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Proibido no passado. Desejado no presente. Lara Bradley é tomada pela ansiedade quando o milionário Gabriel Devenish aparece de surpresa à sua porta. Ele não é mais o garoto bacana por quem Lara nutria uma paixão de adolescente. Gabriel tornara-se um homem duro e implacável... Ele sabe que deve se manter distante da inocente Lara e deixar claro que qualquer esperança de um final feliz ao lado dele é inútil. Porém, ao tentar convencê-la de que é o homem errado, Gabriel descobre o quanto Lara o deixa feliz pelo simples fato de derrubar as barreiras que construíra para proteger seu coração!


– Você também é generosa demais, Lara. Vou deixar claro o homem que sou, caso esteja alimentando a crença de que sou melhor do que na verdade sou. Não sou. Não dou a mínima para os outros. Ao contrário de você e de sua família, gosto de tirar e não de dar. No mundo em que vivo, os fracos caem e são logo esquecidos. Para atingir meus objetivos, aprendi a não deixar nada nem ninguém atravessar meu caminho. Se eu voltar a fazer parte de sua vida, garanto que vou magoar você e fazer com que se arrependa do dia em que me encontrou. – Você fala como se eu estivesse alimentando alguma esperança de ficarmos juntos. Não se preocupe, Gabriel, não estou. Ela fungou e soltou o braço. – É mesmo? Num segundo Gabriel se levantou e a puxou pela cintura e a apertou contra o peito de aço. Lara não teve tempo para pensar ou sequer sentir-se alarmada. Mas as batidas do coração aceleraram quando ele a segurou pela nuca e puxou seu rosto. Então o mundo que conhecia desapareceu como se tudo não passasse de um sonho nebuloso.


Querida leitora, Criado por um tio ambicioso, Gabriel Devenish aprendeu que somente o dinheiro importa. Até reencontrar Lara Bradley, irmã de seu melhor amigo da época da faculdade. Desde a adolescência, Lara é apaixonada por Gabriel. Apesar de ter se tornado um homem duro e cínico, de um modo especial ela consegue derreter o gelo em volta de seu coração. Mas Gabriel teria força de vontade suficiente para abandonar o rancor e entregar-se de corpo e alma para Lara? Boa leitura! Equipe Editorial Harlequin Books


Maggie Cox

UM HOMEM INESQUECÍVEL

Tradução Marie Olivier

2015


CAPÍTULO 1

NA HORA tinha parecido uma boa ideia. Se Lara tivesse se lembrado do sábio aviso do irmão Sean, “espere o inesperado”, teria pensado duas vezes antes de concordar em passar uns dias na casa dos pais, enquanto eles tiravam umas restauradoras férias no sul da França. Sean não estava mais neste mundo para repetir essa pérola... Bem, na verdade, não lhe passaria pela cabeça recusar o pedido dos pais para que cuidasse da casa, quando ainda se recuperavam da tragédia que os atingira seis meses atrás. O filho Sean, irmão de Lara, tinha falecido. Contraíra malária na África, enquanto realizava trabalhos de caridade, e não se recuperara. Parecia impossível tal coisa acontecer no século XXI, mas infelizmente acontecera. Lara tinha voltado à casa dos pais havia uma semana e ainda esperava ver o irmão entrar com um alegre: “Ponha a chaleira no fogo, irmãzinha. Seria capaz de matar por uma xícara de chá”, como dizia quando eram adolescentes. O tempo parecia determinado a pregar-lhe peças nos últimos dias. Em determinado minuto o tempo se arrastava, ameaçando impedi-la de respirar, e no outro... No outro, parecia sumir por completo, deixando-a com a sensação de estar aprisionada num sonho infeliz e desolador do qual não conseguia acordar. Embora adorasse o trabalho, não podia negar estar satisfeita com o final do semestre. Suas responsabilidades na biblioteca tinham sido particularmente árduas no último mês, pois com o fim do semestre, vários estudantes pediam sua ajuda para pedir livros nos quais pudessem fazer pesquisas em casa. Agora, no entanto, que tudo terminara, não tinha outra escolha senão enfrentar a dor pela perda de Sean. Na verdade, não saboreava a ideia dos dias de verão à sua frente, como de costume. Nada a animava, exceto as caminhadas diárias com Barney, o devotado cachorro border terrier dos pais. Lara temia o tempo entregue à solidão na casa dos pais. Poderia ter organizado uma viagem de férias, após o retorno dos pais da França, mas não tinha ânimo. Duas amigas a convidaram para uma viagem à Itália, mas ela não aceitou. Não acreditava que pudesse ser boa companhia quando ainda não se recuperara da morte de Sean. Aquela era a sua segunda semana na casa dos pais. Lara, sentada à mesa da cozinha, forçava a barra para comer os cereais do café da manhã quando ouviu a campainha. Um som lírico não a deveria


sobressaltar. Mas sobressaltou. Ultimamente, tudo parecia assustá-la. Era como se o fato de Sean ter sido roubado da família tão de repente fosse o prenúncio de infelicidade para ela e a família. Barney, levantando-se da posição relaxada a seus pés, correu e começou a latir sem parar, abanando o rabo como se antecipasse a visita de um amigo. Lara ficou ainda mais nervosa. Eram 8h30 da manhã... Quem apareceria tão cedo? – Pelo amor de Deus – murmurou entre os dentes –, a esta hora só pode ser o carteiro. Ergueu a mão para proteger os olhos e vislumbrou uma sombra alta atrás do vidro. Embora não fizesse ideia de quem poderia ser, tinha certeza de que não se tratava do carteiro. O porte ereto sugeria uma visita oficial. Sentiu um frio no estômago. Por favor, meu Deus, outra má notícia não. Abriu a porta com cautela. – Bom dia. À sua frente, um homem de olhos tão azuis que a deixaram sem fôlego. Foi invadida pelo choque. Ao fitar o rosto de maçãs proeminentes, queixo quadrado e covinha, achou estar sonhando. À sua frente, a visão do homem que nunca acreditou voltar a ver tão cedo a deixou ao mesmo tempo sem palavras e atordoada. O sofisticado terno escuro listrado e a camisa branca ressaltavam os ombros largos e o peito atlético. Sempre tinha sido classudo, mesmo quando ainda era estudante. Algumas pessoas nasciam com porte aristocrático e ele era uma delas. Quando o perfume da sexy e cara colônia penetrou em suas narinas, ela teve vontade de se beliscar, numa tentativa de certificar-se de não estar sonhando. A visita abriu um sorriso tímido e ela de pronto percebeu seu constrangimento, como se por um desconcertante momento ele não soubesse o que dizer. – Posso falar com o sr. ou com a sra. Bradley? Sou, era amigo de Sean. Peço desculpas por aparecer tão cedo, mas acabo de chegar de Nova York e queria apresentar minhas condolências à família. Lara o encarou, as pernas trêmulas. De repente, se deu conta de que Gabriel Devenish, o melhor amigo do irmão na época da faculdade, não a tinha reconhecido. Sua reação inicial foi de alívio, logo substituída por um frio no estômago e achou que fosse desmaiar. A lembrança de Gabriel a perseguira anos a fio. Ele e Sean tinham feito faculdade juntos. Mas enquanto o irmão, dono de um coração generoso, optara por serviços comunitários, Gabriel seguira os passos do tio rico e entrara no mundo brutal das finanças. Certa vez, o irmão tinha lhe contado, em tom desolado, que ouvira boatos de que o amigo ganhara uma verdadeira fortuna desde a mudança para Nova York. De qualquer modo, desde a primeira vez que pusera os olhos em Gabriel, num dia de verão há 13 anos, quando ela ainda tinha apenas 16 anos, tinha ficado louca por ele. Ela devia ser uns quatro anos mais moça que ele e ainda estudava no ensino médio, mas isso não alterara seus sentimentos. E num tolo impulso, do qual se arrependera o resto da vida, certa feita havia confessado seus sentimentos. Recordou a noite em que Sean resolvera dar uma festa em casa aproveitando-se do fato de que os pais tinham viajado. Para ganhar coragem, Lara tinha bebido vinho demais e acabara se colocando em uma situação constrangedora. Dançava com Gabriel, a festa no auge. Encantada com os comentários sedutores e com o que ela considerou um sorriso convidativo, ela contara envergonhada o quanto gostava dele... Na verdade, que gostava um bocado dele. Então, fechando os olhos, aproximou o rosto à espera de um beijo.


Ainda se lembrava da expressão horrorizada no rosto do rapaz e da sensação de vergonha quando ele a afastou, dizendo que ela era a irmãzinha de seu amigo e, na certa, tinha entendido mal... Ele estava apenas brincando com ela. Lara lembrava-se das palavras tim-tim por tim-tim. Ele acrescentara: – Tenho certeza de que deve ter um monte de garotos da sua idade que adorariam ser seu namorado, Lara, mas eu sou velho demais para você. Além do mais, estou a fim daquela loura alta e magra parada ali. Ela é uma de minhas supervisoras na faculdade e não esconde o fato de que gosta de mim. Nem mesmo a falsa sensação de coragem proporcionada pelo álcool fora capaz de proteger Lara da devastadora sensação de rejeição... Sim, ficou devastada, e humilhada também. Havia passado um tempão tentando descobrir os motivos de ele a ter rejeitado. Teria sido apenas por ela ser mais moça e a irmãzinha de Sean? Quando a gente gosta de alguém – de verdade – a diferença de idade não importa. Lara chegara à conclusão de que Gabriel não gostava nada dela como mulher, independentemente do laço de amizade entre eles e do fato de ser a irmã de seu melhor amigo. Mesmo na ocasião, seus interesses voltavam-se para oportunidades com potencial bem mais lucrativo, um dos exemplos sendo a loura magra, sua supervisora na universidade. Desde o doloroso incidente na festa, os relacionamentos de Lara nunca passavam do estágio da amizade, mesmo quando ela desejava mais. O problema é que não confiava mais em si mesma para ler os sinais corretos no que dizia respeito ao sexo oposto. E também, apesar da rejeição de Gabriel, ela ainda alimentava sentimentos românticos impossíveis em relação ao amigo do irmão. Teria o transformado no homem de seus sonhos ao longo dos anos? Uma fantasia com a qual nenhum outro homem poderia competir? Gabriel tinha sido definitivamente um homem difícil de esquecer... Embora a garganta tivesse ressecada, Lara conseguiu falar. – Você é Gabriel, Gabriel Devenish, não é? Você era o melhor amigo de meu irmão na universidade. Meus pais não estão. Viajaram para o sul da França. Atrás de Lara, odiando ser ignorado, Barney começou a latir de novo. Satisfeita com a momentânea distração, o que lhe permitiu colocar a cabeça no lugar, ela se ajoelhou e acariciou o pelo amarelado com carinho. – Quieto, Barney, não precisa fazer escândalo. – Você é Lara? A irmãzinha de Sean? Erguendo o olhar, ela mergulhou no azul hipnotizante dos olhos de Gabriel como um mergulhador no mar Mediterrâneo. Com o coração palpitando, assentiu devagar. – Isso mesmo. Embora não possa mais ser considerada irmãzinha. Erguendo-se novamente e exibindo seu 1,70m de pernas compridas e curvas femininas num jeans azul-claro e camisa branca justa, nada mais tinha da adolescente gorducha e esquisita de 16 anos. Não era de estranhar que Gabriel não a tivesse reconhecido. – Bem, eu não a reconheci... Ele parecia sinceramente surpreso e Lara chegou a detectar um leve rubor no rosto. – Você cresceu. Olhe só... Enfiando os dedos compridos no cabelo farto, inadvertidamente ele chamou sua atenção para a testa larga marcada por duas rugas profundas. Ao que tudo indicava, ele não usava aquele sorriso devastador com frequência nos últimos tempos. Não importa qual caminho ele escolhera na vida, mas não


aparentava ser tranquilo. Ele podia ser rico, mas o dinheiro não protegia ninguém das armadilhas do destino ao longo do caminho... Nada era de graça. – Só fiquei sabendo do falecimento de Sean ontem – confessou Gabriel. – Vi uma matéria no jornal sobre pessoas que trabalhavam com assistência em países distantes e que tinham morrido de malária e o nome dele constava da lista. A matéria dizia que ele tinha ganhado recentemente um prestigiado prêmio pelo trabalho. Fiquei atônito ao saber que ele tinha morrido. Sinto-me péssimo por não ter mantido contado depois que deixamos a universidade. – Vocês tomaram rumos distintos. – Lara deu de ombros com um sorriso tímido. Odiaria que Gabriel achasse que ela o criticava, embora ela nunca tivesse compreendido por que ele escolhera uma profissão que, segundo seu ponto de vista, resumia-se mais em tirar do que em dar – uma profissão totalmente oposta à de Sean. – Mas agradeço ter vindo apresentar suas condolências. Meus pais vão ficar comovidos quando souberem. Como deve saber, eles gostavam muito de você. De qualquer modo, deve estar ocupado, então não vou prendê-lo. Lara desejava fervorosamente que ele aproveitasse a deixa e fosse embora. Não queria, de jeito nenhum, que ele imaginasse que ela estava feliz da vida em revê-lo. Havia deixado de ser a tola adolescente de 16 anos que provavelmente o deixara sem graça ao ouvir a confissão de amor. Mas Gabriel suspirou e permaneceu onde estava. – Olha, sem querer ser presunçoso, mas existe alguma chance de ser convidado para uma xícara de chá? Prometo não tomar muito do seu tempo. Por mais que ela desejasse inventar uma desculpa convincente e alegar estar mesmo muito ocupada, Lara vislumbrou uma inesperada expressão de vulnerabilidade em seus olhos e não teve coragem de dispensá-lo. – Entre, por favor. Eu ia preparar chá para mim quando a campainha tocou. – Sentindo-se aliviado, Gabriel seguiu Lara pelo corredor em direção à espaçosa e acolhedora cozinha da qual se lembrava tão bem. Enquanto andava atrás da morena, admirou-se com o fato de a estudiosa adolescente, muitas vezes tímida, ter se transformado naquela beleza. Admirou o corpo curvilíneo. O que aquele corpo fazia com um simples par de jeans e uma camisa branca comum devia ser considerado arte ou poesia, refletiu. Embora estivesse longe de ter tendência artística ou poética, certamente isso não o impedia de apreciar as coisas esteticamente mais agradáveis na vida – motivo pelo qual escolhera um apartamento em Nova York com a deslumbrante vista do Metropolitan Museum of Art. De vez em quando, se tinha tempo, ia ao museu para se lembrar de que o dinheiro não era a única coisa na vida merecedora de atenção. Sim, o dinheiro permitia mais opções, mas não comprava felicidade. Deus sabia que ele aprendera isso ao longo dos anos... a contemplação da beleza e da arte “curava almas perturbadas”, como um sábio guia de museu dissera uma vez para ele; e embora nunca sonhasse em compartilhar com os colegas tal ponto de vista, Gabriel tinha concordado. Por isso admirava os artistas. Mas sua admiração pela beleza de Lara foi posta de lado ao entrar na cozinha. Era mesmo tão aconchegante quanto em suas recordações. E a bancada antiga, bem como os acessórios e equipamentos, incluindo a caixa de correio inglesa vermelha, o transportaram à época em que ele e Sean eram jovens.


Lembrou-se com afeto das inúmeras refeições deliciosas preparadas por Peggy Bradley, sobretudo durante aquele aparentemente “infindável” período em que ele e Sean, durante os intervalos de revisão de matéria para provas, tinham rido e se divertido juntos, ouvido música das bandas favoritas, implicando sem dó com Lara e, em geral, adorando a sensação de serem jovens e despreocupados, sem as responsabilidades que assoberbavam a maioria dos adultos conhecidos. Na época, era fácil fantasiar que aqueles dias tranquilos durariam para sempre... Os sentimentos de Gabriel foram de súbito banhados pelo mar de lembranças dolorosas e profundas. Para aumentar ainda mais a sensação, viu no guarda-louça bege várias fotos da família e, em um lugar de honra, uma foto de Sean como devia ser ao morrer. Os olhos maliciosos e risonhos, o sorriso largo ressaltava o dente da frente que Gabriel sem querer tinha quebrado quando atirara uma bola de críquete para ele acertar. Sean tinha sido seu melhor amigo e, embora não tivesse mantido contato com ele, doía pensar que ele não estava mais ali... – Tudo parece igualzinho – comentou com voz rouca, afrouxando a gola da camisa que, de repente, o apertava. – Meus pais não são grandes amantes de mudanças. São antiquados como a mobília. – Lara sorriu com afeto. – Sem mencionar que são sentimentais, característica que só aumentou depois que perderam Sean. – Seu sorriso se desvaneceu e, obviamente precisando se recuperar, ela deu as costas e foi para a pia encher a chaleira. – Deve ter sido um choque terrível receber a notícia de que ele tinha morrido – sussurrou Gabriel demonstrando solidariedade. – Foi. Um dia conversávamos com ele pela internet e ouvíamos todos os detalhes de seu dia, e no dia seguinte... – Balançando a cabeça com tristeza, Lara fechou a torneira e foi até o fogão. – Como gosta do seu chá? – perguntou, prendendo o cabelo sedoso e escuro atrás da orelha ao se voltar. – Você não se lembra? – provocou Gabriel, lembrando-se com prazer das inúmeras xícaras de chá que a menina, louca para agradar, lhe preparava sempre que ele dormia na casa do amigo ou o visitava. – Eu costumava dizer que você e sua mãe faziam o melhor chá do mundo. – É mesmo. – A boca carnuda curvou-se com prazer. – Então está bem, vamos ver se ainda me lembro. Não me diga; deixe-me tentar adivinhar. Pegue uma cadeira e fique confortável. Ele não precisava ouvir duas vezes. Esta casa era o único lugar em que realmente se sentia em casa, em todos os sentidos. Cansado das exigências e rigores do cruel mundo das finanças, no qual vivia há anos suficientes para perder parte da sanidade, Gabriel secretamente ansiava por um pouco de conforto e simplicidade. Estava farto do tipo de conforto representado pela vida opulenta de muitos banqueiros em Nova York, embora ele próprio tivesse entrado no esquema, achando que “merecia” viver no luxo por trabalhar tão duro e tornar outros tão ricos quanto ele. Apesar de não se deter nas reflexões, ele ansiava pelo tipo de conforto obtido por pessoas autênticas, sem segundas intenções e capazes de serem apenas elas mesmas. Em resumo, pessoas naturalmente boas e não egoístas inescrupulosas. E, quando pensava nisso, logo se lembrava dos pais de Lara. Eles o receberam de braços abertos em casa sem expectativas ou julgamentos quando o filho ficou amigo dele, e tinham inclusive expressado tristeza por ele ter sido criado por um tio rico, mas em geral ausente, que o deixava quase sempre aos cuidados de uma babá. Ficaram surpresos por Gabriel não conhecer a alegria de crescer numa família “de verdade”, como Sean.


– Quer torrada e geleia? – Desculpe... o que você falou? – Piscando para os olhos cor de chocolate da adorável morena de repente parada à sua frente, por um instante surreal Gabriel esqueceu quem era e onde estava, de tão encantado. Ela franziu a testa. Lara parecia surpresa por ele não ter ouvido a pergunta. Talvez ela não tenha consciência do quanto é deslumbrante. Ele deu de ombros. Pouco provável. Nunca tinha encontrado uma mulher bonita que não tivesse consciência de seu sex-appeal. A beleza era um atributo desejável no mesquinho mundo em que vivia, sem mencionar que era considerada um bem. Em sua opinião, toda mulher atraente que visasse alcançar sucesso na profissão não hesitava em usar essa vantagem ao máximo. – Só perguntei se queria torrada e geleia com o chá... – Só chá, obrigado. Depois, se tiver tempo, gostaria que nos sentássemos e você conversasse comigo. Temos muita história para contar. Faz anos que não nos vemos, Lara, e além de saber sobre Sean, gostaria de saber o que você tem feito. – Tudo bem. – Ela mordeu o lábio, como se surpresa com a proposta. – Mas você não mencionou que tinha acabado de chegar de Nova York? Não está cansado? Não precisa relaxar um pouco da viagem? Gabriel não conteve o sorriso. Parecia que a adolescente insegura herdara da mãe a encantadora capacidade de pensar primeiro nas necessidades dos outros. Ele não costumava encontrar isso em seu mundo, e teve de admitir que essa característica era encantadora. Não pôde se furtar a imaginar a reação de seus colegas cínicos caso encontrassem Lara e fossem expostos a seu comportamento gentil por muito tempo. Iam se perguntar se ela era “real”. – Posso garantir que só preciso ficar aqui com você, Lara. Se alguma declaração de um homem pudesse soar mais sedutora e encantadora, Lara nunca a ouvira. E aquela voz rouca e cadenciada só tornava as palavras ainda mais provocantes. Suas entranhas pareciam consumidas por chamas eróticas. Será que sua fascinação adolescente por esse homem não tinha morrido com a rejeição naquela festa e insistira em permanecer cozinhando em fogo brando durante todos esses anos? Ao se dar conta, sentiu-se parada à beira de um precipício tentando desesperada manter o equilíbrio. Tinham se passado 13 longos anos desde a última vez que tinha visto esse homem. Nada sabia sobre sua vida e tinha certeza de que se ele tinha algum interesse nela era apenas em nome do passado com sua família. O homem podia ter um casamento feliz com uma esposa-modelo em Nova York – o tipo de casal alardeado nas revistas de celebridades – e um filho de lindos olhos azuis. Sentiu um frio no estômago só de pensar. – Então está bem. Vou preparar o chá e depois conversamos sobre as novidades. Mas vou logo avisando: não espere histórias de aventuras. Levo uma vida tranquila, sem dúvida totalmente diferente da sua. Abrindo um sorrisinho, ela voltou para o fogão e arrumou a chaleira, as xícaras e os pires em uma bandeja. Mas as mãos visivelmente tremiam quando verteu a água quente nas folhas de chá, e o coração palpitava acelerado como se nunca mais fosse capaz de reencontrar a paz... Foram para a sala de estar e Lara abriu as largas portas que avistavam o jardim, de modo a poderem usufruir do sol. Tampouco queria perder a oportunidade de ouvir o canto dos pássaros. Essa era uma


das razões pelas quais a manhã sempre tinha sido seu horário preferido. – Você preparou o chá do jeito que eu gosto – anunciou o lindo visitante, tomando um gole de chá enquanto acomodava o corpo esbelto em uma das confortáveis poltronas Chesterfield. – Você tem boa memória. – Obrigada. De repente convencida, Lara sentou-se na poltrona em frente e mexeu o chá. Nunca tinha conseguido tomar chá sem pelo menos um pouco de açúcar. Podia apostar que Gabriel nunca chegava perto de açúcar. Embora ele tivesse algumas rugas na testa, o corpo esbelto e musculoso irradiava o vigor de um atleta e não o de alguém que passava os dias imersos em negócios em Wall Street. O pensamento levou a uma pergunta. – Você disse que tinha acabado de chegar de Nova York. Veio só para uma visita relâmpago ou vai passar um tempo aqui? Uma expressão definitivamente cautelosa brotou nos hipnotizantes olhos azuis e ele contraiu a mandíbula. Curvando-se, pousou a xícara e o pires na mesinha entre eles. – Não tenho certeza. Vim para resolver uns assuntos legais referentes à propriedade de meu tio, para dizer a verdade. Ele morreu há poucas semanas e sou seu único herdeiro. – Ah, Gabriel, sinto muito. Quer dizer, a respeito da morte de seu tio. Você veio para o funeral? – Vim. De qualquer modo, tenho uma reunião com o advogado amanhã. Ele balançou a cabeça, como se o assunto fosse mais penoso do que gratificante. Mas, afinal de contas, por que ficaria satisfeito com o fato de o único membro de sua família ter falecido? raciocinou Lara. Mesmo que devesse ao tio tudo que possuía. Se bem se lembrava, Gabriel tinha sido criado pelo tio, mas com certeza teria preferido o amor e a afeição do tio, sem mencionar o apoio, quando menino, do que receber seus bens de herança. Por acaso precisava da herança do tio quando diziam que ele próprio tinha construído uma imensa fortuna sozinho? – Você via seu tio com frequência depois que partiu para Nova York? – Não, não éramos próximos. Ele me adotou quando minha mãe, irmã dele, decidiu que não tinha vocação para ser mãe e que amava acima de tudo a própria liberdade. Pelo menos ele foi decente e cuidou de mim. – E seu pai? – indagou Lara franzindo a testa. – O que aconteceu com ele? Ele franziu o cenho e fez uma careta. – Você sabe dele tanto quanto eu. Na minha certidão de nascimento minha mãe mandou anotar “pai desconhecido”. – Que triste. – O comentário saiu sem pensar. – Por quê? Cresci numa casa maravilhosa numa área adorável e sempre tive tudo. O que tem de triste nisso? – É triste nunca ter conhecido o pai verdadeiro ou tido um relacionamento com ele, e é triste não ter uma relação próxima com o tio que o adotou. A isso eu me referia. – Não se preocupe com isso. Nos lugares onde circulo sou considerado um sucesso, e tudo que consegui foi graças ao meu próprio esforço. Nunca me preocupei com o fato de não me importar com minha família nem eles comigo. Final da história. Mas Lara adivinhou que isso estava longe de ser o fim. Tinha certeza de que qualquer pessoa abandonada pela mãe quando criança devia ter um rio de dor e raiva correndo em suas veias e sofrer de baixa autoestima. Mas também percebeu que não era hora de pressionar Gabriel para que ele falasse


mais. Ele viera visitar sua família por causa de Sean, e não para ser espezinhado pela irmã do amigo por sua criação nada idílica. – De qualquer modo, gostaria de saber o que tem feito desde que nos encontramos da última vez – declarou ele mudando de assunto. – Em que você trabalha? Eu me lembro de que você queria ser veterinária ou trabalhar em política. Tínhamos umas discussões apaixonadas, você, eu e Sean, sobre colocar o mundo em ordem, não é mesmo? O comentário deixou Lara corada de constrangimento ao se lembrar das acaloradas e animadas discussões. Sobretudo quando se lembrou de que suas opiniões eram sempre as mais apaixonadas e veementes. Contudo, quando se tem 16 anos a gente se acha dona da verdade. É capaz até de se iludir e acreditar que um homem mais velho e experiente pode se apaixonar por você quando, na verdade, apenas flertava com você porque podia... – Bem, não me tornei veterinária ou política – afirmou. – Ser responsável por colocar o mundo em ordem era uma aspiração grande demais, então me tornei bibliotecária. – Nossa... bibliotecária? – A expressão de Gabriel denotava ironia. – Sei que adorava livros, mas sempre achei você muito passional para enfiar-se em uma sala empoeirada e emprestar livros para o público. – Caso não tenha notado, não vivemos mais na era de Dickens. Lara reagiu ao tom de deboche, mas ao mesmo tempo não conseguiu deixar de registrar o perturbador fato de que ele a chamara de “passional”. Sempre teria pensado isso a seu respeito? O coração acelerou ainda mais, embora se lembrasse de que ele a rejeitara. – Entre outras coisas, eu edito livros numa biblioteca de ponta graças a todos os equipamentos tecnológicos de última geração que possa imaginar e que se encontram à minha disposição. Se você acha que biblioteconomia foi uma opção “segura”, em comparação com veterinária ou política, posso garantir que lidar diariamente com as exigências de estudantes dos mais diversos tipos, e às vezes malandros, não é fácil. – Mas você gosta? – questionou Gabriel e, erguendo a sobrancelha escura, sorriu. – Fico contente por ter uma carreira da qual gosta, Lara. E, para sua informação, acho você passional. Aposto que poderia ter feito o que bem entendesse. Não pode ir contra a sua natureza.


CAPÍTULO 2

– E QUANTO a você, Gabriel? – interrogou Lara, sentindo-se de repente afogueada mais uma vez, pois parecia ser o foco da atenção e preferia saber mais a respeito dele. – Em que tipo de função está atuando ultimamente? Ainda envolvido com finanças? O sorriso que Gabriel devolveu era levemente desanimado. – Ainda. – E o que exatamente faz? Quero dizer, seu trabalho tem nome? Em resposta, ele se levantou e ficou evidente que suas perguntas o incomodavam. – Trabalho em Wall Street como diretor do Departamento de Riscos. Analiso fórmulas de risco em empresas financeiras e bancos. – Ah! – Ela ergueu os ombros, ainda sem entender a explicação. – Parece complicado. – Sério? – Um músculo visível na lateral do queixo saltou. – De qualquer maneira, recomendo não perder o sono tentando entender. – Está insinuando que não me acha inteligente o suficiente para entender? – Você sempre demonstrou ressentimento quando achava que eu estava debochando. Talvez devesse tentar não levar tudo para o lado pessoal. Enquanto Lara refletia, ele se aproximou, inclinou e pegou suas mãos. Então, devagar, a fez ficar de pé. Não havia descrição adequada para a imensa onda de pânico e prazer que de repente a engolfou... Talvez exceto uma abjeta descrença diante do que acontecia. Ao longo dos anos, havia fantasiado muitas vezes como seria ser acariciada ou abraçada por Gabriel. Embora o coração se regozijasse por têlo perto, não conseguia esquecer-se da vez em que ele a afastara de propósito e lhe revelara que não tinha sido feito para ela. Todavia, mesmo a agonizante lembrança não a impediu de pensar que parecia perfeito tê-lo pertinho. Então se deu conta de que o olhar azul radiante a examinava com uma intensidade que a deixou apreensiva. – Fale sobre Sean – pediu em voz baixa, em tom quase reverente, como se o simples fato de pronunciar em voz alta o nome do amigo o angustiasse. Aliviada por não estar sendo examinada por algo que houvesse inadvertidamente dito ou feito, Lara engoliu em seco. Ainda doía muito falar sobre Sean e lembrar que ele estava morto. Era como se uma


faca afiada penetrasse em seu coração. – O que quer saber? Gabriel não a soltou e ela descobriu não ter a menor pressa para ficar livre. As mãos eram grandes e quentes e lhe transmitiam segurança, ansiosa pela proteção afetuosa e sensual que só um homem igual a ele poderia oferecer. De repente, tomou consciência de uma pequena veia pulsando em sua testa. – Por que, como contraiu malária? – inquiriu. – Os voluntários têm direito a alguma proteção antes de viajar para lugares perigosos. – Claro. – Lara surpreendeu-se com a raiva implícita em sua voz... emocionada por ele ainda gostar tanto de Sean depois de tantos anos. Ela também estava com raiva por seu irmão, a quem amava tão profundamente, ter sido arrancado dela de modo tão repentino e brutal. A ferida causada pela perda era imensa e temia que nunca cicatrizasse. No entanto, não fugiria da dor. Jurara enfrentar o sofrimento de cabeça erguida, sem negar o infortúnio. Algo lhe dizia que agir assim seria desrespeitoso para com a memória de Sean. Mesmo assim, compartilhava da confusão e da aflição de Gabriel. – Ele fez todos os exames e tomou todas as vacinas antes de viajar – disse baixinho –, mas a malária é causada pela mordida de um mosquito infectado, como você deve saber. Pouco depois de sua morte, encontraram um rasgo no mosquiteiro que cobria sua cama. Infelizmente, sempre faltava dinheiro e não substituíram os mosquiteiros velhos. – Então lhe deram um mosquiteiro com defeito? – O tom de voz era desdenhoso. Gabriel largou as mãos de Lara e se afastou. Sentindo-se ao mesmo tempo desprovida do calor de suas mãos e enregelada pela lembrança de como Sean tinha morrido, ela cruzou os braços e assentiu com tristeza. – Parece que sim. Como se ele não soubesse como lidar com a dor, caminhou a longos passos para o outro lado do aposento e contemplou o jardim ensolarado. Voltou-se de súbito e a encarou. – Como Sean pôde ser tão idiota? – perguntou zangado. – O quê? – A pergunta brutal teve o mesmo efeito de uma bofetada. – Quero dizer, por que não pensou nas consequências de ser tão descuidado sobre o próprio bemestar? Talvez por nunca ter se colocado em primeiro lugar... e esse foi o problema. Quem mais aceitaria um mosquiteiro velho sabendo que corria o risco de ser mordido? Mesmo que não tivesse percebido que não estava intacto. Deveria ter verificado. Mas vivia sempre ocupado demais cuidando dos outros. Não me admira ter se dedicado a trabalhos de caridade. Que lástima. Os olhos azuis faiscaram furiosos e, segundos depois, pareciam desolados. – Ele era um gênio em matemática e ciência. Poderia ter ido trabalhar em um banco de investimentos e ter chegado ao topo. Se apoiar causas fosse tão importante, poderia ter feito isso da segurança de seu escritório, usando quanto dinheiro quisesse, sem estar no olho do furacão. Vivemos num mundo em que lobo come lobo, em que é cada um por si... e se a gente não é o cara, morre. Passava os dedos com raiva no cabelo, deixando claro ser impossível conter a crescente frustração. – Quantas vezes eu falei isso a ele. Achei que tivesse bom senso e aceitasse meu conselho. Lara respirou fundo e exalou. As batidas ansiosas do seu coração começaram a retornar a um ritmo mais controlado. Gabriel não tinha sido cruel ao perguntar como Sean tinha sido tão idiota – estava simplesmente zangado e frustrado com a perda sem sentido da vida do amigo. Como todos.


– Meu irmão era um homem bom, e você sabe, Gabriel. E estava feliz em dedicar-se aos menos favorecidos. Mas não era de sua natureza pensar primeiro em si. Não sei você, mas é assim que quero me lembrar dele. Feliz, realizado e curtindo a vida. Sei que se ainda estivesse aqui, gostaria que você também fosse feliz, realizado e curtisse a vida. Você é feliz? A pergunta ficou em suspenso no ar como a espada de Dâmocles. Gabriel a olhava como se tivesse sido transpassado, mas depois esfregou a mão no queixo como se tentasse sair do transe em que mergulhara e deu de ombros. – Em minha opinião, dá-se muita importância à felicidade neste mundo. Melhor focar no sucesso profissional. Se você é bem-sucedido profissionalmente sente-se realizado. Pelo menos, isso lhe permite opções na vida. De qualquer modo... Voltando para a poltrona, ergueu a xícara até os lábios e tomou um gole. Então pousou outra vez a xícara e deu um sorriso, em parte arrependido e em parte angustiado. – Sinto muito se a aborreci com o meu linguajar bombástico a respeito de Sean. Mas ele era um grande amigo, talvez o melhor. Gostaria de ter percebido isso antes. Devia ter mantido contato com ele, mas agora é tarde demais. É um crime ele ter sido roubado de nós tão cedo. Por favor, transmita a seus pais minhas sinceras condolências está bem? É uma pena não estarem aqui para eu poder dizer pessoalmente. Bem, acho que chegou a hora de ir embora. Pensar que ele partiria e talvez nunca mais o encontrasse atingiu Lara como um raio. Antes de se recuperar do choque e pensar com clareza, ela indagou: – Precisa mesmo ir? Se ficar mais um pouco, podemos almoçar juntos. Pode dar uma volta comigo e Barney primeiro, se quiser. Uma caminhada é o remédio perfeito para afastar as teias de aranha e clarear a mente. Tem um bosque atrás da casa, esqueceu? Gostaria que tivesse visto quando as prímulas brotaram na primavera; parecia um quadro. Naquele exato momento, Gabriel soube que não poderia afastar-se daquela mulher com a facilidade planejada – como de fato deveria. Porque sabia que caso ficasse acabaria por magoá-la. O desejo reprimido por tanto tempo – embora ocasionalmente o tentasse aplacar com corpos bonitos que o viam apenas como “um bilhete” para o estilo de vida luxuoso que desejavam – acabaria consumindo a inocente Lara e sendo o responsável pelo profundo arrependimento que ela carregaria por ter pedido que ele ficasse mais um pouco. Mas Gabriel sabia que não resistiria ao convite. E quem podia culpá-lo por buscar abrigo na companhia inocente por mais um pouco? – Combinado. Fico... pelo menos para almoçar e passear com Barney. – Ótimo. Mas você se dá conta de que tenho um motivo secreto para o convite? Ela sorriu pela primeira vez. Gabriel percebeu as duas covinhas encantadoras. Mas as palavras o deixaram tenso. Não estava preparado para acalentar ilusões sobre ela – caso se tratassem de ilusões – e satisfazê-las tão rápido. – E qual seria esse motivo? Ela ergueu os ombros. – É que ando meio solitária, cercada pelas lembranças de meu irmão. Seria bom ter companhia e afastar meus pensamentos de... Foi isso que quis dizer. Sentindo-se ridiculamente satisfeito com a confissão, Gabriel relaxou. – Longe de mim negar a única coisa que posso lhe oferecer hoje. Vamos dar uma volta? O sol está brilhando, o dia está lindo. Seria uma vergonha perder tempo dentro de casa.


– Concordo. – Levantando o cabelo comprido e escuro dos ombros e o soltando nas costas, Lara moveu-se graciosamente e cruzou a soleira. – Vou calçar minhas botas; o terreno no bosque é irregular. Você vai assim? – O olhar demonstrava assombro enquanto examinava o mocassim italiano. – Parecem muito chiques e caros. – Eu teria trazido algo mais adequado se soubesse que ia me convencer a ir ao bosque com você – comentou com ironia abrindo um sorriso quando ela corou. – Não se iluda achando que planejei isso. Para começar, nem saberia como. – Por baixo da imaculada camisa branca, o coração de Gabriel acelerou. E mais, um calor excitante lhe invadiu o sangue. – Isso é um desafio... – comentou. – Não foi minha intenção. Eu só estava... Ah, deixa para lá. Vou calçar as botas. Obviamente sem graça, Lara deixou apressada o aposento, e logo Gabriel sentiu falta de sua presença e torceu para ela voltar logo. ELE ESTAVA sendo apresentado a um mundo totalmente diferente do que habitava – um mundo do qual sentia falta há tempos. Caminhar pelo bosque com a beleza que conhecia como a “irmãzinha de Sean” ao lado era uma delícia. Ela ria descontraída, um som contagiante que lhe deixava os pelos da nuca arrepiados. E, de vez em quando, o aroma do delicioso perfume que ela usava, semelhante a um buquê de flores silvestres, o inebriava. Misturado aos odores de terra abundantes no bosque, era uma experiência sensual única – a milhões de quilômetros da atmosfera tensa e carregada de Wall Street, sua experiência diária. – Vou tirar a coleira de Barney. Esse é seu lugar preferido do bosque. Gosto de deixá-lo correr à vontade. Presenteando Gabriel com outro sorriso radiante, Lara se deteve para soltar o cachorro, que saiu em disparada como um foguete entre as árvores, latindo satisfeito. – Ele não é dos mais inteligentes – comentou com afeto. – É um caçador natural, mas o problema é que anuncia a chegada para que a presa possa escapar antes que ele a alcance! Balançando a cabeça, voltou a rir e Gabriel não conteve o sorriso de satisfação. Levado pelo instinto – permitindo uma vez na vida deixar o coração governar sua cabeça – ele se aproximou e lhe pegou a mão. Ao tocar sua mão, um arrepio lhe percorreu o corpo, que pareceu atingido por um relâmpago. Sentiu-se cambaleante. O olhar surpreso de Lara indicou que ela também sentira a eletrizante sensação. – Eu tinha me esquecido de como você era engraçada – confessou. – E que tem uns olhos lindos. Eles cintilam como joias quando ri. – Não costumava tecer elogios, mas estava sendo sincero. – Obrigada. Ela soltou a mão com cuidado e o rubor provou a Gabriel que ele tinha razão em achar que a corrente elétrica entre os dois a perturbava. – Você ficou ruborizada – provocou. – Se isso é verdade, deve ser em consequência de nunca ter recebido elogios tão efusivos. – Nem do homem da sua vida? Ele não se arrependeu de ter demonstrado curiosidade. Mas a expressão de Lara parecia perturbada e a luz de seus olhos diminuiu um pouco. – Não há nenhum homem na minha vida... pelo menos não no momento. Gabriel não podia negar ter ficado aliviado, embora não estivesse preparado para se indagar o motivo.


– Quer dizer que pode haver alguém? Alguém em quem você esteja interessada? – Não, nada disso. – Ela não tentou disfarçar a irritação com a intromissão. – E você? – Resolveu inverter o jogo. – Tem alguém importante na sua vida? A essa altura, talvez já tenha se casado. – Não sou casado. Nem estou num relacionamento sério. Sou casado com o trabalho, Lara. Sei que parece monótono e desinteressante, mas é a verdade. Entretanto, isso não significa não ter vez por outra, quando me convém, a companhia de uma mulher bonita. – Quer dizer que prefere aventuras? Então por isso não tem compromissos sérios na sua vida. Ela suspirou. Mas se o suspiro significava decepção ou desaprovação, Gabriel não saberia dizer. Contemplando o denso aglomerado de árvores e arbustos entre os quais o animado cachorro desaparecera, ela chamou: – Barney, aqui, menino. Volte agora. Quando o cachorro não apareceu, Lara voltou o olhar para Gabriel. – Fico preocupada quando ele fica quieto – admitiu. – Melhor ver onde ele se meteu. Pode ter ficado preso num buraco de coelho ou algo parecido. Já aconteceu antes. Por que não me espera aqui? Já sujou seus elegantes sapatos e o terreno do outro lado das árvores costuma ficar coberto de lama. Não devo demorar. – Estou pouco me lixando para os sapatos e não deixei o paletó em casa e arregacei as mangas para nada. Não me importo em ficar sujo. Vou ajudar você a achar o cachorro. – O nome dele é Barney! Lara voltou a parecer encabulada e Gabriel não resistiu ao impulso de provocá-la. – Por que o nome? Um de seus ex-namorados? – Ele é dos meus pais, não meu, bobalhão. – Você costumava me chamar assim. Vai ficar surpresa, mas acho bem carinhoso. – Duvido. Minha percepção sempre foi de que isso o irritava. Eu era a incômoda irmã de 16 anos do seu amigo, esqueceu? Você não me levava a sério. Só me aguentava por educação e em consideração a Sean e aos meus pais, garanto. – Não é verdade. – Gabriel franziu o cenho, incomodado por Lara pensar assim. – Vamos. – Como se intuísse sua perturbação, ela lhe deu um sorriso reconfortante. – Vamos procurar Barney. Enquanto ele se embrenhava na mata densa e no solo enlameado em seu mocassim italiano de mil dólares, com as folhas úmidas roçando a camisa branca, tropeçando e às vezes perdendo o equilíbrio, Gabriel riu ao imaginar sua ridícula figura. Seus colegas de Wall Street ganhariam o dia se o vissem. Estranho; isso o fez rir ainda mais. Na verdade, não tinha predisposição para a rabugice e a melancolia. Gostava de sua vida. Como poderia ser diferente se seguia uma beleza de pernas compridas e jeans apertados? Lara atravessava a trilha enlameada como a versão feminina de Indiana Jones, mal parando para respirar, e chamando Barney com disposição. Gabriel era um homem de boa disposição física, preparado para desafios – mentais ou físicos –, mas a agilidade e disposição da companheira era impressionante. Detendo-se de repente, a voz apreensiva e frustrada, Lara chamou: – Barney! Não tem graça. Não estou gostando da brincadeira. – Parece que espera que ele responda.


– Estou achando a maior graça. Você é muito engraçado. Só que não. Desta vez Gabriel recebeu um olhar irritado que, felizmente, não levou a sério. Sobretudo ao perceber que Lara ficaria desesperada se não encontrassem o cachorro, dedicou esforço redobrado em ajudá-la. – Barney! – berrou, penetrando numa área mais densa do bosque ainda não explorada, não dando a mínima para os sapatos estarem arruinados pelo terreno irregular e lamacento. Teria vislumbrado um pelo caramelo espiando pelas árvores? Prosseguiu a busca. Podia apostar que sim. – Barney! Aqui, menino – voltou a chamar embrenhando-se na mata. Não tinha caminhado muito quando viu o rabo do terrier abanando sob o teto de folhas. O cachorro escavava a terra furioso, como se decidido a encontrar o tesouro. – Eu encontrei Barney! – gritou para Lara, e ao se virar viu que ela corria apressada em sua direção. Sua camisa branca estava suja, como a dele, o cabelo escuro despenteado, e o rosto bonito visivelmente corado. – Graças a Deus! – exclamou passando por ele para pegar o adorado animal da família. Agachou-se ficando de joelhos. Não parecia preocupada com um possível machucado ou em arruinar as roupas. – Barney, que menino feio – recriminou com afeto, afastando o animal de sua entusiástica escavação e o apertando contra o peito, indiferente ao fato de ele sujar ainda mais sua camisa. Podia ser loucura, mas Gabriel invejou o pequeno cão de caça. Não se importaria que a camisa feita sob medida ficasse ainda mais suja caso Lara o abraçasse assim. – Devia estar cavando em busca de coelhos. – Ela sorriu, os olhos escuros radiantes. – Ele não pode evitar. – Voltando-se para o cachorro, elogiou. – Você nasceu para caçar, não é meu filhinho? Então, antes que Gabriel pudesse assumir o comando e a ajudasse a se levantar, ela ficou de pé, com extrema graciosidade, e prendeu a coleira. – Não sei você, mas eu estou morta de fome. Vamos voltar e eu preparo o almoço. Morto de fome não chegava perto do apetite de Gabriel – mas não por comida. A irmãzinha do melhor amigo mexia com sua libido. Não previra que isso aconteceria na viagem à Inglaterra. No momento, não sabia como reagir. Mas considerava seriamente ir para a cama com a morena, embora não quisesse correr o risco de arruinar para sempre seu bom relacionamento com ela e sua família. – Quero que tire a camisa quando voltarmos para casa – avisou Lara enquanto passava por ele com Barney. – O quê? Parando de repente, ela se voltou e lhe lançou um sorriso capaz de envergonhar uma menina malvada. – Não se preocupe, não tenho segundas intenções. Comigo você está a salvo. Só pensei em colocar a camisa na máquina de lavar. Pode usar uma camisa do meu pai. Ele tem mais ou menos a mesma estatura que você, embora é claro não tenha tanta, tanta... Os olhos castanhos o avaliaram, e ela obviamente encontrou dificuldade em terminar a frase. Gabriel não resistiu a uma nova provocação. – Boa forma física – sugeriu sorridente. – Conhece o ditado: “Vaidade, teu nome é Homem e não Mulher?”


Cruzando os braços, Gabriel ergueu a sobrancelha com ar de deboche. – Essa citação é de Hamlet e é: “Fragilidade, teu nome é Mulher” e não vaidade. Achei que gostaria de saber para futura referência. A bonita companheira de passeio balançou a cabeça e deu-lhe as costas, caminhando a passos largos com Barney saltitando contente ao seu lado – mas não antes de Gabriel ver os olhos cravarem nele, como se tivesse vontade de abandoná-lo no meio da mata escura. LARA NÃO sabia onde buscar coragem para lidar com aquele homem carismático e perturbador. Nem conseguira ainda digerir o choque ao vê-lo surgir do nada na porta da casa dos pais. À medida que o tempo passava, o dia se tornava mais desafiante. Enquanto conversavam na sala de estar e Gabriel a levantara da poltrona para perguntar sobre Sean, ela tinha acreditado que desmaiaria de tanto prazer com o toque, sem mencionar o abalo diante do olhar intenso. Os olhos azuis brilhantes fitaram os seus como se quisessem enxergar sua alma... como se nem isso bastasse. Tinha visto muitas coisas naquele olhar penetrante para deixá-la sem fôlego, além de raiva e desejo – mas não discernira qual predominava. Da segunda vez que ele a tocara, pegando sua mão no bosque e sorrindo para ela, como se sua companhia lhe proporcionasse prazer, a carga de eletricidade a deixara tonta e confusa. Uma reação tão intensa por causa de um carinho amigável não lhe traria paz de espírito quando chegasse a hora de se despedir de Gabriel. E, desta vez, não tinha dúvidas de que ele partiria para sempre. Ele voltaria para sua vida agitada em Wall Street, e ela, para sua rotina simples e comum de bibliotecária. Mas não haveria consolo ao ver o carismático melhor amigo do irmão sair de sua vida pela segunda vez... Pararam no pórtico dos fundos da casa enquanto Lara mandava Barney esperar ao mesmo tempo que ela e Gabriel tiravam os sapatos sujos. Ao ver o mocassim preto arruinado resmungou: – Ah, por que tinham de ser de camurça? – questionou, arrependida por ter sido responsável por Gabriel ter arruinado os sapatos caros. Imaginava Sean balançando a cabeça e dizendo: Querida irmãzinha, levar Gabe para um passeio no bosque usando mocassim italiano não foi uma de suas melhores ideias. Onde estava com a cabeça? Surpreendeu-se ao lembrar que ele sempre chamava o amigo de Gabe e não de Gabriel. Lara nunca tinha tido coragem para tal. Além disso, Sean teria razão em perguntar onde ela estava com a cabeça. O problema é que seu maravilhoso irmão não se dava conta de que Lara nunca tinha sido capaz de pensar com clareza quando Gabriel estava por perto. – Eu devia ter emprestado as botas de papai – comentou aborrecida. – Quanto ele calça? – Quarenta. Fazendo careta quando ele se ergueu no depósito espaçoso, que seu impressionante físico fazia parecer de repente pequeno, Gabriel deu uma risada. – Não ia adiantar. Calço 44. Depois de tirar as botas, Lara se levantou. – De qualquer modo, seus lindos sapatos estão arruinados. Custaram caro? – Corou imaginando como poderia pagar o estrago, caso fossem de fato tão caros quanto imaginava. Afinal, bibliotecárias não ganhavam fortunas...


– Se eu revelasse, você provavelmente me crucificaria por ser tão vaidoso e gastador. Esqueça. Tenho outro par no carro. – Tem outro par no carro? Por que não me contou? O olhar parado parecia significar que ele refletia na resposta. – Não me lembrei. Além do mais, pouco importa. Se puder me emprestar aquela camisa que prometeu, tiro a minha e você a coloca na máquina de lavar. Ele já começava a desabotoar a camisa manchada e Lara de repente entrou em pânico só de pensar em vê-lo com o peito desnudo. – Claro... já volto – murmurou, dirigindo-se apressada para a porta em direção ao corredor. Seus sentidos já tinham sido bombardeados pela presença de Gabriel. Como suportaria ser exposta à beleza do peito másculo e agir como se isso não a afetasse?


CAPÍTULO 3

PARA UM homem que gostava de estar no comando, Gabriel se descobriu à vontade na casa do amigo com Lara. Voltar àquela casa e recordar alguns dos momentos mais felizes da vida, o deixava ansioso por repetir as sensações evocadas, em especial a sensação de pertencimento. Não experimentava aquela sensação confortante de ser bem-vindo, olhado sem ser julgado ou sob condições, desde que deixara a Inglaterra havia vários anos. Deus sabia que a carreira estressante escolhida não lhe permitia chegar nem perto de tal sensação, pois vivia cercado de pessoas focadas em um único objeto. A frase que dizia que eles seriam capazes de vender as avós para obter lucro, com frequência, vinha à mente de Gabriel. De vez em quando se alarmava ao perceber que também se tornava mercenário e que isso o deixava orgulhoso. Mas, na verdade, como todos os vícios, este era difícil de largar – e fazer dinheiro era definitivamente sua droga. Porém, era estranho não se sentir exatamente feliz por herdar a substancial fortuna do tio, sua propriedade e bens. Ao comparecer ao funeral do tio, Gabriel lembrou-se da sensação de abandono e da dor profunda experimentada desde criança, quando a mãe o abandonara com um homem que, apesar dos laços de sangue, havia se mostrado tão distante quanto a Via Láctea e até menos acessível. E agora, além da indesejada complicação de ter de lidar com o legado do tio, surgira o inesperado dilema em relação à Lara. O fato de saber que ela estava na cozinha aconchegante, preparando o almoço, não deveria lhe proporcionar essa sensação de prazer, e uma inegável sensação de contentamento. Isso era inusitado, pois ainda não havia encontrado uma mulher em quem confiasse e ao lado de quem se sentisse descontraído – à exceção talvez de Peggy Bradley, mãe de Lara. Acomodado na confortável poltrona do pai de Lara na sala de estar, as pálpebras se fechavam. Lá fora o sol brilhava e seus raios soporíficos o banhavam pelas portas abertas e inevitavelmente o deixavam sonolento. No ar perfumado de verão, uma melodia distante pairava, lembrando-o da festinha que Sean uma vez organizara na casa... Lara usava um vestido longo verde e roxo e dançava com os braços abertos, como se fosse abraçar tudo o que o mundo tinha a oferecer, e atraíra seu olhar mais de uma vez porque ela era tão bonita e dava a impressão de ser tão livre. – Gabriel? Desculpe acordá-lo, mas o almoço está pronto. Que tal comermos no jardim?


Ao ouvir a voz aveludada da mulher na qual pensava, e sem saber se ainda sonhava, Gabriel abriu os olhos. O olhar surpreso foi logo capturado pelo rosto em formato de coração que, no passado, lhe era tão familiar. Agora a menina inocente de que se lembrava dos tempos da juventude, se transformara em uma mulher que o deixava sem fôlego e fazia seu sangue ferver só de olhá-la. Sem nenhum artifício ou maquiagem, sua pele era tão clara e linda quanto as pétalas de uma rosa, e seus lábios... Os lábios carnudos eram daqueles que atraem a atenção de todos os homens e o deixavam com vontade de saber como seria seu gosto se tivesse a sorte de beijá-los. Aprumando-se na cadeira, sussurrou: – Estava sonhando com você... – Ganhando tempo para organizar os pensamentos, deixou escapar um sorriso indefeso. – Isso mesmo, estava sonhando com você naquela festa do Sam. Você tinha 16 anos e dançava como uma criança etérea ao som de uma música de Jimi Hendrix. Parecia tão livre e bonita. Lembro-me de pensar que você se encaixaria à perfeição naquela época do paz e amor nos anos 1960. As sobrancelhas escuras de Lara se franziram como se a referência a desagradasse. Era evidente que aquela lembrança do passado não a remetia a um instante de prazer. – Meus 16 anos foram um período péssimo. Eu era tímida e de vez em quando dizia idiotices das quais depois me arrependia. Naquela noite na festa eu disse algo muito estúpido. – Disse? Pois devia esquecer. Pelo amor de Deus, isso foi anos atrás, querida, e se não me falha a memória todo mundo tinha bebido além da conta. Portanto, deve responsabilizar a bebida se fez alguma bobagem. Além do mais, temos direito a dizer idiotices às vezes. Se não pode ser idiota aos 16, então quando vai poder? De qualquer maneira, eu senti inveja de você naquela noite. – Sério? Por quê? – Porque você parecia tão despreocupada. Para mim, você representava a liberdade com que eu sonhava... o tipo de liberdade que dinheiro nenhum é capaz de comprar. Agora era a vez de ele se sentir estranho. Gabriel nunca revelara nada pessoal, nenhum sentimento a ninguém. Como muitos jovens, os planos que o tinham absorvido desde cedo haviam lhe ensinado que expressar emoções era sinal de fraqueza. Saindo da poltrona, ele atravessou o aposento para voltar a admirar o jardim ensolarado. Imediatamente notou a mesa de ferro preparada para o almoço. Era a distração de que precisava. Muita introspecção o deixaria irritado. Já se arrependia de ter sido tão franco com Lara. – Você sugeriu comermos ao ar livre? – Isso. O almoço está pronto. Por que não se acomoda enquanto busco os pratos? LARA NÃO conseguia esquecer do comentário de Gabriel sobre a festa de Sean. Ele não lhe dera qualquer sinal de que se lembrava de ter dançado com ela – de ela ter erguido o rosto querendo um beijo e do comentário de que deviam ter meninos da idade dela interessados nela e que ele estava de olho na loura que era sua supervisora na faculdade. Ele não aproveitara a dica quando Lara mencionou ter dito algo idiota de que se arrependia. Teria sido tão insignificante que ele sequer se lembrava? O fato de ter dito que estava sonhando com ela tinha parecido demonstrar sincera admiração e soara irreal. Contudo, por mais sedutor que soasse, Lara permaneceria com o pé atrás. Não deixaria seu comportamento imaturo do passado se repetir.


Mas também não podia esquecer a confissão de Gabriel de que sua dança naquele dia representava a liberdade com que ele sonhava – uma liberdade que “nenhum dinheiro” fora capaz de comprar para ele. Será que, de algum modo, ele se sentia enjaulado? Não poderia dar sumiço na ânsia que se apossava dela, pois ele talvez revelasse mais de seus pensamentos – pelo menos como amigo. Era fácil adivinhar que ele era atormentado. Durante o pouco tempo juntos, ela começara a intuir que a morte de Sean não era a única dor que o consumia. Ele quase não conversou durante o almoço, exceto para elogiar a salada de frango. Lara não se importou. Fazia um dia lindo e o calor do sol ajudava a aliviar a tensão por estar sentada diante do homem que a enfeitiçava desde que ela era uma menina de 16 anos. A verdade é que ainda a enfeitiçava. Ela tinha feito tantas fantasias com Gabriel; chegara inclusive a alimentar a tola esperança de que um dia ele voltaria e se apaixonaria por ela. Mas ao vê-lo de novo sabia que isso era loucura. A chance de ficarem juntos era ainda mais remota do que no passado. Todavia, sentados no jardim, ela se lembrou de que o convívio de Gabriel com ela e a família tinha criado um acordo implícito de que podiam ficar à vontade, relaxar. Não precisavam erguer muros que evitariam a comunicação sincera. Ela pegou a garrafa de vinho branco que tinha aberto e colocado em um balde de gelo, serviu o Chardonnay e, erguendo a taça, sorriu e brindou: – Aos velhos amigos. Uma sombra anuviou os olhos azuis de Gabriel. Os ombros largos ficaram tensos. Então ele também ergueu a taça. – A Sean, que uma vez me garantiu que a melhor garrafa de vinho era aquela que se compartilhava com um amigo de confiança, fosse o vinho caro ou barato. A expressão no rosto bonito era indiscutivelmente irônica, mesclada com uma tristeza e um arrependimento que ele não conseguia disfarçar. – Seu irmão era muito generoso. Gostaria de ter demonstrado mais apreço por suas qualidades quando tive a chance. Mas eu vivia muito ocupado em trilhar meu caminho para lhe dar valor. Na certa, eu não estava por perto quando ele precisou de um aliado ou alguém em quem confiar. Grande “amigo de confiança” eu fui. – Não seja tão duro consigo mesmo, Gabriel. Nem por um segundo Lara pôde negar o impulso de tocá-lo. Mas sabia o risco que corria, embora ansiasse por reconfortá-lo. Era lastimável ver o quanto ele estava triste. Sean também teria odiado. Pousou a mão sobre a dele. Gabriel olhou as mãos como se hipnotizado. Depois balançou a cabeça. – A verdade é que não sou duro o bastante. Constantemente estou criando estratégias e planos para não ter que me olhar a fundo e constatar no que me tornei... um homem de quem não me orgulho. – Mas você já me assegurou que as pessoas o consideram um sucesso. Devia ter orgulho do que conseguiu. – Então você acha que minha vida é um sucesso? A dor que Lara viu refletida no olhar dele a fez suspirar. – O que eu acho não interessa, Gabriel. Deve ter dado duro para chegar aonde chegou, e sem contar com a ajuda da família e dos amigos. Isso mostra uma força e uma determinação que a maioria das pessoas adoraria ter. – Sério?


Para sua surpresa, Gabriel segurou a sua mão, como se pretendesse mantê-la prisioneira; o olhar intenso e ávido a deixou com o coração quase saindo pela boca. – Você também é generosa demais, Lara. Vou deixar claro o homem que sou, caso esteja alimentando a crença de que sou melhor do que na verdade sou. Não sou. Não dou a mínima para os outros. Ao contrário de você e de sua família, gosto de tirar e não de dar. No mundo em que vivo, os fracos caem e são logo esquecidos. Para atingir meus objetivos, aprendi a não deixar nada nem ninguém atravessar meu caminho. Se eu voltar a fazer parte de sua vida, garanto que vou magoar você e fazer com que se arrependa do dia em que me encontrou. Com a boca seca, Lara não conseguiu controlar as lágrimas. As palavras eram punhaladas e seu instinto de autoproteção imediatamente veio à tona. – Você fala como se eu estivesse alimentando alguma esperança de ficarmos juntos. Não se preocupe, Gabriel, não estou. Ela fungou e soltou o braço. – Nova York mudou você, Gabriel, e para pior. Você costumava ser divertido e amigável. Mas parece que o caminho que escolheu o destruiu em vez de fazê-lo feliz. Isso me preocupa. E para que saiba, não estou procurando um homem. E garanto que se estivesse não seria você. – É mesmo? Num segundo Gabriel se levantou e a puxou pela cintura e a apertou contra o peito de aço. Lara não teve tempo para pensar ou sequer sentir-se alarmada. Mas as batidas do coração aceleraram quando ele a segurou pela nuca e puxou seu rosto. Então o mundo que conhecia desapareceu como se tudo não passasse de um sonho nebuloso. Apertou as pálpebras quando ele a beijou, a língua acetinada invadindo sem dó o interior de cetim de sua boca em um beijo que parecia um misto de paixão e fúria. Lara cambaleou. A sensação também despertou sentimentos há muito adormecidos que, libertos, corresponderam àquela fome insana. Junto com a chocante constatação de ter sido atingida por outros sentimentos e sensações. A mais impressionante era o delicioso gosto de Gabriel, além do provocativo perfume que ele exalava – quase primitivo. E a força do corpo forte do homem contra o seu fez o sangue ferver em suas veias, como se ele fosse um lobo faminto e solitário decidido a arrastá-la para seu covil e saboreá-la a seu bel-prazer. Mas o coração dela não era o único a martelar. E quando Gabriel se afastou e soltou um palavrão, Lara hesitou. As pernas tremiam. Recuperando o equilíbrio o mais rápido possível, ficou parada no imaculado jardim do pai e encostou os dedos nos lábios já inchados. Gabriel já tinha se afastado e, parado, balançava a cabeça, com aparência irritada. Quando o olhar encontrou o seu, ela nunca tinha visto expressão tão severa. – Desculpe se a magoei. Apesar do que eu falei, nunca foi esta a minha intenção. Mas é melhor saber logo quem eu sou do que descobrir depois. Pelo menos agora você tem a chance de fechar a porta na minha cara e nunca mais me ver. Passando as costas da mão nos olhos marejados de lágrimas, Lara enfrentou o olhar torturado. Então, fez o silencioso voto de não abandoná-lo, como a mãe e o tio haviam feito. As amigas podiam não entender sua decisão se tivessem escutado o discurso sobre ser “quem tira e não quem dá”, mas nenhuma delas conhecia o Gabriel dos velhos tempos, nem sabia o que era colocar os olhos em um homem e acreditar que ele pudesse ser o seu destino. Não obstante seus sentimentos, Lara continuava determinada a não deixar Gabriel assumir o comando. Mesmo que não pudesse negar a química entre eles, não permitiria que ele a usasse e a


descartasse sem pensar duas vezes. Não queria ser uma das “fracas” largadas no meio do caminho. – Certamente, não pretendia me magoar, Gabriel, mas a verdade é que magoou. Talvez seja melhor ir embora e refletir a respeito do que me disse. Seu olhar demonstrou surpresa. – Isso quer dizer que estaria disposta a me encontrar novamente apesar do que acabou de acontecer? – Isso mesmo. Mas você não vai se comportar como se tivesse o direito de me beijar outra vez, Gabriel. Porque eu não vou permitir. Cruzando os braços, Lara suspirou. – Entendo que agiu assim por frustração, pois para você é difícil lidar com seus sentimentos. Sentimentos que devem atormentá-lo desde que soube da morte de seu tio e da de Sean. A dor pode fazer com que pessoas equilibradas ajam de modo irrefletido. – Então você acha que a beijei por não saber o que fazer com minha dor e então perdi o juízo? Sentindo o rosto corar, ela enrolou uma mecha de cabelo nos dedos e sem titubear enfrentou seu olhar. – Sim, eu acho. – Então não conhece nada a respeito dos homens e de seus desejos básicos. – Ergueu a sobrancelha com expressão zombeteira. Mais chocada com o comentário do que com o beijo, Lara desejou que a terra se abrisse e a engolisse. Obviamente Gabriel ainda a via como a inocente irmãzinha de Sean, uma mulher provavelmente protegida do mundo pelos pais e extremamente ingênua. Reunindo cada gota de determinação, recusou-se a deixar que o deboche a desestabilizasse. Ingênua ou não, ainda não acreditava que Gabriel mostrasse sua verdadeira natureza. Sua intuição lhe dizia que mostrar seu lado cruel e indiferente não passava de uma artimanha. Não representava a verdade. Seria capaz de apostar dinheiro nisso. – Posso não ter muita experiência com homens e sei que faz muito tempo desde que nos encontramos pela última vez, mas não sou tão ingênua quanto imagina. Tenho conhecimento do que acontece no mundo e dos desejos das pessoas. E apesar do que você afirmou, não acredito que faça parte de sua natureza pegar o que bem entende só por se sentir no direito. Você deve ter construído um muro em torno de seus sentimentos e é natural que esses sentimentos venham à tona desde que voltou para sua terra e foi forçado a enfrentar as perdas de sua vida. Fez uma pausa e respirou fundo. – Posso não ser tão esperta quanto você, mas não sou insensível ao fato de que você deve estar magoado. Tão logo pronunciou as palavras, interrogou-se como ousara expressá-las ao ver os lábios de Gabriel se contorcerem. Ele esfregava a mão na camisa do pai dela – uma camisa azul que ressaltava o intenso brilho azul de seus olhos – e por alguns segundos acreditou que ele estivesse prestes a dar as costas e ir embora. Sair de sua vida para sempre. – Odeio ser a causa de sua ilusão, querida, mas não beijei você porque estou magoado. – Voltou a erguer a sobrancelha com ar de deboche. – Pelo menos não como você pensa. Beijei você por puro tesão. Se você acha isso chocante, dê uma olhada no espelho. A menininha que conhecia cresceu e se transformou em uma mulher muito bonita e atraente. Muito sexy. Nenhum homem no mundo me culparia por querer você na minha cama. – Se acha que vou me sentir lisonjeada, então eu...


Ele se aproximou, mas Lara não se moveu. Gabriel podia provocá-la quanto quisesse, mas ela fincaria pé e se recusaria a acreditar que ele não estivesse representando, tentando distraí-la da verdade sobre o que ele realmente sentia, na tentativa de fazê-la pensar que ele era um playboy frio e sem coração, sem nenhum vestígio do jovem brincalhão que ela tinha conhecido. – Não espero que fique lisonjeada, meu anjo. – Erguendo a mão, acariciou seu rosto. O gesto a fez congelar e ferver ao mesmo tempo. Não podia negar que ele demonstrara ser imprevisível. E até perigoso. Certa feita, Sean tinha comentado que as mulheres cercavam Gabriel como abelhas em volta do mel, não só porque ele era bonito, mas porque passava a imagem de bad boy que todas achavam irresistível. Lara acreditou, mas nunca sentira medo dele. Podia ser ingênua, mas não achava que ele a magoaria de propósito. Estranho, mesmo aquele beijo selvagem não a fizera mudar de ideia. Ele respirou fundo e o bafo quente soprou o rosto de Lara. Causou o mesmo efeito surpreendente de ela ter tomado um gole de bebida forte. A tontura e fraqueza percorreram seu corpo e ela achou que nunca mais conseguiria firmar-se nas pernas. – Em vez de se sentir lisonjeada... para o nosso bem... prefiro que você me mande para o inferno e me avise para não pisar mais na sua soleira. Os lábios bem-desenhados se retorceram, como se ele desejasse que ela pusesse fim à sua agonia e atendesse ao seu pedido de mandá-lo para o inferno. Mas Lara não podia, não queria. – Não, Gabriel, nunca vou dizer isso, a não ser que me magoe de propósito. Pode me chamar de fraca, até de idiota, mas meu irmão se reviraria no túmulo se eu lhe desse as costas. Meus pais tampouco ficariam satisfeitos. Acho que nossas emoções estão alteradas depois de tudo que sofremos... com a perda de pessoas que amamos. Então vamos esquecer o assunto e terminar nosso almoço, ok? Preparei uma salada de frutas com creme de sobremesa. Simulando tranquilidade, ela tirou a mão de Gabriel de seu rosto e voltou para a mesa. Mas o coração batia alucinado ao puxar a cadeira e ficar de costas para ele. Imóvel, ele a fitava como se incapaz de adivinhar de onde ela surgira. – Não, Lara, vou embora. Obrigado pelo almoço, mas acho que vou dispensar a sobremesa. – Deu de ombros. – Apesar do que acabou de acontecer, quero que saiba que lhe desejo um futuro feliz, de verdade. O melhor. Não tenho dúvida de que ainda vai partir alguns corações masculinos... se é que ainda não partiu. Quando Gabriel acabou de falar, Barney surgiu correndo feito uma bala. Depois do cochilo, revigorado, pulou em cima de Gabriel e latia de excitação como se tivesse encontrado seu melhor amigo. Lara podia ter beijado o terrier porque, pego de surpresa e com as defesas baixas, Gabriel agachou e pareceu satisfeito em brincar com o animal. A tensão sumiu. – Acho que ele gosta de você. – Ela sorriu. – Acho que não vai deixar você ir embora tão fácil, Gabriel. – E você, Lara? Vai me deixar ir embora tão fácil? Apesar da distância, o brilho dos olhos dele pareceu perfurar o centro de sua alma e a abalou. Passando a língua nos lábios ressecados, ela esfregou a mão trêmula na frente do jeans e o fitou sem pestanejar. – Talvez não. Eu também sou meio parecida com os terriers quando se trata de amigos. É difícil largá-los. Quando voltar a Nova York já vai estar cheio de tanto me ver.


– Acha mesmo? – Pegando o brincalhão Barney no colo, Gabriel se levantou. O sorriso enigmático deixou as pernas de Lara trêmulas como gelatina. – Que tal comer a sobremesa? – sugeriu, em tom decidido. – Seria um desperdício jogá-la fora. – A tentação personificada, é isso que você é, Lara Bradley. – Eu daria uma ótima vendedora, não acha? Apertando Barney, já mais calmo, contra o peito largo, ele sorriu. – Querida, você poderia vender qualquer coisa e eu compraria sem resistir. Entende quanto poder exerce sobre mim? Se Gabriel soubesse que o que ela desejava não era exercer poder, pensou, mas ter algo bem mais profundo e duradouro, ficaria surpreso.


CAPÍTULO 4

CHEGADA A hora de se despedir de Lara, usou sua estratégia, como era seu hábito. Ao se mostrar não disponível, as mulheres ficavam ansiosas para voltar a encontrá-lo. Tentou manter o tom mais descontraído possível. Mas bastou olhar os grandes olhos castanhos de Lara para se dar conta de que aquela era a única mulher com quem não poderia empregar a habitual técnica de laissez-faire. Aquele beijo incendiário roubado podia tê-la feito imaginar que ele era um cafajeste, mas não tinha sido planejado. Nunca experimentara tamanha atração por uma mulher e, tomado pela surpreendente vontade de confessar o quanto vivia focado no sucesso, seu desejo por ela atingira o ponto máximo. Acrescente-se a isso o fato de estar zangado consigo, com o mundo e com as cartas que o destino jogara e pronto, estava preparada a fórmula para a explosão de fogos. Agora Gabriel não conseguia expulsar da memória o gosto dos lábios e os suaves contornos do corpo dela. Ao tomar consciência de que não queria ir embora antes de passar algum tempo com Lara, resolveu deixar as coisas transcorrerem naturalmente, em vez de sabotar suas chances agindo de modo autoritário. Assim, sugeriu buscá-la no dia seguinte, após a reunião com o advogado do tio, para visitarem a casa que herdara. A ideia de visitar sua antiga casa com ela ao lado era mais atraente do que enfrentar as amargas lembranças que evocaria se fosse sozinho. Depois da visita, a levaria de volta à casa dos pais, a fim de que ela levasse Barney para passear, e à noite a levaria para jantar fora. Depois de ouvir Lara aceitar satisfeita ambas as sugestões, Gabriel voltara animado ao hotel em Park Lane, apesar de ter perdido Sean e ainda ser forçado a enfrentar os fantasmas de seu passado na casa em que fora criado. Tirando isso, começara a perceber que ele e Lara tinham “assuntos mal resolvidos”. Caso contrário, como explicar a química entre eles após anos sem se verem? Não voltaria a Nova York antes de descobrir os motivos. – VOCÊ SE importa se eu perguntar como foi a reunião com o advogado? No luxuoso carro preto alugado por Gabriel, o tom de voz de Lara demonstrava insegurança quanto ao tipo de resposta que receberia. Gabriel não podia culpá-la pela cautela, depois do que acontecera no dia anterior. No entanto, apesar de estar secretamente empolgado de tê-la ao seu lado, cheirando a


rosas e linda em um vestido cor-de-rosa tomara que caia, outro assunto mais perturbador dominava seus pensamentos. Naquela manhã descobrira haver uma cláusula surpreendente no testamento do tio. O impacto em sua vida caso aceitasse a cláusula era um dilema jamais previsto. Parecia haver também outra complicação com a qual lidar. Deus do céu! Nunca ficaria livre do legado desmoralizante do passado? Engolindo em seco, ele saiu da estrada principal e pegou uma via que levava ao campo. Uma estrada conhecida pela qual tinha passado muitas vezes quando criança – e raramente com prazer. Depois de viajarem um tempo em silêncio, Gabriel olhou para Lara de soslaio e respondeu à pergunta. – A reunião transcorreu bem, suponho, embora não tenha atendido em completo às minhas expectativas. Vou mostrar a casa e podemos dar uma olhada. Gostaria de verificar algumas coisas e você pode vir comigo. Então, tomaremos um café. Marquei encontro com a governanta. Ela ainda continuará cuidando do lugar para mim. – Deve ser bom ter alguém para cuidar da casa para você. Ao se aproximarem da entrada ladeada de árvores, Gabriel fez uma careta. – Não a conheço direito. Ela se chama Janet Mullan e só a vi no enterro do meu tio. Mas ela me pareceu simpática. Só Deus sabe o que teve de aguentar do meu tio taciturno durante anos a fio. Lara suspirou. – Você nunca me falou o nome do seu tio. Ele sentiu um nó no estômago. Decidira nunca chamar o tio pelo nome porque chamar o homem pelo nome poderia sugerir que ele tinha alguma importância, o que definitivamente não tinha. – Ele se chamava Richard Devenish, ou melhor, Sir Richard Devenish. – Não conseguiu evitar a entonação áspera. Apesar de o homem ser seu único parente, além da mãe desaparecida, é claro, Gabriel sem dúvida herdaria o título que representava pouco ou nada para ele. Provavelmente jamais o usaria. E se usasse, seria sempre uma lembrança desagradável de suas origens. Sua bonita companhia remexeu-se no assento e ele sentiu os grandes olhos castanhos fixos nele com uma expressão atônita. – Você quer dizer que vem de uma família nobre, Gabriel? Eu não sabia. – E por que deveria? Nunca fiz propaganda a respeito de minhas origens. – Sean sabia? – Devo ter mencionado uma vez, porque ocasionalmente, quando bebíamos, ele fazia uma reverência de molecagem. Nenhum de nós levava o título a sério. – Do jeito como fala, parece constrangido. De ter um título, quero dizer. Eu não entendo. – Não. – Olhando pelo vidro o solar encantador e antigo de tijolinhos vermelhos no final da estradinha materializar-se, Gabriel sentiu um frio no estômago. – E suponho que jamais entenderá... a não ser que eu explique, né? Bem, chegamos. Estacionou o carro e, desligando o motor, voltou-se para Lara. Mais uma vez uma onda de prazer e uma necessidade aguda pulsou em suas veias. Era difícil pensar em outra coisa a não ser em fazer amor com ela. Os ombros desnudos no vestido de verão não contribuíam para que ele mudasse de ideia. O modo como a parte de cima segurava os seios fartos tornava difícil desviar o olhar para qualquer outro lugar. – Por falar nisso... – Ele sorriu, mudando propositalmente o tom brusco para um mais gentil. – Já disse como você está bonita? Esse vestido fica sensacional em você.


A língua rosada de Lara umedeceu os lábios e a cor de suas bochechas passou de um cor-de-rosa claro para um vermelho-cereja. O desejo que já tomava conta de Gabriel tornou-se doloroso. – Não, não falou – contestou ela, evidentemente incomodada com o elogio. Examinou interessada a imponente construção à frente. – Que casa incrível. Em comparação, a casa de meus pais é do tamanho de uma casinha de bonecas. – É, mas eu sei qual prefiro. Antes que ela pudesse comentar, Gabriel colocou a mão na maçaneta do carro, saltou e a convidou: – Vamos entrar. NA NOITE anterior, Lara descobrira ser impossível dormir. Havia passado a noite inteira com insônia, deitada, pensando em Gabriel e no fato de que ele voltaria no dia seguinte. A camisa que ele usara durante o passeio pelo bosque estava pendurada em um cabide nas costas da espreguiçadeira perto de sua cama. Ela tinha lavado e passado a camisa, mas ela ainda guardava o cheiro do dono e, por vezes, Lara esticava a mão e puxava o tecido para cheirá-lo e se lembrar de como o perfume de Gabriel era atraente e sexy. Também havia levado os dedos aos lábios ao lembrar-se do beijo apaixonado. E sempre que o fazia tinha a sensação de estar deitada ao lado de uma fornalha. Não havia um único centímetro de sua pele que não se sentisse chamuscado pelo homem. Apenas a lembrança de sua afogueada paixão tinha a capacidade de excitá-la de um modo até então desconhecido. Embora a camisa branca feita sob medida não fosse garantia de que Gabriel manteria a promessa e voltaria, Lara resolvera acreditar que fosse. Mesmo um homem rico como Gabriel com certeza não ia querer perder uma camisa cara. Ou iria? Ela não precisava ter se preocupado. Gabriel tinha retornado, como combinado. E se ontem vê-lo aparecer de surpresa na porta da casa de seus pais tinha sido um sonho, então a sensação surreal definitivamente intensificara-se hoje. Lara sabia que o amigo do irmão pertencia a uma família de bens, mas não fazia ideia de que a casa em que fora criado fosse do tamanho de um palácio. Na certa, Sean nunca tinha mencionado isso. Teria o irmão buscado proteger a privacidade do amigo mantendo segredo sobre a informação? Lara não ficaria surpresa. Sean sempre tinha sido um amigo leal. Sobretudo quando se tratava de Gabriel. Janet Mullan, a governanta, era uma mulher baixinha e bonita em torno dos 60 anos, com uma mecha de cabelo grisalho em meio aos cachos castanhos, e provou ser tão alegre quanto Gabriel tinha dito. Seus cintilantes olhos azuis iluminaram-se de prazer ao cumprimentá-los. Aguardava diante das impressionantes portas duplas em estilo georgiano, e pareceu sinceramente satisfeita em ver o novo e elegante dono da casa. Logo prontificou-se a ajudar Gabriel e a convidada no que estivesse ao seu alcance, para que se sentissem em casa, e avisou que ele não deveria hesitar em pedir. Gostariam de chá gelado ou alguma bebida refrescante antes de visitarem a casa? A previsão do tempo anunciara um dia “tórrido”. Olhando de relance para Lara, Gabriel declinou da oferta. Entretanto, pediu a Janet que providenciasse café e biscoitos, uma vez terminado o tour pela casa. Depois de solicitar a chave do escritório do tio, pois precisava examinar a correspondência deixada em seu nome, ficou claro para Lara que ele estava inquieto, e teve a sensação de que Gabriel queria ficar na casa apenas o tempo estritamente necessário.


Para ela, era difícil entender sua reação, uma vez que agora era o dono daquela incrível propriedade. Quando Janet Mullan retornou com a chave, ele agradeceu educadamente e encostando a mão nas costas de Lara, parcialmente expostas pelo vestido que decidira vestir num impulso naquela manhã, Gabriel a conduziu na direção da escadaria palaciana que levava aos andares superiores. Depois de entrar em vários elegantes e lindos aposentos, chegaram à biblioteca. Lara morria de curiosidade se Gabriel mostraria o quarto que ocupava quando criança, na esperança de que o aposento lhe fornecesse um pouco mais de dados sobre o homem em que se tornara, mas calculou que ele preferia visitá-lo sozinho. Porém, tão logo entraram na biblioteca, Lara ficou extasiada. Impossível evitar o deslumbramento. À sua frente, estantes repletas de livros cobriam as paredes do chão ao teto. Mulheres mais avarentas e ambiciosas podiam sonhar com diamantes ou carros esportes, mas ela se sentiria abençoada se tivesse um aposento totalmente dedicado a seus livros, um aposento no qual pudesse ler e relaxar, mesmo pequeno. A biblioteca de Gabriel superava seus mais extravagantes sonhos, mas ela se sentiu sinceramente privilegiada de ver um lugar tão maravilhoso, mesmo que por instantes. Percebendo um raro sorriso de satisfação no rosto bonito quando ele notou seu encantamento, Lara se pegou atravessando o piso encerado em direção às generosas janelas em estilo georgiano. O aposento permitia uma paisagem deslumbrante, um rio e quilômetros de vegetação até perder de vista. Contudo, ela rapidamente esqueceu o prazer da vista ao perceber que Gabriel ficara quieto. Estaria infeliz ou chateado com alguma coisa? Lara gostaria de saber o que o perturbava. Todavia, sabia, sem sombra de dúvidas, que mal conseguia desgrudar os olhos dele. Mesmo usando jeans e uma camiseta azul-marinho por baixo de uma camisa aberta de cambraia, o homem não parecia deslocado em meio à impressionante magnitude da casa de sua infância. Sim, Gabriel Devenish exalava classe, consciente disso ou não. No entanto, a expressão séria, quase solene não sugeriu que ele se sentisse contente com o fato de que, além de ser um rico homem de negócios, era agora dono de terras. De fato, sua expressão preocupada sugeria que ele preferia estar em qualquer outro lugar do mundo. O que se passava em sua mente? Lembrava-se do tio? Ontem havia confessado que não tinham um relacionamento próximo. Para um menino, cuja mãe já o tinha abandonado, a distância do tio devia ter sido cruel. Talvez, ao voltar a entrar na casa, Gabriel lamentasse a oportunidade agora perdida de tentar se aproximar do tio numa última tentativa de reatar os laços familiares. Seria bom se ele compartilhasse com ela alguns de seus sentimentos. – Gabriel? – O que foi? Ao se voltar, o olhar perturbado, mas enérgico, a encarou, como se a desafiasse a dizer algo que o desagradasse. Lara não precisava ser psicóloga para perceber que a compostura equilibrava-se em um precário fio de navalha. Não era, definitivamente, o momento de perguntar sobre seu passado. – Pelo que vi até agora, esse é o meu lugar favorito da casa – declarou, esforçando-se para transmitir um tom jovial. – Que sorte a sua ter uma biblioteca à disposição. Se eu morasse nesta casa, passaria a maior parte do tempo aqui. – Claro que sim. Por isso se tornou bibliotecária. Por que ama os livros, certo? – Não posso negar. – Bem, querida...


Para sua surpresa, Gabriel aproximou-se, embora ainda parecesse perturbado e seus olhos azuis dessem a impressão de prenunciar uma tempestade. – Embora possa pensar que tive sorte por ter uma biblioteca e uma casa linda à minha disposição, a minha experiência aqui foi tudo, menos agradável ou feliz. Na verdade, a maior parte do tempo, a casa parecia mais uma prisão do que um lar para mim. Só quando fui para a universidade e conheci Sean, e depois você e seus pais, Lara, senti o gosto de como minha vida poderia ter sido diferente se eu tivesse tido uma família feliz igual a sua. Resistindo ao impulso de tocá-lo, por mais que desejasse, Lara abriu um sorriso compreensivo. – Lamento que não tenha tido uma vida familiar feliz quando era criança, de verdade. Mas espero que saiba que meus pais e Sean o consideravam um membro da família. Mamãe e papai ficaram tão felizes ao ver você se formar quanto ao verem Sean concluir os estudos. – E você, Lara? Gabriel a surpreendeu ao enroscar uma mecha do cabelo escuro em seu dedo. – Você também me considerava um membro da família? Embora seu coração palpitasse agitado e a boca ressecasse, ela encontrou os olhos intensos e os fitou com coragem. Era evidente que sua resposta era importante para ele e decidiu dizer a verdade. – Não, Gabriel. Com toda honestidade, nunca pensei em você como um membro da família. Uma ponta de surpresa ergueu o canto da boca sublime, mas ele se manteve inalterado. – Ora, ora... – A voz baixou e ele soltou as mechas de cabelo e segurou seu queixo. Erguendo seu rosto para capturar seu olhar, pronunciou: – Preciso parabenizá-la por sua honestidade, Lara. Então, se não pensava em mim como família, como me via? Um súbito ataque de nervos. Passou a mão trêmula pelo vestido. A proximidade de Gabriel, o sedutor calor que emanava de seu corpo não a deixavam raciocinar direito, quanto mais formar uma frase. – Isso não quer dizer que não o tivesse em alta conta. Você era o melhor amigo do meu irmão e... e eu gostava muito de você. Ainda gosto. – Gosta? Imaginou que a pergunta era inevitável, mas não sabia como responder. – E eu ainda gosto muito de você. – Gosta? – Os dedos apertaram seu queixo com mais força. Os olhos azuis nunca pareceram tão atormentados. – Essa deve ser a mais insípida expressão de sentimento que já ouvi. Lara estremeceu. Os mamilos ficaram tão duros que pareciam prestes a perfurar o sutiã. Pareciam de aço e doíam como se queimados por uma chama enquanto, indefesa, observou a boca de Gabriel descer na direção da sua. O instinto de autopreservação aliado à necessidade de manter o mínimo de equilíbrio antes de se perder por completo a percorreu e ela plantou a palma da mão em seu peito para impedi-lo. O peito parecia uma parede impenetrável de ferro, e embora Lara tentasse impedi-lo, o corpo clamava por seu toque. – Não deveríamos... Não deveríamos fazer isso – argumentou num suspiro. – Quem disse? – Um dos cantos daquela diabólica boca curvou-se e ele segurou a mão que tentava impedi-lo e a afastou. Então ele colou o corpo ao seu. – Se é o que nós dois queremos, então quem pode determinar que devemos parar?


De novo Lara fez a última tentativa em nome do bom senso. Mas o desejo de Gabriel tinha incendiado o céu, como uma chama tocando o papel, e ter bom senso era a última coisa – a última – que seu corpo inflamado desejava. O corpo forte colado ao seu era uma delícia, e ele estava visivelmente excitado. Entretanto, conseguiu dizer, abalada: – Quero ser sua amiga, uma grande amiga e não uma de suas “amiguinhas” com quem passa a noite quando quer companhia. Nossa amizade tem muito valor para mim. Não gostaria que sexo a estragasse. De imediato ele desceu as mãos surpreso. Depois, furioso. – Então você se sentiria diminuída se dormisse comigo? Não posso afirmar que isso faz bem para o meu ego. Mas talvez no mundo de conto de fadas em que vive, Lara, você esperasse ir para a cama com algum cavaleiro de armadura. Gabriel engoliu em seco e a expressão furiosa desapareceu. – Nunca poderia representar esse papel, querida, e se tudo o que deseja é um amigo, sugiro procurar em outro lugar. Você conhece a minha história e sabe que fui uma droga de amigo para seu irmão. Por que acredita que seria diferente com você? Não entendia o motivo de irritá-lo com tanta facilidade, mas em vez de tentar descobrir, Lara preferiu ir ao cerne da questão. Apesar de ter sido rejeitada há muitos anos, ela não achava que ele agira assim por não gostar dela. – Talvez não tenha me expressado direito, Gabriel. – Mordeu o lábio de frustração. – Não quis dizer que ir para a cama com você me diminuiria, mas seria uma pena reduzir a consideração que temos um pelo outro porque sucumbimos a um desejo que pode ser logo esquecido e... – O rosto ficou ruborizado ao pronunciar as palavras seguintes. – ... E do qual eu me arrependa... – Então acha que vou ser um amante horroroso e que vai se arrepender? Lara mal podia acreditar ter se tornado adepta de dizer a coisa errada na hora errada. Contemplando a paisagem e buscando algum tipo de inspiração mítica, suspirou. – Não é isso. Você parece determinado a interpretar mal o que digo. Cruzando os braços, ele a olhou atentamente. Os raios de sol entrando pela janela iluminavam o cabelo castanho de Gabriel e ela ficou hipnotizada. – Então me diga: acha errado sucumbir ao desejo? Acha que vai ser punida? – Não sou uma freira. – Corou, sentindo-se tola. – Graças a Deus – comentou, deixando-a novamente fraca quando a boca se curvou num de seus sorrisos devastadores. – Gostaria de me mostrar outra parte da casa? – inquiriu apressada, aproveitando a oportunidade para se distanciar na tentativa de se acalmar. Balançando a cabeça, respondeu: – Isso poderia gerar uma resposta indesejada para você, querida, e para poupá-la dos rubores encantadores, deixarei a resposta para depois. Agora preciso ir ao escritório do meu tio examinar alguns documentos. Acha que consegue encontrar o caminho de volta? Peça à sra. Mullan que prepare um café para a gente. Espero não demorar. – Claro. – Contente com o temporário descanso para colocar os pensamentos em ordem, Lara concordou. Mas então um pensamento lhe ocorreu. E se a correspondência deixada pelo tio o abalasse? Qual seu estado de espírito ao descer para encontrá-la? E ela seria capaz de lidar com a situação e darlhe o apoio de que talvez necessitasse?


CAPÍTULO 5

APROXIMANDO-SE DA escrivaninha de carvalho em estilo Regency, num aposento no qual pairava o familiar odor de charutos Havana, Gabriel olhou o envelope com seu nome e, inconscientemente, cerrou os punhos. Reconhecer a letra imponente com a letra “G” sinuosa num floreio exagerado o fez estremecer. Tinha sido avisado pelo advogado do tio que uma carta o esperava e devia ser lida tão logo possível para tomar a decisão sobre a inesperada exigência da cláusula. Já informado sobre o conteúdo do documento, Gabriel não estava no clima para ler o que devia ser outra exigência desagradável. Fora informado de que herdar a mansão não seria a esperada formalidade simples. Porém, no final das contas, era um bem-sucedido profissional e financista, e não desdenharia o acréscimo de uma considerável fortuna se a oportunidade se apresentasse, não importava o quanto a tarefa exigisse dele. Tendo revisitado a casa e a grande extensão de terreno, decidira anunciá-la e vendê-la o mais rápido possível, antes mesmo de voltar para Nova York. Certamente, não queria passar seis meses ali e decidir o que faria com o lugar, como a cláusula estipulava. O tio achava mesmo que ele obedeceria à cláusula? Estava cansado das lembranças tristes da infância que ainda o perseguiam na idade adulta. Quanto antes se livrasse da casa, melhor. De qualquer modo, Gabriel sabia que podia contratar o melhor advogado da especialidade para ajudá-lo a contornar a complicação. E, pessoalmente, sabia de pelo menos dois investidores do mercado imobiliário que dariam um braço para pôr as mãos na propriedade tão logo soubessem que estava à venda. Não alimentava um pingo de lealdade em relação ao tio ou aos ancestrais quando se tratava de tirar lucro da venda. Afinal, o que sua estimada “família” fizera por ele? Impaciente, pois preferia estar com Lara, Gabriel abriu o envelope e desdobrou a certa. O coração bateu acelerado antes mesmo de concluir a leitura do primeiro parágrafo. Querido Gabriel, Se está lendo esta carta é porque já não estou aqui. Nas circunstâncias, cabe a mim, finalmente, revelar a verdade sobre sua mãe, Angela. Ela não abandonou você, como eu contei. Essa é a


primeira revelação importante. A segunda é o trágico fato de minha amada irmã ter tirado a própria vida. Angela sofria de uma doença depressiva séria e incurável e, logo depois que você nasceu, ficou evidente de que ela não teria condições de cuidar do filho sozinha. Ela própria precisava de constante supervisão, pois sua doença a levava a se ferir e a gravidez exacerbou a tendência. Eu tinha medo que ela pudesse machucar você também, Gabriel, embora no íntimo soubesse que ela o adorava e o protegeria com a própria vida. Ela sofria de uma doença terrível, e se eu falei a você que tinha sido abandonado foi atendendo a um pedido de sua mãe, caso algo acontecesse com ela. Ela estava convencida de que seria melhor assim do que saber que ela era doente. Ela temia que isso pudesse influenciá-lo e imaginar que tivesse herdado a depressão, o que poderia impedi-lo de levar a vida feliz e de sucesso com que ela sonhava para você. Quanto ao seu pai, sinceramente não sei quem era, pois Angela nunca me contou. Mas uma vez me confessou que o tinha amado e que ele era bom para ela, mas que era casado. Assim que descobriu que estava grávida, rompeu o relacionamento e eu parei de perguntar por saber o quanto isso a deixava infeliz. Não fui um bom pai adotivo como deveria ter sido, Gabriel. Hoje tenho consciência disso e me arrependo. Mas meu pai era um homem austero e de poucas palavras, incapaz de demonstrar afeto, e só posso concluir ter herdado seu modo de ser. Em consequência, eu me enganei acreditando que se lhe proporcionasse bens materiais isso bastaria. Mas a verdade é que em consequência de minha própria incapacidade emocional, eu o privei do que talvez mais necessitasse: amor e amizade. Jamais saberei se me perdoará pela trágica mentira a respeito de sua mãe, Gabriel, mas espero que se você for capaz de me perdoar, então tanto minha amada irmã quanto eu descansaremos em paz. Cuide do solar para nós dois, meu menino, e encha a casa com filhos amados. Espero que um dia a tristeza e a dor que nos consumiu seja banida para sempre e substituída pelo sol e pela alegria. Prestei outro grave desserviço a você, Gabriel. Uma vez eu afirmei que o dinheiro compraria tudo que queria – até mesmo o amor. Estava enganado. Espero que tenha aprendido isso e possa encontrar a mulher dos seus sonhos. Não há bem maior do que o lar e a família. Sinceramente, Seu tio, Richard Devenish Ao terminar a leitura, sentiu um aperto no coração. Uma sensação logo substituída pela raiva e desespero, numa magnitude tamanha jamais experimentada. Com as mãos trêmulas, viu a carta escorregar e cair. Apoiando os braços na escrivaninha, enfiou a cabeça entre as mãos e fechou os olhos. Tantas sensações, pensamentos brotaram ao mesmo tempo que achou que seria esmagado pelo peso. Ao abrir os olhos, murmurou: – Meu Deus, por que me atingir assim depois de todos esses anos? Não faz sentido. Impossibilitado de permanecer parado, levantou-se de supetão. Chutou uma das pernas da cadeira e a derrubou no chão.


De repente ficou difícil respirar, e a vontade de fugir da casa e da verdade sobre seu trágico passado era forte demais para ser superada ou ignorada. Amassando a carta, bateu a porta e desceu apressado. – GABRIEL, POR favor, não corra tanto! – Assustada com a velocidade com que ele dirigia nas estradinhas estreitas, Lara sentiu um calafrio. Contudo, ainda mais a inquietação lhe causava a expressão furiosa que não deixara o rosto de Gabriel desde que ele entrara na cozinha, onde ela conversava com a governanta, e comunicara que iriam embora imediatamente. – Sr. Devenish, não quer tomar o café com biscoitos? – perguntou, pesarosa, Janet Mullan, preocupada com a atitude do novo patrão. Gabriel pareceu ainda mais irritado e revidou em tom áspero: – Não se preocupe. Em breve entrarei em contato para lhe dar ciência de minha decisão. Continue fazendo seu trabalho e cuide da propriedade durante minha ausência. Só com isso deve se preocupar, sra. Mullan. E pegando a mão de Lara a conduziu porta afora sem outra explicação. Lara já pressentira que ele estava desnorteado com o que descobrira na carta do tio. Só podia ser, pensou ansiosa, pois embora estivesse muito quieto antes de entrar no escritório, ele parecia bem. – Vai chegar em casa a salvo, não se aflija, Lara. Seu perfil de traços clássicos era tão perfeito quanto uma das esculturas de mármore de Rodin. Ele não a olhou uma vez sequer. Contorcendo as mãos no colo, Lara reprimiu o suspiro e retrucou: – Não estou só preocupada com o seu jeito de dirigir, Gabriel, mas com o seu estado de espírito. – Que diabos quer dizer? Desta vez ele lhe dirigiu um olhar irritado. – Quero dizer que estou vendo que você se aborreceu, só isso. Por que não paramos em algum lugar para conversar? Não acho boa ideia dirigir tão abalado. – Por que não deixa que eu decida? Faça-me um favor, Lara, não me trate como se eu fosse um de seus animaizinhos de estimação. Caso não tenha notado, sou crescidinho, adulto e posso cuidar de mim mesmo! Sem dúvida, era “crescidinho e adulto”, pensou, mas isso não significava ter as ferramentas adequadas para curar sozinho suas feridas. No mínimo, precisava conversar com alguém. Desviando o olhar e admirando a verdejante paisagem, torceu para ter uma chance de fazê-lo se abrir quando tivesse se acalmado. Rezava para que a oportunidade se apresentasse. Ao chegar à casa dos pais, tão logo Lara abriu a porta, Barney pulou em cima dela, latindo e cumprimentando entusiasmado, a cauda curta abanando sem parar, como se ela tivesse se ausentado anos e não apenas cerca de duas horas. Como de costume, ela se abaixou para acariciá-lo entre as orelhas, nas costas, sussurrando como se ele compreendesse cada palavra que lhe dizia. Na verdade, ela não duvidava que ele entendesse tudo. – Oi, meu queridinho. Sentiu saudades de mim? Sei que não gosta de ficar sozinho muito tempo, não é? O terrier latiu baixinho, como se concordasse. Contemplando as costas e os ombros desnudos naquele vestido de verão, Gabriel fantasiou tirar-lhe a roupa e, usando uma de suas várias técnicas de sedução, convencê-la a ir para a cama com ele, em vez


de perder mais tempo e atenção com o cachorro da família. Cada vez ficava mais relutante em se afastar da morena. E depois de ler o perturbador conteúdo da carta não queria ficar sozinho. A única coisa que talvez pudesse ajudar a aliviar a tristeza seria ter Lara nua debaixo dele. Como se de repente se lembrasse de que ele estava ali, ela se levantou abrindo um sorriso. – Quais seus planos para o resto do dia? Está com pressa? Já que não tomamos café no solar, que tal um cafezinho agora? Seu comentário despertou as esperanças de Gabriel. – Está zangada comigo por não termos ficado mais tempo no solar? A expressão suavizou. – Claro que não. Só estou preocupada porque você parecia aborrecido. – Quase tudo que tem a ver com aquela maldita casa me aborrece. Mas isso não é problema seu, Lara. Vou compensá-la convidando você para jantar hoje à noite. Reservarei uma mesa no Dorchester. – Não tem motivo para me compensar, Gabriel. – Tenho sim. – Bem, mas tomamos café agora? Esfregando a nuca, Gabriel fez uma careta. – Preciso de alguma bebida mais forte. Tem conhaque? Distraída, ela ajeitou o cabelo. – Mas você vai ter de dirigir para o hotel. – Você é mesmo a dona Certinha. Aposto que nunca ficou de castigo na escola primária – zombou, odiando-se por soar tão depreciativo quando ela apenas demonstrava preocupação com ele. Sua réplica desaforada não pareceu abalá-la. Quando ela ergueu o queixo, ele se deparou com os olhos castanhos desafiantes. – Pode me apelidar do que quiser, mas não vou compartilhar de nenhum plano que tenha potencial para machucá-lo ou metê-lo em confusão, Gabriel, por mais que insista em fazer tudo do seu jeito. Sem desgrudar os olhos dela, aproximou-se. – E se eu quiser ou precisar de ajuda? De propósito abaixara o tom de voz para deixar a mensagem subentendida. Lara respirou fundo e o olhar ávido dele foi desviado para os seios que arfavam no sexy vestido cor-de-rosa. Que Deus o ajudasse, mas que homem saudável poderia resistir em circunstâncias tão tentadoras? – Que tipo de ajuda? O canto dos lábios ergueu-se num sorriso provocante. – Aposto que sabe a resposta, Lara. – Sua maneira de pensar é preocupante, sabia? Acha mesmo que a intimidade vai ajudar a resolver os problemas que o deixaram irritado? Não acha mais produtivo discutir o assunto? – Não, não acho. Estou bem mais interessado no que vai me ajudar agora, querida. Não no que aconteceu no passado. E sim, acho que a intimidade ajudaria. A última coisa que quero é que você se preocupe com o que me aconteceu. Isso é problema meu. Pode parar de tentar bancar a Madre Tereza dos Anjos por um segundo e comportar-se como mulher para variar? O rosto bonito se alterou. Era evidente que ele tocara na ferida, mas embora arrependido de tê-la magoado, isso não o impediu de querer seduzi-la. Talvez não aliviasse a devastação experimentada ao


saber a verdade sobre a mãe, a mentira forjada pelo tio, mas concretizar a ligação íntima pela qual ansiava, em parte ajudaria a satisfazer o desejo que o consumia desde que a encontrara outra vez. O anseio carnal tornava quase impossível pensar em nada a não ser nela, e da forma mais íntima possível. Teria feito algum feitiço para ele? – Que comentário gratuito! Sou tão mulher quanto você é homem e sabe muito bem disso. Com as mãos nos quadris, os olhos faiscando de fúria, Lara não tinha o menor pudor em exibir seu mau humor – e com razão. O arfar dos seios fartos e as bochechas coradas provavam que ela era um colírio para os olhos. A “irmãzinha” de Sean tinha se transformado em uma mulher que poderia deixar um pedaço de madeira excitado, quanto mais um homem saudável. Era um mistério ainda estar solteira. – E se o seu critério para julgar a feminilidade consiste apenas em afirmar que uma mulher é feminina se aceitar fazer sexo com um homem quando ele diz estar “precisando”, então você definitivamente não conhece as mulheres. – Claro que não penso assim. – Agora era a sua vez de se sentir ofendido. – Do jeito como fala, parece que sou um estranho que conheceu na rua e não alguém que a conhece desde que era menina. É tão difícil assim aceitar que sinto atração por você? Gabriel achava cada vez mais difícil controlar a crescente frustração por ela se mostrar reticente a aproximar-se dele. Talvez devesse se abrir mais um pouco. Deixá-la saber que era tão sensível quanto ela, embora raramente demonstrasse. Estaria disposto a correr o risco de tal revelação? Logo pensou em recuar como medida de proteção. E se Lara risse de sua confissão e concluísse que ela não passava de uma armadilha cínica para persuadi-la a ir para a cama com ele? E se descobrisse que se abrir tinha sido um erro colossal do qual se arrependeria? Nunca dera a nenhuma mulher tal poder sobre ele e não queria começar agora. Se não podia seduzi-la com suas táticas habituais e inatas, então não devia perder tempo tentando. Fechando a porta e sem querer ser hipnotizada pelo seu perfume primaveril que a fazia pensar em jardins e flores, Lara suspirou. – Não quero discutir com você. Vou preparar o café. Depois, acho que devíamos sentar e conversar. Frustrado por ter perdido a batalha, mas relutante em dar as costas, Gabriel assentiu. – Tudo bem, como preferir, por enquanto. Talvez o café ajude a clarear minhas ideias. Só Deus sabe que nesse instante parece que uma manada de búfalos resolveu passear em minha cabeça. – Deve ser o fuso horário. A não ser que você esteja resfriado ou com alergia. Deixe-me ver. – Encostou a mão em sua testa para sentir a temperatura e o toque fez Gabriel soltar um suspiro surpreso e satisfeito. O gesto renovou sua esperança de que se ela continuasse a bancar a enfermeira, ele podia passar mais tempo por perto. – Você está meio quente, mas nada preocupante. Se piorar, pego um remédio para baixar a temperatura. – Não vai adiantar. – Por quê? – Vamos tomar o café e talvez eu lhe conte. Encontrando a desculpa perfeita para tocar nela, quando se tornava a cada instante mais difícil manter-se afastado, ele segurou-lhe o cotovelo para atravessarem o corredor e entrar na cozinha.


CAPÍTULO 6

LARA NUNCA enfrentara um momento tão difícil quanto sentar-se diante de Gabriel à mesa da cozinha e fingir estar imune ao seu olhar de desejo. Seria tão fácil dar o que ele queria, o que ela também queria. Mas em que isso resultaria a não ser em satisfazer o mútuo desejo de gratificação sexual? Ela não duvidava que ele pudesse obter isso onde bem entendesse. Afinal, qual mulher no juízo perfeito olharia aquele homem sem imaginar como seria fazer amor com ele? Sem mencionar a chance de realmente descobrir como seria! Ele era o protótipo da fantasia erótica. Mas embora a ideia de ter seu corpo enroscado com o de Gabriel fosse um sonho sonhado com frequência e que desejava tornar realidade, não ia satisfazer sua fantasia indo para a cama com ele uma ou duas vezes e depois vê-lo partir. Não quando ela ansiava por muito mais. – Posso saber por que decidiu usar esse vestido hoje? – O quê? – Surpresa com a pergunta, Lara fitou os cativantes olhos azuis sem saber o que responder. O vestido não se encaixava no seu estilo, com certeza. Em termos de roupa, ela costumava usar modelos mais discretos e fechados, mas sua amiga Nicky a tinha persuadido de que aquele vestido era “chamativo” e seria perfeito para um encontro com alguém especial. Supostamente ao saber que veria Gabriel no dia seguinte e que ele a levaria para visitar a casa da família, ela tinha decidido que isso podia ser considerado uma espécie de encontro. Agora, à fria luz do dia, com o olhar famigerado a examinando como se quisesse despi-la dos pés à cabeça, de preferência bem devagar, peça por peça, Lara se arrependeu. – Sabia que hoje o dia seria muito quente, só isso. – Deu de ombros como se o assunto não merecesse ser discutido. – Certo – disse devagar, debruçando-se sobre a mesa com um olhar hipnotizante. – Gostaria de cumprimentá-la pela escolha. Ele mostra sua boa forma à perfeição. – Gabriel. – Sim, Lara. – Acho melhor mudarmos de assunto e falar sobre o que o perturba. Pode ser? O menear de cabeça assemelhava-se ao de uma criança a quem tivesse sido negada uma bala. Em diferentes circunstâncias, Lara poderia até achar graça. Mas aprendia a lidar com as táticas de Gabriel e, naquele instante, não abriria um sorriso. Não quando preocupava-se tanto com ele.


– Sei que talvez me ache muito insistente, mas estou preocupada. Se não compartilhar comigo o que o incomoda, com quem vai compartilhar? Levando a caneca de café aos lábios, ele tomou um gole e a pousou na mesa. – Então você quer ouvir a lamentável história de minha desventurada e desgraçada família. Logo Lara registrou a dor na voz, que tentava esconder com deboches depreciativos. O coração apertou diante da apreensão e medo quanto ao que ele pudesse revelar. Ela assentiu. – Está certo. – Embora tivesse concordado, Gabriel parecia pouco à vontade e olhou para o chão. – Meu tio deixou uma carta reveladora sobre minha mãe. – Às palavras seguiu-se um longo silêncio que demonstrava o tumulto de suas emoções. Ao longe ouviu-se o canto de um pássaro. O som lírico cortou o ar, acrescentando tristeza ao momento. Decidida a encorajá-lo a prosseguir, e temendo que ele se recusasse a revelar os segredos de família, pois presumia que ele evitasse se expor e ficar vulnerável, ela comentou baixinho: – Você mencionou que ela deixou você quando ainda era muito pequeno. Não se lembra dela? Ele levantou a cabeça. – Não, não me lembro. De qualquer modo, era tudo mentira. – Não entendo. A boca bem desenhada transformou-se em carranca. – Ela foi embora, isso é verdade. Ele a encarou, perdido em um infeliz devaneio que ainda tentava digerir. – Ela se suicidou. Lara sofreu tamanho choque que não conseguia raciocinar direito. – Sinto muito. A confissão a deixou ainda mais triste e chocada. Não podia imaginar o que seria saber que a mãe tinha cometido suicídio. Como uma criança – agora um adulto – reuniria os cacos e levaria uma vida próxima da normalidade depois de tomar conhecimento de uma notícia tão devastadora? Gabriel meneou a cabeça como se estivesse confuso. – Meu tio contou que ela tinha me deixado porque não se julgava preparada para ser mãe, que não tinha instinto maternal. Foi essa história que ela implorou que ele me contasse para eu não tentar descobrir a verdade a seu respeito. – Mas por que, por que ela faria tal coisa? Sacudindo os ombros largos, o gesto momentaneamente esticando o tecido macio da camisa, ele fez uma careta. – Meu tio revelou que ela sofria de depressão crônica, profunda e incurável. Ela tinha medo que se eu soubesse a verdade podia achar ter herdado a doença e que isso poderia arruinar minha vida. – Uma risada irônica o sacudiu. – Minha mãe devia ser realmente perturbada se achou melhor dizer que ela havia me abandonado. Debruçando-se sobre a mesa, Lara examinou Gabriel como se o visse pela primeira vez. Não tentava esconder a tristeza. Ela vislumbrou o menininho que crescera acreditando que a mãe não o queria e, em consequência, o abandonara. Cada fibra de seu ser a instigava a tomá-lo nos braços. Mas percebeu que a história triste não terminara. – A meu ver, parece que ela tentava protegê-lo, Gabriel – comentou baixinho. – Proteger? Do que, exatamente? Do seu amor, do seu afeto? – O tom denotava desespero. – Posso não ter instinto paternal, mas as mães devem amar e cuidar dos filhos e não abandoná-los por capricho.


Vários pensamentos se embaralhavam na mente de Lara, porém o mais forte era que, se a mãe de Gabriel sofria de algum distúrbio mental, então não fora movida por um “capricho” ao insistir que o filho não conhecesse a verdade sobre seu estado. A pobre mulher devia de fato acreditar que a verdade o abalaria. Mas não expôs seu pensamento. Os punhos cerrados sobre a mesa e o olhar torturado recomendavam que seria mais prudente permanecer em silêncio e apenas deixá-lo expressar seus sentimentos sem que ela interrompesse o fluxo de dor e raiva. Melhor deixar que ele colocasse tudo para fora em vez de reprimir... Depois, pouco a pouco, faria o possível para ajudá-lo. – Na carta, meu tio declarou que ela era um perigo para si mesma, mas que acreditava sinceramente que ela nunca me machucaria. Será que ele achou que isso seria um consolo quando eu soubesse que ela se matou? Nunca ele considerou o efeito que isso me causaria, crescer acreditando ter sido abandonado porque ela me rejeitara? – Ah, Gabriel... Não adiantava. Impossível permanecer sentada assistindo ao desespero e não consolá-lo, mas quando ela se levantou e passou os braços em seus ombros, ela os sentiu se retesarem. – Já não pedi para não me tratar como um animal abandonado precisando de ajuda? – vociferou pegando sua mão e a apertando com força. Fitando os olhos apavorados, ela sentiu um arrepio, parte medo e parte desejo, na espinha. – Não vejo você como um animalzinho perdido, não percebe? Você não é um estranho para mim, Gabriel. Trato você como trataria qualquer amigo querido precisando de conforto e apoio. – Pronto! Voltamos ao velho papo da amizade. A reação dela foi puramente instintiva. Lara puxou a mão e pousou a palma em seu queixo barbeado. A pele parecia de veludo. – Todo mundo precisa de amigos, não acha? Ela não planejou balbuciar as duas últimas palavras, mas aconteceu. Mesmo ao ver as pupilas dos olhos azuis escurecerem e cintilarem, soube de pronto que não era apenas conforto que desejava oferecer. Ela precisava tanto dele quanto ele dela. Impossível negar. – Não somos apenas amigos, Gabriel. Em menos de um segundo as mãos grandes a puxaram para o colo e sem preâmbulos ele a agarrou pelo cabelo. Embora a respiração quente soprasse em seu rosto como a brisa de verão, ela se arrepiou. – Quero tanto você que sou capaz de morrer se não a tiver – declarou ele com voz baixa e profunda. A emoção era tão forte que quase a deixou sem ar. Lara teria desabado ao ouvir a declaração, caso ele não a estivesse segurando. Mas os lábios dele encontraram os seus e a língua quente a invadia e a devorava e o grunhido baixo e faminto saía de sua garganta e ela não conseguiu evitar entregar-se ao irresistível fogo que ele acendera. Se fosse possível, passaria o resto da vida beijando-o, pensou enlouquecida, e mesmo para sempre não seria o suficiente. As mãos pendiam enquanto os lábios de Gabriel pareciam realizar a magia. Então ela pousou as mãos no peito duro encoberto pelo tecido de algodão sensual, os dedos agarrando-o numa voraz urgência de conhecer e sentir cada parte dele, cravar a memória insaciável na mente e coração para todo o sempre. Abandonando seu cabelo, as mãos de Gabriel deslizaram pelos seus ombros, pelas suas costas. Lara sentiu os dedos tentarem, impacientes, abrir o zíper. Como se desperta de um sonho, ela de repente tomou consciência de que a situação fugia ao controle.


Sem querer que o primeiro encontro íntimo e exploratório tivesse lugar em uma cadeira, afastou a boca e suplicou: – Não, Gabriel, aqui não. Logo ela registrou a confusão e protesto em seus olhos. Com um sorriso tranquilizador, ela se desvencilhou dele, levantou-se e tomou-lhe a mão. – Vamos para o meu quarto, no andar de cima. – Tem certeza? Ela não esperava ouvir dúvida em sua voz, mas foi exatamente isso que ouviu, o que a fez desejá-lo ainda mais, pois ele queria ter certeza. – Tenho. Eu também quero – respondeu com firmeza. Lara precisava mostrar a Gabriel que estava tão excitada quanto ele. Não ia para a cama com ele por querer consolá-lo. O homem a excitava como nenhum outro. Levantando-se, ele a puxou contra si, como se não suportasse a ideia de afastar-se por um instante sequer. Para Lara também era difícil pensar em deixar o porto seguro quando o cheiro familiar de sua colônia e o calor de seu corpo deixavam-na como se, mesmo por pouco tempo, abandonasse uma parte vital de si mesma. Fitando seus olhos como se pudesse enxergar sua alma, ele passou o braço por sua cintura. – Então vamos. – Ele abriu um sorriso. O gesto, indiscutivelmente possessivo, excitou Lara. Saber que Gabriel a desejava a fez sentir-se linda. Como seria diferente se amava o carismático amigo do irmão desde que pusera os olhos nele lá se iam tantos anos? Havia uma inegável sensação de inevitabilidade sobre voltarem a se encontrar, como se fosse o destino. Gabriel também sentiria isso? O sedutor cheiro de seu perfume pairava no ar quando Lara pegou Gabriel pela mão e entraram no quarto banhado pela luz vespertina. Ela não fez menção de fechar as cortinas. Gabriel sentiu um arrepio quando ela o levou para a cama queen-size coberta com uma colcha de seda roxa. Para dizer a verdade, seria difícil notar qualquer coisa no quarto, a não ser Lara. No sangue corria a ânsia de abraçá-la tão apertado como a perigosa febre que o deixava mais quente. Só pensava em aliviar a dor desnudando-a e estreitando seu corpo. Como se ele buscasse abrigo das tempestades da vida, buscando no corpo de Lara uma recompensa. Aos pés da cama, Lara se voltou. O cabelo escuro sedoso emoldurava o rosto adorável como um quadro. Erguendo as mãos, ela as apoiou na cintura dele. Quando os olhos castanhos o examinaram, como se ela o tocasse do modo mais íntimo, Gabriel só pensou em possuí-la. Mas, através do nevoeiro do desejo, ele jurou agir devagar, para que a experiência fosse agradável para ela. Valeria o sacrifício. Deslizando as pontas dos dedos devagar sobre seus lábios, ele indagou: – Vai se despir ou prefere que eu tire sua roupa? Com tênue provocação, ela replicou: – Você decide. Ele não podia esperar melhor resposta. Curvando a cabeça, tocou-lhe os lábios com suavidade. Enquanto isso abriu o zíper do sexy vestido cor-de-rosa. Interrompendo o beijo por um segundo, ele recuou para descer a parte de cima do vestido. O tecido acetinado deslizou pelo corpo estonteante. Ela apoiou a mão em Gabriel em busca de equilíbrio e descalçou a sapatilha. Ergueu a cabeça para examiná-la. O indisfarçado desejo refletido em seus olhos o deixou alucinado. Ele reagiu abraçando-a e abrindo o sutiã. Quando os lindos seios ficaram livres, ele se sentiu gratificado


por ela não tentar cobri-los. Por longos segundos Gabriel a olhou, deslumbrado com a visão, como se fosse incapaz de acreditar na própria sorte. Então cobriu o seio com a boca e o sugou com força. Exatamente quando uma onda de calor eletrizante ricocheteou em seu corpo indo direto para seu sexo e o deixou duro, Lara soltou um gemido de prazer. Gabriel sorriu. Com a palma da mão, ele a empurrou suavemente. Quando ela graciosamente caiu sobre a colcha roxa, o corpo curvilíneo foi finalmente revelado em toda a sua irresistível glória. Os seios fartos com os mamilos intumescidos, a barriga chapada, os quadris arredondados, as pernas bem torneadas ainda mais compridas do que ele imaginara, as unhas dos pés pintadas de vermelho. Após o exame inicial, os pensamentos de Gabriel foram suspensos diante da necessidade urgente de fazer amor com ela. Tirando a camisa e a camiseta, atirou as roupas no chão, livrou-se dos sapatos e das meias, abriu o cinto e foi para a cama. Ele não poderia dizer quem estava mais fogoso. A única coisa que registrou foi a vontade mútua de se abraçar. Logo se livraram do resto das roupas enquanto se abraçavam, e o voto de que iria com calma foi para o espaço tão logo a acariciou. Beijou-a apaixonadamente como nunca beijara outra mulher. As mãos de Gabriel percorriam o corpo e o explorava. Ela parecia feita de seda e cetim, e a devastadora revelação sobre a mãe, que tanto o atormentara, finalmente afrouxou as garras. Quando Lara afastou os lábios e murmurou seu nome, Gabriel ouviu o silencioso convite pelo qual esperava e arfou. Montou em cima dela, abriu um sorriso malicioso de prazer, inclinou a cabeça para continuar o beijo no qual se viciara. Mesmo quando a boca aprisionou a sua, ele sentiu as coxas macias enroscarem em sua cintura. Um segundo convite não era necessário. Ele a possuiu, penetrando-a com um grito primal. O calor dela parecia um rio adocicado e sabia que nele se afogaria de boa vontade, não apenas uma, mas duas, três, repetidas vezes até ficar exausto, até a dor e a tristeza sumirem para sempre. Lara ficara com receio de confessar ser virgem. Não por não desejar perder a virgindade, mas por ter medo de que o inicial desconforto a impedisse de se entregar como desejava. Todavia, ser possuída com tamanha sofreguidão logo afastou seus receios. O mais íntimo de sua feminilidade ajustara-se naturalmente para acomodá-lo e qualquer desconforto logo desapareceu quando ela se entregou à onda de paixão que a tragou. Lara, no entanto, não pôde se impedir de pensar se Gabriel teria notado, ao penetrá-la, que seus músculos eram muito apertados – talvez mais apertados do que o de outras mulheres mais experientes. Talvez devesse ter contado ser sua primeira vez, mas ainda receava confiar nele, caso ele não compreendesse – ou não acreditasse – que ela tivesse esperado tanto tempo para se entregar. Se confessasse que só poderia compartilhar de tamanha intimidade com alguém que amasse, ele poderia ficar assustado. O pensamento foi logo suplantado pela sensação de excitação quando Gabriel começou a mover-se ritmadamente dentro dela e suas mãos apertaram os bíceps musculosos. Durante aquela incrível e apaixonada escalada, Lara logo aprendeu que a imaginação não substituía a maravilhosa realidade que era fazer amor com o homem por quem era alucinada há anos. Nem por um segundo ele decepcionou suas esperanças e sonhos. Na verdade, excedeu suas expectativas. Quando a excitação ganhou força, Gabriel a fitou com olhos de desejo, como se não houvesse outra mulher no mundo. Foi então que Lara precisou conter o desejo de lhe contar o quanto o amava, e que sempre o amara.


Conteve o impulso quando ele a penetrou mais fundo e ela lhe envolveu o pescoço com os braços e o puxou. Enquanto se beijavam apaixonadamente, o desejo que crescia e buscava satisfação de súbito atingiu o auge. Ela se descobriu em uma viagem às estrelas que a deixou sem fôlego, sem raciocínio, trêmula, tudo ao mesmo tempo. O coração batia tão alto que podia jurar que Gabriel escutava. Quando por fim voltou a si, ele abriu um sorriso satisfeito, preguiçoso e abaixando a cabeça, sussurrou em seu ouvido: – Você é tão linda que me deixa sem fôlego. Os cantos de seus lábios se curvaram em um sorriso e ele se ergueu e a penetrou com mais força. Mais uma vez Lara precisou agarrar-se aos músculos dos bíceps enquanto eles se contraíam e endureciam debaixo de seus dedos. Então ele parou e atingiu o orgasmo soltando um grunhido rouco que pareceu emanar do mais profundo de sua alma. O som fez Lara estremecer. Parecia que toda a dor e a traição que fora obrigado a sentir culminasse naquele grunhido e agora o liberasse. Sentindo as lágrimas quentes, ela passou afetuosamente os dedos em seu cabelo e segurou-lhe a cabeça, desejando secretamente que ele permanecesse dentro dela, em vez de se afastar. Sabedora de que ele era um homem que não confiava em ninguém com facilidade, sentia-se satisfeita e gratificada por ele confiar nela a tal ponto. Quando ele repousou a cabeça entre seus seios, a respiração quente acariciando-lhe a pele, ela se deu conta dos batimentos acelerados do coração e murmurou: – Está tudo bem, Gabriel, ponha tudo para fora. Estou aqui. Ele não levantou o rosto, permaneceu imóvel como uma estátua. Mas Lara percebeu o silencioso soluço logo reprimido com medo que ela ouvisse.


CAPÍTULO 7

GABRIEL NÃO fazia ideia de quanto tempo dormira. Só sabia que foi um sonho delicioso imaginar-se acordando perto de Lara, ainda nua. Apoiado no cotovelo, afastou com suavidade as mechas de cabelo escuro sedoso que lhe acariciavam a lateral do rosto. Ela dormia de bruços, o adorável rosto voltado para ele. Em algum momento ela devia ter puxado a coberta, mas ela escorregara até sua cintura deixando as costas e os ombros expostos. Foi então que Gabriel viu a cópia perfeita de uma borboleta preta e azul, cujas delicadas asas se abriam sobre a base da espinha. A mulher era uma permanente fonte de surpresas. Quem diria que a menina tímida que conhecera faria uma tatuagem, sobretudo uma que apenas um amante visse? Balançando a cabeça, Gabriel suspirou encantado. Foi logo tomado por uma pontada de ciúmes. A ideia de Lara nua com outro homem, mesmo no passado, o deixou quase fisicamente nauseado. Fazer amor com ela, depois de ter compartilhado alguns de seus mais dolorosos segredos, tinha sido uma das experiências mais extasiantes de sua vida. Isso havia tornado a experiência realmente íntima. Nunca antes havia trocado confidências com uma mulher. Estremeceu ao lembrar-se de que tinha sido incapaz de conter o sofrimento ao atingir o orgasmo e também se lembrou de que Lara o avisara para “pôr tudo para fora” e informou que estava ali, ao seu lado. Então, lembrou-se de não ter usado preservativo. Nem lhe passara pela cabeça. Isso também era uma experiência única e nada aceitável. Lara tomava pílula? Droga, ele devia ter ao menos perguntado. Mas, de tão consumido pela febre de possuí-la, a razão deixara de ser prioridade. Se ela ficasse grávida o que faria? O que Lara ia querer fazer? Concordaria com um aborto se ele pedisse? A ideia era tão desagradável que ele sentiu uma pontada no peito. Neste preciso instante Lara se moveu e abriu os olhos. Gabriel não acreditou que tivesse esquecido, mesmo que por um segundo, como eles eram lindos – castanhos, cor de café, emoldurados por fartos cílios negros. Ela o fitava sem pestanejar, como enfeitiçada. Então o olhar dela mergulhou no seu e questionou baixinho: – Está tudo bem? Quero dizer, como se sente? – Muito bem – respondeu com sinceridade. – Melhor do que mereço. Não posso deixar de pensar na sorte de encontrar você de novo, Lara. Devo ter feito alguma coisa para agradar os deuses.


Duas covinhas surgiram em seu rosto. – Talvez você não seja um bad boy. – É assim que me vê? Um bad boy? – Acho que tem um quê de bad boy, mas em vez de isso ser um defeito, apenas contribui para o seu carisma. – Fale mais. – Ele sorriu. – Não sou avesso a ouvir todas as qualidades que me tornam atraente para as mulheres. – O quê? E inflar seu ego já inflado? Gabriel soltou uma gargalhada e se deu conta de que estava adorando ficar deitado na cama com Lara à tarde, sem um pingo de remorso ou culpa por não pensar em trabalho. – Não precisa disso para eu ficar aqui, meu anjo. Não sei o que fez, mas já estou viciado. Por isso ainda estou aqui. – Passando os nós dos dedos em seu rosto, sorriu. – Não vai se livrar de mim assim tão fácil. Acho que você cativou outro terrier. – Por falar nisso... – Lara sentou-se de um pulo, agarrou a colcha de seda e cobriu os seios. Ao mesmo tempo o rosto ficou ruborizado, como se de repente percebesse estar nua. – Preciso levar Barney para passear. Não posso acreditar que caí dormindo de dia. Nunca faço isso, mesmo quando estou exausta. – Esse parece ser um dia de exceções – observou Gabriel sorridente. – Como assim? Dando de ombros, a fitou com expressão séria. – Eu não usei preservativo. Isso foi um grande erro, Lara e, acredite ou não, isso nunca aconteceu antes. Franzindo a testa, ela pronunciou: – Não se preocupe, tomo pílula. Eu devia ter mencionado antes, mas nós, eu... – O sorriso tinha um quê de insegurança. – Nós nos empolgamos. Gabriel sentiu como se tivesse levado um soco no estômago e não entendeu o porquê. Então pensou que se Lara tomava pílula anticoncepcional então devia ter namorados ocasionais. Neste caso, devia já ter um tempo que não transava, pois era muito apertada, como se não fizesse sexo com frequência. Em vez de ficar tranquilo, ficou desapontado, quando devia ser grato por um dos dois ter tomado as devidas precauções. Recuperando o controle, sussurrou: – Ainda bem. Lara corou e desviou o olhar. Afinal interrogou: – Sabe que horas são? Ele olhou o relógio. – Acabou de dar quatro horas. – Quatro? Está brincando? – Por que o pânico? – O pânico é porque Barney deve estar desesperado para atender ao chamado da natureza e eu preciso tomar um banho. – Interessante dilema. Precisa acrescentar mais uma coisa à lista de afazeres. – O quê? – Precisa me dar um beijo.


Sucumbindo ao irresistível impulso que o perseguia desde que abrira os olhos e vira Lara deitada nua ao seu lado, Gabriel a segurou pelos ombros e a puxou. A colcha escorregou-lhe pelos seios e ele logo se excitou com a textura sedosa da pele e dos mamilos roçando em seu peito. O sangue ferveu ao pensar em seduzi-la novamente. Quando estava prestes a capturar os lábios em um beijo sensual que, esperava, seria o precursor de vários outros, o cachorro deu sinal de vida e começou a latir impaciente. – Ai, céus. Preciso descer. Não vou passear com ele. Vou soltá-lo um pouco. Desculpe. Com jeito encabulado, Lara olhou para o chão como se procurasse algo e bufou. – O que perdeu? – inquiriu Gabriel inocente, enquanto pegava o sutiã e a calcinha parcialmente escondidos nas dobras da coberta e os escondia debaixo do travesseiro. – Minha roupa de baixo. Deixa para lá. – Correu até o armário e pegou uma camiseta cor-de-rosa e um jeans. Hipnotizado pela visão deslumbrante das pernas compridas e do traseiro, Gabriel foi atraído pela delicada borboleta tatuada na base de sua espinha. Recostando-se nos travesseiros, disse: – Acho que nunca acordei ao som de melhor despertador. Então qual a história por trás dessa borboleta? Lara vestia o jeans. Terminou e se voltou. Com a camiseta cor-de-rosa cobrindo os seios, como se ainda fosse importante manter o pudor depois de ter exibido o delicioso traseiro. – Sean mandou uma foto de uma borboleta igualzinha na última carta antes de morrer. Ele falou que era um espécime muito raro e que se sentia privilegiado por tê-la visto. – Nervosa, olhou para o chão. – Acho que fiz a tatuagem como uma espécie de homenagem. Ele costumava debochar que eu nunca corria riscos na vida. Tenho vontade de rir só de imaginar o que ele diria se visse a borboleta. – Acho que é uma obra de arte, assim como você, meu anjo. Você e a borboleta formam uma delicada combinação. – Obrigada. O sorriso era tão deliciosamente encabulado que atiçou o instinto carnal de Gabriel. Na verdade, não sabia como tinha deixado que saísse da cama. Meditativo, a observou vestir às pressas a camiseta. Sem sutiã, a roupa deixava mais à mostra do que ela na certa imaginava. De uma coisa tinha certeza: não tinha motivos para reclamar. – Melhor descer para ver Barney. Não demoro. Gabriel não resistiu a um último comentário: – O que está tentando? Atormentar-me? Estou a um passo de arrastar você de volta para a cama. – Se fizer isso, quem vai limpar a bagunça que Barney vai deixar no tão caprichado piso de parquete dos meus pais? Vou logo avisando, não serei eu. Apesar da frustração, Gabriel ainda sorria ao lembrar-se da resposta na ponta da língua. O ALÍVIO de Gabriel fora indescritível ao ouvir Lara dizer que tomava pílula e que ele não precisava se preocupar. Entretanto, parada perto da porta que conduzia ao jardim, observando Barney correr, Lara pensou que ele devia julgá-la bem mais experiente do que na verdade era. O que Gabriel não sabia, nem poderia saber, é que ela tomava pílula para regular a menstruação e diminuir as cólicas. E não obstante saber que não seria boa ideia correr o risco de engravidar sem estar vivendo um relacionamento sério, ressentiu-se, pois Gabriel certamente a odiaria se engravidasse.


Afinal, ele não sabia o quanto ela gostava dele ou que tinha perdido a virgindade com ele porque nunca amara ninguém além dele. Tentando ser realista, refletiu que em dúvida ele não aprovaria nada que interferisse em seu estilo de vida. Limpou, determinada, a lágrima e ao pensar em como tinha sido maravilhoso fazer amor, inconscientemente levou a mão ao coração. Quisera proporcionar conforto a Gabriel, depois de ele ter tomado conhecimento da devastadora forma como a mãe morrera e de como o tio mentira para protegê-lo. Porém, não mentira ao dizer que também queria fazer amor com ele. Não apenas queria, mas precisava. E não importa o que acontecesse no futuro, jamais se arrependeria. “Ah, que intrincada teia tecemos quando começamos a praticar a mentira...” A famosa citação lhe veio à mente ao pensar na dor e desespero que, provavelmente, atormentariam Gabriel o resto da vida. Com certeza, venderia o magnífico solar herdado, pois para ele não passava de um lucrativo investimento e não um legado de família do qual se orgulhasse. E como se orgulharia quando as feridas do passado eram tão profundas? Ninguém podia culpá-lo por não querer reviver a história. Depois que tivesse vendido a casa, na certa voltaria para Nova York e Lara nunca mais o encontraria. – Não. – Surpreendeu-se com a própria voz. Mas já fazia o juramento de tentar evitar essa catástrofe. Devia haver um jeito de Gabriel ver a herança como um presente para o qual não deveria voltar as costas; um presente que talvez o ajudasse a cicatrizar as feridas do passado e se conscientizar de que não precisava carregá-las para sempre; que seu futuro podia ser promissor, caso se permitisse explorar a possibilidade, em vez de fugir. Perdida nas divagações, Lara suspirou. Barney começou a latir. Observou o terrier voltar correndo em busca de sua cesta para tirar um cochilo. Então lembrou-se que Gabriel a esperava. Teve vontade de se beliscar para ter certeza de que não sonhava. Não era preciso. Os mamilos eram a prova de que tudo era realidade. Para sua surpresa, Gabriel não estava na cama. Sentiu um frio no estômago achando que ele pudesse ter escapado enquanto ela saía com o cachorro. Então a porta do banheiro se abriu e ele saiu vestido e penteando o cabelo com os dedos, e o sorriso carismático a um tempo triste e depravado. Antes que pudesse dizer alguma coisa, ele se aproximou e a abraçou pela cintura. Embora o abraço logo a deixasse molenga de prazer e desejo, suspeitou que seus desejos secretos de passar o resto da tarde na cama não se realizariam. – O que houve? Por que se vestiu? – Recebi uma ligação de Nova York. Querida, preciso voltar. – Para Nova York? Gabriel assentiu. – Estão atravessando uma crise séria. Querem que eu volte para resolver o assunto. – E os assuntos que mencionou que precisava resolver com relação à casa? – Vão ter de esperar. Minha prioridade é retornar a Nova York. Quanto antes partir, mais cedo retorno. Lara fitou os cativantes olhos azuis e respirou aliviada por ele pretender retornar. Mas não queria que ele se fosse. – Então planeja voltar? Inclinando a cabeça, capturou seus lábios num beijo lento e sedutor que a deixou com as pernas bambas. Ele era tão sensual que não havia mulher no mundo capaz de lhe resistir. – Claro que volto. Acha mesmo que eu daria as costas ao tesouro que encontrei?


– O solar de sua família? Gabriel ergueu seu queixo. – Não, meu anjo, não é a esse tesouro a que me refiro. O coração de Lara bateu forte. – É muito difícil partir quando vejo esses seus olhos, mas... – Baixou a mão de repente e pronunciou ríspido: – Melhor me apressar. Preciso voltar ao hotel e arrumar a mala. Pode me dar seu telefone? – Tirou o celular do bolso e a fitou ansioso. – Para que você quer meu telefone? – Precisa mesmo perguntar? Para eu poder avisar quando volto, é claro. – Ah. Uma vez informado o número, Lara suspirou quando outra vez Gabriel a abraçou. – Sei que passamos pouco tempo juntos, mas vai ser estranho não ter você por perto – admitiu. – Para mim também, querida. – Sorriu malicioso. – Mas agora preciso ir. Atravessou o quarto e abriu a porta. Então voltou-se com expressão séria. – Não quero que se sinta solitária, mas gostaria que não saísse com ninguém enquanto eu estiver viajando. Sentindo o rosto ficar vermelho-fogo, Lara sentiu-se ofendida. Dizer que tomava pílula o levara a assumir que tinha uma vida sexual ativa. Ela estremeceu de desgosto. Sempre acreditara que o bem mais precioso que poderia dar ao homem amado era a virgindade. Contudo, tal pensamento era antiquado e fora de moda. – Acha mesmo que eu ia querer ficar com outra pessoa depois do que vivemos juntos, Gabriel? Sei que não temos um compromisso sério nem nada do gênero, mas sou do tipo de mulher que funciona assim. Sou fiel. Como você se sentiria se eu fizesse o mesmo comentário? Com expressão pensativa, contestou. – Não precisa se preocupar com isso. Além de estar muito ocupado, a única mulher na qual pensarei enquanto estiver em Nova York é você. Ela soltou um suspiro de alívio seguido de um sorriso. – Então está combinado. Tenha uma boa viagem e avise que chegou bem, mesmo se for apenas por mensagem de texto. Os cantos dos olhos de Gabriel franziram de prazer. – Claro. Vai ser bom saber que alguém de quem gosto pensa em mim enquanto estou longe. Mais uma coisa que acontece em minha vida pela primeira vez. Sentindo-se exultante por ele confessar que gostava dela, Lara sentiu o resto do comentário deixar seu coração apertado. Como ele se sentiria quando era criança sabendo que ninguém se preocupava com ele, sem receber um carinho ao voltar do colégio? Uma babá nunca poderia substituir o afeto dos pais. Ele parecia tão terno que Lara não entendeu como conteve o impulso de correr atrás dele e implorar que não viajasse. Não devia revelar a extensão de seu amor por medo de que isso o afugentasse. E isso era a última coisa que desejava. – Bem, pode ser também uma novidade para você, Gabriel, mas vou sentir saudades suas. Ele a presenteou com outro sorriso devastador. – Eu também, minha linda. – Ergueu a sobrancelha de um jeito malicioso, abriu a porta e se foi.


OS DIAS após a partida de Gabriel se arrastaram. O otimismo inicial de que ele voltaria e então talvez levasse o relacionamento mais a sério começou a evaporar-se. Desde que avisara em uma mensagem de texto ter chegado bem a Nova York, seu celular permanecia em silêncio. As lembranças daquela festa na adolescência, quando Gabriel a rejeitara preferindo a loura alta retornaram para assombrá-la. Temia que ele não cumprisse a promessa, caso alguém mais atraente aparecesse enquanto ele estava em Nova York. Quando seus pais voltaram da França, Lara ainda passou mais uns dias na casa da família para certificar-se de que se recuperavam e lhes oferecer apoio. Mas outro motivo para permanecer era que a casa da família parecia indelevelmente associada à presença de Gabriel. Chegava a temer partir, como se isso significasse fechar a porta para a magia que talvez nunca mais se repetisse.


CAPÍTULO 8

O DIA não tinha sido dos melhores. E como poderia, se ainda se recuperavam da séria crise e cabeças rolavam? Gabriel não tinha o que temer, pois seus negócios rendiam lucros, mas sentia uma imensa responsabilidade em relação aos acionistas. Sobretudo quando algumas das companhias que recomendara como bom investimento tiveram o preço das ações derrubados nos últimos dias, muitas vezes por falhas na administração. Deus era testemunha de que avisara aos presidentes das referidas empresas de que uma boa gerência era a chave dos negócios e que não deveriam dispensar funcionários antigos e substituí-los. Mas, acima de tudo, o dia tinha sido péssimo por não poder estar com Lara. Voltara a Nova York havia mais de uma semana e a separação parecia interminável. Como previra, o trabalho o consumira. De volta ao apartamento naquela noite, atirou-se na cama de lençóis de seda e pensou se deveria telefonar só para ouvir sua voz e certificar-se de que a ligação entre eles era real e não um sonho. O encontro tinha virado seu mundo de pernas para o ar. Ao ler sobre a morte de Sean, nunca imaginaria que ir à casa dos pais do amigo para apresentar condolências resultaria em um novo encontro com Lara e na insana atração por ela. Lara tinha sido uma adolescente bonita, mas nada poderia tê-lo preparado para a mulher deslumbrante que se tornara. Desde então, se perguntava se devia sentir culpa por ter levado um relacionamento tão antigo de amizade para outro patamar. Mas não conseguira resistir. Depois de ler a carta devastadora deixada pelo tio, na qual este revelava a trágica verdade sobre a mãe, Gabriel ansiava por um consolo que só uma mulher poderia proporcionar. Uma mulher adorável como Lara, cujo carinho e natureza generosa eram uma joia preciosa difícil de achar. Olhou as horas. Já devia passar das quatro da manhã na Inglaterra. Iria acordá-la só para ouvir sua voz? Claro que sim. Ela não tinha dito que sentiria saudades? Bem, agora era uma excelente oportunidade para descobrir se ela dizia a verdade. Sentou-se, desfez o nó da gravata, tirou o paletó e o atirou numa cadeira próxima. Então descalçou os sapatos, ajeitou os travesseiros de cetim e ligou para o celular de Lara. Saber que ela podia estar dormindo não foi o bastante para conter sua impaciência por ela não ter atendido de imediato. Passou a mão no cabelo. Se tivesse um pingo de juízo iria dormir também. Vinha trabalhando direto, em um ambiente tenso e estressante, desde cedo e estava exausto.


Tudo foi esquecido quando ouviu a voz sonolenta de Lara. – Alô. Quem é? Sabe que horas são? Gabriel riu. – Quem mais poderia ligar a essa hora senão eu, minha linda? – Gabriel? Ele se convenceu de ter ouvido alegria na voz, bem como surpresa. Mas e se Lara não tivesse sentido metade da saudade que ele sentia? E se, apesar de ter dito que não queria ficar com ninguém, tivesse buscado a companhia de um ex para aliviar a solidão? Contendo o palavrão de raiva só de pensar, resolveu respirar devagar. Não queria adicionar um problema nas coronárias a seu já considerável rol de desventuras. – Sim, sou eu. – Apesar da ansiedade, Gabriel pensou nos olhos escuros radiantes, no rosto bonito, e seus lábios formaram um sorriso. – Deveria pedir desculpas por ligar a essa hora, mas seria mentira. Estava dormindo? – Na verdade, cochilando. Ando com insônia ultimamente. – Ainda está na casa de seus pais? – Não, eles voltaram uns dois dias depois de você ter viajado. Por falar nisso, pediram para avisar que ficariam muito contentes de encontrá-lo. Eles têm umas fotos suas e de Sean que gostariam de entregar para você. O estômago de Gabriel se contraiu diante da possibilidade de voltar a encontrar os pais de Lara depois de ter seduzido a filha deles. Seria capaz de esconder a culpa prestes a vir à superfície? A opinião deles era importante para ele. – Vai ser bom vê-los de novo. E eu adoraria ter as fotos. – Ótimo. Vou avisar. Que bom ouvir sua voz. Da última vez que tive notícias foi de que tinha chegado bem a Nova York. Como vai? – Deixe para lá como eu estou. O que quis dizer com a insônia? Algum problema? Diga, Lara, eu gostaria de ajudar. Registrando a respiração tensa, Gabriel desejou mais uma vez não ter ido embora tão logo recebeu o telefonema de seu escritório. Mas, ao saber que sua presença era necessária por causa de uma crise que podia explodir se não a resolvesse, não teve condições de recusar. Afinal, sua reputação profissional tinha sido construída graças à sua capacidade de solucionar problemas. – Tenho sentido saudades de Sean, só isso. Em momentos como este, em que estou meio deprimida, eu costumava telefonar para bater papo com ele. Sean sempre dava um jeito de me fazer rir. – É absolutamente compreensível sentir falta dele, querida. Não vai superar a perda de um dia para outro. Dê tempo ao tempo. Não é o que dizem? – Isso mesmo. E não é irônico que isso pareça sensato e plausível de ser dito quando não se perdeu alguém muito querido? Com a boca seca, Gabriel não soube o que dizer. Ele tinha perdido a pessoa mais querida de qualquer criança, embora não se lembrasse dela. Como era possível sofrer a perda de um estranho? Pois a mãe era uma estranha. Todavia, desde que tomara conhecimento de que ela tirara a própria vida, uma sensação de amargura tomara conta de seu coração. Não acostumado a fantasiar, passara a desejar voltar no tempo para refazer o passado e garantir um futuro diferente e melhor para ele e a mãe. Talvez estivesse sofrendo. Ele suspirou.


– Gabriel? Não ignorei seu conselho. Sei que você também está lidando com a própria dor. – É assim que se chama? – Apesar de ter flertado com a fantasia de refazer o passado, não pôde evitar a inflexão zombeteira. – Como posso saber? Não é preciso ter um relacionamento antes de sofrer a dor da perda? – O fato de não ter convivido com sua mãe não significa não desejar ter tido a experiência. Olha, vamos conversar sobre outro assunto? Tarde da noite ou nas primeiras horas do dia não é a melhor hora para pensar em coisas tristes. Por um instante, a voz suave de Lara encobriu o fluxo de dor que ameaçara submergir Gabriel. – E odeio pensar que está triste quando estou tão longe e não posso tentar fazer com que se sinta melhor. – Não estou triste, estou zangado. Furioso com o fato de as pessoas que, supostamente, deveriam cuidar de mim fossem mentirosas, decepcionassem as pessoas do próprio sangue sem pensar no terrível legado que me deixariam. Você não faz ideia do que é isso. Balançando a cabeça, Gabriel se recompôs. Que diabos fazia? Há dias pensava em ligar para Lara e só pensar nisso surtia o efeito de iluminar uma luz no final do túnel quando, de tão consumido pelo trabalho, não tivera um momento livre para telefonar. E ali estava ele, perdendo um tempo precioso falando sobre a família. Engoliu em seco. – Esqueça isso, ok? Deve ser o cansaço. Até agora passei um dia de cão. Mas já me sinto melhor por saber que você pensava em mim. – Fico feliz. Sei que não resolve nenhum problema, mas ajuda saber que se tem um amigo com quem conversar, não é? Comigo funciona. Tentando ignorar que ela tinha se referido a ele novamente como amigo e não como alguém mais íntimo – será que ele não era bom de cama o suficiente para ela se lembrar disso? –, Gabriel voltou a suspirar. – Você não tem férias por tirar? Por que não vem passar uns dias em Nova York? – O coração acelerou só de pensar. Por que não havia pensado nisso antes? Afinal, era a solução perfeita. Se ele tivesse de passar mais algumas noites sem Lara enlouqueceria. – Eu tenho uns dias de férias, mas você não precisa trabalhar? Não estão enfrentando uma séria crise financeira? – Estamos. A pergunta inocente o fez sorrir. O mundo em que Lara vivia era totalmente diferente do ambiente febril de Wall Street, onde negociações, com frequência, tinham sérias implicações financeiras globais que poderiam promover ou quebrar economias de um dia para outro. Por sorte, ela não fazia parte desse mundo. Também se sentia aliviado por ela ser totalmente diferente das mulheres, inteligentes, mas volúveis, com as quais tinha entrado em contato naquela arena; mulheres que pareciam esquecidas da meiguice e da feminilidade e que preferiam concentrar as energias em chegar ao topo na carreira e fazer fortuna, sem medir esforços para alcançar seus objetivos. Alguns homens podiam achar essas mulheres admiráveis, mas não Gabriel. – O assunto não vai ser resolvido da noite para o dia – explicou. – Mas estamos fazendo progressos. De qualquer maneira, não vamos falar sobre isso. Realmente preciso ver você. Não faz ideia do quanto.


Do outro lado da linha reinava o silêncio. Gabriel ficou tenso. Não podia sequer cogitar em ser rejeitado. – Se você aceitar, eu providencio a passagem. Entenda, não vou poder passar tanto tempo com você quanto gostaria, sobretudo durante o dia, mas deixarei meu motorista à sua disposição para levá-la aonde quiser. Se quiser comprar roupas, perfumes, qualquer coisa na verdade, terei prazer em pagar a conta. E sempre que eu puder, as noites serão nossas. E as madrugadas também. O sangue de Gabriel ferveu só de pensar. Abençoou a memória fotográfica graças à qual, mesmo durante os dias estressantes, podia acessar o sedutor perfume e a textura de cetim da pele de Lara. – Tem certeza, Gabriel? Quero dizer, não vou interferir em sua rotina? – Meu Deus, tem noção de como minha vida é chata? Não nego que meu trabalho é importante, mas eu me recuso a viver para o trabalho. Sobretudo agora, quando sei que ao voltar para casa encontrarei você. – Então está bem. Pode providenciar a passagem. Quando tiver todos os detalhes, telefone ou me avise por mensagem de texto. Minha mãe ontem mesmo disse que eu deveria tirar umas férias antes de voltar ao trabalho. – Ela tem razão, e se não me falha a memória, em geral ela sempre tem razão, querida. Esfregando o queixo barbado, Gabriel felicitou-se por seu poder de persuasão não ter falhado. Se tudo desse certo, Lara o encontraria dentro de uns dois dias e não mais precisaria de sua memória fotográfica para lembrar-se de seus encantos. A realidade deliciosa de sua presença seria mais do que satisfatória. EMBORA ELA tivesse aceitado – como poderia negar? –, o coração de Lara ficara partido quando ele retornara para Nova York. Na ocasião, não sabia se um dia voltaria a vê-lo. Quando ele avisara que precisava voltar ao trabalho para resolver uma crise, ela vira no rosto bonito um homem que priorizava a carreira em detrimento dos relacionamentos pessoais ou questões afetivas. Sem a menor dúvida. E se ele tivesse ficado aliviado ao receber o telefonema? Mesmo sabendo que Gabriel tinha prioridades muito diferentes das suas, Lara não perdia a esperança de que, em breve, ele descobrisse que havia coisas bem mais importantes do que o dinheiro e a admiração dos seus pares. O choque de saber do suicídio da mãe e da traição do tio podiam convencê-lo de que não nascera para o amor e para a família, pois sua confiança tinha sido cruelmente testada, mas Lara se recusava a abrir mão da esperança de ajudá-lo a entender que estava enganado. Não acreditara quando ele havia ligado de madrugada e a convidara para ir ao seu encontro em Nova York e não hesitara em aceitar o convite. Pensaria em um relacionamento sério com ela? Rezara para que fosse este o caso. Certamente, não ia dispensar a chance de descobrir. Quando ele tinha perguntado o motivo de sua tristeza, ela não havia sido totalmente sincera. Claro que ainda estava de luto por Sean, mas sentia tanta saudade de Gabriel que não pensava em outra coisa. De vez em quando, a lembrança dos dois fazendo amor parecia o sonho mais delicioso e compensava a solidão na qual vivera todos aqueles anos. Outras vezes, isso aumentava seus medos. E se nunca tivesse a chance de voltar a ter intimidade com ele? Lara já tinha perdido o irmão a quem adorava. Perder Gabriel seria um golpe duro demais.


Agora, no assento de trás da linda limusine enviada por Gabriel ao aeroporto para buscá-la, seguia a caminho da Quinta Avenida, onde ele morava. Lara admirou os arranha-céus e estremeceu. Era como se tivesse sido largada em uma galáxia distante, tamanho o contraste entre o ambiente ao qual estava acostumada. – Chegamos, srta. Bradley. Avise ao porteiro que veio visitar o sr. Devenish e ele vai levá-la ao apartamento. – Obrigada. – O prazer foi todo meu. Espere no prédio e levarei a bagagem. Quando ele saiu do carro e abriu a porta, Lara aceitou a mão do motorista e saltou. O porteiro aproximou-se enquanto ela agradecia o motorista com um sorriso amigável. – Meu nome é Barry, e o sr. Devenish vai passar meu telefone para que entre em contato comigo quando precisar de meus serviços. Ele já me deu instruções para levá-la aonde desejar durante sua estada. Espero vê-la em breve, srta. Bradley. Tenha um bom dia. – Você também. O estilo de vida de Gabriel era totalmente oposto ao seu. Surpreendera-se ao viajar de executiva, mas ele realmente esperava que ela usasse uma limusine sempre que saísse? Quando o educadíssimo porteiro segurou sua maleta e a conduziu ao elevador, foi tomada por um severo nervosismo. Como seria ver Gabriel outra vez? Ele a desejaria tanto quanto da última vez? Comparada às mulheres lindas e chiques que ele devia ver todos os dias no trabalho, começaria a vê-la como uma mulher comum e sem graça? Olhou o vestido azul-real que achara tão bonito na loja e hesitou. – Chegamos ao andar do sr. Devenish, srta. Bradley. Perdida em angustiado devaneio, nem percebera já terem chegado ao último andar do prédio. O porteiro tocou a campainha e, com sorriso educado, perguntou: – Gostaria que eu espere até abrirem a porta? – Não, obrigada. Ele já deve estar chegando. Com um breve aceno, ele foi embora. Tinham combinado que Gabriel tiraria umas duas horas de folga para recebê-la, mas o tempo parecia não passar enquanto Lara o esperava do lado de fora, preocupada, achando que ele devia estar tão ocupado que tinha se esquecido dela. Mas, de repente, ele estava ali parado, bem-vestido como sempre, e ainda mais lindo do que se lembrava. Fitaram-se encantados. Lara abriu a boca, mas as palavras não saíam. Parecendo levemente confuso, ele declarou: – O telefone tocou pouco antes de você tocar a campainha e eu atendi. Meu Deus, faz tanto tempo que estou esperando por você. Tempo demais. E então qualquer diálogo foi abandonado e ele a abraçou e lhe acariciou o cabelo, como se disso dependesse sua vida. Se o primeiro beijo na Inglaterra acendera uma chama, este parecia um inferno que a queimou até o mais profundo do seu ser. Em resposta, ela o beijou apaixonadamente ao sentir os lábios e o corpo colados aos seus. Gabriel gemeu como se fosse incapaz de viver sem seus beijos. Ela mal se deu conta de que ele tinha arrastado sua mala, fechado a porta e a empurrado para dentro de casa. No entanto, quando a mão


cobriu seu seio sob o fino tecido de algodão e a substituiu pela boca mordiscando o mamilo, ela gemeu quando uma flecha atingiu suas entranhas. Enquanto gemia de prazer, Gabriel desceu as mãos por suas costas e apertou-lhe a bunda. Lara enfiou os dedos em seu cabelo para puxá-lo. Um segundo depois ele se desvencilhou e a examinou. Ao encontrar o intenso olhar azul que despertara seu amor e devoção tanto tempo atrás, ela voltara a ser uma menina e em silêncio reafirmou o voto de que o amaria para sempre. – Não era assim que eu queria dar as boas-vindas, minha linda, mas o que fazer quando já confessei que estou viciado em você? – Inclinando-se, mordiscou seu lábio inferior. – E posso morrer se não tomar minha dose. Em um movimento ágil, ele a pegou no colo. Ainda a beijando com sofreguidão, atravessou o piso de madeira clara e dirigiu-se para uma porta fechada. Lá chegando, ele a abriu e a carregou até uma cama coberta de seda preta que dominava o aposento. Ele tirou os sapatos e Lara fez o mesmo. E quando ele retirou as cobertas e a deitou nos lençóis de seda, esqueceram-se de tudo e simplesmente livraram-se das roupas. Os olhos famintos se encontraram maravilhados de novo, antes de Gabriel cobrir o corpo trêmulo de Lara com o seu. E tão logo as peles se tocaram, qualquer conversa seria redundante. Não havia necessidade de preâmbulos. Com o joelho, Gabriel afastou as coxas de Lara e, de imediato, ela sentiu os quadris relaxarem. Mas quando segurou os bíceps desenvolvidos, retesou-se ao ser penetrada. Ele interrompeu o movimento. Ela estava mais do que preparada para recebê-lo, mas estranhamente sentiu com mais agudeza a invasão desta segunda vez. Viu o olhar indagativo. Mas a sugestão de incerteza – se era isso – foi logo banida quando ele reiniciou os movimentos e curvou a cabeça para devorar-lhe os lábios, depois os seios, enquanto as mãos ávidas a exploravam e excitavam. Louca para dizer que o amava, Lara não sabia como conter o impulso. Depois eu digo, jurou, soluçando de choque e prazer quando ele mordeu a pele delicada entre o pescoço e o ombro. É, ele deixaria sua marca de diferentes maneiras. Mas logo se viu soluçando uma segunda vez quando o fogo aumentou e tomou conta dela e ela se viu surfando em uma onda de prazer que não dava espaço para pensamentos, mas apenas para as sensações. A estranha experiência se acentuou quando Gabriel de repente se retesou e gritou despejando seu líquido quente dentro dela. O rosto bonito pareceu tão surpreso com o gozo intenso que Lara se sentiu gratificada por ter sido a responsável. Pouco antes de o calor suave de Lara o envolver e ele penetrá-la mais fundo, Gabriel se surpreendeu ao constatar que aquela mulher passara a ocupar um lugar importante em sua vida. Ele tinha sido um gato em teto de zinco quente esperando por sua chegada. Nem mesmo as exigências do escritório o distraíam e nunca em sua história baixara a guarda com uma mulher. Não duvidava que o preço a pagar seria alto. Mas depois da surpreendente satisfação, ele pouco se importava com o valor a ser pago. – Foi incrível – murmurou, deitando-se ao seu lado e a abraçando. Lara sorriu. – Ainda bem que não fui a única a achar. – Encostou o rosto no seu. – Gabriel... Sussurrou o nome em seu ouvido, os lábios macios roçando o lóbulo e o deixando arrepiado.


– O que foi, minha linda? – Ele ergueu a cabeça. Ao ver os olhos escuros marejados de lágrimas, ficou tenso. – O que houve? – Nada. – Os lábios abriram-se e, mais uma vez, ele ficou balançado diante da beleza radiante. Tanto que o coração doeu só de olhar para ela. – Só queria que soubesse que estou feliz por ter esperado. – Esperado? Esperado o quê, querida? – Esperado para fazer amor com o único homem que amei e lhe dar minha virgindade. Gabriel não podia ter ficado mais chocado. A confissão o deixou paralisado. Lara era virgem quando fizeram amor pela primeira vez? Não fazia sentido. Ela se mostrara receptiva. Apesar da dúvida instalada, lembrou-se de que ela era muito apertada, ao contrário de mulheres experientes. Descontrolado pela paixão, desconsiderara o fato. Entretanto, acabava de pensar nisso quando fizeram amor novamente. Mas o que mais o surpreendia era a declaração de que o amava, que ele tinha sido o único homem que amara. Não sabia como lidar com isso. Amor nunca fizera parte de seus planos. Era evidente a intensa atração, mas amor...? Além do mais, um relacionamento com ele só representaria mais sofrimento e desilusão. Ela merecia um homem devotado, um homem que soubesse o significado da palavra amor, ao contrário dele. Invadido pelo choque e pela surpresa e, por que não, pelo medo, Gabriel respirou fundo na tentativa de recuperar o equilíbrio. Então afastou-se da adorável mulher e deitou de costas. Percebendo o olhar confuso nos olhos de Lara, ele pensou no que dizer. Sentando-se, Lara moveu a cabeça e cruzou os braços. Ele admirou o cabelo sedoso e teve vontade de ceder ao impulso de enroscar os dedos como já tinha feito, quando as coisas entre eles eram bem menos complicadas. – Eu falei alguma coisa errada, Gabriel? Algo de que não gostou? – indagou, hesitante. – Você me contou que tomava pílula. – É verdade. Mas por que isso o perturba? Por acaso achou que eu tinha dormido com outros homens? – Sinceramente, sim. Pensei. – E por que não me disse quando... – Com o rosto afogueado, Lara o fitou como se não entendesse o significado de sua resposta. Gabriel sentou-se. – Se não me engano, eu estava louco de desejo e não conseguia raciocinar direito. Mas, Lara, se você era virgem por que tomava pílula? Ela dobrou as pernas por baixo da coberta e as abraçou. – Tomo pílula para regular a menstruação, como muitas mulheres. – E nunca tinha transado? – Não. Eu não minto, Gabriel. – Não, claro que não. Como poderia, pertencendo à sua família? Envergonhou-se com o elogio. Mas seu instinto o levava a apertar o freio e refletir. Ela lhe dera a virgindade e isso o agradava, mas significaria querer um relacionamento sério? No instante, não via tal perspectiva. Seus estilos de vida eram tão diferentes. Por mais que gostasse de estar com Lara, não


conseguia imaginá-la vivendo em Nova York. Por mais linda e inteligente, era uma moça simples, embora ele apreciasse isso. Sem saber como agir, foi até a beirada da cama, se curvou e pegou a cueca de seda que atirara no chão. Vestiu-se e ao olhá-la viu que estremecia. Desprezando-se por não ser capaz de dizer algo que a aliviasse, comentou: – Acho que deve se vestir. Pode tomar um banho e me encontrar na sala de estar. Vai encontrar tudo de que precisa. Vou usar o outro banheiro. Não temos muito tempo, pois antes de voltar ao escritório preciso explicar umas coisinhas para você.


CAPÍTULO 9

O QUE ele precisava lhe dizer?, questionou-se Lara. Nada poderia deixá-la ainda mais triste. O coração sangrava, pois Gabriel não demonstrava o menor prazer ou mesmo preocupação por ela ser virgem quando fizeram amor pela primeira vez. Na verdade, ele parecia zangado. Nem demonstrava qualquer satisfação quando havia confessado que o amava. Seria tão frio e displicente? Teria ela cometido o maior erro da vida ao confessar seus sentimentos? Não havia se esquecido de já ter sido rejeitada por ele, apesar de muito tempo ter se passado. Mas o sangue de Lara congelou ao calcular que talvez Gabriel não pudesse assumir um compromisso com ela ou se permitir corresponder ao seu amor. Sabia que por trás daqueles olhos azuis havia um homem bom, mesmo que desse raras provas, mas ele parecia um urso ferido que atacava quem quer que exibisse preocupação ou se aventurasse a se aproximar, e ela conhecia o motivo de tal reação. Seu passado disfuncional o assombrava. Por isso, ele encontrava dificuldade em lidar com a gentileza e a preocupação. Talvez também fosse o motivo de não aceitar de imediato o fato de que ela o amava e de ter dado sua virgindade a ele e não a outro? Tendo chegado à infeliz conclusão, tomou banho e se arrumou no luxuoso banheiro em estilo art déco, passou o batom guardado no bolso do vestido e foi para a sala de estar. Prometeu agir de maneira descontraída e não deixá-lo perceber o quanto a magoara. Porém, ao vê-lo ficou ansiosa. Gabriel relaxava em uma das poltronas pretas na sala de estar iluminada com vista para o horizonte de Nova York. Mudara de roupa e usava um terno classudo italiano. A expressão nada acolhedora a deixou constrangida. Parada na soleira da porta, ajeitou o vestido azul comprado para a viagem e jurou nunca mais usá-lo. Em sua mente, tudo se embaralhava. Não mais presumiria alguma coisa. Umedeceu os lábios. – Você mencionou que precisava me revelar algo. – Por que não se senta? Lara julgou ver uma leve sombra de sorriso em seus lábios, mas preferiu ignorá-la. Não fazia ideia do que ele diria e temia pelo pior. – Encontrou tudo de que precisava? – No banheiro? Gabriel assentiu.


– Encontrei, sim. Aproximou-se nervosa, contorcendo as mãos, e então se deteve, o corpo pegando fogo ao se lembrar do que eles tinham feito há pouco. Quem poderia acreditar que aquela paixão esfriaria em tão pouco tempo? Gabriel tinha jogado gelo em seus sentimentos quando a deixara sozinha na cama. E se tivesse chegado à conclusão de que ela deveria ir embora? Que cometera um erro ao convidá-la para vir a Nova York? Passando mal, tamanha a apreensão, interrogou: – Minha mala ainda está no corredor? – Por enquanto eu a coloquei no quarto de hóspedes. Quando voltar mais tarde do trabalho, eu a levo para o meu quarto. Apesar do alívio, a desagradava o fato de ele tomar todas as decisões. – Não precisa. – Ergueu o queixo em atitude desafiadora. Deixando seus joelhos outra vez trêmulos, Gabriel se levantou e se aproximou. Parou a poucos passos e o perfume de sua sexy colônia fez seu pulso bater descontrolado. Os mamilos ainda intumescidos depois da sessão de amor ardiam ao ficar cara a cara com ele. – Sei que talvez eu não seja capaz de dar tudo o que deseja, Lara. Mas não trouxe você até aqui para dormirmos em quartos separados. Eu devia ter agido de modo mais atencioso, mas o que você disse me deixou desnorteado. Venho refletindo e quero corrigir meu erro. – E quais seus planos? Comprar presentes? Proporcionar diversão, como deve ser seu estilo com as mulheres de sua vida, antes de dar um beijo de adeus e passar para a próxima? – Apesar de ter jurado não deixar que ele percebesse que a magoara, não conseguiu conter as lágrimas. Limpou-as impaciente. – Para ser sincera, prefiro voltar para casa. – Não quero que vá embora. Quero que fique, mesmo que pense mal de mim. – Por que tem de ser sempre o que você quer, Gabriel? Não passa por sua cabeça que eu também tenho vontades? Fazia menção de dar as costas quando ele a agarrou, a puxou contra o peito e lhe deu um beijo áspero, quase punitivo. Sua decisão de ir embora desmanchou como sorvete sob os raios do sol do Saara. O beijo perdeu a intensidade e ficou surpreendentemente terno. Gabriel a fitou. – Quero que tenha tudo o que deseja, Lara, de verdade. Mas enquanto estiver comigo receio que me torne egoísta. Talvez não acredite que você entregou sua virgindade a um homem conhecido pelo egoísmo, que sempre se coloca em primeiro lugar quando se trata de conseguir o que quer e, em consequência, desconsidera os sentimentos dos outros. Mas estou enamorado demais para não compreender que o fato de você estar aqui é uma bênção e quero aproveitar esse tempo. Segurou-lhe o rosto e esboçou um sorriso. – Não vá embora. Por favor. Lara prendeu a respiração. Não viu apenas o desejo refletido em seus olhos, mas uma carência infantil. Ele ficaria arrasado se ela insistisse em partir. Então recordou que, por ter crescido desprovido do amor e do cuidado maternal, sem dúvida não se sentia merecedor desses sentimentos por parte de nenhuma mulher. Umedecendo os lábios ainda inchados por causa dos beijos, examinou atentamente o rosto dele. – Não vou embora, Gabriel. Não lhe daria as costas quando lhe dei minha palavra que ficaria, pelo menos até minhas férias terminarem.


Vendo o alívio espalhar-se pelos traços bonitos, Lara ficou contente por ele aparentar serenidade. Recobrando o bom humor, provocou: – Além do mais, acha mesmo que vim de tão longe e vou embora sem conhecer os pontos turísticos? – Juro que vai ver tudo o que quiser. Basta dizer e eu me encarrego de tudo. Ele descansou as mãos em seus ombros. – E por falar nisso, uma das coisas que precisava dizer é que hoje à noite vamos sair. É um jantar de trabalho em um restaurante a pouca distância do escritório. Não vou poder escapar. Preciso ir e quero que me acompanhe. A palavra “não” estava na ponta de sua língua. Ela se sentiria um peixe fora d’água em companhia de pessoas sofisticadas e num ambiente tão estranho quanto a majestosa casa em que Gabriel tinha crescido. Contudo, viu o olhar decidido e soube que seria perda de tempo recusar o convite, pois ele a persuadiria a aceitar. NUNCA EXPERIMENTARA tal possessividade ao entrar no restaurante estiloso com Lara. Tão logo chegaram, cabeças se voltaram, não apenas para cumprimentá-lo, mas para lançar olhares de admiração para sua companhia. E como poderia culpá-los quando Lara superava a expressão “linda de morrer”? O vestido preto que insistira ter sido o único que poderia usar em um jantar “bacana” fez Gabriel se sentir como o mítico Ares em adoração aos pés de Afrodite. Embora o vestido não fosse justo, deixava entrever as sublimes curvas quando ela se movia. E o cabelo preso num coque frouxo e feminino, com mechas soltas e os ombros desnudos lhe davam aparência sofisticada. Gabriel apertou a mão de Lara enquanto caminhavam em meio aos convidados reunidos no bar. Mais cumprimentos e tapinhas nas costas e, pela primeira vez, ele sentiu que podia dispensar tanta atenção. Ao perceber que sua companhia se retraía, imaginando que ela se sentisse deslocada, ele a puxou para mais perto e abriu um sorriso reconfortante. Ela não estava acostumada à atmosfera competitiva criada pelos donos de empresas de Wall Street. Afinal, todo esse ambiente estava a milhões de anos-luz do mundo em que Lara vivia. Apesar de pairar no ar o aroma de perfumes e colônias sofisticadas, o odor predominante era de dinheiro. Estranho como a constatação não despertou em Gabriel a costumeira sensação de prazer e satisfação da qual passara a depender. Buscando uma brecha para escapar, viu o maître e pediu que os conduzisse à sala de jantar. As mesas tinham sido arrumadas em uma das salas mais sofisticadas do restaurante, onde ele costumava ter reuniões de trabalho com seus clientes. Mas hoje os convidados eram alguns dos colegas que tinham contribuído para evitar outra séria crise financeira. Depois das semanas de tensão, Gabriel os convidara a se reunirem e comemorar. Embora ainda não pudessem repousar sobre os louros. Uma vez concluídos os efusivos cumprimentos, Gabriel ficou aliviado ao sentar-se ao lado de Lara e ler o cardápio. Não lhe escapou o fato de seus dedos finos tremerem ao verificar os pratos, nem o suave suspiro. Os ombros largos roçaram os seus ao inclinar-se e sentir o seu perfume adocicado. Excitou-se. Em voz baixa inquiriu: – Está tudo bem? Prometo que não vamos demorar muito. Sua recompensa foi um esboço de sorriso. – Acho que está tudo bem.


O sorriso de Gabriel foi mais generoso. – Para mim não está. Preferia estar sozinho com você – confessou. – Acredite, eu não estaria aqui se esta fosse uma opção. Impossível esconder o desejo evidente em seu tom. Na verdade, era difícil até pensar com Lara por perto. – Estou impressionado com sua presença aqui; com o fato de ter viajado para me ver. Bem, esse cardápio é ótimo. É chamado de “menu para banqueiros”. Se aceitar uma sugestão, que tal o filémignon? Incapaz de resistir, deixou o olhar ávido debruçar-se sobre os olhos castanhos, ciente de que as pessoas ao redor especulavam sobre o relacionamento dos dois. Afinal, ninguém conhecia Lara. Uma mulher linda e desejável. Antes que ela pudesse comentar sua sugestão gastronômica, um dos mais conceituados financistas, chamado Lars Jensen e sentado do outro lado da mesa, inclinou-se e perguntou em tom confidencial: – Então, Lara, posso chamá-la assim? Eu e meus colegas estamos curiosos. Como conheceu Gabriel? Ele tem fama de ser um mago de Wall Street, um Midas. Tudo que toca vira ouro. Por acaso fez negócios com ele em Londres? Neste caso, meus parabéns. O jovem sentado à sua frente, de cabelo claro e curto e olhos verdes inquisidores, partira para o ataque como um míssil. Sem saber o que Gabriel pretendia revelar, ela respondeu com voz baixa e contida. – Não entendo nada do mundo financeiro. E não, não nos conhecemos em Londres. Gabriel estudou com meu irmão na universidade. Foi assim que nos conhecemos. – Agora fiquei ainda mais intrigado. Quer dizer que se conhecem há tantos anos e ele nunca mencionou você? Pelo menos, não para mim. – E por que deveria mencionar? Somos apenas amigos. Percebendo a expressão séria no rosto de Gabriel, Lara corou. Teria dito alguma bobagem? O que mais poderia ter dito? Que era uma ex-namorada? Isso não era verdade. – Então são “apenas amigos”. – Lars os encarou enquanto pronunciava a frase em tom debochado. – Esse é um novo eufemismo para amantes na Inglaterra? – Não, não é – afirmou Gabriel, trincando os dentes. Por baixo da mesa, pegou a mão de Lara em atitude possessiva. – E se eu lhe contar que Lara tinha 16 anos quando nos conhecemos, duvido que imaginem que seríamos amantes, não é? Desta vez, o olhar do homem demorou-se em Lara, inventariando seus atributos como se ela fosse um negócio lucrativo que ele adoraria acrescentar à sua fortuna. Abaixando a voz, voltou a atenção para Gabriel. – Não me diga que não se sentiu tentado... Lara sentiu a fúria silenciosa e a tensão no corpo de Gabriel como se fosse no seu. – Acho melhor mudarmos de assunto. Lara é minha convidada e suas insinuações descabidas a deixam constrangida. Tal atitude é inaceitável. – Os olhos azuis varreram a mesa. – E isso se aplica a todos vocês. Fez-se silêncio e Lara desejou que o chão se abrisse e a engolisse. O aviso de Gabriel apenas aumentara a curiosidade dos demais convidados. Apertando sua mão para atrair sua atenção, ela sentiu o coração disparar quando afinal conseguiu. Os olhos lançaram faíscas. – O que foi?


– Não precisa me defender. Seu amigo não devia ter nenhuma má intenção. – E você tem certeza disso, não tem? – Puxando-a para que ninguém mais ouvisse, murmurou: – Primeiro, ele não é meu amigo, apenas um colega, e um colega grosseiro e ambicioso. Saiba que estamos sentados à mesa com um grupo de tubarões famintos, meu anjo, e no momento você é a isca. Lara se arrepiou. Ao passar os olhos pela mesa de homens em ternos italianos elegantes e impecáveis, surpreendeu-se ao constatar que todos a examinavam e tentavam adivinhar quem era, como se não fosse natural Gabriel levar uma desconhecida aos compromissos. Sentindo o rubor ao constatar ser o centro de tanta atenção, voltou-se para Gabriel. – Preciso ir ao toalete – sussurrou. Gabriel logo chamou uma garçonete e pediu que ela lhe mostrasse onde ficava o banheiro. Mas, ao erguer-se para ajudá-la, Lara sentiu sua relutância em deixá-la sozinha um segundo sequer. LARA SENTIU como se merecesse um prêmio por suportar uma das mais desconfortantes e tensas noites da vida. Mas, no final, uma coisa ficou clara. Não nascera para aquela vida superficial e estressante da “elite” financeira de Nova York que testemunhara. Embora fosse um sonho estar junto de Gabriel, já sentia saudades de casa, da rotina simples, todavia satisfatória com a qual estava acostumava – um estilo de vida no qual não precisava preocupar-se com o que os outros pensavam a seu respeito ou se usava a roupa apropriada para ir jantar ou trabalhar. Apesar de trabalhar na biblioteca de uma universidade, podia usar jeans e camiseta. O que não a impedia de pensar que Gabriel estava apetitoso no impecável terno italiano. Uma das convidadas à sua mesa a tinha seguido até o banheiro e, sem preâmbulos, a indagara sobre seu relacionamento com ele. Quando Lara friamente não lhe deu resposta, a mulher começou de imediato a expressar o que gostaria de fazer com ele na cama. Lara ficou de queixo caído diante da cara de pau da mulher. Era óbvio que a recomendação de Gabriel aos colegas reunidos para não deixá-la constrangida só devia ser respeitada enquanto estivessem em volta da mesa de jantar. Fora daqueles limites estava aberta a temporada de caça dos tubarões aos humanos. Lara logo descobrira que ir ao jantar como convidada de Gabriel não lhe garantia imunidade contra as outras mulheres que o desejavam e não hesitariam em dizer isso na sua cara. Foi um alívio voltar ao apartamento, embora Gabriel se mantivesse quieto durante todo o trajeto. A ansiedade crescia com a falta de comunicação e, tão logo ficaram a sós, ela quis saber o motivo do silêncio. – O que foi? – indagou quando ele tirou o paletó e o pendurou no cabideiro. – Tenho a impressão de que está infeliz. Não gostou do jantar? Seus colegas pareciam contentes com sua presença. Ele curvou os lábios. – Para você pode ser uma surpresa, mas em Wall Street conta pontos manter boas relações com o chefe. Com o dinheiro, como dizem por aqui. Se acha que as pessoas estavam contentes de me ver apenas porque gostam de minha companhia, você é ainda mais ingênua do que imaginei. Descalçando os sapatos, como era seu hábito ao chegar em casa, Lara bufou de irritação. – Você se satisfaz em me diminuir, Gabriel? Seu ego infla? Só pode. De qualquer maneira, por que as pessoas não deviam ficar contentes em sua companhia? Você pode ser razoavelmente agradável quando tenta, embora eu deva confessar que isso não costuma ser muito...


A última palavra de seu discurso foi cortada sem cerimônia quando Gabriel a puxou contra o peito e devorou seus lábios com um beijo ávido. Tão logo a língua aveludada penetrou em sua boca e as mãos desceram por seu corpo para levantar-lhe a saia e acariciá-la com intimidade, Lara se sentiu assustadoramente indefesa, incapaz de negar-lhe algo. Alarmada por não reagir, brigar. Mas por que ia querer brigar, raciocinou, quando o amava tanto que chegava a doer? – Não consigo me controlar; não dá para ir devagar – murmurou com os lábios colados aos seus. – Confesso que não consigo resistir, tamanha a força de meu desejo, mas depois... Lara perdeu o ar ao sentir a mão entrar em sua calcinha. Quando os dedos a invadiram, ela soluçou, a cabeça caiu contra o ombro musculoso. A razão foi de pronto submersa pelo calor do corpo dele e do odor irresistível da colônia masculina. Se ele não a estivesse segurando, ela cairia no chão, pois suas pernas não a sustentavam, como se fosse um filhote recém-nascido. – Depois – continuou ele, a mão livre acariciando-lhe a nuca – vamos fazer amor de novo devagar e nos conhecer melhor, descobrir o que nos dá mais prazer. Incapaz de responder, pois foi de repente arrastada em um mar de delícias tão profundamente erótico que não conseguia falar, Lara colou o peito na camisa branca imaculada, registrando o batimento disparado de seu coração contra sua orelha e se perguntando como deveria agir para que ele também sentisse a mesma emoção que ela. Ela própria mal se reconhecia quando junto desse homem. Só conseguia pensar que sua companhia atendia a seus desejos carnais e, por sorte, os dele também. Ter mantido o celibato durante todos aqueles anos haviam-na transformado em uma sedutora insaciável? Quando ela levantou a cabeça, deparou com um olhar tão intenso que quase parou seu coração. – Você me deixa de um jeito... – sussurrou ela baixinho, acariciando-lhe o rosto com ternura. Os olhos azuis penetrantes demonstravam compreender o sentimento. Ele a pegou no colo como se ela fosse leve como uma pluma. Então, fitando-a, ele afirmou com voz rouca: – Precisamos ir para a cama. Já.


CAPÍTULO 10

A SEMANA transcorreu como o sonho mais fantástico. Enquanto passava os dias passeando e visitando lugares turísticos guiada por Barry, o atencioso motorista, as noites eram totalmente devotadas a Gabriel. Saíam para jantar e tomar vinho em restaurantes maravilhosos, ele a levou ao cinema e a um show da Broadway, mas independentemente do programa escolhido, o ponto alto da noite era voltar para o apartamento e para os braços um do outro. Ciente de que suas curtas férias estavam chegando ao fim e de que em breve voltaria para a Inglaterra e retomaria o cargo de bibliotecária, Lara começou a ficar ansiosa sobre o futuro de seu relacionamento. Por acaso teriam um futuro juntos? A ligação entre eles era forte, e não tinha dúvidas de que o amava, mas como ele evitava discutir a relação, crescia sua apreensão. Durante a estada, havia constatado o quanto ele era devotado ao trabalho, e como devia ser sedutor ser tão admirado na arena financeira em que atuava. Os colegas pareciam achar Gabriel insubstituível. Ou seja, passaria pela cabeça de Gabriel voltar à Inglaterra em definitivo? Durante o tempo juntos, ele nunca tinha mencionado a casa herdada da família. Lara tinha consciência de que tocar no assunto despertava a fúria e o desespero de quando lera a carta do tio, no entanto, sabia que Gabriel nunca aceitaria, digeriria o ocorrido e começaria a curar as feridas do passado se fugisse do assunto. O que pretendia fazer com o solar em que crescera? Planejava vendê-lo sem nem sequer considerar voltar a morar ali? Se fosse este o caso, e continuasse em Nova York, Lara tinha quase absoluta certeza de que não ficariam juntos. O estilo de vida sofisticado e implacável dos banqueiros e financistas, cujo único objetivo era acumular mais bens, representava tudo o que ela e a família desprezavam no mundo moderno. Como seu irmão, Sean, costumava dizer: “De que adianta ser rico se não usam o dinheiro para ajudar os menos privilegiados do planeta?” Mas o dilema de Lara não se resumia apenas ao fato de esse estilo de vida em particular não combinar com seus valores pessoais. Tinha mais a ver com a aflição de Gabriel nunca ter declarado seu amor. Começava a suspeitar que ele jamais diria que a amava. Já temia que o relacionamento carnal logo seria posto de lado, substituído pelas exigências profissionais e, talvez, por ocasionais encontros com uma das “amiguinhas bonitas” que procurava quando se sentia solitário.


Seria ela tão desinteressante que não era capaz de despertar amor? E ele preferisse essa existência vazia ao amor e devoção de Lara pelo resto da vida? Sem mencionar a possibilidade de construírem juntos uma família... Tomando suco de laranja na sala de estar enquanto o esperava chegar – ele avisara que voltaria tarde do trabalho e ela ainda se aprontava para saírem para jantar –, Lara contemplou o deslumbrante horizonte de Nova York feito de aço e sombras e foi invadida pela tristeza. Sua estada chegava ao fim e nada ainda tinha sido resolvido sobre o relacionamento. Esta seria sua última noite na cidade. Amanhã voaria de volta para casa e, por enquanto, além de lhe informar o horário do voo, nada mais tinha sido mencionado. – Oi. – A voz rouca e cadenciada fez com que se virasse rápido e por pouco não derramou o suco no bonito vestido de seda azul que Gabriel lhe dera de presente. Não esperava presentes e frequentemente repetia isso para ele sempre que lhe oferecia alguma coisa, mas quando ele lhe revelara que tinha saído um dia à tarde do escritório para comprar “algo bonito para ela usar num jantar”, Lara ficou comovida com sua atenção. Satisfeita também. O vestido era justo e quando ela o retirara da sacola e desembrulhara o pacote, ficou encantada. O vestido era perfeito. Não deveria se surpreender com o fato de o vestido parecer feito sob medida, porque Gabriel tinha olho para detalhes que muitos homens não percebiam, sem mencionar que conhecia muito bem as linhas e curvas de seu corpo. Pensar que ele os guardava na memória a fez excitar-se só de imaginar a próxima vez que fariam amor. Descansando o copo, abriu os lábios num sorriso de surpresa e admiração. À sua frente, Gabriel usava outro terno impecável com camisa de seda azul-marinho e gravata azul-celeste. O cabelo castanho puxado para trás revelava traços que Michelangelo adoraria pintar ou esculpir. – Oi para você também. – Está usando o vestido que comprei... Levanta, me deixa ver como cai... Levantando-se, Lara deu uma voltinha para mostrar o vestido sob todos os ângulos. Um turbilhão de emoções atingiu Gabriel. Mas o principal foi a estonteante sensação de afeto que aqueceu seu coração e brotou como uma cascata tão forte que se estivesse debaixo, sequer conseguiria respirar, tamanha a força das águas. Parado, examinando essa encantadora combinação de beleza e sensualidade, sentiu o pulsar descontrolado nas veias, como sempre acontecia quando estava perto de Lara. Questionou-se se o nome desse sentimento era amor. Essa sensação de total e completo desamparo diante de algo que sempre afirmara não desejar? Essa palpitação acelerada do coração e a fraqueza nas pernas sempre que via a mulher por quem ele intuitivamente sentia que daria a própria vida para garantir a segurança dela? E mais, a sensação de perda devastadora caso nunca mais a encontrasse. Com certeza, estes sinais apontavam estar loucamente apaixonado por Lara. Mas em consequência dessa surpreendente revelação surgia o sombrio demônio do medo. Medo de arruinar a vida dela por sua falta de experiência em cuidar de uma joia tão preciosa. Por muito tempo Gabriel se mantivera afastado de qualquer sensibilidade ou sentimento em relação às mulheres, com medo de ser magoado. Bastava pensar no que a mãe tinha feito com ele. Com essa precária introdução ao mundo, confiança – sobretudo em se tratando de mulheres – seria um eterno problema em sua vida. Temia envolver-se e ser magoado de tal forma que nunca mais se recobraria, ficando incapacitado para as únicas coisas que sabia fazer bem: ganhar dinheiro e conquistar status. Pelo menos isso lhe dava opções. E era melhor ser rico e infeliz do que o contrário.


Calando a voz que insistia em confundir seus pensamentos, Gabriel voltou a atenção para o vestido. Parecia mesmo feito sob medida, e orgulhou-se por conhecer tão bem suas formas. – Você está linda. Na verdade, deslumbrante. – É o vestido. – Pelo amor de Deus, não consegue aceitar um elogio uma vez na vida sem se subestimar? Tão logo pronunciou as palavras, teve vontade de engoli-las. Seu comentário indelicado deixara Lara ruborizada e constrangida. Mais uma vez ele pensou no medo de amá-la. Na verdade, não podia suportar a ideia de magoá-la uma vez sequer, quanto mais nas inúmeras vezes em que a magoaria impensadamente se passassem o resto da vida juntos. Prendendo o cabelo atrás da orelha, ela ergueu os ombros. – Talvez eu não tenha talento para receber elogios... por isso eu tento e os desconsidero com um toque de humor. O que não significa que eu não goste de ouvir você dizer coisas bonitas para mim, Gabriel. Que mulher não gostaria de ouvir um homem dizer que ela está linda? – Peço desculpas se a magoei. Acho que estou meio nervoso porque você vai embora amanhã – admitiu, o peito contraído. Aproximou-se e a abraçou. Descansando o queixo no topo de sua cabeça, ele lhe acariciou as costas e logo a sentiu arrepiar-se. – Eu devia sequestrar você e impedi-la de ir embora – murmurou. Recuando um pouco para poder olhá-lo, Lara sabia que seus luminosos olhos castanhos não conseguiam esconder a inquietação. – Não precisa me sequestrar para eu ficar com você, Gabriel. Eu ficaria de bom grado. Bastaria você pedir. – Ela suspirou e balançou a cabeça. – Mas não vai fazer isso, não é mesmo? Simplesmente pedir, quero dizer. Ela começava a conhecê-lo muito bem. – Não está ansiosa para voltar para a Inglaterra, para sua família, seu emprego, sua vida? – interrogou, tentando desviar-lhe a atenção. – Claro que sim. Posso fazer uma pergunta? Baixara a voz e ele imaginou que ela temia aborrecê-lo. Odiava a ideia de que Lara se sentisse pisando em ovos perto dele. Soltando-a, ele passou os dedos no cabelo. – O que quer saber? – Você... você já pensou em voltar a viver na Inglaterra? Quero dizer, o que vai fazer com a casa herdada da família? Já sabe o que fazer com ela? – Já. Dentro de poucos dias vou viajar e assinar alguns papéis. Sinto muito se não lhe contei antes, mas nunca parecia ser o instante apropriado. – Você vai vender a casa, não é? Isso quer dizer que não vai voltar a viver na Inglaterra, certo? Gabriel engoliu em seco. Era chegada a hora de contar a Lara a verdade – toda a verdade. – Na carta do meu tio, ele estipulava que eu só poderia herdar a casa se morasse lá pelo menos seis meses. Depois disso, podia fazer o que bem entendesse com ela. Os olhos de Lara se iluminaram e ela viu o brilho de esperança no fundo dos olhos. – Então você pode voltar a morar lá? Poderíamos nos ver sempre que quiséssemos? – Querida, por mais difícil que seja para você entender, eu não quero morar naquela casa novamente. Ela abriga muitas lembranças infelizes. Eu seria mais feliz se vendesse a casa e continuasse morando aqui.


Lara empalideceu. – Mas não acabou de dizer que seu tio estipulava na carta que precisava morar lá durante seis meses? Se não está planejando ficar lá, como vai vender? A casa não vai ser sua, certo? – Tenho um ótimo advogado. Existem maneiras de contornar essas exigências... – Não entendo. A voz sumiu e ela parecia prestes a chorar. Gabriel sentiu-se o pior criminoso do mundo. – Você não precisa de dinheiro, certo? Então por que não mantém a casa? Para a sua família? Ele a encarou. – Sabe que não tenho família. – Cuspiu as palavras como se elas o engasgassem. O que Lara pretendia com essas insinuações? – O que quero dizer é que um dia você pode ter uma família. Isso ajudaria a apagar as lembranças tristes do passado. – Aceito correr riscos em minha vida profissional, mas não na minha vida pessoal. A esta altura já não entendeu isso? Ele percebeu que ela engolia em seco e então passou as palmas das mãos no bonito vestido azul que ele lhe dera de presente. Ergueu o olhar radiante para ele. – Acho que sim. Só esperava que, em determinado momento, você começasse a ver as coisas sob outro prisma. Sou uma eterna otimista. – Os lábios retorceram num sorriso depreciativo. – Então, vamos sair para jantar? Está ficando tarde, e preciso de uma noite repousante de sono antes de viajar amanhã. Vou pegar meu casaco. Quando Lara deixou a sala, Gabriel olhou as luzes piscando da cidade que o tinham ajudado a fazer fortuna. E, naquele instante, desprezou-se por contribuir para partir o coração de uma das mais meigas e adoráveis mulheres do mundo. SENTADOS NUM restaurante tailandês para usufruírem da última refeição juntos, a deliciosa comida proporcionou tanto prazer a Lara quanto uma tigela de cereais. Por fim, a ficha caíra. Gabriel não pensava em mudar de ideia sobre o retorno à Inglaterra para enfrentar os demônios do passado nem tampouco considerava a possibilidade de um relacionamento sério com ela. Garantira estar feliz em correr riscos na vida profissional, mas não na vida pessoal. A declaração estraçalhara o coração de Lara, pois sabia que isso representava a morte de todas as suas esperanças e sonhos de uma vida em comum com Gabriel. O que mais poderia fazer a não ser aceitar sua decisão de continuar vivendo em Nova York sem ela? – Não gostou da comida que escolhi? – Enquanto ele pousava o garfo ao lado do prato, o rosto encavado e fino de Gabriel ficou tenso. Afrouxou o nó da gravata como se estivesse prestes a sufocar. Contendo as lágrimas que ameaçavam escorrer, Lara enxugou os lábios no guardanapo. – Sei que suas intenções eram boas ao me trazer para comer aqui, mas acho que perdi o apetite. – Devia ter avisado. – Não falei nada porque você passou o dia trabalhando e não tinha nada no apartamento para eu cozinhar para você. Sabia que você precisava se alimentar. Por isso concordei em sair para jantar. – Como sempre, priorizando as necessidades dos outros. – O menosprezo ainda era audível, embora tivesse baixado o volume da voz. Lara vacilou.


– Seu comentário parece demonstrar que você despreza quem pensa nos outros. Não posso mudar minha natureza, Gabriel. Os olhos azuis eram claros e frios como diamantes. – Não pode mesmo, não é? Por isso eu sabia que seria um erro começar um caso com você. Mas sou humano e não resisti. Se não tremesse tanto ao ouvir as palavras; se não temesse perder o equilíbrio caso tentasse se levantar, teria se levantado, pois sabia que não devia permanecer ali. Pela primeira vez sentiu que não gostava do homem que a encarava do outro lado da mesa. – É isso o que pensa a respeito de nós dois? Tivemos um caso? Algo que você podia ter ou não? Sabia que tinha tendência à crueldade, Gabriel, mas não fazia ideia de o quanto podia ser cruel. – Por que diz isso? Não pode dizer que não avisei. – Tem razão. Você começou a me dar provas anos atrás, quando eu tinha apenas 16 anos. Gabriel franziu a testa ao ouvir o comentário. – Quando tinha 16 anos? Duvido. Você não pode ter levado a sério minhas gracinhas de que você era exigente demais e por isso não tinha namorado. – Não foi isso. Não se lembra da festa de Sean? A festa que ele deu em nossa casa? Sei que se lembra, porque mencionou a festa naquele primeiro dia em que apareceu para apresentar suas condolências à minha família pela perda de Sean. Pois bem, naquela noite flertou comigo e eu, inocente, achei que gostasse de mim. Quero dizer, que gostasse de verdade. E cometi a tolice de falar sobre meus sentimentos... Lara se calou. A lembrança, de chofre, tornou-se mais dolorosa do que antes. – Acho que minha confissão não o agradou. Talvez tenha ficado bastante constrangido. Disse, então, que eu devia procurar alguém da minha idade. Então você viu sua supervisora loura da universidade do outro lado da sala e só faltou me empurrar para chegar perto dela. Então, Gabriel, a resposta é sim. Eu sei que pode ser cruel. Ele balançou a cabeça. – Mas isso faz séculos. Você era uma criança. Eu não quis encorajar seu interesse porque você era a irmãzinha de meu melhor amigo, e a opinião de sua família sempre teve um peso muito grande para mim. – Mas sentimentos são sentimentos, não importa a idade, e mesmo naquela ocasião eu tinha sentimentos profundos por você, Gabriel. De qualquer forma, o que está em discussão é nossa situação agora. Quero saber se está subestimando o que existe entre nós e o classificando de um simples caso por estar tentando se proteger de sofrer alguma decepção caso assuma um compromisso sério comigo. Não entendo. Como posso magoar você se não me deixar entrar em sua vida? – Por mais difícil que isso possa soar, não preciso de ninguém na minha vida. Minha vida está ótima deste jeito. – É verdade? – Balançou a cabeça com tristeza. Não sabia como proceder. Gabriel era implacável quando erguia defesas. Era duro como ferro. Ela sabia muito bem disso. – Inútil continuarmos esta conversa. – Atirando o guardanapo na mesa, fez sinal para o garçom. – Se continuarmos, vou acabar magoando você ainda mais. De qualquer maneira, você volta para casa amanhã. Lara permaneceu sentada e falou baixinho: – Acho que tem razão. Está certo. Por que não paga a conta e vamos embora?


– Sábia decisão – sussurrou no exato momento em que o garçom sorridente chegou à mesa. LARA SE surpreendeu ao ver como voltou sem demora à rotina depois das longas férias de verão. Durante os dias longos e as noites de insônia logo após ter retornado do apartamento de Gabriel em Nova York, ela se perguntava se algum dia voltaria a sentir prazer e satisfação no trabalho de que tanto gostava. Entretanto, tão logo retornou à universidade e às solicitações e exigências dos estudantes em busca de ajuda com suas pesquisas, voltara a encontrar prazer e até refúgio na rotina familiar da vida com a qual estava acostumada. Seu cotidiano a ajudou a não pensar demais em Gabriel. Estaria perdida se não tivesse o trabalho. Porém, a lembrança do adeus triste no aeroporto e o comentário de que tinha sido um erro ter um caso com ela ainda tinha o poder de fazê-la chorar. A distância que ele estabelecera entre os dois no restaurante com o comentário, um dia antes de ela retornar ao seu país, tornara-se ainda maior quando ele declarou que achava melhor dormirem em quartos separados para que Lara tivesse uma noite repousante antes de pegar o voo no dia seguinte. Embora ele tivesse sido odioso no restaurante, ela não conseguira pegar no sono. Sem Gabriel ao seu lado na cama, o Gabriel que tinha se mostrado tão apaixonado, ela sentira como se uma parte essencial lhe faltasse. Apesar de ter dito a si mesma que não compreendia o impulso abrupto e frio de se distanciar dela não apenas física, mas também emocionalmente, na verdade, ela compreendia bem. Ele outra vez fugia. Não apenas dela, mas por medo de amar e de todas as implicações decorrentes. Ele simplesmente não confiava que alguém pudesse amá-lo e não decepcioná-lo ou abandoná-lo. Afinal, a mãe o abandonara quando cometera suicídio. Por isso, o comentário de que o “caso” entre eles tinha sido um erro. Ele tentava afastá-la. Não queria correr o risco de apegar-se a ela demais, receoso de que ela acabasse por magoá-lo. Na manhã seguinte, apesar de tomarem o café da manhã juntos, Gabriel mantivera-se ocupado fazendo várias ligações no celular para focar no trabalho e não nela. Lara era invisível. Ela tentou iniciar uma conversa, na esperança de comovê-lo. Confessara de peito aberto que ia sentir saudade dele apesar do que ele tinha dito no restaurante, e que seria difícil voltar para casa sabendo que talvez nunca mais voltassem a se encontrar. O rosto bonito permanecera impassível, como se deliberadamente ele a excluísse – de sua mente e de seu coração –, e quando, por fim, o motorista telefonou para avisar que o carro já estava à disposição, a fim de levá-los para o aeroporto, ela se sentiu excluída de vez de sua vida. Quando Gabriel se despediu no aeroporto, hesitante colocou as mãos em seus ombros e inclinou a cabeça para beijá-la. Lara ficou tensa, torcendo, rezando para que ele tivesse mudado de ideia e declarasse que não podia deixá-la desaparecer de sua vida sem fazer planos para o futuro. Ao contrário, o beijo de despedida tinha sido frio, distante, o que a deixou arrasada. Pareciam dois conhecidos. O toque de seus lábios tinha sido breve e formal, nada além disso. Então, disse a ela para se cuidar e que, provavelmente, entraria em contato tão logo “colocasse a cabeça em ordem”. Girou nos calcanhares e saiu do aeroporto. Ao voltar ao trabalho, apesar de ter jurado não pensar tanto na saudade que sentia de Gabriel, as recordações do corpo quente e firme contra o seu, dos sorrisos que amoleciam seu coração por serem tão raros e, portanto, ainda mais preciosos, do som da voz, sobretudo antes de fazer amor com ela,


quando a provocava de modo sedutor, abatiam-se sobre ela quando menos esperava. Então imaginava o que ele estaria fazendo e se pensava nela às vezes. Teria Gabriel a substituído na cama por alguma jovem bonita e ambiciosa que visse nele um bilhete para o sucesso e a fortuna? Uma jovem que pudesse satisfazê-lo sexualmente, mas que nunca o amaria, não conforme ela o amava. – Olá, srta. Bradley. Como foram as férias? Sobressaltou-se, mas logo ergueu a cabeça da papelada na qual mergulhara tentando, desesperadamente, não pensar mais em Gabriel. Um jovem alto e magro usando jeans justos e uma camiseta amassada estava de pé do outro lado da bancada. O cabelo louro parecia precisar urgentemente de água, xampu e pente. Lara imediatamente relaxou. Danny Fairfax era um dos estudantes mais simpáticos do campus. Charmoso e afável, apesar da aparência, ocasionalmente, desleixada. Ela sempre se mostrava disposta a ajudar quando ele encontrava dificuldades em suas pesquisas. – Foram ótimas, obrigada. – A resposta foi acompanhada por um sorriso aberto, afetuoso. Danny logo ficou vermelho como um tomate, o que ela considerou uma graça. – E já pedi para me chamar de Lara. “Srta. Bradley” me faz sentir uma solteirona velha. Os lábios de Danny se abriram em um sorriso encabulado. Mas ele logo reassumiu a postura séria. – Peço desculpas por ter perguntado se suas férias foram boas. Esqueci que tinha me contado sobre a perda recente de seu irmão. Na certa, ainda está de luto. A observação a deixou atônita. Não apenas porque Danny tinha se lembrado, mas ao se dar conta de que vinha pensando mais em Gabriel do que em Sean. Claro que sentia muita falta do irmão e não passava um dia sem pensar nele, mas Gabriel era uma realidade viva, pulsante e, durante o período que passaram juntos, ele a conquistara e roubara seu coração e sua alma. Sean compreenderia e lhe daria sua bênção. Ele também amava Gabriel. Voltando a fitar os olhos cinzentos de Danny, pensou se um dia ele experimentaria um amor profundo e uma paixão igual a que ela experimentara com Gabriel. Torcia para que ninguém partisse o coração dele como Gabriel partira o seu. – É, ainda estou de luto. Mas perder alguém assim... Por vezes tenho a sensação de que ele ainda está por perto. Entende o que eu digo? Sinto sua presença em todos os lugares. – Não passou por sua cabeça que ela pudesse estar falando sobre Gabriel. – Entendo o que diz – retrucou Danny com gravidade. – Perdi meu pai dois dias antes do Natal e de vez em quando ainda ouço sua voz, como se ele estivesse na sala comigo, principalmente quando estou tentando resolver um problema. Ele era de Yorkshire, e quando a situação ficava complicada, sempre costumava dizer: “Não deixe ninguém derrubar você!” Estranho como isso costumava me ajudar. – Seu pai devia ser um homem muito sábio. – Era mesmo. O máximo. – Então, Danny... – Lara mudou de assunto assumindo um tom de voz profissional. De nada adiantava pensar nos seus problemas pessoais nem ajudaria Danny, embora tivesse se emocionado por ele compartilhar com ela a sua perda. Era bom saber que não era a única que carregava a sensação de que a vida tinha puxado o tapete de debaixo dos seus pés e ela talvez nunca mais pisasse em terra firme. – Em que posso ajudá-lo?


GABRIEL VOLTOU a visitar o antigo quarto. Embora a reação inicial tenha sido estranha, sentiu um nó na garganta, pronto para enfrentar o dilúvio de recordações penosas que inevitavelmente o afogariam. Portanto, ficou surpreso ao ver que o quarto tinha sido redecorado. Teria Richard Devenish se encarregado da reforma antes de cair doente? E por que cargas-d’água faria isso? Afinal, não precisava de um quarto extra. Talvez acreditasse que o sobrinho voltaria a morar no solar. Atônito, relanceou os olhos pelo ambiente numa investigação preliminar. Seu olhar repousou nos livros organizados em duas estantes de madeira que lembrava da infância e pegou a primeira edição de O Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Ganhara o livro de presente de Natal do tio quando tinha apenas 9 anos. Tinha devorado o livro. Gostara tanto que escrevera um ensaio sobre o livro na escola. Naquele ano, o professor anotara em seu boletim: Gabriel é um leitor precoce, dono de grande imaginação. Garanto que seu interesse vai levá-lo longe! Os lábios se contraíram num sorriso amargo. Guardou o livro e se virou. Janet Mullan, a governanta, tinha deixado as amplas janelas abertas para permitir que o sol entrasse. O perfume de toras de madeira e de rosas do jardim também penetravam, enchendo o ar com o inebriante perfume de verão do qual sempre gostara desde criança. Soltando um suspiro baixo e reflexivo, foi até a janela admirar a vista deslumbrante. Lembrou-se de que quando era criança costumava pensar que não seria tão terrível morar ali se pudesse convidar uns coleguinhas da escola para passar as férias com ele. Mas sua babá – uma senhora de meia-idade chamada Margaret – tinha feito que não com a cabeça, lembrando-o de que o tio havia proibido visitas, pois havia muitas antiguidades valiosas na casa e as crianças podiam quebrar alguma coisa. Para compensar sua decepção, ela despenteara seu cabelo num afago e informara que o levaria para a feira local na cidade. Quem sabe ele não encontraria algum amigo por lá? Bem, Gabriel tinha ido à feira, comido uma maçã caramelada e um pirulito puxa-puxa, depois brincara com um menino e se divertira um bocado andando no carrossel e descendo em um tobogã em espiral. Este tinha sido um dos melhores dias daquele verão, lembrou-se. Infelizmente, acontecimentos assim eram muito raros. O tio taciturno se tornara cada vez mais distante com o passar dos anos e preferia passar muito tempo fora. Quase sempre sozinho quando vinha para casa, conceitos como herança e família passaram a ter cada vez menos importância para o sobrinho. As outras férias de verão em que Gabriel tinha realmente se divertido foi logo depois de concluir o primeiro ano na universidade, onde tinha conhecido Sean. Lembrar-se do melhor amigo inevitavelmente trouxe novo dilúvio de recordações sentidas de Lara e de seu rosto abatido quando ele se despediu friamente dela no aeroporto. Nunca enfrentara uma situação tão difícil, e desde então não passara um único dia ou noite sem ser consumido pelo arrependimento. Fingir que não se importava com seus pensamentos tinha sido uma maneira cruel de terminar o breve relacionamento. Aquela tinha sido a maior representação de sua vida. A verdade é que ele se importava e muito. Simplesmente não tinha sido capaz de lidar com o amor e a afeição efusivos recebidos de Lara. Tinha sido uma experiência completamente diferente ter alguém que o amasse e quisesse ficar ao seu lado, não porque ele podia prover bens materiais, mas por gostar do homem que se escondia por trás da fachada atrás da qual Gabriel se escondera durante todos aqueles anos. O verdadeiro Gabriel Devenish.


Mas por que deveria deixar Lara desperdiçar seu amor? Mais cedo ou mais tarde descobriria que ele não a merecia. No futuro, quando se casasse com um homem decente, ela lhe seria grata por ele ter terminado. Sentindo uma surpreendente sensação de desalento e desespero, deitou-se na cama com as mãos atrás da cabeça. O advogado do tio o aguardava na sala de estar no andar de baixo, à espera da resposta sobre o que pretendia fazer com a casa. Lembrando-se de que também tinha prometido a um amigo, dono de uma corretora de imóveis, que telefonaria para discutir o potencial valor da casa, Gabriel respirou fundo e fechou os olhos.


CAPÍTULO 11

LARA NÃO conseguia compreender o que acontecia com ela. É verdade, enfrentara instantes difíceis, perdera primeiro o irmão, Sean, e depois Gabriel. Mas esses acontecimentos desoladores bastavam para deixá-la enjoada e constantemente tonta como acontecia há vários dias? Talvez devesse consultar um médico. Não, tinha certeza de que em breve tudo passaria e, então, acabava adiando a consulta. Em vez disso, concentrou-se no trabalho e passou até a fazer hora extra para esquecer o que a incomodava. Além do mais, não era a única a perder um ente amado ou ter o coração partido. Deveria tentar ser mais corajosa. Devia aceitar a realidade, viver cada dia, um atrás do outro, e tentar ver a vida de forma mais otimista. Então, certa manhã, quando se arrumava para o trabalho, apanhou a bolsa para pegar a cartela de pílulas anticoncepcionais. Logo se deu conta de ter pegado a cartela do mês anterior e não do mês corrente. Prestes a jogá-la na cesta de lixo, resolveu verificar a cartela. Nas primeiras fileiras havia um comprimido. Como isso tinha acontecido? E o pior, como não tinha percebido antes? O coração quase parou ao calcular a semana em que deixara de tomar a pílula. Sem a menor sombra de dúvida tinha sido durante a semana que passara com Gabriel em Nova York. Seis semanas tinham transcorrido desde então. Seis semanas sem sinal da menstruação. Lara responsabilizara a montanharussa emocional das últimas semanas pelo atraso, repetindo a si mesma que tudo se resolveria tão logo suas emoções voltassem ao normal. Não começara a tomar pílulas para ajudar a regular seus períodos que tendiam a ser irregulares? Então não havia motivo para o alarme por ter esquecido de tomar a pílula um único dia. Contudo, seu instinto dizia que talvez houvesse motivos para se preocupar. Nervosa, passou a mão no cabelo despenteado e, ainda de pijama, sentou-se na cama, apavorada ao se dar conta do que tinha acontecido. Não tinha lido que não se podia esquecer nem um único dia de tomar o contraceptivo oral? Se esquecesse um dia corria-se o risco de acontecer o inevitável. De repente, ficou claro o motivo dos enjoos, das tonteiras e do atraso na menstruação. Estava grávida. Esperava um filho de Gabriel Devenish! Estranho, mas de súbito toda a preocupação com seu estado de saúde dissipou-se como pedrinhas de gelo sob o sol. Precisaria fazer um teste para ter certeza absoluta, é claro... Encostando a palma da mão


na face, sentiu a pele esquentar. Uma sensação de alegria incontrolável a invadiu e percorreu apressada sua corrente sanguínea como oxigênio. O como ou o porquê de ter esquecido de tomar uma das pílulas já não importava. Talvez tivesse inconscientemente desejado esse filho. De qualquer maneira, Gabriel não entrara em contato quando “tinha posto a cabeça no lugar”, como havia prometido. Sequer a avisara quando e se retornaria à Inglaterra para resolver a questão referente à casa herdada do tio. Por mais triste que estivesse com sua ausência, Lara não podia mais viver a vida lamentando a perda do amado. Deixara, tanto na mente quanto no coração, uma porta aberta para ele voltar para ela – era evidente. Mas ele não tinha voltado e, àquela altura, não parecia provável que fosse mudar de ideia. Bem, ela teria o filho ou filha para cuidar e isso acabaria um dia apaziguando a dor de ter sido abandonada. Pelo menos assim esperava. Mas, independentemente do que pudesse acontecer, de uma coisa tinha certeza: de que pretendia ser a mãe mais amorosa e dedicada do mundo. Podia não ser rica, mas a criança seria o recipiente de outras riquezas muito mais importantes: amor e devoção. Seu filho podia não ter um pai presente, mas o amor da mãe compensaria qualquer ausência. GABRIEL TINHA passado a manhã com o arquiteto discutindo as obras no solar. As antigas e refinadas arcadas com plantações de laranjas estavam sendo reformadas, bem como os quartos e ele também tinha conversado com um dos mais importantes paisagistas britânicos para embelezar ainda mais os jardins da propriedade. No dia em que o advogado visitara a casa para ter uma reunião com Gabriel e este definir o que pretendia, Gabriel tomara a surpreendente decisão de aceitar os termos da cláusula do testamento e morar ali pelos seis meses estipulados de modo a herdar a casa. Logo após a reunião, Gabriel telefonou para o escritório em Nova York comunicando que tiraria um ano sabático para decidir o que pretendia fazer no futuro. A decisão de tirar um ano de folga surpreendeu os donos da empresa, que logo ofereceram uma miríade de benefícios financeiros e sedutores incentivos, tais como uma casa nos Hamptons, na tentativa de fazê-lo mudar de ideia. Gabriel tinha agradecido a oferta, mas manteve-se firme em sua decisão. O mais surpreendente é que, ao desligar, sentiu como se um grande peso lhe tivesse sido retirado dos ombros. Até aquele momento catártico ele não tinha, de fato, tomado consciência do quanto seu trabalho e sua ambição visando sempre mais sucesso, mais dinheiro e mais poder tinham dominado sua vida. Com todo o tempo absorvido na profissão, não lhe sobrava espaço para mais nada. Em definitivo, não para um relacionamento afetuoso e sério com o qual secretamente havia sonhado, apesar do medo de não ser capaz de levar adiante um compromisso se um dia encontrasse a mulher de seus sonhos. Durante as últimas semanas, desde seu retorno à casa de sua infância, e desde que lera a carta do tio, em especial a parte em que o tio expressara sua esperança de que o sobrinho voltasse a viver no solar e ali criasse os filhos, uma nova esperança e otimismo em relação ao futuro tomavam conta de seu ser. Um futuro bem diferente do que sempre visualizara. O fato de ter começado a se apaixonar pela casa tinha sido um fator determinante. Pouco a pouco a tristeza da infância e o passado atormentado tinham começado a perder importância e ele começava a curar as feridas.


Certa tarde, enquanto examinava um dos maiores quartos da casa, que a governanta estava convencida de ter pertencido à mãe dele, descobriu um porta-retratos com uma foto, escondido dentro de uma escrivaninha. Era uma foto de sua mãe, Angela, com ele ainda bebê no colo, o que comprovava a teoria da governanta de que aquele quarto devia ter sido o da mãe. Angela, sem sombra de dúvida, tinha sido uma mulher linda, com cabelo escuro sedoso e olhos azuis cheios de vida, mas não foi sua beleza que lhe atraiu a atenção. O rosto sorridente irradiava afeto e amor em iguais medidas enquanto apertava o filho no coração. Como devia ter odiado estar doente e incapacitada de cuidar dele, pensou. A ideia o deixou chocado. Até agora, Angela Devenish não passava de uma figura fantasmagórica, pois ele sempre tinha deixado prevalecer seu lado racional. Era como se Angela nunca tivesse existido. Agora sua vida começava a fasciná-lo, a partir do instante em que tinha visto como ela era. Contemplou o retrato por muito tempo. Chegou a levá-lo para o quarto e o colocou na mesinha de cabeceira para poder olhar a mãe todos os dias ao acordar. Não obstante ter começado a fazer progressos, no sentido de ver a mãe sob uma luz diferente e curar as feridas do passado, um rosto sobretudo impunha-se em sua mente e ele queria voltar a vê-lo. E este rosto era o de Lara. A única razão que o impedira de ir visitá-la ao retornar à Inglaterra tinha sido o modo deselegante e cruel com que se comportara ao se despedirem em Nova York. Também não conseguia esquecer a história de como ele a rejeitara na festa de Sean, quando Lara tinha apenas 16 anos. Ela não precisara explicar com todas as palavras o quanto tinha ficado magoada. Estava escrito em seu rosto. Sinceramente, não poderia culpá-la se ela o mandasse para o inferno da próxima vez que se encontrassem. Mas alimentava a esperança de que isso não acontecesse. Até ter tomado a decisão de viver no solar da família por seis meses, de modo a poder colocar as mãos na herança, não com o objetivo de vender a propriedade depois, mas para transformá-la em seu lar, não sabia como tentar uma aproximação. Só sabia que queria mostrar a Lara que podia ser um homem melhor, um homem realmente bom, um homem em quem ela pudesse confiar. E, para tanto, teria de apresentar provas de que pretendia ficar no país e ali construir sua vida. Se Lara concordasse – e neste “se” residia a grande dúvida –, ela seria um elemento absolutamente vital, crucial, para ajudar Gabriel a criar a nova vida à qual almejava. Uma vida muito mais feliz e satisfatória do que a que experimentara até então. Três meses depois... Lara pressionou a palma da mão na base da espinha e a massageou. De pé desde cedo, estava tão cansada que parecia prestes a desabar. Por que seu cansaço e estresse sempre se manifestavam ultimamente nas costas?, inquiriu-se. Sobressaltada, lembrou-se de que estava grávida. Ainda se surpreendia sempre que pensava nisso, embora o médico já tivesse confirmado a suspeita e não houvesse mais qualquer dúvida. Parecia ainda viver um sonho inacreditável. Com um suspiro satisfeito, Lara retomou sua rotina usual de organizar as coisas no trabalho para terminar o expediente. Agora só pensava em um relaxante banho de espuma na banheira com bolhas


perfumadas. Isso ajudaria a aliviar a dor nas costas. – Tem planos para hoje à noite? – perguntou Marisa, a jovem colega de trabalho, enquanto ela desligava o computador. – Tomar o mais demorado e relaxante banho da história numa banheira com água morna e cheia de espuma. – Parece tentador. – Marisa sorriu. – E você? Tem planos? – Vou comer uma pizza com Mark, meu namorado. – Vocês voltaram? Achei que depois da discussão que tiveram você tivesse decidido pôr um ponto final no namoro. As bochechas rechonchudas de Marisa coraram. – Às vezes damos um tempo, mas logo fazemos as pazes. – Ela sorriu. – Ele é um cara legal. Quando brigamos sinto muitas saudades dele. Ocasionalmente tenho a sensação de que falta uma parte de mim. Entende o que eu digo? Lara entendia perfeitamente o que a jovem dizia. O comentário da colega de trabalho a pegou desprevenida. Os olhos ficaram marejados de lágrimas. Pensou em Gabriel e nos beijos e carícias apaixonados que não conseguia esquecer. Aquelas recordações se tornavam ainda mais dolorosas agora que carregava um filho dele no ventre. Será que ele pensava por vezes nela, curioso se ela passava bem? Será que sentia saudades? Não tinha sido simples nem fácil retornar à rotina previsível que levava antes de Gabriel ter ressurgido em sua vida e acendido esperanças e sonhos com uma chama violenta que jamais apagaria. Até o presente, este tinha sido o maior desafio de sua vida. Lara se perguntava como Gabriel reagiria se soubesse disso. Tinha vontade de morrer só de pensar que ele pudesse esquecer o que viveram juntos. – Lara? – Aproximando-se, Marisa pareceu alarmada ao constatar que a amiga chorava. – O que aconteceu, meu amor? Está passando mal? Quer que eu pegue um copo de água? Ela de repente se comportava como alguém bem mais madura, e a preocupação da jovem fez com que Lara chorasse ainda mais. Passando os dedos no líquido que escorria pelo seu rosto e molhava sua face, ela balançou a cabeça e obrigou-se a sorrir. – Não, vou ficar bem, obrigada. Só preciso ir embora daqui, chegar em casa e tomar um banho. – Talvez isso a ajude a relaxar. Um banho quente e demorado é um santo remédio para mim também. Tão bom quanto uma xícara de chá, não é? Ele sempre ajuda a nos sentirmos melhor. O sábio comentário de Marisa fez com que Lara tivesse vontade de abraçá-la, e cedeu ao impulso. A jovem corou de alegria. – Você é muito madura para a sua idade, sabia? – Então, afastando-se, olhou as cadeiras e mesas vazias que no dia seguinte estariam ocupadas por alunos dedicados e outros nem tão dedicados. De uma coisa tinha certeza: a vida seguia em frente, apesar do que acontecia em sua vida pessoal. Pegando o cardigã de lá vermelho pendurado nas costas da cadeira, ela o vestiu apressada. Afastou o cabelo farto que tinham se soltado do coque e caído em suas costas e decidiu deixá-lo solto. Ao olhar distraída as portas de vidro da saída, franziu o cenho. Um homem usando um casaco de chuva clássico por cima de um suéter e jeans empurrava as portas. Entrando, ele relanceou os olhos pelo ambiente antes de passar os dedos no cabelo e se aproximar. Mesmo que não tivesse visto o rosto do homem, Lara reconheceria aquele porte e corpo musculoso em


qualquer lugar. Olhando descrente para ela, achou difícil pensar, quanto mais falar. Na verdade, de repente achou que fosse desmaiar. – Quem pode ser esse cara? – murmurou Marisa ao seu lado. – Não sabe que já fechamos? – O nome dele é Gabriel Devenish. Ainda em estado de choque, Lara pronunciou a frase num sussurro. Mas era como se tivesse de repetir o nome em voz alta para acreditar que ele estivesse ali, que não fosse apenas fruto de sua imaginação, ou a visita de um fantasma sedutor saído de um de seus sonhos diários. Quando ele chegou perto da bancada e fixou os olhos azuis e hipnotizantes nela, um poço de mágoa e fúria reprimida, resultado do tratamento pouco cavalheiro dele, subiu e a fez contrair os ombros defensivamente. Erguendo o queixo, encarou Gabriel e anunciou: – Já fechamos. Se está precisando de ajuda, lamento informar que vai precisar voltar amanhã. Os bonitos lábios abriram um sorriso divertido – um sorriso que, imprevisivelmente, deixou o coração de Lara em polvorosa e fez com que suas entranhas revirassem. – Lamento que o que procuro não possa esperar até amanhã – anunciou, e a voz rouca e os olhos penetrantes a aprisionaram sem piedade, trancaram-na e jogaram fora a chave. Por um longo momento ela se sentiu numa espécie de transe. Então o som de Marisa pigarreando atrás dela e pousando a mão na manga de seu cardigã a fez voltar-se para saber o que estava errado. Nada faltava. Os olhos da jovem, vivos de curiosidade e demonstrando um pouco de encantamento, brilharam quando ela declarou: – Sinto muito, Lara, mas preciso ir embora. Mark vai me encontrar no estacionamento. Cuide-se, está bem? Vejo você amanhã. – Boa pizza – sussurrou de modo automático. Quando as portas de vidro se fecharam atrás da jovem loura, o coração parecia querer sair pela boca ao se dar conta de que ela e Gabriel estavam a sós. Foi tomada pelo impulso de fazer alguma coisa, qualquer coisa, para acalmar os nervos, todavia o rosto bonito de Gabriel parecia tão sério que ela não conseguiu desviar o olhar. O que ele queria dizer para ela? Seja lá o que fosse, estava determinada a falar primeiro. – Que diabos veio fazer aqui, e como descobriu onde me encontrar? Não me lembro de ter dado o endereço da faculdade. – Fui à casa dos seus pais. Sua mãe me revelou onde podia encontrá-la. – Quando foi isso? – Hoje de manhã. A mão de Lara automaticamente repousou na barriga. Ela a acariciou lentamente sob a túnica cinza que usava por baixo do cardigã até se dar conta de que atraía a atenção para o único lugar que não queria que os olhos de Gabriel pousassem. Teria a mãe contado sobre a gravidez? Embora tivesse pulado de alegria ao saber que Lara teria um filho e declarado que suas preces tinham sido ouvidas e que a criança era uma bênção, Lara tinha certeza de que a mãe não contaria nada a ele sem primeiro pedir sua autorização. No entanto, sentia um frio no estômago ao pensar na reação de Gabriel ao ouvir a novidade. – Por que foi visitá-los? Para buscar as fotografias de Sean? E quando chegou à Inglaterra? É outra visita relâmpago, Gabriel?


Vendo as mãos finas de Lara agarradas à bancada, como se disso dependesse sua vida, e percebendo a decepção em sua voz, Gabriel ficou aflito. Odiava pensar que sua presença a incomodasse, embora soubesse que ela tinha todos os motivos do mundo para estar aborrecida. A necessidade de livrá-la daquele sofrimento se tornou imperativa. – Explico tudo num segundo. Confie em mim, não há motivos para se preocupar. Tudo que desejo neste instante é olhar para você. A vontade de tomá-la nos braços e beijá-la, afastar toda mágoa, todos os momentos de desespero e tristeza que havia lhe causado era imensa, mas ele se obrigou a ter paciência. Não era a ocasião apropriada para voltar à vida de Lara e satisfazer seus desejos, como se isso fosse um direito divino. O antigo Gabriel agiria assim. O homem egoísta e egocêntrico em excesso, incapaz de reconhecer como era abençoado por Lara ter lhe dado a virgindade e confessado que o amava, que sempre o amara. – Você está com a aparência cansada. Suas olheiras estão profundas e o rosto pálido demais. Não tem se cuidado? Tem trabalhado demais? Gabriel não tinha a intenção de criticá-la, mas percebeu de imediato que Lara logo ficou na defensiva – e com raiva, também. Sua reação confirmou que ele tinha razão. – E desde quando você se importa com o que ando fazendo? Não se deu ao trabalho de me telefonar depois que fui embora de Nova York e tampouco teve a decência de me avisar que tinha voltado à Inglaterra! Cansei de me preocupar com você, Gabriel. Estou falando sério. Acho que chegou a hora de focar minha atenção em mim, em minhas necessidades. Com os olhos cabisbaixos, ela se inclinou sobre a mesa e apagou o abajur. Abriu uma gaveta e apanhou a bolsa a tiracolo. – Estou indo para casa. Tive um dia puxado. – Precisamos conversar, Lara. Certamente, você acha que não mereço, mas quero uma oportunidade para fazer com que mude de opinião a meu respeito. Você veio de carro? – Vim. – Então eu sigo seu carro. Ela não respondeu. Com a cabeça erguida, apertando a bolsa na frente do corpo, começou a andar na direção da saída. Embora não tivesse discutido ou recusado sua sugestão, Gabriel ficou magoado por não merecer sequer um olhar. Em vez disso, ela pendurou a bolsa no ombro e puxou as laterais do comprido cardigã de lã como se sentisse frio. Quase como se precisasse se proteger. Então saiu do prédio e dirigiu-se ao estacionamento. Felizmente o trajeto até o apartamento de Lara era curto. Receoso de que se demorasse muito a expor o que sentia, ela teria tempo para remoer os eventos passados e decidir que ficaria melhor sem ele, ele não controlava a ansiedade. Há pouco ela tinha se mostrado determinada a considerar o caso deles encerrado. Mas então ele se lembrou das vezes em que Lara demonstrara abertamente o quanto gostava e se preocupava com ele e a esperança voltou a renascer. Parado ao seu lado, enquanto ela enfiava a chave na fechadura e abria a porta do apartamento no prédio em estilo vitoriano, ele permaneceu em silêncio enquanto Lara, relutante, o convidou a entrar. – Vamos conversar na sala de estar – declarou, com os olhos castanhos o fitando de relance antes de se desviarem. – Quanto antes terminarmos essa conversa melhor. Apesar do teto alto, a sala em que Gabriel entrou era bastante acolhedora. O local refletia os toques pessoais e preferências da mulher que morava ali. Desde a pequena coleção de retratos da família sobre


a estante de pinho e a lareira até as várias estantes de madeira literalmente entupidas de livros, eram claras as prioridades de sua ocupante. Um sofá escuro de aparência confortável com várias almofadas coloridas e uma velha poltrona Chesterfield diante de uma janela sem cortinas direcionada para o jardim. – Pode se sentar. – O tom nada tinha de convidativo. Lara atirou a bolsa a tiracolo no sofá e com os braços cruzados indicou a poltrona com a cabeça. – As damas primeiro – murmurou. Gabriel esperou até a relutante anfitriã instalar-se no sofá e então, tirando a capa de chuva, dobrou-a nas costas da velha poltrona e se sentou. – Você garantiu que ia explicar tudo. O rosto bonito parecia confuso quando se inclinou para examiná-lo. Suspirando, Gabriel passou os dedos no cabelo escuro e farto e sorriu. – E vou. O que queria dizer é que decidi que, afinal, o que eu queria não estava em Nova York, mas aqui. – Está se referindo à casa de sua família? Então resolveu não vendê-la? – Não se trata apenas do solar, Lara. Embora, em resposta à sua pergunta, deva dizer que não pretendo vender a casa. Planejo morar lá. Na verdade, faz três meses que moro lá, tentando fazer as pazes com o passado e transformar o lugar em um lar, um lar de verdade. – É verdade, Gabriel? Puxa, isso é maravilhoso. A surpresa e o prazer que cintilaram nos lindos olhos escuros deixaram Gabriel emocionado. Mas ele ainda não terminara de contar todos os seus planos e grande parte deles dependia da resposta de Lara à sua próxima pergunta. – A verdade, Lara... – continuou. – A verdade é que nunca será um lar de fato até você concordar em se casar comigo e morarmos lá. Você concorda?


CAPÍTULO 12

NÃO FOI o pedido de casamento mais romântico do mundo, mas quando o impacto da pergunta de Gabriel a atingiu, Lara sentiu uma súbita e urgente necessidade de vomitar. Levantando-se apressada, pediu desculpas com o olhar, saiu correndo e entrou no banheiro da suíte. Uma vez dentro do banheiro, agachou-se perto do vaso sanitário e vomitou muito, sem sequer se preocupar ao ouvir os passos de Gabriel. – Querida, o que aconteceu? – indagou com a voz preocupada. Parou atrás dela e segurou seu cabelo atrás da nuca para que não caíssem em seu rosto. Quando ela terminou, ele abriu a torneira da pia e umedeceu uma toalha. Como se ela fosse uma menininha, ele enxugou sua boca, dando pancadinhas em seus lábios e então a ajudou a levantar-se. – Espere aqui – avisou Gabriel. O cheiro familiar e gostoso da colônia penetrou em suas narinas e a deixou ainda mais fraca. Ele se afastou e retornou logo depois com um copo de água gelada. – Tome tudo – recomendou. Paciente, esperou que ela terminasse. Lara percebeu o quanto ele parecia preocupado. Quando ela voltou a erguer o rosto, Gabriel pegou o copo de sua mão e o colocou na estante acima da pia. Então, ele a olhou profundamente. Muitas vezes antes ela tinha sido objeto daquele intenso e direto exame, mas nunca de modo tão intenso. Para seu espanto, o que percebeu nas profundezas daquele olhar era um misto de raiva, como se prenunciasse uma tempestade, e uma grande dose de angústia e dor. – O que está acontecendo, Lara? Melhor me contar. – Ainda não adivinhou? Não conhece os sinais? Estupefata diante da situação, ela esbarrou em seu ombro a caminho do quarto. Uma vez no quarto, atirou-se na cama cobrindo o rosto com as mãos. Inacreditável! Gabriel tinha acabado de pedi-la em casamento. Mas iria rejeitá-la ao saber que estava grávida? A ideia de ser de novo rejeitada lhe era insuportável. E, de repente, sem que se desse conta, as lágrimas molhavam as palmas de suas mãos. De repente, a porta se abriu e Gabriel entrou. Parou perto da cama, uma veia pulsando no pescoço, a expressão demonstrando total descrença e mágoa. – Você está grávida. Era uma constatação, não uma pergunta. Ao erguer a cabeça, Lara encontrou o olhar acusador. O coração disparou, a garganta parecia cheia de areia.


– Sim, isso mesmo, estou grávida. – Então, assim que nos separamos você saiu com outro cara? Achei que conhecia você, Lara, mas agora me dou conta de que não faço a menor ideia de quem seja. Agindo como alguém desesperado, Gabriel começou a recuar em direção à porta, como se já tivesse tomado a decisão diante de sua admissão. Entretanto, mudou de ideia e bradou furioso: – Pelo que vejo, não perdeu tempo. Não sentiu a menor saudade de mim. E pensar que eu acreditei quando confessou que era virgem da primeira vez que fizemos amor. Fui um grandissíssimo idiota em acreditar em história tão absurda! Com a mão na maçaneta, olhou Lara e saiu apressado do quarto. Um medo enregelante tomou conta de seu corpo ao se dar conta de que ele ia embora. Lara pulou da cama e correu atrás dele. – Gabriel! Chegou à sala de estar no momento em que ele recolhia a capa de chuva das costas da poltrona. Ela avançou com a intenção de agarrá-lo pelo pulso e o impedir de sair. E então foi sua vez de demonstrar toda a fúria. – Você é um idiota. Um imbecil, um completo idiota! – Tão logo despejou as palavras de acusação, as lágrimas quentes escorreram pelo seu rosto. Confuso, Gabriel encarou Lara, sem compreender o significado e a razão de tanta tristeza. – Acha mesmo que eu dormiria com outro homem quando eu amo você, sempre amei e sempre amarei? Os lábios de Gabriel curvaram-se com desdém. – Mas você acabou de admitir que está grávida. – Ele tentou se desvencilhar de sua mão. – Ou vai querer me convencer de que essa criança é fruto do bendito Espírito Santo? Lara respirou fundo tentando recuperar o equilíbrio emocional. – Antes que continue, eu preciso dizer... preciso dizer que é verdade que eu era virgem quando fizemos amor. Esperei todos estes anos para dar minha virgindade ao homem que eu amasse de verdade, pois isso era importante para mim. Este homem sempre foi você, Gabriel. – Fez uma pausa e respirou fundo mais uma vez buscando não vacilar e viu o misto de esperança e incerteza que atravessou o rosto de Gabriel. – Esta criança é sua, Gabriel – concluiu. – O quê? – Faça o favor de me ouvir, entendeu? Engravidei porque esqueci de tomar uma das pílulas na semana que passamos juntos em Nova York. Não fiz de propósito. Jamais tentaria armar uma cilada para você. Mas andava com a cabeça nas nuvens todo o tempo que passei com você. Eu parecia viver um sonho. Só descobri que tinha deixado de tomar uma das pílulas poucas semanas depois de voltar para casa. Eu andava sentindo náuseas e tonturas, mas atribuí o mal-estar ao fato de estar chateada, morrendo de saudades, e porque você não tinha entrado em contato comigo. Eu nem sabia se voltaríamos a nos ver. – O bebê é meu? – A capa de chuva que segurava escorregou de sua mão e caiu no chão. Erguendo o braço na tentativa de enxugar as lágrimas, Lara assentiu. – Juro que é seu. Posso mostrar a cartela com a pílula que esqueci de tomar. Se quiser, pode fazer o cálculo e verificar que isso ocorreu na semana que passamos juntos em Nova York. Mas se continua duvidando de minha palavra, não sei mais como convencê-lo. Devo ser uma tola por acreditar que a


minha palavra e a devoção que sempre demonstrei fossem suficientes. Eu não minto, Gabriel. Esqueceu que eu já disse isso uma vez a você? O homem parado à sua frente parecia definitivamente atônito. – Por que não me contou que estava grávida assim que descobriu? Eu teria voltado imediatamente. Dando de ombros, Lara abriu um sorriso hesitante. – Não quis pressionar você. Não queria que se sentisse obrigado a nada. Por isso não avisei. E, sobretudo, não quis entrar em contato por causa do modo como você me tratou quando nos despedimos no aeroporto. Você parecia tão zangado, Gabriel. Zangado e distante. Parecia ter algum ressentimento em relação a mim. Eu sabia que você vivia uma fase tumultuada em consequência da carta de seu tio e do que ele tinha contado sobre sua mãe. Não quis ser mais um motivo de preocupação. Gabriel balançava a cabeça, como se não acreditasse no que ouvia. – Você realmente é inacreditável, sabia? Você tinha todo o direito do mundo de exigir que eu voltasse e assumisse minha responsabilidade tanto em relação ao bebê quanto em relação a você. Quando vai aprender que você é quem é importante, Lara, e não eu? – Não diga isso. Você também é muito importante para mim, Gabriel. – A declaração foi acompanhada de um leve franzir de testa denotando surpresa. – Mas por que você não mencionou que tinha decidido voltar e morar no solar? Achava que eu ia supor de imediato que isso significava que retomaríamos nosso “caso” de onde tínhamos parado quando você havia deixado bem claro que tinha dúvidas se devíamos continuar? – Você é uma mulher completamente louca – murmurou. Segurando os braços finos, ele a puxou contra o peito. O coração de Lara desembestou. Quando ele afastou uma mecha que tinha tapado a lateral de seu rosto, ela viu o sorriso tímido, cândido e desprotegido, e isso o tornou ainda mais atraente aos olhos de Lara. Aquele sorriso, capaz de destruir o coração de qualquer mulher, sugeria que ele havia tomado a decisão de finalmente revelar o verdadeiro Gabriel Devenish. Revelar o homem honrado e decente que se escondia por trás da fachada do executivo de coração de ferro, do financista admirado por seu profissionalismo. Por fim, ele decidira revelar o homem que Lara sempre soube que ele era. – Não queria contar que voltaria a morar no solar até passar um tempo sozinho, refletir sobre as feridas do meu passado e tentar cicatrizá-las. Lara, você não merecia viver com um homem abalado, perdido, um homem que só amava a si mesmo. – No seu rosto abriu-se um esgar de sorriso. – Nem eu estava convencido de que poderia atingir meu objetivo. Sempre depositei todas as minhas energias no trabalho, e minha vontade implacável de ser o melhor no que fazia era apenas consequência de minha necessidade de ser admirado e elogiado pelos meus colegas e concorrentes. Eu buscava a confirmação de ser merecedor de sucesso e admiração. Não se tratava apenas de dinheiro. A ambição passou a ser a coisa mais importante da minha vida. Uma vida vazia e sem sentido, no final das contas. “Além de ser bom no trabalho, eu não me via como alguém bom em nenhuma outra esfera. E não tinha relacionamentos sérios porque não me permitia ter qualquer intimidade emocional com as mulheres, receoso de ser vítima de uma traição, qualquer uma. Esse é outro dos motivos pelos quais eu concentrava todos os meus esforços no trabalho. “E quanto às dúvidas, posso dizer que as minhas únicas dúvidas eram se eu era bom o bastante para merecer o amor de um anjo como você – continuou em tom rouco. – Eu sempre tive a intenção de


voltar para você, Lara. Será que fui muito pretencioso por imaginar que você quisesse passar o resto da vida com um homem igual a mim? Do mesmo jeito como eu quero passar minha vida com você?” Lara ergueu o braço e pousou a palma da mão com carinho no rosto com a barba por fazer. – Não – falei com toda sinceridade. – Você não estava sendo pretencioso demais. Não existe nada que eu deseje tanto no mundo senão passar o resto da minha vida com você. Além disso... ninguém ia me querer se eu não pudesse ficar com você, Gabriel. Sem você, eu me sinto uma concha vazia. Não sabe que arruinou qualquer chance de eu ficar com outro homem porque meu corpo e minha alma pertencem a você? Um olhar profundo e atônito surgiu nos olhos que a fitaram. As mãos desceram até seus quadris e a puxaram com força para que seus corpos ficassem ainda mais colados. – E agora você vai ter um filho meu. Vou ser pai. Nós dois vamos ser pais, vamos ter uma família. Não posso deixar de me perguntar se mereço tanta felicidade. – Então não se importa de termos um bebê para cuidar logo no início de nosso relacionamento? Não dá para fingir que não será um desafio. – Vamos enfrentar qualquer tempestade que possa desabar sobre nós, querida – tranquilizou-a com afeto. – Somos capazes de enfrentar qualquer desafio. E sabe por quê? Porque juntos somos fortes e nosso amor não permitirá que os desafios da vida nos separem. Pense no que já conseguimos superar. Esse bebê vai nos aproximar ainda mais, espere e verá. O rosto de Gabriel aproximou-se do de Lara, com gentileza, porém com firmeza, ela o afastou. – Primeiro preciso ir ao banheiro e lavar a boca antes de você me beijar – declarou. – Depois eu deixo você me beijar o quanto quiser. Os lábios carnudos de Gabriel curvaram-se num sorriso maroto. – Isso é o mesmo que me perguntar se posso respirar novamente. Se demorar mais de dez segundos, juro que vou atrás de você. Estou avisando... se não estiver pronta à minha espera, o preço a pagar será muito alto. Ela sorriu e caminhou na direção da porta. Ele acrescentou então: – E até agora você não respondeu à minha pergunta. Fingindo não entender, Lara se deteve e se voltou para examiná-lo. – Que pergunta foi essa? – Você vai se casar comigo? Pare de me torturar, mulher, e me dê logo uma resposta. Tudo tem um limite. A expressão de Lara se suavizou e ela colocou a mão no coração e com uma graciosa reverência indicou que seu coração era dele. – Claro que vou me casar com você, Gabriel. Este sempre foi meu sonho. Na verdade, desde o dia em que Sean trouxe você à nossa casa da primeira vez. Acho que ele vai ficar muito feliz porque as pessoas que ele mais ama ficarão juntas, não acha? Quando Lara deu as costas e saiu do quarto, Gabriel por fim se deu conta da imensa capacidade de amar daquela mulher. Sean também possuía essa capacidade. Balançando a cabeça, ele nem sequer tentou conter as lágrimas que brotaram em seus olhos. SUA CABEÇA girava. A mulher amada tinha concordado em ser sua esposa e estava grávida de um filho seu. Tudo o que Gabriel julgava lhe ser negado se transformava em realidade.


Tinha plena consciência de que seus futuros objetivos nada tinham a ver com seu passado de ser “um destrinchador e solucionador” no mercado financeiro de Wall Street, mas visavam ser marido e pai amoroso, cuidar para que seus filhos crescessem cercados de afeto e atenção, em um ambiente feliz, com pai e mãe que os adorassem e se mostrassem dispostos a qualquer sacrifício para ajudá-los a ter uma vida maravilhosa. E viveriam todos juntos no belo solar que Gabriel havia herdado da família. A esperança sincera do tio Richard se transformaria em realidade. Os arquitetos e decoradores contratados ajudavam Gabriel a transformar a casa antiga instalando todos os recursos do século XXI, sem contudo alterar a histórica construção do período regencial, mantendo sua beleza e graciosidade intactas, e ele já estava satisfeito com alguns resultados obtidos. Lara também concordava com as obras e parecia feliz. O quarto que lhes proporcionara maior prazer era o maravilhoso berçário, embora Lara já insistisse que o bebê ficaria no quarto do casal até ela se sentir confiante de que a criança estava pronta para dormir sozinha no seu quarto. De repente, consciente de que o pequeno grupo às suas costas no jardim de inverno com teto de vidro mergulhara num silêncio reverente, e ciente de que os pais de Lara estavam acomodados na primeira fileira, ele trouxe outra vez o fluxo de seus pensamentos para o presente e para a linda e radiante mulher ao seu lado. Lara estava absolutamente deslumbrante no vestido de noiva simples, todavia elegante. Longo, de cetim, na cor lavanda. Sua mãe, Peggy, havia ajudado a filha a escolher o vestido. Tinha sido a escolha perfeita para ressaltar a beleza etérea de Lara. O vestido tomara que caia, com recorte em formato de coração e faixa bordada de pérolas abaixo do busto, descia esvoaçante sobre a cintura que cinco meses de gravidez tinham visivelmente aumentado, mas não deformado. Ele apertou com mais força e possessivamente a mão delicada quando Lara ergueu os olhos escuros cintilantes para ele. Para um homem que se orgulhava de comandar vários banquetes e jantares corporativos com desenvoltura, Gabriel de repente se percebeu desprovido de palavras. Pigarreando e enfeitiçado, ele se inclinou para a noiva, sua futura esposa, e questionou baixinho: – Está preparada? Tem certeza de que não quer mudar de ideia? Ainda está em tempo. Momentaneamente surpresa, Lara piscou, sem reação. Então os lábios macios e rosados abriram-se num sorriso adorável, divertido. – Está falando sério? Não vou pedir desculpas por usar um clichê muito manjado, mas esperei por este instante toda a minha vida. Gabriel deu uma gargalhada e buscou seus lábios num beijo breve, mas ávido, pelo qual, tampouco, pretendia se desculpar. Quando ele voltou a erguer o rosto para a profissional que celebraria a cerimônia e se encontrava diante deles – uma mulher esbelta de cabelo cor de cobre e olhos castanhos sorridentes –, esta abriu um sorriso indulgente e o repreendeu de modo brincalhão. – Sr. Devenish, o senhor deve beijar a noiva quando eu pronunciar que são marido e mulher, não antes! Incapaz de resistir ao comentário, declarou: – Sem ofensas, mas ninguém vai me dizer quando eu posso ou não posso beijar a mulher que amo, a mulher que adoro mais do que a minha própria vida. Atônita, a celebrante manteve o silêncio e respondeu apenas com um sorriso. Então, olhou Gabriel e Lara e interrogou: – Agora podemos dar prosseguimento à cerimônia?


Incapaz de reprimir a tentação de dar a última palavra, Gabriel entrelaçou os dedos nos de Lara e replicou: – Acredite em mim, estou tão ansioso para pôr um ponto final na cerimônia e transformar esta mulher incrível ao meu lado em minha esposa quanto a senhora! Os convidados riram animados ao ouvir tal declaração e, em seguida, respeitosamente aplaudiram. Quanto à Lara, fitou o lindo homem de olhos azuis ao seu lado, usando um impecável smoking azulescuro, e em silêncio fez uma prece de agradecimento por sua imensa sorte. Então a voz do irmão penetrou em sua mente. – Eu sempre disse que corresse atrás de seus sonhos e que, se realmente desejasse alguma coisa na vida, você conseguiria... lembra-se? Engolindo as lágrimas, Lara sussurrou em silêncio: – É verdade, Sean, eu me lembro e você tinha razão. Obrigada.


SEM ESCOLHA Caitlin Crews

O olhar de Nicodemus a atingia em cheio, deixando-a um pouco tonta. E ela estava um pouco bêbada, um pouco fora de controle, como costumava gostar de estar naqueles inúteis anos pósfaculdade. – Ah... – disse ele. – Claro que isso é assunto meu, Mattie . É óbvio que sim. Todos os homens que você permite tocarem na sua pele. Todas as noites que exibe o seu corpo para o resto do mundo. Esse piercing no seu umbigo, que você insiste em deixar à mostra sempre que é fotografada. Essa tatuagem que eu avisei que você não deveria imprimir no seu corpo. Esses malditos cigarros que vivem poluindo suas entranhas. Acredite em mim, tudo isso é assunto meu. Ao falar, ele se afastou do carro e ficou parado bem na frente dela. Nicodemus era um dos poucos homens que ela conhecia que conseguiam superá-la em altura, mesmo que ela estivesse usando algum de seus pares de sapatos altos, e ela não se cansava de repetir para si mesma que odiava o que ele a fazia sentir... esse pânico, essa falta de controle total, essa queimação que irradiava dos seus olhos profundos, sempre fixos nela. Ele parece aguentar qualquer coisa, pensou ela. Todavia, se conseguisse colocar as mãos nela, Mattie estaria perdida. E o que aconteceria quando ele descobrisse a verdade? O que aconteceria quando o fogo da paixão se extinguisse e não restasse nada além da verdade entre eles dois? – Se você for tão esperto quando afirma ser, deveria perceber que eu não ligo para o que você quer nem para o que pensa – declarou ela, com o seu coração batendo cada vez mais forte. Muito forte. – Eu não me preocupo mesmo! E você deveria encontrar alguém que se preocupe. Deve haver uma página na internet repleta de meninas em busca de milionários malvados e grandalhões como você, repletas de homens que elas adorariam poder obedecer. Fazendo isso, você poderia bancar o senhor do castelo em sua mansão. Ele curvou os lábios. Em qualquer outro homem isso poderia demonstrar senso de humor, mas em Nicodemus era uma prova do enorme perigo que ele representava. – Case-se comigo, Mattie – pediu ele. – Não torne as coisas ainda piores para você mesma. – E por quê? – inquiriu ela, sem pensar duas vezes.


– Porque eu quero você – replicou ele, soando como uma imposição sem meias tintas. – E eu sempre consigo o que quero. – Eu prefiro engolir minha própria língua – retorquiu ela, sendo invadida por uma espécie de desespero que a consumia. – Eu prefiro me matar dependurada em um... – Você é uma menina boba – argumentou ele interrompendo-a, fazendo que não com a cabeça e murmurando algo em grego. – Mas você é minha. E então a puxou contra o seu corpo usando apenas uma das mãos, arrancando o cigarro dos seus dedos e beijando sua boca. Ela foi imediatamente invadida por uma onda de medo e desejo. Uma onda soturna. Aquela maldita boca parecia capaz de operar milagres quando estava colada à sua. Ela ficou completamente tocada. Completamente. E ela sentia um calor enorme. Sentia um pânico desmedido. O beijo de Nicodemus era letal. – Eu avisei... – sussurrou ele, sem descolar sua boca dos lábios de Mattie. – Você é minha. Sempre foi e sempre será. Durante quanto tempo planeja negar esse fato inconteste? Mattie ficou olhando para ele, incapaz de pronunciar qualquer palavra, e ele sorriu, ficando o mais próximo do gentil do que ela jamais vira. E tal gesto transformou o seu rosto. De alguma maneira, ele parecia ainda mais perigoso, e ainda assim incrivelmente mais lindo do que nunca.


457 – SEM ESCOLHA – CAITLIN CREWS Nic Stathis sempre desejou Mattie Whitaker. E agora ele a tem exatamente onde sempre quis. Para salvar o império de sua família, Mattie tem de aceitar a proposta de casamento de Nic. Ainda assim, ela se recusa a entregar-se a esse grego implacável. 458 – DESEJO POSSESSIVO – SARA CRAVEN Após a morte de seu padrasto, o destino de Ginny fica nas mãos do ambicioso Andre Duchard. Ele era o homem errado para ela, porém, um beijo avassalador deixa ambos desejando por mais. 459 – SEM DEFESAS – CAITLIN CREWS Para salvar os negócios da família, Zara precisa se casar com o irresistível Chase Whitaker. Ele tem apenas um desejo: vingar-se do pai de Zara. Contudo, não esperava ficar tão cativado pelo charme e inocência de sua esposa.

Últimos lançamentos: 453 – MUNDO DE PAIXÃO – SUSAN STEPHENS 454 – ENTRE O AMOR E A VINGANÇA – CAITLIN CREWS 455– MUNDO DE DESEJO – SUSAN STEPHENS

Próximos lançamentos: 460 – DILEMA DA PAIXÃO – KATE WALKER 461 – SALVA PELA PAIXÃO – JANE PORTER


462 – SEGREDOS DE AMANTE – LYNNE GRAHAM 463 – SALVA PELA SEDUÇÃO – JANE PORTER


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ C916h Cox, Maggie Um homem inesquecível [recurso eletrônico] / Maggie Cox; tradução Marie Olivier. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Harlequin, 2015. recurso digital: il. Tradução de: The man she can’t forget Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-398-1952-2 (recurso eletrônico) 1. Romance inglês. 2. Livros eletrônicos. I. Olivier, Marie. II. Título. 15-24458

CDD: 823 CDU: 821.111-3

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: THE MAN SHE CAN’T FORGET Copyright © 2014 by Maggie Cox Originalmente publicado em 2014 por Mills & Boon Modern Romance Arte-final de capa: Isabelle Paiva Produção do arquivo ePub: Ranna Studio Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171, 4º andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br


Capa Texto de capa Teaser Querida leitora Rosto Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Próximos lançamentos Créditos

Maggie Cox - Um Homem Inesquecível  
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