Page 1

RUÍNAS DO DESEJO THE UNDOING OF DE LUCA

Kate Hewitt

Sofisticação e sensualidade em cenários internacionais. O fim da inocência... A ruína de um playboy... Em teoria, Ellery Dunant seria a última mulher que Larenz de Luca colocaria em sua lista de conquistas. Por outro lado, ela já conhecia tipos como o dele. Parecia não existir nenhuma chance de um conquistador como Larenz se interessar por uma mulher tão comum quanto Ellery... Mas então, por que ele se percebeu fazendo de tudo para conquistá-la? Afinal, deveria ser somente por uma noite... Porém, seria preciso todas as noites de uma vida para que o desejo de Larenz fosse saciado. Será que Ellery era a responsável pela ruína de um homem como ele? Eles desejam o amor de uma mulher... Digitalização: Rita Revisão: Cassia


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.à.r.l. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança ' com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: THE UNDOING OF DE LUCA Copyright © 2010 by Kate Hewitt Originalmente publicado em 2010 por Mills & Boon Modern Romance Arte final de capa: Isabelle Paiva Editoração Eletrônica: ABREUTS SYSTEM Tel.: (55 XX 21) 2220-3654 / 2524-8037 Impressão: RR DONNELLEY Tel.: (55 XX 11)2148-3500 www.rrdonnelley.com.br Distribuição exclusiva para bancas de jornal e revistas de todo o Brasil: Fernando Chinaglia Distribuidora S/A Rua Teodoro da Silva, 907 Grajaú, Rio de Janeiro, RJ — 20563-900 Para solicitar edições antigas, entre em contato com o DISK BANCAS: (55 XX 11) 2195-3186/2195-3185/2195-3182 Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171,4° andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 Correspondência para: Caixa, Postal 8516 Rio de Janeiro, RJ — 20220-971 Aos cuidados de Virgínia Rivera virginia.rrvera@harlequmbooks.com.br

2


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

CAPÍTULO UM

Os olhos dela tinham um surpreendente tom arroxeado, pensou ele. Como uma ferida. — Larenz, você, por acaso, ouviu uma palavra do que eu disse? Relutante, Larenz de Luca afastou o olhar fascinado do rosto da garçonete e voltou á atenção para sua acompanhante. Apesar de seu crescente interesse na jovem encantadora que havia lhes servido a sopa, ele não conseguia entender por que a diretora de seu Departamento de Relações Públicas o havia arrastado até aquele solar. O lugar estava caindo aos pedaços. Amelie Weyton tamborilou suas unhas vermelhas sobre a mesa antiga que parecia poder acomodar ao menos vinte pessoas, embora, naquele momento, só eles estivessem ali. — Acho este lugar perfeito. O olhar de Larenz vagou novamente em direção à garçonete. — Concordo plenamente — murmurou ele. Depois olhou para a sopa à frente, um creme de nabos delicioso. Amelie tamborilou suas unhas novamente e Larenz notou um minúsculo buraco na superfície brilhante da mesa. A garçonete o notou com o canto dos olhos, estremeceu, mas manteve uma expressão cuidadosamente impassível, a mesma que mantivera desde que ele havia chegado ao Solar Maddock, há uma hora. Era evidente que ela não gostava dele. Ele o percebera logo ao entrar. Os olhos de Lady Maddock haviam se estreitado e suas narinas tinham se dilatado, apesar do sorriso de boas-vindas. Há pouco, seu olhar cor de violeta o avaliara rapidamente, deixando claro que ela não estava nem um pouco impressionada com ele. Aquilo o divertiu. Larenz estava acostumado a avaliar as pessoas e decidir se elas lhe poderiam ser úteis ou não. Fora assim que conseguira montar seu próprio negócio, altamente bemsucedido, e era assim que se mantinha no topo até hoje. E, embora á Lady Maddock pudesse ter chegado à conclusão de que ele era um homem qualquer, apesar de seu dinheiro, Larenz estava começando a achá-la muito interessante, e que ela lhe poderia ser muito... Útil. Na cama. — Você ainda nem viu o terreno — prosseguiu Amelie, pegando sua colher. Larenz sabia que ela não tomaria mais que uma ou duas colheradas da refeição que Ellery Dunant, á Lady Maddock, lhes havia preparado. Ao que parecia, ela era a cozinheira, garçonete e proprietária do Solar Maddock. Devia estar profundamente incomodada de servi-los, pensou Larenz com cinismo, ou a quem quer que fosse. Tanto ele quanto Amelie já haviam conquistado certo status, mas nenhum dos dois possuía um título. Eles faziam parte dos temíveis novos-ricos e Larenz sabia muito bem que nem todo o dinheiro do mundo podia acabar com as marcas de quem tinha vindo de baixo. — O terreno? — repetiu ele, arqueando uma sobrancelha. — Ele é mesmo tão espetacular assim? Ele percebeu o tom de zombaria e incredulidade em sua própria voz e, a julgar por sua reação, Ellery também o havia notado. Amelie deu uma risadinha. — Não sei se espetacular é a palavra certa. Mas vai ser perfeito... Amelie apoiou os cotovelos na mesa — Amelie jamais havia aprendido boas maneiras — e começou a gesticular agitada, deixando sua taça de vinho cair sobre o antigo e surrado tapete oriental. Larenz olhou impassível para a taça caída — ao menos ela não havia se quebrado — e para a mancha escarlate que começou a se espalhar. Ouviu Ellery conter a respiração e se ajoelhar em frente a ele, pegando o pano de prato que mantinha em sua cintura para tentar conter o avanço da mancha. Ela mantinha o cabelo louro, quase branco, preso num pequeno coque. O penteado não a favorecia, embora, naquele ângulo, revelasse a pele mais branca e suave de sua nuca. Larenz sentiu um súbito impulso de tocá-la e verificar se ela era realmente tão macia quanto parecia. 3


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

— Um pouco de vinagre diluído em água ajudará a tirar a mancha — comentou-o educadamente. Ellery ergueu a cabeça rapidamente, estreitando os olhos, agora não mais da cor de alfazema, mas, sim, de um tom violeta-escuro. Como as nuvens das tempestades. — Obrigada — disse ela com uma polidez ártica e um lapidado sotaque inglês. Deus era testemunha de que Larenz havia tentado, ainda que brevemente, investir em seus estudos, quando fora enviado para Eton, naquele ano infernal. Todos haviam zombado dele. Ele fora embora antes mesmo de prestar os exames, antes que pudessem expulsá-lo, e nunca mais freqüentara uma escola. A vida havia sido sua melhor professora. Ellery se ergueu, fazendo com que seu cheiro invadisse as narinas de Larenz. Não era o de nenhum perfume, mas, sim, um cheiro de cozinha. Da horta, talvez, já que ela cheirava a ervas —um misto de alecrim, manjericão e, talvez, uma pitada de tomilho. Delicioso. — Já que está com a mão na massa — disse Amelie, entediada —, poderia me trazer outra taça? Ela arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada e curvou os lábios preenchidos de colágeno, sem tentar disfarçar a malícia de seu sorriso. Larenz conteve um suspiro. Às vezes, Amelie era muito... Óbvia. Ele a conhecia desde os seus primeiros dias em Londres, quando ainda tinha 16 anos e trabalhava como boy em uma loja de departamentos. Ela trabalhava na lanchonete em que Larenz comprava os sanduíches que os empresários comiam durante suas reuniões. Não parecia ter mudado muito desde então. Larenz, na verdade, duvidava que algum dos dois tivesse. — Você não precisa ser tão rude — disse ele, assim que Ellery saiu apressada. Amelie deu de ombros. — Ela foi rude comigo, desde que cheguei, me olhando de cima a baixo, com aquele nariz empinado, Essa Lady Maddock acha que é muito melhor do que os outros, mas olhe só para esta pocilga, — disse ela, olhando desdenhosamente para a sala de jantar com suas cortinas esfarrapadas e os remendos descoloridos nas paredes, onde, certamente, havia antes pinturas originais. — O pai dela pode ter sido um barão, mas este lugar está caindo aos pedaços. — E, ainda assim, você disse que ele era espetacular — comentou Larenz secamente. Ele tomou um gole de vinho, que, apesar do estado do solar, parecia pertencer a uma excelente vindima. — Por que me trouxe aqui, afinal? — Por causa do contraste. Será perfeito para o lançamento da Marina. Larenz apenas arqueou a sobrancelha. Não conseguia enxergar como um solar decrépito poderia ser o lugar apropriado para lançar a nova linha de alta costura da De Luca's, sua loja sofisticada. Talvez fosse exatamente esse o motivo de Amelie estar à frente do Departamento de Relações Públicas de sua empresa: ela enxergava longe. — Imagine só, Larenz. Aqueles vestidos deslumbrantes em tons que mais parecem os de verdadeiras jóias sobre um pano de fundo escuro e mofado. É perfeito, uma justaposição do antigo e do novo, do passado e do futuro, do lugar onde a moda esteve e aquele para onde ela vai... — Parece muito artístico — murmurou Larenz. Ele não tinha o menor interesse naquilo, só desejava que a linha prosperasse. — Será surpreendente — prometeu Amelie, com uma expressão que dava sinais de animação apesar do Botox. — Confie em mim. — Acho que não terei outra escolha. Nós vamos ter que dormir aqui? Amelie riu. — Pobre Larenz, acha que vai conseguir suportar isso? Sei de uma maneira de tornar a situação bem mais confortável para nós dois... — De jeito nenhum, Amelie — respondeu ele secamente. Larenz sabia muito bem que não deveria misturar negócios com prazer, e sabia também que Amelie não estava falando sério. Ela era uma das poucas pessoas que o havia conhecido quando ele ainda era um jovem "João Ninguém"; razão pela qual ele lhe permitia certas liberdades. Mas mesmo ela sabia que não deveria pressioná-lo demais. Ninguém — especialmente as mulheres — tinha esse 4


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

tipo de privilégio. Nunca. Uma noite, uma semana, às vezes até um pouco mais, era tudo o que ele permitia às suas amantes. E, ainda assim, reconheceu Larenz, com certo divertimento, lá estava Amelie, achando que talvez eles pudessem ter algo a mais em meio a toda aquela decadência. A idéia era até atraente, porém. O olhar de Larenz pousou novamente em Lady Maddock. Ela havia retornado à sala de jantar, com seu rosto encantador sem nenhum vestígio de maquiagem ou expressão, uma taça de vinho em uma das mãos e um litro de vinagre em outra. Pousou a taça cuidadosamente na frente de Amelie e, então, murmurando um pedido de desculpas, se ajoelhou no chão outra vez e começou a limpar a mancha. O cheiro forte do vinagre alcançou Larenz, acabando com qualquer prazer que ele pudesse extrair de sua sopa. Amelie bufou. — Não pode deixar isso para um pouco mais tarde? — perguntou ela, fazendo um escarcéu pelo simples fato de ter que dar algum espaço para que Ellery pudesse esfregar a mancha. — Nós estamos tentando comer. Ellery ergueu o olhar. O esforço havia deixado suas bochechas rosadas e seus olhos continham agora um brilho de aço. — Sinto muito, Srta. Weyton — a disse sem parecer nem um pouco arrependida —, mas, se eu não tirar essa mancha agora, ela nunca mais sairá. Amelie fingiu inspecionar o tapete surrado. — Não creio que valha a pena poupar esta coisa velha. Isto é praticamente um farrapo. O rubor de Ellery se intensificou. Isto é um tapete, retrucou ela com fria polidez — é um Aubussoii original de quase 300 anos, de modo que sou obrigada a discordar de você. Vale certamente muito á pena poupá-lo. —Ao contrário de muitas outras coisas aqui, suponho? Disse Amelie, olhando sugestivamente para os remendos no papel de parede. O rubor de Ellery pareceu se intensificar ainda mais, se é que isso era possível. Ela estava magnífica, pensou Larenz. Tinha lhe parecido uma mocinha tímida, no início, mas podia ver agora que ela era uma mulher de muita coragem e orgulho. Seus lábios se curvaram. Ela não tinha muito do que se orgulhar, mas era, certamente, muito bela. Ellery se ergueu com um movimento elegante, pegou o frasco de vinagre e enfiou o pano sujo no bolso do avental. — Com licença — disse ela, saindo rapidamente. — Vagabunda — disse Amelie, enquanto Larenz se flagrava um tanto decepcionado por ela ter ido embora. As mãos de Ellery tremiam ao lavar o trapo e recolocar, o vinagre na despensa. A raiva fez com que ela cerrasse os punhos enquanto caminhava de um lado para outro, na cozinha, respirando fundo para tentar aplacar a fúria. Tinha lidado mal com aquela situação; aqueles dois eram seus hóspedes. Era muito difícil se lembrar daquilo e aceitar suas zombarias e observações descuidadas. Eles achavam que o fato de pagar algumas centenas de libras por sua estadia ali lhes dava aquele direito, mas Ellery sabia que aquilo não era verdade. Eles estavam dando apenas seu dinheiro, enquanto ela dedicava sua vida, seu próprio sangue, àquele lugar. Era insuportável ver aquela mulher insensível falar dele daquele jeito, torcendo o nariz para seus tapetes e cortinas. Ellery sabia que eles estavam surrados, mas isso não diminuía o valor que tinham para ela. Amelie Weyton a incomodara desde o momento em que transpusera a entrada do solar, naquela mesma tarde. Estava ao volante de um minúsculo conversível e dirigia em alta velocidade, deixando sulcos profundos no chão de terra batida, ainda úmido por causa da chuva. Ellery não havia dito nada, sabendo que não podia correr o risco de perder sua hóspede; Amelie havia alugado o solar pelo fim de semana e ela estava precisando desesperadamente daquelas 500 mil libras. O bombeiro havia lhe dito que o boiler da cozinha estava com seus dias contados, e que o novo custaria 3 mil libras. Ela não tinha ganhado aquele dinheiro em meses, lecionando por meio-período na cidade 5


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

mais próxima. Aquilo, porém, não deveria ser surpresa para ela. Desde que assumira a responsabilidade pela casa de seus antepassados, há seis meses, ocorrera uma calamidade após a outra. O melhor que Ellery podia fazer era retardar o inevitável declínio do solar. Mas ela não gostava, nem conseguia pensar daquele jeito. Agarrar-se ao solar, parecia, por vezes, agarrar-se a si mesma, da única maneira que lhe era possível, ainda que apenas por algum tempo. Ela até conseguia afastar aqueles temores de sua mente, na maior parte do tempo. Concentrava-se nos problemas práticos, que eram, certamente, mais que suficientes para mantê-la ocupada. Estava pensando no tão necessário boiler quando Amelie adentrou a casa como se fosse sua proprietária. Este lugar ó realmente um desastre — dissera ela, colocando seu falso casaco de pele de raposa numa cadeira. O casaco deslizou até o chão e ela olhou sugestivamente para Ellery, insinuando que ela deveria pegá-lo. E, mordendo a ponta interna de sua bochecha, ela o fizera. — Larenz vai ler um iitaqiu' — acrescentara Amelie, meio que para si mesma. O modo como havia saboreado o nome dele não havia passado despercebido a Ellery. Um rapazote italiano imaginou ela, irritada. — Isto aqui está bem abaixo do nível a que ele está acostumado. — Seus olhos brilharam maliciosamente ao olhar para Ellery. — Mas acho que podemos ser um pouco rústicos por uma noite ou duas. Não há mais nada por aqui mesmo, não é? Ellery se forçou a sorrir gentilmente. — Seu acompanhante vai chegar logo? — perguntou ela, usando o termo que Amelie usara para se referir a ele no e-mail que enviara para fazer a reserva. — Sim, ele chegará para o jantar. Céus — disse Amelie, olhando ao redor. — Isto aqui está ainda pior do que nas fotos do site. Ellery permaneceu em silêncio. Havia escolhido as fotografias dos cômodos que estavam em melhor estado para colocar no site. O solário, com almofadas cuidadosamente dispostas para cobrir os remendos do sofá surrado, banhado pela suave luz dourada do sol, e o melhor quarto, que ela havia redecorado com lençóis e cortinas novos. Aquilo havia lhe custado mil libras, mas ela fora realista. Ninguém pagaria para dormir em lençóis esfarrapados. O desprezo de Amelie por sua casa, porém, á magoava. Aquela era uma empreitada nova, e Amelie, na verdade, era apenas a segunda hóspede que efetivamente ficava depois de conhecer o lugar. — Você está bem? Ellery se virou rapidamente. Estava tão entretida em seus pensamentos que nem sequer havia ouvido aquele homem — Larenz — entrar na cozinha. Ele tinha chegado apenas alguns minutos antes de jantar ser servido e Ellery não havia tido tempo de cumprimentá-lo, nem olhar devidamente para ele. Tivera chance, porém, de formar a sua opinião: Larenz de Luca não era rapazote que ela havia imaginado, mas muito pior que isso. Amelie havia flertado com Larenz desde que ele chegara, tentado seduzi-lo, mas ele parecera impenetrável e até mesmo indiferente às atenções da beldade, ainda que excessivamente magra, e cada observação ou olhar insensível de sua parte haviam atingido diretamente os nervos de Ellery; o que era ridículo, já que ela não gostava de Amelie. O fato é que ela odiava homens que tratavam as mulheres como brinquedinhos a serem desfrutados e depois descartados. Homens como seu pai. Ellery afastou aqueles pensamentos negativos de sua mente e fez um meneio de cabeça em direção a Larenz. Ele estava junto à porta da cozinha, com um ombro apoiado no umbral, e seus olhos azuis profundos brilhavam divertidos. Devia estar rindo dela. Ellery tivera a mesma sensação quando fora limpar a mancha do tapete. Larenz tinha gostado de vê-la de joelhos, como uma serviçal, à sua frente. Ela tinha visto seus lábios, tão perfeitamente esculpidos como os de uma estátua renascentista, se curvar num sorriso como o que havia estampado em seu rosto agora. 6


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

— Estou muito bem, obrigada — disse ela. — Em que posso ajudá-lo? — Já terminamos a sopa e estamos esperando pelo próximo prato. — disse Larenz, com apenas um leve sotaque italiano. — Naturalmente, respondeu Ellery sentindo seu rosto corar. Quanto tempo se havia passado ruminando na cozinha enquanto eles esperavam pela sua refeição? — Eu o levarei num instante. Larenz assentiu, mas não se moveu, deixando seus olhos passearem languidamente pelo corpo dela, para depois dispensá-la, com uma expressão entediada. Ela não podia culpá-lo. Estava usando uma saia preta simples e uma blusa branca manchada de molho no ombro, e, ainda por cima estava suando, devido ao calor da cozinha. Seu desprezo, porém, típico de um homem, como ele, a incomodou. — Ótimo — disse ele, finalmente, desaparecendo em direção à sala de jantar. Ellery se apressou em checar a comida no fogão. Felizmente, o molho de creme de estragão não havia coalhado. Amelie e Larenz estavam em silêncio. Ele parecia relaxado, recostado em sua cadeira, enquanto Amelie parecia tensa, tamborilando suas unhas, uma vez mais. Ela mal havia tocado em sua sopa, mas Larenz, para a satisfação de Ellery, havia limpado o prato. Ele pousou a mão sobre o seu pulso quando ela foi tirar o seu prato vazio, surpreendendo-a com aquele toque inesperado. Sua pele era quente e seca, e provocou uma estranha, porém agradável, corrente elétrica por todo o seu corpo que alcançou as pontas dos seus dedos dos pés. — A sopa estava deliciosa — murmurou ele. Ellery tentou assentir. — Obrigada. O prato principal virá em instantes. As mãos dela começaram a tremer, fazendo com que a tigela em que fora servida a sopa esbarrasse na taça dele. . Ellery corou e Larenz sorriu languidamente. — Cuidado. Não vai querer entornar outra taça de vinho. — Sua taça está vazia — retrucou Ellery, irritada por ter deixado que ele percebesse o quanto a havia afetado. Por que tudo isso? Ele era incrivelmente atraente, mas também era muito arrogante. — Eu a encherei num minuto — acrescentou ela, retornando à cozinha. Depois de largar os pratos na pia, Ellery se apressou em servir a ambos. Sentia-se repentinamente exausta. Tinha que organizar os cardápios de todo o fim de semana e aturar os comentários maldosos de Amelie e os olhares especulativos de Larenz quando tudo o que queria era subir e se enfiar debaixo das cobertas. O boiler estalou por trás dela e Ellery rangeu os dentes. Teria que agüentá-los. A única alternativa seria vender o Solar Maddock, e isso estava fora de cogitação. Pelo menos, naquele momento. O solar era a única coisa que ainda lhe restava de sua família, de seu pai. Por mais impossível e irracional que fosse o solar era a única coisa que validava quem ela era e de onde vinha. E ela iria mantê-lo. Duas horas depois, Larenz e Amelie finalmente se retiraram para o andar de cima. Ellery lavou os pratos, tentando aliviar a persistente dor em sua lombar. Estava sonhando com um longo banho de imersão, numa banheira cheia de água quente, mas o homem que viera consertar o boiler já tinha lhe dito que a resistência do aparelho não suportaria tal coisa. Ela teria que se contentar com uma bolsa de água quente, sua companhia constante na maior parte das últimas noites. O frio do final de outubro havia se infiltrado no solar, nos quartos sem aquecimento, como aquele em que ela dormia. Com um suspiro, ela repassou mentalmente a lista de coisas que tinha para o café da manhã do dia seguinte. O pacote do fim de semana incluía uma fritada inglesa completa, embora ela tivesse certeza de que Amelie Weyton não tomava mais que uma xícara de café preto pela manhã. Já Larenz, provavelmente exigiria um desjejum mais reforçado, que devoraria com prazer, sem engordar nem mesmo um grama por causa disso. Ela se flagrou imaginando o que estaria acontecendo no andar superior, no melhor quarto da casa, sobre a cama antiga de quatro colunas. Será que Larenz iria acender a lareira para criar um ambiente aconchegante para ambos, com as chamas lançando sombras dançantes sobre seus corpos nus, entrelaçados um ao outro? 7


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

Ela os imaginou entre travesseiros e cobertas e sentiu uma pontada repentina de inveja sem razão de ser. Como poderia invejá-los se desprezava a ambos? Ellery, porém, sabia a resposta para aquela pergunta. Estava com inveja por Amelie ter alguém tão atraente e sexy como Larenz de Luca consigo. Estava com inveja porque nenhum dos dois teria que passar á noite sozinho, como ela. Ellery suspirou. Havia se mudado há seis longos meses para o Solar Maddock. Tinha feito alguns amigos na cidade, mas nada perto do que tivera outrora. Nada nem próximo à vida que ela sonhava ter. Seus amigos da época da faculdade estavam todos em Londres. Lil, sua melhor amiga, insistia sempre para que ela voltasse para lá também, ainda que apenas para uma visita, e Ellery chegara a fazê-lo uma vez. Um único fim de semana na cidade, contudo, não fora o suficiente para aplacar completamente a solidão de viver naquele solar abandonado. Ellery balançou a cabeça. Estava sendo piegas e patética, e aquilo a irritava sobremaneira. Não podia ir a Londres naquele exato momento, mas podia ligar para a sua amiga. Lil certamente adoraria falar mal de Amelie e Larenz com ela. Sorrindo com aquela idéia, Ellery limpou a bancada de trabalho. Estava prestes a apagar as luzes, quando uma voz a fez saltar de susto. — Com licença... Ellery se virou rapidamente, com uma mão sobre o peito. Larenz de Luca estava na porta da cozinha. Como é que ela não o havia ouvido chegar? Ele devia ter entrado tão silenciosamente quanto um felino, pensou ela. Ele sorriu, languidamente, e Ellery notou o quão deliciosamente desarrumado ele estava. Seu cabelo brilhante havia se enrolado levemente na altura da testa e estava levemente despenteado. Ele tinha tirado o paletó e a gravata e desabotoado os dois primeiros botões de sua camisa. Ellery vislumbrou uma pequena extensão de pele dourada, na base do seu pescoço, e engoliu em seco. —Te assustei? — perguntou ele, com um sotaque apaixonadamente mais pronunciado. Aquilo devia ter sido intencional, pensou Ellery, com um toque de cinismo. Ele era o típico italiano sexy e sabia disso. — Precisa de alguma coisa, Sr. de Luca? — perguntou Ele, num tom tão empertigado quanto o da professora celini que lecionava para as crianças da cidade. Inclinou a cabeça e a olhou de cima a baixo, com as pálpebras semicerradas. — Sim disse ele, finalmente. — Gostaria de um copo. — Já levo uma bandeja com copos no quarto. — respondeu Ellery, percebendo o tom de repreensão em sua própria voz. Larenz, também o percebeu, a julgar pela sua sobrancelha arqueada e a torção de sua boca, Ellery simplesmente não conseguia desviar os olhos daqueles lábios. — Sim, mas eu gostaria de um pouco de gelo. Ela conseguiu erguer o olhar em direção àquele par de olhos azuis que riam descaradamente dela e assentir. — Naturalmente. Só um momento. Ellery sentiu os olhos de Larenz sobre ela ao se dirigir ao congelador e remexer nos sacos de ervilhas e costeletas congeladas. — Você mora sozinha aqui? — perguntou Larenz, num tom mais polido. Ellery finalmente encontrou um saco de gelo e o puxou, batendo a porta do congelador com mais força do que o necessário. — Sim. — E não tem ninguém que a ajude? — perguntou ele, olhando para a imensa cozinha. — Um rapaz da cidade apara a grama para mim de vez em quando. Ela não quis admitir o quão sozinha realmente estava como o vazio da casa parecia, por vezes, se ampliar interminavelmente até ela se sentir minúscula e insignificante. Larenz arqueou as sobrancelhas outra vez e Ellery soube o que ele havia pensado. O gramado estava todo enlameado e 8


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

muito alto, pois ela não havia tido dinheiro para pagar Darren para apará-lo nos últimos tempos. E daí? O inverno já estava quase chegando, e ninguém Cortava o gramado no inverno. Ela colocou gelo em dois copos e os entregou a Larenz, com o queixo erguido. — Só isso? Ele sorriu novamente ao perceber que Ellery havia suposto que Amelie também queria gelo. Tomou, então, os copos de sua mão, roçando os dedos nos de Ellery ao fazê-lo. Aquilo a fez recuar como se ela tivesse sido queimada. Ainda podia sentir o calor da mão dele na sua, mesmo que ele não a estivesse tocando mais. Ela odiava reagir assim àqueles pequenos toques, sabendo que ele estava fazendo aquilo de propósito, somente para deixá-la sobressaltada e desfrutar do prazer de ver como ele a afetava. Aquele pensamento deixou o rosto de Ellery em brasa. Os lábios de Larenz se curvaram num amplo sorriso que iluminou seus olhos, transformandoos em duas safiras reluzentes. — Boa noite, Lady Maddock. Ellery enrijeceu. Não costumava usar seu título, inútil, e notara que o termo havia adquirido uma conotação zombeteira, vindo da parte dele. Como não queria dar prosseguimento àquela conversa, ela simplesmente assentiu e, com outro sorriso lânguido, ele se virou e partiu. A pesar de sua intenção de deixá-lo ir embora, Ellery se viu chamando-o: — A que horas vocês tomam café? Ele então se deteve e olhou para trás. — Eu geralmente gosto de comer bem cedo, mas, como estamos no fim de semana... Que tal às 9h? — Os lábios dele se contraíram. — Assim você poderá dormir um pouco a mais. Ellery o fulminou com os olhos. Aquele homem tinha o poder de fazer com que qualquer coisa parecesse insinuante e até mesmo sensual. — Muito obrigada, mas isso não é necessário. Eu sempre acordo bem cedo. — Então talvez possamos ver o dia amanhecer juntos, murmurou Larenz, indo embora depois de um último sorriso provocador que fez com que Ellery tivesse certeza de que ele sabia exatamente o quanto estava mexendo com ela. Ellery contou até dez, e depois até vinte, e então soltou um palavrão. Esperou até ouvir os passos de Larenz subindo a escada, o terceiro degrau sempre rangia, e então pegou o telefone. Já era tarde, mas Lil estava quase sempre disposta a conversar. Ela atendeu no segundo toque. — Ellery? Diga-me que finalmente recuperou a razão. Ela riu baixinho, levando o telefone até a despensa, para não correr o risco de ser ouvida por Larenz ou Amelie, caso um dos dois descesse. — Quase, depois dessa noite. — Graças a Deus. Não sei por que você resolveu se enclausurar aí... Ellery fechou os olhos, sentindo uma súbita pontada em seu peito. — Você sabe por que, Lil. A amiga suspirou. Elas já haviam tido aquela conversa milhares de vezes. Por mais que Ellery tentasse explicar, Lil simplesmente não conseguia compreender por que ela havia jogado fora uma vida plena e atribulada em Londres para cuidar de um solar caindo aos pedaços. Ellery não a culpava. Ela própria mal entendia os motivos que a haviam levado a fazê-lo. Voltar ao Solar Maddock quando sua mãe estava se preparando para vendê-lo havia sido uma decisão instintiva, emocional e irracional. — O que aconteceu? — perguntou Lil. — Oh, são esses hóspedes metidos. — Expulse-os daí, então. Pegue um trem... — Não posso. Tenho que permanecer aqui até... Ellery se deteve sem querer concluir o pensamento. — Até acabar o dinheiro? — completou Lil. — E quando será isso? Daqui a duas semanas? 9


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

— Três talvez. — Ellery suspirou, deslizando até o chão e apoiando a testa nos joelhos. — Sei que isso é loucura. — Pelo menos você admite — respondeu Lil alegremente. Esse solar está acabando com você, Ellery, e você precisa de alguém para reerguê-la, e não ele. Volte para a cidade, divirta-se, estabeleça relações reais... — Não — advertiu Ellery com um suspiro, mesmo sabendo que sua amiga estava certa. — Por que não? Você não vai conhecer homem algum nos confins de Suffolk. Não vai querer morrer virgem, vai? Ellery estremeceu. Lil era a sua melhor amiga, mas às vezes era um pouco bruta demais. — Não estou à procura de aventuras — disse Ellery, ao mesmo tempo em que uma imagem tentadora de Larenz passava pela sua mente, com a gravata frouxa e o cabelo despenteado. — Elerry que tal um fim de semana só de meninas, então? — sugeriu Lil. — Isso parece encantador... — Mas? Qual a desculpa desta vez, Ellery? — Nenhuma desculpa — respondeu ela, com mais certeza do que a que efetivamente sentia. — Sei que preciso sair um pouco daqui. Quase perdi a paciência com esses hóspedes idiotas, e tudo porque não vou a lugar algum, nem faço coisa alguma há séculos, tentando manter as coisas em ordem por aqui... — No próximo fim de semana, então — interrompeu Lil, quando Ellery ameaçou ficar emotiva demais. Ela não gostava de se expor daquela maneira e sua amiga sabia disso. — Você não tem nenhum hóspede agendado, não é? — Quem dera... Obrigada pela conversa, Lil, mas pelo que vejo você está na balada — disse Ellery, referindo-se à música que ouvia ao fundo... Lil gargalhou do outro lado da linha. — Não tem importância... — E eu estou exausta — concluiu Ellery. — Conversaremos depois. Ellery ainda permaneceu sentada por algum tempo; depois de desligar, com o fone pressionado contra o peito. Aquele telefonema havia feito com que ela se sentisse um pouco melhor. Seu próximo fim de semana transcorreria, com certeza, em Londres, mas o fim de semana à frente, com aqueles dois hóspedes, lhe parecia interminável. Ela suspirou e colocou o fone no gancho antes de ir para a cama. Larenz passou com seus dois copos tilintantes pela porta do quarto de Amelie. Ela havia escolhido a melhor cama para si, é claro, e Larenz sabia que a única maneira de desfrutar de tal conforto seria compartilhá-la com ela. Ela havia se detido em frente á porta do melhor quarto, quando os dois subiram para se recolher, lançando-lhe um sorrisinho insinuante que talvez o tivesse divertido outrora, mas agora só conseguia irritá-lo. — Faz muito frio aqui, sabia? — disse ela, num murmúrio rouco. — Você pode pedir uma bolsa de água quente para á Lady Maddock — respondera ele secamente, afastando-se da porta aberta do quarto dela para que Amelie captasse a sua mensagem. Ela o fez, com um sorriso nos lábios. Felizmente, Amelie pegava as coisas facilmente. — Tenho certeza de que ela a está usando para si mesma. Deve ser a única companhia com que ela conta em sua fama — acrescentou Amelie com aquele toque de malícia de que Larenz nunca gostara. — Bem, pelo menos você tem muitas cobertas — respondeu ele, num tom casual. De onde estava Larenz pode vislumbrar uma cama de quatro colunas, toda ornada, repleta de travesseiros e uma coberta de cetim. Parecia bem mais confortável do que o quinto espartano com que ele havia tido que se contentar. Mas, nem assim, ele havia ficado tentado a entrar, especialmente quando sua mente — e outras partes de seu corpo ainda se lembravam claramente do modo como os olhos cor de violeta de Ellery Dunant haviam brilhado para ele, do jeito como ela reagia ao mais leve toque dele. Ela o 10


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

desejava. Não queria desejá-lo, mas o desejava. Ele voltou novamente sua atenção para Amelie, substituindo a suavidade em sua voz por uma plana praticidade. — Boa noite, Amelie. De volta, a seu quarto Larenz olhou com desgosto para o papel de parede desbotado e a colcha usada, lady Maddock certamente não havia se empenhado tanto com o restante dos quartos. Ele colocou os preciosos copos com gelo de lado, já que tudo não havia passado de um pretexto para ver Ellery Dunant outra vez, e afastou as cobertas da cama. Uma rajada de vento chocalhou as vidraças e Larenz sentiu a corrente fria se infiltrar no quarto, O que ela estava fazendo num lugar como aquele? Era óbvio que sua família havia passado por problemas financeiros. O que ele não compreendia era por que ela não vendia o solar e se mudava para algum lugar mais confortável. Ela era jovem, bonita e evidentemente talentosa. Por que escolhera desperdiçar tudo isso para definhar naquela lonjura, cuidando de uma casa que parecia prestes a desabar a qualquer momento? Deixando aquele pensamento de lado, Larenz começou a se despir. Costumava dormir apenas de cueca, mas o frio era tão intenso que ele preferiu ficar com sua camisa e meias, ainda que ficasse bastante ridículo. Ele duvidava que o quarto de Ellery Dunant fosse adequadamente aquecido. Imaginou-a numa camisola branca de algodão, do tipo que tinha botões até a altura do pescoço, um par de chinelos gastos, agarrada a uma bolsa de água quente. A imagem fez seus lábios se contraírem num sorriso até o momento em que ele se imaginou desabotoando a camisola e descobrindo a mulher deliciosa que havia embaixo dela. Ele havia mexido com ela; era inegável. Larenz se lembrou da sensação de tocar a pele dela, tão macia e sedosa quanto fria. Suas unhas estavam roídas. Ela certamente estava preocupada com suas finanças. Por que outro motivo alugaria aquele lugar decrépito? Ele sabia muito bem o que fazer para que ela esquecesse seus problemas. Deitou-se na cama, estremecendo ao contato com os lençóis frios, e imaginou-a mais uma vez ao seu lado, aquecendo os lençóis e todo o seu corpo. Ele também a aqueceria... Teria enorme prazer em derreter a "Princesa do Gelo", pensou Larenz, entrelaçando as mãos por trás da cabeça. Ouviu um rangido revelador das tábuas do assoalho lá fora e torceu para que não se tratasse de um esforço derradeiro por parte de Amelie. Sua mente vagou mais uma vez na direção de Ellery. Ele se perguntou se ela ansiava por um príncipe, enclausurada em seu solar solitário, um cavaleiro que viesse salvá-la. Ele não era cavaleiro, nem príncipe, pelo contrário. Era bastardo, com quem Lady Maddock certamente jamais pensaria em se casar, o que, para Larenz, não era problema algum. Mas como um amante...? Ele se sorriu e se afundou um pouco mais na cama. Ouviu, então, um novo rangido no assoalho, seguido do som de uma porta se fechando em algum lugar, na outra ponta do corredor. Devia ser Ellery, a caminho do seu quarto. Será que ela havia passado pela porta de seu quarto de propósito?Estaria curiosa? Excitada? Ele esperava que sim, pois havia acabado de decidir que ela precisava ser seduzida.

CAPÍTULO DOIS Ellery acordou cedo, determinada há preencher seu dia com afazeres e tarefas. Se conseguisse se manter ocupada e produtiva, teria menos tempo para pensar e imaginar coisas erradas. Fora sua imaginação que a mantivera acordada durante toda a noite, mobilizada por um súbito e desconhecido desejo que surgira em seu íntimo. Ela havia repassado em sua mente todos os momentos que vivera ao lado de Larenz, a sensação dos dedos dele em sua pele, milhares de vezes, odiando-se por fazê-lo, e a ele também. 11


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

Precisava recuperar o foco, disse Ellery a si mesma ao amarrar o avental na cintura e pegar uma dúzia de ovos na geladeira. Concentrar-se para dar cabo do que ainda estava pendente a fim de poder passar o fim de semana fora, como havia prometido a Lil. — Isso seria realmente divertido — insistiu Ellery consigo mesma, enquanto batia metade dos ovos numa tigela até transformá-los numa espuma volumosa. — Nós conversaríamos, riríamos e dançaríamos... — E Lil tentaria convencê-la, outra vez, a voltar para Londres. Ellery não soubera que resposta dar à amiga quando ela lhe perguntara por que ela iria se mudar para o solar. Só visitava sua casa uma ou duas vezes por ano desde que seu pai havia morrido, já que sua mãe preferia encontrá-la em Londres. Nem sequer nutrira muito afeto por aquele lugar, depois de quatro anos de internato e outro três na universidade; e ainda se lembrava do choque que sentira ao se deparar com o estado lastimável da casa quando voltara lá, depois de sua mãe ter lhe dito que planejava vendê-lo. Quando é que o solar havia começado a se deteriorar? Será que ela não havia percebido o que estava acontecendo ou simplesmente não se importara? Pior, será que a ruína financeira de sua família já havia começado há muito mais tempo e seu pai simplesmente escondera o fato dela, assim como tantas outras coisas? Algo, porém, fizera com que ela se decidisse a manter solar pelo máximo de tempo possível... A idéia de perder todas as suas lembranças de infância ali depositadas havia despertado algum instinto latente dentro de Ellery, fazendo com que ela se envolvesse naquela confusão. Perder o solar parecia o mesmo que perder o seu pai, o que não fazia o menor sentido, uma vez que ela já o havia perdido há muito, muito tempo... Se é que alguma vez realmente o tivera. Ela se pôs a fatiar um tomate com um vigor um tanto excessivo. Sabia que, se começasse a pensar demais no passado, começaria a se perguntar se muitas de suas lembranças eram realmente verdadeiras... Ou confiáveis. — Cuidado com isso. Pode acabar perdendo um dedo. Assustada, ela se virou abruptamente, brandindo a faca afiada em sua mão. Larenz estava junto à porta, ainda mais bonito do que na noite anterior. Estava usando uma roupa simples, de passar o sábado em casa, supôs Ellery, mas que o deixava incrivelmente atraente. O algodão macio da camiseta e o brim desbotado abraçavam carinhosamente o seu corpo forte, realçando os seus quadris estreitos e as suas coxas musculosas. — Estou bem, obrigada — disse ela, arisca. — Se não se importa, gostaria que você batesse antes de entrar na cozinha. — Sinto muito — murmurou Larenz, sem, no entanto, parecer realmente arrependido. Ellery se obrigou a sorrir e ergueu um pouco o queixo. — Posso ajudá-lo em alguma coisa, senhor de Luca? O café ficará pronto daqui a alguns minutos — disse ela, olhando sugestivamente para o antigo relógio pendurado acima do fogão, marcando 8h45. — Por que não me chama de Larenz? — sugeriu ele, com um sorriso. — Tratar os hóspedes pelo primeiro nome não condiz com a política do solar — respondeu Ellery com um sorriso amarelo. Aquilo era pura invenção, e, a julgar pelo sorrisinho de Larenz, ele sabia muito bem disso. — A política do solar — inquiriu ele, suavemente — ou a de lady Maddock? — Eu não costumo usar o título — disse Ellery, duramente. Odiava-o, na verdade. — Pode me chamar de Srta. Dunant. Ellery sabia que havia soado excessivamente rígida, absurda até. Por um momento, chegou a desejar poder ser outra pessoa, mais leve, mais divertida, como se as coisas não tivessem tanta importância. — Srta. Dunant — repetiu Larenz, pensativamente. — Eu costumo ser um pouco mais informal, mas, se você insiste... Ele deu um passo à frente, ainda com aquele adorável sorriso lânguido estampado em seu rosto, e o coração de Ellery começou a bater acelerado. — A Srta. Weyton vai acompanhá-lo no café da manhã? — Não. Aliás, a Srta. Weyton vai partir esta manhã. 12


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

— O que...? Ellery não conseguiu disfarçar o choque em sua voz. Percebeu que estava decepcionada, não apenas porque ia perder dinheiro, mas também a companhia. Larenz de Luca era o homem mais atraente com quem ela cruzava há muito tempo, e ela estava realmente decepcionada com a possibilidade de vê-lo partir. — Ela precisa retomar seu trabalho — prosseguiu Larenz, sem parecer muito incomodado com o fato. — Eu, porém, ficarei pelo restante do fim de semana. — Vai ficar? — repetiu ela, ouvindo o tom ridiculamente arfante de sua voz. — Sozinho? Larenz havia se aproximado lentamente, de modo que estava agora a apenas alguns poucos centímetros de distância dela. Ellery podia sentir o cheiro forte e cítrico da sua loção pós-barba e pousou seu olhar fascinado sobre a veia pulsante na base do seu pescoço. Sua pele parecia tão lisa e dourada naquele ponto... — Sozinho, não — murmurou Larenz. Ele estendeu a mão para ajeitar uma mecha de cabelo atrás da orelha de Ellery, provocando-lhe um novo sobressalto. A pele dela parecia arder e latejar onde ele havia passado os seus dedos. Ela estava abalada demais para reagir, e, ao percebê-lo, Larenz esclareceu: — Estarei com você. Ela deu um passo para trás, afastando-se tanto do perigo quanto da tentação. Não queria se deixar atrair por um homem que parecia decidido a usá-la e depois descartá-la, a ela e a qualquer outra mulher, assim como o seu pai havia feito com sua mãe. Larenz de Luca talvez nem sequer chegasse tão longe. Poderia estar apenas se divertindo com ela e com suas reações óbvias de mulher inexperiente. Ellery não sabia o que era mais humilhante. — Vou estar ocupada demais com minhas tarefas durante a maior parte do tempo, mas tenho certeza de que você desfrutará do isolamento relaxante do solar... Ainda mais sendo um homem tão ocupado. Larenz observou sua retirada trôpega com um sorriso irônico. — Eu sou muito ocupado? — murmurou ele. Ellery abriu os braços, num gesto amplo, esquecendo-se completamente de que ainda estava segurando uma faca bastante perigosa em sua mão. — Tenho certeza... — Cuidado — murmurou Larenz, com a voz ainda lânguida, apesar de a lâmina ter passado rente ao seu abdômen. — Oh... — Ellery recolocou a faca sobre a pia. Sua respiração estava arfante. Ela odiava o modo como aquele homem mexia com ela e odiava ainda mais o fato de ele ter ciência disso. — Acho melhor — conseguiu ela dizer, voltando sua atenção para a tigela de ovos, de modo a não ter que encará-lo — você me deixar terminar de preparar o café. — Como quiser — respondeu Larenz —, mas faço questão que você me mostre o terreno mais tarde. Ele saiu antes que Ellery tivesse chance de responder o que quer que fosse. O fim de semana parecia ficar mais longo a cada minuto que passava. Larenz ficou zanzando pela recepção enquanto esperava que Ellery preparasse o café. As pesadas cortinas de veludo ainda estavam fechadas, mas a luz pálida do sol de outono se infiltrava pelas frestas, iluminando a poeira que pairava no ar. Teve a impressão de ouvir Amelie, no andar de cima, jogando suas coisas na mala, contrariada. Larenz a havia detido quando ela estava saindo de seu quarto, aparentando ter tido uma noite de sono bem melhor que a dele e lhe dissera com um leve sorriso: — Pensei na sua idéia de usar o solar para as fotos da nova coleção. Achei muito boa. Os lábios pintados de Amelie se curvaram num sorriso satisfeito. — Eu sabia que você ia gostar. — Portanto — acrescentou Larenz, num tom implacável —, preciso que você volte esta manhã para o escritório a fim de começar a tratar da papelada. Eu cuidarei de Ellery. — Ellery? — repetiu Amelie, estreitando os olhos e se forçando a sorrir. — Bem, deixarei 13


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

essa pocilga de bom grado. Larenz foi tomado por uma sensação de alívio ao descer as escadas. Agora, impaciente, na sala de visitas, ele voltou a pensar em como Ellery havia rodopiado quando o vira na cozinha, naquela manhã, e sorriu. Aquele fim de semana iria ser muito interessante e muito agradável também. Ellery colocou os ovos mexidos, os cogumelos fritos, o bacon, o tomate fatiado e os feijões assados num prato, pegou as torradas e um frasco de ketchup com sua mão livre, e seguiu até a sala de jantar. Uma porta bateu a distância e Ellery estremeceu ao ouvir um carro partir. — Deve ser a Amelie partindo — disse Larenz, surgindo das sombras. — Apressada, não? — perguntou ela, secamente, ignorando a aceleração repentina de seu coração e o fato de que ela e Larenz de Luca estavam sozinhos no solar a partir daquele momento. Pousou a comida na mesa e se virou para ir pegar o café. — Eu já volto. — Vai pegar um prato para si também, eu espero. — Um frisson de algo semelhante a uma esperança atravessou o corpo de Ellery. Ela enrijeceu, de costas para ele. — Não gosto de comer sozinho. — Eu como na cozinha — disse ela, sem se virar. — Então permita que eu me una a você. Ellery ouviu o tilintar dos pratos e talheres enquanto ele recolhia a louça, disposto a segui-la até a cozinha, e se virou lentamente. — O que quer exatamente de mim, Sr. de Luca? — A cordialidade não faz parte do pacote especial de fim de semana? — perguntou ele, sem responder à pergunta que ela lhe havia feito. — Eu gosto de ser cordial e profissional — respondeu ela bruscamente. — Mas isto é profissional. Tenho uma proposta de negócio a lhe fazer. Ellery não se preocupou em disfarçar sua descrença. A idéia daquele homem rico e bemsucedido lhe propor algum negócio era totalmente absurda. — Você não pode estar falando sério... — Você sempre reage assim quando alguém lhe propõe um negócio? Ela rangeu os dentes. Vinha fazendo isso com certa freqüência desde que Larenz de Luca e sua namorada haviam chegado. Por que será que ele havia se livrado dela? Para se aproximar de outra? Dela, talvez? Ellery afastou aquela hipótese alarmante e tentadora de sua mente. Havia, certamente, outra razão para ele ter permanecido no solar. Ele era rico demais para querer ficar num lugar daqueles. Ela estava nervosa, ansiosa e até mesmo um pouco apreensiva. — E óbvio que você é uma pessoa muito rica e importante — disse ela, finalmente, com franqueza. — Não posso imaginar nenhuma proposta de negócio vinda de sua parte que possa envolver a mim ou o solar... — Pois você está enganada. E meu café da manhã está esfriando — disse ele, erguendo o prato outra vez. — Vamos? Ela não teve escolha. Era óbvio que Larenz estava acostumado a fazer as coisas de seu jeito, e ela estava cansada de lutar. — Está bem, nós podemos comer na cozinha. Ellery preparou um prato para si, enquanto Larenz se acomodava junto à grande mesa de pinho. — Tome. Ela colocou uma xícara de café diante dele e deu a volta para se sentar à sua frente. Parecia ridículo sentar tão longe dele, mas Ellery não queria lhe dar nenhum pretexto para tocá-la. . ' Mesmo que você queira que ele o faça... Ela mal conseguiu controlar a vontade de fechar os olhos outra vez. Ainda bem que ele não podia ler seu pensamento, mesmo que seu sorriso a fizesse pensar, por vezes, que sim. Não queria conversar com Larenz, nem que ele flertasse com ela ou a provocasse. A atração 14


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

que sentia por ele era algo puramente físico. Ela ergueu os olhos de seu prato para absorver toda aquela surpreendente beleza. Seus olhos se demoraram na linha reta do seu nariz, suas sobrancelhas escuras, seus lábios cheios. Ela os imaginou tocando-a, até mesmo em lugares aparentemente inócuos como aquele em que seus dedos a haviam tocado, em seu pulso, e gemeu em voz alta. — Algo errado? — perguntou Larenz, tomando um gole de café e olhando-a por sobre a borda da xícara. — O que você quer dizer? — disse Ellery, mordendo o lábio inferior, constrangida por ter sido flagrada. Larenz baixou sua xícara, mas seus olhos ainda pareciam bailar. — Você parecia um pouco... Aflita. Ela se levantou abruptamente da mesa e pegou o prato, para jogar os restos no lixo. — Acho que estou com muita coisa na cabeça. Coisas demais para se deixar levar por aquela tentação, ainda mais quando ela sabia que não passava de uma diversão para ele. Aquilo doía. — O café da manhã estava delicioso. Obrigado — disse Larenz. Depois, foi até a pia, onde Ellery, surpresa, o observou limpar o seu prato e colocá-lo na lavalouças. — Obrigada — ela sussurrou, tocada por sua consideração. — Você não precisa fazer isso... — Pode parecer surpreendente, mas eu sou capaz de tirar a mesa — disse Larenz com um sorriso irônico que acertou o coração de Ellery em cheio ou talvez algum outro ponto. — Está fazendo um belo dia lá fora. O que acha de me mostrar o terreno enquanto discutimos minha proposta? Ellery teve um sobressalto, ainda com o pano úmido pingando em sua mão. Tinha se esquecido completamente daquele assunto. — Eu estou realmente muito ocupada... — começou ela, mas Larenz apenas sorriu. — Prometo que valerá a pena — disse ele, tirando o pano de sua mão e jogando-o na pia. — Uma única hora do seu precioso tempo. Pode dispor disso, não é? Ellery hesitou. Larenz esperava por ela com um leve sorriso curvando seus belos lábios, e ela se viu sem mais desculpas. Nem sequer queria encontrar uma. Queria, ao menos uma vez, separar uma hora para seu próprio deleite. Desfrutar da tentação, em vez de resistir a ela. Ver no que tudo aquilo ia dar, ainda que fosse perigoso. Uma hora não era tanto tempo assim, afinal. — Está bem. Mas vamos ter que colocar galochas — disse ela, olhando sugestivamente para os mocassins de couro dele. — Choveu muito ontem à noite e o chão está uma lama só. — Eu não trouxe nenhuma comigo — murmurou Larenz. Ellery comprimiu os lábios. Podia muito bem imaginar o tipo de roupa que havia em sua mala. — Ainda bem que temos muitas disponíveis para nossos hóspedes — respondeu ela. — Temos? — Quer dizer, tenho — esclareceu Ellery enrubescendo. — As galochas ainda são do tempo de minha infância, quando recebíamos muitos convidados por aqui. Sua garganta se fechou subitamente. Ela tentava não pensar muito naqueles dias em que ainda era pequena e o Solar Maddock estava cheio de gente e de gargalhadas, com seus cômodos brilhantes e cheirando a flores frescas, o chão encerado, e tudo era felicidade. Pelo menos aparentemente, corrigiu-se ela mentalmente, a caminho da lavanderia, em busca de um par de galochas que pudesse servir a Larenz. Ele seguiu Ellery, até a horta, que, embora parecesse ter sido muito bonita outrora, parecia agora praticamente morta. Sentiu uma pontada inesperada em seu coração ao imaginá-la cuidando de tudo sozinha. A sensação era de pena, algo muito estranho a Larenz. Ele havia trabalhado muito duro para subir na vida para ter pena de uma aristocrata passando por momentos difíceis. Orgulhosa, Ellery Dunant certamente ficaria horrorizada se soubesse que ele havia se compadecido dela. Ela parecia amar aquele seu pedacinho de terra quase que na mesma proporção de que não gostava dele. Parecia se ressentir da atração que sentia por ele, embora Larenz não 15


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

acreditasse que ela conseguisse resistir a seu apelo por muito mais tempo. Ele certamente não desejava isso também. Queria desfazer aquele seu coque lamentável; passar os dedos por sua pele e ver se ela era realmente tão aveludada quanto parecia — em toda parte. Queria transformar o desdém que tencionava o rosto dela num desejo que o suavizaria. E iria fazê-lo. Ele sempre conseguia o que queria. — Você plantou uma horta nesse verão? — perguntou Larenz. Ellery se virou com as mãos nos bolsos de seu casaco. — Uma horta bem pequena — disse ela, lembrando-se da fartura de outrora. — É muito difícil cuidar de tudo sozinha. Mas um dia... Ellery se deteve, deixando o pensamento inacabado. A cada dia que passava, ela ia tomando mais consciência de quão inúteis eram seus planos. Jamais daria conta do solar sozinha. Costumava conseguir afastar aqueles pensamentos sombrios de sua mente durante a maior parte do tempo, mas a chegada de Larenz de Luca, com seu sorriso irônico e suas perguntas insinuantes, a havia feito se lembrar da inutilidade de sua vida ali. Ela desviou da horta para conduzir Larenz até os celeiros que ladeavam a propriedade, ao fundo. — Qual é exatamente sua proposta? — disse ela, olhando para trás. — Vamos ver os celeiros — respondeu Larenz, no mesmo tom. Ellery conteve um gemido. Só havia concordado em mostrar o terreno a Larenz porque sabia o quanto ele podia ser persistente, e porque, num momento de loucura e fraqueza, quisera passar algum tempo a seu lado. Ao vê-lo, porém, examinando a grama excessivamente alta e as paredes descascadas, não sentiu nenhum prazer ou entusiasmo, apenas algum desespero ao ver um homem que parecia jamais ter sabido o que é necessidade, passear pelos escombros de seu próprio fracasso. Larenz avançou um pouco mais na escuridão do celeiro e passou a mão por uma forma volumosa coberta por uma lona. — Já pensou em transformar esse lugar num parque ou museu? — Não. — Ela resistia em deixar que o Solar Maddock se transformasse em qualquer outra coisa que não a casa que havia sido outrora, pois tinha medo de que nada mais lhe restasse se perdesse o solar. Nada que definisse o que ela era ou fora. A filha de seu pai. — Suponho que alugar os quartos seja o primeiro passo nessa direção, mas eu não suportaria que alguém colocasse uma montanha-russa no gramado ou coisa parecida. Larenz se virou pára ela, com um brilho de divertimento nos olhos. — Você, certamente, não teria que fazer algo tão drástico. Ellery deu de ombros. — Não tenho dinheiro para reformá-lo sozinha, de modo que a única alternativa seria repassálo para empreendedores. — Já recebeu alguma oferta? Aquele era o problema, pensou Ellery, com um suspiro. Ela não tinha recebido nenhuma. Havia muitos solares disponíveis, e o mau estado do seu afastava os possíveis investidores. — Na verdade, não. Esse solar fica um pouco fora de mão. Larenz assentiu lentamente. — É mesmo. Fiquei surpreso por Amelie ter encontrado este lugar. — Eu tenho um site... — disse Ellery, sem conseguir controlar sua irritação. — Humm... — disse Larenz, puxando a lona. — Se eu não estiver enganado, há um carro aqui embaixo, e provavelmente muito interessante. O coração de Ellery pareceu parar por um segundo antes de voltar a bater com mais força. — Um Rolls Royce — confirmou ela, quando ele terminou de afastar a lona. Eles ficaram observando o antigo veículo clássico em silêncio. Ellery desejou ter levado Larenz para outro celeiro. Tinha se esquecido completamente daquele carro. — Um Silver Dawn — murmurou Larenz. — Da década de 1940, e em ótimas condições. — Era do meu pai — disse Ellery baixinho. 16


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

Larenz olhou para ela. — Ele é falecido? — Há cinco anos. — Eu sinto muito. Você devia ser muito nova. — Tinha 19 anos. Ela não queria falar sobre aquilo, especialmente com Larenz, praticamente um estranho. Não gostava de compartilhar detalhes sobre o seu pai nem mesmo com sua amiga mais próxima. — Você podia vender o Rolls Royce — disse Larenz, quando ela voltou a cobrir o carro. Ellery sentiu uma súbita sensação de perda. Havia passeado muito naquele carro quando criança. Colocava a cabeça para fora da janela e ria feliz, enquanto seu pai conduzia, acenando para todo os que passavam. Também costumava ficar nos degraus da frente de casa e observar o Rolls Royce desaparecer quando seu pai viajava, alegando compromissos de negócios. — Talvez eu não queira vendê-lo — disse ela, com uma voz distante. Larenz a olhou, impassível. — Ele deve valer pelo menos umas 40 mil libras. Ellery não tinha idéia de que o carro pudesse valer tanto. Sentiu-se tola por isso, mas, mesmo assim, sabia que jamais o venderia. — Algumas coisas não podem ser vendidas — disse ela, em voz baixa, quando ele a alcançou. — Quarenta mil libras fariam muita diferença num lugar como esse — observou Larenz. — Você poderia aparar a grama mais regularmente, para começar. — E por que você se importa com isso? Está aqui há menos de 24 horas e já considera minha casa um desastre. E, além do mais, eu não me lembro de ter pedido seus conselhos. Ela se virou e seguiu diretamente para casa, pisando em cheio numa poça bastante grande, e notando, com satisfação, que havia espirrando água no jeans de Larenz.

CAPÍTULO TRÊS

Já em casa, Ellery limpou as galochas e as colocou do lado de fora, na escada. Ainda estava tremendo de raiva ao abrir a porta de trás, furiosa consigo mesma por ter se zangado com Larenz, ele não merecia todo aquele desgaste. Era tarde e ela ainda não havia cumprido nenhuma de suas muitas tarefas diárias. O estúpido e arrogante Larenz de Luca havia estragado completamente seu dia, pensou ela, furiosa. Mais que isso, ele a havia desequilibrado por completo, fazendo com que olhasse para o solar de uma maneira que costumava evitar. O mais grave, porém, era a reação traiçoeira do seu corpo àquele homem, de quem ela não podia nem mesmo gostar. Sabia muito bem que tipo de homem Larenz era. Soubera desde o momento em que ele chegara ao solar, em seu Lexus, e jogara as chaves sobre a mesa do saguão como se fosse o dono de tudo ali. Vira-o na maneira descuidada com que ele tratava sua namorada, Amelie, e na maneira como ela reagia a ele, bajulando-o, desesperada. O pior, no entanto, era a maneira como ele tratava ela mesma, olhando-a insinuantemente e usando aquele tom de voz lânguido e irônico. Ele estava brincando com ela e se divertindo à sua custa. O fato de seu corpo sequer reagir a ele, traindo-a, deixava-a enfurecida e envergonhada. — Eu sinto muito. Larenz estava na porta da cozinha. Tinha tirado as galochas. Ellery sentiu certa simpatia ao vê-lo apenas de meias, uma delas até com um pequeno furo. — Você sente muito? — repetiu ela, como se aquelas palavras não fizessem sentido. 17


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

— Você tem razão. Eu não devia lhe dar conselhos. A situação do solar não é da minha conta. Os olhos de Larenz haviam escurecido, conferindo-lhe uma expressão séria e contrita. Aquilo a desconcertou. — Obrigada. Peço-lhe desculpas, também. Não costumo insultar meus hóspedes. Um lindo sorriso curvou a boca de Larenz e seus olhos voltaram a brilhar, de um azul tão intenso quanto o mar iluminado pelo sol. Sua transformação mexeu com Ellery, provocando um desejo repentino que ela não teve como conter. — Eu não sou um hóspede comum, sou? — provocou ele suavemente. — Um pouco mais exigente, talvez — concordou Ellery, perguntando a si mesma se estava realmente flertando com ele. — Tenho que encontrar um jeito de me redimir — respondeu ele. — O que acha de eu preparar alguma coisa para almoçarmos? A sugestão provocou um novo arrepio em Ellery. — Você realmente sabe cozinhar? — Algumas coisas. Ela hesitou. Eles estavam entrando num terreno muito perigoso. E excitante também. Ellery não se sentia tão viva assim há séculos. — Está bem — disse ela, depois de respirar fundo, percebendo o misto de relutância e expectativa em seu tom de voz. Larenz também o notara, a julgar pelo sorriso que lhe lançou. — Onde estão as panelas? Sentindo uma gargalhada borbulhar dentro dela, Ellery lhe mostrou onde encontrar os utensílios necessários. Pouco depois, lá estava ele, bancando o cheffe de cozinha, com inesperada agilidade. Ellery sabia que deveria subir para fazer as camas, mas, em vez disso, se viu apoiada na ponta da mesa, observando-o enquanto ele se movimentava graciosamente pela cozinha. — Como foi que um homem como você aprendeu a cozinhar? Seus ombros pareceram se enrijecer por um segundo antes de lhe lançar um olhar interrogativo. — Um homem como eu? O que significa isso? — Ora, você é rico, poderoso... Homens como você não costumam aprender essas habilidades básicas. — E isso porque há sempre alguém fazendo isso por nós, suponho? Felizmente, minha mãe tinha uma visão um pouco mais prosaica das coisas e fez questão que eu aprendesse todas as habilidades necessárias à vida. Larenz lançou-lhe, então, um sorriso maroto, que fez o seu ventre latejar. — Entendo — murmurou Ellery. Ela se sentiu corar e todo o seu corpo se aquecer com aquele simples olhar. A cozinha, subitamente, pareceu quente demais. — Podemos comer assim que a massa estiver pronta — disse Larenz. — Fiz apenas um molho de tomate. Minhas habilidades são realmente básicas no tocante à cozinha. A ênfase a fez pensar que ele estava sugerindo maiores e melhores habilidades fora dela, como no quarto, por exemplo. Ela precisava parar com aquilo. Não tinha a menor intenção de se envolver com Larenz de Luca. Sentia uma forte atração por ele, certamente devido ao fato de ter privado seu corpo durante muito tempo de qualquer tipo de satisfação, mas não pretendia ir às vias de fato com ele. A idéia de compartilhar sua intimidade — e vulnerabilidade com alguém como Larenz a fez estremecer. Ellery deu uma olhada na panela. — Acho que está pronto. Ellery precisou afastar aqueles pensamentos de sua mente. — A massa não precisa grudar na parede? — perguntou ela, provocando-o. — Isso é crendice. Um italiano sabe quando o espaguete está pronto só de olhar para ele. — De que lugar da Itália você é? Foi uma pergunta impulsiva, que rompeu a barreira que ela havia erguido entre anfitriã e 18


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

hóspede. Larenz escorreu a massa e a serviu em duas tigelas antes dele responder. — Eu sou da Úmbria. Fica perto de Spoleto, no meio de lugar algum. — Sua família ainda mora lá? Ele fez outra pausa, fazendo Ellery se sentir intrometida. — Não mais — respondeu Larenz, ao levar as tigelas à mesa. — Agora vamos comer. Ele colocou as duas tigelas lado a lado, obrigando-a a se sentar ao seu lado, em vez de no lugar que ocupara mais cedo. Ao vê-la hesitar, Larenz a provocou: — Eu não mordo, sabia? A menos que me peçam, é claro. Ellery revirou os olhos. — Ora, por favor. Ela se sentou e, ao ver o breve sorriso que ele lhe lançou, teve certeza de que ele havia sido ousado de propósito; o que, estranhamente, á deixou mais à vontade. Eles comeram em silêncio por alguns minutos, envoltos em uma atmosfera surpreendentemente amigável. De vez em quando, o joelho de Larenz pressionava o dela, fazendo Ellery se perguntar se ele estava fazendo aquilo de propósito. Ele não parecia ter se dado conta das vezes em que a havia tocado, embora, certamente, tivesse percebido o quanto aquele contato fugaz mexia com ela. Apesar das diversas camadas de tecido que separaram a sua pele da dele, todo o seu corpo enrijecia a cada contato como se ela estivesse se preparando para resistir a algum ataque. Ellery sentiu seu corpo se inundar de prazer e desejo, oprimindo seus sentidos, impedindo que ela conseguisse pensar em outra coisa que não a delícia de ser tocada. Ela queria ser tocada, desejada, amada, nem que fosse por um único momento. Não. Aquilo era vergonhoso demais. Ela não podia se permitir pensar daquela maneira. Sentir aquilo. Mas seu corpo discordava dela. Todos os seus nervos ardiam por ele. Seu corpo queria mais. Seu corpo a traiu. Sem sequer se dar conta do que estava fazendo, ela esticou o pé para roçar a perna de Larenz e sentiu os músculos firmes contra os seus dedos. Ele não expressou reação alguma, e Ellery sentiu um lampejo ridículo de decepção. O que estava fazendo? E o pior era que Larenz nem sequer havia notado sua iniciativa. Parecia não estar sentindo nada, e, embora aquilo devesse aliviá-la por mantê-la a salvo, Ellery descobriu, para sua irritação, que estava muito frustrada. Ele ergueu a cabeça a fim de sorrir para ela e a flagrou fitando-o. Ellery voltou toda a sua atenção para o prato à sua frente. — Qual é, afinal, essa sua proposta, se é que realmente exista alguma. — Você esta duvidando de mim? — perguntou Larenz. Ellery deu de ombros. — Eu possuo uma rede de lojas de departamentos, a De Luca's. — Ele arqueou uma sobrancelha. — Já ouviu falar delas? Ellery assentiu. E claro que já ouvira falar; havia uma De Locais em todas as cidades importantes da Europa, mas ela não as chamaria de lojas de departamentos. Eram sofisticadas demais para isso. Ela, certamente, não tinha como pagar por nenhuma de suas peças. Deveria ter feito a conexão assim que ouvira o sobrenome de Larenz. Embora soubesse que ele era um homem rico, ainda não havia compreendido o quão poderoso e bem-sucedido ele realmente era. — Amelie escolheu o solar para fazer as fotos do lançamento de nossa nova coleção, uma linha de alta costura. Ellery olhou para ele, incrédula, esquecendo-se momentaneamente de seu almoço e até mesmo de seus desejos. — Você quer fazer uma sessão de fotografias de moda aqui? Larenz sorriu. — Acha isso tão estranho assim? — Para falar a verdade, sim. Há centenas de solares por aqui, em muito melhor estado do que o solar Maddock. Por que você escolheria justamente um lugar de terceira categoria? Ele ainda estava com aquele sorrisinho zombeteiro que a deixava louca estampado em seu 19


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

rosto. Ellery mordeu a parte interna de sua bochecha. — Você não tem sua casa em alta conta. — Eu sou honesta — retrucou Ellery categoricamente. — Algo que não creio que você esteja sendo. — O Solar Maddock tem uma certa... Ambientação... Que gostaríamos de explorar nas fotos. Ellery o olhou por quase um minuto, tentando compreender o que ele estava dizendo. Algo, certamente, havia lhe escapado. — Está fazendo isso por pena, não é? — Pena? — repetiu Larenz, como se aquela palavra lhe fosse totalmente desconhecida. Antes que ela pudesse responder, ele passou o polegar pelo canto de sua boca, pressionando-o ligeiramente contra sua pele. Os lábios de Ellery se entreabriram instintivamente e ela ouviu a sua própria respiração escapar num minúsculo e suave suspiro que a traiu. O sorriso de Larenz se aprofundou. — Tinha um pouquinho de molho aí — murmurou ele. Ellery sentiu uma brasa lamber seu corpo, até a raiz dos cabelos. Ela sempre enrubescia com facilidade e odiou aquela característica naquele momento mais do que nunca. Havia reagido à provocação exatamente como ele esperava. Ela se levantou e pegou os pratos apressadamente para levá-los até a pia. — Ellery? — perguntou ele, com uma voz suave, porém inquiridora. Ela largou a louça na pia e ficou olhando quase impassível quando uma das tigelas se partiu ao meio. Odiava a confusão que havia se instaurado dentro dela — sensualidade e autodefesa lutando uma contra a outra enquanto Larenz parecia completamente alheio à batalha que ocorria dentro dela. Ouviu quando ele levantou da mesa e se colocou logo atrás dela, sentindo seu calor e sua força. Podia até mesmo sentir o perfume, agora familiar, de sua loção pós-barba. — Por que está fazendo isto? — perguntou ela, num fio de voz. Não importava mais se estava criando uma situação embaraçosa para si mesma. Ela precisava saber. — Fazendo o quê? — perguntou Larenz com uma voz de tranqüilamente estudada. Ellery se virou. — Me provocando — disse ela, com a voz ainda baixa. — Com esta proposta ridícula de negócio e corri... Ela engoliu em seco, relutando em admitir o quanto aquele flerte estava mexendo com ela. — Está tentando encontrar alguma diversão para seu fim de semana depois que sua namorada foi embora? Como não havia mais ninguém disponível, você chegou à conclusão de que eu dava para o gasto? Pois saiba que eu não preciso de sua pena, senhor... Ele pressionou um dedo contra os lábios dela, silenciando-a. — Acha que eu tenho pena de você? — Eu sei que tem. — Ela respirou fundo. O dedo dele ainda estava sobre sua boca e ela podia sentir o sabor salgado de sua pele. — Posso ver isso em sua expressão cada vez que olha para a casa, achando que está numa pocilga, como... Como disse sua namorada, ontem à noite! Ellery estava arfando, tomada de mais raiva do que a situação merecia, e sabia por quê. Larenz a fazia se lembrar de seu pai. Tratava a ela e a Amelie como seu pai havia tratado sua mãe, alguém a quem se podia tomar ou largar, a seu bel-prazer, sem se importar com a tristeza ou a mágoa que isso poderia causar. — Amelie não é minha namorada — disse Larenz calmamente. Ellery bufou, sem acreditar nele, apesar da ridícula pontada de esperança que sentiu ao ouvir aquelas palavras. — Espera realmente que eu acredite nisso? — Suspeito que você vá acabar acreditando no que bem entender. Amelie, na verdade, é a chefe do Departamento de Relações Públicas de minha empresa. Era por isso que ela estava aqui. — Você não quer que eu acredite que alguém acha este lugar conveniente para uma sessão de fotos. 20


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

— É claro que você não acredita — disse ele, baixando o seu tom de voz até transformá-la num sussurro. — Por que está aqui, Ellery? Por que permanece aqui? Nem sei se você gosta mesmo desse solar. Ellery se encolheu. Aquelas perguntas estavam se aproximando demais da verdade e ela não estava disposta a responder. Ela tentou se virar, mas o dedo de Larenz ainda estava contra seus lábios, e ele agora segurava seu queixo, forçando á olhá-lo. — Eu não tenho pena de você. — Admito que acharia muito difícil cuidar deste lugar sozinho, como você, mas isso não me causa pena. — Quando algo soa, parece e causa a sensação de pena, normalmente é pena! Novamente tentou soltar se desvencilhar dele, mas Larenz a ignorou, sorrindo, baixando a cabeça de modo a deixar seus rostos, e lábios — a distância de apenas uma respiração. — Eu lhe garanto — murmurou Larenz — que isto não è pena. Antes que Ellery pudesse processar aquela declaração, ou pronunciar algo, os lábios de Larenz encontraram os dela e ele á beijou como ela nunca havia sido beijada antes. Beijou-a de um modo que fez com que ela se esquecesse de todas as suas resoluções e arrependimentos. Ellery permaneceu imóvel por alguns segundos, atordoada demais para dizer ou pensar em alguma coisa. Pouco depois que seus sentidos assumiram o comando, inundados por algo doce e quente, e seu corpo entrou em ação, agindo por conta própria, sem a permissão de sua mente. Os braços dela enlaçaram os ombros de Larenz, e seus dedos se espalmaram sobre os músculos firmes de suas costas. Ellery jogou a cabeça para trás e todo o seu corpo se arqueou, tão sinuosa e sensualmente quanto uma gata. Ela se ouviu emitir um som que jamais havia emitido antes, incrivelmente consciente do quão excitada estava. Ela gemeu, sentindo o som vibrar em seus lábios e ressoar por todo o seu corpo. Larenz aprofundou o beijo. Suas mãos deslizaram pelas costas dela até envolver os seus quadris, puxando-a para mais perto de si, num contato íntimo e revelador. Acariciou o seu seio por sobre o tecido fino da camiseta, com os lábios ainda colados aos dela, experimentando, explorando... O repentino sobressalto que sua carícia lhe provocou fez com que Ellery tropeçasse e se chocasse contra a pia. O momento, até então turvo de desejo, tornou-se claro como o cristal. Ellery ficou enjoada e sentiu o gosto amargo de bílis em sua boca. — Não, sussurrou ela. Seu coração batia acelerado como se ela tivesse corrido quilômetros, e seu corpo inteiro ainda latejava devido àquele beijo. Larenz sorriu. Com exceção de seu cabelo, que estava um pouco despenteado, ele parecia excepcionalmente composto. — Não o quê? — perguntou ele. — Não pare? — Não me provoque. Não brinque comigo. Por um momento, Larenz pareceu verdadeiramente perplexo. — Por que acha que estou brincando com você, Ellery? — Ela gostou do modo como ele disse seu nome. — Eu a quero. Você me quer. É muito simples. — Sua expressão enrijeceu por um momento ao acrescentar: — Não precisa ser tão complicado assim. Ela balançou a cabeça. Sentia um nó na garganta, e seus olhos se encherem de lágrimas. Sabia que não conseguiria falar sem se trair, por isso mordeu o lábio inferior com força. Aquilo não era nada simples. Ao menos não para ela. Não tinha, porém, como explicar isso a Larenz, já que nem ela entendia direito o que estava acontecendo. Tudo o que sabia era que se entregar a um homem como ele, agora, não seria simplesmente obter um prazer físico, como ele parecia supor. Aquilo equivaleria a vender sua alma. Ela balançou a cabeça outra vez, conseguindo, finalmente, enunciar uma palavra de sua garganta presa: — Não — disse ela, passando reto por ele, e saiu correndo. 21


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

Larenz permaneceu no silêncio da cozinha, tentando processar o que havia acontecido nos últimos minutos. Aquilo que havia começado tão promissoramente tinha se transformado num verdadeiro desastre. Ellery Dunant parecera á beira das lágrimas. Será que um simples beijo realmente á havia afetado tanto? Taciturno, Larenz foi até as janelas. A luz do sol brilhava sobre as poças d'água, fazendo com que a grama orvalhada parece-se recoberta de prata. Havia uma beleza estranha e especial naquele solar, e Larenz compreendeu por que Amelie havia pensado naquele lugar como pano de fundo para os novos vestidos da coleção que a De Luca's lançaria naquela próxima primavera. Ellery se parecia um pouco com seu amado solar, pensou ele. Cobria-se com roupas simples e usava penteados pouco lisonjeiros, mas não tinha como esconder sua beleza por baixo deles, uma beleza que ele enxergava em seus olhos com cor de ferida e na sua elegante estrutura óssea. Não apenas beleza, mas também desejo. Ele não tivera a intenção de beijá-la naquele exato momento. Aquela pia de cozinha em que estavam encostados não era o lugar mais confortável do mundo para uma cena de sedução. Assim que sentiu a maciez aveludada dos lábios dela contra seu dedo, porém — o contato direto de pele com pele —, ele não conseguiu pensar em mais nada. Não conseguiu querer outra coisa. Beijá-la não fora um capricho seu, mas uma necessidade. Larenz soltou um suspiro frustrado. O que teria significado aquele beijo para Ellery? A julgar por sua reação, ela parecia tê-lo considerado um despertar. Ao lembrar-se do olhar arrasado ao fugir dele, porém, Larenz se perguntou se ela, na verdade, não havia se sentido traída. Ele afastou aqueles pensamentos de sua mente. Não queria se perder em elucubrações a respeito de um simples beijo insignificante. Não se importava. Tudo o que queria era um fim de semana de prazer, e, se Ellery Dunant não podia lidar com isso, ele a deixaria em paz. Afinal, ela não tinha nada de especial. E, como ele não misturava mesmo prazer e negócios, era melhor se esquecer dela de uma vez. Fazer as malas. Seguir em frente. Ele era muito bom nisso.

CAPÍTULO QUATRO

Ellery não viu mais Larenz até o final do dia. Depois de que saiu correndo da cozinha como uma menina amedrontada, inundada de vergonha e raiva, ela havia subido para recolher os lençóis sujos. Precisava trabalhar para não ter que pensar. Aquilo porem, se mostrou impossível quando ela viu os lençóis revirados e as cinzas na grelha do quarto principal. Ellery encostou a uma das colunas da cama, repassando os pensamentos que havia imaginado na noite anterior — Larenz e Amelie naquela cama, diante do fogo... Tentando afugentar aqueles pensamentos de sua mente, ela tirou os lençóis da cama. Um perfume caro e enjoativo que ela reconheceu como sendo o de Amelie exalou dos lençóis, fazendo-a estremecer. Estava prestes a descer para levar a roupa de cama para baixo quando viu a porta do quarto ao lado do de Amelie entreaberta. E ela sempre mantinha as portas de todos os quartos sempre firmemente fechadas, para tentar manter algum calor nas Áreas principais. Ela entrou e se surpreendeu com a cama feita com capricho e um par de sapatos masculinos à beira dela. A mala de Larenz estava no diva, junto à janela, e sua capa de chuva pendurada no guarda-roupa. Quer dizer que Larenz havia dormido lá? Teria brigado com Amelie? Ou será que ele tinha realmente lhe dito a verdade? Ellery deu mais um passo em direção à cama e alisou a colcha desbotada. Depois, num 22


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

impulso travesso, se inclinou e cheirou o travesseiro. Ele exalava um odor de loção pós-barba cítrica. O cheiro de Larenz. Ela tentou recompor-se. Estava inesperadamente abalada, aliviada e cheia de incertezas, sabia também que não queria ser pega bisbilhotando o quarto de Larenz, por isso saiu rapidamente de lá e correu para colocar os lençóis na máquina de lavar. Pensamentos incertos e vagos, porém, povoaram sua mente pelo restante da tarde. Teria se equivocado a respeito de Larenz? Que tipo de homem era ele, afinal? — Então ele brigou com Amelie — resmungou ela para si mesma, enquanto seguia até a cozinha para cuidar do jantar. — Ele dormiu em outro quarto e ela foi embora, indignada. Isso não muda nada. Não mudava quem ela era. Beijar um homem daquele jeito — desejar um homem daquele jeito — ainda parecia uma traição a tudo aquilo que ela era e a todas as lições duramente aprendidas devido à traição que sofrerá por parte de outra pessoa — seu pai. O sol havia começado a se pôr e os gramados já estavam envoltos em meio às sombras escuras. Larenz havia partido em disparada em seu Lexus, pouco antes, naquela mesma tarde, e ainda não tinha voltado. Ellery não sabia se deveria preparar o jantar ou se contentava-se com sua sopa enlatada. Se voltasse, porém, Larenz certamente iria querer comer uma refeição. A idéia de esperar por ele, sozinha, naquela enorme sala de jantar envolta na penumbra, causou-lhe um frio na barriga. Ela afastou aqueles sentimentos do seu coração e fez um sanduíche de queijo para si. Comeuo sozinha, na mesa da cozinha, enquanto a escuridão envolvia o terreno. Embora passasse a maior parte do ano sozinha, ela estava especialmente consciente da casa vazia e do silêncio ao seu redor, naquela noite. Ellery resmungou. Estava ficando piegas outra vez. Deveria ir até a cidade, visitar uma professora que dava aula na mesma escola secundária que ela, sair um pouco do solar. Mas sabia que não faria nada daquilo. Estava inquieta demais, receosa demais, porque, tinha que reconhecer, estava esperando pela volta de Larenz. Ela se levantou abruptamente e colocou os pratos na pia, remoendo uns perguntas que ele havia lhe lançado aquela manhã; Por que está aqui. Ellery? Por que permanece aqui? Nem sei se você gosta mesmo desse solar. Tinha uma verdade. Às vezes, ela odiava aquela casa. Odiava as lembranças que haviam se constituído ali e que á haviam feito duvidar de quem ela era; odiava o fato de permanecer lá por causa da sensação de que aquilo era tudo o que lhe lembrava do que ela fora outrora. — Já chega — disse ela em voz alta. O fato de morar sozinha havia feito com que ela desenvolvesse o hábito de falar sozinha, embora aquelas palavras tivessem surtido pouco efeito sobre ela. Ellery não conseguiu parar de pensar naquele beijo, nem em como ele havia mexido profundamente com ela, abalando todos os seus desejos e medos até ela não saber mais qual era qual. Não conseguia parar de se lembrar como fora ser tomada nos braços por Larenz, sentir os lábios dele junto aos seus, sentir-se tocada, apreciada, e até mesmo, ousou ela pensar, amada. . Mas ela não era tola a ponto de imaginar, nem mesmo por um segundo, que aquilo tivesse algo a ver com amor. Aquele era um sentimento muito perigoso, assustador, proibido, especialmente com um homem como Larenz. Tudo o que ela queria — tudo o que ela podia querer — era um momento, uma noite de prazer ao lado dele, como Larenz havia prometido. Por que, então, havia fugido como uma virgem tímida depois do primeiro beijo? Por que não podia desfrutar daquilo que Larenz tinha para lhe oferecer, sem ficar tão apreensiva, ou pior, sem se sentir usada, traída? Cansada das perguntas que giravam inutilmente em sua cabeça, Ellery deixou a cozinha, ainda havia muita coisa a fazer. Sua lista de afazeres, porém, foi ficando cada vez menos atraente à 23


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

medida que ela foi seguindo de cômodo em cômodo, perguntando-se como e quando aquela casa que ela tanto adorara quando criança havia se transformado numa verdadeira prisão. Ela sabia muito bem a resposta. Tudo começara quando seu pai optara por viver duas vidas, em vez de apenas uma. Larenz parou o carro em frente ao Solar Maddock e gemeu em voz alta. Aquele lugar parecia ainda mais decrépito à noite. Havia passado a tarde dirigindo, sem saber em busca de quê. Talvez de um meio de esquecer-se do olhar de Ellery quando ele a beijara. Ou da sensação de tê-la em seus braços, frágil, preciosa e inesquecível. Mas não havia meio de esquecê-lo. O uísque que tomara no bar local servira apenas para aplacar minimamente o desejo que o havia importunado durante toda á tarde. Murmurando um xingamento, Larenz bateu a porta do seu Lexus e entrou pisando duro no solar. Deteve-se, porém, a meio caminho da porta principal, ao ver uma luz tremeluzindo nos fundos. Alarmado, Larenz logo pensou que pudesse se tratar de invasores, ladrões, assassinos ou estupradores. Pensou no quanto Ellery Dunant estava isolada naquele lugar e se assustou ao ver a luz novamente, que mais parecia uma tocha na mão de alguém. — Droga — esbravejou ele, sabendo que sua decisão tinha acabado de se desfazer em pedaços. E ele se importava com ela. Ellery puxou a lona de cima do Rolls Royce e suspirou. Era engraçado como, mesmo tendo permanecido anos guardado num celeiro, aquele carro ainda guardava seu brilho deslumbrante, engraçado também como ela quase havia se esquecido de sua existência, como havia se convencido a esquecer. Até Larenz tê-la forçado a lembrar. Maldito pai que a fizera amá-lo tanto assim. Maldito por ter escondido tanta coisa dela, maldito por ter morrido e tê-la transformado na mulher que ela era agora, sozinha e com medo de amar. Maldito. Maldito. Maldito. . Ellery ergueu as mãos para enxugar a reveladora umidade no canto de seus olhos. Respirou fundo e soltou o ar outra vez — tinha que se recompor —, e cobriu o Rolls Royce. Talvez ela o vendesse, afinal. Ao virar cuidadosamente em direção à porta do celeiro, devido a pouca luminosidade propiciada por sua tocha, ela se perguntou onde ele poderia estar. Será que ainda voltaria? Foi então que todos os pensamentos desapareceram de sua mente e ela foi lançada com toda a força contra a porta de celeiro, fazendo com que a tocha caísse de sua mão. Ellery não havia se dado conta de que tinha gritado — e que ainda o estava fazendo — até sentir uma mão cobrir sua boca. Mesmo em meio ao terror e ao choque, ela reconheceu o cheiro familiar. — Larenz? — disse ela, contra a mão dele. Ela ouviu o que só poderia ser um xingamento resmungado em italiano e então a mão dele deixou a sua boca. Larenz se curvou para pegar a tocha e a levou até o rosto dela. — O que você está fazendo... — O que você está fazendo — exigiu Larenz, com uma voz quase rude — aqui fora, no celeiro, no meio da madrugada? Achei que fosse um ladrão ou coisa pior. — Não pensou em perguntar primeiro? — retrucou Ellery, esfregando seu ombro, que certamente ficaria roxo. — De onde eu venho primeiro se age e depois se pergunta — disse Larenz asperamente, movendo a tocha a fim de examinar o corpo dela. — Você está bem? — Um pouco machucada — admitiu ela. — Não imaginou que eu pudesse estar avaliando minha propriedade? — No meio da noite? Não. — Larenz se deteve. — Eu sinto muito. Não queria machucar 24


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

você. Ellery se calou, surpresa e até mesmo comovida com a contrição na voz de Larenz. — Está tudo bem — disse ela, depois de um breve momento. — Eu já ia entrar mesmo. Ela começou a se afastar da porta, mas Larenz a deteve, com uma mão em seu ombro. — Por que estava aqui fora? — Veio olhar o carro? Ela percebeu uma espécie de compaixão em seu tom de voz, algo que ela não suportava. — Talvez eu esteja pensando em vendê-lo — disse ela, piscando repetidamente para conter as lágrimas e passando direto por ele. Como não conseguiria chegar á casa em meio àquela escuridão sem tropeçar e se machucar ainda mais, Ellery foi obrigada a esperar até que Larenz a alcançasse e lhe passas-se a tocha em silêncio. Eles caminharam pelos jardins sem pronunciar uma única palavra. Assim que chegou à cozinha, Ellery tirou as galochas e foi automaticamente pegar a grande chaleira de cobre. Precisava desesperadamente de uma xícara de chá, ou talvez precisasse algo mais forte. — Você deveria colocar um pouco de gelo no seu ombro. Ela enrijeceu. — Isto não é necessário. — Eu a joguei com força contra aquela porta — respondeu Larenz. — Se não o colocar, ficará roxa. — Não vou morrer por causa disso. — Por que está tão arredia? — murmurou Larenz com aquele olhar lânguido que Ellery estava começando a conhecer tão bem, e a temer e desejar ao mesmo tempo, escurecendo os olhos dele. — Sei muito bem que você tem um saco enorme de ervilhas congeladas aí. Vi-o ontem à noite, quando você tão prestativamente me forneceu gelo. Ele sorriu e Ellery perdeu o fôlego. Larenz abriu o congelador e remexeu em seu conteúdo, por um momento, antes de encontrar o que queria. —Aqui está. Ponha isso no seu ombro por algum tempo. Seria mais fácil ceder. Assim, Larenz, talvez, a deixasse em paz, ainda que grande parte dela não quisesse que ele o fizesse. Uma parte cada vez maior de si mesma queria que ele permanecesse... E que fizesse ainda mais. Muito mais. Ela não tinha como negar o desejo que a consumia, afastando qualquer sentimento de pesar e traição. Ellery engoliu em seco e desviou o olhar. — Está bem — disse ela, pressionando o saco de ervilhas contra o ombro. — Por que não deixa que eu faça isso? — murmurou ele. — Não... — Está com medo de que eu a beije novamente? — perguntou ele, respirando junto à orelha dela, com o maxilar a poucos milímetros dos seus lábios. O clima mudou completamente, de uma hora para outra, deixando a atmosfera ainda mais carregada. — Não é exatamente medo — balbuciou Ellery. Ela afastou a cabeça da tentação da pele de Larenz. Seu coração batia com força dentro do peito e sua boca estava seca. Ela estava consciente da respiração de Larenz acariciando seu rosto, mas não estava com medo, e, sim, desejosa. Dele. Ellery sentiu uma excitação tomar conta dela, fazendo com que seu corpo e sua mente se abrissem para aquela possibilidade. Tudo o que ela sabia era que queria que ele a beijasse outra vez e que fizesse ainda mais. Estava cansada de lutar contra seu desejo. Agindo como que por vontade própria, seu corpo se apoiou contra o dele, na ânsia de tocá-lo. Ele estava tão perto que ela podia roçar seus lábios contra a pele áspera e quente do seu maxilar. Seria praticamente um acidente... A chaleira começou a chiar com força e Ellery deu um salto para trás como se tivesse sido realmente queimada. O saco de ervilhas caiu no chão, espalhando seu conteúdo por toda parte. Larenz olhou para baixo, divertido. — Ai, meu Deus — disse Ellery, que desligou o fogão saindo, de costas para ele, sentindo o 25


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

sangue bombear rápido em suas veias. Estava tão perto de... — Por que você foi até o celeiro, Ellery? — Aceita uma xícara de chá? — perguntou ela. Ele sorriu e deu de ombros. — Não costumo tomar chá á essa hora, mas por que não? — Especialmente se vier com um pouquinho de conhaque. — Faz bem a você também, tenho certeza. —Tenho uma garrafa em algum lugar — resmungou Ellery, indo em direção da chaleira. Larenz se aproximou um pouco mais. — Por você foi novamente ao celeiro? — Já disse, estava checando as coisas — respondeu Ellery duramente. Ela estendeu a mão para pegar as xícaras e viu que estava tremendo. — Por que se importa tanto com isso? Larenz permaneceu em silêncio até Ellery servir o chá e lhe passar sua xícara. Ela se surpreendeu ao ver como os olhos dele haviam escurecido e seu rosto tinha ficado anguloso, parecendo repentinamente duro. — Não sei por que me importo — disse ele, finalmente, muito pensativo. — Eu me fiz a mesma pergunta durante toda á tarde. Ellery voltou a sentir aquele estranho aperto no peito e teve muita dificuldade de respirar, pôsse, então, a vasculhar um armário à procura do conhaque que ele havia pedido. — Está aqui, em algum lugar... Ela estava muito consciente da posição de Larenz, atrás dela, e da tensão que se acumulava entre eles e reverberava em seu próprio ventre. Estava consciente de seu próprio desejo crescente, ela ainda o queria. — Onde esteve toda á tarde? — perguntou ela, tentando manter um tom de voz tranqüilo. — Foi passear? — Digamos que sim. Eu dirigi muito. — Para onde? Aquela era uma conversa totalmente vazia. Ela não estava interessada em suas respostas, falava apenas para evitar fazer algo muito mais desesperado — e desejável. — Aqui está — disse Ellery ao encontrar o conhaque. Larenz segurou a garrafa pelo gargalo, envolvendo a mão de Ellery, com seus olhos intensos injetados nos dela, fazendo com que todos os seus pensamentos escapassem de sua cabeça. Ela se sentiu capturada por aquele olhar e teve a estranha sensação de que Larenz sentia o mesmo. Ellery não se moveu. Não podia. Sabia que, se ele a beijasse agora, ela não resistiria. Não queria resistir. Por que deveria? Estava trancada naquele solar, mantendo-o como alguma espécie de relicário de sua família, de uma vida que jamais havia realmente existido, há seis longos meses. Ela queria parar, nem que fosse por uma única noite. Parar de pensar, de temer, de se esconder. E começar a viver. Larenz estava lá, com os seus olhos fixos nos dela, seus lábios entreabertos e uma expressão faminta e intensa. E, de repente, Ellery teve certeza do que queria. Aquilo. Ela soltou a garrafa, pensando apenas em sua própria necessidade e no olhar receptivo de Larenz, deixando que ela escorregasse e se espatifasse aos seus pés. Nenhum dos dois, porém, reagiu aos cacos ou ao líquido que se espalharam pelo chão, e ao cheiro intenso de álcool que subiu em sua direção. Havia algo muito mais perigoso acontecendo naquele momento. Ellery não soube quem beijou quem primeiro. Não importava. Tudo o que importava era que ela havia ido parar nos braços de Larenz e que ele a estava beijando, seus lábios quentes e famintos colados aos dela. Seus braços enlaçaram o pescoço de Larenz, e ela enterrou os dedos no cabelo dele ao puxá-lo cada vez mais para perto de si. Como ela precisava daquilo... — O vidro... — Eu limparei depois — resmungou Ellery, virando a cabeça para reencontrar os lábios dele, ávida. — Prefiro não ter que levar pontos — murmurou ele, sorrindo contra os lábios dela. E, num movimento elegante e ágil, á tomou em seus braços, carregando-a para fora da cozinha, em direção à escada do solar. 26


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

Ellery se sentiu como uma boneca em seus braços, pequena e querida. — Onde fica seu quarto? — perguntou ele, para logo depois balançar a cabeça. — Esqueça se for parecido com aquele em que eu passei a noite de ontem, não quero ir para lá. — Pior — admitiu Ellery. — Qual é o lugar mais quente da casa? Ellery sentiu um aperto no peito outra vez. Queria realmente que aquilo acontecesse, mas tinha voltado a ficar apreensiva depois que o momento mais acalorado da cozinha havia passado. — O quarto principal, eu suponho — respondeu ela, após um momento — ou a sala de visitas, onde a lareira está acesa... Sua voz vacilou um pouco e Ellery fechou os olhos, embaraçada. — Está ficando com medo, não é? Larenz a colocou de volta no chão, fazendo com que o corpo dela deslizasse sensualmente contra o seu. Ergueu, então, o queixo dela com um dedo, para forçá-la a encará-lo. — Não é medo — corrigiu ela com um riso trêmulo, desviando o olhar. — Um pouco, talvez. Mais do que ver, ela sentiu o sorriso dele, e os dois permaneceram assim, na escuridão e no silêncio, com a casa envolta em sombras. O único som audível era o de suas próprias respirações. Ellery levou algum tempo para se dar conta de que Larenz não estava tentando convencê-la com palavras nem beijos, o que seria bem mais persuasivo. Ele estava lhe dando tempo para que ela pudesse decidir o que queria fazer. Lentamente, ela se inclinou contra ele e pousou a testa em seu peito. Larenz deslizou as mãos pelo corpo de Ellery e entrelaçou os seus dedos ao dela. Eles permaneceram assim, em silêncio, por vários momentos. Uma avalanche de pensamentos tomou conta da cabeça de Ellery. Ela se deu conta de que não tinha idéia do que estava fazendo... Nem por quê. Estava com medo, excitada e inesperadamente, um pouco triste também. Sabia, porém, que, se pudesse, faria aquele momento durar para sempre. Ficaria feliz de simplesmente permanecer ali, em meio à escuridão, tocando-o, sentindo sua respiração, seu calor, e sua mão apertando muito suavemente a dela. Ele não era o homem que ela havia imaginado. A constatação se insinuou em sua mente como um segredo bom. Pensara que Larenz de Luca era um mulherengo sem vergonha, e, embora tivesse sido realmente essa a impressão que ele havia lhe causado, Ellery reconheceu que tinha tirado conclusões precipitadas por medo. Medo de que qualquer homem que a tocasse, que chegasse a seu coração, pudesse acabar revelando ser como seu pai, traindo-a tão brutalmente quanto ele havia feito com a sua mãe. Deixando-a sozinha. Larenz, porém, havia demonstrado várias pequenas e inesperadas gentilezas que a impediram de se ater á suas suposições iniciais. De se esconder atrás delas. Tudo o que ela queria agora era esquecer... E sentir. Ellery ergueu a cabeça com os olhos ainda fechados e tocou os lábios de Larenz com os seus, o beijo não foi mais que um leve roçar, mas serviu de resposta à pergunta que Larenz havia lhe feito em silêncio. Sim. Ele a envolveu em seus braços e a puxou para junto de si. Ellery cedeu, sem trepidação ou medo. — Venha comigo.

27


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

CAPÍTULO CINCO Ela o seguiu até o andar de baixo, com os dedos entrelaçados aos de Larenz, conduzida por ele em sua própria casa. Seguiu-o sem precisar saber para onde estava indo, nem por que. Agora que havia tomado sua decisão, ela estava se sentindo surpreendentemente em paz; feliz por poder desfrutar daquele momento com Larenz, sem hesitações. Ele á levou até a sala de visitas com sua enorme lareira de tijolos, envolta agora nas sombras, onde a única luz que havia era um lampejo prateado da lua, já alta, visível apenas através das frestas das cortinas. — Suponho que esta lareira esteja funcionando — disse Larenz, agachando-se diante da mesma. Ellery se flagrou sorrindo. Costumava guardar a lenha para os hóspedes, mas se deu conta de que havia ficado feliz ao ver Larenz pegar os troncos empilhados e acender o fogo com perícia. Em questão de minutos, um fogo confortável estalava na lareira, e as chamas lançavam sombras alaranjadas pelo lugar e sobre o rosto de Larenz, fazendo com que ele parecesse um pouco diabólico, perigoso até. — Hesitando outra vez? — provocou Larenz suavemente. Ellery não pôde conter o riso, apesar de seu estado de nervos, pois ele parecia ler a sua mente. Ele me conhece tão bem. Aquele era um pensamento ridículo, já ela só o conhecia há cerca de 24 horas, mas Ellery não pôde se furtar a acreditar naquilo. — Venha cá — disse Larenz. Ele estava ajoelhado diante da lareira com o rosto parcialmente iluminado, e sua voz soou um tanto provocante e rude ao mesmo tempo. Ellery foi até ele. Permaneceu de pé, diante de Larenz; um pouco insegura, um pouco arfante. Larenz a puxou pela mão, e ela se ajoelhou à sua frente. Os troncos crepitaram e mudaram de posição, lançando algumas faíscas no tapete. Larenz as esfregou com os dedos. — Não podemos arruinar outro dos seus tapetes — murmurou ele. Ellery tentou sorrir. Estava muito nervosa. — Pelo menos este não é um Aubusson. — Você sabe exatamente quais são as antigüidades desta casa? — perguntou ele, deslizando a mão ao pela nuca de Ellery afagando seus músculos tensos. — Sim... Minha mãe catalogou tudo o que há aqui. — Ellery respirou fundo. Estava tendo muita dificuldade em se concentrar com os dedos ágeis de Larenz em seu pescoço. — Ela deixou uma lista. Eu a repassei assim que voltei. — Há quanto tempo foi isso? — Seis meses. Minha mãe ia vender este lugar, mas eu não podia... Ela se deteve de repente, sentindo um nó na garganta. — Não podia imaginar sua vida sem saber que o Solar Maddock estava em algum lugar? — Algo assim. — E onde está sua mãe agora? — Na Cornualha, mais feliz do que nunca. Mais feliz do que jamais fora ao lado de seu pai, acrescentou ela, em silêncio. Ela não queria mais conversar, ao menos não sobre a casa, nem sobre sua história, e Larenz pareceu perceber isso, pois sorriu e estendeu a mão para tirar a presilha do seu cabelo. — Tive vontade de ver seu cabelo desde a primeira vez em que a vi. — Há 24 horas? — provocou ela. — Foram 24 horas muito longas — respondeu Larenz, soltando o cabelo dela. Ellery quase sempre prendia o cabelo no alto da cabeça. Era mais prático e não havia ninguém por lá a quem quisesse impressionar. Ela própria se surpreendeu com sua reação sensual à queda de seu cabelo sobre seu rosto e ombros. Ainda mais quando Larenz enfiou os dedos nele, roçando o 28


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

polegar em seu rosto e em seu lábio cheio. — Lindo... Exatamente como eu havia imaginado. — Talvez, ainda melhor. — Você parece a Lady Ofshalott. — Você conhece esse poema? — perguntou Ellery, surpresa. A Balada de Tennyson era um de seus poemas preferidos. — Sabia que ele é baseado numa história italiana? Donna di Stiiloiln. Mas gosto mais da versão em inglês. "Ela tece noite e dia uma teia mágica..." — Depois roçou os lábios contra o maxilar dela. — Você deve ter lançado algum feitiço em mim. Ellery se emocionou com as palavras dele, apesar de uma parte mais lógica sua ter ciência de que ela não se parecia em nada com aquela mulher aprisionada em seu castelo, numa ilha, ansiando pelo belo Lancelot. Ao contrário da triste Lady Ofshalott, ela tinha mais domínio sobre sua vida e um destino mais feliz. Foi então que todos os pensamentos fugiram da mente atordoada de Ellery quando Larenz a beijou outra vez, movendo os seus lábios lentamente sobre os dela, explorando todos os seus contornos, enquanto a puxava para cada vez mais perto de si, e ela se rendeu completamente à carícia dele. Ela queria esquecer. Queria sentir. Sentir e não pensar. As mãos de Larenz deslizaram pela sua camisola, desabotoando agilmente a fileira de botões em suas costas. — Sonhei que você estava usando uma camisola assim — murmurou ele junto á seu pescoço, — Mal posso esperar para tirá-la. Ellery sorriu tremulamente. — Ela me mantém aquecida. — Ainda bem que acendi a lareira — respondeu Larenz, afastando suavemente a camisola dos seus ombros. A peça deslizou e caiu ao chão. Tudo o que Ellery estava usando agora era um par de meias de lã grossas. Estava desconfortavelmente consciente de sua própria nudez, ainda que sob aquela luz difusa. Larenz certamente mal podia vê-la, mas ela não pôde deixar de notar que ele ainda estava completamente vestido. — Isto está um pouco desigual — disse ela, tentando provocá-lo. — É verdade. Como podemos resolver essa situação? Ellery sabia exatamente o que fazer, sorrindo levemente e encorajada pelo próprio desejo — e pelo desejo de Larenz —, ela estendeu a mão em direção a ele. — Acho que posso ajudar. Ela puxou a camiseta de seu tronco enquanto Larenz levantava obedientemente os braços, observando-a com um sorriso lânguido. Seu peito reluziu em tons de bronze sob a luz do fogo e Ellery conteve a respiração. Ele era um homem lindo. E totalmente seu, naquela noite. Cautelosa, ela tocou o músculo firme do peito dele, deixando sua mão deslizar até o cós de seu jeans, onde se deteve. Ellery olhou para o rosto dele e o viu observando-a com um sorriso irônico, quase gentil. Ela se atrapalhou com o botão e soltou uma risadinha nervosa. — Quer que eu a ajude? — Isso é um pouco... Novo para mim. Aquilo era o máximo que ela estava disposta a confessar. A mão de Larenz cobriu a dela, incentivado-a mais uma vez, e quando finalmente abriu a calça dele. Poucos segundos depois, ele se viu desprovido de toda a sua roupa, e Ellery, de suas meias, nus, ambos se estenderam diante do fogo, enquanto as chamas lançavam sombras cintilantes de cor âmbar sobre os seus corpos. Larenz correu uma mão ao longo da panturrilha dela em direção à coxa e então até seu quadril, antes de tomar a direção de um dos seios dela em sua mão. — Você é linda, disse ele com tamanha sinceridade que Ellery sentiu seus olhos se encherem 29


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

de lágrimas. Ela não acreditava nele. Não podia acreditar. Sabia que não tinha nada de especial — seus cabelos eram louros, seus olhos tinham uma cor estranha e seu corpo era regular. Não queria que ele usasse seus chavões para seduzi-la; não suportava mentiras. Foi por isso que ela se virou e cobriu a boca de Larenz, pressionando seu corpo contra o dele e enlaçando-o com, seus braços, sentindo sua suavidade feminina contra o peito e as coxas firmes e másculas dele. Larenz reagiu, aprofundando o beijo desesperado de Ellery, e deixou suas mãos vagarem pela nudez dela, que, de olhos fechados, se rendia ao prazer que corria em suas veias como uma droga, apagando todas as lembranças e pesares. Foi fácil demais se abandonar ao momento, deixar seu corpo assumir o controle de sua mente, enquanto Larenz a acariciava, beijava e tocava, amando cada centímetro do seu corpo e fazendo com que ela se contorcesse, gemesse e gritasse o nome dele, cravando as unhas no tapete surrado. Em determinado momento, Larenz hesitou, equilibrando seu corpo sobre o dela. — Você está protegida? —Ahnn... Não —: gaguejou ela, pensando em seu coração. Seu coração estava perigosamente exposto, mas era evidente que Larenz estava se referindo a seu corpo. Ele rolou para longe dela e remexeu em sua roupa. — Você já estava preparado — disse Ellery, num misto de dor e decepção. — Digamos esperançoso — murmurou ele, colocando a camisinha. Ellery afastou todos os pensamentos de sua mente e voltou a se entregar ao prazer. Sentiu uma pequena pontada de dor quando Larenz penetrou sua inocência, e o ouviu arfar, surpreso. Depois, fechou os olhos e empurrou o corpo para á frente, abrindo-se para ele. Após uma minúscula pausa, Larenz voltou a se aninhar profundamente dentro dela, gemendo de desejo e de satisfação contra seus lábios. Ellery sentiu as centelhas de prazer obliterarem a dor, tanto de seu corpo quanto de seu coração, para então se transformarem em grandes ondas numa maré de saciedade. Eles permaneceram enrascados, suas peles douradas sob a pouca luz do fogo que já se extinguia na lareira. Larenz começou a traçar círculos na pele dela com as pontas dos dedos, enquanto Ellery mantinha a cabeça em seu ombro. — Você devia ter me contado que era virgem. Embora tivesse lhe falado num tom lânguido e sensual, Ellery percebeu que havia algo de diferente sob o tom dele. Indignação, talvez. Ela tentou não enrijecer. Será que não havia sido uma amante suficientemente boa para ele? — Não achei que isso fosse importante — disse ela, dando de ombros. Sua virgindade, por mais estranho que parecesse, não havia sequer lhe passado pela mente ao considerar a hipótese de se entregar a Larenz. Na verdade, havia se preocupado mais com a inocência e a segurança de sua alma e de seu coração do que com a de seu corpo. Os dedos de Larenz se detiveram sobre a pele dela. — A primeira vez de uma mulher sempre é algo muito importante. Se eu soubesse... Ellery se apoiou sobre um cotovelo, ousando olhar para o rosto pensativo de Larenz. — Teria tomado mais cuidado? Ou, quem sabe, nem sequer teria tomado a iniciativa? Ele soltou um suspiro que não continha resposta alguma. — Eu só gostaria de ter sabido. Suavemente, ele conduziu a cabeça de Ellery de volta ao seu ombro e, quando ela se acomodou, começou a afagar as suas têmporas. Ela fechou os olhos, sentindo-se repentinamente quase sonolenta. — Não achei que fizesse diferença — disse ela, depois, de um momento. — Decidi que o queria e pronto. — Ah, é? — provocou Larenz, parecendo se divertir. — E eu aqui pensando que era eu quem havia decidido que a queria. — Bem — disse Ellery, mal contendo um bocejo, — acho que foi mútuo. — É verdade, dormigliona. 30


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

Ela riu e se aninhou ainda mais à maciez do ombro dele, feliz por estar nos braços de Larenz. Ele, porém, se levantou num movimento ágil e a pegou no colo. Ellery estava sonolenta e saciada demais para fazer outra coisa que não se enrascar nele e deixar que ele a carregasse para onde quisesse. Larenz caminhou pelos cômodos escuros e vazios do solar, magnificamente nu, até chegar ao quarto principal, cujos lençóis Ellery havia trocado naquela mesma tarde. Ele afastou a colcha de cetim e a pousou sobre a cama. Ela não conseguiu ver o rosto dele, nem sua expressão em meio à escuridão, mas sorriu, esperando que ele se deitasse ao seu lado e a tomasse em seus braços mais uma vez. Mas Larenz não o fez. Ele hesitou ou pareceu fazê-lo. Depois se curvou e beijou-a levemente na testa. — Tenha doces sonhos, minha Lady Ofshalott. E então, antes que Ellery pudesse sequer respirar, ele se foi. Ela ouviu o clique da porta se fechando e então o som dos passos de Larenz pelo corredor. Sozinha, em meio à escuridão, Ellery teve consciência dos lençóis escorregadios e frios contra seus membros nus e, pior, do frio que invadia seu coração. Por que Larenz a havia deixado tão de repente? Ela, porém, sabia a resposta amarga para aquela pergunta. Aquela noite não havia passado disso: uma única noite, que havia acabado. Ela nunca deveria ter esperado algo mais que isso. Estivera feliz há poucos minutos, deixando-se levar por um sono satisfeito, mas agora, deitada ali, estava com frio, porem desperta. Ela se levantou da cama para pegar um ili>-*, Kiiipius que havia pendurado no guarda-roupa, numa li-nliiliviuli' loi uiir o solar Maddock mais sofisticado do que em ou podei 111 ser.* Desceu, então, pé por pé, não querendo que Larenz se desse conta de sua presença. Mas ele não estava lá embaixo; parecia ter desaparecido completamente. Ellery se perguntou se ele havia deixado o solar, e se aquele breve beijo havia sido um adeus. Então afastou aqueles pensamentos de sua mente. Ao entrar na sala de visitas, porém, e ver sua roupa dispersa e as cinzas do fogo que Larenz havia acendido, ela ouviu a sua própria arfada de dor. Envolvendo a si mesma num abraço, ela respirou fundo algumas vezes para se recompor, e então tomou a direção da cozinha. Precisava de uma xícara de chá. A desordem na cozinha, porém, contava sua própria história triste. As ervilhas e os cacos de vidro espalhados pelo chão pareciam condená-la por sua loucura. Ela ergueu o queixo e ajeitou os ombros ao pegar a vassoura e a pá de lixo. Nada daquilo deveria surpreendê-la. Tudo estava acontecendo conforme ela havia esperado, e querido, até, quando se permitira beijar Larenz. Uma noite de prazer, uma chance de esquecer — ao menos por um momento. Agora teria que lidar com suas lembranças. E com seu arrependimento. Ellery se curvou a fim de dar cabo daquela desordem, á fim de conter seus pensamentos. Tinha se levantado para jogar o lixo fora quando avistou seu próprio rosto na vidraça escurecida. Um rosto fantasmagoricamente pálido emoldurado pelos cabelos claros. Exatamente como a condenada Lady Ofshalott. Incapaz de se conter mais, Ellery deixou que as lágrimas corressem lentamente pelas suas faces. Sozinho em seu quarto, Larenz soltou um suspiro taciturno, um som inteiramente em desacordo com a lânguida saciedade de seu corpo. Apesar de seu corpo ainda latejar, lembrar e desejar mais, sua mente estava friamente listando todos os motivos pelos quais ele deveria se afastar imediatamente de Ellery Dunant. Aquela noite havia sido um erro. Um grande erro. Ele sempre escolhera suas parceiras com muito cuidado, deixando bem claro o que elas poderiam esperar dele: nada. Nada além de uma noite de prazer, talvez uma semana. Mas, quando Ellery se aninhou em seus braços e ele sentiu o modo como ela se adequava perfeitamente ali, Larenz compreendeu que ela esperava muito mais que isso. 31


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

Podia sentir isso em seu corpo macio e flexível e no pequeno suspiro satisfeito que ela havia emitido. No fato de ela ter sido virgem até aquele momento. Larenz não tinha esperado aquilo; ela já devia ter uns 20 e poucos anos. Havia escolhido entregar sua inocência a ele? No piso de sua própria casa aos pedaços? Ele deu as costas para a janela, incapaz de lidar com a crescente vergonha que se abatia sobre ele. Não levava virgens para a cama. Não as possuía no assoalho de suas casas ancestrais. Não partia seus corações. Sozinho em seu quarto, consciente do ranger dos degraus, Larenz se deu conta de que poderia ter acabado de fazer exatamente isso. Ou faria, ainda, com o passar do tempo. Ele não tinha a menor intenção de continuar por ali a ponto de Ellery Dunant se apaixonar por ele e pensar nele como seu Sir Lancelot. Aquela não era uma história com final feliz. Larenz sabia muito bem que isso não existia. E havia aprendido-o a duras penas, com as decepções sofridas em sua própria vida e não tinha a menor intenção de passar pelo mesmo tipo de rejeição outra vez. Apesar daquelas resoluções, porém, e da expressão severa em seu rosto, Larenz não conseguiu impedir que sua mente imaginasse os olhos cor de violeta de Ellery, que seu corpo se lembrasse da maciez dela em seus braços e que ambos quisessem mais dela. Ellery Dunant era um luxo e uma responsabilidade com as quais ele não podia arcar. Determinado, Larenz se proibiu de continuar pensando nela, mas o sono já o havia deixado há muito tempo.

CAPÍTULO SEIS

Ellery acordou na manhã seguinte com o sol já alto e um Frio intenso. Levantou da cama, atordoada. Devia ter adormecido, embora não se sentisse como se tivesse conseguido fazê-lo. Ela a procurou desajeitadamente sua roupa, tentando dissipar o nevoeiro que a havia envolvido desde que Larenz á tinha deixara, na noite anterior. Disse a si mesma que não tinha motivos para se sentir daquele jeito. Ela, certamente, não havia esperado outra coisa. Não tinha por que estar magoada. Uma vez vestida, e com o cabelo preso num coque firme — nada de Lady Ofshalott esta manhã, — Ellery desceu as escadas. Não tinha idéia se Larenz estava esperando pelo café da manhã, mas estava decidida a levar o dia da forma mais natural possível, ainda que o pensamento a fizesse estremecer. A cozinha a sufocou com sua normalidade. Parecia que nada havia mudado. Que ela não havia mudado. Mas Ellery sabia que aquilo não era verdade. Podia senti-lo na leve dor entre as suas coxas e na dor bem mais persistente em seu coração. Severamente determinada, ela se pôs a quebrar os ovos e preparar as torradas, perguntando-se se Larenz sequer desceria. Será que ele tinha ido embora? A casa parecia ecoar vazia, ao seu redor. Não iria pensar nele. Preencheria a sua mente com os detalhes triviais do seu dia a dia que a haviam ocupado até que ele entrar em sua vida... Pronto, lá estava ela pensando nele outra vez. Ellery gemeu alto. Ela deixou os ovos borbulhando no fogão e foi pegar o leite que a leiteria local deixava em sua porta dia sim, dia não. A luz do sol banhou o seu rosto ao abrir a porta da cozinha, num lembrete cruel de que nada havia mudado durante a noite, ainda que ela tivesse. — Bom dia. Ellery se virou rapidamente, quase deixando escapar o leite, e engoliu em seco. Larenz estava na cozinha, usando um terno azul-marinho, com um casaco pendurando em um dos braços. Ellery 32


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

soube que ele havia vindo se despedir. O sol por trás de Ellery formava uma aura dourada ao redor de seu cabelo claro. Ela parecia uma personagem de um quadro de Constable. Seus olhos estavam arregalados e pareciam chocados, da mesma cor dos círculos abaixo deles. Era evidente que ela não tinha conseguido dormir direito. Assim como ele. Apesar de sua firme decisão de partir naquela mesma manhã e deixar aquela mulher e todas as complicações desnecessárias e indesejáveis que viriam com ela para trás, Larenz se flagrou estupefato, sentindo uma tensão crescente em seu peito. Ellery estava encantadora, frágil e ao mesmo tempo irradiando uma enorme força interior de dentro dela, apesar de toda a dor e mágoa escondidas em seus olhos. Ele a havia magoado. Era isso o que acontecia quando uma pessoa se abria para algo além de um breve prazer físico. Ele havia tirado algo dela, algo muito precioso, e iria magoá-la agora, ao partir. Mesmo sem querer magoá-la... Nem partir. — Bom dia — respondeu Ellery, tentando manter um tom natural. Ela fechou a porta e colocou o leite na geladeira. Tentou pensar em algo para dizer, mas mesmo as maiores banalidades lhe pareceram carregadas de significado. Dormiu bem? Não parecia uma boa idéia. — Vai querer a fritada esta manhã? — disse ela, finalmente, voltando-se, então, para os ovos que haviam cozinhando demais e ficado borrachudos. — Se já a estiver preparando... — Caso prefira tomar apenas um café — disse ela, forçando-se a sorrir. — Tudo bem. Os ovos cozinharam um pouco demais, mesmo. Larenz olhou para a panela com um sorriso. — Que tal um meio-termo? Café com torradas. Se você me acompanhar. Ela lhe lançou um olhar assustado. Larenz sorriu, com uma expressão indecifrável. Ele sabia como remover qualquer expressão de seu rosto, pensou ela, ressentida. Ela não tinha a menor idéia do que ele estava pensando e tinha a péssima sensação de que era totalmente transparente aos olhos dele. — Muito bem. Ellery serviu duas xícaras de café e pegou as torradas. Larenz pendurou o casaco sobre uma cadeira e eles se sentaram, um em frente ao outro. O constrangimento era palpável e insuportável. — Está indo embora? — perguntou ela, naquele mesmo tom de voz horrível. — Eu nem sei onde você mora. Está voltando para a Itália ou... — Ela deixou a frase no meio quando se deu conta de que ele talvez não quisesse que ela soubesse onde ele morava. Não queria dar a impressão de que o estava encostando contra a parede. — Eu divido meu tempo entre Londres e Milão — respondeu Larenz. Ellery deu uma mordida em sua torrada, mas ela pareceu pó em sua boca. — Um estilo de vida bem movimentado — disse ela, finalmente, depois de conseguir engolir aquele pedaço. — Bastante — disse Larenz, erguendo sua xícara para então recolocá-la sobre a mesa logo em seguida, sem tomar um gole de café sequer. — Você poderia vir comigo. Ellery ficou olhando para ele, certa de que não tinha ouvido direito. — Perdão? — Você poderia vir comigo — repetiu Larenz, parecendo surpreso também, como se não tivesse esperado dizer aquilo. Ela balançou a cabeça lentamente, num misto de confusão e esperança. — Ir com você? Para onde? — Londres, e então, Milão — disse Larenz, já refeito. — Tenho que tratar de alguns negócios, mas seria... Bom... Ter companhia. Você não tem hóspedes agendados para a as próximas semanas, ou tem? — Ainda não. As palavras próximas semanas ecoaram em sua mente. Seria esta a duração daquele... Caso? 33


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

— Eu leciono na escola local — acrescentou ela —, mas estamos de férias nessa semana. — Por que não vem comigo, então? Você tiraria uma folga e nós poderíamos elaborar os detalhes da sessão de fotos. — Ainda está pensando nisso? — É claro. A chefe de minha equipe de Relações Públicas está decidida a usar o solar. — Você poderia simplesmente me convidar para jantar. — Poderia — concordou Larenz, sorrindo tenuamente — mas esta viagem não tem nada a ver com necessidade. Ele pousou a sua xícara e a encarou com uma honestidade que ela não havia esperado uma vulnerabilidade que atingia seu coração. Não me toque desse jeito com seus olhos. Não me dê sorrisos lindos. Não faça com que eu me apai... — Quero que venha comigo porque quero estar com você. O que aconteceu entre nós ontem à noite... Foi bom. — Ele arqueou as sobrancelhas. — Não foi? Ellery baixou o olhar. — Sim, foi — murmurou ela. Aquilo era uma extrema simplificação do que eles haviam compartilhado, sem falar na dor e na tristeza que ela sentira depois. Larenz se levantou e foi até ela, para pegar em sua mão. Ellery não resistiu, levantou-se também, saboreando a proximidade dele, o cheiro de sua loção pós-barba, seu calor e sua força. — Venha comigo, Ellery —- disse Larenz, entrelaçando seus dedos aos dela. — Por uma semana? — Sim. É tudo o que tenho a oferecer. Então aquelas eram suas condições. Uma semana, depois da qual ele a deixaria para sempre e ela retornaria para a semi vida que havia criado para si mesma. Ela abriu a boca, mas não conseguiu dizer coisa alguma. O não definitivo não veio, pois, apesar de todas as razões em contrário, ela queria ir. Queria escapar daquela casa e de sua vida, e queria estar com Larenz. — Ellery? — incitou Larenz suavemente, fazendo com que ela se lembrasse de como ele havia lhe dado espaço para decidir o que queria na noite anterior. E se ela tornasse suas aquelas condições? Não queria mesmo estabelecer qualquer espécie de relacionamento; havia se afastado daquele tipo de coisa de propósito, para se proteger. A idéia era sedutora. Sua mãe ficava à mercê dos caprichos de seu pai, esperando que ele voltasse. Ellery não queria ser assim. Poderia desfrutar daquela semana ao máximo e depois ir embora, com o coração intacto. Aquilo pensou ela repentinamente, poderia ser exatamente do que ela estava precisando, em muitos sentidos. Ela apertou Os dedos de Larenz. — Eu irei com você. Larenz esperou na cozinha enquanto ela fazia as malas, estava inquieto, impaciente e até mesmo um pouco esperançoso. Não tinha idéia do que o havia levado a convidar Ellery para acompanhá-lo a Londres. Não tivera nenhuma intenção de fazê-lo. Havia ido até a cozinha apenas para se despedir, e então se flagrou dizendo algo completamente diferente e desejando que ela viesse com ele. Desejando-a. A idéia o alarmou. Apesar de ter ido contra todas as suas próprias regras, levando uma virgem para a cama e misturando negócios e prazer, ele não quebraria aquela. Depois de uma semana, tudo estaria terminado. Larenz esperou por ela no carro. Ellery percebeu sua impaciência, apesar de ele não dizer coisa alguma, nem olhar para o relógio. Estava pronto para ir embora, para seguir em frente. E, dentro de uma semana, estaria pronto para seguir em frente outra vez. Ela também. — Precisa avisar alguém? — perguntou ele quando Ellery se acomodou no carro, ao seu lado. 34


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

— Acho que não vai acontecer nada demais nesses poucos dias, não é? Ellery assentiu. — Eu estava planejando dar um trato na casa esta semana, mas acho que isso pode esperar. — Ótimo — disse Larenz, com firmeza, e ligou o motor. — É estranho ir embora assim, — admitiu ela, com um risinho nervoso, quando Larenz deu a partida, — mesmo que seja por pouco tempo. Queria deixar bem claro que havia compreendido as regras. E que aquelas eram suas regras também. Larenz lhe lançou um breve sorriso. — Essa folga lhe fará bem. Ellery enrijeceu. — Não encare isso como alguma espécie de boa ação — advertiu ela. — Estou indo com você porque quero. — A escolha é minha, — Ela o encarou. — Também não quero nada além de uma semana, Larenz. Um lampejo de surpresa cruzou o rosto dele, seguido pelo que só podia ser satisfação. — Ótimo — disse ele, contraindo os lábios. Ellery se recostou em seu assento, feliz por ter conseguido definir sua posição. Eles não voltaram a se falar até deixar a cidade e alcançar a estrada principal. — Então você leciona — comentou ele. — Posso imaginá-la lançando um daqueles olhares severos para uma classe repleta de meninos indisciplinados. Ellery riu. — Na verdade, é uma turma só de meninas. Eu ensinava em tempo integral em Londres, mas desisti disso quando me mudei para cá. Felizmente, encontrei um trabalho de meio-período. Uma das professoras estava saindo de licença maternidade. — E o que você vai fazer quando ela voltar? Ellery deu de ombros. — Para falar a verdade, ainda não fiz nenhum plano á longo prazo, mas sei que não vou poder me agarrar ao solar para sempre. Larenz olhou para ela com certa compaixão. — Suponho que a pergunta seguinte seja, por que, sequer, agarrar-se a ele? — É uma boa pergunta, para a qual eu ainda não encontrei uma boa resposta. Ainda não estou preparada para deixar o solar. Todos os meus amigos acham que estou louca, é claro. — Pois eu acho você muito corajosa. Nem todo mundo é capaz de efetivamente fazer alguma coisa como você. A maioria das pessoas simplesmente deixaria isso para lá e ficaria deprimida. — Talvez fosse melhor. — Você realmente acredita nisso? Não acha melhor agir e viver de verdade em vez de deixar a vida passar em branco? Ellery engoliu em seco, surpresa com a intensidade na voz dele. Sim, ela queria viver a vida. Queria agir. Não era por isso que estava ali? Uma hora depois, Larenz parou o carro diante do The Berkeley, um hotel impressionante da Belgrávia. Ellery perdeu o fôlego com o luxo daquele lugar. Devia ter esperado por aquilo. Afinal, Larenz de Luca era um homem muito poderoso e bem-sucedido. — Você vem sempre aqui? — perguntou ela, quando Larenz lhe fez um gesto para entrar no elevador. — Mantenho uma suíte reservada para meu uso pessoal — respondeu Larenz, dando de ombros. — Quer dizer, sempre? A idéia de pagar milhares de libras para manter uma reserva eterna num hotel parecia não apenas inacreditável, mas um verdadeiro desperdício, especialmente se pensasse em sua própria condição financeira. Ela nem sequer conseguia imaginar como era ser tão rico e privilegiado. — Só quando sei que vou passar algum tempo fora do país. — Ele sorriu levemente. — Não sou um perdulário, Ellery. Não cheguei aonde cheguei jogando dinheiro fora. Aquela declaração direta a deixou intrigada. 35


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

— E de onde foi que você veio? A campainha do elevador ressoou e as portas se abriram. Com um gesto, Larenz indicou que ela entrasse nos aposentos a sua frente. — Eu já lhe disse, de uma cidade perto de Spoleto — respondeu ele, embora Ellery tivesse certeza de que ele sabia, muito bem que ela estava se referindo a outra coisa. Tudo, porém, silenciou, diante do esplendor da suíte. — E deslumbrante. — Estava tão acostumada ao estado deplorável do solar que todo aquele luxo e opulência a deixaram estupefata. — Nem acredito que estou aqui — admitiu ela com um risinho. Larenz se aproximou dela por trás enquanto Ellery fitava silenciosamente a cama king size repleta de travesseiros de seda e pousou as mãos levemente sobre os ombros dela. Ellery estremece sob o seu toque. — Quero que você desfrute de tudo — murmurou ele. — Deixe-me mimá-la, Ellery. Eu quero fazer isso. As palavras dele provocaram um arrepio de desconforto em sua espinha; porém, certa ou não, ela queria uma semana com Larenz. Queria ser cortejada, seduzida. Queria ser carregada por aquele turbilhão maravilhoso e ser carregada para onde quer que ele a conduzisse. Ao final de uma semana, ela aterrissaria e voltaria à realidade, feliz e satisfeita. Ellery se virou para encará-lo, com um sorrisinho felino que nunca havia sentido em seu rosto antes, e passou os braços em torno do pescoço dele. — Está bem — concordou ela, num murmúrio rouco quando Larenz a puxou mais para perto de si, — se você insiste. O sorriso de Larenz fez com que ela soubesse que ele havia gostado de sua resposta. Eles almoçaram tarde, no quarto, tomando várias taças de champanhe. No fim da tarde, Ellery estava maravilhosamente relaxada e até mesmo um pouco sonolenta. — Tenho que checar algumas coisas — disse Larenz, quando uma camareira entrou no quarto para retirar os pratos. — Por que não descansa um pouco e toma um bom banho? Temos reservas no restaurante do hotel para esta noite. — Está bem — concordou Ellery. Assim que Larenz saiu do quarto, ela tirou os sapatos e afastou a coberta de seda da cama. Ao se enfiar entre os lençóis macios, uma nova sensação de estranheza tomou conta dela. Alguns segundos depois ouviu-o falar em voz baixa e concluiu que ele devia estar ao telefone. Com quem? Quais eram os negócios de que ele precisava tratar? Ela sabia muito pouco a respeito dele. Era assim que ela queria que fosse, lembrou Ellery a si mesma. Não estava buscando viver um grande amor, ainda mais com um homem como Larenz de Luca: rico e indiferente. Tudo o que ele sentia por ela — tudo o que podia sentir — era uma efêmera atração física; ela sabia disso. Não estava tão desesperada, nem iludida a ponto de achar que algo poderia acontecer em conseqüência daquela semana fora do tempo e do espaço. Sabia o que o amor fazia com as pessoas, o que um homem podia fazer a uma mulher. Tinha visto sua mãe murchar devido à falta de amor por parte de seu pai e não queria aquele tipo de vida para si. Fora por isso que ela se mantivera virgem até a noite anterior, que evitara qualquer tipo de relacionamento mais sério na faculdade, e que se protegia de qualquer coisa ou pessoa que pudesse tocar seu coração. E era por isso que ela iria acabar sozinha. Mas era também por isso que a oferta de Larenz de passar uma única semana a seu lado lhe caíra como uma luva.

CAPÍTULO SETE 36


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

Ellery despertou com o céu carregado de nuvens roxas e o quarto envolto em sombras, ouviu um farfalhar do cetim na ponta da cama e soube que Larenz estava lá. Ela percebeu sua presença e sentiu o seu cheiro, e, quando ele pousou a mão em sua perna, sentiu também o seu calor reconfortante mesmo através do espesso edredom. — Olá, dormigliona. Ela se enfiou um pouco mais sob as cobertas e Larenz deslizou sua mão em direção à coxa dela. — O que significa isso? — Dorminhoca. Você dormiu por mais de três horas. — Nossa! — Ellery sentou-se na cama, um pouco insegura depois de ter despertado por completo. — Eu raramente cochilo. Há sempre tanto a fazer. — Mais uma razão para você descansar. Tudo o que você tem a fazer aqui é desfrutar. Ellery sorriu e se espreguiçou sob as cobertas. — Parece simples. — E é. Ellery não pôde divisar a expressão no rosto de Larenz na penumbra, mas teve total consciência do clima que estava se instalando entre eles, do desejo que crescia fundo dentro de si. Ela se inclinou para á frente, ansiosa. Larenz afastou a mão da perna dela. — Eu lhe preparei um banho — disse ele, tirando-a da cama. — Você nem sequer se mexeu quando eu entrei aqui para fazê-lo. Ellery se recostou contra os travesseiros, sentindo a decepção corroer sua breve felicidade. Quisera que Larenz a beijasse, mais até. Quisera estar nos braços dele outra vez, quisera que ele a tivesse feito esquecer e lembrar ao mesmo tempo, numa doce mistura de desejo e satisfação... — Vamos, a água está ficando fria. E então saiu do quarto. Pouco depois, Ellery saltou da cama e abriu a porta do banheiro da suíte. Uma enorme banheira de hidromassagem incrustada no mármore prata acinzentado cheia de espumas de bolhas perfumadas e uma toalha felpuda pousada com capricho ao seu lado esperavam por ela. A simples visão daquele banho fez Ellery sentir todos os seus músculos doloridos. Aquilo não se comparava, nem de longe, aos banhos de chuveiro mornos e às bolsas de água quente do Solar Maddock. — Este hotel deve ter um boiler incrível — disse ela em voz alta ao tirar a roupa e, alguns segundos mais tarde, mergulhar grata na água fumegante e perfumada. Ela recostou a cabeça no mármore e fechou os olhos. Não sabia há quanto tempo estava lá, relaxada o suficiente para tirar uma soneca, quando ouviu a porta se abrir, e arregalou os olhos. — Oi. Lá estava Larenz, junto à porta, com as mangas de sua camisa impecavelmente branca enroladas até os cotovelos. Ellery entrou mais fundo dentro d'água grata à espuma que a cobria. Apesar de ser ridículo, ela estava tímida. Não estava acostumada àquilo. Nem sequer sabia como os amantes agiam. Mal sabia como flertar. — Achei que poderia ajudá-la a lavar o cabelo — disse Larenz. Ele se sentou na ponta da banheira, e Ellery teve extrema consciência, tanto da proximidade dele quanto de sua própria nudez. — Eu não... — começou ela, mas Larenz sorriu e balançou a cabeça. — O prazer será todo meu, pode acreditar — disse ele, afastando um floco de espuma do rosto dela. — Está com vergonha de mim, depois de tudo o que fizemos de tudo o que fomos um para o outro? Ellery balançou a cabeça instintivamente. A pergunta de Larenz, porém, era bastante profunda, e ela se perguntou se ele o havia feito deliberadamente. O que, exatamente, eles tinham sido um para o outro? — Está bem — cedeu ela, finalmente, inclinando-se para á frente de modo que ele pudesse 37


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

acessar o seu cabelo, preso no alto de sua cabeça. — Obrigada. Larenz sorriu e soltou seu cabelo, que caiu indisciplinadamente sobre seus ombros e costas. Ellery percebeu o olhar quase hipnotizado de Larenz, criando uma força magnética entre eles, cada vez mais intensa. — Recoste-se um pouco. Ellery o fez ciente do quão vulnerável se sentia ao aninhar a cabeça no braço de Larenz. Ela fechou os olhos quando ele despejou a água quente sobre sua cabeça até molhar completamente seu cabelo. Depois, pegou o xampu e começou a massagear a sua cabeça e têmporas com dedos firmes, fazendo com que um gemido baixo de prazer escapasse dos lábios dela. Suas mãos deslizaram até a altura dos ombros, massageando aqueles músculos também, até que quase os polegares alcançassem seus seios. — Hora de enxaguar — murmurou ele, e Ellery arqueou o corpo para trás para que a água não entrasse em seus olhos, com a cabeça ainda aninhada nas mãos dele. Estava intensamente consciente de quão íntima era aquela experiência, e do quanto aquilo estava instigando seu desejo. — Ellery... O apelo contido em seu nome pronunciado daquela maneira por ele fez com que ela abrisse os olhos abruptamente, atordoada e grata por perceber que ele estava sentindo o mesmo ao ver a chama de desejo em seus olhos ardentes, cor de safira. Os lábios dela se entreabriram, e ela não conseguiu pensar em nada que a fizesse desistir da idéia: — Beije-me. Larenz obedeceu, inclinando-se para cobrir os lábios dela com os seus. As mãos de Ellery se ergueram por vontade própria, agarrando o colarinho da camisa dele, sem se preocupar se o molharia. O beijo prosseguiu interminavelmente, parecendo nunca ser o suficiente. Ellery devia ter emitido algum protesto ao sentir os lábios de Larenz se afastarem dos seus, pois percebeu um sorriso lânguido na voz dele: — Eu não quero afogá-la. Com agilidade, ele a puxou para cima e a carregou para fora do banheiro, assim como fizera no solar. Molhada e nua, Ellery se aninhou a ele. Nunca se sentira tão segura e querida quanto nos braços de Larenz. Exceto, talvez, quando ele a pousou na cama e olhou fixamente para ela; não com desejo, mas deslumbrado. Algo se remexeu dentro dela. Ellery sentiu sua alma se abrir como nunca havia sentido antes, nem mesmo quando seu corpo ansiara pelo dele, mas não ousou questionar o que estava sentindo. Ela enlaçou os ombros dele, trazendo-o para perto de si. Necessitava da pele dele contra a sua. — Roupa demais — resmungou ela. Rindo, Larenz se afastou brevemente para tirar a camisa úmida. Seus corpos, então, se alinharam perfeitamente, e nenhuma objeção ou pensamento ocupou mais a mente dela. Eles ainda estavam deitados no quarto, agora praticamente às escuras, entrelaçados um ao outro, quando Larenz olhou o relógio e murmurou: — Se não nos apressarmos, perderemos nossa reserva para o jantar. Ele se levantou da cama e começou a caminhar pelo quarto, magnificamente nu. Ellery o observou abrir a porta do guarda-roupa e pegar uma camisa branca. Viu que suas próprias roupas também haviam sido penduradas ali; sem dúvida, pela mesma camareira que havia levado os pratos. Ela ficou estranhamente tocada com a intimidade da cena. Aquela mais parecia ser a rotina de um casal, e a constatação de que eles, na verdade, eram praticamente dois estranhos, deixou-a desconcertada, até mesmo decepcionada, como se o que eles haviam compartilhado fosse sórdido, e não doce. — Vou secar meu cabelo — disse ela, e Larenz assentiu, sem se virar. Larenz já havia ido para a sala de estar quando Ellery voltou para o quarto, embora um leve 38


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

odor de sua água de colônia ainda pairasse no ar. Ela se vestiu apressadamente, fazendo uma careta ao olhar para o vestido preto excessivamente básico e sério que havia trazido consigo. Suspirando, ela prendeu o cabelo num coque um pouco mais frouxo que o habitual e fez outra careta. Estava parecendo uma governanta repressora. Pelo menos seus sapatos eram bonitos, um par de sandálias pretas de salto alto que ela havia comprado há poucas semanas. Fora uma compra de impulso e com certeza ridícula, já que ela não tinha onde usá-las enquanto estivesse morando no Solar Maddock. As sandálias eram divertidas, frívolas e completamente diferentes dela, mas ela as amava, além de lhe conferirem a coragem necessária para sair do quarto e adentrar aquele estranho e surpreendente mundo novo. Ela respirou fundo e seguiu em direção à sala de estar. Larenz se virou assim que ela entrou, embora Ellery quase não tivesse feito barulho. Ele estava deslumbrante, num terno de seda cinza, e a olhou de cima a baixo, avaliando seu vestido simples, pouco lisonjeiro, o penteado severo, até chegar aos seus pés, e sorriu. — Belos sapatos. Aquela fora a coisa mais gentil e honesta que ele podia dizer. — Vamos? — disse ele, estendendo o braço e retribuindo o sorriso que ela lhe deu. O restaurante era tão opulento e luxuoso quanto Ellery havia suspeitado, mas, de braço dado com Larenz, nenhuma de suas inseguranças quanto a seu traje a afligiram. Ela percebeu o olhar das outras mulheres em sua direção, bem como alguns olhares curiosos por parte de determinados homens. Sentiu-se como uma estrela de cinema. — O de sempre, Signor de Luca? — murmurou um garçom. Larenz assentiu brevemente. Poucos minutos depois, o garçom voltou com uma garrafa de champanhe e duas delicadas taças de cristal. — Nunca tomei tanto champanhe — confessou Ellery depois que o garçom se afastou. Larenz ergueu sua taça, num brinde silencioso. Ellery tomou um gole e deu uma olhada no cardápio: caviar, trufas, filé mignon. — Tantas opções — murmurou ela. — Você, certamente, já freqüentou restaurantes como esse antes. Ellery ergueu o olhar, surpresa com o seu tom de voz. — Na verdade, não. — Ela se deteve, sem saber ao certo o quanto deveria lhe revelar a respeito de sua intimidade. — Nós não tínhamos uma boa situação financeira — disse ela, finalmente. — O solar é a única coisa de valor que já possuímos. — E o Rolls Royce — lembrou Larenz, suavemente. — Fale-me sobre ele. O cardápio deslizou dos dedos dela. — Sobre quem? — Seu pai. — Ele era muito carismático — disse ela, finalmente, depois de um breve silêncio, ainda sentindo um nó na garganta. — Ele era o amigo de todos, desde o jardineiro ao senhor mais poderoso. Minha mãe dizia que havia se encantado por seu charme. Ellery se calou, pois não queria contar a ele como seu pai havia enganado sua mãe e destruído a vida de ambas, o quanto era difícil perdoá-lo por isso, e como ela ainda tinha dificuldades, até hoje, de permitir que alguém se aproximasse dela. — Como foi que ele morreu? — perguntou Larenz. — Câncer. Foi tudo muito rápido. Apenas três meses entre o diagnóstico e... — Eu sinto muito. E duro perder um pai. — Você perdeu o seu? — perguntou Ellery, sentindo que ele falava por experiência própria. Larenz hesitou e Ellery percebeu que ele não queria lhe falar a respeito de si e de sua família. Ela mesma tinha seus segredos. Por que Larenz não teria os seus? Ela, porém, não conseguiu evitar uma certa decepção. — Sim. Mas eu não era próximo a ele. Aliás, nós éramos verdadeiros... Estranhos. — Por quê? 39


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

Larenz deu de ombros e tomou um gole de champanhe. — Eu não sei. É só depois, quando já é tarde demais, que a gente se pergunta se não deveria ter sido um pouco mais flexível. Ambos permaneceram em silêncio. Ellery se pôs a pensar nas palavras de Larenz. Deveria ter sido mais condescendente com seu pai? Não. Ela não queria permitir que o passado estragasse o presente. — Não vamos entrar nessa conversa sombria. Decidi pedir um filé — disse Ellery. — Não sou das degustadoras mais aventureiras. — Existem várias maneiras de se ser aventureiro — murmurou Larenz ao colocar o cardápio de lado. — Ter aceitado vir passar uma semana comigo foi certamente uma atitude intrépida. O rosto de Ellery se aqueceu. — Tola, talvez. — Está arrependida? — É claro que não — disse ela com um sorriso —, mas a casa estará em ruínas quando eu voltar. Eu tinha planejando dar um trato na sala da frente, nesta semana. Cheguei a comprar as ferramentas para isso. — Impressionante — murmurou Larenz. — Mas eu tenho certeza de que essa semana será muito mais divertida. Ellery contraiu os lábios pensativamente. — Não sei. Eu estava realmente animada com a perspectiva de dar duro, sabe? Larenz riu alto, o que fez Ellery sorrir. Ele apertou a mão dela. — Adoro quando você sorri desse jeito. Parece muito triste, às vezes. — Eu fico realmente muito triste, às vezes — admitiu ela. O garçom veio anotar os pedidos, antes que qualquer um dos dois tivesse chance de dizer mais alguma coisa. Ellery achou melhor assim. Já havia falado demais. — O que fez sua mãe se decidir a vender o solar? — perguntou Larenz depois que o garçom se afastou. — É uma propriedade muito antiga. Eu acharia difícil abrir mão dela. — Minha mãe não tinha muito boas lembranças de lá. — Sua infância não foi feliz? Ellery deu de ombros. — Minha infância foi razoável, mas o casamento deles... — ela respirou fundo — já havia se desfeito há muito tempo. Foi por isso que sua proposta caiu como uma luva para mim. Depois do que vi acontecer com meus pais, não tenho mais nenhum interesse em investir em relacionamentos. Larenz permaneceu em silêncio por um momento, observando-a pensativamente. — Ótimo — disse ele, finalmente, tomando um gole de champanhe. — Porque eu também não. Ellery pegou a própria taça. Estava magoada, tensa, decepcionada, sem saber explicar por quê. Eles não estavam de acordo? Um silêncio se estendeu por vários segundos antes que Ellery se obrigasse a olhar para Larenz outra vez. Ele a avaliava com uma expressão pensativa, franzindo as sobrancelhas. — E quanto a você? Disse que era de Spoleto. Era feliz lá? — disse ela, no tom mais leve que foi capaz. — Eu deixei Spoleto quando tinha 5 ou 6 anos de idade. Minha mãe me criou em Nápoles, perto de sua família. — E o seu pai? Larenz hesitou. — Ele não estava presente. Ellery assentiu apesar de querer perguntar mais a respeito da tristeza que as feições dele pareciam ocultar. Sabia, porém, que aquela semana não estava destinada a este tipo de envolvimento. Ela avistou o garçom se aproximando e sorriu para Larenz, afastando o manto de recordações sombrias que os havia envolvido. — Parece que as nossas entradas chegaram. Eu estou faminta. Ambos recusaram o café após a sobremesa e Ellery ficou feliz quando a noite chegou ao fim. 40


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

Eles voltaram para o quarto em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Ellery esperou incerta, na sala de estar; sem ter idéia do que fazer. Jamais estivera numa situação como aquela e não conseguia decifrar a expressão do rosto de Larenz. Ele estava de costas para ela e mal parecia ter ciência de sua presença. Ela desejou poder ir até ele e tirar sua gravata, sorrindo sensualmente, e carregá-lo para o quarto, mas sabia que não podia fazê-lo. Ficou simplesmente parada lá, tão sem fala e insegura quanto uma adolescente em seu primeiro encontro, desejando saber o que ele esperava dela. — Obrigada pelo jantar adorável — disse ela, finalmente. — O prazer foi todo meu. Larenz permaneceu junto à janela, embora não houvesse muito para ser visto de lá, já que o edifício em frente estava às escuras. Ellery ainda permaneceu ali por alguns segundos, até finalmente concluir que ele queria ficar sozinho. Sua presença lá reconheceu ela com certa amargura, não era mais desejada. — Acho que vou me deitar — disse ela, tentando manter a dignidade. — Continuo cansada, apesar da soneca. Ela se virou em direção ao quarto e foi somente quando chegou à porta e colocou a mão na maçaneta que ouviu a voz abafada e triste de Larenz: — Boa noite, Ellery. Larenz ainda permaneceu onde estava por algum tempo. Ouviu a porta do quarto bater e então, mais ao longe, os sons de Ellery se preparando para dormir. Imaginou-a tirando aquele vestido horrível e as elegantes sandálias de salto alto — uma contradição, como ela mesma. Bela e insegura. Temerosa e feroz. Corajosa e tímida. Ele suspirou. Queria estar lá com ela, tirando as sandálias de seus pés delicados, traçando um caminho por seus tornozelos até chegar mais alto... Mas se conteve e não cedeu ao seu desejo. Um desejo bem mais perigoso o havia impelido a fazer coisas que ele nunca havia feito com mulher alguma, naquela noite: fazer perguntas, se interessar. Ele sempre mantinha suas amantes a uma distância razoável. Não queria que elas se aproximassem, porque alguém, inevitavelmente, sairia magoado daquela situação, e Larenz, certamente, não pretendia que fosse ele. Ele ainda se lembrava muito claramente do olhar derrotado de sua mãe cada vez que ele lhe perguntava a respeito de seu pai. Havia visto a dor nos olhos dela e sentira-a na própria carne, lembrava-se também do olhar vazio e brutal que seu pai lhe lançara na única vez em que ele o havia visto na vida. Eu sinto muito. Não o conheço. Adeus. Ele soltou um palavrão em italiano e abriu as portas que davam para o terraço. Por que havia lavado o cabelo de Ellery? Por que lhe perguntara a respeito do seu pai? Por que dera início a uma intimidade que sempre declarara não desejar? Naquela noite, porém, ele a desejara. Havia querido estar com ela, saber seus segredos, apaziguar seus medos. Aquilo era muito diferente do que ele conhecia de si mesmo, muito diferente de qualquer coisa que ele já tivesse desejado em uma mulher, e isso não podia ser bom. Aquilo o alarmava, amedrontava até, e ele não estava gostando nada disso. Havia quebrado suas regras ao convidar Ellery para passar a semana com ele e tinha acabado de quebrar outra naquela noite. Não deixar que elas se aproximassem. Não fazer perguntas. Não precisar delas. Havia visto nos olhos de Ellery, pela manhã, que ela estava esperando que ele se despedisse e fosse embora. Ele mesmo esperava partir. As chaves do carro já estavam na sua mão. Por que, então, havia permanecido? Por que a havia convidado? A resposta era óbvia demais. Ele havia querido mais de Ellery, uma única noite não o satisfaria. Já havia ficado com outras mulheres por mais de uma única noite, chegara mesmo a passar até um mês ou mais com várias delas, mas tudo só havia durado porque elas não lhe exigiam nada, ansiando apenas por prazer físico e alguns presentinhos, símbolos do seu afeto, que ele distribuía despreocupadamente. Elas não faziam perguntas, não o obrigavam a pensar, nem a querer ou desejar. Ou mesmo 41


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

lembrar. Ellery sim. Ele não sabia como aqueles olhos cor de violeta haviam conseguido alcançar sua alma e fazer com que ele quisesse lhe contar coisas que jamais havia revelado a ninguém. Quando ela lhe perguntara a respeito de seu pai, ele havia sentido vontade de lhe contar como fora humilhado, com apenas 14 anos, quando seu pai partira seu coração e lhe dera as costas com um olhar proibitivo. Ele jamais havia contado aquilo a alguém, nem mesmo à própria mãe. Nunca sequer desejara fazê-lo. Duvidava que Ellery suspeitasse do efeito que tinha sobre ele, e, embora parte dele ansiasse por se render àquela necessidade, outra parte, bem maior, sabia que aquilo era algo muito perigoso de se fazer. Ele não o faria. Não podia fazê-lo. Larenz agarrou a grade de ferro que cercava o terraço e deixou que o vento úmido soprasse sobre ele. Viu a luz do quarto se apagar e imaginou Ellery deitada naquela cama imensa, insegura e sozinha. Pensou em ir até lá e fazer amor com ela mais uma vez, docemente. Iria fazê-lo para assegurar a ela e a si mesmo que tudo o que queria dela era apenas prazer físico. Estava se sentindo culpado por ter tirado sua inocência tão irrefletidamente. Uma semana de sexo e mimos, pensou ele já minoraria tanto seu sentimento de culpa quanto qualquer tristeza da parte dela. Além do mais, reconheceu Larenz comprimindo os lábios com amargura, á nobre poderia se cansar do plebeu. Contendo o medo repentino que aquele pensamento lhe causou, Larenz seguiu para o quarto, determinado, mas se deteve com a mão na maçaneta. Lá de dentro, veio o som abafado de algo entre uma fungada e um soluço. Larenz blasfemou outra vez em italiano e se afastou da porta. Ficou andando de um lado para outro, na sala de estar, inquieto e ansioso, desejando, em parte, jamais ter conhecido Ellery Dunant.

CAPÍTULO OITO

Ellery não tinha idéia do que a havia despertado, mas teve uma profunda e dolorosa consciência do espaço vazio ao seu lado. O relógio já marcava 2horas e Larenz ainda não tinha vindo se deitar. Ao menos não com ela. Permaneceu ainda alguns minutos deitada pensando no que poderia estar acontecendo. Aquela era a primeira noite que ela passava fora com ele. Será que Larenz já havia se cansado dela? Que outra razão poderia haver para que ele se mantivesse afastado dela? Ellery se flagrou pensando na conversa que eles haviam tido durante o jantar e em como as perguntas que ela, havia lhe feito a respeito de seu passado o haviam deixado sombrio e pensativo. Não sabia de que lembranças ele era prisioneiro; só o quão dolorosas eram as suas próprias. Será que ele era tão vítima de seu passado quanto ela? Sabendo que poderia estar completamente equivocada, Ellery decidiu descobrir. Saiu da cama, vestindo apenas a mesma camisola que havia usado no solar. Ela saiu do quarto e seguiu até a sala de estar na ponta dos pés. Uma única luz brilhava no terraço, e ela viu Larenz sentado na poltrona, de costas para ela, com a cabeça baixa. Ellery sentiu um aperto dentro do peito. Ele parecia tão sério, tão determinado, tão... Triste. Ou será que ela estava tirando conclusões precipitadas com base em seus próprios pensamentos? Ela se esgueirou até Larenz, com medo de incomodá-lo, mas ansiosa por conversar com ele, 42


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

tocá-lo. Estava atrás dele quando viu o que o estava fazendo parecer tão sério. — Está fazendo Sudokul Larenz enrijeceu assustado, e então se virou lentamente para encará-la. Apesar da expressão séria no rosto dele, Ellery sentiu uma risada borbulhar em sua garganta. — Sinto muito por tê-lo incomodado. — Não, é que eu... Não estava com sono. Ela engoliu em seco ao ver que a expressão ainda intensa de Larenz não tinha nada a ver com sua atividade aparentemente inócua. — Isso deve ser um 6. — O quê? Surpreso, Larenz se voltou para a revista. Ellery se inclinou sobre o ombro dele e apontou a página. — Isso deve ser um 6. Está vendo? Você colocou um 2, mas não pode ser um 2 porque já há um outro 2... Ali... Larenz ficou olhando para o quebra-cabeça por um bom momento, antes de soltar uma risada. — Tem razão. Você deve ser muito boa nisso para ter percebido tão rápido. — Eu passo muitas noites sozinha. — Porque quer. Ellery deu a volta na poltrona para se sentar à frente dele, no sofá. — Sim, porque quero. Nunca achei que a vida no solar Maddock seria agitada. — Sua mãe vai acabar vendendo-o, um dia? Ellery suspirou. Às vezes, ela se surpreendia com o fato de sua mãe não ter insistido em vender o solar imediatamente. Mesmo em ruínas, a casa ainda valia ao menos um milhão de libras. Talvez também sentisse saudades dos dias felizes que passara ali, ou, pelo menos, acreditava que havia passado. — Provavelmente — disse ela, finalmente. — Eu nunca pensei em morar lá para sempre. — E o que vai fazer quando aquele lugar não pertencer mais a vocês? — Acho que vou voltar a lecionar em tempo integral — disse ela, injetando uma nota de ânimo em sua voz. — Eu gostava muito de fazer isso. — E o que você ensinava? Larenz a estava olhando com aquele seu olhar lânguido de pálpebras pesadas que Ellery, já conhecia muito bem. Ele significava que ela não o estava enganando nem um minuto sequer. — Literatura inglesa, o que inclui Lady Ofshalott, de Tennyson. É um dos meus poemas favoritos, embora não goste de ser comparada a ela. — Oh, e por que não? — Porque ela passou seus dias, aprisionada na torre, vendo a vida apenas através de um espelho encantado, apaixonada a distância por Sir Lancelot, que nunca prestara atenção nela... — Mas, no fim, ele a notou — opôs-se Larenz. — Mas isso não é muito — retrucou Ellery, percebendo a amargura em sua própria voz, — considerando tudo aquilo de que ela havia aberto mão por ele. Um estranho e opressivo silêncio se abateu sobre eles. — Já é tarde — disse Larenz, finalmente. — Você deveria ir dormir. Ellery se virou para ele, arqueando as sobrancelhas, num desafio. — Você vem? Larenz desviou o olhar, partindo o coração de Ellery. — Daqui a pouco. Ela foi embora, em silenciosa dignidade. Ao acordar na manhã seguinte, viu que o outro lado da cama ainda continuava intacto. Das duas, uma: ou Larenz não tinha dormido ou havia escolhido fazê-lo sem ela. Determinada a ignorar a dor que aquele pensamento lhe causara, Ellery levantou da cama, tomou um banho e se vestiu. Ao chegar à sala de estar, encontrou Larenz vestindo um terno de negócios, com uma xícara de café em sua mão, enquanto dava uma olhada nas manchetes do jornal, 43


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

em seu laptop. — Bom dia — disse ele, mal desviando os olhos do computador. — Temos café e Pãezinhos, se você quiser. Ela encheu sua xícara e pegou um pãozinho, ainda quente, antes de se sentar em frente á Larenz. O dia estava lindo. O sol de outono adentrava a sala pelas portas de terraço e banhava o ambiente numa luz cristalina. — Sinto muito, mas tenho que ir ao escritório hoje, — disse Larenz, olhando apenas brevemente para Ellery antes de voltar a se focar na tela de seu computador. — Surgiram algumas questões que vou ter que resolver. — Nada muito sério, eu espero — respondeu Ellery. — Apenas as crises habituais. Espero que tenha como se divertir pela manhã. Eu tenho contas na maioria das boas lojas daqui, assim como com todos os estilistas. Você também pode, é claro, comprar alguma coisa na De Luca's. — Eu vou ficar bem, Larenz — respondeu ela, irritada. — Não preciso ser cuidada como uma criança. Já tenho planos para minha manhã. — Ah, é? Larenz não se mexeu, nem sua expressão se alterou, mas ele pareceu repentinamente alerta. — Sim — respondeu Ellery, cheia de coragem. — Você sabe que eu morava aqui. Vou almoçar com uma de minhas amigas da época da faculdade. Ainda não havia ligado para Lil, mas sabia que a amiga encontraria tempo para ela. — É mesmo? — disse Larenz com um sorriso quase frio. — Eu não sabia que você tinha feito planos. E se eu não estivesse ocupado? Ellery deu de ombros. Era bom estar no controle uma vez, para variar. — Supus que você teria que tratar de negócios, e, de mais a mais, nós também não podemos ficar grudados um no outro a semana toda, não é? Pelo que vi entre você e Amelie, você não gosta muito de mulheres grudentas. Larenz franziu as sobrancelhas. — Eu já lhe disse que não havia nada entre mim e Amelie. Ela deu de ombros, desejando não ter mencionado o nome daquela ordinária. — Que seja. — Ela terminou o café e se levantou da mesa. — Podemos nos encontrar lá embaixo para um aperitivo antes do jantar — sugeriu Ellery com um sorriso. Ela seguiu para o quarto, mas ainda o ouviu dizer: — Está bem, mas pelo menos passe a tarde fazendo compras. Quero que você use alguma coisa conveniente desta vez. Ellery não respondeu. Havia tentado manter um tom leve e despreocupado para dar a impressão de que não se importava com o que ele fazia, mas ele jamais saberia o quanto aquilo havia lhe custado. Sua mão tremia ao girar a maçaneta. Duas horas mais tarde, ela se encontrou com Lil. O carinho da amiga seria um verdadeiro bálsamo para seu orgulho ferido. — Ellery! — exclamou a pequena ruiva cheia de curvas ao envolver Ellery num abraço firme e perfumado. — Estou tão feliz em vê-la! — Eu também. Faz muito tempo. — E de quem é a culpa? — perguntou Lil, agitando um dedo na frente do rosto de Ellery. — Eu reservei uma mesa para nós. Não quero perder tempo numa fila. Temos muito que conversar. Dez minutos depois, ambas estavam confortavelmente sentadas num bistrô francês, com uma garrafa de vinho à sua frente e duas taças já servidas. — E então, o que a traz a Londres? — perguntou Lil. — Por favor, diga-me que veio porque finalmente vendeu o solar e está de volta para viver uma vida normal. — Ainda não. Na verdade, eu vim com uma pessoa. Um... Homem. — Um homem? Ellery enrubesceu e revirou os olhos. 44


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

— Lil... — Conte-me tudo. É um fazendeiro? — Na verdade, é... Um hóspede. Lil arregalou os olhos. — Não é aquele que você mencionou este fim de semana, é? O tal ricaço? — Ele mesmo. Mas ele não é tão metido como eu pensei. E apenas um homem. Lindo, por sinal. Mas isso não vai dar em nada — acrescentou Ellery rapidamente. — É apenas uma... Aventura. Aquela palavra soou estranha na boca de Ellery. — Uma aventura — repetiu Lil, pensativamente. — Parece fabuloso. E ele a trouxe para Londres para um fim de semana tórrido? Ellery corou mais uma vez. — Uma semana tórrida, na verdade. Depois disso, vamos para Milão. — Milão?! Quem é este homem, afinal? Ellery não podia esconder a verdade de sua melhor amiga. — O nome dele é Larenz de Luca. O queixo de Lil caiu de tal forma que Ellery teve que rir. — Feche a boca, Lil, e não grite, por favor. Nós estamos tentando ser... Discretas. — Mas ele é apenas o solteiro mais cobiçado de toda a Europa! — É mesmo? — Ellery sentiu um estranho desconforto. Não havia compreendido que Larenz tinha toda aquela notoriedade. — Como é que eu nunca tinha ouvido falar dele? — Está bem, talvez eu tenha exagerado um pouco, mas é que você não lê as revistas de fofoca como eu — respondeu Lil. — Ele sempre aparece nas fotos com uma loura burra a tiracolo... Oh.. Não foi isso o que eu quis dizer. — É claro que não. — Como ele foi parar no solar? — perguntou Lil. — Sem querer ofender, mas eu esperava que ele escolhesse um lugar mais luxuoso... Ellery riu, divertida. — A chefe do seu Departamento de Relações Públicas escolheu o solar para uma sessão de fotos. Lil pareceu intrigada, e Ellery riu outra vez. — Parece ridículo, não é? Mas, aparentemente, o ambiente os interessou. — E você concordou? Ellery se deteve. O assunto não tinha voltado à tona, e ela não estava segura se queria tratar dele outra vez. Caso concordasse, certamente voltaria a ver Larenz depois que aquela semana chegasse ao fim... — Talvez. O dinheiro certamente cairia bem. — Ellery... — disse Lil, pousando a mão sobre o braço da amiga. — Tem certeza de que isso é apenas uma aventura? Ellery arqueou as sobrancelhas. — Lil, nós estamos falando de Larenz de Luca. — Não, eu estou falando de você. Sei que ele só quer ter um caso, mas e quanto a você? — Eu também — respondeu Ellery rapidamente. Rápido demais. E sem firmeza suficiente. Ela olhou para o rosto de Lil e foi tomada de assalto pela alarmante sensação de que aquilo não era absolutamente o que ela queria que ela não estava no controle da situação e que havia mentido para si mesma desde o início. Sua mente voltou para a conversa da noite anterior e o modo como ela havia tentado compreendê-lo, conhecê-lo. Aquilo não fazia parte do acordo. Ellery sabia que a única maneira de proteger seu coração era não se envolver com ele de forma alguma, o que não seria difícil com um homem que tratava as mulheres do jeito que Larenz fazia. O problema era que, às vezes, ele não parecia o homem que o mundo conhecia o playboy que aparecia nas revistas de fofoca, como quando lhe fazia perguntas, preparava o almoço para ela ou lavava o seu cabelo... 45


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

Ellery fechou os olhos. Não podia pensar naquele homem. — Não se preocupe Lil. Eu sei o que estou fazendo. Ellery chegou ao bar do hotel, às 18h, batendo os saltos de suas novas sandálias, que lhe conferiam ao menos um 7,5 cm a mais de altura, no chão. Havia comprado um vestido mais justo, de seda cinza, que aderia a cada curva do seu corpo e brilhava quando ela se movia. Seu cabelo estava solto e seu rosto fora maquiado pela profissional do setor de maquiagem da Selfridges. A vendedora parecera irritada quando ela comprara apenas um batom, mas Ellery não estava disposta a usar a conta de Larenz. Pagaria de seu próprio bolso, ao menos por aquilo. Ela viu Larenz esperando por ela, de costas, com a mão em torno de um copo de uísque. Ele parecia tenso e estressado. Teria tido um dia ruim no trabalho? Ela não se importava. Não perguntaria. Conhecia as regras. Ele só a queria na cama e era lá que ela o queria também. Aquilo era tudo o que eles tinham tudo o que jamais teriam. Ellery havia lembrado aquilo a si mesma a tarde toda. Tinha se permitido algum interesse na noite anterior, mas aquilo não aconteceria outra vez. Naquela noite, ela seria apenas o que Larenz desejava que ela fosse sua amante, e não seu amor. — Olá — disse ela num murmúrio rouco que nunca havia usado antes. Larenz se virou, e arregalou os olhos, para então estreitá-los novamente enquanto admirava sua aparência, de cima a baixo. — Belos sapatos — disse ele, ao ver as sandálias novas nos pés de unhas recém-pintadas. Ellery fez um sinal para o garçom com um dedo — tinha feito as unhas da mão também — e curvou seus lábios de maneira provocante. — Obrigada. — Eu não imaginava que você gostasse especialmente de sapatos — disse Larenz, tomando um longo gole de sua bebida. Ellery pediu o primeiro coquetel de que conseguiu se lembrar, de suco de laranja e vodka. Larenz arqueou as sobrancelhas, mas não fez comentário algum. — Bem — disse ela, balançando o pé —, há muitas coisas a meu respeito que você ainda não sabe. — É o que parece. Ele olhou novamente para ela, parecendo ainda mais descontente com sua aparência. Ellery sentiu uma pontada de frustração. O que ele queria, afinal? Ela estava lhe mostrando que havia entendido o tipo de relacionamento — na falta de uma palavra melhor— que ele desejava, e, mesmo assim, ele não estava satisfeito. — O que foi que você fez hoje? — perguntou Larenz finalmente. Ela deu de ombros. — Almocei, fui às compras... — Vejo que fez um bom uso das minhas contas. Ellery não lhe contou que havia usado seu próprio dinheiro. De repente, aquilo pareceu não fazer mais diferença. Larenz estava fazendo com que ela se sentisse tão ridícula quanto uma menininha brincando com as roupas da mãe. Sua bebida chegou e ela tomou um gole, esforçando-se para não fazer uma careta, uma vez que não tinha o costume de tomar bebidas fortes e que aquela era bem amarga. Larenz balançou a cabeça lentamente. — Por que está fazendo isso, Ellery? — Fazendo o quê? — Vestindo-se desse jeito, agindo desse jeito. Como... Como uma femme fatale! — Ora, Larenz — murmurou Ellery, soltando uma risada rouca que fez com que vários homens virassem a cabeça na sua direção. — Pare com isso! Pare de fingir. Não sei o que está querendo provar, mas não está funcionando. Isso não é nem um pouco... Atraente. 46


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

E então, sem dizer mais uma palavra, ele se levantou e deixou o bar. Ellery ficou sozinha, com seu rosto maquiado rubro de humilhação. Sentindo os olhares curiosos e até mesmo apiedados sobre si, ela respirou fundo, se recompôs, ergueu seu copo, e disse, meio que para si mesma: — Saúde. Tomou então um longo gole antes de ter um acesso de tosse quando a vodka incendiou sua garganta. JÁ no hotel, Larenz caminhava pela sala, de um lado para outro, como uma pantera enjaulada. Não sabia por que ver Ellery daquele jeito o havia deixado tão encolerizado. O vestido e a maquiagem, até mesmo os sapatos, eram de alta qualidade, bem-feitos. Ela estava sofisticada, sexy. Dengosa. Como todas as outras mulheres que ele havia levado para a cama. E, compreendeu Larenz desesperado, ele não queria incluí-la naquela categoria. Ellery era diferente. Ele era diferente quando estava com ela. Quando ela entrou no bar falando com aquela voz rouca e doce, ele teve a sensação de que ela havia vulgarizado o que existia entre eles, transformando tudo em nada mais que uma... Aventura passageira, um caso. Mas aquilo era efetivamente um caso. Ele havia deixado aquilo bem claro; teriam uma semana juntos e depois, mais nada. Ele não tinha relacionamentos, não estava procurando um amor. Deveria ter ficado aliviado com a mensagem que Ellery tentara lhe enviar, não furioso. Muito menos magoado. Ele ficou enfurecido por sequer ter se importado. Por ter sentido alguma coisa que fosse. Estava quebrando mais regras, a regra mais importante de todas. Nunca deixar que seu coração se envolvesse. Ellery entrou na suíte em silêncio, sem idéia do que a aguardava. A sala de estar estava às escuras, assim como o quarto. Será que Larenz havia partido? Talvez fosse melhor assim, pensou Ellery, já cansada. Aquilo tudo era muito confuso, muito complicado. Fazia seu corpo cantar, mas feria profundamente seu coração. Ela quis voltar para casa, mas não sabia mais sequer onde era sua casa agora. Ligou a luz do quarto, e enrijeceu ao olhar para o terraço e ver uma figura solitária apoiada na rede, com as mãos entrelaçadas e a cabeça baixa. Larenz. Sem pensar no que estava fazendo, nem por que, Ellery abriu as portas e adentrou a noite fria.

CAPÍTULO NOVE

Larenz devia ter ouvido a porta se abrir, mas não se moveu. Ellery o observou por um momento, surpresa com a tranqüilidade que havia tomado conta dela. Como não se importava mais com o que aconteceria também não se importava mais com o que havia dito ou feito. Aquele devia ser o segredo da coisa, pensou ela. Era isso o que ela havia querido desde o começo. Não se importar. — Se queria fazer uma cena, você certamente conseguiu. — Me desculpe. Ela deu de ombros, apesar de Larenz não ter se virado e nem poder vê-la. — Não imaginei que você fosse ficar tão irritado por eu ter comprado um vestido e sapatos, — ela pensou ter ouvido um leve tom de humor em sua voz e resolveu acompanhá-lo. — Oh, foram os sapatos? Cheguei a me perguntar se eles eram altos demais. Ela se aproximou dele junto à rede. — Eu sinto muito, Ellery — disse ele, voltando-se para olhá-la. —Agi como um verdadeiro 47


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

jumento. Ellery soltou um suspiro. Pensara que queria um pedido de desculpas, mas, agora que o obtivera, ele parecia não ter mais importância. — Eu sinto muito também — disse ela, após um momento. — Não estou conseguindo entender o que você está tentando me dizer, Larenz. Não sou... Boa nisto. — Como assim? — Eu nunca tive um caso sem envolvimento antes. — Era óbvio que ele sabiá disso, afinal, ela era virgem antes de conhecê-lo, mas ela tentou se explicar, mesmo assim. — Concordei em passar essa semana com você porque, assim como você, também não estou interessada em relacionamentos. Estou feliz sozinha. — Suas palavras pareceram vazias, mas Ellery não se deteve; — Eu só não sei como casos... — Não use esta palavra. Ela deu de ombros. — Está bem. Não entendo como funciona isto que está acontecendo ente nós. Não sei o que devo fazer. — Eu só quero que seja você mesma — disse Larenz, em voz baixa. — Mas, quando fui eu mesma, você passou a noite toda na sala — respondeu Ellery. — Posso não saber muita coisa, mas sei que nenhum homem dorme no sofá quando leva sua amante a Londres. Larenz soltou um suspiro profundo e passou a mão no rosto. — É verdade. — O que está acontecendo, Larenz? Por que ficou tão zangado? Achei que estava agindo de acordo com as regras. — Esqueça as regras — interrompeu Larenz, quase que com um rugido. — Esqueça essas malditas regras. Por que é preciso haver regras? Ele se virou na direção dela e Ellery teve a impressão de ver um vestígio de desespero em seus olhos. Depois puxou-a para si, num movimento abrupto, quase rude. — Não há regras entre nós — disse Larenz, junto à boca de Ellery, e então a beijou. Ellery ficou atordoada demais no início para corresponder prontamente ao beijo. As palavras dele ecoavam em sua mente. Não há regras entre nós. Antes que ela pudesse pensar nas implicações daquela declaração, porém, seu corpo reagiu àquele beijo com instinto e desejo, enlaçando os ombros de Larenz, e puxando-o mais para perto dela. Larenz a beijou como um náufrago agarrado à sua tábua de salvação. Ela nunca havia se sentido tão necessária para ele, e foi assim que retribuiu o beijo, imbuindo-o de toda a sua esperança, apesar do desespero de momentos atrás. Ele a tomou em seus braços agilmente e Ellery não consegui conter uma risada. — Eu nunca fui tão carregada em toda a minha vida. — Às vezes, é preciso fazer gestos grandiosos — respondeu Larenz, levando-a para o quarto. Depois disso, não houve mais necessidade de palavras. Ellery devia ter adormecido depois de fazer amor com Larenz, pois, quando acordou, viu que já eram quase 22h. Tarde demais para jantar no restaurante do hotel, pensou ela, quando seu estômago roncou. Larenz se remexeu ao seu lado — devia ter adormecido, também — e se levantou para olhar o relógio. Soltou um gemido ao ver que horas eram e se jogou novamente nos travesseiros. — Acho que perdemos nossa reserva — provocou Ellery. Ele sorriu e estendeu a mão em direção ao telefone. — Serviço de quarto, então. Eles comeram na cama, dando comida um ao outro, e experimentando de tudo um pouco, já que Larenz parecia ter pedido ao menos uma dúzia de pratos diferentes. — Vamos encher os lençóis de migalhas — disse Ellery, rindo. Larenz lhe lançou um sorriso malicioso. 48


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

— Posso pensar em coisas bem piores. Além do mais, não pretendo dormir muito com você. Perto do amanhecer, porém, eles acabaram adormecendo, Ellery com a cabeça no ombro de Larenz e ele com o braço protetoramente pousado em torno dela. Ao adormecer, Ellery ainda se perguntou como tudo havia mudado daquela maneira. Seus olhos começaram a se fechar e ela se recusou a pensar mais sobre o assunto. Aquilo só faria com que voltasse a ter dúvidas e temores. Ela despertou nos braços de Larenz, na manhã seguinte, quando ele beijou a sua testa e disse: — Acorde dormigliona. Temos que pegar o vôo das 11 h para Milão. — O quê? Ellery se esforçou para recuperar a consciência; várias noites seguidas dormindo pouco a haviam deixado meio desorientada. Já Larenz, notou ela um pouco ressentida, parecia novo em folha. — Tenho uma reunião de negócios esta tarde — disse ele, indo até o banheiro. — Á noite teremos uma festa para o lançamento da coleção Marina e eu quero que você use um dos seus vestidos. . Duas horas depois, eles estavam sentados confortavelmente na primeira classe do avião que decolava em meio ao céu cinzento, frio e úmido, atravessando as nuvens até alcançar um deslumbrante azul. Ela olhou de soslaio para Larenz, que estava lendo o jornal. Ele estava adoravelmente sério, mas devia ter sentido o olhar dela sobre si, pois sorriu para ela e segurou sua mão, permanecendo assim até a última nuvem desaparecer sob eles. Uma limusine os aguardava no aeroporto para conduzi-los até o centro da cidade. — Eu tenho uma suíte no Príncipe di Savoia — disse-lhe Larenz. — Terei de ir direto para o escritório, mas reservei alguns tratamentos para você, esta tarde. Quero que seja muito paparicada. — Eu já estou sendo — murmurou Ellery. Larenz sorriu e apertou a mão dela. A limusine parou diante da impressionante fachada branca do Príncipe di Savoia, um dos hotéis mais antigos e luxuosos de Milão. No quarto, seus pés afundaram na maciez de um tapete de pelúcia claramente inspirado, nos de Aubusson. Rindo, Ellery se jogou na cama king size, deleitando-se com todo aquele luxo, assustando-se ao ouvir uma batida na porta. Ela a abriu e encontrou uma jovem sorrindo para ela. — Signorina Dunant? Estou aqui para dar início aos seus tratamentos. Estendida junto à piscina, que mais parecia uma das de Pompéia, ela recebeu uma massagem de cerca de uma hora de duração que quase a fez dormir, seguida de uma limpeza de pele e um tratamento com minerais que deixaram sua pele brilhante e macia como a dos golfinhos do mosaico. Ela estava se sentindo completamente rejuvenescida, tanto por dentro quanto por fora. Um funcionário do hotel trouxe o almoço, e outro, ainda, providenciou as melhores revistas disponíveis. Maria, a jovem que a havia recebido, enfiou-a na cama, muitas horas depois, informando-lhe de que retornaria em duas horas para ajudá-la a se vestir. Ellery despertou com outra batida na porta. Maria adentrou o quarto com um vestido envolto em plástico sobre o braço. Ellery levantou da cama enquanto Maria desembrulhava á mais delicada lingerie que ela já havia visto. — Primeiro isso. Ellery obedeceu, trocando o robe com que havia dormido pela renda frágil. As peças pareciam formar teias de seda sobre seu corpo. Ela tentou olhar no espelho, mas Maria a impediu. — Espere ate ter colocado tudo. Agora o vestido — disse ela, abrindo o plástico e revelando o vestido mais lindo que Ellery já tinha visto. Era um modelo simples, sem alças, feito de uma seda cor de alfazema, que caía numa cascata de cores e terminava com uma faixa discreta, porém deslumbrante, de babados mais leves em roxo. Aquele era um vestido de conto de fadas, um vestido de Cinderela, e Ellery mal podia esperar 49


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

para colocá-lo. Maria prendeu o cabelo dela num coque frouxo, permitindo que alguns pequenos cachos emoldurassem o rosto de Ellery, e então cuidou de sua maquiagem. Ellery nunca havia usado tanta coisa, mas, quando finalmente se olhou no espelho, notou que não parecia excessivamente pintada, mas apenas uma versão melhorada de si mesma. Ellery girou rapidamente e riu ao ver como o vestido rodopiava em torno dela. Estava deslumbrante. — O signor de Luca enviou isto — disse Maria, estendendo um par de magníficos brincos em forma de gotas de diamante. Eles deviam valer cerca de meio milhão de libras, pensou Ellery, colocando-os em suas orelhas com dedos trêmulos. — E parece ter escolhido esses em particular — acrescentou Maria. Ellery abriu a caixa e fitou, sorrindo, o par de sandálias de salto alto salpicadas de diamantes. Embora dificilmente fossem vistos sob o vestido, eles, ainda assim, complementavam o traje perfeitamente. Eram os sapatos mais incríveis que ela já havia visto. Ela os calçou e Maria lhe entregou o toque final: um xale esvoaçante violeta-claro que Ellery colocou sobre os ombros. — O signor de Luca a encontrará no saguão do hotel. Ela mal podia acreditar que aquilo era real. Alguns dias atrás estava esfregando o chão da cozinha, e agora, lá estava ela, como uma verdadeira Cinderela, pronta para ir ao baile. E, em algum momento, porém, exatamente como Cinderela, ela perderia toda aquela pompa, mas não queria pensar naquilo e arruinar a noite mais mágica de toda a sua vida. Queria desfrutar de tudo aquilo, se deleitar. Ela o viu assim que saiu do elevador, no saguão do hotel. Como é que alguém poderia deixar de notá-lo, perguntou-se ela, uma vez que Larenz era, de longe, o homem mais deslumbrante do recinto? Ele se virou quando ela saiu do elevador, como se tivesse percebido sua presença, e então o tempo e a própria vida pareceram ficar em suspenso quando os olhos de ambos se encontraram, num momento interminável e encantador. Larenz admirou seu cabelo, seu vestido e pés num único olhar, que fez Ellery perder o fôlego ao ver a evidente admiração e apreciação que brilhava naquelas profundezas marinhas. Ele caminhou até ela e enlaçou sua cintura, fazendo com que ela entrasse em contato com seu peito firme. Ellery ergueu o rosto para um beijo, mas ele apenas a beijou de leve, na testa. — Magnífica. Não quero estragar sua maquiagem. — Não se preocupe... — Esse vestido combina perfeitamente com seus olhos. Nós deveríamos chamar essa cor de Ellery. — Você não pode... Larenz arqueou uma sobrancelha. — Não? Talvez seja melhor manter um pouco de mistério. — Sabe o que eu pensei a respeito da cor de seus olhos quando a vi pela primeira vez? Que eles tinham a cor de uma ferida, mas isso é triste demais. — Eles estão felizes agora — sussurrou ele em sua orelha, — da cor do mais belo ocaso que eu já vi. Ellery riu. — Então este é o famoso charme italiano? — Só notou agora? — disse Larenz, fingindo estar magoado. — Vamos, nosso carro está esperando. E, como sempre, belos sapatos — murmurou ele junto ao ouvido dela. A festa teve lugar em outro dos melhores hotéis de Milão, mas, de tão deslumbrada que estava Ellery mal notou os lustres brilhantes, os garçons que circulavam incessantemente servindo champanhe, o tilintar dos cristais em meio ao som melodioso do piano e o murmúrio constante de cem conversas diferentes. Tudo, porém, silenciou, quando ela entrou no salão de braço dado com Larenz. Ellery se sentiu congelar quando quinhentos pares de olhos pareceram se voltar para ela. — Eles estão se perguntando quem é esta Cinderela — murmurou Larenz, — e é claro que todos os homens estão com inveja de mim. 50


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

— E as mulheres? — disse ela, tentando brincar. — Gostariam de estar tão belas — respondeu Larenz suavemente, — é claro. Ellery circulou pelo baile, ao lado de Larenz, observando como ele ria e conversava com facilidade, principalmente em italiano, com centenas de pessoas diferentes. Depois de duas horas naquele lugar, porém, Ellery já estava com dor de cabeça devido ao barulho constante e uma sede terrível por ter consumido apenas duas taças de champanhe desde que eles haviam chegado. Seu belo vestido lhe pareceu um pouco apertado sob os braços, e os sapatos estavam machucando seus dedos. Além disso, ela só havia comido uma salada desde o meio-dia e estava morrendo de fome. Ali, ao lado de Larenz, enquanto ele conversava em italiano com um empresário careca, ela teve um insano e intenso desejo de se enfiar na cama com um balde de pipoca e um bom livro. — O jantar será servido em breve — disse Larenz. — Você foi muito paciente, agüentando todas essas conversas de negócios. Tenho certeza de que está morrendo de fome. — É verdade. Vou dar um pulo no toalete antes disso, para me refrescar um pouco antes de nos sentarmos. Ela seguiu pelo labirinto de pessoas, grata pelo ar fresco que encontrou quando finalmente conseguiu sair do salão superaquecido e cheio. Havia acabado de entrar num dos gabinetes quando ouviu duas mulheres entrarem, conversando em inglês. — Você viu a última do de Luca? — perguntou uma delas, parecendo entediada e lacônica. — Aquela flor murcha? Isso não vai durar muito. Ellery congelou, para depois se inclinar e espiar pela fresta a fim de ver as duas retocando a maquiagem diante do enorme espelho dourado. — Elas nunca duram muito com Larenz — observou á primeira. — Mas ele parece estar dando o tratamento VIP a essa. O vestido é da nova coleção dele, e você viu os brincos? Larenz deve tê-los dado a ela. A segunda mulher soltou uma gargalhada aguda. — Pagamento pelos serviços prestados. Ela não deve ser tão insossa como parece, na cama. — Ele sempre lhes confere o tratamento VIP antes de mandá-las embora. — Bem, esta deve partir amanhã, então. Achei que ele estava saindo com outra mulher. Uma grega parece. Al alguma coisa. — Aquela herdeira? Não, ele já a despachou há muito tempo. — A mulher deu de ombros e guardou o batom. — Fico me perguntando quem será sua próxima amante. Ellery não ouviu o restante da conversa; o zumbido em seus ouvidos era alto demais. Esperou até que as duas tivessem ido embora e o banheiro estivesse vazio outra vez antes de sair. No espelho, seu rosto parecia pálido e chocado. Aquela conversa não a havia surpreendido; ela já sabia, é claro, que Larenz havia tido muitas mulheres. Sabia também que elas não permaneciam muito tempo á seu lado. O que havia lhe chamado a atenção fora a palavra que aquela mulher havia usado sem qualquer cuidado. Amante. Ela era a amante de Larenz — uma mulher para ser usada e descartada. Exatamente como seu pai havia usado e descartado tanto sua mulher quanto sua amante — a mulher que havia destruído a vida de Ellery e de sua mãe. Aquela roupa, aquelas jóias, aqueles sapatos, tudo aquilo era... Como é mesmo que aquela mulher o havia descrito? Pagamento pelos serviços prestados. Ela era uma mulher comprada, uma prostituta... Aquilo não era apenas um caso; ela não detinha nenhum controle sobre aquela situação. Aquele acordo, aquelas regras, não eram os seus. Aquilo não era, compreendeu Ellery entorpecidamente, nem de longe, o que ela quisera. Como havia sido tola em pensar o contrário. E, pior, em se enganar acreditando que Larenz talvez pudesse sentir algo mais por ela... Ele sempre lhes confere o tratamento VIP antes de mandá-las embora. Ali, ofegante e dobrada de dor, Ellery teve a sensação de que ele já o havia feito.

51


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

CAPÍTULO DEZ Ellery conseguiu voltar ao salão, onde todos se encaminhavam para a sala de jantar. Não conseguiu ver Larenz e ficou feliz por isso. Não tinha a menor idéia do que lhe diria quando o visse. Estava terrivelmente consciente dos olhares curiosos e especulativos em sua direção, que agora não continham mais admiração, nem inveja, mas malícia ou pena. Todos ali, a nata da sociedade européia, sabiam que ela era a amante de Larenz. Como não havia feito aquela conexão antes? Como havia enganado tanto assim a si mesma? Um nó de tristeza se alojou em seu peito, espalhando-se por todo o seu corpo. Ela havia dito a Larenz, a Lil e a si mesma que tudo o que queria era ter um caso com ele, e sua mente acreditara realmente nisso. Mas a verdade era que ela queria algo inteiramente diferente. Seu coração queria um relacionamento. Seu coração reconheceu ela, desapontada, queria um amor. E foi com a palavra amante ecoando terrivelmente em sua mente que ela compreendeu como havia sido idiota, e o quão irrelevante era aquilo que ela havia estabelecido com Larenz. Ellery deixou a multidão às cegas, atravessando o saguão apressadamente. Já havia se transformado numa abóbora antes mesmo da meia-noite. Ela pegou um táxi e voltou para o Savoia. Precisava pegar suas coisas e deixar ao menos um bilhete para Larenz. Como lhe explicaria que havia concordado com suas malditas regras porque achara que estava no controle da situação e que assim não repetiria o erro de sua mãe? Aquelas mulheres no banheiro, porém, á haviam feito compreender que ela era muito pior que sua mãe, que era, na verdade, como a amante de seu pai, aceitando presentes, se hospedando em hotéis deslumbrantes, e sendo mimada, como dissera Larenz. Era por isso que ela havia permanecido lá. E era por isso também que ela teria que partir agora. Não podia ser aquele tipo de mulher. Não podia nem mesmo fingir que o era. Ellery se arrastou até a suíte e se enrolou com o cartão até finalmente conseguir abrir a porta, tirando suas terríveis sandálias assim que entrou na sala de estar. — O que foi aquilo? Ellery congelou, chocada. Larenz estava no centro da sala de estar e parecia furioso. — Como foi que você chegou aqui? — Eu a vi fugindo da festa e peguei um táxi para cá. — E chegou aqui antes de mim — concluiu Ellery, ainda atordoada. Larenz deu de ombros. — Você não conhece Milão. O motorista provavelmente fez um caminho mais longo para ganhar alguns euros. — Entendo — disse ela, movendo-se como uma sonâmbula. — Mas eu não — retrucou Larenz. — Por que você deixou a festa sem falar comigo? Você se deu conta de quantas pessoas a viram fazer isso? Inclusive alguns jornalistas. Isto vai sair em todos os jornais de amanhã. Como a amante do De Luca o abandonou! Ellery congelou. — É a primeira vez que você usa essa palavra comigo. Larenz pareceu perplexo. — Do que é que você está falando? — Você me chamou de sua amante. Uma certa cautela substituiu a raiva dele. — É apenas uma palavra, Ellery. Ela respirou fundo. 52


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

— Não, Larenz. — É uma atitude. Ele bufou, exasperado. — Que seja. — Por que você deixou a festa? Ellery apenas balançou a cabeça. Tinha acreditado que tudo havia mudado na noite anterior, quando Larenz lhe dissera que não haveria mais regras entre eles. Mas a verdade é que havia; para ela, não para ele. — Fui embora porque recebi uma chacoalhada que já chegou tarde. — Do que é que você está falando, Ellery? — Ouvi duas mulheres conversando no banheiro — disse ela, com um nó na garganta. — Falavam a meu respeito... Larenz conteve um palavrão. Com dois passos largos, ele a alcançou e a agarrou pelos ombros descobertos. Sua pele estava quente. — Isso tudo não passa de fofoca, maledicência.. — Eu sei disso — disse Ellery, quase engasgando. — Posso ter sido uma virgem ingênua, mas não sou completamente estúpida. — Então o quê... — Eu sou sua amante, não sou Larenz? É isso o que significa esta semana — disse ela, desvencilhando-se dele e indo até o terraço. — Fui com você a Londres, vim até aqui, achando que estávamos tendo um caso, nos divertindo, e admito que a culpa é toda minha por ter sido tão estúpida. — Nada do que você diz faz sentido! — exclamou Larenz. — Eu sei que não. Admito que minha reação a essa palavra é puramente emocional — prosseguiu ela, no mesmo tom de voz perfeitamente razoável. — Irracional, até, eu diria, mas isso não muda o que sinto. — Não estou entendendo nada. — Já eu estou finalmente entendendo tudo — retrucou Ellery. — Estes brincos encantadores... — disse ela, tirando-os e colocando-os sobre a mesinha de centro. — E estas sandálias... Tudo não passa de pagamento pelo sexo. Porque, se não estivesse dormindo com você, eu não estaria aqui. — O que está dizendo, Ellery? Não posso lhe dar presentes? — Não são presentes. Nosso relacionamento, se é que posso chamar o que temos assim, não é igual. É você quem dá as cartas, Larenz. Quando se cansar de mim, seja lá quando isso for vai me mandar embora. Vai me descartar assim como... — ela conteve as palavras que estivera prestes a usar: minha mãe — como um sapato velho. — Você sabia quais eram as regras quando eu a convidei para vir comigo... — E elas ainda valem, não é? Você é o único que pode quebrá-las, mudá-las ou até mesmo se esquecer delas por um momento. — Ela respirou fundo. — Sim, eu sabia quais eram as regras, mas não tinha me dado conta de como elas fariam com que eu me sentisse. — Você concordou — disse Larenz, com uma voz fria. — Deixou bem claro, aliás, que era isso o que queria também. Você não estava à procura de um relacionamento, Ellery. Nem de amor. Ou será que me enganou? — Fui eu que enganei a mim mesma por achar que era isso o que eu queria. Ou, pelo menos, podia vir a querer. — Entendo. — Não, você não entende. — De repente, toda a raiva que havia dentro dela se evaporou, deixando-a apenas cansada e deprimida. — Eu sabia — disse ela em voz baixa —, mas não posso levar isso adiante, Larenz. Não posso ser sua... Não posso ser a amante de homem algum. — Eu já disse Ellery, é apenas uma palavra! — esbravejou Larenz. — Por que deixar que ela a perturbe dessa maneira? — Porque ela é bem mais que uma simples palavra para mim — disse ela, com um sorriso triste. — Talvez eu deva lhe contar por que decidi permanecer no solar. Larenz a olhou desconfiado. — Está bem. Ela respirou fundo, sabendo que precisava se explicar, mas não querendo se expor. Não com 53


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

Larenz daquele jeito, tão frio, zangado e duro. E ela havia chegado a temer, por um breve espaço de tempo, que pudesse se apaixonar por ele. Ellery suspirou e afundou no sofá. — Eu já lhe disse que amava meu pai — começou ela, evitando olhar para Larenz ou decifrar suas emoções. — Ele era carismático, encantador — disse ela, como se estivesse lendo um roteiro. Tudo não passara, na verdade, disso: um roteiro da falsa vida de seu pai. — Ele nunca soube lidar bem com dinheiro — prosseguiu ela. — Herdou tudo, de seu pai, embora a propriedade e o título não fizessem parte do pacote. Suponho que o solar tenha decaído lentamente ao longo dos anos, mas nunca me dei conta disso. Ele era minha casa quando eu era pequena, e eu o amava. Depois que cresci, fiquei ocupada demais com a minha própria vida para perceber o que quer que estivesse acontecendo no solar ou me importar com isso. Embora a escutasse, Larenz ainda parecia impaciente. — É sempre assim com os jovens. — Suponho que sim. Seja como for, não é isso o que quero lhe contar. Só quero que você entenda... Tudo. — A expressão dele não se alterou. — Meu pai costumava viajar muito. Á negócios, segundo ele, embora não tivesse um trabalho que justificasse tantas viagens. Ele tinha investimentos, preocupações, dizia. — Ela soltou uma súbita gargalhada amarga que fez Larenz arquear as sobrancelhas, embora não tivesse dito nada. — Pois, sim, preocupações. Duas delas, para ser mais exata. — Ela se deteve, respirou fundo e então olhou diretamente para Larenz. — Ele passava dias, até mesmo semanas, fora de casa. Minha mãe sempre me dizia que ele se sacrificava por nós, para garantir que pudéssemos continuar morando em nosso solar encantador. Acho que ela realmente acreditava que ele estava tratando dos tais investimentos. Ao menos ela se forçava a acreditar, embora, olhando para trás, eu saiba que ela suspeitava. .. De alguma coisa. Ela era muito infeliz. Nós, porém, só descobrimos a verdade quando ele morreu, quando eu tinha 19 anos. Larenz estreitou os olhos. — O que aconteceu então? — O segredo de meu pai foi revelado. Os dois. Ele tinha uma amante. Uma amante e... Um filho — disse ela com a voz embargada. Larenz comprimiu os lábios, mas continuou calado. — Um filho. — Ellery balançou a cabeça, revivendo o choque e o horror que sentira naquele dia, ainda entorpecida de tristeza, quando a outra família de seu pai chegara ao solar e ela percebera o quanto eles estavam enlutados e o quanto o amavam, assim como ela e sua mãe. — Ele ia visitá-los. Tinha toda uma outra vida, outra família. Eles moravam em Colchester, numa casa bastante boa, que meu pai havia montado para eles. O que explicava, em parte, o motivo do solar, estar caindo aos pedaços. Manter duas famílias é algo bastante custoso. — Ela suspirou lentamente. — No começo, não acreditamos neles. Não era possível que ninguém soubesse de nada, que ninguém tivesse dito coisa alguma. Afinal de contas, circular em Colchester num Rolls Royce clássico não era exatamente um comportamento discreto. — Ela tentou rir, mas não conseguiu. Seu medo era o de que as pessoas soubessem e tivessem mantido o segredo por pena. — A mulher mostrou algumas fotos a minha mãe, tiradas ao longo de anos. Os aniversários, e até mesmo os Natais, em que meu pai havia dito que teria que viajar. Uma vida inteira. Ellery olhara para aquelas fotos com uma descrença entorpecida; imagens de seu pai jogando futebol com o filho que sempre desejara e que efetivamente tivera. O rosto de sua mãe se fechara ao ver as várias tomadas de seu marido beijando outra mulher e, pior, muito pior que isso, foram as fotos do tipo "vida em família", a vida que eles já haviam perdido há muitos anos. — Não vejo o que isto tem a ver com você, nem comigo. Com você ou comigo. Não conosco. Talvez não houvesse mais nós, nunca houvera. Ellery engoliu em seco. — Quero que entenda... Aceitei ter este caso com você porque achei que essa seria uma maneira de manter o controle da situação, de não ser como minha mãe. E — acrescentou ela — porque queria estar com você. Larenz não disse nada e Ellery terminou dolorosamente: — Mas acabei me transformando em algo muito pior que ela. Acabei agindo como a amante de meu pai. Uma amante — repetiu ela. — Eu não posso ser uma coisa dessas. 54


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

— Mas eu não sou casado. Não é a mesma coisa. — Eu compreendo isso, mas não estamos no mesmo nível, não é? Não era nada disso que eu queria. Isso aqui não sou eu. — O que você está dizendo — disse Larenz numa voz cuja calma ainda revelava uma fúria subjacente — é que você, na verdade, deseja ter um relacionamento — concluiu ele com um desprezo contundente. — Um amor. Ellery piscou nervosamente. Não queria se mostrar tão vulnerável, especialmente quando Larenz parecia tão frio. Ele certamente não ansiava por um amor, nem de sua parte e nem de quem quer que fosse. — Eu não sei o que quero — disse ela, finalmente, num fio de voz. — Só sei que não quero isso. Mas ela ainda queria Larenz. Seu corpo doía com a lembrança de seu toque, assim com seu coração. Queria amá-lo mesmo agora, com ele olhando tão friamente para ela, sem se deixar abalar pela história de sua vida. Ser amada por ele. A idéia era aterrorizante. Ela era uma amante muito inconveniente. — Eu sinto muito — ela conseguiu finalmente dizer, um tanto surpresa consigo mesma. Seus sentimentos eram profundos demais para um simples pedido de desculpas, mas ela não sabia mais o que dizer, nem como transpor aquele abismo que havia se aberto entre eles. Larenz observou os ombros leves de Ellery caírem, sua cabeça se curvar e a dor que ela vinha tentando segurar derrotá-la. Seu coração se contorceu, pois ele sabia muito bem o que era ser traído pelo próprio pai. Entendia bem demais como aquilo podia fazer alguém se sentir sozinho e temeroso. Temeroso de amar, de confiar em alguém. Ficar sozinho era mais seguro. A história de ambos era a mesma e, ao mesmo tempo, pensou Larenz, muito diferente. O que ela havia acabado de lhe contar só confirmava isso. E, ainda assim, ele queria tomá-la em seus braços, afastar o cabelo de sua testa e beijar ás lágrimas que brilhavam em seus olhos e que ela continha bravamente, dizendo-lhe que o passado não importava. Mas ele não podia fazer isso, porque o passado importava, e muito, e era exatamente ele que mantinha a ambos ali, suspensos no silêncio, incapazes de transpor o abismo que havia se aberto entre eles. Larenz estava furioso por ela não ter cumprido o acordo e quebrado suas regras. E furioso consigo mesmo por ter feito exatamente como ela. — Eu vou trocar de roupa — murmurou Ellery, com a voz embargada. Larenz conteve um palavrão. Não queria que tudo acabasse daquele jeito, não queria que Ellery partisse. Não estava pronto para deixar que ela fosse embora, ainda que, em algum momento, aquilo fosse inevitável. Ainda que fosse a coisa mais sensata a fazer. Para ambos. — Espere — disse ele, superando o nó em sua garganta. Não sabia que palavras usar, o que seria suficiente e não excessivo, não sabia sequer o que era capaz de sentir. De dar. — Deixe-me ajudá-la — disse ele, finalmente. Ela se virou surpresa, receosa e talvez um pouco esperançosa também. Larenz se forçou a sorrir. Não sabia o que queria. Não sabia o que queria sentir. — Não vamos terminar assim, Ellery. — Eu não vejo por que levar isso adiante. — Eu tenho... — Larenz se deteve, sentindo a garganta seca e apertada. — Eu tenho algumas coisas para lhe contar também. Ele mal podia acreditar que estava proferindo aquelas palavras. Por que aquela mulher fazia com que ele quisesse lhe revelar partes de si que ele mantinha escondidas do restante do mundo? Sua sensação era a de estar à beira daquele abismo, sem conseguir transpô-lo. A única saída era saltar. 55


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

— É mesmo? — perguntou Ellery suavemente. Larenz assentiu. Não sabia se iria cair abismo abaixo ou se a confiança e o amor o ajudariam a voar. Aquela incerteza era assustadora, e ele não estava gostando nada daquilo. — Depois — disse ele quase asperamente. — Teremos tempo de sobra para isso mais tarde. Larenz não sabia se aquilo era uma ameaça, promessa ou simplesmente uma esperança. Ela assentiu lentamente e, tomando a mão dela na sua, Larenz a conduziu para o quarto. Não confiava em si mesmo para falar; não tinha mais palavras. Na manhã seguinte, o corpo de Ellery doía como se ela tivesse escalado uma montanha sem jamais conseguir alcançar o cume. Deitada ali, sentindo o sol da manhã banhar o seu rosto, ela se perguntou há quanto tempo vinha naquela escalada. Ela se virou para o lado a fim de olhar para Larenz, que ainda dormia. Ellery não estava bem certa do que tinha acontecido na noite anterior; se ela e Larenz haviam, afinal, encontrado uma maneira de seguir em frente. Eles não tinham conversado muito depois de ela ter lhe contado a respeito de sua família. As palavras eram perigosas demais, e a ligação entre eles era excessivamente frágil. Ellery havia ido para a cama sozinha, mas tinha acordado no meio da noite e encontrado Larenz dormindo a seu lado, exatamente como agora. Olhou para o rosto dele, com a expressão suavizada por causa do sono, os cílios tocando as bochechas, e se perguntou que pensamentos ele esconderia em sua mente, que esperanças haveria em seu coração. Será que ela alguma vez teria coragem lhe perguntar ou ele teria coragem de lhe contar? Os olhos de Larenz se abriram de repente e Ellery foi pega em flagrante. — Bom dia — disse ele, com a voz rouca de sono. — Você me olha como se eu fosse um quebra-cabeça e você estivesse tentando me solucionar. Ela sabia que não seria capaz daquilo, pelo menos por enquanto, pois não tinha todas as peças. — Nada tão dramático — disse Ellery, tentando manter um tom casual. — Eu só gosto de ver você dormindo. Larenz pegou a mão dela e a levou até seus lábios, com os olhos fixos nos seus. O coração de Ellery saltou dentro do peito diante daquele gesto, e do que ele poderia significar, mas ela não ousou perguntar. — Eu quero lhe mostrar um pouco da minha vida — disse ele. Sua vida. Sua intimidade. Uma esperança se agitou dentro dela. — Eu quero vê-la — disse ela, com a mão ainda na dele. — Para onde você vai me levar? — Para a De Luca's, e, então, talvez, para Úmbria. De onde eu vim... Ellery sabia que aquela era a maneira dele de lhe dar alguma coisa, de talvez transpor o abismo que havia se aberto entre eles, o abismo entre um caso e um relacionamento. Eles seguiram numa limusine até a matriz da De Luca's, no centro de Milão, num edifício de cinco andares, estilo Art Nouveau. Ellery ficou maravilhada com as colunas de mármore, as jóias fabulosas, as roupas... Sua sensação foi a de ter sido capturada para dentro de um filme ou de um sonho. Larenz lhe mostrou tudo. Sabia o nome de cada um dos empregados, conhecia cada uma das mercadorias. Ele era o dono daquela loja, não apenas no sentido literal, mas também num sentido espiritual. — Como você sabe tanto a respeito da loja? — perguntou Ellery quando eles entraram no antigo elevador. — É o meu trabalho. — Ele se deteve. — Eu comecei como boy do chefe de um dos departamentos. Observava tudo o que acontecia lá e vi todo o desperdício, corrupção e ganância. Sabia desde aquela época que eu queria começar alguma coisa melhor e maior. Algo que celebrasse a beleza sem fazer com que eu me sentisse feio. — Ele riu um tanto inseguro, um som diferente de tudo o que Ellery já havia ouvido da parte dele, fazendo com que ela tivesse certeza de que se tratava de mais um presente. Ele estava se abrindo para ela. Larenz passou a tarde mostrando-lhe todos os departamentos da De Luca's, sem se oferecer para lhe comprar coisa alguma. Ellery sabia que ele o estava fazendo de propósito, para que ela não se sentisse como uma amante. Era engraçado como aquela ausência de presentes podia se 56


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

transformar num presente por si só. Um presente bem mais precioso: seu tempo, seu ser. E aquilo estava fazendo com que ela se apaixonasse por ele. Amor. A palavra proibida, a palavra que Ellery só podia sussurrar para si mesma de tanto que ela a assustava. O amor era assustador. Arriscado. O amor era um grande e perigoso desconhecido. Eles voltaram ao hotel, no final do dia, cansados e com os pés doloridos, mas felizes. Larenz pediu comida no quarto e eles jantaram sob a luz suave de velas, na sala de estar. Não falaram muito, como se ambos soubessem que as palavras poderiam quebrar aquela ligação frágil e preciosa, tênue e suave, que havia emergido entre eles. Larenz simplesmente tomou a mão dela na sua e a conduziu para o quarto, e Ellery o seguiu, sem fazer perguntas a respeito dele, ou de si mesma. Simplesmente foi. Eles fizeram amor silenciosa e lentamente, na mais pura forma de comunicação. Uma união de corpos, mentes e corações. Quando Larenz a penetrou, com os olhos fixos nos seus, Ellery sentiu as lágrimas chegarem. Piscou repetidas vezes para conte-las, irritada, porque, mesmo naquele momento, elas a haviam pegado de surpresa. Deitada em seus braços, mais tarde, ela não se permitiu questionar, nem ponderar. Ficou simplesmente ali, ouvindo o som da respiração dele; até mesmo os seus pulmões haviam encontrado um ritmo comum. Na manhã seguinte, eles partiram de Milão no Porsche prata de Larenz, com o céu azul e ensolarado. Depois de mais de uma hora dirigindo, Larenz deixou a rodovia principal e entrou numa estrada estreita pelas colinas de Úmbria, agora tingida de ocre devido ao outono, e banhada pelo sol. — Para onde estamos indo, exatamente? — perguntou Ellery. Eles não haviam conversado muito no carro. As palavras ainda eram perigosas. O silêncio pensou Ellery, era realmente de ouro. — Para um palazzo perto de Spoleto — respondeu Larenz. — Minha casa, de certo modo. Depois de dirigir mais uma hora, ele finalmente tomou um longo caminho sombreado pelas árvores, em cujo final Ellery pôde ver um magnífico palazzo, com duas dúzias de janelas brilhando á luz do sol. Então era ali que Larenz havia crescido, pensou ela, enquanto ele estacionava. Uma criança cercada de poder e privilégios. — Há alguém morando aqui, agora? — perguntou Ellery. O lugar causava uma estranha sensação de vazio. As janelas pareciam vazias e, embora estivesse em excelente estado de conservação, tudo ali parecia estéril, sem vida. — Não. Larenz tirou uma chave de seu bolso e abriu a porta. — Quero que conheça o meu Solar Maddock. Ellery adentrou a sala, com um reluzente piso de mármore em variações de preto e branco. Acima, brilhava um enorme lustre de cristal sob a luz do sol. Ela riu levemente. — Isto não se parece em nada com o solar. — Estava falando metaforicamente — respondeu Larenz. Ele jogou a chave numa mesa de mármore junto à porta e se virou lentamente. — Na verdade, nunca estive aqui antes. Ellery se virou para encará-lo, chocada. — O que está querendo dizer? Esta não é sua casa? No exato momento em que proferiu aquelas palavras, ela se deu conta de que Larenz não tinha uma casa. Ele vivia em hotéis — tudo sempre temporário, impessoal, luxuoso. Perguntou-se, então, se havia uma razão para isso... E se ele a contaria a ela. — Esta é a casa de meu pai — corrigiu Larenz. — Ele morreu há três anos quando eu a comprei. — A boca dele se torceu numa espécie de sorriso, embora sua expressão sombria e dolorida ainda deixasse Ellery gelada. — Nossos pais eram muito parecidos. — Larenz... Como... — disse Ellery, insegura, pois havia algo de proibitivo na expressão dele, uma amargura em sua voz. Ela não sabia o que dizer, que perguntas fazer. Ele estava lhe dando outro presente, outra parte 57


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

de si mesmo, e ela estava com medo de recebê-la. — Venha — disse ele, no mesmo tom amargo. — Vamos ver o que meu dinheiro comprou. Larenz caminhou de um lado para outro da sala de visitas, examinando as antigüidades inestimáveis e os objetos de arte com olho crítico. Ellery ficou parada na porta, olhado para o ambiente. Tudo estava lustrado, polido e em perfeitas condições. Um cheiro de limão pairava no ar, como se uma empregada tivesse acabado de deixar o lugar. Mas Larenz nunca tinha vivido lá? Ninguém morava lá? Aquilo era muito estranho. Desconcertante. — O que está acontecendo? Por que você nunca morou aqui? Ele estava avaliando o que parecia ser um Gaugin original. — Eu nunca morei aqui porque nunca tive permissão para tanto — disse ele, interrompendoa, com um tom de voz curiosamente impassível. — Esta era a casa de meu pai... Que não me reconheceu como seu filho. — O que você... — disse Ellery, ofegante. — Como vê, nós somos lados opostos da mesma moeda, Ellery — disse Larenz com um estranho sorriso. — Da mesma história sórdida. Ellery balançou a cabeça, sem entender, sabendo, porém, que aquilo que Larenz estava lhe contando era terrivelmente importante. — Minha mãe — esclareceu ele — era a amante de meu pai. A delicada ênfase que ele havia colocado naquela palavra fez Ellery se contorcer. É apenas uma palavra. Era por isso que ele não deixava que ninguém se aproximasse? Ellery sentiu o sangue correr para seu rosto ao se lembrar das coisas duras que havia dito sobre a amante de seu pai e seu filho. Um homem como Larenz. Com mais sorte que ele, porém, já que seu pai o havia reconhecido e amado. — E o que aconteceu? — murmurou ela. Larenz deu de ombros. — Minha mãe trabalhava na cozinha daqui. A história clássica. — Ele riu, como que entediado, mas Ellery ouviu, e sentiu a dor que havia por baixo daquela risada. — Ele a engravidou, abandonou e lhe deu algum dinheiro. — Sua boca se contorceu. — Ele, definitivamente, não montou uma bela casa para ela em Colchester. Não passou nenhum aniversário ou Natal com a outra família. Nenhuma foto. Ellery conteve as lágrimas que se acumulavam nos cantos de seus olhos e ameaçavam correr por suas faces. — Ela o amava? — perguntou Ellery em voz baixa. Quis perguntar se ele o amava. Será que Larenz, á seu modo, havia se decepcionado com seu pai da mesma forma que ela havia se decepcionado com o seu? Talvez até mais? Ela, pelo menos, tinha suas lembranças, por mais embaciadas que fossem. — Quem sabe? Ela não fala muito sobre isso. Tinha vergonha. Ser mãe solteira na Itália rural da geração passada era algo muito difícil de sustentar. Foi por isso que ela se mudou para Nápoles. Sua irmã morava lá e ela queria se ver livre das fofocas. — E quanto a você? Chegou a conhecer seu pai? Larenz enrijeceu, apesar de parecer não ter se movido. — Eu o vi uma única vez. A resposta não ensejava mais perguntas, porém Ellery queria saber. — E esta casa? Como você veio a possuí-la? — Essa é uma pergunta interessante. Por que não continuamos nossa visita para ver o restante da casa? Sem dizer uma palavra, Ellery o seguiu em direção à escada curva de mármore e, então, por um longo corredor. Seus passos eram silenciados por suntuosos tapetes. Ele mal olhou para os quartos, todos decorados com o devido luxo e elegância. O Solar Maddock de Larenz pensou ela, com certo pesar, estava em bem melhores condições que o seu. 58


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

De volta ao andar de baixo, ele se deteve na biblioteca, onde as paredes estavam abarrotadas de livros com capas de couro. Ele passou um dedo pelos títulos, com um olhar de tranqüilidade imparcial em seu rosto. Aquilo a fazia sofrer, pois ela sabia muito bem como aquela expressão neutra escondia a dor dele. Já o havia sentido na própria face. — Larenz... — começou ela, mas ele apenas balançou a cabeça. Ele não queria conversar. Estava bloqueando-a com seu silêncio, e ela não podia suportar aquilo, não permitiria que o fizesse. — Está como você esperava? — Eu não sabia o que estava esperando até atravessar a porta, mas... — Ele balançou a cabeça lentamente. — Não consigo sentir nada — disse ele com um sorriso triste. — É patético. Comprei esta casa quando meu pai morreu para provar que era digno dela. Ao menos, foi o que supus — disse Larenz com um longo suspiro. —Assim como seu pai, o meu também não sabia lidar com dinheiro. Eu comprei este lugar por uma bagatela. A família dele ficou furiosa. Ellery percebeu o modo desdenhoso como ele enfatizara a palavra família e sentiu as lágrimas se avolumarem outra vez em seus olhos. Ela se deu conta de que jamais havia parado para pensar nos sentimentos da outra família de seu pai; em como devia ter sido difícil para eles viver como impostores, escondidos. Eles, certamente, haviam se sentido traídos também. Eles eram tão diferentes, porém tão insuportavelmente semelhantes marcados pela história fracassada de suas famílias, e se agarrando à única coisa tangível que provava que eles sequer haviam tido uma: suas casas. — Larenz... Ela deu um passo para á frente, sentindo um fio de esperança se agitar dentro dela, quase fazendo com que tropeçasse. Não cederia ao desespero; já havia feito isso por tempo demais, assim como Larenz. Ao menos eles eram parecidos naquilo, e saber disso fez com que ela compreendesse que aquele abismo impossível poderia ser transposto, um dia. O que parecia tê-los afastado poderia, com sorte, juntá-los novamente. Se estivessem dispostos a correr o risco. — O que foi? Perdido em seus próprios pensamentos, ele se virou na direção dela como se tivesse esquecido completamente que ela estava ali. Sua expressão era indecifrável e Ellery soube que ele estava se fechando outra vez. Foi então que ela entendeu o que ambos precisavam fazer. Atravessou o espaço que os separava e tocou os ombros dele, deixando suas mãos deslizarem pela seda do seu terno, puxando-o para junto de si. Larenz resistiu, e ela deixou seu próprio corpo relaxar contra o dele, incitando-o a aceitar sua própria rendição. Não ia permitir que nenhum dos dois se afastasse se fechasse para se sentir seguro. — Leve-me para sua verdadeira casa — disse Ellery. — Em Nápoles. Sua mãe ainda mora lá? — Sim... — Leve-me até lá — implorou Ellery baixinho, com o corpo ainda aninhado ao dele. — Mostre-me sua casa, não este mausoléu. Mostre-me você. Larenz balançou a cabeça, num movimento instintivo de negativa e auto proteção. — Eu nunca levei ninguém lá. — Leve a mim. — Ellery conteve a respiração, sabendo o quanto estava lhe pedindo. Seu coração batia acelerado dento do peito, contra o de Larenz, e o silêncio se estendeu. — Por favor — sussurrou ela, inclinando seu rosto para cima a fim de poder ver as expressões se sucederem no rosto de Larenz. Negação, medo, incerteza, esperança. Ela conhecia todos aqueles sentimentos. Sentiu-os em sua própria pele e esperava que eles, por favor, pudessem ser esquecidos. Depois de um momento interminável, Larenz finalmente, respondeu. Passou os braços em torno dela, puxando-a para ainda mais perto do abrigo de seu próprio corpo, e enterrou o rosto na curva quente de seu pescoço, onde seus lábios roçaram sua pele. Aquela 59


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

era, ela soube, sua própria rendição. — Está bem — sussurrou ele. Ellery fechou os olhos de alívio e gratidão quando os raios do sol atravessaram as elegantes janelas do palazzo e os banharam com seu calor e sua luz.

CAPÍTULO ONZE

O dia já estava escurecendo quando eles chegaram a Nápoles. Fora uma viagem longa, mas eles mal haviam se falado durante o trajeto. As lembranças eram muito pungentes, muito sufocantes, embora, mesmo em meio a elas, Ellery ainda sentisse um pequeno raivo de esperança. Ela havia se jogado nos braços de Larenz e ainda estava agarrada a ele agora, mesmo que através do silêncio e da tensão crescente. Não se deixaria abater pelas lembranças. Larenz olhou para o perfil pálido de Ellery contra a janela escurecida. Ela parecia cansada e um pouco triste. Não era para menos. Os últimos dias haviam sido uma verdadeira montanha-russa emocional para ambos. Ele podia sentir os efeitos em todas as partes de seu corpo, especialmente no coração. Jamais quisera gostar de alguém, nem algo mais do que isso. Não conseguia nem sequer dar nome àquele sentimento. Não estava nem mesmo seguro de que era capaz de senti-lo e não estava disposto a falar com Ellery sobre o assunto, mas não podia suportar a idéia de vê-la partir... Os dedos de Larenz se fecharam com mais força em torno do volante. Levar Ellery para Nápoles — para seu passado — era, certamente, uma maneira de garantir que ela efetivamente partisse. Ele podia ostentar as pompas da riqueza e do privilégio agora, mas certamente não havia nascido em berço de ouro. Sua mãe, sempre muito orgulhosa, recusara sua oferta de ir morar numa casa na melhor região da cidade e ainda vivia no apartamento apertado em que ele havia crescido para sua consternação e até mesmo nojo. E talvez o de Ellery, também... A maioria das mulheres que ele conhecera só estava interessada no homem em que ele havia se tornado, e não no homem que ele havia sido. Nem sequer no homem que ele era. Desde o momento em que conhecera Ellery, porém, ele não fizera outra coisa senão revelar o homem que ele verdadeiramente era como se quisesse ser conhecido. Aquilo era enlouquecedor. Assustador. O que ela pensaria do menino cujo pai havia lhe dito que não o conhecia que o havia mandado embora de sua casa, ainda da porta, a mesma porta que Larenz havia aberto naquela manhã? Ter adquirido o palazzo fora uma vitória vazia; o homem a quem ele quisera impressionar já estava morto. Larenz, porém, não tinha compreendido toda a futilidade de seu gesto magnífico até mostrar o lugar a Ellery. Até ter visto todos aqueles enormes cômodos magníficos vazios com seus próprios olhos. Com um suspiro, ele conduziu o Porsche pelas ruas estreitas de um dos bairros da classe operária da cidade. Aquela era sua infância, sua casa, e ele sentiu profundamente sua miséria. Ellery olhou para os prédios com sua tinta descascada e venezianas tortas com um rosto impassível. Aquilo não era muito diferente do solar dela, pensou Larenz, embora não houvesse nenhum Aubusson por lá. — Chegamos. — Seu carro não... — perguntou Ellery, hesitante. — Ninguém vai ousar tocar em meu carro aqui. Todos me conhecem. E também minha mãe. Ele viu a centelha de surpresa nos olhos de Ellery e se perguntou como ela reagiria ao apartamento pobre de sua mãe. 60


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

Larenz tinha ligado do caminho para ela a fim de avisar que estava indo a sua casa. Ela havia cantado de deleite, prometendo fazer muita massa. Agora, conduzindo Ellery por um beco estreito, rumo a um edifício no fundo, ele se perguntou se estava cometendo o maior e mais devastador erro de toda a sua vida. Aquilo era muito diferente do que ela havia esperado. Tendo em vista a riqueza de Larenz, jamais poderia imaginar que a mãe dele ainda vivesse naquelas condições. A julgar pela tensão em seu rosto, Larenz certamente desejava que ela vivesse num lugar mais confortável. Será que ela havia recusado o dinheiro dele? Para um homem orgulhoso como Larenz, que devia ter trabalhado muito duro para chegar aonde chegou, aquilo devia ser muito duro de aceitar. Ela estava começando a entender por que ele não tinha levado ninguém até lá. Estava começando a entender aquele homem que antes havia julgado simplesmente como superficial. — Buona será! Buona será! A porta à frente deles se abriu, e uma mulher de cerca de 50 anos, com um cabelo grisalho e encaracolado puxado para trás lhes sorriu. Ela agarrou Larenz pelos ombros e o beijou sonoramente em ambas as bochechas. Ellery não entendeu a súbita torrente de palavras em italiano que a mulher dirigiu a seu filho, mas, a julgar pelo dedo em riste e o cenho franzido, ela parecia estar lhe dizendo que eleja estava há muito tempo sem vê-la e que não estava comendo direito. O abraço que trocaram provava que eram afetuosos um com o outro, embora ela ainda pudesse sentir uma tensão no ar. — Mamma, esta é lady Ellery Dunant... — Prazer em conhecê-la — interrompeu Ellery, apressadamente. Por que Larenz havia decidido usar seu título estúpido? Estaria tentando enfatizar as diferenças que havia entre eles? Pois ela preferia se ater às semelhanças. — Chame-me Ellery, por favor. — Eu sou Marina de Luca. É um prazer — disse a mãe de Larenz, num inglês hesitante. Ellery olhou assustada para Larenz ao ouvir o nome de sua mãe. Marina. Era o mesmo nome que ele havia conferido a sua linha de alta costura. Aquilo fez seu coração se apertar dentro do peito. — Entrem. Eu preparei o jantar. — É claro — murmurou Larenz para Ellery, que sorriu. Era bom ver Larenz fora de seu contexto habitual e, ao mesmo tempo, em casa. Bom e perturbador, pois ele, certamente, não era o homem que ela havia pensado que fosse, o homem em quem ele queria que o mundo acreditasse. Ele vinha lhe mostrando, de bom grado, até ser outra pessoa. O homem que ele realmente era. E aquele homem era alguém que ela podia amar. Ellery engoliu em seco, afastando aquele pensamento de sua mente. Era assustador demais lidar com aquilo agora, apesar do pensamento continuar ecoando em sua mente, e girando em torno de seu coração. Marina tirou um prato enorme de rigatini do forno da cozinha minúscula e o levou até a pequena mesa da sala. — Comam. Vocês devem estar com fome. — Isto parece delicioso — murmurou Ellery ao se sentar. Depois, Marina lhes serviu minúsculas xícaras de café expresso e fatias deliciosas de panetta. — Larenz nunca me apresenta a ninguém — disse ela, observando Ellery comer seu bolo. — Às vezes, penso que ele tem vergonha de mim. — Mamma, você sabe que isso não é verdade — disse Larenz. Seu bolo estava intacto. Ela deu de ombros pragmaticamente. — Eu sei aonde você chegou. Entendo que isso possa parecer um retrocesso para você. — Não é nada disso — disse Larenz em voz baixa. O coração de Ellery se condoeu com a intensidade do seu tom de voz. Marina voltou-se para Ellery. — Larenz queria que eu morasse num lugar enorme, na periferia da cidade. Num palazzo. Pode imaginar uma coisa dessas? O que diriam os vizinhos? Quem viria me visitar? Apesar de compreender as dificuldades daquela senhora, Ellery sentiu compaixão por Larenz. 61


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

Queria propiciar uma vida mais confortável para a sua mãe, mas ela não aceitava seu dinheiro, seu amor. Marina olhou para o filho, embevecida. — Tirando Larenz. Mas ele só vem algumas vezes por ano, quando muito. — Tenho certeza de que ele tem andado muito ocupado — disse Ellery, sorrindo para ele. Larenz desviou o olhar e Marina soltou uma gargalhada. — Oh, sim — concordou ela. — Muito ocupado. Mas ninguém pode ser tão ocupado assim, não é? — Eu preciso fazer algumas ligações — disse Larenz, pedindo licença para sair da sala. Um silêncio se abateu sobre as duas mulheres, e Ellery não sabia dizer se amigável ou não. Marina a avaliou enquanto ela brincava com seu garfo. Precisava processar tudo o que havia descoberto a respeito de Larenz naquele dia. — A comida estava ótima — disse Ellery, por fim. — Muito obrigada. — Ele nunca trouxe mulher alguma para me conhecer — disse Marina. —Você sabe uma namorada... Ellery enrubesceu. —Mas você ele trouxe. Uma moça inglesa. Não sei, não... — Não é... — começou Ellery, embora não tivesse idéia do que dizer, nem como explicar sua relação com Larenz. Marina se inclinou para á frente e estreitou os olhos. — Não vá partir o coração dele, hein? Sei que ele tem dinheiro, mas por dentro não passa de um menino pobre. Ele nunca vai conseguir se esquecer disso. — Eu não vou partir o coração de ninguém — disse Ellery, com um nó na garganta. Nem quero que ninguém parta o meu, acrescentou ela em silêncio. — Reservei um quarto para nós num hotel da cidade — disse Larenz, ao voltar para a sala. Depois se inclinou para beijar o rosto de sua mãe. — Já é tarde, mamma, e nós dirigimos o dia todo, desde Milão. Voltaremos amanhã. Ellery e Larenz só voltaram a se falar depois que Ellery se acomodou no assento do carro. — Obrigada por ter me trazido — disse ela, finalmente. Ele deu de ombros. — Agora você sabe. Sabia o quê? De onde ele tinha vindo? O que ele havia passado? Que, apesar de ter dinheiro, poder e prestígio, ele ainda era aquele menino pobre, e que ela o amava por causa disso? Amava. Ellery engoliu em seco. Agora você sabe. Apesar de tudo aquilo, porém, ela ainda tinha a sensação de que não sabia nada a respeito dele. Eles seguiram em silêncio até mais um hotel luxuoso, desta vez na Baía de Nápoles. Aquela opulência toda não tinha nada a ver com ela nem mesmo com Larenz. Era apenas uma maneira — ainda que luxuosa — de impedi-los de viver de verdade. Ellery estava com o peito repleto de esperanças, mas não ousava nomeá-las, nem mesmo para si. Estava muito apreensiva com tudo o que havia acontecido, sem nem mesmo saber se tudo aquilo era real. Exausta, ela afundou na cama e fechou os olhos. Por que a idéia de deixá-lo fazia com que ela tivesse vontade de chorar? — Não chore cara — disse ele suavemente. Ellery abriu os olhos ao sentir o toque suave dos dedos dele em seu rosto. Larenz se ajoelhou em frente a ela com tamanha compaixão que mais uma lágrima rolou por sua face. Ela soltou um som engasgado, um misto de riso e soluço. — Não sei por que estou chorando. — Estranho, não é? — disse Larenz, limpando a segunda lágrima. — Muita coisa aconteceu em muito pouco tempo. É difícil saber o que pensar. Ellery engoliu em seco. Ou o que sentir. Há seu ver na penumbra, ali, com ele, tendo como único som o de suas respirações instáveis, ela se lembrou daquela noite, no solar, em que Larenz a havia, segurado junto de si e esperado que ela se decidisse. 62


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

Quando eles haviam feito amor. E talvez, também, quando ela se apaixonara. Aquela agitação, aquela esperança feroz, aquela necessidade profunda, só podiam ser amor. Ellery apoiou sua testa contra a dele e deixou que aquela constatação tomasse conta dela. Ela o amava. Talvez desde a primeira vez em que o havia visto adentrar sua casa arrogantemente. E certamente depois, quando descobrira o homem que ele era de verdade, que ainda se preocupava com sua mãe, que lavava seu cabelo e que enxugava suas lágrimas. Um homem com tanto medo do amor e da dor que ele poderia causar quanto ela. Talvez até mais. Mas ela o amava mesmo assim. A idéia era maravilhosa e aterrorizante ao mesmo tempo. Ela não tinha a menor idéia se era correspondida e tinha medo de descobrir. Medo de testar a capacidade da ponte que Larenz havia construído para transpor o abismo que existia entre eles. Ellery respirou fundo e se afastou um pouco dele. Não podia ver a expressão no rosto de Larenz no quarto escuro. Quis lhe dizer algo a respeito do que estava sentindo, mas as palavras ficaram presas em sua garganta. Larenz ergueu a mão para tocar seu rosto novamente. A lua banhou seu rosto numa luz prateada, iluminando sua expressão de esperança faminta, quase um desespero. — Ellery... O celular de Larenz tocou insistentemente no bolso de sua camisa. Ele estava prestes a desligá-lo quando Ellery disse, movida, não pelo amor que sentia dentro de si, mas pelo medo que se apoderara dela. — E melhor você atender. Pode ser sua mãe... Larenz lhe lançou um olhar estranho, comprimiu os lábios, e então olhou para o visor do seu celular. — E apenas uma ligação de negócios. Ellery se levantou da cama. Não sabia ao certo o que estava dizendo, só que estava apreensiva demais para dar aquele passo. — Então é melhor atender — disse ela, num tom incrivelmente falso. — Você quer que eu atenda? — perguntou Larenz, incrédulo. Ellery se obrigou a dizer a única palavra capaz de sair de seus lábios entorpecidos. — Sim. — Droga, Ellery... Ellery quase quebrou por dentro, mas o entorpecimento e o medo ainda a contiveram. — Atenda Larenz. Ela sabia que estava lhe dizendo bem mais com aquela insistência, e isso partiu seu coração. Sabia que o estava afastando de si, mas não estava conseguindo se conter. Larenz resmungou e praticamente esmurrou a tecla do celular ao atendê-lo. Ellery saiu do quarto. Ele fechou o celular e o jogou na mesinha de cabeceira. Uma ligação estúpida havia arrumado aquele que quase fora um dos momentos mais importantes de sua vida. Quase. Sentiu a cólera, e pior, a mágoa, tomarem conta de todo o seu ser. Estava magoado. Fora um cego idiota por ter deixado que alguém se aproximasse suficientemente dele para magoá-lo. Ele nunca fazia isso, não desde o dia em que atravessara aquele caminho interminável até o palazzo de seu pai para bater em sua porta com aquela pesada aldrava de bronze. Não desde que seu pai o vira, a contragosto, e lhe lançara um olhar astuto e uma expressão fria. Eu sou o filho de Marina de Luca, dissera ele. Tinha 14 anos, era alto, magro e desajeitado. Ainda não era um homem. Já faz tempo que eu queria conhecê-lo. Eu não o conheço. Ele havia se enrolado com as palavras em sua pressa de explicar, de tranqüilizá-lo. Eu não quero nada de você. Sei... Como são as coisas. Só queria vê-lo... O desejo em sua voz! Larenz fechou os olhos e se lembrou de tudo. Não havia um pingo de pena ou compaixão no rosto de seu pai, apenas ironia. Seu pai o havia reconhecido, ou ao menos sabia quem ele era. 63


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

Eu não o conheço. Adeus. Ele batera a porta na sua cara. Logo em seguida, um de seus empregados o acompanhara para fora da propriedade, deixando bem claro que Larenz jamais deveria voltar, a menos que quisesse arranjar problemas. Daquele momento em diante, Larenz endurecera seu coração. Fizera-o metódica e deliberadamente, sabendo muito bem o que estava fazendo e por quê. Nunca mais permitira que pessoa alguma se aproximasse dele, nunca mais se importara com o fato de alguém importuná-lo ou provocá-lo, como acontecera naquele ano infernal, em Eton. Sua mãe lhe dissera que ele havia ganhado uma bolsa de estudos. Foi só mais tarde que ele descobrira que seu pai, num momento de culpa, havia financiado seus estudos. Larenz tinha deixado o lugar assim que o descobrira. Não aceitava um centavo de ninguém, ainda mais do homem que o havia gerado. Desde então, ele passara a manter relações com conhecidos, empregados, amantes. Jamais amigos ou namoradas. Ninguém obtinha permissão para se aproximar. Ninguém tocava, nem fazia com que ele necessitasse ou mesmo desejasse o que quer que fosse. Exceto Ellery. De algum modo, ela havia conseguido se infiltrar em suas defesas sem nem mesmo saber que o estava fazendo. Ela o havia tocado com seus olhos feridos, seu orgulho feroz e seu doce abandono quando em seus braços. Ele havia começado a acreditar que tudo aquilo poderia, afinal, significar alguma coisa. E, naquele momento traiçoeiro, estivera prestes a dizer... O quê? Que a amava! Larenz não sabia quais eram as palavras que haviam estado por saltar de sua boca, do fundo do seu coração, mas sabia que elas teriam significado algo muito importante para ele. Importante demais até. E ela lhe dissera para atender aquela maldita ligação. Sua cabeça parecia vazia; seu coração, duro outra vez. Aquilo parecia certo. Seguro. Aquele era o homem que ele era — aquele em quem ele havia se transformado. Quem ele tinha que ser. Larenz suspirou profundamente. Havia chegado muito, muito perto de cometer um erro terrível. Mas, graças a Deus, não o fizera. Ellery estava sentada no sofá, olhando pela janela. Sua mente girava à procura de respostas para as perguntas que seu coração lhe colocava. Por que ela havia insistido para que Larenz atendesse aquela ligação? Por que não havia permitido que ele lhe falasse? Será que estava com medo que ele lhe dissesse que não a amava... Ou que a amava? Qual das duas alternativas a aterrorizava mais? O amor era algo tão assustador, pensou Ellery. Ele baixava a sua guarda contra as dores. E, com um homem como Larenz... Ele não é esse tipo de homem. Essa é somente uma desculpa que você inventou por causa de seu medo. Ellery suspirou quase se desfazendo em lágrimas. Larenz entrou na sala e ela sentiu o silêncio, pesado e opressivo, das palavras não ditas. Ela precisava dizer alguma coisa, qualquer coisa. — Eu já fiz uma excursão-relâmpago pela Itália com minha escola — obrigou-se ela a dizer. — Ellery. — Ela se deteve, alarmada com seu tom de voz. Impassível e final, diferente de tudo o que ela já havia ouvido dele antes. — Acabou. A mente de Ellery girava em círculos vazios. — Acabou? — Sim — disse Larenz, a caminho do mini bar para se servir de um uísque, sem olhar para ela. — Tenho que voltar a trabalhar. Providenciarei uma passagem para Londres, para você, amanhã. Ellery piscou repetidas vezes. Devia ter esperado algo parecido, mas, diante de tudo o que havia acabado de acontecer... Ou do que ela havia querido que tivesse acontecido. Ela engoliu em seco. — Simples assim? 64


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

Ele deu de ombros, de costas para ela. — Você concordou com as regras, lembra? — disse ele, cheio de sarcasmo. — E você me disse que não havia mais nenhuma regra entre nós — retrucou Ellery, vulnerável. Ela respirou fundo. — Larenz, sei que agi... De forma estranha... A pouco, quando lhe disse para atender o celular, mas é que eu estava assustada... Isto tudo é muito novo para mim... Eu nunca senti... Ela começou a balbuciar, sem saber ao certo o que estava dizendo, tomada por um medo muito maior de que a vida sem Larenz poderia ser muito pior que a dor da rejeição. — Acabou — disse Larenz em voz baixa, num tom quase selvagem. — Não se humilhe, por favor. Humilhar-se? Era isso o que ela estava fazendo? Ellery reagiu como se tivesse levado um, tapa na cara. De repente, ela começou a se perguntar se, em meio a seu próprio desespero e desejo, não havia interpretado mal toda a situação. Talvez Larenz estivesse acostumado àqueles casos loucos e intensos de uma semana de duração. Talvez sempre agisse assim com suas amantes. Ela estava cansada daquilo. Estava com frio e com muita raiva. Levantou e se colocou diante dele, que ainda estava de costas para ela. — Está bem — disse ela, num tom tão neutro e final quanto o dele. — Já que tudo acabou você pode dormir no sofá. Ela já havia chegado à porta do quarto quando Larenz voltou a falar. — A propósito, aquela ligação era da minha secretária dizendo que Amelie quer dar início à sessão de fotos na semana que vem. A taxa normal é de 10 mil libras. Eu lhe enviarei um cheque. Ellery enrijeceu. Sua mão tremeu ao tocar a maçaneta. — Está bem — disse ela e entrou no quarto.

CAPÍTULO DOZE

Ellery acordou com os olhos irritados, o corpo doendo e o coração pesado. A luz do sol entrava pelas janelas e, ao longe, a Baía de Nápoles cintilava como um diamante. O mundo seguia á frente. Ela se sentou na cama por um momento, com a cabeça baixa. Permitiu-se sentir a angústia da rejeição, a intensa dor da perda, e então enterrou tudo no fundo de seu ser. Também seguiria em frente. Vestindo as roupas que costumava usar no solar, ela foi até a sala de estar com sua mala feita e uma atitude altiva. Larenz já havia tomado banho e trocado de roupa, e estava com o celular preso à orelha. Ele a avaliou de cima a baixo, olhou para a mala dela e para a expressão de Ellery, e então desviou o olhar. — Chamei um táxi para você. Ellery pousou sua xícara. Estava se sentindo pior do que uma amante; sentia-se como uma prostituta. — Obrigada, mas isso não é necessário. Posso encontrar meu próprio meio de transporte. Os olhos de Larenz escureceram, mas Ellery não soube dizer qual era a emoção que havia tomado conta dele. Não fazia diferença. — Reservei um vôo de primeira classe para você. Fará uma baldeação em Milão. — Isso também — respondeu Ellery — não é necessário. Dessa vez, foi possível reconhecer a 65


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

expressão no rosto de Larenz: impaciência. — Ellery, você não precisa provar nada a ninguém. Sei que não tem como pagar por uma passagem de avião... — Na verdade, tenho... — interrompeu Ellery calmamente — considerando que estou 10 mil libras mais rica. — Mas esse dinheiro não deveria ser usado para a casa? — perguntou Larenz. — Não creio que você esteja em condições de me dar conselhos. Larenz bufou impacientemente e Ellery pegou sua mala. O fato de que seu coração estava partido e ele parecia apenas cansado e impaciente a deixava furiosa. Se ele estava farto dela, ela também estava farta dele. — Adeus, Larenz — disse ela calmamente, sem olhá-lo, e então saiu pela porta. Larenz permaneceu no centro da suíte, com o som da porta batendo ainda ecoando em seu coração vazio. Só que ele não estava mais vazio, e sim excessivamente cheio. Ele havia terminado tudo com Ellery para não sair ferido daquela história, mas o fato é que aquilo não tinha funcionado. Tudo nele doía, por dentro e por fora. Ellery reservou o vôo mais barato para Londres, o que lhe exigiu fazer três conexões, levando, ao todo, 24 horas em trânsito. Estava exausta quando chegou a Heathrow e ainda tinha mais uma jornada pela frente. Tomou um trem em Bodmin e depois um táxi até a casa de sua mãe, perto de Padstow. Anne Dunant alugava um lugar modesto na periferia da cidade, onde trabalhava como bibliotecária. Ellery só tinha ido lá uma única vez desde que sua mãe havia deixado o solar, há seis meses. Sua mãe abriu a porta antes que ela pudesse bater e a envolveu num abraço. Aquela fora uma decisão súbita e inesperada durante as longas horas de seu vôo interminável de Nápoles. Fora preciso tomá-la para poder seguir em frente com sua vida. — Entre, vou fazer um chá para nós. — Obrigada. Estou exausta. — Não é para menos. O que estava fazendo na Itália? — Eu estava numa espécie de férias — disse ela, após um momento. — Com um homem. Anne se deteve, com a chaleira na mão. — Algo promissor? — perguntou ela, mas Ellery lhe lançou um sorriso cansado. — Não. — Sinto muito. — Sua mãe serviu o chá e o levou até a sala de estar. — Fico muito preocupada com você, sozinha, lá em Suffolk... — Eu queria mesmo lhe agradecer por ter permitido que eu ficasse lá. Sei que poderia estar vivendo muito mais confortavelmente se o tivesse vendido.. Anne a interrompeu com um gesto. — Eu estou bem, Ellery. Como poderia vender o único lar que você conheceu na vida? O solar é sua herança, e eu não tenho o direito de me desfazer dele. — Mesmo assim. Obrigada. Eu compreendi... — Ela sentiu um nó na garganta e tomou um gole de chá. — Compreendi que precisava morar lá por algum tempo para repensar algumas coisas e vê-las sob outro ângulo. — E conseguiu? — Sim — assentiu Ellery, pousando sua xícara. — Não foi nada fácil, nem confortável, mas eu consegui. Aliás, queria conversar com você a respeito de algumas idéias. Anne sorriu e tomou a mão de Ellery na sua. — Mal posso esperar para ouvi-las. Sua mãe sempre fora distante e retraída, certamente devido ao fracasso de seu casamento. Nos cinco anos que se seguiram à morte de seu marido, porém, ela e Ellery haviam se aproximado, unidas pela traição de seu pai e por suas respectivas decepções. Ela havia decidido que o passado tinha ficado para trás e que ela seguiria em frente. Ellery ficou boquiaberta ao chegar ao solar. Os gramados estavam repletos de fotógrafos e seus equipamentos, e havia um trailer estacionado em frente á casa. 66


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

Havia passado o fim de semana na casa de sua mãe, mas, pelo jeito, outras pessoas haviam tomado decisões a respeito do solar sem sua aprovação ou consentimento. Assim que seu táxi desapareceu, Ellery viu Amelie dando a volta na casa com um celular junto à orelha. No momento em que a avistou, ela fechou o aparelho e lhe lançou um sorriso terrivelmente falso. — Querida! Já estávamos nos perguntando quando é que você voltaria. — Eu estava na Cornualha, visitando minha mãe — disse Ellery. — O que está acontecendo por aqui? — A sessão de fotos, é claro — disse Amelie, dando-lhe o braço. — Temos que terminar tudo antes do Natal. — E se eu não tivesse voltado? — E para onde você poderia ter ido? — respondeu Amelie ao conduzir Ellery em direção à porta de sua própria casa. Não havia nenhuma malícia naquela pergunta, e Ellery estava cansada demais para se incomodar com Amelie. — Pode abrir a casa para nós? Já fizemos todas as externas. — Amelie acabei de chegar. Isto é um tanto inconveniente... — Confie em mim, querida, 10 mil libras valem algumas inconvenienciazinhas. Ellery balançou a cabeça, incrédula. Amelie estava agindo como se fosse á dona daquele lugar, mas ela não queria saber de discussão. Que Amelie Weyton pensasse o que quisesse. Ela não ia lhe contar nada a respeito de seus planos. Ellery passou os dois dias seguintes enfiada em seu quarto, tratando de seus assuntos por meio do laptop e do celular. De vez em quando, descia para comer alguma coisa e acompanhar a maquiagem das modelos, na cozinha. Foi só no último dia de trabalho da equipe que ela compreendeu o que havia determinado a escolha do Solar Maddock como cenário para as fotos da nova coleção da De Luca's. Foi até a sala de estar e viu uma modelo estirada em frente à lareira — a lareira deles — e sentiu uma pontada no coração. O lugar havia sido todo transformado, com teias de aranha falsas pendendo do lustre e das estantes, enquanto todo o restante havia sido revestido por uma espécie de pó, imitando sujeira. As cortinas, que, embora gastas, estavam apresentáveis, haviam sido substituídas por farrapos. Aquilo estava realmente parecendo uma pocilga, como Amelie havia dito. O solar mais parecia uma casa fantasma, em ruínas. — Os efeitos não estão incríveis? Veja como o vestido se destaca — murmurou Amelie, voltando-se para Ellery. Ela era suficientemente sensata para perceber, que havia algo de realmente artístico naquilo tudo, mas o problema era que aquela era sua casa, seu lar, o lugar que ela havia tentado impedir que afundasse nos últimos seis meses, e aquelas fotos pareciam zombar de todo o seu esforço. E Larenz soubera que seria assim desde o início. Ellery respirou fundo, pensou no dinheiro e a que ele se destinaria e se voltou para Amelie com um sorriso frio. — Muito artístico. Hoje é o último dia? Amelie teve a audácia de dar, um tapinha em seu rosto. — Estaremos longe daqui antes da hora de chá, minha querida. Eu prometo. E assim foi. Uma coisa não se podia negar. Amelie era uma excelente profissional. Ellery foi até a cozinha a fim de preparar um chá. A casa estava muito vazia agora, e ela ficou feliz por deixá-la em breve. — Olá, Ellery — disse Larenz, da porta da cozinha. — O que faz aqui? — disse ela, atordoada, devorando-o com os olhos. — Vim lhe entregar o cheque. — Oh. 67


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

Era ridículo estar decepcionada. Por um momento, seu coração havia se permitido sonhar e esquecer todas as coisas ofensivas que ele havia feito e dito. — Você podia tê-lo enviado pelo correio. — Não queria correr o risco de um extravio. É muito dinheiro. — Não para você. — O fato de eu ter muito dinheiro não significa que eu não dê valor a ele. — Pelo menos, você dá valor, a alguma coisa. Ellery fechou os olhos, de costas para Larenz. Não havia querido parecer tão magoada. Não estava tão magoada. Estava seguindo em frente, se esquecendo de Larenz e de todas as esperanças tolas que havia alimentado... — Ellery... Ela se virou rapidamente e estendeu a mão. Larenz não se moveu. Manteve seu olhar fixo no dela, intenso e urgente, embora nenhum dos dois tivesse dito nada. — Sinto muito pelo modo como tudo aconteceu. Aquilo era muito pouco. Ele havia feito parecer que tudo não passara de um acidente, um golpe do destino, e não uma decisão tomada a sangue-frio. — O cheque, por favor, Larenz. — Ellery... — O que você esperava? Não existe nada entre nós, Larenz. Nunca houve.. Você deixou isso bem claro quando me dispensou... — Não foi... — Oh, foi sim. E a sessão de fotos que você autorizou, zombando da minha casa? Amelie me explicou tudo... Larenz deu de ombros. — É apenas, uma sessão de fotos Ellery, e eu sabia que o dinheiro... — Dane-se o dinheiro! E dane-se também todos os seus apenas. Não é apenas uma sessão de fotos, uma palavra ou uma aventura. Não para mim — disse ela com a voz trêmula. — Suponho que seja assim que você se justifica para todos. Tudo, todos, são apenas. Ninguém se aproxima o suficiente de você para chegar a ser mais que isso. Para mim, chega — disse Ellery simplesmente. — Cheguei a pensar, por um breve momento, que eu o amava. Ou que ao menos poderia vir a amá-lo. Foi por isso que fiquei tão apreensiva naquela noite, quando insisti para que você atendesse o celular. Tola, eu supus que você ia dizer que me amava e tive medo. Os lábios de Larenz se contraíram, mas ele não disse nada. Ela respirou fundo. Não havia mais nada a esconder agora. — Sei que essa história já está gasta, mas sempre tive dificuldade em confiar nos homens. — Não queria que eles me deixassem como meu pai sempre fez, por isso nunca deixava que eles se aproximassem. Descobrir a respeito de sua vida dupla foi á gota d'água. — Às vezes — disse Larenz em voz baixa — É melhor assim. — Parece que nós concordamos nesse ponto — disse ela, soltando uma gargalhada triste e estendendo a mão. — Pode me dar o cheque agora. — O que vai fazer com ele? — perguntou Larenz, retirando um envelope lentamente de seu bolso. — Aparar o gramado ou consertar o aquecimento? — Eu já resolvi isso — respondeu Ellery categoricamente. — Vendi o Rolls Royce. Ela cruzou a cozinha e pegou o envelope de sua mão sem tocar nele. Tinha medo de que o mínimo contato enfraquecesse sua resolução. Ela começaria á chorar, implorar ou coisa pior. — Este dinheiro vai para a caridade. Larenz ficou boquiaberto, o que deixou Ellery muito satisfeita. — O quê? — Eu vou vender o solar. — Mas essa é sua casa... — Como aquele palazzo vazio é a sua? — Ellery balançou a cabeça. — Acho que não. — Seu olhar pousou sobre ele, memorizando cada traço de seu rosto e de seu corpo, pois sabia que aquela 68


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

era a última vez em que o via. — Dizem que nossa casa é onde repousa nosso coração, e o meu certamente não está aqui. Suas palavras pareceram ressoar no silêncio. Larenz, aparentemente, entendeu o duplo significado, assentindo em sinal de aceitação. — Adeus, Ellery — disse ele e saiu da cozinha.

CAPÍTULO TREZE

Já estava nevando quando Ellery deixou a escola. Os grossos flocos brancos brilhavam sob as luzes das ruas de Londres. Ela havia tido sorte de encontrar um emprego tão rápido. Apesar de já estar á um mês de volta à cidade, ainda não havia se acostumado ao barulho do trânsito e às multidões nas ruas. Gostava de ter voltado a sair com seus amigos e almoçar freqüentemente com Lil, mas, inesperadamente, sentia falta do isolamento de que havia desfrutado no solar. Ela se deteve em frente a uma banca de jornal onde a capa de uma das revistas chamou a sua atenção. Os Deliciosos Modelos da De Luca’s dizia a capa. Na foto, uma modelo vestindo uma roupa de cor fúcsia esparramada diante de uma lareira. — Vai comprar a revista, senhorita? — perguntou o jornaleiro, com certa impaciência. Ellery hesitou, e então colocou a revista no lugar. — Não, obrigada. E seguiu em frente. Parou em frente ao prédio humilde em que, estava morando, à procura de suas chaves. Á luz da entrada havia queimado há algumas semanas e ninguém tinha se dado ao trabalho de trocá-la, de modo que o lugar estava imerso na escuridão, e foi dela que emergiu uma voz dolorosamente familiar, que fez o coração de Ellery, saltar dentro do peito e suas mãos começarem a tremer. — Belos sapatos. Os dedos dela se fecharam em tomo de sua chave ao olhar para suas galochas. — Acho que me apaixonei por você quando a vi usando uma dessas — disse Larenz. Ele parecia o mesmo, e, ao mesmo tempo, outro. Havia uma tristeza nele agora, pensou Ellery. Uma sombra em seus olhos, um peso em seus ombros. Foi então que ela se deu conta do que ele havia dito. Eu me apaixonei por você. —Você não... — disse ela, num fio de voz. — Não me apaixonei por você? — completou Larenz. — Eu também tentei me convencer disso. Essa era a última coisa que eu queria que acontecesse. Ellery sentiu um nó na garganta, morrendo de medo de ceder àquela esperança tênue. — Por que está aqui, Larenz? — Achei que era óbvio. Vim lhe pedir desculpas. Ela foi tragada por uma enorme e escura nuvem de decepção. — Está bem. Você já disse o que tinha a dizer. — Ah, mas eu tenho muito mais a dizer do que isso. E, além do mais, eu disse que tinha vindo pedir desculpas, mas ainda não pedi, efetivamente. — Não me provoque — sussurrou Ellery, tentando conter as lágrimas. — Confie em mim, Ellery — disse Larenz, baixinho. — Eu não estou brincando. Ela apenas assentiu e destrancou a porta principal para conduzi-lo pela escada estreita até o segundo andar. — O apartamento não é grande coisa, mas pelo menos o aquecimento funciona. Quer beber 69


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

alguma coisa? Um chá, um café? — Acho que o que eu tenho a dizer não precisa de tanto tempo assim. — Está bem — disse ela, sem saber o que fazer. — Ellery, eu a amo — disse Larenz, olhando-a nos olhos. —Amo-a tanto que os últimos meses foram um verdadeiro inferno para mim. Deus é testemunha de que eu venho lutando contra este sentimento desde a primeira vez em que coloquei os olhos em você. Ellery abriu a boca, sem conseguir dizer coisa alguma. — Você me pegou — disse Larenz com um pequeno sorriso. — Eu vivi muito tempo com medo. — Ele passou a mão no rosto e soltou uma risada nervosa. — Nunca admiti isso para ninguém antes... Nem mesmo para mim. — Obrigada por me contar... — sussurrou Ellery. — Sei exatamente qual foi o momento em que decidi que não deixaria que ninguém se aproximasse de mim. Tinha 14 anos, quando minha mãe finalmente me contou quem era meu pai. — Eu fui vê-lo no palazzo. — Ele balançou a cabeça, ao se lembrar da cena. — Foi uma tolice, naturalmente. Eu não era tão ingênuo a ponto de esperar que ele me abraçasse, mas achei... — Larenz engoliu em seco. — Achei que ao menos me reconheceria, mas ele não o fez. Disse-me apenas: "Eu não o conheço." Duas vezes. — Larenz suspirou. — Nós fomos vítimas de nossas famílias infelizes e deixamos que isso obscurecesse nosso julgamento. — Ele deu um passo em direção a ela. — Mas eu não quero mais deixar que isso arruíne minha vida. Acho que havia me convencido de que estava feliz mantendo todos á distância, mas isso é viver pela metade. Creio até que poderia ter prosseguido indefinidamente assim... Se não a tivesse encontrado. Ellery engoliu em seco, sentindo sua garganta se apertar. — O que está querendo me dizer, Larenz? — O que estou lhe dizendo é que sinto muito por tê-la tratado daquele jeito, afastando-a de minha vida por medo de trazê-la para perto de mim. Por tê-la tratado como uma amante, quando eu já sabia que você era o grande amor da minha vida. — Oh, Larenz... — Ellery se deteve, engasgando com as próprias palavras. Larenz atravessou o pequeno espaço que os separava e a tomou em seus braços. Ellery correu suas mãos pelos braços dele até alcançar seus ombros e então seu rosto. — Eu ainda tenho mais a dizer — disse Larenz. — Eu a amo e quero passar o restante de minha vida com você, não importa onde. Milão, Londres ou no seu solar... — Eu o vendi, lembra? — Eu sei, mas podemos comprá-lo de volta. Sei o quanto aquela casa significa para você. Ellery balançou a cabeça. — Não mais. Vi que não passava de uma casa, e ainda por cima infeliz. Eu o vendi para uma instituição de caridade. Funcionará como um abrigo para mães solteiras que precisem de um lugar seguro. Também escrevi uma carta — prosseguiu Ellery. — Para Diane... E David. Não sei que tipo de relacionamento poderemos ter, mas achei que devia entrar em contato com eles. — Deve ter sido muito difícil para você. Ellery sorriu nervosa. — Tantas mudanças — murmurou Larenz. — Eu também vendi o palazzo. Para uma família com cinco filhos. As crianças estavam correndo pelo jardim antes mesmo de assinarmos os papéis. Ela enterrou seu rosto no pescoço dele por um momento, inspirando seu delicioso perfume, antes de dizer: — Acho que vamos ter que encontrar um novo lugar para viver, então. — Quer dizer que você aceita meu pedido de casamento? — Não me lembro de você ter me pedido formalmente... — Perdão — murmurou Larenz, ajoelhando-se sobre uma das pernas diante dela. Ellery riu alto quando ele tirou uma caixinha de veludo do bolso e a abriu, revelando um antigo e deslumbrante anel de brilhantes. — Ellery Dunant, Lady Maddock, Lady Ofshalott, senhora do meu coração, aceita se casar comigo? 70


Paixão 232 – Ruínas do Desejo – Kate Hewitt

— Sim, sim, sim! Ela puxou Larenz para cima e, quando ele a beijou mais uma vez, soube que aquele era o final feliz pelo que eles haviam ansiado. Nenhum deles estava mais sozinho ou temeroso. Tudo o que havia agora era amor. Amor e uma alegria imensurável.

71

Kate Hewitt - Ruínas Do Desejo (Paixão 232)  
Kate Hewitt - Ruínas Do Desejo (Paixão 232)  
Advertisement