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“Tudo não passa de um jogo de xadrez, e eu sou um peão conveniente...” O magnata grego Nicodemus Stathis nunca conseguiu esquecer a bela herdeira Mattie Whitaker. E agora, depois de dez anos alimentando uma deliciosa tensão sexual, ele tem Mattie exatamente onde a quer. Com a ruína da poderosa dinastia dos Whitaker, apenas Nicodemus pode oferecer uma solução... Desde que seja acompanhada de votos matrimoniais! Apesar de não ter escolha, Mattie se recusa a ceder ao capricho de Nicodemus. Mas a lenta e calculada sedução desse grego implacável derruba a resistência de Mattie, deixando-o cada vez mais perto do “xeque-mate”.

Com a ruína da família, os Whitaker precisam assegurar o futuro!


Mattie notava que aquele homem era feito de aço, como uma arma mortal. Ela sentia o poder de Nicodemus como uma espécie de espada em brasa colada à sua garganta. – Eu tenho uma ótima memória, Mattie, e um estilo de abordagem muito criativo. Considere-se avisada. – O meu coração vai saltar do peito – retorquiu ela, em tom de deboche, e depois tentou evitá-lo ao máximo. Mas não funcionou naquele dia. E não estava funcionando naquele instante. – Nós vamos ficar nessa o dia inteiro? – Questionou ela, injetando uma pitada de tédio em seu tom de voz enquanto Nicodemus continuava agarrado ao seu cabelo. – Ou será que você tem um plano? Eu não sou uma pessoa muito familiarizada com chantagem, entende? Você terá de me ensinar como isso funciona. – Você é uma mulher livre para me rejeitar mais uma vez – comentou ele. – E perder a empresa do meu pai no processo. – Todas as escolhas têm suas consequências, princesa – garantiu ele, dando de ombros, mais ou menos da mesma maneira como fizera naquele jantar. – O seu pai deve ter ensinado isso a você. Sim, era verdade, e isso a irritava ainda mais.


Querida leitora, Durante dez anos, Mattie Whitaker ludibriou Nicodemus Stathis com falsas esperanças. Mas o jogo de gato e rato sofre uma guinada quando o pai de Mattie morre e ela precisa de Nicodemus para salvar o negócio de sua família. É a vez de ele dar as cartas, e sua exigência é que Mattie o aceite como marido. Apesar de Nicodemus ter conseguido levá-la para o altar, será capaz de conquistar seu coração? Boa leitura! Equipe Editorial Harlequin Books


Caitlin Crews

SEM ESCOLHA

Tradução Rodrigo Peixoto

2015


CAPÍTULO 1

SE FICASSE quieta, se conseguisse prender a respiração e evitasse piscar tanto os olhos, Mattie Whitaker tinha certeza de que seria capaz de fazer desaparecer as palavras ditas por Chase, seu irmão mais velho. Ela as rebobinaria, depois as apagaria integralmente. Do lado de fora da velha mansão, bem acima do rio Hudson, cerca de duas horas distante de Manhattan, uma chuva fria caía do céu. Árvores secas por conta do outono eram assoladas pelo vento do mês de outubro. A propriedade estava envolta em nuvens escuras, cinzentas, e os solenes pinheiros verdes faziam um contraste soturno com o ambiente. A velha mansão era conhecida pelo nome de Greenleigh, embora não houvesse muito verde por ali. Ao seu lado, sentado à mesa que sempre seria do seu pai, embora o patriarca não estivesse ali há meses, Chase estava em silêncio. Mas nada seria rebobinado. Nada seria apagado. Ela não conseguiria escapar do que sabia estar chegando. Ainda por cima, naquele instante, sendo perfeitamente honesta consigo mesma, ela sabia que tal dia chegaria. Mais cedo ou mais tarde. – Eu não escutei muito bem – disse Mattie, finalmente. – Claro que escutou – falou seu irmão. Ela devia se sentir melhor ao perceber que ele estava tão perdido quanto ela, pois isso era melhor do que a distância que sempre imperava entre os dois. No entanto, o pior é que ela não se sentia melhor. – Repita, por favor – pediu ela, pressionando os dedos contra o vidro da janela, deixando que o frio entrasse em sua pele. É uma bobagem chorar diante do inevitável, teria dito o seu pai. Aliás, ele repetia essa frase desde a morte de sua mãe. Guarde suas lágrimas para as coisas que você pode mudar, Mattie. Chase suspirou, e Mattie sabia que, se olhasse para ele, veria um homem de pele pálida, o mesmo homem que os tabloides londrinos insistiam em rotular como sendo um solteiro de ouro. Um homem que parecia viver em eterna homenagem à sua mãe, há tempos falecida. E o pior é que tinham se passado longos quatro meses desde a inesperada morte do seu pai. As coisas se complicavam para Chase, que teve de suportar o peso dos negócios do pai. Porém, Matt não estava com humor para bancar a generosa... em nenhum sentido. Mattie não olhou para trás. Ela não queria fazer isso.


Por outro lado, não se esconda das coisas que nunca funcionam, murmurou uma voz no interior da sua mente, uma voz que a lembrava de coisas que ela preferia esquecer. Mattie calou essa voz rapidamente, mas as suas mãos tremiam. – Você prometeu que nós faríamos isso juntos – mencionou Chase, baixinho. E era verdade. Ela prometera isso no funeral do pai, assustada por conta da perda, envolta em um terrível sentimento de luto, e sem pensar nas consequências. – Agora somos apenas nós dois, Matts. Ele não a chamava assim há séculos, desde que ficaram presos em um carro juntos, e ela odiava ouvir tal apelido novamente. Ela queria se afastar disso tudo. Queria se afastar de Chase, do seu único irmão. – Eu, você e o marido novinho em folha que você está me vendendo como se fosse um cavalo de raça, certo? – Perguntou ela, corrigindo-o, com um tom de voz gélido. Contudo, era melhor um tom gélido do que outro amargo, de pânico ou de terror. – Eu não sabia que nós estamos vivendo na Idade Média. – O papai sempre deixou claro que casamentos cuidadosamente marcados e bem-definidos estão entre as melhores práticas de negócios – declarou ele, e a voz de Chase era sardônica, talvez se tratasse de amargura, e Mattie girou o corpo, finalmente, para encontrá-lo encarando-a com uma expressão terrível em seus olhos azuis, e com os braços cruzados sobre o peito. – Eu estou no mesmo barco, Mattie... Amos Elliott está me perseguindo desde o dia do funeral. E ele já deixou claro que, se eu me aproximar de alguma das suas filhas, meu relacionamento com a diretoria será muito melhor. Sim, minha querida, nós estamos vivendo na Idade Média. Ela sorriu, mas foi um sorriso amargo. – Eu deveria me sentir melhor ao ouvir isso? – Indagou Mattie. – Pois saiba que eu não me sinto. Isso não passa de um pouco mais de tristeza para este mundo. – Nós precisamos de dinheiro e de aliados... Além do mais, nós precisamos de muito dinheiro e de aliados de peso. Caso contrário, perderemos nossa empresa – revelou Chase, com voz baixa e sem emoção. E isso não era comum nele. Todavia, Mattie não queria pensar nisso. – Não há espaço para embelezar essa situação. A diretoria está planejando a minha destituição, como você já sabe. Entretanto, essa empresa é o nosso legado... e nós estamos à beira de perdê-la completamente. E também de perder o que resta de nós dois... Mas ele não pronunciou essas palavras, embora pudesse ter dito. E tais palavras (mesmo caladas) ecoaram no interior do corpo de Mattie. Além disso, ela sabia que Chase calava outras coisas, como, por exemplo, a eterna suspeita de que sua mãe morrera por conta da irmã. Mas a verdade é que ele nunca jogou isso na cara de Mattie, e nunca jogaria, mas nem precisava. Ela percebia. E a própria Mattie se culpava diariamente pelo acontecido com a sua mãe. – Trata-se de um grande sacrifício, para sermos generosos com a situação – afirmou ela, pensando na criatura temível que os tabloides inventaram sobre a sua personalidade. – Eu veria isso como uma oportunidade de fugir. De recomeçar a minha vida sem me preocupar com a desaprovação alheia ou coisa parecida, ou mesmo com a desaprovação dos acionistas das Indústrias Whitaker. – E ficou observando a expressão dura no rosto do irmão, uma expressão que parecia indicar que ele a culpava por isso também. – Você poderia fazer o mesmo. – Sim – concordou ele, com um tom de voz gélido. – Mas nós seríamos criaturas inúteis. Exatamente como o papai imaginava que fôssemos. Eu não poderia viver com esse estigma. E não acredito que você seria capaz... Aliás, eu sempre imaginei que você soubesse que não temos outra opção, certo?


– Antes da minha chegada aqui, você está querendo dizer? – Questionou Mattie, transformando suas mãos trêmulas em punhos. Era melhor fazer isso do que deixar correr as lágrimas. Além do mais, qualquer coisa seria melhor do que lágrimas. Sobretudo sabendo que, pelo menos em parte, Chase estava certo. Ela nunca soube conviver bem com o que fizera há vinte anos, e não poderia suportar caso se afastasse de tudo, deixando o que restava de sua família em ruínas. No final das contas, tudo era culpa sua. E o mínimo que ela poderia fazer era tentar ajudar a consertar essa história. – Há quanto tempo você voltou de Londres? – Há uma semana – respondeu seu irmão. – Mas você só me ligou quando precisou de mim, quando resolveu que me venderia... – sussurrou Mattie. – Eu estou emocionada, sabe? – Ótimo – retorquiu ele, passando uma das mãos pelo cabelo escuro. – Se preferir, pode imaginar que eu sou o seu inimigo. Isso não muda nada. – Sim... – assentiu ela, concordando com o irmão e sentindo vergonha de si mesma, embora não conseguisse se conter. – Eu já sabia disso tudo antes de chegar aqui. Mas isso não significa que eu fico feliz ao entrar nessa floresta escura chamada Nicodemus Stathis. A boca de Chase formou o que poderia ser um sorriso, caso o cenário fosse outro, caso eles tivessem outra alternativa. E ele já lhe lançara muitos sorrisos parecidos nos últimos vinte anos. – Não se esqueça de dizer isso a ele – sugeriu Chase. – Ele vai gostar, sem dúvida. – Nicodemus sempre me achou incrivelmente divertida – informou Mattie, dando de ombros e estirando as costas, como se tivesse acabado de contar uma mentira sem importância. A sua voz ficou mais áspera e ela aproveitou para alisar a barra do vestido preto. – Se você insistir, ele acabará revelando a lista dos cinco maiores motivos para se casar comigo. Além disso, ele adoraria fundir nossos dois reinos corporativos no que poderia se transformar em uma espécie de sonho feudal, já que certamente se divertiria muito bancando o senhor do castelo com o maior, o mais longo, o mais grosso... E ela se lembrou, assustada, que estava conversando com o próprio irmão, um irmão mais velho, mas que não era tão íntimo quanto ela gostaria... No entanto, continuava sendo o seu irmão mais velho. Ao pensar nisso, ela abriu um sorriso amarelo. – ... pedaço da empresa – repetiu ela. – Da empresa. O maior, mais grosso e mais gordo pedaço da empresa. – Claro... era exatamente isso o que você estava querendo dizer – falou Chase, em tom frio, mas Mattie percebeu uma pitada de desculpas no seu tom de voz, uma espécie de pena, e tudo isso era visível sob um sorriso forçado. Pois Chase estava com as mãos atadas. O seu pai era uma lenda viva dos negócios. E ninguém esperava que ele fosse morrer tão rapidamente. Não houve tempo para preparações. Não houve tempo para que Chase abandonasse sua vida social em Londres e se sentasse na cadeira de presidente das Indústrias Whitaker com calma... como seu pai sempre sonhou que um dia aconteceria. Não houve tempo para aplacar os medos dos diretores e dos maiores acionistas, que só conheciam Chase graças ao que liam nos jornais ingleses. Não houve tempo para o luto. Eram muitos os desafios, muitos os riscos e muitos os inimigos. O seu pai adorava a empresa que fora erguida pelo seu avô. Uma empresa construída graças unicamente ao esforço incomensurável de um Whitaker, além de um desejo de alçar-se o nível de


Andrew Carnegie. E Mattie pensou que ela e Chase sempre amaram seu pai, mesmo que de maneira enviesada, sobretudo após a morte de sua mãe... e estavam com a herança do pai nas mãos. E isso significava que os dois fariam o que fosse preciso. Não havia escapatória para aquela situação. E Mattie sabia disso muito antes da morte do pai. Tudo parecia incrivelmente previsível quando o inverno assolou o norte do estado de Nova York, e não havia qualquer motivo para fingir o contrário. Mattie faria o melhor possível. E ignoraria a dor que, sem dúvida, sentiria no fundo do seu peito. Aliás, o seu coração estava morto de medo do que Nicodemus Stathis a faria sentir. Seria muito fácil perder-se junto a ele... e já lhe restava tão pouco do que ela fora um dia... Mas você deve isso a eles, disse Mattie a si mesma. A todos eles. – Ele já está aqui, certo? – Interrogou ela, passados alguns segundos, quando não havia qualquer motivo para adiar a pergunta. Ela poderia ficar muda o dia inteiro e a situação não mudaria. Muito pelo contrário, a espera só aprofundaria o vazio que ela sentia em seu ventre. Chase a encarou, e aos olhos de Mattie isso pareceu um ponto a seu favor, mesmo que ela não estivesse se sentindo muito caridosa naquele momento. – Ele afirmou que esperaria por você na biblioteca – comentou Chase. E ela não voltou a olhar para o irmão. Em vez disso, resolveu ficar olhando para a mesa de cerejeira polida, e sentiu uma falta enorme do seu pai, uma falta intensa. Ela faria qualquer coisa para voltar a ver o seu rosto. Para voltar a ouvir sua voz rouca, mesmo que fosse para ouvi-lo obrigando-a a fazer exatamente aquilo, como ameaçara fazer inúmeras vezes nos últimos dez anos. Mas tudo era precário e perigoso naquele instante. Bart, o seu pai, fora embora. Eles eram os únicos Whitaker restantes. Eram Chase e Mattie contra o mundo. E mesmo que a relação entre eles devesse ser definida como uma distância educada, sobretudo após a morte da mãe, Mattie também sabia que tudo isso acontecera por culpa sua, como sempre... E os dois tinham frequentado escolas internas separadas, tinham ido a universidades em países distintos, e já adultos viviam em pontos diferentes do globo, dos dois lados do oceano Atlântico. Ela era a culpada. E aceitaria sua sentença, embora não com tanta benevolência quando deveria. – Muito bem... – Mencionou ela, bem alto, ao se aproximar da porta. – Espero contar com a sua presença no meu casamento, Chase. Eu serei uma noiva carregada entre correntes até o altar. Talvez literalmente, quem sabe? Isso será mais ou menos como sacrificar a virgem local para aplacar a vingança de um dragão raivoso. E eu vou tentar não gritar muito alto enquanto estiver sendo queimada viva. Chase suspirou. – Se eu pudesse mudar essa história... mas eu não posso, e você sabe disso. Porém, ele poderia estar falando sobre uma série de coisas, e Mattie sabia que devia evitar as lágrimas, pois elas seriam inúteis. Fazendo isso, ela talvez pudesse salvar também os negócios da família. Isso era, verdadeiramente, o mínimo que ela poderia fazer. Nicodemus Stathis rondava sua existência há muito tempo, mas ela saberia como lidar com esse homem. Além do mais, ela já lidava com ele há anos. Eu vou conseguir, eu vou vencer... Por isso ergueu a cabeça... quase como se acreditasse nessa história... e seguiu em frente, pronta para mitigar sua culpa e fazer o seu dever, ainda que, no fundo, parecesse estar dando passos certeiros em direção ao seu fim.


O PIOR sobre Nicodemus Stathis é que ele era lindo, pensou Mattie, momentos mais tarde, ainda mergulhada naquele misto de desejo não buscado e ao mesmo tempo incontornável, além de um pânico nada racional, que se multiplicava em seu peito. Ele era tão lindo a ponto de isso conseguir vencer todos os outros aspectos de sua personalidade... sem contar que era um homem muito perigoso para ela. Tão lindo que seria capaz de confundir tudo, deixando-a em completo desespero. Tão absurdamente lindo que nada parecia injusto. Ele estava de pé, em frente à enorme janela, com seu rosto elegante e toda a sua força visível em seu queixo bem-talhado, além do seu peito incrivelmente cinzelado escondido sob uma camiseta preta que não deixava muito espaço à imaginação. Ele era muito atraente. E sempre fazia os pelos da nuca de Mattie ficarem eriçados, seus mamilos excitados e seu estômago vazio. E não foi diferente naquele dia. Na verdade, foi pior, pois Nicodemus estava sorrindo. Eu estou perdida, pensou Mattie. Nicodemus era um penhasco alto, atraente, perigosíssimo, e ela passou dez anos tentando vencê-lo, pois não sabia o que poderia acontecer caso caísse em seu precipício. – Você já está com ar de soberba – declarou ela, cruzando os braços sobre o peito e franzindo a testa. Na verdade, ele estava sorrindo, e havia um brilho dourado em seus olhos. – Contudo, vindo de você, eu não entendo como ainda me surpreendo. – Eu não sei se escolheria a expressão “ar de soberba” – comentou ele. E suas palavras foram letais, puras e simples. Seu olhar era intenso. Ela precisou reunir todas as suas forças para não se virar de costas e sair, batendo a porta. Este dia chegaria, admitiu ela a si mesma, ácida. Aceite esta situação, pois não há escapatória possível. E ela tentou. Deus sabe o quanto ela tentou. – Na primeira vez que eu pedi você em casamento... qual era a sua idade? – inquiriu ele, com a voz quase cálida, como se rememorasse uma lembrança agradável, não uma história de tortura. – Vinte? – Dezoito – retrucou ela, em tom ríspido. E não se moveu ao perceber que ele se aproximava. Mas queria se mover. Queria sair correndo e trancar-se em um quarto escuro. Todavia, resolveu encará-lo e dizer: – Era a minha festa de aniversário e você tentou arruiná-la. O sorriso de deboche de Nicodemus ficou mais intenso, e Mattie foi obrigada a lutar para não corar, pois era isso o que sempre acontecia quando estava na sua frente. Por outro lado, mesmo após tantos anos, ela continuava se lembrando da valsa que o seu pai insistira para que dançasse com ele naquela noite. Pressionada contra seu corpo imenso, muito próxima à sua força, ao seu olhar hipnotizante, à sua boca... ela ficou completamente nervosa. E louca de desejo. E continuava sentindo as mesmas coisas. Maldito Nicodemus! – Case-se comigo – pronunciou ele, logo após o sorriso ter desaparecido do seu rosto. Era como se estivesse deixando escapar da boca uma espécie de maldição. – O quê? – perguntou ela, encarando Nicodemus e seus olhos escuros, profundos, sentindo uma pontada de dor no centro do peito. Ela era muito má quando queria, sobretudo no passado, e sempre quis chamar a atenção do pai, mas naquele instante a sua voz não passava de um fiapo. Ele a aterrorizava. Mas talvez fosse outra coisa, talvez fosse uma força ainda maior, algo que a destruía, algo instantâneo, feroz, algo impossível de ser classificado. – Eu não quero me casar com você. Eu não quero me casar com ninguém. Ele sorriu, como se as palavras de Mattie fossem divertidas.


– Quer sim – insistiu ele. – Eu nunca desejaria me casar com você – garantiu ela, decidida, com uma pitada do seu famoso temperamento difícil... ou de autopreservação. Na época, ela estava com apenas 18 anos. Entretanto, sabia perfeitamente que Nicodemus não era bobo como os outros meninos da sua idade. Ele era um homem. E sorria para ela como se a conhecesse, e tal sorriso a atingiu em cheio, tomando conta do seu peito, do seu ventre... descendo... fazendo com que seus dedinhos coçassem no interior dos sapatos de salto alto. – Você vai se casar comigo, princesa – comunicou ele, como se estivesse ditando uma profecia. – Pode contar com isso. Ele parecia completamente decidido. Nicodemus se aproximou lentamente, mas Mattie sabia muito bem o que ele queria. Qualquer bobo entenderia o seu propósito. – Nós alguma vez conversamos sobre qual era o seu problema na época em que queria se casar com uma adolescente? – Indagou ela, tentando driblar o que estava por vir. Mas ele só parou quando estava a centímetros do seu rosto. – Você não conseguia encontrar uma mulher da sua idade? Nicodemus não respondeu. Ele curvou o corpo e tocou no cabelo longo e escuro de Mattie. Nesse exato momento, ela decidiu que chegara a hora de cortar o cabelo, mas Nicodemus os agarrou entre os dedos, como se a quisesse deixar presa. E logo depois puxou seu cabelo. E não foi um puxão leve. E ela sentiu algo entre suas pernas, uma espécie de onda de prazer soturno. Mattie queria afastar a mão de Nicodemus, mas o olhar profundo daquele homem a hipnotizava. O pior era que ela começava a inclinar a cabeça em um ângulo muito perigoso. Um calor tomava conta do interior do seu corpo. E esse calor era cada vez mais forte. – Está doendo – disse ela, horrorizada ao perceber um toque de sensualidade em seu tom de voz. Isso daria munição a Nicodemus. Mas ela não poderia permitir... – Eu sei que não dói – contestou ele, soando tão decidido quanto naquele baile da festa de 18 anos, o que a enfureceu. Ao mesmo tempo, algo parecia revirar prazerosamente as entranhas de Mattie. – Eu sei que não estou muito bem-penteada – falou ela –, mas esse cabelo é meu. E só eu sei o que sinto quando alguém os puxa. Ele sorriu com ainda mais vontade. – Você mente sobre tudo, Mattie – murmurou ele, e o som das palavras parecia em desacordo com o sorriso em seu rosto. Ele curvou ainda mais o corpo na direção dela. – Você rompe suas promessas da mesma maneira que outras mulheres quebram suas unhas. – Eu também quebro as minhas unhas – mencionou ela, como se ficar calada fosse tarefa impossível. – Se esta história envolve o encontro de uma mulher perfeita, de uma mulher-troféu, Nicodemus, saiba que eu serei um profundo desapontamento para você. Ele sorriu suavemente, o que não era muito reconfortante, e mais uma vez puxou o cabelo de Mattie. E não foi a primeira vez que ela se ressentiu do fato de ser muito alta e muito vaidosa. E ficava ainda mais alta com aquelas botas nos pés. Portanto, quando Nicodemus se curvava na sua direção, era muito fácil para ele ficar pertíssimo de seu rosto. A boca de Nicodemus estava logo ali... e não a quilômetros de distância, como sempre. – Há um bom tempo... eu avisei que este dia chegaria – declarou Nicodemus.


– E eu afirmei que não mudaria de ideia – replicou ela, embora tais palavras lhe tenham custado muito para serem pronunciadas. Ainda por cima, ela ergueu o rosto e o encarou. – Eu não vou mudar de ideia. Mas você deve estar achando que, por conta da sua chantagem, eu estou me rendendo, certo? – Eu não me importo com a maneira como vou conseguir a sua aproximação – revelou ele, no mesmo tom baixo e rascante de antes... um tom de voz que a fazia sentir uma estranha e deliciosa fraqueza. – Você está me confundindo com um homem bom, Mattie. Mas eu sou simplesmente um homem determinado. E, mesmo sem querer, ela se lembrou de um antigo e formal jantar em Manhattan, no Museu de História Natural, um evento de caridade no qual, como sempre, o seu pai pediu para que ela se sentasse ao lado de Nicodemus. Nesse dia, o seu pai chegou a dizer que Nicodemus era como se fosse um filho seu. Um filho muito bem-comportado, frisou ele. Mattie, na época, tinha 22 anos... e estava furiosa. – Eu não estou tentando fazer com que você mude de ideia, princesa – informou ele, mantendo o tom baixo e falando bem perto do seu ouvido, de uma maneira bem diferente da qual falava com os outros convidados daquele jantar. O tom que empregava com ela era duro e decidido. E depois mudou de posição em sua cadeira e a encarou com uma força imperiosa. – Nós dois sabemos como isso vai terminar. O seu pai vai continuar fazendo tudo o que você quer por um tempo... mas a realidade um dia vai bater à sua porta. E, quanto mais você me fizer esperar, mais força serei obrigado a empregar... na minha cama, sob os meus... – Ele fez uma pausa, com seus olhos escuros brilhando, e ela sentiu como se Nicodemus estivesse lambendo a pele suave do seu ventre. – Sob o meu teto. – Que fantasia mais convidativa – respondeu ela, sem saber muito bem o que dizer após o que ouvira. – Eu não entendo o que está impedindo que eu mergulhe de cabeça nessa oportunidade de experimentar uma alegria sem medida. – Nem eu – retrucou ele, depois deu de ombros, mas Mattie notava que aquele homem era feito de aço, que era uma espécie de arma mortal. Ela sentia o poder de Nicodemus como uma espécie de espada em brasa colada à sua garganta. – Eu tenho uma ótima memória, Mattie, e um estilo de abordagem muito criativo. Considere-se avisada. – O meu coração vai saltar do peito – retorquiu ela, em tom de deboche, e depois tentou evitá-lo ao máximo. Mas não funcionou naquele dia. E não estava funcionando naquele instante. – Nós vamos ficar nessa o dia inteiro? – Questionou ela, injetando uma pitada de tédio em seu tom de voz, enquanto Nicodemus continuava agarrado ao seu cabelo. – Ou será que você tem um plano? Eu não sou uma pessoa muito familiarizada com os meandros das chantagens, entende? Você terá de me ensinar como isso funciona. – Você é uma mulher livre para me rejeitar mais uma vez – comentou ele. – E perder a empresa do meu pai nesse processo. – Todas as escolhas têm suas consequências, princesa – garantiu ele, dando de ombros, mais ou menos da mesma maneira como fizera naquele jantar. – O seu pai deve ter ensinado isso a você. Sim, isso era verdade, e tal verdade a irritava ainda mais. – O meu pai estava louco ao dizer que você era como um filho para ele – pronunciou Mattie, incapaz de manter as emoções longe da equação. Havia um nó em sua garganta, o fundo dos seus olhos queimava. E ela não ligava para o fato de que ele poderia estar notando tudo isso. Ela não seria destruída por um acesso de emoção. – Ele adorava você. E parecia mais próximo de você do que de


Chase... algumas vezes. – E ela fez uma pausa, tentando recuperar o fôlego e evitando cair no choro. – Mas veja bem como você resolveu retribuir... Ela esperava abalar Nicodemus com suas palavras, mas ele simplesmente sorriu e afastou a mão do seu cabelo. Mattie precisou reunir todas as suas forças para não tocar os fios que ele agarrara. O pior é que ela não sabia se queria lavar o cabelo ou beijá-lo. Ela nunca sabia como agir ao lado dele. Nicodemus tombou a cabeça para um lado e ficou observando o seu rosto, depois sorriu um pouco mais. – O seu pai acreditava que eu deveria ter conquistado você há anos – confessou ele, empregando um tom preguiçoso que deixou Mattie corada. Sim, ele estava sendo sincero. Tudo o que ele dizia era verdade. Nicodemus e o seu pai certamente falavam nesses termos sobre ela. – Especialmente no período da sua vida que ele chamava de “infeliz”. Ela ficou ainda mais corada, e odiou ouvir tanta verdade junta. No entanto, não era nada complicado imaginar o seu pai falando sobre essa época da sua vida... e sentiu outra vez a dor da culpa tomando conta do seu corpo. Ela deu um passo atrás, aumentando a distância entre eles, mas Nicodemus se aproximou e segurou o seu braço, detendo-a facilmente. Ela se recusava a pensar na irrefutável força daquela mão, e sobretudo se recusava a pensar no calor que ela lhe transmitia, embora tal calor a atingisse em cheio, atravessando as várias camadas de sua roupa. Ela não pensaria em nada disso, não reagiria a nada. Não, ela não faria nada disso. – Você sabe muito bem que não agiu da melhor maneira possível – reagiu ele, empregando um tom ácido às suas palavras. – E você fez o que pôde para envergonhar o seu pai. Eu diria que você manchou o nome da sua família, que você a envergonhou, mas nós dois sabemos que o seu irmão orquestrou tudo isso. Porém, o que eu não entendo é como um homem maravilhoso igual ao seu pai conseguiu gerar dois seres tão inúteis, tão ingratos, tão capazes de se lambuzar nos piores mistérios da vida. Chase estava com a razão. O seu pai entrara em vários acordos com Nicodemus enquanto ainda era vivo, mas Mattie não poderia viver sob tais ameaças e expectativas. E, mesmo após tantos anos, ela ainda era capaz de sentir o toque do couro, o calor abrasante do sol sul-africano. Era capaz de voltar a ouvir os gritos, de sentir o cheiro forte de beira de estrada. Era capaz de sentir o pânico, de reviver o horror desmedido... – Quase todo mundo é ingrato, inútil e imagina ser um deus quando tem vinte e poucos anos – disse ela, obrigando-se a encará-lo, a aguentar o seu olhar ferino. – O segredo é, em certo momento, deixar tudo isso para trás. – Alguns de nós temos outras preocupações aos vinte e poucos anos, Mattie – falou ele. – Como sobreviver, por exemplo. Tão pomposo. Tão cheio de si. Mas a verdade é que ele não a conhecia. E isso poderia ser um trunfo nas mãos de Mattie. – Sim, Nicodemus – proferiu ela, com uma doçura exagerada no tom de voz, uma doçura que, sem dúvida, abria espaço a um enorme sarcasmo. – Você é um homem feito, e sempre o primeiro a atacar qualquer oportunidade que surge à sua frente. Por conta disso, você é invencível. Ele moveu os dedos ao redor do seu braço, e ela detestou o calor que voltou a invadir o seu corpo. Um calor que parecia abrir caminho em direção ao seu sexo. Era terrível constatar que o seu corpo não percebia o perigo representado por Nicodemus, por maior que fosse o pânico instalado em sua mente. E pensar que ele lhe propôs casamento mais uma vez, quando ela estava com 24 anos...


Mattie estava dançando há quatro horas, com um vestido cheio de fendas sugestivas. Um vestido escolhido a dedo para uma noite de diversão em Londres. Contudo, ao sair do local onde estava, ela encontrou Nicodemus, que a esperava recostado em um carro esportivo estacionado em local proibido, com seus poderosos braços cruzados sobre o peito. Por um instante, ele a ficou apenas observando. Ela, por sua vez, pegou um cigarro e o acendeu, como se não se incomodasse com a presença de Nicodemus. Depois lançou uma lufada de fumaça no ar frio da noite, como se fosse uma arma de defesa ideal contra um homem igual a ele. – Por que se preocupar em vestir algo assim? – interrogou ele, com um tom de voz ríspido que atingia em cheio o ar rarefeito. – Por que não sair nua de uma vez? – E você acha que tem o direito de se preocupar com a minha roupa? – Contestou ela, demonstrando perfeita indiferença, mas ao mesmo tempo deixando claro que ele a incomodava, embora isso não fosse verdade. O olhar de Nicodemus a atingia em cheio, deixando-a um pouco tonta. E ela estava um pouco bêbada, um pouco fora de controle, como costumava gostar de estar naqueles inúteis anos pósfaculdade. – Ah... – disse ele. – Claro que isso é assunto meu, Mattie. É óbvio que sim. Todos os homens que você permite tocarem na sua pele. Todas as noites que exibe o seu corpo para o resto do mundo. Esse piercing no seu umbigo, que você insiste em deixar à mostra sempre que é fotografada. Essa tatuagem que eu avisei que você não deveria imprimir no seu corpo. Esses malditos cigarros que vivem poluindo suas entranhas. Acredite em mim, tudo isso é assunto meu. Ao falar, ele se afastou do carro e ficou parado bem na frente dela. Nicodemus era um dos poucos homens que ela conhecia que conseguiam superá-la em altura, mesmo que ela estivesse usando algum de seus pares de sapatos altos, e ela não se cansava de repetir para si mesma que odiava o que ele a fazia sentir... esse pânico, essa falta de controle total, essa queimação que irradiava dos seus olhos profundos, sempre fixos nela. Ele parece aguentar qualquer coisa, pensou ela. Todavia, se conseguisse colocar as mãos nela, Mattie estaria perdida. E o que aconteceria quando ele descobrisse a verdade? O que aconteceria quando o fogo da paixão se extinguisse e não restasse nada além da verdade entre eles dois? – Se você for tão esperto quando afirma ser, deveria perceber que eu não ligo para o que você quer nem para o que você pensa – declarou ela, com o seu coração batendo cada vez mais forte. Muito forte. – Eu não me preocupo mesmo! E você deveria encontrar alguém que se preocupe. Deve haver uma página na internet repleta de meninas em busca de milionários malvados e grandalhões como você, repletas de homens que elas adorariam poder obedecer. Fazendo isso, você poderia bancar o senhor do castelo em sua mansão. Ele curvou os lábios. Em qualquer outro homem isso poderia demonstrar senso de humor, mas em Nicodemus era uma prova do enorme perigo que ele representava. – Case-se comigo, Mattie – pediu ele. – Não torne as coisas ainda piores para você mesma. – E por quê? – inquiriu ela, sem pensar duas vezes. – Porque eu quero você – replicou ele, soando como uma imposição sem meias tintas. – E eu sempre consigo o que quero. – Eu prefiro engolir minha própria língua – retorquiu ela, sendo invadida por uma espécie de desespero que a consumia. – Eu prefiro me matar dependurada em um...


– Você é uma menina boba – argumentou ele interrompendo-a, fazendo que não com a cabeça e murmurando algo em grego. – Mas você é minha. E então a puxou contra o seu corpo usando apenas uma das mãos, arrancando o cigarro dos seus dedos e beijando sua boca. Ela foi imediatamente invadida por uma onda de medo e desejo. Uma onda soturna. Aquela maldita boca parecia capaz de operar milagres quando estava colada à sua. Ela ficou completamente tocada. Completamente. E ela sentia um calor enorme. Sentia um pânico desmedido. O beijo de Nicodemus era letal. – Eu avisei... – sussurrou ele, sem descolar sua boca dos lábios de Mattie. – Você é minha. Sempre foi e sempre será. Durante quanto tempo planeja negar esse fato inconteste? Mattie ficou olhando para ele, incapaz de pronunciar qualquer palavra, e ele sorriu, ficando o mais próximo do gentil do que ela jamais vira. E tal gesto transformou o seu rosto. De alguma maneira, ele parecia ainda mais perigoso, e ainda assim incrivelmente mais lindo do que nunca. Por conta disso tudo, ela saiu correndo em direção contrária. – Pode continuar com seus joguinhos, princesa – disse ele, em tom rude, mas ao mesmo tempo parecendo divertir-se ao vê-la correr. Como sempre, Nicodemus era certeiro em suas palavras. – Quando você me aceitar, terminará se rastejando. Isso não poderia ser verdade, pensou ela. – Não – falou ele, alcançando-a e agarrando o seu braço. – Talvez você nunca seja completamente minha. Mas, sem dúvida, aprenderá a me dar prazer, Mattie. Além disso, se eu fosse você, começaria a aprender isso imediatamente. Essa foi mais uma ameaça. Mais uma promessa. Por mais que ela corresse, ele sempre a alcançaria. Nicodemus sempre vencia. Nesse ponto ele estava coberto de razão. – Eu nunca fui boa aprendendo as coisas com pressa – respondeu ela, com um tom de voz um tanto estranho, pois não queria sequer imaginar o que lhe dar prazer poderia significar. – Ah... e eu acho que você terá de lidar com mais esse desapontamento. Sinto muito...


CAPÍTULO 2

ELE VENCERIA. E era isso o que interessava, Nicodemus assegurou a si mesmo, enquanto observa o adorável rosto daquela mulher rebelde que ele perseguia há anos. De alguma maneira, ele estava conseguindo se controlar, e também conseguindo conter o desejo de deitá-la no chão daquela biblioteca, sem meias palavras. Ele respirou fundo, da mesma maneira que respiraria se estivesse fechando um corriqueiro contrato profissional. Aliás, era isso o que ele estava fingindo fazer. Depois, respirou fundo de novo, observandoa como se ela fosse um animal acuado, um animal capaz de lançar-lhe um veneno letal caso ele se aproximasse um pouco mais. Nicodemus não entendia por que se sentia daquela maneira. Por que se sentia selvagemente triunfante, em vez de ser invadido pela fúria incontrolável que o tomava sempre que tinha a certeza de que venceria uma batalha. E continuou evitando o desejo de se apossar imediatamente dela, o que era duro. Muito duro, pois o interior do seu corpo se revirava de desejo, e tudo o que ele queria era fundir o seu corpo com o dela. Ele queria vociferar a sua vitória até que ela gritasse o seu nome, como ele sempre soube que faria. Queria provar o seu sabor e tomá-la para si, uma e outra vez, até saciar o seu vício. De uma coisa ele estava certo: saciaria o seu desejo. Isso aconteceria. Mas demoraria um pouco. – Sente-se – ordenou ele, apontando o queixo na direção de duas poltronas pretas, de couro, colocadas ao lado da lareira. – Eu vou relatar como tudo isso vai funcionar. – Isso não soa como o início promissor de um casamento que você está me propondo há anos – mencionou ela, com seu tom de voz desrespeitoso de sempre, como se não considerasse tal possibilidade tão divertida quanto ele. Como se tudo não passasse de uma mera brincadeira. – Na verdade, se você quer saber, isso me soa como uma espécie de casamento que levará a um divórcio público e notório em menos de dezoito meses, ou o mais rápido que eu conseguir fugir das suas garras. – Você não vai fugir – retrucou ele, mais uma vez movendo o queixo em direção às poltronas. Dessa vez, entretanto, de maneira menos educada. – No entanto, se quiser, você poderá tentar. E seria uma delícia correr atrás de você e trazê-la de volta para casa.


Ele foi recompensando pelo olhar azul e gélido de Mattie, um olhar arregalado que ele conhecia há tempos. Nicodemus sorriu e foi recompensado por uma centelha mínima do tremor que ela fazia de tudo para esconder. Ela se sentou na poltrona que ele indicara, sem nunca deixar de encará-lo, como se não confiasse no homem que estava ao seu lado e conhecia há tanto tempo. Mattie Whitaker, pelo que Nicodemus sabia, nunca sofrera em sua vida, nunca passara por uma época dura. Aos 16 anos, era uma linda menina meio americana meio britânica, com um sotaque misturado que maravilhava quem a ouvia. Aos 18 anos, estava magnífica, nem mais nem menos. Do seu cabelo negro e brilhante aos seus olhos azuisescuros tudo era perfeito, sem falar em sua boca carnuda, que de tão linda deveria ser proibida por lei. Ela passou anos sendo puro charme e elegância. Aos olhos de Nicodemus, isso era consequência de ter acompanhado o pai em tantos eventos formais, substituindo a sua mãe desde o dia da sua morte. Na época, Mattie tinha apenas 8 anos de idade. E ele entrou naquele baile idiota, abrindo espaço em sua vida para mais uma bobagem norteamericana que não conseguia entender muito bem. Porém, imediatamente seus olhos ficaram presos em algo... Ela parecia um globo radiante, embora ele soubesse imediatamente do que se tratava: uma menina rica, mimada e linda vestindo uma roupa caríssima, brilhante. Mas a verdade é que ela brilhava de uma maneira distinta à das outras meninas. Ela parecia desinteressada... embora, sem dúvida, completamente mimada e louca. E ele já passara por isso na Grécia ao conhecer a autocentrada Arista, que quase o colocou de joelhos aos 22 anos. Nicodemus bancou o idiota ao lado dessa menina. E, por isso, jurou que nunca mais confiaria novamente em mulheres como aquela, que nunca mais bancaria o cego, que nunca mais seria enganado pela beleza vazia. Mas havia algo em Mattie... algo que o atraía. Ele a observava com calma, com cuidado, com atenção total... e ela não notava. Era mais ou menos como se ela fosse o centro do mundo e nada mais importasse. Ele estudou a maneira como ela movimentava aquele vestido caríssimo, modos que, sem dúvida, aprendera em algum exclusivo colégio interno, e também nos empregos que teve ao longo da vida, sempre em postos de destaque em pontos glamorosos do planeta, seja em editoras de livro ou galerias de arte... locais luxuosos, mas que pagavam tão pouco aos empregados que apenas as herdeiras de enormes fortunas podiam aceitar tais empregos. E essas meninas trabalhavam ocasionalmente, claro. Nicodemus a observava no momento em que ela o encarou, com seus olhos profundos, sérios, uns olhos escuros com uma pitada de azul. Uns olhos especiais. Sim, ela sem dúvida seria uma menina rica e mimada, mas algo lhe dizia que também era dona de uma inteligência ímpar, uma inteligência que, por uma série de razões, preferia ocultar. Eis outro mistério que ele deveria desvendar. – Acho que chegou a hora de você me contar o que vai acontecer por aqui – pronunciou ela, e tais palavras o fizeram se lembrar do pai de Mattie, sempre tão direto ao ponto. Nicodemus deixou escapar um longo suspiro. – Eu estou falando sério – insistiu ela, como se tomasse o suspiro como uma negação. – E não acredito que você não esteja pensando em ter herdeiros apropriados, se é isso o que você quer. Herdeiros lindos, claro... e ricos, certamente. Herdeiros notáveis e notórios, alguns deles prontos a dedicar suas vidas à religião, vivendo em conventos ou coisas parecidas. Eu sempre achei você um pouco chato... mas não posso negar o fato de que você é um bom partido. Você é incrivelmente rico. E muito poderoso. E não é exatamente o Corcunda de Notre Dame. – Gostei das recomendações – afirmou ele, perdido entre os sorrisos e a incredulidade após ter ouvido tudo aquilo. E ela sempre era direta. Sempre. Mattie parecia dominar o mundo em que vivia. E


talvez por isso o assustasse um pouco. – Quem não se casaria comigo ao ouvir isso? Ela o encarou por alguns segundos, parecia um pouco desconfortável. – Por que você me escolheu? – Perguntou ela. Mas o que ele poderia responder? Diria ter sido atingido por algo que não entendia? Nem ele acreditaria nessa história. Nicodemus sempre conseguia o que queria, não importava o quanto tivesse de tentar. Foi assim que abriu caminho a tudo o que conseguira até então. Foi assim que conquistou Arista, e depois se livrou dela e das suas garras afiadas. E foi assim que sobreviveu ao seu rígido e moralista pai. Foi isso o que ele fez. E por que seria diferente com aquela mulher? Ele se perguntava isso o tempo todo. Ele se perguntava isso há anos. E forçou um sorriso. – Eu gosto de você. Eis o motivo – contestou ele. – Se você gosta de mim – replicou ela, secamente – deve estar mentalmente abalado. – É possível – declarou ele, dando de ombros. – E será que isso diminui o meu poder de atração? Será que isso faz de mim um pouco mais Corcunda de Notre Dame? Tudo o que ele queria era conversar sobre o que aconteceria dali em diante, quando ela fosse morar com ele. Ele queria ter a certeza de que Mattie começaria a fazer tudo o que ele ditasse. Sim, ela teria de agir dessa maneira. E ele não mentiria para Mattie. Ele nunca mentia. E não se importava com a forma como a teria. Ela poderia ficar raivosa ou cair de joelhos à sua frente, qualquer situação valeria a pena. Nicodemus não perdia muito tempo pensando no custo de suas vitórias faraônicas. O que importava eram as vitórias em si. Isso era a única coisa que realmente importava. – Você acabará visitando sua querida esposa em uma instituição para doentes mentais – informou ela, com um sorriso falso estampado no rosto. – Mas tudo dependerá do famoso acordo pré-nupcial que assinará, claro. Ela o encarava com certa arrogância, como se fosse a dona do poder naquele instante. Mas ele sabia, pela maneira como ela estava sentada, com as pernas cruzadas e os braços rígidos, com o pulso acelerado e as bochechas rosadas, que a situação era outra, completamente oposta. Ela sabia que estava pisando em território perigoso. Mas havia muita coisa em questão quando o assunto era Mattie. Ela parecia um jogo de espelhos. Era uma mulher enevoada. Mas ele jurou que encontraria a verdade por trás de tudo aquilo, por mais complicado que fosse, sem se importar com o tempo que demorasse para conseguir o seu objetivo. Ele a deixaria exatamente como queria. E estava esperando por isso há anos... há muitos anos. – Nós vamos nos casar em duas semanas – comunicou ele, observando o rosto de Mattie ao pronunciar tais palavras. Algo brilhou no fundo dos seus olhos, mas ele não enxergava nada além da máscara de austeridade que Mattie colara ao rosto. – Será uma cerimônia pequena, na Grécia. Eu, você, um padre e um fotógrafo. E nós vamos passar a lua de mel por lá, em uma das minhas vilas. Depois voltaremos a Manhattan, onde eu e o seu irmão finalmente fundiremos nossas empresas, como eu e o seu pai sempre desejamos. – Ele sorriu e ficou calado por alguns segundos. Depois indagou: – Viu? Vai ser simples. Não entendo por que tanta comoção durante tantos anos.


– E qual será a minha parte nessa história toda? – questionou ela, como se não se importasse com nada mais. – Durante o casamento, eu espero que você honre os votos que fizer – respondeu ele, com um tom de voz doce. – Talvez com um pouco de entusiasmo. E durante a lua de mel? Eu tenho algumas ideias. E serão dez anos de vívidas imaginações postos em prática... no mínimo. Era impossível negar que o rosto de Mattie ficava cada vez mais corado. Ela parecia estar sendo invadida por uma forte onda de pânico. O que ela sentia era quase doloroso... E ele parecia desejá-la cada vez mais... Além do mais, algo lhe dizia que o seu amor a estava deixando louca, e isso tornava claro o fato de que havia mais coisas por descobrir naquela mulher, coisas que ele não era capaz de ler. – Eu estou falando do momento em que voltaremos, em total esplendor matrimonial, a Nova York – disse ela, e Nicodemus ficou pensando em como ela conseguia, mesmo tão nervosa, manter seu tom de voz tão calmo. Eis uma habilidade complicada que ela desenvolvera bem cedo, e que colocava em prática sempre que necessário. – Eu tenho o meu apartamento por aqui. E tenho uma vida, e um trabalho. Eu ficaria muito contente com uma vida de casal em cidades separadas... – Mas eu não! – Ditou ele. Ela piscou os olhos. Depois sorriu. – Eu duvido que você queira se mudar para o meu apartamento de dois quartos. É muito feminino, e eu não acredito que você seja um entusiasta da decoração em tons de rosa. Ela enfiou a mão em um dos vários bolsos que Nicodemus até então não percebera existir em seu vestido e pegou um cigarro, depois um isqueiro. E Mattie acendeu o cigarro, observando enquanto soltava no ar uma nuvem de fumaça. – Aproveite o seu cigarro, Mattie – falou ele. – Será o último. Ela deixou escapar mais uma nuvem de fumaça e interrogou: – Será? – Eu tenho ideias bem específicas sobre como a minha esposa se comportará – declarou ele, e depois sorriu. – Ela vai morar na minha casa e não vai trabalhar, se é que isso que você faz pode ser chamado de trabalho... você parece fazer as relações públicas da empresa do seu pai apenas para poder comprar uma série de vestidos caros para ocasiões especiais. – Sei... Eu já entendi. Vai ser um casamento ao estilo medieval – retorquiu ela. – E vai combinar com o estilo Idade da Pedra que nos comportamos até agora. Que beleza! Ele a ignorou. – Eu tenho certas expectativas quanto ao comportamento da minha esposa. E também quanto ao estilo do seu vestido, quanto aos seus modos... Não quero ver cigarros dependurados da sua boca, não quero sentir o cheiro de nicotina nem de cinzeiros pela casa. – Ele deu de ombros. – São coisas normais, tudo o que peço. Ela segurou o cigarro com uma das mãos, não parecendo nem um pouco preocupada, embora sua mão tremesse levemente, delatando-a. Depois o encarou e pronunciou: – Eu entendo que, para você, isso não passa de um grande jogo de xadrez, Nicodemus. E sei que eu vou assumir o papel menos importante de todos nesse tabuleiro... – Você assumirá o papel de rainha – garantiu ele. – Um papel imprevisível e difícil de ser controlado, mas quando tudo ficar no seu lugar o sucesso do jogo estará garantido. Ele sorriu e ela franziu a testa.


– Eu odeio xadrez – informou Mattie. – Sendo assim, deveria ter escolhido uma metáfora mais apropriada ao seu gosto. – Eu sou uma pessoa, um ser humano – disse ela, com um tom de voz cortante como uma lâmina bem-afiada. E os olhos de Mattie o queimavam. E pareciam mortos de medo. Mesmo assim, sua voz era fria e o desespero era palpável. O estranho era que, ao se livrar de Arista, ele jurou que nunca mais se envolveria em uma situação como aquela. – E essa história não parece humana, não parece real. Nós estamos no século XXI, Nicodemus... – Sendo assim, por que você vai se casar comigo? – Inquiriu ele, fazendo um esforço enorme para manter o tom de voz calmo. – Você não precisa fazer isso, como eu já mencionei. Eu não estou com uma pistola apontada para sua cabeça. – Uma fusão entre as nossas empresas deixará vocês dois mais fortes. Chase conseguirá manter sua posição de CEO – alegou ela, após alguns minutos calada, e com um olhar ligeiramente triste. – Ele mudará de posição frente à diretoria e os acionistas. E você, claro, será o chefe supremo de tudo, e se provará perfeito dirigindo empresas e ganhando toneladas de dinheiro. Contudo... você não precisa se casar comigo para que isso aconteça. – Não – retrucou ele, dando de ombros. – Não sou eu quem está procurando explicações para esse casamento. Quem está fazendo isso é você! – Mas você não conseguiria amarrar seu negócio com Chase se eu não concordasse com o casamento – afirmou ela, com um olhar ainda mais profundo. – Eu quero ter a certeza total de que sabemos muito bem quem está pressionando para que isso aconteça. – Eu sei muito bem quem está pressionando essa situação – contestou ele, sorrindo ao ver que ela perdia a paciência. – Mas isso tem tudo a ver com esses joguinhos que você adora, Mattie. Todavia, nós dois sabemos que você vai se casar comigo. E você sabe disso desde que nos conhecemos. Ela não gostou de ouvir essas palavras, isso estava estampado em seu rosto. Entretanto, ela não ter gostado não alterava um fato inconteste. Nada alteraria aquela história. – Eu ainda não me casei com você – replicou ela, em tom baixo. – E eu não ficaria tão confiante se estivesse no seu lugar. A sua batata pode estar assando... Ele sorriu. – Eu vou ensiná-la a responder ao seu marido de uma maneira mais adequada, Mattie. Claro que vou. – E ele curvou o corpo para a frente, pegando o cigarro da mão dela e atirando-o na lareira. – Eu vou me casar com você porque quero. Eu sempre quis. Mais do que isso, eu quero fundir a minha empresa com a empresa do seu pai, e quero que a ligação entre nós seja forte. Eu quero fazer parte da sua família, pois desta forma ninguém questionará o meu posto. Ou seja, eu quero casamento. Quero bebês. Quero uma vida inteira juntos, pois não acredito em separações ou divórcios. Muito menos em segredos. Especialmente em segredos, pensou ele, deixando suas terríveis lembranças de lado. E também as mentiras e a devastação geradas por elas. Mattie o ficou encarando por um tempo, com um olhar um tanto assustado. O único som naquela sala era da tempestade que caía do lado de fora, açoitando as janelas, e do crepitar da lareira acesa. Ele imaginava ser capaz de ouvir a respiração de Mattie, uma respiração agitada e sem ritmo, uma respiração que a traía... mas duvidava que ela daria outra mostra de seu nervosismo... – Você está querendo dizer que eu sou uma moeda de troca – proferiu ela, finalmente. – Isso pode ser verdade, Nicodemus. Além do mais, eu já sabia disso.


– E vai se casar comigo por quê? – Ele curvou os lábios, enquanto ela simplesmente o encarava, muda. – Você gosta de bancar a mártir? Sempre gostou de se autoflagelar? Você tem um desejo secreto de se diminuir frente às ambições dos demais? – Por obrigação familiar – respondeu ela, rapidamente, sem pensar. – E eu não espero que você entenda esse tipo de coisa. – Claro que você não espera isso – argumentou ele, nesse instante sem sorrir. – Tudo o que tenho eu consegui com as minhas próprias mãos. O meu pai nunca acreditou que eu conseguiria ganhar nada. – E fez o melhor que pode para que isso acontecesse, pensou Nicodemus, revirando mais uma das feridas não cicatrizadas que carregava no interior do peito. – A minha mãe limpava casas e trabalhava em fábricas. A única coisa que eles me deram foi a minha vida. Todo o resto, fui eu que consegui ganhar. E também consegui manter, apesar dos bravos esforços de parasitas como Arista. – Ninguém jamais diria que você é um homem pouco impressionante, Nicodemus – admitiu ela. – Mas o que você está fazendo com a sua vida? Você me persegue há tanto tempo. Acho que nem sabe mais quando começou. – Não, Mattie – assegurou ele, em tom gentil. Exageradamente gentil, talvez. Na cabeça dela, o ponto de partida seria aquela discussão inicial. Ele a tratou como se ela fosse feita de vidro, e tudo o que ela fez foi cortá-lo com seus cacos afiados. Ele deveria se lembrar disso. Ele deveria retomar o controle da situação. As bochechas de Mattie estavam rosadas, a sua boca estava perto demais, e ele esperava há tanto tempo... Ele viu o pânico instalado em seus olhos no exato momento em que Mattie o encarou, e viu também o movimento decidido dos seus seios, que subiam e desciam em perfeita sintonia, roçando o tecido leve do vestido que ela usava. Foi impossível para ele evitar uma aproximação e tocar sua bochecha quente. E tocou-a apenas com o polegar, acariciando-a. Ela ficou ainda mais corada. Tudo se acendia novamente. Tudo brilhava, era verdadeiro, queimava. Ele estava amaldiçoado desde o início. Aquela história parecia inevitável. Mas valeria a pena. Quanto a isso, ele não tinha qualquer dúvida. – Eu sempre soube o motivo – confessou ele, chegando o mais próximo da verdade que poderia. Um calor os envolvia completamente, alimentando um desejo selvagem. Ele notava isso estampado em seu rosto, no azul profundo dos seus olhos. E sentiu isso na própria pele. Ele sorriu. – É você quem está confusa, mas não permanecerá assim por muito tempo. ELES SOBREVOAVAM o oceano Atlântico. Ao redor do avião, tudo estava escuro. Mattie deixou de lado sua agitação interna e resolveu folhear uma revista, mas não era capaz de ler uma única palavra, embora passasse as páginas com força. Por fim, resolveu parar de fingir e ficou observando o interior opulento do avião, um jatinho com detalhes dourados na decoração, um capricho de onde Nicodemus olhava o mundo com a sensação de que tudo aquilo um dia seria seu, como um rei em seu próprio castelo. A mesinha à frente dele estava aberta, cheia de papéis junto ao laptop. O rosto dele demonstrava atenção e inteligência, sua expressão era puramente masculina, a expressão de um multimilionário que sempre sabia muito bem qual o próximo passo a ser dado. Seu cabelo estava um pouco desgrenhado, como se não parasse de passar os dedos entre os fios. Aos olhos de Mattie, ele ficava muito mais bonito assim.


Ele deve ter percebido o olhar de Mattie, ou então ouvido seu suspiro, pois a encarou. – A tortura silenciosa chegou ao fim? – perguntou ele, em um tom seco, mas divertido, um tom exageradamente condescendente. – Pois saiba que eu já me acostumei ao silêncio. Até aquele dia, Mattie estava fazendo um bom trabalho ignorando-o. Dias antes, ele a deixara na casa do pai, com nada mais do que um sorriso enigmático, e isso foi tudo. Ele simplesmente... deixaria que ela respirasse até uma semana e meia mais tarde, sem dizer nem exigir nada. Mattie pensou em fugir, claro. E pensou nisso a noite toda. Todas as noites. Certo dia, chegou a comprar uma passagem para Dunedin, na Nova Zelândia, um ponto bem distante do planeta, o local mais afastado que encontrou no globo terrestre. No entanto, apesar de suas fantasias mais loucas, e de várias buscas na internet envolvendo montanhas inacessíveis e desertos remotos, quando Nicodemus apareceu à sua porta, pronto para levá-la à Grécia, ela estava em casa. Esperando por ele, como prometera, como uma noiva bem-comportada. Como a filha que nunca fora para o seu pai, como se estivesse muito ocupada tentando atingir a perfeição, para enfim conseguir chamar sua atenção. Ela chegou a preparar as próprias malas! Estava pronta. Nicodemus entrou no apartamento amplo e arejado, caminhando de maneira confiante, tanto que um frio subiu pela espinha de Mattie. Ela disse a si mesma que tal frio seria fruto da ansiedade, não de algo mais feminino e subjetivo. O seu apartamento ficava em uma área muito valorizada do Upper West Side, em Manhattan, e estava repleto de antiguidades lindas, com um piso de madeira perfeitamente cuidado e tetos altos que pareciam dobrar o ambiente de tamanho. Porém, a presença de Nicodemus parecia deixar tudo incrivelmente menor, claustrofóbico. Ele chamava muito a atenção. Muito mesmo. E percebeu as malas de Mattie, pediu ao segurança que as levasse para o carro e então... ficou de pé por ali, naquele apartamento, no apartamento de Mattie. E era como se tal ambiente o pertencesse. Como se ela o pertencesse. Mattie se recusava a pensar nesse tipo de coisa. E seria muito mais fácil se ele fosse menos incrivelmente lindo, pensou ela, furiosa. Nicodemus vestia um suéter escuro que moldava com perfeição o seu torso bem esculpido, além de um paletó também escuro, aberto, que adicionava uma pitada de elegância ao look. Sua calça comprida era casual e chique ao mesmo tempo. Sim, ele era um homem altamente atrativo. Negar isso seria bobagem. Ela não poderia ignorar uma verdade tão óbvia. Ainda assim, sabia que ele estava ali para finalmente conseguir o que queria, para finalmente colocar as mãos na empresa da sua família. E parecia impensável que, em poucos dias, estaria casada com aquele homem. Impossível! Sempre que olhava para ele, parecia mergulhar em um poço tóxico, um poço repleto de gasolina. – Este apartamento não é nada rosa nem feminino – falou ele, com um sorriso forçado no rosto, um sorriso que a fez se sentir um pouco mal. O pânico a invadia pouco a pouco, e ele a encarava, assustado e brincalhão ao mesmo tempo. – Você tem o costume de mentir sobre tudo? – indagou ele. – Você está pretendendo dar início às nossas duas semanas de amor chamando-me de mentirosa? – Questionou ela, sem se importar como soaria aos ouvidos de Nicodemus, e o seu tom era frio e cortante. Para piorar, deixou escapar uma risada nervosa. – Que coisa... – Deve ser culpa minha – declarou ele, falando baixinho, mas encarando-a de uma maneira que a fez corar e sentir um pequeno nó se instalando na sua garganta. – Se ficarmos de pé, debaixo de uma chuvinha, você dirá que o céu acima das nossas cabeças é o mais azul que já viu em sua vida. Aparentemente, eu inspiro isso nas pessoas. Especialmente nas mulheres. E algo me diz que você


deveria se preocupar com o que está por vir, Mattie. E saiba que eu vou acabar descobrindo tudo o que você está tentando esconder. Tudo. Eu disse tudo. – Eu me preocupo com tudo isso desde aquele delicioso encontro na casa do meu pai – admitiu ela. – Mais uma mentira... – Retrucou ele. – Não. Eu acabei de dizer a verdade. Embora seja incrível, eu sei. Após ter dito isso, ele se aproximou e tocou o queixo de Mattie. Nesse instante, notou que o corpo de Mattie estava quente, agitado, e que ela provavelmente estaria sofrendo para se manter de pé. – Você não está preocupada com isso – afirmou Nicodemus, perto demais dela e um pouco incerto... como se pudesse farejar o desejo que a consumia, desejo que começava a ficar forte demais para ser negado. Mattie pensou que deveria parar de falar com ele. Era muito perigoso. Especialmente se ele resolvesse colocar suas mãos em cima dela. Ela assegurou a si mesma que ficaria aliviada se conseguisse se livrar dele sem discussões, mas a tarefa não seria tão simples. Havia consequências a ponderar, placas tectônicas que se moviam no interior do seu corpo, independente da sua vontade. Ainda assim, Mattie era uma mulher muito decidida. Ela manteve o silêncio durante toda a viagem de carro, enquanto seguiam às áreas mais ricas dos arredores de Manhattan. Em pouco tempo, estariam a bordo de um avião, seguindo em direção à minha pequena ilha privada no meio do mar Egeu. Claro que Nicodemus tinha uma ilha, e isso deveria deixar Mattie ainda mais louca de vontade de se casar com ele, sem qualquer vontade de abandoná-lo. Afinal, como sairia daquela ilha? Nadando até o continente? Ela atravessaria o mar Egeu nas suas águas gélidas, em pleno mês de outubro? – Eu não estou aplicando um tratamento de silêncio – informou ela, estirando as pernas, como se estivesse mais relaxada do que realmente estava. Ele fez que não com a cabeça, e tal gesto reverberou no interior do corpo de Mattie como uma força difícil de suportar. – Eu não entendo por que você se preocupa em mentir quando já deveria ter percebido que eu enxergo além da superfície do seu corpo – garantiu Nicodemus. – Eu não sei o que dizer a você – respondeu ela, baixinho. – E posso imaginar o que vai acontecer... Além disso, o que estou imaginando é uma consequência de casamentos arranjados como o nosso... uma vida inteira de tédio e silêncios... e nós dois presos em nosso inferno particular. Ele moveu os lábios e finalmente pronunciou: – Não é do seu silêncio que eu não gosto. Ela fez que sim, como se imaginasse que ouviria isso. – Insultos... pequenas ameaças... é isso o que acontece quando obrigamos alguém a se casar conosco, Nicodemus. E nós ainda nem nos casamos. Eu tentei avisar... – Não há necessidade de chegarmos a um ponto tão desconfortável – contestou ele, ríspido, recostando-se em sua poltrona. E pisou forte no chão de madeira polida, depois a encarou com força, tanto que as paredes do apartamento pareciam cada vez mais próximas umas das outras. O espaço entre eles parecia exíguo. As pulsações de Mattie se aceleraram incrivelmente. – Sem sombra de dúvida, nós encontraremos muita coisa a fazer que não necessitem o uso de palavras. Mattie rolou os olhos. – Ameaças sexuais veladas não são menos ameaçadoras pelo simples fato de serem veladas – disse ela. – Na verdade, o efeito é outro... e bem contrário...


– É por isso que você está ficando vermelha? – Interrogou ele, lentamente. – Você está se sentindo ameaçada? – Estou – replicou ela. E ele fez que não com a cabeça novamente, desta vez em movimento mais lento. – Mentirosa. Ela se lembrou de que o fato de ele estar com a razão não significava nada. Ele não conhecia o efeito letal que causava nela, mas apenas imaginava conhecer. – Eu acho que você deve ter uma ideia de como isso funciona – argumentou ela, deixando de lado a ideia inicial de manter-se em silêncio, e com medo do tal silêncio acabar sendo prejudicial a si mesma. – Você já está se envolvendo no processo de me isolar do resto do mundo, de tudo que parece familiar aos meus olhos... e é assim que agem os homens como você. – Homens como eu... – Disse ele, com um tom soturno em sua voz, um tom traiçoeiro, e ela se sentiu instável, um pouco perdida. – Existem muitos homens como eu? Sério? Pois eu sempre me considerei único... incrivelmente único. – Eis um padrão típico – falou ela, sorrindo gentilmente. – Homens que se acham únicos são muitos comuns neste planeta. – Se você está tentando se livrar de mim – mencionou ele, em tom seco –, saiba que está jogando as cartas erradas. – Ninguém está isento de passar vergonha, Nicodemus – respondeu ela, nesse momento usando um tom de voz mais suave, um tom de voz que roçava o deboche –, por mais que finjam... – Talvez – concordou ele, movendo o corpo na poltrona, mas sem nunca afastar seu olhar quente de cima dela. – Contudo, você não me conhece o suficiente para sequer imaginar o que existe dentro de mim. Aliás, você não me reconheceria caso soubesse o que eu carrego. Não havia motivo para que ela ficasse sem ar ou sentindo um nó no estômago. Mas ela sentia tudo isso, e disse a si mesma que estava passando por um instante de turbulência, nada mais. – Você parece disposta a transformar tudo isso em uma esquálida transação sem maior importância – afirmou ele, após ver que ela não diria nada, e Mattie não foi capaz de ler a expressão em seu rosto. Ele se recostou na poltrona, erguendo a cabeça e encarando-a. Era como se ele fosse realmente capaz de decifrar sua alma. – Uma transação tão dolorosa e horrenda quanto possível. – Então é isso? – Inquiriu ela. – Eu não tenho a menor ideia de como esses acordos bárbaros funcionam. Você vai examinar os meus dentes, como se eu fosse um cavalo? Vai chutar os meus pneus, como se eu fosse um carro velho que comprou pela internet? Algo profundo e quente, algo parecido à satisfação, tomou conta dos olhos de Nicodemus, e sua boca se curvou em um sorriso perigoso. – Se você insiste... – Declarou ele, em tom lento e bem baixinho. Mattie ficou paralisada. Ela sentia seus próprios olhos se arregalando, e percebeu que Nicodemus notava as consequências que gerava nela. Pelo amor de Deus, pensou ela, histérica... tremendo por dentro. O que está acontecendo comigo? Não o desafie! Pare com isso imediatamente! – Ah, eu sinto muito – disse ele, percebendo o que ela sentia. – Será que isso foi mais um exemplo da sua boca colocando-a em apuros? Você está mentindo ou está tentando me provocar? Acho que já é hora de encontrar uma melhor utilidade à sua boca.


Ele está com a razão, pensou Mattie. Se ele realmente fosse o homem que ela imaginava ser, o melhor seria tratá-lo com respeito e cuidado, certo? Todavia, ela sabia que ele não era assim... e não acreditava nas coisas que ele fazia. Não acreditava mesmo! Ainda assim, a verdade é que estava atravessando o Atlântico, voando em direção à Grécia. Sim, ele estava fazendo um ótimo trabalho bancando o assustador, o bárbaro em plena luta, mas ela conhecia muito bem esse tipo de homem. Além do mais, ela conhecia muito bem esse homem: Nicodemus. E o pior, o seu pai o adorava de verdade. Tanto que chegou a considerá-lo o marido perfeito para sua filha. Mas Mattie não acreditava que algum dia Nicodemus a forçaria a se casar com ele. E muito menos acreditava nas ameaças que ele estava lançando, ameaças que a pressionavam e que sem dúvida deixariam marcas indeléveis. – Eu não estava brincando – afirmou ela, e ficou de pé na frente dele, reunindo toda a força do mundo para não tremer. Ela abriu os braços com força, o mais teatralmente possível. – Eu não duvido que o terceiro homem mais rico da Grécia... – Essa é uma boa introdução para uma frase que falará sobre mim – mencionou ele, fazendo uma pausa –, mas eu não consigo imaginar se será uma frase elogiosa ou condenatória. – Como eu estava dizendo – retrucou ela, retomando a palavra –, eu não duvido que o terceiro homem mais rico da Grécia... antes de comprar uma de suas motocicletas ultravelozes, não tenha obrigado a que elas fossem aprovadas em seus altos padrões de desempenho – assegurou Mattie, como se ele não tivesse dito nada, como se não a tivesse interrompido. Ela já o vira pilotando uma dessas motos, em uma festa no interior da França, uma festa em um castelo de uns amigos, uma festa a qual ela nunca teria ido se soubesse que ele estaria por lá. E Mattie conseguiu escapar rapidamente dessa festa, mas nunca foi capaz de se esquecer da imagem de Nicodemus. A imagem de um homem poderoso montado em uma máquina veloz. Uma espécie de poesia letal, uma poesia que retumbava ao pôr do sol francês. Naquele momento, a festa parecia montada em honra àquele homem tão seguro de si. Ela o encarou e se manteve firme em sua pose. – Bem... aqui estou eu – disse ela. Os olhos de Nicodemus brilhavam, mas ele não se moveu. Mesmo assim, Mattie se sentia prisioneira dele. Ela se sentia envolvida por ele, em chamas. Ele ergueu os ombros, como costumava fazer, depois os relaxou, lentamente. – Sendo assim, vá em frente – mencionou ele, com um tom de voz que roçava o tédio, embora seu olhar a queimasse viva, exalando mais calor do que nunca. – Tire sua roupa. Eu quero ver o que você escondeu durante tantos anos... e finalmente está me oferecendo.


CAPÍTULO 3

MATTIE DEIXOU de lado sua tentativa de manter uma respiração pausada, ritmada, e o encarou... e ele simplesmente sorriu para ela. Pois ele não imaginava que eu faria isso, pensou Mattie. Ele provavelmente imaginava que ela sairia correndo, como naquela festa em Londres. Mas não desta vez, pensou Mattie, gélida. Se ele queria bancar o homem que compra esposas, ela agiria como uma mulher disposta a ser comprada. Ela abriu os braços e se livrou do longo suéter vermelho que vestia, um suéter tão grande que parecia uma colcha. Deixou o suéter sobre a poltrona de couro ao seu lado, depois se livrou das botas de cano curto. Nicodemus não falou nada. Por baixo do suéter, usava um cashmere de gola V, que também tirou do corpo, sabendo que uma parte do seu ventre ficaria exposto no movimento. E pensou ter escutado um gemido baixinho escapar da garganta de Nicodemus, mas ao terminar de tirar o cashmere percebeu que ele continuava impávido, na mesma posição de antes, observando-a como se fosse uma aeromoça fazendo a demonstração de segurança antes de um voo comercial, o que é uma tarefa bem entediante. Logo depois, ela se livrou da camiseta, recusando-se a demonstrar qualquer emoção quando ele começou a observar os seus seios e o sutiã vermelho intenso que ela usava. Mattie não moveu um músculo nos pontos exteriores do seu corpo... mas o seu estômago se transformara em um nó apertado, uma bola bem pequena, e ela mal podia respirar. Ficou parada, quente, sabendo que a cor da sua pele se aproximava da cor do sutiã, enquanto ele voltava a olhá-la diretamente nos olhos. – Gostou da mercadoria? – Perguntou ela, em tom frio. – Eu não saberia dizer – contestou ele, em tom similar. – A mercadoria continua coberta. Você está tendo um ataque de modéstia, Mattie? Logo você, depois daquele topless público de dois anos atrás? – Não há nada de errado em fazer topless em um barco, em alto mar, no meio do oceano – garantiu Mattie, percebendo o quanto sua voz deixava claro que estava operando na defensiva. – Eu imaginava estar sozinha. Ou será que deveria viver imaginando que um helicóptero pode estar sobrevoando a minha cabeça?


– Você poderia simplesmente prestar mais atenção a como expõe o seu corpo – sugeriu Nicodemus, com uma pitada ácida em sua voz. – Especialmente agora que ele é meu. E a ficou observando por um tempo. Mattie se sentia extremamente exposta, extremamente óbvia. Ele estava certo. Aquilo era uma bobagem. Em jantares de gala, ela usava vestidos que tapavam menos que a roupa íntima que usava naquele instante. Por que estaria se sentindo tão mal? Mas não, pensou ela, eu não quero seguir por aí, não quero pensar nessas coisas. Mas já que começara, seguiria até o fim. Ela o levaria ao extremo. – Você tem mais alguma observação possessiva e patológica a me fazer? – Indagou ela, agora em um tom meramente educado. – Ou talvez prefira esquentar o ferro com a logomarca da sua empresa e imprimi-la na minha pele? Ele abriu um sorriso leve. Seus olhos brilhavam. Ele estava sentado languidamente, relaxado, como se fosse possível superar o homem com o físico mais poderoso que ela jamais conhecera. Mattie engoliu em seco, com força. Ela se traía. Nicodemus sorriu. – Eu vou avisá-la quando chegar a hora – comunicou ele, e inclinou a cabeça de uma maneira que a enfureceu, embora ao mesmo tempo fosse altamente atraente. Ele estava deixando espaço para que ela seguisse em frente. Mattie ficou desesperada. Mas curvou o corpo e se livrou das meias, depois voltou a ficar ereta e abriu o zíper da calça escura skinny, afastando-a do corpo ao terminar de tirá-la de suas pernas. E ficou parada, vestindo apenas calcinha e sutiã. E assegurou a si mesma, uma e mais uma vez, que aquilo era como estar vestindo um biquíni. Que estava tudo bem. Que não era nada. O olhar de Nicodemus era tão quente que doía. Mas ele continuava imóvel. – Eu não sei se isso é modéstia ou uma pausa dramática – declarou ele, com um tom de voz calmo e doce. – Entretanto, saiba que eu estou ficando entediado. Pela primeira vez, um jorro de medo passou pela espinha de Mattie, e ela ficou pensando quem estaria atiçando quem... No entanto, simplesmente ergueu o queixo e começou a abrir o fecho do sutiã. Lentamente, afastou a roupa íntima do seu corpo, revelando um dos seios, depois o outro, e deixou cair o sutiã no chão. Ele a ficou observando, com uma concentração total estampada no rosto. Logo depois, ela cravou os dedos no tecido da calcinha e desceu-a até os joelhos. Pouco a pouco, foi arrastando-a até o chão, e chutou-a para longe com um dos pés. Ela estava nua, na frente de Nicodemus Stathis, o homem que sempre atazanou sua existência, que naquele instante era o seu noivo e que em pouco tempo seria o seu marido... se tudo seguisse o seu curso natural. Ela afastou a mente de tudo isso. Dos termos do acordo. Da realidade. E estava completamente nua. Sem sombra de dúvida, aquele não era o momento adequado para questionar a decisão que a levara àquele ponto. Sabendo disso, manteve a cabeça em um ângulo beligerante e esperou, como se estivesse perfeitamente confortável naquela posição, nua no meio de um avião, na frente de um homem enfurecido. Nicodemus deixou escapar um som que não poderia ser qualificado como uma risada, depois ficou de pé. A boca de Mattie ficou seca. Sua mente não parava de rodar. Ela não conseguia pensar em nada. Estavam dentro de um avião. Ele era grande demais para o espaço, era grande demais para o mundo inteiro, pensou ela, quando finalmente sua cabeça conseguiu pensar em alguma coisa.


Nicodemus deu um único passo à frente, depois tocou o teto do avião e ficou com o corpo completamente esticado à frente dela. A sua pose era a de um homem imponente e relaxado ao mesmo tempo. Mas isso não fazia dele uma pessoa menos perigosa. Mattie não se sentia nada segura e não ousaria examinar o que tinha tão perto de si. Ele franziu a testa, e ela pensou que deveria ter prestado mais atenção ao que ele lhe revelara antes, sobre o quão pouco ela o conhecia. Ela estava em clara desvantagem. Além disso, estava nua. – Por que você está parada aí? – Questionou ele. E Mattie simplesmente piscou os olhos, e ele fez um movimento com os dedos, indicando que ela deveria girar o corpo. – Vire de costas, por favor. Ela pensou que tudo o que Nicodemus queria era humilhá-la. Acabar com ela. Mas mesmo assim se aferrou à esperança de que ele não levaria a situação às últimas consequências. Aquilo seria apenas uma brincadeira de mau gosto. No máximo, seria um castigo por tudo o que ela lhe fizera passar nos últimos anos. Ele daria um passo atrás. Ele tinha de dar um passo atrás. Porém, ela não poderia dar sequer um passo atrás. Mattie se virou de costas, mas o fez lentamente. Chegou a mover os quadris, como se estivesse desfilando. E sentiu as mãos de Nicodemus tocando sua pele. E ficou gelada. Ela demorou um tempo para perceber que não se tratava de um toque qualquer, mas sim de um toque sensual, ou mesmo sexual. Ele estava tocando a tatuagem delicada que ela fizera logo acima da cintura. – É uma fênix – disse Mattie, odiando que o seu tom de voz soasse tão abrupto, tão rude, pois não queria deixar evidente que o toque de Nicodemus a afetava tanto. Para piorar, ela estava nua, completamente nua, e no meio de um avião. – Eu sei – falou ele, com um tom áspero, e Mattie girou o corpo, encarando-o, mas sem conseguir decifrar a expressão em seu rosto. – O que eu não sei é como essa fênix se encaixa na vida sempre tão confortável que você teve. Mattie não tinha qualquer intenção de revelar nada, a ele nem a ninguém. – Nicodemus... – Começou ela, mas ele fez que não com a cabeça. Sem entender o porquê, ela ficou calada. Por que o obedecia daquela maneira era um mistério para Mattie. – E esse piercing no seu umbigo... – Murmurou ele, mantendo o mesmo tom de voz ácido ao tocá-lo. E foi um toque gentil, delicado, um toque que a queimava e derretia. Mas ela conseguiu se controlar e não deixou escapar um único som. Contudo, ele moveu os lábios e Mattie percebeu que Nicodemus sabia, de uma maneira... Ele se aproximou ainda mais. O coração de Mattie explodia no peito, batendo como se quisesse sair pela boca. Ela estava muito quente, depois ficou gelada. Seus seios estavam tão excitados que doíam. Ele os tocou... depois desceu as mãos à sua cintura, agarrando-a, tomando-a para si... – Nicodemus – pronunciou ela, sem conseguir esconder o pânico no tom de sua voz. Todavia, além de pânico, havia um toque de desejo... Ela não reconhecia a si mesma. – Era isso o que você queria? – Interrogou ele, e a sua voz era cada vez mais soturna, assustando-a. – Da próxima vez, vamos deixar de lado as preliminares. Basta pedir.


E ele se curvou, como se ela o estivesse implorando para que fizesse isso, e tomou sua boca em um beijo. E FOI melhor do que ele se lembrava. Muito melhor. Mattie tinha gosto de nicotina e calor, uma mistura única, que ele não encontrara em nenhuma outra mulher, e Nicodemus ficou um pouco fora de si. Há anos não se sentia daquela maneira. Ele soltou sua cintura e mergulhou os dedos entre seu cabelo sedoso. Não estavam em Londres, não havia o medo de serem descobertos, não havia qualquer possibilidade de uma exposição não desejada. Nicodemus finalmente poderia manter o ritmo adequado. Poderia experimentar um ângulo, depois o outro. Poderia prová-la uma e outra vez, beijando-a em fúria, desejando-a desesperadamente, intoxicando-se com os movimentos da sua língua contra a dela. Minha, afirmou ele a si mesmo, ela é minha. E há quanto tempo desejava que isso acontecesse. Ela era perfeita. O cabelo de Mattie, caído sobre os seus ombros, roçava a pele dos dedos de Nicodemus. O seu corpo, tão alto, tão esbelto... Os seus seios rosados, a sua cintura marcada... Ele ficou com a boca cheia de água. Até aquela maldita tatuagem que ele não queria que ela fizesse... tudo parecia perfeito, lindo, adequado, delicado e misterioso. Ela era tudo isso ao mesmo tempo, em uma mistura única e maravilhosa. Sem contar aquele piercing prateado... um piercing que o fez pensar na ondulação de uma cintura tão feminina. Ele nunca desejou ter outra mulher como aquela, especialmente após Arista. Nunca... E sentiu um frio na espinha, um frio que invadia o desejo incontrolável que o tomou de assalto. Ele afastou sua boca e começou a acariciar os braços de Mattie, descendo os dedos pela sua espinha, chegando às suas nádegas perfeitas... Os olhos de Nicodemus estavam fechados, os seios de Mattie colados ao seu peito. Tudo era perfeito. Nicodemus pensou que poderia morrer se não a penetrasse. Se não sentisse o seu gosto. Se não fizesse algo para aplacar o desejo que o consumia. Ele estava desesperado por mais, cada vez mais. No entanto, talvez fosse melhor esperar um pouco, controlar-se um pouco... mas ela fez um movimento, deixando escapar um leve gemido da sua garganta. E ele era um homem, não conseguiria se controlar tanto. Nicodemus a arrastou à poltrona mais próxima e a sentou, com as pernas abertas, querendo ver tudo. – Espere – pediu ela. – Você... – Espere – retorquiu ele, curvando o corpo, inalando o cheiro delicioso do desejo de Mattie. – Nicodemus... – Ele estava perto demais. – Eu não... – Mas eu sim – sussurrou ele, como faria um homem que estivesse rezando fervorosamente. E exatamente como ele queria fazer há anos. Há muitos anos. E ela deixou escapar o gemido mais lindo que ele ouvira em sua vida, um gemido misturado com grito. Nesse momento, ele tocou a ponta da língua no centro do corpo de Mattie. O seu sabor era doce e selvagem. Uma espécie de mel. E ele adorou, além de sentir que ela tremia, que perdia o controle. – Ah, não... – Gemeu ela, mas ao mesmo tempo curvou o corpo, como se quisesse aprofundar o toque de Nicodemus.


Ela se deixava levar, e em pouco tempo estava repetindo o seu nome, tensa, linda, murmurando palavras que ele não entendia, como se estivesse se aproximando de um penhasco desconhecido para os dois. E, finalmente, gritou, da maneira como ele queria. Um grito alto e longo, e ao terminar o grito repetiu o seu nome. Ela é minha, completamente minha, pensou Nicodemus, sentindo uma satisfação profunda, uma espécie de verdade que não saberia nomear. E, por isso, nem tentou classificá-la. Pelo menos momentaneamente. MATTIE FICOU com ódio de si mesma. Ela demorou um bom tempo para abrir os olhos. Quando o fez, descobriu que estava sentada em uma poltrona de couro, com seu suéter sobre o corpo, como se fosse um lençol, e Nicodemus ao seu lado, com as pernas esticadas e um ar de pura confiança em si mesmo. Ela respirou fundo. Depois respirou novamente. Ainda estava um pouco trêmula. O que não entendia era como deixara tudo aquilo acontecer. O que ele fizera? Era como se Nicodemus tivesse enfeitiçado o seu corpo contra a própria vontade de Mattie. Ela estava aterrorizada. E arruinada, pensou. Ela se sentia totalmente arruinada. Por dentro e por fora, como se habitasse um corpo desconhecido, ou como se um estranho estivesse vivendo em sua própria pele. Ao seu lado, Nicodemus continuava irradiando o mesmo calor e a mesma ameaça de sempre. Ele era o homem mais perigoso que ela conhecia. E Mattie sempre soube que ele era assim, e ele provara tudo isso. Nicodemus a encarava com seus olhos escuros, e ela continuava muda, com medo. – Então? – Inquiriu ele, encarando-a profundamente. – Será que eu preciso fazer isso para enxergar além das máscaras que você sempre usa? Ela estava aterrorizada. E o pior é que continuava sentindo a boca de Nicodemus no ponto central do seu corpo. Aquilo parecia inesquecível. O prazer que a invadiu naquele instante... Ela fez que não com a cabeça, em um movimento brusco, repentino. – Eu duvido que essa demonstração se repita algum dia – declarou ela. – Uma vez foi suficiente. – Uma... nunca é suficiente – informou ele logo em seguida. – Isso foi só o começo, Mattie. – Eu já assegurei que vou me casar com você – replicou ela, como se quisesse manter certa distância. E não reconhecia a voz que saía do próprio corpo. Uma voz suave, uma voz que implorava por algo. Era como se ela fosse outra pessoa... e estava morta de medo do que acontecia no interior do seu corpo. – Entretanto, isso não significa que você poderá clamar por seus direitos como marido, como se estivéssemos no século XVIII. Aliás, eu nem sei se você poderá me chamar de esposa, já que está simplesmente comprando esse título. – Olhe para mim – pediu ele. Ela não queria olhar, mas olhou. O seu corpo parecia ter vontade própria, parecia não responder aos seus comandos. Ela se sentia inútil, insignificante, perdida. – Você está com medo de mim? – Perguntou ele, em um tom bem mais suave que o anterior. Mas ela não poderia permitir que aquilo acontecesse, ela não poderia se arriscar ainda mais... não poderia render-se a uma doçura que fingira.


E sabia o que viria em seguida. Primeiro a doçura, a intimidade, o amor. E depois todas as trevas imagináveis. – Por que eu sentiria medo de você? – Indagou ela. – Eu prefiro homens que não me arrastam para um avião nem colocam suas bocas onde não são chamados. É assim que eu gosto. – Ah, Mattie... – Proferiu ele. – Eu não sei do que você gosta ou não, mas conheço muito bem os meus gostos. Ela sentiu um arrepio estranho na pele, algo incontrolável. Mattie pensou que poderia não sobreviver a tudo aquilo. O principal naquele momento seria não chorar. Ele não a poderia ver com lágrimas nos olhos. Isso seria o fim. – Eu não quero nada disso – respondeu ela, desesperada. – Não quero mesmo. Eu nunca quis, e você sabe muito bem disso. Nicodemus a encarou longamente, mas não disse nada. – Você sabe disso – insistiu ela. – Eu sei, você já me contou isso. Mattie se movia de uma maneira estranha. Era como se fosse uma marionete nas mãos de alguém, inexperiente no assunto. Ela começou a se vestir. Primeiro colocou o sutiã, depois a calcinha, a calça, a camisa. Queria se armar para defender-se daquele homem. Nicodemus permaneceu recostado em sua poltrona, sem dizer nada, observando-a vestir o suéter e as botas. – Eu não queria que isso acontecesse – confessou ela. – Você sabe muito bem o que queria – retrucou ele, mantendo o seu olhar profundo. – Talvez, no futuro, você consiga me escutar. Quando eu falei que seria impossível se livrar de mim, eu estava falando sério. – Isso significa que você é muito pior do que eu imaginava – mencionou ela. – Você é terrivelmente implacável. – Se você está dizendo... O problema é que você espera me assustar com essas palavras – argumentou ele. – Mas você chegou com uma década de atraso. Eu venho observando os seus movimentos há tempos. Eu já sabia o que você diria, o que tentaria fazer, e agora é tarde demais para escapar do inevitável. – Eu acho que você deveria se perguntar por que está tão decidido a se casar com uma pessoa que vive fugindo das suas garras. E tudo isso para ser presidente e diretor-geral de uma empresa que nem é dessa mulher. Você não acha isso muito triste? Com as roupas de volta ao corpo, ela parecia recuperar a calma e a serenidade. Parecia que, caso conseguisse se tranquilizar, poderia inclusive ganhar as rédeas da situação. – Você está apelando à minha razão? – questionou ele. – Ao meu lado racional, ao meu lado bom? – Ou à parte de você que não vive preso à Idade da Pedra – retorquiu ela. – Mas eu me preocupo com isso, Mattie. Pode tentar o que quiser. Faça os movimentos que preferir. Dance conforme a sua música. Mas saiba que eu não vou desistir. Pode esperar... você verá o que vai acontecer. – Eu me recuso a acreditar que você quer mesmo forçar esse casamento – assegurou ela. – Eu não quero nada disso – contestou ele, com um sorriso no canto da boca. – Eu não arranquei você do seu apartamento pelo cabelo. Eu não a sequestrei. Ninguém a obrigou a vir até aqui. Da mesma


forma, ninguém fará com que você recite os votos que não quiser recitar. Mattie voltava a tremer. Por que não conseguia se controlar? Por que se perdia na frente dele? Ela cruzou os braços sobre o peito, mas isso só serviu para perceber que seus seios continuavam doloridos de tão excitados. Excitados por conta dele, é claro. Sempre por conta dele. – Você está confundindo tudo – afirmou ela. – E você sabe muito bem disso. – Não. Eu sou um homem muito simples. Eu mantenho as minhas promessas. Eu não a forcei a fazer nada. E não quero forçar. E já lhe disse uma vez: você é livre para fazer o que quiser. Sempre foi. – Livre para ser assombrada e perseguida por você durante anos? – interrogou ela. – Livre para que você possa fazer suas terríveis barganhas com o meu irmão? – A liberdade sempre tem um custo – replicou ele. Ela ergueu o queixo e fez um gesto de desprezo. Não queria pensar em nada daquilo. Sobretudo, não queria pensar no que fizera com ele. Não queria admitir que suas defesas tinham sido tão facilmente vencidas. E com a sua participação, para piorar a situação. – Eu imaginei que você quisesse fazer um test drive comigo, Mattie – falou ele, sorrindo ao ver que ela o encarava, assustada. – Será que o teste não foi suficiente? Eu deveria engatar uma marcha mais forte? – Eu preferia me atirar deste avião agora mesmo – afirmou ela, em um tom muito estridente. Como sempre, Nicodemus não agiu como ela imaginava. Ele simplesmente fez que não com a cabeça, como se ela fosse uma criança. – Isso é mentira – retorquiu ele. – E saiba que eu consegui pescar exatamente o que você quer... – Você vai me manipular nesse sentido também? – inquiriu ela, com a voz trêmula e mantendo o tom exageradamente alto. – Eu sofrerei maiores consequências caso me recuse a ceder sempre que você quiser se deitar comigo? Nicodemus piscou os olhos, depois respondeu: – Se você quiser, eu posso prometer uma coisa: nunca exigirei que você se deite comigo. Nunca. – Não diga besteira... – retrucou ela. Nicodemus ficou olhando para ela, observando-a. E mais uma vez Mattie teve a sensação de que ele era capaz de ler os seus segredos, de desvendar os seus mistérios. – Não – assegurou ele. – Eu não vou forçar. Não vou manipular. – Eu gostaria de poder acreditar em você. – Eu nunca menti para você – argumentou ele. – Mas você não pode dizer a mesma coisa. Além do mais, deve ser por isso que você não é capaz de acreditar em mim. Ela esfregou as mãos nos braços e se sentou em uma poltrona, mas do outro lado do corredor do avião. Logo depois, estava em posição fetal, como quem tenta se resguardar. – Eu não tenho a menor ideia do que você está falando. – Mattie... Eu não precisaria exigir para que você arrancasse as roupas do meu corpo, certo? – E sorriu, um sorriso lindo, encantador, um sorriso que foi como uma bomba atômica no interior do corpo de Mattie. Um golpe certeiro. Matador. – Tudo o que eu preciso fazer é tocar o seu corpo... e você é minha. Acho que chegou a hora de você admitir esse fato. ELES CHEGARAM à Grécia pouco antes do meio-dia, no dia seguinte à partida, e tomaram um avião em um aeroporto particular próximo a Atenas, e esse avião os levou à ilha particular de Nicodemus.


Esse joguinho está rolando há muito tempo, pensou ele, mas o final está perto. Não é hora de perder minha vantagem. E pensando nisso reprimiu a vontade de tomá-la no colo e atirá-la imediatamente em sua cama. Ela teria de se render. Teria de vir até ele sozinha, de uma maneira ou outra. Teria de ser cúmplice na vitória de Nicodemus. Caso contrário, sua vitória não seria completa. Nicodemus comprara aquela ilha pouco depois de conhecê-la, e passara anos construindo uma casa enorme, perfeita, uma casa com vistas incríveis e que fosse a real tradução de sua riqueza e poder. A casa com que ele sempre sonhou, desde os tempos em que morava em uma cidade pesqueira grega, em uma casa modesta e corriqueira. Para completar tal beleza, ele precisava apenas de uma mulher. Mas não uma mulher qualquer. Depois de Arista, ele aprendera muitas lições. Porém, com Mattie era diferente. Desde o primeiro dia, Nicodemus sempre percebeu que sua aversão por ele era uma mentira, uma enorme mentira. Era como se Mattie tivesse sido feita especialmente para ele. E ali estava ela. Bem ali, no mesmo local em que ele sonhava há anos. Na sua casa, atrás dos muros que ele mesmo construíra. E ficou observando-a olhar para a casa. Ela parecia adorar o sol que atingia o seu rosto. Parecia deliciada com o leve calor. Mas ao mesmo tempo parecia esconder alguma coisa. Quando Mattie estava envolvida no assunto, sempre havia um joguinho a ser vencido. Sempre havia uma mentirinha qualquer... E ele deveria se lembrar disso sempre, ou qualquer dia seria tomado de surpresa, bancando o bobo da história. Contudo, a verdade é que ele era um homem sentimental. E ele sabia disso. E não deveria se surpreender pensando em uma história de amor ao lado de Mattie. Pois era exatamente nisso que ele estava pensando naquele instante. – Eu queria perguntar se você gostou da casa – disse ele. – Mas isso não importa, certo? – Aparentemente, não – contestou ela. – E você prefere que eu mantenha um tom submisso à sua frente, Nicodemus? O mais submisso possível? Eu deveria cortejá-lo? – Você não faz o estilo submissa, Mattie – replicou ele, demonstrando uma enorme paciência. – Além disso, neste exato momento eu estou notando o interior do seu corpo tremendo de raiva. – Eis uma reação natural às circunstâncias, você não acha? –respondeu ela, cruzando novamente os braços sobre o peito, pois sabia que os seios voltavam a ficar excitados e pesados, e não queria que ele notasse. – Eu estive pensando em montar um grupo de apoio, reunindo todas as noivas que fugiram das suas garras em todos esses anos. – O mundo sempre foi assim – declarou ele. – Nós não estamos fazendo nada de novo. As pessoas sempre agiram dessa maneira, e pelas mesmas razões, ao longo dos séculos. – Você está querendo dizer que as mulheres sempre foram forçadas a fazer coisas desse tipo? – perguntou Mattie. – É verdade... Se as mulheres não se curvam, reinos são destroçados. Se elas não se rendem, países e empresas são destruídos. – Se for mais fácil para você, pode considerar a sua lição de história válida – afirmou ele. – E quanto ao que eu quero, Nicodemus? – indagou ela. – O quê? – questionou ele. – Nós dois sabemos que você não é tão contrária à essa história. Será que isso não ficou provado após o que fizemos no avião?


– Você está equivocado – retrucou ela. – Mais uma vez, você está equivocado. E eu não me surpreendo com isso. – Eu bati em você? – interrogou ele. – Eu abusei de você? Poucos homens teriam aguentado aquele strip tease lentíssimo com o qual você me presenteou. – E você não gostou? – No futuro, eu vou pensar duas vezes antes de permitir que você tire a própria roupa – informou ele –, especialmente em lugares pouco apropriados. – Eu não queria fazer aquilo! – gritou ela, impaciente. – Eu não queria fazer nada do que você fez! – Mas mesmo assim gritou o meu nome quando atingiu o êxtase – contestou ele. – Eu queria que você parasse... – Sendo assim – ele a interrompeu –, você aprendeu uma importante lição. Mas saiba que o seu corpo não sabe mentir tão bem quanto você, Mattie. O seu corpo é incrivelmente mais honesto. – O meu corpo foi tomado por uma reação química insana... mas isso não significa que eu tenha me rendido a você. As coisas não funcionam dessa maneira. – No seu caso, funcionam sim. E quanto mais cedo você aceitar esse fato, mais feliz será. O que estamos vivendo é o seu conto de fadas particular, Mattie – garantiu ele. – Um céu azul. O mar grego. Um castelo em uma colina. E eu, que sou todo seu. Tudo o que você precisa fazer é se casar com um homem capaz de destilar uma química insana em seu corpo. Nada mais. Sendo assim, você deveria estar um pouco mais feliz. Ela olhou para o mar grego, que era realmente lindo, impressionante. – Você está pensando em contos de fada ao estilo Disney, eu acho... – mencionou ela. – Mas no meu caso a situação é mais parecida com as histórias dos Irmãos Grimm, onde tudo termina em um rio de lágrimas. Ele esperou até que Mattie o encarasse, o que demorou alguns minutos para acontecer. Quando ela o fez, ele simplesmente fez que não com a cabeça, lentamente. – É bom saber que você aceitou a realidade da situação – proferiu ele, em tom suave. – Aliás, eu vou lhe mostrar o nosso quarto, para que você possa se instalar. Ela piscou os olhos. Depois ficou o mais contida possível. – O nosso quarto? – inquiriu ela. E Nicodemus simplesmente sorriu.


CAPÍTULO 4

TRÊS DIAS depois, Mattie repetia uma série de votos que pareciam completas bobagens, no topo de um penhasco, com uma vista incrível do mar Egeu e da ilha grega mais próxima. – Se você pensar em fugir nadando até aquela ilha – disse ele, ainda no primeiro dia por ali –, saiba que é mais longe do que parece e que a corrente é forte. Você poderá terminar em Trípoli na manhã seguinte. – O que não seria um problema... – replicou ela, pois era incapaz de morder a própria língua, mesmo em momentos impróprios. – Todavia, e infelizmente, está quase na hora do casamento do século. Nicodemus sorriu e a deixou sozinha, olhando para o mar azul. Mattie não acreditava que aquilo era real, não acreditava que aquela história estava acontecendo. Ao vê-la vestida de noiva, Nicodemus ficou boquiaberto. Ela usava um vestido cinzento. – Você já está de luto? – perguntou ele, em um tom de voz profundo, mas divertido. – Parece uma cor apropriada – respondeu ela, friamente. – Foi a única cor que encontrei que casava com um estou sendo forçada a caminhar até o altar. Você não concorda? Nicodemus simplesmente riu. E riu dela, o que fazia desde os 18 anos de Mattie. Depois a tomou pelo braço e caminhou em direção ao padre e aos dois membros da equipe de trabalhadores da casa que faziam as vezes de testemunhas daquela pequena tragédia à beira mar. Mattie repetia para si mesma que aquilo não estava acontecendo, que nada daquilo era real, que nada daquilo importava. Mas Nicodemus pegou suas mãos. E recitou seus votos, em alto e bom som. Entretanto, suas palavras pareciam irreais. Alguém tirou umas fotos, mas Mattie não queria nem ver tais imagens. Nunca. No entanto, Nicodemus a puxou para perto de si e a beijou. O beijo foi fotografado. O pior para ela foi perceber que o seu corpo reagia àquele beijo... e ela ficou com ódio de si mesma. Talvez fosse a hora ideal para saltar do penhasco e terminar a viagem em Trípoli, como ele avisara que aconteceria. Isso não passa de um pesadelo, afirmou ela a si mesma, isso não pode estar acontecendo. Mas ali estavam as alianças. Além delas, um anel com pedras preciosas que parecia gritar: esta é a minha mulher, minha, e de ninguém mais. Era o estilo de anel usado por donas de casa, pensou ela,


embora soubesse que tal comparação não fosse justa. Porém, não tinha nada a ver com o tipo de anel que Mattie sonhava em ganhar um dia. E claro que Nicodemus não lhe indagou nada sobre o anel. Ainda assim, a aliança e o tal anel com pedras preciosas deslizaram perfeitamente em seus dedos. Ela estava casada. Mesmo sabendo que tal casamento tinha como objetivo a fusão de duas empresas, ela chegou a pensar que Chase poderia ter vindo de Londres para presenciar o seu casamento. Todavia, tudo o que ele mandou foi um cartão repleto de desculpas por não poder comparecer. A verdade é que eles nunca foram dois irmãos muito próximos um do outro. E ela sempre soube de quem era a culpa por tamanho desencontro. – Está pensando na sua sorte? – questionou ele. – Mais ou menos – retrucou ela, o mais fria e racionalmente possível. E ouviu o barulho distante de um motor sendo acionado. Um barco seguia para a ilha vizinha, com três pessoas a bordo. Eram o padre e as testemunhas. Conclusão: ela estava sozinha com Nicodemus. Sozinha. E casada com ele. Casada. Lentamente, ela virou o rosto para ele. Nicodemus estava com as duas mãos enfiadas no bolso da calça. A sua beleza era total, imbatível. E a sua aura de poder continuava intacta. Mesmo assim, ela notou algo de diferente naquele homem. Algo mais perigoso do que nunca. E os pelos da sua nuca ficaram eriçados. Era quase como se... E ela entendeu. Ele ganhara o jogo. E ele sempre falou que isso aconteceria. Ela ficou com a boca seca. Exageradamente seca. Nicodemus Stathis era o seu marido. – Vamos entrar – pronunciou ele. – Eu estou muito bem aqui – contestou ela. O que foi a coisa mais estúpida que ela poderia ter dito. Ela soou extremamente infantil. – Você está com medo de entrar... pois eu poderia querer consumar agora mesmo este casamento, certo? – quis saber ele, após um tempo calado. – Nas suas mais loucas fantasias, em que lugar isso aconteceria? No chão de mármore da minha casa? Na parede, com o seu corpo colado a um quadro valiosíssimo? Entre almofadas, em cima de uma cama absurda de tão grande? – Eu nunca pensei nesse tipo de coisa. – O que era mentira. Ela pensara. Pensara mesmo. E tais imagens tomaram conta da sua mente. Algo lhe dizia que ele a levaria a lugares que ela nunca sonhou conhecer. – Nós compartilhamos um quarto nas duas últimas noites, mas você sequer ousou me tocar. Você não me atacou. Portanto, eu não tenho medo de você. Mattie nunca lhe diria que sofria com pesadelos... e que tais pesadelos a acompanhavam todas as noites, sem exceção. – Você trabalhou até tarde nas duas noites – declarou ela. – Por que se preocuparia com o local onde eu vou dormir? Ele a observou, como fizera várias vezes. E tal olhar a lembrava do motivo que a fazia querer evitar Nicodemus. Eu não devia pensar em nada disso, assegurou a si mesma. – É preocupante notar que você continua a ser desobediente, mesmo sabendo que poderia sofrer consequências por conta disso – disse ele, e de uma maneira tão enviesada que ela quase perdeu o fio da meada. – Mas você deveria saber por que, mesmo eu tendo trabalhado duas noites seguidas, insisti para que você dormisse na suíte principal.


– Se eu me preocupasse com esse tipo de coisa, teria perguntado – falou Mattie, sem dar aparente importância ao que ele mencionara. – Eu a conheço melhor do que você imagina – afirmou ele. – E você digere as coisas mais facilmente quando as conhece pouco a pouco, em estágios. Isso era verdade, mas ela preferia ignorar. Sobretudo, preferia ignorar o que tal verdade implicava, especialmente quanto à história deles dois e sobre o que aconteceria naquela casa. – Eu não sou tão frágil a ponto de ser vencida por algumas palavras duras – replicou ela. – E você não é um caubói. Nós não estamos no Velho Oeste. – Pense em uma coisa: se eu quis vê-la nua em um avião, por que alargaria uma cerimônia de casamento no quintal da minha casa? – interrogou ele. – Contudo, saiba que, se você preferir, poderíamos fazer tudo aqui fora. – Nossa... isso é muito reconfortante – declarou ela. – Se estiver em busca de conforto, é só avisar. – Ele fez uma pausa, depois repetiu: – Sim, é só avisar. Algo no tom de voz de Nicodemus demonstrava certa compaixão por ela. E isso era estranho, muito estranho. – E se eu precisar de conforto longe de você? – inquiriu ela, com um sorriso amarelo estampado no rosto. – Vamos entrar – persistiu ele. E desta vez não se tratou de uma mera sugestão. Se você não puder estar no controle, sempre dizia seu pai, pelo menos seja prática. E ela tentou reunir todas as forças possíveis nesse sentido. Manteve a espinha ereta e a cabeça erguida. Ele fechou as portas de casa. Mattie ouviu o clique, e tal som foi como uma explosão em seus ouvidos. Ela se aproximou da janela e se sentou em uma poltrona. Dessa maneira, Nicodemus não poderia se sentar ao lado dela. Ele a ficou observando, depois foi ao bar e serviu duas taças de champanhe. – Aceite, por favor – pediu ele, com as taças na mão. Ela não queria, mas aceitou. Aos seus olhos, o champanhe parecia veneno. – Eis igían sas – disse ele. – À sua saúde. – Eu não sei se poderia aspirar ter boa saúde neste instante – afirmou ela, ríspida. – Talvez fosse melhor esperar ser morta por um simples vírus, e rapidamente. Essa poderia ser a minha única salvação. – Pois saiba que uma boa saúde tem a ver com acesso a bons médicos ao redor do mundo – respondeu ele. – E você ficaria curada de qualquer coisa estando ao meu lado. – E quanto tempo eu ficarei presa neste casamento? – perguntou ela, sem meias palavras. – Você deveria ter pensado nisso antes. Até a morte... será para sempre – sentenciou ele. – Até a morte não é o mesmo que para sempre, Nicodemus. – Sendo assim, você poderá fazer o que quiser... quando estiver na sua tumba. – Que maravilha... que delícia! – Retrucou Mattie, com o tom de voz mais desdenhoso possível. – Qualquer mulher do mundo sonharia em se casar com um homem que a proteja. Agora, se você me permite, eu gostaria de poder descansar um pouco. Eu preciso me recuperar de tanto glamour. – Mas você já tirou algumas sonecas desde que chegamos aqui. Por que está fazendo isso? – Poderíamos dizer que estou sofrendo com o jet lag... – Sugeriu ela. Na verdade, o que ela queria era conseguir a maior distância possível dele. – Pode ser... – Falou ele. – Ou talvez esteja tentando escapar das consequências de dez anos de atraso.


– Você não para de falar nessas tais consequências – retorquiu Mattie, com o tom de voz menos assustado possível. – Mas eu já me sinto completamente humilhada. E isso acontece com pessoas que são forçadas a se casar. Entretanto, será que tem mais? Você está pensando em gravar um vídeo íntimo e distribui-lo na internet? – Eu nunca brinquei com a internet – contestou ele, sem disfarçar o tom de incômodo. – E você controla a rede? Ou controla todas as pessoas que a acessam? – Eu vejo que você não mudou nada após o casamento... Ela transformou as mãos em punhos cerrados, sentindo-se uma criança. Ele vencera... e continuava vencendo. – Você mandou os funcionários embora, junto com o padre? – Indagou ela. – Mandei. Nós estamos sozinhos, mas poderíamos pedir qualquer coisa. Você deseja alguma coisa, Mattie? – Uma carona para Atenas – respondeu ela. – Outra coisa... – mencionou ele. – Eu não sei o que você quer de mim, Nicodemus. – Mas eu sei – retrucou ele. – Eu quero tudo, Mattie. Eu quero tudo, como informei desde o início. Ela fez que não com a cabeça. – Isso é apenas um jogo. Um jogo que vem rolando há anos. Uma estupidez. Mas eu não quero nada disso, Nicodemus. Este jogo precisa chegar ao fim. Ele se curvou e deixou a taça de champanhe sobre uma mesinha. – Eu acredito em você – declarou ele. – Mas o que foi feito... – Você fez o que queria – alegou ela. – Eu me casei com você. Será que isso não é suficiente? – Você sabe que não – respondeu ele. Irritada, ela atirou a taça no chão, quebrando-a em mil pedacinhos que voaram por todos os lados, manchando o tapete com o líquido. Logo a seguir, o único som que ouviram foi o da respiração deles dois. O silêncio reinava no ambiente. – Ah, Mattie... – pronunciou ele –, você não deveria ter feito isso. MAS NICODEMUS resolveu se divertir, no final das contas. – Você vai limpar essa bagunça – ordenou ele. – No entanto, saiba que haverá uma punição. – Punição... – Repetiu ela. – É o que acontece quando somos guiados pelo nervosismo. E, pelo que sei, o seu pai não a mandou a várias escolas internas inglesas para isso... – Você é louco! – Gritou ela, um pouco descontrolada. – Na verdade, eu estou sendo benevolente, pois hoje é o dia do nosso casamento. Você terá uma escolha: fazer o que eu pedir ou receber uns tapinhas. – Você não pode me bater, Nicodemus! Não pode! – Replicou ela, sem pestanejar. – Não? – Questionou ele, com um tom de voz falsamente questionador. – Não! – Insistiu ela. – Sendo assim, vá reclamar com as autoridades locais. Você precisará nadar um pouco, como eu já expliquei, mas será bem-vinda na Líbia...


– Não seja idiota! Mas aquela casa era dele. As regras eram dele. O jogo era dele. – Se você agir como uma criança, será tratada da mesma maneira. Eu não sou o seu pai, Mattie. Eu prefiro agir rapidamente. – Você vai mesmo me bater? – Interrogou ela, ainda sem acreditar naquela ameaça. – Caso você termine me implorando... mas eu não sei se poderia classificar nesses termos. Eu não sei se isso seria uma punição, pois você poderia gostar. – Eu não vou me submeter a uma coisa dessas – garantiu ela, friamente, embora o seu olhar fosse assustado e nervoso. – Isso é uma barbárie! Nicodemus sorriu. Outra vitória, pensou ele, e depois quis saber: – Sério? Se eu me aproximar da área entre as suas pernas, você ficará tão louca por mim quanto no avião? Ficará louca de desejo? – Eu vou limpar essa sujeira, mas você não vai me bater – argumentou ela, assustada e querendo não pensar no que ele dissera. – Eu entendo... a confiança exige certo tempo – comentou ele. E ela o encarou... sem saber o que fazer. Ele aproveitou para observá-la. Ao contrário do que Mattie pensava, aquele vestido cinza ficava perfeito no seu corpo. E a cor combinava muito bem com o seu tom de pele e os seus olhos. Porém, ela não parecia uma noiva. – Chega! – Vociferou ele. – Olhe para mim. – Será que as ameaças e os abusos de hoje ainda não foram suficientes? – Inquiriu ela. – Não se mova. Eu avisei que você teria escolha. Contudo, como não aceita minhas palmadas, terá de escolher a outra opção. – Esses joguinhos ditatoriais são realmente indispensáveis? – Perguntou ela. – Não sei. Mas eu me fiz perguntas similares várias vezes nesses dez anos. Você tem uma resposta? – Eu não quero joguinhos. Eu não quero você. Eu não quero nada. – Eu já imaginava... Além do mais, você parece estar muito nervosa, Mattie. – E você quer que eu fique nervosa – respondeu ela. – É exatamente isso o que você quer. – Talvez... Mas você se lembra de quando me dizia que adorava dançar? Você vivia entrando e saindo de discotecas. – Sim, eu gosto de dançar. Você vai me punir por isso também? – Dance – pediu ele. Na realidade, sua voz era de puro comando. Ele estava exigindo. – Dance para mim. – O quê? – Indagou Mattie. E ficou parada. Quase inconsciente. Ela talvez não soubesse o quanto gostava dele, nem quão profundamente... e talvez não fosse capaz de admitir tal fato, mas Nicodemus sabia. Ele sempre soube, desde a primeira vez que dançaram juntos. Além disso, tudo teria sido tão diferente se ela tivesse assumido seu desejo logo no início. – Pode fingir – falou ele. – Pode fingir que você me deseja, como se mal conseguisse respirar quando está na minha frente. Finja que me deseja tanto quanto sente medo de mim, como se eu fosse uma febre que poderia acabar com a sua vida. E finja que você poderia virar o jogo, que poderia me seduzir... Finja direitinho, minha querida esposa, e talvez nunca mais se sinta obrigada a classificar nada disso como uma punição.


CAPÍTULO 5

EM VEZ disso, Mattie fugiu. Ela seguiu por corredores banhados pelo sol da vila, passando pelas imponentes pinturas, mas se recusando a olhá-las muito de perto, com medo de que revelassem coisas sobre o seu proprietário, detalhes que ela não queria saber. Ela correu por todo o caminho até o quarto principal e a enorme cama que não queria compartilhar com ele, e então se trancou no banheiro. Como uma criança. Mais uma vez. E ela esperou ali, com o seu coração batendo tão forte que podia sentir seu ritmo staccato ao engolir em seco, esperando que Nicodemus irrompesse sobre ela, batendo na porta, raivoso e gritando do outro lado, para então derrubá-la, antes de... Mas ele não fez nada disso. E Mattie não poderia sequer dizer se ele seguira o seu rastro selvagem através da casa ou se ainda estava sentado onde ela o deixara, com aquela boca sedutoramente torcida para um lado e a sua voz baixa clamando por Mattie. Finja que o seu desejo é tão grande quanto o medo que você sente de mim, foi o que ele disse, e tais palavras não saíam da cabeça de Mattie. E ela não teve de fingir quando se entregou a Nicodemus, e sentiu um medo terrível de que ele percebesse isso, da mesma maneira como ele parecia perceber todo o resto. E ela ainda não entendia como ele sabia. Como ele sempre soubera... Aquela situação parecia cada vez mais nebulosa. Naquele momento, a banheira foi uma grande aliada, com uma enorme janela virada para a extensão do mar. E Mattie estava lá dentro, aproveitando um pouco do conforto austero da porcelana rígida embaixo dela. Ela viu o sol se pondo no horizonte, e em seguida desaparecendo em uma chama de várias camadas vermelhas e laranjas brilhantes. E observou as estrelas surgindo no céu, apenas algumas, piscando como se tivessem roubado as cores brilhantes do pôr do sol. Mas pouco a pouco elas se multiplicaram, até serem muitas, inúmeras, quando a noite caiu. E Mattie acabou caindo no sono. Em seguida, acordou em seu estado habitual de tumulto e desespero, com o pesadelo se agarrando a ela enquanto tentava lutar para se livrar do aperto que sentia no peito.


Pois ela se lembrava de tudo. O acidente, ocorrido há tantos anos, parecia algo muito atual. A batida. O horror. As horas presas no banco da frente, com os rostos pressionados no couro, e Chase segurando-a... ambos tremendo... Mattie enxugou os olhos, esperou o tremor passar, e em seguida voltou a dormir. Quando acordou, pela manhã, a luz do sol estava caída sobre ela, deslumbrando-a, e por isso levou alguns segundos críticos para perceber que não estava mais na banheira. Ela estava na cama grande, no quarto principal, e Nicodemus, o seu marido, estava deitado ao seu lado. Assim como todas as manhãs, desde que chegara ali... mas desta vez Mattie não se lembrava de ter sido levada da banheira para a cama. Não se lembrava de nada, além do pesadelo. Mas como ele a carregara sem que ela percebesse? Ela revelou a verdade enquanto dormia? E o que mais aconteceu? De que detalhes ela não conseguia se lembrar? Mattie se sentou, suspendendo as cobertas, para se certificar de que ainda estava usando aquela versão azeda de um vestido de noiva. E não fez nenhuma tentativa de esconder o suspiro de alívio quando descobriu que ainda estava vestida, usando sutiã e calcinha. – Eu não toquei no seu vestido – afirmou Nicodemus, em voz baixa, divertida, uma voz que parecia invadi-la, deixando-a acesa, parecendo mais sonolento e mais próximo do que nunca. – Se alguma coisa desta natureza tivesse acontecido, depois de todos esses anos, você não teria de verificar nada. Ela engoliu em seco, sentindo-se muito mais frágil do que deveria. E procurou por indignação, por fúria, mas tudo o que havia no interior do seu peito era o velho pânico que Nicodemus sempre insuflava nela. Um pânico que gritava no interior do seu corpo, mas que de alguma maneira parecia mais suave naquele instante... ou mais resignado. Quase como se não fosse pânico, mas algo completamente diferente. – Eu não tenho nenhuma privacidade – declarou ela, olhando para Nicodemus. – Eu peço desculpas – mencionou ele, da forma árida, pois o que dizia não era um pedido de desculpas. Ele zombava da própria noção da desculpa. – Você estava confortável na banheira? Eu me equivoquei... Você parecia fria e frágil. E acho que você estava tendo um pesadelo. Mattie foi fria, mas ninguém nunca ficara perto dela durante um de seus pesadelos, e ela certamente não poderia permitir que isso acontecesse novamente. E se dissesse a ele o que acontecera? E se ele descobrisse o que ela fez depois do acidente? Ela se sentiu mal com a ideia e não quis pensar sobre isso. – Nada de privacidade – argumentou ela, em tom seco, como se estivesse lendo uma lista. – Palmadas apresentadas como soluções razoáveis para conflitos. Ameaças. Dançar conforme a sua música. – E olhou para ele. – Você certamente entenderia se eu assegurasse que achei a banheira mais convidativa, certo? – Você fez uma bagunça, princesa. – Seus olhos escuros sondaram os dela, e pela primeira vez Mattie não conseguia encontrar qualquer risada no rosto de Nicodemus, apenas uma dureza implacável que a fez tremer bem no fundo. E ela não poderia mentir para si mesma nem fingir que aquilo era medo, pois não era. – A minha intenção era garantir que você limparia tudo... – Ah, bem – retrucou ela. – E você quer dizer no sentido mais amplo, eu suponho. E eu sou obrigada a aceitar essa piada de mau gosto, bem no dia do nosso casamento, por não ter concordado com sua oferta antes? Foi essa a bagunça que eu fiz? Ele ficou em silêncio, o que não era nada bom. Isso daria tempo a Mattie, e ela não queria tempo.


O sol da manhã o iluminava como um amante radiante, banhando suas formas perfeitas, os seus músculos bem-torneados. O problema, como sempre, é que ele estava impecável. E não usava nada além de uma cueca boxer. Na verdade, ele não tinha nada a esconder. Cada polegada do seu corpo era impressionante. Os músculos tensos dos seus braços, os seus peitorais planos e o seu abdômen sulcado. Aquelas coxas fortes, rígidas. Ele tinha pelos escuros que desapareciam sob sua cueca boxer, e ela afirmara a si mesma que não notara nada disso, sobretudo a parte do seu corpo que estava pronta, enorme, impaciente e mal contida, exatamente aquela parte que ela se recusava a olhar. Você andou chorando... – Disse ele, com a voz rouca. E por um momento atordoado Mattie não entendeu o que ele quis dizer. Nicodemus estendeu a mão, passou o polegar por baixo de um dos seus olhos e ela sacudiu a cabeça. – Por quê? – questionou ele. Ela piscou os olhos. Estava estranhamente fora de equilíbrio. – Eu posso pensar em mil razões – declarou ela. – Escolha a verdadeira – sugeriu ele, ainda que de forma áspera, e perversamente a fazendo imaginar que se importava. Mas Mattie não poderia lhe contar a verdade. Seus pesadelos diziam respeito a ela, e a verdade é que ela não se importava com essas coisas... Por outro lado, ele só queria ter a certeza de que Mattie não tinha nada para esconder. – Não importa o que eu diga. – Ela se afastou. – Você já decidiu que eu sou mentirosa. Aliás, você decidiu isso anos atrás, então por que eu deveria me preocupar em dizer algo? – Você poderia tentar não mentir – sugeriu ele, e caminhou na sua direção, diminuindo a distância que ela imprimira entre eles. Ele apoiou um dos cotovelos na cama, e Mattie preferia não ter todos os seus belos músculos bem ali na sua frente. Ela preferia evitar aquela intimidade que não merecia nem desejava. Era como se um peso terrível pressionasse com força em seu peito, segurando-a com extrema habilidade. – Eu estou trabalhando muito duro para salvar uma empresa, como se eu não fosse nada mais do que uma coleção de ações em forma humana... – Pronunciou ela, em vez de qualquer uma das outras coisas que poderia ter dito. – Uma planilha com pernas. Qualquer pessoa choraria se estivesse na minha situação... Mas os olhos escuros de Nicodemus se iluminaram, com divertimento, causando um arrepio nela. – Tudo poderia ter sido muito diferente – admitiu ele, em tom preguiçoso. – Se você tivesse se casado comigo na primeira vez que pedi, eu a trataria como se você fosse feita de vidro, não de ações. E teria adorado o chão que você pisa. Teria feito com que todo o mundo se inclinasse diante de você, atendendo a todos os seus caprichos. Preocupado com a possibilidade de que ela tentasse sair da cama, ele se aproximou do seu corpo, mas Mattie se afastou, até encostar na cabeceira da cama, sentar sobre os joelhos e tentar encará-lo bem de frente. – Eu tinha 18 anos... – disse ela, sem saber de onde vinha aquela urgência em sua voz, quando tudo o que queria era se igualar à indiferença dele. – Eu era muito jovem. Eu não pensava em me casar... e você não deveria ter pedido nada. A única razão que o levou a me pedir em casamento foi por querer agradar ao meu pai. Não vamos fingir que o seu coração estava envolvido, Nicodemus. Era a sua carteira em primeiro lugar, e em seguida, quando eu recusei repetidas vezes, o seu orgulho. E até hoje é assim.


Ele estendeu a mão e segurou a bainha do vestido entre os dedos, mas Mattie conteve a repreensão em sua garganta. E daí que ele tocasse as suas roupas? Havia uma série de lugares piores nos quais Nicodemus poderia pousar seus dedos hábeis, e ela sabia muito bem disso. – Talvez eu simplesmente quisesse uma Whitaker como minha esposa, além de todas as ações e planilhas que vêm com isso – falou ele. – Infelizmente, você é a única disponível na sua família. – Pois saiba que eu tenho primas distantes no interior do estado. E tenho certeza de que uma delas seria adequada para você. – Ela fez uma careta quando ele sorriu. – De qualquer maneira, eu acho que você não deveria abusar do termo esposa... Ele fez que não com a cabeça, como se soubesse exatamente onde Mattie estava querendo chegar com isso. – Será que você bateu com a cabeça na banheira? – interrogou ele. – O casamento de ontem foi real. Foi tudo muito legal, tudo válido. Eu garanto. – Sim, pode ter sido um casamento válido, legal e real, mas não foi um casamento de verdade – insistiu ela, surpresa ao perceber que sua voz soava muito alta. – No mundo real, os casamentos não envolvem ameaças nem promessas de cargos de alto escalão em corporações... como se essas coisas fossem uma espécie de dotes distorcidos. Você vai ser presidente das Indústrias Whitaker, Nicodemus. Esses são os títulos dos quais você gosta. Marido e mulher, no seu dicionário, são apenas palavras vazias. E ele se moveu, estendeu a mão e a puxou na sua direção, rolando na cama, até que ela estivesse bem embaixo dele. Nicodemus ficou preso entre as suas coxas e ela não poderia fazer nada a não ser bocejar na frente dele. Mattie pensou que estava tendo um ataque cardíaco, mas o seu coração se manteve batendo forte, rangendo, e ela levou muito tempo para perceber isso tudo, para perceber a causa do que a estava matando. E se aquilo a matasse, tudo bem, pois o que estava acontecendo com ela, o que ele estava fazendo com ela, era terrível. – Isso parece real, Mattie?– Inquiriu ele, ríspido, observando a sua boca. – Será que eu sou um marido suficiente para você? Será que eu sou um marido real? Nem o seu pai nem o seu irmão estão nesta sala. Só você e eu, e o seu coração ficou louco dentro do peito. Eu senti isso. – Que horror! Que repulsa! – Vociferou ela, mas não fez nenhuma tentativa de combatê-lo. Nenhuma tentativa de rolar debaixo dele ou de tirar seu peso sólido de cima dela, daquele ponto onde ele descansava contra o seu corpo, como se já estivessem unidos. E ela sabia que, de alguma forma, se tentasse algo, Nicodemus teria de deixá-la em paz de uma vez. E ela não tentou. Você não pode deixar que isso aconteça!, gritou uma voz dentro dela, do jeito que sempre fazia, mas desta vez ela sabia, em algum nível profundo, feminino, um nível que nunca acessara antes, que era por razões completamente diferentes. Ele não era um namorado excessivamente faminto, um homem que ela teria de aplacar e enrolar. Ele era Nicodemus, um homem completamente diferente, e com um poder único e excepcional sobre ela. Sim, ele era Nicodemus e ela não conseguia desviar os olhos dele. E essa profunda dificuldade de agir revelou coisas que ela não queria saber sobre si mesma. E tudo isso parecia ser uma repetição, em câmera lenta, daquele lugar quente entre as suas pernas, fazendo com que ela queimasse do umbigo às unhas. Reduzindo-a a nada além de calor e expectativa, ainda que morta de medo. Um medo pulsante, consumidor, que no final das contas nem era medo.


Mas Nicodemus não fez nada além de olhar para ela. Era um olhar feroz, exigente e rígido. E Mattie não sentia o medo que sabia que deveria sentir, pois era a única que mantinha a distância entre eles. Ela levantou os lábios em direção aos dele. Descobriu que estava implorando, embora suas palavras mencionassem o contrário... – Primeiro, você deve pedir – declarou ele, com seu olhar escuro e sua voz como cascalho. – E em voz alta, para que não reste dúvida. – Pedir? – Perguntou ela. Ela quase não entendeu o que ele pronunciara, e muito menos o que ela mesma perguntara. Era como se nunca tivesse ouvido aquela palavra em sua vida. E tudo o que ela podia ver era a bela boca de Nicodemus, carnuda, dura e tão deliciosamente perto da sua... – Eu prefiro que você implore – confessou ele, baixo, áspero e cheio de desejo, mas absoluto, implacável. – Todavia, se você pedir direitinho, eu vou deixar você escapar. Mas só dessa vez. E então houve um instante muito longo, no qual Mattie não conseguia pensar em uma única razão pela qual não fazia exatamente isso. Nem uma única razão. Ela abriu a boca, mas a realidade se afirmou dentro dela, uma realidade que cegava, brilhante, trazendo com isso uma espécie de motivo desesperado, e ela não se importava se Nicodemus estivesse percebendo tudo isso em seus olhos. Ter intimidade com aquele homem significava se perder, e depois perdê-lo. Ela sabia disso há anos, tanto quanto sabia que ele sempre a desejara. Profundamente. Imutável e irreversivelmente. Eis a verdade, simples e lancinante. – Eu não vou pedir dessa maneira – garantiu ela, embora sua voz tremesse. – E eu certamente não vou implorar. Esta pode ser a sua concepção de casamento, mas certamente não é a minha, Nicodemus. – Eu pensei que este não fosse um casamento de verdade – murmurou ele. – Não há necessidade de lutar por igualdade em uma farsa como essa, certo? Renda-se, Mattie. Eu prometo que você vai gostar do resultado. E ela acreditou nele. Foi por isso que fez uma careta novamente. Tudo ficava ainda mais difícil. – Nada de implorar... – contestou ela. – A menos que você pretenda se ajoelhar e experimentar por si mesmo. Ele fez um muxoxo. – Espero que você esteja preparada para sofrer. – Ele era tão grande, rígido e lindo que quase a manteve presa na cama, com os seus braços apoiados a cada lado dela, como se fosse a única coisa protegendo-a do que ambos queriam. – Pois essa é a única maneira para que eu possa tocar em você outra vez. – Você está me tocando agora, eu não posso fazer nada além de avisar que... – Essas trivialidades não vão acabar com a sua aflição, Mattie – ele quase sussurrou para ela, como se notasse o esforço que ela estava fazendo, como se pudesse enxergar todas as maneiras que ela ansiava por ele. – Só vai levar a isto... Ele riu, e era a mesma risada sombria de sempre, mas desta vez causou um efeito diferente nela. A sua boca estava tão perto dela... tanto que passou por ela como uma onda inexorável, e Mattie não sabia se queria chorar, gritar ou se trair por completo, implorando, exatamente da maneira como ele queria que ela fizesse. E Mattie faria qualquer coisa para conseguir que ele a tocasse novamente sem que ela tivesse de pedir... sem que tivesse de provar que ele estava certo. E ficou com ódio de si mesma por conta desse pensamento meio distorcido.


– Eu quero ir embora, me solta... – Murmurou ela, furiosa, mas ele apenas riu, de novo, e exatamente da mesma maneira. – Eu entendo por que você se esforça tanto em negar o seu desejo por mim, um desejo óbvio – assegurou ele. – Mas nada disso importa. – Você finalmente enxergou o erro nisso tudo e está me libertando deste pseudocasamento absurdo?– indagou ela, com toda a bravata que desejava sentir. Ele se inclinou e beliscou um ponto macio sob o queixo de Mattie, infligindo punição e sedução de uma só vez, e ela não pode fazer nada além de estremecer. Ela estava se provando a mentirosa que ele sempre imaginou que fosse. A mesma mentirosa que ela provava ser de novo, novamente e mais uma vez. Uma e outra vez. Incessantemente. Toda vez que ele a tocava, ela mentia. – Escolha uma nova estratégia, Mattie – comunicou ele, e em seguida se moveu para longe dela, com suavidade e graça atlética, dando-lhe uma lição de objeto indesejado, com toda aquela sua força divina e assombrosa. – O problema com essa história é que eu estou ficando entediado. – Deus me livre entediá-lo. Essa é a última coisa que eu quero fazer! – Exclamou ela. – Você me chantageou, me ameaçou e me maltratou com essa farsa de casamento, mas tudo isso empalidece em comparação a entediá-lo. Isso seria um destino pior do que a morte! – Você chega muito perto do limite de vez em quando – disse ele, como se ela não tivesse dito nada. – Você me mostra a língua afiada sempre que quer, você corre e se esconde quando eu retribuo o favor... e depois você repete esse padrão até se cansar. E sem quaisquer consequências... até agora. Em seguida, Nicodemus se levantou e ficou de pé ao lado da cama, com o sol da manhã deixando seu rosto na sombra, mas ela não teve nenhuma dificuldade em ver aquele brilho de mel em seu olhar. E aquela coisa sabidamente sombria por trás dele. Ela sempre sentia isso. E isso era pior do que a boca dele sobre ela. Mais profundo. Infinitamente mais destrutivo. – Sem consequências? – Questionou ela, com um tom de voz mais frágil do que gostaria. E levantou a mão com seus anéis pesados. – Do que você chama isso? Sua boca se curvou. – Eu poderia continuar fazendo isso por mais uma década, se fosse necessário – declarou ele –, e continuaria ganhando. A bola está com você, está nas suas mãos. ELE ESTAVA certo. Mattie estava agindo de modo errado sobre isso. E ela chegou à essa conclusão rapidamente, enquanto estava no chuveiro espaçoso, com as mãos apoiadas na parede de pedra caprichosamente trabalhada e com a cabeça inclinada para trás, deixando a água cair como chuva sobre o seu corpo. Ela gastou todo esse tempo tratando Nicodemus como se ele fosse uma força da natureza contra a qual não podia lutar, alguma criatura incrivelmente poderosa, feita de mito e magia, quando a verdade era que ele era um homem como qualquer outro. Apenas um homem, como todos os demais. E quando ela colocou o coração que batia descontroladamente de lado, quando afastou as coisas que fazia contra sua vontade, quando afastou o medo muito real de estar se desfazendo por conta dele,


Mattie percebeu que jogara errado desde o início. Pois ele tirara o seu fôlego quando ela ainda tinha 18 anos, e ela se esquecera da simples verdade que conhecia até então: os homens são fáceis. Os homens são criaturas de necessidades simples e impulsos que podem ser direcionados e aprimorados, além de usados. Pais, namorados, irmãos... era tudo a mesma coisa, com ferramentas diferentes. Mattie aprendera, há muito tempo, com o brilho das câmeras normalmente carregadas por homens, que nenhum deles estava imune à aplicação judiciosa de um pouco de charme feminino. Era fácil sair de um problema flertando, tentando desorientar. Era fácil mudar o rumo das coisas das quais não ela queria desistir para outras que não se importava em se render. Mattie não fora capaz de fazer muito a respeito da sua culpa. Mas um pouco de charme fizera sucesso com o seu pai, especialmente porque ela estava disposta a voltar para os Estados Unidos, e sob o seu controle. E se ela pôde encantar o seu pai, a quem magoara de maneira tão terrível vinte anos atrás, ela sabia que poderia encantar qualquer um. Se quisesse voltar a ganhar um pouco do terreno perdido nestes poucos dias explosivos, Mattie precisaria tratar Nicodemus como qualquer outro homem que conhecia. Como um homem mortal. Gerenciável. E começou a fazer isso se vestindo para ele. Mattie tentou se lembrar de cada coisa que ele lhe falara sobre sua aparência... tudo negativo, em geral, e dito naquele tom fulminante dele, e se vestiu pensando nisso. Ela escolheu um suéter de cashmere macio, cor de cacau, leve o suficiente para o sol grego e quente o suficiente para o toque frio do outono. Vestiu a calça branca e deixou os pés descalços, em um toque de vulnerabilidade feminina. Depois prendeu o cabelo em um coque casual, com alguns fios soltos, e quando estava pronta se parecia um pouco mais ao tipo de mulher que Nicodemus sempre imaginava que ela seria. O tipo de mulher que ela poderia ter sido, naturalmente, se não se sentisse compelida a se vestir de cores escuras, temperamentais, com roupas que ele considerava deselegantes, simplesmente para desafiá-lo cada vez que o via. E então ela endireitou os ombros, lembrou-se de quantas vezes fizera algo assim antes, quando precisava acalmar um de seus namorados que ficara muito exigente, e foi encontrá-lo. Ele era apenas um homem, recordou-se novamente, enquanto andava pela vila. E Mattie não se importava com a maneira como ele a fazia se sentir. Não importava que ele a conseguisse fazer se esquecer de si mesma quase sempre que a tocava. Não importava que ele tivesse alcançado um pedaço seu que ninguém mais alcançara. Nada disso importava. E ela deveria se manter nesse campo de jogo... ou seria vencida. Ele estava sentado no balcão brilhante da cozinha grande e iluminada, no nível mais baixo da casa, com o laptop e um café grego fumegante nas mãos. Ela hesitou na porta, presumindo que ele ouvira sua aproximação, ainda que não tivesse olhado em sua direção. E, por um momento, Mattie se esqueceu de suas estratégias e de seus planos. Ela se esqueceu do que era ou não era. Do que podia ou não fazer. Ela não poderia classificá-la. Ela não se reconhecia. Mas a garganta de Mattie virou um nó. Nicodemus se mexeu um pouco no banco alto, franzindo a testa para a tela à sua frente.


– O funeral terminou cedo? – Interrogou ele, em um tom suave o suficiente para fazê-la querer saber em que instante Nicodemus a vira na porta, mesmo sem ter se preocupado em olhá-la. – Eu imaginei que a veria envolta em mortalhas e cores escuras... pelo menos até a próxima semana. – Eu sabia... – Concordou ela, com uma voz suave, uma voz que o fez erguer os olhos e se concentrar nela, com seus olhos escuros se estreitando imediatamente. Ele é apenas um homem, repetiu Mattie a si mesma, enquanto aquele olhar queimava dentro dela. Ele não pode ler uma única coisa em mim, a menos que eu deixe. Ele não tem a menor ideia do que eu sonho. Além do mais, se ela redirecionasse sua atenção, ele nunca poderia fazer isso. Ela entrou na cozinha, como se não notasse o leve franzido entre os olhos dele, e se acomodou no balcão, ao seu lado. Não em frente a ele, como teria feito antes, mas no banquinho ao lado dele, do jeito que teria feito se ele fosse outra pessoa. Bem do lado dele. E era difícil, quase impossível, manter sua cabeça no lugar em vez de perder a calma. Ele era tão grande, tão sólido. Tão elegante, tão feroz... e estava tão perto que ela o sentiu. E sentiu toda a energia inquieta e sombria, toda a sua crueldade gritante, como um zumbido elétrico sob a sua própria pele. – Ainda assim – continuou ela, na mesma voz suave, assim que se sentou, ignorando todo o resto –, eu imaginei que você apreciaria essa roupa que eu escolhi, que é mais próxima do seu gosto. Ele colou seu olhar escuro fervendo em cima dela, e ela se sentiu ao mesmo tempo muito pequena e muito exposta. Em vez de evitar, ela demostrou tal sensação. Os homens gostam de suavidade e de coisas pequenas e indefesas. Eles gostam de se sentir grandes e poderosos. Ela assistira a este mesmo cenário uma centena de vezes. Ele é igual aos outros, assegurou a si mesma, como se repetindo tal afirmação ela se tornasse verdadeira. – Você está querendo dizer que eu deveria aplaudir o fato de estar vestindo algo realmente atraente – quis saber Nicodemus, com uma voz suave –, em vez de exibir seus atributos para todo e qualquer ser vivo que se aventure por perto... ou se envolvendo no equivalente a um casulo? Isso deveria ser um presente, na verdade? Realmente doía engolir de volta a réplica afiada surgida em sua língua, mas Mattie fez isso. Os homens eram puro orgulho e fúria. E sempre humilhados pela luxúria. Nicodemus não era diferente, apesar do fato de suas farpas a atingirem com mais força, e mais profundo do que qualquer outra pessoa. – Nicodemus – pronunciou ela, tão calma quanto pôde. – Talvez nós possamos parar com tudo isso. Talvez nós possamos apenas... conversar. – Conversar... – Ele fez que não com a cabeça, como se estivesse espantado. Em seguida, fechou seu laptop com um movimento tranquilo e contido que a fez pensar em uma ferocidade contida. – Você quer conversar. Depois de todos esses anos. Ela deu de ombros e deixou seu suéter deslizar para baixo. – Eu quero começar de novo. Seu olhar se moveu sobre a curva exposta do seu ombro, então ele apontou para o teto e fez um som que misturava exasperação e riso. Nicodemus cruzou os braços sobre o peito largo, felizmente coberto por uma camisa macia, embora com muitos botões abertos, e a olhou com aquele brilho sombrio em seus olhos, um brilho que não prometia nada além de problemas.


– Eu vou adivinhar. Você acha que me enganaria até eu baixar a guarda, pois os seus jogos habituais e suas acrobacias não estão funcionando? – Inquiriu ele, e depois deixou escapar um suspiro, mas logo seguiu em frente: – Mas eu nunca vi o seu charme, a não ser a distância, e sempre voltado para os outros. Sendo assim, quem sabe? Esse poderia ser um excelente plano. Mattie se obrigou a respirar fundo. Deveria pensar antes de falar. Deveria manter a calma, pois Deus sabia que ela passara dez anos completamente fora de controle perto daquele homem. E o que isso lhe trouxera? Estava casada, contra a própria vontade, e presa em uma ilha no meio do nada! Adapte-se ou morra, afirmou a si mesma. Agora! – Eu quero conhecê-lo – confessou ela, e até sorriu. Seria fácil se ela simplesmente fingisse, como ele sugeriu. Embora Mattie duvidasse que ele estivesse falando em um fingimento que envolvesse enxergá-lo como se fosse outro homem... Seu olhar era muito astuto. – Para quê, eu me pergunto? Mattie se virou na direção dele e estendeu as mãos na frente dela, certificando-se de que quase o tocasse, mas não o fez. Foi um gesto de súplica. Uma espécie de rendição. – Porque não há ninguém aqui, além de nós dois... e você já mencionou várias vezes que me conhece. Sendo assim, eu acho que é hora de parar de lutar contra isso e devolver o favor, não é? Ele mudou de posição, ficando quase em pé e completamente de frente para ela. Ele era tão alto, moreno e bonito... E ela, por sua vez, teria de manejar a única arma que tinha, ou ele conseguiria enxergá-la completamente. Ela deveria colocá-los de volta em um terreno comum, qualquer terreno comum, ou perderia a si mesma. E ela não podia arriscar que ele descobrisse a verdade. – O que você quer, Mattie? – Perguntou ele, em tom suave. Eu quero você em uma bandeja, pensou ela, mas não disse nada. Ela chegaria lá. E poderia destruí-lo também. Ela tinha certeza disso. A química agia nos dois lados, sem dúvida. Ela tomou uma respiração profunda e irregular que não foi obrigada a fingir, depois estendeu as mãos e pousou-as sobre as coxas duras como pedra. Ele não parecia se mover, mas ela o sentiu tenso. E ele era tão duro. Tão absurdamente perfeito em todos os sentidos que a fez se sentir como se estivesse bêbada. – Eu vou perguntar de novo – falou ele, em voz feroz, quente e letal. – O que você quer? Ela escorregou do banquinho e ficou muito perto dele. Não se apoiou nele, mas não perdeu o contato. Então deslizou suas mãos até o cós da calça de Nicodemus e o sentiu virando pedra sobre suas palmas. – Se você realmente caiu e bateu com a cabeça, eu quero que me diga agora – ordenou ele, da mesma forma seca que Mattie temia ser a morte para ela, pois ele poderia fazê-la rir, e isso tornaria tudo muito mais difícil. Muito mais real. – Caso contrário, eu poderia pensar o pior e levá-la para o hospital. E Mattie entendeu, num súbito lampejo, que tinha muito mais poder do que imaginava. Que ele estava tão perdido quanto ela. E que talvez sempre tivesse estado, embora ela nunca tenha notado. E ela nunca se permitira notar. E Mattie afirmou a si mesma que poderia usar isso, e ignorou o vazio repentino em seu peito. Ela não falou nada. Muda, simplesmente se aproximou e deixou suas mãos deslizarem até a base, até que ela pudesse envolver seu comprimento grosso através do tecido da calça. E ele não gemeu, não a


afastou. Mas estava quente, tão quente que deixou escapar um longo suspiro, como se algo o machucasse. Como se ela o estivesse machucando. – Mattie... – Sua voz era brutal, entrecortada e dura. Suas mãos subiram até envolver os seus braços, mas ele não a afastou. E o seu toque era gentil, desmentindo a tensão que ela sentia em cada parte dele. – O que você está fazendo? Ela inclinou a cabeça para trás e olhou para ele através dos seus cílios, testando o comprimento de Nicodemus contra a palma da mão, enquanto ele se moveu um pouco, muito pouco, e em seu rosto surgiu uma expressão de surpresa. – Eu não sei – declarou ela. Mas ela sabia. E nunca sentira nada parecido antes. E cada vez que ela o acariciava e o notava tenso, o mesmo arrepio que ele lutava para esconder se espelhava nela. Mattie se sentia derretida, selvagem. E quase não tinha feito nada ainda. Ela o imaginou no limite do seu controle, e não sabia o que poderia acontecer se ele caísse no abismo, então se moveu rapidamente. Abriu o zíper da calça e colocou a mão lá dentro, libertando-o, segurando-o por fim. Finalmente. Ele era de veludo e aço. Quente e sedoso ao toque, e tão poderosamente masculino que era difícil respirar. E ela não sabia quem estava tremendo mais, ela ou ele. Aquilo era tão aterrorizante quanto emocionante, e ela não queria parar para pensar. Seus olhos estavam tão escuros que pareciam a madrugada de uma longa noite, e ele estava murmurando algo em grego, bem baixinho. Eram juras e invocações. Maldições e orações. – Mattie – disse ele, como se o nome dela fosse uma maldição, e bem pesada. Ela se deixou cair de joelhos, mas sem perder o contato visual. Ele era grande e pesado, mais quente do que parecia possível, e ela se esqueceu de que aquela deveria ser uma arma. A sua arma. E se esqueceu do jogo que estava jogando, e também do por quê. Ela queria tanto saboreá-lo que pensou que faria qualquer coisa, que diria qualquer coisa... – O que é isso? – Indagou ele, com um sotaque mais pesado do que ela jamais ouvira, e a voz grossa. Mas não a afastou, não a impediu. Seu peito subia e descia rápido demais. Ele estava mergulhando em águas perigosas, mas seria impossível evitar a força do desejo. – Isso é um pedido de desculpas – sussurrou ela, embora não fosse isso o que ela queria dizer, mas havia um fundo de verdade nas suas palavras. Portanto, antes que ela pudesse pensar sobre isso, ou antes que pudesse trair a si mesma ainda mais, Mattie se inclinou para frente e tomou-o profundamente em sua boca.


CAPÍTULO 6

ELE ESTAVA morrendo... ou sonhando. Mas Nicodemus tivera esse mesmo sonho uma centena de vezes antes... e nunca, nunca fora tão bom. Nunca. A boca de Mattie estava tão quente, com sua língua tão delicada e tão má ao mesmo tempo, enquanto ela o lambia e o provava. E traçava linhas em seguida, colocando-o profundamente dentro da boca. Ela se movia enquanto se ajoelhava diante dele. Aquilo era o culminar de mil fantasias, e era muito melhor do que qualquer uma delas. E ele quase morreu. Uma e mais uma vez, ele quase morreu, e ela continuou... Nicodemus não era bobo. Aquele tipo de inversão súbita não fazia sentido, especialmente vindo de Mattie. Mas ele não parecia se importar com isso. E seria necessário um homem muito mais forte do que ele para deter tal situação. Ele afundou os dedos profundamente em seu cabelo espesso, segurando-a frouxamente, enquanto ela o atormentava, enquanto o agradava. Deixaria que ela atiçasse o fogo nele, deixando-o cada vez mais louco, deixando ser guiado, deixando-a fazer o que quisesse. Ela é minha, pensou ele, a cada golpe de sua língua. Finalmente minha. E quando ele caiu, espatifando-se em mil pedaços, transformou seu clímax em palavras que sabia que ela não conseguiria entender. Quando abriu os olhos, ela ainda estava de joelhos diante dele, com aqueles olhos maravilhosos, grandes e arregalados, focados nele. Outro trilhão de sonhos estavam sendo destruídos por uma realidade muito melhor, pensou ele. Sua boca exuberante estava um pouco inchada, e o rubor em suas bochechas lhe revelava que ela fora tão afetada quanto ele. Por um momento, Nicodemus ficou simplesmente olhando para ela, para aquela mulher que o assombrara por tanto tempo. Para aquela mulher que ele ainda não entendia. Então Nicodemus se afastou e fechou o zíper da calça, com o fogo ainda rugindo dentro dele. Ele queria ficar aos seus pés e deitá-la sobre o balcão. Queria lamber o seu calor novamente, e em seguida perder-se nela, até que ambos estivessem tão quebrados quanto o copo que ela jogara no chão. Ele queria tudo dela. E queria naquele exato instante. Mas ele esperara tanto tempo que não podia confiar numa súbita capitulação.


Por isso se abaixou e deslizou a mão ao longo do rosto de Mattie, sentindo o cetim suave de sua bochecha quente contra a palma da mão. Era algo parecido com ternura, mas havia tantas mentiras entre eles... Sempre as mentiras. Sempre tantas malditas mentiras. – Eu acho que gostei de ver você de joelhos, princesa – admitiu ele. – E poderia tornar isso uma necessidade diária. Ela não estava gostando nada disso. E Nicodemus sentiu isso na maneira que ela estremeceu, viu isso na maneira como seus olhos escuros se estreitaram. Mas ela não lhe daria nada de bandeja, por isso ficou parada, passiva e complacente, bem diferente da Mattie que ele conhecia. Não que ele estivesse reclamando. Não naquele momento. Não quando ele ainda estava respirando com dificuldade. – Isso não foi... bom? – Questionou ela, com preocupação ofegante. Entretanto, ele podia ver a frieza em seus olhos, e isto o ajudou a voltar à realidade. – Você não me ouviu? – Interrogou ele, friamente. – Eu já assegurei que não me importo com a maneira como consiga ter você. Eu não sou tão orgulhoso. Se quiser se ajoelhar diante de mim, fingindo ser um pedido de desculpas, em vez de uma manipulação, eu não farei nada para detê-la. – Ele deu de ombros. – Nada. E ficou impressionado com a forma como ela se mantinha tão imóvel. – Eu não entendo o que você quer dizer – declarou Mattie. – Esse tipo de reviravolta seria suspeita em qualquer pessoa, mas é especialmente estranha no seu caso. – Ela começou a se mover, e ele fez que não com a cabeça, dizendo, com a voz áspera: – Fique onde está. – Para que você possa realizar suas fantasias de dominação? – revirou ela os olhos. – Não, obrigada. – Isso não é uma fantasia. – Ele sorriu, apreciando a fúria em seu olhar, pois aquela era a verdadeira Mattie atrás do revestimento de açúcar, do jogo inegavelmente quente que estava jogando. – Isso é a verdade. Ele estava fascinado pela maneira como seu rosto mudava, estampando uma emoção após a outra, e nenhuma delas legível. Eventualmente, seus ombros caíram. E ela soltou a tensão, soprando-a para fora em um longo suspiro que atraiu a atenção de Nicodemus de volta àquela boca. A mesma boca que ele sabia ser capaz de fazêlo seu escravo. Facilmente. E então ela sorriu da maneira que sorrira antes. Como se ela fosse feita inteiramente de sol e doçura. Mas ele não acreditava nisso, é claro. No entanto, isso fez o calor se inflamar mais uma vez dentro dele, ocupando sua virilha com muita força, necessidade e fome, como se ele nunca tivesse deixado que ela colasse aquela boca sobre o seu corpo. Como se nunca tivesse encontrado aquele doce alívio. – Desculpe-me – murmurou ela. – Você me faz sentir... – Ela fez que não com a cabeça, como se não tivesse coragem de pronunciar o que queria dizer. – Eu não sei como reagir a isto... – Essa poderia ser a coisa mais honesta que você jamais me contou, mas eu duvido muito... pois é você quem está dizendo. – Ótimo – disse ela, e depois se acomodou, relaxando aos seus pés, parecendo menos como se estivesse ajoelhada e mais como se tivesse fazendo algum tipo de ioga perto dele. – Você é especialista em mim, ou pelo menos parece... Sendo assim, que motivos terríveis e secretos eu teria para fazer o que


fiz? Talvez você possa me explicar, pois fez exatamente a mesma coisa no avião. Será que os nossos motivos foram os mesmos? – Sua boca se curvou, desafiando-o. – Ou você vai dizer, como sempre faz, que sou desonesta e estou motivada apenas por lotes, esquemas e enganos... enquanto você, apenas você, é nobre e só age mediante a pureza de suas intenções? – Eu seria menos sarcástico... se tivesse me ajoelhado à sua frente – falou Nicodemus. A curva em sua boca se aprofundou, seus olhos eram de chocolate meio amargo, com uma tristeza bem no fundo, ainda que parecessem como a luz do sol ao lado do brilho do seu cabelo, e ele sabia que isso poderia durar para sempre. E duraria. E isso o deixou indescritivelmente triste. Eles estavam criticando um ao outro por uma década, e não parecia haver fim para aquilo. Eles jogavam jogos de poder, aumentavam as apostas. Ele forçou aquele casamento, e ela finalmente o tocara, pela primeira vez, inteiramente por sua própria vontade... Por outro lado, ele entendia e odiava o que tinha feito, pois ela o superara com o desejo. Ele garantiu que não se importava com a maneira pela qual a conseguia, e em algum nível isso era verdade. Mas também era verdade que havia uma inquietação dentro dele, como um vento invernal, algo que uivava em seu interior, algo cuja existência ele não queria admitir... Por fim, tudo estava exatamente como ele queria. Tudo estava em seu devido lugar. Ele tinha tudo o que desejava... e ainda assim aquilo não parecia passar de um eco, de uma caverna cheia de coisas. Nicodemus tinha o mundo em seu bolso, a mulher dos seus sonhos aos seus pés, com uma aliança em seu dedo, e continuava tão inteira e totalmente sozinho como no instante em que percebeu quem Arista realmente era, o que ela realmente queria de um homem, com altas aspirações de classe e de ganhar muito dinheiro, muito rápido. Como aquilo seria diferente? E ele percebeu as profundezas da fantasia que construíra em torno de Mattie Whitaker. As coisas que imaginara que ela poderia fazer, a magia que ela poderia imprimir... e por quê? Porque ela fora a coisa mais bonita que ele jamais vira aos seus 26 anos. E porque, como ela mesma afirmara, ele queria acesso ao seu pai e às Indústrias Whitaker. E também porque ele a desejava e se convencera de que já tinha aprendido a lição com Arista. E que nunca repetiria esses erros. Nicodemus era, como sempre fora, o rei dos condenados. Uma mentira, nada mais. – Nós vamos ficar nos encarando para sempre? – Inquiriu Mattie, com um tom de voz relaxado, mas com seus olhos escuros intensos. – Ou isto significa que você não tem uma resposta? – Eu tenho uma resposta. – Ele pensou que soaria mais sombrio, mas ela não parecia notar qualquer diferença. E por que notaria? Ela não o conhecia. Ninguém nunca o conheceu, e algo lhe dizia que ninguém jamais o faria. Especialmente aquela mulher que ele tornara sua esposa. Esposa... uma palavra que ela dizia ser sem sentido. E ele acreditava nela. Finalmente acreditava. – Mas eu duvido que você gostaria de ouvir o que tenho a dizer. Nicodemus deixou cair a mão do rosto, e quando ela se levantou, em uma espécie ágil de ondulação, ele não se opôs. Ela estendeu a mão e serviu-se de café, agitando a mistura tradicionalmente espessa em torno do copo, antes de tomar um gole. – Isso tem a ver com controle, não é? – Perguntou ela. Mas não era realmente uma pergunta, e ele pensou no fato de que o suéter leve e macio que ela usava combinava com as partes mais escuras dos seus olhos. – Você está obcecado em conseguir o controle total, me deixando sem nenhum?


– Não – assegurou ele. E quis ser a xícara que ela apertava contra os lábios, quis lamber um pouco da umidade em sua boca, desejou que ela o desejasse, e não por pensar que poderia tirar proveito dele. Porém, ele poderia estar bancando o bobo. Era Arista de novo, e ele não tinha 20 anos há algum tempo. E não teria nenhuma desculpa desta vez. – Isso tem a ver com mentiras. Sempre foi assim. E eu temo que você tenha calculado mal. Ela ergueu as sobrancelhas para ele, mas não falou nada, nem mesmo quando ele estendeu a mão e traçou um caminho ao longo de seu queixo delicado, sobre aquela pequena mossa. Depois seguiu para baixo, pela linha elegante do pescoço aristocrático que ela herdara de sua mãe inglesa. Em seguida, ele percorreu o caminho até o ombro exposto. Sua pele era tão suave, tão quente... E ela continuava tão bonita, tão brilhante e encantadora em sua casa como na do pai dela. Ao mesmo tempo, Mattie não era mais do que a imagem que ele próprio criara. Uma estranha com um rosto perfeito. Outro erro crítico, em um longo histórico de erros. Outra mentira maldita, e esta ainda pior, pois ele contara para si mesmo. E durante anos. – Eu a conheço há muito tempo, e tudo que você me contou foi falso – replicou Nicodemus, após um momento, e ele não estava forçando aquela nota sombria em sua voz, uma nota de tristeza. Era isso mesmo. – Contudo, eu sempre acreditei no seu corpo. Ele sempre me sussurrou a verdade, não importava o que você dissesse. Os fofoqueiros mais dramáticos diziam que ela o atraíra para aquele casamento, que era uma espécie de sereia que o escravizara com seus encantos infames, que era um instrumento de seu irmão, algo enviado para deixá-lo aos seus pés. Nicodemus a olhou e desejou que nada disso fosse verdade. Ele queria enganar a si mesmo um pouco mais. – Eu e o meu corpo não somos entidades separadas – garantiu ela, com a voz mais alta do que o tom doce que vinha usando, mas pelo menos era real. Pelo menos essa era a sua voz. – E agora eu sei disso – declarou ele, em tom calmo. E depois baixou a mão e deu um passo atrás, afastando-se dela, do jeito que deveria ter feito no instante em que a conheceu. Como deveria ter feito há dez anos, quando se viu atraído por mais uma herdeira inútil, por uma menina que nunca faria nada além de levantar o nariz para ele. – E isso significa que não há uma única coisa sobre você na qual eu possa acreditar, Mattie. E, deste momento em diante, eu prometo que deixarei de acreditar em qualquer outra coisa. Isso não deveria tê-la machucado, dada a forma como ela deliberadamente interpretara aquela cena, e certamente não deveria ter assentado sobre ele do jeito que se assentou, como algo tão pesado e escuro que parecia poder esmagá-lo, mas não havia dúvida no olhar devastado em seu rosto. – Eu não tive... – Ela parou, e ele teve a impressão de que Mattie se surpreendera com a própria fala. – Nicodemus, se eu não quisesse... Mas ela não terminou sua frase. Sua expressão era parte sofrimento, parte resignação. Antes, quando ainda estava agarrado a todas as suas fantasias, ele teria chamado isso de desejo. Mas isso seria antes, quando ele ainda imaginava que aquele era um jogo que poderia ganhar. Quem era ela? – Nada mudou – disse ele. – Eu finalmente enxerguei o que é isso. – Uma bagunça? – Inquiriu ela, amargamente, e ele sorriu. – Apenas outra mentira – mencionou ele, que recebia um lote delas há muito tempo. E por que fazia isso consigo mesmo? – Mas essa é a nossa mentira, Mattie, e não há como escapar disso agora.


Ele sabia que tinha que deixá-la ali, na cozinha, antes que fizesse de si um mentiroso também. Antes que se esquecesse do que estava fazendo e se perdesse nela, da mesma maneira como se perdera frente à bela fraude que ela lhe oferecera de joelhos, com um sorriso. Uma fraude maravilhosa na qual ele queria acreditar mais do que podia. Mais do que acreditava em qualquer outra coisa. Nicodemus não saberia dizer como saiu daquela cozinha, mas saiu. – SE EU soubesse que você tinha planejado trabalhar em nossa lua de mel... – disse Mattie, em um tom muito aborrecido, levantando o olhar do tablet, onde as fotos do seu casamento estampavam todos os jornais. E olhou para Nicodemus, como se fosse culpa dele que ela parecesse embriagada e apaixonada em cada uma das fotos –, eu poderia ter trazido o meu trabalho também. Nicodemus estava com o laptop aberto à sua frente, pousado na mesa de tampo de vidro que havia entre eles, com o celular na mão, e não se preocupava em olhá-la. Era como se fossem infelizes no casamento há anos, pensou Mattie, sombria. – O seu trabalho? – Indagou ele, educadamente. – Eu não sabia que você estava familiarizada com esse termo. Ali estava o problema. Ele não estava sendo nada além de educado, desde a cena em sua cozinha, há quase uma semana. Nicodemus era escrupulosamente cortês. Infalivelmente distante. E aquela coisa brilhante, que ela tomava por certa, desaparecera dos seus olhos escuros. Ele insistiu para que ela se sentasse ao lado dele, para que dormisse na cama dele, para que fizesse todas as suas refeições com ele. E ainda estava tentando guiá-la, como se ela fosse uma pessoa turbulenta. Mas o Nicodemus que ela gostaria de conhecer... em algum nível... sumira. E Mattie odiava isso. – Você sabe perfeitamente bem que eu trabalho com relações públicas – falou ela. – Eu posso pensar em pelo menos três ocasiões, nos últimos cinco anos, nas quais você falou sobre isso diretamente. Ela estava enrolada em um canto do sofá enquanto Nicodemus estava sentado em uma das poltronas, inclinando-se para tocar em seu teclado. Ele ainda não a olhava. Nem mesmo para salientar que qualquer das referências que fizera à sua carreira fora positiva. – Você não trabalha com relações públicas – afirmou ele, quando finalmente se dignou a responder. Sua boca dura não fez a curva do jeito que costumava fazer. Não havia nenhum indício de riso em sua voz. – Você é paga para participar de festas com paparazzi. Você é paga para chamar seus amigos igualmente ricos, entediados e inutilmente famosos para se juntarem a você. Você eleva o perfil de eventos naturalmente sensacionalistas por sua presença exaltada. Pode chamar isso de relações públicas? Ou uma versão ligeiramente mais amenizada de prostituição? Ele fez uma pausa, então ela declarou: – Os fofoqueiros estão afirmando que você me roubou, e que se casou comigo sem a permissão do meu irmão, pois vocês são rivais nos negócios e lutam pela empresa como um par de cães selvagens. – Ela olhou para ele. – Eu estou bancando a fácil nessa história toda. O velho Nicodemus teria sorrido diante disso, mas o novo não se incomodou em fazê-lo. Mattie, por sua vez, odiava sentir uma espécie de ácido dentro dela, devorando-a, deixando buracos e uma espécie de vazio para trás.


– Todavia, eles também afirmam que você foi secretamente apaixonada por mim durante anos – respondeu Nicodemus, e continuou escrevendo seja lá o que fosse que estava digitando, governando o seu mundo a distância, sem lhe oferecer um único olhar enquanto falava. – Dizem também que o seu pai se opôs à nossa relação e que só agora podemos estar juntos, como se fossemos o Romeu e a Julieta do mundo dos negócios. Ou que você é um poder conivente nas mãos de Chase, e que nossa união foi uma ideia sua para afastar os credores do seu pai. Eu não sei que versão me parece mais risível... MATTIE FINGIU O TEMPO TODO? Era isso o que perguntava um artigo, lançando a hipótese de que Mattie era realmente algum tipo de Mata Hari corporativa, uma mulher que passava de um homem rico ao outro. Aos olhos de Mattie, este poderia ser o artigo de fofoca mais insultuoso de todos. – Eu imaginei que as testemunhas do nosso casamento fossem empregados da casa com câmeras de celular – continuou ela, mudando o foco das manchetes desagradáveis, manchetes que não apresentavam sinais de diminuir de intensidade mesmo com o passar dos dias. – Imagine minha surpresa ao descobrir que um deles era um artista tão talentoso que fez aquele instante triste parecer um momento romântico. – Você é, de longe, a melhor atriz que eu já conheci – assegurou Nicodemus, olhando para ela, mas Mattie não via nada em seu belo e feroz rosto além de sua impaciência. – Mas, então, você não deveria estar feliz? Você não sabia nada sobre a realidade, certo? – Como você faz para... – Retrucou ela, e acenou com a mão em torno deles, para indicar a vila enorme e as vistas deslumbrantes em todas as direções. – Porque isto é realidade. – A diferença é que eu mereço isso. – Seu celular tocou e ele franziu a testa, mas não atendeu, e Mattie odiava o fato de ter se agarrado a essas coisas, como se significassem alguma coisa. – Eu construí tudo isso. E eu vim do nada... Acredite em mim, eu me lembro, muito bem, do que era não ter qualquer razão para viver, além de sonhos de que algum dia tudo melhorasse. E não imagino que você possa dizer o mesmo. – Todo mundo tem de lutar, Nicodemus – informou ela, e ficou horrorizada com o que ouviu em sua voz. A crueza. A escuridão reveladora. As memórias que vieram com isso, e então a culpa. Sempre a culpa... – Todo mundo. Mesmo alguém que você acha tão inútil quanto eu. Ele olhou para ela, mas esse olhar foi diferente... tão incrivelmente diferente... do jeito que ele a observara durante todos esses anos. E ela não entendia por que isso fazia o pânico aumentar dentro dela, apertando seu peito e fazendo sua garganta doer. Ela não entendia nada disso. Só sabia que tinha jogado sua melhor carta e ganhara... mas perdera algo no processo. Algo que ela não sabia que poderia perder. Algo que certamente não percebera que sentiria falta. E, de repente, ela estava com medo de ouvir o que ele poderia dizer em seguida. – Está em seus planos grandiosos que eu continue a trabalhar? – Questionou ela, languidamente, como se não tivesse sido afetada por nada do que fora dito anteriormente. – Quando voltarmos para Nova York, eu quero dizer... A sua grande e gloriosa dignidade masculina exige que eu me torne algum tipo de dona de casa? Eu li um artigo afirmando que você me sequestrou contra a minha vontade, e me hipnotizou, para depois me forçar a agir contra o meu irmão. Além disso, lembre-se de que podem surgir questionamentos se eu não aparecer no escritório... – Eu não acredito que você tenha qualquer uma das habilidades necessárias a uma dona de casa – argumentou Nicodemus, com um pequeno indício de seu humor seco. Isso fez o coração de Mattie saltar. – Você sabe cozinhar? Limpar? Fazer qualquer coisa que for preciso ser feito em uma casa?


Ela se recostou no sofá. – Um homem tão rico quanto você deve ter uma governanta para fazer tudo isso, com certeza – comentou ela. – Sim, e a minha empregada me obedece – informou ele. – Ela é uma joia rara. – Então eu devo segurar seu braço e ser um troféu? – Interrogou Mattie. – Isso parece maravilhoso. Muito estimulante, eu tenho certeza. E o que vamos dizer aos fofoqueiros? Que novas histórias eles vão criar? Que você me levou para a Grécia para me lobotomizar? Ele passou a mão pelo rosto e, por um instante, mas apenas um momento, parecia cansado. Triste, mesmo. Ele se lembrou de quando, em um segundo de descuido, ela se ajoelhou na sua cozinha e ficou sem saber o que fazer. Se pudesse, pensou ela (se ela fosse outra pessoa), chegaria mais perto e tentaria acalmá-lo com as mãos. Mas ela fez uma careta, apertou os dedos em torno do tablet, ainda ostentando os anéis muito brilhantes que ele lhe dera de presente. Era como se aqueles anéis a tivessem traído. – Você pode fazer o que quiser, Mattie – comunicou Nicodemus, e ela odiava tudo nessas palavras. Odiava se sentir presa seja lá no que fosse, odiava aquela coisa nova entre eles, mais apertada, mais rígida e muito mais estreita. Odiava se sentir magoada... sobretudo por ele. E não se atrevia a perguntar a si mesma o que isso significava. – E se eu quiser ir embora? – ouviu-se dizer, porque não conseguiu deter tais palavras. – Qualquer coisa, exceto isso – disse ele, com a voz áspera, e quando seu telefone tocou novamente, ele bateu-o na mesa, embora seus olhos escuros continuassem encarando-a. – Vamos sofrer juntos. Eu já deixei isso bem claro. E então ele dirigiu toda a sua atenção de volta ao trabalho, e Mattie sabia que não podia culpar ninguém pela dor pesada sobre o seu peito, além de si mesma. Naquela noite, eles trabalharam juntos na cozinha, fazendo uma das refeições simples, habituais. Uma salada fresca. Pão pita caseiro aquecido no forno e colocado num cesto. Uma travessa com um pedaço de queijo feta e azeitonas gregas picantes, encharcados em um azeite verde-ouro. Depois, comeram o cordeiro que Nicodemus preparou com naturalidade e rapidez na grelha, e que Mattie levou para a mesa posta no terraço. Quando se sentaram, um em frente ao outro, ela percebeu que tinham desenvolvido seu próprio ritmo nestes últimos dias. E que era isso o que os casais faziam, esta dança tranquila de alimento compartilhado e mesa farta. Velas contra o ar fresco de outubro... e nenhuma necessidade de conversa. Ocorreu-lhe que, apesar de tudo o que fez para evitá-lo, esta foi a maior intimidade a que chegara com alguém de quem não era parente. E tal percepção foi como um tapa na cara. Ela se sentou ali por um momento, olhando para Nicodemus, com desânimo. Afinal, era precisamente por isso que ele estava agindo assim, entendeu ela. Mesmo que estivesse zangado com ela, ele ainda estava criando laços entre os dois, laços que nada tinham a ver com a sua década de jogos ou com a tensão sexual que ardia entre eles até aquele instante. Ele estava tornando tudo aquilo um hábito. E isso era exatamente o que ela não queria. O que ela não podia admitir. – O que foi agora? – Inquiriu ele, estendendo a mão para arrastar um quadrado macio do pão pita pelo azeite, e em seguida colocá-lo na boca. Ele se recostou na cadeira enquanto mastigava, mas a maneira como a olhava era tudo, menos indulgente.


– Acho que já é hora de você me explicar o que aconteceu aquele dia na cozinha – deixou ela escapar. – A maioria dos homens sentiria um imenso prazer se recebesse sexo oral sem pedir. Aquilo era um músculo contraído em sua mandíbula? Ou será que ela queria que fosse isso, pois indicaria que ainda o afetava com suas palavras? Como ela poderia saber tão pouco sobre suas próprias motivações? – Eu não sou a maioria dos homens – contestou ele. – Obviamente. – Ela se sentou demasiado rígida e descobriu que seu apetite a abandonara. Empurrou o cordeiro perfeitamente grelhado no prato. – Você vem me punindo desde aquele dia. – Não seja tão dramática. – Ele parecia imperturbável, e continuou a comer com toda a aparência de contentamento. – A punição pode assumir muitas formas, mas nenhuma delas, eu acho, envolve passar os dias em uma bela ilha com nada a fazer senão relaxar. – Isso depende da situação... – Esse é o problema, Mattie. – Seu olhar brilhava, mostrando algo mais. Algo tão devastadoramente quente que lhe tirou o fôlego. – Eu já fiz tudo isso antes. A menina bonita. As mentiras intermináveis, infinitas. E eu sei como isso termina. Ela não gostava da chama que tomava conta dela, porque sabia exatamente o que era, e nunca sentiria ciúmes de nada em sua vida. Dane-se, Nicodemus! – Você está tentando me dizer que eu não me comparo à sua ex? – Perguntou ela, tensa. – Dizem que a comparação é inimiga da alegria, Nicodemus. Talvez por isso você seja sempre tão malhumorado. Parecia que ele queria mordê-la, e ela não deveria ficar excitada com isso. – Eu não acho que insultos e comentários sarcásticos sejam divertidos – falou ele. – Por que não? – Indagou ela, sem saber como ousara. – Eu pensei que você soubesse como isso terminaria... – O que eu pensei ser um jogo que ambos estávamos jogando era algo totalmente diferente para você – afirmou ele, com uma ameaça silenciosa que perpassou Mattie como um abalo sísmico, embora não fosse nada em comparação com a expressão dura em seus olhos escuros. – Eu não estava mentindo. Você estava. – Mas... e se eu não estiver mentindo agora? – Questionou ela. Ela não tinha a intenção de dizer isso. Ela nem sabia de onde isso tinha vindo... e suas palavras ainda estavam por lá, pairando entre eles, estendidas sobre a mesa pequena, rodeada pelas chamas bruxuleantes das velas e pela noite grega opulenta à sua volta. – Sempre há consequências – admitiu ele, depois de um momento. – Neste caso, eu não acredito em nada que você diz. Você queria me manipular e estava disposta a ir tão longe quanto possível. – Você é o único a falar por aqui? – Ela conseguiu responder, apesar de seus olhos vidrados e do medo de que o resto do seu corpo tivesse se transformado em pedra. – Onde você acha que eu aprendi a usar o sexo como arma? – Você é tão mentirosa... – Isto veio de algum lugar entre a admiração e o desespero, e ela nunca o ouvira usar esse tom de voz antes. Isso a destruiu. – Você mente na minha cara sobre coisas que eu sei que não são verdadeiras. Eu estava lá. Eu nunca usei o sexo. Simplesmente admiti a atração que sinto e, ocasionalmente, agi por conta dela. Há uma diferença. – Você é quem pensa assim! – Exclamou ela. – Mas isso não significa que seja assim!


– Eu venho sonhando em pousar minha boca na sua há anos – rosnou ele, parecendo muito perigoso para um homem que ainda tentava se afastar dela. – Eu não pedi que você tirasse a roupa, Mattie. Você fez isso. – Mas você ficou feliz em tirar vantagem, é claro. – Eu não diria isso... – Replicou ele, com uma nota fria de impaciência em sua voz. Ele passava do marido potencialmente emocional para o CEO nada divertido em um instante, e ela detestava isso. – Porque nós dois sabemos que você sabe fazer isso melhor... e que eu não era o ��nico jogador em campo. – Nicodemus... – Coma o seu jantar – ordenou ele, pegando seu próprio garfo e espetando um pedaço de cordeiro com violência mal reprimida. – Isso é mentira... – Declarou ela, entre os dentes, e ficou surpresa ao descobrir que suas mãos estavam cerradas em seu colo, e sua garganta estava tão apertada que ela mal podia falar. – Isso não é nada além de um jogo de faz de conta. Nós poderíamos muito bem viver as histórias que os tabloides escrevem a nosso respeito. Mas isso seria melhor? – Isto é um casamento, Mattie – retorquiu ele, com ferocidade em sua voz e escurecendo seu olhar. E ela estava frágil o suficiente para exultar com aquilo, pois pelo menos alcançara algo nele. – O nosso casamento. E você deveria se considerar sortuda porque eu decidi que tudo deveria ser tão civilizado. NICODEMUS ACORDOU de repente. Ele nem precisaria estender a mão ao colchão vazio ao seu lado para perceber que Mattie não estava na cama. Ele percebeu imediatamente. Mas sua mão se moveu sobre o local que ela normalmente ocupava, o mais longe dele que conseguia ficar na mesma cama, e ele achou frio. Totalmente desprovido de seu calor, revelando-lhe que ela escapara de novo. Ela sempre o fazia. Ele saiu da cama sem se preocupar em acender as luzes. Lá fora, a lua estava flertando em direção à plenitude, criando um caminho ondulante através das águas escuras, e Nicodemus estava furioso. Outro homem teria se perguntado o que diabos estava errado com ele, mas ele sabia. Era sempre Mattie, sempre aquela mesma mulher presa nele como uma pedra em seu sapato. Ou como uma faca em seu pescoço, sendo mais preciso, e ele não tinha ideia de como estava mantendo o controle. Talvez ele jogasse tanto quanto ela, no final das contas. Mas aquele era o jogo particular dela, o seu ritual noturno, um ritual que ele pensava que poderia levá-lo à beira da loucura. Toda noite, ela abandonava a cama. Toda noite, ele despertava para procurá-la ou voltava para cama, após outra rodada irritante de chamadas em conferência internacionais, para descobrir que ela não estava lá. Toda noite ele caçava, encontrando-a dormindo em outro ponto daquele lugar amplo, e às vezes murmurando e se debatendo de um modo que sugeria nada além de doces sonhos, e a levava de volta com ele. Todas as noites, e eles nunca discutiam sobre isso. Nicodemus presumia que aquele seria o seu último suspiro de rebelião, e em algum nível ele não podia deixar de admirar sua teimosia e persistência. Mas não era admiração o que sentia aquela noite em que não conseguia localizá-la em qualquer um dos seus pontos habituais. Ela não estava em nenhuma das suítes. Ela não estava na sala grande, no solário ou no sofá de couro em seu escritório. Ele


passou por todos os cômodos da casa sem encontrá-la, e só quando estava perto da parede envidraçada, fora de seu ginásio privado e da piscina coberta, percebeu que ela abandonara a casa. E pensou que ela poderia causar a morte dele um dia desses... podia mesmo. Nicodemus saiu para a noite fria, com o vento de outubro e a lua observando-o enquanto atravessava o pátio que fazia um anel ao redor da piscina ao ar livre, piscina que ele precisaria fechar em breve. Ele sentiu o inverno nas pedras sob seus pés descalços, e se sentiu como um homem das cavernas quando abriu a porta da casinha ao lado da piscina e a encontrou por lá, onde ela não deveria estar. Ela estava enrolada na chaise do canto, e por um momento ele pensou que ela estava acordada, falando com ele... Mas então viu as lágrimas. E o olhar de terror abjeto em seu rosto. Ela não estava falando, ele percebeu. Ela estava gritando a mesma palavra, uma e outra vez. Nicodemus não hesitou. Ele não era civilizado. Simplesmente foi até ela, chegando a dois passos, a segurou com o cobertor, lágrimas e tudo, e a colocou em seu colo. Ela estava fria, perturbada e não estava... acordada. Então ele simplesmente a segurou. E a balançou gentilmente, murmurando palavras antigas que lembravam uma infância sem qualquer suavidade. Depois afastou o cabelo de seu rosto e a deixou chorar em seu pescoço. E assegurou a si mesmo que faria tudo igual com qualquer mulher que encontrasse, qualquer pessoa. Que sentiria essa mesma sensação de imensidão, uma espécie de temor, essa mesma dor por ela estar com dor. Esse mesmo entendimento pulsante, como o coração em seu peito, de que lutaria contra qualquer coisa que a ameaçasse, mesmo que estivesse dentro da cabeça dela. Lentamente, o choro diminuiu. Sua respiração ficou mais suave, mais lenta. E Nicodemus percebeu o exato instante em que ela despertou totalmente, ficando consciente do seu entorno, porque todo seu corpo ficou tenso. – Está tudo bem – pronunciou ele, baixinho, feliz por estar tão escuro na casa da piscina. Feliz por ela não poder ver a expressão de medo muito clara em seu rosto. – Eu vou manter você segura. E decidiu não pensar muito no quão profunda fora a sua frase. – O que... o que aconteceu? –Interrogou ela. Nicodemus nunca a ouvira gaguejar, pensou ele, nem jamais a vira tão apavorada. Não a sua Mattie, que enfrentava o mundo como Don Quixote, embora com uma língua muito mais afiada. Ele esfregou a mão no seu peito, em seguida acariciou novamente o seu cabelo... mas ela estava acordada, e ele se afastou. Na verdade, ele não teve escolha a não ser soltá-la. – Você costuma ter esses pesadelos? – Inquiriu Nicodemus, enquanto ela saía do seu colo como se estivesse em chamas, envolvendo-se no cobertor como se ele pudesse protegê-la. – É por isso que você rasteja para fora da nossa cama todas as noites? Você já ficou agitada antes, mas nunca desse jeito. E você geralmente se acalma quando eu a seguro. – O quê? – A voz de Mattie ficou mais cortante, mas o pânico se mantinha. Ou mesmo aumentava, aos olhos de Nicodemus. – O que você quer dizer? – Você estava tendo um pesadelo terrível – disse ele, devagar, percebendo, pela forma como ela ficou tensa e pelo aumento da tensão na sala, que tinha tropeçado em algo. Algo importante. – Você estava soluçando. Gritando, eu acho. A mesma palavra várias vezes.


– Que estranho – falou ela, e embora sua voz estivesse mais fria, ele podia ouvir todo o pânico e o pesadelo por baixo dela. – Eu devo ter comido algo que me fez mal. Outra mentira, pensou Nicodemus, mas não conseguiu alcançar a fúria habitual diante daquilo. Ela era tão frágil, estava agindo de maneira tão dura... mas não falsificara aqueles soluços desesperados. Ela não falsificara as lágrimas que ele ainda podia sentir contra o seu corpo, e o ar da noite esfriava sua pele umedecida como se fosse uma prova. Ele se levantou e viu a forma como ela empinou o queixo, como se tivesse de lutar contra si mesma para ficar firme. Então, ele desejou que fossem pessoas diferentes. Ou que pudessem recomeçar tudo do modo que ela fingiu que queria fazer naquele dia na cozinha. E desejou poder confiar nela... ou que ela pudesse confiar nele, mesmo um pouco, em quem ele realmente era. E desejou que aquela história não tivesse sido marcada para sempre... há tantos anos. Ele não a tocou, embora estivesse louco para fazê-lo. – Eu não acho que foi a comida – mencionou ele, depois de um minuto. Sua voz era real na sala escura. –Você estava chamando pela sua mãe. Ela fez um som, como se tivesse sido golpeada no estômago. – Pela minha mãe? – Perguntou ela, suavemente. – Isso não faz sentido. Você deve estar enganado. – Não, agapi mou – afirmou ele, apenas levemente consciente de que a chamara de meu amor. Entretanto, isso não parecia importante, embora uma parte dele tivesse registrado que sim. Passado um tempo, ele estendeu a mão (apesar de tudo) e enrolou uma mecha de seu cabelo preto em torno de seu dedo. – Você não parava de repetir mama. Uma e mais uma vez.


CAPÍTULO 7

QUANDO ELA acordou, já era de manhã e Nicodemus tinha ido embora. Por um momento, Mattie piscou os olhos, observando o outro lado da cama, onde ele costumava estar esparramado, com toda sua perfeição masculina à mostra. Ela sentia uma espécie de ressaca, embora não tivesse bebido. A sua boca estava seca, a sua cabeça explodia. Uma espécie de pânico tomava conta do seu ventre, bem no fundo, crescendo a cada segundo. Um banho, bem longo, não ajudou. Nem uma xícara de café forte, que preparou para si mesma. Mattie caminhou até o escritório de Nicodemus, parando ao finalmente ouvir a sua voz. Era uma voz de comando, poderosa, certeira. Uma voz que não parecia abrir espaço a qualquer tipo de dúvida. – Eu já assinei os papéis – declarou ele, e Mattie ficou pensando na chatice do mundo corporativo. – Caso surja mais um adiamento ou mudança de planos eu ficarei furioso, entendeu? Endaxi. Ela voltou correndo ao quarto. Precisou de apenas alguns minutos para localizar suas coisas no enorme armário e pegar um cigarro, o último que restava. Depois o acendeu. Mas não foi à varanda, e sim à ala da vila onde ficavam os quartos de hóspedes. Aquele era o ponto mais distante da casa. Ao encontrar um pequeno pátio, permitiu-se o seu hábito mais culpável. Sentada, Mattie esticou as pernas e deixou a cabeça cair para trás. O sol, não muito forte, banhava o seu corpo. Pouco a pouco, ela se sentia melhor. O gosto do cigarro era estranho, mas ela não se importava. O problema ali não era o gosto nem era o ato de fumar... Sendo honesta consigo mesma, o problema era se lembrar de que Nicodemus não poderia estar no controle de tudo, não poderia estar no controle dela. Até porque ele não a conhecia. Ela continuava mantendo certas facetas de si mesma distantes de todos, escondidas. Se, por um lado, ela queria se entregar a ele, Mattie não sabia se Nicodemus seria capaz de carregar o peso de todos os seus segredos. – Não seja idiota, Mattie! – Gritou ela para si mesma. – Talvez seja tarde demais para isso. Ela saltou da cadeira onde se sentara. Era Nicodemus. Ele estava ali. Alto, moreno, carrancudo, furioso.


Mattie olhou para o cigarro, depois para ele. Lembrou-se das palavras de Nicodemus. O seu coração saltava no peito. Mas ela não poderia recuar. Por isso também o encarou e voltou a colocar o cigarro na boca. Por um instante, tudo ficou paralisado. O mundo certamente seguia o seu rumo, mas o ar parecia imóvel ao redor deles. No entanto, passado um segundo, Nicodemus atirou a cabeça para trás e começou a gargalhar. E isso era a última coisa que ela esperava ver. O som da risada de Nicodemus tomou conta do ambiente. Era tarde demais... Ele se aproximou, arrancou o cigarro da boca de Mattie e ficou agachado, bem em frente a ela, bem perto do seu rosto. O olhar de Nicodemus estava em chamas. – Será que eu fui claro? – Indagou ele. – Eu acho que já comentei com você que fumar seria inaceitável. Ou será que eu sonhei com essa conversa? – Eu nunca afirmei que obedeceria, Nicodemus – disse ela, assustada com a força das próprias palavras, mesmo com ele tão perto. – Você simplesmente decidiu o que eu deveria fazer, da mesma maneira como decidiu várias coisas desde o dia em que nos conhecemos. Aliás, você pode decidir o que quiser, mas isso não significa que eu serei obrigada a aceitar suas decisões. Muito menos que serei obrigada a segui-las como se fosse uma religião. Ele a encarou, depois sorriu. – Obrigado – falou Nicodemus, quase formalmente. – Por quê? – Questionou ela. – Por facilitar as coisas – respondeu Nicodemus. Sem notar como ele fez tal movimento, em um segundo ela estava suspensa no ar, colada ao corpo de Nicodemus. E ele a carregou para dentro de casa. Mattie tentou lutar. Usou os seus pés e os seus pulsos. Mas ele simplesmente sorria. Quando chegaram à cama do quarto de Nicodemus, ele a deixou em cima do colchão. Ela estava no centro da cama dele... furiosa, desesperada. E Nicodemus estava de pé sobre a mesma cama, com os braços cruzados sobre o peito, os olhos duros encarando-a firme. – Nós tivemos uma semana de mentiras e falsa civilidade – argumentou ele. – Agora faremos tudo do meu jeito. – As coisas por aqui sempre são feitas do seu jeito – retrucou ela. – Mattie... fique calada, por favor. Ela assegurou a si mesma que não o obedeceria. Porém, por algum motivo, ela ficou calada. Nicodemus era tão lindo que parecia uma estátua feita de mármore. – O que você sugere que eu faça com uma mulher que age como uma criança desobediente? – Interrogou ele. – Essa é uma pergunta retórica, e você sabe disso. – Nós não precisamos de um psiquiatra para saber que você é muito ligada à figura paterna, Mattie – garantiu ele. – Mas será que eu sirvo para esse papel? E será que preciso chegar a esse ponto? – Eu... eu não tenho problema nenhum com a figura paterna. O problema aqui é você – disparou ela.


– É exatamente isso o que você precisa entender – retorquiu Nicodemus. – Eu vou vencer. Não importa o tempo necessário, não importa o que eu tenha de fazer, não importam os seus joguinhos. Eu vou vencer porque eu sempre venço. – Você não manda em mim – contestou ela, agitada. – Chega de lutar contra moinhos de vento, Mattie. Nós não vivemos no seu mundo, um mundo no qual você dá ordens a todos, um mundo no qual todos dançam conforme a sua música. O mundo em que vivemos é o meu. E chegou a hora de dar um basta nessas bobagens. Ela ficou um bom tempo muda, com um nó apertado na garganta. – O fato de você achar que tem o direito de exigir obediência é um problema, Nicodemus – disse ela, finalmente. – Assim como o fato de achar que pode mandar em mim. Isso também é um problema, e dos grandes. Ele estava completamente vestido de preto naquele dia. E ela notou. Ele parecia um terrorista, um delicioso e perfeito terrorista. Um homem irresistível, e justo no momento em que ela mais precisava resistir. – E o fato de considerar tudo o que eu penso uma bobagem também é um problema. Além do mais, esse é um enorme problema. – Eu vou dizer o que vai acontecer – replicou ele. – Além disso, eu já falei que poderia dar umas palmadinhas em você. E você tinha uma alternativa: dançar para mim... mas escolheu fugir, como sempre. E me deixou sozinho, limpando a sua bagunça. Você acha que eu me esqueci dessas infrações? – Parece que voltamos à escola interna – declarou ela. – Será que eu vou ser presa por fumar? Serei obrigada a esfregar o chão? – Eu tenho algo mais corpóreo em mente – comentou ele. – Você mencionou que queria a obediência, mas pareceu se esquecer disso quando eu fiquei de joelhos, certo? Aliás, nem pense que eu vou chamá-lo de senhor... Isso nunca! – Esbravejou ela. Ele deu de ombros. – Vamos seguir a minha cartilha e já veremos como você me chamará quando chegarmos ao fim. Você ficará surpresa. – Se você me bater... eu juro que fujo daqui nadando, Nicodemus. E eu não me importaria de chegar à Líbia. – Será que eu deveria prender minha esposa na cama? – Inquiriu ele, como se estivesse falando sozinho. E depois se curvou, aproximando-se perigosamente dela. Mattie entrou em pânico, depois rolou na cama, como se quisesse fugir. Mas ele pousou uma de suas enormes mãos na cintura de Mattie, detendo-a. – Fique quieta – ordenou Nicodemus. Mas ela lutou. Ela o chutou, ela se moveu, fez tudo o que pode... mas acabou sendo obrigada a perceber que estava piorando a situação. Pois ele não fazia nada, simplesmente continuava agarrando a sua cintura, esperando... Ela ficou sem fôlego. Nicodemus se mantinha impassível. Depois deixou o seu corpo cair sobre o dela. Aquela era a pior posição que ela poderia imaginar. Os seus peitos estavam colados. As pernas de Nicodemus encaixadas entre as suas. E ele não parecia se importar em esconder sua excitação. Ele estava pronto.


E era forte. Lindo. Mesmo naquela posição. Mesmo a ameaçando. – Você está piorando a situação para o seu lado – afirmou ele. E eu estou completamente louca, pensou ela, pois no fundo não queria lutar contra ele. Queria se fundir ao seu corpo. Queria sentir aquele peso em cima dela. Queria... mesmo sabendo que se deixar levar por tudo aquilo fosse algo altamente destrutivo para si mesma. – Nicodemus... – Você diz que nunca se renderia a mim... mas algo me diz que você quer se render. Pense nisso. Pense na falta de controle, de manipulações, de padrões, de roteiros. Imagine tudo o que poderíamos aprender com uma interação desse calibre. Ela não pronunciou nada. – Por outro lado – disse ele –, por que você não me diz uma única verdade? Apenas uma, Mattie. A escolha é sua. Fazendo isso, eu também poderia me render um pouco. E foi então que ela percebeu o que deveria fazer. Aquela era a sua única saída naquele instante. E a verdade é que não entendia por que evitava esse caminho há tanto tempo. Mattie engoliu em seco. Nicodemus a encarava. Você já deveria ter admitido há muito tempo, falou uma voz no interior da sua mente, uma voz bem fraquinha. Você não acha? Mattie não queria pensar nisso. Da mesma maneira que não queria pensar em nada relacionado a isso. – Uma verdade... apenas uma – insistiu ele. – Isso é tudo o que eu preciso. Você seria capaz? – Perguntou. Ela reuniu todas as forças que lhe restavam e murmurou: – Eu quero você. E Nicodemus ficou paralisado. E NÃO pediu que ela repetisse. As palavras de Mattie o queimavam. E ele nunca vira aquele olhar estampado em seu rosto. Nunca vira os seus olhos tão arregalados. Uns olhos lindos, determinados, talvez um pouco ansiosos demais. E verdadeiros. Os seus olhos eram verdadeiros. E isso o atingiu como uma onda, uma onda que o arrastava. E Nicodemus não sabia se seria capaz de aguentar a força das águas. Ele repetiu para si mesmo que se tratava de uma mentirosa, que não deveria acreditar nela, embora Mattie tenha lhe dito exatamente o que ele queria escutar. E ela se moveu, tocando o rosto de Nicodemus, movendo sua cintura. – Nicodemus... – sussurrou ela. – Eu sempre quis... E, apesar de tudo, ele não passava de um homem. E talvez fosse ainda mais fraco do que o homem que ele mais odiava neste mundo: o seu pai. Ele seria capaz de resistir? Pela primeira vez em sua vida, ele não se importava. E a beijou, repetidas vezes. Perdendo-se na doçura de sua boca. Minha, pensou ele. Ela é minha.


Ela traçava o contorno das costas de Nicodemus com as mãos, depois seguiu o caminho da sua cintura. Ele se livrou da camiseta e ela deixou escapar um gemido. Nicodemus queria comê-la viva. Já sem a camiseta, ele arrancou a blusa que ela vestia. Depois arrancou a calça das pernas de Mattie. Voltou a ver aquela tatuagem de fênix, atento a todos os sons que ela fazia, atento à sua respiração entrecortada. Mas isso não era suficiente. Nicodemus arrancou o sutiã de Mattie e tomou seus dois seios na boca. Primeiro um, depois o outro. A excitação era total. E ele mudou de posição, chegou ao piercing em seu ventre... Pela primeira vez, ele era capaz de admitir que gostava daquele piercing. Além do mais, ele não simplesmente gostava, mas considerava a coisa mais sexy que poderia imaginar. Ele a queria por inteiro. E tal fome não era nova, mas sim a beleza da entrega de Mattie, que abria o seu corpo completamente, louca pelo toque de Nicodemus... fazendo com que ele se sentisse uma espécie de deus. E ele faria tudo para satisfazê-la ao máximo, para preenchê-la por inteiro. Minha, pensou ele novamente, como sempre fazia, mas desta vez com maior intensidade, com mais calor. Pois finalmente podia notar a verdade entre eles. Ao se aproximar de sua feminilidade, ele ouviu: – Não... Eu quero você... dentro de mim, Nicodemus. Por favor – implorava ela. – Pode ter certeza disso – respondeu ele. – Quanto a isso, não se preocupe. – Eu quero tudo – declarou ela, encarando-o. E ele acreditava em suas palavras. Poderia ser uma loucura, mas ele acreditava. Nicodemus gemeu. Ele estava exageradamente excitado. O desejo que sentia era implacável. – Mas eu quero... – Insistia ela. – Você já me informou o que quer, mas precisa me deixar trabalhar. Caso contrário... E ela abriu um sorriso que pareceu tomar conta do quarto. Um sorriso total. Eis o perigo, pensou ele. Mas eu quero acreditar. Nicodemus se livrou da calça que vestia. Logo depois, voltou a tomar a boca de Mattie em um beijo longo, quente. E movia suas mãos pelo corpo da mulher que dizia desejá-lo. Ela estava completamente quente, preparada, suave... Aquilo era real, sem dúvida. Aquilo era real. Aquilo era real. Aquilo era real. Aquilo finalmente estava acontecendo. Nicodemus encontrou o caminho para dentro do corpo de Mattie, que tremia dos pés à cabeça, e a penetrou com um dedo. Ela ficou louca. E ele a penetrou mais uma vez, usando o mesmo dedo. Beijando-a. Encarando-a. Sentindo os movimentos inconscientes do seu corpo, ouvindo os sons mais loucos que ela deixava escapar pela garganta. – Você é minha, agapi mou – assegurou ele. – Você sempre foi minha. E finalmente a penetrou com o seu membro, bem profundamente. E Mattie chegou ao êxtase em um grito. Isso é impossível, pensou ele. Mas o grito que ela soltara não deixava qualquer dúvida no ar.


Os olhos de Mattie estavam arregalados. Ela era virgem.


CAPÍTULO 8

DOÍA. Contudo, Mattie demorou a sentir tal dor. Ela estava convencida de que não a sentiria. Não após tanto tempo. Não com ele. Muito menos com ele... Mas o pior é que ele parecia ter notado. E pior: ele ficou paralisado. – Está tudo bem – garantiu ela. – E de agora em diante só pode melhorar, certo? – Você sempre encontra uma maneira de mentir para mim, mesmo parecendo impossível – disse ele. E a verdade é que a dor não cessava. – Eu não estou mentindo – afirmou ela. – E você nunca quis saber se eu era virgem. – O quê? – indagou ele. – Sim, eu era virgem – confirmou ela. – E para ser virgem basta nunca ter feito esse tipo de coisa. Ele a encarava. E o seu olhar era acusador. – Você tem 28 anos. 28 anos, Mattie! – Insistiu ele. – Eu não sabia que existiam mulheres virgens com essa idade. – Não existe uma lei que nos obrigue a perder a virgindade com certa idade – comentou ela. – Não... mas existe uma coisa chamada realidade. Isso sem contar o seu trabalho como relações públicas, sempre cercada de câmeras – disparou ele. – O que acontece na frente das câmeras é um teatro, Nicodemus. Um jogo. E você sabe disso – retrucou ela, agitada. – O que acontece na frente das câmeras são mentiras, é isso o que você está querendo dizer, certo? – Questionou ele. – Eu não usei esse termo – contestou Mattie. Nicodemus não era um homem qualquer, não era mesmo. Ele não se parecia com nenhum outro. – Como? – Interrogou ele, com um tom de voz abatido, perdido. O que Mattie nunca imaginou é que teria de se defender do fato de continuar sendo virgem. Qualquer homem teria recebido isso como um troféu, mas ele parecia perdido.


– Eu não deveria estar surpresa... Faça sexo oral em um homem e ele pensará que você é a rainha das bobagens... mas ofereça a ele sua virgindade e ele pensará que você é doente, completamente louca. Meu Deus, Nicodemus, o que está acontecendo com você? – Inquiriu Mattie. – Você é uma idiota – replicou ele. – E eu estou começando a acreditar que isso faz parte de um plano para causar o máximo possível de danos a mim. – Eu não sou uma idiota, não sou! – Gritou ela. – Você queria ser ferida por mim, Mattie? Porque foi isso o que aconteceu... uma cena orquestrada para que eu morra de culpa e arrependimento e você saia como uma vítima. Parabéns. Você conseguiu o que queria. Exatamente tudo o que queria. E ele se afastou ainda mais. – Não ouse! – Gritou ela. – Se você parar o que está fazendo, nós nunca mais nos veremos novamente. – Você não tem a menor ideia sobre o que está falando – declarou ele. – Você vai sair vencedora, mas completamente arrasada. E ela pousou a mão no peito de Nicodemus, sentindo aquela perfeição única entre os seus dedos. Sentindo o seu coração saltar dentro do peito. Não era uma sensação boa... mas ao mesmo tempo não a fazia chorar. Isso não. – Siga em frente. Melhore o que estava fazendo – suplicou ela, e imediatamente percebeu o calor voltando a invadir o peito de Nicodemus. Um calor primitivo, masculino. Um calor que era puro fogo e desejo. E ela queria tudo aquilo de volta. – E você acha que eu conseguiria melhorar? – Perguntou ele. – Sim, pois você já me provou isso – respondeu Mattie. Ela não entendia as próprias palavras, mas sabia que dizia a verdade. E queria aquele homem mais perto dela, queria se envolver física e emocionalmente com ele. Queria senti-lo invadindo o seu corpo. Queria senti-lo por inteiro. Ele franziu a testa. – Se fizer isso... o que eu ganharia em troca? – Indagou Nicodemus. E Mattie também franziu a testa. – Um orgasmo, provavelmente – respondeu ela. – A menos que aconteça algo terrível. Não são orgasmos o que você costuma receber em troca quando faz esse tipo de coisa? – Isso não tem nada a ver com orgasmos, Mattie – argumentou ele, suave, mas com um toque de pura confiança masculina em sua voz. – Orgasmos são o que acontece quando química e habilidade se unem. Mas isso não acontecerá por aqui. – Os livros não nos contam dessa maneira... – Disse ela, com uma expressão muito séria estampada no rosto. E ele esboçou um leve sorriso. Sim, foi um sorriso leve, mas ela o sentiu em todos os pontos do seu corpo, e também no centro do seu corpo. – Você está me matando – murmurou ele. – E eu também seria capaz de matá-la. Todavia, em um primeiro momento, eu acho que você deveria conhecer a diferença entre ler e viver. E curvou a cabeça em direção a um dos mamilos de Mattie. – Você vai gostar dessa lição – afirmou ele, mordiscando o mamilo. – No final do processo, nós conversaremos.


E aprofundou o movimento da língua em seus mamilos. Nesse exato instante, ela percebeu por que tudo estava conectado, e sentiu um prazer invadindo-a por inteiro. Ele afastou o rosto dos seios de Mattie, depois voltou a sugá-los. – Siga em frente – sussurrou ela, percebendo que sua voz saía trêmula –, depois conversaremos sobre o que você quiser. E ele sorriu, e foi um sorriso longo e em tom baixo, um sorriso que a atingiu como uma lâmina cortante. Por sua vez, Mattie não saberia dizer quando tudo mudou. E Nicodemus orquestrava a situação. As suas mãos. A sua boca. O seu ritmo devastador. Mattie experimentara um orgasmo antes. Chegara a ter mais de um ao lado dele. Entretanto, de alguma maneira, ela sabia que aquele momento era diferente. Um momento exageradamente intenso para ser possível uma sobrevivência... – Nicodemus... eu não posso... – Murmurou ela. – Pode sim – retrucou ele, com a boca colada ao seu ouvido, e recomeçou o movimento. E não parecia haver nada além deles. Nada além do amor. Um alarme de aviso tocou em sua mente, mas ela o ignorou, estava longe demais para se preocupar. – Eu não posso... – Repetiu ela. – Você deve – insistiu ele. – E agora! E se postou entre as pernas de Mattie, pressionando a entrada do seu corpo em um ritmo incessante, e Mattie explodiu. Antes de perder a cabeça, no entanto, ela o ouviu dizer o seu nome. NICODEMUS SÓ se afastou de Mattie quando a noite caía do lado de fora. E ela estava deitada ao lado dele, deliciada, aquecida, com o rosto pousado em seu pescoço, respirando pausadamente. A imagem era de perfeição. Mas ele se afastou e se sentou na beira da cama. O dia fora longo. Muito longo... e ele explorara cada centímetro do corpo de Mattie, sem tirar nem por, tomando-a para si uma e outra vez, até mesmo no instante em que parecia estar saciado. Porém, bastava um suspiro de Mattie, um pedido por mais, que ele voltava a estar pronto. E dessa forma chegou a provar o sabor de todos os pontos do seu corpo. Ouviu vários dos seus sons, os seus gritos, os seus suspiros. Viu Mattie deixando a cabeça cair para trás, tomada pelo fogo... E nenhum homem jamais vira tais coisas. O único homem que a tocara fora ele... e ficou com medo de um arroubo de possessão... um arroubo que poderia arrasar com tudo. Com quase tudo... – Então, já chegou a hora de conversamos? – Questionou ela. Ele poderia ter dito que não. Poderia ter simplesmente cruzado os braços sobre o peito, ficando calado e fazendo apenas o que queria. Mas não. Ele não seria capaz... – Você é uma mentirosa – falou ele, e desta vez não foi uma acusação, mas simplesmente uma afirmação.


– E você chama isso de um papo após o sexo? – Interrogou ela. – Se for assim, saiba que você é péssimo no assunto. Ao ouvir tais palavras, ele ficou com vontade de rir. Ele gostava de tanta coisa naquela mulher, tanta... sem contar que em pouco tempo poderia unificar as operações das suas empresas com a empresa da família de Mattie. Contudo, nada disso importava, pois ela não conseguia parar de mentir e ele não seria capaz de conviver com isso. – Isso deveria envolver apenas verdades – declarou ele. – Mas você mente, Mattie. Você sempre mente. Sobre tudo. Até mesmo sobre isso. Ela franziu a testa e argumentou: – Você não pode exigir acesso aos pensamentos mais profundos de outra pessoa. Isso demora um tempo e... – Por que você se guardou para mim? – Inquiriu ele, sem meias palavras. – Isso foi um acidente – contestou ela. – Foi algo que aconteceu por acaso. – Mentira! – Vociferou ele, e ela ficou corada. – Vamos tentar de novo. Quais são os seus piores pesadelos? Ela engoliu em seco, um pouco perdida, e finalmente respondeu, bem baixinho: – Eu tive apenas um pesadelo... mas você me despertou. – Eu imaginei que conseguiria me aproximar de você – mencionou ele. – Imaginei que você estivesse jogando, mas que pararia de jogar quando estivéssemos aqui, nesta cama, sozinhos. Algo me dizia que isso valeria a pena. – E vale – sussurrou ela. – Isso vale a pena. – Eu quero que você me diga uma coisa verdadeira, Mattie – pediu ele. – Uma coisa que não seja uma armadilha. Uma coisa que não nos leve de volta ao nosso casulo de mentiras. Uma única coisa. – Você já sabe de tudo o que importa – replicou ela. – Eu estou aqui, certo? Isso aconteceu. Eu me guardei para você... e por que se preocupar com o motivo? O que mais você precisa saber? – Perguntou Mattie. Ele fez que não com a cabeça, controlando a vontade louca de tocá-la, de consolá-la. E depois ficou de pé, afastando-se da cama. Mattie se sentou no centro da cama, envolta em lençóis, piscando os olhos, perdida, sem saber o que fazer, sem saber que caminho tomar. E Nicodemus percebia que nada mudaria, nunca. E também que a amava como nunca amaria qualquer outra mulher deste mundo. Todavia, nada disso importava, pois ele nunca aprendia suas lições. – O meu pai foi um homem estrito – disse ele. – Ele entrava e saía do nosso apartamento sem falar muita coisa, e a minha mãe vivia ocultando suas histórias. Durante muito tempo, eu não entendia por que o humor do meu pai era mais importante e reinava sobre todas as coisas naquela casa. – Ele fez uma pausa, uma longa e pesada pausa. – Você não vai fazer nenhum comentário, Mattie? Que estranho... – Você nunca fala sobre o seu passado – declarou ela –, apenas sobre as coisas materiais que você tem. – Quando eu cresci, o meu pai se interessou pelo meu caráter – afirmou ele, cruzando os braços sobre o peito. – Ele dizia poder sentir o cheiro da mentira impregnado em mim.


– Quer dizer que nós dois somos iguais... – Comentou ela. – Ele costumava me dar longos sermões, que sempre terminavam com um tapa. E tinha ideias fixas sobre o que era certo ou errado. Claro que eu o desapontei nesse terreno... – É duro imaginar você desapontando alguém – falou ela, deixando escapar um suspiro. Nicodemus não queria continuar falando sobre isso. Ele queria fingir que nada daquilo interessava. E ao mesmo tempo queria se livrar de muita coisa. Queria se livrar dos seus pais. De Arista. De Mattie. Pois não aguentaria continuar convivendo com tudo isso. – Por sorte, o meu pai não passava muito tempo em casa – disse ele. – Quando passava duas semanas sem aparecer, minha mãe dizia que estava em uma viagem de trabalho, mas que ele nos amava muito. Entretanto, eu não me importava com isso, eu preferia quando ele estava fora. E a minha mãe só me bateu uma vez: quando eu declarei isso em voz alta. – Eu não quero interromper – mencionou Mattie –, mas saiba que não estou formando uma imagem muito favorável dos seus pais. – Certo dia, quando eu tinha 12 anos, decidi seguir o meu pai quando ele saiu de casa – continuou Nicodemus. – De alguma maneira, eu suspeitava... Ele nos visitava com cada vez menos frequência. A minha mãe passou a beber muito. Vivia perdida no seu mundo particular. – E quem tomava conta de você? – Indagou Mattie, com um tom de voz preocupado. Ele sorriu e permaneceu calado por um tempo, depois quis saber: – O seu pai cuidava de você enquanto administrava as Indústrias Whitaker, Mattie? Eu imagino que não. – Nós tínhamos ótimas babás – replicou ela – além de um mordomo que eu e Chase considerávamos um membro da família. – A minha mãe não trabalhava, embora tenha me contado histórias sobre o tempo em que limpava casas, antes de eu nascer – revelou ele. – Nós não tínhamos babás nem mordomos. Eu cuidava de mim. – Ele fez uma pausa. – No entanto, certo dia, eu segui o meu pai. E o segui até algumas casas nas colinas. Casas maiores. Mais bonitas. E fez mais uma pausa, desta vez mais longa. – E olhei por uma das janelas da casa onde ele tinha entrado. E descobri que o meu pai tinha outra família. Uma família completa. Em um primeiro momento, eu não entendi. Havia uma mulher e três crianças. E uma das crianças era um menino da minha idade. E todos chamavam o meu pai de babá. Ele nunca contara isso para ninguém. Nunca. – Babá é a palavra que nós usamos para dizer papai... – Esclareceu ele, pois Mattie poderia não ter entendido. – Eu não sei por quanto tempo fiquei espiando. Acho que voltei lá várias vezes, durante meses. E ficava observando. Eu queria tudo aquilo. Queria as festas. Queria os brinquedos. Queria aquela casa enorme. E olhou para Mattie, vendo que ela não se movia. E a desejou. Muito. Como sempre a desejara, desde o primeiro dia... – Quando o meu pai me bateu novamente, dizendo que eu mentia, eu perguntei tudo. – Você era uma criança, Nicodemus... – Comentou ela. – Eu tinha 12 anos – corrigiu ele. – E era homem o suficiente para receber tapas do meu pai. Eu me transformei no emblema vivo da sua traição. Eu era a prova viva do envolvimento que ele mantinha com a mulher que um dia limpou a casa da sua verdadeira esposa. E ele me confessou que sempre nos visitava para que eu não me transformasse em um perdido como a minha mãe. – E Nicodemus fez mais


uma pausa dramática, com uma expressão fechada estampada no rosto. – Eu caí no chão, ensanguentado, e ele me obrigou a agradecer pelo que tinha feito todos aqueles anos. Depois saiu de casa, para nunca mais voltar. – Nunca mais? – Questionou ela. – Mas ele era o seu pai! – Ele parou de nos dar dinheiro – comentou ele. – Eu fui obrigado a deixar de ir à escola para trabalhar no que pudesse. E a minha mãe, cada vez mais frágil, começou a trabalhar em uma fábrica. Ela morreu por conta disso. Mattie não disse nada, ficou muda, e ele prosseguiu: – Certo dia, eu fui à casa do meu pai e pedi ajuda... e ele me levou à polícia, e me prenderam. Quando a minha mãe morreu, eu estava na cadeia. Ao sair de lá, resolvi que nunca mais escutaria uma mentira. Que ninguém jamais me assustaria com o seu poder ou a sua riqueza. Porém, aos vinte e tantos anos, rico, perdi minha cabeça ao conhecer a filha do meu chefe. – Nicodemus... – O nome dela era Arista, e ela era linda – explicou ele. – Eu fiquei cego por aquela mulher. Mas ela levou o meu dinheiro e resolveu se casar com outro homem rico, um homem do seu círculo social. Nesse instante, eu jurei ter aprendido a minha lição, mas... Mattie continuava muda, sem saber o que dizer. – Mas eu fui aos Estados Unidos e encontrei você – falou ele. – E você era tudo o que eu queria, Mattie. Você era mais do que eu sonhava. E o seu pai me tratou muito bem. Ninguém nunca me tratou daquela maneira. – Você queria apenas conquistar uma linda menina que viu em uma festa – afirmou ela. – E eu poderia ter sido qualquer outra menina. Eu poderia ser essa menina grega que você namorou. Você não me conhecia... e ainda não me conhece. – Eu amo você – declarou ele, pois já não havia motivo para esconder tal fato. – Todavia, você só me contou mentiras. E eu não suporto mentiras, Mattie. O ambiente ao redor deles ficou escuro, áspero, e ela o encarava com o coração partido. – Eu quero que você me conte a verdade – persistiu ele, decidido. – E não vou pedir de novo. UM MILHÃO de palavras lutavam na cabeça de Mattie, mas ela não ousaria abrir a boca. De alguma maneira, ela sabia que, caso começasse, não pararia de falar. E não podia fazer isso. Simplesmente não podia! E foi tomada por uma onda de pânico. – Não brinque comigo – disse ele. – Você não gostou da maneira como tudo terminou da última vez em que tentou me manipular com o sexo. E ela se aproximou, sentindo uma enorme eletricidade. – Eu só peço que você me conte a verdade, Mattie. Só isso – pediu ele. Mas ela não falou nada, pois não sabia como contar. Ao lado de Nicodemus, ela sempre lutava e mentia. Essa era a sua estratégia, e sempre fora a sua forma de sobrevivência. E Mattie se aproximou ainda mais, colando seu corpo ao dele, beijando seu antebraço. – Mattie... – Pronunciou ele. E ela lhe revelou todas as verdades que conhecia, e da única maneira que podia.


Ela o amava com a sua boca, com os seus dedos, com as suas bochechas coladas ao seu abdômen. E por isso o esperara. Por isso não se entregara a nenhum namorado. Nicodemus era seu. Ela sentia o mesmo que ele. O mesmo ardor. A mesma coisa exagerada. Ela sentia tudo. Mas não poderia se abrir dessa maneira. Ela não ousaria. Contudo, poderia oferecê-lo tudo isso. Ela o banhou em toda a beleza, terror e doçura possível. Deitou-o na cama e se postou em cima dele, tocando cada centímetro do seu corpo. Ela queria tatuá-lo com a sua boca. Como se isso fosse melhor do que qualquer verdade que ele quisesse ouvir. E então, em um movimento rápido, ela se sentou em cima dele, guiando-o ao interior do seu corpo. – Isso é demais... você é nova nesse assunto – murmurou Nicodemus. Mattie o encarou e começou a se mover, sem dizer nada. O ritmo era lento, cuidadoso, mas logo foi aumentando. Ela ganhava confiança. O que ela fazia era infinitamente melhor do que qualquer verdade. Aquilo era a verdade total, e ele sem dúvida notaria. Ele parecia notar tudo o que ela sentia, tudo o que ela nunca seria capaz de verbalizar. E sem dúvida notava o quão desesperadamente Mattie o amava. E chegaram juntos ao êxtase. Um êxtase total, devastador. Entretanto, quando Mattie acordou de um sono reparador, a manhã era radiante e o sol brilhava com força do lado de fora. No andar de baixo, uma empregada da casa tomava conta da cozinha com extrema precisão, e Nicodemus tinha desaparecido.


CAPÍTULO 9

A PRÓPRIA história de vida de Nicodemus o ridicularizava. À sua frente, estavam os papéis da fusão entre a Corporação Stathis e as Indústrias Whitaker. Uma fusão há tanto tempo ansiada, uma fusão que parecia indispensável. E o seu humor, naquela linda casa que comprara e reformara em um bairro caro de Nova York, era o pior possível. E Mattie era a culpada de tudo. Você precisa se esquecer dessa história, ordenou a si mesmo. Disse e repetiu. Mas não parecia funcionar. A verdade era que, há anos, sua vida girava em torno de Mattie Whitaker. E ele se casara com ela, ele se casara com uma mulher na qual não poderia confiar. E tal mulher era virgem... Ele continuava sem acreditar nisso, continuava incapaz de lidar com as implicações desse fato... E não sabia o que era pior: sua descrença ou o desejo primitivo que continuava nutrindo por Mattie. Outra noite tempestuosa de outono caía sobre Manhattan, lançando um manto escuro sobre a cidade. Ele ficou olhando para o lado de fora, ignorando o toque do seu celular. E ficou lembrando-se dos beijos de Mattie. Mattie, Mattie, Mattie... ela não saía da sua cabeça. E foi então que a verdade o atingiu em cheio. Após todo aquele tempo, após tantos esforços dedicados, Nicodemus não poderia dizer que se parecia com o pai. No entanto, por outro lado, ele não era muito diferente da sua triste mãe, certo? Os dois tinham passado anos e anos atrás de pessoas que nunca lhes dariam o que eles queriam. Ele construíra a sua vida baseada em sonhos ao lado de Mattie. Sonhos irreais. – Como você é capaz de aceitá-lo de volta... após tudo isso? – Nicodemus inquiriu à sua mãe. – Como é capaz de continuar esperando por ele?


– Meu filho, você ainda não sabe que a capacidade de perdoar do coração é muito maior do que você imagina – retrucou ela. – E é muito mais forte... E ele odiou sua mãe ao ouvir isso. Porém, com o passar dos anos, ele a entendeu um pouco mais... sobretudo após ter roubado boa parte da fortuna e da empresa do pai. – Ele nunca mais vai voltar – revelou Nicodemus à sua mãe. – Ele não se importa se estamos vivos ou mortos. – O amor não segue uma linha reta, Nicodemus – respondeu sua mãe, com um fiapo de voz. E Nicodemus sentiu uma enorme culpa por odiar o otimismo inabalável da mãe. Pouco tempo depois, como recompensa por tentar salvá-la, ele passou um mês na cadeia, e sua mãe morreu sozinha. Para ele, era impossível se livrar desses fantasmas do passado. Para piorar, ele fizera o mesmo que o pai... comprara casas opulentas, brinquedinhos caros... tudo para si mesmo... esquecendo-se do coração que batia silenciosamente no fundo do seu peito. E seguia o mesmo caminho suicida da mãe... Nicodemus deu um tapa na mesa do seu escritório. Ele precisava decidir o que faria com Mattie. Há tempos ele não era tomado por uma dúvida tão grande. Quando o assunto era Mattie Whitaker, ele sempre sabia o que fazer, sempre tinha um plano em mente... menos naquele momento. Afinal de contas, tudo mudara... mas a química que existia entre eles continuava viva. E ele experimentara a sua inocência... vira algumas verdades estampadas em seus olhos... verdades que ela se recusava a repetir em alto e bom som. E a amava ainda mais, muito mais. Mas não conseguia confiar nela. Não conseguia acreditar nela. Mattie era feita de segredos e mentiras, e ele não gostava desse tipo de coisa. Ele sabia aonde chegariam com aquela história. Sabia exatamente aonde chegariam. Pois já percorrera esse caminho várias vezes. Ele precisava encontrar uma maneira de se livrar dela. – MATTIE, VOCÊ deve ter feito alguma coisa para que ele se comportasse dessa maneira – declarou Chase, ao telefone, com certa irritação em seu tom de voz. Mattie ficou com vontade de sair correndo de sua casa, em Nova York, pegar um avião para Londres e dar um tapa na cara do irmão. Você está falando com o seu irmão mais velho, lembrou a si mesma. O único familiar que você tem neste mundo, e nada disso é culpa dele. E nada disso é culpa minha, claro, imediatamente ela se lembrou. Mattie respirou fundo, de pé em seu apartamento em Nova York. – Você quer uma análise ponto a ponto de tudo o que eu fiz enquanto esposa de Nicodemus? – Interrogou ela. – Pois saiba que algumas partes são um pouco constrangedoras, íntimas... como acontece em qualquer casamento, arranjado ou não. Para Mattie, não era complicado manter um tom de voz neutro, pois desde a partida de Nicodemus ela não sentia... nada. Nem mesmo quando Chase telefonou. Nem quando os jornais especulavam sobre o seu casamento. Nada a atingia.


– Eu não preciso dessa maldita dor de cabeça – disse ele. E Mattie fingiu não ter escutado as palavras do irmão. – Eu peço desculpas se o meu casamento resultou em acordos comerciais pouco vantajosos, mas você deve se lembrar o quanto eu estava animada... – Mencionou ela. – Mas quem poderia imaginar essa tragédia? Ah, claro, é verdade... eu imaginei. Chase suspirou, em um tom sarcástico. Ele não tinha nada a ver com o que acontecera entre sua irmã e Nicodemus naquela ilha grega. – Eu falei com Nicodemus há três dias, e ele não me contou nada sobre problemas entre vocês – disse Chase, soando impaciente. – Na verdade, nós nem tocamos no seu nome. – Eu sei... e é possível que eu tenha inventado tudo o que aconteceu no último mês da minha vida – falou Mattie, em tom melancólico. Ela ouviu o som de papéis sendo passados. Era incrível notar que Chase cuidava de assuntos de trabalho ao mesmo tempo em que falava com ela. – Contudo, pensando bem – proferiu Chase –, ele me pareceu exageradamente focado nos negócios. E Nicodemus costuma ser um pouco mais amigável, apenas um pouco... – Obrigada – disse ela. – Se for possível, eu gostaria de deixar um recado, e peço que você o encaminhe a Nicodemus quando voltar a falar com ele. – Mattie... – Pronunciou Chase, mas foi interrompido pela irmã. – Eu não quero ouvir o que você tem a dizer – falou ela, com um tom de voz decidido. – Eu fiz o que você queria que eu fizesse, e você sequer demonstrou a cortesia de ouvir o que aconteceu... Eu só liguei para você porque achei que, sendo meu único irmão, deveria conhecer a situação do meu casamento. Eu temia que isso pudesse afetar os seus negócios. Mas vejo que não... E no final das contas, o que importa, como sempre, são os negócios. – Isso não é verdade – retrucou Chase –, mas a empresa é tudo o que nos resta. E se isso não significa nada, Mattie, eu não sei o que mais poderia significar. Nesse instante, ela percebeu que era uma pessoa arrasada... pura e simplesmente arrasada. E deixou que tal verdade a invadisse, tomando-a por inteiro. Ela ficou com vontade de passar o resto da vida chorando. E Mattie passara a vida mentindo, pois havia uma verdade que nunca seria capaz de verbalizar. E tal processo a transformou em uma mulher incapaz de admitir o amor pelo homem que adorava. – Você pensou naquele dia? – Perguntou a Chase. O silêncio de Chase deixou claro que ele a entendera perfeitamente. E que pensava nisso, mas que nunca conversara sobre o assunto. Sobre um assunto de vinte anos... Mas ela queria se livrar daquela culpa. – Eu sei que você está chateada – assentiu Chase –, mas não há motivo para ressuscitar velhos fantasmas. Muito menos esses. – Você está dizendo isso porque não é assombrado todas as noites por eles... – O que nós ganharíamos com isso, Mattie? – indagou ele. – E sinto muito que você continue tendo pesadelos. Eu sinto mesmo. Mas isso só nos traria... – Por que nós fomos obrigados a mentir? Por quê? – Você tinha 8 anos – lembrou Chase, rapidamente. – Eu tinha 13. Sem dúvida, nossas lembranças são diferentes. Nós fizemos uma gentileza a ela. E também a nós. – Eu já não tenho 8 anos, Chase – contestou ela. – E quero saber do que você se lembra.


– A nossa mãe morreu na nossa frente – disse ele. – À beira de uma estrada. Mas nós estávamos a salvo. Eu não entendo o que mais você quer saber... – Eu quero a verdade – persistiu ela, e notou que suas pernas tremiam. – Esqueça isso, Mattie. É melhor deixarmos algumas coisas para trás. E Chase falou estar esperando outra ligação. E desligou. Praticamente sem se despedir, sem dizer que voltaria a entrar em contato, sem dar esperanças à irmã. E Mattie ficou sentada por um bom tempo, perdida. Desde os 8 anos, ela protegia algo que não sabia muito bem o que era. Desde então, era refém de certas memórias. E a única maneira que encontrou de conviver com isso foi se isolando de tudo e de todos. Ela não queria ser ferida nem queria ser obrigada a revelar nada a ninguém. E tudo era tão terrível que seu o relacionamento com Chase e com o pai nunca mais fora o mesmo... Mas com Nicodemus era diferente. Ele estava sempre por perto. Ele era um fato inconteste em sua vida. E ele nunca desistiu do que queria. Ele insistiu, insistiu... sempre agindo como Nicodemus. Mattie não sabia o que fazer consigo mesma. E entregara a ele muito mais do que entregara a qualquer outra pessoa. Mas Nicodemus estava certo, ela era uma mentirosa. Uma mentirosa com seus sentimentos arrasados. MATTIE ESTAVA na sala de espera do escritório de Nicodemus, em Manhattan, um escritório imponente, bem no centro da cidade, com vistas incríveis e que deixava impresso na retina de qualquer visitante a imagem de poder e grandeza de suas indústrias. – O sr. Stathis pode demorar um pouco – afirmou a recepcionista. – E ele não costuma receber visitas inesperadas. – O sr. Stathis vai me receber – repetiu Mattie, decidida. – Eu realmente preciso do nome da senhora – informou a mulher, com o sorriso mais profissional possível estampado no rosto. – Eu só peço que você lhe diga que o comportamento do seu chefe gerou consequências – declarou Mattie –, e que tais consequências esperam por ele aqui, nesta recepção. A recepcionista não disse nada mais. E Mattie esperou. Esperou bastante. Esperou muito. Menos mal que o seu smartphone estava com a carga quase completa, pois ela ficou vendo algumas notícias atrasadas enquanto esperava. Caso contrário, poderia ter dormido na poltrona em que se sentara. Finalmente, ele apareceu. E não estava sorrindo. Os seus olhos eram frios... mais frios do que nunca. – Você está grávida? – questionou ele, sem nenhuma pitada de gentileza, sem meias palavras. Ela não ficou corada. – Não – replicou Mattie. – Sendo assim, que consequências são essas? – Interrogou ele, agitado. – Eu não estou feliz com você – respondeu ela, em tom seco.


– Saiba que vou demorar a dormir após ter ouvido isso, Mattie – falou ele, com certo ar de desdém. – Todavia, até ir para a cama, eu preciso administrar uma empresa. E saiba que eu deixei as suas mentiras e os seus gritos na Grécia por um motivo. – Mas eu dormi com você – retrucou ela. – Obrigado por me lembrar – retorquiu ele –, embora a minha memória esteja funcionando perfeitamente. – Eu tenho 28 anos e nunca dormi com nenhum homem. Você me deu uma única noite, depois desapareceu. – Várias meninas desta cidade suja poderiam dizer a mesma coisa, sabia? Você deveria se dar por satisfeita, já que eu não obriguei que abandonasse a minha casa na Grécia. – Eu esperei muito para fazer sexo – declarou ela, mantendo a cabeça erguida. – Eu quero mais. E nós estamos casados. Caso procurasse outro homem nesta cidade suja, como você mesmo mencionou, eu estaria cometendo adultério. – Se você fizer isso... eu mato você – contestou ele. Mattie sorriu. – Sei... – Disse ela. E ele a ficou observando por um bom tempo, depois falou: – Você faz coisas sem pensar. – Caso você continue brincando comigo, eu vou brincar do que quiser – replicou ela. – A escolha é sua, Nicodemus. Ele agarrou o braço de Mattie, raivoso, e a carregou pelos corredores, à vista de todos os empregados que passavam por ali. Ao chegar a sua sala, ele a soltou e declarou: – Eu não sei o que fazer com você, mas não vou me entregar ao sexo, como se fosse um animal. – Eu não estou falando de sexo animal – assegurou ela –, a menos que você o considere divertido. Estou aberta a tudo. Até mesmo a alguns tapinhas, eu acho... Ele fez que não com a cabeça e curvou o corpo em cima da enorme mesa do seu escritório. – Eu me cansei de brincar com você, Mattie – admitiu Nicodemus, em tom baixo, muito baixo. – Por um bom tempo, eu imaginei que isso se tratasse de um jogo. Mas eu estava equivocado, pois não estou acostumado a isso. Acho que precisamos fazer alguns ajustes. Ela esperava um temperamento forte, acusações, calor... mas não aquilo. E não sabia o que fazer com aquele homem. Não sabia o que fazer com Nicodemus. Não sabia o que fazer com o seu marido. – Isso significa o divórcio? – Inquiriu ela. – Ou não? Eu não entendo... Você costuma ser mais direto. – Eu não fugi da Grécia, eu tinha de trabalhar – confessou ele. – E vamos ser honestos, você prefere assim. Você não é capaz de me oferecer o que eu quero. Ela ficou muda. – Eu não quero ferir os seus sentimentos, Mattie. É possível que eu nunca tenha sido justo com você. E acho que chegou a hora de parar de correr atrás de uma pessoa que não existe. – Mas o que eu vou fazer? – Perguntou ela, arrasada e chorando na frente de Nicodemus, embora isso não parecesse importar naquele momento. – Eu não entendo... – Disse ele. – Pensei que você fosse pular de alegria. Você sempre quis se livrar de mim, certo? Não era exatamente isso o que você queria? Você não me falou que gostaria de fugir a


nado da minha ilha? – Mas você nunca foi embora. Você sempre esteve por perto. E eu me acostumei... a você – afirmou Mattie. – Sendo assim, o que eu vou fazer quando você não estiver mais por perto? Ele a ficou observando por um bom tempo, depois fez que não com a cabeça. – Eu não quero perder mais tempo amando uma pessoa que destroça a minha mente. Eu sei como isso acabaria. E não quero seguir em frente. Não posso. – Você está mentindo – argumentou ela, chorando com mais vontade, e mesmo assim encarando-o firme. – E você sabe disso. Você está com medo, Nicodemus. Você está com muito medo.


CAPÍTULO 10

– O QUÊ? – Gritou ele, mas Mattie o ignorou. – Você me ouviu muito bem – disse ela. – O que aconteceu com o Nicodemus que me prometeu que o nosso casamento duraria para sempre? E com bebês, sem divórcios? – Eu também falei que não queria mentiras. Mas você não sabe viver assim. Você prefere os seus joguinhos, prefere manipular tudo usando o sexo. – Assim como você – afirmou ela. E se seguiu um silêncio. Mattie ouvia as batidas do seu próprio coração. Passado um tempo, ela mencionou: – Você também participou desses joguinhos sexuais... ainda que com motivos diferentes dos meus, mas isso não muda nada. O jogo é o mesmo, Nicodemus. – Pode ter certeza que não é o mesmo – respondeu ele. – Mas o padrão sempre foi o mesmo, desde o início. Você insistia, eu me esquivava... E foi assim durante anos. Você não tinha motivos para pensar que seria diferente na Grécia... mas no final descobriu que eu sou uma pessoa distinta, que eu era virgem, e a sua moral ficou abalada. – Você não pode torcer o assunto à sua maneira. Não pode, Mattie. Isso não muda nada – insistia ele. – Nós poderíamos ter administrado esse casamento de várias maneiras... poderia ter sido um esforço em equipe – pronunciou ela. – Mas você me ameaçou, me colocou contra a parede. Você comemorou sua vitória sobre mim. – Você é inacreditável... – Disse ele. – Você está realmente dizendo que eu deveria ter me aproximado de outra maneira? Está dizendo que tudo teria sido diferente? – Eu não sei – confessou ela –, o que sei é que você não poderia arriscar perder. – Sendo assim, isso tudo deve ser culpa minha, certo? – Indagou ele. – Não é isso o que você está querendo dizer, Mattie? – Não! Não é isso o que eu estou querendo dizer. Mas você queria que eu reagisse da maneira como reagi. Pois você queria ser um mártir, transformando-me na víbora que chegou ao ponto de se manter virgem para acabar com a sua reputação.


– E por que outro motivo você teria se mantido virgem? – Questionou ele, com a voz trêmula. – Existe algum outro motivo plausível para essa loucura? – Por sua causa, seu idiota! – Gritou ela. NICODEMUS FICOU olhando para Mattie, para a sua linda esposa, para aquela criatura guerreira que o tomara por inteiro, para uma mulher que ficava com as bochechas rosadas e os olhos brilhantes. E ela parecia perfeita em suas roupas femininas, perfeita dos pés à cabeça. Ela era uma fantasia. E essa mesma mulher o acabara de chamar de idiota. – Por minha causa? – Interrogou ele, perdido, sem saber muito bem como reagir àquela confissão. – Sim, por sua causa – retrucou Mattie. – Você sempre esteve por perto, certo? Desde os meus 18 anos. E de que maneira os meninos com quem eu namorei poderiam ser comparados a você? O que eu sempre senti por você me consumia, Nicodemus. Eu passei mais tempo tentando evitá-lo do que me encontrando com outros meninos. E não parecia certo seguir em frente com outras investidas amorosas... pois você não saía de perto, sempre com a certeza de que eu acabaria aceitando. – Cuidado, Mattie... ou eu vou acabar pensando que você se importaria... – É exatamente isso o que eu estou tentando explicar – contestou ela. – Por que outro motivo eu estaria aqui, no seu escritório, no centro de Nova York, após ter sido abandonada na Grécia? – Por conta do sexo? – Sugeriu ele. – Foi o que você falou à recepcionista... – Você é mesmo um idiota! Um completo idiota – afirmou ela. – Após ter esperado 28 anos para fazer sexo, faria total sentido que eu saísse correndo atrás de homens espalhados por toda Manhattan, certo? Como se eu mudasse, de repente, da água para o vinho. Como se essa história não tivesse absolutamente nada a ver com você. Sim, Nicodemus, você é um idiota. Não resta qualquer dúvida. Isso é um fato. – Não me provoque, Mattie – declarou ele. – Essa é a única coisa que eu sei fazer bem: provocá-lo. E você sempre mordeu a isca, Nicodemus. Ele deu um passo na sua direção, mas Mattie deu um passo atrás e, com os olhos fixos nele, gritou: – Não toque em mim! Isso complicaria tudo. E ele reconheceu as coisas que fluíam no interior do seu corpo naquele exato instante, embora não fosse capaz de acreditar em nada do que sentia. Triunfo. Esperança... além do velho e conhecido desejo de sempre. E ele sabia coisas demais. E sabia que a realidade de Mattie vencia suas fantasias, arrasando com algumas delas. – Você queria honestidade – retorquiu ela –, mas não consegue aceitar que a história real pode ser bem diferente da que você imaginou. Ela se aproximou das janelas, onde ficou parada, de pé, com Nova York aos seus pés. O centro daquela enorme cidade parecia rugir lá embaixo, mas naquele escritório o ambiente era gélido, paralisador. Esse sempre foi o meu sonho, pensou ele. Nicodemus sempre quis ter Mattie no seu escritório, ao seu lado. – A minha mãe morreu quando eu tinha 8 anos – revelou ela. – Mas você já conhece essa história. – Claro que eu conheço. Ela morreu em um acidente na África do Sul, bem no meio das férias de verão. Foi uma tragédia. – Sim, foi uma tragédia – admitiu ela –, e a culpa foi minha.


Nicodemus a observava, calado. Mattie engoliu em seco, e por alguma razão ele sentiu um frio percorrendo sua espinha. E Mattie deve ter visto uma pitada de encorajamento em seu rosto, pois pigarreou e seguiu em frente: – Eu estava sentada no banco de trás, com Chase – disse ela, baixando o tom de voz. – A minha mãe estava no banco do carona, conversando com o motorista. Eu estava cantando. Chase pediu que eu parasse. Todos pediram que eu parasse. E eu bati nele. O olhar de Mattie ficou escurecido. Nesse momento, Nicodemus percebeu que aquele era o seu pesadelo, a sua condenação. E certamente era nessa história que ela pensava aquela noite em que se escondeu na casa ao lado da piscina. – Mas como você poderia causar um acidente sentada no banco traseiro? – Inquiriu Nicodemus. – Eu bati no Chase – replicou ela. – Ele zombou de mim, e eu bati novamente. Todos ficaram agitados dentro do carro, e eu fiquei muito nervosa. Então eu bati no motorista... e em pouco tempo estávamos na beira da estrada, e a minha mãe... – Ela fez uma pausa, recuperando suas forças para seguir em frente. – A culpa foi minha, Nicodemus. Eu bati no motorista e ele perdeu o controle do carro. Ele também morreu. – Mattie... foi um acidente – falou ele. – Mas nada foi o mesmo depois disso – afirmou ela. – Todos fingiam, mas eu sabia. Eles chegaram a me obrigar a mentir sobre o assunto. Por conta disso, sempre que eu repito que eu e Chase não estávamos no carro, a situação piora. Eu arruinei a minha família e matei um homem inocente. Mesmo assim, eu fui poupada. Ele se aproximou, agarrou os seus braços e depois a abraçou. E Nicodemus a abraçou da maneira como sonhava fazer há anos... e até então só chegara perto disso naquela noite ao lado da piscina, naquela noite em que a encontrou delirando, morta de medo, acuada. Ela tremia. Mattie tremia mais do que nunca. E ele a abraçou com mais força, baixando a cabeça para observá-la, vendo suas lágrimas, vendo sua expressão de culpa, vendo sua tristeza profunda. E então ele entendeu: desde o início, era isso o que a assustava tanto, era isso o que a afastava dele. – Você sempre me quis – assegurou ela –, mas eu sempre imaginei que mudaria de ideia caso soubesse a verdade. – Nada me faria mudar de ideia, Mattie. Muito menos a revelação de que, quando criança, você agiu de maneira infantil. Aquilo foi um acidente terrível, mas você sobreviveu. – Que tipo de pessoa mata a própria mãe, Nicodemus? – Perguntou ela. – Uma pessoa como eu – replicou ele. – E sou tão culpado quanto você. – Não é a mesma coisa – retrucou ela. – Claro que é – insistiu Nicodemus –, e eu acho que chegou a hora de nos perdoarmos. Ela respirou fundo e declarou: – Se você tentar... E ele, sem pensar duas vezes, a beijou. E SÓ após o segundo beijo, após um calor infernal, após sentir a pressão dos lábios de Nicodemus, ela pensou que poderia nunca mais receber aquele tipo de beijo. Entretanto, quando percebeu que ele sorria, ela suspirou.


– Eu deveria tê-lo beijado naquele baile, há centenas de anos, e desta forma nós teríamos economizado um bom tempo – sussurrou ele. – Essa culpa que passamos anos sentindo sempre foi algo completamente desnecessário. Mattie ergueu o rosto e arregalou os olhos. Era duro acreditar na expressão impressa no rosto de Nicodemus. Uma expressão brilhante. Uma expressão que atingia diretamente o seu peito. – Você desistiu de mim – pronunciou ela, em um tom muito sério. – Você desistiu de nós. Nunca mais volte a fazer isso. Nunca mais! Ele sorriu com ainda mais vontade. – A minha versão de “desistir de alguém” envolveu assinar um contrato de fusão com a empresa da sua família e voltar à cidade onde você mora – informou ele, acariciando a testa de Mattie, brincando com as mechas do seu cabelo e percebendo que ela sentia vontade de chorar ao ouvir suas palavras. – Você não precisa se preocupar, Mattie. – Eu nunca dormi na casa de ninguém, Nicodemus – confessou ela. – Nunca. Mas fiz isso naquela noite, na Grécia. No entanto, quando eu acordei, você tinha ido embora. Eu estava sozinha, abandonada, em um país estranho... – Eu não quero voltar a brincar de nada disso, estou cansado desses jogos – disse ele, e tais palavras soaram como música aos ouvidos de Mattie, uma música perfeita, doce, melódica. – Tudo o que eu quero é você. – E você poderá ter a mim – falou ela, como se fossem votos de lealdade. E ele a encarou. O olhar de Nicodemus a cegava e a fazia se esquecer das várias fofocas dos jornais. Fofocas terríveis, ácidas. – Porém, eu exijo o mesmo tratamento de volta. – Eu sou todo seu, Mattie – admitiu ele, aproximando-se mais uma vez do seu corpo, erguendo-a como se ela não pesasse nada, olhando para ela como se fosse um milagre, como se tudo finalmente fizesse sentido, como se aquilo significasse tudo. – Tudo o que você precisava fazer era pedir. – Eu amo você – declarou ela, em tom suave, passando os braços ao redor do pescoço de Nicodemus e sorrindo para ele, como se ele fosse o seu mundo. E ele era o seu mundo... ele era seu. – Além disso, sendo completamente honesta com você, eu acho que sempre o amei. E o beijou, e entre eles surgiu um brilhante faixo de luz. Uma luz que poderia cegar de tão intensa. Além do amor que existia há anos, há muitos anos, esperando para ser notado. O SOL de verão entrava pela janela enorme, e Mattie despertou lentamente, deixando que o brilho do seu calor a invadisse e a aquecesse, passeando pelo seu corpo como se fossem as habilidosas mãos do seu marido. Ela rolou na cama em busca de Nicodemus, e ficou completamente desperta ao ouvir sua voz. – Já está sentindo a minha falta? – Indagou ele, com a voz suave. Ao abrir os olhos, Mattie viu que Nicodemus estava de pé, à sua frente, vestindo apenas uma toalha enrolada na cintura. Ela sorriu para ele, alegre e sonolenta. – Sempre... – Assegurou ela. – Eu sempre sentirei a sua falta. Você deveria ter me levado junto. Eu queria ter tomado banho com você. É incrível o que uma única boa noite de sono pode fazer... e mais ainda três anos de boas noites de sono. Três anos de aprendizado sobre como amar aquele homem da maneira como ele merecia ser


amado. Três anos de aprendizado sobre como se permitir ser amada por ele. Os três melhores anos de sua vida. Quanto a isso, Mattie não tinha qualquer dúvida. – Na última vez que eu tentei levá-la ao banheiro você agiu como se eu estivesse cometendo um atentado contra a sua vida – mencionou ele. – E se demonstrou incrivelmente preguiçosa, minha princesa. – Eu sei – disse ela, concordando com ele e abrindo um sorriso. – E eu exigi muita coisa em troca. Nicodemus se aproximou dela, deitando-se na cama e tomando sua boca com uma ferocidade maravilhosa, uma ferocidade que a fez suspirar, percebendo que tudo ficava mais quente ao seu redor. – Eu amo você – murmurou ela, quando ele se afastou um pouco e sorriu, para depois beijá-la de novo, desta vez com mais ímpeto e mais força. – Eu também amo você – respondeu ele. – Por conta disso, eu espero que você entenda que eu não poderia suportar mais segredos entre nós. Será que eu não fui muito claro no passado? Eu acho que não... – Eu não tenho a menor ideia sobre o que você está falando – proferiu ela, mentindo. – Eu sou uma esposa ideal, uma esposa modelo. O que mais você poderia pedir? Eu sou a perfeita peça de decoração para a sua vida quase perfeita. – Uma peça de decoração não costuma trabalhar com relações públicas... embora as duas coisas sirvam para decorar, para ocupar espaços vazios – assegurou ele, tomando-a nos braços e rolando com ela na cama, para depois se deitar ao seu lado. – Você se transformou em uma pessoa altamente profissional. – Eu peço desculpas – falou ela, embora não se arrependesse tanto, e por isso deixou escapar uma risada nervosa. – Eu sei que você preferia a época em que eu era uma menina frívola e mimada. Ele apoiou o queixo nos cotovelos e ficou olhando para Mattie. O amor que ela sentia era tão forte que parecia uma onda feroz invadindo o seu corpo. Uma onda estranha, pois era decidida, mas ao mesmo tempo doce e deliciosa. E ela adorava aquele sorriso no rosto de Nicodemus, aquele sorriso cada vez mais frequente, um sorriso que transformava o seu rosto em outro, em um rosto muito mais leve e doce. E adorava a maneira como o passara a conhecer tão bem, tão incrivelmente bem, tanto que chegou ao ponto de se conhecer muito melhor. A intimidade, no final das contas, provava-se algo extremamente valioso, ainda que custasse muitas brigas para ser finalmente alcançada... além, é claro, de muito medo e muita dor. No trajeto, a sensação era a de estar ficando internamente exposta, vulnerável, e aquilo seria apenas o começo. A cada dia a profundidade era maior. A dor era maior. Mas ao mesmo tempo tudo melhorava. E melhorava muito. Melhorava milagrosamente. – Eu quero que você me diga, eu quero que você repita... – pediu ele, sorrindo para ela. – Embora eu já saiba. – Se você já sabe, por que eu deveria repetir o que já declarei? – Questionou ela, sem acreditar totalmente no que acabara de ouvir, naquele pedido incomum. – Os seus poderes psicóticos devem estar voltando a entrar em ação, certo? – As confissões são boas para a alma – argumentou ele, deixando que uma de suas mãos passeasse livremente pelo corpo de Mattie, aquecendo-a por onde passava, dos seios rígidos à tatuagem de fênix ao lado do seu ventre. – Especialmente as suas confissões, minha querida. – Você não acha que deveria me dar umas palmadas e arrancar certas confissões de mim? – Sugeriu ela, tomando a mão de Nicodemus na sua e a agarrando firme, bem em cima do ponto onde o seu bebê


já crescia. – Você está ficando viciada nesse tipo de coisa – disse ele, fingindo fazer uma reprimenda, mas em tom de brincadeira. – Bater em você seria uma espécie de punição, Mattie. Não seria um prazer. – Mentiroso... – Retorquiu ela, tentando-o, e Nicodemus sorriu. – Eu amo você – declarou ele, lançando um voto de amor também com o seu olhar, um olhar que a aqueceu por inteiro, dos pés à cabeça. – Eu amo você e amo o nosso bebê. Aliás, você já deveria ter me contado há semanas sobre ele. Após ter dito essas palavras, ele a fez pagar... e da maneira mais deliciosa possível. Da maneira como ele sempre fazia. Da maneira como o conhecia tão bem... assim como sabia que o sol surgiria de manhã, que o amaria para o resto da vida, que aquele filho que teria com ele seria um menino que nunca escutaria uma mentira saída da boca do seu pai... um menino que jamais seria abandonado pelo pai.


DESEJO POSSESSIVO Sara Craven

Bem, a casa estava vazia e ela não esperava ficar sozinha com ele em lugar nenhum... nunca. Passou pela sua cabeça que a presença dele ali, estranhamente, fazia com que o corredor parecesse menor ainda. E o silêncio prolongado estava começando a se tornar inexplicavelmente perigoso. – Lamento pelo comentário sobre o chalé... – Ginny apressou-se a dizer. – Receio que minha mãe estivesse perturbada demais ontem quando o chamou de barraco. – Mas hoje tudo se arranjou? Ela aceitou as coisas? Gostaria de acreditar nisso... – Ele olhou de relance ao redor. – O que ela vai achar daqui? Em vez de dizer o óbvio, Ginny falou: – Bem, é meio pequeno, precisa de reparos... mas acho que com o tempo pode ficar... charmoso. – Tout de même, ela não veio ver a casa com você. – Acho que você não entende o choque disso tudo para nós, que nem mesmo sabíamos que... seu pai estava doente. – Nem eu sabia. Foi algo que ele escondeu de todos. – Como outras questões – disse Ginny, sem pensar. A face do homem era cínica. – Talvez ele soubesse que as notícias sobre minha existência não seriam bem-vindas. – Minha mãe não o culparia por algo que acontecera bem antes de ele a conhecer. Se ela soubesse... poderia não ter tido essa... sensação de ter sido traída. – Ela se sente traída? Interessante... Ginny ficou aparentemente nervosa. – Bem, não vim até aqui para discutir nada disso. Vou deixá-lo sozinho com sua inspeção. – Ela começou a descer as escadas. – Quase esqueci. Tenho um convite a fazer... – Convite? – Sim... para que jante conosco. Amanhã. Ela viu a incredulidade na face dele, desejou nunca ter pensado nisso, menos ainda ter feito o convite. Mas agora era tarde. Ginny continuou a descer, e, ao buscar o envelope na bolsa, tropeça na


escada, mas ele a segurou com braços que pareciam de aço. Por um instante, com o rosto no peito dele, Ginny sentiu o cheiro de lã limpa, sabão e o aroma de pele masculina. – Deveria tomar mais cuidado, mademoiselle. Sua família não precisa de outra tragédia. Ginny ruborizou-se. – Geralmente não sou tão desajeitada assim. – Ela entregou o envelope a ele. – Claro que não precisa decidir imediatamente. Não ficaremos ofendidas se estiver muito ocupado. – Naturalmente que vou aceitar o convite – disse ele com a voz sedosa. – Fico intrigado que sua mãe esteja dando o braço a torcer. O convite vem dela, não? – Oh, sim – apressou-se a dizer Ginny, mas sua breve hesitação foi fatal. – É preciso prática para ser uma boa mentirosa, ma mie. Esperemos que você não tenha que fazer isso com tanta frequência, pois duvido que um dia será uma excelente mentirosa. Mas claramente seus poderes persuasivos com a mamãe são formidable. – Se deseja franqueza, posso perguntar-lhe se algum dia você faz a barba? – Bien sûr... de vez em quando. Especialmente se eu for para a cama com uma mulher. Mas duvido que eu tenha tanta sorte – disse ele, pensativo. – Sua bela irmã já tem um amante, hélas. – Minha irmã vai se casar, monsieur. Ela tem um noivo. – Um noivo rico, segundo as conversas no bar ontem à noite. – Ele deu de ombros. – O que ninguém pode decidir é se o caso terminará em casamento ou se vai terminar quando ele decidir que já pagou muito por seus prazeres. Ginny ficou ofegante, e ele segurou em seu pulso. – Então, a menina educada aqui tem caráter. Imagino o que mais você tenha... Ele a puxou para junto de si, circundando-a com o outro braço, e, enquanto ela abria os lábios para protestar, ele levou sua boca para junto da dela.


456 – UM HOMEM INESQUECÍVEL – MAGGIE COX Lara Bradley sempre foi apaixonada por Gabriel Devenish, mas ele só a via como a irmãzinha de seu melhor amigo. Anos depois, eles se reencontram, e agora é Gabriel quem fará de tudo para seduzi-la… 458 – DESEJO POSSESSIVO – SARA CRAVEN Após a morte de seu padrasto, o destino de Ginny fica nas mãos do ambicioso Andre Duchard. Ele era o homem errado para ela, porém, um beijo avassalador deixa ambos desejando por mais. 459 – SEM DEFESAS – CAITLIN CREWS Para salvar os negócios da família, Zara precisa se casar com o irresistível Chase Whitaker. Ele tem apenas um desejo: vingar-se do pai de Zara. Contudo, não esperava ficar tão cativado pelo charme e inocência de sua esposa.

Últimos lançamentos: 454 – ENTRE O AMOR E A VINGANÇA – CAITLIN CREWS 455– MUNDO DE DESEJO – SUSAN STEPHENS

Próximos lançamentos: 460 – DILEMA DA PAIXÃO – KATE WALKER 461 – SALVA PELA PAIXÃO – JANE PORTER 462 – SEGREDOS DE AMANTE – LYNNE GRAHAM


463 – SALVA PELA SEDUÇÃO – JANE PORTER


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ C945s Crews, Caitlin Sem escolha [recurso eletrônico] / Caitlin Crews; tradução Rodrigo Peixoto. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Harlequin, 2015. recurso digital: il. Tradução de: His for a price Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-398-1953-9 (recurso eletrônico) 1. Romance americano. 2. Livros eletrônicos. I. Peixoto, Rodrigo. II. Título. 15-24459

CDD: 813 CDU: 821.111(73)-3

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: HIS FOR A PRICE Copyright © 2014 by Caitlin Crews Originalmente publicado em 2014 por Mills & Boon Modern Romance Arte-final de capa: Isabelle Paiva Produção do arquivo ePub: Ranna Studio Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171, 4º andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br


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Caitlin Crews - Sem Escolha