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Laços reais! O dever real de Jaul era casar-se com uma noiva apropriada. Mas, para isso acontecer, precisa se divorciar da mulher que o traiu. Ao reencontrar Chrissie Whitaker, é surpreendido por uma inesperada revelação. Arrasada ao ser abandonada por seu príncipe encantado, os gêmeos eram o único consolo para o coração partido de Chrissie. Porém, agora que descobriu a verdade, Jaul está determinado a assumir os bebês como seus herdeiros legítimos. Será que Chrissie conseguirá esquecer o passado doloroso e aceitá-lo novamente como marido?


Unidos pelo ouro, cativados pela paixĂŁo!


– Tenho certeza que está imaginando por que vim aqui. – Não foi para beijá-lo nem sonhar em arrancar suas roupas outra vez, completou em pensamento enquanto seu rosto queimava de vergonha. – Precisava vê-lo porque você devia ler isto antes... Ele tornou a arquear as sobrancelhas negras, pegando os documentos da mão dela com um ar de curiosidade. Chrissie não mencionara o beijo e Jaul estava grato por isto, porque sabia que ela possuía a habilidade de criar um drama sobre coisas que ele julgava triviais. As circunstâncias do momento os haviam atirado de volta ao passado e isso era tudo. Não precisavam dizer mais nada. – O que é isto? – Jaul viu o nome da mãe nas certidões e enregelou. – Então você teve filhos? – E você também – explicou Chrissie em monossílabos. – Fiquei grávida, Jaul.


Ele permaneceu imóvel e prendeu a respiração. Grávida? A palavra parecia um grito. No primeiro momento não conseguiu acreditar, porém logo seu cérebro rápido e inteligente começava a checar datas, fazer cálculos, reconhecendo que, gostando ou não, era uma possibilidade. E uma na qual não queria pensar. Mas tinha filhos, um menino e uma menina. A revelação era tão chocante que literalmente não conseguiu pensar direito por vários segundos opressivos. A mulher da qual pretendia se divorciar era a mãe de seus filhos. Intimamente estremeceu com a revelação, logo percebendo como essa verdade devastadora mudaria tudo. Tudo!


Querida leitora, Quando o notório príncipe Jaul pediu Chrissie Whitaker em casamento, ela acreditou estar vivendo um sonho. Até ser abandonada pelo marido e expulsa do país pela família real. Sozinha e com o coração partido, ela volta para casa… e descobre estar grávida! Agora, Jaul é rei de Marwan e precisa de uma esposa adequada. Mas, antes, terá de reencontrar Chrissie e exigir o divórcio. Boa leitura! Equipe Editorial Harlequin Books


Lynne Graham

PAIXÃO SECRETA Tradução Angela Monteverde

2016


CAPÍTULO 1

O REI Jaul, que recentemente subira ao trono de Marwan após a morte de seu pai, Lut, olhou em volta do pátio coberto por palmeiras ao lado de seu escritório. Uma linda morena jogava bola ali com sua sobrinha e sobrinho. Seu nome era Zaliha. Educada, elegante e com uma personalidade excelente, daria uma rainha maravilhosa, refletiu Jaul. Então por que ele ainda não a pedira em casamento? Com ar sombrio, fez a pergunta para si mesmo. Marwan era um país do Golfo, pequeno, mas rico por causa do petróleo, e muito conservador. Não se esperava ali que um rei permanecesse solteiro por muito tempo.


Autoridades do governo não faziam segredo de que ansiavam por vê-lo com uma noiva. Uma dinastia real não era considerada segura até que houvesse a perspectiva de um herdeiro, e Jaul era filho único, sendo que seu pai fora filho único também. Os jornais não paravam de especular. Jaul não podia nem ao menos ser visto conversando com uma moça sem causar comentários. Ele comprimiu a boca larga e sensual, recordando momentos selvagens da época em que fora um rapaz arrojado. Para ser honesto consigo mesmo, sabia muito bem por que hesitava a respeito do casamento. Sabia também que por mais bonita que Zaliha fosse, não havia química entre os dois, entretanto não era isso que desejava no momento? Um casamento sem a atração física selvagem e a excitação que no passado quase o levara à ruína? Uma batida discreta à porta anunciou a chegada de Bandar, que atuava como principal


conselheiro da família real. – Perdão se cheguei um pouco cedo – disse o homenzinho careca com voz séria e fazendo uma reverência com grande dignidade. Jaul convidou-o a se sentar e voltou para sua escrivaninha, já irritado com a perspectiva de uma discussão política, o que costumava fascinar Bandar muito mais do que fascinava qualquer outra pessoa. – Trata-se um assunto muito delicado – informou Bandar com voz tensa. – Porém é meu dever como seu conselheiro trazê-lo à sua presença. Imaginando sobre o que o senhor estaria se referindo, Jaul analisou-o com grande confiança. – Não há nada que não possamos discutir... – começou. – Mesmo assim é um assunto que primeiramente discuti 18 meses atrás com meu antecessor, Yusuf, que me instruiu para nunca


mais mencioná-lo a fim de não causar ofensa – interrompeu Bandar muito constrangido. – E se for esse o caso, por favor, aceite minhas desculpas antecipadas. Yusuf fora o conselheiro do pai de Jaul e se aposentara depois da morte do rei Lut, quando Bandar o substituíra. Jaul arqueou as sobrancelhas negras em um misto de curiosidade e consternação enquanto refletia qual segredo obscuro e tenebroso de seu pai seria revelado agora para ele. Pois o que mais poderia ser esse assunto muito delicado? – Não me ofendo facilmente, e seu papel é me proteger dos problemas legais – replicou Jaul. – Respeito esta sua responsabilidade. – Então vou começar – murmurou Bandar abruptamente. – Há dois anos você se casou com uma jovem inglesa, e apesar desse fato ser conhecido apenas por algumas pessoas, é mais do que tempo de lidar com essa situação da maneira correta.


Era preciso muita coisa para silenciar Jaul, cuja natureza teimosa, apaixonada e impetuosa era bem conhecida nos meios palacianos, porém o pequeno discurso de Bandar abalou-o seriamente. – Mas não houve um casamento de verdade – retrucou engolindo em seco. – Disseram-me que a cerimônia não foi legal porque não obtive a permissão antecipada de meu pai. – Temo que tenha sido apenas uma vã esperança por parte de seu pai, que desejava que o casamento fosse ilegal, e Yusuf não teve coragem de lhe dizer que, na verdade, foi válido... Jaul empalideceu por baixo da tez saudável e bronzeada. Seus olhos se estreitaram, demonstrando o espanto com a revelação. – Foi um casamento legal? – repetiu, sem poder acreditar. – Não existe nada na nossa Constituição que proíba um príncipe coroado de Marwan de se


casar com quem escolher. Você estava com 26 anos, já não era um adolescente, e esse casamento ainda vale porque nada fez desde então para romper essa ligação. Com os ombros largos e rijos sob o manto de linho cor de creme, Jaul franziu a testa, tentando calcular a magnitude do abalo que de repente atingira seus planos futuros. Ele já era casado. Na verdade, ainda era casado. Como só vivera algumas semanas com a esposa antes de se afastar, o que Bandar agora dizia provocara um choque e tanto. – Nada fiz para romper essa ligação porque fui informado de que o casamento era ilegal e, portanto, nulo. Como um contrato – admitiu. – Infelizmente não é esse o caso – suspirou Bandar. – Para se libertar desse casamento é preciso se divorciar sob as leis britânicas e as leis de Marwan. Jaul dirigiu-se para a janela por onde ainda podia ver Zaliha brincando com os sobrinhos,


porém mal notou a cena. – Não fazia ideia disto. Deveria ter sido informado sobre a situação meses atrás... – Como já disse, Yusuf era meu superior e ele me proibiu de mencionar o assunto... – Há três meses meu pai faleceu – lembrou Jaul com severidade. – Precisei garantir a veracidade do que estou dizendo para então trazer o assunto até sua presença. Há pouco descobri que, apesar da separação, sua esposa também não procurou se divorciar... Jaul enrijeceu; as feições morenas e bonitas se crisparam. – Por favor, não se refira a ela como minha esposa – murmurou sem emoção. – Devo me referir à dama em questão como sua rainha? – insistiu Bandar com pouco tato. – Porque Chrissie Whitaker é isto, quer saiba ou não. A esposa do rei de Marwan sempre detém o título de rainha.


Jaul deixou escapar um suspiro controlado e cerrou os punhos com agressividade. Cometera um erro grave na vida que acabava de voltar para assombrá-lo da maneira mais terrível e no pior momento. Casara-se com uma interesseira que o abandonara na primeira oportunidade em troca do vil metal. – Naturalmente respeito o fato de seu pai ter desaprovado a jovem, mas quem sabe agora... – Não, meu pai estava certo ao julgar o caráter dela, que não servia nem para ser minha esposa nem minha rainha – resmungou Jaul com um leve colorido que acentuava os malares altos enquanto se forçava a admitir o que feria seu orgulho. – Fui um filho rebelde, Bandar... mas aprendi minha lição. – As lições da juventude são em geral muito duras – comentou Bandar em voz baixa, aliviado pelo fato de o atual rei não se parecer com o falecido pai, que se enfurecia e se ofendia


com qualquer um que lhe dissesse algo que não desejasse ouvir. Mas Jaul mal o ouvia. Na verdade estava sendo bombardeado com a volta de lembranças indesejadas e havia muito reprimidas. Via Chrissie se afastando dele, seu glorioso cabelo de tom louro platinado dançando ao vento, as longas pernas bem-feitas como as de uma gazela. Porém ela sempre estivera se afastando dele, lembrou com frio cinismo. Desde o início, Chrissie fizera um jogo calculado, inteligente e de longo prazo para seduzi-lo. Ela desafiara a natureza sensual de Jaul, que nunca antes havia sido rejeitado por uma mulher. Desafiara seu ego com fingida indiferença. Ele levara dois anos para conquistá-la e ela só se tornara sua de verdade quando ele capitulara e lhe dera uma aliança de casamento. Não fora surpreendente que, depois desse longo período de celibato e


frustração, Chrissie Whitaker tivesse se tornado uma obsessão sexual insuperável para Jaul. O pagamento pela sua fraqueza logo fora cobrado. Os dois haviam discutido quando ele deixara Oxford para voltar a Marwan sem Chrissie e a chamado do pai. E, surpreendentemente, jamais tornara a vê-la desde aquele dia. Talvez para sua sorte o destino o separara de Chrissie. Após um grave acidente, Jaul acordara na cama de um hospital para encontrar o pai sentado ao lado como uma sentinela, as feições envelhecidas cheias de sofrimento e apreensão. Antes que pudesse dar as más notícias, o rei Lut erguera a mão do filho em um gesto desajeitado de conforto pela primeira vez na vida, e então confidenciara para Jaul que Chrissie não viria visitá-lo durante sua convalescença. Seu casamento, dissera o rei, não fora válido e Chrissie aceitara uma compensação financeira para esquecer que Jaul


já fizera parte de sua vida. O rei Lut comprara seu silêncio e discrição com uma grande soma em dinheiro que evidentemente a compensara pela perda de um marido e lhe dera segurança no futuro. Por um rápido segundo Jaul recordou uma das fantasias mais insanas que o dominara enquanto jazia indefeso no leito do hospital. Ciente de sua imunidade diplomática no Reino Unido, sonhara em raptar Chrissie. Retornando ao momento presente, balançou a cabeça morena devagar, espantado com os truques que a mente podia fazer. Sofrera pelo fato de Chrissie não ter sido realmente sua esposa e de ter aceitado dinheiro para se afastar dele. Chrissie ficara muito feliz em abandonar seu príncipe árabe em troca de uma vida de riqueza sem ele. Apenas pensamentos irados, amargos e vingativos haviam consolado Jaul enquanto ele lutava para se recuperar e ficar de pé outra vez.


– Desejo saber como quer que este assunto seja conduzido – disse Bandar, forçando Jaul a se concentrar no momento presente. – Com a ajuda de nosso embaixador em Londres, contratei os serviços de uma firma de advocacia muito bem conceituada para a preparação dos documentos do divórcio. Depois de uma separação tão longa, os advogados me garantiram que o divórcio será uma mera formalidade. Devo instruir a firma para entrar em contato com Chrissie Whitaker imediatamente? – Não... – Sem aviso, Jaul voltou-se com as feições bronzeadas muito tensas. – Se ela ainda não sabe que continuamos marido e mulher, não quero que uma terceira pessoa lide com isto. Informá-la sobre este fato deve ser minha responsabilidade. Bandar franziu a testa, surpreso com tal declaração. – Mas, senhor...


– Devo isto a ela. Afinal, foi meu pai quem a confundiu sobre a legalidade de nosso casamento. Chrissie é uma pessoa muito nervosa. Creio que uma aproximação pessoal será melhor para agilizar uma conclusão positiva. Eu mesmo irei levar os papéis do divórcio para ela. – Compreendo. – Bandar acenou concordando, seguindo a lógica de seu real empregador. – Uma aproximação diplomática e discreta. – Isso mesmo – ratificou Jaul, maravilhado com a excitação que o dominava só em pensar que iria rever Chrissie. Nada diplomático ou discreto. Jamais uma mulher o excitara tanto quanto ela, nem antes nem depois de conhecêla. Naturalmente, agora que sabia o quanto Chrissie era mercenária e má, essa atração era apenas um reflexo do passado, concluiu. Ele era inteligente e maduro demais para se deixar levar pelos hormônios como um adolescente.


Lutara muito contra essa faceta de seu caráter assim que compreendera o mal que sua libido podia lhe causar. A lição com Chrissie fora dura, e ele aprendera depressa e a pusera em ação. Nunca mais voltaria a se colocar em uma posição perigosa com uma mulher. E isso havia sido a principal razão para começar a procurar uma esposa apenas por interesse de Estado. Seu humor melhorou ao pensar assim, mas logo franziu a testa e apertou os lábios sensuais ao lembrar da perspectiva de lidar com Chrissie de maneira civilizada. Não havia nada de civilizado no modo como ela o fazia se sentir... nunca houvera... COM OS braços carregados de presentes e cartões, Chrissie abriu caminho para sair pelas portas da frente da escola primária onde lecionava no maternal, e se dirigiu para o carro.


– Deixe-me ajudá-la... – Um rapaz alto e musculoso de cabelo castanho e sorriso simpático correu para seu lado, retirando alguns presentes dos seus braços para que ela pudesse abrir a porta do carro. – Nossa! Você é mesmo popular com seus alunos! – Você também não ganhou um monte de coisas? – perguntou Chrissie a Danny, que era professor do sexto ano e encarregado dos jogos. – Sim. Garrafas de vinho, colônias famosas – disse ele em tom divertido, abrindo o portamalas para que ela empilhasse seus presentes ali. – Nesta área privilegiada da classe média londrina, o último dia de aulas é como vencer um concurso na televisão. Chrissie sorriu sem querer, o rosto adorável todo animado, os olhos azul-turquesa reluzindo com ar de riso. – Foram presentes demais – concordou. – Os pais gastam muito.


Danny fechou o porta-malas e se encostou ali. – Então, quais são seus planos para o resto do verão? – Vou ficar com minha irmã... viajando um pouco – confidenciou ela constrangida. – A irmã casada com o italiano rico? – perguntou Danny. – A única irmã que tenho – retrucou Chrissie, chacoalhando as chaves do carro para que ele entendesse a indireta e saísse do caminho. Danny franziu a testa. – Só se é jovem uma vez, sabia? Não pensa nunca em tirar uma folga da família e fazer algo mais ousado por conta própria? Chrissie forçou-se a manter o sorriso. Dois anos atrás enveredara por um caminho ousado que acabara em desastre! Agora agia com cautela e discernimento e lutava para superar o estrago que fizera. Adorava Lizzie, sua irmã


cinco anos mais velha, e quando sua própria vida dera errado, a convicção de Lizzie de que falhara de algum modo e fora responsável pelo erro de Chrissie a deixara com um remorso difícil de apagar. – Lizzie ama você... só quer vê-la feliz – dissera o cunhado, Cesare, certa vez. – Deveria confiar nela o suficiente para lhe contar toda a história. Isso a faria se sentir melhor. Entretanto Chrissie jamais contara toda a história de sua queda para alguém. Fora uma decisão estúpida e impulsiva pela qual ainda pagava. Já era ruim viver com os próprios erros, mas seria pior compartilhar a verdade sobre eles com outras pessoas e ouvir suas críticas. – É claro que estarei na Cornualha – lembrou Danny, como se Chrissie não soubesse. Todos os professores durante meses haviam ouvido seus planos de surfar no verão. – Espero que se divirta muito. – Chrissie passou na sua frente para abrir a porta do carro.


Danny segurou-a pelo pulso delicado para detê-la e a fitou nos olhos. – Iria me divertir mais se você fosse comigo – confessou. – Apenas bons amigos, nada mais. Uma última chance, Chrissie. Por que não vive um pouquinho e se solta? Com os olhos azuis faiscando de aborrecimento, Chrissie deu um safanão para livrar o pulso. – Como já disse, tenho outros planos... – Algum sujeito foi muito canalha com você, não foi? – comentou Danny com o rosto vermelho de constrangimento enquanto se afastava um passo e enfiava as mãos nos bolsos. – Mas nem todos são canalhas, Chrissie. Se ainda deseja viver, precisa se arriscar. Respirando depressa, Chrissie ocupou a direção e fechou a porta do carro. Ela desejara ter uma vida inteiramente diferente da que tinha agora. Sonhara em galgar as etapas acadêmicas, tentar o doutorado e usufruir da


liberdade quando tivesse uma posição de destaque. Mas descobrira que a vida tinha o hábito de apunhalar pelas costas quando menos se esperava, forçando a pessoa a repensar sobre seus sonhos quando aparentemente já se encontrava à beira do sucesso. No momento não estava em posição de tentar fosse lá o que fosse, porque tinha responsabilidades que restringiam sua independência e liberdade. E no seu modo de pensar o mais vergonhoso era ter que depender da generosidade da irmã para prosseguir. E poderia ter sido tudo tão diferente caso tivesse tomado a decisão certa. M UITO TEMPO antes de Chrissie conhecer Jaul, ela e a irmã Lizzie haviam herdado uma ilhazinha grega da falecida mãe. O marido de Lizzie, Cesare, comprara a ilha, Lionos, das irmãs por uma pequena fortuna. A venda se realizara antes que os gêmeos de Chrissie fossem concebidos, então ela optara por colocar


a maior parte de seu dinheiro em um fundo que só poderia acessar quando completasse 25 anos. Na época pensara ser uma ideia sensata... a quantidade de dinheiro envolvida a deixara zonza, e Chrissie temia secretamente ter herdado da mãe o defeito de ser gastadora. Francesca Whitaker fora uma mulher extravagante e irresponsável com dinheiro, e Chrissie resolveu conservar cuidadosamente a fortuna que lhe caíra do céu para garantir seu futuro. No momento ali estava, com 24 anos, e tarde demais percebera que se pudesse pôr as mãos nas suas economias seria financeiramente independente. Mas, ao contrário, para poder seguir a carreira de professora precisava compartilhar de Sally, a babá empregada de sua irmã, para tomar conta de seus próprios filhos... porque apenas com o salário de professora não conseguiria pagar por isso.


Por outro lado, seguindo os conselhos de Cesare, tomara uma boa decisão ao usar parte de seus ganhos para comprar um apartamento de dois quartos antes de colocar o que sobrara no investimento também. E comprara o apartamento à vista, o que lhe permitira ter um carrinho também e contribuir com uma parte do salário de Sally. É claro que, segundo Lizzie, Chrissie estava fazendo um favor para ela e o marido mantendo Sally bem empregada enquanto o casal estava fora do país. E quando a irmã vinha a Londres com o marido e os filhos para uma visita, Chrissie ficava hospedada na casa deles na cidade até que viajassem de novo. Assim era mais conveniente para todos. Retornando ao momento atual, carregada com sacolas de presentes e cartões, Chrissie abriu a porta do seu apartamento térreo. Sally surgiu à porta da cozinha.


– Quer chá? – perguntou a jovem, uma morena curvilínea com um amplo sorriso. – Adoraria. Não vai sair esta noite? – provocou Chrissie, pois Sally tinha uma vida social agitada e costumava correr para a casa de Lizzie a fim de se arrumar. – Hoje não... a não ser que faça um rombo no meu orçamento! – brincou fazendo uma careta. Chrissie acomodou umas sacolas e se dirigiu para a sala de estar. Dois bebês brincavam com cubos de plástico no centro do tapete. Ambos tinham cabelo ondulado e negro, e olhos também muito escuros. Tarif deixou cair seu cubo, gritou de alegria e começou a engatinhar depressa na direção de Chrissie. Soraya riu e, como raramente era tão agitada como o irmão, apenas ergueu os braços para ser carregada. – Olá, meus queridos! – exclamou Chrissie com carinho, seu rosto suavizado ao cair de joelhos para acariciar Tarif e estender os braços para Soraya.


– Mã-mã – disse a menina com seriedade, tocando a face de Chrissie com a mãozinha rechonchuda. Tarif puxou o cabelo da mãe e plantou um beijo estalado em seu rosto, se aconchegando o máximo que podia nela. Nesse instante todas as preocupações e pequenos aborrecimentos do dia desapareceram para Chrissie. Os gêmeos haviam conquistado seu coração na hora do nascimento. Ficara com tanto medo de não conseguir criar duas crianças, mas Lizzie a levara para sua casa na cidade e a ensinara tudo que sabia. – Você conseguirá... todas nós conseguimos – garantira Lizzie. Mas ninguém dissera a Chrissie que, quando olhasse para seus filhos, sentiria o amor transbordando de seu coração. Enquanto estava grávida, tentara pensar neles como os filhos de Jaul e se sentira muito ressentida com ele por tê-la colocado naquela posição. Não se


sentia preparada e temera a situação de mãe solteira. Mas, assim que os gêmeos nasceram, só pensara em fazê-los crescer saudáveis e felizes. – Eu os levei ao parque esta tarde. Tarif fez um escândalo quando o tirei do balanço – contou Sally. – E estava se jogando tanto para a frente que precisei deitá-lo na grama até que se acalmasse. Fiquei espantada. – Ele só está querendo desafiar você – explicou Chrissie. – Mas Soraya é igualzinha se for contrariada. Eles gostam de testar as pessoas. E são muito inconstantes. Como o pai, refletiu Chrissie em silêncio. A imagem de Jaul surgiu em sua mente; cabelo longo e negro como asa de corvos espalhado sobre os ombros, olhos escuros brilhando de raiva. Intenso demais, pensou ela. Quente no temperamento, sangue quente e quente na cama. E ela se sentiu quente ao pensar nele.


Entretanto Jaul também era incrivelmente teimoso, impulsivo e imprevisível. – Está se sentindo bem? – perguntou Sally, tirando depressa os gêmeos dos braços lânguidos da mãe. – Ficou pálida de repente e pareceu sair de órbita. – Estou bem. – Chrissie corou até a raiz do cabelo louro, levantou-se do chão e correu para a cozinha pequena a fim de preparar o chá no lugar de Sally. De vez em quando o passado voltava a assaltá-la e a agredia sem aviso. Uma lembrança surgia e o tempo parecia parar, lançando-a de volta a uma época que já se fora. Uma palavra a esmo, um cheiro familiar ou uma música podiam estraçalhá-la em segundos, deixando-a à mercê do velho sofrimento. Teria esquecido Jaul se não o tivesse amado tanto. E pelo bem das crianças, era bom tê-lo amado mesmo que o amor não


tivesse durado e mesmo que ele a tivesse usado e enganado. O dinheiro que o pai dele lhe oferecera fora a última gota, revelando tudo que Chrissie precisara saber sobre o canalha que lhe garantira que estavam casados e que sempre ficariam juntos. Jaul pensava que o dinheiro era a solução para todos os problemas, curando mágoas e desapontamentos em um passe de mágica. A imensa fortuna dele o fazia escapar de todas as complicações desagradáveis. “Juntos para sempre” tinha outro significado para Jaul. “Juntos para sempre” até que ele se entediasse. Infelizmente Chrissie nunca pensara que um dia ela também se transformaria em uma complicação cansativa para ele. – As pessoas esperam que eu seja generoso – dissera ele certa vez. – Só porque se tem dinheiro não quer dizer que se deva esbanjar demais – replicara


Chrissie. – É extravagante, perdulário e parece que quer se exibir. Jaul fitara-a, ofendido. – Eu não me exibo! É claro que nunca precisara se exibir para chamar a atenção dos outros. Era estonteantemente lindo e fazia as mulheres virarem a cabeça para olhá-lo onde quer que fosse. E, se isso não bastasse, seus carros esportes reluzentes, o exército de seguranças e o seu estilo de vida luxuoso também impressionavam muito. Chrissie passou uma caneca com chá para Sally, que voltara a colocar os gêmeos no chão para brincar. – Empacotei todos os seus brinquedos favoritos e coloquei no meu carro. Uma coisa a menos para você se preocupar quando fizer as malas amanhã – disse Sally. Bloqueando as lembranças, Chrissie sorriu para a babá.


– Obrigada, mas passo tanto tempo agora na casa de Lizzie que posso preparar a bagagem de olhos fechados. Estou louca para rever minha irmã e as crianças. – Max e Giana ficarão encantados com os gêmeos agora que estão maiores – comentou Sally. – Giana vai estranhar porque não ficam mais quietos onde os colocamos. – Chrissie riu, lembrando de sua pequena sobrinha mandona que tratava Tarif e Soraya como se fossem bonecos grandes e preparava chás de mentirinha para eles. – Ou porque irão pegar os brinquedos dela. Quando Sally foi embora, Chrissie deu jantar aos gêmeos, deu banho e depois os colocou nos berços. Enquanto lia uma história para eles, refletiu onde ou se teria um trabalho quando o verão terminasse. Seu contrato era temporário e estava substituindo uma professora em licença-maternidade. Empregos permanentes


eram raros. Ainda pensando nisso, foi para a cama cedo e adormeceu profundamente. Na manhã seguinte, levantou-se no piloto automático para alimentar e vestir os gêmeos. Mais tarde os fez tirar uma soneca a fim de chegarem animados à casa da irmã. Ainda se movimentava pelo apartamento no short e camiseta que usara para dormir quando a campainha da porta soou. A curiosidade fizera Jaul ir diretamente do aeroporto para o endereço que Bandar lhe dera. Chrissie morava em um edifício de uma área residencial de bom nível, e ele sorriu com ironia. Podia não pagar pensão para a esposa desaparecida, mas o dinheiro que seu pai dera a ela sem dúvida garantira sua sobrevivência. Não que desejasse que Chrissie passasse fome, disse a si mesmo, contrariando os pensamentos vingativos que passavam pela sua cabeça. Dois anos antes, jazendo indefeso na cama de hospital, quando pensara que ela fora procurar


outros homens para se divertir, sentira um ódio impiedoso e intenso, mas isso passara, garantiu a si mesmo. Agora tudo em que pensava era em colocar um ponto-final naquela história confusa de um casamento que jamais deveria ter acontecido. Chrissie encostou-se ao olho mágico e franziu a testa. Um homem alto e moreno estava parado lá fora, de costas para a porta, de modo que não podia ver seu rosto. Passou a corrente de segurança e entreabriu a porta. – Sim? – Abra. É Jaul. Ela arregalou os olhos sem poder acreditar, atirando a cabeça para trás enquanto tentava enxergar freneticamente pela abertura. Viu de relance sua pele dourada, o queixo firme, e subiu até os olhos escuros e impacientes com cílios tão longos e negros que causavam inveja a qualquer mulher. Ele era inesquecível e o coração de Chrissie bateu mais forte, causando


um nó na garganta e impossibilitando que respirasse e falasse direito. Em um gesto instintivo, fechou a porta de novo, encostandose à parede porque suas pernas tremiam. Jaul resmungou e voltou a tocar a campainha com impaciência. Chrissie deslizou para o chão e segurou os joelhos. Era Jaul... dois anos atrasado. Era Jaul. A angústia a dominou e uma dor aguda a sufocou, trazendo de volta a dor causada pela traição dele. Não acreditava que Jaul resolvera simplesmente aparecer sem aviso. A campainha começou a tocar sem parar e ela estremeceu. Jaul era muito impaciente. Respirou fundo, tentando se acalmar. Que diabos ele fazia em Londres? Como descobrira seu endereço? E por que vinha vê-la depois de tanto tempo? Teria algo a ver com a morte recente do pai e sua subida ao trono? Após a visita do pai dele, Chrissie se recusara a


sucumbir ao desejo mórbido de pesquisar sobre Jaul na internet. Fechara a porta com firmeza para tal curiosidade, porém, por mero acaso no início da primavera lera algumas linhas no jornal sobre a morte repentina de seu pai. – Chrissie... – disse ele com os dentes cerrados do lado de fora. E sua voz provocou uma série de lembranças que ela desejava deter. Então se levantou de repente e afastou as recordações. Não iria ficar no chão por causa de um homem que destruíra sua vida!


CAPÍTULO 2

CHRISSIE DEU uma olhada atrás da cortina. Jaul estava parado na calçada com as costas viradas para ela de novo. Vários homens de terno escuro, sem dúvida seus seguranças, rodeavamno. O coração dela ainda estava acelerado e sentia o peito comprimido. Batera com a porta no nariz de Jaul, e essa não era a acolhida que ele costumava receber. Devia estar furioso, e nessas ocasiões ficava perigosamente imprevisível. Recusar-se a abrir a porta provavelmente não fora muito sensato da parte dela, refletiu Chrissie com preocupação. Quando ele começou a mover a cabeça morena e orgulhosa, ela se escondeu


atrás da cortina e, temendo que ele fizesse um escarcéu, voltou para a porta de entrada e aprumou os ombros, retirando a corrente e abrindo. Jaul deteve-se de repente com a mão estendida para a campainha. Chrissie surgiu no batente da porta e ele prendeu a respiração diante do short e camiseta que expunham suas pernas longas e as curvas dos seios. Estreitou os olhos e apertou os lábios, murmurando: – Chrissie... – O que faz aqui? – perguntou ela com frieza, no íntimo pensando como o tempo alterava as situações. Dois anos antes, se Jaul tivesse por fim aparecido, ela o agarraria e cobriria de beijos agradecidos. Porém esse tempo passara. Ele dilacerara seu coração, deixara-a sozinha para lidar com sua dor e jamais a contatara para se explicar ou mesmo pedir desculpas. E aquele silêncio terrível falara por si mesmo: Jaul nunca a amara, aliás, nunca se importara com


ela de verdade. Porque se tivesse se importado não lhe daria as costas sem nunca mais perguntar como ela estava. – Posso entrar? Preciso falar com você – disse ele com sua voz aveludada. – Bem, se é preciso... – Com as costas rijas Chrissie deu passagem. Lutava para não o encarar e não analisar sua aparência. Faria de tudo para ter essa conversa que ele desejava e depois o deixaria partir com indiferença. Jaul vestia-se como ela se acostumara a vê-lo no passado; casaco de couro macio e jeans. Esportiva e displicentemente elegante, com o físico maravilhoso de sempre. Descalço, ele tinha 1,95m de altura e era páreo duro para uma garota de quase 1,80m que gostasse de usar saltos altos. Ombros largos, quadris estreitos, coxas musculosas de cavaleiro e ventre liso de quem costumava se exercitar. O espesso cabelo negro tocava seus ombros,


formando uma moldura para o rosto bonito com nariz reto, malares altos e boca sensual. Porém eram os olhos escuros que primeiramente chamavam a atenção para serem sempre lembrados, refletiu Chrissie. Às vezes negros sob certas luzes, às vezes reluzentes como estrelas em um céu noturno, e sempre com um halo dourado como o de um tigre à luz do sol. Uma súbita excitação sexual a dominou tanto que a deixou de pernas bambas. Chrissie percebeu que estava em choque quando notou os brinquedos dos gêmeos espalhados no chão da sala e de repente lhe ocorreu que talvez Jaul a tivesse procurado para perguntar sobre as crianças. Mas como poderia ter descoberto que a deixara grávida? E por que demonstraria o menor interesse na existência de filhos ilegítimos concebidos por uma exnamorada? Pois era isso que Chrissie significava agora para ele... uma ex-namorada!


Jaul não desejaria saber que ela engravidara. Não desejaria revirar aquela lama, certo? Claro que não. Ela franziu os lábios polpudos com desdém. Marwan não era o tipo de país que faria vista grossa para as imoralidades de seu rei. Porém, naturalmente era possível que seu relacionamento com Chrissie fosse perdoado como “uma loucura da juventude”, concluiu ela com amargura. Sem nada dizer, Chrissie abaixou-se para recolher os brinquedos e atirá-los na cesta junto à parede. – Tem filhos agora? – perguntou Jaul observando seu lindo cabelo platinado cair como um véu de seda brilhante sobre os ombros, ocultando seu perfil. Passeou o olhar pela curva de seu quadril, a espinha dorsal e a coxa de porcelana que surgia. Coxas delicadas que ele entreabrira para se posicionar no meio delas e usufruir de um grande prazer, noite após noite. Jamais se


cansava de possuir Chrissie. Sentiu os músculos enrijecerem e um calor selvagem e sensual o dominou nesse momento. Cerrou os dentes brancos com raiva por não se controlar. Enquanto isso Chrissie pensava depressa ao recolher o último bloco, contente por ele não poder ver seu rosto. Era um alívio que Jaul ignorasse a existência dos gêmeos, um enorme alívio, refletiu, mas fora estranho ouvi-lo perguntar se tinha filhos, como se fossem completos estranhos. – Estou tomando conta dos filhos... de uma amiga – mentiu ela da maneira mais displicente possível. – Agora, o que posso fazer por você? Jaul percebeu o tom insolente. Aquela falsa polidez era para esconder o desdém de Chrissie. Ele bem sabia disso. Um leve colorido surgiu em suas faces enquanto os olhos negros brilhavam. – Tenho algo a lhe dizer que poderá ser um choque...


Chrissie inclinou a cabeça para um lado e seus olhos também brilharam como um mar cor de turquesa, emoldurados pelos cílios longos. – Vivi com você, Jaul. Nada que possa fazer ou dizer irá me chocar. Não depois do modo como me abandonou, pensou, mas engoliu esta afirmação, pois tinha orgulho e muito medo de se revelar magoada. Entretanto, a aparente serenidade dele a atingia como ácido. Era ofensivo vê-lo se aproximar com tanta calma depois do que lhe fizera, e imperdoável que ousasse fazer tal coisa. – Quanto mais cedo me disser, mais cedo irá embora – alfinetou Chrissie, sentindo a boca seca por causa da raiva que sufocava. Jaul respirou fundo, lutando contra a inoportuna excitação física. Mas o problema era que não fazia sexo havia muito tempo. Sendo um homem normal e saudável que precisava de alívio, não havia nada de estranho


por se sentir excitado com a proximidade de Chrissie. Apaziguado por esse raciocínio, ele foi direto ao assunto: – Há pouco soube que nosso casamento foi válido e por isto estou aqui. Chrissie não conseguiu acreditar e piscou diversas vezes, tropeçando e se encostando na estante às suas costas. – Mas seu pai me garantiu que o casamento foi ilegal, que não tinha sustentação nas leis, que... – Meu pai se enganou – cortou Jaul em um tom suave, mas final. – Meus advogados afirmam que a cerimônia foi legal e, portanto, precisamos agora nos divorciar. Chrissie estava profundamente abalada com a notícia e entreabriu a boca cor-de-rosa. – Oh, certo – concordou enquanto tentava ganhar tempo para absorver a importância do que ele acabara de dizer. – Então todo este


período em que estivemos separados estávamos, na verdade, legalmente casados? – Sim – aquiesceu Jaul de má vontade. – Ora, vejam só – comentou ela muito surpresa. – Há dois anos fui expulsa na porta da Embaixada de Marwan sob a alegação de que estava “delirando”, ainda que a cerimônia de nosso casamento tivesse sido realizada lá. Ninguém quis me receber, falar comigo ou até mesmo aceitar entregar minha carta para você... Na verdade, fui ameaçada pela polícia, caso me recusasse a ir embora de lá... – Do que diabos está falando? Quando esteve em nossa embaixada em Londres? – perguntou Jaul secamente, empertigado e no controle. Ela o encarou, sentindo seu magnetismo traiçoeiro. Seu corpo todo tremia. Jaul combinava atração animal e domínio racional, o que fazia as mulheres ficarem paralisadas. Era tão estonteamente belo que chamara sua atenção à primeira vista, embora Chrissie


soubesse que era namorador e indigno de confiança. E, na verdade, resistira durante meses até que ele a pegara em um momento de fragilidade, e ela repousara a cabeça nos ombros largos e ouvira suas mentiras doces. – Quando foi isso, Chrissie? – repetiu ele. – Ah, um pouco depois de meu marido imaginário desaparecer – respondeu Chrissie. – E então, logo após minha visita à embaixada, seu pai veio me ver, explicou sobre o casamento, e tudo ficou claro. – Não sei o que pretende contando tantas tolices, quando no momento tudo que interessa é o divórcio. Chrissie arqueou as sobrancelhas. – Não sei, Jaul... será que é a raiva que me motiva depois do que você me fez passar? – Raiva não tem cabimento aqui. Estamos separados há muito tempo. Quero o divórcio. Trata-se de uma medida prática, nada mais – disse Jaul sem piedade.


– Sabe que eu o odeio? – insistiu Chrissie com voz trêmula e quase histérica por vê-lo ali parado como se nada realmente importante tivesse acontecido entre os dois. Entretanto no passado ele a perseguira sem descanso e jurara que a amava e que apenas a segurança do casamento o satisfaria. Não havia nada mais mortal que uma velha história de amor, gritou uma voz dentro de Chrissie, e a prova estava lá na sua frente. Por seu lado, Jaul pensava na mulher que o deixara em uma cama de hospital sem visitá-lo. Encontrou o olhar frio de Chrissie com desdém. – E por que me importaria com isto? Chrissie pensou que aquele não era Jaul e que ele mudara completamente. Ele queria um divórcio; precisava de um divórcio. Mas ela ainda lutava contra o choque de saber que estavam casados legalmente há mais de dois anos.


– Por que seu pai me disse que nosso casamento não era válido? O rosto dele enrijeceu. – Não foi uma mentira. Ele acreditava que era ilegal... – Mas não era apenas nisso que ele acreditava – murmurou Chrissie. – Seu pai me disse que você havia participado da cerimônia deliberadamente, sabendo que era ilegal, e que poderia se livrar do compromisso a hora que quisesse... – Recuso-me a acreditar que meu pai diria ou mesmo daria a entender tal coisa – discordou Jaul balançando a cabeça de modo enfático. – Era um homem honrado e um pai amoroso... – Conversa fiada! – revidou Chrissie subitamente enfurecida e perdendo o controle com os comentários dele. – Fui expulsa de seu apartamento apenas com as roupas do corpo.


Fui tratada como uma intrusa sem-vergonha e completamente humilhada... – Estas enormes e ofensivas mentiras não a levarão a lugar algum comigo. Não vou ouvir! – exclamou Jaul, torcendo a boca bonita com desgosto. – Sei o tipo de mulher que você é. Meu pai lhe deu cinco milhões de libras para sair da minha vida, você aceitou e eu nunca mais ouvi falar ao seu respeito... – Bem, fui até a Embaixada de Marwan e fui tratada como uma maluca por dizer que era sua esposa – disse Chrissie sem emoção, recusando-se a responder a acusação sobre o dinheiro que ela se negara a usar. Jaul não estava preparado para ouvir ou acreditar em qualquer coisa que ela dissesse em defesa própria. Chrissie refletiu que aquele odioso dinheiro tivera a finalidade de comprar sua discrição e silêncio e dissuadi-la a procurar a mídia para


vender alguma história suja sobre suas experiências com Jaul. Ele voltou a cerrar os dentes. – Quero que esqueça o passado e se concentre na questão importante de agora... nosso divórcio. De improviso, os olhos de Chrissie brilharam como turquesas. – Quer o divórcio para se casar de novo, certo? – O que eu quero não importa – respondeu Jaul com frieza. – Precisa do meu consentimento para se divorciar – declarou Chrissie, passando por ele e refletindo que agora a bola estava no seu campo e que detinha o poder. Jaul esperava que fosse compreensiva e prestativa dando o que queria, mas por que ela deveria ser compreensiva? Nada lhe devia! – Naturalmente... para que o processo avance depressa não pode haver contestação...


– A resposta é não – interrompeu Chrissie, longe de cooperar. Ainda estava amarga pelo modo como ele a tratara e disposta a dificultar as coisas para Jaul. – Se somos de fato casados e agora você quer o divórcio, vai precisar brigar comigo. Jaul deteve-se à porta da sala e seus olhos negros reluziram. – Isto é ridículo... Por que você faria uma coisa tão estúpida? – Porque eu posso – replicou Chrissie, dizendo a verdade. – Não concordarei com nada apenas para agradar você e sei que quer manter nossa história em segredo. Afinal, nunca assumiu publicamente ter se casado com uma estrangeira, certo? – Eu acreditava que não houvera casamento de verdade! – gritou Jaul, cerrando os punhos. – Por que discutiria isto com você? – Bem, a maioria dos homens teria pelo menos conversado com a mulher que


acreditava ser sua esposa – enfatizou Chrissie com ironia, enquanto estendia a mão para abrir a porta. – Mas você... o que fez? Oh, sim... você me abandonou e mandou seu papai limpar a bagunça que deixou para trás! Um ódio mortal invadiu-o diante da injustiça dessa acusação e quase ficou tonto. Segurou o pulso de Chrissie antes que ela abrisse a porta, fitando seu rosto desafiador. – Você não vai falar assim comigo. Contendo a consternação, Chrissie forçou-se a rir em uma postura de desafio. – Mensagem para Jaul... Falo com você do jeito que quiser e você não pode fazer nada a respeito! Não merece a menor consideração da minha parte depois da maneira como me tratou... Com um puxão, Jaul soltou seu pulso. Com os olhos ainda ameaçadores, ele a analisou. – Esta é sua maneira de tentar elevar o preço? Quer que pague para me livrar deste


casamento? Dessa vez uma risada sincera escapou da garganta de Chrissie. – Oh, não! Tenho bastante dinheiro – respondeu alegremente. – Não quero um centavo de você. Só quero fazê-lo suar. Jaul temeu perder completamente o controle. Ninguém falava com ele assim desde a última vez que vira Chrissie. Suas personalidades haviam entrado em choque logo no primeiro dia. Ambos eram voluntariosos, determinados e de pavio curto. Haviam tido brigas homéricas e reconciliações ainda mais violentas. Na verdade essas reconciliações eram fantasias que ainda povoavam a mente de Jaul e ele ficava excitado só em lembrar delas, o que era indesejável e perigoso. Com a boca sensual torcida de modo irônico e as sobrancelhas escuras em arco, respirou fundo.


– Vejo que não há como conversar com você agora diante do seu estado de espírito... – Que estado de espírito? – revidou Chrissie com fúria, sentindo o aroma de sua colônia e reagindo diante do perfume tão seu conhecido que a fez sofrer como se a traição dele tivesse ocorrido no dia anterior. Também se lembrou das noites quentes de intensa paixão, pensamento que a enraiveceu ainda mais. – Voltarei mais tarde quando você já tiver tido tempo de pensar no que lhe disse – informou ele com sua teimosia típica. Chrissie mordeu o lábio antes de dizer que estaria hospedada na casa da irmã por vários dias. Aquilo não era da conta de Jaul, e não tinha a menor intenção de contar a ele qualquer coisa que o levasse a descobrir que não era apenas casado, mas pai de gêmeos. Isso seria como pôr fogo no estopim de uma vingança, refletiu, preocupada. Não queria arriscar antes de estar preparada.


O silêncio pesado prosseguiu. – O divórcio é a única opção sensata e não me recusarei a pagar pelo seu consentimento – admitiu Jaul com dentes cerrados e já sem paciência diante da relutância dela em discutir o assunto. – Como minha esposa, longínqua ou não, naturalmente deverá receber minha ajuda financeira... – Não quero nada de você – repetiu ela com teimosia. – Por favor, vá embora. Os dedos bronzeados tamborilaram na porta enquanto Jaul lutava contra o poderoso impulso de dizer algo, qualquer coisa, que a fizesse reagir de maneira mais natural. O que acontecera com sua radiante e destemida Chrissie? Fitou-a com frustração. Os olhos dela não tinham expressão, assim como as feições delicadas. Toda a sua linguagem corporal dizia que ele era o inimigo indigno de confiança. Sem dizer mais nada, Jaul deixou o prédio, determinado a não vê-la de novo. Já lhe dissera


o que tinha a dizer. E agora ficaria nas sombras e deixaria que os advogados fizessem o resto. CHRISSIE VESTIU-SE rapidamente, enfiou roupas em uma valise e levou-a junto com a parafernália dos bebês até o carro. Seu lar sempre fora seu santuário, mas no momento parecia ter sido violado pela visita de Jaul e ela já não se sentia segura ali. E se ele tivesse entrado e visto os bebês? Chrissie imaginou que ele reconheceria instantaneamente que eram seus filhos mesmo sem ter razão para isso. Estava sendo histérica e tola, disse a si própria, mas mesmo assim mal via a hora de afivelar os cintos de segurança para Tarif e Soraya e fugir do apartamento. Enquanto dirigia em meio ao tráfego intenso do meio da manhã, teve tempo suficiente para pensar no passado. Lembranças indesejáveis bombardeavam sua mente. Não conseguia pensar nos anos de faculdade sem lembrar de


Jaul porque ele sempre estivera por ali rondando, por muito tempo como um estranho, mas sempre notado e nunca esquecido. Chrissie dividia um pequeno apartamento com outra garota no segundo ano da faculdade. Nessa era louca por rapazes, e Chrissie costumava não prestar muita atenção quando ela começava a tagarelar sobre seu mais recente namorado. E Nessa ficara deslumbrada quando conhecera um príncipe. Chrissie não se impressionara tanto, sabendo que nos países do Oriente havia muitos príncipes e sem grande importância. Jaul, entretanto, fora difícil de ignorar. Levara Nessa para Paris em seu jato particular apenas para jantar, e a amiga ficara quase sem fala diante da experiência luxuosa. Jaul trouxera Nessa de volta para casa no dia seguinte e estava no apartamento quando Chrissie chegara das aulas que sua amiga cabulara para ir a Paris.


Chrissie ainda se lembrava do primeiro instante em que vira Jaul, sua pele morena do tipo cigano e os olhos reluzentes e dourados ao sol, seu rosto magro e lindo. Ele fitara Chrissie longamente e ela mal conseguira respirar enquanto Nessa tagarelava incoerências sobre Paris e limusines. Jaul logo fora embora. – Ele foi incrível na cama – confidenciara Nessa assim que Jaul partira, revirando os olhos e sem nenhum pudor para admitir que dormira com ele no primeiro encontro. – Absolutamente incrível! Porém, tudo não passara de uma aventura de uma noite. Jaul enviara flores e lindos brincos de diamantes para Nessa, mas não voltara a telefonar. Nessa ficara desapontada, mas aceitara que, tendo tanto a oferecer, Jaul iria aproveitar ao máximo sua liberdade. A segunda vez em que Chrissie viu Jaul foi no grêmio da faculdade. É claro que logo o


reconheceu. Seria impossível não o ver cercado por um quarteto de guarda-costas usando óculos escuros, e muitas louras sorridentes que, como Chrissie logo descobriu, pareciam surgir do nada aonde quer que o príncipe fosse. Jaul surpreendeu-a se levantando de supetão quando ela passou pela sua mesa e fazendo questão de cumprimentá-la quando a intenção de Chrissie fora passar reto. Constrangida, ela havia sido fria, consciente do calor em seus olhos e da inveja das garotas que o cercavam. Naquele tempo Chrissie tinha dois empregos de meio período para sobreviver na faculdade porque sua família não possuía condições para ajudá-la. Um desses empregos fora preencher com livros as prateleiras da biblioteca, o outro como garçonete em um restaurante local, e mesmo assim ela lutava para conseguir pagar suas contas. Seu pai ainda era um fazendeiro que arrendava as terras e cuja saúde precária o obrigara a se aposentar. A irmã mais velha de


Chrissie, Lizzie, trabalhava dia e noite para manter a fazenda em funcionamento, enquanto Chrissie prosseguia com os estudos. Entretanto a consciência de que sem ela na fazenda sua família lutava muito mais para sobreviver a enchia de culpa. Porém, ainda criança Chrissie percebera que a vida caótica de sua falecida mãe, Francesca, poderia ter sido mais produtiva se ela tivesse uma carreira na qual investir quando seus romances com homens vagabundos terminavam. Uma mulher precisava de mais do que o ensino básico para sobreviver, e Chrissie sempre fora determinada a construir sua vida em torno de uma profissão e não de um homem. O casamento de sua mãe e seu pai tinha sido breve e os relacionamentos de Francesca depois disso haviam sido destrutivos. O álcool, as infidelidades, a violência física e outros males sempre prevaleciam. Privada de sua inocência em idade muito tenra por causa


do comportamento da mãe, Chrissie sabia como uma mulher podia ser forçada a decair para colocar comida na mesa, e era uma lição que jamais esqueceria. Não, Chrissie jamais se colocaria voluntariamente na posição de depender de um homem para subsistir. Quando Jaul se aproximara dela na biblioteca onde ela trabalhava um dia, semanas após seu primeiro encontro, e pedira que o ajudasse a encontrar um determinado livro, Chrissie fora educada e prestativa como convinha a uma modesta funcionária que desejava manter seu emprego. – Gostaria de levá-la para jantar uma noite dessas – murmurara ele depois que ela colocara o livro nas suas mãos longas e morenas. Jaul possuía os olhos escuros mais estonteantes e o rosto mais lindo e másculo que ela já vira. Chrissie sentira a boca seca e sua respiração acelerara enquanto uma necessidade estranha a dominava.


Enfurecida com a própria reação, refletira sobre o modo como ele tratara Nessa. Jaul queria sexo e nada mais. Assim que conquistava a garota e obtinha o que desejava, perdia o interesse. Portanto encontros sexuais e casuais com moças desinibidas e aventureiras como Nessa eram o ideal para ele. Jaul não estava em busca de um relacionamento com todos os limites que isso envolveria. Ele não oferecia amizade, carinho ou fidelidade. – Não, obrigada – respondera Chrissie firmemente ao convite. – Por que não? – perguntara ele sem hesitar. – Disponho de pouco tempo entre os estudos e meus dois empregos – respondera Chrissie. – E quando tenho tempo, prefiro ir para minha casa e visitar minha família. – Então vamos almoçar – sugerira Jaul com voz aveludada. – Por certo pode almoçar comigo um dia?


– Mas eu não quero – confessara Chrissie abruptamente, dando um passo atrás, sentindo-se encurralada e um pouco intimidada pela altura e a força daquele rapaz no espaço exíguo entre as estantes de livros. Ele franzira a testa. – Ofendi você de alguma maneira? – Não combinamos – replicara Chrissie com os dentes cerrados, irritada com a recusa dele em aceitar sua negativa. – De que modo? – Você é tudo que não gosto em um homem – dissera Chrissie com sinceridade e frustração. – Não estuda, só se diverte. Anda com um monte de mulheres. Não faço seu tipo. Não quero ir a Paris para jantar! Não quero diamantes! E não tenho a menor intenção de ir para a cama com você! – E se eu não lhe oferecesse Paris, nem diamantes nem sexo?


– Provavelmente acabaria batendo em você por ser tão convencido! – exclamara Chrissie com muita raiva. – Por que não aceita minha recusa? Então de repente Jaul sorrira, um sorriso carismático que fizera o estômago de Chrissie revirar de emoção. – Não fui educado para receber recusas como resposta. – Mas comigo não é não! – retrucara Chrissie com ódio. – E a teimosia só me aborrece... – E eu sou teimoso, além de convencido – concluíra Jaul em voz baixa. – Parece que temos um impasse... Chrissie apontara para a área de estudos mais próxima. – Já tem seu livro... Vá estudar. E sem mais uma palavra fora embora com seu carrinho de livros, rumando para o elevador que lhe permitiria escapar para o andar de cima.


CAPÍTULO 3

CARREGANDO

gêmeo em cada braço, Chrissie foi recebida por Sally na porta da casa de Cesare e Lizzie. Seus sobrinhos, Max e Giana, correram para ela loucos para ver os primos. Tarif deu pulos de animação quando viu Max e abriu os bracinhos para o menino mais velho. – Ele me reconheceu! – gritou Max, maravilhado. – Quando Tarif começar a andar irá infernizar a sua vida – vaticinou Chrissie entregando o bebê para o primo enquanto Sally se encarregava de Soraya, pois Giana era ainda muito pequena para carregá-la. UM


Uma loura elegante de olhos verdes, sorriso simpático e visivelmente grávida, surgiu de um dos cômodos para o espaçoso saguão. – Chrissie... minha linda. Só a esperava mais tarde – confessou Lizzie com carinho. As lágrimas que ainda queimavam os olhos de Chrissie caíram de repente sem aviso, ao ver a irmã mais velha fitá-la com espanto. Chrissie engoliu o choro e se atirou nos braços de Lizzie. – Desculpe. – Não precisa pedir desculpas se alguma coisa a aborreceu – consolou Lizzie. – E o que aconteceu? Você nunca chora... Felizmente Lizzie não presenciara o sofrimento de Chrissie dois anos antes quando por fim ela concluíra que Jaul não voltaria para ela. Por orgulho Chrissie resolvera não incomodar sua irmã feliz com a triste história de como arruinara a própria vida. Tratara de tomar coragem a respeito do abandono e da gravidez, conversando com serenidade e sem


emoção sobre um relacionamento que terminara e um homem misterioso que não quisera assumir a responsabilidade pelos bebês. – Você não precisa desse vagabundo... não precisa de ninguém além de Cesare e de mim! – dissera Lizzie para confortá-la, e não fizera mais perguntas. No momento presente, enquanto Chrissie engolia os soluços, refletia que chegara a hora de contar para Lizzie sobre Jaul. Uma tempestade de emoções a envolvia desde que o vira. O passado abalroara o presente e as dores que Chrissie sufocara voltavam a torturá-la. – Pelo amor de Deus! – exclamou Lizzie, passando um braço pelos ombros da irmã mais alta para levá-la à sala de estar com seus sofás azuis confortáveis e mobília moderna em cores claras. Cesare falava ao celular perto da janela e terminou a ligação, franzindo a testa com


preocupação ao ver o rosto banhado de lágrimas da cunhada. – Ia contar que minhas irmãs chegarão esta noite e esperam que você as acompanhe ao clube amanhã... Chrissie tentou sorrir, lembrando como a casa ficava em polvorosa com as duas irmãs mais novas de Cesare, Sofia e Maurizia, que sempre saíam juntas com Lizzie quando visitavam Londres. – Creio que não serei boa companhia... Com delicadeza Lizzie a fez sentar em um sofá. – Conte-me qual é o problema... Chrissie gemeu: – Não posso. Fui uma idiota por não ter contado anos atrás. Não vai acreditar como fui estúpida, e agora não sei o que fazer... – Ajuda começar a contar do início – incentivou Cesare.


– O pai dos gêmeos apareceu – revelou Chrissie muito tensa. – E disse que precisamos nos divorciar, o que não faz sentido depois do que o pai dele... Cesare a fez parar com um olhar incrédulo. – Você foi casada com o pai dos gêmeos? – Céus! Jamais poderia imaginar! Casada! – exclamou Lizzie, chocada, se deixando cair sobre uma otomana perto da irmã. Chrissie sentia-se mais culpada que nunca, relembrando que Lizzie fora uma mãe mais dedicada para ela que sua própria mãe, apesar de ser apenas cinco anos mais velha. – Certo, do início – lembrou Chrissie recebendo um aceno positivo de Cesare. – Ou não entenderão nada. E Chrissie tentou, com certa dificuldade, colocar em palavras há quanto tempo conhecia Jaul sem nunca tê-lo conhecido de verdade. – Mas você nunca falou sobre ele – comentou Lizzie, sem conseguir acreditar. –


Você o conhecia o tempo todo na universidade e nunca me falou sobre ele! Chrissie ficou vermelha como um camarão sem conseguir explicar a influência silenciosa que Jaul tivera em sua vida muito antes de os dois se envolverem. Sempre o via no campus, de vez em quando falava com ele, de vez em quando o evitava se ele tentasse se aproximar demais. A única coisa é que nunca fora indiferente. Quando Jaul não aparecia, ela se via procurando por ele. E se vários dias se passavam sem que o visse, ela parecia uma pessoa faminta que só se satisfazia ao vê-lo de novo. Então o examinava avidamente como se apenas por olhar recuperasse as energias. De muitas maneiras Jaul fora sua fantasia mais secreta e íntima. Jamais poderia explicar esse relacionamento para a irmã sem se sentir mortificada, e agradecia a Deus por ter mantido o segredo em vez de levar Jaul para casa a fim de exibir o marido e a aliança de


casamento. Mas acabara abandonada e grávida. O pai das duas dissera que não desejava receber sua filha grávida e solteira, porém Chrissie se sentira muito mais culpada por fazer a irmã sofrer e desapontá-la, já que Lizzie sempre fora seu ídolo. A irmã mais velha fizera tantos sacrifícios pela caçula. Tendo abandonado a escola aos 16 anos para ajudar o pai na fazenda, Lizzie nunca mais conseguira uma educação adequada ou a chance de ser jovem e despreocupada nem mesmo por algum tempo. – Não havia motivo para que eu mencionasse Jaul – prosseguiu Chrissie. – Foi apenas no último ano da faculdade que nos envolvemos de verdade – comentou. – E mesmo assim você não o mencionou – lembrou Cesare com frieza. – Sinceramente pensei que não iria durar. Pensei que tudo terminaria muito depressa. Foi tão inesperado. Não achava que Jaul pensava seriamente ao meu respeito, e de repente tudo


mudou e eu também mudei... só consigo descrever assim – murmurou constrangida. – Você se apaixonou por ele – concluiu Lizzie. – Séria, louca e profundamente – enfatizou Chrissie. – Nós nos casamos na embaixada de Marwan em Londres. – Mas por que tanto segredo? – quis saber Cesare. – Jaul não queria que ninguém soubesse sobre nosso casamento até que pudesse conversar com seu pai... e creio que não estava com a menor pressa de fazer isso. – Chrissie hesitou e então mencionou a discussão quando, poucas semanas depois do casamento, Jaul anunciara sua intenção de regressar a Marwan sozinho e sem dizer quando pretendia volta. – Eu me senti rejeitada. – Claro que se sentiu – apoiou Lizzie com emoção, apertando a mão de Chrissie com delicadeza.


Chrissie então contou sobre suas visitas infrutíferas à embaixada de Marwan e depois o encontro com o pai de Jaul, o rei Lut. Quando repetiu o que o senhor lhe dissera na ocasião, Cesare não conteve a raiva. – Deveria ter procurado nossa ajuda e conselho! – exclamou. – Eu ainda pensava que Jaul voltaria para mim. Não aceitei de pronto tudo que o pai dele me disse e não perdi as esperanças. – Então descobriu que estava grávida – concluiu Lizzie. – Dois meses haviam se passado então, e já não podia desculpar o silêncio de Jaul. Concluí que o pai dele me dissera a verdade. – Mas é claro que não disse – interrompeu Cesare com a mente em polvorosa. – Jaul sabe da existência dos gêmeos? – Não lhe contei. E avisei que não lhe daria o divórcio só para aborrecê-lo – confidenciou


Chrissie, constrangida. – Foi muito infantil da minha parte, não? – Vou colocar meus advogados neste caso – informou Cesare, comprimindo a boca bem desenhada. – Jaul precisa saber dos filhos o mais cedo possível. Um homem tem o direito de saber que é pai... – Mesmo tendo abandonado a esposa e nunca tentado entrar em contato com ela? – protestou Lizzie com emoção. – Sì, mesmo assim – resmungou Cesare secamente. Chrissie contou a Cesare e Lizzie sobre suas várias visitas à embaixada de Marwan e suas constantes e também vãs tentativas para contatar Jaul por telefone. – Chrissie, deixe de lado a hostilidade. Concentre-se nas crianças e no futuro, e não cometerá erros. – E deve fazer uma coisa – disse Lizzie, surpreendendo a irmã que tentava enxugar as


lágrimas. – Precisa lhe contar sobre os gêmeos antes que os advogados entrem na história... – Por Deus, nem mesmo sei onde ele está hospedado! – replicou Chrissie, aborrecida com a sugestão. – Pode ser até que já tenha deixado Londres. – Por que Chrissie deve procurar ter outro encontro com Jaul? – perguntou Cesare para a esposa, sem compreender. – Pelo menos ele teve a decência de contar para ela que continuam casados em vez de enviar advogados para fazer isso – observou Lizzie. – Não creio que você lhe deva muito, Chrissie, porém acho que ele merece a chance de saber sobre os gêmeos através de você e de ninguém mais. – Não quero vê-lo de novo... nem sei se continua em Londres... e também não tenho nada para vestir! – argumentou Chrissie em um protesto sincero, porém no íntimo sabia que


fora pega pelo argumento de Lizzie, pois, como a irmã mais velha, costumava ser muito justa. Jaul não estivera à vontade quando a visitara, mas mesmo assim fizera isso porque soubera que era a coisa certa. Como ela poderia agir de outro modo? CHRISSIE DESCEU do táxi que Lizzie insistira que chamasse, observando que achar um lugar para estacionar enquanto procurava pelo número da casa de Jaul era a última coisa de que a irmã precisava no estado de nervos em que se encontrava. Mas não fora um problema encontrar a casa onde Jaul se hospedava, refletiu Chrissie, lançando um rápido olhar para a enorme residência na área mais nobre de Londres. A equipe de Cesare logo trouxera todas as informações. Com os contatos poderosos do cunhado, encontrar Jaul não fora um grande desafio, além de fornecer outros dados. Por


exemplo, o enorme prédio no passado estivera dividido em pequenas moradias, e fora adquirido nos anos 1930 e transformado em uma única residência pelo avô de Jaul a fim de abrigar toda a família real de Marwan e os numerosos empregados sempre que vinham a Londres. Aparentemente, porém, a família fizera pouquíssimas visitas a Londres desde então. Esse era mais um fato que Chrissie ignorara a respeito do homem com que se casara. Embora tivessem visitado Londres juntos, ele jamais mencionara que sua família possuía uma casa ali. E também nunca dissera que era filho único e destinado a se tornar rei. Sua vida em Marwan sempre havia sido um livro fechado para Chrissie e ela só vislumbrara algumas páginas. Apenas sabia que Jaul crescera sem mãe, frequentara a academia militar e fora treinado como soldado na Arábia Saudita. Quando se candidatara para cursar Ciências


Políticas na Universidade de Oxford, fizera sua primeira visita à Grã-Bretanha. Portanto, Chrissie estava chocada por saber agora que Jaul era o único dirigente de seu país imensamente rico no Golfo da Arábia. Por fim ela entendia sua arrogância e ar de comando que quase sempre a irritavam. Jaul sempre soubera quem era e qual seu destino. Sem dúvida seu casamento com Chrissie não passara de uma breve diversão na curva do caminho que o levava a uma vida real, e jamais fora destinada a durar. – Aja com muita cautela – avisara Cesare para Chrissie assim que estabelecera a verdadeira identidade do homem com quem ela se casara em meio a tanto segredo dois anos antes. Lembrando-se disso, Chrissie estremeceu por baixo do vestido leve cor de turquesa que Lizzie lhe emprestara de seu guarda-roupa prégravidez. Seu cunhado sagaz enfatizara que Jaul


gozava de imunidade diplomática, que possuía amizade sólida com vários membros importantes do governo britânico e que desfrutaria de um poder muito maior do que a maioria dos maridos e pais estrangeiros não residentes quando se tratasse de uma batalha pela custódia dos filhos. Batalha pela custódia... aquela frase enregelou de medo todos o ossos de Chrissie. Cesare acrescentara que Tarif... em seus adoráveis 14 meses de vida saudável e bela... já era o herdeiro do trono de Marwan, o que o tornava uma criança muito importante para seu pai. Enquanto os medos de Chrissie aumentavam a cada novo pensamento, sua espinha dorsal enrijecia e sua pele se arrepiava. Instintivamente, não queria nem ser civilizada; só queria agarrar seus filhos no luxuoso quarto de Lizzie e fugir para algum lugar onde Jaul jamais pudesse encontrá-la. Em vez disso, porém, Chrissie recordou que deveria agir como adulta e conseguir lidar com


os maiores desafios da vida. Subiu os degraus da frente da residência gigantesca com suas colunas imponentes, seu pórtico e as incontáveis janelas, e apertou a campainha. Jaul almoçava em uma sala decorada por sua avó inglesa ao estilo do “deserto” e segundo a moda dos anos 1930. Ele duvidava muito do bom gosto dessa avó. Não gostava de fingir que estava no deserto e se sentar de pernas cruzadas como um pastor de ovelhas em frente a um fogo de mentirinha; queria uma mesa e uma cadeira. Por sorte seu chef particular e outros membros de sua equipe o haviam acompanhado nessa viagem e o serviço e a comida eram esplêndidos. Porém não fazia muito sentido para ele dormir em um quarto decorado como uma tenda em uma cama enorme armada sobre pedaços de bambu amarrados por cordas. Por outro lado, a distração proporcionada pela decoração esdrúxula dessa casa real em Londres servia


para manter seus pensamentos longe de Chrissie com seu short que exibia as longas pernas perfeitas. Ghaffar, assistente pessoal de Jaul, surgiu na soleira da porta e fez uma reverência. – Uma visita está aqui sem hora marcada... Jaul reprimiu um impropério e fez um gesto displicente com a mão. Viera a Londres por motivos particulares e não desejava qualquer outra coisa. – Por favor, peça desculpas, mas não verei ninguém. – O nome da moça é Whitaker... Como um raio, Jaul levantou-se. – Ela é a única exceção à regra – declarou. Os saltos altos de Chrissie soaram no assoalho de mármore do enorme saguão repleto do que pareciam ser sarcófagos de múmias de uma tumba egípcia. O ambiente era assustador e a escuridão o tornava ainda mais tenebroso. Fitar a estátua de um deus de duas


cabeças não a ajudou a se acalmar, e Chrissie se sentiu ainda mais tensa, o que tornava sua missão ali cada vez mais difícil. De improviso Jaul surgiu no umbral da porta. Parecia quase um estranho alto, com o físico delgado coberto por um caríssimo terno cinza de executivo. A única vez que Chrissie o vira de terno antes fora no seu casamento, mas reconheceu que essa formalidade não diminuía em nada sua aparência viril e morena. – Chrissie – disse ele com uma seriedade que a irritou, pois era uma característica que ela só vira nos piores momentos de sua relação. Nesses momentos, ele provara o quanto podia ser sério quando ela o aborrecia. – Não a esperava aqui. – Bem, então somos dois! – admitiu ela com uma risada forçada que soou bizarra em meio ao silêncio. – Mas precisava vê-lo em particular, e esta foi a maneira mais direta que encontrei.


– Seja bem-vinda – murmurou ele; estalou os dedos e um criado se materializou abrindo outra porta, fazendo uma referência, e desaparecendo de novo. – Vamos tomar chá... com educação? Chrissie corou até a raiz do cabelo louro. Para seu horror, sentiu um nó na garganta enquanto as emoções voltavam a dominá-la, indesejáveis e perigosas. Os olhos escuros com um brilho dourado pousaram sobre seu rosto e o coração de Chrissie disparou de medo. – Sim... com educação – concordou de modo trêmulo, buscando forças na hostilidade agressiva que a dominara quando Jaul a visitara. A raiva e o antagonismo haviam erigido uma muralha que a defenderia do marido. – Teria telefonado antes de chegar a Londres se soubesse seu telefone – murmurou Jaul. Graças a Deus ele não podia ler os pensamentos dela, refletiu Chrissie ainda


trêmula, escrutinando suas feições viris com uma admiração muito conhecida sua. Jaul era uma obra de arte, admitiu com desprazer, porém ela não precisava ficar arregalando os olhos, precisava? – Seria bom trocarmos nossos números de telefone agora – sugeriu ela, e ambos fizeram isto; ele lhe deu seu cartão de visitas. – Parece tudo tão esquisito, Jaul... tudo. – É claro que parece – concordou ele com um aceno. – Naturalmente nós dois mudamos muito – concluiu com tanta segurança que Chrissie desejou esbofeteá-lo. Outra batida à porta foi uma interrupção providencial, e alguém entrou com uma bandeja, seguido de outra pessoa que, após uma profunda reverência na direção de Jaul, pegou uma mesinha de canto e arrumou uma toalha sobre ela. Um jogo de porcelana francesa quase em miniatura contendo biscoitos foi arrumado sobre a mesa, e o chá inglês foi servido.


Aquela visão fez Chrissie recordar o que considerava ter sido seu primeiro encontro de verdade com Jaul, embora não o tivesse considerado assim na ocasião. Ele a levara a um hotel de luxo para o chá da tarde, a mais famosa das tradições inglesas que, ingenuamente, Jaul pensara ser seguida por todos. Sentindo-se como a senhora de um castelo, Chrissie adorara a experiência. – Você se lembrou! – exclamou sem pensar no que dizia e retornando ao momento presente. Entretanto Jaul não se lembrara. O chá da tarde fora uma rotina para sua avó e continuava a ser servido após sua partida porque aquela casa nunca mais tivera uma dona. Jaul corou ligeiramente ao voltar no tempo e lembrar por fim daquela tarde havia muitos anos, quando por fim persuadira Chrissie a encará-lo como um rapaz normal e educado e


não um mulherengo animalesco. Naquele dia ela usara um vestido azul também. Era coberto por pequenas flores, e Chrissie se sentara muito tensa e envergonhada com o lindo cabelo caindo até a cintura, e ele sentira tanto medo de dizer ou fazer a coisa errada e espantá-la de novo. Fora a primeira e única vez na vida que sentira medo do que uma mulher poderia pensar ao seu respeito! Nesse momento teve vontade de rir de sua reação juvenil tão pura; tornou a fitar Chrissie, que agora usava o cabelo prateado na altura dos ombros, emoldurando seu rosto lindo, e outras reações o dominaram. Imagens as quais resistira por dois anos de repente emergiam como um boneco de molas pulando de uma caixa. Hipnotizado pelos olhos cor de turquesa que pareciam ferver de desejo por ele no passado, recordou a ansiedade erótica que sentira por ela, suas narinas


tremeram e baixou os cílios longos para ocultar o brilho do olhar. A atmosfera na sala tornara-se sufocante, percebeu Chrissie com desconforto, equilibrando-se em um pé de cada vez. Encontrou o olhar dele e enrijeceu. Sentiu frio e calor ao mesmo tempo, suas pernas bambearam, e ela recordou essas sensações do passado, porém era tarde demais para recusar, pois Jaul se postara na sua frente de repente, perto o suficiente para tocá-la, e foi isso que fez, segurando-a com os dois braços fortes e a puxando para si em um contato muito provocante. Chrissie prendeu a respiração. – Chrissie... – murmurou ele com voz rouca, as mãos longas e fortes deslizando pela espinha dorsal dela até chegar aos quadris em um gesto ainda mais íntimo. E quando ela sentiu a ereção que a tocava sobre as roupas, a clara evidência do desejo dele de encontro ao seu ventre, uma sensação quase


de dor atingiu o meio de suas pernas. Com a cabeça zonza, o raciocínio entorpecido, seus joelhos cederam. Ele cobriu sua boca com toda a paixão que Chrissie nunca esquecera, quente, urgente e loucamente possessiva. Chrissie incendiou-se com o beijo. que era como uma chama. A seta doce e amarga da fome sexual penetrou o âmago de seu ser. Suas mãos tocaram os ombros largos de Jaul e sentiu os músculos tensos. Acariciou depois o cabelo negro, lembrando que sempre adorara tocá-lo. A língua de Jaul penetrou sua boca entreaberta, e ela estremeceu em seus braços, o desejo se tornando seu amo e senhor. Queria arrancar a camisa dele e deslizar os dedos pelo tórax rijo. Fez com que caísse sobre o tapete sob seus pés e tentasse satisfazer o vazio dolorido de seu coração feminino. Era uma sensação poderosa e sedutora a qual não podia mais resistir. Chrissie desejava, desejava...


CAPÍTULO 4

ALGUÉM

à porta e Jaul enrijeceu, literalmente congelou como se um sinal de alarme tivesse soado. Afastou Chrissie enquanto seus olhos escuros brilhavam com as nuanças douradas e franziu a testa tornando mais severo o rosto viril. – Desculpe – disse sem emoção. – Foi um erro. Chrissie não conseguiu se recompor tão depressa e, enquanto ele a soltava, cambaleou até as janelas, erguendo as mãos trêmulas para pressionar as faces de súbito úmidas. Estava nauseada consigo mesma, mal percebendo que alguém falava com Jaul na sua própria língua. BATEU


Trêmula, ela se sentou em um sofá horroroso com entalhes de madeira sem nenhuma almofada para suavizar o assento duro. Um erro? Como era difícil ouvir isso! Fora apenas um beijo estúpido, raciocinava Chrissie sentindo vergonha e tentando negar a verdade. Mas como pudera ter deixado que isso acontecesse, principalmente por ter ido visitar Jaul para discutir algo muito mais importante que era a existência dos gêmeos? Parecia que algo a privara de juízo por um instante, sufocando seu raciocínio. Bem, não havia como mudar o que acontecera e ele também fora culpado de mau comportamento, tratou Chrissie de se consolar. No passado se acostumara com o Jaul sensual que não conseguia ficar perto dela sem acariciá-la, e por certo tempo se vangloriara do suposto poder que detinha e que o atraía tanto, assumindo ingenuamente que isso significava


mais do que na verdade significava. E ele parecia não ter mudado nada nesse ponto. Enquanto isso Jaul estava recebendo uma mensagem de seu assistente. Fora convidado para uma reunião na manhã seguinte entre a firma de advocacia escolhida por Bandar e os advogados que deveriam chegar para representar os interesses de Chrissie. Mesmo após a atitude dela em relação ao divórcio, ele não estava muito surpreso com sua visita. Será que tivera tempo de pensar melhor sobre sua recusa? Quem sabe pensara nas vantagens financeiras de conceder o divórcio, raciocinou ele com cinismo. Mas quando fora que o dinheiro passara a significar tanto para ela? Era uma pergunta que se fizera muitas vezes dois anos antes, quando Chrissie aceitara o pagamento de seu pai para fugir do relacionamento e lhe dar as costas. Como pudera não perceber sua ganância naquela época? Naquele tempo ele a teria descrito como


a mulher menos interesseira que já conhecera. Será que espertamente Chrissie tentara ocultar sua ganância no esforço de impressioná-lo? Quando ficaram juntos, Chrissie tivera muito trabalho para provar para Jaul que sua riqueza nada significava para ela. E, para ser honesto, ele ficara impressionado porque naquele tempo já estava farto de mulheres que o avaliavam por seu dinheiro e não por seu caráter. Entretanto, a mulher que julgara acima de qualquer outra provara ser a mais interesseira de todas. E aquela era uma verdade que ele detestava lembrar porque demonstrava como fora falho em seu julgamento quando seu raciocínio estivera toldado pelo desejo físico. Mas precisava se lembrar disso, refletiu sobriamente, reconhecendo que mesmo agora bastava um olhar para o rosto e o corpo lindo de Chrissie para que logo se sentisse excitado. Enquanto isso Chrissie pensava em como, em nome dos céus, anunciaria que Jaul era pai,


porque cada vez mais sentia que seria um choque imenso para ele. Então resolveu tomar uma atitude radical. Apertou a bolsa que Lizzie lhe emprestara e com um gesto súbito inclinou a cabeça loura e a abriu para retirar as certidões de nascimento dos gêmeos. Eram documentos que não necessitavam de explicação e não haveria necessidade de gaguejar dando a notícia. Então estendeu os certificados para ele. – Tenho certeza que está imaginando por que vim aqui. – Não foi para beijá-lo nem sonhar em arrancar suas roupas outra vez, completou em pensamento enquanto seu rosto queimava de vergonha. – Precisava vê-lo porque você devia ver isto primeiramente... Ele tornou a arquear as sobrancelhas negras, pegando os documentos com um ar de curiosidade e questionamento. Chrissie não mencionara o beijo e Jaul estava grato por isto, porque sabia que ela possuía a habilidade de


criar um drama sobre coisas que ele julgava triviais. As circunstâncias do momento os haviam atirado de volta ao passado e isso era tudo. Não precisavam dizer mais nada, refletiu, se esquecendo de questionar por que sua esposa desaparecida lhe entregava duas certidões de nascimento. – O que é isto? – Jaul viu o nome da mãe nas certidões e enregelou. – Então você teve filhos? – E você também – explicou Chrissie em monossílabos. – Fiquei grávida, Jaul. Ele permaneceu imóvel e prendeu a respiração. Grávida? A palavra parecia um grito. No primeiro momento não conseguiu acreditar, porém logo seu cérebro rápido e inteligente começava a checar datas, fazer cálculos, reconhecendo que, gostando ou não, era uma possibilidade. E uma na qual não queria pensar. Mas tinha filhos, um menino e uma menina. A revelação era tão chocante que literalmente não conseguiu pensar direito por


vários segundos opressivos. A mulher da qual pretendia se divorciar era a mãe de seus filhos. Intimamente estremeceu com a revelação, logo percebendo como essa verdade devastadora mudaria tudo. Tudo! Mas por que apenas agora tomava conhecimento de algo tão importante como o fato de ser pai havia mais de um ano? Jaul não estava acostumado a receber choques como aquele que abalaria toda a sua vida. Fechou os olhos por um segundo e depois os reabriu para fitar Chrissie... linda, enganadora, e que o atingira com um golpe de proporções devastadoras. – Se isto é verdade... e presumo que seja – enfatizou Jaul com grande dificuldade, tentando controlar seu espanto e seu tom de voz. – Por que só agora fui tomar conhecimento da existência de meu filho e de minha filha?


Durante o percurso de táxi até ali, Chrissie imaginara todas as reações possíveis que ele teria, menos essa. Ficou irritada. – É tudo que tem a me dizer? – gritou para ele. Inúmeras gerações de compostura real fizeram-no enrijecer a espinha dorsal, porque ninguém fora mais preparado do que ele desde a infância para lidar com uma súbita crise sem demonstrar o menor sinal de emoção ou pronunciar as palavras erradas. Então perguntou: – O que esperava que dissesse? A porta se abriu com um repelão e os quatro guarda-costas se precipitaram fitando Chrissie. Controlado como sempre, aliás, como se esse tipo de interrupção fosse normal na sua vida, Jaul mandou-os embora com a instrução de que de jeito nenhum voltasse a ser incomodado. Ele sabia o que acontecera: seus guarda-costas, sempre muito atentos, ouviram


Chrissie gritar, e como ninguém gritava com o rei, temeram algum sério incidente. E eles também estavam nervosos porque nunca haviam viajado antes, e Londres era um lugar muito assustador em sua opinião. Com os olhos cor de turquesa brilhando de raiva, Chrissie cerrou os punhos. – Bem, talvez eu esperasse uma reação um pouco mais humana e você me fez uma pergunta muito, muito estúpida! Jaul cerrou os dentes brancos. – Estúpida como? – Você me perguntou por que somente agora tomou conhecimento sobre Tarif e Soraya, e eu gostaria de lhe perguntar... está brincando? – Não, não estou – respondeu Jaul com a maior clareza, analisando Chrissie com os olhos semicerrados. – Por que brincaria com um assunto tão sério? Tente se acalmar e pense no que está dizendo. Trata-se de um assunto muito sério.


E foi nesse momento que Chrissie perdeu o pouco controle que ainda lhe restava. O pai dos seus filhos estava ali parado como um pilar de granito e agindo com a maior frieza e polidez, como se estivessem discutindo o tempo. Era demais, logo depois da pergunta estúpida que ele fizera. Como se atrevia agora a mandá-la se acalmar? Como ousava lhe falar com condescendência quando arruinara sua vida e a abandonara à própria sorte? – Seu bastardo de uma figa – murmurou ela secamente, com dificuldade para pronunciar as sílabas entre os lábios semicerrados. – Por que deveria tomar conhecimento? Você me abandonou... – Eu não a abandonei... – Voltou para Marwan e jamais retornou para mim... Isso se chama abandono. Não atendia seu telefone, não me telefonou, não enviou um e-mail nem mesmo me mandou uma mensagem... Nunca mais ouvi uma só


palavra ao seu respeito! – despejou Chrissie com voz trêmula, as memórias amargas e sofridas emergindo de sua mente com força. – Não me deixou meios para contatá-lo. É claro que agora sei que foi tudo deliberado porque você sabia antes de me deixar que não voltaria... – Não é verdade... – Cale-se, Jaul! – praticamente berrou Chrissie de novo, a dor da injustiça e da raiva grande demais nesse momento para ser silenciada quando por fim tinha Jaul na sua frente. – Não minta para mim! Pelo menos seja honesto... O que tem a perder agora? Seu rosto magro e tremendamente belo tornou-se sombrio, e Jaul replicou: – Jamais menti para você... – Bem, “vou amá-la para sempre” sem dúvida foi mentira! Dizer que o apartamento em Oxford era nosso lar quando seu pai poderia me expulsar dali em um piscar de olhos, foi mentira! E, segundo ele disse, até nosso


casamento foi uma mentira! – lembrou-o ela, com a voz cada vez mais estridente. E seu humor não melhorou quando Jaul fez uma careta. Como punição, Chrissie agarrou um açucareiro e o atirou nele fazendo os cubos de açúcar voarem pelo cômodo como pequenos mísseis enquanto a porcelana se espatifava na quina de uma mesinha. Jaul estava bem no meio do drama que tentara evitar. Pedir calma não estava funcionando, ouvir placidamente também não estava dando certo para ele, mas, na verdade, a única coisa que sempre dera certo com Chrissie quando ficava furiosa era arrastá-la para a cama até que ambos se satisfizessem completamente. E esse era um pensamento totalmente inapropriado para o momento, admitiu, lutando para se concentrar no que mais importava: as crianças. Que estranho. Os gêmeos... dos quais nunca ouvira falar até esse


dia e muito menos conhecera... agora eram o mais importante na sua vida. – Graças ao pequeno “engano” de seu pai, Jaul, meus filhos foram registrados como de “pai desconhecido”! – disse Chrissie quase sem fôlego, mas logo continuando. – Talvez minha família não seja originária de um lugar com cultura tão conservadora e sensível quanto Marwan, porém mesmo assim meu pai não falou comigo durante seis meses quando soube que eu estava grávida e solteira, porque se sentia envergonhado e constrangido... Jaul ficou ainda mais tenso do que já estava. Tendo sido convencida pelo rei Lut que não estivera casada, Chrissie não tivera como colocar o nome de Jaul nas certidões de nascimento porque para isto ele teria que acompanhá-la até o registro civil ou precisaria fazer por escrito uma declaração de paternidade.


Chrissie também tivera medo de mencionar um casamento que, segundo haviam lhe dito, não fora legal, e temia ter infringido alguma lei involuntariamente por ter concordado com a cerimônia. E também sentira muito receio de despertar publicidade negativa e escandalosa, fazendo com que a identidade do pai de seus filhos se tornasse pública. – Na verdade, se não fosse por minha irmã e meu cunhado, eu estaria com mais problemas ainda. Portanto, não ouse me perguntar por que não foi informado que era pai já que se demonstrou um marido nojento que, segundo o rei Lut, nem marido era, ou seja lá o que foi! – finalizou Chrissie de maneira tempestuosa. – Então é isto? – perguntou ele, os olhos negros brilhando como um céu noturno cheio de estrelas. – Acabou com os insultos? – Não foram insultos... foi o que aconteceu de verdade! – revidou Chrissie com raiva. – Sabe qual é o seu problema?


Jaul ficou quieto por que tinha certeza que ela diria. – As pessoas não precisam defender você e não esperam que assuma seus erros porque você é riquíssimo, poderoso e foi muito mimado. Odeio você. Odeio totalmente! – gritou Chrissie para ele, enfatizado a afirmação ao atirar a leiteira na parede também. – Você é um rato horrível, sedutor, egoísta e mulherengo! – Creio que deveria ir para casa se deitar um pouco. Telefonarei mais tarde quando tiver se acalmado – murmurou Jaul sem expressão, e isto a fez desejar gritar e ser arrastada dali como se fosse louca, exatamente como a embaixada de Marwan a tratara no passado. Chrissie estava rígida de raiva; Jaul não fazia ideia do inferno pelo qual ela passara. Provavelmente pouco se importava, e ela duvidava que tivesse absorvido tudo que lhe dissera.


Mas o fato era que nesse instante Jaul ainda pensava em Chrissie grávida, tentando imaginar em vão como seu corpo delgado teria ficado mais cheio com os filhos dele; Chrissie passando pela gestação sozinha quando fora rejeitada pelo próprio pai por ser solteira. Pela primeira vez ficou satisfeito por ela ter o dinheiro que seu pai, o rei Lut, lhe dera e sentiu até alívio com essa ideia, porque Chrissie deveria ter precisado muito de respaldo financeiro. Tornou a pensar nas crianças, incapaz de fazer um quadro mental de sua aparência; um garotinho e uma garotinha, os primeiros gêmeos na família real desde o nascimento de seu avô e de seu tio-avô. Aos poucos foi percebendo que estava em choque profundo e completamente desorientado e apático, totalmente distante de sua mente em geral muito tradicional e fria.


– Tente descansar um pouco, já que tem dois bebês de 14 meses para cuidar! – berrou Chrissie como um último insulto, e depois saiu correndo, ignorando os guarda-costas que andavam de um lado para o outro no saguão como pais preocupados enquanto ouviam o barulho de gritos e objetos quebrados. Passaram por ela correndo a fim de verificar se sua preciosa responsabilidade, o rei, estava são e salvo. Rei! Esse pensamento era uma piada para Chrissie, porque nunca pensara que um dia Jaul se tornaria um rei. Um criado correu para abrir a porta da casa para ela, visivelmente ansioso para vê-la fora da propriedade. Caso os empregados ali ouvissem o nome de Chrissie na embaixada de Marwan, teriam muito que conversar sobre a louca raivosa, a inglesa biruta que chorava, gritava e suplicava para ver Jaul. Bem, essa Chrissie ficara para trás, refletiu, porque já não queria Jaul. Quando um homem


agia com a crueldade dele, não havia como voltar atrás após tal experiência, nada podia doer mais... Chrissie relanceou um olhar de desprezo para as janelas da estranha mansão e se tivesse um tijolo na mão teria atirado nelas. Enquanto isso Jaul permanecia imóvel junto à porta, apenas parcialmente consciente de sua grande equipe de seguranças e criados que se agrupava no vestíbulo para analisá-lo com consternação, todos desesperados para saber o que ocasionara tamanho terremoto naquele ambiente sempre tão tradicional. E o que Jaul fez a seguir teria espantado Chrissie se pudesse vê-lo. – A srta. Whitaker é minha esposa... minha rainha – anunciou ele com serena dignidade no próprio idioma, ignorando completamente o choque que tomou conta de cada rosto que o fitava. – E ordeno que não espalhem esta notícia por enquanto.


CHRISSIE VOLTOU para a casa da irmã e chorou de novo, as lágrimas rolando pelo rosto enquanto Tarif fitava-a com os olhos iguais ao do pai e sorria. Lizzie titubeou, naturalmente sem saber o que dizer. – Não pode ter sido tão ruim – murmurava com insistência. – Ele exigiu testes de DNA e coisas assim para provar que os gêmeos são dele? – Não, nada disso. Gritei com ele e atirei coisas na sua cara enquanto ele permanecia imóvel como uma estátua de pedra – relatou Chrissie com amargura. – Não fiquei satisfeita, queria matá-lo. Lizzie empalideceu. – Tenho certeza que vocês irão se entender eventualmente. No momento Jaul deve estar em choque... – O que há para que fique tão chocado? – perguntou Chrissie.


– Descobrir que é pai... – Eu o odeio. Vou sair esta noite e me divertir com Sofia e Maurizia – declarou Chrissie se levantando de supetão e enxugando as lágrimas. – Jaul me tirou toda a alegria de viver, e pretendo recuperar! Lizzie sabia que era verdade, mas achou melhor se calar. Chrissie sofrera muito enquanto estivera grávida porque não havia sido uma gestação fácil e toda a diversão da juventude lhe fora roubada. Sua irmã caçula, refletiu, tivera que amadurecer à força e enfrentar a dor e a traição na época em que todas as garotas eram muito vulneráveis, porém aguentara isso sem lamentar nem chorar e prosseguira de cabeça erguida, deixando Lizzie muito orgulhosa. SERIA UM desafio determinar qual dos dois ficara mais surpreso quando Jaul apareceu na casa de Lizzie e Cesare nessa mesma noite.


Lizzie chamara o marido às pressas, sentindo que Cesare seria mais polido e diplomático do que ela, que se via de repente forçada a lidar com o homem detestável que casara com sua irmã e a abandonara tão cruelmente. – Gostaria de ver Chrissie... – anunciou Jaul sem o menor traço de constrangimento. – Infelizmente não será possível – declarou Cesare com polidez. – Ela saiu... – Saiu? – repetiu Jaul muito surpreso. – Foi a uma danceteria. – Fez questão de esclarecer Lizzie, com satisfação. – Então gostaria de ver os gêmeos – pediu sombriamente Jaul, e Lizzie teve a experiência de ver o homem de pedra que Chrissie mencionara. Cesare suspirou. – Creio que isso também não será possível. Não posso deixar que veja as crianças sem a permissão da mãe... Os olhos de Jaul reluziram de irritação.


– São meus filhos também... – Mas isso não consta nas certidões de nascimento, consta? – intrometeu-se Lizzie, sempre com grande satisfação. – Volte amanhã quando Chrissie estiver aqui... – Aonde ela foi... em que clube noturno? – perguntou Jaul, visivelmente aborrecido. Para desagrado de Lizzie, Cesare forneceu a informação que ela não teria dado. – Por que diabos contou para ele? – perguntou quando Jaul partiu na sua reluzente limusine adornada com as flâmulas oficias de Marwan. Cesare brindou-a com um olhar misterioso que a deixou sem graça, e respondeu: – Ele é o marido de Chrissie. – Mas ela o odeia! – Não cabe a nós interferir. Torná-lo um inimigo não será bom para ninguém e muito menos para seus filhos, cara mia – raciocinou Cesare.


CONDUZIDO À área VIP do clube exclusivo, Jaul estava inquieto. Porém seus guarda-costas o haviam seguido, e ele se divertiu ao vê-los radiantes por se encontrarem no que o rei Lut teria descrito como “um antro de iniquidade do Ocidente”. Jaul postou-se no balcão, olhando para a pista de dança embaixo cheia de garotas com pouca roupa, porém sua mente estava longe. A família de Chrissie não gostava nem confiava nele, o que não era de surpreender com o caos que seu pai criara, refletiu aborrecido. Mesmo assim, a fria recepção que tivera fora um golpe em seu orgulho e seu senso de honra, pois durante seus 28 anos de vida jamais fugira às responsabilidades. Com exceção de Chrissie, reconheceu amargamente, repassando todos os motivos para isso ter acontecido. Maldisse o próprio orgulho e vaidade por não ter feito as próprias


investigações e verificado se era verdade o que seu pai lhe dissera. Entretanto, tal desconfiança a respeito de seu pai lhe parecia um pecado. O rei Lut se enganara a respeito da validade do seu casamento, porém sem dúvida fora sem querer. Jaul sempre adorara o pai, apesar de não receber muito carinho. Não podia desconfiar do rei Lut, um homem que entrava em pânico quando o filho único contraía uma doença comum na infância. Tratou de afastar as lembranças depressa para não pensar na dor que sentira com a morte dele enquanto, ao mesmo tempo, se sentia desleal diante das vagas dúvidas que Chrissie provocara com suas condenações. Então Jaul se viu pensando com que frequência Chrissie ia a essas danceterias. Tratou de enfiar na cabeça que não era da sua conta, diante das circunstâncias. Entretanto, infelizmente, um sentimento de posse mais


forte que a razão brigava com suas convicções. Esperava que Chrissie estivesse mais vestida do que as demais mulheres que ali se encontravam. E já se questionava se fizera bem em segui-la até ali. Agira sob impulso e isso em geral não levava a uma boa conclusão. Mas no instante em que estava para deixar o local ele a viu, uma figura linda usando um vestido curto fúcsia, acompanhada por outras duas garotas. Chrissie ria, parecendo alegre, e Jaul cerrou os dentes diante dessa visão. Perguntou-se por que estava sofrendo quando ela claramente não estava. Agradecido por ter seu número de celular, ele enviou uma mensagem, e viu de cima quando Chrissie enrijeceu, sua boca se cerrou e os ombros se ergueram. Ficou muito aborrecido diante da reação dela, que provava que sua presença ali não era bem-vinda. Então tomou uma decisão, chamou um garçom e pediu champanhe e canapés.


A RAIVA dominou Chrissie ao ler a mensagem. Por favor, encontre-me na área VIP.

Sua única noite de diversão em meses, e Jaul precisara arruiná-la fazendo-a lembrar que não era livre como as demais garotas ao seu redor. De repente desejou estar acompanhada por um homem e não pelas irmãs de Cesare, que já estavam animadíssimas com a perspectiva de ir à área VIP. Gostasse ou não, Chrissie refletiu que era a esposa de Jaul e a mãe de seus filhos, e mandá-lo para o inferno não daria certo porque ele era implacável quando se tratava de fazer o que queria. No passado ela o julgara muito sólido, confiável e honrado. Virtualmente adorara o chão em que ele pisava, e lembrar disto agora a deixava nauseada. Porém, para ser justa, na noite em que seu relacionamento se tornara por fim algo mais sério Jaul fora perfeito, lembrou.


Na época Chrissie estava saindo com um rapaz para vencer a atração que sentia por Jaul. Adrian era louro de olhos azuis, atlético e tão diferente do príncipe como o dia da noite. Ela já saíra com Adrian algumas vezes para ir a cinemas e cafés, sempre se esquivando quando ele se tornava mais ousado. Naquele tempo Chrissie tinha restrições sobre sexo por causa de algo sórdido que lhe acontecera quando ainda era criança, e que jamais contara a ninguém, nem mesmo a Lizzie. Certa noite Adrian e seus amigos a levaram para uma festa em uma casa muito grande, e em determinado momento ela quase perdera a consciência. Suspeitava que alguém pusera algo em seu refrigerante. Por coincidência Jaul estava na mesma festa e a encontrara quase desacordada. Tratara de salvá-la porque sabia que, como ele, Chrissie não bebia. Dera um soco em Adrian quando este tentara ficar com Chrissie e a tirara da festa. Chrissie não se


lembrava do resto da noite, apenas que acordara na manhã seguinte no apartamento de Jaul, sã e salva. Pela primeira vez vira o príncipe com outros olhos. Ele não se aproveitara dela. Aproximara-se para protegê-la quando ela precisara, livrara-a de uma experiência muito ruim e a fizera perceber de repente que era muito mais maduro e decente que muitos rapazes que conhecia. Nesse mesmo dia todos os preconceitos contra ele caíram por terra. – Jamais a magoaria – murmurara ele. Mas essa acabara sendo a maior de todas as mentiras. Chrissie ficara com tanta raiva dele e ainda estava, refletiu, mas de que adiantava tanta agressividade tanto tempo depois? Seu casamento estava acabado... esta era a verdade. Seria melhor deixar o passado para trás, disse a si mesma friamente. Que ele se divorciasse dela e rumasse para um futuro melhor e mais feliz. Seus advogados se reuniriam no dia seguinte; logo o divórcio sairia para o bem de Jaul.


Chrissie sentou-se na poltrona confortável em frente a Jaul na ala VIP e imaginou por que seus guarda-costas a cumprimentavam como se ela fosse alguém importante. Chrissie examinou-os à procura de rostos conhecidos, mas os seguranças que haviam protegido Jaul na universidade não estavam lá. Voltando-se para ele viu que estava com roupas informais; jeans e camisa branca aberta no pescoço, o que provava que entrar nesses clubes dependia mais de quem se era do que da roupa que se usava. O branco da camisa em contraste com sua pele bronzeada chamava atenção, e um tremor a percorreu quando seus olhares se encontraram e ela admirou os olhos negros e profundos de Jaul. Ele era deslumbrante, não havia como negar, refletiu, examinando suas feições viris enquanto evitava pensar com quem ele desejaria se casar a seguir... Pois Chrissie não era estúpida. Afinal, isso era obviamente o motivo para Jaul estar em


Londres para começo de conversa, por isso queria obter um divórcio depressa. Planejava se casar pela segunda vez e descobrira que continuava casado com a primeira esposa. Daí a necessidade do divórcio. Muito inconveniente, pensou Chrissie com amargura enquanto Sofia e Maurizia arregalavam os olhos para Jaul e se sentavam em uma mesa próxima para degustar champanhe e os canapés oferecidos. – Espero que minha chegada aqui não tenha perturbado sua noite – disse Jaul com frieza, lutando para não olhar as pernas de Chrissie, longas e perfeitas, e para os pés pequenos cobertos pelos sapatos cor-de-rosa de saltos altos. Com dificuldade fitou o rosto dela que conhecia tão bem, e imediatamente se sentiu excitado. Lutou para se dominar. – Claro que não – disfarçou Chrissie, arqueando a cabeça para trás e fazendo o cabelo louro brilhar como seda sobre os ombros


enquanto lutava para ser educada em nome da paz. – Presumo que queria me ver por algum motivo especial? Jaul contou que fora até a casa de seu cunhado na esperança de conhecer os gêmeos. Chrissie ficou sem graça. – Queria ver Tarif e Soraya? Jaul arqueou as sobrancelhas. – E isso a surpreende? Chrissie ficou vermelha de vergonha. Contara que ele era pai e evidentemente Jaul estava curioso. Pensar que receberia a notícia e iria embora de novo fora loucura, refletiu. – Posso levá-los para conhecê-lo amanhã de manhã – sugeriu, preparada para mostrar boa vontade. – Antes que os advogados... – Advogados? – interrompeu Jaul, como se não soubesse do que ela estava falando. – Sim, a reunião sobre o divórcio – inclinouse Chrissie para a frente e murmurou, desejando usar de tato na frente dos guarda-


costas que não tiravam os olhos dela e de Jaul desde que ele se sentara. Jaul percebeu que querer conversar com Chrissie ali não era o ideal, mas fora escolha sua e maldisse a falta de sensatez. Deixou escapar o ar dos pulmões. Pelo menos ela voltara a falar com ele e não estava gritando. – A equipe de advogados de Cesare logo resolverá a questão – disse Chrissie em um tom de voz que desejava ser conciliador. – Ele me disse que seus advogados já lidaram com casos muito mais difíceis. Jaul deixou o olhar repousar sobre a mão esquerda de Chrissie. – O que fez com os anéis que lhe dei? – perguntou com suavidade. – Estão no cofre de Cesare. Vou guardá-los para Soraya, como ajuda financeira – respondeu Chrissie, querendo deixar claro que não conservara as joias por questões sentimentais.


– Nosso filho tem nome árabe... – observou ele. – Em homenagem ao seu sangue – explicou Chrissie com displicência. – Meu avô se chamava Tarif... – Pura coincidência – declarou Chrissie com ênfase, mentindo descaradamente porque dera ao filho o nome do avô, raciocinando que o bebê tinha o direito de usar um nome da família real. – Apenas escolhi um nome árabe ao acaso. Nem me ocorreu batizar os gêmeos com nomes de pessoas de sua família. Diante de tal ofensa, Jaul quis dar um soco na parede, porém mascarou a raiva com silêncio e com a disciplina que aprendera a ter nos longos meses em que ficara no hospital e nos meses ainda mais penosos da recuperação. Chrissie o odiava; sua esposa o odiava. Ele podia sentir a animosidade por baixo da superfície calma, e via a frieza em seus lindos olhos.


Ele provocara aquela situação infernal, concluiu. Dois anos atrás ainda era imaturo, impaciente e ousado. Pegava o que queria sem hesitar e sem pensar nos riscos...


CAPÍTULO 5

– ESTÃO UMAS gracinhas – disse Lizzie com satisfação, observando os gêmeos com suas melhores roupinhas. – Jaul irá se apaixonar por eles à primeira vista. Chrissie franziu o nariz. – Espero que não, porque não os verá muito quando morarmos em países diferentes. Também espero que não fique me pedindo o tempo todo para colocá-los no avião e mandálos para Marwan. A irmã respirou fundo. – Chrissie... sei que será difícil, mas deve querer que Jaul se interesse pelo filho e pela filha, por mais que seja estranho para você. Um


pai na vida deles será um benefício e não um problema. Percebendo que Lizzie tinha razão, Chrissie corou e subiu na limusine que Jaul insistira em enviar para buscá-los. Ela estava muito constrangida por ver que ele enviara seus seguranças também. Sabia que Lizzie dissera palavras sensatas, mas a perspectiva de dividir os gêmeos com Jaul a aborrecia. Ele era o homem que amara além de tudo, e a ideia de seus filhos serem cuidados pela próxima esposa dele em Marwan a apavorava. Entretanto o mundo era assim nos dias atuais, com as famílias de verdade e as adotivas; todos em harmonia em comparação com os relacionamentos amargos do passado, lembrou ela com irritação. Outras pessoas lidavam com essas coisas e ela teria que aprender a lidar também. Mesmo assim, não conseguia parar de pensar que teria sido melhor se Jaul não tivesse


vindo a Londres e nunca precisasse saber que era pai. As portas da frente na mansão permaneceram abertas à sua chegada. Enquanto Chrissie segurava Tarif em um braço e tentava pegar Soraya com o outro, uma mulher de uniforme de babá veio correndo da casa e ofereceu ajuda. – Sou Jane – anunciou ela. – O rei me contratou para ajudá-la. Chrissie não se impressionou com o fato de Jaul ser orgulhoso e machista demais para vir ajudá-la pessoalmente e permitiu que a mulher pegasse Soraya. Caminharam até o vestíbulo, indo para a sala de visitas pavorosa onde a babá colocou Soraya sobre um tapete novo e fofo coberto por brinquedos também novos em folha e perguntou se Chrissie precisava de alguma coisa para as crianças. – Não, obrigada. Tenho tudo de que preciso. – Chrissie apoiou a grande bolsa de bebê sobre


um dos sofás de madeira, imaginando onde diabos estaria Jaul. Mas, quando ergueu os olhos após acomodar Tarif sobre o tapete, viu Jaul na soleira da porta usando jeans preta de grife e uma camiseta vermelha, parecendo um modelo masculino desde os malares altos até as pernas longas e bem-feitas. A ideia a abalou e ficou corada com o coração batendo forte e recordando intimidades que já não faziam parte de sua vida. – Desculpe, estava ao telefone. – Jaul se encaminhou para a borda do tapete e ali ficou olhando para os gêmeos com evidente curiosidade. – Não entendo nada de bebês, e foi por isso que chamei a babá para preparar tudo para sua visita. – Deve ter conhecido algum bebê na sua vida? – perguntou ela surpresa. – Não. Não há bebês na família... bem, também não há família, só eu – lembrou Jaul,


pois não possuía irmãos assim como seu pai também, portanto não existiam parentes próximos. – Tarif e Soraya são sua família agora – Chrissie se ouviu dizendo e logo se perguntando por que dissera, porém havia algo muito tocante na confissão que ele fizera sobre desconhecer bebês. – Basta ficar de joelhos sobre o tapete e os dois virão até você. – Já andam? – Jaul ficou encantado quando Tarif engatinhou em linha reta para ele e se aconchegou no seu colo sem o menor temor de ser mal recebido. – Não, só engatinham por enquanto – respondeu Chrissie enquanto Soraya via o irmão receber atenção e rumava para Jaul também. – Estão começando a tentar ficar de pé... Tarif mais que Soraya. Jaul acariciou o cabelo negro do menino e afastou de sua fronte. Sua mão tremia um


pouco. Seus filhos! Ainda não podia acreditar nos próprios olhos. – Pela noite em que foram concebidos... agradeço a você – murmurou ele com voz rouca. Chrissie fitou-o e corou, como se as palavras tivessem acendido um fogo em seu íntimo. Naquele dia estavam sem estoque de preservativos e Jaul desejara enviar um de seus empregados para comprar, porém Chrissie ficara muito constrangida com a ideia, e furiosa por ele não sair para fazer a compra ele mesmo, então haviam assumido o risco e disto resultaram os gêmeos. Entretanto a expressão de gratidão de Jaul nesse momento a espantava por ser absolutamente inesperada. Aos poucos ele começou a relaxar. Os gêmeos reagiam ao modo como ele imitava sons diferentes para os vários brinquedos, sorriam, gargalhavam e gorgolejavam. – São maravilhosos – murmurou Jaul.


– Sim... também acho – replicou Chrissie sorrindo. – Mas a maioria dos pais consideram seus filhos maravilhosos. Parecia que o tempo parara, pois a presença dos gêmeos anulava a hostilidade que sentia por Jaul, assim como a tensão. – Precisam tirar uma soneca agora – avisou Chrissie, aprumando-se com a intenção de ir embora e exibindo a silhueta delgada dentro do jeans e da camisa púrpura. Jual apertou um botão na parede. – Há berços no andar de cima para eles. Jane já está vindo. Chrissie enrijeceu. – Mas pretendia voltar para casa... – Precisamos conversar. Podemos fazer isso enquanto nossos filhos dormem – replicou Jaul suavemente, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Entretanto, Chrissie não queria conversar com ele. Achava muito melhor que os


advogados conversassem entre si providenciando a dissolução de seu tristemente breve casamento sem grandes emoções e de modo bastante impessoal. Por outro lado, não desejava ser cabeça-dura impedindo que ele visse mais um pouco os gêmeos depois da soneca. Subiu as escadas atrás de Jane, cada uma levando um dos bebês. Um quarto de crianças fora preparado para os bebês e Chrissie não se surpreendeu... Mesmo as poucas semanas em que vivera com Jaul a haviam ensinado que com muito dinheiro quase tudo podia ser obtido do dia para a noite. Assim que Tarif e Soraya foram acomodados, ela tornou a descer as escadas devagar. Jaul estava na sala de visitas e uma bandeja com café fresco os aguardava. Chrissie lançou um olhar hostil para a cena. – Tem muita coragem – comentou ela, referindo-se ao açucareiro e à leiteira que


lançara na cabeça dele. – Você não atingiria um muro mesmo que quisesse – provocou ele com um sorriso preguiçoso na boca sensual, afastando a seriedade e fazendo Chrissie lembrar do rapaz mais jovem e despreocupado com quem se casara. – Bem, veja como podemos ser civilizados – comentou Chrissie enquanto servia o café como uma perfeita anfitriã e oferecia para ele junto com um pedaço de bolo. – É melhor apoiar sua xícara agora, para não derramar o café com o choque – aconselhou Jaul parando, muito alto e empertigado, junto à janela. – Porque não pretendo me divorciar. Ela arregalou os olhos, e, de fato, a xícara oscilou sobre o pires que segurava. – Como disse? Jaul respirou fundo, fazendo o peito subir e descer sob a camiseta.


– Caso as crianças assumam seu lugar de direito na família real, não posso me divorciar agora – explicou ele sem paciência. – Posso, porém, anunciar de improviso que já tenho esposa e filhos. E meu povo compreenderá porque conhece o preconceito que meu pai nutria pelas mulheres ocidentais e entenderá que eu tenha querido manter segredo até agora. Entretanto, para o bem de minha família e de Marwan, não posso fazer isso e em seguida comunicar um divórcio... Chrissie teve ímpetos de gritar de frustração, porque parecia que estavam destinados a sempre discordar um do outro. Ficara acordada na noite anterior lembrando de como ameaçara tolamente dificultar o divórcio para Jaul, mas por certo teria sido mais sábio de sua parte ter concordado com um rápido divórcio e prosseguido com sua vida. Por que diabos ia querer prolongar esse processo e continuar em um limbo, nem solteira nem casada, só para


aborrecer Jaul? No final os dois se decidiriam pelo divórcio e pela guarda compartilhada dos gêmeos. – Lamento – murmurou Chrissie sem emoção. – Mas quero o divórcio e terei com ou sem seu consentimento. Creio que nada devo a você ou ao seu país... Jaul fez um gesto displicente com a mão, afastando a ideia. – Talvez eu tenha me expressado mal. Estou lhe pedindo para dar mais uma chance ao nosso casamento... Chrissie apoiou a xícara com um repelão. – Não – disse, recusando-se até mesmo a pensar nesta sugestão. – Você arruinou grande parte de minha vida e quero minha independência de volta... – Mesmo com o sacrifício de seus filhos? – Não é uma perguntou justa. Fiz de tudo para ser uma boa mãe...


– Tarif é o herdeiro do meu trono. Preciso levá-lo para Marwan comigo – murmurou Jaul com calma. – Não quero separá-lo de você nem de sua irmã, mas é meu dever criar meu herdeiro... Os joelhos de Chrissie fraquejaram enquanto toda a cor deixava seu rosto. Ele estava falando em levar Tarif para Marwan, como se isto já tivesse sido determinado. Será que já resolvera que tinha esse direito? Chrissie sentiu um aperto no estômago e um nó na garganta. – Não acredito que estou ouvindo estas coisas. Está me pedindo para dar outra chance para o nosso casamento porque deseja os bebês, não a mim... – Não seja estúpida – cortou Jaul com rispidez. – Eu a desejei assim que coloquei os olhos sobre você de novo. Você é minha “atração fatal” na vida, e suspeito que sente o mesmo por mim.


– E o que quer dizer com isto? – perguntou Chrissie com agressividade, os seios arfando. Os olhos dele reluziram. – Você também me quer – disse ele com suavidade. – Quer tanto que está quase morrendo, como eu também... – Esta é a maior bobagem que já ouvi! – gritou Chrissie com fúria. – Quer que eu prove? – Jaul aproximou-se sem deixar de fitá-la. – Não pode provar porque não é verdade! – argumentou Chrissie. – Já me afastei de você há muito tempo... – De que modo? – quis saber ele. Chrissie estava à beira de um ataque de nervos. Já sofrera tanto por causa de Jaul. Será que deveria recomeçar a fazer as vontades dele, aplacar as necessidades dele? Isso já era demais. – Andei com outros homens – mentiu deliberadamente, sabendo como ele era


possessivo, ciumento e passional... e sabendo muito bem como magoá-lo. – Já esperava por isso – declarou Jaul com secura. – Não precisava me dizer... Porém Chrissie o viu empalidecer sob a pele morena, e isto a fez se sentir uma completa megera, em especial porque estava mentindo. Porém parecia tão certo nesse momento tentar provar que já se libertara dele e que havia um muro entre os dois. – Então deve perceber que já não o quero. Os olhos negros passearam de sua cabeça até os pés, e Chrissie reagiu fisicamente como sempre acontecia quando estava junto dele. De repente seu sutiã pareceu apertado para os seios enquanto os mamilos enrijeciam, e ela se sentiu quente e sensual. – Está cem por cento segura sobre isto? – perguntou Jaul enquanto se aproximava mais. – Tão certa que não me dará uma chance?


Chrissie prendeu a respiração. A atmosfera estava pesada e a tensão sufocava porque ela sabia que Jaul chegara ao limite da paciência, e quando ele a perdia era muito mais perigoso do que qualquer um. – Sim, estou certa – teimou ela. – Mentirosa – replicou Jaul com brusquidão. – Está mentindo para mim... até para você mesma! Já vi este filme antes... – Não sei do que está falando... – Oh, sabe, sim, habibti – contradisse ele. – Falo dos meses em que me fez esperar por você... – Não pedi que esperasse... – Deu as costas à atração que sentíamos um pelo outro. Recusou-se a admitir. – Bem, não achava que você era meu tipo de homem, e... oh, sim, e não estava certa a esse respeito ? – ironizou Chrissie sem perda de tempo.


– Pare com isto – ordenou Jaul, prendendo-a com os dois braços e a puxando para si. – Tire as mãos de cima de mim... agora mesmo! – revidou Chrissie com raiva. – Vamos nos divorciar e não tem permissão de me tocar! – Ainda é minha esposa. – Mas não pode me tocar! – alertou ela um segundo antes de a boca bonita, quente, úmida e muito sensual esmagar a sua em um beijo ardente. Por um segundo Chrissie viu faíscas diante dos olhos, porque o gosto do beijo a deixava selvagem e feliz. Sentiu as pernas fracas e seu corpo vibrou como uma locomotiva havia muito parada e que de repente começasse a funcionar. Estava quente. E acontecera tão depressa que a reação fora tão violenta que quase a fizera desmaiar. Deslizou as mãos pelos braços dele, abraçando-o com todas as forças que lhe restavam.


Dissera a si mesma que não seria assim se voltasse a tocá-lo. Dissera que a reação da qual se recordava fora resultado de uma atração exagerada resultante de seu romantismo. Porém se enganara baseada em esperanças vãs, porque a descoberta de que Jaul ainda podia incendiá-la com um simples beijo era terrível. Lutando para recuperar o fôlego, ela ergueu o rosto para fitá-lo encontrando olhos escuros e brilhantes como uma noite estrelada; por um instante de loucura desejou mergulhar ali e se afogar, voltando no tempo. Em vez disso encostou o rosto no ombro largo, respirando o perfume almiscarado de Jaul como se fosse uma viciada sem esperanças. Ele cheirava tão bem, lembrava limpeza, e parecia tão certo que a assustou. Ela enrijeceu loucamente, consciente de cada centímetro de seu corpo alto e magro de encontro ao dela, e o desejo terrível só fazia aumentar, como uma


droga que percorresse suas veias e da qual não conseguiria se livrar. – Jaul? Os dedos longos seguraram seu queixo, e ele sussurrou: – Dê-me sua boca de novo. Não, isso não iria resolver nada e Chrissie sabia, mas mesmo assim lançou a cabeça para trás como se fosse uma boneca de pano e ele a beijou novamente, mais demorada e profundamente, com força e veemência enquanto os sentidos dela rodopiavam em uma terra de fantasia e entrega. Havia tanto tempo ela não era beijada, tempo demais e, afinal, o que era um beijo? Porém ao mesmo tempo em que pensava assim, Chrissie ria de si mesma. Um beijo era algo insignificante, principalmente com um marido distante, mas ele beijava tão bem e era tão erótico que seu beijo devia ser engarrafado e vendido como preciosidade.


Jaul ergueu-a do solo com facilidade e a encantando como sempre acontecera. Passou as pernas de Chrissie em volta da própria cintura, encostou a boca em seu pescoço, o que a deixara sempre pegando fogo, e de súbito todo o corpo dela vibrava, ansioso e permissivo. Os olhos de Chrissie estavam fechados com força, como se o que estava acontecendo fosse como um sonho. Não era. Deixou que Jaul a carregasse escadas acima. Não era o que queria, mas, oh, céus, como o desejava! Aquele desejo insano pulsava em seu corpo como as rodas de um trem em movimento. Enterrou o rosto no ombro dele, desesperada com a própria fraqueza. – Não posso fazer isto... não posso – murmurou febrilmente. Com um gesto brusco, Jaul ergueu sua cabeça e voltou a beijá-la na boca de maneira breve, mas devastadora.


– Sim, você pode, porque no seu coração sabe que nunca mais irei magoá-la. – Não é assim tão simples... – Se você quiser, será – murmurou ele, o hálito tocando seu rosto. Porém o cérebro de Chrissie tratou de lembrá-la que nada era tão simples quando se tratava de Jaul. Às vezes ele era sabido demais, manipulador demais para ela, que era uma pessoa direta e honesta. Jaul abriu uma porta e voltou a beijá-la, o desejo físico envolvendo-a de modo irresistível, apagando qualquer outro pensamento. Chrissie viu-se deitada sobre algo macio, e acima Jaul praticamente arrancava a camiseta exibindo os tentadores músculos peitorais. Logo as mãos de Chrissie ergueram-se contra sua vontade para acariciá-lo, descendo até o cós do jeans para a cintura fina e voltando para o tórax rijo.


O calor do corpo dele queimava as palmas de suas mãos e o desejo provocou um nó em seu estômago. O desejo era como um velho amigo desaparecido que a controlava, silenciava e a conduzia a um limite perigoso. Chrissie não podia tê-lo, não devia, mas a fome era intolerável e maior do que podia controlar. Ele se inclinou sobre ela, semidespido e quente, começando a tirar o top que ela usava e o sutiã, cobrindo os seios firmes com as mãos, os dedos apertando os mamilos intumescidos para depois sugá-los com urgência. Chrissie arqueou as costas, setas ardentes de desejo trespassando seu corpo e seu coração. Sensações doces a possuíam e ele voltou a beijála, e Chrissie mergulhou os dedos no cabelo negro e macio. Leves gemidos irrompiam de sua garganta enquanto ele tirava sua calcinha e passava só um dedo entre as coxas. Quando esse dedo a penetrou e Chrissie gritou, ela já pronta para alcançar o clímax.


– Não. Espere – pediu sem reconhecer a própria voz, desejando, precisando, e antecipando o que viria. Mas Jaul nunca fora homem de receber instruções na cama e primeiro a provocou, brincando com seu corpo na parte mais íntima e feminina, e fazendo com que Chrissie gemesse e ondulasse os quadris completamente sem controle. Dpeois ele mudou de posição e encostou a boca ali entre suas pernas. Dali em diante, Chrissie não soube mais o que fazia, totalmente escravizada pelo desejo até que se seu corpo estremeceu atingindo um clímax feroz, onda após onda de um prazer intenso e já quase esquecido que a fazia se afundar. – Isto foi só para começar – murmurou Jaul com a confiança de sempre, os olhos brilhando de desejo enquanto retirava o que sobrara das roupas, atirando-as pelo quarto. Rasgou com os dentes a embalagem de um preservativo e se posicionou sobre Chrissie, o corpo musculoso


arqueado sobre o dela e prometendo todo o prazer que Chrissie esperava. Não estou fazendo isto, não estou fazendo isto de verdade, refletiu ela loucamente, ainda intoxicada pelo clímax que acabara de atingir e que não sentia havia tanto tempo. O órgão viril penetrou-a suavemente de início e depois mergulhou dentro dela com uma investida enérgica e delirante. A excitação a dominava enquanto ele se movia enviando sensações deliciosas. Chrissie deixou-se perder no ritmo de seus corpos unidos, soluçando e gemendo. E então o calor intenso e explosivo a dominou, fazendo com que gritasse enquanto o prazer se expandia e a possuía. Depois Chrissie não teve certeza de onde estava, porque Jaul continuava a segurá-la e ela não soube como resistir à sensação familiar e estranha ao mesmo tempo. Então ficou quieta como uma rocha, mal respirando e lutando contra o crescente desconforto. Após dizer que


queria o divórcio, ela fora para a cama com Jaul. A humilhação dominou-a, fazendo com que se livrasse dos braços fortes e rolasse para o outro lado do colchão. Não sentindo o mesmo desconforto nem remorso, Jaul entendeu o recado e deixou a cama. – Recomeçamos – disse com decisão enquanto se espreguiçava e revelava as costas morenas banhadas ao sol que penetrava pela janela. E então o fato de ainda ser dia e de que seus filhos inocentes dormiam em algum lugar daquela casa enorme fez com que Chrissie se sentisse ainda mais culpada no tumulto das emoções conflitante. Então notou as cicatrizes nas costas de Jaul, enquanto ele se encaminhava para o que imaginou ser o banheiro; linhas estriadas de branco percorriam a espinha dorsal dele e Chrissie franziu a testa, por um


momento esquecendo as próprias preocupações para perguntar de improviso: – Como conseguiu as cicatrizes nas suas costas? – Em um acidente... de carro – respondeu Jaul em poucas palavras. Enquanto permanecia ali, nu, moreno e maravilhoso, o perfil perfeito na direção dela, Chrissie tentou lembrar se sempre tivera aquelas cicatrizes que ela simplesmente não notara. Será que costumara olhar com atenção as costas dele naquela época? Mas logo descartou a ideia e voltou a sentir confusão e vergonha. – Ainda quero o divórcio – declarou com voz fria. Ele apertou os maxilares. – Discutiremos isto depois do meu banho. – Muito bem. – Como qualquer pessoa desesperada para sanar um erro, Chrissie


ansiava para que ele se vestisse e a deixasse livre para fazer o mesmo. – Há outro banheiro no corredor na porta ao lado, se preferir – avisou ele secamente. – Seus guarda-costas estão vigiando do lado de fora? – quis saber Chrissie. – Estão lá embaixo. – Ele a fitou com apreciação. – Não é da conta deles monitorar ou discutir minha vida particular, e sabem muito bem disto. Chrissie ficou vermelha até a raiz do cabelo, e podia sentir as têmporas latejando. – Usarei o outro chuveiro – avisou calmamente. – Somos casados. Não precisa ficar envergonhada – murmurou Jaul com voz conciliadora. Dirigiu-se para o banheiro, fazendo Chrissie sair da imobilidade em que se encontrava; ela voou da cama, agarrando suas roupas no caminho e enfiando de qualquer jeito para


depois sair pé ante do pé do quarto e entrar no banheiro ao lado. Porém o banho não a fez se sentir melhor. Insistira com o divórcio e depois pulara na cama com Jaul, e agora ele pensava que a tinha exatamente onde queria. E era de surpreender? Chrissie não se espantaria se Jaul tivesse deliberadamente planejado para levá-la para a cama. Não era bobo com as mulheres quando se tratava de ter o que queria. Sem dúvida demonstrara muita paixão, mas devia saber muito bem que Chrissie se sentiria atormentada pelo que acontecera entre eles enquanto, por sua vez, ele estaria muito satisfeito consigo mesmo por ter provado seu ponto; ela ainda o desejava da maneira mais básica possível. Entretanto isso significava mais para ele do que para Chrissie. Quando conhecera Jaul ele era um predador sexual, programado para tirar


vantagem de mulheres carentes embora não tivesse procedido assim com ela. Aliás, embora tivessem tido muita intimidade, Jaul a desposara antes de fazerem sexo de verdade, o que a fizera pensar na época e com satisfação que ele era mais ligado à cultura tradicional de seu país do que imaginara. E isso também a fizera refletir depois que ele a abandonara, se o conquistara puramente por ter dito não aos seus avanços por tanto tempo, o que o fizera considerá-la um desafio e um troféu digno de conquistar. Seria essa a simples explicação para o herdeiro do trono de Marwan escolher uma garota comum de Yorkshire para casar? Mas, por outro lado, será que levara aquele casamento a sério? Mas o passado ficara no passado e ela não queria mais pensar a respeito, lembrou Chrissie voltando a se vestir. Porém não superara Jaul completamente, disse uma voz em seu íntimo. Ele por sua vez devia ter


pensado que vencera por ora, assumiria que ela seria sua esposa de novo. Na sua cabeça bastara fazer sexo com Chrissie para reconquistá-la. E de quem era a culpa se Jaul pensava assim agora? Chrissie fervia de remorso. Um desejo selvagem a dominara. Era uma ilusão pensar que só os homens reagiam assim, pensava com tristeza. Uma tolice achar que uma mulher não podia sentir a mesma coisa. Jamais estivera com outro homem além de Jaul, porém aprendera muito com ele sobre esse seu lado sensual no pouco tempo em que haviam vivido juntos, e sabia que era uma mulher quente. E o único motivo para não ter dormido com outro desde Jaul fora porque ainda estava para conhecer um homem que a fizesse se sentir sexualmente como ele fazia. JAUL SECOU-SE com a toalha depois do banho, olhando distraído para o reflexo de seu corpo magro e forte no espelho enquanto tentava


decidir se agira bem ou não com Chrissie. Ela era tão teimosa, tão rancorosa, será que tinha motivos verdadeiros para se sentir assim? Ele se recusava a acreditar que seu falecido pai mentira, então de que adiantaria verificar na embaixada e investigar o comportamento do rei Lut? Seria muito desleal e sem dúvida despertaria rumores desagradáveis e fofocas danosas. As feições de Jaul ficaram sombrias ao pensar nisso e ele praguejou em voz baixa. Tinha uma esposa. Tinha dois filhos. Podia ter penado por dois anos ignorando esse fato, mas a realidade era que no momento precisava viver com a esposa e os gêmeos, e isso era o presente. Não o passado. Por outro lado, porém, faria ressurgir velhos problemas, amarguras e agressões para ele e Chrissie. Ela aceitara o dinheiro e partira. Continuaria a odiá-la por isso mesmo sabendo que Chrissie estivera grávida e muito necessitada de ajuda financeira? Era mais moça que ele, mais


imatura, e de repente ele não estivera ao seu lado. Uma mulher mais egoísta poderia simplesmente ter abortado em vez de criar duas crianças que não pretendera conceber. Gostando ou não, o destino garantira que ele a abandonasse desconhecendo sua situação quando ela mais necessitara. E, além disso, embora menos importante, o sexo entre os dois continuava maravilhoso, refletiu, mordendo o lábio. Mas, enquanto no passado o sexo representara apenas a cereja em cima do bolo, no presente era a única coisa que os unia para terem um futuro como casal. Não fora por isso que a levara para a cama? Além do desavergonhado desejo que sentira, é claro. E por que ele estava raciocinando assim? No passado Chrissie o fizera pensar em coisas românticas como cavaleiros andantes, e logo que haviam casado ele se ressentira com isso. Não era um cavaleiro sobre um cavalo branco


como um personagem de algum romance medieval que ela adorava. Jamais fingira ser perfeito, porém sempre soubera que Chrissie desejava que fosse o seu cavaleiro. Chrissie, a realista de hoje, estava muito embolada com a Chrissie romântica de ontem. E agora ele estava prestes a ser o vilão de novo, percebeu sombriamente. Não tinha escolha. Não tivera escolha desde o instante em que soubera da existência de seus filhos. CHRISSIE ESCOVAVA o cabelo quando ouviu a porta do quarto de hóspedes se abrir, o que a fez enrijecer, largar a escova e caminhar até a porta do banheiro. Jaul usava jeans e uma camiseta azul-turquesa que moldava seu tórax, e enquanto ela se sentia dilacerada por causa do que acontecera entre os dois, ele estava irritantemente confiante e bem disposto. – Pensei que seria melhor conversarmos aqui – confidenciou ele.


Chrissie interpretou que seria mais seguro para não serem ouvidos pelos empregados. Talvez o que ele queria lhe dizer fosse obrigá-la a gritar e fazer um escândalo. – Ainda quero o divórcio – foi logo repetindo com teimosia. – O que aconteceu não mudou minha opinião sobre nada. Os olhos reluzentes a fitaram sem surpresa. – Temos um ponto em comum e podemos partir daí... – Não acho – retrucou ela, e fez um gesto displicente com a mão afastando a ideia. – Já passei por isto. Jamais confiarei em você de novo e, vamos encarar os fatos... você também queria o divórcio até que soube sobre Tarif. Fico feliz que o nascimento dele tenha mudado as coisas para você, mas não muda nada para mim. – E esta é sua palavra final a este respeito? – insistiu Jaul com severidade.


Chrissie ergueu o queixo, recusando-se a deixar a tristeza dominá-la. Cometera um erro, mas não precisava viver se atormentado por isso e construir seu futuro em volta disso. – Sim, lamento, mas é... – Então talvez deva ver isto... – Jaul tirou um documento dobrado do bolso e estendeu para ela. – Não queria ser forçado a usar isto, tentei evitar porque coagir você era algo que preferia não fazer, mas este documento seria entregue pelos meus advogados se qualquer reunião sobre divórcio viesse a se realizar – explicou ele sem emoção. – Entretanto, cancelei essa reunião. – Que diabos é isto? – murmurou Chrissie com ansiedade. – É o contrato pré-nupcial que você assinou antes de nos casarmos – informou Jaul sempre sem emoção. – Não creio que tenha lido direito na ocasião.


Uma vaga memória surgiu na mente de Chrissie, que desdobrou a folha e logo viu a cláusula marcada com um sinal vermelho na margem. Com o coração na boca, leu as linhas que diziam respeito à custódia de qualquer criança nascida de seu casamento e que, havendo filhos, ela teria que viver em Marwan com Jaul. Sentiu a boca seca porque lembrava vagamente de ter lido aquilo havia mais de dois anos, mas afastara alegremente qualquer dúvida da mente porque não parecera na época nem remotamente relevante. Afinal, não haviam planejado começar uma família logo e a perspectiva de um bebê e dos problemas da custódia caso o casamento fracassasse parecera muito longínqua na ocasião. Estavam loucamente apaixonados, pelo menos ela estivera e, confiante e ingênua como era, não lhe ocorrera que algum dia em um futuro não


muito distante sua cega aceitação dessa cláusula pudesse voltar para assombrá-la...


CAPÍTULO 6

JAUL

tristemente que tentara jogar limpo, mas não dera muito certo com Chrissie, que suspeitava de cada movimento dele e garantira que regredissem para a brutal frieza dos acordos legais e da custódia. Era possível que ele não fosse muito bom quando se tratava de jogar limpo e ser justo, refletiu com irritação. Talvez tivesse mais experiência em ser tendencioso. A palavra do rei era a final em disputas graves em Marwan e havia sempre uma parte que se julgava em desvantagem, convencida de tratamento injusto e favoritismo. Jaul aprendera que apesar das REFLETIU


negociações e dos acordos, alguém sempre ficaria insatisfeito com o resultado e a decisão. Como se estivesse se afogando e pela sua mente passasse toda a sua vida, Chrissie estava pálida como um fantasma enquanto fitava a cláusula do contrato pré-nupcial. Seu coração parecia ter se rompido. Não via como combater um acordo que assinara por livre e espontânea vontade. Jaul respirou fundo e devagar, os músculos tensos sob a camiseta, os ombros erguidos. – Em uma data futura, se você ainda estiver convencida de que quer o divórcio... Os olhos dela voltaram à vida de supetão. – Pode ter certeza que não mudarei de ideia! – murmurou furiosa. – Então terá direito à sua própria casa em Marwan, onde criará os gêmeos. É o máximo que posso lhe oferecer se desejar sua liberdade de volta – explicou Jaul com severidade, os


dentes brancos reluzindo de encontro à pele morena. – Mas... pelo momento, uma casa separada para nós três está fora de questão? – perguntou Chrissie, arriscando-se a irritá-lo. – Creio que sim. Pelo menos assim você deterá a custódia compartilhada de nossos filhos – observou Jaul. – Eles nunca foram nossos filhos, sempre foram só meus! – gritou Chrissie com voz dolorida, engolindo uma série de recriminações. – Apenas por que eu não sabia que era pai – revidou Jaul. – E o que quer dizer com “pelo menos assim”? Espera que eu finja que ainda temos um casamento de verdade? – interpretou ela, enquanto ia até a porta e parava. – Como pôde fazer isto comigo depois de me abandonar por dois anos inteiros? Não tem decência? Moral?


– Não é assim tão simples para mim. No esforço de assegurar status e segurança para nossos filhos e para que sejam aceitos pelo meu povo, estou preparado para fingir que faço parte de um casal feliz. É meu dever ser leal e cuidar deles e de suas necessidades – enfatizou Jaul com secura. – Eles assumirão seu lugar na família real como príncipe e princesa que são, e esta é minha responsabilidade assim como sua. Escancarando a porta do quarto de hóspedes, Chrissie pensava que essa história de pai e mãe era quase uma agressão. Ele não precisava lembrá-la de suas obrigações maternas, que haviam arrebatado sua liberdade de jovem desde que se separara dele. Era tão injusto, refletiu com amargura, que Jaul a tivesse abandonado e negligenciado suas responsabilidades para depois voltar só quando lhe fora conveniente a fim de exigir que ela correspondesse a um dever que ele ignorara até então.


– Vai concordar? – perguntou Jaul, indo atrás dela após sua saída intempestiva do quarto e a seguindo pelos corredores que levavam ao andar superior gigantesco. Ela oscilou, cheia de adrenalina, enquanto o senso comum e o instinto de sobrevivência a dominavam. Os gêmeos haviam se transformado em uma arma e se ela desejava manter seus filhos por perto não tinha opção a não ser morar em Marwan. Por um lado Chrissie entendia a posição de Jaul, mas por outro ela o detestava por colocála nessa situação. Uma coisa era assumir um casamento de dois anos que resultara em dois filhos, e surpreender com isso a população de Marwan, mas outra completamente diferente era transformar essa surpresa em espanto se divorciando no Reino Unido e lutando pela custódia das crianças. Porque, apesar do maldito acordo que assinara, ela continuaria


lutando pelos seus bebês. Entretanto, essa luta acabaria por prejudicar a todos os envolvidos. Será que desejava causar aborrecimento também a Lizzie e Cesare com a batalha pela cutódia? Já não lhes causara dores de cabeça suficientes quando fora uma adolescente voluntariosa e depois com sua gravidez inesperada? Será que os dois realmente mereciam continuar brigando para protegê-la? Não era hora de a própria Chrissie lidar com seus problemas e se equilibrar nas próprias pernas? Não era assim que procedia uma pessoa adulta? – Chrissie...? – chamou Jaul. – Preciso de uma resposta. – Farei o que me pede porque não tenho opção – replicou ela com secura. – Mas não o perdoo por isso. Os olhos dele brilharam e sua boca se comprimiu.


– Você jamais me perdoou por qualquer coisa. Chrissie recusou-se a admitir que isso fosse verdade. Por certo já o perdoara alguma vez. Não era uma pessoa dura e implacável, era? Suas primeiras impressões sobre Jaul retornaram, e junto a elas a longa recusa em admitir que pudesse tê-lo julgado mal. Assim pensando, corou levemente. Chrissie lembrou também que jamais perdoara a mãe pelo que a fizera passar. Franziu a testa. Francesca morrera antes que sua filha caçula tivesse idade para confrontá-la, e a mãe levara para o túmulo seus segredos culposos. Chrissie engoliu em seco, lutando para afastar a sensação de sujeira e vergonha que sentia sempre que pensava em Francesca. Agora era mais velha, mais sábia, e menos preconceituosa, raciocinou. Sua mãe não tivera uma personalidade forte e alguns homens haviam abusado disso. Seu segundo marido, o


último homem de sua vida, fora o pior de todos, aproveitando-se da fraqueza e dependência de Francesca para lançá-la em um estilo de vida nefasto. Algum dia, pensou Chrissie, contaria à Lizzie a verdade sobre a mãe delas, mas sem dúvida nem sonhava em contar aquela história sórdida para Jaul. – Acho esta casa incrivelmente esquisita e feia – declarou Chrissie com brusquidão, descendo a escadaria enorme que a fazia lembrar de algo saído de um filme antigo de terror. Só faltavam zumbis e múmias saindo de sarcófagos no vestíbulo para deixá-la de cabelo em pé. – A culpa é de minha avó – comentou Jaul. – Foi ela quem decorou este lugar. – A inglesa que abandonou seu avô? – Isso era tudo que Chrissie sabia sobre os ancestrais da família real de Marwan. – Fale-me sobre ela. – Por quê?


– Somos compatriotas, eu e ela... De certa forma, não estou seguindo os passos dela? – lembrou Chrissie, ansiosa para falar de alguma coisa, qualquer coisa que não fosse o acordo que acabara de fazer e o que acontecera na cama lá em cima. A paixão imensurável a deixara dolorida nas partes íntimas do corpo e não estava sendo muito confortável caminhar. Jaul fora tão... selvagem e invasivo... e ela se regozijara com a paixão primitiva, porém agora se via obrigada a pagar o preço e colocar sua vida nas mãos dele. Nunca deveria ter se entregado, pensou tristemente. Agora ele iria colocar algemas em seus pulsos. – Espero que não. Ela abandonou o filho – disse Jaul em tom de censura. – Conheceu meu avô Tarif em um safári na África. Ela era uma socialite de uma família inglesa excêntrica, mas aristocrata... Lady Sophie Gregory. Tarif apaixonou-se perdidamente, porém para ela meu avô não passava de mais um na sua longa


lista... uma novidade. Bastaram poucos meses vivendo na antiquada Marwan, sem extravagâncias, e minha avó desistiu. Só ficou tempo suficiente para dar à luz meu pai, e semanas depois foi embora. Chrissie sabia ser imparcial quando ouvia apenas um lado da história. – Foi isto que seu pai lhe contou? – perguntou. – Sim – respondeu Jau. – Eu a vi uma vez quando era adolescente. Estava em Paris fazendo um curso e ela estava em uma festa onde fui convidado – murmurou de má vontade. – Ela veio falar comigo e disse: “Soube que é meu neto. É emproado e teimoso como seu pai?” – Então sua avó tentou rever o filho – deduziu Chrissie daquele cumprimento. – Em outras palavras, ela não era uma mãe tão indiferente quanto diziam. É muito provável que seu avô não tenha permitido que ela visse o


filho de novo porque fugira do casamento. Já pensou sob esse ângulo? Não, Jaul não tinha pensado assim e cerrou os maxilares porque aquela história de família havia muito tempo se transformara em uma lenda incontestável. Fora gravada em pedra, e ele não podia acreditar que Chrissie duvidasse. – Meu avô tinha motivos para ser amargo – defendeu. – Que motivos? – Chrissie estava muito satisfeita por poder alfinetar Jaul, mesmo que fosse sobre uma velha história da família. Por quê? Porque ele estava arruinando a vida dela outra vez. Ele voltara a possuí-la como agora possuía o filho e a filha. Não havia como interpretar mal aquela cláusula do contrato, nenhuma desculpa para uma jovem ingênua que estivera tão apaixonada que não previra um futuro em que poderia ter filhos e acabar sozinha e abandonada. Chrissie sabia que jamais se perdoaria por ter sido tão idiota e


imprevidente sobre um assunto tão importante como o direito de manter e criar seus próprios bebês e viver onde escolhesse. – A deserção de lady Sophie tornou Tarif motivo de riso. Naquele tempo manter a dignidade era tudo para um soberano, mas ele nada pôde fazer para esconder o fato de que a esposa o abandonara. – E sem dúvida jamais a perdoou por isso e a impediu de ver o próprio filho como castigo. Por outro lado, fez uma lavagem cerebral na criança para que odiasse e desconfiasse de todas as mulheres ocidentais – concluiu Chrissie com evidente desdém. – Não se esqueça que conheci seu pai, Jaul, e não tive dúvidas de que ele considerava uma mulher como eu uma maldição para o nome de sua família. – Ela fitou Jaul com severidade. – Sabendo como ele se sentia, por que diabos você se casou comigo? – Ela respirou fundo. – Não, apague isto. Não responda. Sei por que se casou comigo.


Jaul arqueou as sobrancelhas negras e lembrou de sua última discussão em Oxford. Chrissie pedira que a levasse consigo para Marwan, protestara contra o segredo que ele impusera sobre seu casamento, e o acusara de manter essa atitude mais por vergonha que por discrição. Mas não era verdade. Jaul sabia que, se não preparasse seu pai, ele iria reagir mal. Então voara para Marwan com a intenção de dar a notícia sobre seu casamento pessoalmente. Retornando ao momento presente, refletiu tristemente que deveria ter avisado muito antes, pois se assim tivesse feito tudo que se seguira teria acontecido de maneira muito diversa. – Você não sabe por que me casei com você, já que nunca soube o que eu pensava – revidou ele com extrema frieza. – Na verdade, tentei protegê-la. Para desgraça de nós dois, o destino tinha outros planos.


Antes que Chrissie pudesse replicar, a porta de um elevador no vestíbulo se abriu e a babá, acompanhada por uma jovem com vestes típicas de Marwan, apareceu; cada uma carregava um bebê sonolento para entregar à sua mãe. – Vou embora agora – murmurou Chrissie. – Quero que fique – pediu Jaul. – Ouça. – Chrissie apoiou a mão em seu braço moreno e ficou na ponta dos pés para murmurar. – Pelo momento ficarei com minha família. Farei o que preciso fazer apenas quando você partir para Marwan. Quando irá? – Devo voltar dentro de 24 horas. Já divulguei as fotos que tiramos no nosso casamento para a embaixada, que as enviou para a mídia em Marwan. Chrissie empalideceu. Então só lhe restava um miserável dia de liberdade? Apenas mais um dia para ficar com sua família e saborear


sua independência e liberdade para fazer o que quisesse? Engoliu em seco e perguntou: – Então você espera que eu... o quê? – Encerre sua vida aqui imediatamente. É claro que sua família será bem-vinda para nos visitar e ficar conosco sempre que quiser. – Então é hora de você conhecer meu pai – anunciou Chrissie de modo abrupto, uma expressão dura no olhar porque duvidava que Jaul fosse gostar da experiência. Seu pai, Brian Whitaker, era cheio de preconceitos contra estrangeiros, os ricos e a realeza apenas para enumerar alguns, e não costumava usar de diplomacia e esconder seus sentimentos a esse respeito. Jaul merecia esse encontro enquanto ela não merecera o que tivera com o pai dele, o falecido rei Lut. – Meu pai virá a Londres hoje à noite para nos ver. NO CAMINHO de volta para a casa da irmã levando os gêmeos, Chrissie relembrou o dia


em que conhecera o rei Lut. O suor que tomara conta de seu corpo quando por fim percebera que o velho zangado vestido como se tivesse saído de um filme sobre o deserto era seu sogro. Ele nem sequer falara com ela em inglês. Por meio de outro homem idoso sempre colado a ele, o rei Lut fizera com que suas palavras fossem traduzidas, usando também de gestos furiosos e um discurso gritado. Entretanto Jaul dissera a Chrissie que seu pai falava inglês fluentemente. Era provável que o estado emocional do rei o tivesse impedido de encontrar as palavras certas em inglês, as horríveis e odiosas palavras que nunca haviam saído dos ouvidos de Chrissie desde que o rei lhe assegurara que o casamento dela com Jaul jamais fora válido... O rei Lut dissera: – Não foi um casamento correto. Jamais pretendeu ser nada além de um caso passageiro e Jaul quer que o deixe em paz. Tudo acabou


com você agora que ele voltou a Marwan. Ele não quer que fique morando aqui na sua casa inglesa e também não quer mais ouvir falar de você. Por favor, não o incomode mais visitando nossa embaixada. Por sorte consegui abafar o escândalo que seria provocado se essas suas visitas fossem divulgadas para a mídia. Meu filho pretende se casar com uma moça decente de nossa própria cultura. E quem irá se casar com ele se você provocar um escândalo? E o rei falara muito mais, lembrou Chrissie com tristeza, cada palavra destinada a garantir que ela percebesse como era sem importância e indigna de ser a esposa de Jaul. Tudo não passara de uma aventura sexual, nada mais. Ela fora uma intrusa no apartamento dele, uma visita constrangedora que provocara cenas na embaixada de Marwan. Em resumo, uma mulher digna de pena se agarrando a um homem que já não a queria. O orgulho de Chrissie havia sido esmagado, e seu coração se


partira porque amava Jaul com todas as suas forças. E agora parecia que sua vida fizera um círculo completo, refletiu dentro da limusine que a levava de volta para a casa da irmã. Sabia que Cesare e Lizzie a apoiariam caso escolhesse lutar contra Jaul pelas crianças, mas não podia deixar de lembrar que Cesare a pressionara a ter cautela ao lidar com Jaul, porque o rei tinha poder e influência. Em outras palavras, mesmo seu cunhado poderoso e muito inteligente duvidava de suas chances de vencer a batalha pela custódia. E havia duas ameaças além de seu dilema, percebeu desesperada. Primeiramente, se lutasse contra Jaul tudo ficaria amargo e ruim e, em segundo lugar, o que aconteceria se ela acabasse perdendo a luta pela custódia dos gêmeos? Quantas vezes Jaul permitiria que ela os visse depois de tal conflito e com as hostilidades que surgiriam? Chrissie


estremeceu sentindo frio enquanto se fazia esta pergunta muito realista. Já não estava avisada pela história da avó britânica de Jaul, lady Sophie? Pelo que pudera deduzir, a pobre mulher nunca mais pudera ver seu filho, pelo menos não até que ele se tornara adulto e já muito enfurnado nos preconceitos e hostilidades para ouvir o outro lado da história. Chrissie percebeu que se não tomasse cuidado cairia vítima da mesma desgraça e perderia seus dois filhos. Sua outra preocupação era o egoísmo de envolver Cesare e Lizzie em seu conflito. Lizzie estava grávida de novo e a última coisa de que precisava era de mais pressão e ansiedade. Uma causa nos tribunais seria enervante e traria o tipo de publicidade que sua irmã e seu cunhado odiavam, pois, apesar de sua fortuna, os dois viviam uma vida serena e reservada.


Entretanto, se Chrissie partisse para o divórcio e para a batalha pela custódia com Jaul, a imprensa sem dúvida iria desfrutar do caso porque o casamento secreto de um rei árabe com uma inglesa seria um prato cheio demais para ignorar. Não, Chrissie não podia se arriscar a expor a família ou os filhos a esse tipo de publicidade escandalosa. Afinal, casara com Jaul de livre e espontânea vontade e só ela devia lidar com as consequências disso. Por que outras pessoas deveriam pagar também?


CAPÍTULO 7

COMO SE fosse uma estátua de pedra, Chrissie acomodou-se no jato particular de Jaul que voava para Marwan. Seu corpo delgado estava aprumado e rígido, as mãos severamente cruzadas sobre o regaço, os olhos vazios. Jaul comprimiu os lábios e friamente retornou a atenção para seu laptop. O que esperara? Uma companheira de viagem agradável e feliz? Era preferível se concentrar na parte boa: Chrissie estava a bordo com seus filhos e, melhor ainda, concordara em usar as roupas certas para a primeira aparição pública que impressionaria seu povo. O vestido azul simples acentuava a graça de sua figura. À luz


do sol que entrava pela janela do avião estava incrivelmente bela, com o cabelo brilhando como uma cascata de prata. A mesma luz acentuava a pele de porcelana quase transparente e a perfeição dos lábios polpudos e cor-de-rosa. De maneira previsível, Jaul logo lembrou da maciez do cabelo dela que parecia seda sobre sua pele e do calor de sua boca sensual. Os longos dedos morenos se crisparam a essa lembrança enquanto a excitação o dominava com a força de um vulcão em erupção, deixando-o cheio de desejo e ansiedade. Rangendo os dentes, ele tratou de se concentrar em como ela iria reagir ao pedido especial que ele teria de lhe fazer. Comprimiu os lábios sensuais e resolveu abordar o assunto com diplomacia. A rigidez de Chrissie encobria o tumulto íntimo que sentia. Queria gritar e berrar de frustração. Literalmente Jaul a perseguira e


acuara como se fosse uma presa de caça. Depois de dois anos de atraso, assumia ao lado dele seu papel de esposa e mãe de seus filhos, papel que, no passado, ironicamente teria abraçado com satisfação. O suor molhava seu lábio superior enquanto lembrava da multidão de paparazzi que brigara para fotografar a família real de Marwan no aeroporto, e a sólida parede de guarda-costas que fora necessária para mantê-los à distância. Não lhe ocorrera que a notícia de seu casamento iria despertar tanta atenção tão depressa. Jaul encarara com calma, mas Chrissie irritara-se com o nível de exposição. Porém, na verdade, as últimas 24 horas haviam sido também muito desconcertantes. Cesare e Lizzie reagiram ao seu anúncio de que estava indo para Marwan com Jaul muito menos surpresos do que ela ingenuamente esperara. A irmã e o cunhado concluíram que


Jaul e Chrissie estavam se esforçando para consertar o casamento pelo bem dos dois filhos. – E se não der certo, pelo menos você saberá que tentou e poderá voltar para casa – dissera Lizzie sem saber que Chrissie desistira de sua opção de “voltar para casa” legalmente dois anos antes, de acordo com o tal contrato prénupcial. Se quisesse voltar para a Inglaterra, teria que deixar os filhos para trás e essa opção estava fora de questão para ela. Nesse mesmo dia, Chrissie embalara seus pertences, comunicara seu afastamento da escola e colocara o apartamento aos cuidados de uma imobiliária. O que sobrara de suas magras 24 horas de liberdade ela usara para fazer compras com a irmã a fim de conseguir um novo guarda-roupa mais apropriado com vestidos mais formais. À noite seu pai chegara a Londres para uma visita e Jaul fora jantar com eles. O rei agira com bom humor diante das


ferroadas do pai de Chrissie e rira quando mais tarde ela elogiara sua calma. – Em matéria de mau gênio, comparando com meu pai o seu é um santo, Chrissie. Meu pai perdia a cabeça em crises de raiva pelo menos uma vez por semana. Não havia como tentar raciocinar com ele. E frequentemente ofendia as pessoas. É claro que foi muito mimado na infância e adolescência, e como se via como um líder todo-poderoso nunca pensou em controlar seu gênio – confidenciara Jaul, surpreendendo Chrissie com sua franqueza. – Foi um bom aprendizado para mim. Aquela olhada no passado de Jaul fora chocante para Chrissie porque para ela parecera menos uma experiência aprendida e mais a vida ao lado de um tirano. Recordando o enraivecido rei Lut que conhecera brevemente, Chrissie nada comentara enquanto reprimia um calafrio ao contemplar a possibilidade de


que, tendo tido um pai tão intolerante e inflexível, a infância de Jaul não deveria ter sido tão serena e privilegiada como ela sempre pensara. Antes de pegar o avião, Chrissie fora ao cabeleireiro, aparara as pontas e fizera as unhas. Era pouca coisa, mas assim se apresentaria como a esposa real que o povo de Marwan esperava ver. Real? Essa palavra a fez revirar os olhos. A única coisa real a seu respeito era o casamento com Jaul, pensou com amargura e rebeldia. Concordara em voltar para um marido que a abandonara e que ainda precisava se explicar sobre esse procedimento. Como ela permitira que escapasse impune? Como deixara que essa gigantesca pergunta fosse sufocada sob o terror de perder a guarda dos filhos? E que diabos Jaul ainda escondia dela? Provavelmente estava apenas tentando esconder a verdade feia, refletiu Chrissie com


ironia. Mas ela não era boba e podia imaginar o cenário. Obviamente Jaul nunca a amara; só sentira um desejo que aumentara muito por causa da resistência dela a não se entregar de início. Será que percebera logo após o casamento que cometera um terrível engano e que ela não era nada do que esperava em uma esposa? E será que então confessara tudo isso para o pai? Do contrário, por que Jaul nunca mais voltara de Marwan? E será que agora estava envergonhado por tê-la tratado tão cruelmente? Por tê-la deixado sem ter coragem de terminar tudo com uma conversa franca? Pelo fato de seu pai ter tentado subornar Chrissie como se ela fosse uma vagabunda cavadora de ouro? Seria por tudo isso que Jaul relutava tanto em se explicar? Por baixo dos cílios, Chrissie observou o marido com muita atenção. Gostando ou não, usando um terno cinza escuro impecável e de


estilo ele parecia deslumbrante. Bastou um olhar para a linha firme do queixo já coberta por um início de barba e para os olhos escuros que também a procuravam, e o estômago de Chrissie se apertou. A lembrança do corpo forte e delgado de Jaul sobre o dela fez seu coração bater depressa, mesmo sob o clima de pressão em que se encontrava nesse instante. Depois seu coração se apertou enquanto os mamilos enrijeciam sob as roupas. Na presença magnética de Jaul, essas reações aconteciam tão naturalmente quanto respirar. O muro de ironia que ela erguera cuidadosamente já começava a se desintegrar em meio ao calor que a dominava. Era desejo, o mesmo que mentalmente ela atribuía a Jaul e o culpava de sentir, e era uma fome muito intensa, admitiu de má vontade. E para sua infelicidade não se extinguia. Se não tomasse


cuidado ele a fisgaria de novo como um pobre peixe. Mas por que afinal se sentia tão vulnerável? Vivera muito bem sem sexo até Jaul retornar à sua vida, e agora parecia que ele acendera uma fogueira em seu íntimo incapaz de se apagar. Aquela fome intensa a deixava inquieta e a fazia voltar ao tempo em que só por ficar ao lado dele era dominada por uma intoxicante excitação. E de jeito nenhum pretendia mergulhar naquilo outra vez, jurou para si mesma. Quando o avião se preparou para aterrissar, a tensão de Chrissie atingira seu auge. Temia a vida que a aguardava em Marwan. É claro que temia. Uma cultura diferente, um idioma que desconhecia, e de repente ela era um membro da família real, uma rainha de verdade. Obviamente estava nervosa, pensando nos erros que sem dúvida cometeria.


Ainda se via como a filha do fazendeiro de Yorkshire, que nascera na pobreza e convivera com uma mãe problemática. Conseguira cursar a universidade e se tornar professora, mas jamais passara por sua cabeça que um dia seria a esposa de um rei. Mesmo quando se casara com Jaul, recusara-se a pensar no futuro porque parecera tão distante e irreal. Na época não lhe ocorrera que, apesar de não aparentar a idade e ser muito saudável, o rei Lut já estava com mais de 70 anos. O senhor sofrera um ataque cardíaco fulminante e morrera de um minuto para o outro. – Saiba que em Marwan a notícia sobre nosso casamento foi recebida muito bem – informou Jaul para serená-la enquanto o avião iniciava a aterrissagem. – O palácio foi inundado com votos de felicidades, flores e presentes para nossos filhos. Chrissie ficou agradavelmente surpresa.


– Bem, mas sem dúvida seu povo acha muito estranho você ter esperado até agora para admitir que é casado? – Os preconceitos de meu pai contra as mulheres ocidentais e seus ataques de ódio eram famosos e as pessoas provaram ser muito compreensivas a respeito da minha reticência em revelar meu casamento – explicou Jaul secamente. Jane, a babá, veio se juntar a eles com os gêmeos usando roupinhas brancas enfeitadas de bordado inglês para sua primeira aparição pública. O silêncio dominou enquanto desafivelavam os cintos de segurança. Chrissie respirou fundo, decidindo fazer o melhor possível pelo seu futuro. E Jaul estava excluído desse futuro. Não precisava permanecer casada com ele para sempre, lembrou com teimosia. Assim que pudessem se separar, ela nem precisaria morar sob o mesmo teto que ele,


refletiu, imaginando por que dessa vez tal pensamento não a animava. Quando chegou a hora de desembarcar, Jaul pegou Tarif do colo de Jane. – Quero exibir meu filho. – Mas não deixou ninguém fotografar os gêmeos em Londres – observou Chrissie surpresa. – Ali era Londres. Aqui é Marwan. Nosso povo tem o direito de ser o primeiro a ver este garotinho em carne e osso – declarou ele sem hesitar. – É meu herdeiro e um dia será rei. Desembarcaram e a multidão que aguardava para saudá-los começou a se aproximar. Os guarda-costas de Jaul fizeram um círculo em volta do casal e dos gêmeos. Ali perto uma banda militar tocava e Chrissie ficou espantada ao ver câmeras de televisão sob o céu azul. O calor era intenso, muito maior do que Chrissie imaginara em sua inocência. Um grupo de personalidades adiantou-se e começou a


conversar com Jaul enquanto uma senhora sorridente se aproximava de Chrissie, fazia uma reverência e dizia em um inglês perfeito que Soraya era adorável. Os flashes espocavam à sua volta e Chrissie achou difícil continuar a conversar e sorrir como se fosse a coisa mais natural do mundo. Muito devagar a família real, as autoridades e o povo entraram no edifício do aeroporto, que felizmente tinha ar-condicionado. Chrissie acolheu o frescor enquanto mais fotos eram tiradas. Era um choque ser o centro das atenções com os gêmeos. Mas estava agradavelmente surpresa com o clima amigável com que fora recebida e com o número de pessoas ali que falavam seu idioma. Quando Tarif começou a ficar inquieto em seus braços, Jaul concluiu que era hora de ir, e em minutos estavam em uma limusine passando por uma larga avenida. Chrissie arregalou os olhos ao ver a multidão que abria


alas para acenar e saudar a família real. Sem dúvida Jaul era um líder popular. Curiosa, Chrissie observou as ruas com edifícios moderníssimos que poderiam estar em qualquer cidade grande, embora a ocasional aparição de minaretes e homens com mantos desse um toque exótico ao cenário urbano. – Como é o palácio? – perguntou quebrando o silêncio. – Antiquado – avisou Jaul. – Tudo parece da época da rainha Vitória com exceção dos banheiros, cozinhas e aparelhagens eletrônicas. Há muito tempo o palácio não tem uma rainha que cuide dele. – Tinha me esquecido. – Você poderá mudar o que quiser. Não me oporei... a menos que os cômodos fiquem estranhos e desconfortáveis como os da mansão em Londres – finalizou ele. A limusine deixara as ruas da cidade para trás e planícies rochosas ladeavam agora a


estrada deserta. A noite caía. Ao longe Chrissie podia ver o topo de dunas gigantescas que variavam da cor ocre ao laranja, iluminadas pelo sol poente. Surgiram enormes portões e altos muros com torres adiante, e Chrissie se inclinou para a frente no assento com expressão admirada. – É o palácio? Meu Deus, é do tamanho de uma cidade e parece da época das Cruzadas! – A parte da frente da fortaleza original foi construída pelos cruzados antes que os expulsássemos – explicou Jaul com ar divertido. – Por centenas de anos, enquanto a moda mudava, cada geração acrescentou novos cômodos. Até eu não conheço todos eles. No passado a família era muito maior e meus ancestrais tinham muitos criados e soldados que precisavam de abrigo. As sentinelas nas amuradas ergueram as armas em saudação e gritaram vivas enquanto a limusine passava pelos portões automáticos.


– Então quem está encarregado de tudo no palácio? – perguntou Chrissie com curiosidade enquanto o veículo passava por jardins lindos até parar em frente à entrada principal e antiga com uma abóbada. – Bandar, meu braço direito, é o responsável porque cuida das finanças domésticas, mas minha prima Zaliha coordena as atividades no palácio. Sua irmã é casada com Bandar, que mora aqui como a maioria da minha equipe particular. Uma morena de corpo bonito e olhos negros e amendoados surgiu sorrindo à porta, fazendo uma reverência. Apresentou-se como Zaliha, falando um inglês perfeito, desejou felicidades e pediu para segurar Soraya, tudo em um piscar de olhos. O frescor agradável do arcondicionado saudou Chrissie, que penetrou em um vestíbulo circular com paredes incrustadas com madrepérolas. – Que beleza – murmurou.


– Há partes que não são tão bonitas – alertou a morena sem preâmbulos. – Não vá dar a impressão errada para minha esposa – ralhou Jaul com brandura. – Você fala inglês muito bem – elogiou Chrissie. – Meu pai pertencia à embaixada em Londres e estudei lá – explicou Zaliha. – Oh, meu Deus... – Chrissie olhava para os cômodos que percorriam, repletos de móveis caros e antiguidades, alguns parecendo ter centenas de anos. – É quase... medieval. – E tudo pronto para ser renovado – acrescentou Zaliha alegremente. – Vamos diretamente para nossos aposentos agora – avisou Jaul, e antes que a morena começasse a tagarelar demais com Chrissie, segurou a esposa pelo cotovelo. – Sim, senhor. – Zaliha fez outra reverência e foi cuidar de sua vida.


– Pretendia explorar o palácio um pouco – protestou Chrissie em voz baixa enquanto Jaul a fazia virar um corredor e subir uma escada de pedra. – Talvez mais tarde. No momento tenho algo importante a discutir com você – disse ele com inesperada seriedade. – Esta ala do palácio é inteiramente nossa e privativa – anunciou quando chegaram ao segundo andar. Assim que Jaul abriu a porta de um quarto de crianças, sem dúvida com mobília nova, a babá se adiantou e sorriu com satisfação olhando em volta. Duas jovens correram para eles a fim de oferecer ajuda com os gêmeos. – Você e Jane terão trabalho para dispensar todas as empregadas que vão querer ajudar. Há muitos anos não havia crianças reais sob este teto – comentou Jaul, entrelaçando os dedos aos de Chrissie para guiá-la ao longo do corredor outra vez. Ela estava aliviada por ver mobília contemporânea nos quartos por que


passavam. O tempo podia ter parado no térreo do palácio e nas salas que deviam ser abertas ao público, mas na ala de Jaul a modernidade chegara, graças a Deus. Ele abriu a porta de uma elegante sala de visitas em tons de azul e creme e deixou que Chrissie passasse na frente. Ela obedeceu, sentindo seu perfume almiscarado e subitamente ficando excitada. Com as faces coradas, afastou-se dele enquanto Jaul afrouxava a gravata e tirava o paletó. – Disse que tínhamos algo para discutir – lembrou ela com calma. – Meus conselheiros pediram que levássemos em consideração realizar um casamento tradicional em Marwan a fim de permitir que as pessoas celebrem o evento conosco – explicou Jaul, deixando Chrissie muito surpresa com tal sugestão. – Seria declarado feriado, a cerimônia propriamente dita seria particular... como é nosso costume... mas tiraríamos fotos...


– Está me pedindo para casar com você de nnovo? – gaguejou Chrissie, chocada. – Sim. Creio que é isto mesmo que estou pedindo. – Os olhos negros com nuanças douradas a fitaram sob os cílios longos. Chrissie franziu a testa. – Quer que casemos de novo, mesmo que tenhamos concordado em permanecer juntos até que um divórcio seja aceitável para seu povo? Ele cerrou os maxilares e estreitou os olhos. – Não quero me divorciar. Desisti no momento em que soube que tínhamos dois filhos. Chocada com a proposta, Chrissie deixou-se cair sobre um sofá até que conseguiu dizer: – Não ligo para o que você quer, só me importo com o que você concordou. E você concordou que eu poderia me divorciar se quisesse, mais tarde.


– Mas os gêmeos precisam de nós dois. Cresci sem mãe... ela morreu no dia em que nasci. Crianças precisam de mãe e pai. Desejo que seja um casamento de verdade e não uma farsa – confessou Jaul sem sentir remorso. Chrissie ergueu-se do sofá subitamente, reanimada pela declaração dele. – Então mentiu para mim em Londres. Só disse o que tinha que dizer para me persuadir a vir a Marwan com você, mas claramente nunca teve intenção de me dar o divórcio. Jaul fincou os pés no chão, com os ombros rígidos e tensos enquanto a via caminhar de um lado para o outro. – Não menti, Chrissie. Só esperei que com o tempo você mudasse de ideia sobre o divórcio. Esperar não é mentir nem é pecado – terminou ele friamente. Chrissie soltou um risinho amargo diante daquela lógica.


– Mas você sabe me engabelar muito bem, Jaul. Fez isto dois anos atrás quando eu me casei confiante, e sabemos o que aconteceu. Não lhe ocorreu que eu não queira ficar com um marido em quem não confio? Que uma segunda cerimônia de casamento seria uma piada diante do modo como me traiu? – perguntou ela com emoção, lutando para recuperar as rédeas. – Afinal, ainda não me explicou por que me abandonou há dois anos e nunca mais entrou em contato... Jaul franziu a testa e ergueu a mão para silenciá-la. – Chrissie, ouça... – Não. – Os luminosos olhos cor de turquesa reluziam e ela ergueu o queixo, desafiando Jaul a lhe dar a explicação que ela merecia. – Chega de evasivas entre nós e de perguntas sem respostas – despejou. – Você nada tem a perder e finalmente pode ser honesto. Dois anos atrás,


apesar de todas as suas juras de amor eterno, você me abandonou... isto é um fato. – Mas não foi o que aconteceu... – Em um gesto de frustração, Jaul passou os dedos pelo cabelo negro. – E para que discutir isto tanto tempo depois? Quero um recomeço agora... – O que aconteceu há dois anos ainda é muito importante para mim – retrucou Chrissie, determinada a não ceder. – Creio que percebeu que nosso casamento fora um erro e não teve coragem de me dizer isso cara a cara... – Não foi isso – interrompeu Jaul com súbita rispidez. – Quando a deixei em Oxford, tinha total intenção de voltar para você. Mas meu pai pedira minha ajuda e eu não podia recusar. Uma guerra civil eclodira em Dheya, país que faz fronteira conosco a leste, e milhares de refugiados estavam entrando em Marwan. O caos dominava, e eu era necessário para coordenar os esforços humanitários...


– Pelo amor de Deus, você não me contou nada disto há dois anos! – queixou-se Chrissie, sem disfarçar o ressentimento e levantando do assento. – Achou que eu era uma cabeça de vento e não entenderia que você estava cumprindo com seu dever? – Não queria que você me perguntasse quando tempo ficaria fora porque eu mesmo não fazia a menor ideia – admitiu Jaul com franqueza. – Viajei para a fronteira imediatamente ao chegar a Marwan em um comboio com equipe médica e soldados. Um míssil detonado por uma das facções em Dheya cruzou a fronteira para Marwan. Nosso comboio foi atingido em cheio... Chrissie ficou tão chocada com a revelação que voltou a cair sobre o sofá, sentindo as pernas fracas e o coração aos pulos. – Está me dizendo que foi... ferido? – Fui o que teve mais sorte. – Jaul fez uma careta. – Sobrevivi enquanto todos os que


estavam comigo pereceram. Saí vivo dos escombros, mas sofri vários ferimentos graves na cabeça e na espinha dorsal, e fiquei em coma durante meses. Nos primeiros dias depois que ele desaparecera de sua vida, Chrissie temera que Jaul tivesse sofrido um acidente, porém descartara a ideia enquanto o tempo passava e não recebia nenhuma mensagem dele. Retornando ao momento presente, sentiu náuseas e temeu desmaiar. – Mas ninguém me contou nada – gemeu. – Ninguém me contatou. Por que nenhuma pessoa me contou sobre seu acidente? – perguntou com voz fraca, lutando para compreender uma omissão tão grave. – Poucas pessoas sabiam do meu estado, meu pai proibiu a divulgação de minhas condições físicas, pois temia que provocasse uma retaliação popular contra Dheya e os refugiados. Na verdade o que me aconteceu foi


algo comum em uma zona de guerra – enfatizou Jaul com um sorriu triste. – Ainda estava em coma quando meu pai foi vê-la em Oxford... – Você estava ferido, precisava de mim... e mesmo assim seu pai não me contou! – exclamou Chrissie cada vez mais incrédula e furiosa. – É claro que ele não queria que eu soubesse o que havia acontecido com você, mas eu era sua esposa! Tinha todo o direito de ficar ao seu lado. – Não se esqueça que meu pai não aceitou que estivéssemos legalmente casados. Só comuniquei para ele que me casara na véspera de minha viagem no comboio e ele estava irado conosco. – Mas você ainda estava em coma quando ele veio me ver – lembrou Chrissie, os olhos escuros de desprezo ao considerar esse aspecto da história. – Na verdade seu pai tirou


vantagem do seu estado de saúde. Como alguém pode descer tanto? Com expressão severa, Jaul respirou fundo. – Não fale mal de meu pai. Ele estava tentando me proteger, porém, tem razão, jamais perdoarei sua interferência. – Oh, que bom saber disto! – replicou Chrissie com profundo sarcasmo. – Seu pai manteve sua esposa longe de você quando precisava ficar ao seu lado... Muito protetor, sem dúvida! Jaul viu-se tentado a lembrá-la que seu pai lhe oferecera dinheiro para se afastar dele e esquecer sua existência, e após a reunião com o rei Lut, Chrissie concordara em fazer exatamente isso. Entretanto, agora que sabia da gravidez e do nascimento de seus filhos, Jaul via o passado de maneira diferente. Chrissie devia ter precisado muito daquele dinheiro para sobreviver como mãe solteira, e não podia condenar a escolha que ela fizera.


– Então você estava em coma – retomou a conversa Chrissie, com voz tensa, dominando o rancor contra o falecido rei com enorme dificuldade porque sabia que insultar o velho apenas deixaria pontos importantes ainda mais confusos. – Quando saiu do coma? – Depois de três meses do acidente, quando todos já começavam a perder as esperanças. De início não me lembrei de você. Não lembrava quase nada – admitiu Jaul com tristeza. – Sofrera um grave ferimento na cabeça e estava em profundo estado de confusão mental apenas com fragmentos de memória. Aos poucos fui recordando, meu pai então me contou que vira você e lhe dera o dinheiro. Ratificou sua crença de que nosso casamento não fora válido e me informou que você não viria me visitar. À medida que ouvia, Chrissie ia ficando mais pálida porque a raiva a dominava de uma maneira incontrolável. Se tivesse sabido que Jaul estava hospitalizado, nada a teria mantido


longe dele! Mas, enquanto ele estivera preso em um leito, o pai dele manipulara a situação e se aproveitara do fato de Chrissie desconhecer o acidente a fim de destruir um casamento que odiava. Nem mesmo o filho mais amoroso consideraria isso um gesto de “proteção”! A interferência do rei Lut fora maldosa, sem perdão e extremamente egoísta. O esforço que ela fazia para dominar a raiva e a hostilidade que cresciam em seu íntimo a deixou enjoada. – Odeio seu pai pelo que fez conosco! – gritou em uma explosão que não podia mais ser contida. – Ele arruinou nosso casamento de propósito, entretanto você ainda não sabe como condená-lo. Lá estava você... precisando de mim, e ele garantiu que eu saísse do cenário. Como pode desculpar tal coisa, Jaul? Ele se afastou de Chrissie com impaciência, a profunda lealdade que sentia pelo falecido pai oscilando por causa das palavras dela.


– Preciso ser honesto. Naquele ponto de minha recuperação, também não queria vê-la. De início pensei em visitá-la quando estivesse mais forte, mas quando isso aconteceu já se passara tanto tempo que me pareceu um ato em vão – murmurou ele com os dentes cerrados. Foi como se Chrissie levasse uma bofetada com aquela declaração tão fria. – Não entendo como pode dizer isto. Quanto tempo se passou até que se sentiu forte de novo para viajar? – exigiu saber ela, cruzando os braços sobre o peito como se desejasse conter as emoções. A segurança e o controle férreo de Jaul a deixavam louca. – Levei mais de um ano para ficar de pé outra vez. – Jaul empalidecia por ser forçado a lembrar desse período tão traumático de sua vida. – Minha espinha dorsal fora lesada. Precisei de mais cirurgias e semanas de


recuperação até os médicos decidirem se eu voltaria a caminhar ou não. Diante do fato de que seu mundo ruíra e se sentindo confinado ao leito de um hospital sem conseguir se mover, precisando de ajuda até para os atos mais simples, Jaul não se surpreendera com o anúncio de que sua esposa o abandonara. Também estava muito deprimido na ocasião e traumatizado por ter sobrevivido quando companheiros e guardacostas que conhecia desde a infância haviam morrido instantaneamente no mesmo acidente. E além do estado mental delicado e da crença de que o pai comprara a lealdade Chrissie, estivera tristemente ciente de que ele e Chrissie haviam se separado em Oxford brigados. Ela se zangara por deixá-la para viajar sozinho. Naquele tempo Chrissie era uma sonhadora idealista e, embora ele amasse essa característica que nada tinha a ver com ele, também julgara que se tratava de uma fraqueza


e que ela não saberia enfrentar as durezas da vida. O que seria pior para uma jovem noiva do que um marido condenado à cadeira de rodas? Por fim convencera-se que seu casamento não fora válido conforme dizia seu pai, e isso fora o fator mais importante que o impedira de agir. Afinal, se Chrissie não era sua esposa, que direitos tinha sobre ela? – Mas sem dúvida quando melhorou você teve acesso a um telefone ou pôde pedir que alguém entrasse em contato comigo? – insistiu Chrissie acusadoramente. Jaul enrijeceu os ombros largos e comprimiu os maxilares com agressividade. – Eu estava em uma cadeira de rodas... o que poderia dizer a você? Serei franco... Não queria me reaproximar de você como um aleijado. Você já aceitara um acordo de cinco milhões de libras do meu pai e presumi que dinheiro fora tudo que sempre quisera de mim.


Chrissie sentiu-se ultrajada por Jaul acreditar que ela aceitara o dinheiro de Lut e fugira. Sem dúvida achara mais fácil acreditar nisso do que confrontá-la. Por outro lado, Jaul sempre fora muito viril para aceitar a limitação física. Sem liberdade de movimentos, forçado a ficar meio inerte, como deveria ter se sentido? Mas Chrissie não quis pensar nisso e tentou se concentrar nos fatos. Percebeu com o coração apertado que Jaul pusera na frente seu orgulho quando optara por não procurá-la de cadeira de rodas, e essa constatação a feriu mais do que qualquer outra coisa. – Mas, na verdade, não aceitei o dinheiro – murmurou ela em tom distraído, tão profundo era o sentimento de rejeição ao perceber que Jaul não a procurara mesmo ferido. – Você aceitou. – Não, não aceitei. Seu pai deixou um cheque ridículo de cinco milhões de libras sobre a


mesa, porém eu nunca descontei. – Mas você disse que tinha dinheiro suficiente quando eu a revi e, é claro, presumi... – Não estava me referindo a nenhuma retirada em dinheiro da conta bancária de seu pai – cortou-o Chrissie rispidamente. – Cesare, meu cunhado, comprou a ilha grega que eu e minha irmã herdamos de minha mãe. Minha parte foi substancial. Comprei meu apartamento com uma fração do dinheiro e coloquei o resto em investimentos até completar 25 anos no próximo ano. Foi isso que quis dizer quando me referi a ter dinheiro suficiente. Deixei o cheque do seu pai mofando sobre a mesa. Jaul ficou estático diante de tal revelação. Franziu a testa. Cinco milhões de libras haviam impressionado até ele mesmo como sendo uma soma enorme a ser oferecida para subornar uma jovem que crescera sem muitas posses. As pessoas mentiam, trapaceavam e matavam por


muito menos do que Chrissie poderia ter recebido. Esse era o principal motivo para nunca ter questionado a história de seu pai, porém agora estava determinado a averiguar a história de Chrissie. Seria verdade? – Quando foi exatamente que meu pai a visitou? – perguntou Jaul de modo abrupto. – Cerca de dois meses depois que você partiu, e estava furioso quando o vi. Você havia me dito que ele falava inglês, porém não disse nada que eu pudesse entender. A pessoa que o acompanhava traduziu tudo. – Ele foi acompanhado por alguém... além de seus guarda-costas? – perguntou Jaul franzindo a testa. – Descreva essa pessoa. – Pequeno, cerca de 60 anos, barba de bode e óculos. Jaul enrijeceu ao perceber que existia uma testemunha viva para o encontro entre seu pai e sua esposa.


– O conselheiro de meu pai, Yusuf – identificou sem hesitar, pensando que logo Yusuf receberia sua visita. As alegações de Chrissie exigiam e mereciam uma investigação mais profunda. Se ela não sacara o dinheiro, o que acontecera com o cheque e por que ninguém lhe dissera nada? Mantê-lo na ignorância de que sua esposa não retirara o dinheiro era um sinal de que ele a julgara mal. Não era uma ideia agradável, porém ele sabia que seu pai deveria ter sido informado que o cheque de cinco milhões de libras não fora sacado. Devagar Chrissie se ajeitou no sofá, deixando a tensão abandonar seu corpo. Seu cérebro estava zonzo como se tivesse lutado dez rounds no ringue de boxe. O choque por saber do acidente de Jaul ainda a dominava. A amargura e o antagonismo haviam desaparecido de sua alma quando ouvira a história real sobre o que os separara dois anos antes. Jaul não a


dispensara. Ele não fora embora por vontade própria. Na verdade planejara voltar para ela caso o destino não o tivesse impedido por causa do acidente e das mentiras que seu pai dissera a ambos. Jaul certamente teria voltado. Por um breve segundo Chrissie se permitiu pensar em como poderia ter sido e engoliu em seco com tristeza, lutando para imaginar como teria se sentido se Jaul tivesse voltado e estado a seu lado quando ela descobrira sobre a gravidez. Percebeu que idealizava um mundo completamente diferente e muito mais feliz. A dor e a culpa a dominaram de repente ao pensar que Jaul sofrera tanto quanto ela ao se separarem. Como seu pai pudera inflingir tanta dor para os dois? Lágrimas quentes inundaram os olhos de Chrissie. Ela piscou diversas vezes porque se sentia mortificada, já que apenas chorava sozinha, coisa que aprendera a fazer quando


sua vida se despedaçara após o desaparecimento de Jaul. Respirou fundo e Jaul se distanciou da janela onde se encontrava, afastando os pensamentos perturbadores diante da perspectiva de confrontar Yusuf, o ex-braço direito de seu pai. Ele teria uma conversa com Yusuf. Era um momento de decisão para Jaul porque precisava escolher entre seu casamento e o respeito que tinha pela memória do pai. Mas ele sabia que tal respeito não era desculpa para evitar uma verdade chocante. Entretanto, se Chrissie estivesse sendo sincera a verdade seria chocante demais e ele talvez não suportasse, refletiu com tristeza, tentando afastar esse pensamento. Agiria conforme fora educado para agir, cumprindo seu dever e procedendo com honra fosse lá o que descobrisse. – Onde fica o lavabo? – perguntou Chrissie com voz tensa, fazendo com que ele retornasse a atenção para ela.


Ao ver a expressão de Chrissie, Jaul ficou rígido e deu um passo adiante. – Primeira porta no alto da escada, mas o banheiro do quarto fica mais perto – explicou. – Você está nervosa... está chorando... Chrissie aprumou-se como se fosse um marionete e alguém tivesse puxado suas cordas de repente. – Claro que não estou chorando! – protestou com voz rouca. – É esta bobagem sobre o passado... fiquei confusa. – Desculpe – murmurou Jaul com um leve suspiro enquanto a abraçava e tentava fazê-la parar de tremer. – Sabia que se lhe contasse sobre o acidente tudo voltaria à tona, e por isso relutei tanto... – Mas eu precisava saber a verdade – replicou Chrissie, erguendo o queixo, ato que não impediu o brilho de lágrimas em seus olhos. Um nervo pulou no canto da boca de Jaul e seus belos olhos reluziram em tons dourados


enquanto ele acariciava de leve o rosto de Chrissie em um gesto de consolo. – Magoei você. Chrissie fitou-o e se maravilhou com a beleza de Jaul, mesmo com o cabelo negro despenteado e a barba por fazer. Uma antecipação deliciosa a possuiu, fazendo-a engolir em seco. Quando encarou os olhos de cílios longos, seu coração acelerou como louco. Queria tanto que ele a tocasse que enfiou as unhas nas palmas das mãos e cerrou os punhos. Jaul era pura força física e máscula e o corpo dela vibrou com o toque de suas mãos, o sangue parecendo fogo líquido em suas veias. A boca sensual e quente de Jaul pressionou a sua, enviando ondas de prazer por seu corpo com a força de um raio. Jaul ergueu-a nos braços e a carregou para o quarto ao lado. Ao colocá-la sobre a cama, os dedos de Chrissie deslizaram por seu cabelo negro a fim de mantê-lo ao seu lado.


– Beije-me – pediu ela, precisando pensar desesperadamente em alguma coisa... qualquer coisa além da realidade de que Jaul quase morrera dois anos antes. Se ele tivesse morrido ela nunca mais o veria, nunca mais teria a chance de abraçá-lo nem teria a alegria de vê-lo segurar os filhos nos braços com orgulho.


CAPÍTULO 8

JAUL

com todas as forças de seus sentimentos; com paixão e experiência, como se fosse um assalto sensual e devastador. Antes que ele a tocasse, Chrissie sentia uma turbulência emocional, e quando a conexão física aconteceu não conseguiu quebrá-la; passou os braços pelo pescoço dele, necessitando dessa segurança. Um beijo febril se seguiu ao outro, aumentando a chama em seu coração, o que apenas intensificou seu sofrimento. – Se me deixar possuí-la agora, jamais a abandonarei – disse Jaul com voz rouca, BEIJOU-A


fitando-a com intensidade. – Não posso lutar contra o desejo que sinto por você. Chrissie retribuiu o olhar e se sentiu muito leve pela primeira vez desde que Jaul retornara à sua vida. Ele não escolhera abandoná-la; as circunstâncias o haviam obrigado, ele não concordara com a interferência do pai, e se a julgara mal a respeito do suborno ela precisava lembrar de que eram recém-casados na ocasião e que não se conheciam profundamente. Será que deveria puni-lo pelos pecados do pai? Poderia acusá-lo de tentar amar e confiar em seu único parente vivo na época? Embora os pais de Chrissie a tivessem magoado e não compartilhassem de suas ideias, ela ainda os amava. Ela mais do que ninguém deveria entender como era forte o sentimento de amor filial, refletiu com tristeza. Com um dedo traçou o contorno do lábio inferior de Jaul, regozijando-se com a paixão.


– Não lute mais contra este desejo – murmurou ela suavemente. – Não vamos nos apressar, habibti – disse Jaul, tirando a camisa e a deixando sem fôlego. – Mas estou com pressa... – incentivou Chrissie com a boca seca enquanto ele se despia sem o menor constrangimento e parecendo desconhecer o fato de que era perfeito em sua masculinidade, uma obra de arte, pensou Chrissie enquanto tirava os sapatos e descia o zíper lateral do vestido. Jaul possuía músculos rijos e um físico magro, moldado pelos exercícios, a pele bronzeada do tórax era coberta por uma penugem negra que chegava até o cós da calça. – Eu me apressei da última vez... e depois você foi embora – lembrou. – Mas não porque você não tivesse sido... perfeito – retrucou Chrissie com sinceridade. – Fui embora porque estava confusa demais e me


senti ainda pior depois que você surgiu com aquele insano acordo pré-nupcial que assinei... – Isso ficou no passado... deixe para lá – pediu ele. – Estamos tendo um novo começo. Um novo começo. Chrissie viu-se saboreando essa declaração. Jaul não queria se divorciar. Desejava que permanecessem casados e criassem seus filhos juntos. Não havia nada errado em tal aspiração, havia? Como criticá-lo por isso? Entretanto, se ela esquecesse o passado, será que conseguiria avançar em direção a um futuro mais promissor? E por que não tentar? Por que não dar outra chance à sua união? O que tinha a perder? – Um novo começo...? – repetiu em um sussurro. – Estamos juntos de novo com nossos filhos. O que poderia ser mais natural? – Jaul praticamente ronronou enquanto se aproximava dela como uma pantera pronta a dar o bote.


Sim, parecia ser tão natural estar com ele de novo, reconheceu Chrissie, analisando suas feições bonitas enquanto setas escaldantes a trespassavam em uma onda arrebatadora que a deixava sem ação. Fosse lá o que Jaul pensasse a respeito de seu caráter, ainda a desejava, e sempre a desejara. Pelo menos esse desejo era uma base para o futuro. Ele passeou o olhar sobre o corpo de Chrissie. – Venha cá. Só temos mais um problema para resolver. Está com roupas demais – murmurou, sentando na cama e se aproximando mais para erguer a barra do vestido e passá-lo pela cabeça de Chrissie. Os olhos dela se iluminaram ao tirar a roupa. Jaul abriu seu sutiã e o arremessou para o lado. – Quero olhar para você. Ela prendeu a respiração e lutou contra o instinto que a fazia desejar se cobrir. Suas faces


se ruborizaram enquanto se encostava aos travesseiros. As mãos de Jaul cobriram seus seios como se fosse um gesto de reverência, e ele murmurou com voz rouca: – Pura perfeição. Apertou de leve os mamilos rosados e então, com um gemido de rendição, abaixou a cabeça e os sugou como se estivesse faminto. Chrissie sentiu tanto prazer que gemeu também se agarrando ao cabelo dele. Todo o seu corpo parecia voltar à vida diante do calor que ele despertava. Apertou as coxas para conter a ansiedade que a dominava e meneou os quadris. Nesse instante tudo que queria era sentir o toque das mãos dele enquanto também acariciava seu corpo, deslizando os dedos do ventre liso até sua ereção. – Pare. Estou excitado demais – avisou ele. – Quero penetrar você.


– Estou com pressa – murmurou ela com urgência, arqueando os quadris enquanto não parava de acariciá-lo. – Não me dê ordens quando estamos na cama – murmurou ele. Com a leveza que não sentia havia muito tempo, Chrissie riu. – Deite-se apenas cinco minutos... e prometo que depois fará o que quiser – murmurou em tom de provocação. – Não hoje. Assim dizendo, Jaul acariciou seu ventre e desceu até as coxas; com um dedo contornou a entrada sedosa e úmida fazendo-a estremecer, arquear as costas e quase gritar. Jaul deslizou para baixo e encostou a língua entre suas coxas; dessa vez Chrissie gritou bem alto, a respiração entrecortada, a garganta seca enquanto um prazer intenso a envolvia e a fazia entrar em outro mundo onde sensações abençoadas a dominavam, afastando qualquer


outra coisa. Girava a cabeça de um lado para o outro enquanto o suor cobria seu corpo; os mamilos ficaram intumescidos e Jaul executou os movimentos eróticos com a língua que a levariam ao clímax. E isso logo aconteceu, fazendo Chrissie delirar. – Foi... fantástico – murmurou ela com voz fraca, sentindo dificuldade em falar enquanto ele a fazia se erguer e ficar de joelhos na cama. – Gosto de lhe dar prazer, habibti. Na posição que ele desejava, ela se abriu para recebê-lo dentro de seu corpo, gemendo e incentivando cada movimento, e se sentindo fora de controle. Um frenesi faminto dominoua enquanto ele a penetrava cada vez mais. A cada nova investida sua excitação crescia. Os movimentos iam se intensificando até que Chrissie começou a gritar de novo, esquecida de tudo a não ser do prazer que sentia. Arqueou a espinha dorsal e colou o corpo ao dele, alcançado o clímax novamente com uma


intensidade que a fez penetrar em um paraíso enquanto ouvia Jaul gemer. – Isto sim foi fantástico – murmurou ele enquanto tornava a envolvê-la em um abraço. Seus dois braços a prendiam como se temesse que a qualquer momento Chrissie fosse fugir. Porém ela estava exatamente onde desejava estar. As emoções fortes ainda a dominavam. Jaul dissera que esperar por alguma coisa não era pecado e ali estava ela, se agarrando à esperança. Pela primeira vez na vida entendia a si mesma: ainda amava Jaul e, ao admitir isto, se livrava da carga pesada das lembranças do passado e do sofrimento para se focalizar no novo começo que ele prometera. – Então... er... você mencionou outro casamento – lembrou ela com delicadeza. – Se você acha que aguenta – murmurou Jaul com cautela, enquanto ela apoiava a testa em seu queixo; ele imaginou se fazia isso como um gesto de carinho ou de negação.


– Creio que aguento, principalmente se for uma cerimônia de casamento como sempre sonhei – confidenciou com meiguice. – O casamento de seus sonhos? – incentivou ele. – Sim, porque antes você não queria atrair atenção, então usei um vestido simples na embaixada – lembrou-o ela. – Dessa vez gostaria de um vestido de noiva de verdade... e, ah, sim, desejo que minha irmã esteja presente. – Tudo isso será providenciado. Vestidos de noiva ocidentais são muito populares por aqui atualmente. – Sério? – Chrissie arregalou os olhos cor de turquesa. O súbito riso carismático que ela quase esquecera voltou a iluminar as feições de Jaul. – Sério... mas terá que ser providenciado às pressas. Meus conselheiros esperam que possamos realizar a cerimônia depois de amanhã...


– Depois de amanhã? – repetiu ela sem poder acreditar, livrando-se dos braços dele para sair da cama, nua. – Preciso ligar para Lizzie e avisá-la! Agradavelmente surpreso por ver como ela consentira com facilidade, Jaul levantou-se da cama também, porém sem pressa. Riu ao ouvir Chrissie tagarelando com a irmã ao telefone no quarto anexo e parou por alguns segundos para apreciar a visão da esposa de pé, completamente nua, a silhueta delicada brilhando como porcelana branca e rosada sob a luz do sol que penetrava pelas frestas da janela. Preocupado que algum empregado entrasse sem aviso, agarrou um roupão atoalhado no banheiro e o estendeu para ela; Chrissie enfiou os braços no roupão com um sorriso nos olhos que prendeu a atenção de Jaul. Ele voltou para o quarto e pegou o celular para chamar Yusuf.


Porém não encontrou o ex-ajudante do pai. O criado de Yusuf informou que seu patrão estava nos Estados Unidos visitando a filha e só regressaria dentro de duas semanas. Jaul fez uma careta, sabendo que não seria apropriado abordar um assunto tão delicado com Yusuf pelo telefone. Não tinha escolha a não ser esperar que o senhor voltasse, e enquanto esperasse mais e mais perguntas e dúvidas surgiriam em sua mente. Pior ainda, percebeu com súbita preocupação que, se Chrissie dissera a verdade sem exagerar em nada, ele se transformaria na parte culpada que quase destruíra a vida dela. CHRISSIE DESLIGOU o telefone e respirou fundo, espantada ao perceber que estivera tagarelando com a irmã como se fosse uma adolescente deslumbrada. Perguntou-se o que acontecera. Encostou-se à janela que se abria para uma sacada de pedra com vista para o magnífico jardim com suas árvores florescendo. Será que


era uma completa idiota? A pergunta a obcecava. Ainda amava Jaul e queria dar uma chance para seu casamento... mas. E era um “mas” gigantesco. Precisava ser realista e parar de proceder como uma garotinha tonta. Precisava ver o cenário como era de verdade e não embrulhar tudo em papel de presente, porque a melhor maneira de fazer o casamento degringolar seria começar com grandes expectativas e presenciar um processo lento mas constante de destruição. Jaul não a amava. Atração sexual não era amor, por mais intensa que fosse. Outros aspectos falavam alto e não podiam se ignorados, refletiu ela com tristeza. Jaul fora a Londres para vê-la basicamente porque desejava o divórcio, e só mudara de ideia ao saber que era pai. Só desejava permanecer casado com ela porque agora Chrissie era mãe de seu filho e Tarif era o herdeiro de seu trono. Amor e


afeição nada tinham a ver com essa decisão. Jaul estava preparado para proceder como marido e pai não apenas para satisfazer as expectativas tradicionais de seu povo, mas também para dar aos gêmeos um lar estável e digno deles. Era um motivo louvável, porém não significava que Jaul estivesse feliz em reconhecê-la como esposa e rainha ou que a teria escolhido de livre vontade para esse papel se as circunstâncias fossem outras. Afinal, seu primeiro casamento fora muito impulsivo. Entretanto, que opções ele tinha? Podia ser um homem sensual de paixões fortes, mas era guiado pela razão e praticidade. Querendo ou não, estava preso a uma esposa da qual não podia se divorciar sem chocar e desapontar seu povo. O destino o forçava a tirar o melhor partido possível de uma situação peculiar. A pele de Chrissie se arrepiou enquanto ponderava sobre essa teoria humilhante para ela, porém sabia que seria tolice ignorar e mais


tolo ainda presumir que compartilhar a cama com Jaul significava para ele algo a mais do que a mera satisfação momentânea do desejo sexual. Acalmada por essas reflexões, Chrissie apertou o cinto do roupão enorme e voltou para o quarto, aliviada por constatar que havia duas suítes anexas. Nesse exato momento precisava de espaço e de paz para se recompor. A verdade, refletiu com relutância, era necessária para manter seus pés no chão, mas, por Deus, a verdade doía...


CAPÍTULO 9

COM

LIZZIE ao seu lado, Chrissie cruzou a entrada do vestíbulo da Embaixada Britânica na Cidade de Marwan com o rosto pálido erguido, o cabelo preso e ornado apenas com um véu curto. Os sapatos de saltos extraordinariamente altos soavam sobre o assoalho. Seu vestido era tão justo no corpete que mal conseguia respirar, porém sentia-se poderosa sob o tecido bordado que reluzia. Seu manequim era padrão... exato, e Zaliha descobrira que vários estilistas da elite estavam loucos para apresentar uma coleção de roupas e acessórios para a escolha de uma rainha. O


vestido que no momento Chrissie usava e que fora encomendado às pressas segundo a vontade de Jaul, era justo nos braços e no corpete, continuando abaixo da cintura em uma saia leve e rodada da mais pura seda. – Você está espetacular – murmurou sua irmã com grande orgulho. – E estou tão contente que Jaul esteja se esforçando para fortalecer seu casamento. Chrissie sorriu quase sem forças, depois de sorrir sem parar durante a longa sessão de fotos que precedera sua partida do palácio real. Lizzie não sabia que com essa renovação dos votos de casamento Chrissie estava apenas satisfazendo as exigências do povo de Marwan e não propriamente reconfirmando os votos por vontade própria. Chrissie compreendera muito bem que um casamento que todos pudessem testemunhar era o que Marwan desejava. A primeira parte desse dia seria para ir à embaixada de sua terra natal, a Grã-Bretanha, e


ali reafirmar os votos matrimoniais dentro do protocolo britânico, seguindo-se um almoço de volta ao palácio. À tarde Chrissie se prepararia para o casamento tradicional de Marwan, que se realizaria no palácio ao entardecer seguido por uma grande festa. Jaul interrompeu a conversa com seu cunhado, Cesare, para prestar atenção na entrada de sua noiva. Ela estava linda com um vestido tão feminino e elegante. Pela primeira vez ele entendia o que fora para Chrissie aquele casamento secreto que ele insistira em realizar dois anos antes em Londres. Não tinha sido um dia de sonho para uma noiva extasiada, admitiu com remorso. Ele quisera apresentar para o pai um fato consumado, mas casando com Chrissie sob a luz das câmeras dos paparazzi apenas deixaria o rei Lut mais amargo e hostil. Porém, no final, seu desejo de privacidade e segredo de nada adiantara.


Quando o capelão da embaixada se aproximou para realizar a cerimônia de confirmação dos votos, Chrissie mal conseguiu desviar os olhos de seu belo e viril Jaul. Ele vestia um terno cinza-claro matinal que lhe caía muito bem, porém Chrissie agora costumava ficar mais maravilhada quando o via de jeans logo ao amanhecer, deitado no chão do quarto das crianças e brincando com Tarif e Soraya antes de ir trabalhar. Os gêmeos estavam se acostumando a esperar pelo pai e associavam as visitas frequentes com brincadeiras mais barulhentas e turbulentas que adoravam. Ver Jaul brincar com seus filhos aquecia o coração de Chrissie, que ficava se repetindo para não amolecer demais e ter cautela, para que seu coração não se partisse de novo. Retornando ao momento presente, sentiu que Jaul pegava sua mão enquanto o capelão começava a falar e ela tentava sufocar a traiçoeira sensação de insegurança. Por alguns


segundos se deixou perder nas lembranças do dia de seu casamento dois anos antes e pela sensação de feliz segurança que sentira quando recebera a aliança. Porém essa segurança tivera vida curta. Agora a aliança e o anel que Jaul lhe dera estavam de volta aos seus dedos, tendo deixado o cofre de Cesare a pedido dela. Chrissie sorriu lembrando que estava recomeçando e também no momento Jaul agia impecavelmente. Ela não precisava de seu amor e devoção, disse a si mesma com impaciência; iria centrar suas energias em se tornar a melhor mãe e rainha que pudesse ser sem procurar sonhos românticos. Jaul fora seu primeiro amor, ora! E eram apenas estudantes, mas esse tempo podia voltar. Será que ela desejaria voltar? Novamente as discussões bobas causadas pela imaturidade e a incompreensão? Uma coisa Chrissie precisava reconhecer: Jaul mudara. Imaginava que o sofrimento após o acidente causara essa mudança, porque agora


era muito mais tolerante e menos dominador do que no passado. Mais flashes espocaram enquanto Jaul a levava para fora da sala da cerimônia na embaixada. De volta ao palácio na limusine, ele a brindou com um sorriso carismático e ergueu a mão morena para apontar para a multidão que enchia os dois lados da entrada. – Uma cerimônia já se realizou seguindo os costumes de seu país – disse ele. – Agora só teremos mais uma. Vamos nos sentir muito casados ao final do dia. Os olhos dela brilharam com ar divertido. – Sim... – Hoje à noite viajaremos para o deserto por alguns dias. Preciso encontrar os sheiks tribais e será a ocasião perfeita para apresentar você às suas famílias. Embora estejamos nos tornando uma sociedade cada vez mais urbana, não existe uma só família no país que não tenha conexões de nascimento ou casamento com


uma das tribos do deserto. O apoio dessas tribos é importante – explicou. – Zaliha viajará conosco como intérprete para você. – Sim. Depois pretendo tomar aulas de árabe. – No deserto isso não será de grande valia para você. As tribos falam um antigo dialeto – respondeu Jaul, e pegou sua mão com seriedade. – Estou gostando de ver sua atitude positiva para com tudo isto. – Farei o que precisar para ser uma boa rainha – Chrissie garantiu, erguendo o queixo. – Não quero envergonhá-lo ou as crianças agora ou no futuro. Os cílios longos e negros cobriram seus olhos e Jaul murmurou: – Intenção louvável, porém a minha é mais pessoal. Chrissie livrou a mão. – Verdade? – perguntou antes que tivesse tempo de controlar o sarcasmo. – Duvido


muito que veja nosso casamento no plano pessoal. Como poderia? As cerimônias de hoje são o máximo da publicidade calculada para agradar seus súditos. Eu não pretendia ter uma festa tão luxuosa. – O que damos a impressão de sentir em público poderá ser verdade em particular. Não precisa ser fingimento – retrucou Jaul com suavidade. – Vamos ser simples, Jaul. Ambos faremos o melhor que pudermos e veremos o que acontecerá – sugeriu ela com displicência. – Como quiser. – Ele se perguntava o que acontecera com a jovem apaixonada de antes. Aquela Chrissie jamais aceitaria tão pouco. Não. Exigiria seu amor e atenção e reclamaria se não recebesse o que esperava. Será que a mudança nela era resultado dos dois anos em que ele desaparecera e da luta que travara para ser mãe solteira? Enfim, seria ele o culpado? O


pensamento aborreceu-o, pois não podia ser culpado pelo acidente que sofrera... De volta ao palácio, seguiu-se um almoço ao estilo europeu. Tarif e Soraya foram trazidos à mesa, ocuparam seus cadeirões, e comeram depressa para logo exigirem a liberdade sobre o assoalho onde se divertiram engatinhando debaixo da mesa e puxando cadarços de sapatos e barras de calças. Achando muita graça, Jaul agarrou Tarif por baixo da toalha de mesa e o devolveu para a babá. A essa atura Soraya já dormia enrodilhada nos braços da mãe, obrigando Chrissie a comer sua sobremesa com dificuldade. Zaliha fez um sinal discreto para Chrissie quando chegou a hora de se retirar para se preparar para a segunda cerimônia de casamento. Passando Soraya para os braços da babá, Chrissie deixou a mesa, seguida de Lizzie. Zaliha apresentou Chrissie para um grupo de mulheres mais velhas que aguardavam em sua


suíte e que ali estavam para prepará-la. Cada tribo nomeara uma representante para ajudar a vestir a rainha. Chrissie tirou o vestido de seda com que fora à embaixada e se dirigiu ao banheiro, que era antigo com uma banheira enorme no centro. Sem dúvida esse cômodo escapara das reformas de Jaul, mas era bonito. Pétalas de rosas boiavam sobre a água com óleos muito perfumados. Trouxeram uma bacia para ajudar a lavar seu cabelo. – O cabelo deve ser lavado cinco vezes – explicou Zaliha em voz baixa. – Ninguém sabe por que, mas é a tradição. Lizzie sorriu e se sentou na cadeira que haviam providenciado para ela. – Vou adorar ver cada minuto deste ritual – disse alegremente. – É tão bonito e exótico. Chrissie banhou-se e depois apoiou a cabeça na borda da banheira enquanto seu cabelo era lavado, esfregado com óleos aromáticos e enxaguado cinco vezes. Emergiu do banho


envolta em uma enorme toalha, e foi diretamente para uma mesa de massagem onde uma especialista massageou todos os seus membros e hidratou com cremes e óleos enquanto uma artista desenhava símbolos complicados feitos de henna nas costas de suas mãos e em seus pés. A atenção infinita com que cada mecha de seu cabelo e cada centímetro de sua pele recebia cuidados especiais demonstrou ser muito relaxante e Chrissie chegou a cochilar um pouco, acordando quando uma mulher entrou cantando no quarto. – Cantam para que você tenha boa sorte e seja fértil – explicou Zaliha, e logo sorriu. – Apesar de já ter demonstrado sua fertilidade com os gêmeos... Então secaram seu cabelo e ele se transformou em uma cortina acetinada que caía pelas costas. Depois foi a vez da maquiagem. Em seguida Zaliha a vestiu com um corpete de seda turquesa com contas


bordadas e uma saia longa combinando, enquanto joias típicas do país feitas de turquesas e prata eram retiradas de uma grande caixa sobre a penteadeira. Uma tiara com moedas de prata foi colocada na sua fronte. – Parece uma princesa guerreira – comentou Lizzie para provocá-la. – Jaul vai adorar. Toda a vestimenta caiu como uma luva em Chrissie e ela a usou com orgulho, ciente de que tanto as roupas que usava como o respeito que claramente demonstrava pela tradições de Marwan agradariam muita gente. A sociedade de Marwan estava entrando depressa na era tecnológica, porém ainda se prendia muito às tradições para preservar sua cultura. Fotógrafos profissionais tiraram muitas fotos da noiva no aposento anexo, e depois Chrissie desceu para a cerimônia. Os preparativos para Jaul haviam sido muito mais simples, consistindo meramente em um banho, uma mudança de roupa e rezas com o


imam, o líder islâmico. A seguir fora se reunir aos convidados e à sua equipe que o aguardavam. JAUL VIU Chrissie no instante em que ela entrou na sala. Com as roupas típicas de Marwan, era a imagem perfeita de uma boneca de porcelana, mas uma boneca de tirar o fôlego com sua beleza e porte. O corpo de Jaul reagiu como se fosse um adolescente e não um adulto. De modo automático ele logo virou a cabeça para não olhá-la, tentando recuperar o controle e pensando que nenhuma mulher jamais tivera tal efeito sobre ele. Mas, afinal, era a única que já amara na vida e nada doera mais do que perdê-la. Fechara essas emoções em seu coração, e nunca mais as trouxera à tona. Não fizera bem para evitar tanto sofrimento? – Sua esposa é ainda mais adorável em pessoa do que nas fotos, Vossa Majestade – disse o sheik mais velho a seu lado, fazendo Jaul


deixar a introspecção e olhar para Chrissie de novo. – É um homem de muita sorte. Teria sido sorte tê-la para depois perdê-la de novo? Ser forçado a chantageá-la usando seus filhos para reconquistá-la? Enquanto a consciência o torturava, Jaul pensou que não. Pusera os interesses dos filhos na frente, lembrou com teimosia, garantindo que, ao contrário dele que perdera a mãe ao nascer, Tarif e Soraya crescessem com sua mãe os amando e protegendo. Mas e se o que ele oferecia não fosse suficiente para manter Chrissie ao seu lado? Um vazio imenso dominou-o diante da perspectiva de perdê-la outra vez. A resposta era simples, percebeu. Precisava ter certeza absoluta de que Chrissie desejava ficar ao seu lado. O olhar dela percorreu a sala até pousar em Jaul. Era a primeira vez que o via usando as roupas tradicionais de seu país. Com um manto com bordas douradas sobre os ombros


largos, ele usava vestes de linho bege com uma camisa por baixo muito branca e desabotoada que ressaltava sua pele morena. Um arranjo de cabeça com cordões dourados cobria o cabelo negro, enfatizando ainda mais sua estrutura óssea, os cílios longos e a boca sensual. Parecia exótico e muito lindo. Chrissie respirou fundo. – Jaul se parece um pouco com Cesare. Não importa o que vista, sempre fica maravilhoso – comentou Lizzie ao seu ouvido. A cerimônia de casamento foi formal e breve. As mãos dos noivos foram unidas em um ritual e depois soltas. Em comparação com a cerimônia mais leve realizada na embaixada britânica, onde haviam renovado os votos, ali havia um clima mais severo e cantos foram entoados. Um pouco intimidada com a solenidade da ocasião, Chrissie virou-se para fitar Jaul, procurando apoio. Ele segurou seu cotovelo, muito consciente de que cada movimento que faziam era observado, e que


qualquer demonstração pública de afeto seria inaceitável nesse momento. – Acabou – disse Jaul, como se falasse com uma criança após colocar um curativo no joelho machucado. A noite caíra quando entraram no salão. No pátio maior do palácio, braseiros luziam e luzes coloridas iluminavam as palmeiras e folhagens de encontro à escuridão. Jaul guiou Chrissie até dois tronos dourados colocados no centro, enquanto à sua volta a criadagem ia de um lado para o outro com bandejas de iguarias. – Vou servi-la – comunicou ele, afastando com um gesto o criado ansioso, e erguendo a tampa de uma travessa. Jaul estava muito pensativo, o casamento realizado ali no lar de seus ancestrais o emocionara muito. Chrissie era sua esposa e era seu dever protegê-la, coisa que não fizera quando a desposara anteriormente, apesar de o acidente não ter sido sua culpa e de não ter


podido evitá-lo. Porém a verdade era que a deixara desamparada. Um homem que assumia a responsabilidade de uma esposa sempre deveria cuidar da segurança dela no caso de ocorrer uma tragédia, refletiu com culpa. Fora jovem e intempestivo, fizera mau juízo de Chrissie, e ela pagara o preço por causa de sua arrogância. Mas iria garantir que não tivesse mais motivos para se preocupar. Por seu lado, Chrissie estava muito consciente e constrangida com a atenção que despertava nos convidados enquanto Jaul a servia. – Provendo suas necessidades antes das dele, o rei a honra muito – explicou Zaliha enquanto uma criada os servia com copos de suco. A música começou. Dançarinos fizeram uma exibição acrobática e atlética, poesia foi declamada, votos de parabéns foram dados, um comediante apresentou um quadro, mas mesmo com Jaul traduzindo Chrissie não


entendeu muito bem as piadas. As câmeras brilhavam gravando tudo em silêncio. Quando o ar da noite se tornou mais frio e Chrissie se arrepiou por baixo das mangas leves da roupa, Jaul a fez levantar e a cobriu com seu manto, dizendo: – É hora de irmos. Uma comitiva de carros os aguardava do lado de fora do palácio. Chrissie entrou no primeiro veículo e observou os guarda-costas de Jaul ocuparem os demais. – Estou sempre para lhe perguntar: onde estão seus antigos guarda-costas que conheci? – lembrou de improviso. Ao perceber que ele empalidecia e seus olhos se sombreavam, soube que não deveria ter perguntado. – O acidente? – murmurou mortificada, involuntariamente se lembrando de Hakim, que era alto, magro, sério, e de seu irmão caçula, Altair, sempre sorridente.


Jaul aquiesceu com um gesto de cabeça silencioso e pesaroso. Chrissie procurou sua mão e apertou. – Lamento tanto – disse com sinceridade, ciente que Jaul crescera com os dois irmãos. A comitiva penetrou no deserto com os motores fazendo barulho e percorrendo um caminho acidentado. Chrissie quase escorregou do assento e foi amparada por Jaul. – Ainda falta muito? – perguntou ela, certa de que seus dentes iriam quebrar com os sacolejos. – Estamos quase lá. Ficaremos no acampamento mais próximo ao palácio. Assim que chegaram ao seu destino, Jaul desceu sumindo na sombra enorme projetada por uma tenda gigante enquanto luzes brilhavam do lado de fora e dentro dela. – Teremos todo o conforto necessário aqui – garantiu, ajudando Chrissie a descer do carro. –


Os gêmeos virão amanhã. Não fazia sentido atrapalhar seu sono hoje. A tenda não era nada do que Chrissie esperara. Para começar parecia muito mais espaçosa do que calculara e era dividida em vários ambientes. A área da sala estava preparada para fornecer todo o conforto, as paredes eram trabalhadas em lã e contas e o chão era forrado por tapetes belíssimos e peles; almofadas de seda davam um ar de opulência. – Uau! Não vamos acampar como eu imaginara. – Sim, não é uma tenda comum. Está com forme? – perguntou Jaul, afastando uma cortina. – Não, estou satisfeita – admitiu Chrissie, seguindo-o até um quarto ainda mais magnificamente decorado que a sala. – Não se economizou luxo aqui... – Mas nós dois teremos que dividir um banheiro – retrucou Jaul, erguendo outra


cortina para que ela visse tudo. – Por gerações meus ancestrais visitaram o deserto na primavera e no final do verão para se reunir com os anciões tribais. Mirando-se em um espelho, Chrissie retirou a tiara de moedas porque, como o resto das joias antigas feitas à mão que usava, era muito pesada. Atrás dela em silêncio, Jaul abriu o fecho do colar que ela usava sem que Chrissie pedisse e ela o segurou quando deslizou para seu colo, colocando-o na bandeja junto ao espelho e depois afastando o cabelo para retirar os brincos. – Qual das roupas que usei hoje você prefere? – perguntou ela de improviso. – Ficou sempre linda, parecendo uma modelo na passarela, mas meu coração acelerou quando a vi assim... – Ele deslizou os dedos longos e morenos sobre o ombro dela. – A cor reflete o tom de seus olhos e suas curvas ficam apenas sugeridas, o que me agrada – confessou


com voz rouca. – Talvez eu me pareça mais com meus ancestrais do que imaginei e há cem anos teria colocado um véu em seu rosto para que ninguém a olhasse... O rubor invadiu as faces de Chrissie. Esperara que ele dissesse que a preferia de qualquer jeito e Jaul a surpreendera com uma honestidade que ela considerou muito sexy. – Com véu? – provocou ela. – Sua beleza pode cegar um homem – sussurrou Jaul, deslizando os lábios quentes na pele pálida de seu ombro e a apertando contra si. – Você me cegou na primeira vez que a vi, mas era a hora errada no lugar errado e na companhia errada. – Sim – reconheceu ela, os seios arfando com a proximidade das mãos dele, cheia de desejo enquanto sentia um nó na garganta. Entretanto a alusão de Jaul ao seu primeiro encontro a surpreendeu, pois nada poderia ter sido mais estranho do que encontrá-lo logo


após ele ter dormido com sua amiga, que logo procurara outro homem. Tal encontro infeliz fizera com que Chrissie resistisse aos avanços de Jaul por muito tempo. Os lábios dele acariciaram seu pescoço enquanto a deitava na cama e uma descarga elétrica percorria o corpo de Chrissie. Depois piscou diversas vezes quando Jaul tomou sua mão e delicadamente enfiou um anel no mesmo dedo de sua aliança de casamento. – O que é isto? – perguntou Chrissie em um murmúrio, fitando o aro com pedras preciosas que reluziam junto à aliança. – Cor-de-rosa? – Diamantes cor-de-rosa, um presente que lembra a sua pele. Meu presente de casamento. – E eu que nem pensei em lhe dar um presente hoje! – exclamou ela com um gemido de frustração. – Mas você já me deu Tarif e Soraya, que têm um valor inestimável – declarou Jaul sem


hesitar. – Jamais poderei agradecer o suficiente por nossos filhos. Os olhos de Chrissie brilharam à luz do abajur porque percebeu que Jaul era sincero; ela apertou o lençol, baixou os olhos e então viu que pétalas de rosas haviam sido espalhadas sobre a cama. – Isto é mais uma tradição para atrair fertilidade? – perguntou com suspeita. – As rosas sempre foram reverenciadas no nosso clima. A imprensa de Marwan já a apelidou de “Nossa Rosa Inglesa”. Chrissie riu e revirou os olhos. – É verdade – confirmou Jaul. – Você é muito linda. Encontrando o brilho dourado nos olhos dele, Chrissie enrubesceu porque o desejo começava a invadi-la, a força da sensualidade dele fazia seu coração acelerar e sua boca a ficar seca. Sempre fora assim: um olhar de Jaul a fazia pegar fogo.


Acariciando sua face, ele encostou a boca escaldante aos lábios macios de Chrissie, e foi como se um raio percorresse o corpo dela. O desejo dominou-a, umedecendo o interior de suas coxas. – Jaul... – murmurou, estremecendo entre beijos. – Muito linda... e finalmente minha – disse ele com voz rouca, retirando o próprio arranjo de cabeça e colocando Chrissie em seu colo para começar a desabotoar os minúsculos botões de pérolas nas costas de seu corpete. – Muito casada – murmurou ela, como sempre com o corpo pegando fogo ao sentir o contato das mãos dele. – Já me casei três vezes até agora. Não há como negar. – E eu jamais a renegarei de novo, habibti – sussurrou ele acrescentando em pensamento, mesmo que esteja mentindo e tenha aceitado o suborno de meu pai.


Tomando entre as mãos os seios dela, os dedos apertando os mamilos e depois a fazendo ficar de costas sobre a cama, retirou com facilidade a saia e a roupa de baixo e se ajoelhou para tirar seus sapatos. Chrissie observou-o tirar a roupa e espalhar desordenadamente; esse desmazelo resultava de nunca precisar arrumar nada sozinho. No passado isso a irritara, mas agora parecia algo familiar e ela sorriu. O corpo musculoso e bronzeado dele exibia o órgão rijo e Jaul não se sentia nem um pouco constrangido, seus olhos reluziram com uma espécie de fome e baixou os cílios lentamente, murmurando: – Desejo tanto você... Chrissie ficou deitada na cama se sentindo tão sedutora quanto Cleópatra, e pela primeira vez na vida também pouco se constrangendo com a própria nudez. A intensidade do desejo de Jaul sempre a encantava. Sabia que não era perfeita, porém ele sempre discordara com


veemência. Jamais houvera outro homem para Chrissie, porque apenas Jaul a fazia arder e só ele podia fitá-la como se ela fosse uma deusa que viera à terra em forma humana. Ele se deitou ao seu lado, os olhos sempre brilhando, e a beijou com fúria. Chrissie derreteu-se sob seu corpo másculo, separando as coxas, as pernas circundando os quadris para que a parte mais íntima de seu corpo se juntasse à ereção. – Está tentando me apressar de novo – censurou Jaul. – Esta é uma noite especial. – Todas as noites com você são especiais – replicou Chrissie, oferecendo-se para ele, convidando para que ele se arremessasse dentro de seu corpo. Jaul afastou-se um pouco para pegar um preservativo e logo voltou para acariciá-la entre as coxas, provocando-a até deixá-la louca de desejo. Quando por fim a penetrou, ela deixou escapar o ar dos pulmões em um suspiro feliz


pleno de sensualidade e prazer e atirou a cabeça para trás. – Sim! – murmurou sem fôlego. Jaul afastou-se e a fitou nos olhos enquanto ela tentava mantê-lo dentro de si, a transpiração molhando seu corpo, a respiração entrecortada. Jaul a fez apoiar a cabeça nos travesseiros e passou suas pernas por cima de seus ombros para obter um acesso melhor. – Você é uma feiticeira e me deixa louco – disse com voz rouca, perdendo o controle enquanto ela erguia os quadris para que seu órgão a penetrasse ainda mais e ele acelerasse o ritmo dos movimentos. E então nada mais existiu além da paixão e da excitação selvagem, até que Chrissie se sentiu como se voasse. Ele a penetrava cada vez com mais força e quando o clímax os alcançou foi tudo glorioso e infinitamente prazeroso. Chrissie ficou deitada com a face encostada ao ombro do marido.


– Preciso aprender a confiar em você de novo – murmurou, dizendo o que pensava porque todas as barreiras já haviam caído. – Sei agora que você não escolheu me abandonar, porém sempre tive muita dificuldade em acreditar nos homens. Jaul acariciou seu cabelo despenteado. – Por quê? – Depois que deixou meu pai, minha mãe viveu com vários fracassados enquanto eu crescia – revelou Chrissie sem preâmbulos. – Ou eram bêbedos ou jogadores, batiam nela ou roubavam seu dinheiro. Jaul ficou chocado, tardiamente lembrando que Chrissie sempre fora muito reservada a respeito de sua criação e só agora ele entendia a razão. – Isso explica algumas coisas ao seu respeito. Sempre foi tão desconfiada, sempre esperando algum ataque.


– Mamãe se casou pela segunda vez com seu último parceiro e esse foi o pior de todos... – admitiu Chrissie com tristeza. – De que maneira? – perguntou Jaul. – É sórdido – murmurou Chrissie, afastando-se dele com um repelão. Jaul a fez voltar para seus braços sem hesitar. – Não existe nada que não possa me contar. Os erros de sua mãe não são seus e não a julgarei por isso. Chrissie ajeitou-se no círculo dos braços dele. – Antes de mamãe morrer, meu padrasto a fez trabalhar como prostituta – contou com voz fraca. – Homens vinham à nossa casa durante o dia. Lizzie não sabe disso porque ela estava na escola e em seguida ia trabalhar, porém eu tinha apenas 7 anos e ficava em casa na hora do almoço. Certa vez subi para ir ao banheiro e vi mamãe na cama com um homem. Pareciam estar brigando.


Jaul ergueu seu rosto, vendo que ela tentava ficar na defensiva. – O que aconteceu então? – Meu padrasto me bateu por causa disso. Só muito mais tarde compreendi o que acontecera entre mamãe e aquele homem naquele dia. Mas depois que peguei os dois na cama, passei a ser trancada em meu quarto todos os dias depois da escola... Fiquei com muito medo do meu padrasto. Depois que mamãe morreu, nosso verdadeiro pai nos acolheu na fazenda. – Lamento tanto que tivesse que passar por isso – murmurou Jaul, desejando poder confrontar o padrasto dela e matá-lo por atemorizar uma criança inocente e sensível. – Porém você não tem culpa de nada. – Sim, mas sempre me senti culpada – disse Chrissie, desejando encará-lo de novo, ansiosa por um sinal de nojo no rosto dele e aliviada por ver por fim que ele só denotava preocupação. – Agora me conte algo de que se


envergonhe... – pediu ela para distraí-lo e impedir que fizesse mais perguntas. E também que não fizesse perguntas sobre a história do pai dele e do suborno. Entretanto Jaul não estava disposto a remexer naquela história, e, ao contrário, contou outra coisa: – Perdi a virgindade com uma prostituta de alto nível em Dubai – revelou sem alegria. – Acredite, já passara da idade de saber sobre sexo. – E por quê? – quis saber ela. – Só me senti livre de verdade quando fui para a universidade no Reino Unido – confessou Jaul fazendo uma careta. – Não tinha a menor experiência de como era a vida normal de um jovem. Chrissie apoiou a cabeça em seu ombro e o analisou com seus olhos cor de turquesa cheios de compreensão e pensando como o


interpretara mal ao conhecê-lo e presumir que era o maior dos playboys árabes. Na verdade Jaul passara seus anos de suposta irresponsabilidade juvenil sendo controlado por seu pai. Se procedera um pouco livremente quando conseguira por fim afrouxar as correntes que o prendiam, não podia ser culpado por isso. Chrissie espantou-se ao perceber o pouco que se conheciam quando haviam se casado, porém agora ela o entendia melhor e aceitava que jamais a teria abandonado em outras circunstâncias. BANDAR SAUDOU Jaul no café da manhã no dia seguinte. O conselheiro deu-lhe uma lista com os eventos do dia assim como mensagens urgentes para em seguida apresentar um envelope. – Chegou na mala diplomática de ontem. É de Yusuf, pessoal e confidencial. – Bandar


arqueou as sobrancelhas diante disso, porque não era próprio da personalidade arredia de seu antigo superior enviar mensagens. Jaul enrijeceu e ficou pálido antes de pegar o envelope. Quando ficou a sós, leu. No interior da tenda podia ouvir Chrissie cantando no chuveiro, mas dessa vez não sorriu. Estava lendo o que o ex-conselheiro de seu pai escrevera em um bilhete curto. O que apreendeu primeiramente foram as desculpas. Lembrando de meus atos há dois anos, seria uma ofensa ficar na mesma sala com sua rainha e oferecer meus parabéns por ocasião de seu casamento. E em seguida leu as palavras que esperara, a confirmação de que tudo que Chrissie lhe contara era verdade e que Yusuf se sentia envergonhado demais pelo que fizera com ela no passado para poder comparecer ao casamento. A confirmação atingiu Jaul como


um raio, seu estômago se contraiu e ele se levantou depressa, quase perdendo o equilibro. Tudo que Chrissie dissera fora verdade. Na missiva, Yusuf explicava que secretamente guardara e depois rasgara o cheque que ela deixara sobre a mesa sem aceitar. E Chrissie havia sido expulsa de seu apartamento em Oxford e humilhada. Fora à embaixada de Marwan em Londres para perguntar sobre o marido desaparecido apenas para ser humilhada de novo. E não aceitara dinheiro de seu pai. Jaul nutrira a esperança secreta de que Chrissie tivesse exagerado ao contar sua experiência depois que ele desaparecera, e que as coisas não tivessem sido tão traumáticas, porém a reação de Yusuf era reveladora. Jaul ainda queria ouvir mais detalhes sobre o que Yusuf fizera a Chrissie a mando de seu pai, porém esperaria até que o velho voltasse a Marwan. Agora já sabia o que mais importava.


Sua esposa contara o quanto sofrera e ele duvidara por lealdade ao pai, o rei Lut. Mas e quanto à lealdade devida à sua esposa? Seu pai mentira para ele sem parar. Lut faria qualquer coisa para destruir o casamento do filho. Jaul estava espantado por compreender como o homem que tanto respeitara e amara fora tão egoísta para privá-lo da mulher da sua vida. Quando o sol atingiu o auge roubando o frescor da manhã, Jaul caminhava de um lado para o outro na areia sob os olhares de seus guardas. Não podia escapar de certas conclusões: virtualmente acabara com a vida de Chrissie e, pior, fizera isso duas vezes. Da primeira vez se casara com ela e a deixara grávida e sem recursos; da segundo a chantageara para vir a Marwan e dar outra oportunidade ao seu casamento, principalmente por causa dos gêmeos. Como


pudera errar tanto? Que direito tinha de reter uma mulher que não merecia? Apesar de zangada, Chrissie o perdoara e entendera. Mas ele não merecia seu perdão. Um homem honrado a deixaria partir, refletiu sob o sol do meio-dia. Um homem honrado reconheceria os próprios erros e a deixaria livre para escolher se ficava ou não... Entretanto humildemente reconheceu que não podia imaginar a vida sem Chrissie e os gêmeos agora. Ele errara muito, e precisava ser melhor no futuro, porém a vergonha de sua injustiça pesava. Viu Chrissie se enrodilhar em um sofá à sombra enquanto lhe traziam frutas e bolinhos para o café da manhã. Seu cabelo estava solto e não usava maquiagem. Vestia uma calça cáqui e camiseta branca. Sua esposa... mas por quanto tempo? O estresse o dominou.


CAPÍTULO 10

– O

houve com o cavalo que você idolatrava? – perguntou Jaul com preguiça. – Herói vive em um abrigo perto da fazenda onde eu morava com papai – respondeu Chrissie enquanto voltavam a cavalo para o oásis com o sol surgindo. Os olhos dela brilhavam de admiração com a paisagem ao amanhecer. – Não o vejo há tempos. Enquanto trabalhava e cuidava dos gêmeos era impossível visitá-lo, mas quem sabe da próxima vez que formos a Londres eu possa fazer uma viagem especial para vê-lo. – Por que Herói está em um abrigo? – insistiu Jaul claramente sem entender. QUE


– Porque, Sr. Podre de Rico, quando meu pai precisou deixar a fazenda eu não tive mais como abrigar Herói e também não tinha dinheiro para custear sua sobrevivência, então, para minha sorte, vendemos a ilha para Cesare e eu dei ao abrigo uma quantia para que sustentassem Herói permanentemente – explicou Chrissie enquanto acariciava o pescoço da égua árabe que montava. – Está seguro, bem tratado e feliz. Foi a melhor coisa que pude fazer por ele. Sua estada no deserto estava quase acabando, refletiu Chrissie, pois voltariam ao palácio assim que retornassem ao acampamento. Os estábulos do palácio estavam cheios de magníficos cavalos e Jaul mandara vir para o deserto seu alazão e a linda égua para o casal passear. Todos os dias haviam montado ao amanhecer e ao anoitecer, quando o calor do deserto cedia. Chrissie adorara aqueles passeios tranquilos ao lado do marido e apreciara saber


que o amor que nutriam pelos cavalos e a atividade ao ar livre era algo que os unia. Mas, apesar de Jaul ser muito atencioso, ela suspeitava que alguma coisa estivesse errada com ele. Enquanto Jaul fazia longas reuniões com os sheiks tribais durante todo o dia, ela passava seu tempo com as esposas deles e suas famílias. Chrissie gostava de conhecer pessoas e ouvir sobre suas vidas. Com Zaliha para traduzir, ela contava histórias para as crianças sem a menor cerimônia. Jaul considerara isso um “enorme sucesso” e a elogiara pela facilidade de lidar com seu povo. Chegara a perguntar se Chrissie gostaria de trabalhar em um programa de desenvolvimento educacional para Marwan. Chrissie se sentira muito orgulhosa com o convite, porém continuara a achar que havia algo errado entre os dois. Jaul mostrava certa reserva e distância que não existiam antes, e eles não voltaram a fazer


amor desde a noite de núpcias. É claro que as reuniões extensas o deixavam cansado, refletiu ela. Vinha se deitar de madrugada e levantava muito cedo como sempre. Entretanto, além de não tocar mais na esposa desde a primeira noite, tornara-se muito reservado, o que confundia Chrissie porque Jaul sempre fora expansivo com ela. Na noite anterior, ele rolara para o outro lado da cama e ali ficara, rígido. Chrissie tentara se aproximar, mas o boa-noite educado que recebera dele a fizera mudar de ideia. Quem sabe, refletiu, agora que ela estava sempre disponível já não o atraía tanto? Porém o mais provável e racional era pensar que o marido estava apenas exausto com tantas reuniões diplomáticas. A última coisa que deveria fazer com Jaul, pensou, era deixar que sua imaginação e insegurança criassem problemas que não existiam. O casamento


estava funcionando, não estava? A única coisa que incomodava era a momentânea frieza dele. Quando retornaram ao palácio, Bandar saudou-os à entrada a fim de falar urgentemente com Jaul. Os dois conversaram em árabe e Chrissie notou o tom frio do marido. – O que aconteceu? – perguntou preocupada. Um nervo latejava junto à boca de Jaul. – Minha avó chegou a Marwan e pede para me ver. Está hospedada em um hotel na cidade. – Céus, deve ser bem idosa – comentou Chrissie. – Creio que está viajando com a filha, Rose. Voltou a se casar... meu avô não – recordou Jaul. – Acho que, levando em conta como seu avô e seu pai se sentiam a respeito dela, será um encontro desconfortável para você, mas... Jaul ficou imóvel.


– Não tenho intenção de encontrar as duas. Instruí Bandar para enviar minhas desculpas e um presente apropriado. Chrissie segurou o braço dele e o puxou para uma das inúmeras salas no térreo longe do vestíbulo. – Não pode estar falando sério! Jaul franziu a testa. – Por favor, tente entender, Chrissie. Jamais ouvi algo de bom sobre lady Sophie, apenas que é uma encrenqueira e já tenho muito com que me preocupar no momento sem encorajar esse tipo de problema na minha vida. Chrissie ficou abismada com a veemência de sua rejeição à avó e a Rose e resistiu ao desejo de perguntar o que tinha de tão importante que o impedia de gastar 15 minutos com uma senhora idosa que viera de tão longe para vê-lo. Apenas disse: – Precisa repensar sobre isto, Jaul.


– Embora respeite sua opinião, não cederei. Não é da sua conta. – Lady Sophie é a bisavó dos gêmeos, portanto é da minha conta, sim. Jaul brindou-a com um olhar impaciente e se dirigiu para a porta. – Recuso-me a continuar com esta discussão. Já lhe disse como me sinto e por quê. – Vou vê-la no seu lugar. Jaul virou-se com um repelão. – Não vai. Eu a proíbo. – Você me proíbe? – repetiu Chrissie em um sussurro, imaginando onde ele fora buscar a ideia de que podia proibi-la de qualquer coisa. – Sim, proíbo – repetiu ele deixando a sala. Pode proibir quanto quiser, meu amor, pensou Chrissie com teimosia. Isto não o levará a nada porque não estamos mais no século XVI, quando as esposas obedeciam cegamente aos maridos. No seu entender, apenas por uma questão de boas maneiras, Jaul deveria visitar as duas mulheres


que haviam viajado até Marwan só para vê-lo. Por outro lado, entendia a atitude dele já que o avô e o pai haviam pintado um quadro tão horrível sobre lady Sophie, mas antes de perder a paciência Chrissie estava determinada a fazer o que achava certo e pediu à Zaliha para encontrar Bandar e descobrir em que hotel lady Sophie se hospedara. Duas horas mais tarde, uma senhora de meia-idade muito bem-vestida se apresentou como Rose para Chrissie à porta da suíte do hotel e agradeceu muito por ela ter ido no lugar de Jaul. – Como disse quando você telefonou, minha mãe está cada dia mais frágil e seu desejo de conhecê-la a alegrou. – Porém não sei se posso ajudar a quebrar a frieza da família – avisou Chrissie sem preâmbulos. – Quando minha mãe leu nos jornais a respeito de seu casamento com Jaul, não houve


meios de detê-la – confidenciou Rose. – Ficou convencida de que o casamento do neto com uma inglesa faria uma diferença na atitude dele. Uma senhora muito idosa e pequena com cabelo branco e olhos azuis esmaecidos estava sentada em uma poltrona de espaldar alto com uma bengala entre as mãos nodosas. – Sou Sophie, avó de seu marido – disse com simplicidade. Chrissie estendeu a mão. – Sou Chrissie. – O que ouviu dizer ao meu respeito? – Os fatos básicos – admitiu Chrissie. – Talvez deva contar sobre minhas experiências com a família de Jaul para a senhora. O chá foi servido enquanto Chrissie contava a própria história, sentindo que era melhor ser honesta e admitir as dificuldades que tivera com o filho de lady Sophie, o rei Lut. Ao final de seu relato, Sophie suspirou.


– É triste admitir que mesmo que tivesse convivido com meu filho adulto eu ainda assim não gostaria dele. O avô de seu marido, Tarif, virou Lut contra mim. Nunca houve esperança de meu filho ouvir meu lado da história. Ao contrário, Lut me acusou de ser mentirosa, mas não sou. Casei-me com Tarif aos 19 anos. – Era apenas uma adolescente? – exclamou Chrissie surpresa, de repente entendendo a decoração absurda da mansão em Londres; fora mobiliada por uma adolescente a quem haviam dado uma fortuna para gastar. A senhora sorriu. – Sim, mas eu me considerava muito amadurecida. Qual adolescente não se considera? Minha família era contra o casamento, mas eu estava loucamente apaixonada por Tarif, que parecia muito ocidentalizado e liberal. Jurou que eu seria sua única esposa, e acreditei que não precisava me preocupar. – Suspirou. – Infelizmente, não


basta falar um inglês impecável e usar roupas europeias elegantes para que o caráter de um homem mude. Chrissie apenas ouvia. – Já estava grávida quando voltamos de nossa lua de mel para Marwan. – Lady Sophie fez uma pausa, como se tivesse voltado ao passado. – Foi então que tudo mudou. De repente ficou difícil encontrar meu marido e já não compartilhávamos o mesmo quarto... – Foi por que vocês discutiram? – Não. Logo descobri que meu marido tinha um harém cheio de concubinas. Chrissie arregalou os olhos, chocada. – Concubinas? – Tarif não viu motivos para desistir do estilo de vida de seus antepassados – disse a senhora com resignação. – Não entendia por que eu não aceitava que ele tivesse outras mulheres já que eu era sua esposa, rainha, e em breve lhe daria um herdeiro. Considerava meu


status a maior honra e achava que eu devia ficar satisfeita com isso. – Meu Deus – murmurou Chrissie, simpatizando com a senhora e lutando para compreender a aflição que uma menina ocidental de 19 anos deveria ter sentido quando se vira sozinha e sem o apoio de ninguém nessa situação. – O que a senhora fez? – Implorei para que ele desistisse das outras mulheres e ele se recusou. Era muito teimoso. Durante meses dividimos a mesma ala do palácio vivendo como estranhos. Lut nasceu. Depois Tarif me ordenou que o aceitasse como era. Argumentou que já se sacrificara muito prometendo não tomar outra esposa. – A avó de Jaul franziu os lábios. – Naturalmente me recusei. Meses depois meu pai morreu de repente e voei para casa a fim de comparecer ao funeral. Tarif não deixou que eu levasse Lut comigo. Enquanto eu estava fora, ele me telefonou e disse para que não voltasse a


Marwan a menos que mudasse de ideia e me conformasse com seu estilo de vida. – Obviamente a senhora nunca teve escolha – comentou Chrissie com brandura. – Isso foi cruel. – Quando eu me recusei a voltar para Marwan sob as condições dele, Tarif se negou a me deixar ver Lut. Só voltei a rever meu filho quando ele já tinha mais de 20 anos, e embora ele me deixasse contar minha história, não a aceitou. Lut era um puritano. A mera palavra concubina o deixava irado, e ele me acusou de contar mentiras para denegrir a memória de Tarif. Chrissie suspirou. – Vou conversar sobre isto com Jaul. Ele não se parece nada com o pai. – Tem certeza? – retrucou lady Sophie com expressão preocupada. – Posso garantir que na aparência Jaul é a imagem viva de seu avô e


assuntos delicados como o das concubinas não são discutidos aqui onde o rei é onipotente. Chrissie agradeceu pelo chá e partiu com os pensamentos em polvorosa. Acreditara na história da senhora, mas como ter certeza que já não existiam concubinas do rei no enorme palácio? Será que ela também precisava temer essa situação? Teria Jaul aprimorado seus grandes talentos de amante com incontáveis mulheres de um harém escondido e secreto? Seria por isso que agora demonstrava desinteresse pela esposa? Ou ela estava ficando maluca e fantasiosa? A pergunta que não queria fazer a Jaul a atormentava na volta para o palácio. Será que ele mantinha concubinas como fizera seu avô? Era improvável, raciocinou Chrissie enquanto subia as escadas para sua ala particular e ia ver os gêmeos. Trinta minutos depois ergueu o rosto e viu Jaul à porta, os olhos severos enquanto a


analisava. – Já sabe onde estive – adivinhou ela com um suspiro, enquanto seguia o marido para o quarto ao lado. – Você me desobedeceu. É claro que estou aborrecido – disse Jaul secamente, cerrando os dentes para não perder a calma. Naturalmente não queria que sua esposa se relacionasse com uma velha amarga e lunática! Naturalmente também não queria que a avó tentasse envenenar Chrissie com seu eterno ódio pela família dele! Chrissie já tinha os próprios motivos para julgá-lo mal. Além disso, com a aguardada reunião que teria com Yusuf, Jaul estava pronto para confrontar seus derradeiros demônios que o atormentavam desde que recebera o bilhete do ex-conselheiro, mas estava nervoso. Só quando se convencesse que sabia de tudo poderia conversar com Chrissie. Então não haveria mais segredos entre


os dois, nenhuma pergunta sem resposta nem dúvidas. Sua esposa merecia isso. – Visitei Sophie porque esperava que de certa forma... pudesse acabar com a rixa da família – confessou Chrissie. – Pensamento caridoso – concordou Jaul com um aceno. – E o que ela lhe disse sobre minha família? Chrissie respirou fundo para tomar coragem. – Disse que seu avô tinha concubinas enquanto esteve casado com ela. Jaul fitou-a, espantado. – Ela lhe disse... isto? Sério? Mortificada com a visível incredulidade dele, Chrissie acrescentou: – E eu acreditei nela. Jaul aprumou os ombros largos, parecendo uma montanha de raiva concentrada. – É a maior das mentiras... uma calúnia ultrajante!


– É mesmo? – murmurou Chrissie, pois o clima estava tão tenso que lhe faltava o ar. – Porque, afinal, depois do que ouvi dela preciso perguntar a você... – Não ouse me perguntar isto! – interrompeu Jaul com fúria, fazendo com que ela se calasse, chocada. Os olhos dele pareciam brasas incandescentes. Chrissie estava muito pálida. Ela nem fizera a pergunta, mas ele já sabia e estava furioso como nunca. – Você acabou de provar que meu pai tinha razão ao chamar Sophie de mentirosa. – Se isso é real, talvez ele tenha puxado mais a ela do pensa – retrucou Chrissie sem hesitar. – Porque seu pai não era grande admirador da verdade. Foi a vez de Jaul empalidecer sob o bronzeado; cerrou os punhos porque não podia defender o falecido pai e também não mentiria por ele. Seu pai fora um grande mentiroso e


nesse instante quase compreendeu os motivos para Chrissie não aceitar o ponto de vista de Lut sobre lady Sophie. Chrissie tirara as próprias conclusões. – Há mais de um século não existem concubinas no palácio – informou secamente. – Sugerir que esse estilo de vida subsistia nos anos 1930 é incrível, mas se isto a deixa mais feliz, irei checar tais fatos com Yusuf esta tarde. Ele continua sendo a maior autoridade sobre a família real de Marwan. Até escreveu um livro muito admirado sobre o assunto. – Não fique convencido que sua avó é mentirosa – apressou-se a dizer Chrissie, refletindo que às vezes seu marido podia ser muito ingênuo. – Esse livro provavelmente foi revisto e censurado pelo seu pai, Jaul. Aposto que não existe uma só palavra ali que o critique. O mesmo pensamento ocorrera a Jaul, que engoliu em seco, escondendo os olhos sob os cílios longos.


– Yusuf me contará a verdade de qualquer jeito – declarou ele com segurança. – Mas nada me fará esquecer que minha esposa quis saber se eu também mantenho concubinas. Chrissie ficou vermelha. – Não perguntei... – Mas estava louca para perguntar – cortou Jaul secamente. – Ainda confia tão pouco em mim? Acredita que meu povo aceitaria um homem de vida dissoluta para reinar? Meu país quer ser conhecido como moderno e livre pensador, e nossas mulheres cada vez mais têm voz ativa em nossa sociedade. Devo ser visto como um rei que pratica o que prega em público e em particular... Jaul falava com discernimento e Chrissie lastimou que após poucos minutos com a avó dele tivesse alimentado suspeitas tão fantásticas. E, pior ainda, vira o brilho magoado nos olhos dele quando percebera o que ela queria lhe perguntar. Jaul ficara furioso,


porém não como seu pai. Não era dado a crises incontroláveis de ira e dominava a língua quando perdia a paciência. Porém, por outro lado, podia mergulhar em um silêncio acusador. – Desculpe! – exclamou Chrissie enquanto ele começava a se voltar. – Fui idiota... mas por um instante senti que precisava saber – tentou explicar ela, entendendo que ele tivesse se ofendido. – Se você soubesse como meu pai, o rei Lut, era severo e puritano jamais teria sentido necessidade de me fazer tal pergunta – enfatizou Jaul com frieza. – Ele decretou guerra a qualquer tipo de imoralidade dentro e fora do palácio. Era um repressor. Um de seus primeiros atos como rei foi abolir a lei que proibia música e dança nos lugares públicos. – Fez uma pausa e prosseguiu. – Se isto a deixa mais feliz, perguntarei a Yusuf a respeito da história do harém.


Quando Jaul deixou o cômodo após fazer tal concessão, Chrissie caiu sobre um sofá. Talvez não devesse ter interferido indo visitar lady Sophie, refletiu com pesar. Agira cegamente, desejando fazer o bem e ajudar, porém na verdade magoara e ofendera Jaul. A raiva dele diante da provocação dela a mortificava. Não soubera controlar sua imaginação nem sua língua. Até que nas circunstâncias ele fora bastante compreensivo e isso a deixava ainda mais envergonhada e desesperada. Jaul nunca amaria uma mulher tão idiota que chegava a lhe perguntar se mantinha concubinas, amaria? JAUL PASSOU duas horas conversando com o antigo colaborador de seu pai. Quando Yusuf partiu, sua consciência estava aliviada dos segredos que mantivera durante toda a vida, entretanto Jaul se sentia menos feliz. Estava atônito, furioso e amargo. Assim que as chaves


que pedira lhe foram entregues, desceu uma escadaria até um canto afastado do palácio. Girou a maior das chaves na fechadura e mandou os guardas embora enquanto entrava sozinho em um enorme salão. O tamanho descomunal do lugar o espantou. Perambulou por salas vazias e pátios, admirou fontes e salas de banho. Tudo estava em ótimas condições de conservação e ele se maravilhou ao pensar que seu pai, tentando preservar a história do país, deixara aquela parte do palácio intacta apesar dos segredos escabrosos ali guardados. A raiva dominara-o ao ouvir certas coisas de Yusuf e se intensificou ao deparar com uma cama enorme sobre um estrado. Devagar seus olhos foram se acostumando com a penumbra e ele percebeu o tema nos murais que surgiam nas paredes ao redor da cama. Muito desconcertado, Jaul enrijeceu, visualizando a reação de seu severo pai diante


de tais licenciosidades. Porém, mesmo assim, o rei Lut conservara aquele ambiente por razões históricas. E então algo muito mais espantoso o dominou. Seu corpo estremeceu de risos incontroláveis, e quando conseguiu se conter encostou-se à cama quase sem fôlego. Seus olhos reluziram ao imaginar como Chrissie reagiria diante daquelas pinturas. UM BILHETE foi entregue à Chrissie minutos depois de ela sair de um banho relaxante; imediatamente reconhecendo a letra de Jaul, ela abriu o envelope. Está sendo cordialmente convidada a passar uma noite no harém com seu marido. Um risinho surpreso escapou dos lábios dela enquanto um profundo sentimento de alívio a invadia. Jaul já esquecera o aborrecimento o suficiente para fazer uma brincadeira. É claro


que só podia ser uma brincadeira. Chrissie procurou nas gavetas e selecionou sua lingerie mais sexy, colocando por cima um vestido simples e azul. Ninguém diria que por baixo usava algo tão provocante. Uma noite no harém? O que isso queria dizer? Ela estremeceu e esboçou um sorriso, imaginando algum cenário erótico. Preocupara-se à toa ao pensar que Jaul andava diferente nos últimos dias. Um dos guardas esperava para conduzi-la até o marido, e caminharam por vários minutos percorrendo infindáveis corredores e descendo escadas de pedra até chegarem ao seu destino. Chrissie viu-se diante de uma enorme e feia porta de ferro. O guarda abriu e ficou de lado para que Chrissie entrasse, enquanto ela refletia por que o homem fazia força para não sorrir. Porém essa pergunta foi logo respondida quando uma cena espetacular surgiu diante de seus olhos assim que deu dois passos.


Velas brilhavam por toda parte, lançando sombras no teto e no mosaico elaborado das paredes, garantindo que as gotas de água que saltavam das fontes reluzissem como diamantes. Era tudo incrivelmente lindo, e Chrissie soube por instinto que Jaul arrumara aquilo para ela. Seus olhos brilharam quando ele mesmo surgiu de trás de um pilar. Contrastando com o lugar exótico, Jaul estava de jeans desbotado e camisa branca aberta no peito, que acentuava sua tez morena e o cabelo negro; por um segundo Chrissie sentiu que o tempo parara enquanto se lembrava dele quando estudante. – Onde estamos? – perguntou. – No coração do maior segredo da família Al-Zahid – respondeu Jaul. – O harém que nem eu sabia que fora preservado até hoje. Sem dúvida existira um harém de verdade aqui no passado longínquo, mas levando em consideração a rigidez e o puritanismo de meu


pai, presumi que qualquer vestígio disto tivesse sido destruído. Chrissie fitou a cama gigantesca. – Parece que faziam orgias em cima dessa cama – disse ela sem se conter. – Não que eu saiba algo sobre... orgias... – Olhe para as paredes – cortou Jaul. Em meio às sombras dançantes, ela viu os murais e as figuras masculinas e femininas nuas nas mais variadas posições sexuais. Chrissie corou. – Meu Deus... – Estou surpreso que meu pai não tenha posto abaixo este lugar, porém ele idolatrava meu avô. – Jaul suspirou. – Não consigo imaginar como manteve a compostura ao descobrir que na realidade Tarif fora um libertino. – Também não consigo – murmurou ela, por outro lado começando a entender por que Jaul a trouxera até ali. Ele descobrira a verdade e


logo agira com a franqueza que Chrissie tanto admirava. Quando Jaul sabia estar errado, nunca tentava se esconder. – Telefonei para Rose, a filha de Sophie, e pedi desculpas por demorar tanto para entrar em contato com minha avó – disse ele. – Você telefonou para Rose... já? – exclamou Chrissie. – Havia concubinas aqui no século XX. Minha avó não mentiu – confirmou Jaul. – Mas eu só soube da verdade esta tarde quando Yusuf me contou. Ele conhece todos os segredos da família e sabe como minha avó foi cruelmente tratada. E essa foi apenas uma das revelações chocantes que Yusuf me fez. Ele caminhou até ela e continuou: – Yusuf sabe que você não aceitou o cheque para sumir da minha vida. Chrissie aproximou-se de Jaul, instintivamente para colocar a mão em seu


braço como se o consolasse; os músculos dele estavam tensos. – Sinto muito, Jaul. Ele se afastou, como se o toque dela o queimasse. – Por quê? Porque fui um completo idiota e não imaginei que meu pai pudesse dizer ou fazer alguma coisa com a intenção de arruinar meu casamento? – retrucou com evidente amargura. – Chrissie, eu teria posto minha mão no fogo por ele! Era um homem difícil e muito controlador, mas de várias formas era um bom pai. Constrangida com a rejeição do consolo que ela oferecia, Chrissie enrijeceu. – E você o amava, é claro. Eu amava minha mãe quando criança, embora minha infância tivesse sido horrível. Os pais não precisam ser perfeitos para que sejam amados. Mas ainda não entendo por que seu pai, o rei Lut, ficou tão contra a própria mãe e nosso casamento


quando sabia que seu avô, Tarif, era um dissoluto. – Meu pai escolheu a saída mais fácil. Jamais admitiria a verdade embaraçosa. Lançando a culpa nas diferenças culturais e na intransigência de sua mãe poderia continuar a idolatrar seu pai. E iria me proteger da influência ocidental. Parece que temia que eu tivesse herdado a fraqueza fatal de Tarif por mulheres. Por fim entendi por que precisei me rebelar contra ele para estudar na Europa. Chrissie ouvia com atenção. – Você precisou... se rebelar? Nunca me contou isto. – Tinha vergonha. Cresci acreditando que um bom filho sempre respeitava a maturidade e experiência do pai – admitiu de má vontade. – Depois de viver na academia militar, eu ansiava pela liberdade de poder fazer minhas próprias escolhas.


– Claro – disse Chrissie, percebendo como o pai dele fora um tirano dominador. – E respeito você por não ter cedido. Por isso foi um tanto selvagem na universidade. E eu não sabia que levara uma vida tão fechada. Jaul estava surpreso por ver que ela ainda tentava confortá-lo, mesmo depois de tudo que ele a fizera sofrer. – Mas aquele período de loucuras quase me custou você, pois lhe deu uma impressão errada ao meu respeito – declarou Jaul. Ela se sentou na beira de uma fonte. – Não poderia resistir a você para sempre... – Jamais desejei nenhuma mulher como a desejo – admitiu ele, oferecendo uma bebida. – Nunca amei outra além de você... A mão de Chrissie tremia ao aceitar o copo com suco de frutas. Ele prosseguiu com voz tensa: – Mas mesmo assim a deixei. Sozinha e grávida. Aceitei as mentiras de meu pai.


O coração de Chrissie batia forte. – Jaul... por que toda esta conversa agora? – Yusuf estava com meu pai quando ele foi vê-la em Oxford, sentia a consciência pesada e estava ansioso para conversar – explicou Jaul. – Fiquei chocado quando descreveu o que ocorrera naquele dia. Fico envergonhado por meu pai ter tratado minha esposa tão mal, quando eu não podia impedir. Os olhos de Chrissie encheram-se de lágrimas ao recordar o que fora um dos piores dias de sua vida, ao ser confrontada pelo rei Lut. Sentira-se só e desamparada diante da rejeição do sogro em aceitá-la como esposa do filho. – Você estava no hospital – lembrou ela. – Não podia fazer nada. – Yusuf me contou a verdade. Mas sejamos honestos... contou verdades que eu deveria ter aceitado quando você as contou para mim.


– Sim, nunca menti para você. – Ela corou. – Bem, só duas vezes. Jaul não ouviu e continuou: – Engoli as mentiras que meu pai contou sobre você. Em meio ao sofrimento tentei esquecê-la. Quando vim encontrá-la no mês passado, deveria ter ouvido mais. – Naturalmente acreditou no seu pai quando lhe disse que eu aceitara o dinheiro e fora embora. – Naturalmente por quê? – retrucou ele. – Você era minha vida, minha esposa. Minha lealdade deveria ser para você. Quer parar de dar desculpas para o meu erro quando você mais precisava de mim? Eu a abandonei de todas as maneiras... – Seu pai nos separou, mentiu para nós – replicou Chrissie. – Ponha a culpa em quem merece. Você estava em coma e depois lutou para se recuperar. Não estava em condições de lutar por ninguém.


– Quero me desculpar, rastejar, mas você não deixa. – Não quero que rasteje. Não desejo sua culpa... – Não é culpa é... vergonha. Você é minha esposa e não vou mais perdê-la. Não há nada que não faça ou diga para mantê-la ao meu lado! Chrissie quase sorriu. – Mas você me ameaçou com o contrato prénupcial. – Foi da boca para fora – confessou Jaul. – Um contrato desses não tem valor em um tribunal britânico, além disso você o assinou sem aconselhamento de um advogado e era muito jovem. – Eu devia ter visto que estava blefando, mas talvez eu não tenha lutado o suficiente porque não queria. Já pensou nisto? – Mas por que agiria assim? – perguntou ele.


Chrissie lutou para dizer as palavras de amor que reprimia. Agora ele sabia toda a verdade sobre o pai e a justiça fora feita. Ele sabia que ela não aceitara suborno. Porém apenas perguntou: – Quem acendeu tantas velas aqui? – Zaliha providenciou as velas e os aperitivos. Eu acendi e liguei as fontes. Não podia deixar criadas entrarem aqui por que senão ficariam chocadas. Chrissie fitou as centenas de velas, vendo o esforço dele. – Os murais podem ser escandalosos, mas este lugar fica lindo todo iluminado assim. Ele ignorou o comentário e disse: – Deveria ter procurado você assim que me restabeleci. Mas temia porque a havia perdido... confesso que teria doído demais. Ela sufocou a surpresa e ele prosseguiu: – Amava você de todo meu coração. Mas perdi a fé em você quando me vi sozinho no


hospital. Chrissie estava furiosa com a dor que o rei Lut provocara para os dois. Amava você de todo meu coração... – Teria corrido para vê-lo se soubesse... – E é isto que me mata! – Jaul afastou-se. – É bobagem sofrer pelo passado – disse Chrissie. – Precisamos continuar... – No passado você foi completamente minha e espero que um dia volte a ser. Ainda me sinto injusto ao pensar que... – Cerrou os punhos. – Não posso dizer... Ser tão ciumento e possessivo é errado! – Do que está falando? – Não vamos discutir nem estragar o que temos. Ciumento? Possessivo? De repente ela percebeu o significado dessas palavras. – Está se referindo ao fato de que disse que andei com outros homens quando nos separamos?


– Não vamos discutir. Você pensou que estava solteira e, naturalmente... – Bem, esta foi a primeira mentira que lhe disse. Não dormi com mais ninguém – garantiu Chrissie. – Não sei como acreditou, já que estava grávida quando partiu e depois fiquei atrelada aos gêmeos e trabalhando. Jaul pareceu não acreditar. – Você... mentiu? Sobre algo tão importante? – Era uma arma e usei. E menti ao dizer que ignorava que seu avô se chamava Tarif. Quanto ao sexo, presumi que você... Jaul segurou-a pelos braços. – Não. Nada de concubinas, namoradas ou aventuras depois de você. Nada... zero. Ela arregalou os olhos. – Mas... como? – Quando por fim saí da cadeira de rodas, decidi não procurar mais problemas e me casar. – E quem escolheu para me substituir? – perguntou Chrissie mais relaxada.


– Ninguém, porém meu povo esperava minha escolha. – Ergueu o queixo dela. – Jamais me interessei por outra além de você. Não a mereço, mas você sempre foi a dona do meu coração... sempre. Fiquei deprimido quando acreditei que a perdera e temi voltar a sofrer. – E eu sempre o amarei. Quando você voltou pensei que o odiava, porém jamais me recuperei por tê-lo perdido. Ninguém me faria sentir o que você me faz sentir. – Eu a amo demais, habibti. O dia em que a ameacei com o contrato pré-nupcial foi o dia em que descobri que a amava imensamente, porque jamais fizera tal chantagem em toda a minha vida. Mas faria qualquer coisa para ter uma segunda chance com você e nossos filhos. Ela o abraçou, murmurando: – Os meios justificam os fins. Quando o vestido azul caiu aos seus pés expondo a lingerie sexy que ele adorava, Jaul


carregou-a para a cama enorme. – Meu único fim – murmurou – é manter você como minha esposa e mãe de meus filhos, fazendo-a feliz. – Acho um ótimo fim. Principalmente quando andou tão longe da minha cama na última semana... – Depois que recebi o bilhete de Yusuf... – Que bilhete? – Pedindo uma reunião. Decidi esperar para saber toda a verdade. E ele me contou. Aprendi minha lição. Beijaram-se com paixão. – O amor perdoa – disse Chrissie. – E eu a amo demais. TRÊS ANOS depois daquela romântica e incrível reconciliação no antigo harém, Chrissie observava os gêmeos brigarem por causa de um carro de plástico no pátio. Aos 4 anos, Tarif e Soraya eram voluntariosos e precisavam da


mão firme dos pais. Chrissie acabou com a discussão ameaçando tirar o carro se os gêmeos não se comportassem. Então os dois negociaram um acordo entre si. Lizzie telefonou quando Chrissie tomava chá, ajeitando o vestido que mal disfarçava seu ventre protuberante de novo. Por sorte já não enjoava pela manhã. Essa segunda gravidez estava sendo mais tranquila, talvez por se sentir muito feliz. Conversou com Lizzie, que devia em breve chegar com a família e o pai delas. A distância geográfica não afastara as duas irmãs. Quando a babá veio buscar os gêmeos para comer, Chrissie foi aos estábulos visitar Herói, que Jaul mandara buscar dois anos antes. O primeiro ano em Marwan voara para Chrissie, que se envolvera com o programa de desenvolvimento educacional. O povo era amigável, e embora ela comparecesse a eventos com a presença de diplomatas e políticos, na maior parte do tempo era apenas a esposa de


Jaul. A vida em família era o mais importante para o casal. Depois de visitar Herói, Chrissie retornou para sua ala particular a fim de tomar banho e se trocar. Todos os anos o casal celebrava a noite em que as barreiras caíram no antigo harém. Ali haviam redescoberto o amor e a felicidade definitivamente. A noite caía quando Jaul começou a acender as velas. Os murais haviam sido cobertos por cortinas discretas a fim de não chocar a criadagem. Jaul não entendia como seu avô Tarif preferira relacionamentos físicos superficiais em vez de o amor duradouro de sua esposa. Jaul lembrou da avó. Lady Sophie morrera tranquilamente no ano anterior, porém antes disso ele a visitara amiúde em Londres a fim de consertar os erros do passado e lhe dar o carinho que merecia. A aldrava de ferro da porta soou e ele sorriu.


– Ainda não terminei de acender as velas – anunciou para a esposa. – Estou aqui para ajudar. – Não, está grávida. Tem que ficar sentada com os pés para o alto e não fazer nada. Ele a fez sentar em uma poltrona. – Nada? – provocou Chrissie tirando os sapatos. – Poupe as energias para o que importa. – Ele relanceou um olhar malicioso para a cama. – Obrigada por mais um ano maravilhoso, Jaul. O marido ajoelhou-se ao lado dela e lhe ofereceu um anel de platina com uma enorme safira. – Combinamos que não me compraria mais joias – censurou ela com brandura. – Não combinei nada. Só fiquei calado para não discutir. – Às vezes você é diabólico. – Chrissie riu.


– E você adora. – Ele acariciou sua barriguinha de grávida. – Sim. – Chrissie sentia-se segura e adorada. – Estou ansioso para ver o bebê – confidenciou Jaul. – Perdi tanta coisa com os gêmeos. Desta vez vou aproveitar cada segundo. – Aposto que vai me envergonhar e desmaiar na hora do meu parto – brincou ela, com as luzes das velas dançando ao redor. Porém Jaul venceu a aposta. Estava muito consciente quando o príncipe Hafiz, um bebê saudável, veio ao mundo. Tarif deu um ursinho para o irmão, e Soraya, um desenho que ela mesma fizera. Na primeira foto oficial da família, agora maior com os pais segurando Hafiz, a felicidade circundava a realeza de Marwan.


PODEROSA UNIÃO Trish Morey O coração de Tora estava batendo tão alto que ela estava certa de que era apenas o som da música que conseguia abafá-lo. Devia ter ficado mais afetada pelo álcool do que se dera conta. Por que outro motivo ela tinha ido beijar um completo estranho? Mas ela sabia que não era só o álcool. Era mais. Era a raiva que sentia por seu primo, e aquela casa noturna que parecia um mercado de carne. E também aquele cara sinistro que achava que existiria alguma coisa no mundo capaz de fazê-la querer passar um instante que


fosse com um tipo como ele. E ela quis mostrar ao homem que não era uma triste e solitária mulher que deveria estar encantada com sua atenção. Bem, ela mostrara isso muito bem. Mas dar um selinho era tudo que ela pretendia fazer. Sinal de que não estava sozinha. Ela não esperava que aquele ho mem estivesse tão disposto a juntar-se ao seu jogo. Nem que fosse ficar tão abalada pelo toque e pelo gosto de um estranho no processo, deixando-a pasmada e confusa. E a forma como sua pele formigava e centelhas formavam-se quando seus corpos se roçavam enquanto eles caminhavam lado a lado, bem, isso também era interessante. Oh, uau! Ela precisava sair e deixar que o ar fresco da noite entrasse em contato com sua pele aquecida. Ela precisava de oxigênio para que conseguisse pensar direito. Precisava agradecer a esse estranho, pegar um táxi e ir para casa, antes que fizesse mais alguma


loucura essa noite, pois ela não sabia ao certo se, ao lado desse homem, podia confiar em si mesma. E então eles estavam lá fora, e a porta da casa noturna fechou-se atrás deles, e ela não teve a chance de agradecer porque ele a estava puxando para as sombras e beijando-a novamente. E ela deixou que ele fizesse isso... sabendo repentinamente que não era nem o álcool nem a raiva que a moviam. Era cem por cento ele. Loucura, pensou ela, que deveria colocar um ponto-final nisso, enquanto a língua dele dançava com a sua. Ela não fazia esse tipo de coisa. E se Matt a visse ao voltar para casa? E então a raiva bateu e ela pensou: Dane-se o Matt! Um instante depois ela parou de importar-se com qualquer coisa que não fosse a boca gostosa dele deixando uma trilha de beijos de seu pescoço até sua boca, das mãos dele segurando-a apertado junto a si, de modo que


estavam grudados de seus joelhos até seus lábios e todos os lugares entre eles pareciam uma zona erógena. Passe a noite comigo – sussurrou ele, atiçando as chamas dentro dela. Isso era uma loucura. Ela não encontrava estranhos em ares e passava a noite com eles. – Eu nem mesmo sei o seu nome – disse ela, cuja mente dizia que não e o corpo gritava: Sim! – Isso vem ao caso? Agora? Meu Deus, ele tinha razão. Ele poderia dizer a ela que era Jack, o Estripador, e ela não estaria nem aí. Mas ainda assim... – Eu deveria ir para casa... Mas nem se lembrava dos detalhes do lance com seu primo. E não era esse o propósito da noite? Esquecimento? Ele soltou-se dela e disse: – É isso que você quer? Ir para casa?


Ela viu na expressĂŁo dele o que parecia ser uma dor fĂ­sica se conter, sentiu o calor erguendo-se do corpo forte dele e sabia o que devia estar custando a ele deixar a decisĂŁo por sua conta, quando o poder que ele tinha em seu corpo era potente o bastante para tomar o que ele quisesse. O conceito era estranhamente excitante. O perfeito estranho. Poderoso, potencialmente perigoso, mas dando-lhe o poder da escolha.


Lançamentos do mês: PAIXÃO 474 – SEDUZIDA PELO PLAYBOY – CATHY WILLIAMS A bela Laura Reid era o oposto das mulheres com as quais o poderoso Alessandro Falcone costumava sair. Por isso, ele está disposto a tudo para conquistá-la. E no jogo da sedução, esse playboy sempre vence! PAIXÃO GLAMOUR 006 – PODEROSA UNIÃO – TRISH MOREY A babá Tora Burgess fica estarrecida ao descobrir que seu novo chefe era o desconhecido para o qual havia se entregado na noite anterior. E mais ainda quando Rashid lhe faz uma proposta inesperada. PAIXÃO ARDENTE 006 – VALOR DA INOCÊNCIA – TARA PAMMI Minissérie – Magnatas Gregos Domados 2/2


Ao ver Jasmine leiloando sua inocência, Dmitri Karegas sabe que precisa dar o lance mais alto. Porém, ele logo descobre que Jasmine se tornara uma mulher forte… que jurara vingarse de Dmitri. Agora ela precisa decidir se se rende à paixão… ou ao ódio que sente por esse magnata grego. PAIXÃO ESPECIAL 002 – HOMENS DE MANHATTAN – NATALIE ANDERSON Entrelinhas do desejo James Wolfe fica furioso ao encontrar uma bela desconhecida em sua casa. Já Caitlin jura que o local fora oferecido a ela, e está decidida a ficar! A única saída é dividir o apartamento. E logo descobrirão que ficar cada um em seu lado da cama seria uma tarefa impossível!! Proposta arriscada Para Jack Wolfe, fechar acordos bilionários está em seu sangue. Por isso, fica surpreso quando a


reunião com Stephanie Johnson foge de seu controle. Fascinado pelo talento, sensualidade e sagacidade dela, Jack a faz uma oferta bastante ousada… Será que ela vai aceitar?


Próximos lançamentos: PAIXÃO 475 – AMOR ROUBADO – MAYA BLAKE Na lista de pretendentes do príncipe Reyes, Jasmine Nichols está em último lugar. A noite impulsiva que tiveram foi intensa, mas ela não seria uma esposa adequada. Até Jasmine revelar que está esperando um herdeiro de Reyes! PAIXÃO AUDÁCIA 007 – NOITE DE REBELDIA – MELANIE MILBURNE Minissérie – Os Escandalosos Ravensdale 1/4 Ainda que Julius Ravensdale seja o homem mais lindo que já conhecera, ele também é frio, formal… e proibido! Então, Holly Perez estava decidida a manter-se distante. Será que ela vai conseguir ignorar o desejo que sente pelo chefe? PAIXÃO GLAMOUR 007 – DANÇANDO COM A TENTAÇÃO – SUSAN STEPHENS


Dez anos atrás, Karina Marcelos entregou sua inocência para Dante Barraca. Mas não foi apenas isso que mudou naquela fatídica noite… Agora, eles se reencontraram e Dante está determinado a reconquistá-la! PAIXÃO ARDENTE 007 – JURA DE DESEJO – CAROL MARINELLI Minissérie – Os Playboys da Sicília 1/2 Oito anos atrás, ao ser descoberta na cama do magnata siciliano Luka Cavalieri, a reputação e o orgulho de Sophie Durante foram destruídos. Agora ela está de volta para cobrar essa dívida: Sophie precisa que Luka finja ser seu noivo!


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

G769p Graham, Lynne Paixão secreta [recurso eletrônico] / Lynne Graham; tradução Angela Monteverde. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Harlequin, 2016. recurso digital Tradução de: The sheikh’s secret babies Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-398-2186-0 (recurso eletrônico) 1. Romance irlandês. 2. Livros eletrônicos. I. Monteverde, Angela. II. Título. 16-31814

CDD: 828.99153 CDU: 821.111(415)-3

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A.


Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: THE SHEIKH’S SECRET BABIES Copyright © 2015 by Lynne Graham Originalmente publicado em 2015 por Mills & Boon Modern Romance Gerente editorial: Livia Rosa Assistente editorial: Tábata Mendes Editora: Juliana Nóvoa Estagiária: Caroline Netto Arte-final de capa: Isabelle Paiva Produção do arquivo eBook: Ranna Studio Editora HR Ltda. Rua Nova Jerusalém, 345 Bonsucesso, Rio de Janeiro, RJ – 21042-235 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br


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Lynne Graham - Paixao Secreta  
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