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Um mês com o russo implacável… Kat Marshall sacrificou até o último centavo pelas irmãs mais novas. Agora, sua situação financeira é um desastre, e ela precisa de ajuda. Kat sempre guardara seus sonhos para si, mas com a oferta de Mikhail Kusnirovich ela poderia transformar todos em realidade. Ele não era bilionário por acaso. Para Mikhail, cada coisa tinha um preço, inclusive levar Kat para a cama. Entretanto, ela é praticamente impossível de seduzir. Por fim, Mikhail propõe um acordo: pagaria todas as dívidas dela. Em troca, Kat


passaria um mês em seu iate, mais exatamente na cama dele…

Noivas Desafiadoras As irmãs Marshall sempre souberam como sobreviver. E não seriam facilmente dominadas por nenhum bilionário…


– Eu salvei sua pele. Só quero agora que você agradeça. – afirmou Mikhail com uma ênfase calma. – Não vou agradecer sua interferência na minha vida! – exclamou Kat, sem hesitação, ferida pela lembrança de que ele a tirara do beco sem saída em que estivera metida. – Não sou boba o suficiente para não me dar conta que, se algo parece bom demais para ser verdade, provavelmente é. Estou aqui para perguntar o que quer de mim em troca. Sem aviso, Mikhail caiu na gargalhada, sobressaltando-a. Seus


traços finos mostravam um divertimento genuíno. – Não deveria? Como a maioria dos homens, gosto da companhia feminina. Nada mais complicado do que isso. – Estou preparado para fazer-lhe uma oferta ainda melhor – disse Mikhail, rouco, os olhos negros estreitando-se até parecerem lascas negras, brilhantes de desafio. – Uma oferta que não posso recusar? – Aceite passar um mês no meu iate, comigo, e no final desse mês eu devolvo a casa e você volta a ser a única proprietária – propôs Mikhail em tom áspero, pois até chegar assim tão perto da sua regra inquebrável o deixava


aborrecido, lembrando-lhe que nĂŁo se reconhecia mais desde que a conhecera.


Querida leitora, Kat Marshall abdicou de seus sonhos para cuidar das irmãs mais novas. Agora, sua vida estava em ruínas. Sem dinheiro e com as dívidas aumentando, o desespero a atormentava. Em uma noite, no meio de uma nevasca, a solução bateu à sua porta. O magnata russo Mikhail Kusnirovich ficou instantaneamente encantado por Kat, mas ela parecia imune às suas investidas. Por isso, Mikhail faz uma proposta: pagaria todas as suas dívidas se ela aceitasse ser sua amante!


Boa leitura! Equipe Editorial Harlequin Books


Lynne Graham

AMANTE SEDUZIDA Tradução Fabia Vitiello

2015


CAPÍTULO 1

MIKHAIL KUSNIROVICH, magnata russo do petróleo e temido homem de negócios, relaxou o corpo longo na cadeira de couro do escritório e olhou para seu melhor amigo, Luka Volkov, incrédulo. – É assim que você quer passar sua despedida de solteiro? Fazendo trilhas? É sério?


– Bom, a festa já aconteceu, e preciso dizer que foi um pouco demais para mim – confessou Luka, cujo rosto normalmente bem-humorado mostrou desagrado com a lembrança. De altura mediana e bastante robusto, Luka era professor universitário e autor aclamado de um livro recente de física quântica. – A culpa é do seu futuro cunhado – lembrou Mikhail, seco, pensando nas dançarinas eróticas contratadas por Peter Gregory para a ocasião, tão distantes da personalidade tímida do seu amigo que a chegada de um grupo de terroristas no meio da comemoração teria sido mais bem-vinda.


– Peter teve a melhor das intenções – afirmou Luka, saindo imediatamente em defesa do insuportável banqueiro. Mikhail ergueu as sobrancelhas e seu rosto moreno e esguio assumiu uma expressão sombria. – Mesmo que eu tenha dito que você não iria gostar? Luka enrubesceu. – Ele tenta, apenas não sabe como fazer, é isso. Mikhail não disse nada, porque pensava com amargura em como Luka havia mudado desde que ficara noivo de Suzie Gregory. Apesar de os dois homens terem pouco em comum, exceto a ascendência russa, eram


amigos desde que se conheceram na Universidade de Cambridge. Naquela época, Luka não teria problema algum em dizer que um homem grosso, chato e fanfarrão como Peter Gregory não merecia um minuto do seu tempo. Mas agora, Luka botava panos quentes e era subserviente às vontades da noiva. Mikhail cerrou os perfeitos dentes brancos, insatisfeito. Ele nunca se casaria. Como o macho alfa que era, jamais iria mudar sua personalidade para agradar a uma mulher. Só pensar nisso já dava arrepios em alguém criado por um homem cujo ditado favorito era “um frango não é um pássaro e uma mulher não é uma pessoa”. O falecido


Leonid Kusnirovich adorava repetir aquilo para irritar a refinada babá inglesa que contratara para cuidar do filho. Sexista, brutal e sempre insensível, Leonid horrorizara-se com o jeito delicado da babá, temendo que ela transformasse seu filho em um fraco. Mas, aos 30 anos, não havia um pingo de fraqueza nos 1,90m bem distribuídos de Mikhail, nem no seu desejo desmedido por sucesso ou no seu apetite por um amplo e variado cardápio de mulheres. – Você gostaria de Lake District... é um lugar lindo – declarou Luka. Mikhail fez um esforço imenso para não aparentar a decepção que sentia.


– Você quer fazer trilhas em Lake District? Achei que você estava pensando na Sibéria... – Não vou conseguir tirar tantos dias de folga, e não sei se estaria à altura do desafio – admitiu Luka, passando a mão na barriga levemente saliente, com alguma culpa. – Não estou tão em forma quanto você. Viagens para a Inglaterra na primavera e exercícios leves se encaixam mais no meu estilo de vida. Mas será que você conseguiria dispensar a limusine, o luxo e o seu exército de assessores por alguns dias? Mikhail franziu a testa, não pela ideia de viver sem luxo, mas prevendo o trabalho de convencer sua equipe de


que não iria precisar deles por dois dias inteiros. Ele não andava sem uma equipe de seguranças. Stas, o chefe da segurança, era quase excessivamente protetor, e cuidava de Mikhail desde que ele era criança. – Claro que consigo – respondeu, com sua firmeza natural. – E me privar um pouco dos meus luxos só pode me fazer bem. – Você vai ter de deixar sua coleção de celulares para trás, também – desafiou Luka. Mikhail ficou tenso. – Mas por quê? – Perguntou, desanimado.


– Você não vai parar com o trabalho se levar os celulares – apontou Luka, bem consciente do jeito workaholic do amigo. – Não gosto da ideia de ficar esperando no topo de uma montanha qualquer, congelando, enquanto você avalia preços de ações. Conheço você. – Se é o que você quer, vou pensar – concedeu Mikhail, de má vontade. Preferia cortar o braço direito a se ausentar, ainda que temporariamente, do seu vasto império de negócios. Apesar disso, embora raramente tirasse folga do trabalho, a ideia de um desafio físico, ainda que pequeno, tinha um apelo considerável para ele.


Uma batida na porta anunciou a entrada de uma jovem. Linda, alta, com cerca de 20 anos, tinha o cabelo louro pálido, longo e volumoso. Ela fixou os olhos azuis brilhantes no patrão e disse, como quem pedisse desculpas: – Seu próximo compromisso aguarda, senhor. – Obrigado, Lara. Aviso quando estiver pronto. Até Luka acompanhou a assessora com os olhos quando ela saiu da sala, os quadris balançando sensualmente dentro da saia justa. – Essa aí parece a Miss Universo do ano passado. Você está...?


Os cantos da boca larga e sensual de Mikhail curvaram-se em um sorriso. – Nunca, jamais, no escritório. – Mas ela é deslumbrante –, comentou Luka. – Será que o reinado de Suzie está com os dias contados? Luka ficou vermelho. – Claro que não. Posso olhar sem ficar tentado. Mikhail saboreou o fato de que ele ainda podia olhar para qualquer mulher e sentir-se tão tentado quanto quisesse. Em sua opinião, um estado bem mais satisfatório do que o do amigo, já que Luka agora sentia-se forçado a abafar suas inclinações masculinas naturais em


prol da santa fidelidade. Será que seu velho amigo tinha tanta certeza assim de ter encontrado o amor eterno? Ou será que Mikhail deveria aproveitar a excursão deles para conferir se Luka estava mesmo tão disponível a fazer os sacrifícios necessários para ser um marido exemplar? Será que a atenção de Luka pelos atrativos de Lara era um sinal de que ele não estava mais tão comprometido com a futura esposa? Renunciando a todas as outras... na saúde e na doença? Mikhail mal conteve a repulsa ao pensar nessa possibilidade. Estava convencido de que não era natural nem certo para um homem fazer esse tipo de promessa a qualquer


mulher, e quanto à ideia de que o-queé-meu-é-seu, que vinha junto com o pacote, ele preferia incinerar seus bilhões a se colocar em uma posição tão financeiramente vulnerável. KAT FICOU tensa ao ouvir a van dos correios sobre o cascalho do caminho. Sua irmã, Emmie, chegara de surpresa na noite anterior, e já era bem tarde. Kat não queria que ela acordasse com a campainha. Deixando de lado rapidamente a colcha de retalhos que costurava, flexionou os dedos enrijecidos e correu para a porta da frente. Sentiu um aperto no coração, com medo do que o carteiro poderia


entregar. Era um medo que nunca a deixava, um medo que dominava todas as suas horas de consciência. Mas Kat atendeu à porta com um sorriso pronto nos lábios carnudos e uma palavra educada enquanto assinava a entrega da carta registrada com aquele horroroso texto vermelho que anunciava o conteúdo do envelope, teve orgulho de conseguir manter a mão firme. Devagar, encaminhou-se para a parte de trás da casa de fazenda antiga que havia herdado do pai. O ambiente tranquilo de Birkside, assim como suas belas paisagens, tinham parecido o paraíso para ela após os anos sem raízes


e fundações de quando morava com a mãe, Odette. Ex-modelo de sucesso, Odette nunca se acostumara à vida comum, mesmo após ter filhos. Tinha se casado com o pai de Kat antes da fama, e, conforme ficava mais sofisticada, mais achava os homens ricos que conhecia em suas viagens muito mais interessantes do que seu marido contador. Mais de dez anos após o divórcio, Odette resolveu casar-se outra vez. Com este marido, tivera filhas gêmeas, Sapphire e Emerald. O último grande caso de amor de Odette fora com um jogador de polo sul-americano, pai da irmã mais nova de Kat, Topaz. Quando Kat tinha 23 anos, sua mãe


entregara as três filhas mais novas à assistência social, alegando que as gêmeas, em particular, estavam fora de controle e em situação de risco. Tocada pelo desespero das meninas, Kat assumira a responsabilidade de, sozinha, cuidar das meias-irmãs, e se instalara com elas na casa em Lake District. Olhar para trás, para aqueles primeiros dias despreocupados, quando tinha tanta esperança em um recomeço, agora deixava um gosto amargo. Uma profunda sensação de fracasso a dominava; fizera o possível para dar às meninas o lar seguro e o amor que ela mesma nunca conhecera. Rasgou o


envelope e leu a carta. Mais uma para a gaveta na qual guardava esse tipo de correspondência assustadora, refletiu desolada. A construtora iria tomar posse da casa, e a agência de cobrança enviaria seus advogados para executar os bens. Estava tão afundada em dívidas que corria o risco de perder absolutamente tudo, até mesmo o teto sobre sua cabeça. Não importava quantas horas por dia trabalhasse fazendo colchas de retalhos bordadas à mão, só um milagre a tiraria do buraco financeiro em que estava metida. Pegara emprestada uma pequena fortuna para transformar a velha casa de fazenda em uma pousada. Fora


necessário transformar os quartos em suítes e ampliar a cozinha e o espaço de refeições. O fluxo regular de hóspedes nos primeiros anos crescera além de suas expectativas, e ela, de maneira insensata, ampliara sua dívida, determinada a dar o melhor para cada uma das irmãs. Gradualmente, no entanto, o fluxo de hóspedes reduzira drasticamente, e ela se dera conta, tarde demais, de que o mercado havia mudado: muita gente preferia hospedar-se em um hotel a ficar em uma pousada familiar. Além disso, a casa ficava em uma estrada distante demais da civilização para atrair muitas pessoas. Ainda assim, Kat tivera a


esperança de conseguir hóspedes entre o pessoal que fazia trilhas na montanha, mas a maioria voltava para casa no final do dia ou dormia em barracas. A recessão tinha tornado as reservas tão escassas quanto dentes em galinhas. Uma loura alta e bonita vestindo um roupão usado desceu as escadas, abafando um bocejo. – Esse carteiro faz barulho demais – reclamou Emmie, irritada. – Suponho que você já esteja acordada há séculos. Você sempre acordou cedo. Kat resistiu ao impulso de comentar que, por muito tempo, não tivera escolha, Com três irmãs para mandar para a escola e hóspedes para alimentar.


Estava grata por Emmie parecer mais disposta a conversar do que na noite anterior, quando chegou de táxi e declarou estar exausta demais para fazer qualquer coisa além de dormir. Kat passara a noite ardendo de curiosidade, porque Emmie fora morar com Odette, em Londres, seis meses antes, determinada a conhecer melhor a mulher que mal via desde seus 12 anos. Kat escolhera não interferir. Emmie já tinha 23 anos e podia tomar suas próprias decisões. Mesmo assim, Kat ainda tinha se preocupado muito, pois já sabia que a irmã acabaria descobrindo que a pessoa mais importante para Odette seria sempre


Odette, e que a mãe delas não tinha nada do carinho e afeição que qualquer criança quer de um pai ou mãe. – Quer café da manhã? – perguntou Kat. – Não estou com fome – respondeu Emmie, sentando-se à mesa da cozinha com um suspiro profundo. – Mas não recusaria uma xícara de chá. – Senti sua falta – disse Kat enquanto ligava a chaleira elétrica. Emmie sorriu, e o longo cabelo louro caíra sobre o rosto delicado quando inclinou-se para a frente. – Eu senti sua falta, mas não do meu trabalho sem futuro na biblioteca, ou da


vida social lamentável que tenho aqui. Desculpa por não ter ligado mais. – Tudo bem. – Os olhos verdeesmeralda de Kat brilharam, cheios de carinho. Cerca de dez anos mais velha do que a irmã, Kat era alta e esguia, de pele impecável e olhos claros. – Achei que você estivesse ocupada, e torci para que estivesse se divertindo. Emmie apertou os lábios e fez uma careta. – Morar com Odette foi um pesadelo – admitiu, sem rodeios. – Sinto muito – observou Kat delicadamente, enquanto servia o chá. – Você sabia que seria assim, não é? – retrucou Emmie, aceitando a caneca.


– Por que não me avisou? – Achei que, ao ficar mais velha, mamãe poderia ter ficado mais calma, e não quis influenciar sua opinião antes que a conhecesse – explicou Kat, com pesar. – Afinal, ela podia ter tratado você diferente. Emmie riu amargamente e listou uma série de incidentes que demonstravam o egoísmo colossal por parte da mãe, enquanto Kat emitia ruídos apaziguadores e de compreensão. – Bem, estou em casa para ficar – assegurou-lhe a meia-irmã, direta. – E preciso dizer uma coisa... estou grávida...


– Grávida? – Engasgou Kat, chocada com aquele anúncio inesperado. – Por favor, diga que está brincando. – Estou grávida – repetiu Emmie, pousando seus olhos de um azul quase violeta no rosto surpreso da irmã. – Desculpa, mas é verdade, e não há muito que eu possa fazer agora... – E o pai? – Pressionou Kat, tensa. A expressão de Emmie ficou sombria, como se tivessem apagado uma luz dentro dela. – Acabou, e não quero falar disso. Kat lutou para conter as inúmeras perguntas que lhe chegavam aos lábios, com receio de dizer algo que pudesse ofendê-la. Na verdade, sempre tinha


sido mais uma mãe do que uma irmã, e após aquele anúncio, já começara a pensar no que tinha feito de errado. – Certo, posso aceitar isso por enquanto... – Mas continuo querendo o bebê – proclamou Emmie, com uma ponta de desafio. Ainda meio tonta do choque, Kat sentou-se na frente dela. – Já pensou em como vai conseguir dar conta? – Claro que já. Vou morar aqui com você e ajudá-la com o negócio da família – disse Emmie calmamente. – Só que, no momento, não existe um negócio da família – admitiu Kat,


sem jeito, sabendo que precisava contar a verdade já que Emmie baseava seus planos futuros no fato de a pousada estar indo bem. – Não tive nenhum hóspede no último mês... – Essa época do ano é ruim para os negócios, na Páscoa tudo vai melhorar – disse Emmy alegremente. – Duvido. Também estou endividada até o pescoço – confessou Kat com relutância. A irmã encarou-a atônita. – Desde quando? – Há muito tempo. Quer dizer, você deve ter notado, antes de ir embora, que os negócios não estavam florescendo.


– Claro, você pegou um monte de empréstimos para reformar a casa quando viemos para cá – lembrou Emmie, sem dar importância. Kat desejou poder contar à irmã toda a verdade, mas ela iria se culpar. Emmie já tinha preocupações suficientes com a gravidez e o fim do relacionamento. Kat indagou se algumas pessoas nascem sob uma estrela de azar. Emmie, por exemplo, sofrera vários revezes na vida, além do desafio de viver à sombra da gêmea idêntica, que se tornara uma modelo de fama internacional. Saffy também tivera problemas, claro, mas não no mesmo nível. Além disso, tinha uma veia independente e forte, e um


sangue-frio que faltava à vulnerável Emmie. Já prejudicada pela indiferença da mãe, Emmie sofrera um acidente de carro aos 12 anos e suas pernas ficaram bastante feridas. Colocar a irmã de pé e fora da cadeira de rodas fora o primeiro passo para sua recuperação, que, infelizmente, não foi completa. O acidente deixara Emmie com uma perna menor do que a outra, o que fazia com que mancasse, e tinha cicatrizes evidentes. Para Emmie, morar com a fisicamente perfeita irmã gêmea se tornara um sofrimento. A tristeza que sentia e as comparações feitas por pessoas insensíveis haviam causado brigas entre as duas, e mesmo agora,


anos depois, as gêmeas quase não se falavam. Apesar de tudo, felizmente, Emmie não mancava mais. Em uma tentativa desesperada de ajudar a irmã a recuperar a autoestima e o interesse na vida, Kate fizera um empréstimo pessoal para pagar uma operação experimental caríssima de alongamento da perna, que só era feita no exterior. A cirurgia fora incrivelmente bemsucedida, mas essa dívida é que pesara quando Kat se viu incapaz de manter em dia os pagamentos. Ela nunca jogaria essa culpa nos ombros frágeis de Emmie. Mesmo sabendo da dificuldade financeira que teria, Kat faria tudo de


novo, sem nem piscar. Emmie precisava de ajuda, e Kat teria movido montanhas para ajudar. – Já sei! – disse Emmie, de repente. – Você pode vender o terreno para pagar as contas atrasadas. Estou surpresa que você não tenha pensado nisso. Kat vendera o terreno uns dois anos depois de se mudar para a região, pensando que o montante de dinheiro seria mais útil do que a renda modesta que receberia alugando aquela porção de terra. Infelizmente, criar três meninas tinha se mostrado muito mais custoso do que ela imaginava, e despesas inesperadas foram se acumulando enquanto Odette, a quem


cabia o sustento das filhas, atrasava o pagamento da pensão até deixar de contribuir completamente. Para piorar, a irmã mais nova, Topsy, muito inteligente, sofrera bullying na escola, e Kat resolvera mais esse problema mandando a garota para um colégio interno. Pelo menos, já no último ano, Topsy conseguira uma bolsa integral. Apesar de não precisar se preocupar com as mensalidades, Kat ainda precisava pagar pelo primeiro ano, que era uma soma considerável. – O terreno foi vendido faz tempo – admitiu Kat com relutância, querendo ser tão honesta quanto dava. – Posso também perder a casa...


– Deus do céu, onde gastou seu dinheiro? – Perguntou Emmie, com um olhar espantado e reprovador. Kat ficou quieta. Nunca tivera muito dinheiro, para começar, e quando algum aparecia, era destinado a uma dívida urgente. A campainha tocou, e Kat ergueu-se rapidamente, ansiosa para escapar do interrogatório sem precisar mentir. É claro que Emmie iria querer saber toda a história antes de se comprometer a morar com a irmã novamente. Mas ainda era cedo para que tomasse qualquer decisão, pensou Kat, nervosa. Emmie estava no começo da gravidez e centenas de coisas poderiam acontecer para mudar o


futuro, inclusive o reaparecimento do pai da criança. Roger Packham, um viúvo quarentão que era o vizinho mais próximo de Kat, cumprimentou-a com um característico aceno de cabeça. – Vou trazer lenha para a lareira amanhã... deixo no lugar de sempre? – Ah... sim. Sim, muito obrigada – disse Kat, desconfortável com a generosidade dele. Cruzou os braços para se proteger do vento frio que atravessava seu suéter como uma faca. – Nossa, está frio mesmo hoje, Roger. – O vento está vindo do norte – disse ele, com o rosto vincado cheio da melancolia, que parecia ser sua


companheira habitual. – Vai nevar muito hoje à noite. Espero que esteja com a despensa cheia. – Espero que esteja errado... sobre a neve – comentou Kat, estremecendo de novo. – Deixe-me pagar pela lenha. Não me sinto à vontade aceitando-a como presente. – Não há necessidade de dinheiro entre vizinhos – disse ele, levemente ofendido. – Uma mulher como você morando sozinha aqui... fico feliz de ajudar quando posso. Kat agradeceu de novo e voltou para dentro. Olhou-se por um instante no espelho da entrada, e o que viu foi uma mulher de meia-idade, esgotada,


precisando de um corte de cabelo. Mas o que faria com ele? Era cacheado demais, não ficaria bem num chanel. Será que imaginara a admiração nos olhos de Roger? Não importa, aquilo ainda deixava-a sem graça. Tinha 35 anos e pensara muitas vezes que nascera para ser solteirona. Fazia tempo que um homem não olhava para ela com algum interesse. Não havia muitos da idade dela na área, e, de qualquer forma, Kat só saía de casa para comprar comida ou entregar as colchas de retalhos na loja de presentes que fazia as encomendas. Sendo sincera, sua vida pessoal acabara assim que trouxera as irmãs


para morar com ela. Seu único namorado sério terminara o relacionamento assim que as meninas chegaram, e depois de mergulhar no desafio de cuidar de duas adolescentes problemáticas e de uma criança superdotada, Kat não teve tempo para sentir falta dele. Não, aquela parte da sua vida morrera há muito tempo, antes mesmo de começar. De repente, se deu conta de que Emmie já era mais experiente do que ela nessa área. Kat sabia pouco sobre homens, e menos ainda sobre relações íntimas. E sentia-se pouco à vontade para pressionar a irmã sobre o pai da criança, pedindo detalhes


que ela claramente não queria compartilhar. Quando voltou para a cozinha, Emmie estava desligando o celular. – Posso pegar o carro emprestado? Beth me convidou para ir até lá – explicou, referindo-se a uma amiga de escola que ainda morava no vilarejo. Adivinhando que Emmie precisava contar seus problemas a alguém da mesma idade, Kat escondeu uma pontada injusta de ressentimento. – Tudo bem, mas Roger disse que vai nevar muito esta noite, então preste atenção no tempo. – Se ficar muito ruim, eu durmo lá – disse Emmie, animada, já erguendo-se


da cadeira. – Vou me arrumar. – Na porta, ela hesitou e voltou-se, com um olhar que pedia desculpas. – Obrigada por não me julgar, a respeito do bebê. Kat deu um abraço tranquilizador na irmã, mas logo forçou-se a encerrá-lo. – Só quero que você pense com cuidado sobre seu futuro. Ter um filho sozinha não é para qualquer pessoa. – Não sou mais criança – Emmie retrucou, na defensiva. – Sei o que estou fazendo! A rejeição agressiva do seu conselho magoou Kat, mas teria de aceitar, já que parecia ser a única resposta que obteria. Conteve um suspiro; após 11 anos cuidando das meninas sozinha, sabia


exatamente como era difícil só poder contar consigo mesma, não ter ninguém para apoiá-la em momentos de crise. Se perdesse a casa, onde iriam morar? Como é que conseguiria renda? Em uma área rural como aquela, havia poucas opções de moradia e ainda menos empregos disponíveis. Afastando aqueles pensamentos negativos e os sinais de pânico, Kat observou a neve que começava a cair em flocos fofos. O mundo se transformava quando coberto por aquela camada branca e gelada, tudo parecia tão limpo e bonito, mas ela sabia como a mudança do tempo podia ser traiçoeira para os agricultores locais


e seus animais, e para qualquer pessoa pega de surpresa, pois a previsão do tempo não fizera qualquer menção à neve. Emmie ligou para avisar que passaria a noite com Beth. Kat empilhou lenha ao lado da lareira na sala de estar, enquanto a neve caía mais forte, rodopiando em turbilhões que ocultavam a visão das montanhas e acumulavam sobre o muro do jardim. Um bebê, pensou Kat enquanto trabalhava em sua mais nova colcha, um bebê na família. Há muito aceitara que não teria filhos, e sorriu com a ideia de um sobrinho, reprimindo as preocupações sobre a sobrevivência


financeira, recordando da máxima que sua avó paterna adorava, “Deus proverá”. A campainha tocou às 20h, assustando-a. Seguida de três batidas desnecessária. Kat correu para a entrada e viu três silhuetas paradas na varanda. Hóspedes em potencial fugindo do tempo inclemente, imaginou. Abriu a porta sem hesitação, e viu dois homens sustentando um terceiro, mais baixo, que se equilibrava em uma das pernas. – Aqui é uma pousada, não é? – Perguntou o homem alto e esguio, à esquerda. O outro, à direita, de cabelo


preto e ainda mais alto e robusto, exalava impaciência. – Você pode nos hospedar esta noite? – Perguntou ele bruscamente. – Meu amigo machucou o tornozelo. – Coitado... – disse Kat com simpatia, saindo da frente da entrada. – Entrem. Vocês devem estar congelando. Não tenho hóspedes no momento, e tenho três suítes disponíveis. – Você será bem recompensada por nos receber – resmungou o maior dos três, com um sotaque estrangeiro que lhe era desconhecido. – Costumo receber bem todos os meus hóspedes – respondeu Kat sem hesitar. Seu olhar colidiu com olhos


escuros e intensos dele, realçados por longos cílios pretos. Ele era bem alto e bem proporcionado; Kat precisava inclinar a cabeça para trás para olhá-lo no rosto, algo que não estava acostumada a fazer, já que tinha quase 1,80m. Ele era de tirar o fôlego, pensou, com maçãs do rosto salientes, sobrancelhas bem definidas e um maxilar esculpido. Um macho alfa sob qualquer critério. Ele a encarou fixamente. – Sou Mikhail Kusnirovich, e esse é meu amigo, Luka Volkov, e o irmão da sua noiva, Peter Gregory. Mikhail nunca tinha ficado tão impressionado com uma mulher à


primeira vista. Uma cascata de cabelo encaracolado e vermelho descia indisciplinada em torno do seu rosto pequeno, fazendo um contraste esplêndido com sua pele de porcelana, um conjunto de sardas espalhadas no nariz delicado, e olhos da cor de esmeraldas, luminosos e profundos. A boca, rosada e carnuda, era extremamente voluptuosa. Pensara em uma série de cenas eróticas que poderia fazer com aqueles lábios. Sentiu-se enrijecer imediatamente, e seu corpo ficou tenso em resposta Sua libido estava sempre sob controle e ele considerava qualquer nível de descontrole uma fraqueza.


– Katherine Marshall... mas todo mundo me chama de Kat – murmurou ela, sentindo-se estranhamente ofegante. Virou-se para o interior da casa sentindo as pernas subitamente pesadas. – Tragam seu amigo para a sala de estar. Ele pode deitar no sofá. Se precisar de cuidados médicos, não sei o que faremos, porque a estrada provavelmente está bloqueada... – É só uma torção – apressou-se em dizer o homem chamado Luka, com o mesmo sotaque do homem mais alto. – Só preciso tirar o peso de cima dele. Mikhail observou-a atravessar a sala, seu olhar deslizando com admiração pelos seios pequenos e firmes,


ressaltados por um suéter preto canelado, a cintura estreita e as pernas muito longas no jeans justo. Ela era estonteante, absolutamente deslumbrante, exceto pelas fofas pantufas de coelhinho que usava, pensou ele, como que ofuscado, desconcertado pela intensidade da sua própria apreciação. – Que gostosa... – observou Peter Gregory, adicionando, de forma previsível, mais um comentário grosseiro sobre como gostaria de levá-la para cama. O tipo de coisa que certamente os faria serem postos na rua por sua anfitriã, caso ela tivesse o desprazer de ouvi-lo. Mikhail cerrou os


dentes, frustrado. Até ali, a inclusão inesperada de Peter no desastroso final de semana na montanha ainda era o pior tormento que ele tivera de aguentar. Sempre no seu melhor em crises, Mikhail operava em ritmo acelerado sob tensão, e gostava de um desafio. A mudança brusca no clima, a queda de Luka, a derrota na luta contra a temperatura congelante, a falta de celulares e a impossibilidade de pedir ajuda tinham tido seu papel na destruição dos planos, mas Mikhail lidara calmamente com estes contratempos. Contudo, o fato de aguentar as grosserias de Peter Gregory deixava-o furioso, já que ele


praticamente não tinha experiência em aturar alguém ou algo de que não gostava. Mikhail e Peter colocaram Luka no sofá, onde ele relaxou com um gemido de alívio. Kat lembrou de providenciar um banquinho para que ele pudesse descansar a perna machucada, enquanto Mikhail voltava à entrada para pegar as mochilas. Voltou com uma maleta de primeiros socorros e ajoelhou-se para tirar a bota do amigo, um processo acompanhado por uma série de gemidos abafados. Conversaram em uma língua estrangeira que Kat não reconheceu. Sem que lhe pedissem, ela entregou a


própria maleta de primeiros socorros, que estava mais bem equipada, e Mikhail enfaixou o pé do amigo com destreza. Depois ela pegou a bengala do pai e, solícita, deixou-a ao lado dele, antes de perceber que Luka tremia. Pegou uma manta de lã em uma cadeira próxima e passou-a para o homem que cuidava dele. – Você tem analgésico? – Perguntou Mikhail, olhando para ela, que não pôde deixar de notar que ele tinha os cílios mais compridos e exuberantes que ela já vira em um homem. Olhos de ônix, cílios de seda, pensou ela, assustando-se com esse devaneio de desejo.


Sentindo o rosto ruborizado, Kat trouxe o analgésico, junto com um copo de água, e observou que o homem mais jovem não fizera nada para ajudar até ali. Além disso reclamou, irritado, que os outros dois não estavam mais falando inglês. – Melhor mostrar logo os quartos. Tenho um no térreo, que será perfeito para você – informou a Luka com um sorriso, visto que ele estava claramente com muita dor. – Preciso tirar essas roupas imundas – anunciou Peter Gregory, precipitando-se pelas escadas, à frente de Kat. – Preciso de um banho.


– Ligue o chuveiro e espere a água esquentar por alguns minutos – avisou ela. – Você não tem água quente disponível o tempo todo? – reclamou ele, sarcástico. – Que tipo de pousada é essa? – Não estava esperando hóspedes – disse Kat calmamente, indicando-lhe o primeiro quarto, para livrar-se logo dele. Ela já tivera que lidar com alguns clientes difíceis ao longo dos anos, e aprendera a não tomar como pessoais os comentários desagradáveis. Não havia como satisfazer algumas pessoas. – Ignore-o – disse Mikhail Kusnirovich a ela, com charme. – Eu


faço isso... As vibrações profundas daquele sotaque fizeram Kat arrepiar-se, inquieta. Ela abriu a porta do quarto seguinte, ansiosa para voltar lá para baixo.


CAPÍTULO 2

KAT EXAMINOU o quarto bagunçado em que entrou, desanimada. Tinha esquecido completamente que Emmie dormira ali na noite anterior, deixando a cama desfeita e todas as superfícies entulhadas. Infelizmente, não havia outro quarto disponível. – Esqueci que minha irmã passou a noite aqui. Vou arrumar e trocar a roupa de cama – garantiu, enquanto ia


pegando as roupas de Emmie apressadamente, enchendo os braços para carregá-las pelo corredor e deixálas no seu próprio quarto. Mikhail perguntou-se por que ela ficava tão nervosa perto dele. Ele conseguia ver a tensão dela em faíscas invisíveis, e notara como ela mantinha uma cuidadosa distância entre eles. Não, aquela não era uma mulher que iria invadir o espaço dele como tantas outras haviam tentado, atraídas como ímãs por seu poder e sua riqueza, com pouca compreensão do homem por trás disso. Sim, ele tinha se acostumado a despertar muitas reações em mulheres – luxúria, ciúmes, inveja, possessividade –


mas nervosismo nunca tinha sido uma delas, e a novidade atraiu a atenção dele. Era engraçado para ele que ela não fazia ideia de quem ele era. Por que uma mulher de onde Judas perdeu as botas saberia da existência dele? Essa anonimidade era estranhamente agradável para o filho de um bilionário que nunca tinha conhecido uma vida que não pudesse ser classificada como rica e exclusiva. Kat voltou para buscar mais uma braçada das tralhas da irmã. Mikhail jogou para ela um sutiã que estava pendurado na luminária ao lado da cama. Kat enrubesceu até a raiz dos cabelos, sentindo-se, para sua vergonha,


como uma tia solteirona puritana, e apressou-se em voltar para o corredor, parando na volta para pegar roupa de cama limpa na lavanderia. Estava tão constrangida quando entrou de novo no quarto que não conseguiu encará-lo. – Você e seus amigos estão de férias por aqui? – Perguntou, sem naturalidade, para tentar preencher o silêncio desconfortável. – É uma folga de final de semana, viemos de Londres – informou Mikhail, sarcástico. – É lá que você mora? – Respondeu Kat, permitindo-se um olhar rápido na direção dele, enquanto começava a arrumar a cama, já consciente de que


esta seria alguns centímetros pequena demais para ele, mas se esquecendo disso completamente em seguida, os olhos seguindo-o como um míssil teleguiado fora de controle. Seu olhar fixou-se na impressionante simetria dos traços dele, colidiu com olhos que brilhavam como diamantes negros, e foi como se um fusível da sua mente tivesse queimado. Em seguida, Kat começou a lembrar que a simetria era, supostamente, o componente mais poderoso na definição de beleza real... e Mikhail tinha simetria, com suas exóticas maçãs do rosto, seu nariz perfeito, e sua boca larga e absurdamente sensual. Kat não


conseguia parar de encará-lo, e a consciência disso enviou uma faísca de puro pânico através do seu corpo. Não entendia o que estava acontecendo com ela. – Da... sim – corrigiu ele em um inglês rouco. – Luka e eu somos russos. Subitamente liberada da sua paralisia quando ele piscou, com o rosto quente e vermelho de vergonha, Kat lutou com o lençol de baixo, forrando-o, ajeitando-o por baixo do colchão, e desejando que Mikhail fosse o tipo de homem que se oferece para ajudar, para que ela pudesse acabar a tarefa mais rapidamente. Mas a julgar pela sua pose arrogante enquanto olhava de perto da


janela, ele provavelmente nunca tinha arrumado uma cama na vida. Mikhail enfiou as mãos nos bolsos da calça, para disfarçar a tensão. Estava extremamente excitado. Ela curvava-se bem na frente dele, mostrando um traseiro perfeitamente desenhado e as belas formas de suas pernas esguias, enquanto se debruçava com energia sobre a cama. Começou a imaginar aquelas pernas enroscadas na sua cintura, apertando-o enquanto ele a penetrava. Gotas de suor umedeceram seu lábio superior, e sua temperatura subiu. Sentia-se como um homem privado de sexo por anos, e como isso estava longe de ser verdade,


maravilhou-se com o efeito que Kat tinha sobre ele. Que bom que ela devolvera seu olhar com um ar que ele conhecia muito bem em uma mulher: apreciação, desejo e fome. A satisfação tomou conta dele. Ela não usava aliança e estava claramente disponível... Tendo cuidado dos travesseiros em um silêncio que ameaçava sufocá-la, Kat olhou para ele novamente, sentindo-se tão desajeitada como uma menina em idade escolar, sabendo que deveria estar conversando como fazia habitualmente com os hóspedes. Exceto que comportar-se normalmente era impossível perto dele, e incomodava-a que mesmo na sua idade pudesse


sentir-se tão vulnerável. A boca expressiva dele curvou-se em divertimento, fazendo-a enrubescer novamente e desviar sua atenção, profundamente envergonhada de si mesma. Kat podia não ser mais uma adolescente ingênua, mas estava agindo como tal. Aquele quase sorriso, entretanto, tinha iluminado o rosto dele, que, em repouso, tinha um ar melancólico e taciturno, e o coração dela pulou no peito como uma corça assustada. Estava vendo outro lado dele, e estava ansiosa para ver mais. – Você pode arranjar uma refeição para nós esta noite? – Perguntou Mikhail, olhando-a inserir o edredom


dentro do forro com mãos frenéticas. Ela estava nervosa, confusa e alvoroçada, e era espantoso o quanto ele gostava de ver aquela rara vulnerabilidade nesta mulher em particular. Ela não tinha uma fachada sofisticada atrás da qual se escondia. Mikhail acreditava ser capaz de decifrála sem dificuldade, e adorava a ideia. Ela não devia ser muito experiente, adivinhou, tentando imaginar por que essa ideia não o desanimava, já que estava bem mais acostumado a mulheres que lhe ensinavam novas técnicas na cama; mulheres extremamente experientes, mas muito menos honestas na impressão que


queriam passar de si mesmas. Kat virou a cabeça, os cachos brilhantes caindo sobre seu ombro, mas se recusou a olhar diretamente para ele, se concentrando no seu abdômen reto. – Claro, mas não vai ser nada sofisticado, vai ser uma comida simples. – Estamos com tanta fome que não importa. Ela estendeu o edredom e correu para o banheiro para arrumá-lo. Juntou os artigos de higiene da irmã e jogou-os em uma sacola, para depois pegar as toalhas usadas. – Já volto para limpá-lo – disse, atravessando o quarto. Mas Mikhail queria que ficasse com ele. Abriu um mapa detalhado da área


em cima da penteadeira. Da penteadeira empoeirada, observou Kat consternada, e surpresa ao dar-se conta de como negligenciara a rotina de limpeza desde que o número de hóspedes havia diminuído e a tensão financeira diária havia tomado seu lugar. – Pode me mostrar onde fica esta casa? – Perguntou ele, embora soubesse perfeitamente. – Quero entender a que distância estamos do nosso carro... – Espere um instante – pediu Kat, saindo do quarto para levar o resto das coisas da irmã e pegar toalhas limpas na lavanderia. Dando um suspiro profundo, arrumou as toalhas recém-


lavadas sobre a cama e voltou para perto dele. Desconfortavelmente perto: podia sentir o calor que emanava do corpo esguio e forte, ouvir o ruído da respiração dele e sentir um toque de perfume sobre seu cheiro másculo. Era uma experiência perversamente íntima para uma mulher que havia há muito fechado a porta da atração física, e fazia todos os seus sentidos traiçoeiros acordarem. Seu corpo despertou como se ele a houvesse tocado, e a reação em cadeia foi da tensão súbita nos seios até um aperto na barriga. Reunindo sua força de vontade, marcou com a ponta do dedo um lugar no mapa, pois tinha frequentemente


olhado mapas com hóspedes que faziam trilhas, para dar opinião sobre os melhores trajetos e as melhores vistas. – Estamos bem aqui... A mão dele cobriu a dela em cima do mapa, quente, forte, um polegar apoiado de leve sobre o pulso, acariciando-o, como que para acalmar a pulsação intensa. – Você está tremendo – murmurou Mikhail em um tom rouco, usando a outra mão para virá-la de frente para ele, os longos dedos firmes no ombro delicado dela. – Devo estar com frio... – conseguiu dizer Kat com dificuldade, culpada por encorajar um desconhecido a tocá-la e


não se afastar. Ele certamente não tinha deixado de notar seu olhar fixo, mas estava convencida que um homem tão bonito deveria estar acostumado com aquele tipo de atenção. Em um instante ele certamente estaria rindo dela, que tremia e gaguejava como uma velha solteirona, assustada com a própria sombra na presença dele. Foi esse último pensamento, esse pavor de que ele a visse como motivo de risada, que a fez recompor-se e erguer a cabeça em uma determinada demonstração de autocontrole. Foi um erro, porque ele estava olhando fixo para ela, os olhos negros faiscando como fogos de artifício no céu noturno,


absolutamente fascinantes, absolutamente inescapáveis. A garganta dela apertou, a respiração prendeu e um impulso de calor percorreu seu corpo delgado como uma chama viva. Nunca tinha sentido nada tão dolorosamente intenso. Era como se o tempo tivesse parado. Nesse intervalo, Mikhail tirou a mão do ombro dela para desenhar a linha cheia e rosada do seu lábio inferior com a ponta do indicador, e a pele dela inteira se arrepiou em resposta. – Quero beijá-la, Katya moya – suspirou ele com esforço. Aquelas palavras foram libertadoras como nada mais, de tão perdida que


estava no que estava sentindo enquanto também tentava resistir ao furacão daquela forte personalidade. Afastou-se bruscamente dele, alarmada por sua própria perda de controle e bom senso, mesmo que por pouco tempo. – Não... de jeito nenhum – contrapôs asperamente, com o coração ainda acelerado como um carro de corrida, enquanto o rosto dele endurecia e seus olhos de diamante negro transformavam-se em gelo negro cristalino. – Pelo amor de Deus, eu nem conheço você... – Eu normalmente não peço permissão para beijar uma mulher –


retrucou Mikhail, a voz glacial. – Mas você devia tomar mais cuidado... O jogo se virou contra Kat, e ela estava totalmente despreparada. – Entendi bem? Eu é que tenho de ser mais cuidadosa? – Arquejou ela, perdida. – É claro que você se sente atraída por mim – respondeu Mikhail com uma segurança sólida como uma rocha, que grudou a língua de Kat no céu da boca, de susto. – Eu vi isso e reagi... você é uma mulher linda. A humilhação que ele lhe infligira com aquela primeira frase era suficiente para fazer com que Kat ardesse de vergonha. Então era culpa dela que ele


tivesse avançado o sinal? Aquele era realmente um jeito novo de ver abordagens indesejadas feitas por homens. Ele era rápido com as palavras e mais rápido ainda para aproveitar-se das pessoas, registrou ela com ressentimento. E quanto àquela baboseira que ele tinha dito, sobre ela ser uma “linda” mulher... Quem ele achava que estava enganando? Será que ela parecia ter nascido ontem? Será que aquela lisonja ofensiva pretendia amolecê-la e apagar seu constrangimento? Furiosa como estava, Kat cerrou os dentes com força, pois, em um canto afastado da mente, tinha mesmo medo de tê-lo encorajado, de


alguma forma misteriosa, e que ele tivesse razão em repreendê-la pela impressão errada que evidentemente tinha lhe dado. Kat rapidamente escondeu seus pensamentos confusos no silêncio; seu desejo mais premente era escapar da cena do seu aparente crime. – Preciso fazer o jantar – disse ela, sucinta como um robô, e, girando sobre os calcanhares, saiu do quarto. PRECISO FAZER o jantar? Mikhail ficou tão estupefato com essa declaração quanto ficara, momentos antes, quando Kat se afastara dele como se seu desejo de beijá-la fosse equivalente a uma


tentativa de agressão. Ele conhecia as mulheres, bem o suficiente para não tentar nada com alguma que não estivesse interessada, refletiu, irritado. Qual era o jogo dela, droga? Será que essa brincadeira de avança-e-para era a ideia dela de flerte? Ela achava que ele a desejaria mais porque ela o tinha rejeitado? Xingou baixinho em russo, ainda admirado com o que acontecera: o absurdo, o impensável, o impossível. Pela primeira vez na vida adulta de Mikhail, uma mulher o rejeitara. KAT TIROU a carne do congelador e começou a descongelá-la. Um ensopado de carne básico era o melhor que podia


oferecer a seus hóspedes. Ela ainda não limpara o banheiro dele, mas não entraria lá de novo de jeito nenhum para enfrentá-lo! Não é que estivesse com medo, estava cheia de vergonha, com a acusação dele ainda soando em seus ouvidos. É claro que você se sente atraída por mim. Aquele desgraçado tinha virado de cabeça para baixo seu conhecimento de si mesma, no espaço de uma hora. Pela primeira vez, em tantos anos que ela não conseguia nem contar, sentia-se atraída por um homem. Ele estava correto nesse ponto: certamente não negava isso a si mesma. Mas da última vez que reagira a um homem dessa forma, estava


trabalhando como estagiária na área de conservação de um museu de Londres, há muitos anos, quando ainda era jovem e cheia de sonhos, esperanças e ambições. Mesmo assim, mesmo quando ficara toda boba e sensível com Steve, seu namorado por um tempo, não sentira nada parecido com o efeito explosivo que Mikhail Kusnirovich provocava! Não, naqueles dias, em uma situação parecida, ainda lhe parecera possível agir normalmente, e não como uma idiota desmiolada. Mas, Deus do céu, como é que ele soubera como ela se sentia? Como tinha se denunciado? Sua ignorância sobre o que poderia tê-la traído a deixava


enfurecida, e sentia-se como uma criança em um mundo intimidante de adultos. Foi certamente o jeito como olhara para ele: tomaria cuidado para não olhar para ele de novo, para não falar com ele, para não fazer nada que pudesse ser mal interpretado. O impacto dessas sensações despertando dentro dela novamente já seria suficiente para deixá-la perturbada. Não precisava, além disso, sentir-se presa embaixo do mesmo teto que o homem! Ela não estava velha demais para reagir assim, não estava além desses impulsos hormonais, como imaginara. E o que ele achara, chamando-a de linda? Pensava que ela


era burra, além de fácil? Afinal, só uma mulher fácil beijaria um total desconhecido apenas uma hora depois de tê-lo encontrado pela primeira vez. Uma batida soou e ela ergueu os olhos da tarefa de cortar legumes, irritada, piscando ao ver Luka parado no vão da porta. Havia esquecido completamente que o coitado estava lá! – Desculpe-me por interromper... – Não, você é que tem de me desculpar... esqueci de mostrar-lhe seu quarto – disse Kat enquanto lavava e enxugava as mãos. – Adormeci na cadeira – disse-lhe Luka, divertido, enquanto caminhava com dificuldade ao lado dela. – Nunca


me senti tão cansado na minha vida, e Mikhail nem suou ao praticamente me carregar durante os últimos quilômetros da caminhada. Não acredito que esse final de semana tenha sido ideia minha... – Acidentes acontecem, não importa quanto cuidado se tenha – disse Kat, acalmando-o, enquanto pegava a última mochila na entrada para ele. Em seguida, abriu a porta do quarto que ele iria ocupar. PAIRAVA UM clima tenso à mesa de jantar, mesmo que Kat lutasse para ignorá-lo. Poderia muito bem haver um buraco negro gigante na cadeira em que


Mikhail estava sentado, pois Kat esforçava-se para não dar nenhum sinal de que percebia sua presença. Os homens comiam avidamente e com prazer, e quando ela serviu a torta de maçã com sorvete de sobremesa, os elogios vieram, rápidos e intensos. Ela cozinhava incrivelmente bem. Mikhail, que nunca havia refletido sobre tal talento, estava, a contragosto, impressionado, embora não estivesse impressionado por ter de comer na cozinha. Também não estava encantado com o jeito infantil com o qual ela o tratava, embora lhe desse muitas possibilidades para observá-la e admirar o jeito como seus cabelos reluziam sob


as luzes a cada um dos seus movimentos, notar a elegância das suas mãos esguias e pálidas quando ela as movimentava e seus modos refinados à mesa. Mikhail sentia uma irritação crescente por estar tão interessado nela, não era seu estilo. De fato, um ronco vulcânico de frustração cresceu em seu peito, quando ela ousou divertir-se em uma conversa leve com Luka. – Qual é a sua, morando aqui sozinha? – Perguntou abruptamente Peter Gregory, interrompendo-os. – É viúva? – Nunca casei – respondeu Kat calmamente, mais do que acostumada a ouvir esse tipo de pergunta dos


hóspedes. – Meu pai deixou-me essa casa, e transformá-la em uma pousada fazia sentido na época. – E então, há algum homem em sua vida? – Continuou Peter com um olhar avaliador e íntimo demais, que ela não apreciou, ainda mais agora que Mikhail a tinha deixado em estado de alerta. – Acho que isso é problema meu – retrucou Kat, sentindo que sua boa educação parava ali. Outro homem? Como é que essa possibilidade não tinha lhe ocorrido? Ela podia sentir-se atraída por ele, mas tinha recuado porque havia outra pessoa em sua vida, refletiu Mikhail, com um humor cada vez mais agressivo,


que estava começando a desequilibrálo. Sentia-se tenso, irritado, fora de si, com toda sua energia confinada por paredes que o apertavam. Ficar preso ali estava lhe dando claustrofobia, decidiu, mal-humorado. Sempre considerara sua liberdade, sua privacidade e seu espaço como garantidos. Levantou-se de súbito. – Vou voltar até o carro e pegar nossos celulares. Deixá-los lá não foi boa ideia, Luka – disse ele ao amigo. Kat piscou, espantada. – Você não pode voltar lá – objetou Luka, consternado. – Há uma nevasca caindo e o carro está a quilômetros.


– Eu teria ido mais cedo, se você não tivesse se machucado – respondeu Mikhail, seco. – Eu realmente gostaria de ter meu celular de volta – disse Peter Gregory, animado. Kat voltou sua atenção para Mikhail pela primeira vez desde que ele entrara na cozinha. Tinha sido necessário usar uma dose considerável de autocontrole para resistir à sua necessidade insaciável de olhar para ele, mas uma preocupação genuína tomou conta dela. Após um instante de hesitação, que deu a ele tempo de vestir seu casaco impermeável na entrada e abrir a porta da frente, ela saiu correndo atrás dele.


A neve caía intensamente, e a estrada além do portão estava tão recoberta de camadas fofas que não conseguia mais vê-la. Um instante antes de Mikhail sair com a confiança casual de um homem indo fazer uma caminhada em um parque ensolarado, ela estendeu a mão e segurou o braço dele, para fazê-lo parar. – Não seja estúpido! – exclamou, tremendo violentamente com o ar congelante. – Ninguém arrisca a vida para buscar celulares... – Não me chame de estúpido – resmungou Mikhail, sem acreditar na interferência dela, o rosto bonito assumindo um ar de incredulidade


debochada. – E não faça drama... não estou arriscando minha vida se decido fazer uma caminhada, com menos de meio metro de neve no chão... – Bem, se eu não tivesse consciência, ficaria feliz de deixá-lo morrer congelado dentro de uma vala em algum lugar da estrada! – Kat devolveu, deixando sua irritação aparecer. De todos os machões idiotas que já conhecera, aquele levava o troféu. – Não vou morrer – lançou Mikhail com um sorriso sardônico, os olhos negros cheios de desdém. – Estou usando um casaco adequado. Estou em forma e sei exatamente o que fazer nesse terreno e com esse tempo...


– Sinto dizer que isso não é muito convincente, vindo de um sujeito que teve de me pedir para mostrar onde estava essa casa no mapa – rebateu Kat sem hesitar. – Use o telefone fixo e tenha bom senso. Mikhail cerrou os dentes brancos perfeitos, pego pela lembrança do joguinho que fizera com ela. Olhou para ela frustrado e furioso. Aquele jeito mandão era uma péssima surpresa. Kat estava quase gritando e aquilo era uma novidade da qual não gostava nem um pouco em uma mulher. Mas seus olhos verdes ainda brilhavam como as mais preciosas esmeraldas em seu rosto em forma de coração, enquanto o vento


erguia sua cascata de cachos em volta dos ombros estreitos e os fazia acariciar seu rosto alvo. Ela era uma visão fascinante, até para um homem que há muito tempo decidira que as mulheres, como as crianças, eram melhores vistas e não ouvidas. Rápido assim, Mikhail parou de querer seu silêncio e se deixou envolver, com todos os pensamentos conscientes suspensos enquanto seu corpo pulsava, tenso de desejo sexual. Mais tarde, Kat diria a si mesma que ele se comportara como um homem das cavernas e que o modo como ela o havia encarado não tinha nada a ver com a maneira como, com os olhos negros predatórios faiscando, ele a


puxara para perto dele com braços fortes e a beijara. A lembrança do que tinha acontecido em seguida sumiu, porque ela mergulhara naquele beijo e quase se afogara na onda avassaladora de paixão faminta que ele despertara. Cheio de poder viril e de exigência voraz, seus lábios intensos haviam capturado os dela e os haviam afastado, decididos, para que sua língua pudesse penetrar no interior macio, de uma maneira cuidadosa e incrivelmente erótica, que fez com que seu corpo se apertasse contra o dele com um estremecimento de entrega. Com todo seu controle derrotado, Kat deixou a excitação percorrer seu corpo e


atravessá-lo, endurecendo seus mamilos, inundando-a em sensualidade. Ela reagiu, estremecendo, e flocos gelados derretiam em seu rosto, fazendo um contraste com o calor ardente das suas bocas unidas. Era uma sensação que nunca tivera antes, ao mesmo tempo fantástica, mágica e assustadora. – Vou demorar umas duas horas, Katya moya – disse Mikhail, rouco, olhando para o rosto atordoado dela com uma satisfação que há muito não experimentava, porque ela finalmente estava agindo como ele queria. – Posso esperar que você esteja acordada quando eu voltar?


E, tão rápido quanto começara, em resposta àquele convite manipulador, a sensação ingênua de deslumbramento e magia, que tinha por um instante transformado Kat em uma mulher que ela mesma não reconhecia, encolheu e morreu, bem ali, no vão da porta. – Não, a menos que você esteja com vontade de morrer – respondeu Kat acidamente, esfregando os lábios machucados com as costas da mão, como se ele a tivesse sujado de alguma forma. Os olhos escuros faiscaram novamente por cima da cabeça dela. – Quando digo não, Senhor Não-seiquem, quero dizer não, e a resposta não mudou...


– Você é uma mulher muito estranha – disse Mikhail, revoltado com ela e no entanto atraído pelo desafio da sua rebeldia. – Porque eu não estou dizendo o que você quer ouvir, eu sei. Bem, tenho novidades– disse Kat, irritada. – Não sou a Bela Adormecida e você não é meu príncipe, então seu beijo foi um esforço desperdiçado! Kat observou-o afastar-se pela neve e voltou para dentro, fechando a porta com força. Desgraçado, teimoso, estúpido! Voltou-se e viu Luka encarando-a com os olhos arregalados, da porta da sala, como se ela fosse uma criatura ainda mais estranha do que o


amigo. A boca dele curvou-se em um sorriso indisfarçável. – Mikhail fez tracking no Ártico e na Sibéria – desculpou-se ele, com um tom de eu-sei-que-isso-vai-envergonharvocê. Típico, pensou Kat, tempestuosa, enrubescendo com a informação: o macho alfa tinha motivos concretos para acreditar que era um ser superior na área da resistência física. No Ártico? Fazendo uma careta, voltou para a cozinha para arrumá-la. Aquele beijo? O primeiro em mais de dez anos? Não pretendia pensar nisso nem por dez segundos! Seria dar a Mikhail o tipo de importância que ele claramente já


demonstrara acreditar merecer, e ela era mais forte do que isso! Enquanto Kat tirava os pratos da mesa da cozinha, Peter Gregory falava sem parar do seu enorme apartamento na cidade e do valor excepcional do seu último bônus, enquanto listava os nomes de vários clientes conhecidos, que Kat vagamente identificava de revistas. De má vontade, teve de reconhecer que ele era tão convencido que fazia Mikhail parecer até humilde.


CAPÍTULO 3

KAT ESPIAVA

por trás da cortina do quarto quando finalmente viu Mikhail voltando, caminhando pela neve com passadas amplas e poderosas. Ele estava a salvo. Ela não tinha conseguido dormir, preocupada com ele, e agora, apesar de não ter mais nenhum motivo para se intrometer ou bisbilhotar, abriu a porta do quarto sem fazer barulho,


para ouvir as vozes que vinham lá de baixo. – Estaremos de volta a Londres na hora do almoço – dizia Luka com satisfação. – Tem certeza de que quer ir embora tão rápido, Mikhail? – Perguntou Peter Gregory em um tom divertido e lascivo. – Será que nossa anfitriã gostosa não está esperando por você? Aposto um bom dinheiro que você não é capaz de levá-la para a cama até amanhã! Desejando não ter escutado, Kat ficou pálida como uma folha de papel e sentiu o coração se apertar. Depressa, fechou a porta do quarto, silenciosamente, com receio de que o


menor sinal de que ainda estava acordada pudesse ser entendido como um convite. Não havia dúvida: homens podiam pensar, falar e se comportar como animais repulsivos, pensou, com repugnância. Peter Gregory e sua mente suja certamente se encaixavam nessa categoria. Será que os três homens estavam realmente apostando nas chances de que ela fosse dormir com Mikhail naquela noite? Claramente aquele beijo tinha sido visto e mal compreendido. Uma onda de vergonha e mortificação invadiu Kat. Ela nunca estivera tão consciente do quão inexperiente era no campo sexual. Uma mulher realmente segura, ao ouvir essa


aposta, teria descido para fazer algum comentário ferino, que desinflasse o ego de Peter e mostrasse o quanto ela achava ridícula aquela conversa sexista sem sentido. Mas Kat se sentia magoada e humilhada, incapaz de pensar em um comentário à altura, e parou somente para virar a chave na fechadura antes de se deitar. Foi quando pensou no beijo: a lembrança da sua entrega insensata voltou como um tapa na cara. Ela o deixara beijá-la, não fizera a mais leve tentativa de interrupção. Pior ainda, ela se deliciara com todos os segundos da boca dele na sua. Talvez todos aqueles anos de disciplina e repressão a


tivessem deixado ávida por sexo e vulnerável a qualquer abordagem; talvez tivesse incorporado a imagem cômica da solteirona que temia ser, pensou, desconsolada. Ficou tensa ao ouvir um ruído atrás da porta, e sua imaginação fez uma dedução desagradável quando uma batida leve soou à sua porta. Congelou, cheia de vergonha: não fez nada, não disse nada, o rosto ardendo como se estivesse em chamas. Passou pela sua mente que estivesse sendo severamente punida por ter permitido um único beijo, e que era antiquada e desconectada com os hábitos modernos, por não ter avaliado que mesmo aquela pequena dose de


intimidade havia encorajado expectativas que ela nem sonhava em preencher. Na manhã seguinte, aquela noite desassossegada de culpa e arrependimento deixou como saldo as olheiras e a palidez no rosto, e ela sentia um desânimo generalizado. Levantou cedo para preparar o café da manhã completo que seus hóspedes certamente esperavam. Ouviu a voz profunda de Mikhail antes de vê-lo, e atarefou-se no fogão, com a nuca formigando e uma tensão atravessando o corpo esguio. A mão dele tocou o seu braço e ela ergueu bruscamente a cabeça, seus


olhos colidindo com aqueles deslumbrantes olhos escuros. – Esperava vê-la na noite passada – informou-a Mikhail com um candor que a desconcertou. – Sinto muito, você perdeu a aposta – devolveu Kat com um sarcasmo suave. As sobrancelhas pretas e regulares franziram-se e ele voltou-se para ela, surpreendentemente ágil para seu tamanho. – Que aposta? – inquiriu. O rosto dela enrubesceu. – Ouvi seu amigo fazendo uma aposta com você na noite passada... – Ah... aquilo – sussurrou Mikhail com um sorriso sardônico na boca bem


desenhada, e os olhos negros fixos nos dela sem nenhum sinal de vergonha. – Estou um pouco velho para essas apostas. Kat olhou para além dele e notou que apenas Luka estava à mesa, enquanto Peter Gregory ainda conversava ao celular, perto da porta. Moveu-se para perto de Mikhail e abaixou a voz. – Você bateu à minha porta – murmurou, seca, satisfeita de conseguir manter um tom absolutamente despreocupado. Aquilo arrancou uma risada sardônica do russo alto e robusto.


– E daí? – desafiou ele. – O que é que isso quer dizer? Kat lançou-lhe um olhar frio e, sem mais uma palavra, tirou os pratos quentes do forno em ordem, pronta para servir o café. – Ne ponyal... Não estou entendendo – continuou Mikhail, impaciente, determinado a obter uma resposta. Kat pôs uma bandeja de torradas na mesa, com uma jarra de café, e ficou na janela, observando Roger Packham em um trator no campo vizinho ao jardim, se perguntando vagamente o que ele estaria fazendo ali na neve, enquanto tentava controlar a irritação. Não queria saber se Mikhail estava ou não


entendendo. Felizmente, ele estava indo embora e ela não precisaria vê-lo novamente, nem lembrar-se o quanto ele a havia insultado. Ele supusera que ela estava tão disponível, que era tão liberada que podia convidá-lo para sua cama horas depois de conhecê-lo, e aquilo era um insulto. Ele teria ido para cama com ela, sem dúvida, se estivesse disposta, pensou Kat, insatisfeita, e aquilo lhe dizia tudo o que precisava saber sobre ele e sua visão de mundo. Muito provavelmente, ele era aquilo que Emmie chamava de “garanhão”, o tipo de sujeito que ia para cama com qualquer uma e que provavelmente mantinha um placar sexual, orgulhoso


da sua alta taxa de sucesso com as mulheres. No silêncio que se seguiu, Mikhail cerrou os dentes. Ela o deixava furioso sem nem tentar. – Quero vê-la de novo – disse, sem rodeios, e sem nem um pingo de sedução ou de delicadeza na afirmação. – Não! – respondeu Kat, brusca, com a boca macia e carnuda marcando as vogais de um jeito que fez os hormônios dele dispararem. – É só isso que você tem a dizer? – Resmungou Mikhail, indignado com a atitude dela, os luminosos olhos negros cintilando como estrelas cadentes.


– É, é só isso que tenho a dizer. Não estou interessada – completou Kat, sacudindo a cabeça com veemência, o que fez seus cachos rebeldes balançarem. – Mentirosa – contradisse Mikhail com um desdém completo, e o ruído de um helicóptero chegando, baixo, por cima da casa, quase abafou sua voz. Mas Kat ouvira, e confrontou-o, como a um adversário. – Você realmente acha que é um presente de Deus para o sexo feminino, não é? – Afirmou, sem disfarçar o desprezo. – Não estou interessada e mal posso esperar que vá embora!


– Nunca imaginei que veria o dia em que você levaria um fora – murmurou Peter Gregory de algum lugar lá no fundo, enquanto Luka, olhando para todos os lados menos para Mikhail, implorava ao futuro cunhado que ficasse quieto. Kat apressou-se em servir o desjejum. Dois helicópteros estavam pousando no campo de Roger, vizinho ao jardim. O homem mais velho devia estar limpando a neve para que pudessem descer. Ela voltou-se e descobriu que Mikhail ainda não tinha se sentado. – Coma – pediu.


– Não estou com fome – disse ele, ríspido. Kat sentiu uma alfinetada inesperada de remorso, e cogitou se teria sido impulsiva e maliciosa demais. Será que não fizera suposições sobre ele, da mesma maneira que ele fizera sobre ela? E se estivesse enganada? Mas não estava enganada na convicção de que ele batera à porta do seu quarto na noite anterior, recordou com impaciência, pensando de onde teria vindo esse ataque de remorso fora de hora. Seu rosto tingiu-se de rosa claro, na mesma hora em que uma série de batidas fortes se fizeram ouvir na porta de trás. Mikhail abriu-a, e de repente a


cozinha ficou repleta de homens grandalhões de sobretudo, todos falando russo ao mesmo tempo. Um senhor grisalho cumprimentou-o calorosamente, com alívio. Em meio ao vale-tudo das vozes masculinas, Kat concentrou-se em servir a todos café e biscoitos. Aparentemente Mikhail era importante o suficiente para que enviassem um helicóptero para buscá-lo e facilitar sua volta rápida a Londres. Dois helicópteros? Será que ele tinha arranjado o transporte na noite anterior? Será que era um banqueiro rico como Peter Gregory? Ou um


executivo importante, com mais dinheiro do que bom senso? Luka remexia os bolsos, para tirar dinheiro e pagar a conta detalhada que ela deixara na mesa. Mikhail pegou a conta, examinou-a e lançou um olhar sarcástico para Kat. – Você não cobra o suficiente – disse enfaticamente a ela, botando a conta no bolso e entregando o dinheiro de volta ao amigo. Tirou sua própria carteira e jogou várias notas na mesa. – Obrigada – disse Kat, com a voz desprovida de qualquer entonação de gratidão. Mikhail lançou-lhe um olhar duro, e seus incríveis olhos escuros brilhavam


de arrogância e desdém. – Não vou agradecer a você – disse, sucintamente. – Até agora, você não fez nada para satisfazer-me. Coisa nenhuma. E ela quase caiu na gargalhada, porque ele parecia um sultão que informava a uma humilde moça do seu harém de sua insatisfação, enquanto acalentava o desejo de que ela melhorasse sua performance. Mas quando seus olhos cruzaram sem querer com os olhos negros e frios dele, qualquer sinal de humor desapareceu e um toque de consternação, como um pressentimento, tomou seu lugar.


Os homens saíram em fila e dirigiram-se ao portão que levava do jardim dela para o campo onde estavam os helicópteros. Mikhail esperou até o último segundo, quando o mais velho dos homens já o esperava além da porta. – Manterei contato – disse. Kate evitou com cuidado olhar para ele. – Não é necessário – respondeu, sem conseguir controlar-se. – Olhe para mim – rosnou Mikhail através dos dentes cerrados. Contra sua vontade, mais afetada pelo tom de comando do que esperava, Kat olhou para cima. Um tom delicado


de rosa invadiu suas bochechas, enquanto uma veia pulsava na base do seu pescoço, revelando a tensão, como um aviso de tempestade. Encantado, contra sua vontade, com o brilho dos olhos verdes dela contrastando com a pele branca e imaculada, Mikhail estudou-a, franzindo o cenho. Viu a ponta da língua dela passar pelo lábio inferior, e ficou cheio de desejo só de imaginar a ponta daquela língua passando pelo seu corpo. Soltando o fôlego, tenso, voltou a cabeça para o outro lado. – Manterei contato – disse de novo, em tom de franco desafio.


Kat fechou a porta, deixando o ar gelado lá fora. Quando Mikhail chegou ao portão, dirigiu-se ao homem mais velho ao seu lado. – Katherine Marshall. Quero uma investigação sobre ela. Quero saber tudo o que há para se saber sobre ela... Stas ficou tenso. – Por quê? – Ousou perguntar, como se não tivesse reparado naquele interessante conflito. – Quero ensiná-la a ter educação – resmungou Mikhail com um olhar ressentido em direção à casa. – Ela foi grosseira! Estupefato, Stas não disse nada. Em geral, Mikhail nunca se irritava por


causa de mulheres. Na verdade, sua indiferença pronunciada com relação às muitas mulheres que o perseguiam, e até com relação às poucas escolhidas que compartilhavam sua cama, era fofoca entre seus funcionários, e Stas não conseguia nem imaginar o que Katherine Marshall poderia ter feito para causar aquela reação em seu patrão. KAT FICOU feliz de ter com que se ocupar, assim que os helicópteros foram embora. Desfez as camas e, enquanto enchia a máquina de lavar, não resistiu e levou ao nariz o lençol listrado da cama de Mikhail, sentindo o cheiro


evanescente dele no lençol de algodão antes de se dar conta do que estava fazendo. Com o rosto afogueado, enfiou o lençol na máquina, colocou sabão em pó no depósito e ligou-a. O que diabos ele tinha feito com ela? Cheirar seus lençóis... estava se comportando como uma maluca! Era como se Mikhail tivesse ligado uma conexão física dentro dela, e ela não conseguia desligá-la novamente. Estava envergonhada. Roger Packham apareceu naquela tarde com a lenha que prometera, e ela o convidou para tomar uma xícara de chá. Ele contou-lhe com satisfação a soma absurda que tinha cobrado para


limpar a neve para os helicópteros, de manhã. – Esses caras da cidade devem ganhar dinheiro fácil – disse, com sarcasmo. – Fiquei grata pelos três hóspedes que consegui por causa da neve – admitiu Kat, sabendo que usaria o dinheiro para abastecer-se de comida, visto que, no estado atual das suas finanças, conseguir dinheiro vivo era um problema. – Os negócios não têm estado nada bons ultimamente. – Mas deve ter sido difícil para você ter três homens desconhecidos dormindo aqui – observou Roger, com


desaprovação. – Muito constrangedor para uma mulher que mora sozinha. – Não achei constrangedor – mentiu Kat com um sorriso determinado, ansiosa para não corresponder à imagem que o homem mais velho gostava de fazer dela: a de uma pobre e fraca mulherzinha. – E Emmie voltou de Londres, então não estarei mais sozinha. Ela dormiu no vilarejo, na noite passada. Mikhail tinha ido embora, e não voltaria. Ela podia enterrar todos aqueles sentimentos inapropriados que a invadiam, e as reações que ele tinha despertado, esquecer a vergonha que ele lhe causara, esquecê-lo...


– NÃO USE isso – aconselhou Stas, deslizando a pasta na direção de Mikhail por cima da mesa do escritório. – Você nunca foi o tipo de homem que usaria algo assim contra uma mulher... Com o apetite aberto pela raridade de ver Stas cheio de reprovações morais e censura para cima dele, Mikhail pegou a pasta. Leu as abundantes informações a respeito de Katherine Marshall, cheio de interesse, e entendeu exatamente o que Stas queria dizer. Ela estava à beira da falência, lutando para manter a casa. Era uma presa fácil e desprotegida. Agora entendia o motivo de nunca ver um sorriso no rosto dela. Problemas


financeiros sérios causavam desgaste: será que podiam explicar por que Kat o havia dispensado naquele fim de semana? Sabia que podia usar aquela informação a seu favor, usá-la como uma arma contra ela. Era o que seu pai teria feito com uma mulher resistente. Sua linda boca endureceu e seus olhos escureceram, pois a mulher mais resistente de todas fora sua própria mãe, uma linda boneca que acabara quebrada pelo marido, que lidara com ela sem delicadeza. Mas ele não era o pai e Katherine Marshall não era uma mulher resistente, apenas rebelde e desafiadora, pensou com impaciência.


O que havia de especial em Kat, que fazia com que sua imagem permanecesse viva para ele? Franziu a testa, e a frustração tomou conta dele, pois sempre suspeitava de tudo que não entendesse imediatamente. Três semanas haviam passado, e no entanto ele pensava nela todos os dias, ansiando por aquela imagem fugidia, enquanto mulheres mais disponíveis fracassavam em despertar aquela urgência. Seu desejo persistente por Kat Marshall era obsessivo e pouco prático, e que ele soubesse disso mas ainda sentisse o mesmo o perturbava muito. Queria sua mente de volta ao equilíbrio habitual e não acreditava poder conseguir isso sem


revê-la. Mas apesar de ela ter uma dívida e ele ser rico o suficiente para resolver todos os seus problemas, ainda havia um obstáculo insuperável, nos próprios termos de Mikhail: sua regra definitiva de que, não importava o que acontecesse, ele não comprava mulheres. Onde é que isso o deixaria, exatamente? NO DIA seguinte, Kat recebeu uma carta devastadora, informando-a de que sua casa seria retomada pelo banco no final do mês. Como recebera inúmeros avisos a esse respeito, não era assim uma surpresa. Uma semana depois, ela atendeu o telefone e franziu as


sobrancelhas quando seu advogado pediu que fosse vê-lo assim que possível. Quantas notícias ruins ainda a aguardavam? Percy só poderia querer vê-la para falar sobre sua situação financeira, da qual ele tinha tomado parte há alguns meses, quando ela o procurou pedindo conselhos. Ele insistiu que ela vendesse tudo, resolvesse as dívidas e começasse do zero, mas ela estava desesperada para manter a casa que ainda era muito importante para ela e as irmãs. Birkside era seu recanto, seu paninho de bebê, o lugar para onde todas corriam quando a vida lá fora fica muito difícil. A mágica já tinha funcionado para Kat. Perder a


casa seria perder um pedaço de si mesma, e agora, depois de meses de ansiedade inútil, aquilo era inevitável. – RECEBI ESTA carta ontem. – Percy Green estendeu a folha solta para Kat. – Contém uma oferta extraordinária. Mikhail Kusnirovich está se propondo a pagar todas as suas dívidas pendentes, e comprar sua casa. Oferece também a oportunidade de que você permaneça em Birkside como sua inquilina... Kat empalidecera. – Mikhail... K...? – K-u-s-n-i-r-o-v-i-c-h – soletrou Percy, solícito. – Verifiquei quem era, e não tenho a menor ideia de como se


envolveu na sua situação. É um bilionário do petróleo, não um agiota. – Bi... bilionário? – Gaguejou Kat, sem acreditar. – Petróleo? Mikhail é rico? A estupefação fez com que o advogado a encarasse. – Você de fato conhece esse homem? Você já o encontrou? Meio constrangida, Kat explicou brevemente como os três homens tinham lhe pedido abrigo na nevasca do mês anterior. – E você diz que ele está se propondo a pagar meus empréstimos e a comprar Birkside? Por que ele faria algo assim, meu Deus?Percy Green sacudiu


lentamente a cabeça, sem esconder sua incompreensão. – Caprichos de um homem rico? Bem, do seu ponto de vista, essa história é um milagre na hora certa. Obviamente, já que a retomada da casa a deixaria sem teto, você vai aceitar a oferta. – Obviamente – repetiu Kat, com a voz instável. Com a carta no fundo da bolsa, Kat voltou para Birkside imersa em uma incompreensão crescente. Mikhail era absurdamente rico, e ela estava pasma com a descoberta. Mikhail estava se propondo a pagar as dívidas dela e comprar a casa. Mas por que faria algo


assim? O que será que desejava em troca desse gesto? Homens ricos não jogavam seu dinheiro fora, nem o desperdiçavam. Ela não era uma caridade para que ele pudesse deduzir a doação do seu imposto de renda. Então, o que Mikhail realmente queria? Será que estava exibindo seu poder? Punindo-a pela rejeição? Mas como é que salvá-la de ficar sem casa poderia ser uma punição? Ligou para o escritório responsável pelo envio da carta e pediu o número de telefone de que precisava para marcar uma reunião com Mikhail. Quem atendeu recusou-se persistentemente a dar informações, até


que a ligação foi passada para outra pessoa. Assim que ela se identificou, a atitude mudou e o número de telefone foi finalmente transmitido. Mas as dificuldades que Kat tivera para conseguir aquele número não foram nada perto do desafio de ultrapassar as secretárias que mais pareciam cães de guarda, determinadas a saber qual era o assunto antes de sequer considerar seu pedido de encontrar o patrão delas. Ardendo de vergonha, Kat finalmente admitiu que Mikhail era dono da casa dela, e desejava discutir o assunto com ele. Foi-lhe oferecido um encontro para dali a quatro dias.


Emmie deixou Kat na estação de trem e não pareceu muito curiosa sobre a ida da irmã a Londres. Kat abafou um bocejo no trem: o horário matutino da saída começava a fazer-se sentir. Vestindo um conjunto clássico de calça e blazer escuros, usado pela última vez no enterro de um conhecido, sentia-se arrumada demais, além de profundamente apreensiva e irritada. Qual seria o jogo do daquele palerma? O que será que ele queria dela? Certamente não o óbvio: não conseguia acreditar que Mikhail não tivesse opções sexuais bem mais excitantes do que ela.


Quando finalmente chegou à recepção na cobertura do prédio de escritórios imponente que sediava as operações de Mikhail em Londres, uma loira estonteante veio buscá-la e conduziu-a por um corredor. A curiosidade dela era indisfarçável. – Então, você é Katherine Marshall e Mikhail é o proprietário da sua casa – comentou ela, de um jeito meio seco. – Como foi que isso aconteceu? – Não tenho a menor ideia – respondeu Kat. – Mas estou aqui para descobrir. A loira examinou-a novamente, com os olhos azuis frios.


– Não demore muito. Ele tem outro compromisso daqui a dez minutos. Katherine controlou-se para não dar uma resposta ácida e passou as mãos ansiosas pelas coxas esguias, para enxugar a umidade do nervosismo. Passou pela porta e entrou em um espaço inundado pela luz do sol, que a ofuscou, impedindo-a de ver qualquer coisa.


CAPÍTULO 4

MIKHAIL APROVEITOU-SE

da vantagem concedida pelo sol que a ofuscava, avançando para tomar a iniciativa e, em um gesto que a desconcertou, tomando as mãos dela nas suas. – Kat... que bom vê-la aqui, Katya moya... Ele era tão alto, tão moreno e estava tão incrivelmente bonito com aquele terno preto feito sob medida, que o


impacto foi imediato e avassalador. Com o coração acelerado, Kat olhou para cima, para os olhos escuros e penetrantes, ressaltados pelos cílios fartos, e piscou com rapidez, completamente desorientada pelo inesperado sorriso de boas-vindas e pela proximidade súbita. Uma onda de calor a arrebatou, e um sentimento de segurança perturbador manteve-a imóvel. Rejeitando conscientemente essa reação traiçoeira, Kat puxou as mãos, libertando-as das dele. – Claro que estou aqui. Que escolha você me deu? Está comprando a minha casa!


– Já comprei. Tecnicamente, agora eu sou dono de uma casa com uma inquilina residente – informou Mikhail calmamente. – Ter de se reportar a um proprietário é, sem dúvida, uma perspectiva menos alarmante do que ficar sem casa, além da ameaça de o banco colocar seus bens à venda, imagino. A recordação do quanto a sua situação estava difícil antes que Mikhail aparecesse esmagou como uma viga de aço a indignação de Kat. Estava furiosa com ele e ressentia a interferência em seus assuntos particulares, mas não conseguiria colocar a mão no peito e jurar sinceramente que preferia ter a


ameaça de despejo e a perspectiva de ter sua retomada. Na verdade, era um alívio imenso não ser perseguida dia e noite por esses temores, com medo de, ao atender o telefone, ser a agência de cobrança, com medo de abrir a porta. Inspirou profundamente para acalmarse e reorganizar os pensamentos. – Por que não se senta? – Mikhail indicou um sofá em um canto da sala ampla. – Vou pedir que sirvam café. – Não é necessário – disse Kat, desviando com esforço a atenção do perfil arrojado e bronzeado e examinando o escritório. De altura e personalidade consideráveis, ele tinha a


habilidade irritante de dominar completamente o ambiente. – Eu decido o que é necessário – contradisse-a Mikhail, pegando o telefone para pedir café. Kat não precisava daquela lembrança do quão dominador ele podia ser, e comprimiu os lábios generosos, sentando-se no sofá. Estava determinada a agir normalmente e não dar nenhum sinal da tensão que sentia. Uma tela abstrata vibrante enfeitava a parede do fundo e era a única mancha colorida na sala decorada de aço, couro e vidro, e equipada com tudo o que a tecnologia de ponta tinha a oferecer. Mikhail Kusnirovich como seu


senhorio? Era um eufemismo ridículo esse que ele usara, já que desembolsara um valor substancial por ela. Ela não era mais devedora da empresa de cobrança ou da incorporadora, mas agora considerava-se devedora dele. Claro que ele lhe devia uma explicação por sua intervenção surpreendente. – Por que você fez isso? – perguntou Kat, sem rodeios. Mikhail cerrou a boca sensual e deu de ombros. Não era bem uma resposta, mas era a única que estava preparado para dar. Não tinha nenhuma razão altruísta ou socialmente aceitável para oferecer em sua própria defesa. O que o motivara fora algo bem mais básico e


egoísta: tendo percebido sua vulnerabilidade, quisera imediatamente garantir ser a única pessoa a ter acesso a esta. Era um macho que demarcava seu território, e queria-a mais do que quisera qualquer mulher em muito tempo. E somente livre da dívida é que Kat estaria livre para ficar com ele. Voltou a cabeça arrogante de cabelos negros, e os olhos profundos e incisivos prenderam-se ao lindo rosto dela. Observou-a ruborizar-se sob seu olhar, uma cor rosa suave aparecendo por baixo da palidez da pele para iluminar seus olhos brilhantes e suas maçãs do rosto aparentes. Mikhail gostava do fato de que Kat enrubescia: não conseguia


lembrar-se de já ter estado com uma mulher que ainda tivesse essa capacidade. Seu olhar atento demorouse nos lábios róseos carnudos e sobre o “v” de pele clara revelado pela abertura da camisa que ela usava sob o blazer. Rapidamente, e facilmente, o corpo dele reagiu, e ele desejou tocá-la e descobrir se a pele de Kat tinha uma textura tão macia e suave quanto parecia. Em breve saberia, de um jeito ou de outro, pensou, tranquilizando-se. A tensão na atmosfera reverberou em Kat também. Sentiu o olhar dele sobre seus lábios como se fosse um toque físico. Lembrando da avidez da boca dele sobre a sua, estremeceu, os seios


inchados e pesados sob o sutiã, os mamilos rijos, e um calor inesperado anunciando-se no âmago do seu corpo. Com uma determinação feroz, Kat freou aquela onda de sensações físicas, recusando-se a ter sua atenção desviada ou a ser silenciada. – Perguntei por que você fez aquilo. Quer dizer, mal nos conhecemos – continuou, obstinada. – Não é normal sair investigando as dívidas de alguém e oferecer-se para saldá-las. Você me colocou em uma posição de devedora com você... – Não era minha intenção – mentiu Mikhail, pois apreciava o fato de ter criado uma ligação entre eles que Kat


não tinha como rejeitar. O fato de não ter lhe dado escolha no assunto não o incomodava, já que tinha resguardado a casa para ela quando ela estava prestes a perdê-la. Em reação àquela resposta cautelosa, Kat sentiu sua frustração crescente subir mais um grau, e ficou de pé. Os cabelos ruivos caíram em anéis sobre suas costas estreitas quando ela jogou-os para trás e endireitou a coluna. Conseguir extrair explicações dele era como tentar extrair um dente, pensou, exasperada. – Não faz diferença se era sua intenção ou não, quando agora devo algumas milhares de libras a você!


– Mas você não está em dívida, se eu recusar-me a reconhecer que existe uma dívida a ser saldada – afirmou Mikhail com uma ênfase calma. – Eu salvei sua pele. Só quero agora que você agradeça. – Não vou agradecer sua interferência na minha vida! – exclamou Kat, sem hesitação, ferida pela lembrança de que ele a tirara do beco sem saída em que estivera metida. – Não sou boba o suficiente para não me dar conta que, se algo parece bom demais para ser verdade, provavelmente é. Estou aqui para perguntar o que quer de mim em troca. – Nada que você não queira me oferecer – retorquiu Mikhail, seco.


Kat ficou tensa, interpretando aquela afirmação sem hesitação. – Você espera que eu me torne sua amante? – Perguntou, direta, erguendo o queixo enquanto fazia aquela pergunta embaraçosa. Sem aviso, Mikhail caiu na gargalhada, sobressaltando-a. Seus traços finos mostravam um divertimento genuíno. – Não deveria? Como a maioria dos homens, gosto da companhia feminina. Nada mais complicado do que isso. Podia até ser, pensou Kat, sem se impressionar, mas ele não negara que tinha interesse sexual nela. Se apenas soubesse, refletiu com pesar, se apenas


soubesse como ela era inexperiente, ele provavelmente estaria bem menos interessado nela, nessa época em que a maioria dos homens esperavam que as mulheres fossem parceiras iguais e ousadas sob os lençóis. – Estou preparado para fazer-lhe uma oferta ainda melhor – disse Mikhail, rouco, os olhos negros estreitando-se até parecerem lascas negras, brilhantes de desafio. – Uma oferta que não posso recusar? – gracejou Kat, entendendo que ele iria finalmente chegar onde queria com ela, e admitir aquilo de que suspeitara o tempo todo. Ele queria que dormisse com ele, mas fazendo de conta que não


era porque saldara suas dívidas. Era um chantagista com princípios morais elevados, pensou com raiva; em outras palavras, um completo hipócrita. Que péssimo gosto Kat tinha para homens! Como é que podia sentir-se atraída por alguém tão impiedoso quanto ele? – Aceite passar um mês no meu iate, comigo, e no final desse mês eu devolvo a casa e você volta a ser a única proprietária – propôs Mikhail em tom áspero, pois até chegar assim tão perto da sua regra inquebrável o deixava aborrecido, lembrando-lhe que não se reconhecia mais desde que a conhecera. Estava atraído demais por ela, decidiu, mal-humorado. Era arriscado desejar


uma mulher tanto quanto ele a desejava, mas também era excitante encontrar uma mulher que o desafiava, e, apesar de a parte sã da sua mente avisá-lo que mulher nenhuma podia valer aquela quantidade de tempo e de esforço, a excitação do desafio sempre levava a melhor. – Um mês... no seu iate? – Repetiu Kat, tonta, abalada pelo impacto daquela proposta. – Mas não vou dormir com você de jeito nenhum! – Acho você muito atraente e gostaria muito de tê-la na minha cama, mas nunca forcei uma mulher a fazer nada que não quisesse, e não o farei jamais. Só haveria sexo no acordo com


seu consentimento – informou-lhe Mikhail, com voz rouca, seus profundos olhos escuros presos ao rosto admirado dela com satisfação. – Quero sua companhia por um mês, uma mulher que possa ser minha acompanhante quando eu sair, e uma anfitriã quando eu receber pessoas a bordo. Kat não conseguia acreditar em seus ouvidos, não conseguia crer que ele estava lhe oferecendo férias de luxo com um prêmio no final, e não exigisse sexo em troca. Ela sempre supusera que todos os homens queriam sexo de qualquer forma que conseguissem, mas ele parecia estar lhe dizendo que, se


não quisesse dormir com ele, aquilo não seria um impedimento para o acordo. – Por que é que você me faria uma oferta assim? – pressionou ela. – Se eu insistisse em incluir sexo no nosso acerto, seria sórdido – assinalou ele, calmamente, adorando o jeito como ela ainda o desafiava com suas suspeitas, em vez de pular avidamente em cima da proposta generosa. – Não trato mulheres assim. – Eu poderia cumprir o papel de acompanhante, mas não concordaria nunca em dormir com você como parte do acordo – avisou-lhe Kat, trêmula, afogueada, extremamente embaraçada.


– É sério. Não quero que haja nenhum mal-entendido a esse respeito. Mikhail não disse nada, porque não via vantagem em discutir com ela. Mas no final das contas, o mesmo desejo que queimava dentro dele queimava também dentro dela. Kat iria para cama com ele, claro que iria, não seria capaz de conter-se quando estivessem juntos por horas seguidas. Estava absolutamente convencido que, não importava o que ela dissesse, acabaria com suas belíssimas pernas enroscadas na cintura dele, acolhendo-o no seu corpo esbelto. Quando, afinal, alguma mulher dissera “não” a ele? Kat tinha se assustado quando com a primeira


aproximação de Mikhail, só isso, pensou cinicamente, reconhecendo que tinha sido impulsivo e agressivo demais com ela. Kat certamente gostaria que ele flertasse primeiro, e se era isso que precisava fazer para conseguir que ela cedesse, estava disposto, desta vez, a fazer aquele esforço a mais. A investigação que encomendara tinha deixado claro que havia muito tempo que ela não tinha um homem em sua vida. Naturalmente, tinha reservas e inseguranças. Mikhail podia até entender que ela fosse um pouco tímida, mas no final das contas acreditava que ela satisfaria seu impulso intenso de possuí-la. As mulheres,


invariavelmente, ficavam lisonjeadas, e não repelidas, pela força do desejo de um homem. A loira estonteante que escoltara Kat até o escritório de Mikhail também serviu o café, com os brilhantes olhos azuis indo de um para o outro, cheios de curiosidade ao perceber a tensão na sala. Rígida de constrangimento e com o próprio olhar cuidadosamente velado, Kat ergueu a xícara e esforçou-se para tomar um pouco do café quente. Os músculos da sua garganta estavam tão tensos que ela quase não conseguia engolir. Sua inteligência e intuição avisaram-lhe para não demonstrar fraqueza. Ele usaria aquilo contra ela:


era um homem sem escrúpulos. Sem saber disso, algumas semanas antes, ela não havia percebido a extensão do poder e da influência de Mikhail, e captara menos ainda a força da sua vontade inflexível. A rejeição dela claramente tinha sido recebida como um desafio e deixara marcas em seu orgulho. O que mais ela poderia pensar? Por que outro motivo teria ele vindo atrás dela? Bem, a primeira opção era ir embora, aceitando que perder a casa era inevitável, raciocinou Kat febrilmente. Aquilo criaria um impasse que certamente surpreenderia e desapontaria Mikhail, mas no final das


contas não traria nada a Kat. Mas qual era a alternativa? Ela não tinha o menor desejo de brincar de vítima e reclamar da tática de chantagem grosseira dele. Por outro lado, pensou Kat com uma subida brusca de adrenalina, se ela tivesse o bom senso de combater Mikhail no seu próprio campo de batalha e ganhasse, ela teria a casa como prêmio no final de tudo. E não era de uma base segura que ela realmente precisava, particularmente agora, com Emmie grávida e ambas desempregadas? Birkside significava tão mais para Kat do que um monte de tijolos e de cimento. Era em todos os sentidos o único lar que já tivera, o


núcleo da família que criara com as irmãs. Como é que poderiam continuar sendo uma família, se ela não tivesse mais uma casa que as irmãs pudessem visitar em tempos de necessidade? Mikhail estava entrando em um jogo perigoso, refletiu Kat, observando o belo rosto moreno dele, cheia de suspeitas, por baixo dos cílios. Reconhecia que ele era um jogador inteligente e de espírito afiado como uma navalha. Dizia que não esperava sexo como parte do acordo, mas apesar de ser sexualmente inexperiente, Kat não era boba. Tinha lido bastante na internet sobre Mikhail e sobre seu harém sempre renovado, cheio de


mulheres absolutamente disponíveis. Aquele sujeito não tinha relacionamentos: apenas fazia sexo. Mikhail estava acostumado a conquistas fáceis, mulheres que eram seduzidas por sua aparência espetacular, por sua riqueza considerável e por sua personalidade dominante. Sem dúvida, supunha que Kat seria como suas predecessoras, e que, isolada com ele no iate, iria afinal sucumbir a seu inegável carisma sexual. Mas nesse ponto ele se enganava, se enganava muito. Kat, criada por uma mãe que investia em todos os homens ricos que olhassem para ela, tinha construído com afinco suas próprias defesas. Aprendera muito


cedo que os homens, em geral, eram capazes de prometer a lua a uma mulher, se a quisessem mesmo em sua cama. Tantas e tantas vezes Odette fora iludida por essas promessas, apenas para ser traída assim que o homem em questão obtinha a intimidade desejada. Por isso, acreditar em homens nunca fora natural para Kat, ainda virgem aos 35 anos. Kat sempre procurara um compromisso antes de colocar o corpo em jogo. Steven tinha usado as palavras certas, mas não permanecera por perto por tempo suficiente para provar que podia agir de acordo com elas. – Compartilhe seus pensamentos comigo – insistiu Mikhail no silêncio


carregado. Ele era cheio de classe, Kat concedeu com certo divertimento amargo, dando outra olhada em seu rosto. Seu grande erro seria esquecer de que eram basicamente inimigos, ambos determinados a alcançar objetivos opostos. Para um deles vencer, o outro precisava perder, e ela duvidava que Mikhail tivesse muita experiência no papel de perdedor. Levantou o rosto com determinação e disse, calmamente: – Se eu fosse considerar sua proposta, precisaria primeiro de garantias legais. Um ar de surpresa tomou conta de Mikhail por um instante, pois ele não esperava uma resposta fria e racional da parte dela.


– Garantias com relação a quê? – inquiriu ele, absolutamente calmo, e mais uma vez deliciando-se com o fato de que Kat tinha o poder de desconcertá-lo. – Basicamente, uma garantia de que, o que quer que aconteça ou não no seu iate, se eu cumprir o período combinado ao seu lado, conseguirei reaver a casa – propôs Kat. – Claro – assentiu Mikhail, ofendido pela terminologia dela, seu maxilar bem esculpido cerrado com um desdém bem masculino. Ele lhe oferecera um mês de conforto e luxo extraordinários no seu iate, The Hawk, fizera-lhe um convite que muitas mulheres seriam capazes de


matar para receber, e ela falava em “cumprir o período” como se falasse de uma pena de prisão? Pior ainda, estava duvidando da palavra dele. – Mas eu também espero garantias... Kat prendeu a respiração, quase hipnotizada pela intensidade do olhar dele e sentindo o ritmo pesado do seu coração batendo. Sua boca ficou seca, sentiu um frio na barriga e um aperto dos músculos da pelve. – De que tipo? – Que você cumpra o papel de anfitriã e acompanhante como eu indicar – completou Mikhail, com um leve sorriso de satisfação curvando os cantos da boca expressiva. – Não


imaginava que você fosse concordar com isso tão facilmente... – De cavalo dado não se olham os dentes! – rebateu Kat, com o rosto afogueado por causa do papel de mercenária que era forçada a cumprir, não somente para se proteger como também para agarrar a oportunidade de ter seu amado lar de volta. – Você está me oferecendo um mês de trabalho para que eu volte a ser proprietária da minha casa. Sob qualquer ângulo, é uma oportunidade de ouro para mim. Era verdade, mas fazer essa declaração, tão evidentemente motivada pelo interesse, fez com que Kat se encolhesse de vergonha. O que


diabos estava fazendo? Não tinha ensinado as irmãs a colocar os princípios e a consciência à frente do sucesso financeiro? Mas se Mikhail não a tivesse deliberadamente envolvido naquela situação de dependência financeira, nunca teria pensado ou agido daquela forma. Entrar no jogo era apenas uma defesa, nada além disso, pensou, desconfortável. Ele só teria a decepção que merecia por tê-la colocado naquela situação impossível. Mikhail suprimiu a pontada de insatisfação que a sinceridade dela fazia-o sentir. Afinal, ele motivava seus funcionários com bônus, e não achava nada de mais. Por que seria Kat


Marshall diferente de todas as outras mulheres atraídas pela sua riqueza? Ele não a estava comprando, ele não estava pagando pelo tempo dela... Que diabos, ainda nem tinha dormido com ela! Abafando o desconforto que crescia dentro dele, Mikhail escolheu, em vez disso, pensar em tê-la toda para si no The Hawk, e o desejo tomou conta dele novamente, eliminando qualquer outro pensamento ou impressão com uma eficiência espantosa. NAQUELA NOITE, Emmie ouviu, chocada, a irmã mais velha contar por que tinha ido a Londres. Apesar de saber, racionalmente, que Kat era uma mulher


linda, nem Emmie nem as outras irmãs jamais tinham enxergado-a desse jeito, satisfazendo-se com a afirmação de que ela passara da idade de querer um homem em sua vida. Por esse motivo, não conseguia nem começar a imaginar como os supostos encantos de Kat tinham despertado tanto interesse em um bilionário russo, como se Kat fosse uma jovem cheia de predicados. De olhos arregalados, encarou a irmã mais velha. – Você tem certeza que esse cara não confundiu você com Saffy? – Não, ele só mencionou Saffy para perguntar por que ela não ajudou com meus problemas financeiros.


Emmie fez uma careta. – Porque Saffy, nossa linda e perfeita irmã top model, pode ganhar uma fortuna, mas é egoísta demais para pensar que sua própria família pode precisar mais de ajuda do que aquele orfanato africano que ela sustenta. Kat deu uma olhada sentida para a irmã. – Saffy teria ajudado se eu tivesse pedido, mas não achei que isso era responsabilidade dela – disse, sem jeito. Kat não queria admitir que, como a maior parte da dívida fora causada pelo custo da cirurgia de Emmie, tinha relutado em pedir ajuda a Saffy. Emmie teria se sentido terrivelmente culpada, e


Saffy poderia reagir com ressentimento, o que só aumentaria as mágoas entre as irmãs. Emmie continuou encarando Kat. – Então, esse cara faria praticamente qualquer coisa para ter você no iate dele? – perguntou para confirmar, de forma pouco lisonjeira, ainda incrédula quanto à ideia de que algum homem poderia sentir-se atraído a esse ponto pela irmã mais velha. – Isso não a assusta? Kat resistiu a um impulso súbito de confessar que o desejo feroz de Mikhail por sua companhia era certamente o maior estímulo ao ego que já tivera na vida, mas aquela verdade só


recentemente lhe ocorrera. Mesmo assim, era um fato: nenhum homem jamais a quisera tanto, nem mesmo Steve, que tinha fugido assustado na hora em que ela concordara em cuidar das irmãs mais novas. – Também me surpreende – admitiu Kat. – Suspeito que tem muito a ver com o fato de que Mikhail não está acostumado a encontrar mulheres que dizem não. – Mas será que ele vai continuar aceitando o não? – perguntou Emmie, ansiosa. – Se você estiver isolada em um iate com ele, você pode confiar que ele vai se comportar?


Kat sentiu um frio na barriga ao lembrar do calor da boca de Mikhail sobre a sua, e dos cabelos espessos e sedosos entre seus dedos. Sim, Mikhail iria se comportar, contanto que ela também o fizesse: e ela ia se comportar, claro que ia. O beijo no vão da porta a tomara de surpresa. Se ele a tocasse de novo, estaria mais preparada para lidar com aquele impulso de tentação traiçoeiro, que esvaziava sua mente de qualquer pensamento sensato. Afinal, seria muito injusto se ela o encorajasse sem ter nenhuma intenção de ir para cama com ele. – Sim, quanto a isso acredito que posso confiar nele. É orgulhoso demais


para pressionar uma mulher que não o queira. – Mas mesmo assim está pronto a pagar isso tudo somente pelo prazer da sua companhia? – perguntou a mais jovem, sem acreditar. – É como se fosse um trabalho... e um capricho machista estúpido da parte dele – argumentou Kat. – Mas você sabe que se fosse para cama com ele, esse trabalho em particular teria muito em comum com prostituição. Kat empalideceu. – Não vou dormir com ele e já avisei... Emmie sorriu com a admissão direta.


– Alguns homens veriam isso como um desafio. – Se for o caso, é problema dele, não meu – assinalou Kat. – Mas o que é um mês da minha vida se garantir que essa casa seja nossa novamente? – Entendo o que você está tentando dizer – concedeu Emmie, pensativa. – Você vai estar aqui para cuidar de Topsy quando ela voltar da escola na Páscoa? – quis saber Kat. – Claro. Não tenho nenhum outro lugar para ir. – Emmie hesitou. – Apenas prometa que você não vai se encantar com esse sujeito, Kat. – Não sou tão boba assim...


– Você é mole como manteiga, sabe que é – respondeu Emmie, com pena. Mas durante a semana seguinte, quando Kat soube exatamente o que estava incluído na função de acompanhante de um oligarca russo, sentiu-se muito pouco suave. Em primeiro lugar, teve de enfrentar uma visita penosa de um astuto advogado de Londres trazendo um documento de dez páginas, descrito por ele como um “contrato de emprego”, e que descrevia nos mínimos detalhes o que Mikhail esperava dela: que estivesse sempre perfeitamente arrumada, que fosse cortês e estivesse pronta para agradar Mikhail e seus hóspedes no seu papel


de acompanhante ou de anfitriã, pontualidade, uso restrito de álcool e nenhum uso de drogas. Em retorno por cumprir essas expectativas por um mês corrido, Birkside voltaria a lhe pertencer. A referência ao fato de que precisava estar arrumada deixou Kat mortificada, mas, pensando a respeito, não conseguiu lembrar-se da última vez em que fizera as unhas, e quando a assessora de Mikhail ligou para avisar que tinha hora marcada em um salão de beleza de Londres no mesmo dia em que deveria apresentar-se para a nova função, não viu motivo para discutir. Como seu magro guarda-roupas não


tinha a menor condição de atender às necessidades de uma estadia em um iate de luxo, supôs que ele planejava cuidar desse problema também. Seu sexto sentido avisou que Mikhail Kusnirovich deixava muito pouco ao acaso, e perguntou-se o que aconteceria quando ele finalmente avaliasse que ela não fora feita para top model e era, na verdade, bem comum. Afinal, Mikhail parecia ter formado uma imagem dela bem distante da realidade, e claramente imaginava-a mais fascinante e desejável do que era de fato. Quando aquela falsa impressão desaparecesse e ele se desapontasse, será que a mandaria para casa antes do combinado? Não


conseguia imaginar que ele tentaria mantê-la na droga do iate por um mês inteiro. Em sua própria opinião, Mikhail ficaria rapidamente entediado. No mesmo dia em que Kat foi acolhida na estação por um carro que a levou a um salão de beleza bem exclusivo, Mikhail sentia-se bemhumorado. Não conseguia concentrarse no trabalho: sua mente insistia em vagar por caminhos indisciplinados. Imaginava qual dos vários trajes que escolhera pessoalmente para Kat ela usaria naquela noite no jantar com ele. Apenas a lembrança perturbadora de que ele pagara para ter a presença dela, balançando aquela casinha velha na


montanha como uma cenoura para tentá-la, conseguia diminuir sua expectativa e sua satisfação. Aguardava com ansiedade o dia em que ela tentaria agarrar-se a ele como todas as outras mulheres, e ele a mandaria de volta para casa, entediado com o que tinha a oferecer. Mal podia esperar. O dia da sua indiferença chegaria, sempre chegava. No fim das contas ele perceberia que ela não era nada diferente nem mais especial que as outras. Kat surpreendeu-se ao descobrir que gostara da sessão de beleza, embora tivesse ficado meio chocada com algumas das opções de depilação que


lhe tinham sido oferecidas. Depois de ter superado aquele obstáculo, ficou satisfeita com a nova curvatura das suas sobrancelhas e com o lindo rosa pálido das suas unhas feitas com esmero, sem mencionar o brilho sedoso dos seus cachos quando o cabeleireiro acabou de cuidar dele. Não gostou tanto da sessão de maquiagem profissional que transformou seu rosto, mas tolerou-a, reparando que adquirira maçãs do rosto que ela não sabia que possuía, olhos góticos dramáticos e lábios cor de rubi. Achou que parecia um pouco com uma vampira, mas supôs que estivesse na moda, e resistiu à tentação de tirar metade da maquiagem. Provavelmente,


era aquele visual que ele esperava e queria. A limusine deixou-a em um hotel opulento da cidade, onde foi levada direto para uma suíte espaçosa, em cujo quarto havia armários e gavetas já repletos do que parecia ser seu novo guarda-roupa. Piscou, chocada, ao avistar seu reflexo pouco familiar em um espelho, e bateu os cílios falsos para experimentar. Uma vampira, ou até talvez a malvada Cruela Cruel, dos 101 Dálmatas? Disposta a incorporar uma nova persona que parecia bem mais excitante do que ela mesma, escolheu um vestido de renda preta dentro do armário cheio. Estava colocando sapatos


perigosamente altos de solas vermelhas, com a bainha do vestido farfalhando suavemente acima dos joelhos, quando o telefone ao lado da cama soou. – Estou esperando você no saguão – disse Mikhail, com uma impaciência masculina audível, que reforçava a voz profunda dele. – Não recebeu meu recado? – Não... sinto muito! – Murmurou Kat, meio assustada, jogando alguns artigos essenciais em uma bolsinha e correndo para a porta, recordando a cláusula sobre pontualidade. Ele não gostava de ficar esperando. O show, reconheceu, arrepiada, iria finalmente acontecer ao vivo...


CAPÍTULO 5

MIKHAIL VIU Kat sair do elevador. Ela estava espetacular, mas estranhamente mudada, de uma maneira que não o agradara. O olhar atento dele estreitouse enquanto Kat ia em sua direção, e percebeu a maquiagem teatral que escondia o brilho natural de sua pele e que, só agora Mikhail se dava conta, a tornava tão atraente para ele. Suas


sobrancelhas escuras estavam franzidas de insatisfação. Kat não conseguiu nem respirar quando viu Mikhail observando-a do outro lado do saguão: mais de 1,90m de homem, esguio, bem proporcionado, com a cabeça morena arrogante olhando o mundo de cima. Ele estava extremamente bonito, espetacularmente sexy e a intensidade masculina do seu olhar disparou uma faísca de eletricidade de alta voltagem, que desceu direto pelo corpo dela. Engoliu com dificuldade, sentindo a boca seca e a transpiração que umedecia seu lábio superior. Os pelos da nuca se arrepiaram, enquanto um


estremecimento pela proximidade dele percorria sua pele. – O carro está nos esperando lá fora – disse Mikhail, e os quatro homens, que Kat reconheceu porque tinham ido à sua casa, agruparam-se em torno deles, abrindo a porta de saída, verificando a rua antes de andar pela calçada para abrir a porta de trás da limusine que os esperava. – Esses homens são seguranças? – inquiriu Kat, deslizando pelo assento traseiro suntuosamente forrado de couro e esforçando-se para não abrir a boca de admiração pela opulência que a cercava.


– Da... são – confirmou Mikhail. – Por que você está usando tanta maquiagem? A pergunta direta sobressaltou Kat. Ela piscou. – Não fui eu que me maquiei – respondeu. – A maquiadora do salão de beleza é que... – Por que você permitiu? As sobrancelhas desenhadas dela arquearam-se. – Não sabia que tinha escolha. Supus que esse era o padrão que você exigia de todas as suas acompanhantes, indistintamente. Ele fez um muxoxo.


– Você não precisa conformar-se a algum padrão esquisito de identidade feminina para me agradar. Eu não tenho essas preferências. Respeito a sua individualidade e minha expectativa é que você faça suas próprias escolhas sobre esses assuntos. Além disso, gostava de como era antes. – Entendido. – A boca generosa dela curvou-se em um sorriso diante daquela sinceridade. Ele era bem direto, mas ela achou aquilo um alívio, em comparação com os termos educados mas frequentemente desprovidos de verdade que as pessoas costumavam usar. – Então vou tirar os cílios falsos assim que puder. A


sensação é de que estou usando dois mata-moscas nas pálpebras. Inesperadamente, Mikhail caiu na gargalhada, os olhos negros brilhando de aprovação enquanto ele se encostava no canto da limusine, com as pernas longas estiradas em repouso, e avaliou a silhueta esguia dela no vestido preto justo: os seios pequenos e erguidos, a cintura estreita e os joelhos finos e bem formados. Sentiu a excitação subir dentro dele. – Converse comigo – pediu ele, preguiçosamente. – Conte-me por que você assumiu responsabilidade pelas suas meias-irmãs.


É claro que Kat sabia que Mikhail tinha investigado sua vida financeira e que assim descobrira suas dívidas, mas aquela pergunta fez seus olhos verdes soltarem lampejos de desagrado, pois não gostava da ideia de ter abdicado do direito à privacidade. – Tenho certeza de que não está mesmo interessado. – Eu teria perguntado caso não estivesse? – Como é que eu vou saber? – respondeu Kat, petulante, lançando-lhe um olhar de mal disfarçado ressentimento. – É bem simples. Minha mãe não conseguia dar conta das minhas irmãs, e colocou-as sob a tutela


do Estado. Elas estavam muito infelizes quando as visitei, e quis ajudar. Eu era a única pessoa que podia ajudar. – Foi uma ação generosa para uma mulher tão jovem. Você sacrificou sua liberdade. – A liberdade não é sempre essa dádiva que todo mundo gosta de pensar que é. Família é importante para mim, e eu nunca tive essa segurança quando era criança. Queria que minhas irmãs soubessem que me importava com elas – admitiu, com relutância. Os cílios pretos emolduravam o olhar agudo ainda preso nela, os olhos sombrios iluminando-se de apreciação.


– Por que é que você sempre discute comigo? – Você quer mesmo saber? – perguntou Kat. – Da – confirmou Mikhail com voz rouca, embora sua mente estivesse naquela hora a léguas de distância, imaginando aquele corpo gracioso enfeitado de pérolas e nada mais. Não, pérolas não, decidiu ele, rubis ou esmeraldas, para destacar a tez de porcelana. – Você é tão seguro de si e tão arrogante que me irrita – confessou Kat, os sensuais lábios tingidos de vermelho fazendo um biquinho enquanto pronunciava as palavras.


O corpo de Mikhail ficou tenso: queria tanto mordiscar aquele lábio inferior, mas pela primeira vez na vida com uma mulher, hesitava em fazer exatamente o que desejava. Não havia por que mergulhar nela como um homem faminto a quem se oferecia uma última refeição. Podia exercitar o autocontrole, não podia? – Não consigo imaginar por que um homem agindo como homem irritaria você – disse-lhe Mikhail, achando graça, seu ego saudável e exuberante absolutamente intocado pela crítica que ela fez, visto que nunca soubera o que era duvidar que sua opinião fosse a certa, em qualquer circunstância. – A


menos que você prefira fracotes... nesse caso eu nunca poderia esperar agradála. Kat observava-o mesmo sem querer, encantada com o calor que iluminava os olhos negros como a noite e com a ponta de sorriso levantando um canto da boca teimosa dele. Ficou tensa, querendo resistir ao seu potente carisma masculino com todas as suas forças. Sua acompanhante, lembrou a si mesma, decidida, não sua amante nem uma das suas admiradoras. – Você sabe que vai se entediar comigo, não é? – avisou ela. – Como poderia, sendo tão diferente de qualquer outra mulher que já


encontrei? – contrapôs Mikhail com uma segurança indolente. – Nunca sei que coisa estranha você vai dizer em seguida, Katya moya. Como Kat não sabia ter dito nada que pudesse ser considerado estranho para ele, ficou, naturalmente, em silêncio diante dessa afirmação. A limusine entrou em uma rua tranquila e eles saltaram, com Mikhail mantendo sua mão impressionante na cintura estreita dela, para puxá-la para a proteção do seu braço, quando Kat teria preferido manter uma distância maior entre eles. Perturbadoramente consciente da sua proximidade e do perfume familiar da sua colônia, sem


mencionar o peso da mão dele próxima ao seu quadril, Kat precisou lutar contra o desejo de afastar-se, sabendo que isso seria tão bem-vindo para ele como um tapa na cara. Censurou-se severamente: precisava agir de forma mais tolerante e relaxada. Era uma mulher adulta, e não havia necessidade de comportar-se como uma adolescente assustada perto dele. A equipe de segurança conduziu-os até um restaurante pouco iluminado. Foram recebidos na porta pelo proprietário, que curvou-se como se alguém da família real tivesse chegado. Um silêncio súbito tomou conta da sala, e cabeças voltaram-se na direção deles.


Mikhail dirigiu-se ao proprietário em sua própria língua. Foram levados até uma mesa, e os cardápios lhes foram entregues com muitas reverências e mesuras. Sim, era bem como estar em público com um membro da família real, decidiu Kat, com pesar, baixando os olhos para o cardápio, apenas para descobrir que era incompreensível. – Este restaurante é russo? – perguntou. Mikhail concordou, calmo. – Como aqui regularmente. – O cardápio está em russo, não consigo ler – disse ela, irritada, após alguns minutos, porque ele ainda não notara que ela estava com dificuldade.


– Vou escolher para você – anunciou Mikhail em vez de oferecer-se para traduzir para ela. Kat cerrou os dentes de novo, pensando como passaria o mês sem tentar matá-lo pelo menos uma vez. Ele existia em uma pequena bolha de suprema confiança, reinando sobre tudo ao seu redor, despreocupado, abertamente egoísta e teimoso. As necessidades dela, as vontades dela não existiam, do ponto de vista dele. De repente, Kat se perguntou se isso significava que ele seria péssimo de cama, e um rubor quente de desconforto invadiu sua pele clara com esse pensamento tão fora de propósito


da sua parte. Como não tinha intenção de ir para cama com ele, nunca saberia a resposta a essa pergunta, recordou, irritada, a si mesma. – Qual é o problema? – perguntou Mikhail. – Nada... – Kat forçou um sorriso corajoso enquanto ele pedia suas refeições em russo, sem consultar sua preferência ou mesmo dizer o que tinha escolhido. Ela estava aqui para recuperar a casa de família, e podia aceitar ser tratada como um móvel se fosse preciso. Mikhail fez um sinal para Stas e deulhe uma instrução que o sobressaltou, fazendo-o olhar para Kat com surpresa.


O primeiro prato chegou, e era caviar servido com tiras de pão quentinho na manteiga. Kat não gostava de peixe: na verdade, até o cheiro de qualquer coisa que lembrasse peixe embrulhava seu estômago. Mikhail deixou de perceber o quão pouco ela comera, e manteve-se igualmente insensível diante do fato de que ela engolira apenas algumas colheradas da sopa de peixe que seguiu. Stas então aproximou-se dela com um embrulho, que lhe entregou. – A maquiagem... você pode tirar agora – Mikhail informou-lhe com satisfação, enquanto ela olhava dentro do embrulho, sem acreditar,


descobrindo um pacote de lenços umedecidos. Estupefata com o pedido de que ela tirasse a maquiagem ali, em público, Kat desapareceu no banheiro e removeu cuidadosamente os cílios falsos, antes de limpar a sombra de efeito dramático. O esforço deixou suas pálpebras meio irritadas; não que ela imaginasse que aquilo fosse importar para Mikhail, cujo objetivo na vida parecia ser obter exatamente o que queria de quem estivesse à sua volta. Após aquelas duas horas, Kat já estava vacilando, impactada com o desafio de ter de lidar com aquela força da natureza. Procurou na bolsa seus


apetrechos de maquiagem básica, e passou alguma base e um brilho labial, para tirar o aspecto nu do rosto. – Bem melhor – aprovou Mikhail quando ela reapareceu, mais parecida com sua lembrança. Estava muito confortável com a transformação dela e com seu controle da situação, ao contrário dela. – Consigo ver você de novo. Felizmente, um filé gigante e suculento chegou como prato principal para Kat, e ela finalmente pôde satisfazer seu apetite com algo que conseguia comer. A sobremesa era algo feito de queijo e recoberto de mel. Após aquela introdução sem aviso à culinária


nacional do país de Mikhail, beber a vodca especial que ele elogiava ao extremo e finalizar com café pareceu até sem graça. Ele então perguntou-lhe se ela queria ir a uma boate, e Kat sentiu-se uma estraga-prazeres quando disse que o dia fora longo e que estava cansada. Quando saíam do restaurante para a rua escura, uma silhueta sombria avançou sobre ela sem aviso e Kat deu um grito assustado. Na algazarra que se seguiu, homens pareceram pular de todas as direções e ela voltou para a porta, sem fôlego e cheia de susto, o coração batendo forte. Ficou satisfeita de perceber que o homem já tinha sido


imobilizado por Mikhail, de maneira bastante ameaçadora. Stas, o chefe da segurança, estava falando, e ele e Mikhail pareciam estar engajados em algo que parecia uma discussão. A raiva de Mikhail era perceptível em sua voz grave e profunda. Sacudindo o homem apavorado que ainda segurava, como um gato sacudindo um rato, Mikhail soltou-o com uma exclamação de desagrado e voltou-se para buscar Kat. – Você está bem? – perguntou com sua voz grave. – Tomei um susto... só isso – retrucou Kat, trêmula. – Eu avistei algo brilhando na mão dele. Pensei que estava com uma faca –


afirmou Mikhail, conduzindo-a com determinação até a limusine, cuja porta de trás já estava aberta. – Mas era só uma câmera. É só um paparazzo idiota tentando conseguir uma foto! Ainda tremendo pelo choque do incidente, Kat acomodou-se no banco de trás e admirou a forma como sua postura a respeito de Mikhail Kusnirovich virara pelo avesso no espaço de um minuto. Ele podia ter deixado de perguntar o que ela queria jantar, mas tinha, sem nenhuma hesitação, colocado-se na frente de algo que pensara ser uma faca para protegêla. Kat estava atordoada, mas irremediavelmente impressionada que


ele tivesse se colocado em risco por sua causa. – Os seguranças não teriam resolvido o problema? – perguntou, desconcertada. – A tarefa principal deles é sempre proteger-me, não quem está comigo. Era meu dever proteger você, Katya moya – resmungou Mikhail através dos lábios comprimidos, a mão morena cerrada sobre a perna, com o impulso de adrenalina ainda claramente alto. – De qualquer forma, obrigada. – Kat concentrou-se em respirar profunda e lentamente, para acalmar o coração ainda acelerado.


– Você não estava em perigo, era só uma câmera – lembrou-lhe Mikhail, desdenhoso. Mas ele próprio não tinha como saber disso, quando agira instintivamente para garantir que ela não se machucasse, pensou Kat, subitamente mergulhada em seus próprios pensamentos, e envergonhada com a rapidez com que se dispusera a tachar Mikhail de egoísta e arrogante. O acontecido revelou que havia mais profundidade na personalidade daquele bilionário russo do que ela estivera preparada a imaginar. Quando, já no hotel, Mikhail entrou no elevador com ela, a tensão de Kat elevou-se novamente. Pensou porque


ele estaria subindo até a suíte com ela. Encostado em um canto do elevador, ele mantinha os olhos brilhantes fixados nela, luminosos e intensos. Suas pernas ficaram bambas e sua cabeça rodava, o coração descompassado, enquanto ela buscava algo banal para dizer para afastar o perigo presente na atmosfera. – De que signo você é? – ouviu-se dizer, sem que aquilo fizesse nenhum sentido. Mikhail olhou para ela sem expressão. Não, ela não iria conseguir conversar sobre horóscopo com ele, notou, sem graça. – Sou de Leão... eu estava perguntando quando você nasceu –


explicou, na esperança de que ele entendesse que ela não era maluca. Mikhail, espantado pela natureza desconexa da conversa e ainda sem entender o que ela queria dele, disse: – Bem, já faz 30 anos... Em reação àquela informação inesperada, Kat congelou, assustada. – Você está me dizendo que só tem 30 anos? – gemeu. Exasperado, Mikhail, que só pensava em como um beijo não seria exatamente quebrar as regras, visto que era essencial que ela se acostumasse a ser tocada por ele, ergueu as sobrancelhas negras, em dúvida.


– Ya ne poni’ mayu... Não estou entendendo. Qual é o problema? De que estamos falando? Tensa, Kat deixou saiu do elevador, inseriu a chave eletrônica na fechadura da porta da suíte, e entrou na ampla sala de estar, acendendo as luzes. Mikhail seguiu-a, e o cenho franzido endurecia seus traços enquanto ele a examinava. – Kat? – perguntou de novo, impaciente. Kat girou na direção dele e fixou-o com olhos verdes furiosos. – Você é mais jovem que eu... anos mais jovem! – lançou-lhe, furiosa e consternada. – Não acredito que não


percebi isso, que nem considerei essa possibilidade! Impassível diante das emoções que invadiam Kat, Mikhail fitou-a calmamente. – Da... você é um pouco mais velha. E qual é o problema? Com o corpo esbelto estremecendo de indignação, Kat encarou-o de volta, o olhar acusador. – É um grave problema do meu ponto de vista. As mulheres eram estranhas, refletiu Mikhail, embora estivesse absolutamente convencido nesse instante de que ela era mais estranha do que a maioria. Nascera cinco anos


antes dele. Era uma diferença de idade tão irrelevante, na sua opinião, que nem valia a pena comentá-la, mas o olhar de revolta estampado nos estupendos olhos verdes avisava que ela não aceitaria aquilo facilmente. – Não é problema para mim – Mikhail respondeu, seco, os olhos negros revelando seu mau humor, enquanto tentava entender por que ainda a desejava apesar de todas as formas com que ela o desencorajava. Na verdade, quanto mais ela tentava afastar-se, mais rápido ele queria puxála de volta, em uma reação tão instintiva que o perturbava.


Uma mulher mais velha com um homem mais novo, pensava Kat, dolorosamente mortificada. As pessoas sempre achavam aquela combinação ao mesmo tempo engraçada e condenável. Curiosamente, homens mais velhos que se relacionavam com mulheres muito jovens não eram motivo de chacota. Mas saber que Mikhail era cinco anos mais novo do que ela reforçava a convicção de Kat de que não deveria ficar com ele de jeito nenhum. – É errado, incômodo... não é apropriado que você seja mais jovem do que eu – disse Kat aos arrancos. – Li reportagens sobre mulheres chamadas de lobas por envolverem-se com


homens mais novos, e nunca quis um brinquedo, um garoto mais novo para diversão. – Um brinquedo? Você está me chamando de brinquedo? – ecoou Mikhail, incrédulo que ela tivesse ousado utilizar aquele termo ofensivo para referir-se a ele. O sangue que lhe subira ao rosto marcava o desenho das suas maçãs pronunciadas. Aquela era uma das raríssimas ocasiões em sua vida em que ele ficara praticamente mudo de choque, complementado com um surto daquela raiva volátil que ele quase nunca deixava transparecer. – Retire... esse termo – instruiu-a asperamente. –


É um insulto que nenhum homem toleraria! O calor ardente dos olhos escuros fuzilando-a com indignação encontrou o olhar desafiador de Kat. Ela estava muito quieta, porque embora ele não tivesse erguido a voz, ela nunca vira tanta fúria em ninguém: desprendia-se dele como uma chuva de faíscas no escuro, afetando-a como uma onda ameaçadora que encurtava sua respiração e apertava sua garganta. – Você é anos mais novo do que eu – respondeu Kat, defendendo-se, veemente, sentida com a descoberta, e sem entender por que aquilo importava tanto para ela. – Não está certo...


– Retire o que disse – bufou Mikhail, furioso. – É inaceitável que você diga isso de mim. Kat engoliu com dificuldade. Seus joelhos tremiam. Ele realmente conseguia ser absolutamente intimidante. – Certo, retiro – murmurou, de má vontade. – Não pretendia insultá-lo, mas estava chocada. – Eu nunca seria o brinquedo de uma mulher – disse Mikhail com rancor. Era um termo realmente ridículo para um homem de mais de 1,90m, exalando agressividade, concedeu Kat, entorpecida, enquanto despencava no sofá, exausta da tensão.


Assentiu de leve, ainda atordoada pelas emoções inexplicáveis que haviam irrompido dentro dela. – Melhor assim, porque eu não daria uma loba muito boa – confessou, em um tom dolorido. – Por que não? – quis saber Mikhail, sua própria tensão se esvaindo enquanto a observava. Ela parecia exaurida, a cabeça ruiva pendendo do pescoço como uma flor de haste quebrada, como se o esforço de mantêla erguida fosse excessivo. Um sentimento de culpa invadiu-o, pois quase perdera o controle com ela e sabia que a podia ser assustador. Recordava os violentos acessos de fúria do pai bem demais para querer ser


daquele jeito. De fato, o bastião principal da sua personalidade era o autocontrole de todos os humores, em qualquer situação. Kat estava abalada. Não conseguia lembrar de jamais ter estado em um turbilhão desses antes, ou de não entender seus próprios sentimentos desse jeito. Ele só tinha 30 anos e Kat tinha 35, velha demais para ele. Na verdade, até o fato de sentir-se atraída por ele era inadequado, pensou, desolada. – Por que não? – perguntou Mikhail novamente, curioso em entender o que mexia com ela de uma forma como


nunca tinha estado curioso sobre uma mulher antes. – Lobas são mulheres experientes... eu não sou – admitiu Kat com pesar, convencida que era uma aberração para os tempos atuais. Pensou, aflita, que não poderia ter sido diferente. A mãe tinha feito as irmãs passarem por tanta coisa com seu desfile incessante de homens, e Kat sabia que, para o bemestar das meninas, precisava levar uma vida bem diferente da de Odette. Infelizmente, há dez anos, ela não tinha se dado conta de que aquilo significava ficar solteira, porque naquela época ainda imaginava vagamente que em algum momento fosse encontrar um


homem adequado e ter um relacionamento sério. Mas não acontecera; a oportunidade nunca se apresentara. As sobrancelhas definidas dele uniram-se. – Não entendo. Kat soltou uma risada dolorosa, que ressoou pelo quarto silencioso, e ergueu os olhos sarcásticos para dizer: – Sou virgem. Que tal isso como esquisitice? No momento que se seguiu a essa admissão, seria difícil dizer qual dos dois estava mais chocado: Kat, por ter contado a ele algo que nunca contara a nenhuma outra pessoa, ou Mikhail, que


nĂŁo teria ficado mais admirado se ela tivesse confessado que era uma assassina em sĂŠrie. Esse tipo de inexperiĂŞncia sexual estava bem distante do que ele conhecia, e mais longe ainda da sua zona de conforto.


CAPÍTULO 6

NO DIA seguinte, acomodada no luxo espetacular do jatinho de Mikhail em um voo para o Chipre, onde iriam embarcar no iate The Hawk, Kat fingia ler uma revista. Até então, Mikhail não havia exigido muito em termos de companhia. Tinha trabalhado diligentemente desde que embarcaram no meio da manhã. Se não estava ao celular, estava grudado à tela


do laptop ou dando ordens e instruções ao assistente que havia embarcado com eles. Kat se sentia aliviada com o distanciamento de Mikhail, ainda envergonhada com o próprio comportamento na noite anterior. Como pôde perder a cabeça daquele modo? Por que diabos tinha confessado que era virgem? Aquilo não dizia respeito a ele e era uma informação totalmente desnecessária para um homem com quem ela não tinha planos de se tornar íntima. Kat poderia viver até os 100 anos sem esquecer a expressão chocada que Mikhail havia feito ao ouvir sua admissão desajeitada. Horrorizada por ter se humilhado a esse


ponto, Kat havia, simplesmente, fugido em seguida, balbuciando boa noite e se refugiando em seu quarto. Virgem? Mikhail ainda estava atônito com aquela informação surpreendente. Mas isso explicava muito sobre Kat, ele admitiu de má vontade; dava sentido às coisas que não havia entendido. Não era de surpreender que ela tivesse sido tão irascível e reagido de forma tão veemente à abordagem na casa dela, e nem era surpreendente que ela sentisse necessidade de insistir que não dormiria com ele! Mas ainda assim, Mikhail estava desconcertado que uma mulher bonita e sensual, com tanto espírito, pudesse ter negado a si mesma


o prazer físico por tantos anos. Sua suspeita de que ela estava fazendo um joguinho com ele, como tantas de suas predecessoras, usando o seu desejo por ela como a moeda de troca, morreu naquele momento. Além disso, longe de estar amedrontado pelo que ela havia lhe contado, ele a queria mais do que nunca. Seria porque ela nunca estivera com outro homem? A novidade da situação? Mais uma pergunta que Mikhail não sabia responder. Ele a observou em segredo, absorvendo a delicadeza tensa do seu perfil contra seus ricos cachos avermelhados, e suas longas e delgadas pernas cruzadas com um toque de constrangimento que não


podia ser negado. Embora Mikhail soubesse que ela não estava nem um pouco feliz de estar em seu jatinho a caminho do iate, a fome, impregnada com satisfação, rugiu feito um tornado dentro do peito de Mikhail. Naquele instante, ela estava ali e era dele. Empurrando seu laptop para o lado, dispensou seu assistente, que rondava seu cotovelo, para fazer sua aposta. Kat deu uma olhadela disfarçada para Mikhail, rendendo-se à fascinação secreta que literalmente a consumia na presença dele e repuxava cada uma de suas terminações nervosas. Ela detectou a preocupação dele, perguntou-se se estava pensando nela e odiou a si


mesma por isso. Ela não queria sua atenção, nunca havia desejado seu interesse, pensou cheia de convicção. Mas como essa certeza se encaixava com a satisfação traiçoeira de saber que ele a achava tão atraente? Havia alguma coisa dentro dela que exultava com o desejo dele. E com seu próprio desejo. Era algo que Kat não sabia como tirar de seu peito, algo que a amedrontava porque parecia estar fora de seu controle. – Você gostaria de uma bebida? – perguntou Mikhail suavemente. – Água, por favor, só água... – respondeu Kat, com a boca ficando seca ao colidir com olhos negros reluzentes,


aumentados por cílios incríveis. Álcool não seria uma boa ideia quando precisava manter-se alerta. Ele tinha os olhos mais deslumbrantes e essa observação fez um tom rosado se espalhar no rosto dela. Mikhail apertou a campainha e o atendente apareceu para servi-los. Indócil como um gato selvagem, levantou-se e a observou dando goles quase desesperados na água, o copo tremendo quase imperceptivelmente em sua mão delicada. Ela poderia lutar contra seus sentimentos o quanto quisesse, pensou com sombrio triunfo, mas estava tão consciente da presença de Mikhail quanto ele estava da


presença dela. Ele tirou o copo da mão dela com um gesto decidido e depois, fechando a sua mão grande sobre a dela, a ajudou a ficar em pé. Kat ergueu os olhos para o rosto magro e forte de Mikhail, e seus olhos brilhavam. – O que foi? – ofegou Kat, os nervos quase descontrolados enquanto suportava a carga de seu olhar, sentindo-se diminuída sob a altura e a largura dele, pelo absoluto poder de sua estrutura alta e bem construída. – Eu vou beijá-la – murmurou Mikhail com a voz rouca, sua fala arrastada ficando áspera. Completamente despreparada para aquela abordagem, Kat piscou.


– Mas... – Não preciso de permissão para um beijo – debochou Mikhail. – Só para levá-la para a cama. E isso me dá uma boa margem de manobra, Katya moya. Kat estava muitíssimo balançada por aquela interpretação catastrófica do acordo entre eles. Ela havia presumido que se Mikhail aceitasse que não dormiriam juntos, sequer tentaria tocála. Para que ele perderia tempo e energia com preliminares quando o evento principal não iria acontecer de forma nenhuma? Ela foi atingida pela compreensão de que ele estava distorcendo as regras e que ela devia ter


percebido o quanto Mikhail poderia ser desonesto. – Mas eu não quero isso – afirmou Kat, febril, seu corpo delgado agora aprisionado nos braços dele. – Permita-me mostrar o que você deseja – disse ele com frieza, seus dedos longos se fechando nos cachos avermelhados para puxar a cabeça dela para trás. E então Mikhail a beijou com uma intensidade destruidora, seus lábios famintos exigindo cada centímetro de sua boca, a língua se enrolando sensualmente na dela e apunhalando fundo o suficiente para enviar cascatas de fogo líquido a cada canto do corpo


de Kat. Ela já tinha sido beijada, mas nunca experimentara nada parecido com aquilo, nada tinha chegado perto daquele ataque explosivo. Aquele beijo foi incrivelmente erótico e de natureza sexual. Simples assim. De repente, seu sutiã parecia pequeno e apertado demais para conter seus seios, que pareciam ficar mais e mais sensíveis. Seus mamilos estavam quase dolorosamente endurecidos e partes de seu corpo que Kat nem se lembrava que existiam formigavam. A carne macia entre suas pernas parecia quente e úmida e insuportavelmente sensível. Uma grande mão espalmada contra seu traseiro puxou-a mais para perto,


seus seios esmagados pela muralha do peito dele. Ela também podia sentir o nítido relevo do desejo dele contra ela. Uma vertigem pouco familiar a tomou, o calor pulsando no seu âmago feminino. Era como se as pernas dela não pudessem mais suportar seu peso. Com seus cabelos negros desgrenhados pelas mãos de Kat, Mikhail ergueu seu rosto moreno para encará-la. – Entendeu agora? – murmurou, ávido, reprimindo o desejo esmagador que sentia, com autodisciplina feroz, determinado a não destruir o momento. – Não há nada a temer.


Ofegante, Kat cambaleou para longe dele, destroçada pelo efeito dos lábios de Mikhail, pelo clamor insensato de um corpo subitamente desligado da fonte de energia e excitação que ele a havia ensinado a desejar. Nada que eu precise temer? Ele estava brincando? Cada alarme natural que Kat possuía estava gritando pânico no volume máximo. Predador puro sangue, Mikhail estava brincando com ela como um gato brinca com um rato, com suprema confiança nos seus próprios poderes de sedução. E por que ele não deveria se sentir assim? Kat só poderia culpar a si mesma. Confessar a um homem como Mikhail que era virgem


havia sido como desenrolar o tapete vermelho em boas vindas ao inimigo. Permita-me mostrar o que você deseja. Como ele se atreveu a tanto? Como se ela não soubesse o que queria, como se estivesse tão confusa que precisasse de um homem para lhe mostrar alguma coisa! Kat já sabia que ele a atraía, mas não estava preparada para lidar com a situação. Era sua escolha, sua decisão! Tremendo de raiva e frustração, afundou-se de volta no sofá e se recusou a olhar para ele. Mikhail usaria a sua fraqueza contra ela sem pestanejar, mas ela era mais forte do que isso, muito mais forte. Seus dentes travados, ela evitou deixar


escapar as palavras defensivas que só revelariam o quão sacudida havia ficado. Com um beijo ardente, ele havia puxado o tapete de debaixo dela. Mikhail degustou sua vodca, levemente despreocupado com o silêncio furioso emanando de sua acompanhante. Ele já esperava esse tipo de reação. Ela era uma mulher geniosa, independente, acostumada demais a ter as coisas do seu jeito. Ele não iria se retirar como um menininho que levou um pequeno tapa nas mãos, e era melhor que ela soubesse como o jogo funcionava logo de começo. Ele tinha passado muito tempo pisando em ovos


perto dela. Já era hora de mostrar como realmente era com mulheres. Após o pouso, eles se transferiram para um helicóptero. O barulho das lâminas do rotor tornava qualquer conversa impossível. Quando pousaram no heliporto na proa do gigantesco iate, Kat tinha os olhos arregalados de assombro. O The Hawk era muito maior do que ela havia esperado, e infinitamente mais elegante, com diferentes conveses distribuídos em elegantes camadas emolduradas por balaustradas de metal brilhante. – Eu não esperava nada assim – confessou, enquanto Mikhail a guiava para fora da área de pouso com a


autoritária mão plantada em suas costas. Um sorriso cortou sua larga e inquieta boca e ele disse o comprimento do iate e a velocidade que alcançava. Kat ouviu graciosamente a história da embarcação. Apesar de ter muito pouco interesse nessas coisas, tinha boas memórias de seu falecido pai, igualmente entusiasmado, contando detalhes desnecessários sobre um cortador de grama. Essa comparação quase a fez sorrir, pois sabia que Mikhail iria esquartejá-la e pendurá-la se soubesse que Kat tinha comparado seu precioso iate a uma peça de maquinário para jardinagem.


O capitão saudou Mikhail, apresentações foram feitas e, então, enquanto eles conversavam, Kat apoiou-se à balaustrada para sentir a brisa soprando seus cabelos e apreciar a água turquesa do Mediterrâneo. Uma assistente de bordo uniformizada aproximou-se, apresentou-se como Marta e a levou até a sua cabine, cuja opulência deixou Kat atônita. A cama era enorme e portas duplas se abriam para um inacreditável banheiro de mármore, um toucador e um armário. Um atendente chegou com a bagagem de Kat e Marta começou a desfazê-la. – Quando os outros convidados chegam? – perguntou Kat.


– Em uma hora mais ou menos, srta. Marshall – respondeu Marta. Aliviada pela informação de que ela e Mikhail não iriam ser deixados sozinhos por um dia sequer, Kat decidiu se trocar para ter certeza de que estaria pronta para seus deveres de anfitriã. Escolhendo um vestido esvoaçante cor de caramelo, simples mas elegante, ela se refrescou, reaparecendo no momento exato em que uma porta se abriu, do outro lado do quarto, e Mikhail entrou em passos largos. – Você está vestida de forma... excelente – aprovou ele. Através da porta que ele havia deixado aberta atrás de si, Kat podia ver


outro quarto, que supôs ser dele. – Há uma porta de ligação entre a sua cabine e a minha? Ele sorriu. – Você esperava que eu mandasse emparedar a porta só para sua conveniência? – Claro que não, mas saiba que manterei minha porta trancada... – Eu tenho uma chave mestra para todos os compartimentos a bordo... Mas preservo a minha intimidade, assim como você preserva a sua – disse Mikhail para, em seguida, avaliá-la com desejo nos olhos. – Essa cor cai bem em você, eu sabia que cairia.


– Você escolheu as minhas roupas... pessoalmente? – Por que não? Eu venho comprando roupas para as minhas mulheres desde que eu tinha 18 anos – disse Mikhail. – Eu não sou sua mulher – disse Kat, irritada e ressentida. – Então o que você é? – Sua anfitriã... sua acompanhante – enumerou Kat. Um sorriso divertido se instalou no rosto de Mikhail. Seus olhos espetaculares brilhavam como diamantes negros sob o sol, e a atração que Kat já conhecia voltou a rondá-la. Com muita dificuldade, ela desviou o olhar, lutando para controlar seus


batimentos cardíacos e a excitação vertiginosa que a invadia. – Eu não sou sua mulher – repetiu Kat com teimosia. – Mas nunca duvide de que este é meu objetivo, Katya moya – disse Mikhail com a voz macia, no instante em que uma batida soou na porta. Era Lara, a secretária do escritório em Londres. Seus olhos azuis brilhantes quicaram entre o seu patrão e Kat antes que ela estendesse uma pasta para Mikhail que, por sua vez, a entregou para Kat. – Os perfis dos convidados – explicou ele. Oh, meu Deus.


– Obrigada. Eu vou estudá-los. Assentindo, Mikhail voltou para o quarto dele e Kat para o dela. Depois, ela se instalou em um sofá e começou a ler. Eram vinte convidados, mais do que ela esperava. Muitos empresários com suas parceiras e filhos adultos, um empresário famoso e sua namorada, atriz. Alguns dos nomes eram familiares, a maioria não. Entretanto, os perfis a acalmaram: ela estava ali para cumprir uma função, e tinha a intenção de cumpri-la da melhor maneira possível, dentro de suas habilidades. Memorizou as informações úteis, pois sabia que precisaria delas.


Uma hora depois, Lara reapareceu para conduzi-la ao andar de cima para recepcionar os convidados, que estavam chegando de helicóptero. Lara vestia agora um vestido prateado muito curto, e Kat se sentiu mal. Disse a si mesma que Mikhail gostava de sua roupa, mas em seguida, aquilo a irritou. Afinal, ela não era a mulher dele, não pertencia a ele de modo algum e não mudaria de opinião. O salão de recepção do iate era um espaço enorme, cheio de luz, decorado com quadros e arranjos de mesa espetaculares. Com Lara em seu encalço, Kat conversou com uma loura bem conservada em um vestido sensato.


Mas uma olhadela pelos grupos reunidos revelou que todas as convidadas mais jovens estavam em roupas de festa, mostrando pernas, decotes e joias reluzentes. Um leve silêncio caiu sobre as conversas e os pelos da nuca de Kat se arrepiaram, um aviso do seu sexto sentido. Ela virou a cabeça para ver Mikhail aproximandose, vestindo uma calça de algodão sob medida e uma camisa aberta. O impacto causado por seu tamanho, cabelos negros e pele dourada, era inegável, e Kat sentiu o coração afundar. Ela viu as mulheres presentes voltando os olhos para ele como se Mikhail fosse um prato delicioso em um


banquete, e se adiantando na direção dele, até que estivesse literalmente rodeado. – As mulheres sempre agem desse modo em volta do chefe. Você vai se acostumar com isso – murmurou Lara no ouvido de Kat num tom adocicado de sacarina e comiseração. – Isso não me incomoda – disse Kat, sem aceitar a provocação. Mikhail era bonito de tirar o fôlego e sexy de uma maneira que ela nunca tinha visto em um homem antes. Mas Kat ficaria firme, porque não tinha intenção de se envolver em um caso superficial com um homem que estava interessado apenas em seu corpo. Seu único


objetivo era recuperar a sua casa. E ela iria atingir esse objetivo, disse para si mesma. – A maioria das mulheres aguenta muita coisa para continuar na vida dele. – Eu estou bem satisfeita – respondeu Kat evasivamente, desconfortável com aquela conversa pessoal demais, sem saber se os funcionários dele sabiam que ela era apenas uma contratada, uma mulher ali para fazer seu trabalho. – Aquele ali é Lorne Arnold – sussurrou Lara, percebendo que sua curiosidade não era bem-vinda. – Eu lhe daria atenção especial. Ele parece entediado.


Kat assentiu, lembrando-se dos detalhes que tinha aprendido sobre ele. Lorne Arnold. Aos 33 anos, era um muito bem-sucedido construtor imobiliário em Londres e no momento estava envolvido em um projeto de alto nível com Mikhail. Ele era um homem atraente, louro, e sua namorada, uma analista financeira respeitada, não estava em lugar algum do qual pudesse ser vista. Possivelmente tinha decidido se trocar antes de se juntar a eles, Kat deduziu, caminhando na direção do convidado enquanto gesticulava para um garçom, encorajando-o a servir Lorne.


O olhar atento de Mikhail varreu o salão e estancou quando finalmente localizou seu alvo. Kat estava conversando animada com Lorne Arnold. Ele observou com crescente incredulidade quando Lorne colocou a mão sobre o braço de Kat para chamar a atenção dela para um quadro na parede e a guiou até lá. Que diabos Lorne achava que estava fazendo, flertando assim com Kat? E por que ela o encorajava? Kat ainda tratava Mikhail como se fosse uma rainha tentando repelir um plebeu atrevido e isso o afrontava. A única vez em que ele ficou feliz com a sua reação a ele foi quando ela estava nos seus braços, suas


barreiras demolidas, rasgadas pela paixão que ela não podia reprimir. – Ty v poryadka... tudo bem com você? – murmurou Stas ao lado dele. Mikhail estava pálido de fúria e não confiava em si mesmo para responder. Kat estava envolvida em uma conversa animada com Lorne, que agora tinha a mão enganchada na cintura de Kat, e a visão dessa intimidade foi tão ofensiva que Mikhail poderia ter separado o casal aos solavancos e jogado o seu parceiro de negócios no mar. Kat era dele. Ela é minha, gritava cada fibra do corpo musculoso de Mikhail. Dane-se a arte, pensou ele, amargamente, abrindo caminho através da aglomeração em


sua volta. Esse devia ser o denominador comum que havia quebrado as barreiras entre Kat e Lorne, pois Lorne estava envolvido com o Conselho de Artes e ela era formada em belas-artes. A vasta e muito admirada coleção de arte de Mikhail era apenas um investimento. Ele envolveu o quadril de Kat por trås, puxando-a de encontro ao seu corpo. Desconcertada por ser tocada sem aviso, mesmo que soubesse imediatamente quem era, Kat congelou enquanto Mikhail murmurava seu nome e cumprimentava Lorne Arnold. Suas bochechas ficaram quentes e rosadas enquanto o outro homem, constrangido, era incapaz de esconder


sua surpresa com aquele gesto revelador de Mikhail. Dedos magros e longos se emaranharam nos cachos avermelhados de Kat, jogando-os para trás, e lábios másculos beijaram a pele alva de seu pescoço, deixando-a completamente arrepiada. A respiração dela ficou ofegante, e seus seios, doloridos. Apesar de toda exasperação que rugia dentro dela, Kat foi se inclinando contra Mikhail, úmida, zonza, quase paralisada. – Queira nos desculpar – rosnou Mikhail, como predador que era, segurando o braço de Kat como uma peça de espólio de que houvesse se apoderado e conduzindo-a pelo salão


ao mesmo tempo em que não permitia que nenhum dos seus solícitos convidados o interceptasse. Stas abriu a porta com presteza e Kat percebeu um lampejo de diversão nos olhos do velho homem, mesmo que sua expressão fosse educadamente impassível. Aquele lampejo a fez perder ainda mais a calma e essa foi a única razão pela qual não reclamou do comportamento dominador de Mikhail. Não queria discutir com ele na frente de uma plateia interessada. Ao chegarem ao escritório dele, Kat quase nem parou para respirar antes de se virar para confrontá-lo.


– Como você se atreve a me tocar desse modo em público? – metralhou ela, em ataque. Mikhail se surpreendeu, e as suas feições morenas e bonitas se endureceram ainda mais. – Você não deveria ter ficado flertando com Lorne, incentivando-o a tomar liberdades. – Eu não estava flertando com ele! Nós só estávamos conversando. – Nyet... não, você estava flertando feito uma louca, batendo as pestanas, dando sorrisinhos! – reprovou Mikhail. Reconhecendo tardiamente que ele falava realmente sério, Kat apertou os lábios.


– Nós estávamos num salão, cercados de gente. – Eu vi na expressão dele, que até tocá-la, ele nem sequer havia percebido quem era você! Ele jamais teria encostado um dedo em você se ele soubesse que estava aqui comigo. Você devia ter ficado ao meu lado. – Grudada em você feito cola, para você não sentir necessidade de marcar seu território feito um lobo? Eu nunca senti tanta vergonha na minha vida. – Não seja exagerada! Eu apenas a beijei no pescoço! – Por que eu teria flertado com ele? Lorne tem namorada e eu esperava a chegada dela a qualquer momento.


– Ele me disse, quando chegou, que terminaram há semanas. Ele está procurando por uma substituta e está de olho em você. Recusando-se a ser intimidada, Kat jogou os cachos avermelhados para trás e suspirou. – E daí? Eu sorri para ele. Estava sendo simpática. Eu não sou de dar risadinhas... eu nunca, jamais dou risadinhas. E por que você acha que não gostou? Porque eu não sorrio nem dou risadas com você? Pergunte-se se você, alguma vez, fez ou disse qualquer coisa que pudesse encorajar uma reação dessas.


Furioso com a acusação, Mikhail trincou os dentes perfeitamente brancos e quase rosnou. Fez menção de ir na direção dela e Kat recuou. – Você é mesmo um homem das cavernas. E não vai me tocar com esse mau humor. – Eu não a machucaria. Jamais. E percebendo o ar de reprovação nos olhos deslumbrantes dele, Kat acreditou. Mas Mikhail nunca seria um gatinho doméstico. Ele era cem por cento um macho primata cheio de agressividade. – Eu sei, mas lamentavelmente para nós dois, aquele acordo legal não cobriu o suficiente.


– Kat...? – Mikhail começou sombrio, exasperado com a mudança de assunto. – Não, por favor, me deixe falar ao menos uma vez. Você quer de mim uma coisa que não posso oferecer e agora está me julgando injustamente. Eu não flertaria com um dos seus convidados. Eu não sou esse tipo de mulher e nem sei se depois de tanto tempo eu sequer saberia mais como flertar. – Você sabe sim. Lorne não conseguia tirar os olhos de você. – Mas eu estava apenas tentando fazer com que ele se sentisse bemvindo. Não tinha nenhum subtexto, nenhuma outra intenção. Eu também


não faria nada para envergonhá-lo, mas você precisa prestar mais atenção aos limites daquele acordo. – Em qual sentido? – incitou Mikhail, impressionado em perceber que Kat tinha encontrado uma forma de acalmar a fúria dele, de alguma maneira cortando toda a irritação para fazê-lo pensar claramente de novo. Mikhail se moveu uma distância milimétrica para mais perto e os olhos verdes de Kat se arregalaram. Olhos bonitos, mas não eram de gazela. Os olhos de Kat estavam bem abertos, atentos e desconfiados. Ele ergueu uma de suas mãos e acariciou o rosto dela.


– Em qual sentido eu devo ser mais atencioso? Kat piscou. Sua pele reagiu de novo ao toque dele, seu corpo como que se preparando para recebê-lo. – Atencioso? – perguntou Kat incerta. – Você disse que eu precisava prestar atenção aos limites do nosso acordo legal – relembrou Mikhail, seus olhos de cílios negros tornando-se de um dourado hipnotizante ao encontraremse com os dela. Feito uma boneca com bateria nova, o cérebro de Kat se ligou de novo. – Sim, sim, o acordo. Eu acho que você precisa ser lembrado de que não é


meu dono. Eu não pertenço a você, de maneira alguma. – Você também não pertence a ninguém mais – esclareceu ele com frieza mortal. – Você está disponível. – Não, eu não estou não! Não estou interessada em um relacionamento com ninguém. – Só comigo – disse Mikhail, teimoso. Meu Deus, que homem impossível. Kat estava zonza com aqueles olhos. Sua boca estava ficando seca, seu cérebro transbordando, sensações físicas a inundavam, arrasando com qualquer pensamento lógico. – Você me quer – disse Mikhail, com uma voz rouca que a fazia estremecer.


Com um movimento gentil, ele envolveu seu rosto com seus dedos longos e firmes e a beijou. Foi como uma droga extremamente intoxicante, uma injeção de adrenalina direto no coração. Há um minuto ela estava pensando não, isso não pode acontecer, eu preciso parar com isso aqui e agora, e no minuto seguinte a pressão faminta e contínua daquela boca larga e sensual era do que Kat mais queria e precisava no mundo. Com um rosnado abafado, Mikhail a tomou em seus braços e afundou no sofá presa junto ao seu corpo. Por uma fração de segundo ele examinou o rosto rosado e adorável de Kat, a expressão


confusa nos seus olhos agora vazios de provocações e censuras, e eles dominaram cada instinto básico e primário de macho no seu corpo. Ele a desejava mais do que já havia desejado qualquer mulher. Mikhail a desejava embaixo dele, sobre ele, em todas as posições possíveis. Ele queria que ela aceitasse que era dele. Queria vê-la feliz por ser dele de novo e de novo e de novo. Amortecendo sua fome de possuí-la, puxou-a ainda mais para si e envolveu os lábios dela com os seus, invadindo cada centímetro possível, reclamando seu território, divertindo-se com a doçura de suas reações e com os


pequenos gemidos que Kat não conseguia reprimir. – Ti takaya krasivaya... Você é tão bonita. Ti svodishme nya suma... – Você me deixa louco. – Ele não traduziu essa admissão final. Enquanto se curvava sobre ela, a ponta dos dedos de Kat acariciavam seu cabelo negro e espesso, ao mesmo tempo em que se perguntava o que é que estava fazendo. Mas, estranhamente, ela se sentia extraordinariamente segura e em paz naqueles braços fortes. Definitivamente havia algo a se dizer sobre um homem grande e forte o suficiente para erguê-la do chão.


– O que é que eu estou fazendo? – Ela franziu o rosto subitamente. – Pela primeira vez? Exatamente o que você quer – disse Mikhail rouco, e a beijou novamente com todo o fervor esfomeado de seu temperamento de alta voltagem. Com uma das mãos ele empurrava os joelhos dela para que se separassem e o som de um pequeno engasgo de surpresa escapou de sua garganta. – Eu não vou fazer nada que você não queira que eu faça. Juro. – Mikhail estava determinado a mantê-la onde ela estava, no seu colo e ao alcance da intimidade com a qual, até então, ele só tinha podido sonhar.


A tensão começou a desaparecer do rosto e dos ombros de Kat e Mikhail mordiscou tentadoramente seu lábio inferior carnudo antes de mergulhar a língua profundamente de novo em sua boca. O gosto dele a embriagava como vinho e outra onda de excitação a atingiu, endurecendo seus mamilos e tornando dolorosamente sensível outra parte de seu corpo. Mikhail ergueu a bainha da saia dela, e ela se contorceu, ouvindo os sons tranquilizadores que ele fazia, com uma ternura que Kat jamais imaginou que ele tivesse. As mãos de Mikhail acariciaram a parte interior de suas coxas, tentadoramente perto da fonte de calor e umidade. Ela


nunca havia desejado tanto ser tocada. A necessidade por mais e mais cobria cada centímetro de sua pele, como nada que ela já houvesse imaginado, e essa necessidade era tão forte que Kat conscientemente parou de lutar contra ela. A curiosidade havia despertado junto com o desejo. Mikhail esfregou um dedo sobre o tecido de sua calcinha. O calor a rasgava por dentro e seus quadris se projetavam, ao mesmo tempo em que ela entreabriu as pernas sem perceber o que fazia. – Isso, continue... que seja – murmurou Kat, trêmula, por entre dentes cerrados sem realmente saber o


que Mikhail estava planejando fazer e sem se preocupar com isso. Se ele pudesse satisfazer aquela ânsia pulsando desesperadamente dentro dela, seria o suficiente. Mikhail quase riu daquele pedido, mas alguma coisa ardia em seus olhos escuros e sombrios. Ele não sabia o que Kat tinha, mas ela tocava em partes dele que ninguém havia tocado. E agora ela precisava dele. Mikhail beijou a boca tentadora de Kat e arrancou a surpreendentemente resistente barreira de sua calcinha, fazendo-a escorregar por aquelas pernas longas e macias. Em um momento, Kat estava mortalmente consciente do quão úmida


se sentia e, no seguinte, a ponta delicada de um dedo traçava a mínima entrada de seu corpo e ela estremecia de desejo, algo novo e inesperado em sua vida. Não havia pensamentos em sua mente, não havia espaço para isso, a excitação havia expulsado todo o resto. Mikhail a acariciou onde ela sentia mais prazer e foi como se um choque a atravessasse, suas costas se arqueando, cada músculo se enrijecendo. Ele a acariciou, formando círculos delicados, e Kat foi tomada por arrepios cada vez mais intensos. O calor em sua pélvis e a extrema sensibilidade eram quase insuportáveis. A boca de Mikhail cobria a dela o tempo todo e Kat ofegou


quando ele introduziu um dedo dentro dela, respondendo a um desejo que sequer sabia que tinha até ele lhe mostrar. Ela se contorceu. Pulsações fortes e torturantes de sensações eróticas se juntavam em sua carne úmida e ela não conseguia mais suportar, não conseguia dizer a ele que ela precisava de mais e mais rápido. Quase como se Mikhail estivesse tão sintonizado com as suas necessidades quanto ela, ele a acariciou mais intensamente e com mais vigor. – Venha querida, laskovaya moya – disse Mikhail, e Kat não era capaz de discernir, pela rouquidão da voz dele,


se aquilo era um pedido ou uma ordem. Nada do que aconteceu em seguida foi escolha dela, pois seu corpo havia tomado as rédeas. Foi como se uma luz explodisse dentro dela, empurrando-a para o alto e tomando cada milímetro de seu corpo, enquanto ondas e ondas de prazer intenso a cobriam de novo e de novo. Mas Kat não flutuou de volta ao planeta, ela despencou com um estrondo ressonante quando o pensamento lógico voltou e ela entendeu exatamente o que havia permitido que Mikhail fizesse com ela. Ela queria gritar e bater em si mesma,


perguntando-se se não teria alguma espécie de problema de dupla personalidade, dizendo a ele em um momento que se afastasse para, no seguinte, entregar-se à tamanha intimidade! – Eu quero mais de você – confessou Mikhail ainda rouco, ambos os braços apertados em volta dela tão firmemente que ela teria que lutar para escapar. Kat não conseguia olhar para ele, sabia do poder que aqueles olhos tinham de levá-la a fazer coisas estúpidas e irresponsáveis. – Por favor, me solte – murmurou Kat hesitante, desesperada para achar as palavras certas para se explicar, mas


encontrando apenas um vazio mortificante em seu cérebro. A confusão tomou conta dela. Somente a consciência de que aquilo havia sido um episódio unilateral conteve a raiva que ela normalmente usava para mantê-lo a uma distância segura. Mikhail respirou fundo e a deixou ir, com uma urgência exagerada. Ajeitando a bainha da saia, Kat recolheu a calcinha do chão, com o rosto vermelho. – Eu não sei o que dizer. – Então não diga nada – disse ele. – Você não é muito diplomática. Vá se trocar para o jantar. Nós nos vemos mais tarde.


Mais tarde... no quarto dela?, Kat se perguntou. Bem, ela dificilmente podia culpá-lo por esperar algo em retorno, depois do que ele fizera por ela... E nem podia se imaginar conseguindo dizer a ele que desejo não era suficiente, que estava convencida de que nunca seria, que isso era o que havia de errado com ela. Afinal, Kat o desejava feito uma gata no cio, perdia o controle no momento em que ele a olhava ou fazia qualquer contato físico! Mikhail praguejou baixinho em russo. Kat era maluca, confusa demais para ele. Como é que ele não evitou ver isso por tanto tempo? O que ele estava fazendo com ela? Devia ter mandado


Kat para casa de jatinho, e deixado tudo a cargo de Lara... Essa seria a coisa mais racional a fazer, e Mikhail nĂŁo era nada se nĂŁo racional.


CAPÍTULO 7

CINCO DIAS depois, Mikhail estava no deck do escritório no iate, bebendo com Lorne Arnold. Seus outros convidados estavam nadando e tomando sol no deck principal no andar de baixo. Ele estava tão acostumado com mulheres seminuas que nem mal concedeu uma olhada aos corpos expostos, premiando com sua atenção apenas uma cabeça


avermelhada que se movia nas sombras. Tão esguia em sua delicadeza de pernas longas quanto as de uma gazela, Kat se bronzeava, mas a sua pele acetinada e clara a destacava ainda mais dos outros convidados, bronzeados artificialmente ou pelo sol. – Kat é mesmo um achado – afirmou Lorne, cuidadoso, vendo Kat se sentar para ler um livro. Mikhail cerrou os dentes brancos e regulares. Se ao menos você soubesse, ele pensou frustrado. Ele havia se afastado de Kat e isso também não estava funcionando. Ela era como um quebra-cabeças com várias peças faltando: incompreensível e irritante.


– Bem natural, calorosa, reservada... – Lorne não conseguia esconder sua apreciação. – Muito reservada – disse Mikhail. – Você não parece prestar muita atenção a ela. – Kat se sente melhor com a indiferença – respondeu Mikhail, seco, perguntando-se por que havia tido o azar de achar a única mulher no mundo que não parecia inclinada a ceder aos seus avanços. Mikhail, mais acostumado com mulheres que o sufocavam e se penduravam, loucas para agradar, estava perdido tendo de lidar com uma que havia decidido se manter distante.


Lara se acomodou ao lado de Kat na sombra. – Eu estou com tanto calor! – reclamou. Kat sabia perfeitamente que não adiantava sugerir que ela, com seu biquíni minúsculo, desse um mergulho na piscina convidativa. A maioria das convidadas, incluindo Lara, evitavam a água, para preservar seus penteados e maquiagem, enquanto ela continuava a nadar várias vezes por dia, cansada da preguiça de ficar sentada sem fazer quase nada. Isso deixava seu cabelo um pouco rebelde, mas com um salão de beleza completo a bordo, isso não era um grande problema.


– Essa é a última noite dos convidados – disse Lara. – O que você vai usar no clube em Aya Napa? – Eu vou achar alguma coisa – respondeu Kat, observando Mikhail e Lorne bebendo juntos no deck. Muito alto, muito moreno, muito bonito e irritantemente impenetrável e imprevisível. Ela o havia evitado desde aquele encontro fatal no escritório. Apesar de ser educado e simpático na presença de outros, como se eles fossem um casal, não havia tentado tocá-la de novo e ela não o culpava por isso, tendo repassado repetidamente o que havia feito, e se envergonhado. Ela havia dito uma coisa para ele, mas havia feito


outra. Se ele estava cansado disso, ela também estava. Era como se Kat tivesse dupla personalidade, metade recordando sua infância com uma mãe devoradora de homens, e a outra metade lembrando os estritos limites morais que ela havia tentado impor às suas irmãs, sempre dando bons exemplos. Sexo apenas para aplacar o desejo não era admissível, e Kat não tinha vergonha de resistir a esses desejos e ser leal a seus princípios. – Eu espero que você não se importe, mas achei que você pudesse querer alguma coisa emprestada e deixei um vestido sobre sua cama – disse Lara com um sorriso brilhante.


Kat vinha se sentindo mais confortável com a amizade de Lara, que havia feito um esforço verdadeiro para oferecer conselhos úteis. Gradualmente, Kat percebeu que era Lara quem normalmente recebia os convidados de Mikhail e não queria que houvesse ressentimento entre elas. Por isso, a amabilidade de Lara tinha provado ser uma grata surpresa, especialmente quando comparada com o distanciamento frio de Mikhail. – Mas eu tenho certeza de que eu tenho algo... – começou Kat, desconcertada. – Você não tem nada apropriado para uma boate – garantiu Lara


confiante. – Você vai querer se enturmar... ao menos uma vez. – Meus dias de noitadas estão no passado... Eu tenho 35 anos, Lara. Os olhos de Lara se arregalaram com aparente incredulidade. – Mas isso significa que você é mais velha que ele! Eu só tenho 26. E era, provavelmente muito mais adequada, Kat refletiu cansada, imaginando por que se preocupava com isso. Lara era bonita e alegre. Posava ali, de topless e desinibida, infinitamente mais capaz de agradar Mikhail do que ela jamais seria. Por detrás dos seus óculos escuros, Kat focou o olhar em Mikhail, a luz do sol se refletindo nas


maçãs esculpidas do seu rosto e nos seus maxilares angulosos. Seu coração pareceu se contorcer com a simples ideia dele com Lara... com qualquer mulher. Isso porque ela vinha sonhando com ele toda noite, sonhos vergonhosamente eróticos que a faziam acordar transpirando numa teia de roupas de cama. Algumas horas depois, Kat, usando o vestido vermelho curto de Lara, arrumada e polida até a morte no salão de beleza, checou seu reflexo no espelho e fez uma careta. Na sua opinião, estava mostrando pele demais, pois o vestido expunha as suas costas e um bom pedaço de suas pernas, mas do


que valia a sua opinião? Ela era um peixe fora d’água no mundo exclusivo de Mikhail, e não queria sair com os membros mais jovens e alegres do grupo e fazê-lo passar vergonha. Kat se encolheu com medo de parecer ridícula. Uma maré de saudades de casa a atingiu subitamente, acompanhada pela aversão por aquela existência superficial que estava vivendo, onde as aparências e a diversão pareciam ser tudo o que importava. Nesse exato momento, sua irmã mais nova, Topsy, estava em casa com Emmie, de volta do colégio interno. E, apesar de ligar para suas irmãs quase todo dia, não era a mesma


coisa que vê-las em carne e osso, botando as fofocas em dia. Kat ainda tinha mais três semanas no enorme palácio flutuante de Mikhail, e aquilo parecia uma sentença. KAT SE sentou ao lado de Lara na área VIP da boate. A alguns metros de distância, em outra mesa, Mikhail parecia entreter sua corte como um rei. Ele estava em seu elemento, rodeado por garrafas de champanhe e garotas bonitas disputando sua atenção. – É sempre assim com o Mikhail? – perguntou Kat. – Você precisa entender que mesmo quando menino ele já era muito


solicitado. As mulheres o querem, porque homens muito ricos, bonitos e ainda jovens são raridade. Todas elas querem ser aquela com quem ele vai se casar, mas Mikhail não quer se casar. – Isso não me surpreende – comentou Kat, levantando-se para ir ao banheiro e dando uma olhada em Mikhail por sobre os ombros reparando que duas mulheres jovens, em vestidos muito reveladores, estavam fazendo um tipo ridículo e sugestivo de dança do ventre para ele e seus acompanhantes. Suas sorridentes demonstrações e corpos juvenis a deixaram de dentes trincados e a fizeram se sentir com cem anos, velha demais para esse tipo de


bobagem. A cabeça morena e arrogante de Mikhail se ergueu e se virou, como se ele pudesse sentir Kat observando-o. Com os olhos escuros brilhando, ele fez um gesto para chamá-la, como se ela fosse a garçonete. Kat ruborizou e ignorou seu sinal. O ataque de saudades voltou ainda mais forte. Não queria estar ali, numa boate para ricos entediados. Não queria voltar para o iate. Nenhum daqueles lugares era o seu, e queria ver suas irmãs. Havia se convencido que recuperar a casa valia qualquer sacrifício e só agora estava questionando essa convicção. Mikhail a estava aborrecendo. Ela não se lembrava de já ter se sentido tão


infeliz quanto agora, e sua autoestima tinha caído ao nível mais baixo de todos os tempos. Mais cedo, ele a havia observado no vestido vermelho e feito uma careta, mas não dissera coisa alguma. No entanto, a ausência de admiração dele havia sido nítida e daquele momento em diante o vestido vermelho parecia um enorme e pouco lisonjeiro erro. Mas por que a opinião dele importava tanto? Os meios para acabar com esse tipo de humilhação sempre estiveram em suas próprias mãos, e talvez já fosse mais do que hora de agir. Seus dedos se apertaram em sua bolsa envelope, que continha seu passaporte. Stas estava junto à porta de


saída e ela caminhou até ele de cabeça erguida. – Você poderia providenciar um táxi para me levar ao aeroporto? – Perguntou, sabendo que não poderia sair e desaparecer assim sem causar um alarido indesculpável. Stas pareceu congelar momentaneamente. – Mas claro... Em cinco minutos, senhorita. Tendo tomado a decisão de voar para casa logo que pudesse achar um voo, Kat se sentiu muito mais feliz, como se um peso gigante houvesse saído dos seus ombros. Ela iria para casa, acharia um emprego e algum outro lugar para


morar, pensou, enquanto retocava a maquiagem no banheiro. E não precisava que Mikhail fizesse nada por ela, certamente não precisava que ele lhe desse uma casa que ela havia perdido com seus próprios erros. Stas estava esperando para guiá-la até a porta dupla da saída e então a surpreendeu, abrindo outra porta no corredor. Ela hesitou. – Para onde está me levando? Mikhail preencheu o vão da entrada da porta feito uma grande e escura nuvem de tempestade. – Você não vai sair assim. – Pode apostar que vou!


– Primeiro nós vamos falar sobre isso, Katya moya – declarou Mikhail, bloqueando seu caminho. Kat supôs que devia algum tipo de explicação a ele. Talvez tivesse sido pouco realista achar que ela podia só partir sem um confronto. Mas Mikhail não era dono dela e ela não tinha vendido sua vida para ele. – Não sou sua prisioneira. Eu posso ir na hora em que eu quiser. – E para onde você está planejando ir a essa hora da noite num país estrangeiro? – Eu posso esperar no aeroporto até conseguir um voo. Eu acredito que voos para Londres são bem frequentes.


Mikhail contou, devagar e em silêncio, até dez, mas isso não operou milagres em seu humor. A ideia de que ela estava pronta para deixá-lo deixarao desconcertado. Nenhuma mulher o havia deixado antes, mas ele achou típico dela ser a primeira a tentar. Lá estava Kat, com seus olhos verdes desafiadores, queixinho pontudo num ângulo de combate, desafiando-o a impedi-la. Ela era instável feito dinamite, disse ele a si mesmo, sombrio. Talvez devesse ter prestado mais atenção, conversado com ela mais cedo... mas sobre o que, exatamente? – Eu não quero que você vá – disse Mikhail em um tom áspero.


– Vamos encarar a verdade... se não fosse Stas, você não teria notado minha ausência. Você está rodeado por outras mulheres essa noite. – Mas eu não quero nenhuma delas. Eu quero você! Aquela confissão honesta pareceu engraçada. – Nesse caso você está indo pelo caminho errado. – Não existe caminho certo com você. Se nem você sabe o que quer, como é que eu posso adivinhar? – Eu sei exatamente o que eu quero: quero ir para casa. – Isso é típico das mulheres, não? Vocês acendem a fogueira e depois


fogem em disparada! – Eu não estou fugindo! – Claro que está. Você me quer e eu a quero, mas evidentemente você não consegue lidar com algo tão simples. – Não é assim tão simples! – É sim. Você não consegue lidar com suas próprias inibições sexuais. E você se acha uma loba? Você parece um bebê quando se trata de sexo. Um passo à frente, dois atrás. Se eu não soubesse que não há maldade no seu comportamento eu a chamaria de leviana. – Como você se atreve? Eu disse que não ia dormir com você!


– Mas continua reagindo a todos os meus olhares e toques... Você tem medo de ter um relacionamento sexual normal com um homem. Essa é a única razão para ainda ser virgem! – Não, não é não! Eu me recuso a permitir que qualquer homem me use para sexo como usaram a minha mãe! – A sua... mãe? Que diabos ela tem a ver com isso tudo? Kat piscou, quase tão surpresa quanto ele estava por ter feito esse comentário em voz alta. O comentário era baseado em um medo que vinha lá de sua infância instável, quando Odette vivia reclamando de que logo que um


homem a levava para a cama ele perdia o interesse por ela. – Eu não quero ser usada pelo meu corpo. Você só está interessado em sexo. Mikhail percebeu vagamente que havia tropeçado em uma dessas conversas sobre “relacionamento” que ele sempre havia evitado feito uma praga. Obviamente que estava interessado em sexo, e o que havia de errado nisso? – Eu também fui usado por muitas mulheres. Por sexo, por dinheiro, por conexões. Isso acontece com todos nós. Você não pode se proteger de


experiências assim e é covardia fugir delas. – Eu não sou covarde! – Mas Kat estava severamente desconcertada pela admissão que ele também havia sido usado pelo sexo oposto em troca do que podia oferecer. E estava igualmente desconcertada pela admissão que havia feito. Nossa, poderia ter deixado mais claro que queria mais do que sexo? Encarando-a com atenção, Mikhail suspirou. Com um movimento perturbadoramente rápido, ele a pegou no colo e a depositou no sofá de couro atrás dela. – Então sente-se e fale comigo... Me diga qual possível influência a sua mãe


ainda pode ter sobre você. Mikhail se sentia benevolente fazendo aquele convite único. Se fosse para Kat desistir de ir embora, ele escutaria qualquer coisa. Estava surpreendentemente curioso para saber por que ela havia lhe dado tantas informações conflitantes. Enquanto observava Mikhail abrir a porta para falar com Stas antes de se afundar agilmente em frente a ela, sua mente já se enchia de imagens difíceis. As bebidas chegaram enquanto ela lutava para reprimir as infelizes memórias de sua infância. Sua mãe, Odette, a mulher que Kat havia amado sem retorno até também se tornar


adulta, era alguém em quem raramente se permitia pensar, pois mesmo depois de todo esse tempo a indiferença ainda doía. Odette sempre havia gostado de se fazer de vítima, e como sua maior plateia, Kat havia testemunhado mais do que deveria da complicada vida amorosa da mãe. Há tempos ela havia enterrado essas perturbadoras memórias e seguido com sua vida. Somente agora, forçada a desenterrar essas memórias, percebia que aquilo ainda a afetava. Muito, muito mesmo. – Kat? – chamou Mikhail, estudando o rosto expressivo dela. Kat molhou os lábios com o champanhe borbulhante, grata por ter


algo para ocupar suas mãos trêmulas. – Minha mãe, Odette, era uma modelo de sucesso, mas uma pessoa não muito legal. Nossas vidas foram tumultuadas porque os seus relacionamentos estavam sempre terminando. Ela se casou com o meu pai por segurança e depois se divorciou quando sua carreira deu certo. Abandonou o pai das gêmeas quando ele faliu, mas mesmo assim, tudo em que ela falava enquanto eu crescia era como os homens a haviam decepcionado e usado. Só agora consigo ver que na maioria dos casos era ela quem os usava.


– E como essa comparação se aplica a nós? – Não se aplica… – concedeu Kat, envergonhada por ter deixado o condicionamento autopiedoso de sua mãe influenciar seu ponto de vista, sem que ela percebesse, por tantos anos. Odette havia acreditado que simplesmente fazer sexo com um homem constituía um relacionamento e que ter um filho dele o faria se comprometer. Aquele ponto de vista superficial fez com que nenhum dos relacionamentos de sua mãe tivesse um final feliz. – Você ainda quer voltar para o Reino Unido?


Kat sentiu o estômago apertar ao encarar aqueles olhos escuros e brilhantes, os mais lindos que ela já tinha visto. Mikhail era um homem muito perigoso, ela reconheceu um pouco tonta, pois havia escolhido o momento perfeito para fazer aquela pergunta fundamental, e ela não acreditava que tivesse sido acidentalmente. Ela não queria deixar Mikhail agora, reconheceu culpada, não sem saber mais sobre ele. Sem perceber, estava fugindo, encurralada pela lavagem cerebral de sua mãe durante sua impressionável adolescência e por seu próprio medo de se machucar. Mas a lógica dizia que a vida era para ser


vivida, erros incluídos, e ela não ia seguir o exemplo de sua mãe. Kat ergueu a cabeça. – Ainda não... – Vamos voltar para o iate. – E os seus convidados? – Eles estão muito ocupados se divertindo para perceber a minha ausência. – respondeu Mikhail com desdém, sua mão morena prendendo a dela, sua respiração ofegante fazendo a pele dela se arrepiar. O perfume morno do corpo dele, misturado com a colônia exclusiva que usava, a fazia ter vertigens. O desejo novamente se insinuou em sua carne, deixando-a lânguida, frágil.


Kat ruborizou ao ver Stas observando suas mãos entrelaçadas. Mas sabia que não havia nenhuma gota de romance naquele gesto, não para Mikhail. Não mesmo, pois pela primeira vez ela conseguia ler a mente dele. Enquanto mantivesse-a por perto, ele a controlaria e ela não iria a lugar nenhum sem sua autorização. Ele era assim, prático. Se ao menos Kat pudesse ser tão cabeça fria e prática, ruminou preocupada enquanto ele a acomodava no barco que os levaria para fora do porto e de volta para o iate. Ele havia sucumbido ao desejo, mas ela estava se apaixonando...


No momento em que ele empurrou a porta da suíte de Kat, ela mal respirava de nervosismo e antecipação, mas mais uma vez ele a surpreendeu, recuando para se dirigir ao seu próprio quarto. – Hora da decisão, Katya moya – gracejou Mikhail, encarando-a com seus olhos escuros e sensuais, semicerrados. – Se você me quiser, sabe onde me encontrar.


CAPÍTULO 8

KAT

inclinou contra a porta, o coração martelando dentro do peito... Você sabe onde me encontrar. Do outro lado da porta que havia trancado. Ela poderia mesmo culpá-lo por incitá-la a tomar a iniciativa para variar? Kat havia feito tamanho drama sobre não dormir com Mikhail, e, sem querer ser injusta, ainda assim havia permitido que ele a tocasse e em SE


seguida retirado aquela permissão no último minuto possível. Mas desde o primeiro minuto em que colocou os olhos em Mikhail Kusnirovich, Kat o havia desejado mais do que jamais havia pensado que poderia desejar qualquer homem, e infelizmente para eles dois, o desejo havia destruído o bom senso e o autocontrole dela. E bom senso e controle, Kat reconhecia, não tinham absolutamente nada a ver com o que ela sentia em relação a Mikhail. O desejo era uma sensação muito mais primitiva, uma sede tão insaciável que literalmente doía negar. Com mãos impacientes, arrancou o vestido verde e a calcinha e


deixou suas roupas caírem em um pequeno monte, desafiando sua necessidade instintiva de guardar ordenadamente cada item. Ela havia vivido sob uma rígida lista de regras por tempo demais e nunca tinha questionado nada. Não, havia obedecido cegamente aquelas regras feito uma menininha. Agora, olhando para o passado, para a última década conservadora da sua vida, estava finalmente cansada de sua passividade e mais cansada ainda de sempre tentar fazer a coisa certa e dar um bom exemplo! O que seus bons exemplos haviam conquistado? Eles não haviam prevenido Emmie de engravidar


ainda solteira ou prevenido a gêmea de Emmie, Saffie, de se casar e se divorciar jovem demais. Mas ainda era aquela convicção de que tinha de dar bom exemplo que havia garantido que Kat não tivesse um homem em sua vida. Como Mikhail se atrevia a chamá-la de covarde? Covardia não tinha nada a ver! Manterse virgem não havia sido uma decisão arbitrária. Pelo contrário, ela havia conscientemente escolhido colocar as necessidades de suas irmãs na frente de suas próprias necessidades de mulher. Mas suas irmãs teriam sido tão prejudicadas assim se Kat tivesse um amante? Agora elas estavam seguindo


em frente, cuidando de suas próprias vidas e deixando-a para trás, ainda ridiculamente ignorante para uma mulher da sua idade. Continuar esse autossacrifício não fazia sentido. Nem tinha importância se ela só dormisse com Mikhail para satisfazer sua curiosidade sobre sexo, Kat deu-se conta. Assim como não importava se ela o amava, se esperava mais do que jamais receberia. Um erro era um erro e não um desastre, e ela era forte o suficiente para sobreviver aos erros que cometia. Nunca mais fugiria do desconhecido feito uma criança amedrontada ou usaria os erros de julgamento de sua mãe como desculpa.


Vestida com uma camisola de seda, fina como uma teia de aranha, Kat destrancou a porta entre a sua suíte e a suíte principal para abri-la com a mão que tremia. Mikhail surgiu na porta do banheiro, com apenas uma toalha presa em volta dos seus magros e bronzeados quadris. Seus olhos de diamante negro pousaram nela e um sorriso de satisfação instantaneamente curvou sua boca sensual. Seminu, ele era uma visão imponente, seus cabelos negros, úmidos e arrepiados do chuveiro, gotas de água escorrendo pelos seus peitorais cobertos de pelos e músculos, seu estômago duro como pedra. Ele tinha um corpo fabuloso, Kat reconheceu desamparada,


e seu rosto se avermelhou enquanto ela tentava não encarar aquela perfeita máquina masculina. – Eu me sinto como se tivesse esperado por você uma eternidade – disse Mikhail com voz rascante, adiantando-se e tomando-a em seus braços para depositá-la na cama. – E eu nem posso acreditar que estou aqui – confidenciou Kat. – Acredite, moyo zolotse. – Sua boca se precipitou sobre a dela em um beijo sugestivo de veludo bruto, cobrindo rapidamente os lábios separados de Kat, sua língua escorregando por entre eles e se enroscando à dela. O gosto intoxicante dele era mais do que


suficiente para fazĂŞ-la estremecer, indefesa, contra ele. Seus dedos se curvaram nos ombros largos e morenos dele, enquanto o calor Ăşmido surgia entre suas coxas e ela podia sentir seus seios intumescidos, os mamilos formigando enquanto se esfregava na parede musculosa do peito de Mikhail. AtravĂŠs da espessura da toalha, ela podia sentir, contra sua coxa, o quanto ele a desejava, e ela tremia ao imaginar Mikhail empurrando todo aquele volume para dentro dela, para saciar aquele doloroso desejo que os consumia. Ele recuou, seus olhos impressionantemente bonitos correndo


pelo rosto rosado dela, enquanto suas mãos perambulavam sobre suas curvas cobertas de seda, envolvendo seus seios antes de se livrar das alças da camisola e alcançar sua pele macia. A camisola escorregou até sua cintura e ele capturou seus mamilos eriçados entre os dedos e os puxou, arremessando dardos de desejo até o ventre dela. – Mikhail... – Kat estava ofegante, trêmula, quase amedrontada pelas ondas que a assaltavam. – Seus seios são tão sensíveis... quero fazê-la gemer de prazer – rosnou Mikhail. A boca de Mikhail capturou um bico rosado e ela arfou, contorcendo-se com


a tortura da antecipação, que a deixava ainda mais úmida e sensível, sem protestar quando ele a empurrou contra os travesseiros. Com sua língua e as bordas dos dentes, Mikhail brincou com os botões inchados, enquanto fazia a camisola escorregar pelos quadris dela. Sob a luz da lâmpada, a pureza de porcelana de Kat reluzia feito alabastro. Mãos grandes apertaram seus quadris, abriram suas coxas e traçaram um caminho até o centro acetinado e úmido do corpo dela, onde ela pulsava e o desejava. Um apetite puro e não diluído queimava os olhos de Mikhail e ele a puxou sinuosamente para o pé da cama. Ela estava entregue à surpresa e à


incerteza, retesando-se quando ele separou os seus joelhos e congelando quando ele a abriu completamente para expor aquela parte normalmente mantida escondida. – O que você está fazendo? – quis saber Kat, atordoada. – Confie em mim... relaxe. – Mikhail a acalmou. – Quero que hoje seja a melhor noite que você já teve com um homem. – Essa vai ser a única noite – ela o lembrou trêmula, enquanto lutava contra o impulso de fechar as pernas, ante a avassaladora percepção de que estava nua e exposta.


– Não a nossa única noite – disse Mikhail, confiante. – Mas eu vou caprichar, moyo zolostse... – Promessas, promessas... – A voz de Kat estremecia enquanto ela ousava responder à altura. Ele afundou as mãos sob os quadris dela para erguê-la e sua língua deslizou sobre sua carne úmida e macia. Aquele prazer instantâneo foi quase intenso demais para suportar e as mãos de Kat se fecharam convulsivamente nos lençóis sob ela, enquanto Mikhail provocava-a, implacável. Kat tentou, com todas as forças, abafar seus gemidos, mas a habilidade dele em aumentar o prazer tornava esse um


desafio impossível. Suas costas se arquearam, seus quadris se ergueram, e ela gritou quando os dedos dele a penetraram da maneira que ela mais precisava, dando a Kat só um pouquinho do que desejava desesperadamente. Então ela perdeu o controle tão rápido que não tinha ideia do que estava acontecendo. Estremecendo, relaxando e então estremecendo mais uma vez, antes que a grande onda de prazer a tomasse por completo, Kat gemeu, fragmentando-se e se perdendo ao atingir o êxtase. Cega com aquele prazer avassalador, Kat ergueu o olhar para encará-lo, e


Mikhail devolveu seu olhar, murmurando faminto: – Adoro ver você se entregando para mim... O rosto dela queimava e Kat voltou a ficar tensa quando Mikhail se acomodou sobre ela e o sentiu, atrevido, tocando-a. Mikhail era enorme e incrivelmente duro, e sua musculatura, vagarosamente, acomodava-se ao redor de seu tamanho. O rosnado dele, de prazer e posse, deixou-a instantaneamente preparada para ele, mais uma vez. A tensão bruta em seus músculos poderosos deixava claro que Mikhail tentava se controlar,


mas não havia como escapar da rápida e afiada pontada de dor que a tomou quando ele mergulhou mais fundo e quebrou a barreira final de sua inocência. – Desculpe-me... – Rugiu Mikhail, seus olhos de diamante negro faiscando com uma excitação bruta que ele não conseguia disfarçar. – Eu estava tentando não machucá-la. – Tudo bem... não está doendo mais – confidenciou Kat, erguendo os quadris e oferecendo-se para ele em um movimento instintivo, e gemendo quando ele a penetrou profundamente de novo.


– Você é tão deliciosa que eu nem sei se poderia parar – gemeu Mikhail, retirando-se e então penetrando de novo, dando outro gemido de satisfação. Ele a ensinou que aquele ritmo acelerado e a constante estimulação física alimentavam a excitação avassaladora que ele havia liberado. O corpo delicado de Kat se chocava contra o dele uma vez e outra, e outra. Seus olhos como estrelas, enquanto as ondulações de um novo clímax pulsavam através deles dois para que Mikhail se aprofundasse ainda mais e estremecesse sobre ela com um grito de satisfação que não conseguia reprimir.


O coração de Kat estava batendo tão forte que, mesmo deitada, estava tonta, sem ar e totalmente diferente da pessoa sensata que costumava ser. Seus braços se apertaram em volta dele. – É sempre assim tão excitante? Mikhail a apertou contra seu corpo úmido e quente. – Raramente. Foi o melhor sexo que eu já tive, Katya moya. E, por uma fração de segundo, Kat ficou grata pelo elogio e pela esmagadora sensação de intimidade que estava usufruindo junto dele. Mas a sensação de paz e relaxamento não durou, depois que considerou aquela afirmação, de ter dado a Mikhail o


melhor sexo que ele já havia tido. De algum modo, em vez de se sentir elogiada, isso a fazia se sentir barata, como se tivesse fornecido apenas uma experiência nova a um homem experiente. – Hora do banho – disse ele, rolando com Kat para o lado da cama com ele e fazendo com que ela se levantasse. As pernas dela estavam trêmulas e ela se agarrou ao braço dele, encolhendo-se quando sentiu dor. – Você está dolorida... – Murmurou ele, estudando o rosto expressivo dela e rindo quando ela ruborizou. – Bem, o que você esperava?


– Eu devia voltar para o meu quarto – sussurrou Kat. – Não, eu quero que você fique – disse Mikhail, puxando-a contra seu corpo enquanto abria a água. – Pensei que você gostasse de privacidade. – Gosto ainda mais da ideia de ter você na minha cama de manhã logo cedo – rosnou Mikhail contra a garganta de Kat enquanto a empurrava contra a parede de azulejos, deslizava as mãos até sua cintura para mantê-la ali e esmagava sua boca exuberante com uma urgência faminta. Aprisionada pelo corpo dele, Kat mal conseguia respirar de tanta excitação e


descobriu que mesmo aquela sensibilidade entre suas coxas não a impedia de querer Mikhail de novo. – Agora o meu cabelo está molhado... – Você vai sobreviver. Ele deixou sua língua brincar entre os lábios dela com uma investida urgente e rítmica que lembrava tanto um ato sexual que Kat estremeceu, paralisada de desejo, seus mamilos arrepiados contra o peito dele. Contra seu estômago, ela podia sentir Mikhail rígido, cheio de desejo urgente de novo, e se maravilhou com sua recuperação rápida. Kat, que nunca teria sequer sonhado em ir para a cama de cabelo molhado,


esqueceu de se preocupar com isso. Nas garras da paixão, Mikhail estava determinado demais para que ela resistisse. Ele a tirou do chuveiro no colo e a fez sentar-se na bancada. Foi coisa de um minuto para ele retirar um preservativo da gaveta, rasgar o pacote e colocá-lo. Ele se ajeitou entre as pernas abertas de Kat, para encontrar mais uma vez sua maciez úmida, com um grande suspiro de alívio. – Pensei que você fosse esperar até amanhã... – disse ela, trincando os dentes cerrados em um espasmo de prazer tão devorador que fez a dor transformar-se em uma lembrança distante, porque Mikhail estava sendo


extraordinariamente cuidadoso, lento e delicado. Pequenos arrepios de uma excitação extrema a tornavam ainda mais receptiva. – Nunca fui muito bom em esperar – rosnou Mikhail, lutando para se controlar enquanto tomava o corpo dela para si, temeroso de machucá-la, mas desejando-a tão intensamente que tudo o mais desaparecia à sua volta. A ponta do seu dedo circulou o pequeno nó de terminações nervosas no centro úmido de Kat e ela gemeu violentamente em sua boca, cravando as unhas em seus ombros, enquanto ele acelerava o ritmo.


Pela manhã, Mikhail a tomou mais uma vez, sua boca percorrendo a delicadeza do pescoço dela para despertá-la antes de afundar-se mais uma vez no corpo receptivo de Kat mais e mais até que ela gemesse pedindo mais. –Tome banho comigo – pediu ele depois. Kat sabia que ele não era confiável no chuveiro e riu relutantemente. – Vou usar o meu próprio chuveiro. – Café da manhã em dez minutos – disse Mikhail. Kat não se moveu até ele desaparecer dentro do seu banheiro. A dor da permissividade era tão forte que ela


cerrou os dentes quando se levantou da cama e retornou ao seu próprio quarto para se arrumar. Um grito de horror escapou dela quando se olhou no espelho. Parecia uma boneca de retalhos que havia sido torturada. De banho tomado, Kat salpicou um pouquinho de maquiagem leve, tentando esconder os contornos inchados de sua boca e as evidências da barba por fazer de Mikhail que marcavam com arranhões sua bochecha e o pescoço. Ela vestiu suas roupas de baixo e arrancou um vestido de verão do closet, apressada, pois sabia que ele era tão impaciente que viria procurar por ela se ela não aparecesse na hora.


Então aquilo era sexo, refletiu aturdida, tão mais do que havia esperado: mais excitante, mais íntimo, mais tudo, mesmo. Tinha adorado tudo o que ele fizera com ela, tinha superado rapidamente a timidez e suas indecisões para reconhecer que ele era um bom amante. Tinha sorte de ter sido apresentada de maneira habilidosa e atenciosa à intimidade. Mas agora pensava se ela teria alcançado as expectativas dele. O café da manhã foi servido no deck. Kat bebeu seu café e tentou parar de sorrir, reprimindo a borbulhante felicidade que brotava dentro dela. Não era adequada. Eles não tinham um


relacionamento para celebrar ou onde depositar esperanças. Tudo o que tinham era um caso. E agora que estavam tendo um caso, aquele acordo que tinham feito tinha de virar história, Kat pensou pesarosa. – Você não pode devolver minha casa. Não mais – disse Kat. – Por que não? – Não seria apropriado, agora que nós dormimos juntos. – De acordo com qual livro de etiqueta sexual? – Se eu aceitasse a casa de volta agora, seria como se eu estivesse aceitando pagamento por sexo.


– Não procure problemas onde eles não existem. Eu não pago por sexo, nunca paguei e nunca pagarei. – Eu não me sentiria confortável agora, deixando você me devolver a casa. – Lamento, mas aquela casa é a sua casa. – É sua casa agora. – Você não está fazendo nenhum sentido. – Pense no que eu estou dizendo... você sabe que faz sentido! – Mas eu não estou escutando. Sou eu quem diz o que você deve fazer. E você faz o que eu digo. Estava no acordo.


– Você soa como um Neandertal de novo. – Se isso a excita... – Isso não me excita! – disse Kat. Mikhail acariciou as pernas dela, deslizando os dedos por sua pele macia. – Que diabos você está fazendo? – perguntou ela, consternada. As pontas dos dedos dele flertavam com as bordas rendadas da calcinha que bloqueava a sua exploração. – Tire isso – ordenou Mikhail. – Claro que não! Você ficou maluco? – Só de pensar em você nua debaixo desse vestido me excita – rosnou Mikhail, pressionando os lábios em um ponto delicado bem embaixo da orelha


dela, em uma carícia que a deixou ávida por mais. – Qual é o problema com isso? – Eu não me sentiria bem sem ela – murmurou Kat, tensa enquanto jogava a cabeça para trás desavergonhadamente facilitando acesso para a boca dele. Em resposta, Mikhail a puxou contra ele com uma urgência que a desestabilizou totalmente. Com ela aninhada em seus braços, ele se afundou na cadeira de novo, acariciando as pernas dela por baixo do vestido. Sabendo que ele não sabia receber um não como resposta, Kat tentou restringir os movimentos dele.


– Não! Eu vou continuar de calcinha! – Você é tão teimosa – grunhiu Mikhail. – Você é pior. – Kat resmungou, dedos ociosos deslizando pelos cabelos negros dele enquanto seu olhar lânguido admirava os ângulos exóticos do seu rosto, a saliência arrogante do seu nariz e a força da linha do seu queixo. – Mas para sua sorte, você também é incrivelmente sexy... Mikhail inclinou sua cabeça morena para trás e riu alto. – Eu sou? Quase sem acreditar que já podia estar tão relaxada na companhia dele ao ponto de provocá-lo, Kat sorriu.


– Eu acho... – Mas nós não devíamos nos juntar aos seus convidados para o café da manhã de despedida? – Deixe de ser tão sensata. – Eu sou sempre sensata. – Se você fosse tão sensata assim, teria me evitado feito a praga. E o fato de que ele pudesse friamente declarar aquilo de forma fria e sincera deixou Kat desconfortável. Eram fantásticos juntos na cama mas isso era tudo. – A MINHA mãe morreu quando eu tinha 6 anos. – Do quê? – Ela perguntou, ignorando o sinais que ele mandava de


que não queria realmente falar disso. – Ela entrou em trabalho de parto em casa. Alguma coisa deu errado e ela sangrou até a morte. O bebê também morreu. – Isso deve ter sido muito traumático para você e o seu pai – sussurrou Kat, desconcertada pela tragédia que ele havia revelado. – Se ela tivesse tido os cuidados médicos apropriados, provavelmente teria sobrevivido, mas o meu pai não queria que ela fosse ao hospital. – Por que não? Mikhail respirou fundo. – Eu não quero falar sobre isso. Não é o meu assunto favorito... vy menya


panimayete... você me entende? Kat reprimiu um suspiro. Três semanas com ele haviam mostrado a ela que tinha o tato de um elefante. Não era boa em titubear e deixar assuntos quietos. Assim que percebeu que ele evitava aquele assunto, imediatamente aquela virou a única coisa na qual queria falar. Segredos a deixavam inquieta. O que havia de errado com curiosidade? Não era, certamente, natural que estivesse curiosa? O problema era que, nas últimas semanas, ela havia começado a se sentir ilusoriamente próxima de Mikhail. Eles haviam passado muito tempo juntos. Outros hóspedes haviam chegado,


churrascos haviam sido organizados em praias desertas, viagens organizadas até boates exclusivas e lojas de grife. Ele havia elogiado sua técnica como anfitriã mas ela não tinha precisado fazer tanto esforço. Gostava de conhecer pessoas diferentes e adorava garantir o seu conforto e diversão. Mas a verdade é que ele era apenas um amante e não um parceiro. Havia limites no relacionamento deles, e evidentemente ela os havia rompido e ele não queria nada disso. Lamentavelmente, Kat estava constantemente lutando contra a vontade de quebrar as barreiras de Mikhail.


EM SEU escritório, Mikhail abriu seu laptop. Kat iria dormir em sua própria cama. Ele podia passar sem ela por uma noite. Ele nunca havia sido dependente de uma mulher e com ela não seria diferente. Bem, não estava cansado dela ainda, ainda não havia tido o suficiente daquele corpo delicioso e daquela pele macia. O sexo era maravilhoso, tudo o que ele havia sempre desejado, tudo o que nunca havia sonhado poder encontrar em uma mulher. A pulsação entre suas pernas aumentou e ele sentiu que seu desejo se avolumava só de pensar nela. Três semanas e ela ainda o deixava rapidamente excitado. Mikhail


não gostava disso. Ele se ressentia do poder de Kat sobre ele. – Onde ela está? – perguntou Mikhail para Stas. – Ainda lá fora no deque. Ele encontrou Kat observando o mar apoiada na balaustrada, vestido balançando ao vento. Ele acariciou seus ombros e ela estremeceu, surpresa. – Pare de bisbilhotar – disse Mikhail, abraçando-a. – Eu não estava bisbilhotando! – Minha infância não foi exatamente um mar de rosas. – Mikhail respirou fundo. – Nem a minha, mas você aceita isso e segue em frente...


– Eu não penso sobre isso, então não há nada do que se afastar, Katya moya – Ele a pressionou contra a amurada e enterrou a boca faminta na curva macia e sensível de carne de seu pescoço. Ela se arrepiou, presa pelo corpo dele, dolorosamente consciente de si mesma e da fome que ele podia despertar tão facilmente. – O fato de você não pensar ou falar sobre isso já diz tudo. Para que tanto segredo? – Eu não tenho segredos... – Kat não acreditou naquilo por um segundo sequer. – A minha mãe era de uma tribo de nômades da Sibéria. Meu pai estava tentando comprar direitos de


exploração de óleo e gás na região quando a viu. Ele disse que foi amor à primeira vista. Ela era muito bonita mas não falava uma palavra de russo e era analfabeta. – Me parece romântico. – Ele a retirou de uma tenda de pastores e a colocou em uma mansão. Era obcecado por ela. Ele gostava do fato de que dependia dele para tudo, não entender nada da vida que ele levava ou do mundo em que ele vivia como um homem de negócios rico. Ele gostava da subserviência dela, da sua ignorância. Ele nunca saía com ela. Por detrás das portas, ele a tratava como uma escrava doméstica, e quando ela


fazia algo errado ele a espancava até quase acabar com ela. – Ele também batia em você? – Só quando eu tentava protegê-la. Eu tinha só 6 anos quando ela morreu, então devo ter ficado no caminho dele algumas vezes. Mas eu não era fisicamente capaz de impedir que ele a machucasse. Ele tinha ataques violentos de fúria, mas mesmo assim ela venerava o chão em que ele pisava porque não sabia de nada da vida. Achava que era seu dever fazer seu marido feliz e se ele não estava feliz ela acreditava que era sua culpa. – Provavelmente foi o modo como ela foi criada. É duro se livrar desse tipo


de condicionamento – murmurou Kat tentando reconfortá-lo. – Você briga comigo o tempo todo – disse Mikhail. – Talvez você tivesse preferido uma mulher subserviente. – Não! Eu detestaria se você tivesse medo de mim ou estivesse sempre tentando me agradar. – Eu nunca entendi realmente por que você me quer – murmurou Kat. – Você não precisa entender. Mikhail a estava acariciando novamente, despertando para a fome que ela não podia controlar. Ele não a assustava, mas aquela fome sim. Dominava a sua vontade, a tornava


desesperada e carente, duas coisas que Kat sempre escondia. Mesmo agora, quando ele olhou para ela, a excitação correu pelo seu corpo como uma corrente de fogo, enquanto seus seios se tornavam doloridos e um calor líquido se concentrava entre suas coxas. – Eu quero você agora, moyo zolotse – rosnou ele. E o tom denso e áspero de sua voz deslizou sobre os sentidos dela como seda. – Porque eu o irritei. – Eu não fiquei irritado. – Você ficou furioso! Uma risada de gratidão foi arrancada de Mikhail. Seu rosto mostrava divertimento. Ele realmente era um


homem bonito de tirar o fôlego, Kat reconheceu, atordoada. Ele a puxou contra o peito, as pontas dos dedos acariciando sua coxa enquanto erguiam sua saia. – Eu estava quase dizendo que você nunca seria boa diplomata, mas talvez eu estivesse errado, você é direta e sabe o quanto gosto disso – ofegou Mikhail, enquanto a tomava em seus braços e a carregava de volta para dentro. O rosto de Kat queimava. Ela era uma desavergonhada, raramente usava um conjunto completo de lingerie perto dele. Três semanas como amante desse homem a haviam mudado e ela não acreditava poder voltar a ser a mulher


cautelosa e puritana de antes. Apesar de estar sempre esperando que ele demonstrasse sinais de tédio e falta de interesse, Mikhail nunca parecia se cansar. Ele a colocou na cama e arrancou a camisa para exibir os músculos que ela tanto admirava e, abrindo o fecho da calça, revelou uma ereção muito saudável. Kat esticou as mãos para tocálo, acariciando a sua grossa virilidade com dedos macios, vendo seus olhos se estreitarem, cintilando de desavergonhado desejo. Ele se inclinou sobre ela e a beijou com uma urgência esfomeada, sua língua possuindo os lábios dela com habilidade.


Mikhail ainda não estava pronto para soltá-la por tempo suficiente para remover seu vestido de modo adequado, e quando tentou impacientemente puxá-lo, o tecido se rasgou e ela arfou. – Mikhail! Eu gostava desse vestido. Com um xingamento abafado ele concluiu a batalha puxando o vestido sobre cabeça de Kat e finalmente jogando-o de lado. – Ti takaya valnuyshaya... Você é tão excitante. Eu não aguento esperar. – Nós só saímos da cama há umas duas horas – disse Kat, varrendo com a ponta da língua seu lábio inferior, adorando o perfume e o gosto dele.


– Obviamente, você deveria ter me dado mais atenção enquanto estávamos lá – gracejou Mikhail, capcioso, suas mãos envolvendo o relevo macio e cheio dos seus seios e acariciando os mamilos rosados de Kat, fazendo sua respiração se travar na garganta e a sua resposta inteligente se perder em algum lugar ao passar pelo seu cérebro. Os olhos dela se desviaram, fechando-se quando ele a beijou de novo e a acariciou entre as pernas. Kat estremeceu, quadris erguendo-se enquanto ele a satisfazia com perfeita e abrasadora facilidade, tocando-a onde Kat precisava ser tocada, acendendo cada terminação nervosa em seu corpo


contorcido até uma incontrolável ânsia se erguer no centro de seu prazer. – Você é tão quente e apertada – rosnou Mikhail contra a garganta de Kat, erguendo-se tempo suficiente para fechar as mãos em volta de sua cintura e virá-la de bruços. – Eu preciso de você já. Ele puxou os quadris dela contra seu corpo e afundou nela com um longo e profundo golpe que a fez gritar de choque e deleite. O nível de prazer de Kat se sobrecarregou enquanto ele a possuía com estocadas impiedosas, ritmadas. Uma sensação intensa misturada com excitação selvagem tomaram conta dela. As batidas do


corpo de Mikhail contra o dela fizeram o prazer se acumular em seu âmago. A excitação se elevou até um nível insuportável e Kat estava arfando, gemendo, implorando, até que Mikhail, com habilidade, alcançou a carne úmida de Kat com uma das mãos, acariciando-a e levando seu desejo a um novo patamar, ao paraíso de prazeres eróticos que se fragmentaram através de toda sua trêmula extensão feito uma explosão. Ela desabou na cama enquanto ele gemia seu próprio alívio, desabando sobre ela. – Você está me esmagando – protestou Kat, tentando desesperadamente recuperar o fôlego.


Mikhail rolou para o lado dela na cama antes de puxá-la de volta para os seus braços e beijá-la em lento agradecimento. – Você me faz pegar fogo – murmurou ele com intensidade. – Mas no momento em que eu paro, só quero começar tudo de novo. – Pode esquecer... não serei capaz de me mexer até amanhã – resmungou Kat, seu corpo ainda pulsando e vibrando com a intensidade do clímax. – Eu estou pronto e disposto a fazer todo o trabalho. – Mas então, em um desconcertantemente súbito movimento, Mikhail recuou dela e


xingou em russo. – Eu não usei preservativo! A consternação tomou conta de Kat. Ela se sentou, seriamente surpresa com aquela admissão, pois ele nunca corria riscos naquele departamento. Não importa quando ou onde eles fizessem amor, ele sempre era cuidadoso e usava preservativo para protegê-la. Estar em um relacionamento com qualquer possibilidade de gravidez era, no entanto, uma novidade, e sua mente se recusou a sequer considerar uma gravidez não planejada. – E se os meus cálculos estão corretos, talvez tenhamos escolhido um dia ruim para sermos descuidados. Se


passaram menos de duas semanas desde a sua última menstruação, o que nos coloca bem no meio da sua fase fértil. O quanto ele sabia do funcionamento do seu corpo a envergonhou, mas não havia como esconder certos fatos em um relacionamento como o deles. – Mas eu estou em uma idade em que a fertilidade não é mais um risco tão alto. – Nos dias de hoje muitas mulheres estão dando a luz até depois dos 40 anos. E eu duvido que você tenha algum motivo para achar que é infértil.


– Bem, vamos torcer para que não tenhamos motivo para descobrir se sou ou não – resmungou Kat, deslizando da cama e se dirigindo ao banheiro, pois de repente ela precisava de um momento sozinha sem ser observada. A Kat que viu refletida no espelho estava aturdida, olhos atônitos, rosto pálido e preocupado. Um caso pareceu algo sem problemas até que o mundo real os alcançou, e não havia nada mais real do que uma gravidez acidental. Pelo amor de Deus, a sua irmã ficou grávida e ela mesma não a havia recriminado, considerando-a irresponsável e temido pelo seu futuro? Quantas desculpas tinha Kat, na sua


idade? Ela devia ter tomado as rédeas da prevenção mesmo antes de embarcar no iate. Mais vale prevenir do que remediar e ela deveria ter se lembrado disso. Estava tão segura de que não terminaria na cama de Mikhail, e onde foi que essa certeza a levou? Mikhail se juntou a ela no chuveiro. Ele passou uma reprovadora ponta de dedo pelas linhas tensas dos lábios dela. – Pare de se preocupar. Se você engravidar nós resolvemos isso juntos. Não somos adolescentes amedrontados. Mas depois de amanhã, ela deixaria o iate, e Mikhail não faria mais parte de sua vida. Ele não havia dito nada para fazê-la pensar de outro modo, e ela


preferia assim. Ela não queria Mikhail prometendo telefonar e depois sequer se preocupando em fazê-lo. Kat havia se apaixonado, mas isso não era culpa dele. Ele não havia prometido nada e não havia mentido. Então, como tinha conseguido se apaixonar por ele? Foi quando ele se preocupou, pela primeira vez, que ela tivesse seu achocolatado favorito no café toda manhã, mesmo achando aquela uma mistura nojenta? Ou quando ele começou a lhe ensinar palavras simples em russo? Ou quando Mikhail a deixou ver seu reality show preferido, apesar do programa entediá-lo até a morte? Ou foi quando ele, inesperadamente,


lhe preparou um banho quente quando ela teve um constrangedor ataque de cólicas? Ou então quando a tratou como se fosse a única mulher no mundo para ele, inclinando a cabeça para ouvir cada palavra, dando conselhos sobre suas irmãs, dizendo onde havia errado na pousada? Não, a atenção completa dele não era fonte só de alegria, ela concedeu com uma ironia seca, pois ele achava que sabia de tudo e que não existia problema que não pudesse resolver. Às vezes, ela se deitava na cama ao lado dele, estudando o seu perfil magro e bronzeado e as longas pestanas quase tocando os ossos de seu rosto, e tentava


se lembrar de como a vida havia sido sem Mikhail. Infelizmente, Kat não queria se lembrar daquela época ou da ausência de diversão e paixão que havia deixado sua vida tão sem cor e previsível. Nada era previsível com Mikhail. Era um choque para ela, que pudesse ter vivido tantos anos sem nunca descobrir os prazeres e delícias de estar com outra pessoa.


CAPÍTULO 9

–O

você quer fazer hoje? – perguntou Mikhail a Kat na manhã seguinte, enquanto ele enrolava o corpo dela, todo molhado, em uma toalha felpuda. – Pensei que você precisasse trabalhar... – Em nosso último dia? – ele ergueu uma sobrancelha. QUE


O coração de Kat disparou, como se ele tivesse puxado uma faca para ela, e todo seu corpo estremeceu. Kat realmente tinha imaginado que ele não soubesse que o mês, o tempo que tinham combinado passar juntos, já havia terminado. Que tola ela havia sido! Claro que Mikhail tinha um calendário interno tão preciso quanto o dela, e aquilo serviu de lembrete de que havia algo que realmente precisava ser discutido antes que se separassem. – Será que poderíamos ser pessoas comuns, para variar? – perguntou ela, pensando que seria mais fácil falar com ele longe do iate, porque seria bem


improvável que ele brigasse com ela num lugar público. – Comuns? – inquiriu ele, vagamente. – Andar por uma rua sem uma escolta que atraia atenção, olhar vitrines, tomar café em algum lugar que não seja extravagante... – Continuou ela, incerta. – Coisas simples. Seus olhos escuros como a noite se arregalaram de surpresa com aquele pedido, e Mikhail ergueu os ombros largos. – Tenho certeza de que posso fazer isso. O barco os deixou próximos ao passeio que acompanhava a costa do


resort. Stas e seus companheiros os seguiram, mas mantiveram distância. Vestido casualmente com short e com uma camisa aberta no colarinho, Mikhail a apressou até a cidade e, cobrindo a mãos dela com a sua, acompanhou-a pela rua principal. Kat olhou vitrines e entrou em uma loja de presentes, na qual insistiu em pagar por uma pequena coruja de cristal, que ela sabia que Topsy, alegremente, acrescentaria à coleção dela. – Decidi que não gosto de mulheres independentes – declarou Mikhail, observando-a analisar um mostruário de anéis de festa em uma vitrine de joalheria. – Não há nada aqui digno de


seu interesse... Com estes preços, é tudo falso. – Eu não sou esnobe... – Eu sou – disse Mikhail sem hesitação. – De qual você gosta? – Do verde – confidenciou ela, surpresa que ele tivesse perguntado. – Eu não poderia suportar ver aquilo em seu dedo – debochou Mikhail e a rebocou pela rua cheia em um ritmo apressado. – Vamos tomar café onde? Kat escolheu um café ao ar livre perto da praia, com cadeiras confortáveis e uma bela vista do mar. Com um ar resignado em seu rosto forte, Mikhail acomodou sua figura


forte e poderosa em uma cadeira que estalou de maneira alarmante. – Então, o que há de tão excitante em vir aqui? – questionou ele, ávido para que ela explicasse a atração. – Aí é que está. Não é excitante ou extravagante, é só calmo e tranquilo – disse ela, sabendo que tinha um assunto espinhoso para abordar antes de ir embora e querendo acabar com aquela pequena discussão em algum lugar em que fosse improvável que Mikhail perdesse a calma. Kat estava tão longe do tipo usual de amante dele que sua fascinação com ela era incompreensível, Mikhail reconheceu impaciente, empenhando-


se tolerantemente para não franzir o rosto em desaprovação enquanto ela tomava mais uma bebida de chocolate repugnante de tão doce, que só poderia ser ruim para a saúde dela. Será que ela não se preocupava com seu bem-estar? Ou o fato de ser tão pobre quanto um rato de igreja? Qualquer outra mulher com a qual ele tivesse dormido teria, no mínimo, pensado em correr com ele a uma loja famosa para que ele a recompensasse por seu tempo com um presente de despedida: um novo guarda-roupa... Então, finalmente havia chegado: o momento de dizer adeus. Ele sentiria falta de Kat, reconheceu relutante, e


não apenas na cama. Sentiria falta de sua habilidade de desafiá-lo, de sua recusa em se impressionar pelo que o dinheiro dele podia comprar, mesmo da sua camaradagem fácil com sua equipe e seus convidados, embora ele não fosse sentir falta de sua ridícula obsessão com reality shows que exibiam um estilo de vida que ela, aparentemente, nem se interessava em ter. Sentir falta de uma mulher, ou sequer classificar uma mulher como capaz de lhe dar mais do que poucas semanas de diversão, não era uma experiência familiar para Mikhail. Ele sempre tinha acreditado que para cada mulher que ele deixava, outra, ainda mais atraente, logo


apareceria, e sua experiência confirmava aquela convicção. Ele continuaria em frente, como sempre fez, claro que sim. Ela sem dúvida o esqueceria depressa, refletiu sombrio, já que estava convencido de que Lorne a procuraria assim que soubesse que Mikhail a largara. Lorne Arnold estava bem interessado em Kat... esperando como uma ave de rapina para atacar. Ele se irritou, tentando não imaginá-la na cama com ele. Se sentiu enjoado. Mas por que a imagem o incomodava tanto? Não era possessivo ou ciumento, nunca tinha sido. Quando acabava, acabava. Não era como seu pai, o tipo que ficava


obcecado e bebia até morrer. Sentimentos não eram a praia dele, ele não se apegava. Essa era a questão: ele nem sequer se deixava vulnerável. – Em que está pensando? Você parece bravo. – Por que eu estaria bravo? – Ela o observava demais e era irritante. Ela sabia ler o que estava por trás dele muito bem e de alguma forma acabava com seu autocontrole. Poucas horas tinham se passado desde que ele havia esquecido de usar uma camisinha pela primeira vez na vida, mas aquele único instante de esquecimento acabou com seu equilíbrio. Ela precisava se afastar


dele, precisava que ela fosse embora para sua própria paz de espírito. – Eu não sei, mas certamente não parece feliz. – Estou bem – insistiu Mikhail, fazendo mentalmente uma lista do que não gostava em Kat. Ela fazia perguntas estranhas e se recusava a recuar, mesmo quando ele demonstrava insatisfação. Ela se aconchegava a ele na cama, o que na verdade era cativante, ele cedeu com relutância. Por outro lado, ela gostava do chuveiro muito mais quente do que ele e também gostava de comer coisas nojentamente doces, mas... Desde quando ele precisava de pensar em razões para dispensar uma mulher? Ele


compraria uma joia fabulosa a ela para demonstrar gratidão. Pegou seu celular para fazer os arranjos. Kat suspirou no minuto em que viu o telefone em sua mão magra. – Esta ligação é mesmo necessária? – perguntou ela, gentilmente. – Da... é. Kat balançou a cabeça. Teria sido inocente demais esperar que ele baixasse a guarda e conversasse com ela de verdade naquele último dia. Era patética. Tinha mesmo pensando que MIkhail faria o tipo romântico e lhe diria para ficar mais? Que sonho bobo, ainda mais quando ela precisava fazer as malas na casa de fazenda. Emmie já


tinha avisado que o sobrado com varanda do vilarejo estaria disponível para aluguel em breve. Não fazia o estilo dela, ser tão pouco prática, e já tinha passado da hora de dizer o que precisava ser dito sobre Birkside. – Temos algo para conversar – disse Kat. – Podemos conversar quando embarcarmos de volta – murmurou Mikhail abstratamente enquanto guardava o celular de volta no bolso. – Você já quer ir embora? Você sequer encostou no seu café. – Tem um biscoito na xícara. Eu não lido com o ordinário muito bem... Sinto muito.


– Está tudo bem. Você não está sendo julgado. Mas realmente preciso falar sobre aquele acordo legal que fizemos. – Isto são águas passadas. – Não, não são. Não posso aceitar a casa. Nas circunstâncias, pareceria demais um pagamento por serviços prestados no quarto. – Não seja ridícula! Eu ofereci a casa e você a aceitou, é um acordo fechado. – Eu não aceitei e não vou aceitar. A casa vale milhares e milhares de libras e isso é dinheiro demais comparado ao meu trabalho de anfitriã aqui. – Esta decisão é minha e não sua.


– Eu não vou aceitar que você devolva a casa. Eu pensei sobre isso e estou certa do que estou dizendo, Mikhail. Tudo mudou entre nós desde que fizemos aquele acordo e seria errado nos atermos a ele. – Você vai retomar sua casa... chega! – garantiu ele, com uma ponta de rosnado feroz. Com o canto dos olhos, ela viu Stas correr para pagar a conta enquanto mantinha um prudente olho treinado em seu empregador simultaneamente. Ela enrubesceu quando viu os clientes da mesa próxima olhando fixamente para eles.


Kat se aproximou de Mikhail antes que ele pudesse se afastar sem ela. – Eu precisava dizer como eu me sentia... – E agora você sabe como eu me sinto. Pare de me atormentar, Kat! Isso me tira do sério! – Eu não estou fazendo isso. Mas que eles possuíam opiniões diferentes estava claro, e quando o barco os levou de volta ao The Hawk, Mikhail escapou dela no minuto em que embarcaram. Kat desceu as escadas até sua suíte para fazer as malas, para que estivesse pronta para partir de manhã. Foi até a suíte de Mikhail para as coisas que havia deixado lá e, ao


voltar, foi surpreendida por encontrar Mikhail ali. – Você está guardando suas coisas... Kat concordou com dificuldade. – Isto é para você... – Mikhail jogou uma caixa de joalheria descuidadamente sobre a cama, aonde ela pousou, ao lado da mala dela. – Uma pequena amostra da minha... minha gratidão. Com o coração batendo muito rápido, Kat ergueu a caixa e a virou, para abrir e revelar um pingente deslumbrante de esmeralda e diamantes. – Nada pequena – disse a ele, surpresa pelo tamanho translúcido da


esmeralda e sua cor profunda e reluzente. – O que diabos você espera que eu faça com ele? – Use para mim hoje à noite. O que escolher fazer depois disso é problema seu. – Suponho que eu deva ter dito obrigada assim que abri a caixa, mas eu estava realmente surpresa pelo fato de você ter me dado algo tão caro – disse ela, em tom de desculpas. – Você esperava algo barato para combinar com essa mania de simplicidade? – Claro que não, mas não é uma mania, eu sou simples, Mikhail. E amanhã, vou voltar à minha própria


vida simples – comunicou Kat com uma dignidade silenciosa, enquanto colocava a caixa da joalheria sobre a penteadeira e a estudava com o coração pesado e um sentimento de desolação crescente. Aquela esmeralda espetacular foi a maneira de ele dizer adeus e obrigado. Ela sabia que seria assim, então porque o fato que ele a tratava exatamente da maneira que ela esperava que ele a tratasse machucava tanto? De alguma maneira, será que ela pensara que era diferente de suas predecessoras na cama dele, que significaria um pouquinho a mais para ele? A palidez agora se espalhava por sua compleição delicada


– Vejo você no jantar – ele disse a ela, e saiu. CORAÇÕES NÃO se partem, Kat se disse enquanto fechava o colar em volta de seu pescoço algumas horas depois. Os corações se amassam e se machucam. Ela iria para casa amanhã, venderia a esmeralda, compraria alguma segurança para ela e suas irmãs e encontraria um emprego. Uma vida nova esperava por ela, porque a perda da pousada estava forçando-a a se virar em uma direção alternativa. Uma batida soou na porta. Era Lara, que anunciou:


– O jantar está pronto... Vejo que você arrumou as malas e está pronta para ir. – Sim... – Você está chateada? – Não. Ficar no The Hawk tem sido uma experiência, mas não é com o que eu estou acostumada. Estou ansiosa para ir para casa, colocar meus jeans e fofocar com minhas irmãs. – Mikhail realmente excedeu as expectativas nesta noite com o jantar. Espero que ele não tenha estragado todos os outros homens para você. – Quem sabe? Lara não estava brincando, pensou Kat quando sua atenção recaiu sobre a


impressionante mesa de jantar ornada com linho cru, velas brilhantes e botões de rosas. Suas sobrancelhas se ergueram enquanto Mikhail irrompeu no salão falando ao celular em russo. Ele colocou o celular de lado enquanto a estudava com olhos avaliadores e perspicazes. – Você está deslumbrante esta noite – disse Mikhail, surpreendendo-a, porque ele raramente distribuía elogios. – A esmeralda realça o verde marcante dos seus olhos, pridi ka mne. Coquetéis Bellini foram trazidos à mesa e então a comida foi servida e Kat se sentiu cada vez mais mortificada, porque a entrada chegou, cozida em um formato de coração e com cada


afrodisíaco comestível conhecido pelo homem figurando no menu, acompanhados por uma boa porção de chocolate. Era como se fosse uma refeição do Dia dos Namorados exagerada, totalmente inapropriada para um casal à beira de se separar para sempre. – Suponho que tudo isso seja em sua honra. Pelo jeito, meu chef a adora, e é um escravo devotado. – François sabe que eu aprecio seus esforços. Infelizmente, nesta ocasião particular a comida maravilhosa de François foi desperdiçada com ela, porque Kat estava sentada lá pensando que nunca


mais iria jantar com Mikhail. O autocontrole rígido dele a deixava louca. Ela o observava, ansiosa por cada última impressão dele, seu olhar perturbado flutuando constantemente aos belos olhos inesquecíveis que iluminavam seu rosto bonito, a força que dominava seus traços, e não havia um sinal que ele estivesse experimentando um grama do arrependimento que a torturava. O restante da gloriosa trufa virou fel em sua boca. Por um momento de perigo, ela queria chorar e amaldiçoar os céus pelo que Mikhail não sentia por ela. – Estou bem cansada esta noite – disse ela.


– Vá para a cama. Eu vou mais tarde – suspirou Mikhail, seu sotaque sombrio e macio como uma carícia. A meio caminho para fora de sua cadeira, Kat congelou, porque não havia ocorrido a ela que ele pudesse esperar que ela compartilhasse a cama dele como sempre. – Espero que você não se importe, mas eu prefiro ficar sozinha esta noite. Mikhail franziu o rosto, porque havia alimentado a fantasia de vê-la reclinada em sua cama, com aquelas curvas pálidas embelezadas apenas pela esmeralda que havia comprado para ela.


– Não pareceria certo estar com você hoje – murmurou Kat. – Nós já acabamos e não posso fingir que não. Mikhail foi surpreendido por aquela declaração cândida e pela sugestão insultante de que ela precisasse fingir em seus braços, e sua boca teimosa se apertou com força. Deixe estar, pensou. Uma noite de celibato não era o que ele queria ou achava que merecia, já que a tinha tratado com carinho e respeito, mas não queria drama feminino. Com um pequeno sorriso estranho e um aceno de cabeça, ela se afastou rápido. O jantar tinha sido como a última refeição de um condenado, Kat pensou enquanto se arrumava para dormir, mas


ela não iria chorar. Tinha terminado e ela iria seguir em frente. Desde que tinham se conhecido, essa hora de mágoa e rejeição estava esperando por ela. Ele tinha dito todas as coisas certas, feito todas as coisas certas, mas não as sentia. A ligação entre eles era superficial, e significava menos para ele do que para ela. E assim ela se atormentou com pensamentos dolorosos que a deixaram rolando na cama sem dormir até acender a luz por volta de duas da manhã, e procurar uma revista, tentando aquietar seu cérebro ativo. Quando uma batida leve soou na porta que ligava seu quarto à suíte de


Mikhail, ela congelou como se um raio fulminante houvesse ecoado, e então escorregou da cama. Tinha trancado a porta, não com medo de que ele ignorasse sua vontade de passar a noite sozinha, mas porque queria sublinhar, para o próprio bem, que a intimidade deles tinha acabado. Agora, com o coração batendo rápido, ela destrancou a porta. – Eu vi a luz. Você também não consegue dormir? – Mikhail tinha se afastado alguns passos da porta, com seu corpo magro e poderosamente musculoso vestido apenas com uma cueca boxer. – Não, não consigo.


– Pridi ka mne... Venha comigo – murmurou Mikhail, com os olhos negros queimando como brasas sobre ela, demorando-se na curva generosa de sua boca macia. – Não posso – murmurou Kat. Seu coração bateu forte quando ela não pôde deixar de notar a barraca montada na roupa de baixo dele. – Está acabado agora. Nós terminamos. Kat fechou a porta rapidamente. Trincando os dentes, foi para a cama determinada a não se deixar perder o controle, com orgulho de ter mantido a disciplina. Mais sexo não curaria o seu coração e só pioraria a sua vergonha. Uma coisa era amar um homem, outra


era abandonar a própria autoestima por ele. Ignorou as lágrimas, determinada a não cumprimentá-lo pela manhã com olhos vermelhos e inchados que destruiriam seu orgulho. Praguejando, Mikhail foi tomar outro banho frio. Foi sexo, somente isso, ele disse a si mesmo. Não tinha nada a ver com o fato que a cama parecia vazia sem ela e ele sentia falta de sua conversa. Era lógico terminar aquilo, lógico se proteger. Quando se tratava de mulheres, ele era muito esperto e disciplinado para dar importância a sentimentos ilógicos e irracionais e desejos sexuais inequívocos.


DEPOIS DE uma noite insone, Kat pediu café da manhã no quarto, não vendo razão para ter outro encontro enervante com Mikhail. Quanto menos o visse, melhor. Se vestiu com cuidado, com um vestido azul e um cardigã, e usou mais maquiagem que o normal para esconder as olheiras Lara ligou para dizer que o helicóptero que a levaria para o aeroporto estava aquecendo. Havia um tom de satisfação na voz dela que até mesmo Kat não pôde deixar de notar. Lara, sem dúvida, estava feliz de ver Kat partindo, Kat reconheceu. Será que ela estava apaixonada por Mikhail?


Com as malas já recolhidas, Kat subiu as escadas de vidro pela última vez. Não sentiria falta delas. Eram confusas como um pesadelo colorido. Lá de cima podia escutar os funcionários gritando as preparações para a partida do helicóptero. Saiu no sol daquele dia lindo e logo viu Mikhail, o que a surpreendeu, pois não achou que o veria novamente antes de partir. Usando um terno leve e claro, com uma gravata de seda da cor de bronze, Mikhail a interceptou quando ela estava próxima ao helicóptero. – Kat... – Adeus.


– Eu não quero dizer adeus... – As palavras soavam como se tivessem sido arrancadas à força dele, porque fechou os lábios de novo com força; – Mas nós devemos. – Você está errada... Não existe dever. Kat piscou e franziu o rosto, e focou sua atenção no helicóptero e na confusão que o cercava, que sugeria que a aeronave estava pronta para uma decolagem iminente. – Fique... – Pediu Mikhail, com uma impressionante brusquidão. – O que você quer dizer? O rosto dele estava rígido com autodisciplina.


– Quero que fique comigo. – Mas está tudo organizado para eu partir... Você organizou isso! – ela lembrou a ele, em um desconcerto nervoso. O piloto fez um aceno e informou a Mikhail que o helicóptero estava pronto para ir. Mikhail o ignorou, mas quando Kat deu um passo na direção do piloto, uma das mãos dele, como um grilhão, circundou seu antebraço para impedila. – Fique! – Não posso! – Engasgou-se Kat, desconcertada pelo comportamento dele.


Mikhail fechou sua mão livre sobre o outro antebraço dela, mantendo-a cativa na sua frente. – Preciso que fique – murmurou ele, rouco. – Não posso deixá-la ir. Preciso de você. E aquele pedido a tocou como nada mais poderia ter tocado. Pelo espaço de um minuto tenso ela pensou que estivesse lidando com uma fantasia masculina muito provavelmente motivada pelo desejo sexual. Mas, “preciso de você”, de um macho tão incrivelmente autossuficiente e reservado quanto Mikhail, tinha um sério peso com ela.


– Você está me machucando – disse ela, trêmula. Mikhail praguejou, soltando-a no mesmo instante e dizendo algo em russo para Stas antes de se inclinar para recolher Kat com seus braços fortes e retornar para dentro do iate com ela. – Isso não pode estar acontecendo... Isso não está certo! – protestou Kat veementemente. – É a primeira coisa certa que fiz nesta semana – informou Mikhail a ela com uma convicção inabalável enquanto a carregava pelo salão e para fora do deque privado, aonde ele se afundou em um sofá, com ela ainda


agarrada firmemente em seus braços. – Você vai ficar comigo, moyo zolotse. – Mas você não pode simplesmente mudar de ideia deste jeito no último minuto. – Se eu reconhecer que tomei uma decisão errada, não devo consertá-la? Kat, você tem alguma ideia de quanto é raro eu admitir estar errado? Ela fazia uma ótima ideia, mas ele a tinha deixado confusa demais. Ela tinha se preparado para ir embora, usado cada pedaço da sua força de vontade. Aquela mudança dele, no entanto, tinha passado por cima das barreiras dela como um trator.


– Eu não posso ficar com você. Tenho uma vida e uma família para a qual voltar, Mikhail. Você terminou comigo. Acabou... era o que você queria. – Se estivesse genuinamente acabado, eu teria deixado você ir. Ficar com você foi instintivo – confessou Mikhail com dificuldade. Instintivo? O que aquilo queria dizer? Em um momento ele estava mandando ela embora, no outro a trazendo de volta. – Mas o que acontece agora? – Sussurrou ela, insegura, com frio e tremendo, mesmo nos braços dele. – Vou levá-la para casa comigo.


– Você vai me levar para casa com você? Sou um bicho de estimação, agora? – Estou pedindo que venha morar comigo. Nunca fiz isso antes. Kat pensou na ideia, surpresa e alarmada pelo quanto gostava dela. Mas seria definitivamente um compromisso, registrou, meio tonta, e seus olhos estavam transbordando com lágrimas que ela conteve com tanta força. – O que está errado? – Nada! Só um vazamento! Mas não posso simplesmente me mudar para morar com você. Tenho compromissos, também.


– Suas irmãs? Eu cuidarei delas como se fossem minha própria carne e sangue. – Mas eu tenho que resolver a fazenda, fazer arranjos. – Deixe todas essas responsabilidades comigo. Você vem morar comigo, toma conta de mim e da minha casa e isso é tudo. Compreendido? Kat fechou os olhos apertados porque as lágrimas ainda brotavam e ela estava contendo um soluço e amando-o e odiando-o simultaneamente: amando-o por ter reconhecido que eles encontraram algo especial, odiando-o por despejar isso sobre ela no último minuto.


– E se você mudar de ideia de novo? E se não for isto que você quiser em umas poucas semanas? – Este é um risco que estou preparado para correr. Sempre serei honesto com você e não quero perdê-la. Kat respirou fundo e lutou para acalmar as batidas de seu coração. Deuse conta de que não poderia esperar que ele dissesse muito mais, eles teriam de aprender a conviver um com o outro. Mikhail não queria perdê-la, mas quase a deixara ir. Quão perto estivera de perdê-la, sempre a assombraria. Se ela tivesse entrado naquele helicóptero, será que Mikhail teria ido atrás dela?


– Tenho uma casa na cidade que acredito que a agradará. Você pode convidar suas irmãs para visitá-la, como se estivesse em sua própria casa, e na próxima semana irá ao casamento de Luka como minha acompanhante. Os dedos dela o puxaram pela camisa, seus olhos verdes percorrendo cada centímetro de seu rosto bonito, enquanto seu coração disparava no peito. Ele acariciou o lábio dela com um toque delicado de seu dedo. – Vai dar tudo certo, você verá – disse ele com sua habitual confiança em si mesmo e então a beijou, com urgência apaixonada.


No fim daquele dia, deitada na cama dele, com seu corpo delicado e macio à mercê dos desejos e da fome dele, Kat se perguntou se estava sendo uma tola por concordar em ficar. Será que estava simplesmente adiando uma decepção amorosa e um coração partido? Estaria se negando a encarar um rompimento doloroso? Kat o amava loucamente, mas tinha medo de que ele estivesse simplesmente atendendo à luxúria que sentia e que não estava pronto para abandonar.


CAPÍTULO 10

MIKHAIL

atenção ao advogado apenas porque tinha pago generosamente por todos aqueles conselhos sobre como poderia se proteger financeiramente. Mas estava irredutível quanto à necessidade de oferecer a Kat outro acordo legal, desta vez, alguma coisa que fizesse jus ao seu status de amante dele. De jeito nenhum cometeria o mesmo erro! Ele ainda DEU


estava ouvindo muito sobre acordo anterior, e de qualquer forma sabia que Kat não tinha um pingo de ambição. Ela havia, várias vezes, rejeitado a oportunidade de enriquecer à custa dele. Ainda que estivesse desesperada por dinheiro para liquidar suas dívidas quando se conheceram, o valor cobrado pela estadia de uma noite na casa antiga dela tinha sido ridiculamente modesto. – Minha namorada não é uma caçadora de fortunas – murmurou Mikhail calmamente. – Eu não sou tolo. Posso farejar uma alpinista social a mais de um quilômetro. – As circunstâncias mudam, as pessoas mudam – advertiu o advogado,


com cuidado. – É de fundamental importância que você pense no futuro e tome as devidas providências para se proteger. Mikhail pensou que havia passado a vida se protegendo, de um jeito ou de outro, logo não havia nada de novo na ideia. Proteger-se era sua segunda natureza. Sabia que ainda estava meio zonzo com a deliciosa sensação de permitir que Kat tivesse acesso à sua vida, pelo menos temporariamente. Aquilo provara ser uma excelente jogada, e ele estava certamente colhendo os benefícios, todos os dias. Se fosse possível engarrafar a essência de Kat, Mikhail estaria constantemente


bêbado. Um sorriso vago curvou seus lábios quando se lembrava de Kat em sua banheira, Kat em sua cama, Kat em sua mesa de jantar, Kat... Quando e onde ele a desejava. Depois de apenas seis semanas, ele estava feliz em constatar que sua nova organização doméstica era a essência da perfeição. Ainda melhor, ele havia sido bemsucedido exatamente onde seu pai tinha falhado em seus relacionamentos com as mulheres. O verdadeiro segredo estava na moderação. Mikhail não se permitia o prazer da companhia de Kat todas as noites; cuidadosamente racionava a presença dela em sua vida para garantir que não se tornasse


essencial para seu conforto. Às vezes, permanecia deliberadamente no trabalho, no centro, alegando ter muito trabalho. Às vezes não telefonava, apesar de Kat estar se especializando em ligar para Mikhail para perguntar por que ele não havia telefonado, o que atrapalhava bastante as tentativas de impor limites. Mas, de qualquer forma, Mikhail estava certo de que enquanto permanecesse no controle, não teria problemas. – Você está pensando em se casar? – perguntou o advogado em um momento de coragem. Mikhail franziu a testa e comprimiu os lábios com a pergunta.


– VOCÊ ACHA que o seu russo está pensando em casamento? – perguntou Emmie à irmã no exato momento em que fechou o zíper do vestido que Kat experimentava em um provador espaçoso. – Você sabe se... vocês morarem juntos é um teste para o grande passo? – Não. Mikhail parece feliz com o que temos agora – respondeu Kat, pensativa. – Ele é muito cauteloso... O que você acha deste vestido? – O prateado chama mais a atenção. Eu já disse isso– repetiu Emmie, acariciando sua barriga, que revelava a gravidez adiantada, enquanto se olhava no espelho. – Só não quero que você se


machuque, Kat... E Deus sabe, você não está ficando mais jovem... – Como eu precisasse de um lembrete – comentou Kat, com uma risada irônica. – Sim, mas você precisa pensar nisso, seriamente. Se deseja ter filhos algum dia, você não tem muito tempo a perder. – Emmie, há poucos meses sequer havia um homem em minha vida – lembrou Kat, séria. – Eu certamente não posso esperar que a primeira pessoa que aparece depois anos vá querer começar uma família comigo. Seria demais a pedir de um homem que tem pavor a compromisso.


– Você já discutiu o assunto com Mikhail? – perguntou Emmie. Kat ficou tensa, seus pensamentos voltando várias semanas, para a noite em que descobrira, no iate, que sua pouca atenção ao método contraceptivo não resultou em uma gravidez. Mikhail tinha absorvido a notícia sem comentários, não revelando alívio ou pesar, mas Kat tinha ficado chocada com a forte onda de decepção que a atingira. Ela havia passado tantos anos criando as irmãs e, por isso, sempre acreditara que não desejaria para si a responsabilidade de ter filhos. Mas infelizmente, de alguma forma esse tempo com Mikhail a deixara cheia de


desejo de ter um bebê, apesar de estar convencida de que o relacionamento deles não era desse tipo. Mikhail a trouxera para a vida dele, mas não parecia preocupado em construir um relacionamento verdadeiro, refletiu Kat com tristeza. Ele a tinha mudado para sua Danegold Hall, sua impressionante casa de campo georgiana, e pediu a Kat que cuidasse de tudo e fizesse as mudanças necessárias, mas aquele gesto não era uma tentativa de aprofundar o relacionamento deles, posto que os machos da espécie realmente não ligam para decoração, desde que se sintam confortáveis no lugar. Ele tornou tudo


mais fácil para ela, contratando uma equipe de mudança. Os objetos e as peças de mobiliário que Emmie não quis foram armazenados em um celeiro na propriedade. Emmie estava morando na fazenda agora, traçando planos de abrir um negócio, enquanto ganhava a vida com um emprego comum que tinha arranjado na cidadezinha mais próxima. Em seus dias de folga, Emmie pegava o trem para se encontrar com a irmã em Londres, onde faziam compras. Naquele dia em particular, estavam procurando por um vestido para Kat usar no casamento de Luka Volkov. – Kat? – insistiu Emmie.


– Olha, Mikhail só tem 30 anos. Ele tem muito tempo para pensar em começar uma família e, naturalmente, não está com pressa – disse Kat. – Mas se ele ama você... – Eu não acho que ame. E não acho que estamos um relacionamento que vai durar para sempre – confidenciou Kat, pagando pelo vestido prateado com um dos cartões de crédito que ele tinha insistido que ela aceitasse. Mesmo assim, não gostava de ser uma mulher mimada, e teria preferido arrumar um emprego. Mas ele a queria livre quando ele estivesse livre, e pronta pra viajar se necessário, e não havia como viver assim e administrar a casa


enorme e o próprio Mikhail se precisasse trabalhar todos os dias. Precisava se perguntar o que importava mais: seu orgulho e independência ou o amor. E o amor ganhou, porque quando Kat não estava sendo atormentada pelas irmãs e suas perguntas, estava mesmo feliz, mais do que jamais achou que pudesse estar. Ele era o sol, a lua e as estrelas para ela, mas sabia que precisava aceitar que, sem casamento, relacionamentos assim acabavam. O celular dela tocou. Era Mikhail. – Encontre-me no escritório e vamos almoçar, Katya moya – pediu Mikhail


com voz rouca, seu sotaque profundo fazendo-a estremecer. Kat sorriu ao telefone, encantada por ele estar tão ansioso para vê-la. Mikhail tinha ficado em seu apartamento na cidade na noite anterior e ela sentira falta dele. Possivelmente ele tinha sentido saudade dela também, pensou com satisfação, caso contrário, estaria disposto a esperar até que pudesse voltar para casa naquela noite para ficar com ela. Emmie lançou-lhe um olhar severo. – Mikhail é seu dono... Não gosto nada disso. Os olhos de Kat arregalaram-se de espanto.


– Que diabos você quer dizer? – Você age como se fosse viciada nele – disse Emmie, deixando clara sua reprovação. – Topsy também notou isso, no fim de semana que passou com você: quando Mikhail aparece, você não vê mais ninguém. – Eu amo Mikhail e eu não acho que Topsy seja prejudicada de qualquer maneira por ver que eu adoro o homem com quem vivo – afirmou Kat, desejando saber mais sobre as circunstâncias da gravidez de Emmie, porque a cada semana, a irmã parecia odiar os homens, mais e mais. Uma limusine levou Kat para a sede da empresa de Mikhail, em Londres.


Ela foi acompanhada por Ark, o mais novo dos irmãos de Stas. Kat achava que Mikhail parecia obcecado pela ideia de que ela poderia ser assaltada ou atacada a qualquer instante, e tinha insistido para que aceitasse a companhia de Ark sempre que ela saía. Reconhecendo a preocupação de Mikhail, Kat tinha cedido, mas frequentemente sentia pena dele, reduzido a uma babá de luxo enquanto ela fazia compras e fofocava com as irmãs em cafés. Mikhail estava em uma reunião quando Kat chegou e, depois de encostar suas sacolas de compras contra a parede, se acomodou no escritório de


Lara para esperar, enquanto Ark ficava de guarda no corredor. Lara atravessou a sala para cumprimentá-la com um sorriso de boas-vindas e inclinou-se para observar mais de perto o pingente de esmeralda que Kat usava. – Posso vê-lo? – Pediu gentilmente. Kat corou, constrangida, e assentiu, sentindo-se desconfortável enquanto Lara examinava a esmeralda minuciosamente. Ela imaginou que Lara consideraria a peça muito cara e chamativa para ser usada em uma simples manhã de compras e Kat também era dessa opinião. Mas Mikhail adorava ver Kat com a esmeralda em


volta do pescoço e ela a usava com frequência para agradá-lo. – É uma joia magnífica – comentou Lara, mal conseguindo controlar sua inveja. – Dizem que o chefe nunca gastou tanto com uma mulher, então você deve se sentir bem satisfeita. Surpresa, Kat ergueu uma de suas sobrancelhas finas e encarou Lara, sem saber se ela realmente pretendera usar aquele tom cruel. – Não, não é assim que eu me sinto. Eu só me sinto... Feliz – respondeu, ofendida com a insinuação. – É claro que você está feliz. Por que não estaria? Suka! – disse Lara, de forma agressiva. – Mas eu poderia lhe


contar uma coisa que varreria esse sorriso presunçoso de seu rosto! Agora segura de que sim, Lara queria mesmo ser cruel, Kat tentou interromper a conversa. – Não acho que seja uma boa ideia, Lara. – Bem, vou falar, queira você saber ou não! – Lara praticamente cuspiu as palavras para ela. – Lembra-se da noite em que você deveria deixar o iate? Mikhail passou a noite comigo. É isso que você significa para ele. Kat ficou pálida. De repente, as palmas de suas mãos estavam úmidas. Por um momento, mal pôde entender as palavras que tinha acabado de ouvir


e só sabia que estava sendo atacada verbalmente. – Será que você não percebe que ele dormiu comigo também? – Perguntou Lara, erguendo uma sobrancelha diante do que julgava ser uma demonstração de estupidez. – Eu não faço exigências e estou sempre disponível... Do nada, a força voltou ao corpo tenso de Kat e ela se levantou. Encarou o rosto furioso de Lara e se retirou da sala, ignorando a presença de Ark junto aos elevadores e seguindo na direção das escadas. Precisava de um tempo sozinha para pensar sobre o que Lara tinha dito e sobre o que faria a respeito. Disparou escadaria abaixo, lance após


lance, sem de deter ao ouvir os gritos de Ark atrás dela, sem desejar ver ou falar com que quer que fosse. Seus pés apressados levaram-na para fora do prédio, para o meio da multidão anônima que enchia as calçadas na hora do almoço. Seu coração batia tão forte que Kat estava convencida de que podia escutálo. Seguia em frente, sem ter realmente para onde ir. Só quando os sapatos de salto a fizeram recordar-se que não eram o calçado ideal para longas caminhadas, foi que cedeu e se arrastou para um café, sentindo dores nos pés. Ela se acomodou e pediu uma xícara de chá, ainda atordoada, como se tivesse


acabado de encarar um acidente. Nesse instante, seu celular tocou e ela o apanhou em sua bolsa. Verificou que tinha recebido algumas ligações de Mikhail e desligou o aparelho. Não queria falar com ninguém, não sou obrigada a falar com ele, consolou-se. Kat se deixou ficar ali, simplesmente bebericando seu chá e lutando contra a turbulência de emoções que a impedia de ordenar seus pensamentos racionalmente. Lara era muito bonita, sofisticada e fina, o tipo de mulher que Kat acreditara a vida toda que seria a escolha de um homem como Mikhail. Por que mentiria? As palavras dela


faziam todo sentido: era muito provável que tivesse passado com Mikhail a noite que ele não passara com Kat. As outras noites, sim, eles haviam passado juntos, mas a noite que Lara mencionara, bem, Kat havia passado sozinha. Mikhail tivera motivo e oportunidade. Será que ele havia tirado vantagem disso? Será que ele tinha um relacionamento casual com sua secretária desde antes de conhecer Kat? Ela estremeceu com a suspeita, cheia de dor, ciúme e um crescente sentimento de desespero. Em seu escritório, depois de toda a comoção que a saída repentina de Kat causara, Mikhail também estava pensando em más escolhas e sua


expressão era tão dura quanto granito. Ele havia acabado de descobrir que sua tentativa de manter o controle sobre seu relacionamento com Kat tinha uma grave falha de projeto. A política de moderação acabara de virar sua inimiga: Kat sequer atendia seus telefonemas. E agora ela estava sabe Deus onde, sozinha, perdida, triste, talvez infeliz o suficiente para se jogar na frente de um ônibus ou qualquer coisa assim, pensou ele tomado por um medo avassalador que ameaçava sua tão bem construída autodisciplina. Enquanto tomava sua xícara de chá e buscava retomar a calma, Kat se deu conta de que, não importando o que


decidisse fazer de sua vida dali por diante, precisaria, antes, voltar a Danegold Hall. Seu passaporte, documentos importantes, tudo o que ela não podia deixar para trás, estava lá. Estremecendo e lutando contra a angústia, dirigiu-se para a estação ferroviária. Queria evitar encontrar-se novamente com Mikhail, mas precisava ser prática. De qualquer forma, se ele tivesse qualquer consciência, estaria igualmente ansioso para evitá-la, e uma discussão sobre a revelação de Lara. Ark tinha ouvido pelo menos um pedaço da conversa e, sem dúvida, já havia contado a seu irmão, Stas, que


diria a Mikhail que o que havia acontecido. Na viagem de trem, Kat não prestou atenção ao cenário, ocupada com o desfile de imagens mentais que a atormentava. Seu cérebro estava fabricando visões que jamais tivera de Lara e Mikhail juntos na mesma sala, em busca de algum sinal, olhar ou comportamento que comprovasse as afirmações de Lara. Mikhail parecia tratar Lara sempre da maneira mais profissional e distante possível. Kat não testemunhara sequer um momento de intimidade entre eles. Será que Mikhail seria capaz de fingir tão bem? Será que ele poderia tratar


uma amante como se fosse nada mais do que uma funcionária qualquer? Kat franziu a testa. Em sua experiência, Mikhail tinha uma natureza franca e direta e era fácil saber quando estava irritado ou preocupado. Mas ela também tinha de levar em conta que ele mesmo dizia que ela podia ler seus pensamentos. Na ocasião, Kat quase lhe dissera que aquilo acontecia porque ela o amava e o amor parecia ter aguçado seus poderes de percepção. Por outro lado, os homens não consideram relacionamentos casuais, o que Lara afirmara ser o que tinham, como compromisso. Será que Mikhail tinha se divertindo com Lara enquanto


Kat tentava se decidir se iria ou dormir com ele? Oh, Deus, apenas a suspeita já era humilhante. Até aquele momento não havia ocorrido a Kat o quanto tinha valorizado a aparente disposição de Mikhail em esperar que ela se decidisse a compartilhar sua cama ou sua suposição natural que nenhuma outra mulher estava satisfazendo suas necessidades enquanto ela estava indisponível. Ao descer do trem Kat pensou que teria de chamar um táxi e esperar, porque não havia avisado a ninguém sobre sua chegada. Mas, para sua surpresa, foi recebida na plataforma por um dos motoristas de Mikhail. Kat


entrou no carro com o coração apertado. Teria ele adivinhado que ela estava voltando? Kat seria obrigada a participar de alguma cena sórdida que envolvesse Lara? Claro que, se ele estivesse em casa e ela quisesse apanhar seus pertences e ir embora, teria de dar algumas explicações. Kat consolou-se com a ideia de que só muito raramente Mikhail podia ser encontrado em casa durante o dia no meio da semana. Ela deveria odiá-lo, pensou dolorosamente, perguntando-se qual era o seu problema. Talvez não estivesse raciocinando direito, ainda em estado de choque por descobrir que Mikhail não era o homem que ela sinceramente


acreditava que fosse. Ele era irresponsável, indigno de confiança e desonesto, o que Kat jamais poderia imaginar, julgando pela forma como ele a tratava. Ironicamente, Mikhail a tinha tratado muito bem. Então, será que ele não dava importância à monogamia? Ela se lembrou dos grupos de jovens ansiosas que o cercavam a cada vez que ele saía em público, e que era óbvio que, muitas vezes, Mikhail se sentiria tentado. Porém, dormir com alguém que trabalhava para ele estava muito além do perdão Kat subiu os degraus até a porta da frente, que já estava aberta por Reeves, o imperturbável mordomo de Mikhail.


Com um sorriso triste, passou por ele e foi direto para o quarto que dividia com Mikhail. Seus documentos estavam em um baú que ficava no closet. Kat os apanhou e tentou localizar uma mala disponível. Mal podia acreditar que estava deixando o homem que amava, não podia suportar nem mesmo pensar sobre isso, mas sabia que não tinha escolha. Lara só poderia saber que Mikhail não tinha dormido com Kat naquela noite se tivesse mesmo dormido com ele. Kat mal conseguia processar o fato. Separou algumas peças básicas de verão. Pegaria apenas o necessário para algumas semanas e pediria que o


restante fosse enviado a ela. Supôs que voltaria para a fazenda, para viver com Emmie, e sabia que a irmã ficaria feliz em ter companhia. – Você sequer vai me dar a chance de me defender? Kat congelou e se virou para ver Mikhail na porta, seu belo rosto sério e tenso depois de fazer a pergunta. Ele havia descartado a gravata e o paletó, e seus olhos eram diamantes escuros e penetrantes. Kat imaginou que ele rebateria as afirmações de Lara. Ela desviou o olhar, porque sentia que o coração se estilhaçava dentro do peito. – Kat? – chamou ele.


– Sim, ouvi o que você disse, mas realmente não sei como responder. Às vezes é melhor não dizer nada. Não quero discutir com você, qual seria o motivo? – Nós, Kat. Nós seríamos o motivo – rosnou Mikhail. – Não vale a pena lutar pelo que temos? A roupa que Kat tinhas nas mãos caiu no chão e ela se virou para ele com um olhar furioso de reprovação. – Está bem. Você dormiu com ela? – Não – respondeu Mikhail de forma sucinta, estreitando os olhos escuros em um desafio. Kat voltou a enfiar roupas na mala;


– Bem, é claro que você vai me dar essa resposta. – Para que diabos perguntou, então? – rugiu Mikhail. – Você sabe que me fez passar pelo inferno esta tarde? Recusando-se a sentir-se intimidada pelo rugido do leão, Kat continuou a fazer sua mala. – Também não tive a mais agradável das tardes... – Bem, primeiro tive de acabar com uma a crise teatral de uma funcionária e, quando entendi o que estava acontecendo, você tinha sumido! – Disse ele, enfatizando a última palavra. Furiosa, Kat se virou para Mikhail. – Eu não sumi!


– Como acha que eu me senti quando você saiu correndo após os absurdos que Lara disse? Eu estava preocupado com você! – Disse Mikhail, furioso. – Sabia que você estava chateada e... Kat ergueu uma sobrancelha e se virou para Mikhail, odiando-o por pensar que era por causa dele que ela se comportara daquele jeito. – Como você poderia saber que eu estava chateada? Você tem acesso aos meus pensamentos, por acaso? Eu não estava chateada. Naturalmente, fiquei surpresa e, sim, um pouco enojada. E precisava de um tempo sozinha.


– Você precisava de tempo para si mesma para permitir que o veneno de Lara começasse a circular em sua corrente sanguínea! – Disse Mikhail, enfurecido, cheio de ironia, erguendo a voz. – Não se atreva a gritar comigo! – Gritou Kat de volta para ele. De repente, o quarto ficou no mais absoluto silêncio. Mikhail respirou profunda e lentamente, retomando a calma. – Não tive a intenção de gritar. – Quando você é acusado de infidelidade, não é boa ideia entrar em casa como um touro em uma loja de porcelana – disse Kat de forma seca.


– Injustamente acusado – disparou Mikhail de volta, seus deslumbrantes olhos escuros fumegantes com o aborrecimento. – E esse fato é crucial. – Mikhail... – Kat engoliu em seco, ordenando seus pensamentos agitados, a tristeza curvando os ombros como um peso gigante do qual não poderia esquivar-se. – Lara sabia que nós não passamos juntos a última noite antes que eu deixasse o The Hawk. Ela teria de ter estado com você naquela noite para saber disso. – Não! Claro que não! – alarmou-se Mikhail. – Ela estava ao lado da porta do escritório e nos escutou conversando durante o jantar naquela noite! Ela


ouviu quando você me disse que preferia dormir sozinha. Então, se essa é a sua única prova contra mim, você não tem nada. Kat piscou, atônita. – Você tem certeza que foi assim que ela descobriu tudo? – Claro que sim! De que outra forma ela poderia ter descoberto? – respondeu Mikhail praguejando em russo. – Kat, você me viu às 3h daquela mesma noite e eu ainda estava no meu próprio quarto – ele lembrou a ela. – Sim, mas... Mikhail apanhou o celular no bolso e digitou alguma coisa.


– Assista isso aqui... – insistiu ele. – Stas foi inteligente o suficiente para gravar Lara gritando comigo. Kat voltou os olhos para a tela, viu uma agitação, ouviu uma gritaria e, de repente, o borrão tornou-se Lara, o cabelo louro movendo-se descontroladamente enquanto ela berrava, parecendo furiosa. – Por que você não me quis? Eu teria sido sua a qualquer momento! O que há de errado com você para não me querer? Ela é uma velha, ela é passado! Como você pôde escolher aquela mulher? Kat ficou paralisada. A perturbada Lara da tela ainda gritou mais algumas


palavras até que, de repente, pareceu dar-se conta de que estava sendo gravada, e então lançou-se descontrolada contra Stas, que interrompeu a gravação. – Quer assistir de novo? – perguntou Mikhail. – Não... – respondeu Kat, ruborizada, transtornada pelo constrangimento. Dera ouvidos a fantasias histéricas, aceitando mentiras ridículas como fato concreto. Suas pernas estavam bambas e ela se sentou na beira da cama com as palavras “Ela é uma velha, ela é passado!”, ainda soando desagradavelmente nos ouvidos.


– Ark ouviu tudo o que ela disse para você. Ele ficou curioso quando a ouviu dirigindo-se a você com uma palavra rude em russo. Ele me contou, eu a confrontei e, como você viu, ela enlouqueceu. Houve muito mais que Stas não conseguiu gravar. Ela estava com ciúmes de você e furiosa porque eu não a quis. Tudo o que aconteceu hoje foi culpa minha. – Como assim, foi sua culpa? – perguntou Kat. – Lara se insinuou para de mim quando eu a contratei. Aconteceu muitas vezes, mas não considerei isso motivo suficiente para despedi-la. Kat estava surpresa.


– Você... Não? – Deixei claro que não estava interessado e isso costuma ser o suficiente para pôr fim a esse tipo de comportamento, mas Lara é extremamente vaidosa e seu ressentimento cresceu quando você entrou na minha vida. Suspeito que ela já havia tentado causar problemas entre nós de formas mais discretas. Provavelmente, a maquiagem desastrosa que você usou em nosso primeiro jantar foi de responsabilidade dela. – E não me dizer quando encontrar com você – disse Kat.


– E persuadi-la a vestir vermelho naquela noite no clube... Eu odeio a cor vermelha, sempre odiei. – Essas coisas pequeninas, que vão se acumulando entre um casal – disse Kat, pensativa. – Sinto-me grata por ela não ter conseguido causar mais danos. – Lara não é inteligente o bastante para perceber que um homem não sente atração apenas pela aparência da mulher. Kat não tinha certeza de como deveria entender essa afirmação. Mikhail riu alto, quebrando o silêncio tenso. Sentou-se ao lado dela na cama e disse:


– Eu a acho muito mais bonita do que Lara. – Isso é impossível. Eu sou uma velha. – Você me arrebatou, desde a primeira vez que a vi. Você tinha classe e força, e não cedeu aos meus apelos, o que me surpreendeu. – Foi bom que uma mulher lhe dissesse não, foi uma boa mudança – rebateu Kat com uma petulância bemhumorada que dissipou o que restava da tensão. Mikhail a puxou para junto de si. – Foi bom, mas hoje o medo de perdê-la quase me fez desabar – admitiu Mikhail.


– Eu estava tão determinado a permanecer no controle da nossa relação e a não ceder aos sentimentos fortes que nutro por você... E de repente, a perspectiva de perder você me fez entender que todo o resto não importa – Sentimentos fortes? – perguntou Kat. Gentilmente, Mikhail fez com que ela voltasse o rosto para ele. Seus olhos estavam inundados de desejo. – Eu amo você, Kat, demais. Tanto que não consigo contemplar uma vida sem você. Mas até hoje, encarei tal sentimento como uma fraqueza e uma falha. Eu vi meu pai se acabar na bebida


depois da morte da minha mãe. Ele era cruel com ela e nunca foi fiel, mas quando ela morreu, a vida perdeu o sentido. Meu pai era muito mais dependente dela do que qualquer um de nós jamais tinha percebido – disse Mikhail com tristeza. – E eu temi passar pela mesma coisa, depender tanto de uma mulher. Quis me proteger desse sentimento, porque tenho a mesma personalidade intensa dele. E, então, conheci você e, desde o início, você teve um efeito enorme sobre mim. O frio que ainda insistia em congelar o coração de Kat foi afastado pela ternura do olhar dele e pela sua honestidade, e ela deitou a cabeça no


peito largo e musculoso de Mikhail, adorando sentir novamente o cheiro familiar dele, enquanto uma sensação de calma e segurança enchia seu peito. – Eu também te amo – sussurrou ela. – Você deve ter adivinhado o que eu sentia por você naquela manhã em que a impedi de embarcar. Tentei deixá-la ir, mas vi que não suportaria se você não estivesse aqui. A noite anterior tinha sido a mais longa da minha vida. Eu queria você. Eu precisava de você. Você já era a dona de meu coração. – Isso pode ser verdade, mas você foi muito bom em esconder– disse Kat, apesar de lhe ocorrer que, nas últimas semanas, Mikhail tinha provavelmente


demonstrado seus sentimentos cada vez que olhava para ela, cada vez que a tomava em seus braços no meio da noite. Mas tinha sido muito insegura para reconhecer e interpretar o que estava acontecendo. – Eu não vou esconder mais nada. Se você soubesse que eu a amava hoje mais cedo, talvez tivesse se sentido mais inclinada a falar comigo e confiar na minha palavra, em vez de dar ouvidos a Lara. Você teria acreditado em mim sem ter visto a gravação? – Sim, teria. Uma parte de mim não conseguia acreditar que você se comportaria daquela maneira – reconheceu Kat.


Mikhail tomou a mão dela e colocou uma aliança em seu dedo anular. – Ando com essa aliança no bolso desde o dia em que você se mudou. Kat olhou para o diamante fabuloso com olhos de puro espanto. – Mas você relutou em colocá-la em minha mão? – Sim. Sou um homem teimoso, lubov moya – resmungou Mikhail. – Isso significa “meu amor” e você é a única mulher que eu já amei. Você teve a chance de ver o pior de mim... Ainda quer se casar comigo? O mais rápido possível? – Ah, claro que sim, absolutamente – disse Kat, empurrando-o contra o


colchão, em um rompante de entusiasmo. – Assim que os arranjos forem feitos... Mas para isso, precisamos sair da cama, o que eu não planejo fazer tão cedo – disse ela, com olhos brilhantes dos quais a última sombra de insegurança tinha desaparecido. Um sorriso satisfeito, perigoso, brotou nos lábios dele. – Eu devia ter colocado essa aliança no seu dedo no dia em que comprei. – Sim, devia. Você é teimoso e aprende devagar – zombou Kat –, mas você a comprou semanas atrás, o que o faz ganhar pontos extras... não que precise deles.


– Eu só preciso de você – disse Mikhail, correndo os dedos no cabelo castanho-avermelhado de Kat. – E eu não vou me sentir seguro até ver minha aliança em sua mão esquerda. O celular dele tocou. – Desligue isso – pediu ela. Um toque de surpresa brilhou nos belos olhos de Mikhail– Teria eu criado um monstro? – murmurou ele, divertido. Kat acariciou-o, lenta e sensualmente, correndo a mão na coxa musculosa de Mikhail, que ficou sem fôlego, tanto pelo toque, quanto pela antecipação do que viria a seguir.


– Vou desligar o celular – garantiu ele. – Às vezes aprendo bem depressa, dusha moya. Kat se inclinou sobre ele para beijá-lo com uma confiança que nunca tinha sentido, enquanto tentava manter algum controle sobre a felicidade avassaladora que a tomava de assalto em ondas gloriosas. Ele era dela, enfim, absolutamente dela, seu sonho se tornara realidade, e algum dia ele aceitaria que ser obsessivamente apaixonado por uma mulher que o amava tão intensamente poderia ser maravilhoso, nunca ameaçador.


EPÍLOGO

TRÊS

mais tarde, Kat estava parada junto aos berços no quarto dos bebês em Danegold Hall, orgulhosamente observando seus gêmeos, Petyr e Olga. Eram ambos pequeninos, cabelos escuros e olhinhos de recém-nascidos, ainda azul-escuros, mas lentamente tornando-se verdes. Petyr era agitado, inquieto e dormia ANOS


muito pouco, enquanto Olga era um bebê muito mais tranquilo. Kat os considerava seu milagre pessoal, e dois meses após seu nascimento, ela mal podia acreditar que eram seus. Afinal, depois que ela e Mikhail se casaram, Kat não engravidou rápido como esperava. Após uma bateria de testes de fertilidade, que não chegaram a nenhum resultado conclusivo, ela havia feito um tratamento de fertilização in vitro em uma clínica russa muito conceituada. O processo foi estressante e difícil para Kat. A primeira tentativa se revelou frustrante e ineficiente, mas ela conseguiu engravidar na segunda. Kat


era incapaz de descrever a alegria sem limites que experimentou quando viu as duas pequenas formas em seu ventre na ultrassonografia, algumas semanas mais tarde. Mal havia percebido a emoção que a atingira, até que Mikhail, que estava bem ao seu lado durante o procedimento, secara suas lágrimas. O nascimento dos gêmeos tinha sido um alívio para Mikhail, que não a deixara longe de seus olhos por mais de 12 horas durante toda a gravidez. A perda de sua mãe durante o parto do irmão ainda o assombrava e tinha lhe deixado a impressão de que partos eram a coisa mais perigosa do mundo, mesmo para uma mulher saudável. Só


então Kat foi, realmente, capaz de compreender o motivo pelo qual Mikhail tivera o cuidado de lhe dizer que não se preocupava com filhos, tudo o que desejava era ficar com ela pelo resto da vida. Kat tinha ficado magoada na ocasião, achando que Mikhail não queria um bebê, mas estava enganada. Mikhail passara toda a gravidez apavorado que alguma coisa pudesse sair errada, e contratou tantos médicos para acompanhá-la no parto que ela poderia muito bem estar dando à luz sêxtuplos em vez de gêmeos. Seus olhos ainda ardiam quando se lembrava de Mikhail puxando-a contra seu corpo logo depois, mal reconhecendo a


existência dos gêmeos recém-nascidos, para sussurrar com a voz trêmula: – Graças a Deus você está bem. Isso é tudo o que me preocupava sobre o dia de hoje, lyubov moya. Mesmo depois de três anos, o marido a amava tanto quanto ela o amava. Na verdade, a profundidade do vínculo entre eles só havia se fortalecido desde que se casaram. Uma vez alcançada, a sensação de segurança que Mikhail lhe dava permitiu que Kat deixasse de lado, de uma vez por todas, qualquer reserva que ainda pudesse ter. E, como ele havia prometido, recebera as irmãs dela como se fossem dele e, assim, as três continuavam próximas.


– Namorando os bebês de novo? – A voz com o conhecido sotaque brincou com ela. – Desculpe, não posso evitar, ainda não consigo acreditar que eles são nossos – confidenciou Kat, sua cabeça de cabelos ruivos brilhantes voltando-se para encarar o rosto másculo e bonito parado junto ao batente, enquanto arrepios percorriam sua coluna. O efeito de Mikhail em seus hormônios parecia ser perene, pensou ela, com o rosto pegando fogo. E como poderia não ser? Ele era lindo de morrer. Um sorriso sutil curvou os lábios sensuais de Mikhail, que se juntou a ela para observar os bebês.


– São lindos de se olhar quando não estão berrando – admitiu ele, risonho. – Hoje cedo pareciam pequenos ditadores com o rosto vermelho de tanto berrar. – Eles estavam com fome –disse Kat, defendendo os filhos. Mikhail virou-se lentamente na direção dela. – Eu também, laskovaya moya. Estou com muita fome e preciso de minha linda esposa só para mim por alguns dias. Os brilhantes olhos verdes de Kat se arregalaram quando ela foi puxada contra o corpo magro e forte dele. Ela apoiou a mão contra o peito musculoso de Mikhail.


– Você realmente está pensando em tirar alguns dias de folga? – Ainda melhor. Vamos juntos tirar uns dias de folga em uma ilha deserta. – Não parece o tipo de lugar para o qual se possa levar os bebês. – Eles não irão conosco. – Decidido, ele ergueu o rosto forte, Mikhail encarou a esposa quando ela abriu a boca bem feita para se opor. – Suas irmãs ficarão aqui para cuidar deles para nós. O nosso terceiro aniversário de casamento é uma ocasião importante e eu quero fazer algo especial. – Mas, não podemos deixá-los aqui... Uma sobrancelha negra arqueou.


– Mesmo com duas babás, suas irmãs e todo o pessoal da casa para cuidar deles? Kat mordeu o lábio inferior, preocupada e cheia de indecisão. – Eu preciso de você também – disse Mikhail, baixando a cabeça escura para que seus lábios se encontrassem, beijando-a bem devagar, exatamente da maneira a qual Kat nunca conseguia resistir, deixando-a sem fôlego e tremendo. – E eu acho que você também precisa de mim. – Bem... – Kat hesitou. – Uma ilha deserta? – Areia branquinha, mar azul, nenhuma roupa – sussurrou Mikhail.


– Então essa é a fantasia? – Kat riu, adorando sua honestidade, tanto quanto ela o adorava e a fuga surpresa que ele havia organizado. – A fantasia que tenho toda a intenção de transformar em realidade – respondeu Mikhail, os diamantes negros que eram seus olhos encarandoa de modo sexy, letal. – Mais prazer do que você poderia acreditar... – Ah, eu posso acreditar – confirmou Kat sentindo-se zonza e sem fôlego ante o olhar deslumbrante e ardente de desejo que ele lhe dava. – Com você é sempre assim. – Sou louco por você – murmurou Mikhail, a voz carregada de desejo,


reivindicando sua boca para um beijo apaixonado que arrepiou cada centímetro de pele. Kat sentia-se muito feliz e estava muito ocupada com aquele beijo para dar uma resposta. Uma segunda lua de mel em uma ilha deserta, Mikhail só para ela... Não, Kat não poderia se opor ao plano.


O DIREITO DO SHEIK Lynne Graham Zahir Ra’if Quarishi, rei de Maraban, no Golfo Pérsico, levantou-se e saiu de trás da mesa quando seu irmão mais novo, Akram, literalmente irrompeu no escritório. – O que aconteceu? – perguntou ele, apreensivo, do alto de seu 1,90m de altura. Seu corpo esbelto ficou imediatamente tenso, como o oficial do


exército que ele havia sido, pronto para um possível confronto. Com o rosto afogueado, Akram parou abruptamente e fez uma mesura apressada, ao lembrar-se das sutilezas da etiqueta da corte. – Peço desculpas pela interrupção, Majestade... – Imagino que seja por um bom motivo – disse Zahir, relaxando um pouco ao ver a expressão transtornada de Akram e reconhecer que um assunto de natureza particular havia precipitado aquela entrada intempestiva em um dos poucos lugares onde ele conseguia ter a paz necessária para trabalhar.


Akram enrijeceu e o embaraço se estampou em seu semblante simpático. – Eu não sei como lhe dizer... – Sente-se e respire fundo – aconselhou Zahir calmamente, retomando sua segurança natural enquanto se sentava na poltrona em um dos cantos da sala e fitava o irmão com seus olhos cor de âmbar. Ele gesticulou para que Akram se sentasse também. – Não há nada que não possamos conversar. Eu não sou, e nunca serei, intimidador como nosso pai. Akram ficou mortalmente pálido, pois o falecido pai deles fora um tirano opressor, tanto no palácio real com sua família, como em sua posição de


governante do que havia sido um dos países mais retrógrados do Oriente Médio. Enquanto Fareed o Magnífico, como ele próprio insistia em ser chamado, estivera no poder, a fortuna do petróleo de Maraban fluíra em uma única direção – os cofres reais –, ao passo que o povo continuava vivendo na idade das trevas, privado de educação, de tecnologia moderna e de um sistema adequado de saúde. Fazia três anos que Zahir assumira o trono, e as mudanças que ele imediatamente promovera ainda eram um empreendimento colossal. Ciente de que o irmão trabalhava cada hora do dia em sua determinação


de melhorar a vida dos súditos, Akram de repente sentiu medo de dar a Zahir a notícia que recebera. Zahir nunca tocava no assunto da ex-esposa. Era um tópico muito controverso, e nem poderia ser diferente, Akram reconhecia. Seu irmão pagara um preço alto por desafiar o pai deles e casar-se com uma moça estrangeira, de outra cultura. E o fato de ele ter feito isso por uma mulher não merecedora de sua confiança era apenas mais um agravante. – Akram...? – Zahir encorajou, impaciente. – Tenho uma reunião daqui a meia hora.


– É... ela! Aquela mulher com quem você se casou! – Akram recuperou a voz abruptamente. – Ela está lá fora, nas ruas da cidade, envergonhando você neste exato momento! Zahir franziu a testa, tenso, e apertou os lábios. – Do que você está falando? – Sapphire está aqui, filmando um comercial de cosméticos para a televisão! – explicou Akram em tom de firme condenação, ressentido com uma circunstância que considerava ofensiva a seu irmão mais velho, e imperdoável. Zahir cerrou os punhos. – Aqui? – trovejou ele, incrédulo. – Sapphire está filmando aqui em


Maraban? – Wakil me contou – disse o irmão, referindo-se a um dos ex-seguranças de Zahir. – Ele não conseguia acreditar nos próprios olhos, quando a reconheceu. Ainda bem que nosso pai se recusou a anunciar seu casamento para o povo... Nunca pensei que um dia seríamos gratos por isso... Zahir estava atônito com a ideia de que sua ex-esposa tivesse o atrevimento de pisar ali outra vez, em seu país. Uma onda de raiva e amargura o avassalou, e ele se pôs de pé, inquieto. Ele tentara não se tornar um homem amargo, tentara mais ainda esquecer seu casamento fracassado... Só que isso era


um pouco difĂ­cil quando a ex-esposa havia se tornado uma top model internacionalmente famosa, aparecendo em inĂşmeros jornais e revistas, e atĂŠ num outdoor gigantesco em Times Square.


425 – LEIlÃO DE SONHOS – KATE HARDY Jack Goddard está obstinado a comprar a propriedade da família de Alicia Baresford – e levá-la para a cama como parte do acordo! Para ele, Alicia é apenas mais uma conquista. Mas ela fará este poderoso magnata mudar de ideia! 426 – VINGANÇA & LIBERDADE – MAYA BLAKE


O amor e o ódio se misturam quando Theo Pantelides conhece Inez, a filha de seu inimigo. Ele queria vingança acima de tudo. Ela, liberdade. Agora, ambos precisam decidir o que seguir: suas ambições ou seus corações. 427 – DONA DO CORAÇÃO – SUSAN STEPHENS Olivia Tate deixou uma vida luxuosa para trás e fugiu em busca de felicidade. Ela não podia sonhar que a encontraria ao lado de seu novo chefe, Cade Grant. Ele é um militar rude e solitário, mas esta jovem inocente conseguirá driblar as defesas deste coração de pedra.


Próximos lançamentos: 429 – O DIREITO DO SHEIK – LYNNE GRAHAM 430 – UMA NOVA MULHER – CATHY WILLIAMS 431 – IMAGEM REAL – LYNNE GRAHAM 432 – UMA NOITE POR TODA A VIDA – MAISEY YATES 433 – DESAFIANDO O DESTINO – LYNNE GRAHAM


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

G769a Graham, Lynne, 1956Amante seduzida [recurso eletrônico] / Lynne Graham; tradução Fabia Vitiello. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Harlequin, 2015. recurso digital Tradução de: A rich man's whim Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-398-1745-0 (recurso eletrônico) 1. Romance irlandês. 2. Livros eletrônicos. I. Vitiello, Fabia. II. Título.


14-18396

CDD: 828.99153 CDU: 821.111(415)-3

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: A RICH MAN’S WHIM Copyright © 2013 by Lynne Graham Originalmente publicado em 2013 por Mills & Boon Modern Romance Projeto gráfico de capa: Nucleo i designers associados


Arte-final de capa: Isabelle Paiva Produção do arquivo ePub: Ranna Studio Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171, 4º andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br


Capa Texto de capa Teaser Querida leitora Rosto Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Epílogo Próximos lançamentos


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Amante Seduzida - Lynne Graham  

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