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A princesa indomável! Com uma simples aliança, o príncipe Andres de Petras conseguirá apagar um passado cheio de prazeres e pecados. Contudo, domar sua prometida, a rebelde princesa de Tirimia, não será nada fácil. Zara passou a vida escondendo-se por trás de uma fachada fria, e está determinada a manter sentimentos longe do casamento de conveniência. Ainda assim, os toques sensuais de Andres são a promessa de uma paixão impossível de resistir. E quando finalmente se entrega ao desejo, Zara percebe que Andres se tornara dono de seu coração.


– Venha aqui. Em vez de esperar que Zara obedecesse, agarrou seu braço e a empurrou para perto da escada. Ela perdeu a respiração quando Andres enfiou a mão no paletó e tirou uma caixinha de veludo. A dor no peito dela aumentou. Assim como o medo. – Não – respondeu. – Sempre achei que isso fosse inevitável. – Ele abriu a caixa e o medo de Zara foi confirmado. – Parece que estou te dando uma tarântula, e não um anel de brilhante. Ela admirou o belíssimo anel de platina com uma pedra quadrada no centro. Sinceramente, preferia uma tarântula. – Sabe o que eu penso. Eu não... Você não mencionou que faria o anúncio oficial hoje. – Chegou a hora de entrarmos.


Andres segurou a mão na qual acabara de colocar o anel, entrelaçou os dedos nos seus e a conduziu de volta à entrada do salão de festas. E ela o seguiu. Porque estava estarrecida e é difícil começar uma briga quando não se tem sequer certeza se seus pés ainda estão no chão. Não. Não era o que desejava. Precisava de um tempo. Não estava pronta. Ele tinha dito que se casariam no Natal. No fim do mês. Restam poucas semanas. Zara não vinha pensando direito. Negava o fato de ter sido trazida ali porque Andres a considerava um objeto. Um presente de Natal para o homem que possuía tudo.


Querida leitora, O príncipe Andres fica furioso quando é obrigado por seu irmão a aceitar a rebelde princesa Zara como sua noiva. Ele sabia que, um dia, teria de se casar. Contudo, jamais escolheria uma mulher tão indomável. Zara também não está nada feliz com a situação, mas gosta da segurança que sente ao lado de Andres. Ele está determinado a transformá-la na esposa perfeita, porém, acaba descobrindo que a tarefa mais difícil seria lidar com o desejo que sente por Zara. Boa leitura! Equipe Editorial Harlequin Books


Maisey Yates

PROMESSAS DE PRAZER Tradução Marie Olivier

2016


PRÓLOGO

OS

desfilavam há uma hora. Demonstrações da riqueza de Tirimia exibidas diante do rei Kairos, como se ele fosse um menino na festa de Natal. Cestas transbordantes das mais exóticas frutas plantadas nos pomares do país vizinho. Obras de arte e joias dos mais famosos pintores e ourives. Era evidente: os embaixadores de Tirimia deixariam o presente mais espetacular por último. Do trono, Kairos olhou os homens parados esperando pela demonstração de encantamento e ouviu enquanto eles começavam a enaltecer o PRESENTES


tesouro final, mencionado como a joia da coleção. – Isso vai agradar a vossa majestade – disse Darius. – O expoente da beleza e da graça de Tirimia para enfeitar seu palácio. Um gesto visando à manutenção das boas relações entre Tirimia e Petras. A prova do longo caminho percorrido desde a revolução sangrenta que ainda não nos é possível esquecer. Entretanto, podemos assumir o compromisso de deixar o passado para trás. Darius falava da tentativa bem-sucedida da derrubada da monarquia de Tirimia uns quinze anos antes. Na época, Kairos ainda não assumira o poder, mas seu pai se certificara de mantê-lo a par do ocorrido. Os rebeldes de Tirimia tinham ameaçado as fronteiras de Petras. O restabelecimento da confiança entre as duas nações exigira um processo lento, motivo pelo qual haviam solicitado uma audiência com Kairos hoje. Ele era o novo rei, e


os governantes de Tirimia empenhavam-se em aproveitar o novo reinado para selar acordos. Azar o deles se Kairos não se impressionava com bugigangas. Porém, eles possuíam alguns recursos naturais interessantes, e a guerra não fazia parte dos planos de Kairos. Daí ter concedido a audiência. Embora observasse com cada vez menos paciência as oferendas trazidas. – Como prova de boa vontade entre nossas nações – comentou Darius, cada palavra pegajosa –, apresentamos a princesa Zara. As portas da sala do trono foram abertas e de pé, ladeada por dois homens fortes, uma mulher com as mãos cruzadas à frente e reluzentes algemas douradas nos pulsos. Por um instante, Kairo chegou a pensar que ela estivesse algemada. Mas ela começou a andar, moveu as mãos nas laterais, e o momentâneo medo dissolveu-se. O cabelo comprido e escuro, preso numa trança, balançava a cada passo. O rosto exibia uma


pintura dourada, pontos acima das sobrancelhas e alguns poucos abaixo dos olhos. Era morena, dona de uma beleza exótica que o incendiou. Tão diferente de Tabitha, sua esposa fria e loura. A única mulher que tinha desejado. A que decidira não comparecer a esse importantíssimo evento. Gostaria muito que ela estivesse presente. Para vê-lo ser presenteado com uma mulher. Arderiam seus olhos azuis de ciúmes? Se é que fossem capazes de arder por algum motivo. Na certa, simplesmente continuaria sentada, impassível, indiferente. Talvez até sugerisse que ele aceitasse a jovem, tamanho o desprezo por ele nos últimos tempos. Ele ignorou a pontada de arrependimento no estômago. – Deve haver algum engano – alertou Kairos. – Não consigo imaginar receber um ser humano de presente.


Darius espalmou as mãos. – Não precisamos de uma princesa em Tirimia. Não agora. – Então pretende oferecê-la de presente para mim? – Aja como bem quiser. O ideal seria recebêla como esposa. Não desejamos sua desonra. Bem, não importa como pretende usá-la... de qualquer forma, é uma honra. Outra esposa. Pior impossível. – Lamento informar que já tenho uma esposa – comunicou, sem arrependimento. – Se em seu país não podem contrair matrimônio com mais de uma mulher, aceitamos que a aceite como concubina. – Tampouco tenho cargos disponíveis para concubina – assegurou em tom severo. – Solicitamos segurança – avisou Darios. – Se formos abrir nossas fronteiras para Petras, exigimos laços de sangue. É o método confirmado para obter tal grau de segurança.


– E eu acreditando que Tirimia fosse uma nação voltada para os tempos modernos – argumentou Kairos, olhando para a mulher cujos olhos ardiam de raiva, irradiando energia, apesar de manter-se quieta, a cabeça curvada. – Isso parece contradizer minha ideia. – Nosso sistema de governo é jovem, mas nosso país é antigo. O casamento entre a tradição e a realidade moderna é canhestro. Precisamos manter nosso povo feliz enquanto evoluímos. Com certeza, pode apreciar algumas das questões inerentes. Um leve sorriso surgiu nos lábios de Kairos. Boa ideia. Andres. A ocupação perfeita para ele. Saborearia aquele gostinho de vingança deixado pela traição do irmão. Ao mesmo tempo, seria benéfico para o país. Vingança mesclada a uma boa causa num governante era uma atitude rara e gloriosa.


– Conforme eu declarei – falou, olhando os presentes – eu já tenho uma esposa, mas meu irmão com certeza precisa de uma. Encontramos a solução perfeita.


CAPÍTULO 1

ANDRES NÃO gostava de voltar ao palácio em Petras. Preferia as coberturas mundo afora. Londres, Paris, Nova York. E uma mulher espetacular em cada destino. Ele era um clichê, mas não se incomodava. Divertia-se bastante. Petras nunca era tão divertido. Era o local onde seu irmão, Kairos, conduzia com mão de ferro não o povo, mas Andres. Como se ele ainda fosse um menino que precisasse andar de mãos dadas com um adulto e não um homem na faixa dos trinta. Invariavelmente, suas estadas no palácio obedeciam a uma rotina monótona. Visitas a hospitais e outras aparições públicas onde até


suas palavras eram definidas. Jantares formais com o irmão mais velho e a esposa, tão entediantes quanto desconfortáveis; e longas noites no imenso aposento real sozinho, porque Kairos não permitia que Andres levasse as amantes para os sagrados aposentos da família Demetriou. Ainda que Andres julgasse que tal atitude tinha menos a ver com a propriedade e mais com o fato de Kairos querer puni-lo por seus antigos pecados todos os dias, das mais variadas maneiras, até sua morte. O que tornou sua surpresa, ao entrar no quarto, ainda mais assombrosa. Entrou soltando a gravata sufocante, como tudo ali. Então congelou. Na sua cama, de joelhos dobrados e apoiados no peito, comprido cabelo escuro como uma cascata até o ombro, negros como as asas da graúna, uma mulher. Ambos se entreolharam. Então ela se esticou, encostando-se na cabeceira grande e


decorada que nunca lhe servira pra nada, pois nunca tivera uma mulher nessa cama. Até agora. Conquanto ela não tivesse sido convidada, nem parecesse satisfeita em estar ali. Muito estranho. – Quem é você? E o que faz aqui? – perguntou. Ela levantou a cabeça, a expressão desafiadora. – Sou a princesa Zara Stoica de Tirimia. Andres sabia que Tirimia deixara de ser uma monarquia. Na verdade, a família real fora derrubada do trono depois de uma sangrenta revolução, quando Andres era ainda adolescente. Não tinha conhecimento de sobreviventes, muito menos de uma princesa, que parecia mais uma criatura desgrenhada que uma mulher. A pele bronzeada pintada de dourado emoldurava os olhos e as sobrancelhas escuras.


Apesar dos lábios sedutores, de um vermelho profundo, ele teve a sensação de que cometeria um erro caso se deixasse seduzir. Ela parecia mais propensa a dar-lhe uma mordida que um beijo. O cabelo descia pelas costas, despenteados como se ela tivesse brigado ou sido satisfeita por um amante. Por causa da cama, era tentador imaginar a última hipótese. Mas a julgar pela expressão de seu rosto, a primeira hipótese era mais plausível. – Acho que está no palácio errado, princesa. – Não estou. Era prisioneira no meu país e fui trazida aqui como um presente para o rei Kairos. Andres ergueu as sobrancelhas. O irmão mais velho não saberia o que fazer com uma mulher como presente, mesmo que não estivesse unido a outra pelos sagrados laços do matrimônio. – Então, está no quarto errado.


A expressão da moça demonstrou fúria. – Ele não quis ficar comigo. Resolveu me dar para o irmão. Andres não conseguia digerir o absurdo da declaração. Essa mulher era um presente para ele? – Está me dizendo que ele passou você adiante? Ela franziu o cenho. – Suponho que sim. Era evidente que ela não via a menor graça nisso. Mas afinal, se ele fosse passado adiante como um elefante branco, também ficaria irritado. – Poderia esperar aqui um momento? – indagou. A expressão ficou ainda mais enfurecida. – Eu não estaria aqui se tivesse opção. Só me resta esperar. – Excelente. – Deu meia-volta, atravessou o corredor e dirigiu-se à escada circular que


levava ao escritório de Kairos. Não alimentava qualquer dúvida de que encontraria o irmão, grave e sério, ocupado com algum documento importante, bem diferente de um homem que tivesse deixado para o irmão caçula uma mulher de presente. Andres abriu a porta sem bater, e como imaginara, encontrou Kairos trabalhando. – Que tal explicar a mulher na minha cama? Kairos não ergueu a cabeça. – Andres, se eu tivesse de explicar todas as mulheres em sua cama, não faria outra coisa na vida. – Sabe muito bem ao que me refiro. Tem uma criatura no meu quarto. Kairos ergueu a cabeça. – Ah, sim, Zara. – Isso. Uma princesa? Ela alega ser prisioneira. – A situação é bem mais complicada. – Explique, por favor.


O irmão sorriu; sua expressão quase derrubou Andres. Um sorriso no rosto de Kairos era algo raro. – Ela me foi dada por dignitários de Tirimia. – Até aí, eu entendi. – Como sabe, estou tentando restabelecer negócios com eles. São nossos vizinhos mais próximos, e não faz sentido sermos inimigos. E mais, pode ser perigoso e caro. – A expressão de Kairos ficou séria de novo. – Nosso pai não era favorável à restauração dos laços de amizade. Mas estou tentando restaurar a antiga glória de Petras, e essa é uma maneira de obter sucesso. – Aceitando uma mulher de presente como se ela fosse um relógio caro? – Sim. Daqui a poucas semanas é Natal. – Você quer que eu guarde a mulher no bolso e interrogue a ela as horas? – perguntou irritado. – Não seja ridículo. Você vai casar-se com ela.


A raiva instalou-se no estômago de Andres. – Ah, entendi. Essa é a sua vingança? – Mais uma vez, não seja ridículo. Tenho um país para governar, mal tenho tempo de buscar vingança. Agora, não cometa nenhum erro; posso até me divertir um pouco com seu desconforto, mas isso não impede que essa união se concretize. – Você não tem razão para ter raiva de mim. Está muito melhor com Tabitha do que estaria com Francesca. – Isso é questionável. Andres nunca tivera a ilusão de que o irmão e a mulher morressem de amores um pelo outro, especialmente considerando as circunstâncias envolvendo o casamento, mas era a primeira vez que ouvia Kairos falar de modo negativo sobre a união. O fato de Tabitha, antiga secretária do irmão, ter se tornado uma rainha tão adequada não era motivo para Andres ser absolvido de


sua leviandade com a primeira noiva de Kairos, cinco anos atrás, numa suíte de um hotel em Monte Carlo. De tão bêbado, não se lembrava do que acontecera entre ele e Francesca. Contudo, diversas fotos, inclusive um vídeo, foram publicados na internet no dia seguinte, dirimindo qualquer dúvida sobre o ocorrido. Kairos foi forçado a cancelar o casamento, humilhado pela noiva e pelo próprio irmão. Embora nunca tivesse amado Francesca, sua raiva não se devia à tristeza, mas à humilhação pública. Pouco depois, anunciou o noivado com Tabitha, e o casamento ocorreu como planejado, na mesma data, mas com uma noiva diferente. Tudo devidamente empurrado para debaixo do tapete, como se nunca tivesse ocorrido. O que facilitou a vida de Andres, que se esqueceu do papel representado no desenrolar da história.


Mas se a relação com Tabitha não era o que parecia... – E o que eu tenho a ver com isso? – inquiriu Andres. – Preciso que você se case e ajude a restabelecer as relações entre Tirimia e Petras. A princesa Zara resolve os dois problemas. Você precisa amadurecer e levar uma vida digna. Fui tolerante, mesmo depois do seu papelão com minha noiva. Tenho sido paciente. Enquanto você continuava vagabundeando pela Europa e pelos Estados Unidos, eu assumi a responsabilidade de governar o país. – Então está impondo que eu me case com uma mulher que parece estar aqui a contragosto? – Você sabia que um dia teria de se casar. Qual a surpresa? – Imaginei que pudesse ter algum envolvimento na escolha da noiva. Kairos deu um soco na mesa.


– Homens como nós não têm essa opção. Você viveu uma vida protegida da responsabilidade que recai sobre nós. Eu não pude me dar a esse luxo. Eu conheço a realidade. Não vai se casar por amor, mas suponho que eu deveria ser grato por ter me poupado do escândalo de me divorciar de Francesca. Mas escolhi Tabitha às pressas e... é possível estarmos enfrentando um problema mais sério que um caso de felicidade marital. – Está infeliz? – Ser feliz não fazia parte dos meus planos. Nunca alimentei sonhos a respeito. – Kairos esfregou as têmporas. – Preciso de um herdeiro. Talvez não tenha notado, mas até agora não tenho um. – Achei que estivessem tentando. Kairos cerrou os punhos. – Nunca fizemos controle de natalidade. Cinco anos de casado e nunca evitamos. Talvez


esteja lhe dando mais informações do que gostaria, mas agora está a par da situação. – O que está tentando dizer? Nunca fui acusado de ser o filho inteligente. Precisa explicar. – Você talvez tenha de se encarregar de produzir o próximo na linha para o trono. Isso significa que precisa casar. Precisa casar com alguém da realeza e a princesa Zara é. – Quer que eu abandone minha vida de solteiro e comece a produzir bebês em tão curto espaço de tempo? Kairos abanou a mão. – Não seja tão dramático. O fato de se casar não significa mudar seu comportamento. Só precisa ser mais discreto. A sugestão do irmão era tão chocante quanto ter relações extraconjugais era surpreendente, e quase tão absurda quanto o fato de Kairos estar obrigando-o a casar. – Você é infiel?


Uma veia saltou no pescoço de Kairos. – Não, só estou dizendo que nada muda tanto assim. Obviamente será um casamento por conveniência, e desde que a trate com respeito, não vejo motivo para declarar fidelidade. – Não tenho prática com fidelidade. Não arriscaria minha vida. – Sabia que chegaria o dia em que teria de assumir alguma responsabilidade com sua nação. O dia chegou. Papai podia achar que você não servia para nada, mas eu espero que você cumpra a parte que lhe cabe. – Não fazia ideia de que como reserva, fosseme exigido cumprir nada, a não ser que você morresse. – Azar o seu, não é esse o caso. Preciso de você por motivos políticos e práticos. Andres olhou os olhos escuros e furiosos do irmão.


– Se a situação com Tabitha está tão horrível, por que não pede o divórcio e procura uma mulher que possa lhe dar os filhos de que precisa? Kairos deu uma risada soturna. – Com certeza, vai precisar aprender algumas coisas se vier a ser marido. Não posso rejeitar minha mulher porque ela não pode me dar filhos, assim como não posso fazer um discurso diante de dignitários estrangeiros pelado. Eu seria crucificado pela mídia. Eu assumi um compromisso com ela e pretendo mantê-lo. – Ele não parecia satisfeito, e certamente seu comprometimento nada tinha a ver com amor. – Hora de pagar seus pecados, irmãozinho. Andres costumava conviver bem com seus pecados e não tinha intenção de expiá-los. Exceto o referente a Francesca. Não teria cometido este pecado, se lhe fosse dada a opção. Especialmente agora, ao saber do fracasso do casamento de Kairos e Tabitha.


– Está se descuidando de uma parte importante da equação – advertiu Andres. – Qual? – Ela não quer se casar comigo. Deixou bem claro quando a encontrei no meu quarto. Ela se declarou sequestrada. – Ela tem pouquíssimas alterativas. Tenho a impressão de que corre perigo em Tirimia. Apesar de tentarem estabelecer relação cordial conosco, eu estaria expondo a vida da jovem se a devolvesse. Aqui ela está a salvo. – Ela é brava. O que espera que eu faça com ela? – Você é um playboy lendário. Não preciso ensinar como lidar com as mulheres. – Ela não é uma mulher. É uma criatura. Pensou naquele cabelo escuro desgrenhado, nos olhos cintilantes e raivosos. Por acaso seriam um casal real? Ele precisaria de uma mulher no mínimo duas vezes mais sedutora


do que Tabitha para convencer o povo de sua mudança de estado civil. Alguém como ela não o converteria facilmente. Kairos riu, ocorrência ainda mais rara que um sorriso. – Sou casado, mas até eu notei que é bonita, embora nada sofisticada. – Fiquei surpreso demais com sua presença no meu quarto para reparar na sua beleza. – Mentira. Não ficou cego às curvas, aos lábios carnudos e sensuais. Apesar do medo de ser agredido caso se aproximasse, ela era uma gostosura. – Minha palavra é lei – garantiu Kairos em tom inflexível. – E você me deve uma, irmão. Vai me obedecer. Trate de domá-la, treiná-la, seduzi-la, pouco me importa, mas juro por Deus que vai se casar com ela. Andres trincou os dentes. Acharia tudo surreal se não suspeitasse há muito do que


estava por vir. Um dia teria de enfrentar o irmão e cumprir o seu destino. Era um príncipe, o segundo na linha de sucessão de uma antiga família real. Nunca imaginou escapar do casamento e de filhos. Sabia ser questão de tempo. E, ao que tudo indicava, seu tempo chegara. – Mais alguma ordem, vossa alteza? – perguntou em tom seco. – Não demore muito.


CAPÍTULO 2

A PRINCESA Zara Stoica, herdeira sem trono, estava farta de sujeitar-se aos caprichos dos homens. Por causa deles tinha sido arrancada do palácio ainda criança e enviada para a floresta com povos nômades; sobrevivera graças a séculos de tradição em termos de honra e hospitalidade. Homens a roubaram de seu porto seguro quinze anos antes e a elegeram como moeda de troca em acordos políticos com as nações vizinhas. Claro, também tinha sido um homem sentado no trono em Petras quem julgara normal mantê-la e dá-la de presente ao irmão como uma espécie de presentinho.


Resultado: não foi surpresa descobrir que estava no quarto de um homem, que adentrara uma hora atrás, e quase a matara de susto. Ocorreu-lhe ter sido instalada no quarto do príncipe Andres. O homem com quem deveria casar-se. A ideia a estremeceu dos pés à cabeça. Mais que medo, a inquietação percorria suas veias. Estava ficando entediada trancada naquele quarto. Da cama descortinava a cidade. A vista não a consolava. Casas grudadas, prédios altos. Carros percorrendo as estradas feito formigas tontas em busca de comida. Preferia o ar puro das montanhas. O silêncio entre sempre-vivas. Cortara um dobrado trancada em castelos imensos tendo ao redor arquitetura construída pelos homens. Voltou a atirar-se na cama macia. Era um choque a exposição a tamanho conforto.


Os anos passados em caravanas com seus salvadores tinham sido agradáveis, nada desconfortáveis, mas nada parecido com esse lugar. Ao ser levada de volta ao antigo palácio pelos novos líderes políticos de Tirimia, tampouco a instalaram em um cômodo tão luxuoso. Olhou para o teto, para as sancas decoradas, para o imenso candelabro pendurado no centro do aposento. Nunca tinha visto um candelabro num quarto. Mesmo depois da revolução, Tirimia vivia restrita a economia bem mais modesta. Foi invadida pela sensação de desconforto e pulou da cama. Não queria que aquele homem, fosse ele ou não o príncipe Andres, entrasse e a visse assim novamente. Era constrangedor. Andou de um lado para o outro, e muito, considerando o tamanho do quarto, parou diante da porta fechada. Puxou a maçaneta e


descobriu um grande banheiro. Muito mais moderno que o resto do quarto. Um grande boxe num canto separado por painéis de vidro. Uma enorme banheira. Por pouco gemeu. Só a ideia de mergulhar na água morna a deixou com água na boca, mais do que jamais ficara por causa de uma sobremesa. Um banho demorado e quente era impossível no meio da floresta e algo que não lhe fora permitido ao voltar para o palácio como prisioneira. Era tentador, mas caso ser encontrada na cama fosse humilhante, certamente ser pega na banheira seria mil vezes pior. Atravessou devagar o banheiro, aproximouse de uma grande bancada com espelho, e potes sobre a superfície de mármore. Indagou-se o motivo de um homem ter tantos vidros de perfumes e cremes. Pegou um, destampou e o levou ao nariz, aspirando com cuidado. Era uma colônia com cheiro de sândalo e outras


especiarias. Tentou recordar se o homem com quem se encontrara tinha esse cheiro. Não conseguiu. Deixou o vidro e pegou outro, dessa vez de creme. A tentação foi grande demais. Colocou um pouquinho nas mãos antes de guardar o pote de volta. Espalhou o creme nas mãos. Anos a fio de árduo trabalho e vida ao ar livre deixaram sua pele áspera. Sinal de força, costumava pensar, e nunca se lamentara. No entanto, isso não significava não se dar ao luxo de um minutinho de suavidade. – O que está fazendo? Voltou-se assustada, e ao recuar derrubou vários vidros. – Estava entediada – respondeu, para o mesmo homem que encontrara parado na porta do quarto. O impacto superou um abalo físico. Estava acostumada a homens grandes, de presença imponente e que a mantinham a distância.


Algumas pessoas chamavam de ciganas as pessoas com quem fora criada, por levarem uma vida simples e nômade, mas não eram ciganos, não em termos de herança sanguínea. Faziam parte de um grupo pequeno, quase totalmente extinto em Tirimia, ligado às tradições antigas. Um povo não guerreiro, empenhado em proteger o campo e todos os indivíduos sob seus cuidados, inclusive Zara. Todavia, a aparência grosseira dos homens com quem fora criada nada tinha a ver com a aura suave desse homem. Seria fácil imaginar que um homem de terno não seria tão intimidante quanto um de jeans velho. Esse homem parecia mais civilizado, entretanto era o verniz de civilidade que a assustava. Ela percebia uma força e profundidade extremas, escondidas tão fundo, que ela não tinha meios de avaliá-las. Não gostou nada disso. Nem do fato de não estar a par de muitas coisas. Em casa, sua vida


era bem mais simples. Sentia-se protegida, conhecia os arredores. O mundo era pequeno: a floresta, a caravana, as fogueiras e as pessoas com quem convivera praticamente a vida inteira. Havia regras. E ela as respeitava. Agora encontrava-se ali, numa terra estranha, confrontada por um estranho. Um estranho grande, de ombros largos, num terno bem-cortado. De cabelo preto curto, queixo quadrado e forte, sobrancelhas escuras. Era lindo feito um predador. Letal; difícil desviar o olhar. Nunca ficara tão impressionada com um homem. Até então os homens que conhecera podiam ser divididos em duas categorias. Aqueles com quem fora criada e a quem vira quase todos os dias de sua vida e os que considerava inimigos. Esse homem não era nem uma coisa nem outra, o que o tornava único.


Talvez depois o incluísse na lista de inimigos, quem sabe? Ele podia ser perigoso, mas também podia ser seu aliado. Dera-se conta dois meses atrás, ao ser sequestrada do acampamento, de ter poucas opções. Se tentasse escapar e voltar para o clã, os integrantes seriam punidos. Não podia retribuir desta maneira a quinze anos de comida, roupa e abrigo. Fugir e ficar em Petras também não era uma possibilidade. Não tinha dinheiro, identificação. Não conhecia a cidade, o país. Não sabia dirigir, não tinha amigos. Precisava de um. Zara olhou o homem parado na soleira do banheiro. Poderia ser seu amigo? Bem, não um amigo no verdadeiro sentido da palavra. De nada adiantaria brigar com ele. Teria de mostrar condescendência, em certo grau. Esperar o momento certo de atacar.


– Estava entediada? – questionou, repetindo suas palavras. – Estou, não sei há quanto tempo estou aqui, mas faz um tempo. – Talvez seja melhor começar do início. Sou o príncipe Andres. Fui informado de que devemos nos casar. Constrangimento, seguido de uma onda inexplicável de calor. – É mesmo? As palavras confirmaram suas suspeitas. Ele era o dono do quarto. Seu dono. – Acabo de ser comunicado. – Ergueu a sobrancelha escura. – Talvez prefira continuar a conversa num lugar mais confortável. Ela assentiu e caminhou na sua direção. Então o estômago fez um barulho que ecoou no espaço. – Estou com fome – confessou. Não comia desde manhã. – Vou providenciar comida.


Em pouco tempo entregaram uma bandeja de carnes, queijos, frutas e pães no quarto, e assim Zara se encontrou sentada outra vez na cama, as pernas cobertas com a colcha, e comendo. Sentia o olhar observador enquanto mastigava em silêncio. Ele não a interrompeu, conquanto ela percebesse que ele desejasse fazer perguntas. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu que podia estar no controle. Embora mínimo. Porém, ele parecia tão confuso e desconcertado com toda a situação quanto ela. Motivo pelo qual, segundo seu ponto de vista, ele estava tão atento. E a deixava comer em paz. Ele a cercava como se ela fosse uma criatura potencialmente perigosa e tivesse medo de ser mordido. O pensamento despertou uma sensação prazerosa como a sensação de saciedade na boca do estômago pelo queijo. Suas necessidades sempre foram simples. Pelo


menos desde que fora viver com os nômades aos seis anos de idade. Eles eram simples por pura necessidade. Mas ultimamente suas necessidades tinham se reduzido a calor, comida, abrigo. Bastava isso para sobreviver. Comida boa e mantas macias superavam em muito tudo o que tivera nos últimos meses. E um pouco de poder? Uma cereja em cima do inesperado bolo. Então continuou a comer em silêncio, percebendo a crescente impaciência do homem, o que só aumentou sua satisfação. – Faz quanto tempo que não come? A indagação a surpreendeu. – Desde hoje de manhã. – Você é muito magra – constatou. As palavras a ofenderam, ainda que não soubesse explicar o motivo. Nunca ligara para a aparência. Os homens que a mantiveram cativa em Tirimia tinham designado uma mulher para torná-la bonita para a apresentação ao rei.


Tinham maquilado seu rosto; o dourado ao redor dos olhos fora opção sua, homenagem à cultura adotada. Sua beleza nunca fora tema de discussão entre os nômades. Vivia sob a proteção do líder, Raz, e ele proibira que a tocassem ou a olhassem de modo desrespeitoso. E agora esse homem vinha dizer que era magra demais? Ficou com raiva. – Posso afirmar que meus sequestradores não estavam muito preocupados com a qualidade de minha comida. – Você é prisioneira? – interrogou atônito. – Fico surpresa que isso o incomode. Seu irmão não pareceu nem um pouco preocupado. Logo me aceitou como se eu fosse... uma cesta de frutas. Ele a examinou. – Com certeza, não é. – Fui dada como se fosse. – Fungou, demonstrando indignação. Ao mesmo tempo,


tinha sido uma princesa. Um membro da família real em Tirimia. Devia ter direito a viver num castelo desses. Antes de ter sido arrancada do único lar que conhecia, roubada da família. De seu direito natural. – Imagino que deva ser grata por ninguém ter beliscado minhas peras e tirado uma lasquinha, por assim dizer. Ergueu o rosto e deparou-se com o olhar sombrio, chocado. Ficou ruborizada, desviou o olhar. – Seria uma vergonha. Fico feliz por suas peras permanecerem... intocadas. Um músculo abaixo de seu olho estremeceu. – Impressionante, dadas as circunstâncias. – Ela tinha passado muitos anos protegida, mas isso não significava ser ignorante a respeito do comportamento dos homens. – Você era a princesa de Tirimia – disse ele, em tom levemente acusatório. – Eu sou a princesa. Fui substituída. Não por outra princesa, mas por um governo ridículo


que finge preocupar-se com a liberdade do povo quando, na verdade, só pensam no próprio poder. – Achei que toda a família real tivesse sido morta durante a revolução. Ela congelou por dentro. Isso sempre acontecia quando pensava nos pais. No irmão mais velho. As recordações agora eram doces; antigas como fotografias gastas, amareladas. Contudo, o que permanecia, tão agudo e terrível como sempre, era o frio experimentado ao tomar conhecimento de seus destinos. Não tinha sido tristeza. Tinha sido a morte em si. Um frio que substituía seu sangue por gelo. E que levara meses para derreter. Meses para voltar a sentir algo além do frio que passara a habitar seu peito. – Obviamente, não morri – afirmou, as palavras pesadas, estranhas. Tudo parecia absurdo. – Todos os outros... minha mãe, meu pai e meu irmão foram assassinados. A família


da criada pessoal de minha mãe morava na floresta, um povo que viviam segundo as tradições antigas. E ela me levou para lá. Eles cuidaram de mim e me protegeram durante anos. – Até agora, evidente. Ela mordeu um pedaço de pão. – Não tiveram culpa. Foram atacados numa emboscada e eu fui sequestrada. – E você pode ser devolvida para eles? Analisou todas as possíveis implicações. Se respondesse sim, ele a ajudaria? Ou decidira... casar-se com ela? A ideia de casamento era uma piada. Não estava preparada para ser esposa de ninguém. Não tinha interesse nesse tipo de coisa. A própria ideia de casamento era seu pior pesadelo. Voltar a usar uma coroa. Sentar-se num trono. Estaria num pedestal onde seria um alvo fácil de ser atingido.


Vivera esse pesadelo uma vez. Não tinha intenção de revivê-lo. Deveria pedir que a levasse para casa. E deixar que as únicas pessoas do mundo que tentaram protegê-la fossem destruídas? O frio familiar e cortante a açoitou. Não podia voltar. Era perigoso demais. Seria um ato de puro egoísmo. Eles a protegeriam com as próprias vidas e, muito provavelmente, isso lhes custaria de fato a vida. Já perdera demais. Muitas pessoas confiantes em suas convicções foram eliminadas. Raz falara de seus pais. O pai era um homem de convicção firme. Lutara contra as ideias antiquadas em Tirimia e fizera um pacto com a tribo de Raz para preservar a soberania deles na nação. Por isso, tinha sido assassinado. Por lealdade e respeito a seu pai, Raz colocara a tribo em risco para protegê-la e criá-la. Não colocaria de novo suas vidas em risco.


Precisava resolver isso sozinha. – Não, não posso. Seria muito perigoso. – Maravilha! – vociferou ele, o tom contrastando com a palavra. – Não vou me casar com você, é claro – complementou, apanhando uma uva da bandeja. – É mesmo? Ela assentiu, a expressão grave. – Não quero casar. – E por quê? – inquiriu, pegando a uva de seus dedos. – Tem medo de que provem suas peras? – Colocou a fruta na boca e ela ficou hipnotizada, tentando entender o significado das palavras, os olhos fixos naqueles lábios, naquele queixo que se movia enquanto mastigava. Por que ele mastigava de um jeito tão interessante? Não devia ser assim. Nunca achara mastigar um ato fascinante.


– Não o conheço – comentou desviando o olhar, pegando outra uva e a mordendo com força. – Só para começar. – Temos todo o tempo do mundo para resolver isso. Pode listar suas outras razões. – Só depois de conhecê-lo melhor, vou poder completar a lista. – Acho que isso que acabou de descrever é o casamento. Duas pessoas que não se conhecem direito, cegas aos defeitos do outro até o tempo e a proximidade obrigá-las a constatar a péssima escolha feita. – Você faz o casamento soar tão atraente – declarou, mudando de posição, sentando-se em cima do pé. Inclinando-se, pegou um pedaço de figo da bandeja. – Não acredito na instituição. – Então por que devemos nos casar? – Porque – respondeu exausto –, meu irmão assegurou que eu devo, então assunto encerrado. Há muitos contratempos em ser


membro da família real, Zara. Até hoje, por 32 anos, consegui não carregar nos ombros o peso do manto da responsabilidade com poucas consequências. Enquanto Kairos sempre o carregou por dever, honra, por ser o herdeiro e outras coisas mais. Eu sempre fui a ovelha negra – acrescentou curvando-se, apenas examinando a comida –, e portanto, devo obedecer. – Andres voltou a erguer a cabeça, os olhos encontrando os seus. Estavam próximos. Próximos demais. Ele cheirava à colônia que ela encontrara no banheiro. – Entendo – proferiu ela, mal conseguindo pronunciar a palavra. – Vai me dizer que também é prisioneiro? Ele se endireitou e ela quase soltou um suspiro aliviado. Por algum motivo, a proximidade a perturbava, embora não entendesse direito a razão.


– Não, não sou prisioneiro. Apenas um príncipe. Ou seja, preciso atender a certas expectativas. Não se engane, passei a última década e meia afundado na devassidão e, em termos gerais, isento de qualquer responsabilidade. Chega o dia em que todos temos de pagar o preço. E você é o meu. Arrogante. Chamá-la de preço a pagar quando ela tinha sido arrastada para aquele país contra sua vontade. Falar de dever como um peso, quando seu pai perdera a vida lutando pelo que julgava justo. E o que esse homem tinha feito até então? Nada, ao que tudo indicava. – Você fala de ser príncipe com desdém. Sou uma princesa, forçada a me esconder por causa de meu título. Meus pais foram assassinados por serem da realeza, no entanto você, inteirinho, reclama de ser forçado por seu irmão a se casar. Estou morrendo de pena


porque sua vida de prazer será interrompida pelo dever. Meus pais morreram pelo dever. – E devo me arrepender por essa não ser minha opção? Devo oferecer meu pescoço à guilhotina em vez de minha mão em casamento? – Meus pais morreram – sussurrou. – Sinto muito. Mas nem por isso lamento não ser obrigado a enfrentar o mesmo perigo. Vivemos em países diferentes e estou em outra posição. – Você tem sua vida, suas oportunidades, e continua a falar com desrespeito sobre sua posição. – Mesmo assim, será você minha esposa. – Nunca – sibilou, sabendo que agora, com o cabelo despenteado e a postura de um gato enfurecido, parecia a criatura selvagem que ele, evidentemente, imaginava que ela era. – Quais suas opções, agape? – perguntou. Ela não entendeu a palavra carinhosa. – Você


mesma mencionou que não pode voltar para seu país. Para aonde vai, se não ficar comigo? Milhões de palavras brotavam, mas sempre que uma chegava à superfície, voltava antes que ela pudesse expressá-la. – Para lugar nenhum – respondeu por ela. – Pode falar o quanto quiser de vida e de morte como se só isso importasse, mas você vê isso sob sua perspectiva. Há muitas sombras entre a vida e a morte e a infelicidade de um casamento forçado é uma delas. Mas estamos no mesmo barco. Não nos resta outra opção. – Sempre existe uma – argumentou, sem saber de onde vinham as palavras, conquanto soubesse serem verdadeiras. – Vivo por essa verdade. Porque em vez de deixar para lá, a criada de minha mãe fez a opção de me salvar. Porque em vez de me mandar de volta, o clã optou por cuidar de mim. Sempre há opções. – Talvez tenha razão. Então essa é a minha escolha. Tenho uma dívida com meu irmão que


não se restringe apenas ao típico dever real. Não estou em condições de recusar sua exigência. E escolhi obedecer. – E quais são as minhas opções? – Não vou mentir. Estão meio comprometidas. – Comprometidas? Estão completamente incapacitadas. Ele deu de ombros, como se ignorasse seus protestos. – Talvez. Mas essa é a realidade. Queira ou não, princesa Zara Stoica, será minha esposa no Natal.


CAPÍTULO 3

– PRÍNCIPE ANDRES. Andres ergueu o rosto e deparou-se com a expressão preocupada do criado no umbral do escritório do rei. Andres e Kairos tinham passado a noite jogando cartas e tomando uísque. Na certa, evitando as mulheres. Andres ainda custava a acreditar que tinha uma mulher na sua vida e não na sua cama. Além de ela ser sua noiva e não apenas amante, ele não a queria na cama. Ainda não. Não conseguia imaginar a possibilidade de transar com aquela criatura, assim como não podia imaginar enfiar a mão na toca de um texugo. Outro motivo para ter encarregado os


empregados de transferirem a princesa para outra ala do palácio. Passara parte da noite discutindo o casamento com Kairos e as expectativas do rei. Sem dúvida, ele e Zara seriam meros figurantes nos eventos políticos e sociais. Em contrapartida, teriam grande importância, pois caberia a eles gerar herdeiros. Ou seja, precisavam ser um casal tão responsável quanto Kairos e Tabitha, ainda que Andres não conseguisse imaginar nenhum dos dois no papel. Uma preocupação agravada pela expressão tensa do criado. – A princesa Zara se recusa a mudar de quarto. Andres deixou as cartas caírem na mesa. – Como assim? – Ela deixou bem claro que está muito beminstalada. Kairos resmungou.


– Qual a surpresa? Ela já quer ficar na sua cama. – Parecia invejoso. Kairos interpretava mal a história. – Não é isso – afirmou. Kairos ergueu a sobrancelha, e Andres reconheceu os seus traços no rosto do irmão. Era raro encontrar semelhanças entre eles. – Minha mulher vive muito feliz em outro quarto. – A minha com certeza também viverá – grunhiu. – Talvez numa jaula dourada com tranca forte. – Bufou. – Não sei como espera que eu a transforme numa princesa. – Ela é uma princesa – retrucou, indiferente. – Você entendeu o que eu quis dizer. – Achei que talvez fosse obrigado a dispender tanta energia para domá-la que acabaria sendo domado. Furioso, Andres encarou o irmão. Pena Kairos não estar longe da verdade. A ideia de conseguir domar os dois tornava a missão


impossível. Calou-se. Saiu porta afora. O criado precisou desviar-se. – Se não consegue transferi-la – gritou do corredor –, eu mesmo cuido disso. Subiu a escadaria de mármore de dois em dois degraus e atravessou o corredor a passos largos. Empurrou a porta; encontrou o quarto vazio. Sua futura esposa tinha desaparecido. Aproximou-se do banheiro, cuja porta estava escancarada. Ouviu o ruído d’água. Olhou para a banheira e deparou com uma mulher ensopada e indignada. – O que está fazendo aqui? – indagou, como se ela fosse a soberana no quarto. Teve de admitir que ela também fazia parte da realeza. Todavia, até então ela só governara um acampamento, se as informações sobre seu passado fossem verdadeiras. – Princesa – pronunciou em tom grosseiro –, esse banheiro é meu, o quarto é meu. Fui


informado de que se recusou a mudar de aposento. – Estou muito confortável aqui – garantiu, afundando, a expressão exaltada, os gestos provando que mentia. Ela estava tudo, menos confortável. – Que terrível coincidência. Eu também fico muito confortável aqui no meu quarto, com todas as minhas coisas. – Fui trazida à força. Estou assustada. Ele ficou furioso, apesar de não entender direito o motivo. Qual o problema de dormir em outro quarto? Mas resolveu não ceder. Talvez porque Kairos já o manipulasse como se fosse uma marionete. Ele não tinha outra opção, pois Kairos era o rei de Petras. Entretanto, não podia permitir que essa criaturinha também o manipulasse. Não permitiria. Se ia casar-se com ele, precisava entender que não devia subestimá-lo.


Tinha fama de ser o playboy da família Demetriou. Por ser um príncipe, ninguém o provocava. Mas Zara parecia decidida a tal, e ele não permitiria. – Não acredito que esteja assustada – disse, aproximando-se da banheira. Ela afundou até o queixo; só apareciam os olhos escuros e grandes. – Claro que estou. Você é muito grande. Muito maior que eu. Você invadiu o meu espaço. – Peço mil perdões, princesa – declarou, aproximando-se ainda mais e plantando as mãos na borda da banheira. – Foi você quem invadiu o meu espaço. Não a convidei. Não me ajoelhei e a pedi em casamento, nem me dispus a ceder meu espaço para seu uso. Ela se contorceu e cruzou as pernas, cobriu os seios como podia. Não podia ver os detalhes de seu corpo, mas aquela demonstração de


vergonha apenas chamou a atenção para o que ela tentava esconder. Ela era linda. Não podia negar. Pele macia e dourada, olhos grandes, escuros, agora mais evidentes sem toda aquela maquilagem dourada, cílios compridos e cheios, lábios carnudos, maçãs do rosto salientes que lhe davam uma aparência orgulhosa e sensual, capaz de fazer as cabeças girarem onde quer que fosse. Em termos de aparência, era tudo que ele sempre quis numa esposa, numa princesa. Suas maneiras é que deixavam muito a desejar. Na verdade, deixavam tudo a desejar. Não costumava pensar no tipo de mulher com quem se casaria; o casamento não fazia parte de seus planos, apesar de saber que mais cedo ou mais tarde isso teria de acontecer. Porém, no fundo, achava que na certa se casaria com uma mulher exalando uma sofisticação serena. Uma mulher que facilitasse sua vida. O


perfeito acessório para todos os eventos. Tão necessária e inexpressiva quanto um bonito par de abotoaduras. Zara não era um par de abotoaduras nem uma cesta de frutas. – Estou angustiada – comentou em tom cada vez mais malicioso. – Fui arrancada da minha casa faz dois meses, mantida como prisioneira no palácio... – Já soube. E embora eu sinta pouca empatia com relação a você, não sei que atitude espera de mim. Você mesma informou que não posso devolvê-la. Também não quer se casar comigo, consoante já anunciou. Então tenho uma lista pequena do que não pode ser feito e do que você não quer fazer. Se pudesse me dizer apenas uma coisa que queira fazer, ajudaria bem mais do que ouvir tudo o que não posso fazer. – Eu me sinto muito confortável nesse quarto, nesse banheiro; pelo menos me sentia até você chegar. Então, talvez pudesse me


deixar ficar aqui, porque agora esse lugar se tornou meio familiar para mim. – E você é tão frágil que mudar de quarto vai afetar sua sensibilidade? – Sou muito frágil! Ele teve a sensação de que se ela estivesse em terreno seco, teria batido os pés para reforçar a declaração. – Você é muitas coisas, mas não a classificaria como frágil. – Saia! – ordenou como uma rainha. – Não. Sem preocupar-se em molhar as mangas da camisa, ele a segurou pelos ombros e por baixo dos joelhos e a tirou da banheira. Não a olhou. Manteve os olhos fixos à frente enquanto saía do banheiro e entrava no quarto. – O que está fazendo? – De tanto se debater, era difícil mantê-la presa. Também notou que sua pele era muito macia ao toque, como uma mulher deveria ser.


E além da labareda de raiva, surgiu a do desejo, o que o deixou assombrado. Ignorando a excitação, trincou os dentes e lutou contra a tentação de olhar o corpo nu. Não se tratava de sexo, mas de exigir o território que ela tentava tomar. Se ia casar com esse diabinho, teria de mostrar quem mandava. Deixar claro que ela não lhe daria ordens. O mesmo quanto ao seu corpo. Ele precisava controlar seus impulsos e os dela. Não havia outra opção. Tinha de ser firme. A partir de agora. – Vamos deixar uma coisa bem clara. Isso aqui não é um hotel. É meu quarto. Essa – acrescentou, atirando-a com violência – é minha cama. Eu faço duas coisas nessa cama. Sexo e dormir. Se quiser ficar na minha cama, vai ter de fazer as duas coisas comigo. Ou então, fique à vontade para encontrar uma acomodação mais adequada.


Mais uma vez, resistiu à tentação de olhar o corpo, conquanto imaginasse que ela estivesse estendida como um bufê delicioso. Mas pretendia assustá-la, não violentá-la. Ela não permaneceu imóvel por muito tempo. Enfiou-se debaixo das cobertas, escondendo o corpo. – Você – confessou, a voz trêmula – é terrível. – Vamos nos casar. Nada do que disse ou fiz devia ser tão chocante. – Sabia querer chocar, mas pouco se importava. – Não o conheço. – Vai me conhecer o suficiente dentro de uns dois meses. Podemos começar hoje. – Não podemos, não! – Então saia do meu quarto. Estou cansado. – Ele soltou o nó da gravata. Ela arregalou os olhos, cravou, como garras, as unhas no edredom branco.


– Não acredito – declarou em tom chocado, o que o excitou ainda mais. Manteve os olhos grudados nela enquanto tirava a gravata e a atirava no chão antes de começar a desabotoar a camisa. – Conforme já mencionei, estou cansado. Essa cama é minha. Já lhe informei as atividades que desempenho aí. Desabotoou o segundo botão da camisa e viu os olhos de Zara arregalarem-se ainda mais. E outro, e mais outro, aproximando-se da cama. O seu coração começou a bater mais forte. Sabia que ela acabaria fugindo. Ainda assim, isso não impediu seu sangue de correr feito chamas em suas veias. A mente podia ter consciência de ser um homem moderno, incapaz de tirar proveito de uma mulher assim, mas seu corpo, era evidente, não tinha captado a mensagem. Só sabia que era um homem, e ela, uma mulher, muito linda por sinal.


E, nesse momento, ele esqueceu o que fazia ali. Desabotoou outro botão; de repente, ela girou de lado, enrolou a coberta no corpo e desceu da cama. Imóvel, as cobertas escondiam suas curvas. O cabelo escuro estava molhado, grudado e cobria parte de seu rosto. Apesar disso, ela insistia em manter a pose autoritária. – Está certo. Pode providenciar outros aposentos para mim. – Afastou o tecido do edredom com um chute. – Vou me vestir. Quando voltar, espero que tenha resolvido o assunto. Ele riu ao vê-la bater em retirada, os ombros retesados, todo seu ser vibrando de raiva. Ele pegou o celular no bolso e ligou para o chefe da equipe do irmão, avisando que a princesa estava pronta para mudar-se para outro quarto. Zara voltou antes da chegada do funcionário, usando pijamas cor de rosa que


pareciam pertencer a uma menina, bem menos venenosa. – Ainda vai demorar? – Ouça o que diz. Parece bastante impaciente. – Seu argumento foi bastante persuasivo. Ele soltou uma gargalhada; a demonstração de hostilidade era irresistível. Não estava acostumado a esse tipo de reação. Mas, afinal, tampouco estava acostumado a estar noivo. E de uma mulher que deixava claro não querer casar-se com ele, como ele também não queria. – A maioria das mulheres não corre de mim quando começo a tirar a camisa. Ela curvou os lábios. – Logo vai descobrir que não sou como a maioria das mulheres. Ele esfregou o queixo, admirando o corpo agora disfarçado pelos pijamas de flanela. – Isso pode ser um problema, pois espero que se comporte como todas as mulheres


quando se trata de casamento. Deve ser tanto minha esposa quanto uma figura pública apresentável para meu povo. – E ele precisava ser o príncipe de que o irmão necessitava. – Não sou apresentável – advertiu apressada. – Apesar disso, meu irmão acha que é. Na verdade, é a única opção apresentável. Então temos um problema. – Ele a examinou melhor. Os olhos escuros cintilavam, e pela primeira vez ele notou uma forte expressão de medo apesar do comportamento atrevido. Pela primeira vez, questionou o modo como a tratara. Enraivecido por ser manipulado, descontara nela. Mas ela não tinha culpa, nem ele. – Não precisa ter medo de mim. Nem de Kairos, ainda que ele possa parecer um tirano. Nenhum de nós vai machucá-la. Ele não viu qualquer sinal de alívio no rosto dela. – Mas vão me usar.


– Você faz parte da realeza, Zara. Se não tivesse sido expulsa do palácio quando criança e despachada para viver com os ciganos, com certeza teria de submeter-se a um casamento arranjado. Assim como eu esperava que isso aconteceria um dia; só não sabia que seria assim tão rápido. – Não venha me dar sermões sobre a responsabilidade da realeza. Minha vida como membro da realeza foi roubada de mim. – Mas agora a tem de volta. O preço a pagar é o casamento. – Eu não esperava isso – proferiu em tom tenso. – Nunca pensou em casar? Hesitou. – Tenho só 21 anos. – Em nosso país não é considerada tão jovem. Vou perguntar novamente: nunca pensou em casar? Ela deu de ombros.


– Se eu fizesse mesmo parte do clã, a esta altura já estaria casada. Mas não fazia. Só estava sob a proteção deles. – Esse é seu jeito de dizer que não esperava se casar? A expressão ficou sombria. – Talvez um dia. Mas eu vivia escondida para proteger minha vida, livrar-me do mesmo destino dos meus pais e irmão. Nunca pensei muito a respeito. Sabia que eu teria de partir se quisesse levar uma vida normal... – Suponho que isso não seja exatamente normal. – Tem razão. – Vai precisar ser treinada. Franziu ainda mais a testa. – É mesmo? – É. Acho perfeitamente possível você ser uma noiva adequada. Você é bonita. Só precisa ser... domada. – Sou tão selvagem assim?


– Não tem noção de decoro. O fato de ficar entocada no meu quarto é a prova. Seu cabelo, sua postura... Você exala... – Exala o quê? Ele deixou escapar um suspiro. – Bem, em geral, princesas devem ser.… plácidas. Serenas. Como informei antes, submissas. Ela cerrou os punhos, a expressão raivosa. O cabelo escuro descendo pelas costas deixava sua aparência ainda mais selvagem. – Eu me recuso a ser submissa. Ele não sabia ao certo o que responder, irritado por colocá-la contra a parede. Kairos lhe dera ordens, e ele tinha de pagar pelos seus pecados. Em parte, não sabia o porquê de esforçar-se. Havia fracassado e ponto final. O pai sempre gostava de lembrá-lo disso, desde a infância até a idade adulta. Kairos era o filho responsável, o herdeiro, e, felizmente, assumira suas


obrigações. Andres era o filho com quem o pai podia contar para criar um escândalo, uma confusão, um desastre. Tinha sido barrado dos eventos oficiais quando criança. Durante os jantares de cerimônia, ficava trancado no quarto, enquanto o resto da família se exibia. O pai podia estar morto, mas Andres ainda sentia o olhar frio e desapontado que o pai sempre lhe dirigia. Dera sua palavra a Kairos; não falharia. Outra vez, não. Dessa vez, triunfaria. Era só um casamento. E ela, só uma mulher. Como poderia fracassar? Era um playboy famoso por seus métodos de sedução. Na certa, seria tranquilo seduzir essa sem-teto. – Você não vai se recusar a casar-se comigo. O que deseja além da liberdade? Peça e eu darei. Deve haver alguma coisa. Podemos negociar.


Ela baixou o olhar, hesitante por um instante. – Quero ter certeza de que meu povo viva bem. E de que os que me criaram não corram perigo. – Então essas serão nossas condições para fecharmos acordos comerciais com Tirimia. Aqui, no trono do meu país, você terá muito mais poder do que se vivesse escondida na floresta em seu país de origem. Isso posso prometer. Vai poder conversar com o rei, que é bom e justo. Ocupará seu posto de princesa. Com certeza, é melhor do que viver escondida feito um camundongo na toca. Ela franziu as sobrancelhas unindo-as e formando um vinco entre elas. – Você adora me comparar com animais. – No momento, infelizmente para mim, você se parece mais com um animal do que com uma mulher. – E ele parecia mais um lobo. – Então, vai permitir que eu transforme você


numa noiva adequada? Em troca, eu lhe darei o que deseja. – Uma batida à porta. – Devem ser os criados para acompanhá-la ao seu quarto. Ela meneou a cabeça com vagar. – Está certo. Nos últimos instantes, parte de seu fogo se extinguira. E ele não gostou nada disso. Não fazia sentido. Não, não fazia. Mas nada nas últimas doze horas fazia o menor sentido. – Começamos amanhã. Encontre comigo no escritório geral depois do café da manhã. – E o que vai fazer? – Domá-la, é claro.


CAPÍTULO 4

ACONTECE

a definição de domar significava tentar vesti-la com metros de seda e tule. Ela não se sentiu nem um pouco domada. Pelo contrário, ficou indignada e irritada. Contudo, esse era seu estado natural desde que tinha sido expulsa do quarto dele na noite anterior. Só de lembrar, sentia o fogo arder em sua pele, exacerbado pela seda fria do vestido que provava no momento. Imaginou que a onda de calor fosse originada pela raiva. Estava furiosa. O modo como ele a tirara da banheira, pegando-a no colo como se tivesse o direito de QUE


tocá-la, como se de alguma maneira ela lhe pertencesse era no mínimo irritante. O problema é que o sentimento não se assemelhava a nenhum tipo de raiva já experimentado. Mas, afinal, estava num palácio diferente de qualquer outro, usando roupas com as quais nunca tinha sonhado, portanto, imaginou que o sentimento também se ajustava ao conjunto da obra. – Mantenha os ombros retos – ordenou a costureira, em tom tão pesado quanto os ombros de Zara começavam a ficar. – Você ouviu – comentou Andres por trás do biombo. – Se não ficar parada, vai demorar ainda mais. – Não sou criança – avisou. – Não precisam falar comigo como se eu fosse. – Então não se comporte feito criança – retrucou a costureira. Zara precisou conter a vontade de se remexer só para provocar.


Tudo isso era muito estranho. A experiência mais próxima em sua memória tinha sido a ida para o acampamento. Na ocasião, ela representava uma curiosidade, mas todos foram cuidadosos. Ela era uma menininha sem família, traumatizada, mergulhada na dor. No clã, os recursos eram limitados, e ninguém nunca lhe proporcionou um novo guarda-roupa. Nunca tivera roupas sob medida, só usadas. Em sua vida antes da revolução, na certa vivera coisas semelhantes, mas um véu cobria aquele passado, memórias que tinha dificuldade de acessar. Tudo se reduzia a sentimentos. Imagens imóveis em sua mente. Gostos, cheiros. Tinha apenas 6 anos quando fora levada. Passara mais tempo fora do que dentro do palácio. Tentava odiar a vida em Petras, mas na verdade começava a gostar. O vestido que


usava era irresistível. Nunca tinha imaginado achar um vestido irresistível, mas este definitivamente era. O corpete era justo, macio, de seda, com videiras cor de rosa bordadas. A saia a envolvia como uma nuvem cor-de-rosa. Na verdade, adoraria odiar aquela saia por sua pouca praticidade. Impossível; era linda demais. Por mais que tentasse, sem êxito, ressentir-se do vestido, conseguia ressentir-se, com bastante sucesso, de Andres. – Gostaria de ver esse, vossa alteza? – questionou a mulher a Andres, como se Zara não existisse. – Por que não? – Ele soou enfastiado, o que ela considerou um insulto. No entanto, caso ele soasse ansioso, na certa ela ficaria igualmente ofendida. Ele não podia levar a melhor. Isso ela já decidira. Não lhe permitiria. Não se casaria com ele. Encontraria uma escapatória.


Lembre-se do ditado: moscas apanham-se com mel, e não com fel. E você precisa da ajuda dele. Ignorou o pensamento. Sim, de certa forma, precisava dele. Mas não ofereceria o tipo de mel que aquele aquele espécime de homem queria. Andres não demonstrara ambiguidade quanto às suas intenções. Na noite anterior, alertou o que faria caso ela não trocasse de quarto... Voltou a sentir o calor na pele, justo quando a costureira afastou o biombo, eliminando a distância entre ela e o imponente príncipe. Ela respirou fundo, os seios comprimindo o corpete justo e estruturado. Teve consciência de que os olhos dele focaram na referida parte de seu corpo. Ele agia assim com a intenção de deixá-la constrangida. Não havia outro motivo. Os homens não perdiam tempo olhando para seu peito. Os homens não perdiam tempo olhando para parte nenhuma de seu rosto ou corpo.


Sim, ela tinha sido superprotegida antes de ser sequestrada e conduzida de volta ao palácio, mas nunca parecera um desafio difícil para o líder do clã manter os homens afastados dela. Pelo contrário, às vezes Zara sentia que repelia as pessoas quando passava por elas. O ardor em seus olhos não podia ser verdadeiro. O que era ainda mais ofensivo, embora devesse ser menos ofensivo. As atitudes de Andres não faziam sentido; isso já compreendera. – Então? – A entonação foi de ordem, e não de pergunta. Ele colocou a mão no queixo como se refletisse. – Com certeza, hoje tem mais aparência de princesa do que ontem. – Suponho que dependa do ponto de vista cultural – argumentou, erguendo a sobrancelha. – Sério?


– Sério. Para o meu povo, a maquilagem dourada é considerada a marca da realeza. A marca da beleza. O vestido que eu usava ontem, roxo com frisos dourados, também significava isso. Este é apenas um vestido bonito. – Esse é couture – disse a costureira, por sua vez, em tom ríspido. – Vai permitir que ela fale assim comigo? – interrogou Zara. – Vou. Você foi grosseira – assegurou Andres. – Peço desculpas – declarou, conquanto não se sentisse nem um pouco arrependida. Difícil, quando se sentia manipulada. Forçada. Aprisionada. – Estou cansada. – Erguendo as saias volumosas e pesadas, sentou-se na beira da cama. – Eu sei. Imagino que provar vestidos o dia inteiro seja incrivelmente exaustivo – proferiu em tom seco.


– Talvez tão exaustivo quanto ficar sentado vendo outra pessoa experimentar as roupas. – Provavelmente não tão exaustivo quanto cuidar de uma moça mal-humorada e amarga. – Recostou-se na parede, cruzando os braços no peito, a expressão lacônica. – Elena – dirigiu-se à costureira –, melhor descansarmos um pouco. A princesa e eu cuidamos do resto. – Pois não, vossa alteza. – A mulher demonstrou insatisfação por ser dispensada e deixar os vestidos para trás para que outra pessoa se encarregasse deles. Mas obedeceu. Zara achava que nunca se acostumaria com o modo como tratavam Andres, e sobretudo Kairos. Sentia-se entre os dois. Não que você não tivesse poder no acampamento. As pessoas a colocavam num pedestal e não lhe restava escolha. Afastou de novo os pensamentos, focando na crescente sensação de medo ao ver Elena sair do aposento e deixá-la a sós com Andres.


– Então? – Ergueu as mãos e as desceu agarrando o tecido do vestido. – Estou modificada para atender à sua imagem preferida? – Ainda tem um longo caminho pela frente – advertiu ríspido. – Ainda parece meio selvagem. – Talvez porque sou meio selvagem. Já pensou que por mais que se esforce não vai mudar isso? Que por mais que tente me fazer parecer elegante, isso não vai mudar o que sou por dentro? – No que me diz respeito, a aparência é um bom começo. Mudá-la por dentro é tarefa mais difícil. – Fala por experiência própria? Retorceu um dos cantos da boca. – Experiência em não conseguir mudar, é óbvio. – Se não conseguiu mudar, depois de todos esses anos vivendo neste palácio, o que o faz


pensar que vai conseguir fazer com que eu mude em apenas dois meses? – Mas eu não preciso mudar você. Só preciso fazer com que pareça ter mudado. E nisso, sou especialista. – Achei que o objetivo final fosse domar. O outro canto da boca retorceu, e ele sorria. Mesmo assim, ela não o interpretou como um sorriso bem-humorado. – Só uma perguntinha: acha que estou domado? Ela o examinou dos pés à cabeça: o corte perfeito do terno, os traços aristocráticos. Podia ser uma escultura. Uma estátua grega viva e não um homem nascido de uma mulher. Ele era lindo. Não havia nenhuma palavra para descrevê-lo. Poderia chamar de lindas as montanhas de Tirimia, a floresta, ainda que fossem ao mesmo tempo, arriscadas e perigosas. Tinha a sensação de que Andres era as duas coisas, além de ser lindo. O irmão,


Kairos, exalava perigo, autoridade. Em Andres, essas características eram menos aparentes. Mas ela as enxergava. Sentia. Na certa, devido ao fato de ele a ter retirado da banheira ontem e a atirado na cama. E não por possuir um sexto sentido. Todavia, respondeu confiante à indagação. – Não, não é. – Mas aparento ser. Ou melhor, aparento ser quando me convém. – Então sua sugestão é eu bancar a princesa em público? – Basicamente, embora eu não tenha a intenção de ser mordido. – A expressão em seu olhar mudara ao pronunciar as últimas palavras. De raiva para ardor? Podia jurar que sim, conquanto não compreendesse direito o sentido. Essa sensação estranha acompanhava o contato entre os dois. – Nunca mordi alguém. Suas preocupações são infundadas.


Ele ergueu a sobrancelha. – São? – Deu um passo na sua direção, os olhos escuros fixos nos seus. – Se eu a agarrasse agora e a atirasse naquela cama, não me morderia? O coração acelerou tanto que ela mal conseguia respirar. – Por que faria isso? – Vai me dizer que é tão ingênua que não percebe o que um homem quer de uma mulher! – exclamou em tom áspero e violento. – Claro que não – protestou, a garganta apertada, o rosto ruborizado. – Então sabe o que o marido quer da mulher. Foi como se o corpo incendiasse e seus pontos mais íntimos ardessem. Deveria estrangulá-lo com a própria gravata por ousar falar com ela assim. Mas, certamente, não deveria estar pegando fogo. – Mas não sou sua mulher.


Ele segurou seu queixo entre o polegar e o indicador com firmeza, os olhos cravados nos seus. Ela deveria afastar-se. Chutá-lo. Não fez nem uma coisa nem outra. – Mas vai ser. Em todos os sentidos da palavra. Gosto desse vestido – mencionou, o olhar percorrendo-lhe o corpo. – Curvou-se e ela perdeu o ar. – Fico me questionando se você me morderia se eu tirasse esse vestido, se a possuísse. – Tente – respondeu com a voz trêmula –, tente e vai ver, filho da mãe. – Palavrões. Gosto disso. Se acha que vai me afastar, lamento desapontá-la. – Aproximou-se, os lábios quase colocados aos seus. Ela descobriu o desejo de aproximar-se e não de afastar-se. Sentia uma conexão se formando entre eles, física, real, tangível. Queria concretizá-la. E não interrompê-la. Há quanto tempo não se sentia conectada a alguém? Há quanto tempo ninguém a tocava? – Azar o seu,


decepcionar os outros é uma das minhas especialidades. Então se afastou. O afastamento reproduziu a força de um vendaval. Deixou-a fria, desconsolada. – Tive de resistir para não arrancar suas vísceras com os dentes – proclamou, tentando manter o tom duro. – Talvez não seja tão pouco civilizada quanto imagina. – Talvez eu não seja tão civilizado quanto imagina. – Se está tentando me assustar para que eu aceite esse plano de casamento, devo informar que não vai funcionar. – Engoliu em seco, lutando com todas as forças para formar a próxima frase e encará-lo enquanto falava. Ele deu um riso soturno. – Tolinha. Não preciso de sua submissão, mas de sua cooperação. – Posso fazer alguma coisa para ajudar, sem precisar casar com você?


– Não, não pode. Ela trincou os dentes. – Quanta inflexibilidade! – Sou inflexível. Nesse instante, por causa do meu irmão. Devo-lhe uma. Eu já o desapontei e não posso fazer isso mais uma vez. Essa é a minha expiação. E você, a minha penitência. – Neste caso, suponho que deitar sobre meu corpo será o mesmo que rastejar sobre cacos de vidro. Ele gargalhou, o que a irritou ainda mais, pois doera pronunciar as palavras. Lidava com um assunto que não dominava, tentando fingir sofisticação. Como se o que ele dizia fosse indiferente. E quando ela fez um comentário com a intenção de chocá-lo, ele não teve sequer a decência de demonstrar assombro. – Pelo contrário, imagino que deitar sobre o seu corpo, como você enfatizou de modo tão eloquente, será a melhor parte de nossa união forçada.


– Por que o casamento? – interrogou desesperada. – Por que não... Acho que não entendo o que mais eu poderia fazer, porque não estou segura do motivo pelo qual precisa de mim. – Devo casar com você porque Kairos assim ordenou. Deste modo, as relações entre Petras e Tirimia serão restabelecidas. Talvez existam outras explicações, mas ele não me informou, e eu não inquiri. Os motivos são irrelevantes. – Estranho, mas você não parece o tipo de homem que se submete. Não consigo imaginar você aceitando algo que não lhe agrada, só por ser a coisa certa. Tem algo mais. Tem de ter. Ela não fazia ideia do quanto. Nada em Andres era dócil. Ela tinha razão, ele era indomável. Pelo menos, até então. Entretanto, bancava a marionete do irmão mais velho. Não fazia sentido. – Já confessei que passei muitos anos fazendo o que me dava na telha. Na verdade, vivi assim


até a semana passada. Cometi erros; esperava que fossem esquecidos com o tempo e graças a circunstâncias que não exigiriam ações conciliatórias de minha parte. Enganei-me. – Seja mais específico. De onde venho, não temos esse tipo de conversa. Ou dizemos o que pensamos ou não falamos nada. Ninguém alude a acontecimentos e deixa de lado o elemento mais importante da história. Era verdade, apesar de raramente ser incluída nas conversas importantes no seu país. Mesmo assim, a exclusão não era ambígua. – Quer saber o que fiz? É isso? – Se isso esclarecer seus motivos para aceitar a ordem de seu irmão, sim. Tenho o direito de saber. – Está certo. RELUTOU EM contar a verdade. Era estranho ela não saber. Todo mundo em seu país sabia. Todo mundo no exterior, até quem lia jornais


na fila da quitanda, conhecia os sórdidos detalhes de seu passado e como terminara o primeiro noivado de Kairos. E isso o deixava relutante. Ela não o olhava e via o príncipe playboy. Nem a ovelha negra. Não gostava dele, mas isso se devia apenas às interações entre eles, não a fofocas ou manchetes. Estranho ele achar isso animador, mas achava. Estranho importar-se com o que ela pensava, mas se importava. Desde cedo, acostumara-se a não dar a mínima para a opinião alheia. Desde que saíra das sombras e aparecera em público quando adolescente. – Tenho a sensação de que você não lê revistas de fofocas. – Não leio mesmo. Ele sentou-se na cadeira à sua frente, fingindo uma postura casual. Agia como


profissional ao fingir não se importar, sobretudo quando se importava. – Então nunca leu sobre minhas aventuras. São lendárias. Não existe mulher que eu não consiga seduzir. Nunca recusei nenhuma top model, daquelas com ideia fixa em sexo. Sempre as deixo querendo mais, e é raro sair mais de uma vez com a mesma mulher. Sou um safado. Sem moral. Ele observou o rubor, de um rosa escuro como o bordado do vestido, colorir seu rosto. – É mesmo? – A voz era rouca, mantinha os olhos grudados na parede atrás dele. Ele não entendia. Estaria desconfortável em sua presença, zangada e ganhando tempo, ou não sentia tanta atração por ele quanto ele por ela? Ele saíra com um montão de mulheres. Não sentia orgulho de seu comportamento, era inegável. Mas com tamanha experiência, não fazia sentido sentir atração por essa mulher. Ela


não era sofisticada. Era linda, mas muitas eram. Lindas sem serem tão assustadoras e selvagens. Ela parecia o vento engarrafado acondicionado dentro de um vestido. Perguntava-se se ela fora presa e simplesmente aguardava o momento certo de se soltar novamente. – É. A mídia sempre publicou que eu não tenho escrúpulos. Imagino que tenha algum, ainda que não se manifeste faz muito tempo. É liberador não sentir qualquer constrangimento – alertou, inseguro quanto ao motivo de acrescentar essa informação à conversa. – Apenas obedecer aos impulsos, sem remorsos. Porém, nunca imaginei não ter um pingo de escrúpulo. Isso só acontece com sociopatas. E nunca me imaginei um. Eu, meu irmão e a noiva, Francesca, viajamos a Monte Carlo para jogar e nos divertimos. Kairos, como sempre, divertia-se de modo muito digno. Teve reuniões com líderes mundiais num ambiente


mais descontraído. Eu estava lá para me divertir mesmo. E então, certo dia em que Kairos saiu para uma reunião, dei uma festa na minha suíte. Convidei todas as mulheres bonitas que encontrei, todos os homens interessados em jogar e cair na farra. Bebemos muito, como acontece nesse tipo de festa. No meu caso, a quantia certa para me fazer perder os últimos vestígios de escrúpulos. Foi nessa festa que eu provei que a mídia tinha razão. – O que você fez? – A indagação, confusa, assombrada, realçava ainda mais os olhos escuros e grandes e o deixou envergonhado como nunca. Ela não fazia mesmo ideia. Não podia imaginar a traição que estava prestes a revelar. Se ia ser sua esposa, melhor compreender logo. Quem ele era. Do que era capaz. O que os pais sempre souberam que ele era. – Transei com a noiva do meu irmão. Eu nem teria me lembrado, se não fossem os


vídeos da festa. Não apenas humilhei meu irmão, mas transformei a mim e a Francesca em estrelas pornôs. A família dela não aceitou bem o escândalo, caso esteja curiosa, nem a minha. Agora os olhos grandes exprimiam horror, choque. Ele ficou ao mesmo tempo arrasado ao ver que ela agora entendia quem ele era, e estranhamente fascinado por ainda ser capaz de chocar alguém. Por ela não ter percebido desde o primeiro encontro o quanto ele era desprezível. Era o tipo de homem que não fazia nada pela metade. E já que não podia ser bom, então decidira ser péssimo até a última gota. Teve a sensação de que se tentasse explicar isso a Zara, ela o olharia como se tivesse nascido outra cabeça nele. Eles viviam em mundos totalmente distintos. Assim que reassumisse o controle de sua vida, faria o que bem entendesse. Continuaria frequentando festas, dormiria com quantas mulheres


quisesse. Uma a cada noite, para ajudá-lo a preencher o vazio que corria o risco de aumentar se ele permitisse. Ela vivera uma existência solitária. Enquanto a dele era movimentada. Vivia cercado de gente. Quanto mais, melhor. Podiam ter vindo de planetas diferentes. – Agora – comentou, sem querer estender a conversa –, conte-me alguma coisa sobre você. Ela ergueu o queixo com a expressão orgulhosa. – O fato de ter testemunhado a morte de minha família não basta? Uma sensação desconfortável, pesada, tomou conta de seu peito. – Você não quer se casar comigo – disse ele. – Claro que não. – Por que não? – Além do fato de ser um estranho, acabou de confessar ter traído seu irmão. Você... acabou de dizer que é o homem mais infiel do


planeta. E ainda me questiona por que eu não quero me casar com você? – Mas você mesma revelou que não planejava casar. Não venha agora dizer que alimentava fantasias a respeito de uma casa com cercas brancas e um marido que só tivesse olhos para você. Nosso casamento pode ser o que você quiser que seja, mas não me interrogou quais meus interesses em relação a você. Não perguntou meu objetivo, não deu nenhum feedback sobre como gostaria que a situação fosse conduzida. Simplesmente não quer se casar comigo. O que me faz pensar que tem outro objetivo, que não eu, em mente. Ela desviou o olhar, boquiaberta. – Responda, criatura selvagem, ou vou cumprir minha ameaça. – Ouça o que diz! – exclamou, girando a cabeça, os lábios retorcidos de desprezo. – O homem que acabou de afirmar ser capaz de


seduzir qualquer mulher me ameaça com seu corpo. – Logo vai ser seduzida. – Trincou os dentes. – E talvez eu até descubra que não me importo de levar uma dentada. – Não quero sujar minha boca. Ele riu, apesar de não achar graça. – Vou me lembrar disso. Agora, conte, começo a ficar impaciente. – Eu também estou impaciente, mas ninguém parece preocupado. Fui mantida prisioneira durante os últimos dois meses, antes de transferirem minha posse para você. Sim, estou bastante impaciente. Nunca tive direito a tomar decisões na vida. Nasci na realeza, numa posição mais vulnerável do que poderia imaginar enquanto vivia cercada pelos muros de pedra do palácio. Depois perdi toda a família e fui levada para o meio da floresta. Anos depois, fui aprisionada. E agora fui entregue a você, para ser sua mulher, e outra


vez não tenho escolha. Quem eu sou? O que vou ser? Um joguete nas mãos de qualquer um? Devo ser mais que isso, Andres. Gostaria de ter a chance de descobrir quem sou. As palavras o comoveram. Estranho; afinal, eram tão diferentes. Viviam em mundos distintos, como há pouco pensara. Contudo, compreendia essas palavras como se tivessem saído da própria cabeça. – Vai ter. Eu prometo. Nosso casamento não precisa ser tradicional, se você preferir. Na verdade, não é de meu temperamento obrigar ninguém a nada. Se tenho liberdade, você também terá. – O que está sugerindo? – Depois que tiver filhos, ficará livre para ter quantos amantes quiser. Ou buscar hobbies e outros interesses. Estudar, se quiser. – Interessante você priorizar amantes à educação.


– Eu, com certeza, prefiro amantes à educação. Mas a decisão é sua. Ela franziu a testa. – Por quê? – Não entendi. Por que estou lhe oferecendo uma opção? Não levo nenhuma vantagem em me comportar como carcereiro. Nem pretendo agir assim. Já assegurei, não quero uma esposa. Mas devo isso a Kairos. Acho que agora dá para você entender. Ele só exige que a gente tenha um filho para assumir um trono, caso ele e a mulher não consigam realizar a tarefa. – Entendo. Só precisa de meu ventre. Como se isso não fosse nada. – Teremos uma família. Nosso sangue. Há quanto tempo não faz parte de uma? – Odiouse por usar esse argumento. No entanto, era um homem sem escrúpulos, e não mudaria de um instante para o outro. Ela desviou o olhar. – Há muito tempo – respondeu por ela. – Não brigue comigo. Nenhum de nós tem


opção. Não precisamos tornar a situação mais difícil do que já é. Levantou-se, disposto a sair. – Pode chamar a costureira? Não era o que ele esperava ouvir. Mas, afinal, Zara era imprevisível. Não se encaixava em nenhuma das categorias de mulheres com quem saíra. – Do que precisa? – Não vou conseguir tirar essa roupa sozinha. – Estou disposto a ajudá-la, princesa. Sentiu uma bola de fogo nas entranhas; um nó tamanho que mal o deixava respirar. Ali estava ele, conversando sobre terem amantes quando assumissem os votos sagrados do matrimônio, e mesmo assim excitava-se só de pensar em desabotoar o vestido. Ajudara inúmeras mulheres a tirar os vestidos de grife; nada de excepcional. Nada particularmente


interessante sobre o desejo tampouco. Todavia, ali estava ela. – Não, não pode. – O tom tenso indicava que ela tampouco era imune a ele. – Prefere chamar Elena só para abrir o zíper? Parece um pouco demais. Eu lhe meto tanto medo? Um brilho cintilou nos olhos escuros. – Nada me assusta. Já comentei antes. Tem pouca memória. – Então vire de costas. Ela obedeceu, e ele sabia ser por pura teimosia. Ele desceu o zíper devagar, ignorando o leve tremor nos dedos. Não havia motivos para tremer. Revelava apenas as costas. Lindas, é verdade, como tudo nela, mas comuns. Umas costas nuas, como tantas outras já vistas. Ela olhou por cima do ombro, e o tesão o consumiu. Seus olhos eram diferentes de todos os outros.


E pouco importava quantas mulheres despira no passado, pois não eram Zara. Pois não era agora. Droga, precisava se controlar. Depois de abrir todo o zíper, deu um passo atrás, deixando as mãos penderem para não agarrar o corpete e o descer até o chão. Para não perder o tênue controle que lhe restava e cumprir sua ameaça anterior. – Pode ir – proferiu, as palavras trêmulas. – Como preferir, princesa. Mas chegará o dia em que não vou sair quando estiver sem roupa. – Não saberia explicar o motivo do comentário. Não era apenas dar mais uma cutucada. Talvez sentisse sua impotência nessa situação. Motivo pelo qual ela sentiu necessidade de o atacar. Por isso, ele a provocava. – Nem um dia antes do necessário – avisou. – Durma bem. Amanhã trá aulas de boas maneiras. – Tentará a todo custo levar uma mordida?


– Não. Amanhã vou ensiná-la a dançar.


CAPÍTULO 5

PRIMEIRO

seu cabelo. Não se lembrava da última vez que isso acontecera. Por anos deixara o cabelo crescer, pesado e encaracolado até a cintura, preso em geral numa trança. O estilista do palácio o deixara no meio das costas. Era estranho. Um peso, do qual nem tinha consciência, fora removido. Depois, fizeram a maquilagem. Totalmente diferente de como havia sido ensinada. Mas o pó dourado nos cantos dos olhos, e o traçado preto deram um olhar diferente com o qual não estava acostumada. Uma espécie de união combinando os padrões de beleza de Tirimia aos de Petras. CORTARAM


O vestido, a terceira etapa de sua repaginação, foi outro exemplo. Ao contrário da roupa vaporosa usada ontem, este era justo, realçando suas curvas. Contas douradas presas ao tecido fosco até os joelhos e daí aos pés, o tecido transparência reluzia com os mesmos detalhes dourados. O cabelo recém-cortado fora penteado em ondas. Nunca imaginara que o cabelo pudesse ficar assim. Em geral, parecia muito mais... natural. Em geral, ela parecia mais natural. Tinha a perfeita sensação de que Andres veria nisso uma vitória. O pensamento a teria deixado ainda mais irritada caso não se sentisse fascinada pela própria imagem. Infelizmente, não dispunha de muito tempo para ficar admirando-se no espelho. Precisava descer para o salão de festas onde Andres a ensinaria a dançar. Só de pensar nele, o estômago ardia; a sensação só aumentava enquanto descia as


escadas e percorria o corredor até o salão. Em teoria. Nunca tinha ido ao salão de festas do palácio. Deram-lhe algumas indicações, e como era fácil guiar-se na floresta, imaginou poder achar o caminho num castelo. Deteve-se diante das portas duplas ornamentadas que separavam o corredor do salão e, supostamente, ela de Andres. Só mais um minuto para respirar, antes que ele lhe tirasse o fôlego. Inspirou fundo e girou a maçaneta. Entrou no espaço vazio e parou, admirando o pé direito alto, abobadado, adornado com lindas pinturas. O papel de parede era azul-claro com flores de veludo amassadas, e cada segmento da parede era dividido por uma moldura dourada. Ela combinava com o ambiente. Estranho pensamento. Mas verdadeiro. Agora parecia pertencer ao lugar. Como se fosse sua obrigação. Tinha nascido para tal. E viveria assim, se o pai não tivesse sido deposto.


Fazia jus a isso por direito de nascença. E, na certa, se casaria com um príncipe como Andres. Talvez fosse o seu destino. Estar ali. Com ele. Ser sua esposa. Que pensamento esquisito! Mas, de certo modo, confortador. Teriam seus pais planejado tal vida para ela? Com certeza, não desejariam que passasse o resto da vida na floresta. Fechou os olhos por um momento, respirando fundo. O cheiro era familiar. Pedras e madeira antigas. Um palácio. Lembrou-se de casa. Dos pais e de como cuidavam dela. Eles a amavam. Muito. Esse era o tipo de vida que desejavam para ela. Que fosse uma mulher bem-vestida, bem-penteada. Caso tivesse sido criada no palácio, já estaria domada e ele não a veria como um animal feroz. Engoliu em seco. Que importância tinha o que ele pensava a seu respeito? Não se casaria


com ele. Encontrariam um jeito para escapar do compromisso. Sem prejudicar ninguém. Não estava preparada para o casamento. Muito menos com um homem que, assim como ela, agia por falta de opção. Tinha sido forçada a muitas coisas. A muitas pessoas. Era tão terrível querer ter a opção de escolher? Afastou o pensamento e deu alguns passos. Tolice pensar nisso. Ser escolhida, desejada. Luxos para quem não precisa preocupar-se com a sobrevivência, ou com o dever. Não se encaixava em nenhuma das duas versões de sua vida. Neste instante, Andres entrou pelas portas à sua frente. Já devia ter se acostumado com sua presença. Ou ao fato de que ele sempre causava impacto. O pior é que o impacto era cada vez maior. Por pouco, ela não caiu na gargalhada, tamanho o absurdo da situação: ela em traje de gala, ele de smoking, àquela hora do dia, num


salão de bailes vazio. Dois estranhos que receberam ordem para casar-se, embora não o desejassem. Não conseguiria rir. Não quando mal conseguia respirar. Se ficara tensa só de pensar nele, ao vê-lo, a tensão subira vários graus. Não conseguia entender o motivo. Ele era bonito, mas ela não tinha o menor interesse em ser tocada por ele. Ou beijada. Ou qualquer outra coisa parecida... O fato de ainda ser inocente, apesar da idade, não a incomodava. A inocência era consequência de ter sido mantida afastada de todos. Na adolescência, não havia meninos para lhe dar a mão, um beijo. Ninguém com quem conversar sobre relacionamentos. O pouco que sabia aprendera ouvindo e observando. Agora sentia-se confusa. Pior, curiosa. Como seria se ele cumprisse alguma das ameaças? Como seria sem aquela roupa? O que se escondia por trás da fachada que os outros nem percebiam, mas


que ela sabia existir? Sabia o que era fingir calma quando por dentro rugia a tempestade. Eram tão diferentes... Entretanto, ela conseguia ver seu próprio reflexo naqueles olhos escuros. Não fazia sentido. Ainda que sentido sua fascinação por ele. Devia ser medo. Não podia negar certo resquício de medo, mas não se tratava só disso. A curiosidade era o que mais a perturbava. Se tivesse mais algumas respostas para suas indagações, talvez ele não despertasse tanto sua curiosidade. Se já tivesse feito amor, ou pelo menos beijado alguém, talvez não ficasse tão fascinada pelo desenho daquela boca. Talvez não se questionasse tanto se seria quente, firme, experiente como aparentava. Ele a olhou nos olhos. E parou. Congelado no meio do salão, como se tivesse visto uma entidade estranha. – Você cortou o cabelo. Ela passou a mão no cabelo sedoso.


– Eu não. – A cabeleireira. – Isso. – Jogou o cacho escuro sobre o ombro. – Não pareço domada? Ele inclinou a cabeça para o lado. – Não tenho certeza. Por que não se aproxima para eu examinar melhor? Quando deu por si, obedecia, sem saber direito o porquê. Talvez quisesse passar uma falsa impressão de segurança. Conquistar sua confiança. Sim, só podia ser isso. Não tinha nada a ver com o aperto no estômago, a pressão no peito, a secura na garganta. Nada a ver com a beleza estonteante dele. Como uma paisagem que nos convida a explorar seus arredores e nos engole por inteiro. Nada disso importava. Lutar contra ele não ajudaria em nada, portanto, melhor esperar e atacar quando conviesse. Obedeceria. Pelo menos, por enquanto.


Foi a vez de Andres acariciar seu cabelo. Estendeu o braço, e ela apenas observou ele passar o polegar pelos cachos escuros e sedosos. Ele ficou calado; apenas admirou. Sentiu vontade de saber se ele tinha gostado, mas refletiu que não devia se importar com a resposta. Não precisava que ele a achasse linda; precisava que a achasse cooperativa. Talvez fosse mais vantajoso ele não a achar bonita. O fato de ser lindo, atraente, não mudava sua essência. Ele deixara isso bem claro. Havia traído o irmão. Sem precisar, sem estar apaixonado pela mulher em questão. Apenas porque podia. Porque vivia para o prazer. Isso, mais do que todo o resto, deveria causar repulsa. Deveria tornar irrelevante sua opinião sobre a beleza dela. Quando pensou na mãe e no pai, no que tinham feito graças à posição ocupada, nas mudanças pelas quais tinham morrido... Devia


sentir repulsa. Apesar de possuir tanto poder, Andres não o exercia. Mas não sentia nojo. Que decepção descobrir ser tão vulnerável quanto as outras mulheres. De repente, ele mudou de posição, a pegou pela cintura e segurou sua mão. – Estamos aqui para dançar. Você sabe dançar? Conquanto soubesse que ele tinha feito uma pergunta, e que esta exigia resposta, não conseguia falar. Ele era forte. Isso já sabia. Ele a retirara da banheira e a carregara pelo quarto como se ela fosse uma pluma. Mas, de certo modo, tinha esquecido. Ou talvez a memória não fizesse justiça à força daquele homem. Ele era forte, é verdade, mas o verdadeiro assombro era ele a segurar firme sem a quebrar. Firme, mas gentil. Sentia o calor de sua pele irradiando através do tecido do terno, imaginava os músculos fortes. Isso apenas a


deixou mais agitada. Outra prova para justificar sua teoria de que ele escondia seu verdadeiro eu por trás de uma máscara. – Ponha a mão no meu ombro. Obedeceu de novo; era mais fácil que formular palavras e expressá-las. Ele a acusara em múltiplas ocasiões de ser uma criatura feroz. Pois era exatamente como se sentia. Totalmente incapaz de uma interação com um homem. Como se tivesse sido criada por lobos e não por uma família de hábitos simples. – Você não sabe dançar – respondeu ele à própria indagação. Ela balançou a cabeça, tentando não olhar para os locais onde as mãos dele faziam contato. Ou para os dedos entrelaçados aos seus. Não cedia apenas para ganhar sua simpatia. Era algo diferente. Confuso. Aterrorizante. Não era possível.


A atração não combinava com a situação. Não tinha lugar na sua vida; não até descobrir o que queria da vida. Como poderia responder a esse questionamento até conhecer-se melhor? Por algum motivo, parada no meio desse salão, nos braços daquele homem, percebeu o quão pouco de experiência de vida tinha. Tudo em consequência de seu título. Um título que nunca fora capaz de reclamar ou usar. Mas como tinha sofrido. A constatação devia ser... desoladora. Porém, por algum motivo, estar em seus braços representava aconchego. Talvez porque afinal alguém a tocava. Finalmente sentia-se ligada a alguém. E então interrogou: – Gostou do meu cabelo? – Não conseguiu fitá-lo, temerosa de pegá-lo na mentira. – Gostei – admitiu com cautela. – Embora também gostasse antes. Devo confessar que seu lado selvagem é cativante.


Não conseguiu impedir-se de fitá-lo. Ele ainda a segurava, os dedos imóveis. Uma aula de dança não devia ser assim, contudo, ela queria continuar a conversa. – Do que gosta no meu lado selvagem? – Você é corajosa. Você briga. E isso me atrai. Demonstra seus sentimentos em vez de mostrar o que os outros querem ver. Como é possível não me sentir intrigado? – Porque você só pode ser o que é aceitável? – Porque estou cercado de pessoas bemcomportadas. – Tentava mudar o rumo da conversa. Não negou sua acusação, mas tampouco a admitiu. – É um alívio ver alguém diferente. – Você só me viu aqui. Passei muitos anos vivendo de acordo com os padrões. – Então me conte – declarou, e então começou a se mover. Conduzindo-a numa dança sem música.


Ela se segurou firme nele, tentando não tropeçar. – Contar minha vida com o clã? – Isso. Conte como se comportam. – É difícil explicar. Eles cuidavam e gostavam de mim. Mas eu não fazia parte do grupo. – Naquele palácio, naquele vestido, de repente deu-se conta de que era a pura verdade. – Vivi entre eles, mas não posso dizer que fui aceita. Às vezes, sentia como se o líder e a esposa tivessem sido... Achei que me viam como uma filha... mas quando tiveram filhos, ficou claro que eu tinha me enganado. – Nunca tinha dito essas palavras em voz alta. Mal as tinha formulado na mente. – Eles eram cuidadores substitutos. Não uma família. Mantinham respeitosa distância de mim, e eu devia fazer o mesmo. – Então passou a infância livre? Um sorriso brotou no canto de seus lábios.


– Passei. Tinha toda a liberdade. Passava muito tempo andando sozinha pela floresta. Falando sozinha. Ou com as árvores. – Sentia-se solitária? – inquiriu, despertando uma dorzinha, um arranhão em suas feridas. Engoliu em seco, ignorando o desconforto. – Não sei como responder. Era a minha vida. Para mim era normal. Não sentia falta de nada. Tinha sido esse lugar, esse homem, que a conscientizara de tudo o que não tivera. Da vida que deveria ter vivido. Dos anos passados sem ter sido tocada. Ela e Andres nem eram amantes e ele a tocava com frequência. Como se fosse a coisa mais normal do mundo. Ele a tocava agora. Ele a mantinha perto. E ela esquecia o que fora fazer ali. Esquecia seu objetivo. Esquecia que visava apenas obter sua confiança. No momento, só podia focar nisso. Na sensação daquelas mãos sobre o tecido fino do


vestido. Na sensação experimentada quando ele tinha dito que ela era bonita. Na sensação de um homem olhar para ela, e não através dela. E o que tudo isso importava? O que importava a beleza? Até então nunca tinha importado. Desviou o olhar dele, da emoção percebida em seus olhos por um instante apenas, na tentativa de recobrar o controle sobre os pensamentos. – E você? – Não perambulei pela floresta. Havia uma nota estranha na voz, ainda que ela não soubesse precisar o quê. Talvez mais uma vez ele evitasse falar sobre seus pensamentos. – Você não se sentia solitário? – O palácio está sempre cheio. E eu sempre gostei de festas.


Ao fitá-lo, por um segundo, surgiu uma faísca em seus olhos, e lembrou-se de ter pensado sobre ser definida por sua posição. Mas, desta vez, imaginou se o mesmo não ocorrera com ele. Se ele era mais o título do que seu eu profundo. Se alguém gostava dele como homem e não como príncipe. – Isso não faz diferença. O acampamento vivia lotado. Sempre tinha gente. Mas nem por isso eu fazia parte do grupo. Famílias, laços de sangue, espaço compartilhado. Caravanas. Às vezes, dormiam todos juntos em volta da fogueira. A família é a pedra angular do clã. E eu não tinha uma. – Eu tinha – confessou em tom rude. – Seus pais também morreram? – Era uma pergunta indelicada; devia ter ficado de boca fechada. Andres demorou a responder. Às vezes era direto, indelicado, mas sempre por opção, nunca por acaso. Outras vezes dava voltas sem


chegar ao ponto, envolvendo o tema em algo mais palatável. Ela, no entanto, tinha sido criada num ambiente em que a honra e a honestidade imperavam e, portanto, também as palavras. Mesmo assim, arrependeu-se da indagação. – Meu pai, sim – pronunciou em tom seco. – Minha mãe, até onde sei, não. – Ela não está aqui. – Era uma afirmativa, não um questionamento. – Faz muitos anos. – Para aonde foi? – Eu, meu irmão, meu pai e nosso Serviço Secreto não conhecemos a resposta. Simplesmente sumiu. Achamos estranho, não por ser dada a subterfúgios, mas por ter feito o que ninguém esperava. – O quê? Ela acreditou que ele interromperia a conversa, a criticaria por ser tão direta. Em vez disso, um leve sorriso surgiu em seu rosto.


– Acho que ela se mandou apenas com as roupas do corpo. – Por quê? – Zara já pensara em ter a mesma atitude. Mas não o fizera. Porque não tinha dinheiro, qualquer identificação, habilidades, nada. Todavia, estranhou ouvir Andres mencionar a atitude da mãe. – Suspeito que fosse demais para ela. – Fazer parte da realeza? Então ele parou de se mover, mas não a soltou. – Talvez. Havia algo mais. Sentiu vontade de fazê-lo despejar toda a verdade. Mas o que isso lhe importava? Decidiu ficar quieta. – Talvez eu também ache demais. Ele afastou-se de repente, soltou sua mão e segurou seu queixo. – Não vai me deixar. Surpreendeu-se com a súbita intensidade.


– Não – afirmou, sem saber direito se estava sendo sincera. – Você dança bem – proferiu afastando-se. O frio entre eles se tornou palpável pelo vento soprado por suas palavras; um peso inimaginável. – Obrigada – disse sem pensar. E duvidou que ele também confessasse a verdade. Já aprendera um pouco com ele. Já aprendia a disfarçar. – Sugiro que passe os próximos dois dias refletindo sobre a melhor maneira de se apresentar ao povo aqui em Petras. No fim da semana, haverá uma festa tradicional; será nossa estreia. O banquete será no palácio. Muitos dos cidadãos proeminentes do país foram convidados e o evento será televisionado. Meu irmão fará um discurso. Não sei o motivo, mas o povo tem muito interesse no que ele diz. A máscara continuava no lugar; escorregara por um segundo.


– Eu não preciso dizer nada, certo? – A possibilidade a apavorou. – Nunca havia discursado em público. – Não. Na verdade, melhor não. Se conseguir ficar parada, linda e não mastigar os ossos do frango, já está ótimo. Franziu a testa. – Não mastigo os ossos. – Com você, nunca se sabe. – Que tipo de estreia é essa? – Será sua primeira apresentação pública comigo. Como nunca estou acompanhado, vai ter um peso. Abriu a boca para protestar, mas ele deu-lhe as costas e saiu, deixando-a parada, em seu traje de gala, com um vazio no peito.


CAPÍTULO 6

ZARA

que o vestido escolhido visava suavizar sua aparência. Seda azul-clara, decote fechado e justo até o joelho. Cabelo preso num coque, maquilagem discreta. Talvez achassem que se parecesse sedada, menores as chances de comer com as mãos. Neste caso, as aparências eram enganadoras. Ela chegara ao cúmulo do desespero. Precisava escapar desse casamento arrumado sem sua permissão. Começava a achar que bancar a boazinha não a levaria a lugar algum. Se Andres não queria defender sua causa, resolveria tudo sozinha. DESCONFIAVA


E com garbo. Tremia um pouco, provavelmente devido ao frio. A neve começara a cair na noite anterior e a temperatura a baixar. Petras, apesar de perto da Grécia, se situava nas montanhas e seu clima era mais parecido com o de Tirimia do que com o de seu vizinho mediterrâneo. Portanto, não fazia sentido o frio, pois estava acostumada com as baixas temperaturas. Não devia ser o nervosismo. Não seria difícil sentar à mesa e comer sem envergonhar ninguém. Andres podia pensar o que bem entendesse, mas ela não era um animal. Mais gente começou a entrar pelas principais portas do palácio e Zara recuou, o coração acelerado. Juntou as mãos na tentativa de aquecê-las. Talvez estivesse nervosa. Só não entendia o motivo. Nada daquilo lhe dizia respeito.


Ao observar a multidão crescente, viu Andres, bem mais alto que os outros. Foi como ver uma boia no meio de uma tempestade. Manteve os olhos nele. A linha do horizonte no mar revolto. Ele levantou a cabeça e os olhares pareciam atraídos por um ímã. Ele se destacava. Ela abaixou as mãos ainda unidas, tentando controlar o nervosismo. – Onde esteve? – Aqui. Você não informou o lugar do encontro. – Não esperava encontrar você escondida num canto. – Não estou me escondendo – afirmou, apesar de ser mentira. – Kairos e Tabitha estão a caminho. Entraremos atrás deles. Mas antes de entrarmos, tenho uma coisa para você. Hesitou, consciente de que parecia ter batido com a cabeça.


– Para mim? – Idiota, basicamente repetia suas palavras. Mas nunca ganhara um presente, e não sabia como se comportar. O peito apertou. Não sabia o porquê. Não sabia como agir. Era uma sensação similar a ficar sozinha na caravana enquanto os outros se reuniam em volta da fogueira. Combinada à sensação deliciosa de ficar sozinha na floresta. – Venha aqui. Em vez de esperar que ela obedecesse, agarrou seu braço e a empurrou para perto da escada. Zara perdeu a respiração quando ele enfiou a mão no paletó e tirou uma caixinha de veludo. A dor no peito aumentou. Assim como o medo. – Não – respondeu. – Sempre achei que isso fosse inevitável. – Abriu a caixa e o medo de Zara foi confirmado.


– Parece que estou te dando uma tarântula, e não um anel de brilhante. Ela admirou o belíssimo anel de platina com uma pedra quadrada no centro. Sinceramente, preferia uma tarântula. – Sabe o que eu penso. Eu não... Você não mencionou que faria o anúncio oficial hoje. – Convidei você para um dos mais importantes eventos no palácio. Isso já representa um compromisso. A aliança está implícita. – Então talvez seja melhor deixarmos o noivado implícito. – Não, não é assim que funciona. Pretendo cumprir as promessas feitas. Fiz concessões para você se sentir o mais à vontade possível. Mas você não está no comando. Ela se pegou estendendo a mão, sem saber o motivo. Ele não a ameaçara; na verdade, o que faria se ela dissesse não? Mesmo assim, ficou parada enquanto ele pegava a joia e a colocava


em seu dedo anular, na mão esquerda. Era pesada. E o peso tomou conta de seu peito também. – Chegou a hora de entrarmos. Ele segurou a mão na qual acabara de colocar o anel, entrelaçou os dedos nos seus e a conduziu de volta à entrada do salão de festas. E ela o seguiu. Porque estava estarrecida e é difícil começar uma briga quando não se tem sequer certeza se seus pés ainda estão no chão. Não. Não era o que desejava. Precisava de um tempo. Não estava pronta. Ele tinha dito que se casariam no Natal. No fim do mês. Restam poucas semanas. O que passou pela sua cabeça? Ela não vinha pensando. Negava o fato de ter sido trazida ali porque Andres a considerava um objeto. Um presente de Natal para o homem que possuía tudo. Com certeza, ele tomara posse dela como se tivesse esse direito. E a fizera sentir-se como se


tivessem uma conexão, mas era evidente que não tinham. Ora, ele nunca a forçaria. Mas a forçava. Ah, estava forçando, sim. Ficou estupefata ao ver a multidão afastar-se para eles passarem. Sem que ninguém encostasse neles. Entraram no salão de festas, dirigiram-se à mais opulenta e bem-colocada mesa. Logo reconheceu o rei Kairos. Impossível esquecer o homem a quem você foi oferecida como um dos melhores produtos de seu país. Sentada ao seu lado, uma mulher que ainda não tinha visto. Loura, elegante, belíssima. De tão polida, quase cintilava. Zara deu-se conta do motivo de Andres considerá-la selvagem. Comparada a essa mulher, só podia ser a rainha Tabitha, quase todo mundo pareceria selvagem. Seus movimentos eram elegantes, a postura impecável. Mesmo suas expressões faciais pareciam suaves. Sorria para todos parecendo sincera. Mesmo descansando,


parecia serena. Nunca enfastiada. Nunca cansada ou chateada. Andres puxou a cadeira e ela se sentou. Tabitha focou em Zara, que pela primeira vez viu o gelo no olhar azul cristal. Tabitha era mais forte do que aparentava. – Tabitha, essa é minha noiva, a princesa Zara. Não sei se Kairos já contou que ele bancou o cupido. Zara quase engasgou. Tabitha voltou-se para o marido com expressão impassível. – Não, Kairos não me contou. Confesso minha surpresa por ele ter sido o responsável pelo encontro. Ele não costuma ligar para romances. – Quem falou em romance? – interrogou Kairos. Zara não estava acostumada a esse tipo de relacionamento. Entretanto, podia reconhecer a raiva contida, a provocação. Como agora.


Tabitha sorriu e, pela primeira vez, Zara percebeu o quanto o sorriso era forçado. A fachada não se sustentava de perto. Parecia desvendar seu futuro. Acorrentada a um homem entediado com sua existência. Fingindo ser feliz e serena quando por dentro morria de vontade de levantar e gritar. Manipulada pelo destino. Vivendo com alguém totalmente indiferente. Quanto mais pensava na possibilidade de uma vida sem escolhas, mais via quanto tempo fora infeliz. Capaz de ignorar isso por sempre haver uma remota esperança no futuro. Um futuro diferente. Escolhido por ela, não imposto a ela. Por isso, suportara o silêncio. A distância. Por imaginar algo diferente no futuro. Voltou a olhar para Kairos e Tabitha; viu o abismo entre os dois. E então pegou a faca e a deixou cair no prato. O barulho surpreendeu os convidados da mesa.


Zara sorriu. – Sinto muito. Não lamentava nem um tiquinho. Não obedeceria calada. Não aceitaria sem brigar. Tinha opções. E o momento era esse. Se Andres não a ouvisse, usaria Kairos e Tabitha e a evidente necessidade de decoro. Se ia casar-se para o bem de Kairos, agiria de modo a Kairos querer vê-la pelas costas. Desde que não a devolvessem a seus captores, daria um jeito de se virar. Sentiu a pressão da mão de Andres em sua coxa e se voltou para ele. Os olhos dele eram duros, admoestadores. Não se deixava intimidar tão facilmente. Devolveu-lhe o olhar e um sorrisinho que ele sabia ser falso. – Algum problema, Andres? – Nenhum – proferiu, num tom carinhoso igualmente falso.


Assim como ele não acreditara em seu sorriso, ela não acreditava na calma. – Ainda bem. Ele apertou-lhe a coxa. – Você é bem dócil. Voltou a fitá-lo, piscando os cílios. – Sou. Bem mesmo. – Melhor continuar a ser – avisou, baixando a voz. – Claro, querido. Instantes depois, os criados surgiram com as bandejas. Colocaram os pratinhos de salada sobre os pratos maiores. Mas precisaram deterse na vez dela porque a faca continuava no meio do prato. Ela a moveu, sorrindo afetuosa para Andres, que a espiava receoso. Ele tinha todo o direito à desconfiança. Ela ia comportar-se mal. Ela comeu a salada sem cerimônia. Não interrompeu o ataque à alface para conversar, como faziam os outros comensais.


Notou o olhar de esguelha de Andres e lambeu o polegar sujo de um molho inexistente. Os olhos de Andres faiscavam de raiva, mas ele não podia fazer nada. Não ali. A constatação a fez sentir-se poderosa. Ela era imprevisível, e, nesse ambiente, isso era bastante perturbador. – Ah! – exclamou em voz baixa ao ver a chegada das outras bandejas. Apenas Andres podia ouvi-la. Tabitha e Kairos conversavam com os convidados. – Frangos. Que delícia. Eu adoraria mastigar, lamber os ossos... – Não teste a minha paciência, Zara – avisou, também em voz baixa. – Não vai gostar das consequências. – É mesmo? – Pode apostar. – Parece-me – comentou, olhando a comida ser servida –, que você não pensou nisso antes de testar a minha e colocar a aliança no meu dedo antes de entrarmos no salão, quando eu já


tinha avisado que não estava preparada para assumir compromisso tão sério. Pegou o pedaço de frango entre os dedos, os olhos fixos nos seus. Ele apanhou o prato dela e em um movimento ágil o retirou da mesa e despejou seu conteúdo num vaso de plantas. – Filho da mãe! – sussurrou. – Monstro – retrucou. – Estou com fome. Ninguém pareceu notar o ocorrido, o que era muito irritante, pois sua intenção era fazer uma cena. Mas que parecesse... acidental. Nada parecido com subir na cadeira e armar um escândalo. Apenas queria parecer estar tentando se comportar, sem êxito, mas não poderia porque seria ainda pior se deixasse claro opor-se à decisão de Kairos, caso ele fosse como o irmão. – Você comeu a salada bem rápido. – Não me subestime.


– E acha que a subestimo? – inquiriu, respirando forte em sua nuca. – Sou um monstro – alertou falando mansinho para que ninguém ouvisse. Para quem olhasse, eram dois namorados entretidos. – Expulsei minha mãe do palácio com meu péssimo comportamento. Tem certeza de que pretende me testar? Você não tem para aonde ir. Afastou-se dela; endireitou-se na cadeira com um sorriso sedutor. – Nossa, você estava mesmo com fome, agape – mencionou, chamando a atenção para seu prato vazio. Todos a olharam, enquanto ela olhava o prato. – Comi tão rápido que podem pensar que eu simplesmente... joguei tudo no vaso de plantas. – Avisaremos ao chef que ele está aprovado – declarou Tabitha, evidentemente tentando disfarçar, de modo que ninguém olhasse para ela.


Tabitha tinha sido abençoada com os bons modos que Zara jamais teria. Mesmo se tentasse. E neste momento estava determinada a não tentar. Fora declarada guerra entre ela e Andres. Uma guerra silenciosa, determinada. E, como pressentia, podia ser um bocado danosa. – Obrigada – agradeceu Zara. – Acho que vai gostar da sobremesa – informou Kairos. – Será servida depois de meu discurso. – Excelente – aprovou Zara, abrindo um largo sorriso, enquanto calculava o próximo passo. Os pratos foram retirados. O estômago de Zara roncava. Andres pagaria por isso. Kairos levantou-se, bem como Tabitha. Enquanto se encaminhavam para a frente do salão, os convidados se levantaram. Em sinal de respeito, imaginou Zara. Fazia menção de


levantar-se, quando Andres a pegou pelo braço e a afastou da mesa. – O que está fazendo? – perguntou. Ele não respondeu; apenas a conduziu, usando os convivas como escudo para que a saída de ambos fosse menos evidente. Esgueiraram-se por uma porta lateral e deram no corredor. Ele a empurrou para o canto perto da escada onde tinham ido antes e empurrou-lhe as costas na parede. – Não me provoque – advertiu em voz baixa e com grosseira. – Por que não? Você me provoca. – Preste atenção, eu detenho o poder, você não. Zara só pensou no próximo passo tarde demais. Movida pela raiva, pela frustração, se deixou conduzir pelo instinto. Agarrou a parte mais vulnerável do corpo de Andres. – Tem certeza? Então talvez eu descubra meios para obter o controle.


A pressão pulsava em seus ouvidos, o sangue uivava em suas veias como uma besta. Raiva mesclada a outro sentimento que não conseguia nomear. Algo que a deixava trêmula. – Isso é uma ameaça ou uma promessa? – indagou, a voz de repente mais profunda, rouca. Ela se inclinou, os dentes arranhando-lhe o pescoço. – As duas coisas. Ele a segurou com força, mantendo-a perto, o olhar intenso, as mãos como garras de fero. – Você me mordeu, monstrinho. – Seus receios não eram infundados. Talvez morda novamente, e tenha certeza de que eu cumpro minhas ameaças. – Espero que cumpra essa. – Ele moveu ligeiramente os quadris, enfatizando a que tipo de ameaça se referia. Apesar do rubor, ela não o soltou. Não permitiria que ele percebesse ter o poder de


afetá-la. Era uma ameaça; não o tocava para o estimular. Mesmo assim, tomou consciência do calor do corpo. Do fato de que ele ficava excitado. Como era possível? Como podia ficar excitado assim? Deu-se conta então de sua respiração rápida, curta, das pontadas em lugares jamais tocados por ninguém. Ela também estava excitada. Isso a deixou com vontade de apertar seu membro. Machucá-lo. Fazê-lo arrepender-se de colocar os dois naquela situação. Não queria estar ali. Não queria ser atirada no palácio, ser obrigada a ficar noiva de um homem que não conhecia. Outra vez aprisionada numa vida que não escolhera. Apertou os dedos. Olhou para baixo, viu o brilho da aliança de noivado. E ergueu de novo o rosto e o encarou. Grande erro. Mal teve a chance de registrar o brilho ardente e furioso em seus olhos antes de ele


eliminar a distância entre eles e a beijar. A força a empurrá-la contra a parede fez sua mão se mover, e a palma deslizou pelo membro ereto antes de pousar na barriga reta, esmagada entre os corpos enquanto ele inclinava a cabeça e enfiava a língua dentro de sua boca. Então ele provou o que avisara antes. Detinha o poder. Ela nada podia fazer; não naquele instante. Nada a não ser entregar-se ao calor, à corrente elétrica percorrendo seu corpo com uma intensidade que jamais imaginara sequer existir. As mãos dele seguravam seus quadris com força, o corpo a colando à parede como se ele buscasse provar sua tolice ao clamar ter o controle. Ele se moveu, agarrou-lhe as mãos por um segundo antes de erguê-las, grudá-las na parede e pressionar o corpo todo contra o seu. – Quer brigar? – Grunhiu as palavras com a boca colada à sua. – Se quer brigar, vai


conseguir, princesa. Não precisa ser pelo lado mais fácil. – Afastou os lábios dos seus, beijoulhe o pescoço. Arrepiou-se; o medo e a excitação disputavam espaço. – Mas se quiser me provocar, deve estar preparada para as consequências. Não sei com que tipo de homem está acostumada, mas não sou dos que se deixar manipular facilmente. Ele empurrou os quadris, exibindo a prova do que ela despertava em seu corpo. Devia ficar zangada, enojada. Em vez disso, sentiu-se mais poderosa. Não o tinha machucado, mas o fizera reagir. Não apenas o irritara, mas o excitara. Passara tanto tempo da vida sendo ignorada que obter uma reação dessa de um homem desses era gratificante, de um jeito que jamais sequer sonhara. Não sabia que um beijo pudesse despertar emoções tão distintas. Que pudesse servir a tantos propósitos. Que podia fazê-la sentir calor, frio, medo, êxtase. Mas podia. Tudo o


que jamais deveria permitir que acontecesse entre eles. Mas acontecera. Agora era tarde demais para interromper. Nem ao menos tinha certeza de que era isso o que desejava. O coração batia tão forte que ficou com medo que explodisse em seu peito. Estava furiosa. Com ele, com isso. Queria puni-lo. Fazê-lo pagar. Por deixá-la assim indefesa. Mesmo quando prisioneira no palácio em Tirimia, acreditava haver esperança. Mas ali não era mantida em cativeiro, agrilhoada, mas sob ameaças. Ali, era mantida desprovida de qualquer opção. Uma demonstração do quanto era minúscula dentro de um vasto contexto do palácio, num país desconhecido. Não podia voltar para o seu país, e Andres tinha conhecimento disso. Não podia voltar para o único lugar que conhecia como lar por temer colocar seus protetores em perigo.


Ele a tornara famosa colocando-lhe uma aliança no dedo e a desfilando diante de toda aquela gente. Roubara sua anonimidade. Além do mais, não tinha dinheiro nem roupas, a não ser aquele guarda-roupa formal de princesa. Gostaria que ele entendesse essa sensação. Porém, caso ele lhe tirasse todas as opções, se certificaria de fazê-lo sentir o peso da decisão. Seria seu castigo. Uma pedra amarrada em seu pescoço. Moveu-se, o beijou com paixão e então mordeu-lhe o lábio inferior. Ele grunhiu e apertou com mais força suas mãos contra a parede, a beijou com mais sofreguidão, consumindo-a como se ela fosse a sobremesa a ser servida após o discurso. Nunca perdera muito tempo imaginando como seria ser beijada. Até então, sua experiência se resumia a sorrisos gentis, sem qualquer contato físico. E das poucas vezes que imaginara, pensava em toques suaves,


afetuosos. Esperava sentir o beijo apenas nos lábios. Não contava com essa explosão. Nem com o nó de emoção e desejo do qual não conseguia desvencilhar-se. Não esperava sentir o beijo em cada parte de seu corpo, na pele, debaixo da pele, nos mais secretos recônditos de seu ser. Mas ele estava protegido. Isso não era novidade para ele. Confessara ser um playboy devasso, indecente. Sua experiência não o tornava vulnerável. Estava protegido também pelo terno que a separava dela. Sem refletir, ele afrouxou o nó da gravata. Com a boca ainda colada à sua, ele usava a língua para a provar, atormentar. Ela já não conseguia discernir os sentimentos. Seria excitação ou raiva? Os dois se mesclavam numa bola de intensidade no peito que ameaçava explodir se não tomasse alguma atitude. Caso não encontrasse um jeito de liberar a bola.


Foi movida por uma sensação inteiramente nova. Incapacitada de pensar. De montar alguma estratégia. Segurou-lhe a camisa pelas laterais e puxou; os botões pularam e caíram no chão. Pôs a mão em seu peito, gratificada quando ele se afastou, sibilando entre os dentes. Uau, conseguira atingi-lo. Afetá-lo. Rompera o muro. Enfrentavam uma disputa. Pelo controle. E por algo totalmente diferente. Os pelos cobriam a pele quente, a sensação debaixo de seus dedos era estranha, estimulante. E por baixo, era duro. Admirou a definição dos músculos. Era um homem na estrita definição da palavra. Tão diferente dela. Passara grande parte da vida cercada por homens, mas nunca experimentara um homem nesse grau. Na verdade, nunca pensara na diferença entre homens e mulheres. Mas agora pensava, e apreciava essa diferença. Ele soltou seus pulsos, segurou-lhe o queixo, mantendo sua cabeça imobilizada, os olhos


fixos nos seus enquanto colocava a mão na fivela do cinto. Começou a desabotoar a fivela prateada e em seguida a calça. Todo o tempo a encarando. Ela sabia que ele agia assim para verificar se estava assustada. Se queria que ele parasse. Ela não sabia o que queria. Tinha uma vaga ideia do que aconteceria depois. Mas não se assustou. Nada a levava a querer dizer não. Ele soltou seu queixo, colocou as duas mãos em seus quadris e levantou devagar sua saia, expondo-lhe as pernas. Enfiou a mão entre suas coxas; o toque despertou um choque agudo, inesperado. Os dedos entraram por baixo da calcinha; uma sensação de puro prazer a percorreu quando ele a acariciou. Ela estava molhada, e ele aproveitou-se disso para criar uma onda de prazer que ameaçava engoli-la. Isso não era mais uma luta. Era uma entrega. Não podia sequer arrepender-se. Não podia perder um segundo sentindo raiva.


Ele manteve os olhos nos seus enquanto a acariciava, a privava da respiração e a levava a uma excitação que não sabia existir. Ele a tocava. Ele a olhava. Nesse momento, não guerreavam. Estavam ligados. Ela não sentiu medo de estar tão próxima de outra pessoa. Pelo contrário, sentia precisar dele. Como se ele fosse importante. Ele afastou sua calcinha, pressionando a pélvis contra a sua, e o calor do membro nu e ereto foi um regozijo, um deslumbramento. Ele dobrou os joelhos, a ponta do membro tentando penetrar na entrada molhada. Por um segundo, passou-lhe pela cabeça ficar assustada. Não, não sentia medo. Não podia. Queria ele cada vez mais perto. Queria capturar esse instante em que lutavam ambos do mesmo lado. Ambos em busca do mesmo objetivo. O momento sublime de estar conectada a outra pessoa como jamais acontecera. O instante de não se sentir sozinha.


Ele investiu e ela sentiu uma dor lancinante. Um grito aflito escapou de seus lábios, engolido pelo grunhido. Ele enfiou o rosto em seu pescoço, afastou-se um tiquinho de seu corpo antes de investir mais uma vez. Ela engoliu o grito, mordeu o lábio inferior, apertou os olhos na tentativa de evitar que as lágrimas escorressem quando a sensação de ser rasgada cessou. Ele passou o braço em sua cintura, segurando firme quando começou a se mover dentro dela. A dor ficou para trás, substituída por uma estranha sensação de ser invadida, reivindicada. E, ao mesmo tempo, por uma sensação de segurança, de fazer parte de outra pessoa como nunca antes. Ele a preencheu e assim preencheu o vazio em seu peito existente desde menina, tirada da única casa que conhecera. O vazio de viver sozinha no mundo. Não mais.


Ele encontrou seu ritmo, e ela o dele. Não lutava contra ele, mas se movia junto com ele. Não exatamente igual, mas como um complemento. As diferenças entre eles se encaixavam. Sua maciez complementava a firmeza dele. Seu corpo à espera, enquanto ele avançava. E logo aprendeu que ao entregar-se obtinha um poder jamais imaginado. Ele a beijou, movendo-se com força. Ela mal teve tempo de agarrar-lhe os ombros antes de mergulhar no esquecimento. Enfraquecida, trêmula, dependente dele para não escorregar até o chão. Despreparada para as ondas e ondas de sensações. Não tinha como se defender, pois não esperava por isso. Não fazia ideia de que seria assim. A menor ideia. Quando ele grunhiu ao atingir o orgasmo, o corpo comprimindo o seu contra a parede, ela passou o braço em volta de sua cabeça,


segurando-o firme, os dedos enfiados em seu cabelo. Ele permaneceu imóvel e ofegante um tempo, antes de afastar-se. Ela foi tomada pelo frio, pelo desconsolo. Não mais ligada a ele. Isso deveria resolver o problema, certo? Agora que ele não estava mais dentro dela, ela deveria perceber a mudança, certo? Ao fitar os olhos escuros, vazios, compreendeu que para ele tudo terminara. Nada dela permanecera nele. Contudo, ele permanecia nela. Como para comprovar sua suspeita, ele deu meia-volta e saiu. E ela permaneceu parada encostada na parede, abalada, trêmula. Outra pessoa.


CAPÍTULO 7

ANDRES USOU umas dez expressões de volta ao quarto. Tolo, imbecil, idiota etc. Não podia voltar para o banquete; não depois do ocorrido. Além disso, Zara havia destruído sua camisa. Ele a deixara ali, igualmente destruída. Alterada. Mas ele não era de consertar, mas sim de destruir, portanto, não fazia sentido permanecer ali. Não poderia, mesmo que assim o desejasse. Odiou o isolamento. Odiou. Mas era a única maneira de recuperar o controle depois do ocorrido. Relembrou-se de uma passagem da infância.


A causa de a mãe sempre trancá-lo no quarto depois de um ataque. A causa de estar condenado a permanecer no palácio quando a família real saía. Agora, agia assim por conta própria. Porque precisava fazer algo, qualquer coisa, para acalmar o monstro impetuoso dentro dele e que assumia o controle de suas ações. Uma imagem surgiu como um flash na mente, as mãos dela agarradas ao tecido, puxando com força, espalhando os botões pelo piso de mármore. A expressão sombria, determinada do olhar. Como sempre tinha agido de modo pouco civilizado, natural, autêntico. Para um homem que não fazia ideia da própria autenticidade, isso era alarmante. No entanto, não era esse detalhe que o intrigava agora. Não o que espalhara a raiva em suas veias como uma besta descontrolada. Ele tinha perdido o controle.


Educar Zara era uma coisa. Mas ele é quem tinha falhado. Ele estava estraçalhado. Os anos passados no processo de transformar-se no homem que julgava ser, simplesmente varridos pela corrente de luxúria inspirada por Zara. A mulher era nova. O fracasso não. Todos os seus esforços resultaram vãos. Quando menino, deixava os talheres de prata caírem, não parava quieto na cadeira. Engatinhava debaixo da mesa para pegar um pedaço de torrada que deixara cair. E quando sentia vontade de levantar, nunca conseguia controlar seu impulso. Às vezes, pensava em dizer alguma coisa; e mal pensava, já dizia, sem refletir. O pai simplesmente o encarava, os olhos gélidos. Kairos fingia não ter reparado em nada. A mãe chorava. Como se ele tivesse agido com o intuito de atingi-la pessoalmente, como se quisesse magoá-la.


Ela sempre fora tão sensível. Bastava falar um pouco mais alto e a pobrezinha tremia. Pensou nisso agora, embora até então nunca tivesse compreendido tamanha sensibilidade. Por fim, ele foi proibido de comparecer aos eventos. A solidão era frustrante, mas melhor do que o fracasso. Toda refeição, toda cerimônia na igreja, todo concerto... tudo parecia feito sob medida para amaldiçoá-lo. Então chegara o dia do banquete de Natal. O último ao qual a mãe comparecera. Ele conseguira destruir a comemoração também. Tentara, mas por mais que tentasse não conseguia atender às exigências. Ele a fizera chorar muitas vezes. E tinha certeza de que o pai e até Kairos tinham imaginado que seria mais uma decepção entre tantas outras. Mas Andres sabia que não. Quando a mãe enxugou a última lágrima, soube que ela nunca mais choraria por sua causa.


E para que ele nunca mais a fizesse chorar, ela nunca mais deveria voltar a vê-lo. Nunca mais foi vista. Por culpa dele. Kairos nunca o culpou, pois era muito correto para sequer pensar em agir assim. Kairos só o culpou pela perda da noiva quando lhe foi conveniente, e mesmo assim não tanto quanto Andres considerava merecer. Fora isso, nunca o culpou pela partida da mãe. Mas o pai o culpara. Aos berros. Furioso. E Andres nem pôde lamentar os maus tratos, pois reconhecia sua culpa. Soube então, como sabia agora. Você nunca vai servir para nada. Não passa de uma grande decepção. Se assim é que se comporta melhor, se é assim que está tentando, então nunca, jamais vai conseguir. Aceitara as acusações como verdadeiras, e passara a agir como bem-entendia. Odiava tentar seguir a etiqueta do palácio. Não lhe restava mais ninguém a quem tentar agradar. O pai o acreditava incorrigível, a mãe tinha


fugido. Gostava de Kairos e ele parecia corresponder, conquanto parecesse não se importar muito com o que Andres fizesse, desde que não o prejudicasse. Mas não conseguiu aceitar a traição com Francesca, o que não surpreendeu Andres. Por isso, ele tentava. Por causa de Kairos. Porque, afinal de contas, o irmão sempre se preocupara com ele, apesar de ele só causar confusão. E desgosto. Ele estava tentando, e Zara parecia decidida a contribuir para seu fracasso. Por isso, a arrastara para fora do salão. Por isso, a disputa de poder entre eles. Por isso, tentara mostrar quem mandava. E então ela o segurara. Com o intuito de ameaçar, e ele não era ingênuo a ponto de pensar que ela não cumpriria a ameaça. Zara era uma sobrevivente. Uma guerreira. Não a subestimara desde o momento em que entrara no quarto e deparara com ela.


Tinha previsto que seria difícil domá-la. Que não seria fácil convencê-la ao noivado, ao casamento. Nunca tinha previsto é que perderia a cabeça e a possuiria de pé no palácio. Em público, onde alguém poderia aparecer. Tudo bem, era um lugar meio isolado, mas bastaria alguém sair do salão do banquete e se perder à procura do banheiro. Isso não era jeito de um príncipe tratar sua futura princesa. Kairos jamais se comportaria assim com Tabitha. Bem, o irmão era uma autoridade em casamentos infelizes. Isso ficava cada vez mais aparente. E isso também era culpa de Andres. Ele forçara o irmão a arranjar uma noiva às pressas. Por isso, queria redimir-se. E Zara o atrapalhava por pura teimosia. Ela não tinha para aonde ir. Ele nunca a tratara mal.


O que acontecera há pouco não era tratá-la mal? Trincou os dentes, afastou o pensamento. Tentou ignorar o crescente incômodo no peito. Bateu as portas do quarto. Passou as mãos no cabelo, e só então se deu conta de que tremiam. Como pudera agir assim? Como pudera permitir que ela o deixasse fora de si? Como pudera permitir que ela provasse que ele não passava de um garoto? O mesmo garoto incapaz de ficar quieto mais de dois minutos. Incapaz de conseguir controlar seus impulsos. Ele a desejara e a possuíra. Ponto final. E sem preservativo. Soltou um palavrão; tirou o paletó e o atirou ao chão. Nunca na vida fizera sexo sem proteção. Na verdade, era até bastante controlado na sua depravação. Nada o impedia de agir conforme bem-entendia, mas era capaz de resistir, se assim o desejasse. Claro, não precisava exercitar a abnegação com frequência,


mas poderia. Era capaz de tomar decisões responsáveis. Mas não hoje. Em público. De dia. Sem proteção. A porta foi escancarada. Ao virar, deu de cara com Zara plantada, punhos fechados, expressão descontrolada, olhos escuros chamejantes. O cabelo negro e sedoso, arrumado em um coque pela cabeleireira, despenteado, como se gritasse o que acontecera instantes antes. – Como ousa me dar as costas? – A voz tremia de indignação. Sem dúvida, os pelos de Zara estavam eriçados. Bem, a essa altura nada poderia fazer para acalmá-la. Na verdade, estavam assim desde o primeiro momento em que a encontrara. Devia ser este o efeito que causava nela. Isso não o incomodava. Incomodava-o sim, o efeito que ela causava nele.


– Você queria que eu ficasse e começasse outro round? Estávamos parados no corredor. Qualquer um poderia passar por ali – argumentou, jogando em cima dela a culpa que cabia a si mesmo. – Não me deu a impressão de estar preocupado com isso antes. Não mesmo. Porque não raciocinava. Não estava em seu juízo perfeito. Trincou os dentes, o coração batendo acelerado. Estava... com raiva. Do corpo, por traí-lo, como sempre acontecia. De si mesmo, por sua fraqueza. Dela, por deixá-lo vulnerável. Sem pensar duas vezes, avançou em sua direção. Ela arregalou os olhos e tentou se desviar, batendo com as costas na parede. – Acha que a parede vai salvá-la? Acho que já provamos o contrário – disse, descontrolado pela raiva. Irado.


Queria falar assim para criar uma barreira entre os dois. Para afastá-la. Não queria que ela o fitasse com desejo. – Você não vai encostar em mim novamente até se explicar. – Por acaso, tem alguma coisa para explicar? Eu a queria. E a possuí. – Sem controle, sem educação, sem ligar para nada; não tinha sequer questionado se ela queria. Bem, sua linguagem corporal lhe dera todos os indícios de que ela também queria, mas ele nem sabia o quanto Zara era inocente. Ainda não tinha certeza absoluta. Ela agira de modo ousado, mas isso não significava nada. Receava interrogar. Agora era tarde demais, mas ele sentia medo. – Então preferiu se retirar. – Repito, princesa, o que queria de mim? – Achei que fôssemos voltar para a sobremesa – gaguejou. Essa inocência, essa insegurança o destroçou como garras afiadas; todavia, ele devia manter


uma distância cada vez maior entre os dois. Ele riu um riso cruel. – Então achou que eu voltaria sem botões na camisa? E diria que uma criaturinha os arrancara. Ela não é a criatura. Você é o monstro. Sua expressão ficou mais desvairada. – Não sou uma criatura. Sou uma mulher. Acho que acabei de provar. – Ela demonstrava uma altivez incrível. O orgulho habitual. Ergueu o queixo, os olhos cheios de determinação. Mas também era vulnerável. Ele percebia a vulnerabilidade estampada em seu rosto. E não podia fazer nada. Não era o homem ideal para lidar com mulheres vulneráveis. Se seu histórico fosse um indicador, ele era o homem que fugia de mulheres vulneráveis. – E eu sou um homem – declarou em tom seco. – Então não existe nada de tão


excepcional por sentirmos atração um pelo outro. Ela franziu a testa. – Mesmo quando a gente estava brigando? – Principalmente por isso – respondeu com a voz áspera. – Isso não faz sentido para mim. – Então eu fico me inquirindo que tipo de amantes teve no passado. Foi sua vez de rir. – Nunca tive um amante. Era a resposta que ele tanto temia. A raiva em seu sangue se transformou em gelo; sentiu o frio no estômago. – Sério? – Claro. Nunca tinha beijado antes. Mãe de Deus. Por acaso ela sabia o que brotara entre eles no corredor? Teria se dado conta das consequências? Céus, o que havia feito? Sentiu desprezo por si mesmo. Não achara possível mergulhar ainda mais fundo no ódio


experimentado por seu descontrole. Acreditara ter chegado ao fundo do poço com os episódios da perda da mãe, e da transa com Francesca. E agora, ao olhar aquela mulher zangada, confusa, virgem até poucos minutos atrás, deuse conta de ter chegado a um estágio inimaginável de sordidez. – Como manteve a virgindade tanto tempo? – lançou, consciente de estar cuspindo a raiva de si mesmo no alvo errado. – Você é tão ingênua que dá pena. Com toda justiça, você deveria ter sido devorada por um lobo na floresta. Os olhos encheram-se de merecida indignação. – Eu me sinto como se tivesse acabado de ser devorada por um lobo. – Se eu a tivesse devorado, mocinha, não estaria aí plantada irradiando fúria. – Quem sabe eu não estaria aqui irradiando fúria se você não tivesse fugido de mim como


um garotinho assustado? Por um segundo, ele se percebeu assim. Um menininho assustado faltando outra vez a suas obrigações. Ficando de castigo. Não. Deu um soco na parede, bem acima de sua cabeça. – Se eu fosse um menininho, você não ficaria tão satisfeita como aparentemente ficou. – Não pode minimizar ou maximizar o impacto do que ocorreu usando o mesmo argumento – protestou, desviando os olhos. – Posso fazer o que bem entender. – Afastouse, o coração disparado. – Eu sou o príncipe deste país. Ela revirou os olhos, como quem está entediada. – E eu, uma princesa. – Princesa das caravanas. Que emocionante! Não seria nada aqui no meu país, se não fosse minha noiva. Um noivado que você parece


determinada a romper quando sabe que é a única forma de se tornar alguém. Sabe o que você será sem mim? Quer mesmo saber? Uma pobre. Gostaria de explorar o significado pleno da palavra? Sentir frio, fome, ficar realmente sozinha. Ela empalideceu e ele sentiu um soco no estômago. Não acreditava possível demonstrar ainda mais crueldade. Pois provaria estar enganado. – Acha que vai encontrar a liberdade lá fora? Posso garantir que não. Mas aqui comigo, posso lhe dar dinheiro, poder, acesso à educação, uma chance de uma vida melhor. Não vai precisar dormir na rua, o que considero também uma vantagem. Ela perdera totalmente a cor. Imóvel, uma estátua de mármore transformada em pedra pelas palavras cruéis. – Eu me enganei. Você achou que podia construir uma nova vida se me deixasse, e eu


acabei de tirar-lhe a ilusão. O que achava? Que eu financiaria você sem levá-la para a cama? – Não. – A cor voltou ao seu rosto. – Claro que não. Achei que eu pudesse... quem sabe descobrir o que eu queria fazer... – Trabalhando? Não tem experiência profissional. Nem de vida. Desculpe, princesa, mas precisa compreender que crescer na selva, cercada de um bando de gente estacionada em algum lugar do século passado, não lhe dá as ferramentas necessárias para existir em uma sociedade urbana. – Não sou ingênua nem burra. A gritaria no palácio... Andres, você pediria a Deus para ter essas lembranças removidas de sua cabeça. Entretanto, não é assim que funciona. Se eu tinha alguma inocência, a perdi pequena. Portanto, não me trate como se eu fosse uma criança assustada. Deixei de ser criança quando tinha 6 anos. – Respirou fundo. – Sou a única sobrevivente de um terrível ataque à família


real. Fui arrancada do meu quarto no meio da noite pela criada de minha mãe, os gritos pairando no ar, gritos que ainda ecoam em minha cabeça. Gritos na certa do meu pai, da minha mãe. Do meu irmão. Deles só me restaram esses sons e a minha lembrança. Não sei ao certo como morreram, mas pensei nisso inúmeras vezes. Tive os piores pesadelos. Não me confunda com uma menina inocente. As palavras tiveram o efeito de um soco no peito. Por algum motivo, ele ficou imaginando se alguém um dia cuidara dela. Na certa, quem a criou atendia às suas necessidades. Básicas. Mas ficou imaginando se alguém de fato cuidara dela. A mãe dele tinha partido, e o pai mostrava profundo desinteresse por ele, mas tivera criados, babás que ao menos lhe proporcionavam algum tipo de amor. Que liam histórias e o colocavam na cama para dormir. Teria alguém lido histórias para ela? Era uma


menina, uma menina de cabelo farto, maravilhoso. Com certeza, alguém tinha feito tranças em seu cabelo. Será? Parecia um crime ninguém ter feito, se fosse esse o caso. Como se você a tivesse tratado melhor... Você foi grosseiro. Não se importou com sua virgindade. Devia saber. Impossível não saber. Ele apenas contribuíra para sua solidão. Ele a deixara. Não cuidara dela. Ficara tão amedrontado que ela o decepcionasse que deixara de lado o fato de a ter decepcionado. Como fizera com a mãe. Com o pai. Com o irmão. Tinha uma chance de se redimir. Pelo menos agora. – Vá para o banheiro – mandou, incapaz de modificar o tom de voz. Ela permaneceu paralisada, os olhos fixos nele. – Mas que mania, quanta teimosia... Vá para o banheiro.


Rumo ao banheiro, ela praticamente rosnou ao afastar-se da parede e passar feito um furacão por ele. Ele a seguiu, desabotoando os últimos botões que sobraram da camisa e atirou tanto a camisa quanto o paletó no chão. Tentou lutar contra o calor fervilhando em suas veias. Não era hora. Devagar, tirou o cinto e a calça. Quando entrou, estava nu. Zara o encarou, com olhos arregalados. – O que está fazendo? Ele se inclinou e girou a torneira da banheira. – Vou dar um banho em você. Aposto que precisa de um. Ela cruzou os braços no peito como se tentasse proteger-se e desviou o olhar. – Preciso mesmo. – Então, tire o vestido. Encolheu-se, a expressão desconfiada. – Não sei se estou preparada para ficar nua com você.


– Agora é tarde. Ela manteve a atenção fixa nele, o rubor colorindo suas faces. – Não é tarde. Não estávamos nus. –Não, mas eu a penetrei. A cor nas faces se intensificaram. – Bem, não sei se estou preparada para que isso aconteça de novo. Ela estava magoada. Ele era uma criatura vil. Tarde demais para tais considerações. – Eu a deixei para não machucá-la. E... porque era o único jeito de eu manter o controle. Ela o encarou. – O quê? – Fui grosseiro. Perdi o controle. Tenho esse defeito. Quando me comporto mal, eu me afasto das pessoas como castigo. Ela franziu a testa. – Você se pune? – Quando preciso.


– Ah. Ele bufou. – Juro não tocá-la mais uma vez daquele jeito. Só se você pedir. – Uma luz cética brilhou nos olhos castanhos-escuros. – Só quero cuidar de você. – Se fosse outra mulher, daquelas espertas, não teria acreditado nele. Se fosse outra, em outros tempos, ele tampouco acreditaria em si mesmo. – Vire de costas – pediu ela. Ele obedeceu, atento ao farfalhar do vestido. Ficou excitado novamente. E cobriu-se de autodesprezo. Tinha boas intenções. Infelizmente, seu corpo não. O corpo não atinava como manter a promessa. Mas ele manteria. Superaria o desejo. Provaria a si mesmo ser capaz de superar seu capricho, embora tivesse fracassado nos testes anteriores. Agora conseguiria. Passara muitos anos da vida sem exercer controle, conquanto ciente de sua existência.


Provaria agora. Era sua cartada final. O teste final. Ouviu o som do corpo entrando na água; fechou os olhos, tentando com todas as forças não a imaginar acomodando-se na banheira. Tentando com todas as forças não imaginar a pele desnuda. Mostrara comedimento no primeiro dia quando a tirara da banheira e a atirara na cama. Não se permitira olhar a pele sedosa. Mostraria o mesmo comedimento hoje. Só que hoje olharia. Não a tocaria, não até ela implorar, mas olharia. Aguardou um pouco; em seguida, sem esperar sua permissão virou e a viu mergulhada, apenas os ombros e a cabeça visíveis acima da superfície. Andres aproximou-se e entrou. O nível da água subiu, e ela arregalou os olhos. – Tarde demais para bancar a virgem encabulada.


– Ainda sou praticamente virgem. Ele riu com ironia. – Nem um pouquinho, agape. Ele passou o braço em sua cintura e a virou para que ela ficasse de costas para ele, encaixada entre as pernas dele. Ainda que reclamasse, ela não tentou desvencilhar-se. – Bem, não tenho muita experiência. Estava determinada a discutir. Todo o tempo. Se ele não gostasse tanto, talvez ficasse irritado. – Você não quer ter uma grande experiência – alertou, suavizando o tom. – Você mesma assegurou que não está preparada pare repetir a dose. Ela se moveu, e seu bumbum roçou-lhe a ereção. – Eu disse não naquela hora. – Que criatura difícil. Ela o olhou por cima do ombro.


– Você também. Sempre se mostra tão determinado a que tudo saia conforme planejou. Ele tirou a mão da água e segurou-lhe o queixo. – Não estou tentando cumprir plano algum. Estou tentando agir certo. Pelo meu irmão, pelo meu país. Você não foi sincera comigo. – Como assim? – Comentou que aceitava. – Nunca afirmei isso. – Incline a cabeça para trás. – Por quê? – Por que insiste em contestar tudo o que digo? Não encontrando uma resposta, ela cedeu. Ele a segurou com força enquanto ela deitava a cabeça, o cabelo escuro espalhado na água ao seu redor. Os olhos foram atraídos pela curva dos seios visíveis acima da superfície. Na verdade, a nova posição revelava cada curva.


Mas ele prometera a si mesmo não tocá-la. Não assim. Então, obedecendo a seus propósitos, a ajudou a inclinar mais a cabeça, preocupandose em manter seu rosto fora d’água. Uma vez o cabelo molhado, ele voltou a puxá-la entre suas coxas e apanhou um dos potes de vidro. Colocou um pouco do produto na mão, guardou o pote no lugar e massageou os cachos escuros, sedosos. – O que está fazendo? – Lavando sua cabeça. Ele percebeu a tensão em seus ombros. – Por quê? – Você faz perguntas demais. – E você se comporta mal demais. – Alguém já cuidou de você, Zara? Ela se encolheu. – Nunca me faltou comida. Ou abrigo. Cuidaram de mim. – Não, não era a isso que me referia. Quem cuidou de você? Alguém fez algo além de


garantir que você permanecesse viva? – E o que mais havia a ser feito? Ele continuou a ensaboar o cabelo. – Isso, por exemplo. – Cabelo limpo não me manteria viva. – Soou desamparada, embora ainda desafiante. – E basta se manter viva? – Ele se controlou. Não queria aprofundar-se na indagação, pois também dizia respeito a si mesmo. – Por enquanto, funcionou. – Mas você quer mais. Por isso, recusa ao noivado. – Talvez não seja o casamento. Talvez eu simplesmente não goste de você. Ele se inclinou e roçou os dentes em seu ombro. – Você gosta de mim. Pelo menos no que diz respeito à parte mais importante de um casamento, na minha opinião. Ele sentiu o corpo arrepiar-se. – Sexo não é tudo.


– Diz a mocinha quase virgem. Sexo é importantíssimo. Uma ótima forma de relaxamento. De deixar você conectado a alguém, mesmo quando não se sente de fato ligado a ninguém. E também funciona como um jeito fantástico de destruir relacionamento e laços familiares. – Essa última frase soou mais amarga do que pretendia. – Fala por experiência própria. – E quanta experiência... – Estou curiosa, Andres. – Virou de frente e recostou-se na banheira. – Por que fez aquilo? Por que dormiu com a noiva de Kairos quando podia ter saído com a mulher que quisesse? – Inclinou a cabeça de lado. – Você a amava? – Não, nem a conhecia ela direito, nem gostava dela. – Então, por quê? Andres sentiu um nó na garganta, conquanto não entendesse o motivo. Não podia responder, pois já se fizera o mesmo questionamento


várias vezes ao longo dos últimos cinco anos. Agora, porém, por algum motivo, talvez por ela ter feito a pergunta e não ele mesmo, achou que talvez pudesse responder. – Basicamente, por causa da bebida. Conforme eu informei, nem me lembrava do que tinha feito na manhã seguinte. – Não foi só isso. Não, não tinha sido. Engoliu em seco e respirou fundo. – Kairos era o último relacionamento que faltava destruir. Eu receava que ele também me renegasse. Isso nunca aconteceu. A ansiedade era infernal. Era como se eu tivesse a lâmina da guilhotina acima do meu pescoço. Eu sabia que um dia ia me degolar, só não sabia quando. Decidi eu mesmo acionar o aparato. – Mas não funcionou. Ele não o renegou. A garganta ficou mais apertada. – Não. – Tinha testado Kairos e este provara ser o mais forte, o superior. Ele provara a


fraqueza de Andres. – Mais um motivo para eu honrar o compromisso assumido. Atender ao seu pedido. Eu falhei. Ele não. De repente, Zara mergulhou a cabeça. Emergiu devagar, erguendo os braços, limpando as gotas do rosto e jogando o cabelo para trás. O gesto revelou seus seios. Redondos, fartos, os mamilos rosados muito mais bonitos do que imaginara. Ela mergulhou outra vez, escondendo o corpo. Então começou a aproximar-se. Os olhos escuros fixos nos seus, expressão inquisidora. Tocou seu peito com a palma da mão. Não proferiu uma palavra; inclinou-se e pressionou os lábios contra os seus. Quando se afastou, mantinha o olhar fixo. Profundo demais para o gosto de Andres, pois ela parecia enxergar sua alma, ver o que nem ele jamais vira. – Isso o fez sentir-se menos solitário? Ficar com ela? – interrogou séria.


– Não. Não senti nada depois de ter ficado com ela. – Você mencionou... controle, mas... existe outra razão para ter me deixado lá sozinha? Não sentiu nada depois? Como ele poderia explicar ter partido pelo motivo oposto? Por ter sentido demais? Por ter tido a sensação de que ela entrara em seu peito e espalhado cacos de vidro em seu coração? – Não, não foi por isso. – Eu só faço esse monte de indagações porque você me obriga. – Arqueou a sobrancelha escura, passou as pontas dos dedos em seu queixo, descendo-as pelo pescoço e espalmou a mão em seu peito. – Imagina só como tudo funcionaria melhor e mais rápido se você fosse claro, direto. A gente se comporta assim na floresta. – Vocês também colhem bagas, vivem em tocas e dormem junto com os esquilos?


– Não seja debochado. – Mordeu-lhe o queixo. – Nunca dormi junto com esquilos. Ele segurou seu queixo com o polegar e o indicador. – Eu sinto quando estou com você. Fui embora porque perdi o controle. Aquilo nunca deveria ter ocorrido. Você era virgem. Não sabia até aonde eu iria. Agi mal. – Sabia, sim. Não sou uma ignorante completa. Essa é uma das vantagens de morar em locais fechados com outras pessoas. Você é obrigada a compartilhar de certas intimidades. Simplesmente aceita o que acontece à sua volta e olha para o outro lado. Em consequência, fui exposta, e muito, a certos fatos da vida humana. – Ser exposta é uma coisa, experimentar é outra bem diferente. – Pare de me tratar feito criança. Ou como uma criatura. Sou uma mulher. E, apesar de


não ter sido capaz de tomar decisões sobre a minha vida, sei o que quero. – Disso não tenho dúvidas. Ela inclinou a cabeça para o lado. – Você se sente culpado? – Acabei de dizer que sim. – Não, estou falando do noivado. Do casamento. – Não há outra opção. Inútil sentir-se culpado. Ela desceu a mão em seu peito, mantendo os olhos fixos nele. – Tenho a sensação de que não tem mais espaço para tanta culpa dentro de você. Maldita mulher. Por que tinha de ver tudo com tamanha clareza? – Você vai cobrar a sessão? – Como assim? – Comporta-se como terapeuta. Elas cobram para ouvir os pacientes expressarem seus sentimentos.


– Isso me parece jogar dinheiro fora. Melhor ir para a floresta e gritar até sentir-se melhor. Ele observou a expressão meiga. – É o que você faz? – Já fiz. Ele segurou-lhe o rosto com as duas mãos. – O que faz você gritar, Zara? – A primeira vez – pronunciou baixando o olhar –, foi depois da morte dos meus pais. Fugi para a floresta. Sabia que estava sozinha, então não fazia mal gritar. No palácio eu tinha de me comportar. Como uma princesa. Mas lá fora, eu não precisava ser coisa nenhuma. Só triste. Só solitária. Então, uivei feito um lobo. Nem sei por quanto tempo. Ninguém me ouviu, e se ouviu, ninguém falou nada comigo. Quando voltei... – Sentiu-se melhor? – Não muito, mas pelo menos conseguia respirar. – Ela acompanhou com o olhar uma gota escorrendo em seu peito. – Então, toda vez


que eu não conseguia respirar, fazia isso. Eu ficava muito sozinha. Consegui dar um jeito de tornar isso suportável. E acabou sendo vantajoso para mim. Ele lembrou da própria vida. Do próprio comportamento. Festas. Bebedeiras. Transas com qualquer mulher que demonstrasse interesse. Assim havia combatido os anos de isolamento vividos na infância. O isolamento não era uma ilusão. Trancado no quarto, num palácio cheio de gente, é impossível gritar. Então ele dera o seu jeito para aprender a respirar. – Quem sabe um dia você me leva até a sua montanha e me mostra como funciona? – Está se sentindo solitário? – Não – respondeu com sinceridade. – Eu também não. – Ela deu-lhe um beijo carinhoso, sedutor. – Agora pode tocar em mim. Estou preparada.


Ele não merecia ser perdoado tão rápido, mas aproveitaria a generosidade. Não precisou que ela repetisse. Beijou-a. Ela tinha dito estar preparada. Ao dar-lhe permissão demonstrava saber o que queria. E ele levaria sua palavra a sério, pois não lhe restava outra opção. Precisava possuí-la. Sentir aquela emoção plena no peito, tão diferente do vazio ali existente. Sim, ainda que doesse, era uma dor diferente. Uma dor gostosa. Ele a abraçou e seus seios molhados pressionaram o peito. Ele a segurou com firmeza, a curvou, para que ela mergulhasse de novo o cabelo e ele tirasse todo o xampu. Depois a inclinou mais uma vez e ela abraçou seu pescoço, os olhos grudados nos seus. Havia algo neles. Algo luminoso, misterioso. E ele teve certeza de que não merecia o afeto. Mas não contestaria. Ele a possuiria. Voltou a beijá-la com sofreguidão, a língua lambendo a sua. Havia beijado tantas mulheres.


Perdera a conta. Mas dessa vez era diferente. A sensação era nova. Ela não era mais uma mulher: era Zara. Era selvagem, indomável. Como a terra de onde viera. Enfiou os dedos em seu cabelo e a manteve presa. Felizmente, não havia roupas entre eles desta vez. Mas até a água atrapalhava. Levantou-se mantendo-a pressionada contra o peito. Saiu da banheira e a carregou para o quarto. Não dava a mínima para o fato de os dois ainda estarem molhados. Como da primeira vez, ele a deitou na cama, mas desta vez ele olhou. Olhou-a por inteiro. O olhar percorreu os seios fartos, a cintura fina, a leve curva dos quadris e a sombra escura entre as coxas. Pingos d’água escorriam-lhe pela pele e por um segundo ele fantasiou lamber cada um deles. Estava tão excitado que chegava a doer. Ela o deixava trêmulo. Como se ele fosse virgem. Sua


idade, sua experiência, tudo sumiu. Só existia Zara. Nada, ninguém a não ser aquele instante. Ela o olhava hipnotizada. – Nunca tinha visto um homem nu. Nenhum... nenhum como você. – O que quer dizer? – De vez em quando, eu via homens mudando de roupa. Ou tomando banho no rio. Mas nunca excitados. – E o que tem a dizer? O rubor cobriu as maçãs do rosto altas, arrogantes. De excitação, não de vergonha. – Gosto muito. De você. Disso também. Ele não conseguiu controlar o riso. – Ainda bem. Deitou-se, colocou a mão em sua coxa e acariciou-lhe a perna. Inclinou-se e beijou-lhe a parte de trás do joelho. Ela estremeceu e ele continuou. Viu uma gota d’água na parte interna da coxa e a lambeu, chegando cada vez mais perto do seu objetivo. Ela merecia. Ela o


satisfizera no corredor. E embora ciente de que ela também experimentara prazer, merecia mais. Ela também sentira dor, ou seja, merecia uma porção dupla de prazer. Ela nunca tivera outro homem, e nem teria. Cabia a ele mostrar como sexo podia ser incrível. Não era totalmente altruísta. Estava louco por ela. Precisava conhecer seu sabor. Precisava saciar a fome crescente. Desde o primeiro momento em que a vira. Não se dera conta do quanto até aquele instante no corredor. Até perder o controle e não ter outra opção a não ser possuí-la. Segurou-lhe os quadris, aproximou o rosto e passou a língua na pele molhada, provocante, no ponto que sabia ser a fonte de seu prazer. Ela recuou, tentou desvencilhar-se, contudo, ele a agarrou. – Não pode fazer isso – reclamou ela com voz trêmula.


– Claro que posso. – A língua voltou a percorrer o mesmo caminho. – E pretendo continuar fazendo até você gritar não de solidão, mas de prazer. Quero ouvi-la gritar o meu nome. Gritar porque não consegue respirar por minha causa. Baixou a cabeça e começou a saboreá-la, satisfazendo sua ânsia até ela rebolar em sua boca, até ela gemer. Ele a excitou passando o dedo na entrada de seu corpo, o enfiando devagar, um, depois outro, estabelecendo um ritmo constante usando os lábios, a língua e as mãos. Ela estava quase atingindo o orgasmo. Molhada, arquejante. E ele, de tão excitado, estava prestes a perder o controle. Porém, estava decidido a primeiro proporcionar-lhe prazer. Satisfazê-la oralmente antes de obter o próprio prazer. Então ela gritou e gozou, os músculos internos apertando-se em torno de seus dedos.


Enquanto ainda tremia, possuída pelo orgasmo, ele se levantou, beijou-lhe os lábios e se posicionou entre suas pernas. – Está pronta para mim? – inquiriu, pedindo a Deus que ouvisse um sim. Porque não conseguia mais se conter. – Não posso – respondeu sem fôlego. – Pode sim. Não sabe que isso é uma das muitas coisas lindas e incríveis de ser mulher? Pode atingir o orgasmo quantas vezes eu decidir excitá-la. Ela balançou a cabeça, apertou os olhos. – Eu não sobreviveria. – Não seja tola. Nunca vou deixar que nada de mal lhe aconteça. Os cílios piscaram, os olhos abriram devagar. – Verdade? A dor no peito apertou, rivalizando com a excitação do corpo. – Verdade. – Era uma promessa. Com ele, não ficaria mais sozinha. Não apenas a


manteria viva. Mas também lhe proporcionaria a vida com a qual ela sonhava. Jurou para si mesmo. – Eu acredito. – Zara o fitou com tanta confiança que ele se sentiu invadido pelo pânico. Quando tinha sido a última vez que alguém confiara nele? Kairos podia amá-lo, podia não o ter renegado, mas com certeza não lhe devotava confiança. Porque Andres não merecera sua confiança. Mas Zara confiava nele. Em todos os sentidos. Ele não merecia. Mas não questionaria. Não agora. Não quando estava morrendo de vontade de penetrá-la. Não quando o sangue pulsava exigindo o gozo. Ele a encontrou molhada, pronta. Penetrou-a devagar, centímetro a centímetro, com cuidado, respeitando a inexperiência e a provável dor. E também para atormentar a si próprio. Ele merecia um pouquinho de


tormento em troca de tudo o que recebia em troca. Quando estava todo dentro de seu corpo, ela arregalou os olhos. Teve medo de a olhar, medo de gozar antes mesmo de começar. Não queria que terminasse assim. Queria lhe dar mais prazer. Queria certificar-se de dar mais do que recebia. Estabeleceu um ritmo constante, rumo ao ápice. Seu sangue vibrava nas veias como uma besta selvagem disposta a devorá-lo por inteiro, caso ele não encontrasse um meio de escapar. De aliviar a intensa sensação crescendo dentro dele, tão enorme que ele mal conseguia respirar. Zara arqueou o corpo, os seios apertados contra seu peito, as mãos escorregando por suas costas. Flexionou os quadris obedecendo ao mesmo ritmo do companheiro, o instinto superando a falta de experiência. Agarrou-lhe o cabelo para beijá-lo e mordeu seu lábio inferior antes de entregar-se com


volúpia. Ele desceu a mão até sua cintura, a puxou com força para que ela sentisse cada investida. Quanto mais a apertava, mais ela tentava imprimir seu próprio ritmo. Ele moveu os quadris, segurando-a com firmeza; ela interrompeu o beijo e mordeu-lhe o pescoço. Ela deixaria sua marca física além das digitais invisíveis já estampadas. Arranhou os dentes em sua pele enquanto movia a mão e segurava-lhe o traseiro para mantê-lo bem perto, enquanto voltava a rebolar. Foi o suficiente para, junto com o gemido, o levá-lo ao ápice antes de ter a chance de se conter. O prazer desceu como as lavas de um vulcão, um prazer indescritível. Ficou sem respiração. Não conseguia pensar. Apenas se entregou ao turbilhão incontrolável. Ele acariciou seu clitóris. O último pensamento antes de ser dominado pelas sensações, querendo que ela também as desfrutasse. Queria que os dois atingissem


juntos o orgasmo. Percebeu seu tremor, o arquear do corpo, os músculos internos comprimindo seu membro ereto. Beijou-lhe o pescoço, fechou os olhos e o universo deixou de existir. Esqueceu o próprio nome. Quem era. Atingiu um local abençoado. De onde foi arrancado, cedo demais, pela realidade. Pelo menos estava com Zara. – Nossa – sussurrou ela. – Está desapontada? – Não, só... não sei. Não sabia que podia ser assim. – Nem eu. – E não mentia. No passado, o sexo tivera mil e uma utilidades. Mas ele sempre assumira o comando. No sexo, encontrava companhia temporária, esquecimento. Mera distração por certo tempo. Desta vez, ele não se preocupara em manter o controle. E no momento, não podia afirmar, ter saído com a fama de conquistador. Pelo contrário, era o conquistado.


– Vou pedir que tragam suas coisas de volta para o meu quarto. – As palavras saíram de sua boca, sem refletir, por puro instinto. Ele voltaria a assumir o controle da situação. Tudo sairia conforme o planejado. Não via motivos para ela dormir em outra cama quando tinham descoberto a forte conexão entre eles. Novamente esquecera o preservativo. Contudo, em vez de se culpar, sentiu uma espécie de firme determinação e profunda satisfação. Se ela engravidasse, não poderia evitar o noivado. Nem o casamento. E, enquanto saboreava a sensação de ter incutido algum juízo nela, pensava que garantias nunca são demais. Ignorou a punhalada de culpa diante do pensamento. – Mudou de ideia? Quer que eu volte para esse quarto? – Foi o que acabei de dizer. – Mas tinha me expulsado!


– Isso foi antes. A situação mudou. – Por causa do sexo. – Não há muita coisa além de sexo entre homens e mulheres. Ela franziu a testa. – Sério? – Pelo menos, foi o que minha experiência comprovou. O que temos é um sexo muito bom. E, como já adverti, nem sempre isso acontece. Comigo, nunca tinha sido tão intenso. – Sei – disse, puxando as cobertas e cobrindo a nudez. – Porque você tem uma enorme experiência. – A voz foi abafada pelas colchas. – O que está fazendo? Entrando na toca? – Não. – Moveu-se debaixo das cobertas. – Estou com frio. – Acho que está se escondendo de mim. – Ao puxar as cobertas, ela resmungou. Ele também se cobriu. – Não se esconda de mim.


Não entendia o motivo de se importar. Mas a verdade é que se importava. O fato é que, pela primeira vez, sentia-se ligado a alguém; sabe Deus havia quanto tempo isso não acontecia, e não queria que nada interferisse. Não a queria escondida. – Isso tudo é muito novo. – Eu sei. Você queria ter novas experiências. – Queria mesmo. – Ela se afastou ligeiramente. – É, mas isso, você, são coisas que eu experimentei. Ele a segurou pela cintura e a puxou. – Isso não é uma experiência única. Você vai ser minha mulher. E isso significa que vai compartilhar da minha cama. – Se... se eu for sua mulher e compartilhar sua cama, isso quer dizer que você não vai dormir com outras mulheres. – O tom firme não deixava margem a dúvidas. Não era o que ele pretendia. De jeito nenhum. Mas isso era um teste de


autocontrole. Trincou os dentes. – Prometo. Ela olhou para a frente, os olhos escuros indecifráveis. – Então, está bem. Posso concordar com o casamento.


CAPÍTULO 8

ZARA ACORDOU com uma sensação diferente. Demorou um pouco para entender o motivo. Para começar, conquanto estivesse no quarto de Andres, a cama estava vazia. Os lençóis frios denunciavam que Andres tinha saído há várias horas. Sentou-se, cobrindo o peito com as cobertas. Olhou pela janelinha atrás da cama e viu que o sol raiara no céu limpo de dezembro. Levantou-se, deixou as cobertas e admirou a paisagem coberta de neve, a luz cintilando sobre o lençol imaculado. Já era tarde. Não fazia ideia da hora.


No dia anterior, tinham saído do almoço e então... tudo aquilo acontecera. Tinham vindo para o quarto. Tinham tomado banho. E todo o resto. E ainda mais. E acabara pegando no sono. Em algum instante, acreditava ter aceitado ser sua esposa. Olhou para a mão esquerda e viu a aliança. Sim, definitivamente tinha concordado com o casamento. Aparentemente, também estava na cama já fazia quase doze horas. Bufou e atirou-se na cama sobre as cobertas. Neste exato momento, a porta foi escancarada. Tentou cobrir o corpo nu. – Ainda bem que acordou – comentou Andres fechando a porta. – Mais ou menos. – Precisamos sair. – O quê? – Sentou-se. – Por que não me avisou? – Porque só soube há pouco. E porque você estava dormindo.


– Achei que a agenda fosse definida com antecedência. Ele balançou a cabeça. Infelizmente, não. Eu não costumo morar no palácio. A declaração a pegou de surpresa. Achava que Andres morava ali. Então se deu conta de que ela estava ali fazia pouco tempo e nunca tinham discutido o assunto. – Não mora aqui? – Não. Tenho coberturas em algumas das maiores cidades do mundo. Tento evitar ao máximo viver sob o mesmo teto de meu irmão. Infelizmente, não tem sido possível. – Então nós... nós não vamos morar aqui? – Não. A não ser que para você seja muito importante. Ela balançou a cabeça. Não, eu... quais cidades? – Paris. Nova York. Londres. – Eu gostaria de morar nelas todas.


– Vamos passar um tempo em cada uma delas. Pela primeira vez, a ideia de casar-se com ele a deixou animada. – Deu para perceber que gostou da ideia. – Ele abriu um sorriso. Parecia satisfeito por ela mostrar-se satisfeita. E isso a deixou... satisfeita. Tinha a sensação de que sexo deixava as pessoas meio enlouquecidas e sofria os efeitos. Tinha falado abertamente sobre seus conhecimentos a respeito de sexo. Porque, é claro, percebia o que acontecia no acampamento. As tendas e as caravanas não eram à prova de som. No entanto, nunca experimentara esses sentimentos com alguém. Então, o conceito era estranho. – Nunca fui a lugar algum. A primeira vez que saí de Tirimia foi para vir para cá. E desde que cheguei aqui... não botei os pés fora do palácio.


– Vai sair hoje. – Parece que planejou tudo. Gostaria que compartilhasse comigo seus planos. – Vamos assistir a uma peça de Natal. Zara esbravejou. Era a última coisa que esperava dele. – Que surpresa! – Muitas escolas vão se apresentar. Kairos e Tabitha não podem comparecer e alguém da família real precisa substituí-los. – Então nós vamos. – Agora era parte da família real. Parte da família. A gostosa sensação de calor espalhou-se do peito para as pontas dos dedos, as pernas, os dedos dos pés. Ainda não tinha se dado conta do quanto se sentia fria. – Isso mesmo. As roupas escolhidas já devem estar chegando. – Se não tomar cuidado, vou acabar me habituando a deixá-lo cuidar de tudo para


mim. – Respirou fundo. – Até que é bom não ter de me preocupar com detalhes. – Não estou preocupado com seus detalhes. Os funcionários do palácio, sim. Prefiro que eles cuidem dos meus também. – É um luxo e tanto. – Estou surpreso; você não está sibilando nem esbravejando. Devia ter feito sexo com você desde o primeiro encontro. Ela o encarou, furiosa consigo mesmo ao sentir o rubor no rosto. Não corou de raiva, mas de desejo. Era irritante ter sido privada das explosões depois do prazer de gozar de sua companhia. – Eu não brigava com você sem motivo. E não vou brigar só por brigar. – Eu sei, tudo dizia respeito à sua liberdade. O calor no peito apenas aumentou. Sentiuse... compreendida. Não se lembrava da última vez que isso tinha acontecido, se é que já


acontecera. Uma batida na porta interrompeu a tensão entre eles. – Devem ser suas roupas. Vou deixá-la cuidar disso. – Estou enrolada numa colcha! – Eu sei, mas a costureira vai vesti-la. Melhor estar despida, assim economiza tempo. Ela deu de ombros. – Está bem. – Encontro você lá embaixo. Sem outra palavra, deu meia-volta e abriu a porta, deixando-a sozinha com a mulher que trazia a roupa. Uma hora se passou com maquilagem, produtos para o cabelo etc. Zara, na limusine, ao lado de Andres, era conduzida para fora do palácio. Ainda que as estradas estivessem limpas, era possível ver a neve recobrindo a paisagem e os pinheiros. Pequenas porções de um tapete esverdeado surgiam em meio ao imaculado lençol branco.


Não diferia muito da paisagem de Tirimia, até se afastarem da estrada do palácio. Ao ser trazida para Petras, percorrera o caminho à noite, então não tivera a oportunidade de ver direito a cidade. Além do mais, estava apavorada. Mas agora via tudo com nitidez. Igrejas antigas ao lado de modernos arranha-céus, casas da era georgiana perto de butiques e bistrôs elegantes. Ficou atônita com o movimento dos carros na estrada, das pessoas nas calçadas. Praticamente não havia solidão. Cada pedaço de pedra fazia parte de algo, encostado em outro ponto. Voltou-se para Andres, de repente consciente de como ele permanecera quieto durante todo o trajeto. Ele a observava. – O que está fazendo? – Olhando você. – Eu não estou fazendo nada.


– Não é verdade. Você está admirando a paisagem. De um jeito lindo, se me permite acrescentar. Uma corrente de adrenalina e de satisfação a percorreu. – Acho que nunca fui acusada de fazer nada de um jeito lindo antes. – Você é muito bonita. Em consequência, tudo o que faz fica bonito. – Mesmo quando eu sibilo, esbravejo e mastigo ossos de galinha? – Você não comeu os ossos. – Mas teria comido se você não tivesse jogado minha comida no vaso de plantas. Ele a surpreendeu com uma risada. Não um riso premeditado. Nem debochado. Uma risada satisfeita. – Eu joguei fora sua comida no vaso de plantas, mal posso acreditar. – Está me devendo um frango. – Vou anotar na minha lista.


Por mais deslumbrante que fosse a paisagem, Zara preferiu manter os olhos fixos em Andres. Ele ficava lindo quando sorria. Os olhos escuros cintilavam de um jeito inexplicável, os dentes brancos contrastavam com a pele dourada. Ele tinha uma covinha num dos lados da boca. Reparou pela primeira vez. Ela o tinha visto nu; porém, havia algo diferente. Imaginou quanto tempo levaria até descobrir todos os seus mistérios. De repente, entrou em pânico, teve medo de uma vida não ser o suficiente. Começara tão tarde seu aprendizado. Quando se tratava dos mistérios entre homens e mulheres, ela precisava aprender a ser uma princesa e uma esposa, e não fazia ideia de como conseguiria. Não teve tempo para pensar; a limusine parou diante de um prédio grande e com entalhes. – A igreja mais antiga de Petras – informou, antecipando-se à sua pergunta.


– É linda! – exclamou saindo do carro, quando o motorista abriu a porta. Andres saiu do carro e lhe deu o braço, conduzindo-a na direção das escadas. Ela olhou a porta deslumbrante, os santos e os anjos entalhados na pedra. A construção era ainda mais espetacular por dentro. Uma grande bacia cheia d’água, água benta, presumiu. Cadeiras diante do palco e um imenso vitral acima, a luz infiltrando-se e colorindo o chão. Havia também árvores de Natal enfeitadas espalhadas no santuário, iluminadas por lampadinhas brancas e com guirlandas vermelhas. Como acontecera no palácio, as pessoas se afastaram para dar passagem a Andres. O lugar reservado para eles era na primeira fileira, e tão longo sentaram, ela sentiu os olhares de todos no recinto cravados nos dois. Pelo menos, até a peça começar. Crianças de todas as idades seguravam velas, cantavam. Os


mais moços não cantavam muito bem, mas cantavam alto. As mais velhas administravam as harmonias, as vozes lindas e afinadas ecoando no espaço, enchendo Zara de emoção. Quando deram início à última música, seus olhos se encheram de lágrimas. Segurou a mão de Andres, a apertou com força, tentando conter as lágrimas. Nunca chorava. Tinha chorado pela morte dos pais. Pela do irmão. Depois, achava que nada merecia suas lágrimas. Mas nunca havia chorado emocionada com a beleza. Com algo tão adorável que parecia de outro mundo. Uma vez terminado o espetáculo, todos se levantaram e cercaram o palco para falar com as crianças. – Podemos ir até lá e dizer que foi lindo? – pediu a Andres. – Se quiser. – Eu quero.


Zara sempre tinha gostado de crianças. As pessoas do clã a mantinham a distância, mas não as crianças. Quando Zara ficou adulta, as crianças eram seu único verdadeiro contato. Saía com elas em excursão pelas florestas e contava histórias. De seu passado, as crianças eram que faziam mais falta. Quando se aproximaram, as crianças pareceram mais temerosas que animadas. Não podia culpá-las. Andres causava essa reação. – Foi uma apresentação muito bonita – admitiu Andres, dirigindo-se a um grupo reduzido. As crianças baixaram a cabeça, sorrindo encabuladas, e olhando para os sapatos. – Obrigado – responderam em coro. Zara abaixou, para ficar da mesma altura delas. – Eu gostei muito. Cantaram tão bonito que eu até chorei.


Um menininho a quem faltavam os dentes da frente demonstrou espanto. – Foi? Por quê? – Às vezes, a gente também chora de emoção. As lágrimas brotam e escorrem pelo rosto. – Ao menos, era o que supunha. Não tinha grande experiência no assunto. O menino riu. – Você é engraçada. – Eu sei. Passou mais alguns segundos conversando com as crianças, enquanto Andres permanecia ao seu lado. Para ela, era fácil. As crianças não julgam como os adultos. Nem observam o protocolo. Não mantêm a distância por respeito, porque não consideram a realeza como os adultos, nem interpretam o respeito da mesma maneira. E isso a gratificava. Andres colocou a mão no seu ombro e ela se ergueu. – Precisamos ir.


–Está bem. Quando se afastaram, uma das professoras se aproximou. – Príncipe Andres, queria agradecer sua presença. Essa é a princesa Zara? Zara surpreendeu-se; a mulher sabia seu nome. Bem, na certa devia ter sido mencionado nos jornais, depois do almoço no palácio. – Sim – respondeu Andres, segurando-a pela cintura –, minha noiva. – A princesa é fantástica com crianças. – Gosto delas. – Se um dia precisar ocupar seu tempo, aceitamos voluntários nas salas de aula para ler livros, ajudar no coro da escola. – Eu adoraria. – Há quanto tempo ninguém precisava dela? Alguém considerava que ela servia para alguma coisa? Sempre tinha sido o sangue. O título. Dessa vez, era diferente, e foi maravilhoso. Ela pertencia a algum lugar; seus pedaços,


espalhados ao vento durante tantos anos, finalmente se assentavam. Era como chegar ao fim de uma longa caminhada na imensidão, tentando chegar ao topo e afinal deparar-se com a longa trilha percorrida. Seu destino à frente. Uma princesa no palácio com seu príncipe ao lado. – A assistente de Zara entrará em contato com a senhora – comunicou Andres. – Meu nome é Julia Shuler, caso queira falar comigo. – Obrigada, Julia. Vou tentar organizar um encontro – declarou Zara. – Precisamos sair, princesa. Fizemos uma reserva. Zara olhou Andres. – Aonde? – Preciso pagar o jantar que estou devendo.


O RESTAURANTE era maravilhoso, no topo de uma colina da qual se descortinava a cidade. Zara nunca tinha ido a um lugar tão sofisticado, bem mais sofisticado até que o palácio de Tirimia. Desde que chegara a Petras, tivera o privilégio de experimentar comidas deliciosas, mas dessa vez era diferente. Talvez por ser a primeira aparição pública juntos. Talvez por ter sido arrumada de modo que parecia encaixar-se às mil maravilhas a um homem feito Andres. Talvez apenas por estar excitada. Saíra para jantar com Andres. Era a primeira vez que saía com um homem. Mal se recordava de seu comportamento no dia anterior. A mulher que tentara sabotar o compromisso armando um circo durante o almoço. Sentia-se diferente. Estar com ele a transformara. Levou a taça de vinho aos lábios, tentando concentrar-se no que acontecia. No fato de


estar ali. Sentada diante do homem mais maravilhoso do mundo, tomando a bebida mais deliciosa do mundo. Usava roupas lindas. Tinha um professor disposto a aprimorar suas qualidades. Fazia parte da família real. – Não precisa trabalhar como voluntária em escolas se não quiser – alertou Andres tomando um gole de vinho. – Mas eu quero. Eu assegurei que preciso descobrir minhas qualidades. Descobrir o que pretendo fazer. Eu era a caçula e imagino que se tivesse permanecido em Tirimia, essa seria uma de minhas atribuições. E talvez eu possa descobrir algumas das necessidades específicas do povo daqui se estiver trabalhando com eles. Posso cuidar de ações beneficentes. – Sorriu. – Eu gostava das crianças do acampamento. Elas não punham barreiras entre nós. Eu adoro crianças. – Ótimo!


Inclinou a cabeça de lado. – Por quê? – Porque vamos ter filhos. Talvez já haja um a caminho, levando em conta o nosso descuido. O coração parou por um instante e depois disparou. – Oh! – Claro, não tinham tomado precauções. Não pensara nisso até agora. Achou que ficaria zangada. Triste. Pelo contrário: pensar em um bebê de Andres aqueceu seu coração. Seriam uma família de verdade. Passara tanto tempo sozinha. Agora tinha um homem que seria seu marido, com quem dividiria a cama. Um filho. Por um momento se permitiu estar cem por cento feliz. – Espero que não esteja chateada – disse Andres, interrompendo seus devaneios. – Chateada? Pelo contrário, estou feliz. Andres pareceu chocado com a declaração, embora não houvesse chance de parar de


surpreender-se com Zara. Era verdade. Hoje ele lhe mostrara algo além do palácio. Mostrara o que ela poderia representar, não apenas para o palácio, para ele, mas para os outros. E o que os outros poderiam representar para ela. Começava a experimentar a sensação de pertencimento. Parte do povo do país, da família real. – Peço desculpas por ter demonstrado tanta surpresa, princesa. Mas ainda ontem tentou escapar do compromisso, ser destronada. Ela ergueu o ombro. – Tudo muda. Uma sombra cobriu sua expressão e ele tomou outro gole de vinho. – Suponho que às vezes as coisas mudam. Mas as pessoas, raramente mudam. – Por que isso soa sinistro? – Não deveria. Estou sendo realista. Quero que compreenda que o simples fato de querer mudar não significa conseguir.


– Por que você é tão terrível? – Andres não era perfeito. Ainda não provara sua fama de playboy e príncipe prescrito. Não podia considerá-lo um homem bom. Mas gostava dele. Era um homem apaixonado, intenso. E conquanto ele negasse, um homem de convicções fortes. Mais profunda que a convicção era a dor. Ela percebera sua dor ao ouvir a história sobre a mãe. Ao ouvir sua justificativa por ter transado com a noiva do irmão. Era preciso ter profundo ódio por si mesmo para tentar fazer com que os outros o odiassem. Nas palavras pronunciadas há pouco, ela pressentia a mesma intenção. – Pode encontrar um monte de gente por aí com a mesma opinião. – Para sua sorte, não sou uma delas. O que, pensando bem, é bastante conveniente. Duvido que queira uma esposa que o odeie. Ele riu, um riso agudo como a lâmina de uma faca enferrujada.


– Pode ser inevitável. Não faço ideia, pois nunca tive uma esposa. – Depende de você. – E de você, princesa – retrucou num tom levemente falso. – Então proponho gostar de você. Por muito tempo. – Ficou satisfeita com a declaração. – É muita gentileza sua. Logo em seguida, os garçons chegaram trazendo os pratos. Frango, o que a fez sorrir, pois ele tinha se lembrado de que lhe devia um. – Estou gostando ainda mais de você. – É muito fácil comprá-la. – Caso tenha esquecido, eu fui um presente. – Cortou um pedacinho de frango. Pensativa, murmurou: – Na verdade, não precisou me comprar. Saí de graça. – Sim, minha cestinha de frutas. – Até que sou bem grandinha para caber numa cesta de frutas.


– É, mas dentro de uma escala de mulheres ferozes, é pequenininha. – Eu não tenho padrão de referência para aplicar quanto a príncipes playboys, mas diria que você é grande. – Sentiu o rubor e deu outra garfada. – Está tentando provocar uma conversa maliciosa? – Os olhos cintilaram divertidos, e ela tomou a decisão de manter essa expressão em seu rosto. Ajudar as crianças a ler, encontrar maneiras de usar seu tempo, deixar os olhos de Andres cintilantes. Acrescentou esse ponto à lista. – Pode ser, mas não tenho experiência nisso. – Conte para mim, no que tem experiência? – Bem, como sabe, tenho muita experiência em perambular sozinha pela floresta. Como viu hoje, também tenho experiência com crianças. Com a dor, também. E agora tenho um pouco de experiência em sexo.


O brilho em seus olhos desvaneceu. – Não chega nem perto da minha. Terei de aprimorar sua educação. – Estou à sua disposição. – Bem, atenderei ao seu pedido. – Neste caso, imagino que sim. Um sorriso brotou em seus lábios. – Acha mesmo? – Você tem bastante poder, e algum sobre mim. Mas acho que eu também exerço certo poder sobre você. – Você não gosta de sobremesa, Zara? – Gosto de bolo. Por quê? – Parece decidida a não chegar à sobremesa. – É mesmo? Tão logo o garçom chegou, Andres se levantou. – Mande a conta para o palácio. Vamos levar o bolo. – Já vamos embora? – Vamos. E rápido.


Ele enlaçou sua cintura e a ajudou a levantar. – Por que a pressa? – Porque me provocou. E eu quero você. Um arrepio percorreu a espinha de Zara. – Você me quer? – Preciso de você. Há quanto tempo alguém precisava dela? Alguma vez alguém precisara dela? Não tinha certeza. Era uma sensação deliciosa. Adeus, vazio. Boas-vindas ao fogo ardente, criando uma sensação desesperada, incompreensível. Desesperada para fazer algo. Tocá-lo. Ficarem colados, pele contra pele. Certificar-se de que ele sentia o mesmo que ela. Ele tinha dito que precisava dela. E ela precisava desesperadamente que isso fosse verdade. Precisava desesperadamente sentir-se ligada a ele. Mais do que nunca sentiu pertencer àquele lugar. Mas queria muito mais.


Queria também que aquele homem lhe pertencesse. Logo em seguida, o garçom apareceu com uma sacola contendo uma caixa. Andres sussurrou: – Vai poder usar e comer seu bolo. – Não entendi. – Logo vai entender.


CAPÍTULO 9

A LIMUSINE não tomou o rumo do palácio. – Aonde vamos? – Tenho uma cobertura aqui perto. – Você não mencionou essa. – Gosto de manter certo mistério. – Sério? – Não, brincadeira. Na verdade, não tenho mistérios. Basta olhar na internet e descobrirá tudo o que quiser. Decidiu de imediato que não precisava pesquisar no computador. Aliás, não tinha experiência em usar computador, e não perderia tempo com isso. Além disso, não


queria saber a opinião dos outros a respeito de Andres. Bastava a sua opinião. O motorista estacionou no meio-fio. Andres saiu, deu meia-volta, abriu a porta para ela. Zara aceitou a mão para saltar do carro. – Venha, princesa. – Por algum motivo, desta vez a palavra soou diferente. Mais íntima. Ela se agarrou à sensação, juntando-a às brasas ardentes que ele havia estocado. Ele a conduziu para o prédio. Entraram no saguão de piso de mármore, papel de parede e grandes pilastras. – Que lugar lindo! Ele lhe deu a mão e caminharam para os elevadores de portas douradas. – Depois eu mostro o lugar. Agora só quero mostrar minha cama. Ao entrarem no elevador, ela encostou a mão no peito, tentando respirar. Mal podia acreditar. Ele a desejava. Ele a fitou levemente desconcertado.


– O que foi? Ela ergueu o ombro. – Eu não podia imaginar que ia gostar tanto disso. – Mas gostava. Queria passar assim o resto da vida. Queria que ele fosse sua vida. – Suponho ser meio diferente do que imaginamos. – Para você também? – Nunca imaginei que meu irmão escolheria minha esposa. E muito menos uma que tivesse sido um presente para a família real. – É, foi uma surpresa para nós dois. Ela sentiu um frio no estômago ao repetir as palavras ditas há pouco. O que ela lhe tinha dito. E como ele respondera. Ela havia posto as cartas na mesa. Mas ele escondia as cartas. Não tinha confessado estar satisfeito com a situação. Sem dúvida, a desejava fisicamente, mas e quanto ao resto? Ela não tinha tanta certeza. E essa questão era muito importante.


Ela aprendera muito durante o pouco tempo em Petras. Inclusive sobre si mesma. Aprendera quanto às emoções. Como podia desejar esse homem incondicionalmente, e ao mesmo tempo desejar que ele preenchesse milhões de pequeninos detalhes que mal conseguia enumerar até eles se fazerem presentes? De uma coisa tinha certeza, a vida semiisolada era mais simples. As portas do elevador se abriram e Andres saiu primeiro. Ela o seguiu, tomada pela emoção. Como tudo mudara tão rápido? Passara da simples sensação de desejo e atingira o estágio de puro sentimento e desejo. Duas coisas bem diferentes. O coração batia acelerado. Esperou ele abrir a porta e indicar que ela entrasse primeiro. Parou, girou 360º no centro da sala de estar, tentando se orientar. Fizera uma série de suposições sobre Andres com base na


decoração do quarto no palácio. Agora era evidente que ele nada tinha a ver com o palácio. Ele já avisara. Confessara preferir morar nos apartamentos de cobertura. Mas só agora se dava efetivamente conta. Uma janela de alto a baixo ocupava uma das paredes. Daí se descortinavam as luzes da cidade. A mobília era preta e de aço escovado. O piso de cerâmica preta refletia como espelho sua imagem. Na verdade, se Andres quisesse, conseguiria enxergar suas pernas por baixo da saia. Seria de propósito? Não era a primeira mulher a entrar ali, disso não tinha dúvida. Talvez o piso fizesse parte do contexto. – Você não parece impressionada – comentou ao fechar a porta. – É diferente. Só isso. – Aposto que não é só isso. – Retorceu os lábios em sinal de desaprovação.


– Só estava refletindo sobre a cerâmica do piso. – O que tem? – Ele deixou a sacola com o bolo na mesinha perto do sofá. – Será que o mantém tão encerado para poder espiar por baixo das saias? Para sua surpresa, ele riu. – Não, nada disso, ainda que goste de ver como sua mente funciona. Denota certa perversão. – Apenas lógica. Você fez questão de me expor sua reputação. – Um modo interessante de dizer que fui sincero com você. Arrepiada, abraçou o próprio corpo. – Se você diz. – Não quero decepcioná-la. – Aproximou-se, passou o polegar em seu queixo. – Você sempre foi tão protegida. – Sempre repete isso. Esqueceu que passei muito tempo afastada da sociedade? Isolada? O


que não apaga a tragédia vivida, a dor. A gente nunca mais é a mesma, quando compreende o quanto as pessoas são malvadas. Não tenho experiência com homens ou relacionamentos, mas conheço o lado ruim do ser humano. Entretanto, continuo viva. Não preciso de proteção, embora aprecie o seu valor por me proteger. – Acho que é a primeira pessoa que me acusa de ter valor. – Pelo menos, posso ser a primeira em alguma coisa. – Aproximou-se e o beijou. – Ih, parece estar com ciúmes. – Quem sabe? – E demonstra certa possessividade. – Talvez. Mas não acho nada absurdo não gostar da ideia de você ter outras mulheres. – Entendo. Mas o que a fez pensar nisso? – Este lugar cheira a sedução. – É verdade, não vou mentir. – O frio no estômago aumentou. – Porém, é novo e ainda


não tive a chance de seduzir ninguém aqui. Ela se sentiu mais estimulada do que deveria. – Puxa. – Isso a agrada? Ela o puxou pela gravata. – Sim, muito. – Você me surpreende. – Eu mesma me surpreendo. Nunca quis ter nada só para mim. Você é a exceção. – Em geral, não gosto de mulheres possessivas. Mas talvez você seja a exceção. – Gostei da ideia. – Sabe qual ideia me agrada? – Recuou um passo. – Gosto da ideia de você tirar o vestido. – Achei que você fosse o mestre da sedução. Por que eu devo seduzi-lo? Ele afrouxou a gravata e ela ficou hipnotizada. Ele a jogou no chão e abriu dois botões. – Peço desculpas, Zara, mas achava que já a tivesse seduzido.


Ela sorriu, surpresa. Então abriu o zíper nas costas do vestido de seda. – Isso quer dizer que você ainda não foi seduzido? Quem parecia desesperado para me arrastar para cá era você. Não fomos para o palácio por causa de sua pressa. Baixou o olhar para a ereção espetando a calça. – Hum, parece-me claro que já o seduzi. Você seduziu muitas mulheres, como me contou. Acho que mereço fazer parte dessa sedução. – Eu lavei sua cabeça, mulher. Isso não foi sedutor? – Acontece que sou um animal ciumento. Não. Só lavar meu cabelo não basta. Quero mais. – Afastou o vestido dos ombros, fazendoo cair aos seus pés. Só usava calcinha e sutiã transparentes e escarpins vermelhos que lhe realçavam as pernas. Não parecia encabulada, mas poderosa. Via nos olhos de Andres o tesão,


e no corpo, a tensão. Sabia que ele a desejava. Pelo menos, naquele instante. Por enquanto, era o suficiente. Ele tirou o paletó preto e o atirou no sofá. Abriu os botões dos punhos da camisa e as arregaçou. – Entendo. E como vou seduzi-la? – Tire a camisa. Devagar. Ele manteve-se em silêncio. Desabotoou a camisa. A cada movimento, revelava a pele bronzeada firme, os músculos. Ela mordeu o lábio para não deixar escapar um gemido. A verdade é que já tinha sido seduzida, mas queria o ritual. Outra novidade com a qual não estava acostumada. Ter algo só porque era gostoso. Porque a deixava feliz. Quando ele terminou, atirou a camisa no chão, os músculos saltando com o movimento. Ela ficou com a boca ressecada, o coração quase explodia, ecoando em sua cabeça.


– Agora a calça. Ele arqueou a sobrancelha, abrindo o fecho do cinto devagar. Ela ficou petrificada. Tudo nele era sexy. O peito, a barriga, os braços, as mãos. Mordeu o lábio só de pensar no que ele estava prestes a revelar. Isso também a excitava muito. – Pode ir mais rápido. Não, não era imaginação. Tão logo ela falou, ele desacelerou os movimentos. – Está impaciente? Sim, sim. – Não muito. – Tem certeza de que ainda não a seduzi? – Continue tentando. Ele abriu um sorriso sincero. Ela fazia as contas de quantos já merecera. Ele girou os ombros desencadeando um movimento pelo resto do corpo. Movimento que não conseguiu ignorar. Ele era deslumbrante. Não era de espantar que as


mulheres perdessem a cabeça por causa dele. Na verdade, bastava um sorriso e poderia seduzir qualquer mulher. Surpresa ficaria se alguma resistisse. Em definitivo, ela não pretendia resistir. Desceu o zíper da calça, curvou-se para descer a calça antes de esticar-se e revelar as coxas e o membro ereto. Duro, grosso, à sua disposição. – Sente – ordenou sem refletir. Ele ficou calado; apenas a fitou espantado. – Não discuta comigo – avisou em tom imperioso. Ele recuou dois passos e sentou-se no sofá. Parecia um imperador romano à espera do tributo. Por acaso, ela tinha um tributo em mente. Aproximou-se devagar, ciente de que os saltos altos a faziam rebolar, e de que os olhos dele acompanhavam o balanço. Parou diante dele, admirando-lhe a beleza. O queixo


quadrado, a boca sensual. O peito largo, musculoso, os poucos pelos escuros. Então, ajoelhou-se com vagar, pôs as mãos em suas coxas, os lábios pertinho da parte do corpo mais masculino. Como ele tinha feito isso com ela, e lhe despertara imenso prazer, achou que retribuir o satisfaria. Inclinou-se, o coração palpitando. Já ardia de desejo; os seios, no mais alto grau de sensibilidade, ansiavam por seu toque. Bem, teria de esperar. Ser paciente. Ele obedecera. E agora devia demonstrar reconhecimento. Não sabia por onde começar, então decidiu seguir o instinto. Passou a língua por todo o membro. Surpreendeu-se ao sentir a mão forte empurrar sua cabeça. – Zara – murmurou com voz rouca. – Fiz alguma coisa errada? Permaneceu imóvel, a cabeça presa, incapaz de olhar seu rosto. Talvez fosse melhor assim. Ele era tão experiente; era provável que seus


esforços fossem risíveis, e ela não fazia ideia do quanto. Mas ele, sim. – Não. Mas não precisa... – Eu quero. Ele gemeu e afrouxou a mão. Ela voltou a se inclinar, retornando ao plano original, saboreando-o. Ouviu o sibilar entre os dentes e, imaginando ser um sinal positivo, continuou a explorar o corpo. Mudou de posição, segurou a base com mão firme, enquanto o colocava na boca. Conquanto macio, liso, estava muito duro. Quente. Bem diferente do que imaginara. O desespero retornou. O desejo de conhecer cada milímetro dele. Enfiou tudo na boca. Prestou atenção ao som descontrolado de prazer que ele emitiu, ao tremer dos músculos das coxas sob sua mão. Sentia sua tensão percorrendo cada linha do corpo do homem. Ecoando dentro dela. De repente, perdeu o controle. Queria mais. Queria ele todinho. Levantou-se, tirou o sutiã e


o jogou no chão, desceu a calcinha. Decidiu manter os sapatos de salto alto, por considerálos uma novidade estranha, ilícita. Aproximou-se do sofá, dobrou a cintura, segurou o sofá atrás dos ombros dele, antes de erguer o joelho e colocá-lo ao lado de sua coxa; repetiu o mesmo gesto com o outro. Ele grunhiu, e com uma das mãos seguroulhe a cintura, enquanto a outra pressionava-lhe as espáduas e agarrava-lhe o cabelo. Puxou-a para baixo e a beijou de um jeito voraz, descontrolado. Incrível. Ele desceu a mão por suas costas e agarroulhe a bunda, depois a provocou acariciando-lhe as coxas, aproximando-se da entrada. Ela estremeceu, as pernas fracas, o sexo latejando. Ele enfiou um dedo dentro dela enquanto chupava seu mamilo. A explosão de prazer resultou num disparar de estrelas. Uma sensação tão intensa, tão perfeita... Teve


vontade de questionar onde ele aprendera aquilo, mas achou melhor não saber. De qualquer modo, não conseguiria falar. Ele retirou o dedo, a segurou pelos quadris e a posicionou acima de sua ereção. – Agora, princesa – proferiu entre os dentes. Ela desceu devagar, deliciando-se com a sensação de ser preenchida centímetro a centímetro. E uma vez sentada em cima dele, parou, maravilhada com a sensação maravilhosa de estar conectada a outra pessoa. O mais próximo possível. Respirou fundo, abriu os olhos e o fitou. Ah, não estava apenas conectada a outra pessoa. Estava conectada a Andres. Sentiu a garganta ressecada, inchada. E tudo parecia perfeito. Não se lembrava da última vez em que se sentira em casa. Devia ter sido no palácio, em Tirimia, mas a lembrança costumava desertar receio. Tristeza. O acampamento, junto com o clã, nunca tinha sido seu lar. Nunca se


constituíram em sua família. Eram seus protetores. Valiosos protetores. Mas não era a mesma coisa. Não era isso. Seu lar não era Petras, ou o palácio, e certamente não essa cobertura de piso indecente. Era ele. Andres. Esse era o lar para o qual queria retornar. Sempre. Não importava onde ele estivesse, se num castelo ou numa cabana. – Oh, oh... Andres. Não conseguia pôr para fora as palavras que rodopiavam em sua cabeça. Melhor assim. Disso tinha certeza. Chegava a duvidar de que fizessem sentido no momento. Mal faziam sentido para ela. Ele a manteve com mão firme, guiando seus movimentos. Ela obedeceu por um tempo até estabelecer seu próprio ritmo, rebolando os quadris enquanto se erguia um pouco, antes de descer outra vez bem devagar. Uma verdadeira tortura. Tudo o que desejava era fechar os


olhos e cavalgar com força e rapidez até os dois atingirem o orgasmo. Ao mesmo tempo, não queria que chegassem ao fim. Balançou os quadris para a frente e para trás, gratificada ao ouvir o gemido torturado escapar de seus lábios, quando suas mãos apertaram com mais força os quadris, cravando os dedos na carne, com tamanha força que ela imaginou deixariam marcas. Tomara! Queria guardar a prova de ser desejada quando terminassem de fazer amor. Queria que os pelos da barba deixassem sua pele vermelha, arranhada, que ela conseguisse ver as marcas de suas mãos nas coxas. Voltou a esfregar-se nele, e desta vez, ele soltou um grito. Selvagem, descontrolado. Como se tivesse sido levado ao mesmo patamar que ela. Sempre fazia isso. No corredor do palácio, ali no apartamento. Mas ela não se sentia culpada. Gostava dele assim.


Descontrolado, louco por ela. Tanto quanto ela era louca por ele. Sem barreiras. Sem nada a separá-los. Sentiu-se em casa. Até que enfim. Ele a segurou com força e, de repente, ela foi projetada para trás. Ele a abaixou devagar até o chão, acomodou-se entre suas coxas e investiu com força. Ela ficou presa, incapaz de se mover, tamanha a força e o peso dele. E adorou a sensação. Os olhos escuros cravados nos seus poderiam ver todos os seus segredos. E ela queria que ele descobrisse todos, um a um. O medo, a intensa emoção crescendo dentro dela, porque ela talvez não as soubesse interpretar. Era inexperiente. Talvez ele soubesse. Ele já tivera amantes. Talvez, para ele, tudo isso fosse normal. Não. O coração rejeitou tal pensamento. De imediato. Com violência.


Para ele, não era como das outras vezes. Disso tinha certeza. Porque ele havia dito não ter sentido nada com Francesca. Porque ele sempre saía cada vez com uma mulher diferente. De jeito nenhum podia ser a mesma sensação. Isso, todas as vezes e com diferentes pessoas, na certa consumiria uma pessoa. Arrasaria a pessoa. Era só ele, só ela, e ela sentia ser devorada pela emoção. Andres segurou com força seus quadris e penetrou ainda mais. O piso era gelado, duro, mas ela nem ligou. Estava com Andres, tudo era perfeito. Apesar de a pele parecer a ponto de romper-se, apesar da imensidão de sentimentos mal caber no seu peito. Apesar de tudo isso, estava tudo perfeito. Tudo com ele era assim. Uma série de contradições, de complementações, tudo muito, mas não o suficiente, e mesmo assim perfeito.


O prazer aflorando se expandiu. Não conseguia respirar, mal conseguia lidar com a sensação a espalhar-se por suas veias, sangrando, estalando sobre sua pele como uma corrente elétrica. Andres baixou a cabeça, o aperto mais forte quando gritou, a puxou para perto uma última vez e chegou ao clímax. Isso aumentou a intensidade de seu próprio prazer, e ela se deixou levar pelos flashes de cores explodindo quando o prazer tomou conta dela e a afastou do mundo ao redor. Afastada do passado, do futuro, do chão duro. De tudo, à exceção de Andres. De tudo, a não ser dos dois juntinhos. Nada além do ofuscante prazer experimentado graças a ele. Ela berrou, perdeu o controle por completo tal a intensidade de seu clímax. Berrou como não berrava desde os tempos de solidão nas montanhas. Quando era consumida pelo


sofrimento. Quando se sentia isolada. Mas desta vez era diferente. Antes só podia fazer tamanho barulho por estar só. Ninguém a via ou ouvia. Mas ele estava ali. E ela era livre. E quando voltou a si, não estava só.


CAPÍTULO 10

– POR ONDE tem andado nos últimos dias? Desapareceu durante meu discurso. Não pense que eu não notei. Andres parou no meio do hall, fechando os olhos e trincando os dentes ao ouvir a voz do irmão às suas costas. – Estive em Las Vegas. Apostando as joias da coroa. Troquei o anel de noivado de nossa mãe por uma prostituta. Não se preocupe, a moça era muito habilidosa. – Mentira. Minha esposa usa a aliança. Caso contrário, eu acreditaria. – Estive no meu apartamento na cidade. Com Zara. Achou que ela estava no quarto rasgando jornais e preparando um ninho de


camundongo todo esse tempo? – Agia de modo desnecessariamente cruel com o irmão, que na certa alimentava preocupações sinceras com o comportamento do irmão. Bem, por algum motivo, Andres era incapaz de aplacar os receios de Kairos. – Raríssimas vezes encontrei com ela desde que a deixei sob sua custódia. – Muito conveniente para você. Passa a mulher para mim, encarrega-me de tentar domá-la e depois lava as mãos. – E como tem sido? Andres pensou nos últimos dias com Zara. Praticamente não tinham saído do apartamento. Praticamente não tinham se vestido; comeram o bolo inteiro. Lambera a cobertura em sua pele e mostrara o que queria dizer com usar o bolo e comê-lo. Vestia o mínimo quando abria a porta para receber a comida entregue na cobertura. De resto, preferia andar nu. Assim podia ter acesso


a Zara todo o tempo. Na cama, na bancada da cozinha, no chuveiro... Pela primeira vez, uma mulher o deixava insaciável, sempre querendo mais. Nunca experimentada nada parecido. Não se tratava de preencher o vazio com sexo. Mas de estar com ela. Não ansiava por qualquer companhia feminina, mas por Zara. A constatação era surpreendente. Ela parecia feliz com ele. Em parte, queria mantê-la com ele. Usá-la como tampa para o poço escuro de sua alma. Zara não o conhecia a fundo. Não conhecia o playboy que tentara a todo custo destruir a confiança do próprio irmão. Não conhecia o menino irrequieto, incontrolável e responsável pela fuga da mãe. O homem que só dormia uma vez com cada mulher e que temia a solidão mais do que qualquer monstro espreitando nas sombras.


– Tudo bem. – Mostrou as mãos. – Ainda estou de posse dos meus dez dedos. – Ela é sua noiva. Pode parar de falar dela como se fosse uma espécie de selvagem violenta? – Poder eu posso – argumentou, pensando em como ela demonstrara ser gentil, pura –, mas acho divertido. – Vão conseguir se comportar quando eu anunciar seu casamento hoje na festa da véspera de Natal? – Prometo que eu e Zara já aprendemos como lidar um com o outro. – Não conseguiu conter o sorriso. Kairos ergueu as sobrancelhas. – Aprenderam mesmo? – Sério. – E quanto mais discutiam o assunto, mais ela se tornava parte de sua vida e mais desconcertado dele ficava. Estranho. Devia ficar aliviado por não estar só. Mas algo o fazia sentir-se como se o


mantivessem com a cabeça debaixo d’água. E como se ele a afogasse junto. E quanto mais afundavam, mais em pânico ficava. Mais pretendia deixá-la solta e escapar. Bater em retirada e voltar ao castigo da solidão seria a melhor alternativa. Não queria precisar dela. Perdê-la. Decepcioná-la. – Por favor, jure que não a levou para Las Vegas para a trocar por prostitutas. – Não, nada tão libidinoso. Estamos transando. Só nós dois. Eu devia ser grato por você ser casado e fiel a Tabitha. Caso contrário, essa seria uma fantástica oportunidade para você se vingar. Sabia que mataria o irmão, caso ele apenas olhasse para Zara. Aliás, mataria qualquer homem que ousasse olhá-la. Que diabos estava acontecendo com ele? Sentia-se dividido: desesperado para mantê-la ao seu lado e desesperado para deixá-la partir.


Incapaz de tomar uma ou outra decisão. – Seria mesmo. Mas, não, eu não faria isso. Não com o meu irmão. Não tenho raiva de você, por mais que não acredite. Quer dizer, raiva tenho. Contudo, não alimento amargura. Não gostei do que aconteceu há cinco anos. Como poderia ser diferente? Quer dizer, se eu fosse feliz no casamento, quem sabe? – Todas as árvores de Natal do salão de festas estão decoradas. Tanto Andres quanto Kairos se voltaram ao ouvir a voz artificial de Tabitha. Impossível saber se ela ouvira o comentário de Kairos, mas considerando o faiscar dos olhos azuis e a palidez do rosto, na certa tinha ouvido. Difícil saber o motivo de Kairos achar tão difícil ser casado com alguém tão linda quanto Tabitha. Ela era dócil, bem diferente de Zara, uma mulher obstinada e autoritária. Claro, isso a tornava fascinante. Talvez fosse essa a explicação. Talvez Kairos quisesse uma


esposa mais parecida com Francesca. Deslumbrante, impetuosa. Bem capaz de abandonar o marido ou de engravidar do chefe da cavalaria e não do marido, mas certamente possuidora de encantos. Tadinha de Tabitha; nunca poderia competir se esse era o tipo de mulher por quem Kairos realmente sentia atração. Tabitha parecia uma boneca de louça mantida na estante mais alta, sempre intocável. Andres suspeitava que isso a magoasse. – Obrigado – respondeu Kairos em tom gélido. – Dentro de um minuto, vou entrar para ver. Andres e eu estamos conversando. – Então deixo os dois a sós. – Ela tentou abrir um sorriso, meneou a cabeça e voltou para o salão de festas. – O que você dizia? – indagou Andres. – Nada de especial. Não quero o seu mal. Nunca quis. O casamento de vocês pode dar


certo. Sobretudo se existe atração física. Não arruíne tudo. – Não sou criança, Kairos. – Também não era quando levou minha noiva para a cama. – É verdade. – Ouça um conselho uma vez na vida. Ele ouvia. Ouvia com atenção. Mas nunca fazia a menor diferença. – Ela é uma boa mulher. Forte. Será uma princesa maravilhosa; uma esposa maravilhosa. Isso era indiscutível. Além disso... ele queria que desse certo. Nunca fora tão feliz quanto nesses últimos dias. Nunca experimentara essa vontade de entregar-se. Ele gostava de cuidar de Zara. Isso também era novidade. Querer dar e não tomar tudo o que podia. Sentir um desejo tão desesperado, tão súbito e intenso, o deixava de quatro.


O problema é que sempre que queria algo, acabava fazendo besteira. E não seria diferente com Zara. Afastou o pensamento. Não lhe restava outra opção a não ser dar certo com ela. Mas isso não significa entregar-se a essa emoção que lhe açoitava o peito. Podiam ser parceiros. Podia funcionar. Não precisava ser daquele jeito. Explicaria a ela. Hoje, depois do baile, explicaria como seria. Uma parceria. Sem sentimentos. Nada tão instável, nada tão forte. Ele podia manter um compromisso, uma promessa. Mas seu coração provara inúmera vezes ser inconstante. Respirou fundo e olhou Kairos. – Preciso ir, minha noiva está à minha espera. E não está zangada comigo. – Dê-lhe tempo. E Andres... – O quê?


– Se sair durante meu discurso hoje à noite, vou ficar zangado. – Então trate de fazer um discurso interessante. HOJE USARIA o vestido cor-de-rosa vaporoso que experimentara no primeiro dia no palácio. Prenderia o cabelo escuro num coque com uma tiara. Era tudo tão estranho. E ao mesmo tempo, tão familiar. Sua vida tinha sido assim. Festas, vestidos bonitos, coroas. Ela fazia parte da realeza no palácio de Tirimia. Em seu dia a dia sempre experimentara as desvantagens de fazer parte da realeza e nenhum dos benefícios. Agora era diferente. Hoje à noite, estaria junto com toda a família real. Fazia parte de um grupo. Não se mantida afastada. Hoje à noite, Kairos anunciaria que ela e Andres se casariam depois da missa de Natal na manhã seguinte, na antiga catedral da cidade.


O mais lindo vestido tinha sido confeccionado. Zara mal podia acreditar na rapidez com que tinha sido costurado. Brilhava como a neve de Petras. Um vestido de renda bordado com pedrarias. Não podia imaginar nada mais lindo para usar ao tornar-se mulher de Andres. Nem imaginar nada mais lindo para usar hoje à noite, quando o povo tomasse conhecimento de que seria a esposa de Andres, que o vestido cor-de-rosa. E tudo assumia maior importância em consequência dos últimos dias passados na cobertura. Pois descobrira que o amava. Não tinha experiência em amor, lá isso era verdade. Nem se lembrava da sensação de ser amada pela família. Por isso mesmo, sabia ser amor. Imaginou que ninguém aprecia mais a comida do que depois de ter passado fome. Tudo tinha gosto melhor, cada dentada era mais preciosa, merecendo ser saboreada. Não


era preciso ter ido a banquetes para compreender que jantava em um restaurante sofisticado. Ela sabia. Sabia que isso era tudo com que sonhara. Outro dia, pensara nele como sendo seu lar. Pensara no destino, no cumprimento da promessa de seu nascimento real. Agora percebia ser muito mais. A sensação de que as pessoas falavam, quando discutiam sua vida em família, era amor. E por mais que se possa amar um lugar, ela amava muito mais uma pessoa. Andres. Sua primeira incursão fora da floresta. Sua primeira ligação com um ser humano. A convivência com ele era um remédio mais efetivo que o tempo ou a distância. Estar com ele, escolhê-lo, a forçara a dar-se conta de que não só o clã mantivera distância, mas ela também. Ela só se entregara a Andres.


– Está pronta? Virou e deparou-se com Andres, perfeito de smoking. Paletó preto de corte magnífico, gravata borboleta combinando e camisa branca. Barbeado, o cabelo escuro penteado para trás. Menos arrojado do que de hábito, mas tão devastadoramente sexy como sempre. Ele seria seu marido. Era seu, de verdade. Só de pensar, ficou tonta. Não se lembrava de já ter ficado tonta. – Estou pronta. – Vai ter muita gente na festa. E mais ainda amanhã na cerimônia. Espero que se sinta devidamente preparada. – Não sei se é possível estar preparada para um evento dessa magnitude. Mas não vou retroceder para o estado animalístico e me esconder debaixo da mesa. – Muito reconfortante. Ainda que deva confessar que não estou preocupado. – Ele estendeu a mão e ela a tomou, a eletricidade a


percorrendo das pontas dos dedos e indo alojar-se no coração quando as mãos se tocaram. Ele a beijou e o mundo se evaporou. – Vamos ter de dançar. – Estou pronta se você estiver. Ele sorriu. – Estou sempre pronto. Ela desceu a mão e segurou-lhe o membro ereto. – Sei que está. Um rugido vibrou em seu peito. – Não pode fazer isso. Precisamos ir. Kairos vai notar se chegarmos atrasados. – Deduzo que contrariar o rei não faça parte da etiqueta. Sobretudo se ele vai ser seu cunhado. – Bom conselho. – Beijou-lhe o rosto, deulhe o braço e caminharam para a porta. – Conselho que eu preferia ignorar. – Coitadinho do meu Andres. Forçado a comportar-se.


– Vamos ver quanto tempo dura – pronunciou em tom seco, sem o bom-humor habitual. Havia algo estranho nele. Algo que ela não identificava. – Devo me preocupar? Pretende comer o frango com a mão? Ele abriu um sorriso malicioso, e ela foi obrigada a admitir que pouco antes imaginara coisas. – É possível. Nunca se sabe. Atravessaram o hall juntos, os funcionários afastando-se para abrir caminho enquanto eles percorriam os corredores rumo ao salão de festas. A entrada do castelo tinha sido transformada. Grandes ramos de azevinho e sempre-viva enrolados nos corrimões, pendendo acima dos vãos das portas. Luzes brancas piscando por todo lado, nas árvores e nos enfeites, davam ao ambiente um brilho especial.


Zara não se lembrava da última vez que comemorara o Natal. Nem da última vez que tinha visto uma árvore de Natal. O Natal não era celebrado assim pelo clã. Não fazia parte de sua tradição. As vagas lembranças da celebração no palácio durante a infância se transformaram em imagens vivas, reluzentes diante de seus olhos. – É mágico. Ao olhar para Andres, percebeu que ele continha o riso. – Fico feliz por ter gostado. – É minha primeira festa de Natal desde... Meus pais costumavam organizar festas no palácio em Tirimia, mas eu nunca fui convidada porque era muito pequena. – Não é mais tão pequena. – Não. – Vamos entrar. Espere só até ver o salão de festas. Ela correspondeu ao seu entusiasmo. Como se precisasse de encorajamento. A decoração do


salão de festas era deslumbrante: árvores de Natal espalhadas em intervalos de alguns centímetros em círculo ao redor da pista de danças, e nos intervalos, as mesas. Luzes brancas penduradas formavam uma rede de estrelas sobre os convidados. Era como se um globo de neve tivesse sido capturado, composto não de gelo e água, mas de lâmpadas. – Maravilhoso. Pareço boba, óbvia, mas não sei o que dizer. – É como eu me sinto quando tento elogiála. – Os olhos escuros sérios lhe causaram um frio no estômago. E um disparo no coração. Chegou a sonhar que ele também a amasse. Andres caminhava com desenvoltura, cumprimentando os convivas. Muitos lhes deram os parabéns, pois embora não tivessem feito o anúncio formal, todos já haviam tomado conhecimento. Conquanto desconhecessem as circunstâncias, é evidente.


Zara pouco se importava. Afinal, o relacionamento entre eles era real. – Podemos sentar? – interrogou ele. Zara assentiu e foi conduzida à mesa no fundo do salão, de onde se tinha uma visão total do ambiente. Kairos, Tabitha e algumas pessoas que Zara nunca tinha visto já se encontravam acomodadas. Andres informou: – Diplomatas, políticos. Uma mesa muito sem graça. – Não faz mal. – Nossa vida vai ser assim. Vamos ter de frequentar esse tipo de festas e conviver com esse tipo de gente. Isso realmente importava? – Bem, você estará ao meu lado. E isso é tudo o que importa. Ele hesitou, franzindo a testa. – Não conte comigo para animar a mesa, princesa.


– Não diga isso. Passei bastante tempo com você durante a última semana. – Talvez meu corpo possa animar o seu. Quanto ao resto, costumo ser um fracasso. Ela também franziu a testa. – Só vendo. Ele nada mencionou; continuou caminhando para a mesa. Ela estava irritada com ele. Há tempos, ele não era irritante. Ou talvez, ela apenas tivesse os olhos voltados para as coisas boas que ele despertava. Era possível. Zara sentou-se entre Andres e Tabitha. A rainha estava quieta e evitava olhar o marido. Zara voltou a pensar se esse não seria também o seu destino. Esse relacionamento tenso a deixara nervosa no outro banquete. Recentemente, se convencera de que a convivência entre ela e Andres era diferente, no entanto, havia instantes em que ele se mostrava distante.


A comida, assim como tudo na festa, estava uma delícia. Zara restringiu-se a ouvir a conversa sobre temas desconhecidos. Ao que tudo indicava, Andres idem. Zara voltou-se para Tabitha. – Gostou do jantar? – Na certa, uma pergunta idiota para quem, na certa, tinha escolhido o menu. Mas ela nunca tivera amigas. Andres tinha sido a pessoa mais próxima, mas não era mulher. Longe disso. Zara descobriu que gostaria de ser amiga de Tabitha. Outra vantagem trazida pelo acordo. – Gostei – assegurou serena, apesar da tentativa desajeitada de iniciar a conversa. – Tudo aqui é adorável. – Continuava tentando. – Há muito tempo não comemoro o Natal. Já tinha visto enfeites de Natal, mas nada parecido com esses. Adoro o Natal. – Ela nunca se permitira reviver as lembranças por serem muito dolorosas. Por aumentarem o vazio. Não adiantava pensar no que não poderia recuperar.


– Verdade? – inquiriu Tabitha, inclinando a cabeça. – Claro. Todo mundo gosta do Natal. – Confesso que acho muito estressante. Zara notou o olhar de esguelha de Tabitha na direção de Kairos. – Muito planejamento. Sorrisos demais. A rainha não sorria no momento. – Imagino. Eu não estou acostumada a... Bem, na verdade, as pessoas não costumam reparar tanto em mim. – E não acha isso intimidante? – Não quando estou com ele – respondeu, um leve rubor tingindo-lhe as faces. Tabitha arqueou as sobrancelhas. – Com Andres? – Ele fica à vontade e acaba me deixando à vontade também. – Então vocês dois estão se entendendo? Não se enganava; havia uma ponta de desconfiança na indagação.


– Estamos. – Zara se mexeu na cadeira, de repente desconfortável. – Ele tem sido muito bom. Ele se preocupa comigo. – Entendo. Nesse instante, Andres decidiu cochichar em seu ouvido. – Zara, a pista de danças começou a encher. Quer dançar comigo? – Quero – respondeu, agradecida pela chance de escapar. Tinha feito alguma coisa errada. Não devia ficar surpresa. Não tinha a menor experiência com situações semelhantes. Tateava às cegas, imbuída da fé de que tudo daria certo pelo simples fato de ela estar se divertindo. De estar feliz. Tabitha devia ter amigas. Devia sentir-se segura. O fato de querer ser amiga dela, não significava que Tabitha também quisesse. Ai, tudo era tão complicado... Aceitou a mão de Andres, louca para escapar.


Uma vez na pista, encostou a cabeça em seu peito quando ele a segurou pela cintura e deulhe a mão, mantendo-a juntinho. – Algum problema? – Sei lá, acho que irritei Tabitha. – É difícil estabelecer laços com Tabitha. Ela é muito distante, muito fechada. – Nem tanto. Acho que ela ficou chateada porque nosso relacionamento está dando certo. Ele franziu a testa e o estômago de Zara revirou. Era como se tivesse dito algo errado de novo. E se ele não achasse que o relacionamento estava dando certo? Quantas incertezas! Nunca precisara lidar com a insegurança. Vivia sozinha no clã, mas sabia onde pisava. Todos nutriam sentimentos positivos a seu respeito; apenas o protocolo os mantinham a distância. Não havia dúvidas. As pessoas diziam o que pensavam; tudo era exposto às claras. A boca dizia a mesma coisa que os olhos.


– Acho que ela e Kairos enfrentam um momento difícil. Zara sentiu alívio ao ouvir e deu-se conta de que um nó de tensão se formara, do qual não havia tomado conhecimento até ele começar a afrouxar. Nunca imaginara que Andres tinha alguma coisa a ver com Tabitha, mas uma dúvida surgira em sua mente. Por sorte, ele a afastara. O amor a deixava meio desnorteada. Sobretudo quando se tratava das coisas não ditas. E as pessoas ali pareciam agir assim. Pelo menos, essa família. Ela não compreendia. Mas teria de entender, de um jeito ou de outro. Precisava só de Andres, mas ele vinha com um pacote com o qual teria de negociar. Não sobrevivera ao cerco ao palácio, à perda e à solidão, para acabar fraca e assustada. Era forte. E usaria sua força ali. Quando fosse necessário. No instante, não precisava disso. Estar em seus braços não exigia


força. Podia apoiar-se nele. Sensação maravilhosa, pois enquanto crescia nunca contara com apoio algum. Apenas consigo mesma. Os dois juntos seriam mais fortes. Enfrentariam juntos as tempestades. A crença se tornou tão forte que, de tão convicta, ela decidiu se abrir. – Andres... preciso dizer uma coisa. – Você não derrubou a comida no vaso de plantas, derrubou? – interrogou bemhumorado. – Não – respondeu, a testa apertada em seu ombro. – Nada disso. Só preciso dizer que estou feliz por me tornar sua esposa amanhã. Ela sentiu a tensão. – Que bom, porque não importa o que sinta, você vai ser minha esposa amanhã. – Eu sei. Mas acho que devia saber que eu quero ser sua mulher. Estou feliz ao seu lado. Quero fazer parte dessa família. Quero ter filhos com você. Quero ficar ao seu lado.


Ele se retesou ainda mais, afastando-se ligeiramente. – Pode me explicar o motivo dessa conversa? – A voz era comedida, a expressão assustada. – O tempo que passamos juntos – declarou, confusa. – As coisas mudaram entre a gente. Deve ter notado. – Estamos dormindo juntos, se é a isso que se refere. – É mais que isso. – É mesmo? Pode ser para você, agape, mas posso garantir que não é para mim. Tive muitas amantes e, no que me diz respeito, não há nada de especial entre nós dois. Havia algo estranho no tom de voz. Não soava como ele. Não parecia real. Conhecia Andres. Conhecia o brilho nos olhos quando brincava; reconhecia quando seus sorrisos eram forçados ou sinceros. Esse era forçado. Tão forçado quanto suas falsas exibições de alegria e


descontração. Ele tentava aborrecê-la; só não entendia o porquê. – O que existe entre nós é diferente – insistiu –, eu sei. Não é só sexo. Os lábios se curvaram numa expressão grosseira. – Agora a virgem acha que sabe a diferença quando é e quando não é só sexo? – Como você mesmo advertiu, não sou nem quase virgem. Ele deu uma gargalhada soturna. Cortante o suficiente para cortar-lhe a pele. Cravar-se em seu peito. – É, posso ter dito, mas emocionalmente tem mais a ver com uma virgem do que com uma sereia. – Por que está se comportando assim? – Porque sou assim. Fui sincero desde o início. Sabe que tipo de homem sou. O tipo de homem capaz de dormir com a noiva do irmão perto da data do casamento e obrigá-lo a casar


com outra que mal conhecia, e muito menos amava. – Ah. – Os problemas que Kairos e Tabitha enfrentam? Todo o estresse? Toda a dor? Culpa minha. Nunca deviam ter ficado juntos. Eles não combinam. Mas eu arruinei o relacionamento entre Kairos e Francesca. E deu nisso. – Mas e-eu estou feliz aqui. Eu o amo, Andres. Levando-se em conta o rumo da conversa, não sabia o que tinha dado nela para admitir seu sentimento. Todavia, não conseguia calar por nem mais um minuto seu amor. Ela o amava, e precisava que ele soubesse. Acreditaria Andres que alguém o amasse? Duvidava muito. Além do mais, ele não se amava. Só então se deu conta, com absoluta certeza, de que ele se odiava. Por isso, avisava


como era mau-caráter, sempre tentava reforçar o fato de não ser confiável. Ele não podia amar a si próprio, mas ela o amaria. Era seu destino. Amá-lo. Ser princesa. Viver num palácio e casar-se com um príncipe. E, acima de tudo, ser mulher. E amar um homem acima de tudo na vida. Não se tratava de tentar escapar da solidão ou usá-lo para preencher o vazio. Tratava-se de muito mais. Ele representava muito mais em sua vida. Mesmo se tivesse levado a vida cercada de amor, crescido no palácio com a mãe e o pai, ainda assim precisaria dele. Ele era a peça que faltava no quebra-cabeças. Seu destino não era o palácio, a posição. Era ele. – Eu o amo – repetiu. A repetição da frase pareceu tirá-lo do transe. – Não. – O quê?


– Que mania de questionar tudo o que eu digo. Eu já avisei uma vez. Não, você não pode me amar. – Posso. E amo. Não cabe a você decidir. – Impossível. Talvez sofra da síndrome de Estocolmo. Ou da síndrome da cesta de frutas cheia. Mas não tem como me amar. Está comigo por obrigação. Porque foi forçada a se casar comigo. – Com certeza, não fui forçada a ir para a cama com você. – Princesa, preste atenção, é só sexo. Não tem nada a ver com amor, com elos emocionais. – Para mim, tem. – Por quê? – inquiriu furioso, a voz entrecortada. – Por que me amaria? Sentiu a importância da conversa. Era essencial que sua resposta tivesse o poder de curar ou de destruir. Fechou os olhos, apagou as pessoas ao redor, as árvores de Natal, o brilho, as canções


natalinas tocadas pelo quarteto de cordas. Apagou toda a beleza. Toda a pompa anexada a Andres, para que só sobrasse ele. Eles. E não estava sozinha. Não mais. Não sentia medo. – Você se lembra de como foi minha infância. Perdi meus pais. Meu irmão. Vivia isolada. Às vezes, tinha medo de morrer tamanho era o sofrimento. Achava que o vazio em meu peito um dia aumentaria tanto que acabaria me engolindo. Que eu nunca teria nada. As pessoas ao meu redor não me amavam. Não me faziam carinho. Vivi faminta anos a fio. Faminta por você. Não tem nada a ver com sexo, ainda que eu goste de ir para a cama com você. É mais. Tem a ver com o fato de sermos iguais. Minha alma reconhece a sua, Andres. E quando o conheci, encontrei minha outra metade. Ele emitiu um som de zombaria.


– Não somos iguais. Princesinha, você é uma menina inocente da floresta encantada. Eu sou o cara mais durão que podia cruzar o seu caminho. As mães avisam as filhas para se afastarem de homens feito eu. Faço os maridos temerem o rompimento dos votos matrimoniais. Sou cínico, sou safado. Já me entreguei a todo tipo de vício possível e imaginável. Como pode achar que somos iguais? – Porque somos solitários. Ele ficou paralisado. A música continuou a tocar, mas ela e Andres viraram estátuas no meio da pista. – Nunca fiquei sozinho na vida. Nasci num palácio com centenas de empregados. Tive babás, mais de uma, desde o início. Sempre tive amigos na escola. Nunca vou para a cama sozinho, a não ser que eu queira. Vou a mais festas em um ano do que a maioria vai durante toda a vida. Mesmo quando meus pais iam a


festas e jantares, deixavam-me no quarto cercado de pessoas dispostas a atender todos os meus desejos. – Isso é sobrevivência, Andres. Não é amor. Não é estar acompanhado. Foi você quem me revelou isso. – Está enganada, princesa. Nunca fui solitário feito você. – Por que se pune com o isolamento? Por que fugiu de mim quando fizemos amor encostados na parede? Porque sabe, como eu sei, que ficar sozinho é a coisa mais aterrorizante do mundo. Você sabe. – Falava baixo, mas com convicção. Era a pura verdade. – Você é muito sozinho. Tão sozinho quanto eu já fui. Mas em vez de ir para a floresta e berrar, você se entregou à vida fácil. Tentou se convencer de que não era sozinho porque tinha gente ao seu redor para ajudar. Eu não tive essa opção, portanto tive de aceitar minha solidão. Aprendi a compreendê-la. A conviver com ela.


Enquanto você mente para si mesmo. Ninguém conhece você de verdade. Ninguém se dá conta. – Muitas mulheres me conhecem, no sentido bíblico da palavra, e isso é uma das maneiras mais seguras de conhecer alguém. – Chega desse ar cínico, de agir como se ninguém pudesse tocá-lo. Como se nada importasse. É mentira. Sei disso. Porque eu o conheço. Nada sei do seu passado, nunca li nada a seu respeito. Tudo o que sei sobre a pessoa terrível que é, foi-me dito por você mesmo. Pelos seus lábios. Mas eu não acredito. Nunca acreditei. Não pedi opinião a alguém. Eu formei minha própria opinião. Você é um homem bom. Ama seu país. Ama seu irmão. Caso contrário, não tentaria reparar seus erros. Você é leal. Teimoso. Meio perverso quando está zangado, mas só para se proteger. Foi generoso comigo. Como amante, como amigo. Ficou comigo, ensinou-me coisas, tratou-me com carinho. Lavou minha cabeça. Andres,


você é um homem bom. Quem são essas pessoas que escreveram histórias a seu respeito? Por que interessa o que dizem? Deixe que minha opinião baste. Acredite. Acredite em mim, por favor. – Agape, só me conhece há poucas semanas. Sua opinião a meu respeito, durante um período em que me comportei feito um santo, tem pouquíssimo peso. – Então se comportou como um santo? Em geral, não se comporta assim? – Exatamente – disse irritado. – Ótimo. Então, a partir de agora, passe a se comportar sempre assim. Se conseguiu, é só continuar. – Um dia acaba. Sempre acaba. – Não necessariamente. Vamos nos casar amanhã. Começaremos o primeiro dia do resto de nossas vidas. É uma situação nova para nós dois. Comece do zero. Comigo.


– Preciso beber. – Ele a soltou, recuou e a largou sozinha, com o coração apertado no peito. Ela arruinara tudo. Embora não soubesse o porquê nem como. Daria a própria vida para ouvir Andres dizer que a amava. Imaginara que ele sentia o mesmo que ela. Talvez fosse melhor ficar sozinha. Se ainda estivesse só, não teria de lidar com esse sofrimento. Com a decepção. Com o coração estraçalhado. Ao ver a sobremesa ser servida, tomou a decisão de retornar ao seu lugar. Daria um tempo para ele se acalmar antes de ir atrás dele. ANDRES NÃO conseguia respirar, pensar. Ela não podia amá-lo. Impossível. Por um segundo, acreditou que fosse verdade. E imaginou que podia tirar vantagem da situação. Uma esposa apaixonada. Que acreditava em sua bondade. Seria incrível! Mas acabaria perdendo no final.


Ele era assim. Afastava as pessoas. A mãe. Tentara, por todos os meios, brigar com Kairos. E a partir de amanhã, e por toda a eternidade, ficaria à espera do rompimento. À espera da queda da espada, que destruiria tudo que ele e Zara haviam construído. Talvez não neste ano, ou no seguinte. Talvez só depois de terem filhos. Filhos que também o adorariam. Dependeriam dele, como ele dependera dos pais. Crianças que não mereciam sofrer. Nem a esposa. Arruinaria tudo. A vida de todos. E durante os anos em que aguardava o golpe fatal, acabaria enlouquecendo. Ciente de que um dia chegaria, mas sem saber quando. Era fraco. Zara não merecia um homem de alma tão corrompida. Ele não era Kairos, disposto a abrir mão de tudo, da vida pessoal, dos objetivos pessoais, para servir ao país. Para servir a esposa por


quem sequer sentia amor. Andres nunca seria tão nobre. Nunca conseguira manter o amor de alguém. Nem dos pais. Seu comportamento sempre arruinava o amor dos outros por ele. Ele nunca se controlara. As últimas semanas tinham sido uma brincadeira. E ele se divertira. Mas precisava pôr um ponto-final nessa história. Ele deixara bem claro. Melhor destruir suas ilusões antes do casamento do que alimentálas. Agora, ela sabia o que esperar. O casamento era inevitável; disso não tinha dúvidas. Entretanto, não suportaria ser amado por ela. Entrou no salão. E então viu a mulher loura de vestido vermelho, o vestido colado a realçarlhe as curvas. O tipo de mulher de quem se aproximaria no passado. O tipo de mulher que escolheria para passar algumas horas hedonísticas numa festa daquelas.


E, pela primeira vez em anos, permitiu-se lembrar da última festa de Natal. A mãe lhe dera outra chance. Autorizara que ele descesse do quarto. Quando a família se sentou à mesa, fingindo união aos olhos do mundo, ele não estava descontrolado. Estava zangado. Com raiva dos anos passados trancado no quarto. Com raiva de ter tentado tantas vezes se comportar bem, mas ter sempre fracassado. Perdido no círculo vicioso de tentar agradar alguém que dizia amá-lo, mas sempre dando errado. Então decidira fazer uma cena. Jogara o prato no chão. Fizera a mãe chorar mais uma vez. Foi bom atingir seu objetivo. Falhar de propósito em vez de tentar agradar e não conseguir. E então ela partiu. Ficou aliviado. Depois disso, nunca mais teria de tentar.


Viu a noiva sentada à mesa, a postura ereta, comendo a sobremesa, tentando prestar atenção às conversas. Sua Zara não se encaixava naquele ambiente. Não tinha os modos refinados dos nobres. Nem aprendera a se comportar socialmente. Era única. Não havia ninguém igual a ela. Inebriou-se ao admirar a pele clara, o cabelo escuro. Naquele vestido cor-de-rosa e dourado, parecia saída de um conto de fadas. Mas ele não merecia viver um conto de fadas. Deu um passo. Outro. Na direção da loura. Da tentação. Não esperaria que o diabo viesse buscá-lo. Iria ao seu encontro. Sem demora.


CAPÍTULO 11

ZARA TINHA perdido Andres de vista há pelo menos uns quinze minutos. Ele devia ter saído do salão quando ela não estava olhando. Pressentia que ele não estava ali. Podia parecer ridículo, mas sentia sua presença. O laço que os unia era demasiado forte. Os anos de solidão o tornaram ainda mais forte, disso estava convencida. Ou talvez todos que amassem sentissem o mesmo. Mesmo quando só um amava? Permanecera à mesa em silêncio, tentando não demonstrar a tristeza. Respirou fundo, pensando se devia procurá-lo. Não era de esperar. Não gostava de jogos. E só porque ele


parecia preferir agir dissimulando seus sentimentos, ela não precisava agir assim. Ia forçá-lo a discutir o assunto. Ele mentia, tinha certeza. Ele gostava dela, mais do que confessava. Tinha certeza. Atravessou o salão, surpresa ao ver que as pessoas se afastavam para lhe dar passagem. Era um dos membros da realeza. Mas era difícil ficar feliz com o coração partido. Outra descoberta. Lógica. Saiu do salão pelas portas dos fundos e se encontrou no mesmo corredor onde ela e Andres tinham feito amor pela primeira vez. Não sabia o que a levara ali, mas devia haver um motivo. Dirigiu-se ao canto onde haviam descoberto a paixão pela primeira vez. E então ouviu vozes, sussurros. Deteve-se e ouviu.


O estômago revirou, o terror corroeu suas entranhas. Mas prosseguiu. Não podia evitar. Era Andres. Com uma mulher de vestido vermelho. Os dois agarrados. Ele a abraçava, beijava. Quando ele moveu a cabeça, ela viu as línguas. Um grito escapou de seus lábios. Ela tapou a boca. A loura pulou como se tivessem derrubado sobre ela um balde de água fervendo. Andres ergueu a cabeça de um jeito preguiçoso, lacônico. – Zara. – Proferiu o seu nome como se não estivesse surpreso ou envergonhado. – Não a esperava. – É óbvio. – A voz vibrava de raiva. – A festa me deixou meio entediado. – E quando fica entediado vem para cá e possui mulheres encostado na parede? – Não seja dramática. Obviamente eu não a possuía. Ainda não. A loura tossiu irritada.


– Não quero saber de dramas. Só queria me divertir um pouco com o príncipe. – Sinto muito, mas esse príncipe vem junto com o drama. Eu sou o drama. – Fiquem à vontade. – A mulher afastou-se de Andres e passou pertinho de Zara. A luz iluminou o rosto bonito e o batom vermelho borrado. Um beijo apaixonado. Ela se enganara. Acreditava que seu coração já estivesse partido. Mas não, havia ainda alguns cacos caídos no chão, pisados pelos saltos finos de outra mulher. Era culpa dele. Não da mulher. Esperou a loura desaparecer de vista. Não lhe daria a satisfação de ouvir como ela estava triste. – Você mentiu para mim – comentou em voz baixa, trêmula. Parecia não haver ar em seus pulmões. Achou que fosse desmaiar. – Eu avisei. Eu sou assim; um playboy egocêntrico. Sinto muito, não tive a intenção de


magoá-la. – Mentiroso! – gritou. Recobrara as forças ao vê-lo ali parado, a expressão indiferente, como se não tivesse destroçado seu coração tão cheio de lindos sentimentos recém-descobertos. – Sua intenção era me magoar. – Mas por qual motivo? Eu costumo fazer uns estragos sem querer. – Não! Você faz de propósito! – E qual a diferença? Corajosa, deu um passo à frente. Nada tinha a perder. Se Andres era tudo na sua vida, nada mais havia a proteger. Tudo terminara. – Faz toda a diferença. Você não está à mercê disso. Você escolheu agir assim. A culpa é só sua. – Não posso culpar a mãe que me abandonou e o pai que desistiu de mim? – perguntou em tom sereno. Ela queria destruí-lo.


– Não. Você é o único responsável. Fala de si mesmo como se fosse uma lenda. Usa esse discurso quando convém, para manter a distância entre você e quem o acusa. Como se eu fosse me afastar se compreendesse que você não passa de um menininho louco para ter a mãe de volta, para receber seu abraço. Mas não estou com peninha. Sua mãe pode tê-lo abandonado, e isso o magoou, mas desde então você não para de magoar a si mesmo. E isso não é culpa dela. Chega de jogar a culpa nos outros. – Faço o que bem entendo. – Você é sua própria vítima. Não aceita que alguém fique ao seu lado, faz o possível para afastar quem o ama. Por quê? Só porque uma mulher não o amou? – A única mulher que deveria me amar não me amou. E não foi só ela. Meu pai também. – Então isso quer dizer que você não merece ser amado? Que precisa provar aos idiotas que


gostam de você que eles não passam de idiotas? Por que insiste em colocar uma arma na própria cabeça? – Sei quem sou, só isso. Não adianta tentar me transformar. – Esqueceu que passamos as últimas semanas juntos? Você tinha jurado não sair com outra mulher. – Sentiu um nó na garganta. – Prometeu que só sairia comigo. – Eu falava sério. Mas mudo de ideia com frequência. Sempre fui assim. Não cumpro minhas promessas. – Mentiroso. – Não. Nunca cumpri minhas promessas. E quer saber? Nem tentei. – O quê? – indagou com a voz apagada. – Naquele Natal, eu prometi à minha mãe que me comportaria. Eu tinha feito tantas travessuras no passado, que ela decretou que eu não poderia mais participar de eventos públicos. Eu não conseguia ficar quieto. Não


obedecia. Sempre arruinava tudo. Todas as aparições em família. Ela se arrependia da minha existência. De eu ter nascido. Deviam ter tido só Kairos. Ela me afirmou isso. Mas daquela última vez... eu nem tentei. Quebrei meu prato de propósito, desarrumei a mesa inteira porque estava com raiva dela. E quando ela foi embora, fiquei contente, porque nunca mais precisaria tentar agradá-la. – Andres... – Não me olhe com piedade. Não pode fazer ideia do que sinto. Passei anos tentando agradar. Mas nunca era o suficiente. Então, não apenas parei de tentar, mas fiz o possível para agir mal. A ponto de não haver mais redenção. E consegui. Eu me entrego sem pudor aos vícios. A perda de minha mãe me liberou. Nunca mais alguém tentaria me controlar e eu poderia me entregar à boemia. Case comigo amanhã se quiser, Zara. Mas nunca vai ser amada. Nem contar com minha fidelidade. Se


nem eu mesmo acredito em mim. Se nem tento resistir aos meus desejos. Passei muitos anos tentando e falhando. Se não consegui agradar minha mãe, pode ter certeza de que não vou agradá-la. – Seu miserável. Estou presa aqui. Você me ensinou a amá-lo. E agora vem me dizer que não posso tê-lo? – Deixe de ser tola. Claro que pode me ter. Só não pode ter exclusividade. – Assim eu não quero. – Podemos manter as aparências. Vou me certificar de que nada lhe falte. – Não. – Sim. E não se iluda, vai ser minha esposa. Mas não precisa morar comigo. Ou me amar. – Não vou ser sua esposa. Não posso. Furioso, Andres trincou os dentes. – Eu prometi a Kairos. – E daí? Você acabou de confessar que não cumpre suas promessas. Acabou de dizer que


não há redenção para você. Devia estar contente. Devia saber que eu revidaria. Não farei papel de boba. – Não entendo. Não ia embora quando foi dada de presente para mim e vai agora por orgulho? – Isso mesmo. Hoje sou diferente da mulher que chegou aqui. Eu tinha medo. Medo de deixar o palácio, de que se me afastasse de você, morreria em um canto qualquer. Medo de deixar alguém se aproximar de mim, porque eu não suportaria a perda. Hoje sou mais forte. Vou me embora e cuidarei da minha vida. Eu posso. Posso mudar. Posso aprender. Mas não suportarei esta humilhação. Esta dor. Deu-lhe as costas, trêmula. Engoliu em seco. – Adorei contar com sua força para me apoiar. Mas sou capaz de andar sozinha. – Vamos nos casar amanhã – repetiu, como se não tivesse ouvido nada do que tinha sido


dito. – Meu irmão vai anunciar nosso casamento hoje. – Devia ter pensado nisso antes de me trair. Não sei perdoar, Andres. – Para ela, isso também era uma novidade. Porém, era vingativa. – Não vou perdoá-lo. Kairos é problema seu. As consequências, quando eu não aparecer na igreja, também são problemas seus. Afastou-se pelo corredor vazio, batendo os saltos altos no piso de mármore. Viu as portas duplas e as abriu. Uma grossa camada de neve cobria o chão. Saiu esfregando a pele dos braços. A fumaça saía de sua boca, sentia muito frio. As lágrimas escorriam. Olhou novamente para o palácio. Ergueu as saias e começou a correr, os pés afundando na neve. Escorregou, caiu de joelhos. O frio penetrava em sua pele, em seus ossos.


O desconforto físico não se igualava à dor no peito. Às trevas infinitas que ameaçavam destruí-la. Precisava levantar-se. Correr, fugir. Não podia deitar e morrer congelada. Esse era um medo antigo. Conquanto a ideia fosse tentadora. Levantou-se. Não, não desanimaria. Enfrentaria a dor. Não podia ter Andres, mesmo que ficasse. Não se submeteria à tamanha humilhação. Merecia respeito e amor. Sofrera muitas perdas. A perda dos pais ainda doía, mas aprendera a sobreviver ao sofrimento. E sobreviveria. Levantou-se e caminhou para a garagem, onde sabia que encontraria o motorista. De fato, ele estava lá. – Princesa... – Preciso falar com Julia Shuler. Pode me ajudar a encontrá-la?


EMBEBEDAR-SE NO dia do casamento não era uma boa ideia. Droga, nem no dia de Natal. Na manhã de Natal, para ser mais preciso. Não conseguira encontrar Zara depois da discussão, então tinha ido à biblioteca do irmão e fizera livre uso do uísque. Em breve chegaria a dor de cabeça. Nesse momento, a campainha tocou. Ela apareceria, tinha certeza. Ele cometera um erro ontem à noite ao usar aquela mulher para ferir Zara. Ele só começara a abraçar e beijar a mulher ao ouvir os passos de Zara no corredor. Não sabia qual seria sua reação, mas não esperava tanta repulsa por si mesmo. Não estava a fim daquela mulher, ainda que fosse maravilhosa. Não queria provar seus lábios, o batom dela na pele. E quando Zara o tinha visto... Nunca se arrependera tanto. Nem quando vira as fotos com Francesca.


Tarde demais; ele agira como sempre. Atacando. Magoando. Tentara justificar seu comportamento. Enquanto lançava insultos, sua vontade era cair de joelhos e pedir perdão. O desespero de desapontá-la depois era imenso. Decidira então despertar seu ódio. Assim não se surpreenderia quando ela o abandonasse. Mas não imaginara a dor em seus olhos. A mãe nunca o encarara. Simplesmente partira. O pai só demonstrara raiva. Kairos o aceitara, mas ele sempre acreditava ser impossível romper os laços entre irmãos. Zara deixara claro que o laço entre eles fora rompido. Ela demonstrara raiva, como o pai. Mas era uma raiva justificável. Ela esperava que ele fosse melhor. Sinceramente. Embora criança, sabia que os pais não esperavam mais dele. E ele os desapontara de propósito, pois no fundo atendia às suas expectativas. Zara tinha


sido a única que esperava mais dele. Ela espera o que você não pode dar. Melhor viver sem ela. Sem todas as cobranças. Mentira, urrava seu coração. Kairos, de smoking, desceu as escadas da igreja. – Onde está a noiva? O casamento já vai começar. – Espero que ela apareça. – O que você fez? – Nada diferente do usual. – Ou seja, algo terrível. Andres riu com ironia. – Não faz mal. Ela não tem para aonde ir. Vai aparecer. Não tem escolha. – Você é um idiota! – exclamou furioso. – Passei anos vendo você fazer besteira. Achei que tivesse aprendido. Não devia ter perdido essa chance. – Qual? A de casar obrigado? – despejou. – Ela o ama. Só você não vê?


Andres sentiu uma fisgada; o arrependimento dilacerava-lhe o peito feito uma espada. – Eu sei. – Já deixara de amá-lo. Disso tinha certeza. – E mesmo assim a traiu? – Kairos o fitou incrédulo. – Teve a chance de uma mulher olhar para você da maneira como ela olhava... e jogou isso fora? – Cuide da falta de amor no seu casamento e deixe o meu em paz. Kairos agarrou Andres pelas lapelas e o encostou contra o muro. – Não fale do meu casamento. Não sabe onde está pisando. – Mas você pode falar do meu? – Posso. Se a minha mulher olhasse para mim como Zara olha para você... – O quê? Você daria um jeito para ela parar de olhá-lo assim?


– Tabitha e eu nunca fomos apaixonados um pelo outro. – Talvez pudessem ser. – Isso não vem ao caso. A igreja não está lotada de convidados esperando por mim e pela noiva que ainda não chegou. – Ela vai chegar. – Tomara! – Kairos entrou na igreja e fechou as portas deixando Andres na neve. Ela não chegou. A neve aumentou, a temperatura caiu. Andres imaginou que àquela altura as pessoas já deviam ter saído da igreja pela entrada principal, deixando-o sozinho no pátio que margeava o cemitério e o bosque. Respirou fundo, mas em vez de refrescar, o ar gélido queimou seu peito e o deixou quase sem fôlego. A sensação era insuportável. Continuou à espera, apesar de saber que ela não viria. Ele havia testado seus sentimentos e ela não aguentara. Não fora essa a sua intenção?


Achara que ficaria aliviado. Livre de suas expectativas, até de sua presença. Contudo, não sentia alívio, mas devastação. Não visava à autodestruição? Sangrava por dentro. Uma ferida que ele infligira. Tarde demais. Agora devia arcar com as consequências. Você é sua própria vítima. Zara tinha razão. Estava exausto. Exausto de desejar e não receber. Melhor desistir de desejar. Melhor nem tentar. Zara no entanto... o fizera desejar. Acreditar ser possível ter amor. Um casamento feliz. Durante curtos períodos, conseguira imaginar viverem juntos para sempre. Sonhar com filhos, com aqueles olhos sempre cheios de amor. E quanto mais desejava, mais assustado ficava. Quanto mais lindos os sonhos, maior a tendência a acionar seus demônios.


Então tentara exorcizar o demônio antes que ele o dominasse. Agora se arrependia. Tarde demais. O exorcismo deveria trazer liberdade, mas ele se sentia atado, perdido. A dor no peito atingira um grau devastador. Não conseguia falar, respirar. Antes, medicara a dor com álcool, com mulheres. Cercava-se de gente para fingir não estar sozinho. Para fingir não ser o menininho trancado no quarto. Pela primeira vez, permitiu-se sentir medo. Do monstro debaixo da cama, que ele fingia não existir. Ele o julgava enterrado. Engano seu: ele o devoraria. Não havia como o impedir. Deu-se conta de que deixara parte de si trancado. Para não ser magoado. Rejeitado. Afrouxou a gravata, afastou-se da igreja e entrou no bosque. Não conseguia respirar. Talvez fosse a gravata. Ou a gola da camisa. Desabotoou o colarinho, outro botão.


Continuava abafado. O aperto era na garganta, um nó incontrolável. Continuou a caminhar. Recusava-se a olhar para trás. Seguiu na direção das árvores, em busca de isolamento. Sentiu o impulso de abraçar a solidão, levado a experimentar esse momento de honestidade. O primeiro de sua vida. Seguiu adiante, cercado pelas árvores, pelo escuro. Em instantes assim, sempre buscara a multidão. Quando o vazio se tornava grande demais, ele se deixava tragar pelas pessoas, pelas coisas. Ali só lhe restava deixá-la expandir-se. Admitir que Zara tinha razão. Ficara feliz quando a mãe tinha partido porque isso significava o fim da dor, das tentativas inúteis. Do fracasso. Mas Kairos ainda o cobrava, então tentou livrar-se do irmão também, embora não tivesse funcionado. E durante todo esse tempo dizia a


si mesmo que era tão diabólico quanto a mãe o acusava de ser. Depravado. Um erro. Ainda era o menino trancado no quarto. Longe de tudo. Independentemente de quantas mulheres o acariciassem, do número de festas a que comparecesse... Ninguém jamais o emocionara. Até Zara aparecer. E ele a traíra. Agora voltara a ser só e não havia como negar. Todos os anos de isolamento se acumulavam e o derrubavam feito ondas gigantes. Acabariam por sufocá-lo, se ele não aliviasse a pressão. Você podia entrar na floresta e gritar até melhorar. Outra dose de sabedoria de Zara. Sabedoria selvagem. Ela não passava de uma menina criada longe da civilização. Todavia, ensinaralhe tudo.


Agora estava no exato local em que ela se encontrara anos antes. Magoado. Solitário. Morrendo por dentro sem encontrar meios de se curar. Nada tinha a perder. Nem imagem a preservar. Tinha sido humilhado. Abandonado pela única mulher que o havia amado. A única mulher a quem ele correspondera. E era tudo culpa sua. Seu medo destruíra tudo. Deixara o medo crescer ao ignorá-lo, ao não o identificar. Fingira que ele não existia e ele crescera como uma doença maligna. Havia se convencido de que era mau, pois a partida da mãe o deixara aliviado. Engano seu. Não era alívio. Era medo. Difícil admitir a própria fraqueza. Acreditava ser invulnerável. Enquanto não temesse nada, enquanto não desse a mínima, seria verdade. Mas era mentira. Sempre. Sofrera com o desprezo da mãe. Caso não se importasse, não sentiria tamanho peso.


Ele se importava. E fracassara. O peso era intolerável. Quis gritar igual Zara gritava quando entrava na floresta sozinha. – E você se sentia melhor? – Não muito, mas conseguia respirar. A simples ideia de gritar seria impossível poucas horas antes. Pois vivia enterrado dentro de si mesmo, e gritar no vazio era libertar-se. Deixar sair o menininho reprimido, permitir que tentasse outra vez. Havia enterrado esse menino. Esse menino fora mal interpretado pelas pessoas que deveriam amá-lo. Crescera decidido a nunca mais sofrer. E, no fim, ficara paralisado quando lhe ofereceram o mundo. Era um homem que não conseguia respirar. Tentou encher os pulmões de ar. Nada. Então, gritou no vazio. Botou para fora a dor. Obrigando o menino a sair, limpando o quarto


para voltar a respirar. Queria livrar-se do medo. De tudo o que atrapalhava seu caminho. Destruíra a própria vida. Não podia culpar mais ninguém. Ele mantivera todos a distância. Ele tentara provar a si mesmo que o amor que sentia era falso. Ele havia testado a mãe. Ela não aguentara. Não aguentara e ele ficou contente, pois o amor dela o sufocava. Berrou de novo, um som áspero, brutal. Ao terminar, descobriu que voltara a respirar. Por um momento, experimentou a sensação de ter Zara ao seu lado. Queria tanto... Ouviu o eco de sua voz. Queria que os dois ficassem juntos e nunca mais se sentissem sozinhos. Bem, ela podia ter quem bem entendesse. O futuro que lhe desse na telha. Tinha o mundo a seus pés. Não precisava construir uma vida com ele. Mesmo assim pediria. Imploraria se preciso fosse.


Vivera reprimido com medo de fracassar. Talvez fracassasse. Não se importava. Ele a desejava, para sempre, e valia a pena arriscar. Chegaria de peito aberto, tiraria o coração do peito se preciso fosse. Mas não a deixaria partir sem lutar por ela. Já estava destroçado. Nada tinha a proteger. E sem ela, nunca mais ficaria inteiro. De uma coisa sabia: o amor dela não era pesado. Era leve. O único sentimento capaz de tirá-lo do inferno. ZARA SENTIA dor por dentro e por fora. Debaixo das cobertas, de onde nunca mais pretendia sair, era a própria dor envolta em sofrimento, em arrependimento. Não podia passar o resto da vida debaixo de um cobertor no quarto de hóspedes de Julia. Por mais conveniente que fosse. Hoje era o dia de seu casamento. Ela não aparecera. Também era seu primeiro Natal de


verdade em anos. Tampouco comparecera. Pelo menos, haveria outros Natais. Se ela poderia comemorar, era outra história. Mas seu casamento com Andres não se repetiria. Ele a traíra. Lutou contra a voz martelando em sua cabeça: ele a traíra por medo. Tentara afastá-la porque os sentimentos se tornaram muito fortes. Ele fazia com ela o mesmo que fizera com Kairos. Ele a testava. Testava o amor deles. Verdade ou não, ele não podia agir assim com ela. Teria de aceitar o fato de que ela o amava e era correspondida, ou então nada feito. Estava cansada de viver só, e percebera que podia estar sozinha mesmo na mesma cama que ele. Se ele se distanciasse emocionalmente, nunca estariam de fato juntos. Ele tinha aperfeiçoado a arte de estar só numa sala lotada, e ela não permitiria que fizesse o mesmo com ela.


Queria ser diferente. Queria ser amada. Ficar juntinho dele, pele com pele, alma com alma. Afinal, não era pedir demais, depois de tanto tempo isolada. Nunca se sentiria completa sem ele. Mas estava determinada a encontrar algo. Ela encontrara... no palácio. Com ele. Não permitiria que ele jogasse tanto amor na sarjeta por medo. Passava do meio-dia. Devia sair da cama. Julia fora passar o dia com a família e tinha dito a Zara para ficar à vontade. Só tinha vontade de ficar na cama. O lado positivo é que finalmente encontrara uma amiga. Ela lhe oferecera um cargo de estagiária. Ensinaria as crianças a lerem. Estava animada. Estava preparada para ser princesa. Mas sem ele, voltaria a ser apenas Zara. Nada disso. Não era apenas Zara. Era a Zara Estoica, e não precisava mais esconder-se. Faria


tudo o que pudesse, com os meios ao seu alcance. Começaria na escola, mas talvez um dia estivesse em condições de ajudar crianças iguais a ela. Órfãs. Pensou em crianças e ficou enjoada. Talvez estivesse grávida. Evidentemente, não tinham conversado sobre isso quando fugira às pressas. Evitara pensar no assunto. Mesmo que tivesse um filho dele, não precisavam ficar juntos. Encontrariam uma solução. Ignorou o arrepio de medo. A verdade é que ele fazia parte da realeza. Era poderoso. Se estivesse grávida, na certa, tiraria o bebê dela. Uma coisa de cada vez. Ainda demoraria uma ou duas semanas antes de ter a confirmação. Nada de sofrer por antecipação. Ouviu uma forte batida na porta e, instintivamente, se encolheu, segurou as pontas da coberta e encostou os joelhos no queixo.


Nova batida. Não atenderia à porta na casa dos outros. Ouviu uma voz junto com a batida, conquanto não entendesse as palavras. Uma voz masculina, alta, irritada. Levantou da cama. Sem refletir, saiu do quarto e se dirigiu à porta da frente. Sabia quem era antes de abrir a porta e dar de cara com o rosto familiar. No fundo, saberia quem batia à porta. Ainda estava conectada a ele, embora ele a tivesse desiludido. Conquanto ainda estivesse zangada. Ainda que o tivesse largado no altar. Aliás, sempre estaria ligada a ele. Por mais que se afastasse, por mais independente que fosse, nunca o esqueceria. A revelação a deixou parcialmente horrorizada. E parcialmente jubilosa. Gostaria de tê-lo sempre ao lado. Tolinha. – O que veio fazer aqui?


Antes que pudesse recuperar o fôlego, ele a pegou pela cintura e a beijou. Um beijo sôfrego, apaixonado, ao qual se entregava por inteiro, e ela reconheceu a diferença. O beijo confirmou suas convicções sobre a noite anterior. Ela o empurrou. – Covarde. Como pôde fazer isso comigo? Conosco? – Porque sou covarde. Um idiota. Sou tudo de que me acusou. Perdoe-me, Zara. – Segurou-lhe o queixo e afastou o cabelo de seu rosto. – Sinto muito. – Pedir desculpas não anula aquele beijo. Você... tentou me magoar. E conseguiu. – Eu sei. Estava tão determinado a me destruir que ignorei o fato de que a destruiria também. Enfiara na cabeça que diria a você que viveríamos juntos, mas sem envolvimento emocional porque... eu tinha medo. Então você declarou que me amava e não acreditei que me amasse muito. Não por julgá-la mentirosa, mas


por achar que nunca seria amado por alguém. No fundo, não imaginava que você ficaria tão arrasada. Achei que assim você se libertaria. Não vou ser hipócrita e dizer que pensei apenas em você. Pensei em mim. Em me poupar do sofrimento. Do medo de passar anos observando a luz de seu olhar deixar de brilhar porque eu a forcei a se apaixonar por mim, apesar de não ser digno de amor. – E não é mesmo. – Sou um adulto. Entendo que as teimosias de uma criança não afastariam a mãe. Mas isso não anulou o fato de que... não fiquei triste quando ela partiu. E esse sentimento... Era mais fácil sentir-me culpado para justificar o alívio ao vê-la partir. – Não foi sua culpa. E ela era... muito dura. Você era uma criança. Claro que se sentiu aliviado. – A partir daí, passei a testar as pessoas. Kairos. Você. Queria saber se podia me ver


livre de você. Meu irmão é teimoso, mas você... Sinto muito. Depois do que fiz, era impossível continuar comigo. Eu não mereço sua lealdade. – Andres, sei o quanto dói perder alguém. Perdi minha família. Não por decisão deles, mas os perdi da mesma maneira. Conheço o medo de enfrentar nova perda. Por isso, eu... nunca me aproximei de ninguém do clã. Eu não ousava amar novamente, por puro medo. Mas você chegou; despertou meu amor. Ontem, eu vivi o mesmo pesadelo. Mas me dei conta de que sou forte. Cada pessoa que amei deixou um pedacinho dentro de mim. Contribuiu para o que sou. Incluindo você. Sou mais forte por têlo amado, e pouco importa o que aconteça no futuro, esse amor não me será tirado. Vai ter valido a pena. – Mesmo que passe o resto da vida sem mim? O coração acelerou, quase parou. – Não posso viver com você.


– Por que não? – Porque não basta que me deseje. Que se case comigo. Eu preciso... – Eu a amo – confessou de modo apressado, intenso. – Eu amo você, Zara. Em toda minha vida, nunca disse isso a ninguém. Depois de perder minha mãe, nunca admiti nem a mim mesmo que queria amar alguém. – Sua mãe... – Eu queria que ela me amasse, mas não deu certo. Foi melhor ela ter partido. Convenci-me disso. E me odiei por isso, mas foi mais fácil que assumir que desejava muito amar alguém e ser correspondido. O fato de eu não conseguir atender às expectativas de minha mãe acabou comigo. A opção foi parar de tentar ser amado. Mas agora admito. Tenho mais medo de viver sem você do que de ficar vulnerável. – Você me ama – repetiu. – Sim. – Ele a abraçou. – Amo, praticamente desde o primeiro instante em que a vi. Mas não


podia admitir. Acha que eu costumo lavar cabeças? – Acho que não. – Nunca. – Deu-lhe um beijo carinhoso. – E acha que costumo ficar fascinado por criaturas selvagens? – Não sou uma criatura. – Mesmo se for, é uma criatura que amo demais. É diferente de todas as mulheres que conheci. Você quis me conhecer de verdade. Não me permitiu fingir. Despiu-me de minhas defesas, e por isso fugi, tentei afastá-la. Mas hoje na igreja, sozinho, me dei conta de que a queria de volta. Nunca me arrependi tanto. Nem quando minha mãe foi embora, nem quando magoei meu irmão. Eu morro se perdêla. – Andres. – Ela pronunciou o seu nome, sem saber o que dizer. E então o beijou. E no beijo, botou para fora todas as palavras


impronunciáveis, todos os sentimentos, até os não totalmente reconhecíveis. Findo o beijo, ambos resfolegavam. – Casa comigo? Não porque devemos. Mas porque eu ficaria perdido sem você. – Sim, sim. – Você é o melhor presente de Natal do mundo. Mas não quero ser seu dono, quero apenas amá-la. Então, assim como você me foi dada, eu me dou a você. – Aceito, de todo o coração. Eu o amo, Andres. Para sempre. Se me fosse dada a chance de escolher o que eu mais queria no mundo, seria você. – E eu, você. – Espero que esse não seja o meu único presente de Natal. – Sério? É só dizer. – Estava pensando numa cesta de frutas. Ele jogou a cabeça para trás, um sorriso sincero, com o qual ela sempre sonhara.


– Deixe comigo. Acho que talvez não dê tempo para nos casarmos diante de todo o povo, mas podemos ter um casamento natalino.


EPÍLOGO

A ESCURIDÃO caíra quando a princesa Zara de Petras surgiu no vestido de renda brilhando feito neve e se aproximou do noivo. O cabelo escuro solto e selvagem esvoaçava como o vento, a pintura dourada enfeitava sua testa e a parte inferior dos olhos. Apenas a família e os amigos próximos de Andres e Kairos assistiam à cerimônia, mas eles pareciam estar sozinhos. A luz suave infiltrava-se pelo vitral da igreja, reluzindo na neve, lançando cores aos seus pés. Flocos de neve caíam no cabelo escuro e no paletó do terno de Andres. Reinava o silêncio, ainda que não estivessem sozinhos. Nunca mais estariam. Mesmo


separados carregariam o amor nos corações; o vazio não teria chances de crescer. O padre oficiou a cerimônia. Zara fechou os olhos, absorvendo as palavras. – Princesa Zara Stoica, aceita esse homem como seu legítimo esposo? Ela soltou uma das mãos, deu um passo à frente e a colocou no peito do homem amado, os olhos fixos. – Sim. Aceito esse homem, por livre e espontânea vontade. Prometo amá-lo até que a morte nos separe. – Príncipe Andres Demetriou, aceita essa mulher como sua legítima esposa? – Aceito – respondeu, a voz rouca, os olhos escuros cintilando. – Eu a aceito, não por honra, por dever ao meu irmão ou ao meu país, apesar de meu amor por eles. Eu a aceito como esposa, Zara, porque a amo. Até que a morte nos separe. – Eu os declaro marido e mulher.


Andres não esperou a permissão para tomar Zara nos braços e a beijar. Esperar permissão não era o seu forte, mas Zara considerava essa característica um de seus encantos. Um de seus muitos encantos. Ao se afastarem, ela sorriu. – Quando criança, perdi meu lar. Minha família. Hoje, você me deu ambos. Você é meu lar, minha família. Ele fechou os olhos, encostando a testa na sua. – E você, a minha.


DESTINO SELADO Anna Cleary Suas pernas estavam bambas, mas Pia as teria feito funcionar mesmo se seus ossos estivessem quebrados. Ela saiu do carro e atravessou o gramado alto com Valentino para o mirante. O ar estava seco, quente no sol, e cheirando a alecrim. Pia segurou a balaustrada de pedra com gratidĂŁo, embora sua garganta estivesse seca. A vista era realmente espetacular e lhe tirou o fĂ´lego. Faces irregulares de penhascos, um mar muito azul. Um azul mais intenso do que a


mente humana podia imaginar. Cor de anil e cobalto, água-marinha e turquesa nas extremidades. Pia podia fazer isso, racionalizou. Apesar de estarem num lugar tão alto, pelo menos seus pés estavam em terreno sólido, e havia um homem grande e forte ao seu lado, que não usava uma touca ninja. Oh, Deus, por que pensar nisso agora? Ela se concentrou em respirar no azul, permitindo que a cor curasse sua alma, até que seu coração diminuísse sua corrida irracional, e ela começasse a relaxar. Valentino estava inclinado sobre a balaustrada, as mangas da camisa enroladas, os antebraços bronzeados tomando sol, a imagem da masculinidade sexy. – Está vendo aquelas pequenas ilhas ali? – Ela seguiu o olhar dele, para onde formas irregulares apontavam do mar. – Lembra-se de Ulysses e das sereias que seduziam os marinheiros?


– Aquele é o lugar? – Sim. E saindo daquele canto do penhasco, você vê Capri. – Oh – exclamou Pia. – É lindo. – E era mais que lindo. O lugar era paradisíaco. Valentino angulou-se para fitá-la. – Você está melhor? – Havia preocupação na voz dele. – Eu estou bem. Não sei o que aconteceu. Você não devia ter se preocupado. – Ela mal ousou olhá-lo, temendo ver a expressão de desprezo que uma vez vira no rosto de Euan, quando revelara seu nervosismo. – Você estava pálida. Pia deu de ombros. – Devo estar muito cansada. Estou viajando há 36 horas. É natural que eu esteja um pouco pálida. Os olhos dele foram para a boca de Pia. – Não tão pálida. Mas você já melhorou um pouco. Agora seus lábios estão rosados. – Ele os


tocou com os nós dos dedos. – Como cerejas. O coração de Pia bombeou no peito, e Valentino abaixou-se e tocou-lhe os lábios com os seus, pegando-a de surpresa. Ela deveria parar o beijo, realmente deveria, exceto que sentia uma espécie de encantamento divino. Ele a puxou para mais perto, e as mãos dela foram para os ombros largos, então para o cabelo preto. Oh, a alegria de ser abraçada gentilmente por um homem poderoso. O aroma dele preenchia sua cabeça, e o gosto tão másculo e tão único a fez se sentir inebriada, e, por segundos, Pia chegou perto de abandonar-se à posse de Valentino. Ele aprofundou o beijo, inundando-a de calor. Mãos grandes deslizaram para seus seios, e instantaneamente ela se conscientizou de que estava perdendo o controle. Empurrou o peito sólido e saiu dos braços dele.


– Não faça isto – disse ela, ofegando. – Cosa? Valentino a olhava com uma expressão estranha, como se vendo alguma coisa inesperada em seu rosto. Aquilo era irritante, e ela se apressou em encobrir o que quer que fosse. – Eu... não quero ser beijada, entendeu? – Raiva e excitação a percorriam em iguais medidas. O que estava fazendo, pelo amor de Deus? Lá estava ela, com um estranho completo, em uma estrada no meio do que parecia o paraíso na terra, e, por um momento, quase se deixara ser seduzida. Devia ter perdido o bom senso. Valentino fitou-a com expressão de perplexidade. – Eu não... pretendia... Isto foi apenas... Eu queria confortá-la. – Oh, confortar-me. Por favor.


Ele murmurou alguma coisa em italiano, acompanhada por um gesto orgulhoso, que deixou claro que se sentia magoado por sua acusação. O problema era que, mesmo em sua raiva, aquelas palavras de negação tão eloquentes, expressadas com aquela voz e aquele sotaque, ameaçavam derretê-la. E leia também em Flertando com a paixão, edição 004 de Paixão Especial, Rebelde e selvagem, de Heidi Rice.


Lançamentos do mês: PAIXÃO 479 – NEGOCIANDO O AMOR – CATHY WILLIAMS Por mais que deseje Stefano Gunn, Sunny Porter está relutante em cruzar a linha entre o profissional e o pessoal. Afinal, aceitara ser babá da filha dele. Contudo, Stefano está determinado a conquistá-la. E no jogo da sedução, ele sempre vence! PAIXÃO AUDÁCIA 011 – MENTIRAS E VERDADES – ABBY GREEN Minissérie – Os irmãos Fonseca 1/2 Da última vez que viu Serena DePiero, Luca Fonseca terminou na cadeia. Ele jamais a perdoou por tê-lo incriminado. E agora que se reencontraram, Luca deseja se vingar. Contudo, nenhum dos dois esperava sentir uma atração tão avassaladora.


PAIXÃO GLAMOUR 011 – UM OÁSIS PARA O DESEJO – TARA PAMMI Para assumir seu lugar ao trono, o sheik Zafir teve de deixar a bela Lauren Hamby para trás. … até descobrir que ela está esperando um filho seu. Agora, ele precisará usar todo o seu poder de sedução para convencer Lauren a ser sua esposa! PAIXÃO ESPECIAL 004 – FLERTANDO COM A PAIXÃO Destino selado – Anna Cleary Pia Renfern viajou para Positano a fim de repousar. Contudo, assim que conhece o belo Valentino Silvestri, percebe que seria impossível descansar ao lado de um homem como ele. A menos que consigam encontrar uma forma mais interessante de relaxar… Rebelde e selvagem – Heidi Rice Nick Delisantro é um bad boy apaixonado pelo perigo. Já Eva é séria e completamente focada


no trabalho. Assim que se encontram, ele fica encantado. Afinal, nĂŁo hĂĄ nada mais excitante do que conhecer o lado selvagem de uma mulher inocente.


Próximos lançamentos: PAIXÃO 480 – UM SONHO DE AMOR – MAGGIE COX Seth Broden precisa fechar um acordo para atingir o sucesso. Mas, para isso, ele terá de possuir algo que nunca quis: uma esposa! E um encontro ao acaso com a bela Imogen Hayes dá a Seth a oportunidade de fazê-la uma proposta irrecusável... PAIXÃO AUDÁCIA 12 – ALTOS E BAIXOS – ABBY GREEN Minissérie – Os irmãos Fonseca 2/2 A secretária Darcy Lennox sabe que seu chefe é bastante exigente. Afinal, a ambição de Maximiliano Fonseca é lendária. Porém, casarse com ele para que consiga fechar um negócio vai muito além de suas funções… Mas ninguém diz não para Max.


PAIXÃO GLAMOUR 12 – ACORDO INACABADO – CATHY WILLIAMS Lucy passou dois anos fazendo o papel da esposa perfeita em público enquanto, entre quatro paredes, vivia em guerra com Dio Ruiz. Agora, ela quer o divórcio. Porém, a liberdade tem um preço… Será que Lucy aceitará passar dez dias realizando todos os desejos sensuais do marido? PAIXÃO ARDENTE 12 – SEGREDOS DA REALEZA – MAISEY YATES Minissérie – Os Príncipes de Petras 2/2 Quando o relógio soou a meia-noite do último dia do ano, o conto de fadas de Petras terminou. Incapaz de continuar vivendo em um casamento sem amor, a rainha Tabitha pediu o divórcio. Contudo, a raiva de Kairos se transforma em uma paixão explosiva...


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

Y36p Yates, Maisey Promessas de prazer [recurso eletrônico] / Maisey Yates; tradução Marie Olivier. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Harlequin, 2016. recurso digital HB Tradução de: A christmas vow of seduction Formato: epub Requisitos do sistema: adobe digital editions Modo de acesso: world wide web ISBN 978-85-398-2318-5 (recurso eletrônico) Romance americano. 2. Livros eletrônicos. I. Olivier, Marie. II. Título. 16-36129

CDD: 813 CDU: 821.111(73)-3

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Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: A CHRISTMAS VOW OF SEDUCTION Copyright © 2015 by Maisey Yates Originalmente publicado em 2015 por Mills & Boon Modern Romance Publisher: Omar de Souza Gerente editorial: Livia Rosa Assistente editorial: Tábata Mendes Editora: Juliana Nóvoa Estagiária: Caroline Netto Arte-final de capa: Isabelle Paiva Produção do arquivo eBook: Ranna Studio Editora HR Ltda. Rua Nova Jerusalém, 345 Bonsucesso, Rio de Janeiro, RJ – 21042-235 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br


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Maisey Yates - Promessas De Prazer  
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