. — Você vai me levar até o carro? Jack empurrou o portão da varanda, Maddy falou num tom acima: — Se eu não te vir antes de voltar para Sidney, foi um prazer conhecê-la. Os lábios de Tara se comprimiram mesmo no instante em que ela estirou um sorriso charmoso. — Ah, você vai me ver. Assim que ela e Jack serpentearam escadas abaixo, Maddy não conseguiu evitar, mas notar: Tara não se despediu de Beau.

Mais tarde naquela noite, Maddy se juntou a Jack no quintal. De costas para ela, ele não pareceu ouvi-la se aproximar, então ela pigarreou e perguntou: — Devo presumir que você não queira companhia? Quando Jack virou a cabeça, os olhos brilhando nas sombras da noite, o rosto destituído de emoção, Maddy se afastou e se encolheu. Ela não devia ter vindo para fora. Parado entre a tranqüilidade do canto dos grilos, estava claro que Jack não queria companhia. Particularmente não a dela. Após aquela cena embaraçosa com Tara Anderson três horas atrás, Jack havia levado o carro até o hangar para trazer as malas. Então ele murmurou algo sobre sair um pouco. Da janela do quarto de hóspedes, Maddy captou um enorme cavalo negro trotando ao longe. Com um chapéu australiano inclinado sobre a testa, o cavaleiro parecia nascido para comandar de cima da cela. Enquanto Cait preparava o jantar, Maddy aproveitara um banho rápido. Então foi á vez de Beau. Ele espirrou água e deu gritinhos agudos durante o banho até ela ficar com dor nas costelas de tanto rir e a parte da frente de seu vestido ficar ensopada. Ela não queria dar ênfase ao fato de que outra pessoa iria estar aproveitando este momento com Beau em breve. Será que este alguém seria Tara? Ela não viu ou ouviu Jack retornar, mas quando Cait chamou para o jantar, ele apareceu como que por mágica na sala de jantar. Com o olhar coberto e os ombros eretos, ele puxou a cadeira à mesa para ela prontamente. Ela sorriu para si. Jack poderia ser muitas coisas, mas Beau aprenderia a ter modos nesta casa. Quando o bebê foi acomodado no chiqueirinho ao lado da mesa, Jack juntou as mãos, baixou a cabeça e fez uma prece breve, porém emocionante sobre as pessoas amadas de quem sentia falta e a chegada nos novos à casa. Maddy engoliu o bolo repentino que se formou em sua garganta. Havia um lado mais profundo, mais dócil naquele homem aparentemente impenetrável. Devia haver. Naquele instante, Maddy se lamentou porque não viria a conhecê-lo. 25


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Enquanto Jack cortava e espetava a comida, as mulheres papeavam, observando o bebê que brincava com o chocalho de molho de chaves. Quando Beau começou a murmurar, Maddy saiu para colocá-lo para dormir. Após ter tomado a frente da situação com firmeza mais cedo, ela ficou curiosa por Jack não reclamar sobre ajudar com Beau na primeira noite dele na nova casa. Talvez a lembrança daquela camisa molhada ainda o assombrasse, mas Maddy suspeitava que as lembranças sobre Tara e a reação dela em relação à tutela dele com o bebê pesavam bruscamente na cabeça de Jack esta noite. Como ele se dividiria? Beau adormeceu sem protesto algum. Após cobrir o corpinho adormecido, ela saiu na ponta dos pés em direção à cozinha. Foi quando Cait sugeriu a ela se juntar a Jack lá fora, no frescor. Maddy sentiu o corpo aquecer diante de tal pensamento, o que apenas provava que ficar sozinha com Jack sob o céu extenso de Southern Cross não era uma boa idéia. Mas ela faria o sacrifício. Ela e Jack precisavam se capazes de se comunicar, pelo menos em algum nível. Ela o encontrou lá, um ombro apoiado contra uma árvore velha enquanto ele polia uma rédea com um trapo. — O bebê dormiu? — ele perguntou. Com os nervos fazendo o estômago revirar, ela assentiu e se aproximou. — Agora que está dormindo, ele não deve acordar até por volta das sete horas. O relincho de um cavalo foi carregado pela brisa fresca. Um coaxar solitário de um sapo ecoou ali perto. E Jack continuava polindo. Se alguém iria começar uma conversa, teria de ser ela. — Para onde você foi mais cedo? — Eu precisava conversar com Snow Gibson. Ele mora no alojamento do caseiro a uns dois quilômetros daqui. Maddy se lembrou de uma conversa mais cedo. — Cait disse que Snow é uma figura. Ela não deveria ter ido até ali. Conversar com Jack era como tentar empurrar um elefante montanha acima. Ela precisava aceitar a situação como era. Precisava se acalmar e deixar as coisas entre ela e Jack se desembaraçarem naturalmente. Agora, ela precisava dar boa noite. Maddy estava prestes a sair quando a voz profunda e grave flutuou na noite: — Essa propriedade está na minha família desde 1869. — Ele fez um sinal com a cabeça em direção a uma enorme sombra imóvel à esquerda deles. — Vê aquilo ali? Ele começou a caminhar. Maddy deu uma olhada para a porta de trás da casa e então deu de ombros intimamente. Ela o seguiu. Se ele estava fazendo um esforço, ela faria também. — Este cocho foi um presente de casamento — Jack estava dizendo. — Meu bisavô sugeriu a sua esposa que eles fizessem um buraco na parede do banheiro e eles pudessem usá-lo como banheira e para dar água aos cavalos no quintal. Maddy ficou pálida. Tinha a sensação de que ele estava falando sério. Agradeço aos céus pelos encanamentos modernos. Como as mulheres sobreviviam naquela época? 26


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— Eu entalhei minhas iniciais aqui quando tinha seis anos — ele continuou e passou um longo dedo bronzeado sobre uma gravação na madeira. — Nossa cadela tinha acabado de ter filhotes. Ele apontou para diversos cortes... Um, dois, três... Sete filhotes. Ele se aprumou e, observando-a, avaliou o peso da rédea na mão. — Você nunca teve um cachorro? — Eu tinha aulas de piano e muitos vestidos. — Mas nenhum cachorro — ele insistiu. — Nenhum cachorro. Foi atacada por um Dobermann quando era nova. A expressão dele congelou antes de ele largar a rédea cegamente no cocho. — Maddy... Deus, sinto muito. Semanas no hospital, anos lutando contra a fobia. Ela deu de ombros. — Podia ter sido pior. Ele sustentou o olhar dela por vários segundos e então deu um sorriso torto. — Fiquei com tremores uma vez. Quebrei meu braço levando um garanhão para o riacho quando eu tinha dez anos. Ele foi o cavalo mais irritadiço que já conheci. Maddy sorriu abertamente. Uma confissão e tanto vinda do Crocodilo Dundee. Ele caminhou outra vez, um sinuoso andar à vontade que a convidava a se juntar a ele. — Piano e vestidos — ele murmurou. — Então você era uma garotinha da mamãe. — Minha mãe morreu quando eu tinha cinco anos. Ele vacilou. Ela quase enxergou o arrepio no corpo dele. — Espere um minuto. Eu preciso cortar um pedaço da minha língua. Ela não ficou ofendida. Ele não teria como saber. — Tenho uma lembrança perfeita dela me cobrindo na cama. Tinha um sorriso lindo. — Ela mantinha na carteira a foto favorita da mãe, um clique inocente da mãe gargalhando e segurando seu primeiro e único bebê contra um céu claro e azul. — Seu pai ainda é vivo? — Ahan. Ele é ótimo. Muito cheio de energia. Eu trabalho para ele na Tyler Publicidade. — Já ouvi falar. Uma empresa bem respeitada. — Ele chutou uma pedra com a ponta da bota. — Então você é uma cópia do seu pai? — Espero que sim. Fecharei meu primeiro grande acordo em breve. — Com direito a um grande bônus? — Acho que sim. A luz da lua, o olhar pesado a analisou. — Mas essa não é sua motivação. — De jeito nenhum. — Você quer deixar seu pai orgulhoso — ele conjecturou e ela assentiu. — Isso não é tão incomum. Além disso, eu realmente gosto do meio — ela completou. — Há muitas pessoas e acontecimentos excitantes. É o meu lugar. 27


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Ela acreditava naquilo e finalmente o pai dela estava acreditando também. Ela vira o olhar dele quando dissera a ele, aos dezesseis anos de idade, que desejava ser uma executiva de contas da empresa; ele não achava que ela possuía o tino para tal. Ele dissera: Você é mais como sua mãe, o que significava que ela não era forte o suficiente. A mãe dela havia sido uma pessoa gentil e, não, não havia sido capaz de vencer a leucemia, mas ela e a mãe eram uma questão a parte, duas pessoas diferentes. E uma vez que ela tivesse a assinatura dos clientes na última linha... — Você deve estar ansiosa para voltar — Jack disse, se posicionando ao lado de um mourão desgastado da cerca. Ela contorceu os lábios. — Não vou negar que ficarei feliz de deixar os mosquitos para trás. — Eles não comem muito. É com as formigas lava-pés que você tem de se preocupar. — Então é melhor eu não ficar muito tempo no mesmo lugar. Ele riu, um tom relaxado e abundante que se encaixava nele assim como aqueles jeans deleitáveis. Maddy não conseguia se lembrar de outro homem com mais apelo sexual... Quando ela percebeu que o olhar compartilhado entre eles durou um pouco mais do que deveria, suas bochechas coraram. Quando o calor se espalhou pelos seios e barriga dela, Jack esfregou a própria nunca e se movimentou novamente. — Como você conheceu Dahlia? — Uma amiga da faculdade, Dahlia era uns dois anos mais nova do que eu. Estávamos matriculadas em especializações diferentes, mas nos conhecemos numa festa e entramos em acordo. Ela possuía a melhor risada. Contagiante. — Meio como a sua, ela queria dizer, só que não tão grave. Desviando o olhar, ele esfregou a têmpora com o nó de um dos dedos. — Sim. Eu me lembro da risada dela. Maddy conteve o impulso de tocar o braço dele para oferecer um pouco de conforto. Em vez disso, ela falou: — Você deve ter sentido falta daquele som quando ela foi embora daqui. Um músculo no queixo dele pulsou e ele deixou escapar um longo suspiro. — Minha esposa implorou para eu ir atrás dela, mas eu estava determinado a não fazê-lo. Algumas verdades lamentáveis do nosso lar vieram à tona naquela última noite. Descobri que se Dahlia queria encontrar o próprio caminho, eu não a impediria. Mas o tom dele demonstrava que se arrependia disso. — Ela não gostava de Leadeebrook? — Ela achava ok — ele disse, cruzando os braços enquanto caminhava — mas ela não se sentia do mesmo jeito que eu. Do jeito que meu pai se sentiu também. Ela não queria ficar aqui, "enrugar e morrer", como ela mesma colocou. Dizia que sua vivência na fazenda já era suficiente para preencher uma eternidade. — E sua esposa... Como ela se sentia a respeito da fazenda? Ele procurou o céu como se Sue pudesse estar ouvindo e olhando para baixo, e Maddy soube naquele instante que ele amara muito a esposa. 28


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— Este era o lar da Sue. Sempre vai ser. — A expressão carinhosa dele ficou mais aguda então, franzindo, ele se virou em direção à casa. — Isso foi o bebê? Maddy parou para escutar e então balançou a cabeça. — Não ouvi nada. Cait disse que ficaria atenta. — Eles caminharam outra vez em direção a uma estrutura de madeira que ela considerava serem os estábulos. Quando falou outra vez, Maddy colocou um tom mais leve na voz. — Tara Anderson obviamente é uma grande fã da região lambem. O olhar dele captou o dela e, quando se intensificou, a pele de Maddy se inflamou com um calor prazeroso, declarado. Do jeito como Jack estava olhando para ela agora, ela quase podia se enganar e acreditar que ela, não Tara, era a mulher com quem ele estava envolvido... Que o calor primitivo queimando nos olhos dele era voltado para ela, e só para ela apenas. — Tara e eu nos conhecemos há algum tempo — ele disse. — O tio dela e meu pai eram amigos. Sue e Tara se tornaram boas amigas também. Elas compartilhavam valores similares, interesses similares. Nós também. — Você vai se casar com ela? Maddy sentiu uma queimação ao mesmo tempo em que seus olhos se arregalaram e ela prendeu o fôlego. Ela havia mesmo dito aquilo? Sim, ela estivera pensando no assunto... bastante. Mas perguntar... Ela levantou as duas mãos. — Desculpe. Isso não é da minha conta. Ele assentiu. — Temos conversado a respeito. Maddy soltou o ar. Então Tara tinha um bom motivo para ser tão explícita naquela tarde. Ela via Jack como seu futuro marido. Um marido que fora a um funeral e que retornara com um bebê. Maddy mordeu o lábio. Ela não deveria perguntar, poderia não gostar da resposta, mas não conseguia evitar: — Tara gosta de crianças? Ele cocou a ponta da orelha. — Esse é um ponto complicado. Tara deseja muito uma família... Ele fora lento ao aceitar a responsabilidade por Beau. Ele abordou a tutela como um dever a ser executado em vez de uma bênção a ser estimado. Agora estava admitindo que não queria uma família. Maddy sabia que um dia iria querer ser mãe. Cuidar de Beau apenas aumentou aquela noção. Ela não conseguia imaginar por que qualquer pessoa não gostaria de construir a própria família: para dar e receber amor incondicional. O que será que a primeira esposa de Jack tinha a dizer sobre a aversão dele à paternidade? Mais importante: o que aquela confissão significava para Beau? Ela havia esperado, rezado, mas será que Jack tinha o necessário para ser um bom pai para aquele bebê? E havia Tara. Ela não demonstrara interesse em Beau, exceto choque e suspeita embora quisesse ter filhos. Caso ela e Jack se casassem, se eles tivessem filhos juntos, será que Tara veria Beau como um aborrecimento ou inconveniente quando o próprio filho dela chegasse? Se fosse o caso, que em que tipo de família o pobre Beau cresceria? Que tipo de autoimagem danosa aquela carga criaria nele? 29


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Um relincho soou na noite e Maddy foi trazida de volta à realidade. — Herc consegue nos ouvir — Jack disse a ela e apontou um polegar para os estábulos. — Quer conhecê-lo? Absorta nos pensamentos, Maddy concordou distraidamente, mas logo o cheiro de cavalo e de couro a despertou. Com um espirro lhe causando cócegas no nariz, ela inventou uma desculpa. — Está ficando tarde. Provavelmente não deveríamos perturbá-lo. Jack riu e continuou andando. — Herc não vai se importar com a companhia. Ela contraiu o nariz. — Acho que posso ser alérgica. Aquilo chamou a atenção dele e ele se virou. — Você já entrou em contato com cavalos antes? — Um cavalo de verdade? Ele sorriu, um sorriso descarado, de tirar o fôlego, e os seios de Maddy formigaram com um desejo espontâneo. — Sabe, Maddy, não tem nada como o ritmo de um cavalo forte de confiança embalando sob você. Ritmo... Forte... Embalando. Maddy exalou. Ela queria se abanar. Será que Jack tinha alguma idéia do quão ferozmente atraente era? — Obrigada, mas eu passo. — Por que não expandir seus horizontes? Há mais na vida do que um guardaroupa com vestidos bonitos. — Ou um estábulo de cavalos. — Você está certa. Jack deu um pulinho para ficar ombro a ombro com ela enquanto examinava o show de luzes de trilhões de estrelas dançando acima da cabeça deles. A energia inata dele, o golpe físico que Maddy sentia quando ele ficava tão perto era tão palpável quanto o calor de seu corpo. Ela desejava que ele não tivesse se aproximado mais. E, droga, ainda assim ela desejava que ele tivesse se aproximado mais. — Há uma brisa fresca após uma temporada de umidade — ele disse — e a segurança de uma terra vasta e abundante como esta. Há a satisfação que vem depois de um dia duro de trabalho e a sedução de uma lua cheia em uma noite calma como esta. E então... Ele uniu as sobrancelhas escuras como se uma idéia estranha o tivesse tocado. Quando ele virou a cabeça, a expressão havia sido suavizada por uma emoção que ela não vira nele antes. Jack piscou uma vez então, como se tivesse lido todos os pensamentos anteriores dela, abarcou o queixo dela e Maddy parou de respirar. — E então — ele disse — há isso. Ele roçou o polegar sobre seu queixo e baixou a cabeça em direção à dela, as capacidades mentais de Maddy desmoronaram. Ela poderia ter imaginado, poderia ter sonhado, mas ter Jack completo, com a atenção sexual concentrada apenas nela havia parecido ir além da razão ou das possibilidades. Maddy estremeceu, se inclinou e pressionou o corpo contra ele. 30


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Com a boca dele tão perfeitamente fechada sobre a dela e a estrutura musculosa e rija pressionada com força contra ela, o mundo inteiro pareceu desaparecer num espiral. Com o coração batendo alto e com força, ela não conseguia pensar além da emoção deste momento, além da maravilha dos dedos dele acariciando sua nuca... A palpitação pesada em seu baixo ventre... E uma pulsação interna ardente que sussurrava para ela a respeito de uma promessa de uma noite lenta e quente na cama de Jack Prescott. Quando a boca dele relutantemente deixou a dela e as pálpebras pesadas de Maddy se abriram, os olhos dele estavam sorrindo para os dela. Um delicioso tremor lhe percorreu as veias do corpo inteiro. Ela estava com a cabeça leve, tonta. Jack realmente a havia beijado? Ela realmente havia retribuído o beijo? Ele roubou outro beijo leve, longo no canto dos lábios dela antes de a boca roçar seu queixo. — Vê o que quero dizer sobre aquela lua cheia? Como um pouco do bom senso sobreviveu ao fogo rasgando suas veias, Maddy não soube o que dizer. Ela não queria escutar a razão. Ela só queria conhecer o beijo dele mais e mais. E apesar do perigo... A desonestidade dessa situação era tão evidente quanto o desejo doloroso. Por mais que ela quisesse, não conseguia ignorar o dano que esse tipo de cena poderia e iria causar. Encontrando forças e fôlego, ela desviou a cabeça. — Isso não está certo. Com o nó de um dos dedos, Jack persuadiu a boca de Maddy a se juntar outra vez à dele. — Isso está muito certo. Quando ele envolveu o lábio inferior dela com a boca e a ereção detrás do zíper vergou contra seu ventre, a determinação dela derreteu feito cera quente escorrendo em uma vela. A ânsia de se render era tão doce e tão forte... Mas ela não conseguia ignorar o mais importante. Ela empurrou o peito firme. — Jack, e Tara? Eles precisavam manter este período complicado o mais descomplicado que conseguissem. Sim, ela estava fisicamente atraída por Jack; ela gostaria de conhecer uma mulher que não ficaria. Mas um beijo levaria a mais, a lugares impetuosos e sombrios para os quais ela não estava preparada para visitar. Ela queria algum tipo de futuro com Beau. A última coisa que precisava ter na cabeça era um imprevisto de uma noite e de uma madrasta que, aí sim, teria um bom motivo para desconfiar. A voz profunda dele ribombou nas sombras. — Você deveria entrar. Um arrepio percorreu a espinha dela. O rosto dele parecia mudado... quase vulnerável. Cuidadosamente, ela tocou o braço forte e quente dele, mas a expressão intensa não mudou. Ele disse outra vez: — Você deveria ir. Então ele acenou para ela em direção ao estábulo. Mais tarde, enquanto Maddy estava em claro na cama olhando para o teto, ela 31


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ouviu as batidas de casco ao longe. Ainda em brasa por tê-lo sentido, com a cabeça ainda zunindo da embriaguez, ela rolou e tocou os próprios lábios levemente. Maddy achava que havia sido beijada antes. Achava que sabia o que era desejo... como era estar excitada. Ela estava errada.

CAPITULO CINCO

Na manhã seguinte, Jack dirigiu até Hawksborough, uma cidade que basicamente consistia em uma rua principal ornada por árvores de pau-ferro, uma biblioteca de estilo arquitetônico antigo, prefeitura e comarca, e uma série de fachadas desbotadas de lojas que levavam ao hotel Shangri-la. Estacionado em frente à barbearia do Bruce, uma residência com sublocação para o único banco da cidade, Jack desceu do carro com tração nas quatro rodas e absorveu a aura da cidade inalterada pelo tempo. Sue havia amado o lugar tanto quanto amara a fazenda. Sempre que ele ia para lá, Sue ia também, para conversar com os habitantes locais e então relaxar na praça da cidade, lendo um de seus livros grossos. A sofisticada Madison Tyler, por outro lado, tinha mais a ver com canapés e coquetéis às cinco da tarde. Ela consideraria o único semáforo e o único cinema de Hawksborough desajeitados. Possivelmente perturbadores. Maddy se importava com o que havia acontecido ao bebê de Dahlia, ele a respeitava por isso, mas assim que o trabalho dela estivesse terminado ela iria embora, de volta à cidade e à "civilização". Mais treze dias. E noites. Assim que tirou o chapéu e cruzou o saguão do Shangri-la, Jack se deu conta de que poderia se enganar e dizer que entendia por que perdera a conduta apropriada na noite anterior: ele queria uma amostra do efeito inebriante e intrigante, só uma provinha. Ele beijara Maddy. Havia gostado imensamente. A curiosidade supostamente estava satisfeita e encerrada. O problema era que, enquanto estava acontecendo toda esta racionalização, ele se esquecera de Tara. Do compromisso que firmara com ela. E aquilo não era do feitio dele. Maddy era tão diferente de Sue, de Tara, de qualquer mulher que ele conhecera, e aquilo poderia ser um motivo para o comportamento dele, mas nunca um pretexto. Ele saiu do eixo ao lado dela. Parecia não conseguir tirá-la de seus pensamentos. Às quatro da manhã ele finalmente descobrira o que precisava ser feito e como deveria fazê-lo. Agora ele se dirigia à srta. Claudia, a amigável recepcionista de cabelos grisalhos que ele conhecia a vida toda. Ela deixou de lado as palavras cruzadas na mesa de mogno e eles trocaram amabilidades sobre o canário velho dela e a falta de chuva. Então ele discou para o número do quarto no qual Tara ficava toda vez que ficava na cidade. Quando ela atendeu ao segundo toque, Jack retesou os ombros. 32


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— Tara, preciso te ver. Houve um instante de pausa antes de um suspiro surgir na linha. — Jack, é você. Graças a Deus. Suba. Pelo tom fraco dela, algo estava errado. Ele podia adivinhar. Mas assim que saiu do elevador antigo, Jack soube que não poderia deixar nenhuma notícia ruim atrasar o que ele tinha dizer. Quando Tara abriu a porta, seus cabelos estavam tão brilhantes como costumavam, mas seus olhos não sustentavam aquele fogo de sempre. Ela lhe apresentou um envelope grande e deu um sorriso exausto. — Os exames de Hendrix. Ele tem um pequeno cisto no tendão. Na minha opinião e na do veterinário não há motivo para se preocupar. — Ela colocou o envelope sobre a estante da TV. — Mas o comprador quer um abatimento no preço. — Trezentas pratas é muito por um cavalo — ele disse, pendurando o chapéu no cabide. — Não para um saltador brilhante. — Então os olhos escuros suavizaram e ela deu um sorriso convidativo. — Mas não vamos falar disso. Ela pegou a mão dele e o guiou em direção à cama. Jack se manteve olhando para frente, mas até mesmo um cego poderia notar os trajes dela; um vestido curto rosa claro de seda. Pelos contornos, ela não usava nada por baixo. — É tão bom te ver. Devo pedir café da manhã? — Eu já comi. — Preciso me desculpar pelo modo como agi ontem. Mas, você precisa entender, eu fui pega de surpresa. A última coisa que eu esperava ver era um bebê... — Ela se abaixou para sentar sobre os lençóis desarrumados — ...ou outra mulher. — Enlaçando os dedos aos dele, Tara o incitou a se sentar ao lado dela. — Mas eu deveria ter demonstrado mais controle. Você está certo. Precisamos conversar sobre isso em particular. — Ela se lançou na direção dele, o vestido escorregou, mas ela não cobriu a coxa. — Como você se sente com essa situação de criar o filho de Dahlia? Ele enrijeceu o maxilar. — Comprometido. — E claro que aquele bebê merece um lar. — Ela tocou a coxa máscula e deixou a mão repousada sobre a perna dele. — E agora não há empecilho para nós começarmos uma família. Eu entendo como você se sente sobre perder seu filho, Jack. Não consigo imaginar o quanto isso deve doer. Mas ganhar este bebê é como ganhar outra chance. Poderíamos dar um irmão ou dois para aquele garotinho. Ela apertou a mão. — Uma família de verdade, para todos nós. Ele ficou de pé e a mão dela caiu. — Precisamos conversar. — Se você está preocupado com a herança, que eu possa ser prejudicada pelos filhos que tivermos juntos, ficarei mais do que satisfeita com todos os filhos recebendo partes iguais... — Não posso me casar com você. 33


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Ela recuou como se tivesse sido picada por uma cobra. Não havia jeito fácil de dizer aquilo. Mas a confissão soou insensível até mesmo para os ouvidos dele. — Você não pode se casar... — Ela se pôs de pé cuidadosamente. — Nós discutimos isso. Avaliamos cuidadosamente. — Ela se aproximou e um tom de desespero fez sua voz se levantar. E as terras? — Eu não me importo com as terras. Ele xingou baixinho e esfregou a fronte. É claro que ele se importava, mas... Resoluto, ele a encarou. — Não consigo pensar nisso agora. — É aquela mulher, não é? — Ela inflou as narinas. — Há quanto tempo você a conhece? Ele contou a verdade: — Conheci Maddy no mesmo dia que soube de Dahlia. — Então ela trabalha rápido, fazendo você concordar em hospedá-la aqui. — Não foi assim. Tara poderia ter motivos além dos que conhecia para estar com ciúmes, mas não começara daquele jeito. Maddy não havia preparado uma armadilha para apanhar um solteiro qualificado. Ela fizera uma promessa e viera a Leadeebrook quando preferiria não ter vindo. A lealdade dela à irmã dele, a indignação para com ele não haviam sido ensaiadas. Nem a paixão que ele sentira aflorar quando a abraçara na noite anterior. Tara estava implorando a ele com os olhos. — Diga-me que nada está acontecendo, Jack. Diga-me e acreditarei em você. Você já cometeu erros antes. — O tom apaixonado oscilou. — Você não quer cometer outro. — Tara, você e eu somos amigos. Eu sempre vou pensar em você como uma amiga. — Amizade pode se transformar em amor. — Ela segurou o queixo dele e puxou para beijá-lo. — Aconteceu comigo. Ele pegou a mão dela e segurou entre as dele. — É melhor assim. Ele havia se casado uma vez. Ele deveria ter se dado conta de que iria afetá-lo eternamente. A aliança que ele usava pendurada no pescoço sempre ficaria ali. Mas assim que ele colocou o chapéu e deixou o hotel alguns minutos depois, se lembrou de que a intimidade física era outro problema. Não era necessário haver permissão alguma para satisfazer as necessidades sexuais. Era natural, instintivo. Neste caso, feroz. A química era certa entre Maddy e ele. No dia anterior, sob as estrelas, havia sido quase impossível de conter. Se esta febre tinha a ver com o levante de emoções nos últimos dias, com o último laço que ele e Maddy haviam compartilhado com Dahlia, ele não sabia dizer. Tudo que ele sabia com absoluta certeza era que ficara atraído por Madison Tyler desde o início. A atração crescera a um ponto em que, não importa qual pretexto inventasse, ele não podia negar. Ele a queria em sua cama. 34


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Jack nunca sentira algo com essa intensidade em relação a uma mulher, nem mesmo Sue. E nunca atingira aquele ponto com Tara, nem mentalmente ou fisicamente. Inspirando, ele entrou no carro, ligou o motor e se afastou do meio-fio. Estava predeterminado. Maddy se sentia do mesmo jeito. Ela queria o mesmo que ele. Antes que a semana terminasse, ele a convenceria de que eles deveriam agarrar aquilo.

Ligue de volta. Urgente sobre a conta Pompadour. Mordendo o lábio, Maddy desviou o olhar da mensagem de texto para o bebê Beau que estava deitado, feliz e enérgico sobre um cobertor ao lado. Embora todo mundo soubesse que Maddy estava indisponível, numa mudança de hábito ela trouxera o Black-Berry. Ao mesmo tempo em que o pai dela havia sido frio em relação ao pedido de folga imprevista, ele não teria enviado aquela mensagem sem um bom motivo. Maddy encostou o telefone no queixo enquanto seu estômago se revirava. Urgente... Será que a Sapatos Pompadour cortou o contrato sem ter visto a campanha? Será que outra agência roubou o negócio deles? Ou pior... Será que a frustração do pai dela entrou em ação? Será que ele a substituiu naquela conta? O som de um motor. O mesmo som que ela ouvira deixando a propriedade cedo naquela manhã. Jack estava em casa. O coração de Maddy começou a palpitar. Como será que ele lidaria com o assunto da noite anterior? Talvez ele nunca trouxesse aquele beijo a tona, o que estava bom para ela. Durante as horas antes do amanhecer, ela pensou o suficiente no jeito como a boca bem-aventurada dele atuou sobre a dela. Maddy estremeceu. Se nenhuma outra palavra fosse dita sobre aquele acidente, ela ficaria feliz. Certamente Jack, um homem que cogitava se casar, se sentia da mesma forma. Até onde dizia respeito a ela, aquela carícia nunca aconteceu. O carro freou e quanto a porta se abriu, as pernas de Maddy ficaram bambas. Colocando o chapéu no lugar, Jack se aprumou, parecendo mais alto e mais formidável do que ela se lembrava. Quando o olhar de Jack a analisou, ela deu uma saudação formal. Ele confirmou o cumprimento com um breve meneio de cabeça e seguiu em frente. Os próximos treze dias seriam equivalentes a tortura: embora tivesse de voltar a Sidney, ela não queria dizer adeus a Beau. E precisava abandonar a lembrança daquele beijo, embora estivesse suplicando para ter a sensação outra vez. Jack se abaixou ao lado do bebê, as botas empoeiradas e o jeans apertado no joelho. Quando o chocalho caiu de suas mãozinhas, Jack o pegou e sacudiu as chaves de plástico até Beau agarrá-las e enfiar uma delas na boca. — Acho que ele está com fome. — Ele acabou de almoçar. Acho que ele está pronto para dormir. 35


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Jack fez cócegas na barriga de Beau e, gostando, o bebê fez sons agudos e largou as chaves. Jack riu levemente. — Ele se parece com Dahlia. O mesmo sorriso descarado. Maddy sorriu. Sorrisos descarados devem ser de família. Toda vez que Jack sorria para ela daquele jeito, toda vez que o olhar dele acariciava os lábios dela, ela podia derreter, sem qualquer empecilho. Cait chamou do topo das escadas. — Quer almoçar, Jock? — Vou comer depois. Cait assentiu. — Posso colocar a criança para dormir para você, Maddy? — Posso fazer isso — Maddy respondeu. Mas Cait já estava a caminho. — Você pode realmente. Mas ele não saiu de perto de você desde as sete horas desta manhã. Jack pegou o bebê e o chacoalhou um pouco no ar antes de entregá-lo a Cait. Radiante, Cait o aninhou. Beau parecia tão confortável nos braços de Cait. Maddy não tinha razões para interromper... Exceto pelo fato de que, depois que Cait e Beau saíssem, ela a Jack seriam deixados completamente a sós. A idéia fez o coração dela palpitar mais. Assim que Cait e o bebê desapareceram pela casa, Maddy recompôs seus nervos hipersensíveis. Ela simplesmente precisava lidar com essa situação de um jeito adulto. Ela disse uma frase ou duas enquanto tentava manter a comunicação amigável, porém inquestionavelmente fria. Então, depois um tempinho razoável, ela poderia seguir Cait lá dentro. Para manter distância e segurança de possíveis humilhações e arrependimentos, ela concluiu. Com um ar displicente, ela pegou o BlackBerry no cobertor. — Interessante que Cait te chama de Jock. — Jock. Jack. Jum. Todos apelidos para James. Maddy sentiu um aperto por dentro. Jack era James? Ela se lembrava da reação dele, daquela hesitação naquele primeiro dia em que ela dissera a ele o nome do bebê. Ele e Dahlia haviam ficado anos sem se falar e ainda assim ela usara o nome dele para batizar o bebê: Beau James. Maddy não conseguia imaginar a pontada de culpa dele quando escutara. O golpe no âmago de arrependimento e humilhação. A voz dela veio suave: — Deve ter significado muita coisa saber que Dahlia se lembrava de você desse jeito. Ele tirou o chapéu e passou uma das mãos pelos cabelos. — Foi o nome do nosso avô também. Um nome da família. Mas, sim, foi... bom. Olhando para o chapéu, ele correu um dedo e o polegar em torno da abra de feltro e então se pôs de pé. Piscando outra o sol ao alto num céu sem nuvens, ele olhou em volta. — Ótimo dia. Não está quente demais. — Ele ergueu uma sobrancelha para ela. — 36


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Que tal um passeio a cavalo? A conversa sob a lua cheia, a atmosfera confortável, onírica que aquilo criara havia pegado os dois de surpresa. Agora, entretanto, eles estavam completamente cientes dos perigos que a proximidade poderia trazer. Ele estava envolvido com outra mulher. Maddy não tinha intenções de beijar Jack Prescott outra vez. E tinha menos intenção ainda de saltar sobre um cavalo. — Acho que vou deixar os truques de rodeio para os especialistas. — Você não precisa saltar sobre cercas de três metros. Podemos começar com um passeio. Ou poderíamos ir num cavalo só. Com os braços em volta da cintura dele, os seios roçando as costas dele... — Vou te levar para cavalgar — ele continuou, recolocando aquele chapéu inconfundível na cabeça — mesmo que eu tenha de criar um momento surpresa e te colocar sobre ele sem sela. O oxigênio nos pulmões dela começou a queimar. — Enquanto isso... — ele lhe ofereceu a mão — ...o que diz de eu levá-la para um passeio pelos campos de Leadeebrook? Maddy aceitou a mão dele antes de pensar. O contato pele a pele fervilhante acendeu uma faísca embriagada de feromônios que estalaram por todo o braço dela. Além disso, ele a puxou com força. Catapultada ao ar, os pés dela pousaram perto demais dos dele. Uma vez que ela recuperou o fôlego e a direção, o olhar dela encontrou o dele. A mensagem nos olhos dele não dizia nada a respeito de embaraço ou cautela. Na verdade, ele parecia desconcertantemente seguro.

Após uma rápida volta de carro, durante a qual Maddy grudou os ombros do lado do passageiro para manter algo parecido com distância entre eles, eles chegaram até uma estrutura sólida de madeira em uma clareira imensa. — Parece uma cidade fantasma agora — Jack disse, abrindo a porta dela. — Mas quando a tosquia estava ativa, este lugar era um furacão de barulho e atividade. Quando eles adentraram o prédio, de repente Maddy se sentiu muito pequena e, ao mesmo tempo, estranhamente animada. Ela girou em trezentos e sessenta graus. — É enorme. — Oitenta e dois metros de comprimentos, construído em 1860 com espaço suficiente para acomodar 52 tosquiadeiras. Ativa durante trinta anos, a tosquia foi convertida em 36 estandes de máquinas tosquiadeiras movidas a vapor. Dez tosquiadeiras manuais foram mantidas, no entanto, para tosquiar machos manualmente. — Carneiros, você quer dizer? — Não podia arriscar perder nada valioso caso a máquina entrasse em pane. Ela deu um sorriso mínimo. Homem típico. Quando os olhos verdes dele mostraram sua risada, Maddy sentiu um nó no âmago e precisou disciplinar seus traços para que não revelassem qualquer indício de sentimento. Um sorriso pernicioso. Um olhar sedutor. Ficar a sós com Jack nunca era uma boa idéia. — O que você planeja fazer com esse lugar agora? — ela perguntou. 37


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Ele olhou em volta, o maxilar rijo. — Deixar como está. — Mas parece um desperdício tão grande. — A indústria australiana de lã chegou ao ápice no século passado, no início da década de cinqüenta, quando meu avô e seu pai administravam a fazenda, mas está tudo acabado para Leadeebrook. — Ele contraiu as sobrancelhas e os olhos mostraram tristeza. — Os tempos mudam. E você precisa mudar com eles, ela pensou, mesmo quando seu coração e herança estão no passado. A voz profunda dele, mais forte agora, ecoava pelo enorme cômodo: — Há um baile de gala no fim de semana. Ela levantou o olhar rapidamente e, compreendendo, sorriu. — Ah, tudo bem. Pode ir. Ficarei bem cuidando de Beau. — Você virá comigo. Ele estava contornando uma mesa, indo em direção a ela, e o rosto de Maddy começou a queimar. Eles estavam a quilômetros de qualquer pessoa, isolados de um jeito do qual ela nunca ficara antes. Sem olhos curiosos ou choros de bebês para interromper. Ela aprumou os ombros. — Tenho certeza de que sua noiva não aprovaria sua sugestão. Ele parou e salientou o queixo. — Conversei com Tara esta manhã. Eu estava errado em cogitar me casar com ela. Eu disse que deveríamos continuar amigos. Os pensamentos de Maddy começaram a girar. Claramente, ele havia interrompido os planos com Tara não apenas por causa do abraço deles na note anterior, mas porque ele tinha todas as intenções de dar continuidade àquele beijo com mais outro. — Jack, se isso tem a ver com o que aconteceu entre nós ontem à noite... Quero dizer, se você está pensando que talvez... — Estou pensando que enquanto você estiver aqui, você também pode experimentar tudo que há a se oferecer. Este é o novo lar de Beau e você é nossa convidada. Ela era uma convidada ou, mais do que nunca, um desafio? Mesmo que a conseqüência de tal pensamento a excitasse, ela balançou a cabeça. — Sinto muito, mas não vou a nenhum baile de gala. Não estou aqui de férias. Não é justo deixar Cait com Beau. — Você vai ter de deixar Beau em breve. O olhar carinhoso dele, e aquela declaração fundamental, abalaram o equilíbrio dela e Maddy se apoiou na mesa para estabilizar o corpo que tombava. Logo ela iria embora. Dependendo do que havia por trás da mensagem de texto agourenta do pai dela, também iria mais cedo do que o esperado. Seu lado pragmático dizia que ela deveria ser grata por Cait ser tão boa para com o bebê e feliz porque Jack parecia estar resolvido a criar uma relação com Beau. Feliz porque a vida dela iria voltar 38


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ao normal... Retornar a Sidney neste momento crucial em sua carreira. — Você vai precisar arrumar uma bolsa — ele disse. — Será um voo a meia hora daqui. Os pensamentos de Maddy retornaram ao presente. Mas ele a havia ignorado. Voo de meia hora? Ele ainda estava falando daquele baile de gala? — Por que eu precisaria de uma bolsa? — Simples. — Ele saiu das sombras e um feixe de luz lhe cortou o rosto. — Nós vamos passar a noite fora.

CAPÍTULO SEIS

Ela estava errada. Jack não era seguro de si. Ele era pura e simplesmente arrogante. Pensar que ele esperava que ela não apenas fosse ao baile com ele, mas também passasse a noite, fez Maddy fica mais determinada do que nunca em não obedecer. Ela não iria. Fantasiar sobre atirar o autocontrole ao vento e se submeter aos avanços latentes de Jack era uma coisa. Concordar em passar a noite juntos era outra bem diferente. Se fosse outro homem, ela teria rido na cara dele. Ou lhe dado um tapa. Mas Jack não era um homem qualquer. Ele era um homem de atitude que não via nada de errado em ir atrás do que desejava. E parecia que ele desejava Maddy. Felizmente, durante o retorno à casa, no carro, ele não trouxe o assunto a tona de novo, embora ela estivesse certa de que ele não tivesse levado suas objeções a sério. Ele continuou enviando as vibrações... Olhares sedutores e frases carregadas que a deixavam meio tonta e, honestamente, incomodada. Sim, ela o havia beijado, profundamente. Completamente. Aquilo não significava que ela possuía qualquer intenção de agir impulsivamente e de sair às escondidas com ele... Mesmo que quisesse aquilo desesperadamente. Após o jantar, Jack levou Beau até varanda para tomar ar fresco enquanto Maddy havia ficado para ajudar Cait. — Estou bem aqui — Cait disse a ela, fazendo espuma na água com sabão na pia. — Vá fazer companhia ao Jock com o menino. De jeito nenhum. Ela havia ficado presa à companhia, e ao apelo sexual, de Jack mais do que o suficiente por um dia. Maddy tirou o pano de prato do gancho. — Tenho certeza de que ele gostaria de passar um tempo a sós com Beau. — Ela pegou um prato molhado do escorredor e prontamente mudou o assunto para algo mais seguro. — Há tempos quero comentar... O quarto do bebê está lindo. Tão novo, e as cores são simplesmente linda. — Tons de azul claro e violeta com nuvens reproduzidas 39


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no teto e coalas pintados nas paredes. Movimentando a esponja, Cait assentiu olhando para a água. — Eu lavei todas as roupas de cama e cortinas quando Jock me contou. — O cômodo sempre foi um quarto de bebê? Quero dizer, era o quarto de Jack e de Dahlia quando eles eram bebês? As mãos de Jack pararam de se mover em meio à espuma. — Jock e Sue... A esposa dele... eles fizeram. Maddy digeriu a informação e inclinou a cabeça. — Eu achei que Jack não quisesse uma família. — Ele te contou isso? — Em poucas palavras. — Quando Cait manteve o foco na pia, Maddy sentiu um tremor. O que a governanta estava escondendo? — Cait? — Ela deixou o pano de prato de lado. — O que foi? Após dois segundos, Cait baixou e depois levantou a cabeça. — Sue não foi a única pessoa tirada de Jock naquela noite há três anos. Maddy absorveu as palavras. Quando a mente dela parou em uma explicação plausível, o quadril dela bateu no balcão e uma torrente de cócegas lhe atingiu a pele. Oh, Deus. Ela fechou os olhos e engoliu. — Havia um bebê, não havia? — Um menino que foi muito desejado. E o fato de aquilo ter acontecido apenas um ano após a morte dos pais dele e da fuga de Dahlia... Ele havia desistido da ideia de ter uma família. Ter um bebê aqui em Leadeebrook... Bem, é difícil para ele. Maddy apertou o estômago para conter o enjôo. Ela mal podia absorver aquilo. — Eu queria ter sabido antes. — Ele não fala daquele dia, embora eu tenha certeza de que ele pensa nele freqüentemente. Pobrezinho, ele se culpa. Jack transpirava a confiança e a habilidade de um homem que podia derrotar qualquer adversário ou morrer tentando. Ter de encarar que ele não havia sido capaz de salvar sua esposa, seu filho... Maddy oscilou. Ela não conseguia imaginar o peso na consciência dele. Talvez fosse similar à culpa que ela sentia sobre ter incitado Dahlia a sair naquele dia para arrumar as unhas e o cabelo. Será que um dia ela se perdoaria? Maddy se arrastou até o aqui e agora. Sabendo tudo isso sobre a perda da Jack, ela se sentia compelida a saber mais. Mais sobre como o passado de Jack poderia afetar o relacionamento dele com Beau. Mais sobre o caubói de aço que debaixo daquilo era um tanto de carne e osso. Antes que pudesse perguntar, seus sentidos formigaram e ela sentiu uma presença detrás delas. Com o coração martelando, girou para encará-lo. A figura impressionante de Jack preenchia o vão da porta. O bebê estava dormindo em um dos braços dele. A outra mão estava junto ao corpo. — Beau dormiu — ele disse. Maddy agarrou o balcão secretamente buscado por apoio. Ele viera até elas tão 40


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silenciosamente... O quanto será que ele ouvira? Ela foi tão pega de surpresa que mal conseguia mover os lábios. Quando ela se recompôs, foi em direção a ele para pegar o bebê, deu um jeito de sorrir. — Vou colocá-lo no berço. Com um único passo, Jack recuou no corredor. — Posso fazer isso. Quando eles se conheceram, ela não acreditou que ele tivesse a possibilidade de cuidar do garoto indo além de um relutante senso de dever. Mas vira uma mudança na atitude dele, como quando ele comentara sobre o sorriso descarado do bebê naquela tarde e quando tirara Beau do cercadinho para levá-lo para a noite fresca. Havia carinho genuíno nos olhos dele, um olhar que tocava um lugar repleto de esperança e ternura dentro dela. Será que ele estava começando a enxergar Beau como um substituto para o filho que ele perdera? Se sim, será que aquele não era um movimento de cura para Jack assim como uma boa conseqüência para o bebê? A cabeça de Maddy dizia que sim. Embora algo incomodasse. Jack desceu pelo corredor para colocar Beau na cama e Maddy voltou à pia. Se ele foi para o próprio quarto ou para os estábulos mais tarde, ela não soube dizer, mas ela não viu Jack outra vez. Mais tarde, ela foi para o próprio quarto e se sentou à beira da cama macia. Tirando os sapatos, olhou em volta. Ela não se encaixava ali, mas Beau se encaixaria, ou se encaixava. As paredes desta fazenda continham lembranças, conexões, histórias que eram parte do que Jack era, e Dahlia conhecera aquilo. Expirando, ela deu uma olhada para o BlackBerry na mesa ao lado. Boa ou ruim, ela não podia adiar aquela ligação mais. O pai dela atendeu com sua usual saudação pessoal: — Tyler falando. Maddy apertou o telefone junto à orelha. — Oi, pai. Ele rosnou um suspiro de alívio. — Graças a Deus. Preciso de você de volta aqui ontem. Enrijecendo a expressão, ela caiu contra a colcha. Pior do que ela havia pensado. — Qual o problema? — A Pompadour quer ver a campanha no fim de semana que vem. Ela abriu os olhos enquanto o coração afundava. — Isso são duas semanas antes do prazo agendado. — Eles estão ansiosos para ver o que temos. Estou ansioso para mostrar a eles. — A voz dele esfriou. — E você? Ela visualizava sua enorme escrivaninha no escritório mesmo enquanto olhava 41


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para o teto de estilo antigo. Então ela ouviu o apelo de Jack... Você e eu vamos passar a noite juntos. O estômago deu um nó. O pai queria que ela fosse embora de imediato? — Maddy, você está aí? Pensando rapidamente, ela se sentou. Hoje era terça-feira. — A proposta da Pompadour está perfeita e impressa — ela disse a ele. — Só há arquivos em Powerpoint para pôr em ordem e instruções finais que envolvem a equipe. Se eu voltar no meio da semana que vem, digamos quarta-feira bem cedinho, haverá muito tempo para colocar estar últimas coisas em ordem. A tensão irrompeu pela linha. — Querida, eu tenho sido paciente. Eu entendo o quanto você e aquela garota eram boas amigas. Mas você fez o que prometeu. Você deixou o garoto no seu novo lar. Agora é hora de voltar e cuidar de você. Cuidar do seu futuro. Maddy dobrou as pernas e abraçou os joelhos. Ele estava certo. Absolutamente. Dadas as circunstâncias, era apenas lógico que ela retornasse à sua vida, imediatamente. Embora... Ela mordeu o lábio inferior. — Pai, você pode me dar até segunda-feira? Ela imaginou o pai fechando os olhos e balançando a cabeça. — Você tem uma escolha a fazer — ele disse, duramente. — Ou volta e termina o trabalho ou vou ter de entregá-lo a alguém que possa terminar. A garganta dela fechou. — Mas coloquei tanto esforço nessa campanha. — Isso não tem a ver com ser justo. Eu te amo, mas isso é pessoal. Isso tem a ver com negócios. Ou você está cem por cento com a Tyler Publicidade ou não está. Ela soltou os joelhos e se esticou. — Eu entendo. Ela realmente entendia. E mesmo assim, deixar Beau aqui depois de apenas um dia parecia... pior do que cruel. Como se lesse os pensamentos de Maddy, o pai suspirou do jeito que costumava fazer quando ela era nova e implorava por outra bola de sorvete depois do jantar. — Se você realmente acha que pode cuidar disso... Está certo. Vou te dar até segunda-feira para voltar. Ela ficou de pé, sorrindo. — Mesmo? — Segunda-feira, oito da manhã — ele decretou. — Nem um minuto a mais. Ela se despediu e reconsiderou que os treze dias em Leadeebrook haviam se encolhido para cinco. Pelo menos ela não precisava saltar num avião para Sidney tão cedo quanto no dia seguinte. Mas agora precisava tirar o máximo proveito de todos os minutos que possuía com Beau. Ela andou de mansinho pelos poucos metros do corredor escuro e, quando chegou 42


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ao quarto do bebê, a porta estava entreaberta. Depois de entrar na ponta dos pés, esperou seus olhos se acostumarem às sobras e a luz da lua que adentrava a janela parcialmente aberta. Ela sorriu. Beau estava dormindo profundamente. Maddy ficou ali sabe-se lá por quanto tempo, simplesmente sorvendo a forma angelical, ganhando lembranças para depois. Nessa hora, Sidney e a Tyler Propaganda eram um mundo a parte. Outro universo. E ela estava mais do que bem com isso. Um rangido veio de trás. Com o coração na garganta, Maddy se virou. Uma sombra grosseira no canto tomava forma conforme se levantava de uma poltrona e ia em direção a ela. Ela arfou. Um intruso? Mas conforme a figura se aproximava, sua forma se tornava inconfundível. É claro que era Jack. Que ficara sem silêncio durante todo o tempo no qual ela estivera ali. — Por que não me disse que estava no quarto? — ela sussurrou, esperando que a irritação estivesse clara em sua voz. Ninguém gostava de ser espiado. — Eu não queria te perturbar. — Ele se aproximou mais. — Mas quando você ficou... Ele parou ao lado dela e seu magnetismo fervilhante a seduziu de uma só vez. Era como se ela fosse um planeta sendo sugado pelo calor do sol, ou como o dia precisando se render à cobertura incondicional da noite. Abraçando o próprio corpo, Maddy firmou os joelhos enfraquecidos. Ela precisava sair dali, para longe dele, antes que fizesse algo idiota como deixá-lo beijá-la outra vez. Ela precisava se manter concentrada. Mas precisava dizer algo importante, algo que não podia esperar, antes de deixar o quarto. — Conversei com meu pai esta noite — ela contou a ele. — Ele precisa que eu volte logo para Sidney. — Logo quando? — Segunda de manhã. A testa franzida dele baixou em direção a Beau. — Como se sente sobre isso? Ela batalhou por uma resposta em sua cabeça e sentenciou: — Eu não tenho escolha. — Isso não me dá muito tempo para te fazer montar numa sela. Quando Jack sorriu, ela se rendeu a um sorriso também. Vá sonhando. — Mas isso nos dá tempo para o baile de gala — ele continuou. — Você tem um vestido? Ela ficou boquiaberta e deixou escapar um som exasperado. — Eu realmente não consigo acreditar em você. — O bebê se mexeu. Recompondo-se, ela fechou os lábios e baixou a voz. — Não vou a lugar algum com você, particularmente não agora que tenho apenas cinco dias com Beau. Mesmo que, reconhecidamente, ela tivesse conversado com o pai ao telefone e tivesse pedido por mais tempo, ir ao baile com Jack era algo fora de cogitação. — Cinco dias, sim — Jack concordou. — Mas isso não significa que você não pode 43


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voltar. As palavras a atingiram, acariciaram, e ela só conseguiu piscar. Há apenas alguns dias ele mal queria conhecê-la, e agora... Ela deu um meio sorriso. — Você quer que eu volte? Eu gostaria de voltar e ver Beau — ela completou para deixar claro. — Isso pode ser providenciado. Sob uma condição. Ela estreitou os olhos. — Vai ser um oferta irrecusável? — Espero que sim. — Ele se virou para ela e sustentou seu olhar. — Venha comigo, Maddy. Uma noite. Apenas uma. Não me faça implorar. Eles se conheciam há tão pouco tempo. Mas ela estava convencida da força, confiança e, acima de tudo, do orgulho dele. A idéia de vê-lo implorar... Ele a fazia se sentir vulnerável. Desejável. Sensual. Como uma mulher deveria se sentir com um homem. Ele quase a fazia sentir intensamente demais. — Do que você tem medo? Certa vez pensei que tinha todo tempo do mundo — ele murmurou no escuro. — Mas nós dois sabemos que a vida nem sempre é assim. Se tivéssemos mais tempo, eu provavelmente não teria sugerido isto. — Ele deu um sorriso de canto de boca. O coração dela se apertou tanto que doeu. Maddy estava fisicamente atraída por um homem grosseiramente belo que não estava escondendo o fato de estar seriamente atraído por ela. Jack dissera a ela, usando os termos mais francos, que queria que passassem a noite juntos. Ele estava dizendo que queria fazer amor. O que ela queria? Ele parecia ler sua mente. A mão grande enlaçou sua cintura e a trouxe para mais perto. — Isso pode te ajudar a decidir. Os lábios dele encontraram os dela, uma carícia suave, devastadoramente gentil. Ela disse a si para manter suas capacidades mentais... para tentar encontrar seu prumo. Inútil. As defesas dela caíram e qualquer dúvida remanescente voou feito pétalas de dente-de-leão ao vento. A boca dele abandou a dela relutantemente, mas o abra-o em sua cintura permaneceu firme. Quando os olhos de Maddy abriram, ela não teve forças para ao menos fingir estar incomodada. Ela entendeu os argumentos. Ela mal o conhecia. Ela não era do tipo que não pensa nas conseqüências. Deus, o que Dahlia teria pensado. E, no entanto, de repente nada daquilo importava. Durante tanto tempo ela desejara se sentir aceita, sem pressão, sem medo de desaprovação. Certo ou errado, por uma noite ela queria pertencer a Jack Prescott. Inspirando num fôlego muito necessário, ela pôs os pensamentos em ordem. — Eu vou com você — ela disse — mas tenho uma condição. Que você não faça isso outra vez enquanto estivermos sob este teto. — O beijo foi tão ruim assim? Ela franziu a testa. Aquilo não era uma brincadeira. 44


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— Não vou negar que quero que você me beije de novo, porque eu quero. — Neste instante, mais do que ela jamais poderia ter sonhado. — Mas se começarmos a roubar beijos todos os dias em todo canto escuro, o que vai ser de Beau? Nos dias que me restam aqui, ele merece minha atenção. Toda ela. — Maddy pensou na confiança que Dahlia tinha nela, naquela promessa sagrada, e a garganta dela inchou e fechou. — O mínimo que podemos fazer é dar isso tudo a ele. O olhar de Jack ficou íntimo antes de decair sobre o bebê. Um instante depois, a mão dele deixou a cintura dela. Um músculo latejou no queixo dele quando ele assentiu. — De acordo. — Mas eu só vou com você no sábado — ela continuou — se formos embora depois que ele for dormir e se voltarmos cedo. Pode aceitar isso? Jack analisou Beau por um longo instante antes de o olhar dele encontrar o dela mais uma vez. A expressão dele mudou. Ele ergueu o queixo dela com o nó de um dos dedos, e durante um pulsar sufocado no peito Maddy pensou que ele pudesse beijá-la novamente. Mas ele apenas deu um sorriso carinhoso e murmurou: — Posso.

CAPÍTULO SETE

No dia seguinte, de volta de sua cavalgada matinal, Jack seguiu em direção à casa, se lembrando das palavras de Maddy na noite anterior. Elas haviam se agitado na cabeça dele a manhã toda. O fizeram sorrir e pensar. Não vou negar que quero que você me beije de novo, porque eu quero. Maddy havia concordado em ir ao baile de gala. Como conseqüência, ambos sabiam que ela concordara com mais do que aquilo. Saber que ele logo levaria para a cama a mulher por quem estivera fisicamente atraído desde o início o deixou com uma sensação aguda de expectativa que liberava um calor novo e vital em suas veias. Mas a conexão entre eles era mais do que física. Tinha de ser. Ele ficara íntimo com mulheres nos últimos três anos. Tais atitudes deixavam seu corpo saciado, mas não sua mente. Não seu coração. Algo em Maddy o afetava... de forma diferente. Dando passos largos, ele se reprimiu. É claro que ele não se enganava achando que fazer amor com Maddy poderia ser comparado ao que ele e Sue haviam compartilhado. Não se compararia, e era assim, que deveria ser. Nem podia fingir que não seria complicado manter sua promessa de não tocar Maddy outra vez até a noite de sábado. Ela não queria distrações durante o tempo que restava com Beau. Louvável. Mas quando eles chegassem a Clancy para o baile de gala, ele teria de compensar o tempo perdido. Parando na cozinha, Jack esperava ver Cait à pia ou ao fogão, mas o cômodo, reluzindo sob a luz da manhã, estava vazio. Ao fim do corredor, a porta do quarto de 45


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Maddy estava fechada. De passagem, ele reduziu o passo. Queria se convidar a entrar. Quebrar sua promessa e acabar com aquilo. Cocando o queixo, ele resmungou e seguiu em frente. A situação estava ficando ridícula. Ele não deveria estar tão preocupado com especulações sobre como Maddy iria se sentir sob o corpo dele, as coxas em volta do quadril dele, seus lábios cálidos no pescoço dele, no seu peito. A família, agora que ele tinha uma outra vez, era o que importava. Ele se aproximou do quarto do bebê, confirmando em mente mais uma vez que não falharia com o garoto. Não como falhara com Dahlia quando não a trouxera de volta há anos. Mas, diabos, será que resgatar sua irmã seria possível um dia? Ele até podia ter sido o mais velho. Ele podia estar certo. Ficar em Leadeebrook era bem mais seguro para uma garota, para Dahlia, do que tentar sobreviver lá fora. O estupro, sua morte provaram aquilo. Mas quando Dahlia havia deixado Leadeebrook, tinha mais de 18 anos. A lei dizia que ela tinha idade suficiente para tomar as próprias decisões, mesmo que resultassem em tragédia. Ele parou do lado de fora da porta parcialmente fechada do quarto do bebê e avaliou. A vida era conhecida por sua ironia, e aquela tragédia também havia rendido um bebê, o único vínculo sobrevivente, além dele, da linha Prescott. Beau era mais do que o legado de Dahlia, ele era o futuro dos Prescott. Beau iria crescer, encontrar uma boa mulher, sossegar em Leadeebrook, ter uma família. Jack empurrou a porta, sorrindo. Ele sentiu um enorme grau de conforto por saber disso. Sacudindo as perninhas, Beau estava acordado no berço. Após trocar sua fralda, Jack decidiu que era hora de levar o garoto para um passeio. Ele pegou Beau e seguiu para o que era conhecido em Leadeebrook como hall da fama. — Este é seu tataravô — Jack disse, parando antes do primeiro portarretrato, que parecia particularmente régio em sua moldura folheada a ouro. — Ele era um homem inteligente e determinado. Ele e sua tataravô Prescott foram responsáveis por transformar esta fazenda na residência grandiosa que é hoje. Sentado silenciosamente, agarrado ao braço do tio, Beau olhava para o cavalheiro austero no retrato antes de Jack andar mais pelo corredor. — E este — ele disse, se colocando em frente ao retrato seguinte — é seu tataravô. Ele me ensinou a tosquiar. — Jack observou o bebê e então sorriu e lhe fez cócegas no queixo. — Vou ter de ensinar a você. No lado oposto da parede estavam os retratos das mulheres da família Prescott. Ele parou em frente à foto de sua falecida esposa e apertou a mão que estava livre para desviar a dor da perda que nasceu em seu peito. O melhor artista da costa leste havia sido encarregado da peça, e o sujeito havia capturado o brilho adorável dos olhos castanhos claros de Sue perfeitamente. Ao mesmo tempo em que a garganta de Jack apertou, Beau se contorceu e ele ignorou os outros retratos ilustres até chegar à parte da casa que normalmente visitava, mas sempre sozinho. Após girar a maçaneta, ele adentrou a biblioteca: o que viera a ser a biblioteca de Sue quando ela estava viva. Jack observou o bebê analisando o cômodo. Beau era uma criança esperta. Mesmo na sua idade, Jack podia ver isso nos olhos dele. — Você vai ser um leitor ou mais prático como seu tio? — ele perguntou ao sobrinho, indo até a prateleira mais próxima. — Talvez ambos. Sua mãe era boa em tudo. 46


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— Ele sorriu, se lembrou de quando eles eram crianças. — Não que eu tivesse contado isso a ela um dia. Ele andou até a metade do cômodo rumo à seção de livros infantis e fitou as lombadas de livros que Sue poderia ter lido para Beau quando ele fosse um pouco mais velho, assim como para o próprio filho deles, tendo este sobrevivido. Estremecendo, Jack inspirou profundamente para dispersar o emaranhado de dor em seu âmago. Em todos os minutos de todos os dias ele sentia falta dela, sentia falta do que eles tiveram. E então Maddy apareceu na vida dele. Quando ela estava por perto, ele não se sentia tão vazio e não estava certo de como processar isto. Ele deveria se sentir aliviado ou culpado? A mesa polida em estilo rústico francês no canto chamou a atenção dele. Ele carregou Beau pelo cômodo e abriu a gaveta do lado direito. O livro estava lá... O livro de memórias de Sue. Jack o colocou sobre o mata-borrão de couro e folheou as páginas, apontando os parentes de Sue para Beau, que estava com a mão na boca. Ela havia passado horas embelezando as páginas. Na última página, um coração azul e amarelo envolvia uma imagem em preto e branco... Um ultrassom do futuro filho deles. Com os olhos marejando, Jack colocou a mão perto da imagem de 18 semanas de seu filho. Um bolo amargo de emoção subiu pela garganta dele. Baixando o olhar, Jack engoliu com força e procurou na gaveta outra vez. Ele pegou um chocalho laminado em platina, não uma herança de família, mas um presente que Sue havia comprado para o bebê deles uma semana antes de morrer. Na inscrição lia-se Amor para sempre, Mamãe e Papai. Largando o chocalho, Jack afundou na poltrona e, sentindo-se vazio outra vez, procurou por sua alma. Ele primeiro examinou o ultrassom no livro de Sue, depois Beau. Então olhou para cada um deles outra vez. A dor no peito se intensificou a um ponto que quase o fez perder o fôlego. Mas então, notavelmente, a dor abrandou para uma sensação tépida além de algo vazio, frio e azedo. Ele não queria se sentir desse jeito mais. Conforme a tensão em seus ombros diminuía, Jack ninava Beau em seus braços. Dando um beijo na testa do bebê, lhe entregou o chocalho.

Mais tarde naquele dia, Jack estava de volta aos estábulos, se preparando para escovar Herc. Mas ele estava mais interessado no que estava acontecendo do lado de fora. Beau estava no quintal num jardim gramado perto da casa. Ele estava enfeitiçado pelo movimento do balanço que o tio havia pendurando num galho de uma árvore naquela manhã. Maddy empurrava o balanço, cuidadosamente, não muito alto. O rosto dela era um retrato da alegria. De contentamento. Sorrindo, Jack enfiou a tira da escova de Herc na mão distraidamente. Diabos, não importava com qual humor estivesse, Maddy era atraente. Simetria perfeita, movimentos graciosos. Mas por mais que aquilo o alfinetasse, ele lembrou a si 47


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outra vez que ela estava certa na última noite e que ele, por sua vez, deveria manter sua palavra. Ele não iria pressioná-la. Antes de tudo, ela havia vindo para Leadeebrook para manter uma promessa, não para começar um caso. Jack se voltou para Herc e, franzindo a testa, passou as cerdas pelo seu brilhante pescoço negro. Caso não era a palavra certa. Um caso implicava em algum tipo de relacionamento contínuo e nenhum deles era imaturo o suficiente para pensar que aquela era uma possibilidade. Eles viviam a milhares de quilômetros de distância. Ele não gostava da cidade. Ela não era uma fã do campo. Ela poderia aceitar a oferta dele e voltar para visitar uma vez ou duas. Mas ela era uma jovem com uma vida, e quem Maddy era e o que ela aspirava não estavam ali. Isso era bom, na verdade. Jack havia considerado ter um relacionamento mais sério com Tara e concluíra que seria um erro. Ele não tinha escolha exceto aceitar a responsabilidade por Beau. Após o choque inicial, estava em paz com o acordo. Ele iria fazer tudo em seu poder para protegê-lo, mantê-lo por perto. Maddy, por outro lado... Jack parou de escovar. Bem, Maddy era outro problema. Nell passou com velocidade pela perna dele, trotando porta afora com um graveto em formato de bumerangue na boca. Curioso, Jack foi até a janela a tempo de ver o Nell colocar o graveto aos pés de Maddy. Teria de fazer frio no inferno antes de Maddy ficar amiga de um cão. Considerando seu passado, ele não podia culpá-la. Ele, no entanto, não conseguia imaginar não ter um cachorro a seus pés. Há não muito tempo, ele possuía cinco. Franzindo o nariz, Maddy fez sinal para Nell se afastar e Jack a ouviu dizer: "Xô. Vai embora." Mas Nell continuou sentada ali, colocando o graveto cada vez mais perto dos tênis de Maddy com o focinho. Nell queria brincar. Ela podia pegar um graveto por horas se alguém fosse ingênuo o suficiente para ficar atirando-o. Nell pensava que Maddy era uma boa candidata. Jack sorriu. Ele estava prestes a resgatar Maddy quando ela fez a coisa mais notável. Ela parou e, como se estivesse segurando uma banana de dinamite, pegou o graveto indubitavelmente babado entre um único dedo e o polegar. Com um movimento que lembrava a ele um pequeno ato do Lago dos Cisnes, ela chutou ao mesmo tempo em que deu um pontapé no graveto para longe. Com um dar de ombros visível, Maddy limpou as mãos nos shorts, mas antes que pudesse dar outro empurrão em Beau, Nell estava de volta, o graveto entre as mandíbulas, os olhos encarando sua nova companheira de recreação. Quando Maddy se encolheu em alerta, Jack riu e deixou a escova de lado. Pobre Maddy, não sabia o que havia começado. Quando Nell levantou as orelhas e disparou rumo ao oeste, Jack pegou seu chapéu. O único motivo que a faria abandonar seu esporte favorito. Visitas. No momento em que Jack já havia lavado suas mãos e ido em direção ao verdadeiro fulgor do dia, ouviu o ronco do motor familiar inconfundível. A caminhonete de Snow. Snow sabia sobre Beau. Outra noite, Jack havia mencionado Maddy. Talvez Snow tivesse se cansado de esperar para ser apresentado. Maddy havia tirado Beau do assento esculpido do balanço no momento em que Jack se juntou a ela, e Snow estava saindo do carro. 48


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Snow não fechou a porta do carro, em vez disso deu um tapa na coxa do jeans desbotado. Uma ovelha saiu do carro, pousando sobre os ramos de grama com dificuldade. Nell cheirou a ovelha, mas percebendo a relação entre elas, aquela não era uma ovelha para ser arrebanhada, voltou para brincar com o graveto. Mas agora Maddy parecia esquecida do olhar insistente de Nell. O próprio olhar dela estava arregalado, ela colocou uma das mãos sobre a boca para segurar uma risada encantada. A ovelha estava saltitando atrás de Snow como se seu zelador fosse sua mãe. Snow ofereceu a mão a Jack e então anunciou em sua voz rouca por causa do tabaco: — Vendo que você tem uma hóspede em sua fazenda de ovelhas, Jum, calculei que ela pudesse querer conhecer uma ovelha. Snow tocou o chapéu cordialmente. — Snow Gibson a seu dispor. — Ele deu um olhada para sua acompanhante revestida de lã. — Esta mocinha grudenta se chama Lolly. Maddy se apresentou a Snow então, segurando Beau na altura do quadril, acocorado. — Olá, Lolly. — Ela passou os dedos nas orelhas macias de Lolly e suspirou. — Você é a coisinha mais linda do mundo. — Vi que você também tem o seu. Maddy o ergueu e falou para Beau: — Diga olá para o sr. Gibson, Beau. Ele lançou um olhar amigável para Jack. — Ele se parece com Dahlia. Com o peito apertado, Jack retribuiu o sorriso. — O mesmo sorriso. — Acha que ele gostaria de ver esta outra aqui, mamar? — Snow tirou uma mamadeira do bolso interno do casaco. Quando ele entregou a mamadeira a Maddy, os olhos brilhando, ela arfou. — Eu? — Ela vai ficar com sede. Você tem de segurar bem firme. Jack pegou Beau e ele e Maddy se agacharam. Lolly quase a derrubou quando farejou a mamadeira. Conforme a ovelha agarrava, Maddy segurava a mamadeira com ambas as mãos enquanto Jack refletia sobre uma emoção tépida perturbadora que ele não conseguia nomear. Ele crescera com ovelhas e animais órfãos. Os pais de Sue haviam sido fazendeiros; criações tinham sido parte da vida diária de ambos. Ele não havia visto esse tipo de reação atemorizada a respeito de um animal há... Ele não conseguia se lembrar há quanto tempo. Esta emoção, ele percebeu, era satisfação. Com o leite desaparecendo em uma proporção veloz, Maddy disse: — Eu não achei que tivesse alguma ovelha sobrando aqui. — Tenho algumas — Snow explicou — apenas para conservar a prática. — Você é um tosquiador? — ela perguntou. — Dentre outras coisas, sim senhora. — Você vai ter de me dar uma demonstração. — Isso seria um prazer. Está gostando de Leadeebrook? Jack levantou as orelhas. 49


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Ele gostaria de ouvir a resposta dela também. Porém, com um enorme sorriso, Maddy escapou da pergunta com um comentário descartável: — Jack acha que vai me fazer subir num cavalo. A ovelha havia terminado de mamar e então Jack apontou um polegar para a casa. — Pode ser hora de tirar Beau desse calor. — Bebês têm pele sensível — Snow refletiu, pegando a mamadeira vazia de Maddy. — Mas não vai haver muitos verões, além disso, este vai servir para botar para funcionar aquele balanço de pneu pendurado sobre o riacho Rapids Creek. Maddy lançou um olhar para Jack. — Há um riacho aqui perto? Snow confirmou: — Cheio de água também. Snow não estava sendo irônico. Houve épocas, e recentemente, que o leito do rio ficou totalmente seco. Enquanto eles iam em direção às escadas e à sombra da varanda, Maddy pegou o bebê e deu uma olhada de soslaio para Jack. — Não vou me dar ao trabalho de perguntar se o riacho está cercado. Jack não tinha certeza de como responder. E claro que o riacho não era cercado. — Por lei, piscinas têm de ser — ela disse a ele. — No que diz respeito a crianças, não vejo por que riachos deveriam ser diferentes. Creio que ele não contaria a ela sobre as represas então. Ele assegurou a ela: — Meu pai me ensinou a nadar antes que eu pudesse cavalgar. — Há algumas escolas e treinadores de natação excelentes em Sidney — ela contrapôs em um tom encorajador. Ele ajeitou o chapéu e assimilou o passo. — Beau não precisa ser um competidor olímpico, Maddy. Posso ensinar tudo de que ele precisa saber aqui. — Tudo? — Ela analisou a planície interminável com um ar sem brilho. — Aqui? Jack subiu os degraus, a meio metro de distância. Queria dizer a sua hóspede para deixar que ele se preocupasse com Beau. Ela era a intermediária. Ele decidiria o que precisava ser feito e ele faria do seu jeito. Sem erros desta vez.

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CAPÍTULO OITO

Maddy não sabia o que esperar. Pilhas de feno em todos os cantos? Concursos de debulhar milho? Uma banda campestre usando camisa xadrez, dedilhando banjos? Em vez disso, naquela noite de sábado, quando ela e Jack adentraram o baile de gala de Clancy, ela ficou mais do que agradavelmente surpresa. Clancy era uma comunidade campestre no extremo oeste de Queensland. Ostentava as características usuais das cidades do interior. Nada importante para noticiar. Mas a casa no qual eles estavam agora reluzia como um oásis no deserto. Ela parecia ter voltado a Sidney. Entre as melodias suaves da deliciosa música antes do jantar, a equipe uniformizada se movimentava facilmente pelo ambiente de decoração clássica em madeira de lei cercado por belos móveis banhados em ouro e cascatas de arranjos de fragrância floral. O melhor de tudo, os convidados aliviavam qualquer preocupação que ela pudesse ter sobre estar arrumada demais. Assim que Jack enlaçou o braço dela a fim de guiá-la pela multidão misturada vestindo black-tie, Maddy apreciou a onda emocionante de orgulho que a invadiu. Nunca se sentira mais invejada, mais única ou... mais especial em toda sua vida. E este evento era apenas o começo da noite deles. No aeroporto regional Jack havia organizado para que as malas fossem transportadas para um apartamento que ele providenciara para a noite: uma noite pela qual ambos esperavam com satisfação, e também com receio. Desde a noite de terça-feira, quando eles haviam feito o pacto de manter uma distância respeitável, a pressão para sucumbir crescera até a expectativa que cercava esta noite alcançar escalas de erupção. Durante uma pausa em meio à multidão falante, um garçom surgiu carregando uma bandeja de prata. Jack pegou duas taças e ofereceu uma. Maddy deu um gole nas bolhas de champanhe e suspirou diante do sabor fresco paradisíaco. Ele sorriu. — Você gosta de champanhe. — Uma fraqueza, temo eu. — Vejamos... Então é pudim de chocolate, manhãs de chuva e champanhe francesa. Ela riu. — Eu gosto de livros também, não se esqueça. O olhar dele deslizou sobre a boca de Maddy. — Eu não me esqueci de nada. — Jack, que bom te ver. Maddy foi retirada de seu transe quando um homem com cabelos grisalhos veio com a mão em direção a Jack. Jack se agitou amigavelmente. 51


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— Charlie Pelzer, Como está, camarada? — Ele colocou a palma quente sobre as costas de Maddy. — Você não conheceu minha acompanhante. O sorriso de Maddy hesitou. Ela não tinha certeza se gostava que se referissem a ela como acompanhante de Jack. Ou talvez gostasse um pouquinho demais. — Madison Tyler — ela disse cordialmente. — Maddy está nos visitando, de Sidney — Jack falou. — Ela é do ramo da propaganda. Charlie franziu as sobrancelhas espessas. — Seu pai não é o Drew Tyler? Ele é um grande patrocinador de um dos meus benfeitores. — Ele citou o nome de uma instituição de caridade. Charlie se inclinou de maneira conspiratória. — Talvez você possa convencê-lo a apoiar esta causa. Saber que eles estavam ali para apoiar uma grande causa filantrópica aliviava um pouco da culpa que ela sentia por abandonar Beau durante algumas horas. Após uma sobremesa de torta de merengue com maracujá, as luzes ficaram mais fracas e a música cadenciou para um familiar tom onírico. Jack empurrou a cadeira e ofereceu a mão: — Você gosta de dançar, presumo. Arqueando uma sobrancelha, ela aceitou a mão dele. Assim que ele começou a guiá-la, Maddy aspirou o delicioso perfume amadeirado dele e, tentando não suspirar, o seguiu alegremente. Ela estava tão relaxada após o champanhe e a conversa à mesa que instintivamente descansou o rosto no ombro do casaco dele. Perigo. Eles estavam em um salão repleto de pessoas que estavam claramente interessadas no relacionamento entre o viúvo Jack Prescott e esta nova mulher. Não custaria muito para eles terem motivo para falar, particularmente considerando que pelo menos uma pessoa conhecia o pai dela. Ela não queria que chegasse ao pai que ela estava romanticamente envolvida, ou Drew Tyler poderia presumir que aquele romance fosse o motivo por ela estar pedindo aqueles dias de folga. No entanto... O peito de Jack parecia tão seguro e a mão dele em torno dela parecia tão certa. Se Maddy não quisesse complicar as coisas, incluindo para si, poderia ser hora de mudar de tom. Um assunto que havia surgido entre eles nos últimos dias veio à mente. Agora parecia o momento certo de deixar o ar mais leve, assim como de deixar claro seu ponto de vista. — Espero que você não tenha achado que exagerei no dia em que ouvi sobre o riacho. O passo dele vacilou quase imperceptivelmente antes de ele continuar a guiá-la lentamente num pequeno círculo entre outros casais no salão. — Asseguro a você — ele disse. — Não há nada com que se preocupar. Maddy mordiscou o lábio. A esposa e o filho dele haviam morrido. Ela não sabia em quais condições porque Cait ficou relutante em discutir além. A última coisa que ela queria era soar imprudente, mas o essencial era que o bem-estar de Beau precisava ser a preocupação principal dela. — Eu só estava tentando apontar que um afogamento pode acontecer em um 52


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riacho tão facilmente quanto em uma piscina do subúrbio. Obviamente nada poderia ser feito para cercar um riacho — ela racionalizou. — Contanto que haja alguém de olho nele o tempo todo, tenho certeza de que você está certo. Não haverá nada com que se preocupar. — Ela não conseguiu evitar, mas acrescentar: — é só que crianças são conhecidas pela capacidade de se perder. Ela precisava continuar dizendo a si que Beau seria feliz em seu novo lar depois que ela fosse embora e retornasse à própria vida. Isso era o que Dahlia queria para ele... Mesmo que não tivesse desejado o mesmo para si. — Você está linda neste vestido — Jack murmurou ao ouvido dela, claramente esperando para mudar de assunto também. — Todo mundo no salão também acha. Normalmente ela era graciosa ao aceitar elogios, mas tudo que vinha de Jack a afetava mais profundamente. Quando o rosto dela corou, Maddy ofereceu um agradecimento silencioso. Ela se sentia como uma garota de 16 anos em seu primeiro baile com o garoto que todas queriam namorar. Tentando deixar o clima mais leve, ela deu de ombros. — A cor chama bastante atenção. — Foi o que pensei sobre seus olhos quando nos conhecemos. Ele era tão sexy, tão lindo. Fatalmente hipnótico. A cada minuto, Sidney parecia cada vez mais longe. — E eu planejo manter você o mais perto possível a noite toda. Os seios dela,enrijeceram e intumesceram, e ela quase não conseguiu manter o fôlego. Ele a estava seduzindo abertamente, ali, dentre centenas de pessoas. E quanto mais sorvia aquilo, mas insensata ela ficava. Tonta por causa da dança, por causa da música e do charme dele, ela desviou o olhar. — Eu... Eu não sei... Jack parou de mover os pés. Com um aperto firme na mão dela, ele seguiu em direção a um conjunto de portas de vidro e não parou até eles chegarem a um balcão vazio do outro lado cercado por uma abóbada de veludo negro que ostentava todas as estrelas no céu. Ele a encarou e as palmas grandes envolveram seus ombros, encolhendo-os levemente enquanto ele a mantinha parada, com um olhar penetrante. — A última coisa que quero — ele disse no tom mais sério — é que você prossiga com algo com o qual não está totalmente confortável. Então, se você está desconfortável... — propositadamente, ele inclinou a cabeça lentamente e roçou seus lábios nos dela — ...mesmo que um pouco... — os lábios roçaram outra vez e ele segurou mais os ombros dela — ...eu posso parar. Ela tomara a decisão de vir esta noite. Não conseguiria recuar, embora não soubesse se tinha a força, a coragem de seguir em frente. Ela se sentia pequena, pouco notável, do mesmo jeito que se sentira no dia em que andou naquele galpão de tosquia. Jack era mil vezes mais homem do que qualquer um que ela conhecera. E apesar da atitude confiante, ela era apenas a Maddy. E Maddy era menos do que perfeita. Mas quando ele a puxou para mais perto e a boca inclinou possessivamente sobre a sua, os trilhões de estrelas no céu se juntaram às estrelas na cabeça dela. Sensações, 53


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gloriosas e absolutas, espiralaram por dentro, em torno dela, e Maddy derreteu e então se rendeu. A aceitação e comprometimento dela eram completos. Não haveria volta. Agora a única pergunta parecia ser... Será que um dia ela iria querer parar? Ele e Maddy chegaram à suíte vinte minutos depois. Durante o trajeto de táxi, ele segurava a mão dela no banco de trás enquanto ela conversava sobre o quanto havia gostado da noite. Apesar de ter sucumbido a ele no balcão, assegurando a ele com a honestidade de sua carícia como se sentia, ela estava nervosa, e ele se perguntava... Ela era uma garota da cidade, vinte e poucos anos e conhecedora do mundo. Ele presumira que ela era experiente no que dizia respeito a homens. Será que era possível que ela fosse virgem? Dentro da suíte, Maddy andou até o centro da sala suntuosa e girou para encarálo. — Você normalmente fica aqui no fim de semana do baile de gala? — Sempre. Embora não naquele quarto. Fazia três anos que ele não ia a Clancy. Não havia ido muito a lugar algum na verdade. Quando ele não ficava em Leadeebrook, ficava irritado. Fora do prumo. O lar era o único lugar que parecia oferecer a ele algum alívio para o estrondo profundo de pesar que o perseguia. Não foi bom para ele deixar a mente vagar naquela direção. Ele amara sua esposa, tinha certeza de que ela sabia disso de onde estava agora. Durante um tempo longo e duro ele pensou bastante sobre seus sentimentos por Madison Tyler. Mas estava feliz com sua decisão. Ele a queria ali com ele esta noite. Só lamentava porque o tempo deles a sós seria tão breve. Era inútil pensar na próxima visita dela, no entanto, se houvesse uma. Mulheres do calibre de Maddy não ficavam livres durante muito tempo. Cada minuto que eles passavam jogando conversa fora significava mais um precioso minuto desperdiçado. Concentrado, ele andou em direção a ela, tirando a gravata borboleta. Quando Maddy arregalou os olhos e o corpete inflou durante um suspiro silencioso, Jack hesitou. Do que diabos ela estava com medo? — Se estiver preocupada com o que quer que seja, acredite Maddy, não precisa ficar. Aquela promessa dele vinha das profundezas de sua alma. Ele não a machucaria por nada no mundo. Nunca quis machucar a ninguém, conscientemente ou não. Ela passou os dentes pelo lábio inferior e Jack franziu a testa. Após vir até aqui ele se perguntava se ela poderia dizer agora que estava enganada. Que não queria ficar com ele tanto quanto ele queria ficar com ela. Quando ela sugou o ar e finalmente assentiu, aliviado, Jack sorriu e assentiu também. Ao mesmo tempo, o olhar dele decaiu sobre os lábios dela. Lábios dos quais ele se lembraria para sempre. Ele sentiu um solavanco prazeroso e familiar por dentro. Isto estava certo. Ela era a mulher certa. Mais do que pronto, ele baixou a cabeça e reivindicou por ela. 54


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Beijando-a, as mãos dele passaram pelas curvas da cintura de Maddy, Quando ele chegou ao corpete do vestido, os dedos envolveram as laterais do corpo, enquanto cada polegar acariciava os seios sob o tecido. Conforme a intensidade do beijo crescia, os polegares circundavam mais acima. Enquanto ela choramingava e se inclinava, ele contraía todos os músculos para impedir que a satisfação de sua ânsia primitiva invadisse aqueles seios rosados. Em vez disso, a boca dele abandonou a dela relutantemente. Diante deles havia um conjunto de portas interiores, a cama principal podia ser vista totalmente. As cobertas estavam dobradas aos pés conforme ele instruíra. Ele encontraria preservativos na gaveta ao lado da cama. Com todos os nervos contraídos, Jack a levou até o quarto. Ele a colocou de pé, abriu os botões da camisa e então buscou o zíper nas costas dela. O olhar quente dele fundia ao dela. Ele baixou o zíper. Ele sentiu o leve tremor dela quando passou uma das mangas leves como fios de teia por um ombro esbelto, e então a outra. O vestido caiu pelas curvas dela e pousou como uma poça airosa a seus pés. Faminto, porém paciente, ele sorveu a visão etérea do rosto de porcelana... Os seios abundantes, a calcinha vermelha pequena, as longas pernas leitosas terminando em saltos finos sensuais. Ele inalou profundamente e então seu olhar foi até os cabelos dela. — Solte-os. Maddy hesitou por um segundo antes de tocá-lo com as duas mãos para tirar os grampos. O cabelo caiu em cascata, mas ela não sacudiu as mechas torcidas. Em vez disso, preferiu olhar para ele como se estivesse esperando pelo seu próximo movimento... ou aprovação. Acabando com o espaço entre eles, ele passou os dedos no pescoço quente e esguio dela, colocando os cabelos para cima para ter acesso completo. Então baixou a boca até o pescoço e chicoteou a pulsação acelerada com a ponta da língua. Ela suspirou e derreteu a ponto de ele ter de segurar os braços dela para impedi-la de escorregar. Com a paciência se desintegrando, ele a apoiou cuidadosamente. Assim que ela baixou para se sentar na cama, ele observou suas formas inadvertidamente eróticas. Com o olhar sobre os cabelos caindo nos ombros, aprumou os ombros e começou a se despir. Primeiro o casaco, camisa e o restante. Então ajoelhou aos pés dela e tirou seus sapatos. Ouvindo a respiração pesada dela, inebriado pelo seu perfume, ele fechou os olhos e trilhou os lábios, beijos famintos, úmidos, duradouros na pele sedosa e macia dela, e mais acima... sobre as coxas, na linha do biquíni, na lateral do quadril... Ele sentiu um caroço. E mais outro, como um filete. Franzindo a testa, ele deu um pulo rumo ao interruptor. Deus do céu, será que algo a mordera? O brilho da lâmpada surgiu no mesmo instante em que ele perguntou: — Maddy, qual é o proble...? A pergunta ficou presa na garganta dele. As cicatrizes eram muitas, brancas e em relevo. Retas, retalhadas. Algumas eram pontos, lembranças de ferimentos causados por perfurações profundas. Assim que o coração dele bloqueou a garganta, ele encontrou o rosto aflito dela: as bochechas coradas, os olhos tristes. 55


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Enjoado, ele perguntou: — Isso é do ataque? Ela pegou o lençol para cobrir o que pôde. Os cabelos caíram sobre a expressão pálida enquanto ela balançava a cabeça, então balançava outra vez. — Eu sei. Elas são feias. Por favor... — Ela colocou um dedo sobre o interruptor cegamente. — Apague a luz. Mas ele segurou a mão dela e pressionou a palma contra seu rosto. Agora estava claro. Agora ele compreendia. Era por isso que ela parecia tão insegura. Ele roçou os lábios no pulso dela. — Maddy você acha que isso poderia fazer diferença em relação ao que sinto? Ela olhou para ele lentamente, pontos de interrogação no olhar penetrante. Ele lhe deu tempo para absorver a honestidade em seus olhos, então ela o deixou baixar o lençol. Ele beijou as marcas. Cada uma e todas elas. Depois de um tempo, quando as mãos dela relaxaram e a tensão abrandou, ele continuou a subir até sua boca encontrar a dela e capturá-la. Ele a guiou até ela deitar de costas e, enquanto Maddy passava as mãos pelos cabelos dele, ele aumentava a pressão, beijando-a tão desesperadamente quanto ela o estava beijando agora. O toque descendente a flagrou mais pronta do que ele poderia ter esperado. Ela estava inchada, tão úmida. Ele queria explorá-la, saboreá-la, com tudo que ela poderia almejar e que ele tanto precisava dar. Ele abaixou a calcinha enquanto a boca trilhava uma linha sedutora pelo pescoço até os seios. Jack recuou e procurou por preservativos antes de se juntar a ela outra vez. Buscando os olhos dela nas sombras, ele abriu com os dedos e então adentrou facilmente. Maddy contraiu em volta da ereção dele. Enquanto ela fazia pressão em volta dele, as mãos passavam sobre o peito, os dedos circundavam e davam voltas sobre os músculos. Algo tilintou. A aliança de casamento na corrente de ouro dele. Ele parou, visualizou a aliança e seu significado, mas quando Maddy começou a ofegar novamente, aquela imagem se foi e ele continuou a se movimentar... Um pouco mais profundamente, um pouco mais forte. Cada centímetro dele estava fumegante e o coração estava bombeando ao máximo no momento em que ele puxou as pernas dela para a parte de trás de suas coxas. Ela apertou com as panturrilhas para envolvê-lo com força. Entendendo o sinal, ele a penetrou completamente. Agarrando o lençol, Maddy gritou e o ápice de Jack esperado há tempos aconteceu. A libertação foi tão completa que pareceu rasgar cada fibra dele ao mesmo tempo em que um som primitivo saía de seu peito. Colocando um braço sob a cabeça, ele sorveu o suspiro dela com um beijo penetrante. Perdido na sensação, feliz ao extremo, Jack colocou o outro braço sob as costas dela e a puxou para mais perto ainda. Profundamente física, gloriosamente ardente. Aquela era uma paixão que ele nunca havia experimentado. E precisava experimentar outra vez.

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CAPITULO NOVE

Mais tarde, ainda flutuando por causa dos efeitos do amor que haviam feito, Maddy estava deitada com o lençol lhe cobrindo as pernas, desenhando círculos preguiçosos sobre o cabelo crespo que cobria o peito de Jack. Com o braço em volta dela e os dedos trilhando seu quadril para cima e para baixo, ela pensou no tempo fabuloso que haviam passado juntos na cama. A ansiedade dela havia sido injustificada. Ele descobrira as cicatrizes, mas não ficara revoltado. Na verdade, ela nunca se sentira mais adorada. A mão dela passeou mais para cima, na cavidade quente da garganta, e os dedos encontraram a corrente fria que ele usava e a aliança pendurada nela. Uma aliança de ouro. Maddy congelou, então abriu a palma e a deslizou para baixo a fim de pousar sobre as saliências do abdome dele. Ela havia visto a aliança antes, quando ele tirara a camisa no primeiro dia no quarto do bebê, mas com tantas outras coisas colidindo na cabeça, ela pensou pouco no assunto. Será que ele já tirou a aliança alguma vez? Se ele não o fez esta noite, quando tinha intenção de fazer amor com ela, ela achava que não. Será que ele usava em volta do pescoço para mantê-la próxima ao coração? Embora não mostrasse seus sentimentos com freqüência, Jack Prescott era um homem capaz de emoções profundas. De lealdades profundas. Alguns indivíduos entregavam seu coração a apenas uma pessoa durante a vida inteira. Jack obviamente havia encontrado sua alma gêmea. A encontrara e então a perdera três anos atrás. Maddy contraiu a testa e sentiu um nó no estômago. Onde ela se encaixava dentre as afeições dele? Mas ela afastou aquilo. Esta noite não era sobre eternidade. Ele nunca sugeriu que fosse. Depois de se conhecerem há uma semana, como poderia ser? Ainda assim, ela não conseguia se arrepender pelo acordo entre eles. Ele não estava usando aquela aliança para magoá-la. A simples verdade era que ela não teria perdido as últimas quatro horas por nada nesse mundo. Ele havia sido tão aprobativo quando descobrira as cicatrizes dela. O último homem de quem ela se tornara íntimo tinha recuado de pavor. Maddy havia saído com o sujeito por cinco meses. Ela pensava que o conhecia. Tinha desejado confiar nele. Será que era possível conhecer alguém verdadeiramente? Ajeitando o lençol mais para cima, ela murmurou contra o peito de Jack. Precisava perguntar. — Aquelas cicatrizes são bem assustadoras, ahn? — As cicatrizes não são assustadoras. O que você passou, no entanto, deve ter sido. Ela sentiu uma pontada fria por dentro e fechou os olhos. Não gostava de pensar naquele dia. Toda vez que aquelas lembranças vinham à tona, Maddy as afastava para o mais longe que conseguia. Mas agora ela erguia a tampa um pouco e ousava deixá-las sair. As imagens eram vagas. 57


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O que ela estava vestindo? Ela estava indo ao mercado de bicicleta para comprar o quê? Leite, talvez. Pão. — Eu caí da bicicleta — ela disse, e só então percebeu que tinha falado alto. — O cachorro já estava em cima de mim antes que eu pudesse encontrar o guidão. A dor de verdade não bateu até mais tarde. Não tive danos internos. Ele a aninhou para mais perto e falou outra vez de encontro aos cabelos dela: — Algo pelo qual se agradecer, suponho. — Os médicos e enfermeiras foram ótimos. Fiquei muito tempo no hospital. Quando me visitava, o rosto do meu pai era marcado por culpa. Ele havia me dado a bicicleta. Disse que com bastante prática eu iria me sair melhor. Eu era um pouco desajeitada. — Você não saberia agora. Você se move como uma miragem. Ela riu suavemente. — Eu não. — Acredite, você não é aquela criança desajeitada mais. Você é uma mulher muito desejável. Ela riu outra vez. — Muito desejável. — Muito, muito desejável. Isso é algo que vem de dentro. O beijo dele foi delicado e ao mesmo tempo tinha mais significado e paixão do que qualquer outro. Naquele instante Jack não era o irmão de Dahlia ou o tio de Beau, ou mesmo um pastor de ovelhas excessivamente sexy. Ele era o homem que a havia transformado na mulher mais linda do mundo. E a sensação era fabulosa. E era quase triste também. Quando a garganta dela fechou e a emoção fez os olhos marejarem, Maddy interrompeu o beijo e saiu de debaixo dele. Quando os pés dela afundaram no carpete macio, ela levou o lençol consigo. — Imagino o que Beau está fazendo agora. — Dormindo. Aonde você vai? — Tomar um pouco de ar fresco. Ela foi até a varanda, onde as luzes superficiais da cidade brilhavam e as aves melancólicas cantavam ao longe. Ainda estava pensando em Beau quando algo suave e quente envolveu seus ombros. Então mãos grandes envolveram a manta em volta dela e apertaram. A voz grave de Jack estava ao ouvido dela: — Pode ser bem frio aqui fora durante a noite. — Espero que Beau esteja aquecido. Talvez eu devesse ter colocado pijamas de lã nele. Rindo, ele apoiou o queixo sobre os cabelos dela. — Você é um tanto mãe-coruja, não é? — Ele me lembra de uma boneca que eu tinha do tamanho real de um bebê.

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— Bonecas, hein? Dahlia gostava de pular corda. Em um verão ela pulou tanto que eu achei que o cérebro dela fosse sacudir e sair da cabeça. — E ela gostava de cavalos? — Claro. — Houve uma pausa significativa. — Você deveria tentar. Sorrindo, ela envolveu mais a manta em torno de si. — O dia em que eu montar num cavalo, Jack Prescott, será o dia em que eu trocar meu nome e dançar a polca. Ela sentiu o sorriso dele pelo roçar em sua testa. — Minha mãe também não gostava muito de cavalos, embora cavalgasse desde os cinco anos de idade. O sonho dela era tirar longas férias em uma ilha. Era apaixonada por aquele filme Amor sem fim. Papai agendou o voo sem ela saber. Eles haviam viajado há uma semana quando ela saiu para nadar e entrou em apuros. Ele foi ajudar. Maddy colocou a mão no estômago enjoado e girou para encará-lo. Então foi assim que ele tinha perdido os pais. — Jack... Sinto muito. Sentia mais ainda por ter sido tão agressiva sobre aquele riacho. Depois de perder os pais num afogamento, ela estava certa de que ele preferiria morrer a arriscar colocar Beau em perigo similar. Ou qualquer perigo, diga-se. — Dahlia não encarou bem. — Foi por isso que ela foi embora para Sidney? — Ela disse que não queria ficar presa em Leadeebrook como mamãe tinha ficado a vida toda. Ela não iria cair na cilada. — Ele deu um sorriso desprovido de humor. — Minha irmã não entedia que, se mamãe e papai tivessem ficado na fazenda, eles ainda estariam vivos, — Maddy inclinou a cabeça. Ela tinha ouvido direito? — Jack, você não pode enxergar a situação sob este prisma. Seus pais estavam de férias, merecidas. Tenho certeza. Foi um acidente. — Um acidente que poderia ter sido evitado. Ele enrijeceu os lábios e não disse o restante, embora Maddy pudesse adivinhar. Como o acidente de Dahlia poderia ter sido evitado se ela tivesse ficado em casa. Maddy precisava saber, por Beau. Pegando a mão dele, ela se virou e ele a abraçou outra vez, enquanto ambos olhavam para a vista pacífica do campo. — Eu estava conversando com Cait sobre o quarto do bebê — ela começou. — Ela me contou que você e sua esposa o decoraram. Quando o silêncio dele se prolongou, Maddy amaldiçoou a si. Não deveria ter iniciado o assunto. Se Jack dissesse a ela para não falar naquilo de novo, ela não o culparia. Três anos eram um segundo quando se estava tentando superar uma tragédia. Ela sabia. Maddy já havia aceitado que ele não iria responder quando a voz grave soou acima da cabeça dela. — As contrações começaram às três da manhã. Ela estava tão animada e ansiosa. Eu lembrei a ela que faltava um mês para a data prevista. Estava acontecendo uma tempestade lá fora. As contrações suavizaram, mas ela queria ir à cidade e checar com o médico. A mãe dela morreu no parto e ela não parecia pensar em outra coisa. Eu tentei acalmá-la. Disse que esperaríamos amanhecer. Quando ela começou a chorar... — Ele 59


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gemeu e suspirou lentamente antes de concluir: — Peguei as coisas dela e fui. Uma árvore caiu no carro. Eu sobrevivi. Lição aprendida. Maddy estava com a mão sobre a barriga, os olhos úmidos fechados. Não conseguia suportar pensar na dor dele. — Que lição é esta? — ela finalmente disse. — Não desafie o destino. — Mas ninguém poderia adivinhar que uma coisa tão terrível poderia acontecer. — Coisas terríveis parecem me seguir. O coração de Maddy desabou. Ela nunca sentira tanta pena de alguém na vida. Ele perdera todo mundo que amava, incluindo seu futuro filho, e se culpava porque não conseguia controlar o incontrolável. Não era surpresa que Jack quisesse se isolar do mundo, em algum lugar onde ele acreditava que ele e suas lembranças poderiam estar seguros. Ele queria tão desesperadamente voltar no tempo e deixar todo mundo seguro ali também. Mas ele se aventurara além dos limites de Leadeebrook esta noite. Quis compartilhar uma experiência com ela, o baile, a dança... fazer amor. — Nenhuma destas coisas aconteceu por culpa sua — ela disse, desejando que ele pudesse baixar as defesas por um instante e enxergar. — Isso não muda o fato de que as pessoas que mais amei se foram. Ela se virou dentro do círculo formado pelos braços fortes e sustentou o olhar dele com o seu. — Se eu estivesse com problemas, se eu precisasse de alguém para estar lá e me resgatar... Eu escolheria você. — E se eu falhasse? — Então ninguém poderia ter me salvado. Quando ela estremeceu, ele a puxou para mais perto e sussurrou numa fala lenta e sexy: — Volte para a cama. Depois que eles entraram, fizeram amor outra vez, e desta vez foi ainda melhor do que a primeira. Então eles conversaram. Conversaram até o amanhecer. Sobre os tempos de escola e velhas amizades. Sobre esperanças remotas e alguns de seus sonhos. Quando ela contou a ele sobre seu pai e então sobre a doença da mãe, como Maddy queria ser forte para ela agora, ele tirou os cabelos do rosto dela e, com o sorriso mais gentil, disse que entendia.

Quando ela e Jack chegaram a Leadeebrook às 7h da manhã seguinte, Maddy estava com os olhos turvos pela falta de sono. Ela também estava latejando com uma energia nova e de melancolia por ter de ir embora no dia seguinte. Assim que subiram os degraus da frente, com o sol nítido do leste lhes aquecendo as costas, Maddy foi pega por uma necessidade dominadora de ter este dia esticado como um pedaço de corda infinito. Ela não conseguia pensar em outro jeito de protelar o voo que agendara para Sidney. 60


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Jack havia se oferecido para levá-la de avião, mas ela declinara. Se despedir aqui seria difícil o suficiente. Se ele voasse com ela até em casa, ela ficaria tentada e pedir a ele para ficar. Ou ia pedir para voar de volta com ele. Ridículo. Ela havia passado uma semana daquelas na fazenda Leadeebrook e, para completar, momentos inacreditáveis na noite anterior. A romântica incurável dentro dela queria ser varrida por aquele feitiço outra vez. Mas a mulher responsável sabia que uma reprise não era possível. Ou era? A noção de passar mais tempo ali com Jack a envolveu como uma nova promessa, e o rosto de Maddy enrubesceu de esperança e vergonha. O fundamento da oferta de Jack para ela retornar a Leadeebrook havia sido para visitar Beau. Ela ficou tão feliz e aliviada quando ele sugeriu aquilo. Maddy temia a idéia de não saber quando veria o bebê de novo. Depois das horas incríveis passadas nos braços de Jack na noite passada, qual era o problema em especular sobre outras vantagens? Mas se voltasse mesmo, e ela e Jack tivessem outra aventura, como ela definiria o relacionamento deles? Eles não seriam um casal. Ela não seria uma amiga. Talvez uma "amiga com benefícios". O termo menos moderno era amante. Eles chegaram ao topo dos degraus ao mesmo tempo em que Cait trouxe Beau para fora. A governanta de olhos brilhantes segurava o bebê de costas para si, assim Beau podia ver toda a ação. As perninhas no pijama do Mickey Mouse balançaram de empolgação quando ele os viu. Parecia que tinham viajado por uma semana. Cait riu. — Ele deve ter ouvido o avião. E acabou de acordar nesse instante. — Ele dormiu bem? — ela perguntou, tomando-o de Cait, se deleitando no ótimo cheiro de bebê enquanto olhava para ela e a outra sorria de forma amável. — Nem um choramingo, o fofinho. — Cait deu um passo para o lado para deixar Jack passar com as bagagens. — Como foi o baile de gala? Antes que Jack pudesse responder, Maddy cantarolou: — Foi maravihoso. Tarde demais, ela selou os lábios. As centelhas nos olhos de Cait confirmaram o que Maddy temera. Sua abundância de entusiasmo em passar a noite a sós com Jack havia saído em alto e bom som. Mas ela não estava apaixonada. As pessoas não se apaixonavam depois de uma semana. Apaixonavam-se?

Até então Maddy não sabia se era imaginação dela, mas assim que os ponteiros do relógio marcaram quatro horas e ela não tinha visto Jack desde o chá da manhã, teve certeza. Ou ele estava deixando-a passar um período de qualidade com Beau ou ele a 61


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estava evitando. Na cozinha, fechando a mamadeira de Beau distraidamente, ela refletiu. Não queria considerar a possibilidade, mas... Será que ele se arrependia da noite anterior? Ela foi em direção ao bebê e beijou seu pequeno punho enquanto ele estava sentado pacientemente na cadeirinha reclinável. Hoje era o último dia dela ali. Depois das intimidades que eles saborearam, das palavras que disseram, Jack deveria querer compartilhar estas horas remanescentes com ela. Tanto quanto ela queria compartilhá-las com ele. Maddy ergueu Beau. Uma vez aninhado contra ela, com um miado feliz, ele agarrou a mamadeira e sua mãozinha enrugada perfeita a abarcou. Maddy ninava o bebê, mamando em sua inocência, ao mesmo tempo prendendo a respiração para impedir que o espiral de dúvida aumentasse. Ela esteve na vida de Beau desde o momento em que ele nasceu. Ela esteve ali com Dahlia quando ele chegou ao mundo. Ela amava aquele garotinho. Ela daria a vida por ele num instante. E quando alguém amava uma criança, aquele amor não desaparecia. Este tipo de amor era para sempre; seu sentimento mais profundo lhe dizia isso. Ela podia não ser a mãe de Beau, mas aquilo não mudava o modo como ela se sentia. Ele era a pessoa mais preciosa no mundo para ela. E Jack? Fechando os olhos, Maddy suspirou se lembrando do sorriso dele, de seu perfume amadeirado, da onda de emoção que fluía pelo corpo dela toda vez que o via. Toda vez que ele a abraçava. Será que ela se apaixonara por aquele homem grosseiramente belo, quando há uma semana tudo que queria era estrangulá-lo? Ela não entendia nada sobre ele até então. Não havia desejado fazê-lo. Mas ali ela viera a conhecer um lado diferente de Jack Prescott, um lado dedicado ao seu sobrinho, que se importava profundamente com sua irmã, que havia sido um marido amável e um viúvo de coração partido. Em Clancy, ela soubera mais. Eles haviam passado horas fantásticas, gargalhando, conversando, fazendo o tipo de amor mais bem-aventurado. Ela fora levada às nuvens. Será que qualquer outra mulher se sentiria de outro modo, ou ela e Jack compartilhavam algo verdadeiramente especial? Ela abriu os olhos e buscou a janela da cozinha. Por que ele não havia voltado?

Beau ainda estava tirando sua soneca vespertina quando Jack chegou perto do horário do pôr-do-sol. Através de uma janela da sala, Maddy seguiu seus passos enquanto ele levava Herc aos estábulos. As narinas do cavalo estavam infladas de esforço e o casaco dele estava brilhando de suor. Jack ficaria um tempo ali fora com ele, no entanto. Uma ânsia alarmante saltou dentro dela e ela agarrou o parapeito da janela. 62


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Como Jack iria reagir se ela aparecesse à porta do estábulo e perguntasse por que ele demorou? Depois destas horas esperando e se preocupando, ela precisava ver por si mesma se a afeição que brilhara nos olhos dele na noite anterior havia se apagado. Será que ele conseguia bloquear, tão facilmente assim, o jeito como ela murmurara o nome dele? Quinze minutos depois, Maddy estava roendo a unha do polegar, andando pelo corredor, esperando Beau acordar. Ela estava louca de inquietação. Com os nervos exaustos. Por causa de um homem que conhecera há alguns dias e que não havia escolhido passar estas últimas horas com ela. Claramente ela precisava retornar aos amigos e se atirar de volta ao trabalho. Lembrar-se de quem era e do seu lugar, que não era aqui neste deserto sem graça. Ela parou à porta da frente, as mãos fechadas ao lado do corpo. Deu uma olhada no ainda silencioso quarto de bebê, ouviu o bater das panelas de Cait ao longe na cozinha. O sol poente jorrava baldes de laranja, vermelho e malva luminosos pelo horizonte tranqüilo. A noite estava se aproximando rapidamente. Logo a manhã chegaria. Maddy apertou mais as mãos. Será que um dia Jack entraria em casa? A paciência desgastada dela se esgotou. Ela marchou escadas abaixo e cortou caminho até os estábulos. Jack estava sentado a uma mesinha, as botas empoeiradas balançavam de um lado, os tornozelos cruzados. Ele estava esfregando uma tira de couro, mas agora a ação parara. A cabeça dele se virou e o olhar alerta encontrou o dela. Tremendo por dentro, Maddy entrou. Em sua baia, Herc sacudiu a crina. O estômago dela estava revirando, ela se ergueu abruptamente, e então se repreendeu. Não o deixe saber que seus joelhos estão bambos. Não o deixe ver que você está chateada. Fabricando um sorriso, ela inclinou a cabeça em direção à casa. — O jantar está quase pronto. Ele tirou os pés da mesa e as pernas dianteiras da cadeira bateram na madeira. — Ótimo. Estou faminto. — Vamos ter torta de ruibarbo para a sobremesa — ela disse. — O cheiro está delicioso. Ele tirou a poeira do feltro marrom do chapéu e sorriu para ela. — Mal posso esperar. —: Em alguns meses Beau vai estar comendo alimentos sólidos. Imagino se ele vai gostar de doces. — Você deve deixar seu endereço comigo. — Ele colocou o chapéu. — Vou te contar se ele gostar. Quando ele continuou a caminhar a muitos passos de distância, com as feições bem delineadas do rosto tão impassíveis, o coração dela contraiu e então desabou. Ela não conseguia suportar a tensão nem um minuto mais. Eles precisavam conversar, resolver isto, quer ele gostasse ou não. — Jack, estou confusa. Fiz alguma coisa errada? Ele contraiu as sobrancelhas. 63


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— É claro que não. — Então onde você esteve o dia todo? Ele tirou o chapéu, olhou para o objeto enquanto passava uma das mãos pelos cabelos negros espessos. — Eu tinha coisas a fazer. — Que coisas? — Você não entenderia. — O que eu não entenderia? O chapéu caiu ao lado dele enquanto ele bufava. — Você realmente quer saber? Você vai voltar amanhã. — Ele deu uma olhada para as paredes do estábulo. — Isso tudo vai virar uma lembrança empoeirada dentro de um mês. A respiração de Maddy dobrou de velocidade no peito. O que estava acontecendo? Por que ele estava tão frio de repente? Tão pernicioso? Só porque ela estava indo embora? Ele sempre soubera disso. Ela umedeceu os lábios secos e o lembrou: — Você me convidou para voltar. — Você pode voltar sempre que quiser — ele disse suavemente. Será que ela sonhara na noite anterior? Este Jack era um homem diferente. — Posso tentar entender? Você está dizendo que não liga de um modo ou de outro? Se eu voltar ou não? — Você é quem sabe. Você tem sua vida. Você sabe o que está fazendo com ela. — Ele deu uma olhada para o relógio de pulso. — E é melhor comermos, assim você pode arrumar suas coisas. Ele andou até a porta do estábulo, mas reduziu o passo quando Maddy não o seguiu. Os pés dela eram blocos de chumbo. As entranhas estavam emboladas em nós pesados. Ela mal conseguia impedir a expressão triste nos lábios. Onde estava o homem com quem compartilhara tanta coisa na noite anterior? Será que ela deveria assentir educadamente agora e jantar à mesa como se nada tivesse acontecido? Como se ele não tivesse aninhado e acariciado cada centímetro dela? Como se ele não tivesse aberto cada parte escondida da alma dela e se convidado para adentrar seu coração? Droga, se ele pensava que poderia fugir disso tão, facilmente, estava errado. — Preciso que você me responda. Você quer que eu volte? Os olhos dele não encontraram os dela quando ele resmungou por sobre um dos ombros. — É claro que eu gostaria que você voltasse. — Jack... Olhe para mim. As costas largas e camisa sexy de cambraia de linho expandiram quando ele inalou. Ele se virou lentamente. Esfregou o queixo. Encontrou os olhos dela. Um músculo latejou no queixo quadrado sombreado pela barba por fazer. — Não tenho certeza do que você quer. 64


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Ela não se deu tempo para pensar. Andou diretamente até ele para envolver seu rosto. Então, ficando na ponta dos pés, ela o beijou. Por um instante ela sentiu o mesmo fogo, a explosão que a invadira e a libertara incessantemente na noite passada. Ela imaginou ter ouvido um estrondo de satisfação no fundo do peito dele, sentido a vibração crescer na garganta dele e formigar os lábios dela com clareza. Mas tão rapidamente quanto veio, a tensão escaldante se foi e o beijo... A boca dele sobre a dela... perdeu a vida. O fogo havia acabado. Apagado. Ou será que ele simplesmente se trancara detrás de uma porta de aço? Depois da promessa de coração que ele fizera, que ela não precisava se preocupar com o que quer que a estivesse preocupando, será que ele poderia machucá-la deste jeito agora? Dilacerada, ela soltou o queixo dele, encontrou o rumo e deu um passo atrás. Mas antes de olhar nos olhos dele, ela tirou toda a emoção do próprio rosto. Maddy suspirou. Ela preferiria ser forte. Ele dissera que não sabia o que ela queria. Sacudindo os cabelos para trás, ela lançou um sorriso impassível e formou na cabeça a mentira necessária. — Ah, Jack — ela começou — seja justo. Tudo que eu quero é que você saiba o quanto a noite passada significou. O sonho de toda garota é ter um caubói de verdade. — Ela deu um sorriso brincalhão. — E você é tão real quanto parece. — Quando as lágrimas fizeram os olhos arder como se houvesse ácido, ela sorriu com mais força e esfregou o nariz. — Vou ter de sair daqui antes que tenha um ataque de espirros. Ela passou por ele antes que as lágrimas a pegassem e a derrubassem. Que detestável seria se ela o deixasse vê-la chorar. — Maddy, espere. Girando o corpo, ela comprimiu o nariz teatralmente. — Eu espero sinceramente que você não vá me pedir para ajudar a limpar a baia ou escovar Herc. Eles compartilharam um olhar durante um instante tortuoso e exatamente no momento em que as emoções pareceram prestes a aflorar, exatamente quando ela pensou que iria desabar e contar a verdade a ele, ele baixou os ombros. — Não, eu não te pediria para fazer isto. — Ele passeou até a baia. — Diga a Cait para arrumar meu lugar. Eu me juntarei a vocês logo. Retomando à casa, Maddy manteve o passo rijo. Não pense no que acabou de acontecer. Não se renda as lágrimas. Mas ela não conseguia manter a mente vazia ou impedir a sensação de devastação de ficar maior, mais forte. Ela simplesmente não conseguia acreditar. Como poderia ter entendido tão errado? Ela fora cautelosa para se aproximar, mas na noite anterior... na noite anterior ela confiara nele. Verdadeiramente acreditara que havia tão mais sobre Jack Prescott do que arrogância e um charme intenso irresistível. Dentro da casa, Maddy se arrastou até o quarto do bebê. Quando empurrou a porta parcialmente aberta, o sangue congelou nas veias. Ela adentrou seu pior pesadelo.

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Beau estava acordado, arruinando no berço. Nell estava apoiada nas patas traseiras, as costas pretas e brancas encurvadas e as patas da frente na grade mais baixa. O focinho longo estava enfiado entre as brechas da grade. Beau deu um gritinho agudo e, desnorteada de pavor, Maddy correu em direção a ele, todas aquelas lembranças adormecidas de um tempão atrás pulsando de repente e terrivelmente reais. Flagrada, Nell desceu e, com o rabo entre as patas, trotou para o outro canto antes que Maddy pudesse expulsá-la. — Saia daqui — ela rugiu. O coração estava acelerado, os dedos formigavam, as mãos, os braços... Eles estavam perdendo a força. Assim que viu o cachorro, pronta para atirá-la fisicamente para fora do quarto, Maddy tentou recuperar o fôlego. Ela se apoiou no berço antes que as pernas desistissem. E ainda assim a collie a perseguia com aqueles olhos escuros fatais. Maddy sibilou. — O que está olhando? Como um lobo à espreita, Nell se aproximou e, se lembrando das cicatrizes, Maddy explodiu: — Saia! Saia! O bebê chorava. Cait apareceu, Jack veio logo atrás em um segundo. — O que diabos está acontecendo? Maddy abanou a mão para Nell. — A-aquele cachorro não deveria estar aqui a sós com o bebê. Os dentes dela estavam a centímetros do braço dele. Cães são imprevisíveis, Jack. — Algumas vezes eles eram selvagens. Enquanto Maddy pegava Beau do berço e o abraçava, o rosto corado de Cait se acalmava e ela se aproximava lentamente. — Mas Nell não machucaria o bebê, Maddy. O coração de Maddy estava explodindo no peito. — Ninguém tem como saber disso. O cão que a atacara tinha sido um animal de estimação da família. Ela contara a Jack na noite anterior. Ele vira as cicatrizes. Ele havia dito que entendia, que entendia tudo. Ou será que ele fingiria, como se nada daquilo tivesse acontecido, do mesmo jeito que quis ignorá-la nos estábulos há apenas alguns instantes? Mas quando ele se aproximou, quando ele colocou a mão sobre a dela no ponto em que ela segurava a cabeça do bebê, uma centelha estática do que eles haviam vivido juntos há apenas algumas horas reapareceu. A voz grave dele era baixa e gentil. — Maddy... querida... Você está exagerando. Maddy queria gargalhar. Ela estava exagerando? Era ele quem queria trancar todo mundo atrás destas paredes de fazenda incomodamente remotas. Quando ele a puxou para mais perto de si e incitou para que ela apoiasse o rosto quente contra o peito dele, ela piscou diversas vezes. Concentrando-se na respiração, em reduzir seu ritmo cardíaco, os pontos que manchavam a visão dela se dispersaram e, após curto espaço de tempo, a maior parte do nervosismo se dissipou. Nell estava deitada no canto, a cauda encostada na parede, as orelhas baixadas e a cabeça apoiada 66


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nas patas. Maddy se remexeu, se inclinou mais contra Jack e o formigamento em seus membros começou a desaparecer. Ela estava estressada. Emoção demais. Lembranças remexidas demais. Aquilo não mudava o fato de que ela nunca permitiria que Nell se aproximasse de Beau outra vez, particularmente quando o bebê estivesse sozinho. Nada a faria mudar de idéia sobre isso, e se alguém pensava que ela era paranóica, que pena. Mas quando Jack pegou o bebê dos braços dela e Cait chamou Nell para fora do quarto, Maddy inflou os pulmões com uma inspiração trêmula e a verdade angustiante a atacou. O que ela poderia fazer? Se Beau fosse seu filho... Mas não era. Maddy tinha menos poder de interferir na vida de Beau agora do que tinha uma semana atrás. Menos. E quanto mais ela permanecesse ali e tivesse de engolir aquela realidade, mais frustrada e chateada ficaria. Jack havia sido áspero, mas também estava completamente certo. A decisão era dela, mas talvez seria melhor para todo mundo se ela fosse embora e nunca mais voltasse.

CAPÍTULO DEZ

Durante sua vida, Jack havia estado no inferno e voltado. Determinado a encontrar e manter a força de que precisava, tinha passado a maior parte do dia cavalgando sobre as costas de Herc pelas planícies intermináveis de Leadeebrook. Ele retornara à fazenda tranqüilo, frio e resoluto. Mas instantes antes, quando ele tomou Beau de Maddy e a deixou para lavar o rosto e se acalmar antes do jantar, ele ficou esgotado. O peso da constatação era como uma estaca sendo enfiada em seu coração. Ele era responsável, ele e mais ninguém, pela devastação dela. Se ela pensava que o enganara nos estábulos fazendo-o pensar que a noite deles juntos havia significado um pouco mais do que um flerte aventureiro, ela estava equivocada. Se ela pensava que ele não entendia o episódio com Nell no quarto do bebê esta noite, depois de ver as cicatrizes, é claro que ele entendia. Mas, por mais áspero que pudesse ter soado, ele tinha falado sério. Logo a passagem dela por aqui seria reduzida a uma história singular recontada às mesas de bar nas sextas-feiras. Ele seria a pessoa sobrando para tomar decisões por Beau e, droga, ele confiava em Nell. Mais do que confiava nos viciados e cafetões que transitavam pelas ruas de Sidney à luz do dia. Esqueça sobre devastações e sentimentos magoados. Madison Tyler sempre veria problemas no mundo dele e ele no dela. Justo, ela estava presa em sua vida e em seu futuro. Ela desejava ir embora para retornar a tal vida. Uma pena que ela não conseguia enxergar suas motivações. 67


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Depois da conversa deles na noite anterior em Clancy, estava claro que a motivação principal dela no trabalho era o desejo de se provar competente para o pai. Maddy queria que seu pai, assim como ela também, soubesse que ela era forte. Forte o suficiente para lutar e sobreviver a qualquer coisa. Diabos, a quem ele estava enganando? Ele não era melhor do que aquilo. Ele era tão teimoso quanto ela. Pior. Resmungando para si, Jack deitou o bebê cuidadosamente na mesa de troca de fraldas. Sim, ele e Beau James iriam ser felizes ali. As pessoas poderiam chamá-lo de recluso rico pelas costas, mas e daí? Ele não estava cedendo, assim como Maddy não iria desistir de Sidney ou do pai dela. Jack polvilhou talco, posicionou a fralda, removeu a proteção das faixas adesivas. Quando, uma hora depois, Maddy não havia saído do quarto, Cait se arriscou a levar um pratinho com o jantar. Jack não estava com muita fome também, mas ele apareceu na sala em consideração a Cait e então levou Beau para a varanda. Ele se sentou em uma cadeira com o bebê no colo. Ambos estavam observando outra noite pacífica quando Snow Gibson apareceu. Com aquele notável andar arqueado, Snow subiu os degraus, pegou uma cerveja na geladeira ali de fora, fez cócegas no queixo de Beau e pegou uma cadeira. Jack disse: — Senti sua falta no jantar. — Snow sempre se juntava a ele e a Cait no jantar de domingo à noite na fazenda. — Mandei um recado para Cait dizendo que não viria esta noite. — Ela comentou. Snow abriu a cerveja com um ruído, então se concentrou no horizonte. — Quando eu tinha a sua idade, Jum, eu viajava para todo lugar. Percorri todo o oeste da Austrália em um dos anos. Meu único pesar é que não encontrei uma boa mulher, uma com quem formar uma família. — Ele sorriu. — Talvez não seja tarde demais. Ajeitando Beau, Jack se aprumou na cadeira. Isso soava sério. — O que está acontecendo? — O campo está no meu sangue, mas sou jovem demais para me esconder, cavar um buraco e morrer. Jack captou e sorriu. — E eu também sou, certo? — O que você tem aqui não vai fugir. Você quer pegar esse garoto e viver. Você é um homem rico. Alguns diriam muito rico. Coloque esse dinheiro em uso. Arrume uma vida. Snow ficou de pé, terminou a cerveja, ajeitou a calça e desceu os degraus. Jack observou o amigo montar e cavalgar para longe. Quando olhou para baixo, Beau estava dormindo. Ele se levantou e foi até o quarto do bebê. Jack apreciava a preocupação, mas Snow não entendia os fatos. Ele não estava morrendo aqui. Seu objetivo era dar a Beau um desenvolvimento seguro. E ele não 68


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estava prestes a se casar com Maddy e ter uma família, se aquela foi a indireta. Claro, a atração que lampejou entre eles não podia ser confundida e, certamente, Beau amava Maddy. Mas o abismo entre eles era tão extenso quanto o rio Murray. Ele estava cansado de pensar no assunto. Cansado de pensar nas coisas que era melhor abandonar. A cozinha estava vazia. Cait devia ter subido para ir dormir. Jack entrou no quarto do bebê na penumbra, mas parou quando viu Maddy encolhida numa poltrona no canto. Uma colcha leve estava em volta do queixo dela. O pulso caído sobre o braço da poltrona, assim como a respiração diziam que ela estava dormindo profundamente. Os cabelos dela eram um rio claro reluzente derramado sobre os ombros e ele teve de conter o impulso de deixar Beau e então carregá-la silenciosamente para a própria cama e fazer amor com ela do jeito que seu corpo implorava para fazer. Mas aquilo não mudaria o fato de que ela iria embora no dia seguinte. Será que ela voltaria? Depois de hoje? Provavelmente não. Ele se certificaria de que ela visse Beau se ele fosse a Sidney. Mas um dia, e provavelmente em breve, Maddy teria a própria família. Ela seria um prêmio para qualquer homem. Ela se lembraria do filho de Dahlia com carinho. Esperançosamente, se lembraria da noite deles com carinho também. Jack sempre se lembraria. Ele deitou Beau no berço e seguiu até a porta. Mas então parou, franziu a testa e retornou. Ele não conseguia dizer de onde veio o pensamento. Tinha certeza de que não funcionaria de jeito nenhum. Mas ela amava aquele bebê, e a última noite provara que eles eram compatíveis, tanto no quarto como intelectualmente. Ele sabia no fundo que publicidade não era o ramo dela, era do pai. E se ele pedisse a ela para ficar?

Quando Maddy abriu os olhos, não tinha certeza de que horas eram. Esfregando o rosto, ela aguçou o olhar e andou em direção à janela. Ainda estava escuro, embora uma camada de névoa desse pistas de que estava amanhecendo. Ela se aprumou, estremeceu. Estava com a coluna acabada. Ela fizera papel de boba com a história de Nell. Não tinha voz, nenhum poder ali. Agora não havia nada a fazer senão ir embora. Ainda assim, o que ela não daria para ficar ali com Beau? Para estar presente para ele? Havia mulheres que tinham de desistir de seus filhos no parto, ou que os perdiam em batalhas pela custódia ou para doenças. Em acidentes. O que Jack havia suportado quando perdera seu futuro filho tinha de ser bem pior do que isto. Por outro lado, mais otimista, havia uma probabilidade alta de ela ver Beau novamente. Quando as coisas se acalmassem entre ela e Jack, ela entraria em contato com ele, perguntaria quando ele tinha planos de vir para Sidney. E se ele se prendesse a sua rotina agorafóbica e se recusasse a sair deste lugar... Bem, ela simplesmente teria de deixar o orgulho de lado e bater à porta dele. Mas a poeira precisava baixar primeiro. A missão dela tinha sido entregar Beau e se certificar de que ele estivesse feliz. Ela o fizera e ele estava. Por mais que aquilo a dilacerasse, era 69


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hora de seguir em frente. O torpedo que ela recebera do pai na noite anterior confirmara isto. Te vejo amanhã. Bem cedo. Após cobrir as costas de um Beau adormecido, ela foi até o próprio quarto na porta ao lado para fazer as malas. Vestida com jeans e uma camiseta simples, terminou de escovar os cabelos num rabo de cavalo alto quando ouviu algo no quarto ao lado. Beau. Pelo menos uma hora antes da qual ele acordava normalmente. Será que ele sentira algo fora da ordem naquela manhã? Ele estava chorando baixinho no momento em que ela tomou o corpinho quente nos braços. Dando tapinhas nas costas dele, ela cantarolou ao ouvido dele: — Ei, rapazinho. Já está com fome? Jack apareceu à porta. O olhar alerta foi do bebê a ela. Ele segurava uma mamadeira. — Eu estava acordado. Está morna. Ela sorriu e parte dela soube que no fim tudo ficaria bem. Tinha de ficar, por Beau. O táxi chegaria dali a dez minutos. Mas isso não era como dizer adeus a Dahlia naquela manhã negra. Não era como a mãe dizendo a ela para ser boazinha antes de a porta do quarto ser fechada e ela ouvir o choro do pai. Maddy roçou o nariz na pele macia de Beau, sentiu o perfume do bebê e engoliu as lágrimas. Vou te ver de novo. Eu prometo, não vai levar muito tempo. A voz grave de Jack interrompeu os pensamentos dela. — Tem certeza de que não posso te levar de carro? — Eu prefiro... — Ela engasgou com as palavras e pigarreou. — Vai ser mais fácil. Ele exalou. Assentiu. — Quer um café? A água está fervida. — Vou tomar no aeroporto. Ele assentiu outra vez. Deu um passo para trás. — Vou pegar suas malas. Ela deu um suspiro calmo. Alguns minutos e então iria embora. Para longe de Beau. Para longe de Jack. Deste lugar do qual ela não havia gostado, embora com o passar do tempo, de algum modo, ela tivesse se apegado a ele. Quando Beau choramingou, Maddy inspirou e colocou um tom despreocupado na voz. — Está tudo bem, bebê. — Ela beijou a testa dele. — Tudo vai ficar bem. Eu prometo, eu prometo. Ela parou. Franziu a testa. A cabeça desviou lentamente antes que ela lhe beijasse a testa outra vez. Estava quente. Mais quente do que o normal. Jack havia passado no corredor. Indo até a porta, ela o gritou: — Jack! 70


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Ele girou e deve ter visto a preocupação no rosto dela, então voltou rapidamente. Ela colocou uma das mãos na testa do bebê. — Ele está quente. Sinta. Ele abarcou a testa do bebê e os olhos ficaram sombrios. — Talvez a dentição esteja nascendo cedo. Tenho analgésico infantil na bolsa dele. Ao mesmo tempo em que o olhar de Jack foi da mesa de troca para a bolsa, Nell se materializou de lugar nenhum. Quando a cadela subiu na mesa, os nervos tensos de Maddy ficaram à flor da pele. Mas antes que ela pudesse agir e espantar a cadela, Nell pegou as alças da bolsa entre os dentes, desceu e foi até eles. Maddy ficou boquiaberta. — Como ela...? Ela entende o que dissemos? — Algumas vezes acho que ela tem um vocabulário melhor do que o meu. Beau começou a resmungar e a chorar, o rosto enrugando e ficando vermelho. Um pensamento bizarro surgiu, mas Maddy não conseguia afastá-lo. Será que Nell havia sentido que Beau não estava bem na noite passada? Será que foi por isso que ela o cutucou com o focinho? Para checar? Talvez ela estivesse tentando dizer alguma coisa agora. Maddy buscou o braço de Jack. — Temos que levá-lo a um médico. Mas ele já estava a meio caminho do corredor. Para pegar as chaves da caminhonete? Ela examinou Beau, checando o rosto, o pescoço dele, procurando por erupções ou manchas. Havia tantos vírus mortais à espreita. Ouvindo a voz abafada de Jack, ela seguiu pelo corredor. Ele caminhava pela cozinha, o telefone celular ao ouvido. — Dr. Le Monde? — Ele passou a mão pelos cabelos e, franzindo intensamente a testa, assentiu olhando para o chão. — Sim, é urgente.

CAPÍTULO ONZE

O socorro chegou em menos de uma hora. O dr. Le Monde mediu a temperatura de Beau, procurou por erupções e outros sinais de infecção bacteriana. Ele concluiu que a febre de Beau tinha a ver com uma infecção viral. Um resfriado comum. — Dê paracetamol a cada quatro horas. Ele vai ficar irritadiço, mas melhorará logo. — O médico falou para Jack. — Ligue se tiver alguma preocupação... — ele pegou o capacete no chão perto da porta — ...e eu vou correr de volta para cá. 71


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Jack viu o médico sair. A moto roncou ao longe enquanto Maddy tateava a cabeça de Beau com um pano frio. Os dedos dela roçaram as bochechinhas coradas e uma fonte de amor fez jorrar um sorriso suave no rosto dela. Ela faria qualquer coisa para acabar com a dor dele. Ele nunca poderia saber o quanto ela se importava. O quanto era amado. Após um momento confortável, ele disse baixinho: — Ele parece melhor. — Graças a Deus. Mas nos preparemos para uma ou duas noites em claro. Ele mexeu a mão sobre a grade do berço, roçou a dela e um frisson de consciência acendeu os nervos de Maddy, lembrando-a de tudo que ela estava tão desesperada para esquecer. Ela exigiu aos próprios pés que se movessem um pouco para a esquerda. Eles não lhe deram atenção. Se ela não estivesse tão rígida, eles poderiam ter se movidos para a direita, mais para perto do calor natural de Jack. — Você perdeu seu voo — ele disse. — Acho que perdi. Mas ela não iria pensar na Sapatos Pompadour ou no desapontamento de seu pai. Ela apenas queria absorver a imagem de Beau dormindo num sono tranqüilo e o conhecimento de que a doença dele não era grave. Ela odiava pensar no tempo que eles poderiam ter perdido na triagem de um hospital da cidade em circunstâncias similares. Não que Jack não pudesse lançar mão do recurso de socar uma parede caso achasse que aquilo o faria conseguir a atenção de alguém. Agora, entretanto, ele estava quase submisso, embora Maddy pudesse sentir aquele intenso poder inerente se agitando sob a calma. — Quer ligar para o seu pai? — Em breve. — O que você vai dizer a ele? PRONTOS PARA O AMOR

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— Que não consegui sair daqui. — Ela tentou pescar uma emoção apropriada, mas no fim deu de ombros. — Ele vai precisa entregar a conta a outra pessoa. — Eu posso te levar lá em... — Vou ficar. — No entanto ela suavizou o tom determinado com um sorriso. — Sem discussões. — E antes que ele pudesse insistir, ela acrescentou: — Tenho certeza.

Após três dias e noites de pouco sono para os adultos, a temperatura de Beau estava de volta ao normal, o peito estava desobstruído e seus arrulhos e risadas mais uma vez preenchiam a casa. Maddy ficou radiante quando soube. Mais uma vez ela era lembrada do quanto era precioso saber que aqueles que você amava estavam bem. Na quinta-feira, enquanto Maddy dava o banho noturno em Beau, ela refletia sobre a apresentação da Tyler Publicidade agendada para o dia seguinte. Ela estava triste porque não estaria lá? Brava? Decepcionada consigo? No final das contas, estava orgulhosa por ter feito a escolha certa. A única escolha. Nas últimas semanas o lugar dela havia sido ali com aquela criança. A saúde e a 72


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felicidade dele eram as únicas coisas que realmente importavam. Quando Cait entrou, Beau chutou os pezinhos, espirrando água na mesa e no chão. Rindo, Cait pegou uma toalha debaixo da mesa. — Ele certamente está com sua energia de volta. Maddy o tirou da banheira e Cait secou cada pedacinho dele. Quando Maddy pegou o talco, Cait perguntou: — Teve notícias de seu pai? Maddy suspirou e balançou a cabeça negativamente. Cait havia se tornado uma espécie de confidente. Maddy confessara um pouco de seus sentimentos por Jack, mais a respeito de Beau e também admitira o quanto o pai ficaria desapontado por ela ter ficado quando prometera ir para casa. Cait havia sido tão aprobativa, do jeito que Maddy imaginava que sua mãe teria sido. Ela nunca se esqueceria da bondade desta mulher. Ela ficaria triste por deixar isto para trás. Cait pegou uma fralda nova. — Bem, nós três te agradecemos por ficar. Foi uma atitude corajosa. Uma vez que você não precisava tomá-la e ainda assim tomou. Dê tempo a ele. Seu pai vai enxergar isto também. Jack andou na ponta dos pés. Quando ele viu Beau acordado e pronto para brincar, cruzou até ele e mexeu em suas perninhas, fazendo-o rir. Maddy deu um passo para o lado enquanto Jack se preparava para colocar os pijamas em Beau. Ele tinha ficado muito bom em manejar aqueles botõezinhos de pressão. Cait guardou o talco e colocou as mãos na cintura. — Agora que todo mundo está aqui — ela disse claramente para captar a atenção deles — conversei com Beatrice Claudia no telefone. Ela administra o hotel na cidade — ela explicou para auxiliar Maddy. — O pobre canário dela caiu do poleiro esta manhã e ela está fora de si. Ofereci-me para passar a noite com ela. Beber um pouco de xerez. Talvez convencê-la a comprar outro pássaro. Ninguém gosta de viver sozinho. Maddy pensou ter visto algo mais reluzir nos olhos de Cait, mas então a governanta se aprumou e pigarreou. — De qualquer jeito — Cait prosseguiu — a crise acabou. O jantar está pronto, então, se não se importam, Jock, vou levar a caminhonete para a cidade hoje. — Você sabe onde estão as chaves — ele ofertou. — Dê minhas condolências à sra. Claudia. Cait captou o olhar de Maddy antes de sair. — Não esperem que eu retorne antes do meio-dia.

Duas horas depois, Beau estava dormindo. Maddy aproveitou um longo banho de espuma e então encontrou Jack, igualmente exausto e recentemente limpo, largado num sofá da sala. Maddy se jogou nas almofadas ao lado dele. Ela suspirou. — Eu poderia dormir por uma semana. Jack murmurou. 73


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— Começando agora. Maddy estava desatenta, os olhos fechados, se lembrando o tom rosado nas bochechas de Beau esta noite, quando a pergunta de Jack a pegou de surpresa. — Quando você vai voltar para Sidney? Ela piscou para ele. — Você está tão ansioso assim para se livrar de mim? Jack se sentou mais aprumado, pronto para negar, mas quando Maddy apenas sorriu, ele baixou os ombros e sorriu também. Nos últimos dias a atmosfera havia mudado entre eles outra vez. Ele ainda estava vigoroso e lindo, nada poderia mudar aquilo, nunca. Mas eles trabalharam de forma tão íntima para assegurar que Beau ficasse confortável e restabelecido, que não houve tempo ou energia para manter rancores a respeito do que se passara antes. Estranho admitir, mas nestes poucos dias, Maddy se sentiu quase em casa ali e se sentiu perto do confortável outra vez com Jack. Ele fez tudo que pôde para ajudar e ela era grata por isto. Talvez fosse hora de colocar seus sentimentos modificados em palavras. Não havia época melhor do que o presente. Sentada a um braço de distância, ela se voltou para ele. Ele virou ao mesmo tempo. Os olhos deles se conectaram e Maddy se sentiu atraída por ele como havia ficado tantas vezes antes. Era como se o corpo dela soubesse que o risco que Beau correra havia passado e fosse hora de voltar a outros problemas não resolvidos. Mas aquilo não estava acontecendo. Ir àquele campo outra vez com Jack iria apenas complicar as coisas que já estavam suficientemente solucionadas. Eles haviam compartilhado uma noite juntos. Ela não estava prestes a transformá-la em duas, mesmo que suspeitasse que Cait tivesse se afastado por aquela razão precisamente. Quando o olhar dele decaiu sobre os lábios dela, Maddy foi mais capaz de sentir do que de vê-lo se inclinar para mais perto. Uma batalha violenta se formava no coração e na mente dela e, em pânico, ela levantou as duas mãos. — Jack, por favor... não vamos fazer isto. Ele parou, assentiu solenemente. — Você está certa. — ele se afastou. — Vamos fazer isto. Ele a arrastou contra si e sua boca tomou a dela. Atônita, assim como instantaneamente, indescritivelmente excitada, ela empurrou o peito dele, mas Jack não se mexeu. Na verdade, ele a puxou para mais perto, a beijou mais profundamente e logo, em vez de empurrar, as mãos dela estavam flexionando e esfregando, querendo adentrar a camisa dele. Ela mal estava ciente de estar sendo carregada da saleta para o quarto dele. Quando ele a colocou de pé, as roupas de ambos caíram de modo atrapalhado enquanto eles rodopiavam e tropeçavam a caminho da cama. Com a boca dele sobre a dela, Jack tirou as cobertas cegamente e, com a respiração ofegante, a carregou e a deitou, não de um jeito gentil. Curvado sobre ela nas sombras, os ombros dele se expandiam enquanto ele respirava de forma faminta e pedia desculpas: — Estou sendo muito rude. Ela abrandou. — Eu não vou quebrar. As bocas colidiram outra vez, e todas as vezes que a língua dele varria a dela, ela acariciava e provocava a oscilação selvagem crescendo dentro de si, uma aceleração deliciosa de seu sangue que a deixava arquejante e agarrada aos braços dele, aos 74


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quadris dele. Quando a ereção dele golpeou a barriga dela, Maddy o empurrou e ficou por cima, com uma coxa de cada lado e agarradas às dele. Com o cabelo caindo no rosto, ela arqueou lentamente sobre ele e, provocando, roçou as pontas sensíveis dos seios sobre o peito dele. Era como se ela estivesse fora de si. Libertado de sua jaula, seu instinto animal havia tomado conta e todas as partes do corpo dela só conseguiam focar em satisfazer a dolorosa necessidade atordoante que a atiçava bem no fundo. Ela nunca se sentira daquela forma antes. Em chamas. Todos os lugares. Incinerando. As mãos quentes dele abarcaram os quadris dela e a ergueram para cima e para baixo. A expressão dele era uma mistura desigual da luxúria mais sombria e de apreciação abrasadora. Ele se levantou e envolveu um mamilo com os lábios. Ele excitou a ponta com a língua e, suspirando, ela agarrou a cabeça dele. Eles rolaram outra vez e ele a colocou por baixo. Quando ele a penetrou, quando Maddy o sentiu preenchê-la até Jack atingir aquele instável ponto pulsante que só ele conhecia, ela arfou e então mordeu o lábio e se concentrou. Como aquela onda podia atingir um ponto tão alto tão rapidamente? Ele se movimentou outra vez e ela o olhou nos olhos com uma fascinação impotente, ardente. Todos os pedaços perfeitos do universo estavam colidindo no centro de prazer dela. Quando ele atingiu aquele ponto outra vez, quando emanou o poder perigoso que a tomava tão completamente e puramente dele, ela direcionou as costas para o colchão e gritou. Um segundo depois, ele a seguiu até o limite. Quando as estrelas se foram, ambos estavam úmidos de transpiração e sem fôlego. No entanto, enquanto ela removia os cabelos dos olhos, ainda sentindo tudo zunir, teve o ímpeto de rir. Nunca estivera tão fora de controle no quarto. Nunca estivera tão fora de controle na vida. Que algazarra eles haviam feito. Graças a Deus Beau estava dormindo profundamente e Cait não estava por perto. Maddy não sabia que fazer amor podia ser algo tão cru. Tão além de qualquer coisa que ela já experimentara. Após beijá-la outra vez, longa e lentamente desta vez, Jack soltou um bufar satisfeito. — Não vamos ser capazes de disfarçar esse tipo de barulho quando ele for mais velho. Maddy estava prestes a concordar, mas então o significado mais profundo por trás daquela declaração foi absorvido por completo. Inquieta, ela olhou para o outro lado. A expressão dele estava serena, embora meio especulativa. Ele sabia o que havia dito. Como ela deveria responder? Especialmente agora quando todas as fibras que controlavam sua mente e corpo zuniam com uma satisfação intensa. Aonde eles iriam a partir dali? Como eles prosseguiriam a partir dali? Houve um barulho pelo corredor. Ambos congelaram e então se levantaram. — Beau. — Ela pegou o lençol. — Vou checar. — Você mal saiu do lado dele hoje. É a minha vez. — Ele fez um sinal com os dedos, perfurando o ar. — É uma ordem. 75


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Ela assentiu o observou se arrastar de short e desaparecer. Ela ouviu Beau dar gritinhos, a voz grave abafada de Jack. Então nada. Lentamente, os músculos dela relaxaram e ela se deitou novamente. Colocou a mão detrás da cabeça. No fim, fechou os olhos.

Maddy acordou num sobressalto e espiou o visor luminoso do relógio digital. Passava da meia-noite. Olhou para o outro lado e descobriu que estava sozinha na cama. Onde estava Jack? Como Beau estava? Ela se esforçou para escutar. Será que o bebê havia tido uma recaída? Ela pegou a camisa de Jack no chão e, rapidamente, passou os braços pelas mangas. Mas o quarto estava escuro e pouco familiar. A caminho da porta, ela tropeçou em alguma coisa que poderia ter sido uma bota e caiu com força sobre as gavetas da cômoda. Pressionando os lábios fechados, xingou baixinho. Droga. Parecia que tinha quebrado o dedinho do pé. Esfregando o pé, apertando os dentes para conter a dor, Maddy foi ficando de pé lentamente. Um feixe da luz da lua estava entrando através da uma fenda na cortina. Sobre a cômoda, iluminado, estava o portarretrato prateado exposto, pronto para saudá-la. Aos pés da moldura, um círculo dourado brilhava ao luar. Prendendo a respiração, Maddy esticou a mão para tocar... Uma aliança de casamento. Ela havia visto a foto no dia em que chegara, mas tudo tinha acontecido tão rapidamente esta noite que Maddy não tinha pensando no assunto quando entrou no quarto mais cedo. Como as coisas teriam se desenrolado, caso ela tivesse se lembrado daquela história? Porque agora ela não se sentia nem um pouco sexy ou impulsiva. Ela se sentia como uma intrusa, particularmente considerando que Jack ainda usava a aliança combinando em torno do pescoço. As palavras dele ecoaram na mente dela. Quando ele estiver mais velho... Ela queria que houvesse uma próxima vez. E uma vez seguinte. Mas não sabia como se sentia sobre fazer amor com um homem que ainda se considerava casado do jeito que Jack tão claramente considerava. Ela certamente não entraria naquele quarto de novo, com aquela foto ali zelando a ambos. Um brilho no corredor atraiu o olhar dela. Dando uma esfregada final no dedinho, ela hesitou em direção à claridade e, ao fim, se flagrou num cômodo no qual não havia entrado... Uma enorme e suntuosa, porém estranhamente aconchegante, biblioteca com uma vasta coleção de lombadas realçadas em estantes talhadas. No canto extremo, Jack estava sobre um sofá segurando um livro. Ela reconheceu a capa. Maddy tinha a mesma edição em casa. Ele deu uma olhada para ela e encontrou um sorriso. — Você estava dormindo tão profundamente. Eu não esperava que acordasse. — Então você pensou em ler alguns capítulos de Jane Eyre?

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Ele sorriu. — Sue amava ler, como você. — O olhar dele ficou distante. — Imaginei que passaria o restante dos meus dias cavalgando pelas planícies durante o dia e procurando títulos nestas lombadas à noite. O olhar dela passou por fileiras e fileiras de livros. Todos de Sue. Será que ela teria gostado da esposa de Jack? Maddy não iria pensar nisso exatamente agora. Ela se aproximou dele e pegou o livro. — Esse é um dos meus favoritos. Quando ela deu uma olhada na contracapa, leu as linhas e lhe entregou de volta, ele a puxou para seu colo e se concentrou no movimento de colocar os cabelos dela detrás da orelha. — Algo que Snow disse na outra noite... está fazendo muito sentido. Somos bons juntos, Maddy. Bem melhor do que bons. E Beau precisa de uma mãe. Ela previu a granada que estava prestes a explodir. Desarmada, fechou os olhos para esconder o choque. Jack iria pedir a ela para se casar com ele? Era fantástico demais para se considerar. Exatamente agora quando ela confirmara outra vez em sua mente que Jack ainda se considerava casado. Que ele sempre se consideraria casado com sua falecida esposa. Será que ela estivera errada? Com o nó de um dos dedos, ele ergueu o queixo dela e a incitou a encontrar seu olhar melancólico. — Maddy, estou pedindo a você para ficar. Ela levou um instante para absorver as palavras. Não era uma proposta de casamento. Ele estava pedindo a ela para se mudar. Ele tinha dito que Beau precisava de uma mãe. Ele queria que Maddy arrancasse suas estacas de Sidney e as recolocasse ali? A voz dela veio áspera. — Você quer que eu more em Leadeebrook?. Uma imagem daquela foto sobre a cômoda no quarto dele se formou num redemoinho na mente dela, assim como a delicada aliança de ouro. Sua gêmea em tamanho maior estava brilhando no pescoço nu de Jack neste instante. O olhar dela saltou da aliança para os livros nas estantes, na biblioteca de Sue. Sala de Sue. Casa de Sue. Ela engoliu o bolo dolorido na garganta. — E sua esposa? Ele estreitou os olhos, posto que suspeitou que ela tivesse sofrido uma perda de memória: — Sue está morta.. — Mas não está para você. Não aqui. — A palma dela cobriu o lado esquerdo do peito dele, os dedos roçando a aliança de casamento. O questionamento nos olhos dele ficou óbvio, mesmo quando ele enrijeceu o queixo quase imperceptivelmente. — Você quer casamento? 77


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— Ah, Jack, não é isso. — O jeito como ela se sentia, o problema que tal oferta apresentava, não era tão simples. Embora ela não pudesse negar que nos últimos dias, quando pôde ver Jack sendo tão bom para Beau, ela os tivesse imaginado como uma família. Talvez com outro filho ou dois. Mas quanto mais pensava no assunto, mais ridículo parecia. Primeiro, onde eles iriam morar? No mundo dele ou no dela? No entanto, na cabeça de Jack aquele ponto já estava acertado. Ele tinha pedido a ela para ficar ali. Com a poeira, os pelos de cavalo e as moscas. É claro, havia muita coisa do que gostar, também... A história, os pores do sol, a paz. Mas a vida dela estava tão firmemente entrincheirada à cidade que ela só conseguia pensar em uma resposta à pergunta dele. — Por que vocês dois não vêm e moram em Sidney? Ele estremeceu. — Você conhece a resposta para isso. Ela saiu do colo dele. — Explique para mim. — Sidney é legal. Linda cidade, quanto a isso. Mas não é um lar. — Não é o seu lar, mas é o meu. Ele ficou de pé também. — Estou te oferecendo um novo lar. Ela não queria um novo lar, não no campo, a um milhão de quilômetros de distância do shopping mais próximo. Longe dos amigos. Do trabalho. Do pai. Ela parou e, dividida, fechou os olhos de modo apertado. Mas Beau estava aqui. Jack também. Ela sentiu um nó no estômago e cobriu o rosto quente. Ah, Deus, ela precisava pensar. E os pensamentos se voltavam para aquele garotinho. Jack era o guardião legal de Beau. Este era o lar dele, gostando ou não. Mas um dia ele se tornaria um adolescente, com cabeça e vontade próprias. Como Dahlia havia se tornado. — E Beau? — ela perguntou, deixando as mãos caírem. — O que acontecerá quando ele quiser ver, viver e experimentar a vida além destas cercas? — Será que Jack queria que Beau seguisse os passos drásticos de sua irmã e fugisse? — Quando a hora chegar, ele vai ter a melhor educação de alto nível disponível e isso significa Sidney. — A mão dele encontrou a dela. — Mas Beau é um Prescott. Um descendente homem. Eu não vou precisar insistir para que ele fique porque ele pertence a este lugar, do mesmo jeito que eu, como o bisavô e o avô dele. Ela mal conseguiu conter o acesso atônito de raiva. — E as mulheres não têm escolha. — Quando ele soltou as mãos dela como se queimassem, Maddy se apressou. — Eu quero ficar com você e com Beau. Mas como posso dizer que vou ficar, quando tenho uma vida inteira no meu lar? Ele não pareceu impressionado. — Uma vida inteira. — Um trabalho. Amigos. Você sabe. — Ela deu de ombros, exasperada. — Uma vida. Ele aprumou os ombros e seus olhos ficaram inertes. — Então você respondeu à minha pergunta. 78


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Uma caverna profunda e escura se abriu dentro dela. O que o fazia pensar que o mundo girava em torno dele? Será que os sentimentos ou a experiência de mais ninguém contavam? — Por que está tudo bem para você recusar e para mim não? Desinteressado agora, ele pegou o livro no sofá. A voz dele foi lenta e arrastada. — Você pode fazer o que achar melhor. Ela ficou boquiaberta e então balançou a cabeça lentamente. — Pensei que pudesse conversar com você. Pensei que finalmente estivéssemos na mesma sintonia! Mas você não ouviu nada do que eu disse. — Ele só estava preparado para ouvir as vozes das tradições e do passado. Todos os fantasmas que o mantinham ali e que não o deixariam ir embora. Jack colocou o livro na estante, correu o dedo pela lombada. — Se seu trabalho é mais importante... — Isso não é justo. Ele girou. — Não tem a ver com ser justo. Ele era exatamente como o pai dela, implacável e tão difícil de agradar quanto. Ela estava cansada de tentar. Cansada de jogar o jogo de todo mundo. — Você pode ter colocado os pés para cima e se aposentado, Jack, mas eu tenho um emprego, e é em tempo integral. Ele cruzou os braços. — Está trabalhando para seu pai no lugar que quer estar? A pergunta a fez recuar, mas ela se recuperou: — Não é diferente de você insistir que pertence a este lugar. — Eu pertenço a este lugar porque é onde meu coração está. Seu coração está na Tyler Publicidade? — Você cresceu com tosquiadores. Eu cresci com jingles e slogans. É tudo que conheço. Meu pai levou tempo para me preparar. — Foi o que ela disse a si durante anos, embora agora soubesse que estava tentando convencer a si. — Seu pai ainda vai amar você se você trabalhar para ele ou não. Você não deixa de amar alguém porque a pessoa escolhe um caminho diferente daquele que você gostaria que ela tomasse. — Mas você pode parar de conversar com ela. — Do mesmo jeito que você parou de conversar com Dahlia. E de repente ela precisava saber. Ela havia acreditado naquilo alguns dias atrás. Será que as coisas tinham mudado de fato? Apesar do tremor por dentro, Maddy injetou um tom calmo em sua voz. — Você me tiraria da sua vida, Jack, se eu fosse embora agora? Os olhos dele viraram gelo. — Você estaria indo embora. Não eu. Eu não tenho controle sobre isso. Maddy colocou a mão sobre a barriga. Como ela poderia argumentar? Parecia inútil tentar.

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Todos os dias ele vivia se lamentando pelo fato de não ter sido capaz de controlar determinadas situações e pessoas, e ainda assim ele a deixaria ir embora agora sem um argumento. E se ele pensava desse jeito, certamente aquilo validava o que estava óbvio. Sonhos eram bons, mas eram apenas sonhos. Ela não pertencia àquele lugar. Por mais que amasse e quisesse ficar com Beau, havia simplesmente muitas coisas indo contra. Obviamente Jack era da mesma opinião porque ele passou ambas as mãos pelos cabelos, mantendo-as ali antes de jogar os braços nas laterais do corpo. Quando ele olhou para ela outra vez, seu rosto estava desprovido de expressão. — E Beau? — ele perguntou. — Digamos que eu ficasse. Beau e eu nos tornaríamos ainda mais próximos, — Quando ela esperou, ele concordou com um curto meneio de cabeça. — Se não funcionasse entre mim e você, e eu decidisse ir embora, você consideraria dividir a custódia? A presença dele pareceu inflar e se intensificar diante dos olhos dela, como uma força sobrenatural assumindo um poder imensurável. Mas tão rapidamente quanto transpareceu aquela tensão deixou o corpo dele, e uma força diferente surgiu. Orgulho inflexível. — Não — ele disse, nenhum indício de remorso em sua voz. — Eu nunca vou desistir dele.

CAPÍTULO DOZE

Jack não estava de bom humor. Há duas noites, ele e Maddy haviam chegado a um entendimento. Aborrecido. Ele estendera a mão e pedira a ela para ficar. Ela contara com o óbvio: não podia desistir de seu estilo de vida. Por que ele ficou surpreso? Você poderia tirar uma garota da cidade, mas... Ele bateu os calcanhares em Herc e o cavalo galopou mais depressa. Droga, ele estava melhor sem ela. O sol estava nascendo enquanto ele cavalgava Herc pelo terreno. Se tivesse sorte, perderia a partida de Maddy logo cedo. Isso seria o melhor. Tudo que havia para dizer havia sido dito. Ele tinha Beau. Suas lembranças. Sua fazenda. Se tivesse de se despedir dela... Ah, diabos, ele já tivera outras despedidas antes. Ele bateu no flanco de Herc e o cavalo seguiu para dentro do estábulo. Quando Jack girou, Maddy estava parada aos pés dos degraus. Usava jeans, camiseta branca, os cabelos estavam soltos sobre seu lindo rosto impecável... Tão linda que ele mal conseguia respirar. — Obrigado — ele disse formalmente — por ficar com Beau quando precisei de você. 80


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— Obrigada — ela disse, tão suavemente quanto — por me deixar ficar. Nenhum dos dois desviava o olhar. Era como se, quem desviasse primeiro, perdesse o jogo. Ou talvez fosse porque aquele era verdadeiramente o fim, mas ainda houvesse aquela ânsia enlouquecedora de carregá-la de volta para dentro e trancá-la até ela recuperar o bom senso. Há cem anos, ele poderia ter feito isso. Tal pensamento ainda estava pairando quando o som de um motor na manhã silenciosa trouxe a mente dele de volta à realidade. Um táxi amarelo empoeirado roncando em seu caminho. Cait apareceu ao topo das escadas, o bebê em um dos braços. Ela desceu como se estivesse em cortejo fúnebre. Acima de tudo, Jack não precisava daquilo. O carro freou ao mesmo tempo em que Cait se juntou a eles. Ela tentou apresentar seu melhor sorriso. — O bebê Beau quer se despedir. As narinas de Maddy inflaram, mas ela deu um jeito de sorrir por sobre a umidade que lhe preenchia os olhos. Ela tomou o rosto do bebê nas mãos, a mão pálida contra as bochechas, e deu um beijo na testa dele. — Seja bonzinho, Beau querido. — Jack captou o sussurro mais baixinho dela. — Lembre-se de mim. Ela não olhou para Jack quando se virou em direção à porta aberta do táxi e entrou. E então foi embora. No táxi, pelo caminho interminável. Ela não olhou para trás. Nem uma vez. Cait lançou um olhar solidário, mas Jack apenas resmungou baixinho. Ele queria tirar Beau dos braços dela, confortá-lo, sentir a conexão, mas não tinha certeza se era uma boa idéia agora. Em vez disso, ele irrompeu degraus acima. Entrou no quarto a passos largos e bateu a porta com tanta força que as paredes tremeram. A foto sobre a cômoda oscilou e caiu no chão. A aliança caiu também, batendo na madeira com um tilintar. Então rolou pelo piso até parar e cair aos pés dele. Jack pressionou as mãos contra os olhos que ardiam. Ele queria gritar. Queria socar a porta. Ele queria de volta o que havia perdido. Após alguns instantes, ele soltou um suspiro trêmulo e se agachou. Pegou a aliança. O ouro estava quente, era familiar. Mantendo-o perto de si nesses últimos anos... era compromisso? Ou era força do hábito? Jack não tinha certeza de quanto tempo tinha ficado sentado à beira da cama, segurando aquela aliança e refletindo. Quando Cait bateu à porta e perguntou se ele estava bem, ele disse a ela para não se preocupar. As mãos estavam firmes quando ele arrancou a corrente do pescoço. Ele andou pelo quarto, pegou a foto no chão e abriu a gaveta de cima. Fechando os olhos, se lembrando de tudo e tratando a situação toda com carinho, ele beijou a imagem e então colocou a fotografia e as alianças num lugar seguro longe de sua visão.

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CAPÍTULO TREZE

A ligação de Maddy pelo celular completou ao mesmo tempo em que o alto-falante do aeroporto regional anunciou que o embarque do voo dela estava aberto. Ela checou a bagagem e pegou o café. A voz suave do pai veio de Sidney através da linha. — Madison, você disse que era urgente. Eu tentei te retornar o quanto antes. — Ela ouviu o farfalhar de papéis. — Tenho estado ocupado. Na segunda-feira ela havia deixado uma mensagem dizendo que não sabia se conseguiria voltar, que o bebê precisava dela e que ele deveria encontrar um executivo de contas substituto para a conta da Pompadour. Muita coisa acontecera desde então. — Papai, preciso renunciar. — Eu já cuidei disso. Gavin Sheedy já pegou a conta da Pompadour... — Preciso renunciar ao cargo na Tyler Publicidade. Maddy apertou os lábios quando o silêncio do outro lado se prolongou. A voz de Drew Tyler estava grave e ponderada. — Você está apaixonada por aquele sujeito, não está? Conversei com um colega outro dia. Ele disse que te viu em um... Ela interrompeu outra vez. — Jack Prescott não tem nada a ver com a minha decisão. — E quando as palavras saíram de sua boca, ela soube que era verdade. — Papai, você ama o que faz. Eu queria tanto te deixar orgulhoso. Eu queria provar que nós dois poderíamos fazer isto. — Seja forte. Sobreviva. Não importa o que aconteça. — Mas desde que fui embora... — Não havia jeito fácil de fazê-lo. Ela tomou fôlego. — Publicidade não é o que quero fazer. Não é o que quero ser. — Estou vendo. — O tom dele era reflexivo, calmo. — E o que você quer fazer? O olhar dela vagou pelo terminal lotado, pessoas chegando de destinos exóticos, famílias voando para encontrar novas aventuras. Ela viu as oportunidades brilhando e as experiências reluzindo em volta deles como auras. Ela enrijeceu os ombros e se sentiu crescer. — Eu quero viajar. Quando o pai dela riu, não de menosprezo, mas um som notavelmente divertido, ela quase caiu para trás. — Querida, que idéia maravilhosa. Eu gostaria agora que eu tivesse tido tempo quando era mais jovem para levar você. E quando você voltar... — Você não está bravo? — Maddy sacudiu a cabeça. Ela havia passado tanto tempo evitando aquilo, treinando para falar. — Querida, a publicidade pode ser cruel. Pelo menos é na Tyler. Não tem a ver com você. Nunca teve. O restante das palavras dele desvaneceu. Agora a atenção dela estava presa às 82


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portas automáticas do terminal, ou melhor, na pessoa que estava passando por elas. O ar abandonou os pulmões dela de repente. — Jack...! Ele andava de modo apressado propositadamente. Maddy engoliu para umedecer sua garganta seca. — Papai, te ligo de volta depois. Ela não ouviu a resposta. O telefone caiu ao mesmo tempo em que Jack a viu. Ele andava até ela com uma determinação tão imperiosa, Maddy quase quis se esconder. Qual era o problema? O que ela havia feito? Havia algo errado com Beau? Ele parou a poucos centímetros de distância. Antes que ela pudesse pensar, ele a puxou e a beijou, e beijou com o que parecia ser tudo que a alma dele podia reunir e oferecer. Mas conforme o beijo se aprofundava e a batida do coração dele se combinava à dela, Maddy não conseguia esconder a verdade. Ela amava este homem. Como mulher alguma jamais amara um homem antes. Todos os dias, em todos os minutos de sua vida, uma parte dela iria estar com ele. Como ela gostaria de tê-lo conhecido primeiro. Ele interrompeu o beijo suavemente. Começou a falar, mas ele tocou seus lábios ainda úmidos com a ponta de um dos dedos. — Eu me torturei — ele disse. — Não consigo contar as vezes em que perguntei por que as pessoas que eu amava continuavam me abandonando. Maddy, você tinha a resposta. — Jack, eu não tenho as respostas. Ela tentou serpentear o corpo para se soltar, nada poderia fazê-la mudar de idéia, fazer isto funcionar, mas o abraço dele permaneceu firme. — Você me disse naquela noite em Clancy. O que aconteceu no passado estava fora do meu alcance. Isto não está. Eu cometi erros antes. Sem dúvida vou cometer mais no futuro. Mas deixar você sair da minha vida não será um deles. — Ele ergueu o queixo dela e encarou seus olhos. — Eu amo Leadeebrook. Mas eu te amo mil vezes mais. O que quer que seja necessário para manter você em minha vida, eu farei. Se você quiser morar na cidade, vamos fazer isto. E vamos viver todos os dias ao máximo. Temos dinheiro suficiente para viver três vidas inteiras no luxo. Maddy estava boquiaberta. O cérebro dela estava preso lá atrás. — Você venderia Leadeebrook? — Se isso significa ter você... — ele sorriu com o olhar — ...em um instante. Eu fecharia. Eu me fechei para o mundo. Você e Beau me fizeram abrir novamente... para a esperança. Para o sentimento. Para todas as coisas que fazem viver valer a pena. Quando Maddy ficou tonta, ela se lembrou de respirar. Ele estava iludido. Deve ter caído do cavalo e batido a cabeça. Ele não podia saber o que estava dizendo. — Eu... Não posso dizer para você vender. — Aquela fazenda de ovinos era parte dele, tanto quanto um braço ou uma perna. Mas Jack pareceu achar a confusão dela engraçada. Ele riu. — Não se preocupe. Eu nunca estive tão sensato em toda minha vida. — O sorriso dele mudou. — Dirigindo até aqui, eu pensei... Você acha que Dahlia poderia ter esperado 83


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por algo assim? — Você quer dizer, que nós dois... Ela não conseguiu dizer. Se dissesse, esse sonho louco maravilhoso iria dissolver e ela iria acordar. Mas ele assentiu e disse as palavras para ela: — Que nós dois nos apaixonássemos? Talvez Dahlia pudesse ver as três pessoas que ela mais amou no mundo encontrando a felicidade juntas. Lágrimas correram pelos cantos dos olhos dela enquanto o olhar deslizava para a gola em V aberta da camisa dele. A corrente não estava mais lá. Ela espiou a mão esquerda dele, só por precaução, e um soluço subiu em sua garganta. Ele havia guardado a aliança. Ele queria seguir em frente? Será que ele poderia honestamente entregar seu coração verdadeiramente para outra mulher... ou para ela? Outra possibilidade veio em mente e a garganta dela inflou. — Você está fazendo isto por Beau... para que ele tenha uma mãe? De algum modo ela não conseguiria odiá-lo caso estivesse. Ele se aproximou e seu hálito quente murmurou contra a testa dela. — Eu te amo, Maddy. Por favor... Deixe-me amar você. Diga que vai se casar comigo. Algo na voz dele, no modo como os lábios dele roçavam a pele dela, diziam a ela que era seguro. Não apenas por enquanto, mas para sempre. E de repente não importava onde eles moravam ou o que faziam. Contanto que estivessem juntos. Os três juntos dali em diante. As bochechas dela estavam quentes e úmidas. A voz dela era um sussurro desesperado, alegre, precisando ser ouvido. — Sim, eu vou me casar com você. Eu te amo, Jack. Eu quero tanto ficar com você. Onde quer que seja. Todos os dias. Todas as noites. Quando ela respondeu outra vez com um beijo nascido da fé mais profunda e selado com a promessa de amor eterno, Jack pegou sua futura noiva no colo. E a levou para casa em Leadeebrook.

EPÍLOGO

As mãos de Maddy envoltas por luvas de seda puxaram a tira das rédeas e a breve jornada de Herc chegou ao fim. Pétalas cor-de-rosa e brancas estavam jogadas no chão da nave ao ar livre que levava a um gazebo enfeitado com rosas penduradas e arcos acetinados dourados. Os amigos, sentados em cada lado, mantinham suas expressões extasiadas em direção a ela. Mas o olhar de Maddy estava atraído por apenas uma pessoa. 84


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Os ombros de Jack estavam mais largos do que nunca no casaco claro. Ela já conseguia sentir a aspereza de seu queixo recém-barbeado, já conseguia sentir o cheiro masculino que a fazia se sentir tão aquecida e valorizada. Os olhos dele estavam dançando. Dançando de amor. O mesmo amor único que ela sentira florescer nos últimos nove meses. Hoje ela mal conseguia se conter de vontade de gritar e contar ao mundo. Drew Tyler, com seu terno diurno, pegou a mão dela e ajudou a noiva a descer da sela rumo a uma plataforma elevada, e então descer os dois degraus até o gramado. — Eu nunca te vi mais linda. — Os olhos do pai dela brilhavam enquanto ele sorria. — Estou tão contente por você, querida. Sua mãe ficaria também... Com a emoção lhe preenchendo a garganta, ela apertava a mão do pai enquanto três damas de honra se agitavam para formar uma fila. A música aumentou. O pai enlaçou o braço dela no seu e Maddy fechou os olhos. A mãe dela e Dahlia estavam perto. Maddy podia senti-las derramando suas felicitações. O pai dela sussurrou ao ouvido: — Está pronta? Sorrindo, ela abriu os olhos e juntos eles deram o primeiro passo ensaiado. Ao lado de Jack, Snow estava esplêndido em um smoking black-tie. Ele havia até mesmo aparado a barba. Quando ele piscou para ela, o olhar de Maddy, através do tule fino de seu véu, procurou por Cait, sentada na fileira da frente. Beau, já com um ano de idade, estava empoleirado silenciosamente no colo dela, os olhos grandes grudados na "mamãe". Nell estava sentada ao lado deles, bem comportada também, usando um tutu cor de rosa que Cait deve ter providenciado para a ocasião. Então a música foi diminuindo e ela estava ao lado de Jack, lágrimas de pura alegria enevoando seus olhos. Ele nunca estivera tão bonito. Mais orgulhoso. Ele ergueu o véu dela cuidadosamente e o ministro pegou sua bíblia. Quando os votos e as alianças foram trocados, Beau bateu mais palmas do que qualquer um ali. Ele pulava no colo de Cait e, com os cachinhos louros pendurados, se apressou em seu terninho esportivo para abraçar as pernas de seus pais bem apertadamente. O café-da-manhã do casamento foi servido em uma tenda cintilante com um teto de seda branca cheio de ondulações. Quando Jack a guiou até a pista de dança para a valsa nupcial, Maddy quis avisar ao marido que não se esquecera de sua promessa: hoje ela havia cavalgado e trocado seu nome. Ele precisava se aprontar para dançar a polca. Mas Maddy tinha notícias bem mais importantes a dar e não conseguia conter mais o momento. — Tem uma coisa que preciso te contar. — Novidades? Imagino se são tão boas quanto as minhas. Mas você primeiro. Ela o encarou. Ele parecia tão entusiasmado, ela sorriu e inclinou a cabeça. — Não, você primeiro. — Snow e eu tivermos uma idéia para transformar Leadeebrook em um museufazenda de ovinos. Podemos arrumá-lo para o público, ter shows de cães pastores, mostruários de tosquias, apresentações de canções e poesias do campo. Você estava certa. Este lugar é especial demais, tem muita história para ficar largado e declinar. Maddy sorriu e enlaçou o pescoço dele. Jack se mantinha ocupado o suficiente 85


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com seu portfólio de investimentos, assim como sendo um ótimo pai para Beau, mas em alguns dias ela captava a inquietude nos olhos dele. O projeto do museu era exatamente do que ele precisava. Mas eles também passavam um bom tempo em Sidney agora, voltando para Leadeebrook em momentos tranquilos de vez em quando. Não era um compromisso de nenhuma das partes. Eles estavam simplesmente aproveitando o melhor que os dois mundos tinham a oferecer. — Obrigado por me trazer de volta à vida — ele murmurou enquanto os convidados do casamento dançavam em torno deles. — Eu te amo tanto, só quero agarrar você e nunca soltar. Na verdade... — Pegando-a de surpresa, ele a agarrou pela cintura e a girou num círculo de modo que seus pés deixaram o chão e sua cauda girou como um rio branco cintilante em volta deles. Ela estava gargalhando, sem ar, quando ele a colocou no chão. Tonta, ajeitou sua tiara de diamantes pérolas. — Talvez tenhamos de ir um pouco mais devagar nesse tipo de coisa espontânea durante um tempo. — Quando ele ergueu as sobrancelhas, questionando-a, ela provocou: — Só por uns sete ou oito meses. — Você quer dizer que está... Você e eu... Maddy... Vamos ter um bebê? Ela mordeu o lábio, mas não conseguiu conter o sorriso de orelha a orelha. Ele comemorou e fez gestos de alegria, ficou prestes a agarrá-la e girá-la outra vez. Mas parou e então deu um passo atrás. O sorriso dele desapareceu. — Você precisa se sentar? Um ligeiro mal-estar passou pelo estômago dela, mas ela o assegurou rapidamente: — Estou bem. Fantástica. O medico diz que tudo está melhor do que nunca. — Ela segurou as mãos dele, buscou os olhos dele. — Mas se você quiser adiar nossa lua-demel em Paris... Quero dizer, se estiver preocupado sobre o fato de eu voar agora ou algo assim... Eu vou entender. Ele piscou lentamente e franziu a testa. — Estivemos em Nova York — ele disse —, Havaí e Nova Zelândia com Beau. Não vejo motivos para este pequenino não ir à França... — ele colocou a palma quente na barriga dela e sorriu — ...mesmo que seja daqui. Maddy passou os braços em volta dele. — Tem certeza? — Sim. Estou certo. — Os braços fortes a puxaram para perto. — Sabe o que mais amo em você? — Acho que sei. — Brincalhona, ela se esticou e roçou os lábios adoráveis sobre os dele. Ele riu e o estrondo vibrou pelos ossos dela. — Além disso. — Conte-me. 86


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— Eu amo o fato de todo dia eu descobrir algo novo e maravilhoso que só me faz amar você mais. Uma lágrima de surpresa escapou e rolou pela bochecha dela enquanto ele inclinava a cabeça em sua direção. Eles se beijaram sem parar. Depois de Maddy murmurar o quanto o amava também, ela apoiou o rosto no peito dele e contemplou o fabuloso futuro deles juntos. Um chorinho de "Papai!" chamou a atenção dos dois. Eles se viraram. Cait estava segurando Beau. — Seu filho quer dançar. Rindo, Jack apoiou Beau nos braços e Beau bateu palmas, enquanto Maddy tinha a maravilhosa sensação de completude. Contentamento. Ela sempre quis se sentir parte de algum lugar, mas ninguém poderia pertencer a um emprego ou endereço. Dançando com Jack e o filho deles no dia do casamento, com mais um lindo bebê a caminho, Maddy sabia exatamente quem era e onde precisava estar. Com seu coração. Com sua família. Onde quer que o amor deles estivesse, se Deus quisesse, ela também estaria.

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Próximo Lançamento

AO ALCANCE DO CORAÇÃO Maureen Child

— Dez mil pratas é um bocado de dinheiro — Brian Reilly disse e, pegando a sua cerveja, recostou-se no surrado assento de couro artificial vermelho. — Não vá fazendo planos. — Seu irmão, Aidan, acrescentou rapidamente, ao pegar uma tortilha de um recipiente de madeira no centro da mesa. — Lembre-se .de que não vai ficar tudo para você. — É — Connor acrescentou. — Vai ter que dividir conosco. — E comigo — Liam disse, sorrindo, para orientá-lo. . — Eu sei. Brian sorriu para os irmãos. Liam, o mais velho por uma diferença de três anos, parecia à vontade, sentado no salão de bar mal iluminado. O que não era tão incomum, a não ser pelo fato de Liam ser um padre. Mas, acima de tudo, ele era um Reilly. E os irmãos Reilly eram uma unidade. Agora e para sempre. Quando a palavra unidade passou pela cabeça de Brian, ele olhou para os dois outros homens na mesa. Era como olhar para um espelho, duas vezes. Os trigêmeos Reilly: Aidan, Brian e Connor. Batizados em ordem alfabética, de acordo com a sua ordem de chegada ao mundo, os três se tornaram inseparáveis desde o instante em que deram os primeiros passos. Até se juntaram aos fuzileiros na mesma data. Sempre estiveram presentes um para o outro, para dar apoio moral ou para descer o braço, o que quer que fosse necessário. Agora, estavam reunidos para comemorar uma sorte inesperada. O tio-avô, Patrick, ele mesmo o último sobrevivente de trigêmeos, morrera, e não tendo outros parentes, deixara dez mil dólares para os trigêmeos Reilly. Agora, tudo que tinham de fazer, era decidir como repartir o dinheiro. — Eu sugiro dividirmos o dinheiro por quatro — Connor disse, lançando um olhar para Liam. — Os Reilly sempre foram partidários de "um por todos e todos por um". Liam sorriu. — Eu adoraria dizer: não, muito obrigado — ele afirmou. — Mas como a igreja está precisando de um telhado novo, tenho de admitir que gosto da maneira de pensar de Connor. — Dois mil e quinhentos não vão comprar um telhado novo — Aidan retrucou. — Na verdade, não vai comprar muito para nenhum de nós. —Também estava pensando nisso — Liam admitiu, olhando para os irmãos. — Por que não fazemos uma aposta? O vencedor leva tudo. Brian sentiu um arrepio, e sabia que os irmãos estavam sentindo o mesmo. Apostar era a coisa favorita deles. Ainda mais contra os irmãos. Porém, o sorriso tranqüilo no rosto de Liam o alertou que ele não gostaria do que estava por vir. É verdade que Liam 88


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era um padre, contudo, sendo primeiro um Reilly, ele podia ser ardiloso. — Que tipo de aposta? — Brian indagou. Liam sorriu. — Está preocupado? — De jeito algum — Aidan respondeu. — O dia que um Reilly fugir de um desafio, é o dia em que... — ... ele estará sob sete palmos de terra — Connor completou pelo irmão. O irmão mais velho voltou a sorrir. — Vocês sempre estão falando sobre comprometimento e sacrifício, não é? Brian olhou para os irmãos, antes de assentir. — Somos fuzileiros. Comprometimento e sacrifício fazem parte de nós. — Bom saber. — Liam apoiou os cotovelos no tampo da mesa e alternou o olhar entre os trigêmeos, abaixando o tom de voz. — Porque isto vai separar os fuzileiros dos meninos. — Ele fez uma pausa dramática, antes.de dizer: — Nada de sexo por noventa dias.

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