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UM LUGAR EM SEU MUNDO – Michelle Smart Dominando um siciliano... Francesco Calvetti não faz o tipo bom moço e também não gosta de “donzelas em perigo”... A única exceção fora Hannah Chapman. Ele achou que nunca mais a encontraria. Uma mulher como ela, pura e intocada, não poderia fazer parte de seu mundo de luxúrias. A morte da irmã fez com que Hannah se tornasse reclusa, mas após um acidente de bicicleta, ela despertou para a vida. Agora, quer realizar todos os seus desejos antes que seja tarde demais. E no topo de sua lista está o delicioso Francesco!

BATALHA DE DESEJOS – Tara Pammi Um acordo com o inimigo! Nikos Demakis tem um plano. Com a ambição focada no cargo de CEO da empresa do avô, ele finalmente deixará o passado para trás. E Lexi Nelson é a chave que abrirá portas para ele. Mesmo que ela resista ou tente negociar, Nikos sempre consegue o que deseja. Lexi nunca conhecera alguém como ele. O poder que Nikos exala é quase irresistível... Quase! Lexi irá provar que é uma adversária à altura. Mas quando o jogo de poder vira uma guerra de paixão, ela conclui que perder é a melhor saída...


Querida leitora, Em Um lugar em seu mundo, de Michelle Smart, o acidente que Hannah Chapman sofreu soou como um alarme. Ela precisa sair de sua reclusão para começar a viver. E não há melhor maneira de começar do que se entregando para o homem que a salvara, o delicioso siciliano Francesco Calvetti. Em Batalha de desejos, de Tara Pammi, para Niko Demakis assumir o cargo de CEO da empresa da família, precisa separar a irmã do namorado. E seu plano é convencer Lexi Nelson, a ex-namorada do rapaz, a ajudá-lo. Contudo, a natureza bondosa de Lexi acaba tocando o coração endurecido de Niko. Mas a ambição voraz dele ameaça destruir tudo… Boa leitura! Equipe Editorial Harlequin Books


Michelle Smart Tara Pammi

HOMENS INDOMADOS

Tradução Angela Monteverde Ana Death Duarte

2015


SUMĂ RIO

Um lugar em seu mundo Batalha de desejos


Michelle Smart

UM LUGAR EM SEU MUNDO

Tradução Angela Monteverde


CAPÍTULO 1

FRANCESCO CALVETTI brecou sua moto MV Agusta F4 CC e colocou o pé esquerdo no chão enquanto mais luzes vermelhas o impediam de avançar. Ainda não eram 7h e as estradas já começavam a ficar congestionadas. O que não daria para estar dirigindo em uma rodovia vazia com campos verdes ao redor. Pensou na Sicília com saudades. Sua ilha não possuía o ar cinzento e monótono associado a Londres. Isso era a primavera? Já desfrutara de invernos mais alegres na sua terra. Bocejou de maneira escancarada, erguendo a mão para a viseira do capacete em um gesto automático. Ninguém podia ver seu rosto coberto pelo capacete. Deveria ter pedido que Mario o levasse para casa após a longa noite, mas deixar que outra pessoa dirigisse o irritava, especialmente de carro. Francesco era um homem para quem a palavra dirigir possuía múltiplas definições. A luz mudou para verde. Antes de acionar o acelerador e dar partida devagar, ele limpou a umidade na viseira. Que país aquele! No momento era como dirigir dentro de uma nuvem densa. Enquanto se aproximava de mais um semáforo, uma ciclista pedalando à frente chamou sua atenção... ou, melhor dizendo, o que chamou atenção foi o capacete amarelo que ela usava. A ciclista atingiu as luzes no momento em que se tornaram cor de âmbar. Se fosse ele, pensou Francesco, teria atravessado. A moça tinha muito tempo. Sem dúvida se tratava de alguém que sempre seguia as leis à risca e que se preocupava muito com a própria segurança. Ela parou imediatamente. O grande carro na frente de Francesco ficou à direita da ciclista. A moça tinha o cabelo mais espesso que Francesco já vira... uma massa desgrenhada que variava nos tons de louro, atingido a metade das costas. As luzes se tornaram verdes e ela partiu, esticando o braço esquerdo e virando nessa direção. O carro ao lado também virou, forçado a ficar um pouco atrás da bicicleta e com Francesco a seguir. A estrada à frente estava desimpedida. A ciclista acelerou... Tudo aconteceu tão depressa que por um instante Francesco pensou estar imaginando. Sem aviso, o carro tentou ultrapassar a ciclista acelerando depressa, porém calculou a distância muito mal, porque bateu na roda da bicicleta fazendo com que a moça fosse lançada do selim


para o meio-fio, caindo de cabeça. Francesco parou e saltou da moto ligando o pisca-pisca mais por instinto que conscientemente. Aborrecido, viu que o motorista do carro ofensor não parara e seguira pela estrada, pegando à direita e desaparecendo. Um pedestre tentou se aproximar da vítima. – Não a mova – gritou Francesco retirando o capacete. – Se quiser ajudar chame uma ambulância. O pedestre procurou pelo celular no bolso, deixando que Francesco se acercasse da atropelada. A moça estava de costas com metade do corpo na calçada e metade na rodovia; o cabelo espesso se espalhava em todas as direções. O capacete que escorregara para a frente cobrindo a testa estava quebrado, e a bicicleta virara sucata. Ficando de cócoras, Francesco retirou as luvas de couro e colocou dois dedos sobre o pescoço da mulher. Sentiu o pulso fraco. Enquanto o outro homem chamava por socorro, tirou a jaqueta de couro e a colocou sobre a vítima. Ela vestia uma blusa preta para fora da calça cinza e uma jaqueta cáqui impermeável. Um dos pés estava calçado com uma sapatilha branca, a outra desaparecera. Francesco tentou encontrar o outro pé, mas não conseguiu. Gostaria de dobrar sua jaqueta como travesseiro para que ela não ficasse com a cabeça sobre o concreto úmido, porém sabia que era imperativo mantê-la imóvel até a chegada dos paramédicos. O importante era que a moça respirava. – Dê-me seu casaco – gritou para outro espectador que rondava ali perto. Já uma pequena multidão se juntava em volta deles. Urubus, pensou Francesco com desdém. Ninguém dera um passo à frente para ajudar. Jamais lhe ocorreu que sua presença junto à vítima era tão imponente que ninguém ousava oferecer ajuda. O espectador a quem se dirigira, um senhor de meia-idade com um casacão de lã de carneiro, retirou o abrigo e o entregou a Francesco, que arrancou de suas mãos, passando pelas pernas da moça e cobrindo seus pés. – Cinco minutos – avisou o primeiro pedestre desligando o celular. Francesco aquiesceu com um gesto de cabeça. Só então sentiu o vento cortante. Encostou a mão na face da moça. Estava gelada. Ainda de cócoras estudou seu rosto com atenção procurando por ferimentos ocultos. Não escorria sangue de sua boca ou nariz, e presumiu que era um bom sinal. A massa de cabelo louro cobria suas orelhas, e ele ergueu uma mecha com cuidado. Nada de sangue. Enquanto a analisava, percebeu que rosto bonitinho ela possuía. Não lindo. Bonitinho. O nariz era reto e apenas um pouquinho mais longo do que as mulheres que conhecia suportariam sem cirurgia plástica. Faces arredondadas que deveriam ser corrigidas para a perfeição absoluta. Mas no todo era bonita. Lembrou que ela tivera algo pendurado no pescoço antes de cobrir seu peito com a jaqueta, e com cuidado procurou.


Era um cartão de identificação de um dos hospitais da capital. Olhando mais de perto ele leu seu nome. Dra. H. Chapman. Especialista. Então ela era médica? Pensara que tivesse 18 anos. Imaginara que fosse uma estudante... Os olhos dela se abriram de repente e se fixaram nele. Francesco parou de raciocinar. Os olhos demonstravam seu choque... e que olhos! Cor de avelã... mas logo se fecharam outra vez. Quando reabriram segundos depois o choque fora substituído por tanto contentamento e serenidade que o coração de Francesco bateu mais forte. Ela entreabriu a boca, e ele se inclinou para ouvi-la melhor. As palavras saíram em um sussurro: – Então existe mesmo um paraíso. HANNAH CHAPMAN encostou a bicicleta nova de encontro ao prédio de pedra e ergueu os olhos para o toldo prateado com apenas uma palavra escrita: Calvettti’s. Admirou sua simplicidade. Pertencia a Francesco Calvetti. Embora fossem apenas seis horas da tarde e o clube só fosse abrir dali a quatro horas, dois homenzarrões vestidos de preto da cabeça aos pés protegiam a porta sob o toldo. Ela interpretou isso como um bom sinal... Nas três vezes em que passara com a bicicleta não havia seguranças. – Com licença – disse parando na frente dos homens. – Francesco Calvetti está? – Não pode atender. – Mas ele está? – Sim, mas não pode ser incomodado. Vitória! Por fim conseguira localizá-lo. Francesco Calvetti viajava muito. Mesmo assim localizar seu paradeiro era uma coisa. Entrar ali para vê-lo era outra coisa completamente diferente. Hannah esboçou seu sorriso mais atraente. Porém nada conseguiu. Os dois homenzarrões cruzaram os braços sobre o peito. Apenas um deles já esconderia toda a porta. O par imóvel mais parecia uma cordilheira. – Poderiam, por favor, dizer a ele que Hannah Chapman está aqui para vê-lo? Ele sabe quem sou. Caso se recuse a me ver, irei embora, prometo. – Não podemos. Temos instruções para não incomodá-lo. Era como falar com um muro de granito, tamanha a convicção na voz do que respondera. Hannah suspirou fundo. Oh, bem, não era para ser... então paciência. Entretanto estava desapontada. Desejara agradecê-lo pessoalmente. Estendeu o enorme buquê de flores com o cartão de agradecimento; pedalara quilômetros em meio ao trânsito londrino com seu presente equilibrado na cestinha da frente. – Nesse caso, podem lhe entregar isto, por favor? Nenhum dos dois esboçou um só gesto para segurar o buquê. Aliás, a expressão em seus rostos era ainda mais desconfiada. – Por favor? – insistiu. – É o terceiro ramo de flores que tento entregar para ele e odeio o desperdício. Sofri um acidente há seis semanas e ele me salvou, e... – Espere – interrompeu o homem à esquerda inclinando a cabeça. – Que tipo de acidente?


– Fui derrubada de minha bicicleta por um motorista que não parou o carro para prestar socorro. Os dois trocaram olhares e se afastaram falando em um idioma que pareceu italiano para ela. Hannah sabia que Francesco Calvetti era siciliano. Desde que descobrira a identidade de seu salvador sabia muito sobre Francesco Calvetti. As buscas na internet eram maravilhosas. Por exemplo, sabia que ele tinha 36 anos, era solteiro, mas com uma fila de namoradas deslumbrantes, e que era proprietário de seis clubes noturnos e quatro cassinos por toda Europa. Também sabia que o nome de sua família era ligado à Máfia na Sicília e que seu pai, Salvatore, respondia pelo apelido de Sal, il Santo... Sal, o Santo... porque supostamente costumava fazer o sinal da cruz perto de suas vítimas mortas. Hannah não se importaria se o pai de Francesco fosse o próprio Lúcifer. Não fazia diferença... porque Francesco era um bom homem. O homem que a fizera voltar à vida. O segurança mais troncudo a fitou. – Como disse que se chama? – Hannah Chapman. – Um minuto. Direi a ele que está aqui. – Flexionou os ombros largos. – Mas não garanto que vá recebê-la. – Tudo bem. Se estiver muito ocupado irei embora. – Não faria uma cena. Só estava ali para agradecer e nada mais. O segurança desapareceu pelas portas duplas que se fecharam à sua passagem. Hannah apertou as flores de encontro ao peito; esperava que Francesco não as julgasse patéticas, porém não fazia ideia de com que outra coisa poderia presenteá-lo para expressar sua gratidão. Francesco Calvetti fora muito além da mera compaixão e com uma completa estranha. Em menos de um minuto as portas se abriram de novo, porém em vez do homenzarrão ela foi recebida por um homem... e só Deus sabia como isso era possível... ainda mais alto que os seguranças. Não fizera ideia de que ele fosse tão alto. Porém sua única lembrança dele era quando abrira os olhos e vira o lindo rosto à sua frente. Lembrava claramente que pensara ter morrido e que seu anjo da guarda viera levá-la ao paraíso onde Beth já a aguardava. Nem mesmo ficara triste... Afinal, quem se aborreceria por ser levada ao paraíso por um homem tão maravilhoso do céu ou da terra? Quando abrira os olhos de novo estava na cama de um hospital. Dessa vez a sensação passageira fora de desapontamento por constatar que não subira aos céus com seu anjo. Sensação passageira? Não. Fora mais que isso. O anjo viera para levá-la até Beth. E saber que continuava viva tinha sido devastador. Porém, é claro, a sanidade mental falara mais alto. Hannah retornara à realidade, enquanto as lembranças de seu Adonis persistiram com a revelação de que continuava viva. Viva. Como não se sentia há 15 anos. Estivera no limbo. Ela, a trabalhadeira, prática Hannah Chapman, para quem a leitura de cabeceira eram as revistas médicas, estivera vivendo em um limbo. Nas semanas depois do acidente convencera-se de que sua lembrança daqueles breves momentos estava errada. Ninguém podia ser tão bonito e mortal ao mesmo tempo, podia?


Entretanto lhe disseram que seu salvador se chamava Francesco Calvetti. Até as fotos que encontrara dele na internet não faziam justiça à lembrança que guardara. E agora via que não se enganara. Francesco Calvetti era mesmo lindo... Porém muito másculo. Seu físico alto e magro estava coberto por uma elegante calça cinza-escura e uma camisa branca aberta até o peito e com as mangas arregaçadas nos cotovelos. Usava no pescoço uma cruz de ouro simples presa a uma corrente que repousava sobre a penugem negra do tórax. Uma onda de... algo percorreu o corpo de Hannah deixando-a acalorada. Constrangida, piscou diversas vezes e fitou seu rosto sorridente. Que lindos olhos ele tinha... fazia com que ela pensasse em cobertura de bolo de chocolate... e sorriu também. Estendeu o buquê de flores com o cartão, dizendo: – Sou Hannah Chapman, e isto é para você. Francesco olhou das flores para ela, e não esboçou nenhum gesto para pegar o presente. – São um agradecimento – explicou ela um pouco ofegante. – Uma gota de água no oceano em comparação ao que fez por mim, porém queria demonstrar minha gratidão... estou em dívida com você. Ele arqueou as sobrancelhas escuras. – Dívida? Hannah sentiu uma corrente elétrica percorrer sua espinha dorsal ao ouvir a voz profunda com sotaque. – Fez tanto por mim – disse com entusiasmo. – Mesmo que tivesse todo o dinheiro do mundo jamais poderia compensar sua generosidade, portanto estou em dívida, sim. Ele estreitou os olhos analisando-a até fazer um gesto de cabeça. – Entre um momento. – Seria ótimo – concordou Hannah sem se importar que fosse mais uma ordem do que um convite. Os dois seguranças que até esse instante o ladeavam como se Hannah estivesse carregando uma metralhadora se afastaram, e ela seguiu Francesco para dentro. Após percorrer uma extensa área de recepção entraram no clube propriamente dito. Hannah arregalou os olhos. – Extraordinário – murmurou virando a cabeça em todas as direções. O Calvetti’s era muito sofisticado. A decoração era púrpura e prateada como a da velha Hollywood. A única vez em que Hannah entrara em um lugar assim fora aos 18 anos com toda a turma do colégio no The Dell, o único clube noturno de sua cidade litorânea, para celebrar a formatura. Tinha sido uma das noites mais monótonas de sua vida. Em comparação com esse lugar, The Dell era melancólico e sem graça. E, em comparação com Francesco e sua pele bronzeada, cabelo negro e ondulado e queixo firme, todos os rapazes que ela já conhecera eram melancólicos e sem graça. – Gostou? Sentindo a pele quente sob o olhar dele, Hannah aquiesceu com um gesto de cabeça. – É lindo. – Deveria vir aqui uma noite.


– Eu? Oh, não. Não estou habituada à vida noturna. – Com medo de tê-lo ofendido sem querer, acrescentou depressa. – Mas minha irmã Melanie iria adorar... sexta-feira será sua despedida de solteira e vou sugerir que venha. – Faça isso. Francesco não se surpreendeu ao saber que Hannah Chapman não era adepta da vida noturna. As mulheres que frequentavam seu clube eram todas do mesmo tipo... festeiras e à procura de um homem rico ou famoso, de preferência as duas coisas. Hannah Chapman era uma médica, não a namorada de um automobilista famoso ou aspirante a isso. Analisou melhor sua aparência e percebeu que se vestia como profissional, com uma variação da roupa que usava no dia do acidente. A iluminação do clube deixava sua blusa mais transparente, revelando o sutiã que, segundo o olhar experiente de Francesco, era mais prático do que sexy. A cabeleira espessa e loura parecia não ver um pente há semanas, e ela estava sem maquiagem. Presumira ao vê-la na porta que ela viera com algum propósito além de agradecer. Todo mundo tinha um propósito oculto. Foi para trás do bar enquanto Hannah depunha as flores a um canto. Francesco nunca recebera flores na vida. O gesto o intrigava. – O que deseja beber? – Adoraria um café. – Nada mais forte? – Não bebo álcool, obrigada. De qualquer modo, estou trabalhando desde as sete horas da manhã e se não me encher de cafeína poderei desmaiar. Ele gostava do modo arrastado com que ela falava e de seu tom zombeteiro. Era uma mudança em relação às vozes petulantes de mulheres que costumava ouvir. – Já voltou a trabalhar? – Voltei 15 dias depois do acidente, assim que me recuperei da concussão. – Teve outros ferimentos? – Clavícula quebrada... usei uma coleira... mas está sarando bem. Oh, e o dedo médio quebrado, mas parece estar melhorando. – Não sabe se seu próprio dedo melhorou? Hannah deu de ombros e sentou em uma banqueta em frente a Francesco. – Não dói mais, então presumo que está bem. – É um diagnóstico profissional? Ela riu. – Claro. – Lembre-me de não procurá-la se precisar ir ao médico – murmurou secamente, se dirigindo até a máquina de café. – Você é velho demais para mim. Ele franziu a testa, e Hannah gargalhou. – Desculpe. Quis dizer que é muito velho para ser tratado por mim, a menos que queira ficar na enfermaria infantil. Sou pediatra. Francesco ia perguntar por que resolvera se especializar em crianças, porém se calou. Primeiro queria saber por que ela viera procurá-lo. Apertou um botão da máquina e perguntou:


– Com leite e açúcar? – Nada de leite, mas duas colheres de açúcar, por favor, gosto tanto de doce quanto de cafeína. Francesco também gostava. Preparou duas xícaras e entregou uma a ela. Sua primeira impressão sobre Hannah Chapman fora correta. Era de fato bonita, de estatura mediana e delgada. A calça simples delineava o mais perfeito bumbum que ele já vira. Era uma pena estar sentada agora. Quanto mais a olhava, mais a admirava. E podia jurar que ela também o estava admirando. Sim, essa visita inesperada da dra. Chapman poderia se transformar em algo agradável. Muito agradável. Ele tomou um gole do café forte e doce, e depois cruzou os braços sobre o peito se inclinando sobre o bar na direção de Hannah. – Por que está aqui? Ela não desviou o olhar. – Porque precisava que soubesse o quanto sou agradecida. Você me manteve aquecida até que a ambulância chegasse, depois me acompanhou ao hospital, ficou lá durante horas até que recuperei a consciência e rastreou o motorista que me atropelou e o levou à polícia. Ninguém jamais fez algo parecido para mim. E eu era uma completa estranha. Sua expressão era tão animada com as faces coradas que, por um instante, Francesco teve o louco desejo de acariciá-la. Como Hannah podia saber de todos esses detalhes? Ele deixara o hospital assim que ela recuperara a consciência. Desde então, não a vira mais. – Que tal me deixar convidá-lo para jantar uma noite dessas? – sugeriu corando ainda mais. – Quer me convidar para jantar? – Ele nem tentou disfarçar a surpresa na voz. As mulheres não o convidavam para sair, mas faziam de tudo para serem convidadas por ele para restaurantes caros e receberem roupas sofisticadas e joias de presente... algo que ele fazia de boa vontade, pois gostava de ter o belo sexo ao seu lado. Mas essa garota tomar a iniciativa e convidá-lo para sair...? No mundo de Francesco os homens eram reis. As mulheres não passavam de adornos atraentes para se divertir e levar para a cama. Os homens estabeleciam as regras iniciais, se esquivavam das armadilhas femininas, e o resultado era garantido. Hannah balançou a cabeça afirmativamente. – É o mínimo que posso fazer. Ele a analisou de novo, fitando os olhos cor de avelã que não o largavam. Haveria um propósito oculto para o surpreendente convite? Não. Francesco não acreditava que houvesse. Porém era um especialista em linguagem corporal feminina e não havia dúvida que Hannah estava interessada nele. E ele se sentia muito tentado. Pensara nela muitas vezes desde o acidente. Em certas ocasiões chegara a pegar no telefone para ligar para o hospital e ter notícias. Porém sempre desistira. A moça era uma estranha. Entretanto, ele ficara furioso ao saber que a polícia não encontrara o motorista fujão. Levara precisamente duas horas lançando mão de seus recursos para encontrá-lo, e em menos de cinco minutos o convencera a se entregar. Após uma “conversinha” o sujeito implorara para ir à polícia. Francesco o levara feliz da vida. E agora Hannah o procurara.


Ele estava tentado a aceitar o convite para jantar... mas não a deixaria pagar a conta. Ia contra seus princípios. Os homens sempre pagavam e não as mulheres. Fim. Se fosse com qualquer outra não pensaria duas vezes. Mas essa era diferente. Para começar, era médica. Uma força do bem em um mundo cruel e feio. Apesar da profissão, porém, Hannah tinha um ar muito inocente. Ou, quem sabe, era porque não usava nenhum artifício. Fosse como fosse, não fazia o tipo dele. Caso não tivesse princípios, poderia se aproveitar dela como faria seu pai se estivesse vivo. Mas ele não era assim. Essa garota era... pura demais. Foi a palavra que lhe ocorreu. Se fosse do tipo que costumava frequentar seu mundo não hesitaria em lhe dizer como poderia agradecêlo. Nua e na horizontal. Entretanto, apenas disse: – Você não me deve nada. – Eu... – Não – cortou Francesco. – Fiz o que fiz sem pensar em pagamento... Considere que está viva, saudável, capaz de trabalhar, e isso já me deixa recompensado. A animação dela diminuiu. – Então não vai aceitar meu convite para jantar? – Olhe em volta. Não pertence a este mundo, dra. Chapman. Agradeço sua visita, mas agora tenho assuntos a tratar. – Parece que está me dispensando. – Sou um homem ocupado. Os olhos cor de avelã o fitaram por mais um longo tempo e depois ela esboçou o mais lindo sorriso que ele já vira. Então, para seu total espanto, Hannah se debruçou sobre o bar e o beijou na boca. Foi um toque suave, mas que incendiou o corpo de Francesco. Sentiu o aroma de café em seus lábios e depois ela se afastou. – Obrigada. Por tudo. – Ela deslizou da banqueta e ficou de pé. Terminou o café com as faces sempre coradas e pegou a bolsa. – Jamais esquecerei o que fez por mim. Tem minha eterna gratidão. Quando ela se virou, Francesco a chamou: – Sua irmã... tem o mesmo sobrenome? Hannah balançou a cabeça afirmativamente. – Avisarei que Melanie Chapman e seu grupo deverão ter tratamento VIP ao chegarem na sexta-feira. Ela franziu a testa claramente sem entender o que ele quisera dizer. – Está bem. – Sua irmã deve saber o que é isso. – Francesco sorriu. – Avise que estará na lista. – Ah... na lista! – Os olhos dela brilharam. – Sei o que isso significa. Lista de convidados. É muito amável. Francesco já se arrependera da oferta impulsiva que sem dúvida fora provocada pelo beijo. Ele nunca agia por impulso. – Não agradeça tanto – resmungou. Ela sorriu. Ele a viu sair, contornando com o dedo os lábios que Hannah beijara.


Pela primeira vez na vida Francesco tivera um gesto magn창nimo. N찾o sabia se estava se sentindo bem ou mal com isso.


CAPÍTULO 2

HANNAH OLHOU para a fila que dava a volta na esquina e suspirou fundo. Talvez isso fosse um sinal para se afastar dali. Porém só por estar perto do Calvetti’s sentia o pulso acelerar. Conhecer Francesco a perturbara... – Venha, Han – disse sua irmã, puxando-a pela mão e fazendo com que retornasse ao momento presente. – Estamos na lista. – Mas aqui é a fila – observou Hannah. – Sim, mas estamos na lista. – Melanie ergueu os olhos com impaciência. – Não precisamos ficar na fila. – Verdade? Que maravilha. – Hannah pensara que entrariam de graça... não imaginara que ficar na fila era desnecessário. Entre risinhos o grupo de 12 garotas usando malha e legging preta, saiote cor-de-rosa e orelhas de coelho, passou correndo pela fila. Três homens com casacos longos vigiavam a porta. Melanie se dirigiu a eles: – Estamos na lista – disse com todo o orgulho que lhe permitiam as orelhas de coelho e as palavras Maldosa Mel impressas nas costas da malha. Hannah imaginara que o Calvetti’s fosse popular, mas a julgar pelo tom reverente de Melanie parecia que eram convidadas do festival de música de Glastonbury, o maior do mundo. Quando Hannah dera a notícia sobre o convite para Melanie, a irmã gritara de alegria. Aparentemente o Calvetti’s era “o clube mais quente do país”, onde para cada pessoa cuja entrada era permitida duas eram barradas. Por sorte, em meio à sua animação, Melanie se esquecera de perguntar à Hannah sobre o dono do clube. A última coisa que Hannah desejava era que a irmã pensasse que estava caída por Francesco. Já era ruim a família toda pensar que era esquisita... Bastaria um sinal e todos tentariam casá-la com o primeiro por quem demonstrasse interesse. Um dos seguranças examinou sua lista e depois desatou o cordão vermelho que servia de barreira para a entrada. – Divirtam-se, senhoras – disse sorrindo enquanto todas passavam em fila.


Outro segurança as conduziu pelo clube que pulsava com a música alta e a multidão, e as levou até as escadas. O coração de Hannah ficou mais leve ao reconhecer um dos homenzarrões que guardavam o clube no dia em que fora visitar Francesco; estava junto a uma porta com a placa “Particular”. Sem dúvida isso significava que Francesco estava ali dentro. Um jovem vestido de preto se aproximou do grupo e as conduziu até uma mesa grande e redonda. Seis baldes com champanhe já estavam ali. – Uau! – exclamou Melanie – Isto tudo é para nós? – Sim – confirmou o rapaz abrindo a primeira garrafa. – Com os cumprimentos da gerência. Se quiserem alguma coisa é só pedir... hoje é por conta da casa. – Pode me dar uma limonada, por favor? – pediu Hannah, recebendo os protestos das outras que a incentivavam a tomar champanhe. Estava para recusar, mas se lembrou da promessa que fizera a si mesma de começar a viver. Ela mais do que ninguém sabia como a vida era fugaz, e fora preciso um acidente de bicicleta para entender que desde os 12 anos só vegetava. Conhecer Francesco ampliara essa compreensão. Se o paraíso existia, que histórias contaria a Beth quando chegasse lá, além das piadas de médicos? Não teria nada da vida real para contar. E fora isso que sentira em Francesco: vitalidade, espontaneidade, uma vida bem vivida. Acomodando-se à mesa, aceitou uma taça de champanhe sentindo as borbulhas na língua, mas só tomou dois goles. Para sua própria surpresa descobriu em breve que estava se divertindo. Embora não conhecesse bem as amigas de Melanie, achou-as simpáticas. Satisfeitíssimas por terem recebido tratamento VIP, faziam questão de incluir Hannah em todas as conversas. Contudo, por mais que Hannah torcesse o pescoço, não via Francesco em nenhum lugar. Já reconhecera ali um casal da realeza e fora informada que alguns jogadores de futebol e um boxeador campeão estavam na mesa ao lado, e que o sofisticado grupo de homens e mulheres com dentaduras muito brancas na outra mesa eram todos atores de Hollywood. – Muito obrigada pelo seu acidente de bicicleta – disse Melanie deixando a pista de dança por um momento para mais um gole de champanhe, e abraçando Hannah. – E por ter nos acompanhado hoje... Tinha certeza que iria para casa depois do jantar. Hannah a abraçou também, escondendo a confissão de que pensara em ir para casa depois do restaurante chinês, mas que a esperança de rever Francesco a fizera mudar de ideia. Quase a fizera também esquecer que Beth não estava ali para compartilhar a noitada. E também não estaria ali para o casamento de Melanie. O casamento. Evento que Hannah temia. Sentiu uma onda de afeição pela irmã caçula e também uma pontada de culpa. Pobre Melanie. Merecia uma irmã melhor. Desde a morte de Beth, Hannah tentara ser a boa irmã mais velha, porém não conseguira. Como ser algo de bom para alguém se uma parte de sua alma estava faltando? Só conseguira mergulhar nos estudos, coisa que sempre lhe agradava. Mas agora seu foco fora desviado. Nunca experimentara tal sensação. Hannah era uma pessoa prática e não costumava devanear. Medicina era sua vida. Desde os 12 anos sabia o que desejava ser e perseguira sua meta. Dedicaria sua existência a cuidar e salvar


crianças. A fim de poupar quantas famílias pudesse do buraco negro que tinha no coração. Pelo menos essa fora sua meta até que um carro a derrubara da bicicleta e o mais belo homem do universo a salvara. Agora o buraco negro já não parecia tão imenso. Desde aquela manhã fria e fatídica sua mente já não estava mais tão voltada apenas para a carreira. Pensava nele, seu cavaleiro de armadura brilhante, e conhecê-lo só aumentara essa impressão. Não era estúpida. Sabia que jamais se enquadraria no mundo dele. Ouvira dizer que Francesco Calvetti costumava ser perigoso para seus inimigos. Porém não conseguia se esquecer dele. Quando estivera deitada sobre o concreto frio e abrira os olhos, olhara para ele e sentira um calor... Alguém que despertava tais emoções não podia ser mau. – Venha, Han – disse Melanie. – Vamos dançar. – Não sei dançar. – Hannah só queria procurar Francesco em cada canto até encontrá-lo. Porque ele estava lá. Tinha certeza. Melanie apontou para a pista onde um grupo de executivos desajeitados tentava dançar. – Eles também não sabem. FRANCESCO OBSERVOU as imagens pelas câmeras de segurança nos monitores em seu escritório. Podia ver tudo o que se passava no seu clube. A mesma parafernália cobria as paredes da sala de segurança. Porém Francesco só confiava nos seus próprios olhos. No dia seguinte voltaria a Palermo para checar seu clube noturno e cassino de lá, e depois voaria para Madri a fim de fazer o mesmo. Dois homens que suspeitava serem traficantes haviam sido convidados por um grupo endinheirado e estavam na área VIP. Observou-os com atenção, pensando se lidava com eles logo ou esperava até provar que eram quem pensava. Uma massa de cabelo louro com orelhas de coelho chamou sua atenção em uma das áreas centrais. Viu Hannah Chapman ser arrastada para a pista de dança por outra loura de saiote corde-rosa. Presumiu que fosse Melanie em sua despedida de solteira. Perguntou-se que diabo Hannah fazia ali. Parecia bastante constrangida. Sorriu ao vê-la tentar mexer o corpo no ritmo da música. Já vira mais ritmo nos postes de rua. Mas o sorriso se dissipou ao ler o que estava escrito nas suas costas: Hannah Insaciável. Perceber que todas as garotas do grupo tinham dizeres personalizados nas costas não o deixou menos aborrecido. Isso o incomodava. Hannah tinha muita... classe para ostentar algo tão vulgar escrito na roupa, mesmo que fosse de brincadeira. Repousou a xícara com café e limpou as bordas dos lábios com o dedo distraidamente. O que ela fazia ali? E por que ficava torcendo o pescoço para todos os lados como se procurasse alguém? Desde que praticamente a mandara embora três dias atrás não parava de pensar nela. Não era momento para se distrair quando o cassino em Mayfair era o seu grande problema. Esse era um dos cassinos mais antigos... se não o mais antigo... em toda a Europa. Tinha tudo que Francesco desejava. A sofisticação da velha escola. Riqueza. E credibilidade. Fora um cassino construído


por cavalheiros para cavalheiros, e embora a regra de “mulheres não entram” tivesse sido abolida, mantinha sua elegância antiquada. Porém mais do que tudo era o cassino que seu pai desejara ter e não conseguira. Esse fracasso havia sido um espinho no pé de Salvatore até o dia de sua morte, quando uma vida de excessos acabara por derrubá-lo. Após quase quarenta anos sendo propriedade exclusiva de sir Godfrey Renfrew, membro da aristocracia britânica, o cassino fora posto à venda. Francesco o queria. Passara meses convencendo Godfrey Renfrew a vender para ele. Porém Godfrey odiava tanto o falecido pai de Francesco que levara um mês apenas para ser persuadido a recebê-lo. E, pior ainda, se os espiões de Francesco estavam certos, Luca Mastrangelo rondava o cassino também. Isso significava que não poderia de jeito nenhum se permitir perder o foco no negócio. Mesmo assim, uma hora antes de abrir o clube, vira-se dando ordens para que reservassem a melhor mesa... para uma despedida de solteira, vejam só, quando sua intenção fora apenas colocar Melanie Chapman e seu grupo na lista de convidados. Sob circunstâncias normais as melhores mesas eram dadas aos mais VIPs dos VIPs e apenas pela publicidade que gerariam. Francesco não esperara que Hannah fosse também, mas agora ela estava ali e ele não conseguia parar de procurá-la com os olhos em qualquer monitor que focalizasse. HANNAH TENTOU heroicamente fazer os pés se moverem dentro da música, ciente de que não tinha muito ritmo. Não que isso desencorajasse os homens presentes. Para seu aborrecimento, muitos deles pareciam sofrer do mal que sua irmã chamava Síndrome da Mão Boba. Um em particular ficava “acidentalmente” se encostando nela. Quando sua mão roçou o bumbum de Hannah ela lhe dera o benefício da dúvida e se afastara; na segunda vez, quando o homem fora mais atrevido e tentara segurar suas nádegas, Hannah sorrira e dissera com polidez: – Por favor, não faça isso. O homem se afastara, mas voltara a investir uma terceira vez “acidentalmente”, tocando seu seio como se Hannah fosse um brinquedo. Será que alguma mulher gostava desse tipo de atitude? Achava atraente? Nesse momento, quando Hannah desejara estar usando saltos agulhas como as outras para pisar no pé do sujeito, uma figura surgiu na pista de dança. A presença de Francesco era tão marcante que as pessoas se afastaram como o Mar Vermelho para lhe dar passagem. Melanie parou de dançar e o fitou de queixo caído. As outras amigas também arregalaram os olhos, os pés se movendo automaticamente. Não era de admirar. Francesco era muito mais alto do que os outros homens na pista e atrairia a atenção mesmo que fosse feio. Usando uma camisa preta aberta na gola e calça cor de carvão, o rosto sombrio, ele era muito ameaçador. Mesmo que Hannah quisesse ocultar sua satisfação não conseguiria, pois sorriu de orelha a orelha ao vê-lo. Desejara quase com desespero que ele a procurasse, embora se preparasse para o pior. Caso ele não aparecesse nessa noite faria de tudo para esquecê-lo. Mas se aparecesse...


Para sua inquietação, em vez de acenar para ela, a atenção de Francesco estava focalizada no homem que a assediara e que, apesar de tentar fingir indiferença, suava como um condenado. Francesco quase encostou o rosto no dele com as narinas dilatadas. – Se tocar nessa moça de novo irá responder diretamente para mim. Capisce? Entendeu? Sem esperar resposta, dera as costas mergulhando na multidão. Hannah o observara se retirar sentindo o coração na boca. Melanie gritou para ser ouvida acima da música, o rosto animado, mas Hannah não entendeu nenhuma palavra. Era agora ou nunca. Diferente da regularidade de sua vida onde a única pequena variação era a noite de fim de semana livre uma vez por mês, a vida de Francesco era repleta de movimento e mudanças, e ele pulava de país em país, sempre com cenários diferentes. A vida de Hannah era exatamente como ela planejara e não desejava mudar as bases, porém havia algo muito atraente sobre a liberdade de Francesco. A liberdade de acordar pela manhã e apenas seguir em frente. Ele poderia ir para onde quisesse nesse exato momento. Correndo para alcançá-lo, Hannah abriu caminho passando pelas mesas VIPs. – Francesco – chamou cheia de pânico no instante em que ele colocava a mão na maçaneta da porta com a placa “Particular”. Francesco se deteve. Ela se apressou a vencer a distância que os separava. Ele a fitou com expressão indecifrável. A música era tão alta que Hannah precisou se inclinar para ele. Podia ver os pelos negros saindo da abertura da camisa, e sentir seu aroma másculo, o que acelerou sua respiração. – Por que fez aquilo? – perguntou. Ele estreitou os olhos e depois girou a maçaneta deixando a porta aberta para ela entrar. Hannah se viu em um corredor à meia-luz. Francesco fechou a porta, bloqueando o ruído ensurdecedor de fora. Ela balançou a cabeça ligeiramente para tentar desentupir os ouvidos. Francesco se apoiou na porta sem deixar de fitá-la um só instante. – Por que fez aquilo? – repetiu Hannah, quebrando o silêncio com palavras que, tinha certeza, ele já ouvira da primeira vez. – O quê? Dar uma lição naquele sujeito? – Ameaçá-lo – corrigiu com suavidade. – Não faço ameaças, dra. Chapman – retrucou com voz gelada. – Apenas promessas. – Mas por quê? – Porque ele não aceitaria uma simples reprimenda. E não admito abusos no meu clube. – Então você costuma lidar pessoalmente com os indesejáveis aqui? Os olhos dele a fitaram com um brilho estranho e seus lábios se apertaram. Em vez de ficar intimidada com a expressão ameaçadora dele e sair correndo como faria qualquer outra pessoa, Hannah se sentiu mais corajosa, perguntando: – E ouvi direito você dizer capisce? – Uma palavra em italiano que o sujeito entendeu. – Muito Danny DeVito. E, a julgar pela sua reação, muito eficiente também.


Algo parecido com um sorriso zombeteiro passou pelos lábios dele. – Danny DeVito? Quer dizer Al Pacino? – Pode ser. – Ela tentou sorrir e dizer algo inteligente que pudesse reter a atenção dele um pouco mais, entretanto era difícil raciocinar sob um olhar de chocolate quente, em especial quando o olhar pertencia a um homem divino como Francesco Calvetti. Se Hannah tivesse que escolher, diria que o homem era mais delicioso do que calda de chocolate quente. E ela adorava essa calda. – Obrigada por me salvar. De novo. – De nada. – Francesco esboçou o gesto de girar a maçaneta. – Agora, se me der licença... – Está me mandando embora de novo? – Sou muito... – Ocupado – completou por ele. Mas seu coração batia muito e suas mãos estavam úmidas. – Por favor. Vim aqui esta noite porque desejava revê-lo. Cinco minutos de seu tempo. É tudo que peço. Se depois disso me mandar sair, obedecerei e prometo nunca mais procurá-lo. Prendeu a respiração aguardando a resposta. Ele a fitou com frieza, a expressão do rosto um mistério. E quando Hannah começava a temer a falta de oxigenação nos pulmões, Francesco inclinou a cabeça e girou a maçaneta de outra porta onde também se lia “Particular”. Hannah o seguiu para uma sala grande que talvez fosse o escritório mais arrumado que já vira. Em uma parede havia cerca de 12 monitores para onde ela se dirigiu. Não tardou a ver a irmã e suas amigas de volta à mesa, conversando animadamente. Ocorreu-lhe que fugira sem dizer à Melanie para onde ia. – Então, dra. Chapman, queria cinco minutos de meu tempo... Ela girou a cabeça para vê-lo fitando o caríssimo relógio de pulso. Francesco parecia indiferente, mas Hannah sentia sua curiosidade. Como se arrependia por ter deixado Melanie convencê-la a usar o “uniforme da despedida de solteira”, porém teria sido rude recusar. Já negara muita coisa à irmã ao longo dos anos, e vestir aquela roupa ridícula era o mínimo que pudera fazer. Mesmo assim se sentia constrangida e no momento precisava de toda a coragem para dizer o precisava dizer. Engoliu em seco, mas manteve o olhar firme; os olhos de Francesco estavam frios, porém mesmo assim a aqueciam. Como um homem com olhos de calda de chocolate podia ser mau? – Quando fui jogada de minha bicicleta pensei que havia morrido – começou ela apertando as mãos. Deus, era muito mais difícil do que imaginara. – Honestamente pensei isso, desde então tudo mudou... eu mudei. Meu acidente me fez perceber que estava deixando a vida passar sem viver de verdade. – E o que isso tem a ver comigo? O coração dela bateu ainda mais forte. – Porque não consigo parar de pensar em você. Ele tornou a estreitar os olhos com desconfiança e cruzou os braços sobre o peito. Hannah sentiu que seus nervos cediam. Sua língua estava seca e havia um nó na garganta. – O que deseja de mim? – perguntou ele. Com o canto do olho ela viu o cartão de agradecimento que lhe dera. Estava sobre a escrivaninha dele, e isso a deixou ainda mais nervosa. Francesco guardara o cartão.


Ele a salvara uma vez e de novo. Hannah tentou descobrir qual seria a conexão nessas duas coisas. Então respirou fundo e mordeu os lábios antes de falar depressa para não se arrepender: – Quero que você tire minha virgindade.


CAPÍTULO 3

FRANCESCO BALANÇOU a cabeça. Pela primeira vez nos seus 36 anos de vida não sabia o que dizer. – Céus, não era assim que desejava dizer. – Hannah cobriu o rosto com as mãos, e se encolheu toda. Quando deixou as mãos penderem seu rosto estava pálido, porém, demonstrando coragem, encarou-o sem hesitação. – Não pretendia falar com tanta crueza. Por favor, diga alguma coisa. Ele tornou a balançar a cabeça, tentando clarear as ideias. – É uma brincadeira? – Não – respondeu Hannah sem titubear. – Você é virgem? – Sim. Por um momento Francesco considerou seriamente a possibilidade de estar sonhando. Será que adormecera na escrivaninha? Desde a descoberta dos diários de sua mãe, dez meses atrás, andara consumido pelo ódio, e esse sentimento o nutria. Nos últimos dez meses, canalizara suas forças só para o trabalho. Um mês atrás, seu médico dissera para ir mais devagar, pois corria o risco de ter um estresse profundo. É claro que ignorara o conselho. Não descansaria até erradicar cada traço final do império de Salvatore Calvetti. E pensar que quase não descobrira aqueles diários. Se não tivesse feito uma última verificação na residência da família antes de esvaziá-la para vender, jamais os teria encontrado, preservados em caixas e escondidos no quarto de vestir da mãe. Francesco nem mesmo tivera a intenção de ir aos aposentos da mãe, porém o desejo de se sentir pela última vez mais perto dela o fizera entrar ali após tanto tempo. Ler os diários fora uma tortura atroz que não desejava para seu pior inimigo. O respeito que sentira pelo pai e que o tornara um filho obediente enquanto o pai vivera, morrera brutal e instantaneamente. O que mais doía era não ter sabido a verdade enquanto Salvatore vivia, pois agora não teria a oportunidade de puni-lo por cada hora de sofrimento que impingira à mãe. Era pecado, mas teria talvez ajudado o pai a morrer mais depressa. E esperava com cada fibra de seu ser que seu pai estivesse no inferno. Ele não merecia nada melhor.


Porque agora Francesco conhecia a verdade. E não descansaria nem ficaria satisfeito até destruir tudo que Salvatore construíra. Esmagar seu império e sua reputação. Deixar apenas cinzas. A descoberta da verdade o arrasara. Estava cansado, mas o ódio o alimentava. Portanto, era muito provável que tivesse adormecido sentado à escrivaninha. Porém jamais tivera um sonho que fizesse seu coração bater tão forte. Esfregou a nuca e fitou a mulher que acabara de lhe fazer uma oferta tão desconcertante. Estava ridícula com a fantasia de saiote cor-de-rosa, malha e legging pretos, e sapatilhas de balé também pretas. Pelo menos as outras garotas do grupo, como ele pudera ver, haviam adornado aquela roupa ridícula com sapatos de saltos muito altos, como em geral as mulheres usavam em seus clubes. Parecia que Hannah nem mesmo penteara os cabelos e muito menos se maquiara. Ela tivera a coragem de sair de noite e ir a um clube dançar sem maquiagem? Aliás, Francesco não se lembrava de já ter visto uma mulher sem maquiagem, em qualquer ocasião. E para culminar ela usava as incríveis orelhas de coelho. Entretanto havia algo extremamente atraente em seu rosto limpo e fresco. Francesco a considerou diferente. Resistira a sua oferta para jantar alguns dias antes por causa disso; porque a julgara diferente demais das mulheres de seu mundo. Será que se enganara tanto assim a respeito da dra. Chapman? Que tipo de mulher oferecia sua virgindade a um estranho? E por que, diabos, se sentira levado a alertar o sujeito inconveniente e não enviar um de seus homens para resolver a situação? Se tivesse seguido os procedimentos habituais, não estaria parado ali nesse momento ouvindo uma proposta tão bizarra. Fora o fato de ficar observando aquele homem assediá-la... e vê-la rejeitar seus avanços com tanta dignidade... que fizera algo dentro de Francesco despertar. As regras eram as mesmas em todos os seus estabelecimentos. Suas equipes eram treinadas para perceber clientes que extrapolavam e tentavam assediar as pessoas. O procedimento usual era fazer com que um de seus seguranças tivesse uma conversa “educada” com o infrator, e em geral isso era o suficiente para fazer com que passasse a se comportar direito. Francesco podia não ter muito respeito pelo tipo de mulher que enchia seus clubes, mas isso não significava que tolerasse qualquer abuso ou ofensa contra elas. Nas profundezas de sua mente repousava a mãe, uma mulher que tolerara abusos demais. E ele, seu filho, não percebera nada. Portanto, ao ver Hannah sofrer assédio, o sangue subira para sua cabeça e o fizera sair do escritório e rumar para a pista de dança antes que seu cérebro tivesse tempo de processar o que seus pés faziam. – Não faço ideia do que pretende – disse devagar –, mas não participarei desse joguinho ridículo. Já lhe concedi seus cinco minutos. É hora de ir embora daqui. Sem dúvida era um joguinho. Hannah Chapman descobrira que era muito rico e, como tantas outras, decidira ter acesso a sua fortuna. Irritado, Francesco refletiu como se desapontara com ela. – Não é um jogo. – Hannah respirou fundo. – Por favor, Francesco, tenho 27 anos e nunca fiz sexo. Nem mesmo beijei um homem. Isso se tornou um peso nos meus ombros. Não quero


permanecer virgem por toda a vida. Tudo que desejo é uma noite para saber como se sente uma mulher de verdade, e você é o único homem para quem posso pedir isso. – Mas por que eu? – perguntou continuando a não se conformar. Os lindos olhos cor de avelã o hipnotizaram. – Porque confio que não irá me magoar. – Como pode confiar? Sou um estranho para você. – Os únicos homens que conheço são meus colegas médicos. Os raros colegas solteiros... trabalham muito próximos uns dos outros. Você pode ser um estranho, porém sei que irá me tratar com respeito. Sei que jamais riria de mim pelas costas ou faria piada sobre o fato de eu ser uma virgem de 27 anos. – Está fazendo muitas suposições a meu respeito – comentou ele. – Talvez. – Ela deu de ombros em um gesto de desamparo. – Pensei que tinha morrido quando me acidentei. Ao abrir os olhos e ver seu rosto, pensei que fosse um anjo que viera me levar para o paraíso. Tudo em que consigo pensar agora é se... E se eu tivesse morrido? Não fiz nada na minha vida. – Não é bem assim – ele se apressou a corrigir. – É uma médica, conseguiu muito. – Não sou um gênio... precisei estudar muito para me formar, aprender, e continuo aprendendo. Esse processo me obrigou a me concentrar exclusivamente na minha carreira, anulando minha vida pessoal. – Ela franziu a testa. – Não quero morrer virgem. Francesco esfregou a nuca. Ela parecia falar seriamente. Naturalmente podia estar mentindo. Tendo descoberto quem ele era, essa poderia ser uma jogada inteligente e intrincada para acessar a vida dele e sua fortuna. Entretanto, a explicação de Hannah fazia muito sentido. Ele lembrava da expressão de serenidade que cruzara o rosto dela no momento em que abrira os olhos e o fitara na estrada, e lembrava das palavras que ela dissera e das sensações confusas que havia despertado nele. Algo acontecera entre os dois... algo rápido, mas tangível. Naquele momento não havia como Hannah saber quem ele era. Mas uma coisa ele sabia; ela tivera uma impressão errada a seu respeito. Se soubesse quem Francesco Calvetti era de verdade seria o último dos homens na face da Terra para quem Hannah faria uma proposta tão sem pudor. Apesar disso, Francesco se sentia muito tentado a aceitar. Era um macho de sangue quente. Que homem não se sentiria tentado com tal proposta? Mas Hannah era virgem, tratou de lembrar... apesar do fato de sempre ter pensado que virgens acima dos 18 anos eram lenda. Sem dúvida essa não era a grande fantasia de todo homem? Uma virgem implorando para ser deflorada? – Não faz ideia de quem sou – acabou por dizer ele sem rodeios. – Está se referindo a história de gângster? – perguntou ela. – História de gângster? – A voz dele soou ameaçadora. Como ela podia se referir a isso com tanta displicência? Seria tão ingênua para não compreender que a vida dele não era um seriado fictício de televisão com atores bonzinhos?


Observando-a com atenção viu que sua inocência era real. Tinha um ar de candura... o mesmo que ele vira ao folhear o álbum de casamento dos pais. Sua mãe tivera esse ar quando se casara com seu pai, acreditando que estava fazendo um enlace por amor, e sem desconfiar da verdadeira natureza do marido e de seus negócios. Hannah tornou a dar de ombros. – Li tudo a seu respeito na internet. Sei o que dizem sobre sua família. – E acredita em tudo que lê na internet? – Não. – Ela balançou a cabeça para enfatizar a negativa. Deliberadamente Francesco deu um passo à frente se acercando dela. – Pois deveria acreditar. Porque é a pura verdade. Cada palavra. Não sou uma pessoa que queira conhecer. Sou o último homem com quem uma garota como você deveria se envolver. Ela nem mesmo piscou. – Uma garota como eu? O que isso quer dizer? – Você é médica. Não pertence ao meu mundo. – Só quero uma noite no seu mundo, é tudo, uma noite. Não me importo com o que se escreve a seu respeito. Tenho certeza de que jamais me magoaria. – Acha mesmo? – De onde fora que ela desenvolvera aquela fé absurda? Francesco precisava desiludi-la. Fazê-la ver uma parte da verdade para que se assustasse a ponto de correr de volta para a segurança de seu trabalho no hospital. Ele aprumou as costas parecendo ainda mais alto. Esse era um gesto que costumava intimidar até o mais bravo dos homens. Venceu a pouca distância entre os dois e segurou seu cabelo espesso, arrancando as orelhas de coelho presas por uma espécie de tiara de elástico, e que deixou cair no chão. Depois as esmagou fazendo o plástico ranger. Ela o fitou sem pestanejar. – Diga-me – murmurou Francesco, fazendo-a se virar devagar e encostando as costas dela em seu peito. – Como deseja exatamente que eu tire sua virgindade? Ele a ouviu prender a respiração. Ótimo. Conseguira assustá-la. Retendo a cabeleira dela entre as mãos, aspirou o aroma doce de seu xampu. Seu cabelo era surpreendentemente macio. – Quer que a possua aqui e agora? Deslizou um dedo pelo pescoço delgado de Hannah e pela clavícula que fora quebrada havia menos de dois meses, descendo pelos braços e chegando a um dos seios redondos comprimido pela malha. – Ou quer ser possuída em uma cama? – Passou o polegar pelo mamilo, que enrijeceu sob o toque. – Eu... – Sua voz saiu como um sussurro débil. – Eu... – Deve ter alguma ideia sobre o modo como deverei realizar esse ato – murmurou Francesco respirando na sua orelha e encostando o nariz em sua face macia como seda. – As preliminares são necessárias? Ou quer acabar com a história bem depressa? – Eu... sei o que está fazendo. – Tudo que estou fazendo é decidir como, exatamente, você gostaria que a libertasse de sua virgindade. Posso fazer agora se quiser. – Assim dizendo pressionou o órgão rijo de encontro às


nádegas dela para fazê-la entender que já estava preparado. – Que tal aqui, em cima da escrivaninha? Ou de encontro à parede? No chão? Por mais que odiasse a si mesmo por isso, seu corpo respondia à Hannah da maneira mais básica possível. Mas iria se controlar do mesmo modo como controlava tudo na vida. Não cederia à tentação. Faria a médica perceber como se enganava a respeito dele. Porque Hannah Chapman era uma das poucas pessoas nesse mundo que faziam uma diferença. Não seria ele a maculá-la por mais que a desejasse ou por mais que ela quisesse. Francesco era bom caráter. Era muito melhor do que o homem que o concebera e que, no seu lugar, a essa altura já teria livrado Hannah de sua virgindade brutalmente. Mas Francesco não era assim. Porém, se precisasse jogar pesado para que ela fosse embora, era isso o que faria. O raciocínio objetivo não dava certo com Hannah. – Está tentando me assustar – murmurou ela. Francesco achou que era muito astuta. Embora os seios dela respondessem às carícias, o resto de seu corpo estava rijo e na defensiva. Com extrema relutância ele a soltou e a fez virar de novo para fitá-lo nos olhos. O cabelo de Hannah caía sobre os ombros, suas faces estavam coradas e seus olhos brilhantes. Mas não tinha medo, talvez estivesse um pouco apreensiva, mas não com medo. – Está brincando com fogo, dra. Chapman. Ela sorriu secamente. – Fiz treinamento para curar queimaduras. – Mas as queimaduras comigo serão de outro tipo. Terá que encontrar outro homem para fazer esse serviço. Não estou à venda. Francesco voltou a pensar no homem que a assediara... e que, imaginava, ficaria felicíssimo em obedecer seu pedido. Afastou essa imagem. Quem ela escolhesse não era assunto seu. Mesmo assim, a ideia de ver aquele sujeito com as patas em seu corpo o encheu de raiva. Hannah era demais... pura. Um brilho astuto surgiu nos olhos dela que, por incrível que fosse, conseguia ser doce também. Hannah inclinou a cabeça para um lado. – Eu assusto você? – Ao contrário. É você quem deveria ter medo de mim. – Mas não tenho. Não me importo com sua reputação. Não estou atrás de um relacionamento ou algo parecido... apenas estar perto de você me faz sentir bem. Depois de tudo de bom que fez para mim, como poderia não confiar? Ele balançou a cabeça. Isso era loucura. Deveria chamar seus seguranças e pedir que a escoltassem para fora do clube. Mas sabia que não faria isso jamais. Francesco ouvira histórias sobre pessoas que por terem salvado vidas ficavam ligados às vitimas salvas e vice-versa. E embora não tivesse salvado Hannah tecnicamente falando, era a


única explicação que lhe ocorria para a estranha química que existia entre os dois. Eram completos estranhos e mesmo assim estavam conectados um ao outro. Algo acontecera entre os dois que os unira. E era dever dele cortar essa ligação. Seu dever. Não era obrigação de seus seguranças. E ele faria com que Hannah entendesse. – Acha que sou digno de sua confiança? – perguntou, e sem pensar estendeu a mão segurando uma mecha de seu cabelo louro. – Sei que é. –Hannah inclinou a cabeça um pouco para trás e encostou a mão na face de Francesco. – Não percebe? Um homem menos digno não tentaria me dissuadir desse propósito e mesmo me amedrontar... Tomaria o que eu estava oferecendo sem pensar duas vezes. A pele de Francesco formigou com o calor dos dedos dela; desejava agarrar aqueles dedos e entrelaçá-los aos seus... – Não nasci para ter nenhum tipo de relacionamento... a carreira é muito importante para mim para que me comprometa... mas quero sentir. – Assim dizendo Hannah aproximou mais o rosto ao dele de modo a encostar o nariz em seu pescoço. Sua respiração parecia uma carícia de encontro à pele sensível de Francesco. – Quero uma única noite para atirar a cautela longe. Quero saber o que é fazer amor e que seja com você, porque é o único homem que já conheci que me faz sentir viva sem nunca ter me tocado com intenções sexuais. Francesco mal respirava. Seus dedos ainda retinham a mecha de cabelo de Hannah. O desejo que invadia seu sangue desde que ela encostara o nariz em seu pescoço aumentou. Quando fora que se sentira prestes a explodir de excitação? Isso era loucura. – Se sentisse que você era indiferente a mim fisicamente, iria embora agora – continuou ela com a voz que parecia um murmúrio. – Sem dúvida não iria mais me preocupar com isso. – Como pode estar tão certa de que sinto alguma coisa por você fisicamente? – Não é pelo fato de ser virgem que sou uma completa ingênua. Sim. Em seu esforço para fazê-la desistir, ele pressionara seu órgão de encontro às costas dela, deixando que Hannah sentisse sua excitação. Essa atitude virara o feitiço contra o feiticeiro. Ela não se assustara e ele se entregara. Hannah virara o jogo. Bem, não mais. Segurando a mão dela que ainda repousava sobre seu peito, afastou-a e deixou-a cair ao longo do seu corpo. Deu um passo atrás, encarando-a. – Pensa que pode passar uma noite comigo e ir embora ilesa? Porque isso não irá acontecer. O sexo não é um jogo e eu não sou um brinquedo com que você possa se divertir. Pela primeira vez uma sombra de dúvida surgiu no rosto de Hannah. – Jamais pensei nesses termos – disse em voz baixa. – Não se trata apenas do fato de que estou atraída por você, é mais que isso. Não sei como explicar, mas quando olho para você vejo uma existência cheia de animação, de viagens, de muitas coisas que eu nunca poderia esperar viver. Tudo que quero é estender a mão, repartir essa animação e vivenciar um pouco dela com você. – Pensa que me conhece, mas está enganada. Não sou o homem que julga. Minha vida é árida e violenta. Não deveria querer nada comigo. Por um longo momento ele a encarou, esperando que Hannah baixasse os olhos. Mas isso não aconteceu... o olhar dela se manteve preso ao dele, resoluto e constante.


– Prove – disse ela por fim. – Se pensa realmente que é tão mau para mim, então prove. Francesco quase gemeu em voz alta. – Não se trata de provar nada, você precisa entender... quando perder a virgindade não a terá de volta. Ficará perdida para sempre, e quem sabe o que mais poderá perder com isso. Ela engoliu em seco, porém permaneceu firme. – Não há mais nada que eu possa perder. Não estou atrás de um caso de amor, Francesco, tudo que desejo com você é uma noite. Foi ouvir seu nome nos lábios dela... e a intensidade que ela colocou na voz... que o fez tomar uma decisão. Francesco mataria um dragão só para protegê-la. Entretanto sabia que Hannah precisava apenas ser protegida contra si mesma. Tratou de se lembrar que não precisava de mais um problema em sua vida. Devia ficar focalizado no negócio do Mayfair... o negócio que seria a coroa de louros para seu império. Hannah afastara sua concentração. Quem sabe se lhe desse um pouco do que pedia sua mente voltaria a se concentrar no que era importante e a fizesse sair de seus pensamentos. – Quer uma prova de quem sou na realidade? – disse ele em tom rude. – Então você terá o que está pedindo. Eu lhe darei uma amostra do que é minha vida durante um fim de semana. Os olhos de Hannah brilharam. – Este fim de semana – continuou Francesco. – Poderá compartilhar uma amostra de minha vida e ver por si mesma por que deveria colocar quilômetros de distância entre nós dois. Ao final desse período juntos garanto que jamais quererá ver meu rosto de novo, muito menos ter presenteado sua virgindade para um homem como eu.


CAPÍTULO 4

HANNAH JÁ olhara

diversas vezes por entre as cortinas até que Francesco estacionou uma enorme motocicleta na porta de sua casa; o motor fazia tanto barulho que poderia acordar toda a vizinhança. Ela não ficou surpresa ao perceber que Francesco esperava que saísse para ir ao seu encontro. Assim que ele concordara com um fim de semana juntos, não perdera tempo e a mandara para casa dizendo: – Irei buscá-la às sete horas da manhã. Traga seu passaporte. Ia levá-la para a Sicília. Para seu lar. Hannah não se lembrava da última vez em que estivera tão animada. Ou tão nervosa. Com o corpo vibrando de antecipação saiu para o sol do início da manhã, esperando que pelo menos ele tirasse o capacete para cumprimentá-la. – Bom dia – disse Hannah, sorrindo para ele e para a motocicleta com admiração. Havia algo tão... másculo no modo como ele montava o veículo e que, aliado ao corte estreito da calça de couro, provocou uma corrente elétrica pela sua espinha dorsal. – Vamos para a Sicília nisso? Ele a fitou com frieza. – Só até a base aérea. Isso se ainda deseja ir? – Pelo tom de sua voz não havia dúvida de que esperava que ela tivesse mudado de ideia. E para ser sincera, desde que Hannah deixara o escritório dele horas antes, ficava se perguntando o tempo todo se estava fazendo a coisa certa. Entretanto não se permitira nem mesmo considerar a hipótese de voltar atrás. Porque tudo que sabia, com certeza, era que se não agarrasse essa oportunidade com as duas mãos iria se arrepender pelo resto da vida, independentemente do desenlace dessa história. – Ainda quero ir – respondeu quase rindo ao ver os lábios dele se apertarem com desaprovação. Será que Francesco não percebia que quanto mais tentava desencorajá-la, mais ela sabia estar no caminho certo? E isso provava que era um homem íntegro. Além disso, Francesco a desejava. A sensação do órgão viril e rijo de encontro às suas costas fora a mais incrível que poderia imaginar. Jamais imaginara que seu próprio corpo pudesse reagir tão intensamente, e que a pulsação do sangue em suas veias se tornasse tão forte. Isso só servira para confirmar que estava fazendo a coisa certa.


Hannah estivera pronta a se entregar no escritório de Francesco, mas ele recuara não querendo se aproveitar da situação. De novo. Ele fazia de tudo para desencorajá-la, porém Hannah duvidava que algo na sua personalidade conseguisse dissuadi-la de seu propósito. O que, perguntava a si mesma, acontecera na vida dele para que Francesco se julgasse tão mau? Seria por causa do sangue que corria em suas veias? Fosse como fosse, Hannah tinha certeza de que era um bom homem... mesmo que ele não acreditasse nisso. Com o rosto sombrio, ele enfiou a mão no compartimento do lado e retirou roupas de couro e um capacete. – Use isto – comandou. – Quer entrar enquanto troco de roupa? Não se preocupe com sua moto... todos os bandidos da região estão dormindo no momento. – Esperarei aqui – proferiu ele. – Fiz café. – Esperarei aqui. – Como quiser. – Tem cinco minutos para se aprontar – avisou Francesco. No quarto, Hannah vestiu a calça justa de couro e a jaqueta combinando, oscilando um pouco diante do peso da roupa. Olhando-se no espelho de corpo inteiro fez uma pausa. Quem dissera que couro era sexy estava redondamente enganado... embora admitisse se sentir muito Sandra Dee nessa calça. Sandra Dee, a atriz dos anos 1960, também fizera muitos papéis de virgem no cinema. Hannah era virgem em todos os sentidos. Mas, tratou de se lembrar, com a ajuda de Francesco, iria mudar essa situação. Só em um fim de semana. E era tudo que queria. Algumas lembranças para compartilhar com Beth. Respirou fundo e analisou seu reflexo no espelho mais uma vez. Sentiu um nó no estômago, porém não sabia se de excitação ou medo. Mais uma vez verificou se a porta de trás estava trancada, e pegou sua mala, indo ao encontro de Francesco. – Não vai dar – avisou ele quando viu a mala. – É você quem está propondo uma noite fora em uma moto – enfatizou ela. – O que sugere que eu leve? – Vamos deixar claro que não sugeri nada. – Foi só uma maneira de falar. – E também nada disse sobre passar uma noite fora. Voltaremos ao Reino Unido quando eu estiver pronto. – Contanto que me traga de volta a tempo de ir trabalhar às 9h de segunda-feira, tudo bem. O rosto dele era uma máscara impassível. – Voltaremos quando minha programação permitir, não a sua – teimou Francesco. – Essa é a parte em que faço um gesto descartando a proposta e digo: “Oh, nesse caso não posso viajar com você”? – Sim. – Não deu sorte – replicou Hannah. – Eu vou, e você me trará de volta em tempo para ir trabalhar.


– Parece muito segura de si mesma. –Apenas sei que não é do tipo de pessoa que permite uma enfermaria repleta de crianças doentes sofrendo com a falta de médicos. Ele contorceu o rosto e os olhos que lembravam calda de chocolate quente se estreitaram. – Está disposta a assumir esse risco? – Não. – Hannah balançou a cabeça com um sorriso nos lábios. – Sei que não existe risco. – Pelo menos no que dizia respeito a voltar a tempo de ir trabalhar. E quanto ao resto, Hannah sabia que seu coração não corria perigo também; seu coração não funcionava direito havia 15 anos. Em termos mais práticos, porém, imaginava que existiam alguns perigos. Podia muito bem estar se metendo em algo que não conseguiria controlar, mas o que de pior poderia acontecer? Ela já passara pelo seu inferno particular. O pior que poderia ocorrer já ocorrera quando tinha 12 anos, e sobrevivera só Deus sabia como, mas sobrevivera. Seria apenas um fim de semana para viver antes de retornar aos seus pacientes, às crianças que ela esperava com todas as forças de seu pobre coração que crescessem para serem felizes. – Faça como quiser – disse Francesco. – Agora encontre uma mala menor para enfiar suas coisas ou coloque em uma mochila para prender nas costas, ou deixe tudo em casa. Ela fitou a mala. Não tinha nem uma menor, nem uma mochila... – Dê-me um minuto – pediu, falando por cima do ombro enquanto corria de volta para a casa. Em tempo recorde agarrou uma bolsa enorme e ali enfiou seu passaporte, celular, uma bolsinha, lingerie, escova de dentes, e um leve vestido de verão. O resto, incluindo alguns documentos de pesquisa que andara lendo, deixou para trás junto com a mala. Afinal, estava se lançando em uma aventura, a primeira em 15 anos. – Só vai levar isso? – perguntou Francesco quando ela voltou, pegando a bolsa de sua mão. – Foi você que pediu. Ele resmungou uma mistura de irritação e desdém. Hannah sorriu. – Vai precisar se esforçar mais para me desencorajar. Com as narinas dilatadas, ele colocou a bolsa no compartimento lateral e atirou um capacete de volta para Hannah. – Coloque isto. – E...? – Ela esperava um por favor. – Agora. Francesco refletiu como alguém podia estar tão bem-humorada àquela hora da manhã. Não era natural. O que seria preciso para rachar aquela armadura sorridente? Com grande relutância ele a ajudou com as tiras do capacete, e mesmo pelo seu visor escuro podia vê-la continuando a sorrir. Iria destruir aquele lindo sorriso e desapontá-la. – Já andou de moto antes? – perguntou apertando bem as tiras para deixar o capacete bem firme sem tirar o ar de Hannah. Ela balançou a cabeça em negativa. – Passe os braços pela minha cintura e repita tudo que fizer... incline-se nas curvas.


SÓ QUANDO garantiu que Hannah estava bem acomodada, Francesco pôs a moto em movimento. Ele parou no estacionamento privativo do aeroporto. – Foi fantástico! – exclamou Hannah retirando o capacete para revelar uma cabeleira mais embaraçada que uma centena de ninhos de pássaros. Se não estivesse contrariado pela onda de desejo que o dominara ao senti-la agarrada ao seu corpo por meia hora, Francesco diria que ela estava adorável. Sua intenção original fora aproveitar a linda manhã de sábado nas estradas e acelerar. Porém não contara com a distração proporcionada por Hannah agarrada às suas costas. E não era de admirar. Com aquela calça de couro... Caro Dio... Meu Deus. Por trás da aparência um tanto desleixada ela possuía as pernas mais lindas que ele já vira. Reparara em como eram bonitas na noite anterior, porém o ridículo saiote cor-de-rosa de bailarina escondera a melhor parte: as coxas. Portanto nem mesmo por um segundo no trajeto ele conseguira esquecer que Hannah estava ali, abraçada a ele, e confiando que ele a manteria a salvo. Onde diabos ela adquirira aquela confiança ridícula a seu respeito? Mantivera a velocidade nos limites sem acelerar demais. Não fora a corrida que imaginara para apavorá-la. Seus seguranças já estavam lá no estacionamento esperando por ele. Francesco os dispensava muitas vezes no Reino Unido, porém era diferente no Mediterrâneo, em especial na Sicília. A vantagem de estar na Inglaterra era que ali não sentia necessidade de uma comitiva protegendoo o tempo todo. Atirou as chaves da moto para um dos seguranças. – O que está fazendo? – perguntou ao ver Hannah com o celular na mão. Era um modelo muito atual. E isso o surpreendeu de certa forma, talvez por que ela era muito discreta e solitária; pensara que teria um celular mais básico. – Estou respondendo meus e-mails – explicou ela olhando a tela com atenção. – Que e-mails? – De trabalho. – É sábado. Hannah ergueu os olhos para ele. Parecia um peixe fora d´água com a jaqueta pesada que a fazia pender os ombros, entretanto aquelas pernas... e aquele bumbum... – Hospitais não fecham nos fins de semana – replicou ela lançando um de seus sorrisos. – Termino em um segundo. Francesco não fazia ideia de por que estava irritado por Hannah dedicar sua atenção ao celular. Não queria encorajá-la a ter expectativas a respeito deles dois, mas, de qualquer modo, não gostava de se sentir em segundo plano. – Pronto – informou ela um momento depois, enfiando o celular de volta na bolsa. Depois dos procedimentos de praxe, embarcaram no avião de Francesco. – É seu? – perguntou ela arregalando os olhos do mesmo modo como fizera ao entrar pela primeira vez no Calvetti’s carregando o buquê de flores para ele. Francesco aquiesceu com um gesto de cabeça e tomou assento, indicando que ela devia se sentar em frente. – Antes de dar as ordens para decolarmos preciso checar sua bolsa.


– Por quê? Já passou pelo scanner. – Meu avião. Minhas regras. – Ele a encarou desejando que ela discutisse, descesse do avião e fosse embora antes que a vida perigosa dele a maculasse. Francesco pensou ter visto um brilho de raiva nos olhos dela, breve, mas verdadeiro. Por fim Hannah deu de ombros e entregou a bolsa. Francesco a abriu. Sua mão se fechou sobre a lingerie. Deveria tirar da bolsa para provar que mexia em seus pertences mais íntimos; o avião ainda não decolara, e havia tempo para ela mudar de ideia. Mas então Francesco voltou a encontrar seu olhar e ela o analisava com uma curiosidade destemida. Não. Não iria humilhá-la. Seus dedos relaxaram e as peças de algodão voltaram a ficar no lugar. Em vez disso, ele retirou da bolsa uma outra pequena. Abriu e encontrou algum dinheiro, recibos, cartões de crédito e de débito, e uma foto que olhou de perto. Hannah se remexeu com desconforto, mas ele não deu importância. Então ela queria que ele lhe provasse com ações o quanto era desagradável? Esse era apenas o começo. Francesco examinou de perto a foto de duas meninas idênticas com longos cabelos louros, olhos cor de avelã, e os maiores e mais felizes sorrisos que já vira. – Você tem uma irmã gêmea? – perguntou surpreso. A resposta veio alguns segundos depois. – Sim. Francesco a fitou. Hannah estreitara os olhos. A pele levemente bronzeada empalidecera. – Por que ela não saiu com você ontem para comemorar a despedida de solteira de sua outra irmã? Ela cerrou os punhos e depois os abriu, erguendo o queixo. – Beth morreu há muito tempo. Francesco ficou imóvel. – Por favor, tome cuidado – pediu Hannah. – É a última fotografia que tiramos juntas. – Havia muita ansiedade em sua voz. Essa era outra grande oportunidade para convencê-la de sua verdadeira natureza. Tudo que ele tinha a fazer era rasgar a foto em pedacinhos e garantir que Hannah fosse embora sem olhar para trás. Entretanto, por mais que comandasse, suas mãos não o obedeceram. A voz de Hannah ecoou em meio aos pensamentos conflitantes de Francesco: – Pode devolver minhas coisas agora? – perguntou do seu modo arrastado. Sem dizer uma palavra ele colocou com cuidado a foto de volta, ainda chocado. A última fotografia das duas juntas? O estômago dele se contraiu e depois um peso enorme o invadiu. Levantando-se de modo abrupto, colocou a bolsa aos pés de Hannah. – Preciso falar com a tripulação – avisou. – Coloque o cinto de segurança. Hannah deixou escapar todo o ar dos pulmões de uma só vez, observando Francesco desaparecer pela porta. Em determinado momento tivera certeza que ele iria destruir a foto com suas mãos enormes.


E se havia algo que não poderia perdoar seria isso. Mas Francesco nada fizera. Desejara fazer, ela bem sabia, mas sua decência inata o impedira e vencera. E também não a cravara de perguntas sobre Beth. Era muito raro Hannah falar sobre a gêmea. Mesmo após 15 anos, a ferida ainda estava aberta como se falar pudesse reviver o sofrimento. As pessoas a tratavam de modo diferente. Assim que sabiam sobre Beth passavam a se referir a Hannah de uma maneira padrão. É a garota que perdeu a irmã gêmea. Ouvira esses murmúrios durante todo o tempo da escola, sentira os olhares curiosos e ansiosos para ver seus sinais de sofrimento. Sabia o que seus colegas esperavam... queriam vê-la chorar. E ela chorara muito, mas sempre na privacidade de seu quarto... que dividira com Beth. Aprendera a repelir a curiosidade com um amplo sorriso. Ignorara os murmúrios se enterrando nas tarefas escolares. Fora igual com seus pais. E com Melanie. Hannah afastara todos, escondendo seu desespero por trás de um sorriso e se fechando em si mesma. Quando Francesco reapareceu minutos mais tarde, ela o brindou com esse mesmo sorriso. – Vamos decolar dentro de cinco minutos – comunicou ele. – É sua última chance para mudar de ideia. – Não vou mudar – garantiu ela. – A Sicília é meu território. Se for ficará presa às minhas normas. – Quanta formalidade, mesmo assim não vou mudar de ideia. Os olhos dele brilharam com uma ameaça. – Como disse antes... faça como quiser e aguente as consequências. – NOSSA! QUE calor – comentou Hannah enquanto seguia Francesco para fora do avião, respirando fundo. Sim, ali estavam. O adorável ar marinho, milhares de quilômetros de distância, mas mesmo assim por um instante ela sentira o cheiro de casa, sua casa de verdade... Não Londres, que era apenas a cidade onde morava. – É verão – foi a breve resposta. Pelo menos antes da aterrissagem ela tivera o bom senso de trocar a roupa de couro pelo vestido leve que trouxera. Mas Francesco nem notara, ou, se notara, não dera vestígios de perceber, mantendo a cabeça inclinada para o laptop com tanta energia que Hannah temera que fosse tragado pela tela. Só se movera uma vez para ir ao seu quarto... sim, ele tinha um quarto no avião!... para trocar a roupa de couro por calça preta e camisa branca de linho com um blazer. Um reluzente carro os aguardava, e o motorista abriu a porta quando se aproximaram. Outro carro idêntico esperava atrás, e os seguranças de Francesco se acomodaram lá... exceto um que se instalou no banco da frente do primeiro carro. As portas mal haviam se fechado quando esse segurança se voltou e entregou um objeto cinzento e metálico para Francesco. – É uma arma? – perguntou Hannah com a voz esganiçada de espanto. Ele enfiou o objeto no bolso interno do blazer e respondeu: – Estamos na Sicília. – As armas são legais e liberadas aqui? Francesco lançou um olhar que Hannah imaginou ser para amedrontá-la.


– Espero pelo seu bem que não esteja carregada – prosseguiu ela. – Em especial quando a mantém tão próxima ao coração. – Então é ótimo que eu esteja viajando com uma médica. Ela sorriu. – Viu? Posso ser útil. Apesar de seu tom displicente a arma a enervava. Demais. Ter ouvido falar sobre a periculosidade de Francesco era uma coisa. Vê-lo manejar uma arma com o pouco caso de quem manejava uma caneta era outra coisa bem diferente. Está fazendo isso para causar impacto, disse Hannah a si mesma. Lembre-se, esta é uma aventura. – Para onde vamos? – perguntou após alguns minutos de silêncio. – Para meu clube noturno. Não levou muito tempo para estacionarem na frente de um enorme edifício de construção gótica com pilares à porta. – Isto é um clube? – ela se espantou. – Sim. Entre um bando de homenzarrões, ela o seguiu para dentro do prédio. Hannah estimou que o Palermo Calvetti’s devesse ser quatro vezes maior que o de Londres. Embora decorado de prata e púrpura como o outro e irradiando sofisticação, havia um ar mais cosmopolita ali. Uma jovem lustrando o balcão do bar praticamente virou uma estátua para se concentrar em Francesco. – Due caffé néri nel mio ufficio... dois cafés pretos no meu escritório – pediu ele enquanto passava pelo bar e por uma porta onde se lia Privato... Particular. Como na Inglaterra, esse escritório também era impecável. Dois de seus homens entraram ali com eles... os mesmos que protegiam o Calvetti’s inglês quando Hannah aparecera por lá havia apenas cinco dias. Francesco se dirigiu diretamente até um retrato pequeno na parede e pressionou os dedos nas bordas da moldura, que se abriu como se fosse a capa de um livro mostrando uma porta. – Outro esconderijo? – perguntou Hannah sem poder se conter. – É preciso – respondeu ele dando de ombros. – Por que facilitar as coisas para os ladrões? Hannah concluiu que seria mais fácil penetrar no cofre-forte do Banco da Inglaterra do que no império de Francesco Calvetti. Quando a porta interna se escancarou ela arregalou os olhos diante do espaço enorme lá dentro, muito maior do que julgaria pelo retratinho que a cobria. Arregalou os olhos mais ainda ao ver as sacolas de lona que Francesco retirou das prateleiras, e concluiu que estavam recheadas de dinheiro. Francesco conversou rapidamente com os dois seguranças enquanto pesava pilhas de notas em uma balança eletrônica e tomava apontamentos em um velho caderno espiral. Quando a jovem do bar entrou com os dois cafés e um açucareiro, Francesco colocou dois torrões em cada xícara, mexeu com a colher e entregou uma para Hannah, que se acomodara junto ao parapeito de uma janela. – Obrigada – murmurou ela, ridiculamente emocionada por ele ter se lembrado de como gostava do seu café. Se bem que não era difícil lembrar, refletiu ela, vendo-o tomar o seu exatamente igual.


O mesmo pensamento deve ter passado pela cabeça de Francesco, porque de repente seus olhos encontraram os dela, deixando os dois constrangidos. Mas ele logo desviou o rosto e continuou a fazer o que fazia. Hannah estava surpresa por ele permitir que entrasse naquele santuário com tanto dinheiro à mostra sobre a mesa. Então se lembrou da arma no bolso do blazer que Francesco colocara nas costas de uma cadeira. Olhando atentamente para os seguranças, Hannah pensou ver uma leve protuberância surgindo na região da panturrilha sob a calça preta de um deles. Uma arma também. Inquieta com a quantidade maciça de dinheiro à sua frente e pelo fato de estar sozinha em um escritório com três homens, sendo que dois deles definitivamente estavam armados, ela procurou seu celular para acalmar a crescente agitação. Passando em revista suas mensagens, o coração de Hannah se apertou. Melanie comunicava ter se decidido a respeito da festa do casamento. Hannah esperou que sua resposta parecesse bastante entusiasmada, porém não abriu o cardápio que a caçula enviara anexo, e passou para outro e-mail de trabalho. Aquele era o evento mais importante na vida de Melanie, porém, por mais que Hannah desejasse se entusiasmar com isso só sentia uma enorme tristeza com a data que se aproximava. – O que está fazendo? – perguntou Francesco um pouco depois, interrompendo a concentração dela. – Verificando minhas mensagens. – De novo? – Gosto de ficar informada o tempo todo sobre os progressos com certos pacientes – explicou ela, desligando o celular e enfiando de volta na bolsa. – Mesmo nos fins de semana? – Você está trabalhando – observou ela. – Esse é o meu negócio. – E a sobrevivência e recuperação de meus pacientes é o meu negócio. Ela não sabia o que se passava por trás dos olhos cor de calda de chocolate, mas a julgar pelo queixo empinado e os lábios apertados concluiu que era algo desagradável. Alguns minutos mais tarde o trabalho terminara, e os dois seguranças colocaram todo o dinheiro em uma grande mala. – Antes de ir ao banco, Mario – disse Francesco falando em inglês de propósito –, quero que mostre sua mão para a nossa médica aqui presente. Aparentemente as armas não haviam produzido uma grande impressão em Hannah, a não ser um leve choque por ele andar armado na sua terra natal, porém Francesco tinha certeza que no próximo minuto mudaria a opinião de Hannah completamente. Mario obedeceu, estendendo para ela a mão com os dedos desfigurados. Ela olhou bem de perto e depois segurou a mão enorme na sua, esfregando os dedos sobre a pele arruinada. Francesco sentiu como se um punhal trespassasse seu peito. Respirou fundo pelo nariz, cerrando os punhos. Disse a si mesmo que Hannah estava apenas examinando a mão de Mario como uma profissional. Mesmo assim, rangeu os dentes. – Que está vendo? – perguntou.


– Uma mão que foi quebrada em vários pontos... os dedos foram quebrados um a um como se algo muito pesado tivesse caído sobre eles. – Diagnóstico perfeito. Agora, Mario, gostaria que contasse à dra. Chapman quem quebrou sua mão e esmagou seus dedos. Se Mario fosse capaz de demonstrar surpresa esse seria o momento certo. Mas apenas seus olhos brilharam com maior intensidade ao fitarem Francesco, que acenou incentivando para que ele continuasse. Essa era uma história sobre a qual não se discutia ou mesmo se aludia há muitos anos. – Signor Calvetti. Foi ele quem fez isso – murmurou Mario. Hannah ergueu os olhos rapidamente para Francesco. – Seu pai? De maneira deliberada, ele cruzou os braços sobre o peito e afastou mais as pernas. – Não. Não foi meu pai. Ela arregalou os olhos. – Você? – Sí. Peguei Mario roubando meu pai. Dê mais uma olhada na mão dele. É isso que se faz com ladrões no meu mundo.


CAPÍTULO 5

FRANCESCO MANTEVE os olhos pregados em Hannah, esperando uma reação além da sua boca aberta de horror. Vê, diziam seus olhos, você queria uma prova? Bem, aqui está. Ela fechou os olhos e balançou a cabeça. Quando voltou a abri-los, fez mais uma inspeção cuidadosa na mão de Mario. – Essas cicatrizes parecem antigas – comentou. – Têm quase vinte anos – explicou Mario em seu inglês precário. – Tudo bem. Pedi por isso. – O quê... você pediu para ter a mão esmagada? – O que ele quer dizer é que cometeu o crime sabendo qual seria sua punição caso fosse pego – explicou Francesco. Ela estreitou os olhos e aquiesceu com um gesto de cabeça. – E mesmo assim, Mario ainda trabalha para você e você confia tanto nele a ponto de lhe entregar grandes quantias de dinheiro. E, se estou certa do que vi, Mario carrega consigo uma arma que nunca apontou contra você. Como Hannah conseguia? Voltara a virar o assunto para ele de novo. – Não creia que houve benevolência de minha parte – retrucou Francesco asperamente, antes de acenar para Mario se retirar; o segurança e seu colega saíram deixando Francesco e Hannah a sós. Hannah permaneceu encostada no parapeito da janela, o cabelo agora parecendo uma colmeia com as abelhas entrelaçadas. Cruzara as pernas e o vestido azul-claro subira até as coxas. Era uma das peças de roupa mais feias que ele já vira em uma mulher: sem formas, abotoado de cima a baixo, sem dúvida visando o conforto e não a elegância. E mesmo assim... era extremamente atraente pelo fato de despertar a imaginação para o que havia por baixo dele... – O que Mario roubou? – perguntou Hannah. – Trabalhava como garçom em um dos restaurantes de meu pai e cometeu o erro de se apropriar de algum dinheiro da caixa registradora. – Quanto ele roubou? – insistiu Hannah. Sua displicência desaparecera. Francesco ficou feliz pelo tom de voz preocupado dela. – Não me lembro. Algo equivalente a cem libras.


– E você o aleijou por causa de cem libras? Francesco aprumou os ombros, ficando ainda mais alto. – Mario sabia dos riscos que corria. – Muito justo – disse ela em um tom que significava exatamente o oposto. – Por que você não chamou a polícia simplesmente? – A polícia? – Uma risada rouca escapou da garganta de Francesco. – Temos nossa própria maneira de lidar com essas coisas. – E se ele roubou de seu pai, por que foi você a aplicar o castigo? Francesco se lembrava muito daquele dia. Pegara Mario em flagrante. Não houvera alternativa a não ser confrontá-lo. Francesco fizera com que o outro esvaziasse os bolsos, seu pai entrara nesse momento e exigira saber o que estava acontecendo. Com que clareza Francesco se lembrava da sensação de náusea na boca do estômago quando Mario confessara, encarando Salvatore nos olhos. E com que nitidez também recordava ter pensado que iria vomitar quando Salvatore o fitara e dissera: – Sabe o que deve ser feito. Francesco sabia. E Mario também, pois seu próprio pai trabalhara para Salvatore e para o pai de Salvatore antes. Ambos sabiam o que iria acontecer. Era hora de Francesco provar ser um homem aos olhos de seu pai, algo que Salvatore esperava havia anos, algo que ele também esperara havia anos, uma chance de conquistar o respeito do pai. Mas como explicar para Hannah que aquilo tinha sido um verdadeiro presente do destino? Recusar jamais fora uma opção. E por que se importava em dar explicações? Francesco Calvetti não dava explicações para ninguém. Não se explicava desde que vomitara na privacidade de seu banheiro depois de fazer o que precisava ser feito, e apenas quando teve certeza que ninguém o ouviria. Fora a última vez em que se permitira reagir com emoção. Certamente a última vez que se permitira qualquer tipo de vulnerabilidade. Do dia para a noite pusera para trás sua meninice, embora não tivesse sobrado muita coisa depois que sua mãe morrera de overdose. – Fiz porque era preciso e fora eu a pegar Mario em flagrante. Hannah manteve os olhos fixos nele. Não demonstrava a desaprovação ou o nojo que ele esperara ver. Tudo que havia no rosto dela era algo que lembrava muito a compaixão... – Devia ser um menino naquela época – murmurou Hannah afinal. – Tinha 17 anos. Já era um homem. – E quantos anos tinha Mario? – A mesma idade. – Não passavam de crianças – lamentou Hannah. – Sabíamos o que fazíamos – disse ele com agressividade. – E depois daquele dia não fomos mais crianças. – Acredito. E quantas pessoas mais você aleijou nos anos seguintes? – Algumas. Existem momentos em que é preciso dar exemplos.


A violência fizera parte da vida dele desde pequeno. Sua mãe tentara protegê-lo dos excessos de seu pai, porém fora em vão. A primeira recordação de Francesco era estar olhando pela janela de seu quarto testemunhando o pai surrar um homem sobre a capota de um carro. O homem era segurado por dois empregados de Salvatore. A mãe de Francesco ficara horrorizada quando vira o filho assistindo aquela cena e o arrastara para longe da janela, cobrindo seus olhos. Apenas dez meses antes, Francesco soubera que os hematomas que costumava ver no corpo dela eram também provocados por seu pai, e não por quedas ou esbarrões desajeitados. Francesco passara a vida idolatrando o pai. Sem dúvida houvera coisas com as quais nunca se sentira bem, mas Salvatore era seu pai, ele o amara e respeitara. Após sua morte há quatro anos, algumas verdades foram reveladas sobre os negócios de Salvatore, como a importação de drogas. Tinha sido um duro golpe para suportar que o deixara doente. Porém descobrir a verdade sobre o que Salvarore fizera com sua mãe abalara as bases do mundo de Francesco. As paredes do escritório começaram a se fechar sobre ele. O ar-condicionado estava ligado, mas o suor molhava suas costas. HANNAH FITOU atentamente os lindos olhos cor de chocolate. Com os anos de prática que adquirira lendo as expressões faciais de seus pacientes, podia enxergar além do exterior de Francesco. Havia dor em seus olhos. Muita dor. – O que há em mim que o assusta tanto? – perguntou ela com simplicidade. Ele curvou os lábios em um esgar de ironia. Levantando da cadeira que ocupava, caminhou até Hannah como uma pantera. – Acha que me assusta? – Que outro motivo existe para se empenhar tanto em me chocar, me ver fugir e me fazer odiá-lo? Porque é exatamente isso que está fazendo, não? Tentando me fazer odiá-lo? Ele ficou imóvel, a silhueta maciça bloqueando a visão de tudo o mais. Ela estendeu a mão e o tocou no peito. – Aposto que nunca tratou uma mulher assim antes. – Assim como? – perguntou ele com aspereza, inclinando-se e quase encostando o rosto ao dela, próximo o suficiente para que Hannah sentisse seu hálito quente. – É você quem tem noções tolas e românticas a meu respeito. Alertei desde o início que não pertencia ao meu mundo, mas mesmo assim você insistiu. – Então tudo isso é para que veja seu verdadeiro eu? – Tínhamos um acordo, dra. Chapman – replicou ele, agarrando a mão que ainda tocava seu peito, e entrelaçando os dedos. Apertou, mas não a machucou. Porém, isso poderia acontecer, ele podia causar dor. – Garanti que ao final de nosso tempo juntos seria o último homem para quem desejaria ofertar sua virgindade. Ela apertou os dedos dele também, sorriu e inclinou a cabeça para um lado. Suas bocas estavam tão próximas que poderiam se tocar... – Se quer mesmo provar isso, então me machuque, não fique apenas ameaçando. Tem o dobro do meu tamanho... não terá nenhum problema em me agredir se assim desejar. Oh, ela estava brincando com fogo. Não precisava que Francesco a alertasse sobre isso, entretanto apesar de tudo que vira nas duas horas em que se encontrava no seu país, Hannah


sabia no mais fundo de sua alma que ele jamais a machucaria, não profundamente. Se os olhos de uma pessoa podiam cuspir fogo, era isso que acontecia com Francesco nesse momento. Porém havia mais alguma coisa, algo que o fazia acelerar a respiração. – Vê? – comentou Hannah após alguns segundos. – Você não pode me machucar. – De onde vem sua fé em mim? – perguntou ele com voz rouca. – Vem daqui – respondeu ela, encostando as mãos entrelaçadas no próprio peito e pressionando sobre o coração. – Vi a bondade em você. Por que tem tão pouca fé em si mesmo? – Não tenho ilusões sobre meu caráter. Dedicou sua vida a curar crianças doentes, enquanto a minha gravita em volta do poder e do dinheiro, e tudo de ruim que isso atrai. – Seu poder e dinheiro nada significam para mim. Um resmungo escapou dos lábios dele e proferiu palavras que Hannah não entendeu; depois passou a mão livre pelo pescoço dela e a beijou na boca. Hannah prendeu a respiração. Não fizera ideia de como seria beijar Francesco, e jamais imaginara o nível de adrenalina que percorreria suas veias e engrossaria seu sangue diante da sensação dos lábios firmes que não se moviam, apenas pressionavam. Retribuindo a pressão, ela colocou a mão em sua face, acariciando a pele macia, e entreabriu os lábios enfiando a língua em sua boca. Francesco começou a respirar depressa. Apertou e depois soltou seu pescoço, deslizando os dedos para sua cintura e a apertando contra o peito, enquanto também mergulhava a língua em sua boca. Hannah pareceu se dissolver, e os dois corpos se fundiram no beijo esfomeado e intenso. O gosto de Francesco era divino, uma mistura de café, paixão e algo mais que Hannah só podia imaginar que fosse uma qualidade sua, pessoal, e que incendiava seus sentidos. No seu íntimo, as pulsações que sentira pela primeira vez quando ele a tocara em seu escritório de Londres começaram a vibrar de novo. E pensar que vivera até os 27 anos sem ter experimentado isso. Deslizando a mão de sua face para o colarinho da camisa, apertou com a ponta dos dedos o pescoço musculoso, se maravilhando com sua força e com o poder que jaziam sob a pele. Não era o poder que advinha de sua situação no mundo que a atraía tanto, pensou em meio ao marasmo de seu cérebro; era o poder latente de sua masculinidade e de seu interior. Antes que todas as sensações maravilhosas que surgiam dentro dela pudessem fazer sentido, Francesco se afastou... ou, melhor dizendo, se desligou da conexão física que os unia. Com o peito arfando sem parar, ele deu um passo atrás, limpando a boca com as costas da mão, como se desejasse se livrar do gosto de Hannah. – Sei que meu poder e dinheiro nada significam para você – concordou ele como se cuspisse as palavras. – É por isso que um envolvimento nosso é errado em todos os sentidos imagináveis. Hannah tentou superar a humilhação que esquentava seu corpo da cabeça aos pés diante da abrupta rejeição. – Não sei quantas vezes mais terei que dizer isso, mas não quero me envolver com você, não de verdade. Só desejo experimentar um pouco da vida que todas as outras mulheres têm naturalmente, porém que eu nunca tive. – E você deve experimentar isso, mas com alguém que possa lhe dar um futuro. – A medicina é meu futuro.


– E isso a impede de construir um futuro com um homem, não é? Sem se dar o trabalho de ocultar a irritação, ela balançou a cabeça com força. – Estou casada com meu trabalho, e é assim que gosto. Quero me especializar e trabalho muito para isso. Não jogarei isso fora por causa de um relacionamento pessoal que jamais iria me preencher nem um décimo como minha carreira preenche. – Como pode saber se nunca tentou? Ela apertou os lábios. Uma discussão profunda e significativa sobre seus motivos para não querer um relacionamento não fazia parte de seus planos. – Apenas sei, está bem? – Seu trabalho jamais irá aquecê-la na cama à noite. – Minha bolsa de água quente é ótima para isso e, além do mais, que direito você tem de me questionar? Não vejo uma aliança no seu dedo, e se a internet está certa como você alega, parece ter fobia a relacionamentos sérios. E isso era algo que fazia parte da lista mental de Hannah a respeito de Francesco; ele parecia fugir de qualquer coisa que pudesse ser permanente além dos negócios. A expressão dele se tornou sombria. – Tenho minhas razões para não querer casar. – Bem, e eu tenho as minhas também. Por que não respeita isso? Francesco respirou fundo e deixou escapar o ar dos pulmões lentamente. Por que não podia simplesmente tomar o que Hannah lhe oferecia sem questionar? Seu corpo lhe dizia para aceitar, levá-la para a villa e possuí-la do jeito como ela pedira, até saciá-la e deixá-la incapaz de raciocinar. Mas mesmo se levasse seu pedido ao pé da letra e aceitasse que só lhe pedia uma noite, não mudava o fato de que possuí-la iria prejudicá-la. Hannah merecia alguém melhor que o filho de Salvatore Calvetti, mesmo que não percebesse isso. E Francesco abriria seus olhos. – Vamos sair daqui – disse ele, incapaz de suportar a claustrofobia entre quatro paredes ao lado de Hannah Chapman. – Vou levá-la às compras. – Compras? – Precisa de um vestido para esta noite. – Por quê? O que acontecerá esta noite? – Vamos ao meu cassino. Haverá um torneio de pôquer que preciso supervisionar. Não a quero ao meu lado vestida como uma mendiga. Hannah empalideceu diante das palavras cruéis, porém Francesco não cedeu e mordeu a língua para não se desculpar. Na verdade, havia algo de muito sexy na maneira despojada e sem vaidade de Hannah, como se ela se sentisse sempre confortável do jeito que estava, e quanto mais ele ficava na sua companhia mais achava isso sensual. UMA MENDIGA. Francesco olhava para ela e via uma mendiga? Hannah foi largada em uma loja de grife, enquanto Francesco desaparecia, deixando um motorista à disposição dela com as palavras:


– Encontrarei você na minha villa dentro de algumas horas... Compre o que quiser e debite na minha conta. Hannah ainda não sabia se desejava rir ou dar um soco no nariz dele. Experimentando o que deveria ser o décimo vestido no provador, ela refletia sobre as palavras de Francesco. Muito bem, a aparência nunca fora sua prioridade, mas será que parecia mesmo uma mendiga? Em geral comprava roupas pela internet quando as que já possuía começavam a se desintegrar. Escolhia roupas baseadas na praticidade e no conforto para trabalhar. Roupas eram apenas um modo de manter o corpo aquecido. Quanto ao cabelo... bem, quem tinha tempo para ir ao cabeleireiro com regularidade? Por certo não médicas trabalhadoras que tentavam lutar pelo seu espaço. E se as colegas de Hannah davam um jeito de ir ao salão de beleza regularmente, melhor para elas. Porém precisava admitir que seu cabelo andava um pouco desarrumado nos últimos tempos. Tentou se lembrar quando fora a última vez que os cortara. Mas não lembrou. Contudo, lembrava-se da primeira vez que sua mãe a levara com Beth a um cabeleireiro. Fora no aniversário de 11 anos das gêmeas e as duas se sentiram tão adultas. E elas haviam cuidado bem de seus cabelos depois da visita ao salão de beleza, usando religiosamente o condicionador para amaciá-los. Hannah tentou lembrar qual fora a última vez que usara condicionador. Também não lembrou. Seria possível que tivesse passado os últimos 15 anos sem dar um bom corte no cabelo ou usar condicionador? Uma lembrança distante a assaltou; sua mãe batendo na porta do seu quarto, dizendo que era hora de ir ao cabeleireiro. Hannah lembrou do nó na garganta e no estômago e de sua recusa em ir. Como podia quando Beth não estaria lá com ela? Mas não externara isso em voz alta. Não precisara. Sua mãe não a pressionara para ir ao cabeleireiro naquele dia e nunca mais tornaram a falar nisso. Cabeleireiros, maquiagem, todas essas coisas que acompanhavam uma garota foram banidas da vida dela. Como deixara que isso acontecesse? Após escolher um vestido e um par de sapatos com a bolsa combinando, além da lingerie sexy que a fez corar ao tocar o tecido sedoso, entregou os artigos para a gerente junto com seu cartão de crédito. – Signor Calvetti disse que vai tratar do pagamento – disse a gerente. – Sei disso, mas posso pagar pelas minhas roupas, obrigada. – São muito caras. – Posso pagar. – E a verdade era que podia mesmo. Hannah não frequentava bares nem saía com amigos... a despedida de solteira de Melanie fora a primeira noite em que saíra nesse ano, e depois de pagar a hipoteca e outras contas domésticas mensalmente seu único gasto era com comida que, no seu caso, não era muito alto. Além disso, Hannah não dirigia. Suas únicas viagens eram as visitas mensais à casa dos pais em Devon, e para isso pegava carona com Melanie e o futuro cunhado. Suas colegas, em especial as de sua idade, quase sempre se queixavam de estar sem dinheiro. Hannah, que não gastava em quase nada, já tinha uma boa poupança.


Como chegara a isso? Uma coisa era poupar dinheiro para uma eventualidade, mas, na verdade, ela já tinha uma quantia guardada que daria para dezenas de eventualidades sem que precisasse se preocupar. Entretanto, a gerente da loja parecia relutante em aceitar seu cartão. – Ou a senhora aceita meu cartão ou irei procurar outra loja – ameaçou Hannah, apesar de usar um tom de voz conciliador. Sorriu para a pobre mulher. – Acredite, meu crédito é suficiente. – Mas, signor Calvetti... Ah. Por fim a ficha caiu. A gerente não estava preocupada com o crédito dela, nem duvidava que houvesse fundos em seu cartão; o problema era que temia o que Francesco poderia fazer quando soubesse que suas ordens não haviam sido obedecidas. – Não se preocupe com ele – disse Hannah.– Vou deixar claro que insisti em pagar. Ele está aprendendo o quanto posso ser teimosa quando quero alguma coisa. Com grande relutância a gerente aceitou o cartão de Hannah. Menos de um minuto depois a compra fora realizada, e Hannah gastara mais naquela loja do que com todo o seu guarda-roupa desde que saíra da faculdade de medicina. – Por acaso a senhora conhece um cabeleireiro por aqui que possa me atender sem hora marcada? A mulher observou mais de perto a cabeleira de Hannah, e tentou sorrir. – Para a namorada do signor Calvetti qualquer salão em Palermo estará disponível. Deseja que eu dê um telefonema? Namorada do Signor Calvetti... essas palavras causaram um calor agradável no corpo de Hannah e que circulou por suas veias como se tivessem lhe injetado uma droga. – Muito gentil de sua parte, obrigada... Direi para Francesco como foi atenciosa comigo. Cinco minutos depois Hannah deixou a butique com uma vendedora que pessoalmente a conduziu a pé até o luxuoso salão de beleza enquanto o motorista e segurança a seguia com o carro em marcha lenta. O salão estava repleto de mulheres que, sem dúvida, pertenciam à elite da sociedade siciliana, mas mesmo assim Hannah foi tratada como uma celebridade ou uma rainha. Estilistas e assistentes voejaram ao seu redor enquanto iam lhe servindo xícaras e mais xícaras de um delicioso café. Ao final, quando recebeu a conta, Hannah se portou de maneira admirável, evitando gritar de horror com os preços. Ora, tudo bem, disse a si mesma enquanto entregava seu cartão de crédito para voltar a ser dilapidada. Sem dúvida valeria a pena. Estava determinada a fazer com que, depois dessa noite, Francesco nunca mais a julgasse uma mendiga.


CAPÍTULO 6

HANNAH ESTAVA demorando tanto nas compras em Palermo que Francesco começou a acreditar que ela pensara melhor e embarcara em um avião de volta a Londres. Poderia descobrir isso chamando o segurança que deixara incumbido de acompanhá-la, porém resistiu a cada vez que estendia a mão para o telefone. E resistiu por mais de duas horas. Portanto, quando o carro blindado de quatro portas parou nos portões da villa ao cair da tarde, Francesco esperou que Hannah descesse carregada de sacolas e embrulhos, enlouquecida com o cartão de crédito que ele disponibilizara. Provavelmente já estaria vestida com uma das novas roupas que comprara. Mas, ao contrário, ela surgiu galgando os degraus que conduziam à entrada principal da villa ainda usando o velho e feio vestidinho. Tudo que trazia eram sua bolsa e duas sacolas, além de uma echarpe azul-marinha na cabeça. Parecia mais desleixada do que quando ele a deixara na butique. Mesmo assim seu coração acelerou ao vê-la. Respirou fundo para controlar a velocidade de sua pulsação e abriu a porta da frente. Hannah estava parada no degrau de cima. – Esta é sua residência? – perguntou ela com os olhos brilhando. – Sì. – É fabulosa. Francesco precisou de todo o controle para não curvar os lábios em um sorriso. – Obrigado. Deu um passo para o lado a fim de deixá-la entrar. – Demorou muito – comentou, logo em seguida ralhando consigo mesmo por ter externado sua preocupação. – A gerente da butique... mulher maravilhosa, diga-se de passagem... conseguiu um horário para mim em um cabeleireiro. – Cortou o cabelo? – De fato, Francesco sentia um aroma especial que era próprio dos salões de beleza, uma mistura de perfume e odor químico, e Hannah estava impregnada disso. – Mais ou menos. – O rosto dela se iluminou com um brilho travesso. – Mas você terá que esperar para ver... o cabeleireiro enrolou meu cabelo na echarpe para que o vento não o


danificasse. – Hannah girou para todos os lados. – Não consigo acreditar que esta é sua casa. Mora aqui sozinho? – Tenho meu pessoal, mas todos moram em alas separadas. – É incrível. De verdade. Incrível. A residência de Francesco era seu motivo de orgulho, seu santuário longe de uma vida repleta de perigos ocultos, e o entusiasmo infantil de Hannah enchia seu peito de felicidade. – Quem diria que a vida de gângster dava tanto dinheiro? – O sorriso dela contradizia as palavras mal-educadas, e revelava que estava apenas brincando. Soltou uma gargalhada notando a indiferença dele. – É você quem está tentando me convencer que é um gângster. Não me culpe. – E você não tem papas na língua, hein? Ela torceu o nariz. – Bem... creio que não. Na verdade nunca pensei nisso. – É muito revigorante – admitiu Francesco, surpreso com as próprias palavras. – Sério? E isso é bom? – A maioria das coisas revigorantes são boas. – Nesse caso... excelente. É bom saber que existe algo em mim que você aprova. – Apesar do tom leve, ele percebeu uma pontada parecida com irritação. Francesco, não gostou disso, se aproximou mais e a segurou pelo pulso. – Quando vai aprender, dra. Chapman, que minha aprovação não deve importar a uma mulher como você? – E quando vai aprender, signor Calvetti, que posso ser uma médica, mas também sou um ser humano? Agora ele tinha certeza que a pontada que percebera em sua voz era de reprovação. Sem dúvida devia se sentir feliz por Hannah começar a ver quem ele era de verdade. Então por que isso o deixava tão desconfortável? – Acredite, dra. Chapman – disse ele pondo uma ênfase deliberada no título –, estou ciente que por baixo de sua aparência caótica existe uma mulher. Um sorriso pairou nos lábios dela, não tão reluzente de alegria como ele já estava se acostumando a ver, mas quase envergonhado, e duas rosas rubras surgiram em suas faces. Enfiando as mãos nos bolsos para não cair na tentação estúpida de agarrá-la, Francesco inclinou a cabeça para a esquerda. – Se for naquela direção passará por várias salas até chegar à piscina coberta. Pode usá-la à vontade, embora talvez prefira a outra ao ar livre. E passando pela outra porta da piscina entrará na cozinha. Caso tenha fome meu chef irá providenciar alguma coisa, mas sugiro que não coma muito porque iremos jantar no cassino. – Vamos mesmo jantar fora? – Sim. Vou lhe mostrar seu quarto de hóspedes. – Só serei sua hóspede até amanhã – enfatizou Hannah com delicadeza, refreando a pergunta se iria dormir no quarto dele, mas já sabia a resposta. A casa de Francesco era uma beleza, um enorme palácio branco suspenso sobre as rochas na colina. Subindo os degraus até a porta principal ela sentira a fragrância de flores e de limões tão forte que ficaria feliz em se deter ali por horas. Se não estivesse tão ansiosa para ver Francesco teria feito isso mesmo.


Sempre soubera que ele era muito rico, mas mesmo assim... Parecia ter entrado no espelho de Alice no País das Maravilhas e aterrissado em um universo paralelo. Hannah o seguiu por enormes arcadas brancas e um chão de ardósia, passando pelos móveis exóticos, e subindo uma escada de pedras até chegar a um longo e irregular corredor. – Antes isto era uma caverna? – perguntou. Ele riu. Francesco acabava de rir com vontade. Não fora uma gargalhada que abalara as paredes e o teto, mais um risinho discreto, porém havia sido um começo, e o coração de Hannah bateu mais forte. – Sua história original é um pouco misteriosa – respondeu ele, abrindo uma porta ao final do corredor. – Este é seu quarto. Hannah tampou a boca com a mão para sufocar um gritinho animado. Aos poucos foi assimilando o que via: a cama de colunas, as cores vibrantes, o terraço particular com vista para a piscina externa... – Uau! – exclamou quando se sentiu capaz de falar sem soar como uma garotinha boba de escola. – Se não tivesse que voltar ao trabalho na segunda-feira ficaria tentada a reivindicar a posse deste quarto. – Ainda acredita que irei levá-la de volta a Londres em tempo? Como resposta ela ergueu os olhos em um gesto de impaciência. – Esperemos que sua fé em mim seja justificada – comentou ele. – Se acontecer de estar errada... pegarei meu próprio voo de volta – disse ela. – E quanto ao seu passaporte? Vai precisar dele para deixar o país. – Meu passaporte está na bolsa. – Tem certeza? – Diante da expressão confusa de Hannah, Francesco se inclinou na sua direção e murmurou ao seu ouvido: – Um conselho, dra. Chapman... quando estiver na companhia de criminosos, jamais deixe sua bolsa aberta com o passaporte e o celular dentro. Assim dizendo ele caminhou devagar até a porta, dando um tapinha no bolso de trás da calça para enfatizar suas palavras. – Esteja pronta para sair dentro de duas horas. Hannah o viu fechar a porta do quarto e depois enfiou a mão na bolsa. Inacreditável! No pouco tempo em que estava naquela casa, Francesco removera silenciosamente seu passaporte e celular, e ela nada percebera. Deveria ficar furiosa. Muito zangada. Francesco estava com seu passaporte... e assim a prenderia naquele país... porém, era a respeito do celular que sentiu uma onda de ansiedade. Precisava dar crédito a Francesco por continuar tentando ser o pior possível com ela, porém Hannah não permitiria de jeito nenhum que confiscasse suas coisas. Tinha certeza que pela manhã ele devolveria tudo. Manhã... Antes da manhã havia a noite. Um tremor percorreu seu corpo ao pensar o que essa noite poderia trazer. FRANCESCO SE sentara no sofá confortável, verificando detalhes do evento sobre uma das inúmeras corridas automobilísticas que costumava patrocinar, quando ouviu um movimento


atrás das arcadas que dividiam a sala de estar da biblioteca. Aprumando-se, torceu o pescoço para ver melhor. Distinguiu uma mancha azul que desapareceu antes de ressurgir na forma de um corpo. O corpo de Hannah. O incrível corpo de Hannah. O queixo de Francesco caiu. Ali estava ela de pé, sem dúvida lutando contra o constrangimento, até que abriu os braços e disse: – O que acha? Ainda pareço uma mendiga? Mendiga? Ele podia pensar em uma centena de palavras para descrevê-la, mas o adjetivo que surgiu na frente de todos em sua mente foi deslumbrante. Embora o vestidinho azul que ela trocara no avião fosse um trapo e caísse muito mal, esse outro também azul estava a milhões de quilômetros de distância. Era de seda no estilo oriental com flores estampadas, e se ajustava ao corpo dela como uma carícia, chegando até acima dos joelhos e revelando pernas incrivelmente bem torneadas. E quanto ao cabelo? Qualquer preço que o cabeleireiro tivesse cobrado jamais seria o suficiente. A cabeleira pesada com fios que pareciam palha desaparecera. O cabelo de Hannah estava contido em um coque torcido e preso com varetas pretas. Não estava mais arrepiado. E se Francesco não se enganara, uma tintura fora aplicada transformando as mechas de vários tons em cor de mel. Hannah também usava maquiagem; seus olhos estavam delineados com cor escura, que realçava o tom de avelã, e os lábios estavam pintados de vermelho-cereja... Ela estava linda. E mesmo assim... Francesco odiou. Já não se parecia com a Hannah que conhecia. – Não. Não parece mais uma mendiga. – Bem, que alívio. – Ela caminhou pela sala com sapatos de saltos altos que a faziam oscilar... mas não eram tão altos como muitas outras mulheres usavam... e parou na frente de Francesco com a mão estendida. Nenhuma manicura tocara nas unhas curtas, e isso o deixou mais aliviado. – Pode me devolver o celular, por favor? – Poderá tê-lo de volta quando deixar a Sicília. – Gostaria que devolvesse agora. – Por qual motivo? – Já disse... gosto de me manter atualizada sobre a situação de meus pacientes. – E o que pode fazer por eles aqui? – Não me preocupar. Se não houver notícias é porque está tudo bem. – Então parece que estou lhe fazendo um favor. – Mas como vou ficar sabendo se não há notícias? Fico preocupada. Ocultando a irritação, ele retrucou: – Todos os médicos são assim preocupados com seus pacientes? Ela comprimiu os lábios. – Não sei. Não é da minha conta o que fazem os colegas nas suas folgas.


– O que aconteceu com a distância profissional? Pensei que vocês médicos fossem treinados para não se envolver emocionalmene com os pacientes – comentou Francesco. Um brilho belicoso surgiu nos olhos de Hannah, que respondeu: – Checar se meus pacientes estão bem vai contra meu profissionalismo? – Só fiz uma pergunta. – Ele deu de ombros. – Bem, então não faça. Não permitirei que meu profissionalismo seja questionado por você ou qualquer outra pessoa. Era a primeira vez que Francesco a via levemente agressiva. Sem dúvida atingira um ponto nevrálgico, refletiu. Analisando-a com cuidado, ficou de pé. – Creio que lhe fará bem passar uma noite longe do celular. Hannah abriu a boca para argumentar, mas ele colocou um dedo sobre seus lábios. – Não pretendi questionar seu profissionalismo, entretanto não estou preparado para passar a noite com alguém que não esteja concentrada no que acontece em volta. Ficar sempre no celular é falta de educação. As faces dela ficaram rubras e seus olhos brilharam de novo em desafio. – Farei um trato com você – prosseguiu Francesco com voz macia. – Disse que quer experimentar tudo que o mundo tem a proporcionar, porém não será uma experiência completa se ficar preocupada com seus pacientes. Se soltar o cabelo e aproveitar o que o cassino tem a oferecer, devolverei seu celular quando retornarmos à villa. Pela primeira vez desde que o conhecera Hannah desejou esbofetear Francesco. Tudo bem, que retivesse seu passaporte até a hora de voltar... isso não a preocupava. Sabia que o teria de volta. Também sabia que ele devolveria o celular mais cedo ou mais tarde, mas precisava dele agora. Necessitava se sentir conectada com a enfermaria. E como ele ousara insinuar que ela não sabia manter distância emocional dos pacientes? Sabia sim. Porém se recusava a perder a empatia. Seus pacientes eram sua bússola na vida. Jamais permitiria que um de seus pequeninos fosse parar nas mãos de um médico desumano. Jamais. Não podia. Já tivera uma experiência ruim, e embora nada pudesse mudar a dor, um pouco de compaixão teria ajudado a suportar melhor. Por fim respirou fundo e brindou Francesco com seu primeiro sorriso fingido. – Certo. Mas se quer que solte o cabelo e me divirta é justo que faça o mesmo. Afinal – acrescentou com displicência –, diria que de nós dois você é o mais viciado em trabalho. Pelo menos eu descanso nos fins de semana. O CASSINO Calvetti’s era um prédio gigantesco, um legado barroco de quatro andares no coração de Palermo. Hannah seguiu Francesco no primeiro lance de escadas até um salão enorme repleto de mesas de jogo e máquinas caça-níqueis até onde a vista podia alcançar. Era como entrar em uma versão de bom gosto de Las Vegas. Flanqueados pelo guarda-costas, continuaram subindo até o terceiro andar, e ali um grupo de homens de preto abriu caminho para que entrassem em um salão que parecia virtualmente idêntico ao do segundo andar. Foram precisos alguns segundos para Hannah perceber qual era a sutil diferença.


O andar de baixo estava cheio de jogadores comuns. O terceiro andar, que tinha cerca de um quarto apenas dos frequentadores, sem dúvida era o domínio dos muito ricos. Permanecendo bem perto de Francesco ela absorveu tudo: as bordas douradas das mesas, as lindas mulheres presentes, os homens de smoking... que não se comparavam à elegância de Francesco de smoking também. Após conversar com algumas pessoas como bom anfitrião, ele passou um braço pela cintura de Hannah e a conduziu até o restaurante atrás de portas duplas. E que restaurante! Vistoso, mas elegante ao mesmo tempo. – Os frequentadores do segundo andar podem jantar aqui? – perguntou ela depois que um obsequioso maître os conduziu a uma mesa do canto. – Eles têm seu próprio restaurante – respondeu Francesco abrindo o cardápio com capa de couro. – Mas podem comer aqui? – O terceiro andar é destinado apenas aos sócios. Qualquer um pode ser sócio contanto que pague a taxa de inscrição de cinquenta mil euros e os dez mil euros anuais. Ela piscou diversas vezes, chocada. – As pessoas pagam tudo isso? – Pagam pela exclusividade... e a lista de espera é mais longa do que a de sócios atuais. – É espantoso. Sinto-me uma penetra. Hannah só percebeu que ele andara evitando seu olhar quando ergueu o rosto para fitá-la. – Você está comigo. O tom possessivo acelerou o pulso de Hannah, e ela esqueceu que estivera tão zangada por Francesco se recusar a devolver seu celular. – Então, que prato recomenda? – quis saber quando conseguiu falar com naturalidade. – Todos. Hannah riu de modo mais nervoso que alegre. Um garçom se aproximou, perguntando: – Posso portare le bevande? Francesco respondeu também em italiano. – Ele queria saber o que vamos beber – explicou para Hannah quando o empregado desapareceu. – Pedi uma garrafa de Shiraz. – É um vinho? – Sim. E o Shiraz que vendemos aqui é da melhor qualidade. – Não tomo vinho. Tomarei um refrigerante. Um brilho astuto surgiu nos olhos dele. – Já bebeu vinho alguma vez? – Não. – Qualquer tipo de bebida alcoólica? – Tomei uns goles de champanhe na despedida de solteira de Mel. – De repente Hannah lembrou que a festa da irmã ocorrera poucas horas atrás. Onde fora parar o tempo? Parecia que estava vivendo uma outra vida nesse curto espaço de horas. – E foi a primeira vez que provou álcool? – insistiu Francesco. Hannah o fitou, aquiescendo com um gesto de cabeça lento e o cérebro fervilhando. Afinal, qual era o objetivo de estar na Sicília a não ser explorar a vida ao máximo com Francesco?


– Talvez deva tomar um copo de Shiraz – murmurou. Ele concordou com entusiasmo. – Sim, mas um copo pequeno. Seu organismo não está acostumado com o álcool. – Meu corpo não está acostumado com quase nada – corrigiu ela. O garçom voltou nesse instante com o vinho e uma jarra com água antes que Francesco tivesse tempo de questionar Hannah sobre o que quisera dizer com esse comentário. Quanto mais tempo passava com ela mais ficava intrigado. Nada parecia perturbá-la, exceto ter seu profissionalismo questionado, e ficar sem o celular. Ele a observou ler o cardápio, a testa franzida em concentração. – Que tal mexilhões? – perguntou Hannah. – São deliciosos. Ela sorriu. – Então vou querer. Uma travessa com antepastos foi trazida para mordiscarem enquanto aguardavam. – É presunto? – perguntou Hannah se servindo de uma fatia de prosciutto. – Parecido. Experimente. Ela enfiou na boca, mastigou e aprovou com um gesto de cabeça. Depois pegou uma pimenta assada. – Prove o vinho – pediu Francesco. – Devo sentir o aroma primeiro? – Se quiser. – Ele sufocou uma risada quando ela praticamente enfiou o nariz no copo. Depois tomou um pequeno gole. – Uau. Muito bom. – Sério que nunca bebeu vinho antes? – Sério. – Hannah enfiou uma azeitona verde na boca. – Por que não? Ela torceu o nariz. – Meus pais são abstêmios e nunca tínhamos bebidas alcoólicas em casa. Quando cresci o suficiente para experimentar, só vivia enfiada nos livros. Não permitiria nada que me desviasse do meu sonho de ser médica. Era mais fácil recusar bebidas. – Quantos anos tinha quando resolveu ser médica? – Doze. – Muito jovem para fazer uma escolha de vida – comentou ele. – A maioria dos jovens de 12 anos sonha com o que fará ao crescer – rebateu ela. – Concordo, mas a maioria muda de ideia com o tempo. – E o que você queria ser aos 12 anos? – Motociclista e corredor. – Posso vê-lo realizando esse ideal – admitiu Hannah. – Então o que o deteve? Ou apenas mudou de ideia? – Foi só uma quimera – explicou ele dando de ombros. – Eu era o filho único de Salvatore Calvetti. Desde o berço fui preparado para assumir seu império. – E como está indo com essa missão? Francesco a encarou com dureza.


– Sempre soube que construiria meu próprio império. Porém, estou interessado em saber o que a motivou para a medicina de início... foi a morte de sua irmã? Uma breve hesitação. – Sim. – Ela se chamava Beth? Mais um momento de hesitação seguido de um aceno de cabeça. Quando Hannah procurou o copo com água, Francesco notou o leve tremor em sua mão. Ela tomou um grande gole antes de encará-lo. – Beth contraiu meningite quando tínhamos 12 anos. Disseram que era gripe. O diagnóstico foi incorreto e depois foi tarde demais, ela morreu no espaço de 24 horas. Ela expôs os fatos cruéis de modo displicente, mas havia algo na maneira de aguentar a pose que partiu o coração de Francesco. – Então decidiu ser médica para salvar crianças como Beth? – É uma maneira simplista de encarar o assunto, mas sim. Lembro-me de caminhar pela enfermaria principal e passar por cubículos e quartos particulares cheios de crianças com suas famílias apavoradas. Fiquei tomada por... Oh, por todas as emoções que possa imaginar. – Hannah respirou fundo. – Por que ela? Por que não eu também? Meningite é tão contagiosa... – Balançou a cabeça. – Sei que deve julgar tolice e fraqueza, mas quando Beth morreu a única coisa que me fez continuar foi saber que um dia poderia curar o máximo possível de crianças. Francesco deixou escapar o ar dos pulmões, sentindo o peito cada vez mais apertado. – Não acho que seja tolo ou fraco – murmurou. Hannah tomou mais um gole de água. O tremor na mão piorara e de repente Francesco desejou apertar aquela mão com força. – Minha mãe foi hospitalizada algumas vezes... por uso de drogas – disse ele surpreso consigo mesmo por revelar isso. – Foi só com a dedicação dos médicos e enfermeiras que ela se salvou. Mas acabou falecendo de overdose em um fim de semana quando estava sozinha. E ele ainda vivia com essa culpa. Em termos racionais sabia que não deveria se culpar. Era um garoto na ocasião. Porém sabia como a mãe era vulnerável e mesmo assim viajara com o pai a deixando sozinha em um fim de semana para visitar os Mastrangelo. O motivo fora negócios, pois seu pai e Pietro Mastrangelo eram amigos íntimos e sócios. Pelo menos na época eram amigos, antes que a amizade entre as famílias Calvetti e Mastrangelo se transformasse em aversão. Entretanto, naquele tempo Francesco sentia muito orgulho de o pai desejar que o acompanhasse, e nem pensara na mãe. Enquanto Francesco e Salvatore passavam o sábado à noite comendo bem, tomando vinho e jogando cartas com Pietro e seu filho mais velho, Luca, Elisabetta Calvetti tomara uma overdose deitada na cama. Pensar na mãe morrendo enquanto ele, seu filho, se deleitava de orgulho porque o monstro que fornecia as drogas para ela o tratava como adulto... Pensar que a aprovação daquele bastardo significara algo para ele fazia seu estômago revirar enquanto cravava as unhas nas palmas das mãos. A mãe fora a criatura mais gentil e boa que já conhecera. Sua morte dilacerara a alma de Francesco. Sua vingança podia estar com duas décadas de atraso, mas a teria. Custasse o que custasse vingaria a morte de Elisabetta e atiraria a carcaça da reputação do pai no fogo.


– Tenho o maior respeito pela classe médica – disse devagar, flexionando as mãos que estavam crispadas, e sem saber o motivo para confiar esses assuntos particulares para Hannah. – Quando olho para você, dra. Chapman, vejo uma mulher cheia de compaixão, decência e integridade. O mundo que habito é regido pelo dinheiro, pelo poder e pela ganância. – Você é íntegro – contradisse ela. – Muito. – Nesse ponto vamos discordar. – Francesco acenou na direção do garçom que se aproximava de sua mesa. – Parece que os pratos principais estão prontos. Sugiro pararmos com esta discussão senão arruinaremos nosso jantar. Ela lhe lançou um sorriso tão meigo que, por um instante, Francesco temeu que seu peito estourasse.


CAPÍTULO 7

FELIZMENTE FRANCESCO manteve a conversação em território inocente pelo resto do jantar com perguntas impessoais sobre a faculdade de Medicina e o trabalho de Hannah. Seu interesse... que sem dúvida parecia sincero... era lisonjeador. Em troca ele falou sobre sua paixão por motocicletas. Hannah não se surpreendeu ao saber que ele possuía 12 delas. Quando os pratos foram retirados e Hannah se deliciara com uma fatia de bolo de chocolate, sem dúvida o melhor que já provara... excetuando os bolos com calda escura, é claro... Francesco consultou o relógio de pulso. – Preciso ver meu chefe da segurança antes do início do torneio de pôquer. Quer vir comigo ou prefere que chame alguém da minha equipe para que percorra as mesas? – Você vai participar do torneio? – quis saber ela. – Não. Este é só para sócios. Entretanto é o maior torneio realizado aqui, e os sócios gostam de me ver... Isso os faz se sentirem importantes – acrescentou Francesco, e ela notou um ligeiro brilho zombeteiro em seus olhos, o que a fez se achar incluída em uma piada particular. Foi uma ideia que a surpreendeu e agradou ao mesmo tempo. – Não costuma perder muito tempo com eles? – perguntou ela. – Sempre arranjo tempo para os sócios – corrigiu ele. – Não foi isso que quis dizer – observou Hannah. – Sei o que quis dizer. – Os lábios que em geral eram severos se curvaram em uma espécie de sorriso preguiçoso. Francesco esvaziou seu copo de vinho sem deixar de fitá-la um só momento. – Conhece as regras do pôquer? – Por estranho que pareça, conheço. Gosto de pôquer tarde da noite, quando meu cérebro já não suporta mais estudar e preciso relaxar antes de dormir. – Você ainda estuda? – Claro. Procuro sempre novas pesquisas publicadas e estudos clínicos para ler e me atualizar. – E não lhe sobra tempo para se divertir – comentou ele astutamente. – Estudar para mim é diversão. Mas tem razão... e é por isso que estou aqui, afinal. – Quando disse que dedicou toda a sua vida adulta à medicina não julguei que falasse no sentido literal. Ela deu de ombros e fez uma careta. – Era o que precisava.


– Mas isso agora mudou? – Não de modo fundamental. A medicina e meus pacientes serão sempre minha prioridade máxima, porém com o acidente... abri os olhos ... – Ela parou de falar e lágrimas inesperadas brilharam em seus olhos. Fazia tanto tempo que não mencionava Beth. Hannah carregava a irmã no pensamento cada minuto do dia, porém nas últimas semanas parecia que Beth estava junto dela em carne e osso. Como se Hannah pudesse virar a cabeça e vê-la por cima do ombro. Piscando para afastar as lágrimas, disse com calma: – Não sei se o paraíso existe, mas se existir não quero que Beth fique zangada comigo. Ela amava a vida, nós duas amávamos. Tinha esquecido o quanto. Hannah quase pulou na cadeira quando Francesco cobriu sua mão com a dele, que era tão grande que quase a ocultou inteiramente. Uma sensação de serenidade percorreu seu corpo enquanto sua pele pinicava. – Gostaria de participar do torneio de pôquer? – sugeriu ele. – Oh, não, não poderia. – Pense na experiência. Pense na história que terá para contar a Beth. Com um aperto no coração, ela percebeu o quanto Francesco prestara atenção. Francesco compreendia. A sensação de calma aumentou, causando um estremecimento. – Bem... quanto custa a inscrição? – Para você nada. Para todos os demais cem mil euros. O queixo de Hannah quase caiu. – Por um jogo de pôquer? – Isso não é nada para os sócios daqui. As pessoas vêm de todas as partes do mundo só por causa desse torneio. Permitimos sessenta inscritos. Tivemos algumas desistências, portanto há vaga para você. – Não sei. Será que os outros participantes não ficarão aborrecidos por me ver jogar de graça? – Não saberão desse detalhe. De qualquer modo, não é da conta de ninguém. O cassino é meu, as regras são minhas, vamos lá, Hannah, entre no torneio. Jogue e divirta-se. Era a primeira vez que ele a chamava pelo seu nome de batismo. Oh, era tão bom ouvir seu nome na boca de Francesco com seu sotaque profundo e sedutor. Jogue o jogo. Há 15 anos ela não jogava nada... e vôlei na escola certamente não contava comparado a isso. Aprumando as costas, Hannah concordou com um estremecimento de animação. – Vá em frente, então. Pode me inscrever. FRANCESCO OBSERVOU o desenvolvimento do torneio no escritório da segurança no último andar do cassino, monitorado por 24 pessoas, 24 horas por dia. Além dos banheiros, não havia um canto do cassino que não fosse monitorado. Um jogador de blackjack estava sendo especialmente observado no segundo andar... um homem suspeito de lesar cassinos por todo o continente. É claro que havia a opção de simplesmente expulsar o sujeito do recinto, porém em primeiro lugar Francesco queria provas. E expulsar não era o suficiente. Assim que a culpa do homem fosse revelada, um castigo adequado deveria ser administrado.


A primeira rodada do torneio estava em pleno andamento na mesa de seis jogadores em que Hannah se encontrava; dois já haviam sido eliminados. Francesco estava surpreso com a destreza dela... Para uma novata, Hannah jogava excepcionalmente bem, e seu rosto era uma máscara inescrutável. Dentre os que haviam permanecido na mesa, ela era a segunda a ter mais fichas. O crupiê distribuiu duas cartas para cada um dos quatro jogadores e virou três sobre a mesa. De seu campo de visão privilegiado Francesco podia ver que Hannah recebera um ás e um valete, ambos de ouros. O jogador com a maior quantidade de fichas recebera dois reis. Uma das cartas sobre a mesa era um rei, dando a esse jogador três cartas iguais. O jogador foi em frente, o que significava que se Hannah desejava continuar a jogar deveria colocar todas as suas fichas na pilha. Ela nem piscou e simplesmente empurrou a pilha para a frente demonstrando que iria continuar a jogar. Não havia como ela vencer essa mão. A sra. Sorte podia ser generosa, porém vencer uma trinca de reis... a próxima carta a ser virada sobre a mesa foi um ás, seguida por outro ás. HANNAH VENCERA a mão! Parecia que 15 anos aperfeiçoando uma máscara misteriosa para pôquer junto a muitas madrugadas observando o jogo ao vivo na televisão haviam valido a pena. Hannah se permitiu tomar um gole de água, mas manteve a expressão neutra do rosto. O jogo ainda não acabara. Ninguém que a fitasse nesse momento saberia que seu coração batia loucamente. A expressão no rosto do oponente derrotado era diferente. Ficava olhando das suas cartas para as dela como se esperasse que a qualquer instante uma cobra saltasse dali. E os dois outros jogadores fitavam Hannah com um novo respeito. Caso ela não estivesse no meio de um torneio de pôquer daria pulos de alegria com tudo aquilo. Sentia-se como se estivesse participando de um sofisticado filme de Hollywood. Só faltava os homens acenderem grandes charutos para criar uma nuvem de fumaça sobre a mesa. Quando a próxima mão começou Hannah notou uma pequena multidão se formando ao redor de sua mesa e muitos murmúrios discretos. Hannah verificou as cartas que recebera e ergueu sua aposta. Um dos oponentes cobriu essa aposta. O outro cruzou as mãos sobre a mesa optando por ficar de fora. As cartas da mesa foram distribuídas. Novamente Hannah aumentou sua aposta. E o opositor fez o mesmo. Assim continuou o outro, igualando suas apostas. Dessa vez a mão de Hannah não era das melhores: um par de cartas baixas. A chance de as cartas do oponente serem melhores era grande. De qualquer modo, crescia a animação que a dominava e que surgira em seu íntimo desde que seguira Francesco para a pista de dança na noite anterior. Era a vez de Hannah apostar. Ela e o oponente já haviam colocado um grande número de fichas no monte. Onde estaria Francesco? Dissera que estaria ali confraternizando com os convidados. Mas apesar de não estar na sala, de alguma maneira, ela sabia que a observava. Com o coração aos pulos ela empurrou as fichas restantes para o centro da mesa. Por favor, que Francesco estivesse vendo.


– Aposto tudo. Seu oponente a fitou, o olho esquerdo tremendo com um tique nervoso. Ela o encarou também, não demonstrando nenhuma emoção. O outro coçou o queixo. Hannah soube que iria desistir, e escondeu seu ar de triunfo, ciente de que enganara os outros muitas vezes com sua aparência neutra. A grande pilha de fichas era sua. Parecia que a máscara de neutralidade no pôquer que treinara por tanto tempo se tornara uma bênção. FRANCESCO MAL podia acreditar no que testemunhava pelo monitor. Hannah era um tubarão do pôquer. Não havia outra maneira de descrever o modo como jogava, e se outra pessoa estivesse na posição de ver suas cartas como ele estava, às vezes beirava a ousadia. Não que seus oponentes pudessem perceber como era ousada ao jogar, tudo que viam era sua fachada fria, um rosto que não demonstrava nenhuma emoção. Para uma garota que jamais jogara pôquer antes em um cassino era magistral. E mesmo assim... Algo em seu íntimo se contraiu quando analisou por que ela desenvolvera aquela máscara inexpugnável para jogar pôquer. Só uma pessoa que tivesse passado anos escondendo as emoções poderia conseguir aquilo com tanta naturalidade. Ele deveria saber melhor do que ninguém. Francesco aperfeiçoara sua própria versão de máscara há anos. Quando Hannah derrotou seu quarto oponente... a maneira como empurrou as fichas para a frente e o modo calmo e claro com que disse: – Aposto tudo... O aperto no peito aumentou. Francesco conhecia essas duas palavrinhas que significavam mais do que fichas. Não levou muito tempo para Hannah demolir seu último oponente. Apenas quando venceu a última mão esboçou seu maravilhoso sorriso. Um sorriso de puro deleite que fez com que todos os outros jogadores, seus oponentes, se inclinassem para apertar sua mão e beijá-la no rosto. A multidão que os cercava e que era formada na maioria de homens também veio abraçá-la e lhe dar os parabéns. Não olhariam duas vezes para Hannah se a vissem em seu estado habitual, pensou Francesco. Jamais veriam sua extrema beleza natural. – Vou descer – avisou Francesco para a equipe, rumando para as portas reforçadas de aço. De alguma forma, seu bom humor, que começara ao jantar com Hannah, parecia ter desaparecido. Caminhando pela principal área de jogos no terceiro andar, ele ignorou todas as tentativas de jogadores e funcionários de fazerem contato visual. Com o torneio temporariamente suspenso antes da segunda rodada para que os jogadores pudessem descansar um pouco, encontrou Hannah tomando café, cercada por uma horda de homens que tentavam impressioná-la com seus conhecimentos e sua masculinidade. Quando ela viu Francesco seus olhos se iluminaram, mas o brilho desapareceu quando se aproximou dela.


– O que houve? – perguntou. – Nada. – Oh, seu mentiroso. Você parece ter recebido a notícia de que roubaram a dentadura de sua avó e que você terá que doar seus dentes. O bom humor de Hannah não surtiu nenhum efeito em Francesco, que continuou de cara amarrada. – Mas você parece estar se divertindo muito – retrucou ele, incapaz de conter a frieza na voz. – Não foi exatamente esse o objetivo quando ingressei no torneio? Você não me disse para me divertir? Francesco respirou fundo; o espanto de Hannah o fez perceber que não tinha motivo para agir como um idiota ciumento. Ciúme? Seria ciúme o desejo compulsivo que sentia de carregá-la nos ombros para fora do cassino e longe de seus admiradores? Salvatore, seu pai, apesar de ser um mulherengo e viver atrás de garotas mais jovens, tinha muito ciúme de sua mãe. Ela suportara muitas surras do marido por ousar olhar para outro homem de um modo que ele não gostara. Francesco sempre pensara que no seu caso o ciúme pulara uma geração. O mais perto que chegara dessa emoção fora quando tinha 20 e poucos anos e soubera que Luisa, a garota com quem namorava, saíra duas vezes com Pepe Mastrangelo depois de jurar que nada mais tinha a ver com ele. Entretanto, aquilo não fora ciúme... apenas raiva que chegara a se transformar em ódio quando Francesco soubera que Luisa o enganara e pegara seu dinheiro para ir correndo ao Reino Unido fazer um aborto. Ela havia sido tão promíscua que não fazia ideia se o pai da criança era Pepe ou Francesco. Ele desprezara Luisa por ser mentirosa, mas jamais desejara procurar Pepe. Fora Pepe quem o procurara sofrendo por causa da bandida. Porém a única dor que Francesco sentira fora em seu orgulho, e a briga entre os dois amigos terminara antes mesmo de começar. No momento presente, saber que era vulnerável ao ciúme tanto quanto qualquer um o fez pensar e lembrar que o sangue dos Calvetti corria em suas veias. Salvatore Calvetti jamais teria evitado um confronto com Luisa e Pepe como ele fizera. Se Salvatore estivesse no lugar do filho teria feito Luisa sofrer por toda a sua vida. Pepe também desejaria desaparecer e nunca mais ressurgir. Contudo, a última coisa que Francesco desejava era ser parecido com Salvatore. Jamais trataria qualquer pessoa como o pai tratara sua mãe. Passou os dedos pelo cabelo e deixou escapar um gemido. Gostasse ou não, o sangue dos Calvetti corria em suas veias. Mais um motivo para nunca tocar em Hannah com violência. Ela parecia desejar dizer alguma coisa, mas nesse instante o gongo soou chamando para a segunda rodada. Hannah foi colocada na mesa um. Suas fichas lhe foram entregues. Francesco a observou arrumá-las em pilhas, esquecida da multidão que se formava em volta da mesa. A intensidade de seu desejo de posse o fazia cerrar os punhos. Será que ela era tão ingênua que não percebia os olhares lascivos e admirados? Ela ergueu os olhos para ele e sorriu com hesitação.


Francesco desviou o rosto. Uma tosse discreta às suas costas chamou sua atenção. Virou-se para encontrar seu gerente. – Temos a prova... o jogador de blackjack está nos roubando – disse ele quase sem mexer os lábios. – Dê-me alguns minutos. – Francesco mal tentou esconder a impaciência. Hannah continuava a fitá-lo, franzindo a testa com perplexidade. – Posso mexer os pauzinhos... – murmurou o gerente. – Já disse, me dê uns minutos. – O ladrão do blackjack podia esperar, Francesco não arredaria pé do salão até que Hannah terminasse o torneio. Sua presença era a única coisa que impedia os outros homens aduladores de tentarem a sorte com ela. Hannah terminou muito antes do que ele previra. Da primeira rodada, quando jogou como uma profissional e muita sorte, seu jogo foi se deteriorando e por fim foi a primeira a sair. Deu de ombros, sorriu com elegância, tomou um gole de água, e se recostou na cadeira. Francesco estava ao seu lado em segundos. – Venha, é hora de irmos para outro lugar – murmurou ao seu ouvido, ignorando os olhares curiosos de todos em volta. – Quero assistir o resto do torneio – protestou ela. – Pode assistir da minha sala de segurança. Tenho assuntos a tratar. Hannah se voltou para fitá-lo. – Pois vá tratar de seus assuntos – replicou fazendo um gesto descartando sua presença. – Mas quero sua companhia. – Ou, melhor dizendo, queria afastá-la da sala cheia de gaviões. Movendo a cadeira, dessa vez sem muita elegância, ela se levantou. – O que há com você? – perguntou ele enquanto rumavam para a porta. – Eu? – Incrédula, Hannah parou de andar e colocou a mão na cintura. – Estava me divertindo muito até que você apareceu com uma cara de quem queria me matar. – E, falando sério, como poderia se concentrar com o belo Francesco a encarando o tempo todo? – Foi você quem me fez perder a concentração, perder o jogo, e depois me arrasta para longe antes que eu possa assistir o resto do torneio. Encarou Francesco com severidade. Adorara o jantar, pensara que ele também gostara, já que perdera o ar distante e arrogante e se tornara tão mais humano, porém agora Francesco revertera sua atitude, e estava mais distante e arrogante do que nunca. – Não estava zangado com você. Ela cruzou os braços sobre o peito e arqueou as sobrancelhas. – Verdade? – Não notou o modo como aqueles homens a fitavam? Como se você fosse um pedaço de carne. – Estavam apenas sendo amigáveis. – Os homens nunca a fitavam desse jeito. Se bem que, para falar a verdade, jamais conhecera homens fora do âmbito do hospital e do trabalho. – Olhe-se no espelho, dra. Chapman. É uma linda mulher. O elogio inesperado a fez estremecer da cabeça aos pés. – E lamento tê-la tirado do jogo... é uma excelente jogadora. – Acha mesmo? – O elogio... pois sem dúvida era isso, e parecia muito importante por vir de Francesco... esquentou seu coração, fazendo-a esquecer de que estava zangada com ele.


Francesco sorriu de modo sincero e natural, e estendeu a mão para tocar uma mecha de seu cabelo. – Se desistisse da medicina poderia viver muito bem nos circuitos do pôquer. O calor em seu íntimo explodiu de vez, correndo por suas veias e deixando suas pernas bambas. Seria sua imaginação ou o desejo que sentia se projetava para Francesco...? Ele largou seu cabelo, e passou o dedo por seu rosto. Hannah estremeceu de novo, a pele quente sob seu toque. – Venha. Preciso tratar de negócios – disse ele antes de arrastá-la para o último andar, não a tocando de verdade, mas mantendo-a perto o suficiente para que Hannah sentisse seu calor. – Por que subimos? – quis saber ela quando recuperou o dom da fala. Mas, oh, era tão difícil raciocinar quando a pele em seu rosto continuava a pinicar com o toque de Francesco. – Um jogador do segundo andar foi pego em flagrante roubando do cassino. – Chamou a polícia? Ele a fitou como se Hannah fosse louca. – Não é assim que procedemos aqui. – E como...? – Uma expressão estranha surgiu no rosto de Hannah. – Oh, lembrei. Vocês quebram as mãos dos infratores. O tom triste na voz dela penetrou o coração de Francesco. Ele a fitou com atenção. – A punição é determinada pelo crime. – Mas se um crime foi cometido, a polícia deve lidar com o caso? Afinal é para isso que existe. – Estamos na Sicília, dra. Chapman. As regras aqui são diferentes. – Só porque foi assim que seu pai o ensinou? A pergunta o pegou desprevenido. – Nada tem a ver com meu pai. Trata-se de respeito e de seguir as regras. – Mas quem faz a regras? Este é o seu império, Francesco. Seu pai já não está aqui. Você é adulto, suas ações dependem inteiramente de você. Ele prendeu a respiração, sentindo um gosto amargo na boca. – Sempre tem uma resposta para tudo? – Quase nunca – respondeu ela, afastando os olhos. – Se não se importa, prefiro esperar lá embaixo. – Seu tom de voz era distante. Francesco sentiu um aperto no estômago. – Nada acontecerá ao ladrão. – Também não quero que aconteça. Sou médica, Francesco, não posso... não quero... fazer parte de nada que machuque outra pessoa. Sei que essa é a sua vida e a que está acostumado, mas para mim... – Hannah balançou a cabeça. – Jamais poderia viver com isso. Pode pedir que um de seus empregados me leve de volta à villa? – Espere no bar por mim – sugeriu ele. – Estarei com você em dez minutos. Sem sorrir, ela aquiesceu com um gesto de cabeça e caminhou de volta para as escadas, segurando no corrimão dourado enquanto descia. O coração de Francesco estava pesado e ele não sabia a razão para isso. Jamais dera desculpas pela vida que levava e pelo modo de seu mundo girar. Hannah sabia disso... não escondera isso dela. Contara a ela como era sua vida. Alertara. Na verdade, fora esse


o único motivo para trazê-la ali, para que visse com seus próprios olhos que não valia a pena desperdiçar sua virgindade com ele. Não era culpa sua se Hannah não dera ouvidos. Então por que a única coisa que podia ver era o desapontamento no rosto dela? Francesco entrou na sala do gerente. Mario e Roberto, outro de seus homens de confiança, já estavam lá com o ladrão trapaceiro. De perto, Francesco podia ver que era muito jovem, com 20 e poucos anos. Deveria estar jogando jogos no computador com sua comunidade on-line ou com outro garoto, não cuidando de sistematicamente roubar cassinos por todo o continente. Estava sentado no meio da sala e parecia apavorado. Ouviu-se uma batida à porta, e o gerente entrou, entregando a Francesco um dossiê sobre as atividades do jogador de blackjack. Francesco leu rapidamente. Mario aguardava imóvel, esperando por uma ordem. Essa era a parte de seu trabalho de que Francesco menos gostava. Quando comprara seu primeiro cassino empregara os antigos capangas do pai, sabendo que eram confiáveis e leais. Dentro de meses já mandara a maioria embora quando ficara evidente que esperavam continuar usando os métodos de punição apreciados por Salvatore. Embora sempre tivesse respeitado o pai, Francesco soubera que quando chegasse a sua vez de assumir, seus métodos seriam diferentes e menos extremados. Mario era o braço direito de Francesco e capaz de ser muito moderado. Afora o caso de um traficante que frequentava o clube noturno de Francesco em Nápoles e que andara aliciando adolescentes para a prostituição, nunca aplicava punições extremas, nem causava danos que pudessem aleijar. Quando Francesco fizesse um aceno, Mario e Roberto levariam o jovem para um lugar privado, dariam uma lição que nunca esqueceria, e que raramente devia ser aplicada, já que a maioria não era estúpida para tentar enganar um cassino Calvetti. A reputação de Francesco era muito respeitada. Claro que essa situação a desagradara e, quem sabe, pensaria em voltar para casa. Se Francesco desse o sinal, garantiria que ela estivesse no primeiro voo de volta à Inglaterra... Entretanto, a insinuação dela de que estava seguindo os passos brutais do pai o atingira como um punhal. Ele não era como o pai. Caso esse jovem ladrão tivesse usado esse mesmo procedimento em um dos estabelecimentos de Salvatore teria desaparecido. Para sempre. Regras eram regras, mesmo que não escritas. Existiam por uma razão. Seu pai jamais sonharia em quebrá-las... HANNAH SE serviu de café forte, olhando distraidamente para a enorme tela do aparelho de televisão na parede do bar e que apresentava vídeos de músicas. Não queria pensar no que estava acontecendo no andar acima. Se pensasse poderia gritar. Mas quando tentava não pensar, seus pensamentos se voltavam para o casamento de Melanie. Como poderia suportar? Todas as manhãs acordava ciente de que o dia das núpcias se aproximava, e o aperto no estômago se intensificava. Beth não estaria presente. Daria tudo para não comparecer, porém mesmo que uma desculpa plausível surgisse caída do céu ela não poderia deixar de comparecer. Melanie a convidara para ser dama de honra. Teria


que dar um jeito para suportar o casamento. Tentaria sorrir a qualquer custo para que a irmã caçula pudesse ter seu grande dia intacto. – Due bicchieri di champagne. Francesco surgiu ao seu lado de repente e a espantou. – Olá – saudou ela secamente, odiando o fato de o coração acelerar apenas por vê-lo. – Ciao – acenou ele. – Acabei de pedir champanhe para nós dois. – Disse que me levaria de volta à villa. – E levarei. Mais cinco minutos. Você está com a aparência de quem precisa de um drinque. – Preciso do meu celular e do meu passaporte de voltar para casa, para a Inglaterra – corrigiu ela no caso de não ter sido absolutamente clara. Francesco tivera razão desde o início. Ela não pertencia a esse mundo nem mesmo temporariamente. A tortura em Mario fora realizada há muitos anos e já fazia parte da história. Era algo que não cabia no presente. Entretanto, a pessoa pega em flagrante roubando essa noite... isso era o agora. Isso era o presente. Hannah era médica. Dedicara sua vida a salvar vidas. Jamais poderia fazer parte de um mundo que machucava pessoas. – Venha, dra. Chapman. Precisa viver um pouco, está aqui para conhecer o mundo e experimentar coisas que nunca experimentou. Mal tocou no seu vinho durante o jantar. – Não estou com vontade de beber. Encostando os lábios no ouvido dela, Francesco murmurou: – Chamei a polícia. Ela girou a cabeça com tanto ímpeto que quase bateu no nariz de Francesco. – Verdade? Duas taças de champanhe foram colocadas na sua frente. Francesco as segurou e apontou para um sofá a um canto. Muito confusa, ela o seguiu. Sentando-se, Hannah teria ignorado a taça de champanhe se Francesco não a colocasse em sua mão. – Beba. Precisa relaxar um pouco... está muito tensa. – Chamou a polícia de verdade? – Como você disse, faço as regras. – Sorriu ligeiramente. – Quando mencionei o sistema carcerário daqui e quando disse que ia chamar a polícia, o ladrão implorou por uma surra. Os policiais só o deixarão uma noite na delegacia para que reflita e depois o mandarão para casa. Hannah não conseguiu conter o sorriso nem deter a mão que acariciou o rosto dele. – Vê? Estava certa a seu respeito. Diante da expressão curiosa dele, Hannah acrescentou: – Sabia que tinha boa alma, vi isso quando tomou conta de mim tão bem depois do acidente e agora reafirmou minha impressão. Francesco balançou a cabeça. – Foi só desta vez, está bem? O rapaz era muito jovem e fiquei com pena. Dei-lhe outra chance. Mas só porque respeitei seu pedido. – Se você prefere assim... – Hannah se sentia muito serena. Tomou um gole de champanhe. – Sente-se melhor, doutora? Ela concordou com um gesto de cabeça.


– Muito. E me sentirei ainda melhor quando recuperar meu celular. – Estava perdida sem o aparelho. – Termine o champanhe e a levarei de volta. Ele a encarou, desafiando-a para que bebesse. O gole que Hannah tomara ainda fazia cócegas na sua língua e a deixara tonta. Era por isso que estava ali, tratou de se lembrar. Não para se envolver no emaranhado da vida dele, mas para ter suas próprias experiências. Levando a taça aos lábios outra vez, bebeu tudo em três goles. Um sorriso iluminou o rosto de Francesco deixando-o ainda mais bonito, o que Hannah achara ser impossível. Ele também emborcou sua taça e se levantou. – Venha. É hora de levá-la de volta. Hannah agarrou a bolsa e se levantou também. Sentia-se incrivelmente leve. Cercados pelos seguranças dele que esperavam a um canto do bar, saíram. Quando chegaram às escadas, ele colocou a mão em suas costas em um gesto protetor que a alegrou ainda mais.


CAPÍTULO 8

A VILLA de Francesco estava às escuras, mas assim que o motorista conduziu o carro até o caminho da entrada, as luzes a iluminaram banhando-a como um halo dourado. As estrelas reluzindo na noite sem lua eram a visão mais linda que Hannah já vira. – Posso lhe oferecer uma bebida? – perguntou Francesco quando ficaram sozinhos dentro de casa, os empregados recolhidos aos seus dormitórios. – Que tal um conhaque? Os efeitos do champanhe começavam a diminuir um pouco, porém será que Hannah queria se arriscar ingerindo mais álcool? – Só um pouco – acrescentou ele, sem dúvida lendo a mente dela. – Sim, por favor. Só um pouco – concordou ela, passando os braços pelo corpo. Seguiu Francesco pelo enorme saguão até a sala de estar onde ele lhe atirou um pequeno objeto que pendia do parapeito de uma janela. – Pegue! Por sorte Hannah conseguiu pegar. Era seu celular. E antes que pudesse passar um sermão por ele ter arriscado quebrar o aparelho se caísse no chão, Francesco continuou a caminhar até a enorme biblioteca, depois pela sala de jantar, passando pela piscina interna e abrindo portasfrancesas até uma varanda que circundava a outra piscina externa. Foi como entrar em uma área tropical para festas onde só faltavam convidados circulando. Um bar... completo com luzes, banquetas altas, e tudo o mais... ficava a um canto, mesas, cadeiras e sofás macios abundavam por todos os lados. – Aposto que dá festas fantásticas aqui – comentou ela. O cenário perfeito para a reputação de playboy de Francesco. Entretanto, ela estava aprendendo a conhecer o homem que ele era de verdade. – Há muito tempo não dou festas. – E por quê? – Tenho outras prioridades agora. – Ele deu de ombros afetando desinteresse, porém era evidente que não estava preparado para discutir isso; Hannah percebeu pelo timbre de sua voz. Tudo bem para ela, não queria saber quais eram suas novas prioridades. Viu um trampolim branco pelas treliças. – Mergulha dali? Ele concordou com um gesto de cabeça.


– Evita descer a escadinha até a piscina. – Devia colocar um escorregador... seria muito mais divertido. Ele soltou uma risadinha e ficou atrás do bar. – Não é má ideia. Você nada? – Há anos não nado. – Ia sugerir um mergulho agora, mas álcool e piscina não se misturam. Teremos tempo de nadar pela manhã... isto é, se quiser passar a noite aqui, ou prefere um voo de volta para casa? Não havia como ignorar o significado dessas palavras. Uma onda de excitação a dominou, fazendo-a estremecer apesar do calor em seu corpo e do ar noturno. Vagamente, Hannah se lembrou de ter dito que queria voltar para casa. A raiva que a fizera dizer isso desaparecera. Tudo que sentia no momento era o desejo que apertava seu peito. Isso era o que ela queria, era o único motivo de estar ali. Balançou a cabeça. – Não quero ir para casa, quero ficar. Os olhos dele prenderam os dela, o calor percorrendo o ambiente, até que pegou uma garrafa e serviu a bebida acrescentando limonada. – Adocei para você – explicou, entregando um copo para ela. – Do contrário, como não está acostumada, iria achar forte demais. Seus dedos se tocaram quando ela pegou o copo. O mesmo calor brilhou nos olhos de Francesco de novo. – Saluti – disse ele, erguendo o copo. – Saúde. – Saluti – repetiu ela, tocando os copos. Francesco tomou um gole. – Pensei que já teria checado suas mensagens no celular a essa altura – comentou. – Ah – disse ela sem graça. – Sim, na verdade deveria ter feito isso. – Depois de toda a confusão que armara, apenas enfiara o aparelho na bolsa sem verificar a tela das mensagens. Pela primeira vez desde que conseguira um posto permanente na enfermaria infantil, a compulsão de checar o celular ficara em segundo lugar frente a outro assunto. Francesco. Quanto mais Hannah o fitava mais a excitação aumentava. Estaria tremendo? Não sabia; ignorava um nome para a sensação que a dominava na boca do estômago. Permanecia ali grudada ao chão. Indefesa e sem saber o que fazer pela primeira vez na vida. A ousadia da noite anterior desaparecera. Francesco acabou seu conhaque e colocou o copo sobre o bar. – Hora de ir para a cama – anunciou. – Cama... De imediato ela estremeceu da cabeça aos pés. Era tarde, estivera acordada a maior parte dos dois últimos dias, porém não se sentia cansada. Entretanto, Francesco não se referia a dormir. Hannah engoliu o conhaque de um só gole, completamente esquecida que havia álcool ali. O gosto depois foi amargo, porém acalmou seus nervos. Teve ímpetos de pegar a garrafa e se servir de outra dose, dessa vez sem limonada. Francesco percebeu o que se passava com ela, porque deixou o bar e ficou na sua frente. Estendeu a mão e retirou os pauzinhos orientais de seu cabelo, que caiu em cascata.


– Melhor assim – murmurou ele. Antes que Hannah pudesse perguntar o que queria dizer com isso, ele respirou fundo e deu um passo atrás. – Vou para meu quarto, deixarei que decida se quer ficar comigo ou se prefere dormir sozinha. – Mas... – Sei que está nervosa. Quero vê-la segura. Falei a sério... Não me aproveitarei de você. Meu quarto fica a duas portas do seu. Deixo você resolver a questão. – Assim dizendo, ele fez um aceno de cabeça, girou nos calcanhares, e foi embora. Após uma pausa, quando todo o sangue foi para seu cérebro causando um zumbido nos ouvidos, Hannah deixou o ar escapar dos pulmões. O que esperara, afinal? Que Francesco assumisse o controle, a tomasse nos braços e a carregasse virilmente até seu quarto como se ela fosse uma pluma? Que a atirasse sobre a cama e a devorasse? Será que ela não sabia que era um homem honrado demais para isso? Ela estivera certa ao pensar que Francesco jamais a magoaria... Mesmo confiscar seu celular fizera parte de sua lógica e fora para o bem dela. Porém se o roubasse de novo Hannah não seria tão condescendente... Oh, o que estava pensando? Depois dessa noite, ele não teria oportunidade de lhe roubar nada. Assim que esse fim de semana terminasse ela se lançaria de volta ao trabalho... Sua vida... E Francesco seria apenas a lembrança de quando ousara abarcar o mundo. E se desejava que Francesco fizesse amor com ela, precisava procurá-lo... Mas teria coragem? Entrar no quarto dele e deitar debaixo dos lençóis? Não conseguiria? Precisava conseguir. Nunca mais encontraria um homem como ele... Como poderia depois de passar 27 anos sem jamais ter conhecido alguém que fizesse seu coração acelerar? Ela descobrira o homem complicado por trás da fachada fria, que podia ser cruel e mesmo assim cheio de compreensão, capaz de grande brutalidade e grande generosidade também. Francesco já não era uma figura lendária de sonhos, era de carne e osso, com toda a complexidade que vinha do fato de ser humano. POR MUITO tempo, Francesco ficou debaixo do chuveiro ligado, tratando de diminuir a temperatura do corpo. Se mantivesse a frieza poderia sufocar a libido. Pressionou a testa nos ladrilhos frios. Hannah estava ali para ser possuída por ele, isso ficara decidido desde que entrara no seu clube carregando um ramalhete de flores. Tudo que ele tinha a fazer era descer duas portas no corredor e ela o receberia de braços abertos. Sentia-se irritado por perceber o quanto desejava isso. O quanto a desejava. Será que ela viria até seu quarto? Francamente não sabia. Hannah não era uma das mulheres sofisticadas com quem costumava se relacionar e para quem o sexo era algo habitual e até corriqueiro. Hannah era uma virgem de 27 anos que escondera sua essência do mundo... até de si mesma... por 15 anos.


Francesco vira sua hesitação quando mencionara que era hora de ir para a cama. Toda a ousadia da noite anterior desaparecera, deixando-a vulnerável. E não seria ele o homem a tirar vantagem dessa vulnerabilidade, por mais fácil que fosse, e por mais que ela aceitasse. Francesco podia dizer quando fora o momento exato em que a determinação de levar Hannah para a cama se intensificara. Fora quando ele olhara para o ladrão trapaceiro que se parecia com todos os homens que a rodeavam durante o torneio de pôquer. Agora que a sexualidade de Hannah despertara não iria simplesmente ser sufocada quando ela voltasse para Londres. Eventualmente encontraria outro homem que a interessasse, poderia ser qualquer um daqueles. Não alguém que fosse tratá-la com o respeito e o carinho que merecia. E Hannah desejava a ele. E, caro Dio, ele a desejava também com uma intensidade que queimava e devorava suas entranhas. Porém Francesco sabia que esse passo decisivo devia partir dela e somente dela, por mais torturante que fosse esperar pela sua decisão. Deixando o chuveiro ele se secou com a toalha, escovou os dentes, e caminhou sem roupa do banheiro para o quarto... Enquanto ele tomava banho, Hannah se esgueirara para seu quarto e estava parada junto à janela, arregalando os olhos ao vê-lo despido. – Você tirou a maquiagem – observou ele caminhando devagar em sua direção. Ela também tomara banho, pois seus cabelos estavam úmidos e o corpo embrulhado no roupão branco e pesado do quarto de hóspedes. Ela ergueu a mão para o rosto e mesmo no lusco-fusco Francesco podia ver que corara. Cobriu a mão de Hannah com a sua. – Assim é melhor, você é bonita naturalmente. Ela estremeceu, embora ele não soubesse se era uma reação ao toque. Lentamente Francesco desceu a mão do pescoço para a abertura do roupão sobre seus seios, afastando o tecido e expondo o colo cremoso. Ainda devagar segurou a faixa e com as duas mãos desatou o nó, desnudando o corpo de Hannah. Ela começou a respirar com dificuldade, o peito subindo e descendo depressa. Estava imóvel como uma estátua, fitando-o de um modo que era ao mesmo tempo ousado e tímido. Francesco empurrou para baixo de seus ombros o roupão, e a peça caiu ao solo sem ruído. Também começou a respirar depressa enquanto a admirava. Seu corpo era tudo que imaginara e mais ainda... os seios fartos e empinados, o ventre e os quadris arredondados, as pernas ainda mais longas e bem torneadas do que pensara. Francesco engoliu em seco, sentindo dor no órgão rijo. Forçou-se a lembrar que ela era virgem. Por mais que desejasse ir depressa e devorá-la, precisava se conter. Hannah jamais se sentira tão exposta... nunca estivera tão exposta... como nesse momento. Seu coração disparara, seu sangue fervia, mas nada disso importava. A fome nos olhos de Francesco era o suficiente para acabar com a timidez e afastar os medos que ainda permaneciam, embora quando ousou baixar os olhos para sua ereção sentiu um medo ainda mais primitivo acompanhado por um enorme calor entre as coxas.


Nu, a não ser pela cruz de ouro sobre o peito musculoso, Francesco era glorioso. Para um homem tão alto e forte, possuía uma elegância surpreendente. Hannah sentiu a boca seca, presa aos olhos cor de calda de chocolate quente que brilhavam como nunca. Desejava tocá-lo. Passar os dedos pelos tufos de cabelos em seu peito e beijar sua pele. Contudo parecia grudada ao chão, incapaz de fazer qualquer coisa a não ser suportar a análise que ele fazia de seu corpo. – Iremos muito devagar – murmurou ele com a voz rouca. Ela não conseguiu falar, e apenas aquiesceu com um gesto de cabeça, louca para que Francesco começasse logo, ansiando para que tudo terminasse, um amontoado de pensamentos e emoções passando pela sua mente e seu coração. E então se viu presa nos braços de Francesco, que a erguia no ar e a levava para a enorme cama de colunas, fazendo com que a fantasia dela se tornasse realidade. Com gentileza, ele a fez deitar de costas e se deitou ao lado. Colocou a boca em sua espádua... no mesmo ponto onde ela se machucara. O calor de sua boca, o hálito quente, seu perfume amadeirado... tudo despertou ainda mais os sentidos de Hannah. O beijo era leve, mas seguro, uma pressão suave que lentamente a fez entreabrir os lábios, deixando que ele enfiasse a língua. Por fim Hannah o tocou, repousando a mão em seu ombro e sentindo a maciez da pele enquanto se deixava levar pelas sensações. Ele moveu o rosto para mordiscar o lóbulo de sua orelha. – Tem certeza de que quer fazer isto? – Ainda precisa perguntar? – retrucou Hannah no mesmo tom baixo e aveludado. – A qualquer momento que quiser parar é só dizer. Ela voltou a cabeça para encontrar os lábios dele. – Não quero parar. Ele gemeu e murmurou algo que ela não entendeu antes de beijá-la com tanta paixão que os ossos de Hannah pareceram se derreter. A mão grande cobriu um dos seios, deslizando para o ventre, acariciando e tateando, depois a boca acompanhou a mão. Quando seus lábios sugaram um dos mamilos, ela prendeu a respiração e arregalou os olhos. Hannah sempre encarara os seios como apetrechos funcionais, embora sabendo que eram o objeto de desejo dos homens. Jamais lhe ocorrera que o prazer dado por eles aos homens também podia ser dado à mulher... a ela. Enterrou os dedos em seus cabelos em um gesto que dizia para continuar, e quase gritou quando Francesco se afastou para logo beijar o outro mamilo. Era a sensação mais maravilhosa do mundo. Agora ele estava sobre Hannah. Ela podia sentir a ereção de encontro às coxas e imaginou como seria tê-lo dentro de seu corpo, fazendo parte dela... Oh, estava pegando fogo em cada centímetro de pele. Francesco parecia determinado a beijar e reverenciar cada pedacinho de seu corpo, e sua boca começou a descer pelo seu ventre... Dessa vez Hannah gemeu alto quando ele deslizou uma mão entre suas pernas, passando o dedo devagar...


Céus... Francesco se ajoelhou entre suas pernas e colou a língua ali, na parte mais sensível de seu corpo. O que estava acontecendo com ela? Jamais, nem em seus sonhos mais selvagens, imaginara tamanho prazer, nada poderia tê-la preparado para isso. Oh, era incrível... ele era incrível... O prazer foi crescendo. Francesco não se afastou enquanto sua língua fazia movimentos circulares, aumentando a tensão, até que um grito irrompeu do âmago de Hannah trazendo ondas de puro prazer e a transportando para uma terra distante de sonhos. Apenas quando toda a pulsação terminou Francesco se moveu, trilhando seu corpo com beijos, subindo até alcançar sua boca para beijá-la com uma violência que a deixou sem fôlego. Ergueu a cabeça para fitá-la. O chocolate em seus olhos era mais intenso e seu rosto tinha uma expressão maravilhada. – Preciso colocar o preservativo – murmurou parecendo consternado. Mas Hannah não queria que a deixasse. Desejava que Francesco ficasse ali, mantendo seu corpo aquecido. Ele não foi muito longe, e apenas rolou na cama para alcançar seu criado-mudo. Antes que ele pudesse rasgar o invólucro do preservativo, ela colocou a mão em seu peito. Fechando os olhos, Hannah depositou um beijo em seu ombro. E mais outro. E outro, aspirando seu aroma amadeirado, esfregando o nariz na pele bronzeada. Com dedos trêmulos Hannah explorou seu corpo, o tórax musculoso, e deslizou um dedo em volta de um dos mamilos, fazendo-o prender a respiração. Do ventre liso ela continuou a deslizar a mão para baixo... Hesitou erguendo a cabeça de seu ombro a fim de fitá-lo. Como desejava tocá-lo de verdade, porém estava ciente de que não sabia o que fazer. Como saber o que ele gostava e como preferia ser tocado? Não se tratava de ter pouca experiência... ela não tinha nenhuma experiência. – Pode fazer o que quiser – murmurou ele com voz rouca, passando a mão pelo cabelo de Hannah e beijando-a na boca. – Toque-me como desejar. Será que ele conseguia ler sua mente? Hesitante, ela circundou os dedos em volta do órgão rijo que pulsou com força. Francesco gemeu e se recostou no travesseiro com um braço sobre a cabeça enquanto o outro prendia Hannah. Ela então aproximou a mão da ponta de seu órgão e uma gota de fluido tocou seus dedos. Uma onda de calor intenso a invadiu nas partes mais íntimas, a mesma que ele provocara quando a fizera atingir tanto prazer. Testemunhar o desejo que ele sentia por ela era um grande afrodisíaco. De repente, ele afastou sua mão e murmurou: – Pare. Quero penetrar você. Ela passou um braço em volta de seu pescoço e o beijou, apertando o corpo ao seu o máximo possível. Circundando a cintura dela com o braço, Francesco a fez deitar de costas, introduzindo um joelho no meio de suas pernas para que se abrissem.


Com grande experiência rasgou o invólucro do preservativo com os dentes e o colocou para logo se posicionar sobre ela e entre as coxas abertas. A enorme ereção roçava a pele quente de Hannah. Encostou os lábios aos dela, voltando a acariciar seu cabelo com a mão livre. Hannah sentiu que ele guiava a ponta da ereção para dentro de seu corpo, e prendeu a respiração. Francesco apenas intensificou o beijo murmurando palavras em italiano de encontro aos seus lábios. Depois acariciou seu rosto e a penetrou um pouco mais, sem parar de beijá-la e acariciá-la, mordiscando seu pescoço e, aos poucos, preenchendo seu corpo. Houve um momento de grande desconforto que a fez ficar imóvel, mas logo passou, pois seus sentidos estavam totalmente canalizados para Francesco e todas as coisas mágicas que ele fazia. E então ele estava dentro dela, totalmente, preenchendo-a, apertando-a de encontro ao peito e esmagando seus seios. – Estou machucando você? – perguntou ele com a voz entrecortada. – Não. É... gostoso. – Era mais do que isso... era divino. – Você é deliciosa – resmungou ele em seu ouvido, afastando-se um pouco para mergulhar em seguida de novo. Seus movimentos eram lentos, mas precisos, permitindo que Hannah se ajustasse às novas sensações, construindo o ritmo sem pressa, se afastando e mergulhando em seu corpo sem parar. As sensações que ele despertara com sua língua voltaram a se manifestar, mas dessa vez mais plenas, profundas e intensas. Ela passou os braços em volta de seu pescoço, os seios túmidos, e começou a ondular o corpo no mesmo ritmo que ele, acompanhando suas investidas que se sucediam sem parar. E o tempo todo Francesco a beijava, as mãos percorrendo os lados de seu corpo, seu rosto, pescoço, cabelo... Hannah sentiu a tensão aumentar nele, e os gemidos se tornaram mais profundos... um som tão erótico que confirmara que o que ela sentia era compartilhado, era real e não apenas um lindo sonho. O calor nas entranhas de Hannah aumentou, e seu coração batia desordenadamente. Com um grito, ela se agarrou a Francesco enterrando o rosto em seu pescoço ao mesmo tempo em que ele também gritava, se arremessando uma última vez dentro dela de uma maneira que pareceu durar para sempre.


CAPÍTULO 9

FRANCESCO SE espreguiçou e fitou o relógio na mesinha de cabeceira, depois se voltou e viu as costas de Hannah. Quando havia adormecido ela estivera enroscada nele, seus membros entrelaçados. A última vez em que ele dormira tão profundamente fora no seu aniversário há dez meses, apenas dois dias antes de encontrar os diários de sua mãe. Agora dormira sem que os demônios que o atormentavam infernizassem seus pensamentos. Apenas as espáduas de Hannah estavam descobertas e ele resistiu ao desejo de beijá-las. Desejava fazer amor de novo. Mas afastou o egoísmo. Ela tivera uma longa semana de trabalho, dormira pouco na noite anterior, e seu corpo devia estar dolorido depois de fazer sexo pela primeira vez. Então, ele a puxou para si como se fosse uma boneca de pano e a ouviu gemer. Foi o som mais doce do mundo. Se alguém lhe dissesse 24 horas antes que fazer amor com Hannah Chapman seria a melhor experiência de sua vida teria rido. E sem o menor bom humor. Saber que fora o primeiro homem de sua vida o deixava exultante. Saber que despertara tantas reações maravilhosas nela... fora uma revelação maravilhosa. Francesco jamais demonstrara humildade antes, entretanto agora se sentia humilde e grato por ela o ter escolhido. Hannah não o escolhera por causa do seu poder ou sua riqueza ou mesmo por seu estilo de vida... Ela o escolhera e confiara por ser quem ele era. E pensar que quase a mandara embora quando ela confessara desejar se entregar. Hannah poderia ter obedecido e aceitado a recusa, e eventualmente teria encontrado outro homem em quem confiar... Não valia nem a pena pensar nisso. A ideia de outro homem a tocando e fazendo amor de modo desajeitado deixava seu coração apertado. De repente, Hannah despertou e se voltou de supetão, arregalando os olhos. – Buongiorno – saudou ele com um sorriso nos lábios. – Bom dia. Piscando depressa, Hannah refreou um bocejo antes de brindá-lo com seu sorriso sonolento. – Que horas são? – Nove.


Ela tornou a bocejar. – Uau. Não dormia até tarde há muito tempo. – Estava precisando. – Passando um braço pela cintura dela, Francesco a puxou para si. – Como se sente? Ela pareceu pensativa. – Estranha – murmurou. – Estranha é bom ou mau? – quis saber ele. O lindo ar de serenidade envolveu o rosto de Hannah. – Bom. O corpo de Francesco doía de novo com a vontade de fazer amor. Passando os dedos pelo seu ombro e sentindo a maciez da pele, depositou um beijo no seu pescoço. – Está com fome? O desejo aumentou quando ela sussurrou ao seu ouvido: – Faminta. UM CAFÉ da manhã tardio foi trazido para eles na varanda. Os copos da noite anterior já haviam sido retirados dali. Enrolada no roupão de hóspedes e com o cabelo úmido do banho que tomara com Francesco, Hannah esticou as pernas e tomou um gole do café forte e doce. Ao seu lado, usando seu próprio roupão cinza, a coxa colada à dela, Francesco sorriu. – É um felizardo por acordar todos os dias admirando este cenário – suspirou ela. Com o sol da manhã acima de sua cabeça e as ondas serenas se sucedendo na praia particular à distância, era como se estivessem em um paraíso secreto. Em geral o café da manhã de Hannah consistia apenas de uma torrada. Nesse dia recebera ovos, bacon, pãezinhos e frutas suficientes para alimentar uma enfermaria inteira. Sim. Paraíso. – Acredite, este é o cenário mais maravilhoso que aprecio em muito tempo – disse ele olhando para Hannah, os olhos brilhantes e a voz cheia de segundas intenções. Pensando em todas as belas mulheres que circulavam à sua volta, Hannah achou muito difícil de acreditar. Mas não era bom pensar naquelas mulheres. Comparar-se a elas seria comparar vinagre a vinho. Pela primeira vez na vida desejou ter se maquiado um pouco, mas logo se recriminou por tal pensamento ridículo. Todas aquelas garotas que tinham tempo e inclinação para se embonecar... bem, boa sorte para elas. A aula de maquiagem que recebera no salão de beleza para a noite em que haviam saído parecera perda de tempo. Fitar seu reflexo quando ficara pronta, fora como fitar uma estranha. Não se sentira ela mesma. Entretanto, a aula de maquiagem poderia ser útil para o casamento de Melanie. Algo que a fez sentir um nó na garganta. – Sabe que é a mulher mais sexy do planeta, não sabe? – As palavras de Francesco abalaram sua melancolia e seus pensamentos. – Não acho que sou – retrucou ela tomando mais um gole de café.


– Posso provar que é – murmurou Francesco de maneira sensual ao seu ouvido, apertando a mão dela, colocando sobre sua coxa, e deslizando-a para o membro rijo. – Como pode ver, minha sábia doutora, é irresistível. – Enquanto falava, mordiscou seu pescoço mantendo o aperto em sua mão para que sentisse exatamente o efeito que provocava. Uma sensação de poder a dominou. Um calor intenso surgiu entre suas pernas e ela prendeu a respiração. Desde que acordara haviam feito amor duas vezes. Pensara estar exausta e que Francesco também estivesse. Com a mão livre ele abriu seu roupão e segurou um dos seios, apertando com delicadeza. – Também possui os seios mais bonitos do mundo – murmurou ele ao seu ouvido antes de beijá-la na boca com uma ferocidade que reascendeu o desejo de Hannah. – E se... um de seus empregados aparecer? – gemeu ela, afastando-o enquanto ele passava o braço pela sua cintura. – Isso não vai acontecer. – Assim dizendo, ele passou a mão por baixo das nádegas de Hannah e a fez deixar a cadeira e sentar sobre a mesa, ignorando os pratos e xícaras. Ansiava por penetrá-la de novo, seu corpo queimava de paixão, mesmo após terem feito amor tão recentemente. Eram as lembranças do banho que haviam tomado juntos quando ela se ajoelhara e tomara seu órgão na boca pela primeira vez... Só em pensar nisso suas fantasias se fortificavam. Enfiando a mão com impaciência no bolso, pegou o preservativo que colocara ali por impulso, e enquanto Hannah o distraía com beijos em seu rosto e pescoço, ele enfiou a proteção, separou suas coxas e a penetrou. Hannah atirou a cabeça para trás, arregalando os olhos como se estivesse em choque. Francesco se recriminou em pensamento. Sua excitação era tão intensa que se esquecera que há apenas algumas horas ela fora virgem. – Foi demais? – perguntou, lutando para se dominar. – Oh, não. – Como se quisesse provar o que dizia, ela apertou suas nádegas e pressionou o corpo contra o dele. – Quero tudo isto. Era do que Francesco precisava. Afastando a louça para todos os lados a fim de ter mais espaço, ele a fez deitar sobre a mesa, as coxas separadas, e enroscou suas pernas em seu corpo, penetrando-a com mais intensidade, retrocedendo e voltando a penetrar, até que ela gemeu, as mãos espalmadas em seu peito, a cabeça girando de um lado para o outro. Apenas quando Francesco sentiu que ela retesava os músculos é que se deixou levar, alcançando o clímax com um rosnado antes de cair sobre ela. Só muito mais tarde ele percebeu que estavam ainda de roupão; erguendo o queixo ele a fitou. – Foi incrível – exclamou ela. Ele também sorriu. – Você, signorina, aprende depressa. – E você, signor, é um ótimo professor. – Há tanto mais para lhe ensinar. – Depravação? – brincou ela. – Na maior parte. Ela riu e deitou de novo sobre a mesa com um suspiro de contentamento, fitando o céu de cobalto. Francesco estava sereno. E pensar que ele era a causa disso...


O CAFÉ da manhã tardio se transformou em almoço tardio. Francesco jamais sentira o sol sobre a pele com tamanha intensidade. Pela primeira vez em dez meses estava aproveitando um dia de descanso... e nem mesmo pensara no trabalho. Não se sentia obcecado pela raiva contra o pai. No fundo de sua mente havia a constatação de que em determinado momento teria que mandar Hannah de volta a Londres no jato, porém afastou o pensamento, feliz em fazer amor. E ela também parecia feliz, ostentando seu sorriso radiante. Beijando-a pela centésima vez ele apertou a faixa do roupão e rumou para seu quarto a fim de pegar mais preservativos. A caixa estava quase vazia. Balançou a cabeça, estupefato. Jamais experimentara tanto desejo por uma mulher. Não conseguia se saciar com Hannah. Quando voltou para fora ela servira mais café para os dois e estava enroscada em um dos sofás lendo algo no celular. – Tudo bem? – perguntou Francesco ocultando a irritação que o dominou. Era a terceira vez que ela consultava suas mensagens desde que haviam acordado. Tratou de se lembrar que Hannah era uma profissional dedicada. Seus pacientes eram sua prioridade, nada mais justo. Entretanto, apesar de todos os pensamentos sensatos, não conseguia evitar a vontade de arrancar o celular das mãos dela e pisá-lo sob os pés. Afinal era fim de semana. Hannah estava de folga. Ela ergueu o rosto e sorriu. – Está tudo bem. – Ótimo. – Sentando-se ao seu lado, Francesco retirou o celular de suas mãos e o enfiou no bolso. – Não, de novo – reclamou ela. – Agora que se certificou de que seus pacientes estão bem, não precisa dele. – Francesco, me devolva. – Mais tarde. Precisa aprender a relaxar. Além do mais, é rude ficar no celular o tempo todo. – Por favor. – A voz dela era baixa e todo o bom humor desaparecera. – É o meu celular. E não estava sendo rude... você fora para o quarto. – Hannah estendeu a mão. – Dê. – Vale quanto? – perguntou ele se inclinando para ela e falando em tom sensual. – Caso me devolva não o chutarei no tornozelo. – Pensei que era contra a violência. – Eu também pensava. – Um sorriso rápido surgiu em seu rosto e logo ela caiu na gargalhada, sua alegria aumentando quando ele enfiou o celular no bolso do roupão dela. – Mas agora entendo... alguma violência pode dar certo. Ele a beijou no pescoço e apertou suas costas. Aproximava-se a hora de levá-la para casa e restava pouco tempo para ele se deleitar com seu corpo. – Estarei com mais frequência em Londres por um certo tempo – disse em tom casual, acariciando um dos seios dela. – Telefonarei para você. Iremos jantar. – Sendo evidente que Luca Mastrangelo continuava a rondar o cassino Mayfair, Francesco precisava ficar alerta. E se isso significava passar mais tempo em Londres, que assim fosse. O cassino seria seu. Garantiria esse negócio e nada o impediria. Hannah gemeu quando ele passou a língua pelo mamilo rijo.


Pelo menos estando em Londres com mais frequência poderia desfrutar da companhia dela por mais tempo. Jamais lhe ocorreu que Hannah teria outras ideias. HANNAH ABRIU as cortinas e entrou no cubículo, voltando a cerrá-las à sua volta. Sorriu para a garotinha deitada na cama e que fora trazida havia uma semana com encefalite, inflamação no cérebro, depois sorriu para os pais ansiosos. – Já temos os resultados dos exames – comunicou sem perder tempo com rodeios. – As notícias são boas. Essa era a parte favorita do seu trabalho, pensou minutos depois quando voltava para seu pequeno espaço... Contar aos pais que viviam em um inferno que seu filho ou filha se recuperaria e que o pior já passara. Ligando o desktop, abriu a pasta da garotinha pronta para fazer suas anotações. O celular vibrou em seu bolso. Ela o pegou e seu coração acelerou ao ver o nome de Francesco brilhando na telinha. O tempo pareceu parar enquanto ela ficava imóvel. Deveria atender? Ou não? A ligação foi para o correio de voz antes que tomasse uma decisão. Fechando os olhos, ela fez movimentos circulares com o pescoço, atirando a cabeça para trás. Por que, oh, por que concordara em vê-lo de novo? Na verdade não concordara. Na ocasião estivera muito ocupada entre os braços dele para pensar com coerência sobre qualquer coisa além das sensações que ele lhe provocava... Hannah apertou os olhos. Francesco, arrogante como sempre, presumira simplesmente que ela desejava vê-lo de novo. Uma crise de riso histérico ameaçou dominá-la. Não podia vê-lo outra vez. Não podia. O tempo que havia passado na Sicília a fizera conhecê-lo... o bom e o mal que havia nele, e ela se sentira viva, sentira tantas coisas. Demais. Tudo que Hannah desejava agora era se concentrar no trabalho e deixar Francesco como uma linda lembrança. Agora procuraria experiências totalmente diferentes. Nada que desse um nó na sua cabeça. Nada que comprometesse o que construíra e pelo que trabalhara quase toda a sua vida. Mas, querido Deus, o vazio que habitara seu coração por tanto tempo desaparecera, e agora se sentia repleta, como se tivesse voltado à vida. E isso a assustava mais do que tudo. Hannah esfregou as têmporas com as mãos, afastando a dor de cabeça que começava a surgir. Devia ir para casa. Seu turno terminara oficialmente duas horas atrás. A ideia de voltar para seu pequeno lar a encheu de tristeza, como acontecia nos últimos três dias desde que voltara da Sicília. Sua casa parecia tão vazia. O silêncio... Como nunca antes notara o silêncio quando só ouvia o rumor da própria respiração?


Pela primeira vez na vida se sentiu muito só. Não a solidão habitual que a acompanhava desde que Beth morrera, mas um isolamento diferente, mais frio. Até as paredes amarelas e brilhantes de seu cubículo pareciam escuras. O TELEFONE de Francesco soou. – Ciao. – O jovem traficante voltou. Nós o pegamos. – Traga-o aqui. Francesco sabia muito bem de quem Mario falava. Um rapaz que mal completara 18 anos e que visitara seu clube de Palermo algumas semana atrás. As câmeras o haviam flagrado passando saquinhos de pó e pílulas para alguns frequentadores do local. Porém ele conseguira escapar antes que os seguranças pudessem prendê-lo, e desaparecera na noite. Francesco esfregou os olhos. Não importava o quanto se esforçasse para deter os traficantes, havia sempre um novo para preencher a vaga. Era como tentar parar as marés. A única coisa boa a dizer era que pelo menos estava se esforçando para limpar o ambiente e deter parte dos danos que seu pai causara. Salvatore fora responsável por canalizar milhões de euros em drogas para a Sicília e o continente europeu. Como conseguira manter segredo de seu filho era algo que Francesco jamais entenderia; se Francesco tivesse sabido teria destroçado o pai, porém na ocasião em que soubera do seu envolvimento já era tarde demais. Salvatore já fora enterrado quando Francesco descobrira a verdade. Ocorreu-lhe, e não pela primeira vez, que seu pai tivera medo dele. Devagar, mas com firmeza, estava desmantelando a torpeza que Salvatore Calvetti construíra, tomando cuidado para escolher o que destruir primeiramente, a fim de não fazer tudo cair sobre ele mesmo. Havia apenas alguns dias tivera enorme satisfação em fechar um restaurante que fora um centro de distribuição de armas, um dos muitos da enorme rede de seu pai. Enquanto Francesco despedia Paolo di Luca, o homem responsável pelo restaurante havia trinta anos, notara pela primeira vez como Paolo envelhecera; tinha a pele amarelada por problemas de fígado e reumatismo. Quanto mais pensava nisso mais percebia que os antigos associados de Salvatore eram exatamente isso... velhos. Quando fora que haviam envelhecido tanto? Não eram mais os homens assustadores das recordações de sua infância. Afora alguns poucos que não haviam aceitado a aposentadoria docilmente, a maioria ficara feliz por ser paga para se retirar e passar o resto de seus anos de vida com as esposas ou amantes... e brincar com os netos e bisnetos. Ouviu uma batida à porta e a maçaneta girou. Mario e mais dois seguranças entraram, segurando pelo pescoço o jovem traficante. Com eles entrou também o som da música que vinha do clube, um som estridente que feriu os ouvidos de Francesco. Era a mesma música que Hannah dançara tão mal no clube de Londres quando ele ameaçara o idiota que a assediava.


A mesma Hannah que ignorara seu telefonema quando ele ligara deixando uma mensagem de que estaria em Londres no fim de semana, e que respondera simplesmente avisando que estaria ocupada. Desde então... nada. Nem um sinal dela. E não podia dizer que Hannah não utilizava seu maldito celular. Vivia ligada a ele como se fosse um membro de seu corpo. Não havia como negar. Hannah o estava evitando. Francesco fitou o traficante agressivo, mas tudo que viu foi a expressão de serenidade no rosto de Hannah quando lhe falara em chamar a polícia para o trapaceiro do cassino. Hannah salvava vidas. Jurara jamais fazer mal a alguém. – Esvazie os bolsos – ordenou Francesco sem se levantar da cadeira. Podia perceber como o traficante desejava desobedecer, porém o bom senso prevaleceu e ele esvaziou os bolsos. Havia dois saquinhos que Francesco reconheceu como tabletes de ectasy e outro saco cheio de papelotes de celofane com um pó branco. Cocaína. Uma mistura de falsidade e pouco caso pairava no sorriso do traficante. Francesco cerrou os punhos. Levantou-se. O traficante ficou roxo, seu ar beligerante diminuindo um pouco ao ser confrontado com o físico poderoso de Francesco. Quem faz as regras? – Está desperdiçando sua vida – disse Francesco com severidade antes de se voltar para Mario. – Chame a polícia. – Polícia? – exclamou o traficante com voz estridente. Era óbvio que a mesma pergunta ecoava nas mentes de Mario e seus colegas. Primeiro o trapaceiro e agora um traficante? Ele podia ver a consternação nos rostos de todos eles e perceber que pensavam se o chefe não estava ficando mole. Mas naturalmente nenhum desses homens ousaria questioná-lo verbalmente, e mantinham expressões neutras. – Sim. A polícia. – Francesco olhou para o traficante. – Mas quando você acabar de cumprir sua sentença, se eu souber que está traficando de novo irei quebrar suas pernas pessoalmente. Ouça meu conselho... trate de estudar e andar na linha. Assim dizendo, saiu do escritório, do clube, e penetrou na noite escura de Palermo, sem reparar no grupo de guarda-costas que corria para alcançá-lo.


CAPÍTULO 10

HANNAH PAROU a bicicleta do lado de fora do pequeno portão e sufocou um bocejo. Estava morta de cansaço. O trânsito de sexta-feira à noite aumentara o cansaço de uma semana muito longa. Desmontou e conduziu a bicicleta pelo caminho estreito até a porta da frente. Assim que trancou o cadeado na parede, uma buzina estridente a fez girar. Uma enorme motocicleta negra com um motoqueiro também enorme parara em frente ao portão. Não era possível... Surpresa, Hannah observou Francesco se encaminhar em sua direção, magnífico com as roupas de couro preto; ele removeu o capacete, exibindo o rosto carrancudo. – O que faz aqui? – O coração dela acelerara e Hannah precisou de todo o controle para não ficar de boca aberta como um peixe no aquário. – Não importa. O que diabos faz de novo andando nessa armadilha mortal? Ele parou na sua frente bloqueando o sol do fim da tarde, os olhos brilhantes de fúria. Hannah piscou diversas vezes, perplexa por revê-lo. Mas os anos de prática para manter a calma no trabalho permitiram que se controlasse. – Não sei dirigir carros. Respirando com força pelo nariz, ele retrucou: – Há outros meios de se locomover. Não acredito que ainda utiliza essa... coisa. – Não é a mesma. Esta é nova. – Percebi, já que a velha ficou reduzida a sucata – prosseguiu ele com os dentes cerrados. – Só estou tentando entender por que ainda pedala quando quase morreu poucas semanas atrás. – Não gosto de transporte público. Além disso, pedalar me ajuda a eliminar a gordura do bumbum – acrescentou ela, tentando fazer graça para diluir parte da raiva que ainda brilhava no rosto dele, mas sua tentativa falhou redondamente. – Não há nada de errado com seu bumbum – disse ele friamente. – E mesmo que houvesse... e não há... não vale a pena arriscar sua vida por isso. A situação era tão surreal que Hannah teve vontade de se beliscar para comprovar que não estava sonhando. Estaria? Dormira tão pouco desde que retornara da Sicília dias atrás que era bem possível.


– Como qualquer outro ser humano neste planeta, posso morrer a qualquer momento, em qualquer tipo de acidente. Não vou me privar de minha bicicleta por causa de um motorista idiota que me atropelou. – Hannah mantinha o tom de voz firme, deixando claro que não estava disposta a discutir sobre o assunto. Era adulta. Pedalar era problema seu. – Além do mais, não está em posição de julgar... Faz ideia de quantos motoqueiros acidentados tive que costurar quando estagiava na Emergência? Uma garra de gelo percorreu a espinha dorsal de Hannah ao pensar que Francesco poderia... Tratou de afastar o pensamento funesto. – Minha habilidade na moto é grande, como você sabe muito bem – respondeu ele com toda a segurança de um homem que sabia ser o melhor no que fazia. – De qualquer modo, não ando por aí me equilibrando em um pedaço de metal barato. – Você pode ser incrivelmente arrogante, sabia? – Já me chamaram de coisas piores, e se puder convencê-la a se manter a salvo, tudo bem. Os olhos cor de chocolate retinham os dela com uma intensidade que chegava a queimar. Hannah ansiava por tocar os lábios raivosos. Não importava o quanto ficara... chocada ao vê-lo surgir de repente, havia algo muito tocante na sua contestação, pois ela sabia que se preocupava com seu bem-estar. Desviou o rosto com medo de fitá-lo por mais tempo. – Agradeço sua preocupação, porém minha segurança não é sua responsabilidade. De súbito, percebendo que ainda estava de capacete, ela o desafivelou e o tirou, ajeitando os cabelos da melhor maneira possível. Deus, desde quando era vaidosa? Não desde o fim de semana na Sicília. E por que sentia o desejo sufocante de prorromper em lágrimas? Era uma sensação que tentava dominar desde que voltara para casa no domingo à noite. – O que faz aqui? – perguntou de novo, as faces pegando fogo ao lembrar que ignorara as mensagens dele. – Não quero falar sobre isto na porta da sua casa. Quando ela não respondeu, Francesco inclinou a cabeça na direção da porta. – Esta é a parte em que você me convida para entrar. Há menos de uma semana ela o teria convidado, mesmo que fosse para vê-lo recusar. Naquela época seu coração batera loucamente na expectativa do que traria o fim de semana. Agora seu coração estava apertado só por ver Francesco... – Olhe, pode entrar um pouquinho, porém tive uma semana longa e difícil e um dia muito longo e muito difícil, por isso quero ir cedo para a cama. – Com gesto abrupto ela se voltou para a porta, apavorada que ele lesse seus sentimentos na expressão de seu rosto. A última palavra que deveria mencionar na presença de Francesco era cama. Mal acreditava em como fora ingênua ao dormir com ele. Será que pensara de verdade que poderia dividir a cama com o homem mais sexy do mundo e ir embora não sentindo nada além de uma leve satisfação por ter riscado um item de sua lista de coisas a fazer? Como fora tola e ingênua. FRANCESCO REFLETIU que jamais estivera em um lugar mais deprimente do que a casa que Hannah chamava de lar. Não que houvesse algo de errado... ao contrário, era uma casinha


bonita, de dois quartos com tetos altos e cômodos grandes, mas... Não havia aconchego ali. A mobília era minimalista e prática. As paredes estavam nuas e sem quadros ou qualquer coisa que mostrasse o gosto da moradora. Era apenas uma casca. Hannah colocou a bicicleta dobrável em um armário vazio debaixo das escadas e o fitou com ar de desafio... e um pouco de medo?... no rosto. Seu cabelo havia voltado a ser rebelde, mas isso o agradava muito. – Preciso de um banho – avisou ela. – É um convite? – perguntou ele falando mais por desafio do que por esperança. Ela ignorou a indireta. – Vomitaram em cima de mim duas vezes hoje. Ele fez uma careta. – Então não é mesmo um convite. – Dê-me cinco minutos e depois poderá me contar o que o fez vir de tão longe. Pode ir preparando um café. – Assim dizendo, ela subiu as escadas de madeira sem olhar para trás, as nádegas roliças lindamente delineadas pela calça preta e funcional que usava... Francesco afastou os olhos depressa. Se olhasse para aquelas nádegas se veria tentado a entrar no chuveiro com ela. E era melhor darem um tempo para pôr os pensamentos em ordem. A recepção de Hannah não fora das mais calorosas, porém o que ele esperara? Que ela se atirasse em seus braços? Não, não esperara por isso. Seu silêncio e a resposta polida na mensagem de texto deixaram ver muito bem como se sentia. Bem, agora ele estava ali e iriam conversar, Hannah querendo ou não. E ele percebera a luz que surgira brevemente em seus olhos quando ela o vira. A mesma luz que esquentara o coração de Francesco quando ela abrira os olhos depois do acidente na rodovia. Praguejou em silêncio. Mesmo que levasse o resto de sua vida, iria fazê-la desistir de andar naquela arma letal. Ouviu o som de água correndo. Hannah estaria nua...? Respirou profundamente, pendurou o casaco de couro sobre a beirada das escadas e se dirigiu à pequena cozinha quadrada. Encheu a chaleira com água, e procurou canecas e o café. Enquanto remexia nos armários da cozinha de Hannah, Francesco sentiu um aperto no peito. Jamais vira armários tão vazios. Só encontrou uma bisnaga, uma caixa de cereais, um grande pedaço de bolo de chocolate e molho de tomate. Só. Nem mesmo ovos. A geladeira apenas continha margarina, um litro de leite e um abacate. O que ela comia? A pergunta foi respondida quando abriu o freezer. E não foi apenas seu peito que se comprimiu, o coração também, como se tivesse sido apertado por garras de ferro. O freezer estava cheio; três prateleiras abarrotadas de comida congelada pronta para servir uma pessoa. Foi como se o teto desabasse sobre sua cabeça.


Com uma pontada de remorso por remexer nas coisas dela, fechou a porta do freezer e se voltou para o pote com café instantâneo e o açúcar. Não era de se espantar que Hannah tivesse querido experimentar um pouco da vida. Ele jamais conhecera alguém que levasse uma existência tão solitária. Quem diria. Hannah não era antissocial. Ao contrário, era ótima companhia. Mais do que ótima. Calorosa, inteligente... Linda. Sexy. Logo ela veio ao seu encontro na sala quase sem móveis; vestia jeans desbotado e camiseta preta. – Seu café está na mesa – anunciou Francesco, levantando-se do sofá. Apostava que a pequena mesa de jantar num canto raramente era utilizada, já que estava abarrotada de publicações médicas e recortes de jornais rigorosamente arrumados em pilhas. – Obrigada. – Cheirando a sabonete, ela pegou a caneca e foi se sentar na única poltrona, enroscando-se ali. Só então o fitou nos olhos. – Francesco, o que faz aqui? – Quero saber por que anda me evitando – foi a resposta pronta. – Não estou evitando você. – Não minta. Falou em trabalhar neste fim de semana, mas aqui está. Em casa. Ela atirou a cabeça para trás, o peito arfando. – Acabei de voltar do trabalho, como bem sabe, e estou me preparando para o plantão noturno de amanhã. Portanto, sim, estou ocupada. – Olhe para mim – ordenou ele. Iria controlar seu temperamento estourado de qualquer maneira. Com relutância, ela obedeceu. – O último fim de semana... percebe que aquilo que compartilhamos foi algo fora do comum? As faces dela ficaram rubras. – Foi muito agradável. – Há muitas palavras para descrever o que aconteceu, mas agradável não. Você e eu... – Não existe você e eu – interrompeu ela com ênfase. – Desculpe se falo de modo tão brusco, mas não quero vê-lo de novo. O fim de semana passado foi muito bom, mas não haverá bis. – Acha que não? – retrucou ele se controlando ao máximo para manter um tom de voz suave, mas quando ela enfiou a mão no bolso e retirou o celular, Francesco viu tudo vermelho na sua frente. – Não ligue essa coisa. Ela arregalou os olhos para depois estreitá-los. – Não me diga o que posso ou não fazer. Não é meu pai. – Não estou tentando... – Claro que está. – Quer parar de me interromper? – Pela primeira vez Francesco ergueu a voz. Hannah ficou quieta. – É muito irritante ter um telefone como concorrente – prosseguiu Francesco sem se importar por ver que ela empalidecera. Sabia muito bem que não havia concorrência porque o celular vencia sempre. Para a dra. Hannah Chapman seu celular era tudo que necessitava na vida. A fúria parecia transformá-lo em uma cobra venenosa. – Você se esconde atrás desse aparelho. Aposto que dorme com ele sobre o travesseiro.


O comentário se aproximava tanto da verdade que Hannah se encolheu por dentro e por fora. Meu Deus, por que ele viera vê-la? Por que não entendera a mensagem e ficara longe dela? Hannah não pedira isso. Tudo que desejara fora uma única noite para se sentir mulher de verdade. E acabara sentindo muito mais do que negociara. – Quer mesmo passar o resto da vida apenas com um celular para aquecê-la de noite? – O que eu quero não é da sua conta – replicou ela de modo mal-educado, acrescentando: – Mas apenas para clarificar o que já lhe disse, não quero um relacionamento... nem com você nem com ninguém. Ele atirou os braços para o alto com uma careta. – É claro que não. Sua vida já é tão cheia do jeito que está. – Isso é problema meu. – Como mantinha a voz controlada era um mistério. – Olhe para você, Hannah. Para este lugar. Você se esconde da vida, parece uma das ostras que se come em meus cassinos... Atirou-se sobre mim para vivenciar o que lhe faltava, conseguiu o que queria, e depois logo se retraiu de volta para a sua concha sem pensar nas consequências. Hannah não fazia a menor ideia sobre o que Francesco falava. – Que consequências? Usamos proteção. – Não estou falando de gravidez... estou falando sobre o que você fez comigo! – Hannah tinha certeza que caso fosse um leão ele teria rugido as últimas palavras. A fúria de Francesco era algo a temer, e ele parecia mais alto e forte, preenchendo cada canto da sala. Hannah devia se sentir apavorada, e não havia como negar o nó na garganta que a deixava em pânico, mas não era por medo dele... Não, era o medo de algo muito pior. E esse medo a deixou ainda mais na defensiva. Colocando a caneca no chão, ela se ergueu. A fachada de calma desaparecera, deixando expostas suas emoções confusas. – Não fiz nada para você! – Apenas me mudou. Não sei como, diabos, conseguiu isso... talvez seja uma espécie de bruxa... mas seja lá o que fez é de verdade. Deixei um traficante de drogas escapar sem lhe dar uma surra na noite passada, e mandei meus homens entregarem-no à polícia. – E isso é ruim? – Não é assim que trabalho. Nunca trabalhei assim. As drogas mataram minha mãe. Traficantes são a lama da sociedade e merecem o pior dos castigos. – Parou de falar abruptamente e respirou fundo. – Você me deu a melhor noite da minha vida e sei que gostou tanto quanto eu. Pode negar até ficar sem voz, mas ambos sabemos que compartilhamos algo especial. Você me convenceu a lhe dar aquela noite. Era o que você queria, e sou eu quem está pagando o preço. – Sabíamos que seria apenas uma noite – lembrou ela. – Encontros de uma noite nunca são tão bons. Aquele foi especial. E agora está me tratando como se eu fosse a peste e quero saber por quê. – Não há nada a dizer. Apenas não desejo vê-lo de novo. – Quer parar de mentir? – Não poso mais fazer sexo com você. Simplesmente não posso. Já deixou minha mente confusa o suficiente.


– Eu deixei sua mente confusa? – Francesco falava sem poder acreditar. – Faz ideia do que fez comigo? – Oh, sim, vamos recordar – disse ela com agressividade. – O pobre gângster lutando para lidar com sua consciência despertada, enquanto eu... Hannah respirou fundo, tentando com desespero controlar suas emoções. – Após meu acidente não parei de pensar em você. Só conseguia pensar em você. Quando o encontrei de novo tudo piorou. Fui até você em parte porque pensei que assim iria consertar alguma coisa, pensei que faríamos sexo e que tudo acabaria aí... Minha vida voltaria ao normal, retomaria o trabalho sem pensar mais no assunto... – E as coisas não aconteceram exatamente como imaginara? – quis saber ele em tom de zombaria. – Não, não aconteceram! – gritou ela. – Você continua em minha mente, e quero que desapareça. Meus pacientes merecem toda a minha concentração. Cada segundo do meu dia. Quero viver, porém não em detrimento deles. Tudo isso é demais para mim e não aguento. – Preveni você sobre as consequências – disse Francesco com severidade. – Expliquei que apenas um encontro de uma noite talvez não fosse ideal para uma mulher do seu tipo. Algo no íntimo de Hannah despertou. Dando três passos na direção dele, o empurrou no peito. – Você é um hipócrita – gritou. – Quantas mulheres já usou para o sexo? Até duas ao mesmo tempo? Três? Quantas vidas você arruinou? – Nenhuma. Porque todas as outras antes de você sabiam que tudo se resumia a sexo. Não significava nada. – Ha! Exatamente. – Ela o cutucou no peito, dessa vez o desequilibrando e fazendo com que caísse sobre o sofá. – Assim que elas viram a mesa seu ego frágil não suporta... Ela não conseguiu terminar a frase porque Francesco a segurou pela cintura e a fez sentar no sofá ao seu lado, forçando-a antes que tivesse tempo de raciocinar direito. – Sabe tão bem quanto eu que aquilo que compartilhamos tem valor – disse com brusquidão, seu hálito quente pinicando a pele de Hannah. – E ao contrário de sua opinião negativa sobre minha vida sexual, não sou um tarado. Até o fim de semana passado, vivia em celibato há dez meses. Hannah queria chutar o ar, gritar que a largasse, porém as palavras morreram em sua garganta quando os lábios dele esmagaram os seus em um beijo violento que a fez corresponder como se fosse uma mariposa atraída pela chama de uma vela. O gosto e o odor profundamente masculinos penetraram em seus sentidos, afastando todos os medos, tudo a não ser Francesco. Apenas cinco dias longe dele e estava desesperada. Louca para vê-lo. Louca por isso que estava acontecendo nesse instante. Praticamente se dissolveu em seus braços se agarrando a ele, pressionando cada músculo aos seus. E Francesco também se colou a ela, as mãos deslizando pelo seu corpo, puxando seu cabelo, a boca escaldante percorrendo seu rosto, pescoço, cada centímetro de pele. Estar nos braços dele parecia tão certo. Francesco a aquecia desde que deixara a Sicília. A camiseta de Hannah foi retirada pela sua cabeça e atirada ao chão seguida rapidamente pela de Francesco. Sem sutiã, os seios nus de encontro ao peito dele, os últimos alarmes no cérebro


de Hannah cessaram e tudo que ela podia fazer era saborear a força das mãos sobre seu corpo. Os dedos hábeis mexeram nos botões de seu jeans, enquanto as mãos pequeninas de Hannah baixaram o zíper da calça de couro. Conseguiram se desvencilhar das roupas usando os pés para chutá-las ao longe, e no processo cairam do sofá sobre o carpete macio. Apenas quando ficaram completamente despidos, Francesco procurou a calça de couro e de lá retirou a embalagem já familiar. Em segundos, colocou o preservativo e penetrou o corpo de Hannah. Dessa vez ela sabia exatamente o que fazer. Ela sabia muito bem. Nada de medos nem de inseguranças, apenas o prazer puro e simples. A sensação do corpo dele, enorme dentro do seu, sua força máscula que parecia esmagá-la, fizeram-na abandonar todos os pensamentos enquanto cedia às maravilhosas sensações. Mais tarde, deitada sobre o ninho formado pelas roupas no chão, o rosto de Francesco enterrado em seu pescoço, sua respiração quente de encontro à pele, ela abriu os olhos e fitou o teto. Grossas lágrimas ameaçavam rolar. – Estou esmagando você? – perguntou ele com a respiração ainda apressada. – Não – mentiu Hannah, apertando os braços ainda mais em volta dele. Francesco ergueu a cabeça para fitá-la. Sentira um tremor em sua voz. – O que houve? – Nada. – Pare de mentir para mim. Para preocupação dele, duas grossas lágrimas rolaram pelas faces de Hannah. – Estou tão confusa – murmurou ela. – Você me confunde. Disse a mim mesma que nunca mais cederia e veja o que aconteceu. Você apareceu e sucumbi no instante em que o deixei entrar. Abraçando Hannah para que repousasse a cabeça em seu peito, ele murmurou: – Tudo isso apenas prova que ainda não acabamos. Nenhum de nós dois quer um compromisso sério – prosseguiu. – Não temos tempo para um compromisso sério. Porém gostamos da companhia um do outro, daí qual o mal em nos vermos? Prometo que seus pacientes não serão prejudicados pelo fato de você ter uma vida. Não havia espaço para Hannah em sua vida. Não de uma maneira significativa. Quanto mais a conhecia, mais se convencia de que aquilo que compartilhavam jamais poderia passar de um romance sem consequências. Viviam em mundos diferentes. Desde que chegara à idade adulta, Francesco concluíra que jamais encontraria uma mulher para formar uma família. Mesmo antes de descobrir os diários da mãe e tomar conhecimento do comportamento desprezível do pai para com ela, soubera como Elisabetta lutara para se adaptar ao modo de vida do marido. Sua mãe fora uma boa mulher. Generosa e amorosa, mesmo dopada até a raiz do cabelo com as drogas que seu pai lhe dava para que não o atrapalhasse. Não que soubesse o que ele fazia com ela... Naquele tempo acreditava que Salvatore se preocupava com seu vício. Elisabetta Calvetti não se encaixara no mundo do marido, assim como Hannah não se encaixava no seu. As mulheres que se enquadravam no seu mundo eram venenosas. As mais raras... como Hannah que era boa e pura... ele sempre soubera que não se casariam para levar uma vida tão perigosa. O casamento destruiria os dois, assim como destruíra sua mãe.


No íntimo, Francesco sabia que deveria ter aceitado as recusas dela e a deixado em paz, mas nos últimos dias... Como se concentrar em qualquer coisa se sua mente só pensava em Hannah? Os lobos na forma de Luca Mastrangelo rondavam o cassino Mayfair e Francesco precisava entrar na briga. Do contrário, o negócio que simbolizaria acima de todos os outros o fim do império de Salvatore Calvetti estaria perdido. Francesco não estava pronto para desistir de Hannah. Ainda não. Saber que Hannah continuava na sua vida o deixaria calmo para se concentrar inteiramente na compra do cassino. – Muito bem – disse ela devagar. – Contanto que prometa não fazer exigências sobre o meu trabalho poderemos nos encontrar. Ele a apertou com mais força e a pressão em seu peito diminuiu. Ignorou o fato de que a condição que ela impusera... algo raro, pois era sempre ele quem ditava as condições para suas amantes e não o contrário... lhe provocara um nó na garganta.


CAPÍTULO 11

O CASSINO Mayfair parecia esfarrapado em relação aos cassinos que Francesco possuía, mas a decoração não o preocupava. Era apenas um detalhe facilmente corrigível. Mesmo os livros de contabilidade que em geral eram a primeira coisa que o interessava quando adquiria um novo negócio agora não importavam. Tudo que ele via era o que o cassino simbolizava. Entretanto, nessa noite, simbolismo e tudo o mais poderiam voar pela janela. Finalmente convencera Hannah a sair. É claro que ela andava ocupada demais para comprar um vestido novo, portanto usava o mesmo que trajara na Sicília, confessando com um sorriso encabulado que era o único item adequado em seu guarda-roupa. Francesco mordeu a língua para não dizer que lhe compraria um guarda-roupa novo e completo; sabia sem perguntar que ela recusaria. Reconhecera que recebera um baque no seu amor-próprio quando soubera que Hannah pagara com seu próprio dinheiro pelo vestido em Palermo. E pelo cabeleireiro. Contudo ficara surpreso por perceber que a respeitava por isso. Ela tivera carta branca naquela butique, poderia facilmente ter feito uma conta de milhares de euros no nome dele, mas não o fizera. Estava linda nessa noite. Nos dez minutos que levara para se preparar, escovara o cabelo, porém apenas conseguira deixá-lo mais eriçado. Usava uma maquiagem muito leve e calçava sapatilhas pretas. Porém, aos olhos de Francesco estava mais devastadora do que quando se embonecara para recebê-lo. Agora parecia real. Era Hannah. Um senhor de meia-idade e grisalho se encaminhou para eles com a mão estendida. – Francesco, não sabia que viria aqui hoje. – Sua mão e voz tremiam um pouco. – Queria mostrar o cassino para minha convidada – respondeu Francesco apertando a mão do homem e fazendo as apresentações. – Esta é a dra. Hannah Chapman. Hannah, este é sir Godfrey Renfrew, atual proprietário deste estabelecimento. – Doutora? – Godfrey arregalou os olhos confusos, medindo Hannah de cima a baixo. – Muito prazer em conhecê-lo – disse ela sorrindo. Será que Francesco precisava apresentá-la como doutora? – O prazer é meu – respondeu o senhor bem depressa, antes de fixar a atenção em Francesco. – Alguns de seus compatriotas estão me visitando esta noite.


Então era esse o motivo para o desconforto de Godfrey. Francesco relanceou os olhos pelo salão, detendo-se em dois homens altos tomando cerveja. Bem que seus espiões haviam contado que Luca Mastrangelo estava tentando solapar seu negócio. E parecia que Pepe estava metido nisso também. Caso Francesco estivesse na Sicília, bastaria sussurrar algumas palavras bem escolhidas ao ouvido de Godfrey e o cassino seria seu. Mas não estava na Sicília. E Godfrey já provara estar imune às ameaças sicilianas. – Já os vi – respondeu Francesco mantendo um tom calmo, até um pouco entediado. – São velhos conhecidos. – Sim... velhos amigos... Era uma maneira de descrever. Sorrindo sem vontade, Francesco aquiesceu com um gesto de cabeça. – Creio que vou cumprimentá-los. Desejando não ter trazido Hannah consigo, conduziu-a até os irmãos Mastrangelo. – Quem vamos cumprimentar? – perguntou ela surpreendendo-o ao enlaçar os dedos na mão dele. A não ser quando se abraçavam na cama, Hannah nunca segurava sua mão, mas, afinal, jamais haviam saído para andar de mãos dadas; todo o tempo compartilhado nos últimos 15 dias fora para comer e fazer amor. – Velhos conhecidos meus – respondeu ele de maneira tensa, embora a sensação dos dedos macios dela provocasse calma. Quando ficaram na frente dos irmãos Mastrangelo, Francesco já se sentia um pouco mais relaxado. – Luca. Pepe. – Estendeu a mão. – Então os boatos são verdadeiros – disse em siciliano. – Que boatos seriam esses? – perguntou Luca, dando um aperto de mão firme demais. – Ouvi dizer que estava interessado neste lugar. Pensei que tivesse deixado o ramo dos cassinos. Luca deu de ombros. – Os tempos mudam. – Sem dúvida. – Francesco forçou um sorriso. – Sua adorável esposa sabe que está retornando ao território proibido? Luca mostrou os dentes em um arremedo de sorriso. – Deixe Grace fora disso. – Não sonharia em colocá-la na conversa sabendo o quanto ela me odeia. – Francesco dirigiu sua atenção a Pepe. – Creio que sua cunhada me detesta mais do que você. – Sem dar aos dois o tempo de responder, exibiu os dentes de lobo. – Sugiro que repensem sua decisão de tentar adquirir este lugar. A documentação para minha compra está quase completa. Por fim, Pepe falou: – Mas ainda não está pronta, certo? – Logo estará. E se qualquer um de vocês tentar deter o prosseguimento da venda irá se arrepender. – Está nos ameaçando? – Parece surpreso, Luca. – Francesco usou deliberadamente um tom amigável. – Deveria saber que não sou homem de ameaças. Só de promessas.


Luca endireitou os ombros, ficando ainda mais alto. – Não serei ameaçado, Calvetti. Lembre-se disso. Apenas o aperto dos dedos de Hannah fez Francesco pensar melhor e não revidar. Controlou-se. Não queria ter essa conversa na frente dela, apesar de os três homens estarem falando em sua língua natal. – Não comece uma guerra que nunca vencerá, Mastrangelo. – Lembro de seu pai dizendo exatamente a mesma coisa para mim quando meu pai morreu. Seu pai achava que podia controlar os domínios dos Mastrangelo. – Luca sorriu. – Ele não conseguiu seu objetivo. Nem você conseguirá. Sorrindo pela última vez, Francesco replicou: – Mas não sou meu pai. Tenho uma paciência infinita. – Você está bem? – perguntou Hannah assim que se afastaram dos irmãos. – Sim. Vamos sair daqui. – Mas acabamos de chegar. Deixando o ar sair dos pulmões lentamente, ele não insistiu. Se insistisse ela teria que segui-lo, porém isso a aborreceria e Francesco não desejava aborrecê-la. Por mais estranho que fosse, a presença de Hannah aplacava sua raiva e a adrenalina que percorria seu corpo... não muito, porém o suficiente para que ele se controlasse. Tendo prometido à Hannah ensiná-la a jogar blackjack, Francesco procurou assentos em uma mesa. Ao contrário do campeonato na Sicília, quando a expressão de esfinge de Hannah fora seu principal trunfo, não era preciso blefar quando se jogava contra o crupiê. E ela entendeu as regras rapidamente, jogando como uma profissional. Em dado momento, Francesco chegou a pensar que fosse acabar com mais fichas que ele. Observá-la se divertir o acalmou mais um pouco e quase esqueceu os Mastrangelo, que tentavam avançar em seu território. Ficou muito satisfeito ao vê-la tomar uma taça inteira de champanhe. Hannah estava mesmo aprendendo a relaxar. O motorista os aguardava quando saíram. Assim que se acomodaram no banco de trás ergueram o vidro que os separava da frente, e Hannah apertou sua mão. Depois esfregou o polegar na parte interna de seu pulso. Francesco pareceu respirar com mais calma. – Como conheceu aqueles dois homens? – quis saber ela após alguns momentos de silêncio. Francesco apreciou o fato de Hannah ter se contido até ficarem sozinhos para fazer seu interrogatório. – Luca e Pepe? – É assim que se chamam? – comentou ela com secura. – Você se esqueceu de nos apresentar. Francesco suspirou. – Desculpe, são velhos amigos, pelo menos Luca era. – Era? – O pai deles trabalhava para o meu. E depois se demitiu. Hannah empalideceu. – Não se preocupe. Meu pai não o molestou... eram amigos de infância, o que livrou Pietro da vingança de Salvatore. Porém, pelo fato de meu pai não ter metido uma bala nele, não significou que estivessem em bons termos. Quando o relacionamento profissional terminou, a lealdade à


família fez com que qualquer amizade entre Luca e eu terminasse também. Tem a ver com respeito. Como Francesco invejara o afeto sincero que os dois rapazes Mastrangelo compartilhavam com seu pai Pietro. Era o tipo de relacionamento com o qual ele sempre ansiara, mas para Salvatore Calvetti um sinal de afeição pelo seu único filho consistia em um tapinha nas costas se estivesse disposto. – Não via Luca desde aquela época? – perguntou Hannah. – Ele compareceu ao funeral de meu pai. – Francesco desviou o olhar, desejando que ela não visse a expressão em seu rosto que refletia o que ele pensava sempre que recordava o funeral do pai. Apesar de tudo, Francesco pranteara a morte de Salvatore. Se soubesse na época o que sabia agora teria soltado fogos de artifícios junto à cova aberta para celebrar. – A morte de meu pai nos libertou para que eu e Luca continuássemos a ser amigos. Quando garotos, costumávamos dizer que quando crescêssemos abriríamos um cassino juntos. De fato abrimos há três anos, porém no ano passado ele resolveu deixar a sociedade. – Por quê? Francesco fitou Hannah. – Sua esposa acha que sou má influência para ele. Hannah franziu a testa. – Luca disse isso? – Não dessa maneira. Mas ficou óbvio, ela me detesta. Hannah continuou franzindo a testa. – Mas por quê? – Porque sou um grande e cruel gângster. – Não, seu pai era um grande e cruel gângster – corrigiu ela. – Mesmo depois de tudo que já testemunhou você se recusa a admitir. – Ele beijou a ponta de seu nariz. – Não, admito. Você é o que é, porém nem a metade do homem mau que deseja que os outros vejam. Ela não diria isso se pudesse ler a mente dele. Pensamentos de vingança não contra o pai, mas contra Luca Mastrangelo. E Pepe. Francesco não permitiria que o cassino Mayfair fosse parar nas mãos dos dois irmãos. O cassino era dele e faria o que fosse preciso para garantir isso. – Devo concluir que aqueles dois homens também estão interessados em adquirir o cassino? – perguntou Hannah, passando as pernas sobre as dele. – Ouvi rumores a esse respeito. E vê-los lá hoje à noite confirmou. – E devo concluir que você os ameaçou? – Diante do olhar surpreso dele, Hannah riu. – Posso não entender siciliano, mas sei ler a linguagem corporal. – E ainda acha que sou bom? – Não pôde deixar de notar as olheiras sobre os olhos dela, e isso o entristeceu. Ali estava uma mulher que trabalhava tanto, com intuitos tão elevados, que mal dormia. E ela via bondade nele? – Você não irá fazer mal a eles – disse Hannah com confiança. Francesco não respondeu. Jamais mentiria para ela. Sofrera muito com as mentiras.


Antes que ela questionasse seu silêncio, o celular vibrou e Hannah o procurou na bolsa. – É trabalho? – perguntou Francesco tentando manter a calma. A única vez em que Hannah perdia seu eterno bom humor era quando ele criticava o uso excessivo que fazia do celular. Nessas ocasiões ela mostrava as garras. Hannah balançou a cabeça de modo distraído. – Melanie. Quer saber se estarei livre amanhã para a prova final. Do meu vestido de dama de honra – acrescentou com ar aborrecido. – Não vai responder? – perguntou Francesco. Quando se tratava de trabalho ela respondia imediatamente. – Acho que deveria, sim. Antes que ele pudesse questionar sua relutância, estacionaram na frente do seu hotel. – Vamos tomar um banho juntos? – perguntou Francesco quando se viram seguros em sua suíte. Hannah franziu o nariz. Sentia-se... irritada. No momento, precisava de algo doce para contrabalançar a acidez que se formara em sua boca. – Podemos comer bolo de chocolate antes? – Com calda quente? Ela sorriu. Francesco já a conhecia tão bem. Em especial a respeito de seu vício por calda quente de chocolate. Mas agora o vício por ele se tornara mais forte. Imaginou se era assim que uma pessoa se viciava em drogas. Um pouco hoje, outro pouco amanhã, e promessas de nunca mais? Porém a pessoa não conseguia resistir. Porque era assim que se sentia a respeito de Francesco. Incapaz de resistir. E para quê? Vícios eram maus. Como Francesco poderia ser classificado como mau para ela? E seu trabalho não sofrera com o relacionamento dos dois. A única razão para resistir seria preservar seu coração, e já perdera essa batalha. Na realidade, nunca tivera uma chance. Olhou para ele, seu grande e querido urso. O que ele diria se soubesse, apesar de todas as declarações dela sobre não desejar um relacionamento sério? O que diria se soubesse que ela se apaixonara? Hannah o vira enfrentar os dois homens no cassino e desejara se interpor entre eles e aplicar uns golpes de kung fu para que deixassem Francesco em paz. A força de seu instinto protetor por ele a assustara. Era assim que costumara ser com Beth. Quando alguém brigava com uma das gêmeas era como se brigasse com a outra também. E Hannah se sentia segura ao lado de Francesco. Completa. Uma complementação diferente, mas tão poderosa quanto a que sentira com Beth. – Quer ir ao casamento de Melanie comigo? – deixou escapar sem mesmo pensar. Seu coração se apertou ao ver o choque no rosto dele. – Desculpe. Esqueça que disse isso – murmurou rapidamente. – Foi uma tolice... – Você me pegou de surpresa, só isso – interrompeu ele. – Está me convidando para o casamento de sua irmã? – Apenas se não estiver muito ocupado. Eu poderia... – Hannah mordeu o lábio. – Poderia... Francesco não soube o que ela tentava dizer, porém o modo como afastou os olhos e torceu as mãos o entristeceu. – Haverá lugar para mim? – perguntou ele procurando ganhar tempo para pensar melhor.


Uma risada forçada escapou da garganta de Hannah. – Se disser que estou levando um acompanhante, farão surgir um lugar mesmo que signifique colocar uma pessoa no colo de outra. – Está bem – retrucou ele falando com mais confiança do que realmente sentia. – Vou com você. A gratidão nos olhos dela o entristeceu ainda mais. APENAS NO meio da manhã entraram na enorme banheira juntos. Após uma noite de amor e cochilos rápidos, Hannah ficou feliz por simplesmente se deitar entre as pernas de Francesco, a cabeça apoiada em seu peito, e se deliciar com a água morna e borbulhante. O celular que colocara na prateleira perto da pia vibrou. – Deixe – ordenou ele, apertando os braços em volta dela. – Pode ser importante. – O celular continuará ali nos próximos dez minutos. – Mas... – Hannah, isto não pode continuar. Usa esse aparelho como uma muleta emocional, e não é bom para você. – Seu tom era severo e duro. Desde que haviam começado a se ver, Hannah estava ciente da raiva de Francesco por seu celular. Não por seu trabalho ou pesquisas; apenas pelo celular. – Creio que é demais chamar de muleta emocional – retrucou com secura. – Se um de meus pacientes morrer quando não estiver no trabalho, não vou querer me ver cara a cara em um estacionamento, café ou rua com seus pais, quando voltar ao trabalho, sabendo que perderam a coisa mais preciosa de suas vidas. A frieza na voz dele desapareceu ao dizer: – Foi isso que aconteceu com você quando Beth morreu? Ela aquiesceu. – Quando Beth deu entrada no hospital, o médico foi muito frio. – Hannah fitou os braços de Francesco com a pele cor de oliva. – Beth faleceu nas primeiras horas da manhã, muito depois de aquele médico ter terminado seu turno. Por sorte estivera sob os cuidados dos médicos e enfermeiras mais carinhosos e compassivos do mundo. Mais tarde, quando eu e meus pais fomos recolher os pertences de Beth, encontramos o primeiro médico no elevador. Hannah fez uma pausa, engolindo em seco. – Ele olhou através de nós como se não existíssemos. Ou não nos reconheceu como a família da garotinha que tratara horas antes ou reconheceu, mas disfarçou. De qualquer modo, eu o odiei por isso. Minha irmã estava morta e aquele homem era tão insensível que nem se importava. – Ainda o odeia? Hannah balançou a cabeça. – Agora compreendo. É preciso criar uma casca grossa contra o sofrimento. Acontece com todos. A diferença é que aquele médico deixou a insensibilidade dominá-lo. Jamais me permitirei ficar assim. Nunca deixarei que um de meus pacientes ou parente pense que não me importo.


– Mas isso deve obrigá-la a um grande esforço – observou ele. Francesco só vira uma pessoa morrer: sua mãe. Conseguira chegar ao hospital a tempo de se despedir, porém ela apenas se mantinha viva pelos aparelhos. Fora o acontecimento mais terrível de sua vida. E escolher uma profissão onde se vivia cercado por doenças e mortes... Não compreendia a dedicação e o desprendimento necessários para tal função. Ela leu seus pensamentos e disse: – Enviamos mais crianças curadas para seus lares do que as que perdemos. Isso compensa tudo. Francesco não soube o que dizer. Hannah perdera sua querida irmã gêmea... e transformara a dor em uma força para o bem. Não soubera desde o início que ela era boa demais para ele? E ainda sabia mais do que nunca. – A morte de Beth quebrou alguma coisa dentro de mim – murmurou ela devagar. – Meus pais tentaram muito me confortar, mas eu os afastei. Melanie estava desesperada para me consolar, mas a afastei também. Desde meu acidente percebi como tratei mal minha família. Mantive-me à parte de todos... até você aparecer. Francesco sentiu um aperto no peito. – Sua família se conformou por você se isolar do convívio dela? – Não. Mas o que meus pais podiam fazer? Não conseguiam me convencer. – A voz de Hannah se tornou melancólica. – Creio que no íntimo desejava que eles me forçassem. Estava tão perdida, e não conseguia encontrar a saída... Francesco desejava lhe dizer tantas coisas, entretanto nada adiantaria. – Provavelmente você tem razão sobre meu celular – resmungou ela. – Creio que é uma muleta. Pelo menos era assim até conhecer você. Ela virou a cabeça, repousando a face em seu ombro, e o fitou. – Estou tão contente que irá ao casamento comigo. A simples menção da palavra casamento fez o estômago de Francesco revirar. – Temo esse dia há tanto tempo – confessou ela. – Beth é o motivo de sua ansiedade? – ele se forçou a perguntar. – Por que ela não estará presente? Hannah enfiou as unhas em seus braços. – Esse será o primeiro evento de família verdadeiro que teremos desde sua morte. – Depositou um beijo no pescoço dele e respirou fundo. – Com você ao meu lado poderei suportar sem estragar o grande dia de Melanie. Não quero estragar nada, porém creio que nem minha cara de pôquer irá esconder meus sentimentos. – Engoliu em seco. – Tudo está doendo tanto de novo. Francesco limpou a garganta, que estava seca como serragem. Nada disso fora negociado. Não fazia parte de seu plano, embora desejasse tê-la ao seu lado enquanto finalizava a compra do Mayfair. Porque depois cada um seguiria seu próprio caminho. E nada disso fazia parte do roteiro original. Nem por um minuto pensara que ela começaria a precisar dele, não a médica segura e confiante. Algo apertou seu peito, uma espécie de pânico.


Se não fosse pelas lágrimas que rolavam pelas faces de Hannah e seu olhar agradecido, arranjaria uma boa desculpa para não comparecer ao casamento. Mas ver Hannah chorar? Não havia visão nem som piores. Prometeria qualquer coisa para vêla feliz. FURIOSO, FRANCESCO bateu com o telefone. O acordo de compra pelo qual tanto se esforçara durante meses ruíra por terra com Godfrey Renfrew admitindo que desejava algum tempo para “analisar uma oferta alternativa”. Os Mastrangelo estavam no seu caminho. Ligou para seu advogado. – Quero que consiga uma reunião com Luca Mastrangelo – disse, cada palavra mais fria que a outra. – Diga-lhe que, a menos que concorde em me ver amanhã, haverá consequências. Assim que desligou o celular tocou. Era Hannah. – Ciao – saudou ele. – O que houve? – perguntou ela percebendo algo errado embora estivesse em Londres e Francesco em Palermo. – Nada. O que posso fazer por você? – O relógio dizia que era hora do almoço. Hannah devia ter telefonado para aproveitar o horário. – Você não liga há dois dias. Só queria saber se estava bem. – Não havia acusação em sua voz. Apenas preocupação. – Estou ocupado, só isso. Silêncio. Depois ela disse: – Faz ideia de quando estará livre amanhã? Francesco esfregou os olhos. Prometera voltar a Londres no final da tarde na sexta-feira para que os dois pudessem ir a Devon. Hannah até marcara um hotel para ele. – Confirmarei amanhã de manhã – respondeu ele. Garantiria que a reunião com Luca e Pepe fosse de manhã, assim teria muito tempo para voltar para Hannah. Mais silêncio. – Tem certeza que está tudo bem? – Volte para seus pacientes, dra. Chapman. Vejo-a amanhã. HANNAH CONSULTOU seu relógio pela milionésima vez. Sua mala estava pronta, e sentia cãibras no estômago. Estava enjoada, nervosa e com medo. Contar com Francesco no casamento a fazia se sentir um pouco melhor, mas não o suficiente. Parecera tão distante ao telefone. Algo a perturbava, um pressentimento que temia analisar. Afastando a cortina, encheu-se de alívio ao ver um carro parar em frente à casa. Porém isso pouco durou quando abriu a porta e viu a expressão sombria no rosto de Francesco. – Não vai comigo ao casamento, vai? Ele entrou e fechou a porta atrás de si.


– Peço desculpas por avisar em cima da hora, mas preciso me reunir com Luca e Pepe Mastrangelo amanhã na hora do almoço. A venda do cassino Mayfair está ameaçada. Por muito tempo ela nada fez além de fitá-lo. Depois murmurou: – Bastardo. Francesco retrocedeu com hostilidade. – Não tenho o poder de estar em dois lugares ao mesmo tempo. – Mentiroso – replicou ela sem emoção, embora seu peito estivesse tão comprimido que tinha medo de sufocar. Isso não podia estar acontecendo. – Poderia ter agendado essa reunião para outro dia. Não está preso a horários rígidos. Francesco agora se voltara contra ela como uma serpente que a mordesse. Ele podia fazer o que bem entendesse, e o que desejava era se livrar do casamento de sua irmã Melanie. Estava pedindo que ela enfrentasse a situação sozinha. Depois de tudo que ela lhe confidenciara e toda a confiança que depositara nele, Francesco a deixava para enfrentar o casamento sozinha. – Tem que ser amanhã – insistiu ele. –Amanhã é o único dia em que nós três poderemos no reunir no mesmo país. O tempo é essencial. Não permitirei que os Mastrangelo roubem o cassino de mim. Trabalhei muito para obter esse acordo... é importante demais e não posso perdê-lo. Mario a levará para Devon. – Não se incomode. Chegarei lá por conta própria. – Preferia ir de bicicleta. Ou a pé. – Pode ir embora agora. – Hannah, sei que está desapontada. Tive um trabalhão para vir lhe dizer pessoalmente... – Ótimo. Então isso deixa tudo bem – retrucou ela com sarcasmo. – Está me dando o fora para brigar com seus velhos amigos. Pelo menos disse isso na minha cara. – Passei grande parte do ano demolindo o império de meu pai, erradicando o mal que ele semeou. – Francesco quase gritou, a fachada de frieza desaparecendo. – O único negócio que ele não conseguiu foi esse cassino. Fez de tudo, mas não conseguiu. Mas eu conseguirei. Levei meses para captar a confiança de Godfrey e não permitirei que os Mastrangelo me roubem o acordo. Seu pai? Hannah sabia que o relacionamento entre ele e o falecido pai fora difícil, via como Francesco ficava tenso sempre que o nome de Salvatore era mencionado, mas jamais suspeitara a profundidade do ódio do filho pelo pai. Francesco se calou, seus olhos escuros e belicosos. – Imagina que Beth a vê. Bem, imagino o mesmo a respeito de meu pai. Gosto de pensar que me observa destruir tudo que criou, e quero que veja o filho ter sucesso onde ele falhou. Quero que se revire no seu caixão infernal. Hannah jamais testemunhara tanto ódio. Estremeceu com asco. Esse era o Francesco sobre o qual ele mesmo a alertara desde o início. O Francesco que se recusara a ver. Mas agora via, e tudo que sentia era uma raiva enorme. – Vá se vingar, vá prejudicar seus velhos amigos, vá e mostre para seu pai morto o quanto é melhor que ele comprando o cassino. Deixe que isso simbolize o quanto é diferente dele. Dando um empurrão em Francesco, ela abriu a porta. – Agora saia e nunca mais me procure.


Com o peito oprimido, ele deu as costas. – Aprecie sua vingança, Francesco – gritou ela. – Tente não se engasgar com ela. Francesco não olhou para trás.


CAPÍTULO 12

HANNAH COLOCOU os brincos de pérolas, tentando conter o tremor das mãos. Desde o terrível confronto com Francesco na noite anterior, não parava de tremer. A longa viagem no último instante de trem para Devon fora uma batalha também... para não chorar por causa do bastardo que a abandonara quando ela mais precisara. Não queria pensar nele. Não quando faltavam alguns minutos para ir à igreja e ver sua irmã caçula casar. Melanie entrou no quarto trazendo uma caixa. – Como estou? – perguntou, colocando a caixa no chão, e fazendo um volteio. – Oh, está linda. – E estava mesmo. Como um anjo de branco. – Você também. Tomando cuidado para não se amassarem... Hannah usava um vestido cor-de-rosa de dama de honra... se abraçaram. – Os carros chegaram e os buquês estão prontos – anunciou Melanie. Fitou a foto de Hannah e Beth com 8 anos sobre a cômoda. – Tenho um buquê para ela também. – Como? – Para Beth. Hannah se controlou. – Se estivesse aqui seria minha dama de honra também. – Um olhar travesso cruzou o rosto de Melanie. – Vocês duas certamente tentariam me fazer tropeçar enquanto caminhasse para o altar. Hannah deixou escapar uma risada alegre. Ela e Beth juntas eram terríveis. – Fomos muito más com você, Mel. Quase nunca deixávamos que brincasse conosco, e quando deixávamos era para atormentá-la. Lembro que a convencemos a transformar-se em princesa. – Oh, sim! Pintaram meus cabelos de cor-de-rosa com suas canetas hidrocor e usaram lápis de cera vermelho como blush. Tratavam-me como uma boneca. – Desculpe. – Não precisa se desculpar. Ficava contente por vocês duas quererem brincar comigo. – Entretanto deve ter sido difícil para você. – Hannah pensou em todas as vezes em que Melanie suplicara para entrar na brincadeira das gêmeas e em como a mãe as forçava. Mas as


duas ignoravam a caçula a maior parte do tempo. A menos que quisessem usá-la para alguma traquinagem. – Sim, era difícil – concordou Melanie. – Vocês se completavam. Não precisavam de mim. As duas fitaram a fotografia em silêncio. Hannah queria chorar. Como desejava que Beth estivesse ali. E como desejava também que Francesco estivesse... Mel limpou a garganta. – Vamos, antes de estragarmos a maquiagem. Hannah enxugou uma lágrima furtiva no rosto da noiva. – Está linda, Mel. Beth ficaria com ciúme. Melanie riu. Depois abriu a caixa que trouxera. – Aqui está seu buquê e o de Beth. Pensei que gostaria de dá-lo para ela. Melanie tinha 9 anos quando Beth falecera. Agora era uma noiva. Hannah suspirou. Como não vira a irmã caçula crescer? Mel a seguira para Londres. Fora ela a manter o vínculo entre as irmãs. A manter toda a família unida. E tentava não se ressentir com a frieza de Hannah. Era sempre Melanie a sugerir que saíssem para almoçar. Sempre ela quem organizava as visitas mensais a Devon e nunca pedira nada além da companhia da irmã mais velha. Sua irmã. Seu sangue e carne. Como Beth. Hannah aspirou o perfume das flores e perguntou: – Quer vir comigo e dar para ela? Melanie ficou radiante. Hannah sempre visitava o túmulo de Beth sozinha. Assim podia conversar com a gêmea em paz. Aliás, fazia muitas coisas sozinha, sem a família. Sofrera tanto com a morte de Beth que pusera todos fora de sua vida... os pais e a irmã. E nem percebera que fizera isso. Também não pensara em deixar Francesco entrar em sua vida. Se tivesse pressentido o perigo, teria seguido o conselho dele e descoberto um método mais seguro para viver a vida. Mas o admitira em seu coração e agora ele a abandonara com crueldade. Não queria saber dos motivos dele. Deixara-a sozinha para enfrentar esse dia e jamais o perdoaria. Exceto que não estava sozinha... Abrira o coração para Francesco, mas também para sua pobre família negligenciada, que nada mais desejava além de amá-la e receber seu amor. Todos aqueles anos em que se fechara haviam sido anos perdidos, agora percebia. Hannah não desejava mais se esconder. Queria e amava sua família. Ironicamente, a rejeição de Francesco a ajudara. Hannah não permitiria que o grande dia de Melanie fosse estragado por ele. Apertou a mão da irmã. – Vamos agora? Podemos ver Beth antes da cerimônia. – Gostaria muito – disse Melanie. – Beth gostaria também, como eu.


FRANCESCO CONSULTOU o relógio. Uma e meia. Em trintas minutos Melanie Chapman entraria na igreja seguida pela irmã médica. Afastou o pensamento. Não era hora de pensar em Hannah. Era hora de agir. Com Mario e Roberto ao lado, entrou no saguão do hotel onde haviam combinado de se encontrar e subiu de elevador para a suíte particular reservada. Dois homens tão grandes quanto seus seguranças guardavam a porta. – Esperem aqui – disse Francesco para os seus. Seria uma conversa particular. Entrou na suíte e logo sentiu o clima tenso. Luca se sentava à mesa e o fitava com frieza. Pepe se reclinava em uma parede com os braços cruzados sobre o peito. Hannah estava a caminho da igreja... De onde viera esse pensamento? Cortara Hannah de sua vida. Não pensaria mais nela. Ou na dor em seu rosto. Ou quando dissera que ele era igual ao pai. Ele não era. Se fosse Luca e Pepe, já estariam mortos... Pepe por tentar lutar contra ele, Luca por romper a sociedade. Luca quebrou o silêncio ao dizer: – Bem, foi você quem quis esta reunião. O que deseja, Calvetti? Francesco pensava que sabia. O cassino. A última peça para acabar com o legado de Salvatore. A vingança contra o homem que maltratara sua mãe. Porém, só conseguia ver Hannah deitada no concreto e abrindo os olhos para sorrir para ele. Hannah roubara seu fôlego. E seu coração. Francesco olhou para os dois irmãos e seus velhos amigos. Para Pepe, o homem de quem roubara a namorada anos atrás. Francesco não soubera na ocasião que os dois ainda se viam, mas sabia que Pepe a amava. Por isso Pepe o odiava. Fitou Luca. O homem que encontrara o tipo de amor raro que ele desejaria também. O amor raro que poderia ter com Hannah. Poderia ter se não a tivesse abandonado quando mais necessitara dele. Soubera quando Hannah pedira para acompanhá-la ao casamento que ela se apaixonara. Então por que fora tão cruel? Por causa da vingança contra o pai que já morrera. Hannah não era como sua mãe. Não era sugestionável, era uma profissional forte. E ele não era como Salvatore. Apenas duas pessoas em toda a sua vida o haviam visto não como filho de Salvatore, mas como ele mesmo. Uma fora sua mãe. A outra penava pela irmã morta que não iria ao casamento de Melanie. O que ele fizera? Deu um passo atrás e ergueu as mãos.


– É seu. – Quando Luca e Pepe franziram a testa, ele sorriu. – O cassino. Se querem tanto podem ficar com ele. Os irmãos trocaram olhares. – Falo sério. É seu.– Rumou para a porta e fitou Pepe. – Sinto muito pela perda de seu bebê. Voltou-se para Luca. – Mande lembranças para Grace. Ela é boa demais para você. Girou a maçaneta da porta. – Calvetti – chamou Luca. Francesco se voltou para encará-lo. – O cassino é seu, não nosso. – Como disse? Foi a vez de Luca sorrir. – Grace e Cara já estavam furiosas com nossa ideia de comprar um cassino, e ainda mais por entrar em guerra com você. Já dissemos a Godfrey para aceitar sua oferta. Francesco forçou uma risada. – Grace é mesmo boa demais para você. Como Hannah era boa demais para ele. Francesco olhou de novo para o relógio. A qualquer momento o cortejo começaria a subir a nave da igreja devagar. – Preciso ir a um lugar. Até mais, amigos. HANNAH SEGUIU o cortejo tentando não sorrir, o que era difícil porque o vestido da noiva estava com a barra levemente suja de lama e musgo. Beth estava enterrada no cemitério ao lado dessa igreja e as duas haviam levado o buquê até o túmulo. Hannah refletiu como fora egoísta todos esses anos, impedindo que outros fossem com ela visitar o túmulo da irmã. E como estava feliz por Melanie ter encontrado um homem que a adorava para compensar tudo que sofrera na mão da irmã mais velha. Mas Melanie nada lamentava. Compreendia. Em todos os anos em que Hannah sofrera com a perda da gêmea, não notara que outros sofriam também... sua irmã caçula e seus pais. Faziam parte dela assim como Beth... Claro que não era a mesma coisa, mas que relacionamento era igual ao outro? Hannah fitou o pai de braço dado com Melanie e sorrindo. E lá estava sua mãe no altar, ainda linda, olhando o marido e suas amadas filhas sobreviventes. E havia o noivo, claramente nervoso e ansioso. Enquanto o casal fazia suas promessas no altar, por fim as lágrimas irromperam nos olhos de Hannah. DE ACORDO com o GPS de Francesco, a rota de Londres para Devon levaria três horas e 45 minutos de carro. De moto estimava fazer o trajeto em duas horas. Apenas não contara com o congestionamento, já que hordas de pessoas aproveitavam o último fim de semana de verão na Inglaterra para ir à costa.


Enquanto serpenteava entre os carros, Francesco refletia por que não podiam ser sensatos como Hannah e viajar na sexta-feira à noite com as estradas vazias. A cerimônia do casamento já devia ter terminado e a festa começara. HANNAH PRECISAVA de ar. Seus pulmões pareciam querer explodir. Tentara muito, sorrira, conversara com todos. Uma pergunta sempre ouvia: “Já encontrou um bom rapaz?” E a cada vez respondia com bom humor: “Ainda não, mas encontrarei.” Parecia que um espinho entrava no seu coração. Agora que a festa ia adiantada, deixou o salão e se sentou em um banco do jardim, sentindo a brisa suave. Só cinco minutos de solidão. – Posso me sentar com você? Era sua mãe. Hannah aquiesceu com um gesto de cabeça. Como Francesco pudera deixá-la assim? Estivera convencida que ele nunca a magoaria. Fisicamente lhe dera muito. Porém emocionalmente... a despedaçara. Pela primeira vez em 15 anos ela procurara ajuda. Mesmo sabendo como sua companhia seria importante ele a deixara, e para quê? Para se vingar de um morto. Será que ela fora carente demais? Não sabia. Francesco tinha sido seu único relacionamento. Desde Beth... – Por que permitiu que me escondesse depois da morte de Beth? – perguntou de supetão. O interesse de Francesco em seu relacionamento com os pais a fazia questionar muitas coisas. Um longo silêncio ocorreu até sua mãe pegar sua mão. – É uma pergunta que eu e seu pai nos fazemos com frequência. Quando Beth morreu, sabíamos como devia sofrer. Vocês duas... eram uma só entidade. Hannah respirou fundo. – Ficamos felizes por você querer ser médica, e a deixamos se isolar sob a desculpa dos estudos. – A mãe suspirou. – Não deveríamos ter permitido que se isolasse. Mas foi tão gradual que nem percebemos. Gostaria de voltar no tempo e insistir para que fosse membro da família e não uma estranha na mesma casa. – Também gostaria. Mãe, pode me dar um abraço? A mãe fechou os olhos, como se agradecesse a Deus, e envolveu Hannah nos braços lhe dando um grande conforto. HANNAH TOMOU o último gole de champanhe. Lembrou de Francesco. Tudo lembrava Francesco. Até o homem que acabava de entrar enquanto muitos dançavam. Virou o rosto para a pista e sorriu ao ver seu pai dançando. Agora sabia de quem herdara a falta de jeito. Mas por que ficava junto ao bar observando em vez de se reunir aos que se divertiam? Mesmo com o coração partido, conseguira ir ao casamento. Animada, Hannah percorreu as mesas e foi até a pista segurando a mão do pai. Ele pareceu surpreso, mas feliz.


Começaram a dançar fora do ritmo, e as pessoas se juntaram à sua volta. Ela podia. Conseguia fazer parte da vida. Não precisava ficar olhando de fora. Uma das amigas da irmã bateu em seu ombro: – Aquele não é o homem do clube Calvetti? – gritou para se fazer ouvir. Seguindo a direção apontada, o coração de Hannah deu um pulo ao ver a figura alta do homem que acabara de entrar. Esqueceu-se de tudo... a não ser dele. Não era parecido com Francesco. Era o próprio. Ele começou a se aproximar, elegante no terno de riscas, a camisa azul desabotoada no peito... Por fim chegara, pensava Francesco. Nada fora fácil nesse dia, até o pneu da moto furara. Precisara chamar um helicóptero para terminar a viagem. Mas ali estava na frente dela. Hannah arregalou os olhos, chocada. O que ele lhe fizera? Francesco não fazia ideia que música tocava, porém segurou Hannah pela cintura e começou a dançar. Podia sentir os olhos de todos cravados nos dois. – O que faz aqui? – perguntou ela. – Não é bem-vindo. – Sei disso, mas preciso ficar perto de você. Ela tentou escapar, porém ele não permitiu. – Não a deixarei fugir até conversarmos. – Este é o casamento de minha irmã. Não conversarei com você aqui. – Deveria ter ficado com você hoje, conhecido seus pais, porém deixei que a fome por vingança me dominasse, fazendo sofrer quem amo. A dor no olhar de Hannah desaparecera, substituída pela surpresa. – Você – enfatizou ele. – Amo você. Deveria saber que foi o destino que a trouxe para mim. – Não quero ouvir – disse Hannah com voz rouca. Ele merecia essa resistência. Francesco se afastou um passo e a segurou pelos braços. – Lembra quando lhe concedi cinco minutos do meu tempo? – Fora há um mês apenas. Se ele soubesse aonde levariam aqueles cinco minutos teria se trancado no escritório. Tolo e arrogante. – Agora peço cinco minutos do seu tempo. Será que tudo acontecera realmente só há um mês? Como ele pudera mudar tanto? – Acredite, se pudesse voltar no tempo faria tudo diferente – disse Hannah se soltando. – Vamos ao jardim. Mas só porque não quero cenas diante de meus pais. A BRISA estava mais fria desde que Hannah se sentara no jardim com a mãe. A festa estava a todo vapor e a paz que encontrara ali desaparecera. Sentou-se no mesmo banco com uma lata vazia de refrigerante enquanto um grupo de meninos jogava futebol. Francesco se sentou ao lado mantendo distância. Mas Hannah estava consciente de seu calor. – Vamos lá, sobre o que quer conversar? – perguntou ela, rezando para Francesco não fazer tolas declarações de amor. Se a amasse jamais a teria deixado sozinha para enfrentar esse dia.


– Quero lhe falar sobre meu pai – disse ele, surpreendendo-a. – Sempre soube que era um bastardo, porém era meu pai e eu o respeitava. Cheguei a amá-lo. Tudo que sempre desejei foi seu respeito também. Fechei os olhos para tantas coisas que aconteciam sob o meu teto. Fitou-a com intensidade. – Sempre soube que ele era violento. Normal. Era nosso modo de viver. Sabia que ele exigia respeito. Normal também. O que eu ignorava e apenas soube após sua morte, quatro anos atrás, era que ele se tornara um dos maiores traficantes de drogas da Europa. Então passei a desprezálo. – Tomou fôlego. – Mas o que descobri há um ano ao ler os diários de minha mãe é que ele a surrou durante todo o casamento, foi infiel e lhe forneceu as drogas que acabaram por matá-la. Quando pegou a mão de Hannah, ela não se afastou. – Mamãe tinha 17 anos quando se casaram e era muito inocente. Salvatore era 23 anos mais velho que ela e um bruto desde o início. – Suspirou. – Violentou-a na noite de núpcias. Deu-lhe a primeira surra na lua de mel. E mamãe fez de tudo para me proteger e impedir que eu soubesse. Quando menino era normal ver minha mãe com hematomas. Ríamos por ela ser muito desajeitada, mas era tudo mentira. Francesco balançou a cabeça e passou os dedos pelo cabelo. – Passei três dias lendo os diários dela. Quando terminei sentia tanto ódio por Salvatore... e culpa... Como pudera ser tão cego? O homem que fora meu herói não passava de um molestador de mulheres e traficante. Ele queria vê-la drogada... era um modo de dominá-la. Juro que se já não estivesse morto eu o mataria. Hannah estremeceu. Pobre Francesco. Sabia que ele odiava o pai, mas a verdade era brutal. Pior do que imaginara. Francesco acariciou seu rosto. – Passei os últimos 11 meses destruindo tudo que ele construiu. Dei fim às falcatruas. Só queria vingar minha mãe. Já acabara com seus pontos e quartéis-generais de drogas, mas resolvi continuar... o que mais desejava era o cassino Mayfair. Seus olhos se fundiram aos dela. – Anos atrás meu pai tentou comprar esse cassino. Foi o único fracasso em sua vida. Tentou de tudo, mas Godfrey Renfrew não quis vender para um notório gângster. Para mim, a compra do Mayfair significaria ter sucesso onde ele fracassara. Provaria que era melhor do que ele. – Então venceu e conseguiu sua vingança – murmurou ela. – Não. Entrei na sala com os Mastrangelo hoje e soube que havia perdido. Porque perdera você. Como poderia ser melhor que meu pai se deixara escapar a pessoa mais importante da vida por causa de um capricho? Roçou os lábios nos dela, fazendo-a estremecer. – Os Mastrangelo foram generosos, mas cancelei minha oferta pelo cassino – sussurrou Francesco. – Já não o quero. Só quero você. Se me quiser. Não a culparei se não me aceitar. – Suspirou. – Sabia que não a merecia. O único relacionamento de casal que conheci foi o de meus pais... um verdadeiro inferno. Você merece muito mais. – Nem todos os casais são como eles. – Sei disso racionalmente, porém emocionalmente levei mais tempo para aceitar. Queria protegê-la de mim mesmo. Olhava para você e via a inocência de minha mãe antes de se casar com Salvatore. Não queria macular você. – Como me macularia? Não é seu pai, Francesco. Você é único. É você.


Ele a abraçou com força. – Juro que nunca mais a magoarei. Você me torna melhor. Mesmo que não fiquemos juntos, serei melhor por tê-la conhecido. Lágrimas surgiram nos olhos de Hannah, cujo coração batia forte. Será que não queria ficar com ele? – Sei como a Medicina é importante para você – continuou ele –, mas preciso saber se posso participar de sua vida também. Esqueça o que disse sobre você não se encaixar no meu mundo... Preciso me encaixar no seu. Por favor. Não sou perfeito, mas juro pela alma de minha mãe que irei amá-la e respeitá-la pelo resto de meus dias. Hannah se conteve para não chorar, porém sua voz soou rouca: – Amo suas imperfeições. Nenhum de nós é perfeito, e... – Respirou fundo. – Acho que é o homem ideal para mim. Ela mal terminou e Francesco a beijou com fúria e paixão. – Não chore, amore. – Ele riu. – Devia saber que não era você quem iria se queimar nesta história, mas eu. – Oh, não. Se soubesse como você me queimaria teria fugido antes. – Hannah se sentia leve. – Falando sério, você me fez reviver. Deu colorido ao meu mundo. Também quero ficar na sua vida. Seu passado o moldou para ser o homem bom que é hoje e que eu amo. – Verdade? – Sim. Mostrou-me que preciso de um companheiro. E de minha família também. Até perdi o vício do celular. Hoje só chequei as mensagens três vezes. Ele riu acariciando seu cabelo. – Gostaria de visitar o bastardo que a atropelou e agradecer porque me fez conhecer você. – Foi o destino. – Devíamos convidar o infeliz para o nosso casamento – sugeriu ele. – Vamos casar? – Claro. Amo-a, dra. Chapman. – Também o amo, signor Calvetti.


EPÍLOGO

HANNAH GALGOU com cuidado os degraus íngremes da porta principal da villa, inalando, feliz, o aroma dos limoeiros. Francesco abriu antes que ela chegasse. – Buonasera, dottoressa Calvetti – saudou ele. – Boa tarde, signor Calvetti – respondeu ela antes de começar a falar fluentemente em italiano. – Como passou Luciano? – Foi um anjo. Bem, tem sido assim desde que dispensei a babá. Hoje ele se cansou... adormeceu 15 minutos atrás. Mas, e você? – Consegui o emprego! – exclamou Hannah radiante. Ele a puxou para si e beijou. – Sabia que conseguiria, sua esperta. Aliás, Tino já está preparando seu prato preferido para o jantar. – Mexilhões no vinho branco? Ele aquiesceu com um gesto de cabeça. – Seguido por bolo com calda quente de chocolate. – Amo você! Tino, o chef, fazia a melhor calda de chocolate do mundo. Ele riu dando um tapinha nas nádegas dela. – Vá tomar banho. Abrirei uma garrafa de vinho. Hannah o beijou. – Melanie mandou uma mensagem. Devem vir para o fim de semana. – Ótimo. Mandarei o jato buscá-los na Inglaterra. Hannah subiu as escadas de pedra e rumou para a suíte do casal. Ao passar pelo quarto de seu filho de 18 meses, abriu a porta para vê-lo dormir. Beijou-o de leve e saiu. Quando chegou ao seu quarto, encontrou o maior buquê de flores que já vira. A fé que ele depositava nela sempre a surpreendia. Luciano surgira em suas vidas inesperadamente. Ela engravidara com dois meses de casada. Quando chegara a época de Hannah ter licença-maternidade, haviam se mudado para a Sicília concordando que quando ela pudesse voltar a trabalhar retornariam para Londres. Porém... ela


se apaixonara pela Sicília, pelo povo e pela língua. E era mais fácil para Francesco supervisionar seu império dali e a esposa o veria mais. Odiavam ficar separados. Determinada, Hannah aprendera italiano e siciliano. Contratara uma professora e dentro de semanas já se recusava a falar em inglês com Francesco ou qualquer outra pessoa. – Consegui o emprego, Beth – dessa vez falou em inglês, no caso de Beth não entender italiano. – Vou trabalhar na ala infantil do hospital aqui em Palermo e depois abrirei meu próprio consultório. Tudo se encaixara. Hannah não poderia estar mais feliz.


Tara Pammi

BATALHA DE DESEJOS

Tradução Ana Death Duarte


CAPÍTULO 1

– A SRTA. Nelson está aqui, Nikos. Nikos Demakis olhou para seu Rolex e sorriu. Sua mentirinha tinha funcionado, não que tivesse dúvidas quanto a isso. Não fazia nem uma hora desde que sua secretária dera o telefonema. – Diga para o segurança trazê-la até aqui em cima – disse ele, e virou as costas para seus convidados. Outro homem poderia ter sentido uma ponta de arrependimento por ter manipulado a situação para servir tão bem ao seu propósito. Não Nikos. Christos, ficava cada vez mais insuportável ver a irmã se rastejando atrás do namorado, Tyler, assumindo por completo o papel de amante trágica. Só que ele estava começando a ver algo além da costumeira volubilidade no olhar dela, obviamente tendo subestimado o poder que Tyler exercia sobre sua irmã. O anúncio de que eles estavam noivos chamara a atenção até mesmo de seu avô. EXATAMENTE COMO Nikos esperava, Savas dera o ultimato, uma desculpa para o velho tirano adiar a declaração de Nikos como CEO da Demakis International. Resolva isso com Venetia e a empresa é sua, Nikos. Tire dela a conta bancária, o carro caro, as roupas caras. Mantenha-a trancada. Ela esquecerá aquele garoto assim que começar a sentir como é passar fome de novo. O estômago de Nikos se revirava só de lembrar das palavras de Savas. Estava mesmo na hora de tirar o charmoso e manipulador Tyler da vida de Venetia, mas ele não tinha a mínima intenção de matar a irmã de fome para tal. Nikos faria e fez tudo para sobreviver, menos prejudicar Venetia de qualquer forma que fosse, mas era no mínimo perturbador que Savas tivesse não apenas considerado essa opção como a esfregara na cara de Nikos, esperando que ele fizesse isso. Sua expressão deve ter refletido sua repulsa, porque Nina, a morena de pernas lindas com quem ele ficava quando estava em Nova York, fora de fininho para o outro canto do lounge. – A srta. Nelson gostaria que você a encontrasse na cafeteria do outro lado da rua – sussurrou a assistente de Nikos ao seu ouvido.


Nikos fechou a cara. – Não! Já era ruim o bastante que ele tivesse que lidar não com uma, mas com duas mulheres emocionalmente instáveis e descontroladas nos dias vindouros. Ele queria acabar com essa reunião o mais rápido possível e voltar para Atenas. Mal podia esperar para ver a reação de Savas quando lhe contasse sobre seu triunfo. Ele pegou um drinque de um garçom que passava por ali e tomou um gole do champanhe, que desceu como ouro líquido, com um sabor ainda melhor por sua doce vitória. Contra as previsões desesperadoras de Savas de que Nikos não encontraria um investidor, ele acabara de assinar um contrato bilionário com Nathan Ramirez, um empresário promissor, concedendo direitos exclusivos a um terreno inexplorado numa das duas ilhas de propriedade da família Demakis por quase três séculos, que era uma injeção de dinheiro muito necessária para a Demakis International, sem nada perder, e uma chance pela qual Nikos vinha esperando e lutava por tanto tempo. Essa era uma vitória que Savas não poderia mais ignorar. Sua meta estava tão próxima de ser atingida que ele vibrava com a energia dela. Depois de um mês de intensas negociações, seu corpo estava faminto por sexo. Engolindo o último gole de seu champanhe, ele assentiu para Nina. A srta. Nelson haveria de esperar. Assim que eles chegaram à porta de sua suíte pessoal, a risada no corredor o deteve. Ele mandou que Nina voltasse ao lounge e foi até o corredor. A pergunta que ele ia fazer a seu segurança ficou congelada em seus lábios enquanto ele absorvia a cena que se desenrolava à sua frente. Agarrando a barriga, com os sons de sua respiração dificultada enchendo o silêncio em volta dela, havia uma mulher ajoelhada e curvada no chão encarpetado. O segurança dele, de 1,85m de altura, Kane, agigantava-se sobre ela, com seu rosto endurecido coberto de preocupação. As luzes do teto destacavam os tons de cobre lustrosos em seu cabelo. Nikos aproximou-se dele, mais curioso do que qualquer outra coisa. – Kane? – Sinto muito, sr. Demakis – disse Kane, dando tapinhas nas costas da mulher esguia com a imensa palma de sua mão; uma familiaridade estranha com uma mulher que ele acabara de conhecer. – Lexi olhou para o elevador e recusou-se a usá-lo. Lexi Nelson. Nikos ficou olhando para a cabeça baixa da mulher, que ainda estava no chão. – Ela fez o quê? Kane não levantou a cabeça. – Ela disse que ninguém a forçaria a entrar no elevador. Foi por isso que ela me fez ligar e pedir que o senhor a encontrasse na cafeteria. Nikos ficou olhando para o ultramoderno elevador até que uma frase do arquivo dela veio-lhe à mente: Presa num elevador uma vez por 17 horas. – ELA SUBIU 19 andares de escada? – Kane assentiu e Nikos notou que até mesmo a respiração dele estava um pouco irregular. – E você subiu as escadas com ela? – Sim. Eu disse que ela teria um colapso no meio do caminho... Olhe para ela. – Ele passou os olhos por ela, com uma calidez curiosa. – E ela me desafiou. – Ele a empurrou, brincalhão, com


o ombro, e Nikos ficou olhando, fascinado. A mulher saiu de sua posição dobrada ao meio e cutucou Kane em resposta com uma surpreendente exibição de força para alguém tão... Minúscula. – Quase ganhei de você também, não foi? – disse ela, ainda sem fôlego. Kane deu risada e puxou-a para que ficasse de pé, mais uma vez, abertamente familiarizado em relação a uma mulher que ele conhecera fazia vinte minutos. Enquanto ela ajeitava as roupas, Nikos entendeu o motivo pelo qual Kane ficou surpreso com o desafio dela: com a cabeça mal chegando ao ombro dele, Lexi Nelson era pequena. Com pouco mais de 1,55m de altura, cuja maioria era de pernas. A faixa de carne exposta entre seu short plissado e suas botas de couro na altura do joelho eram, no mínimo, de causar distração. Os ombros dela eram esguios a ponto de serem delicados, seus seios, pequenos, estavam apenas visíveis por causa de seu esforço. Deslumbrantes olhos de um azul claro em seu rosto perfeitamente oval eram sua única qualidade proeminente. A boca, larga demais para um rosto tão pequeno, estava com os cantos levantados, ainda sorrindo para Kane. Cabelo dourado-mel, curto, na altura da nuca, junto com seu corpo esguio, faziam com que ela parecesse um garoto adolescente em vez de uma mulher adulta. Exceto pela fragilidade de sua face. A imagem, em sua camiseta amarrotada, de uma amazona, com longas pernas, seios grandes, trajando uma roupa de couro e com uma arma na mão, convidava ela a olhá-la duas vezes, não somente por causa dos requintados detalhes, mas também porque a mulher do desenho era um perfeito contraste em relação a quem a vestia. – Por favor, acompanhe a srta. Nelson até meu escritório, Kane – disse Nikos. Ela pousou o olhar de olhos azuis arregalados nele. – Você está causando distração demais aqui. – O sorriso dela desfez-se um pouco, e um franzido minúsculo marcava seu cenho. – Espere no meu escritório e estarei lá em meia hora. Ele não se virou quando a ouviu ficar ofegante. NIKOS DEMAKIS era rude, tenso e tinha um traseiro espetacular, pensou Lexi Nelson. Surpresa com sua observação, ela se forçou a olhar para cima, sua respiração ainda não normalizada. Movendo os ombros poderosamente largos com uma confiança arrogante. Sentindo que deixara o homem com raiva, ela estremeceu quando as portas do elevador se abriram. Ignorando o chamado de Kane, ela seguiu o mesmo caminho que o chefe rude dele tinha seguido, perguntando-se o que teria feito para deixá-lo tão desconcertado. Ela subira pelas escadas os 19 andares e quase tivera um ataque do coração no processo, mas não podia arriscar-se a ir embora sem o ver, não até que soubesse como estava Tyler. Ela planejara bancar o cão de guarda insistente e atormentá-lo em sua base em Nova York a semana toda até que recebera um telefonema da secretária dele chamando-a para ir até ali. Lexi parou abruptamente ao deparar-se com um lounge parcamente iluminado, cujo teto era alto e o carpete branco, impecável, além das janelas do chão ao teto, que apresentavam-lhe uma fantástica vista do horizonte que escurecia de Manhattan, com um bar aberto e reluzente num dos lados. Era como se tivesse pisado num mundo diferente.


Enquanto ela estava ocupada, boquiaberta com o lounge luxuoso, cerca de dez homens e mulheres olhavam para ela, com diversos graus de choque refletidos nos olhos. Era como se ela fosse uma alienígena teletransportada do espaço sideral na frente deles. Lexi abriu para essas pessoas um largo sorriso, segurando com força na tira de couro de sua bolsa. Notando que ela o seguira, Nikos Demakis soltou-se da bela morena que ele conduzia para fora do lounge. Lexi segurou a tira da bolsa com mais força, lutando contra a resposta que seu cérebro a urgia a dar. – Pedi que me esperasse no meu escritório, srta. Nelson. Seu cérebro, mole como mingau, estava um pouco lento no processamento das palavras de um homem tão belo. Olhos de um castanho escuro, margeados pelos mais espessos cílios, estavam fixos nos olhos dela, desafiando-a a baixar o olhar. Ela poderia apostar seu último dólar que o terno italiano era feito sob medida, adorável nos ombros largos dele e estreitando-se em sua cintura. Ela sentiu uma estranha palpitação ao erguer o olhar para o rosto dele: Nikos Demakis era, sem exagero, o homem mais deslumbrante em que ela já pusera os olhos. Alto, facilmente medindo 1,85m de altura, músculos esguios preenchendo seu corpo largo, ele era tudo com que ela sonhara febrilmente nos últimos meses: seu pirata do espaço, o capitão vilanesco que raptara sua heroína, a srta. Havisham, pretendendo abrir o portal do tempo. Lexi estava com o coração acelerado, seus dedos coçavam para abrir a bolsa e pegar o lápis pastel que sempre tinha consigo. Ela fizera tantos desenhos dele, mas não ficara satisfeita. Uma versão real de Spike, seu gatuno extraordinário pirata espacial! – Hum, srta. Nelson? Você está bêbada? Ruborizando-se, Lexi percebeu que dissera isso em voz alta. Havia um quê de maroto nos olhos dele que lhe deram um frio na espinha. Como se ele pudesse ver através da pele dela a estranha sensação em seu âmago e a entendesse melhor do que ela. – Claro que não. É só que... – Só que o quê? – Você me lembrou alguém... – Se você já acabou de sonhar acordada, podemos conversar – disse ele, apontando para uma porta atrás dela. – Não há necessidade de sair da sua... festa – disse ela, desviando o olhar. O que ela fizera de errado? – Eu só queria saber como Tyler está. Com um movimento de cabeça dele, seus convidados voltaram a conversar, a curiosidade aparente deles varrida pelo comando imperioso, pela casual demonstração de poder deste homem. – Não aqui – disse ele, e sussurrou algo ao ouvido da morena, sem tirar os olhos de Lexi. – Vamos ao meu escritório. Agora que tinha a plena atenção dele, Lexi sentia-se um pouco apreensiva. Olhando ao redor, no lounge, pensou na segurança em termos do número de pessoas que ali estavam, mesmo com seus piores medos vindo à tona, ela disse: – Não há sobre o que conversar, sr. Demakis. Eu só quero saber onde Tyler está. Ele não parou de andar e disse: – Não foi um pedido.


Pontas de aço revestiam suas palavras aveludadas. Em poucos minutos, eles estavam no escritório moderníssimo dele, o qual tinha uma vista ainda melhor de Manhattan. Lexi se perguntava se daria para ver o minúsculo apartamento no Brooklyn que ela dividia com amigos dali. No centro da sala, dominada por uma imensa escrivaninha de mogno, uma área de visitas com uma vista espetacular de Manhattan de um lado e, do outro, um computador, uma máquina de picotar papéis e uma impressora. Tirando o casaco e soltando os punhos de sua imaculada camisa branca, dobrando suas mangas, expondo o Rolex prateado no pulso, reclinando-se na mesa e estirando as longas pernas com musculosas coxas à sua frente, ele disse: – Pedi que você esperasse. Ruborizada por ter de ficar olhando para as coxas dele, Lexi ergueu o olhar e disse: – Subi 19 andares de escada por um pouquinho do seu tempo – disse ela, sentindo-se intensamente desajeitada sob o escrutínio dele. Diante deste homem, ela desejava ser alta e graciosa, algo sem sentido que nunca pensara antes. – Diga-me como Tyler está e vou embora. Ele se afastou da mesa, com as mãos nos bolsos traseiros da calça, aproximou-se dela, que tentou não fugir como um passarinho assustado. Ele se agigantava perante ela, varrendo-a com o olhar, invasivo e desdenhoso ao mesmo tempo. Sentia-se atacado pela premência de alisar o cabelo dela, sua camiseta. – Você acabou de sair da cama, srta. Nelson? Lexi ficou boquiaberta, encarando-o por vários segundos. Esse homem era um porco sem modos! – Para falar a verdade, sim! Eu estava dormindo depois de passar a noite toda acordada quando me ligaram para que eu viesse até aqui. Então, queira me desculpar se meus trajes não combinam com sua decoração milionária. – Por algum motivo, ele claramente não gostava dela, o que a deixava irritada e não costumeiramente ofensiva. – Quer saber? Você pode não ter nada melhor para fazer com seu tempo do que ficar com a namorada, mas alguns de nós trabalham... – Você acha que eu não trabalho? – Então por que essa atitude desdenhosa, como se seu tempo fosse mais precioso do que o meu? Obviamente você ganha mais dinheiro por minuto do que eu, mas o meu paga pela minha comida – disse ela, chocada com o tamanho da raiva que sentia. O que era realmente estranho. – Agora, quanto mais cedo você responder a minha pergunta, mais cedo largo do seu pé. Ele se aproximou dela, sem pestanejar, mas ela se manteve firme, odiando trair o quanto a proximidade dele a perturbava. – Você está aqui pelo seu precioso Tyler. Ninguém a está forçando a estar aqui. Pode dar meia-volta e descer pelas escadas que subiu. Era isso exatamente o que Lexi queria, mas não podia fazer. Nikos não fazia ideia do quanto custara a ela ir até o escritório dele. – Recebi um telefonema de alguém que se recusou a se identificar dizendo que Tyler sofreu um acidente de carro com a irmã. – Talvez essa fosse a resposta de Nikos Demakis à preocupação com a irmã. – Como ele está? Sua irmã também se machucou? Eles estão bem? – Você está me perguntando sobre a mulher que roubou seu namorado de... – Ele se virou e pegou o arquivo da escrivaninha de um jeito casual, folheando-o – Vejamos, 11 anos? Não tinha como ganhar com esse homem enfurecedor!


– Achei que talvez você estivesse sendo um porco rabugento e arrogante por causa... Sabe, de preocupação com sua irmã. Mas obviamente você é um babaca... Com um rápido movimento, ela apanhou o arquivo cuja etiqueta vermelha continha as letras N-E-L-S-O-N. Ela não tinha notado a princípio, e não sentiu muita satisfação por tê-lo pego de surpresa. Com frio e temor no peito, ela folheou o arquivo: páginas e mais páginas contendo informações sobre ela e Tyler, as vidas todas deles dispostas em fatos nus, crus e frios, completadas com fotos de fichas policiais de ambos. Passou um ano no centro de detenção juvenil aos 17 anos por assalto a uma casa. Parecia que as palavras debaixo de sua foto iam sair do papel e queimar sua pele. Ela começou a suar, mesmo com o escritório sendo fresquinho, e deixou o arquivo cair de suas mãos. – Esses arquivos não deveriam ser públicos – disse ela, em meio a ondas de vergonha, e foi até ele, empurrando-o com as mãos, abalada pela injustiça disso tudo. – O que está acontecendo? Por que você coletaria informações a meu respeito? Quero dizer, nunca tínhamos nos visto até agora? – Acalme-se, srta. Nelson – disse ele, com a voz sedosa, segurando com firmeza os pulsos dela. – Vou perder o emprego se essas informações vazarem. Você sabe como é viver com migalhas de comida, sr. Demakis? Sentir como se seu estômago fosse fazer autofagia? Morar nas ruas? Não saber se terá um lugar seguro para dormir? É isso que vai acontecer comigo de novo... – Ela olhou para a vista da janela, o terno italiano, todo o luxo, e riu. – Claro que não sabe. Aposto que nem deve saber o que é sentir fome. – Não tenha tanta certeza disso, srta. Nelson. Você ficaria surpresa com o quão bem entendo a premência de sobreviver. – Ele pegou o arquivo do chão. – Não me importa se você roubou uma casa ou a rua toda para comer. Nada no arquivo tem relevância alguma para mim, exceto seu relacionamento com Tyler. – Ele entregou a ela o arquivo. – Faça o que quiser com isso. NIKOS SORRIU quando ela apanhou o arquivo dele e destruiu-o na picotadora de papel. Com sua memória fotográfica, ele não precisava do arquivo. Lexi tinha 23 anos, criada por pais adotivos, pouco estudo, trabalhava como bargirl na Vibe, uma casa noturna prestigiosa em Manhattan e tivera um único namorado: o charmoso Tyler. Com base no histórico pessoal entre ela e Tyler e no relacionamento codependente entre eles, Nikos tinha esperado alguém dócil, sem graça, obediente, facilmente conduzida, sem nenhuma autoestima. Lexi, embora pequena e não sendo nenhuma beldade, não se encaixava em nenhuma dessas categorias. A postura dela trouxe um sorriso aos lábios dele. O fato de que Lexi não era o que ele esperava... Na verdade, que tipo de mulher se preocuparia com a nova namorada de seu amor... Significava que ele teria que alterar sua estratégia. Depois de terminar de picotar os papéis do arquivo, Lexi virou-se para ele com uma sombria satisfação, fazendo seu olhar ficar radiante. Com o fim do zunido da máquina picotadora de papéis, o ar ficou denso com tensão.


– Está satisfeita agora? – perguntou-lhe Nikos. – Não estou. O que quer que você tenha lido naquele arquivo, não sou nenhuma tola. Destruí uma cópia em papel, e o original. – Então qual foi o propósito da destruição dos papéis? – Um ato simbólico. Válvula de escape. Porque não tenho como picotar você. – Não pretendo causar-lhe nenhum mal, srta. Nelson – disse-lhe Nikos. – Está bem, certo. E eu sou uma modelo da Victoria’s Secret. Ele caiu na gargalhada, enquanto ela olhava para ele com os olhos azuis arregalados. Ela não era nenhuma modelo, com seu corpo de menino e com sua falta de curvas. Ainda assim, havia algo curiosamente atraente em relação a ela, até mesmo para os gostos refinados de Nikos. – Acho que você não tem a altura... – Ele passou os olhos pelos seios pequenos dela e por suas mãos na cintura – E faltam-lhe atributos em vários lugares estratégicos. As bochechas dela assumiram um tom carmesim. Lexi ergueu o queixo, avaliando-o e, mesmo não querendo, Nikos ficou impressionado. – Para que essa brincadeira de poder? Você não abriu seu arquivo para checar fatos. Queria que eu soubesse que tinha todas essas informações sobre mim. É assim que você sente prazer? Colecionando fraquezas das pessoas e usando-as para servir a seus propósitos? – Sim. – Foi a resposta dele, e Lexi ficou lívida. Nikos não tinha ilusões quanto a si mesmo. Ele faria uso de quaisquer informações que tivesse em mãos para conseguir vantagens nos negócios ou na vida. Especialmente agora que o bem-estar de sua irmã estava em jogo. Se não fosse proteger aqueles que dependiam dele, qual era o ponto disso tudo? – Preciso que você faça algo para mim e não aceito não como resposta.


CAPÍTULO 2

NÃO ACREDITANDO no que estava ouvindo, Lexi ficou encarando Nikos. – Não passou pela sua cabeça pedir de um jeito legal? Ele cobriu a distância que havia entre eles, balançando a cabeça em negativa. Ela recuou instantaneamente, mas não antes de ele sentir seu cheiro. – De um jeito legal? De que planeta você vem? Não se consegue nada nesse mundo com “por favor” e “obrigado”. Sua vida já não lhe ensinou isso? Se você quer alguma coisa, agarre-a com ambas as mãos ou ficará sem nada. Não foi por isso que você assaltou aquela casa? – Só porque a vida fica difícil não quer dizer que devemos perder de vista as coisas boas. Assaltei aquela casa porque era isso ou passar fome mais um dia. Isso não quer dizer que eu me orgulhe das minhas ações, nem que eu não deseje até hoje ter encontrado outro jeito. Agora, por favor, diga-me o que aconteceu com o Tyler. As palavras de Lexi atingiram Nikos com força, retardando a resposta dele. Aquela mulher era um paradoxo impossível! – Ele e Venetia sofreram um acidente de carro. O rosto dela ficou pálido e ela se sentou no sofá de couro, com os joelhos juntos. – Fisicamente, ele não sofreu nenhum arranhão – disse Nikos. Ela saiu do sofá. – A pessoa que me telefonou falou como se as coisas fossem muito piores. Fiquei pedindo mais detalhes, mas ele não respondia as minhas perguntas. Ela ficou andando em círculos em volta dele, passando os longos dedos pela nuca. Mais uma vez, o corte de cabelo estilo menino só chamava a atenção de Nikos para as feições delicadas dela. – Foi obra sua. Você mandou um dos seus lacaios me ligar e fez parecer que a coisa foi feia... Por quê? Ele deu de ombros. – Eu precisava que você estivesse aqui. – Então você manipulou a verdade? – Um pouco. Não tenho consciência quando se trata das coisas que eu quero, mais ainda quando minha irmã está envolvida. Se você está esperando que eu me sinta culpado, é perda de tempo. Tirando umas falhas na memória dele, seu ex-namorado está bem.


– Falhas de memória? – Perda de memória de curto prazo. Para a agonia eterna da minha irmã, ele não se lembra de nada deles se conhecendo, nem de seus planos para o casamento. – Ele fez uma pausa, observando-a com atenção, e viu quando Lexi ficou lívida novamente. – Eles estão noivos? Nikos assentiu. – Não entendo por que você está me dizendo isso. – Tudo de que ele se lembra é de você, o que está enlouquecendo Venetia. Nikos achava que veria o triunfo estampado no rosto de Lexi, pura malícia feminina. Afinal de contas, sua irmã realmente tinha roubado Tyler desta mulher. Ele se preparou para um dilúvio de lágrimas, sequências de “ah, meu Deus!” e “por que isso foi acontecer comigo?”. Pelo menos, Venetia tinha reagido dessa forma, mesmo ela tendo saído bem ilesa do acidente. Mas, assim que os médicos falaram sobre a perda de memória de Tyler, as coisas pioraram, como se ela estivesse assumindo um papel principal numa tragédia shakespeariana. E, ao contrário das expectativas de Nikos de que o relacionamento deles fosse perder o elemento de atração, Venetia apenas se prendera ainda mais a Tyler. Mas as lágrimas não caíram. Lexi inspirou fundo, pressionou os dedos sobre a testa e virou-se para Nikos. – Onde ele está, sr. Demakis? O brilho de pura dor nos olhos dela deixou o processamento dele imóvel. Por mais que ele detestasse essas coisas, Nikos queria que ela surtasse. Ele poderia lidar com surtos. Mas não queria nada com a dor silenciosa e a profunda emoção que havia nos olhos dessa mulher, que o fazia lembrar-se da dor de outro alguém, do pesar tão intenso de outro alguém que fez com que ele fosse varrido por um calafrio. Ele se esforçou muito para livrar-se da imagem mental de seu pai. – Na nossa ilha na Grécia. – Claro que não é o bastante que você e sua irmã sejam lindos. Vocês têm que ter uma ilha também. Ele sorriu para o comentário sarcástico dela, com o vislumbre da raiva. – Presumo que não seja por prazer que você esteja me dando essas más notícias. Chega de joguinhos. O que quer que eu faça? – Venha comigo para a Grécia... Para cuidar dele. Venetia não vai parar de transformar a vida de todo mundo num circo até que ele se lembre dela. – Você está brincando, certo? Amnésia agora tem um botão de liga e desliga? Pode ser anulada com o beijo de uma ex-namorada, talvez? Por que você tem tanta certeza de que eu posso fazer com que ele se lembre dela? – Tyler quer voltar para Nova York para ver você. Venetia não vai deixar que ele saia de perto dela até que ele se lembre do grande amor deles dois. A confusão dele e o drama dela estão me enlouquecendo. – E por que eu deveria me importar com isso? O tom dela era tão irreverente que era como ver uma mulher diferente. – Não tem porquê. Por isso manipulei um pouco a verdade. Nikos ia juntar-se a ela no sofá, mas acabou sentando na mesinha de centro, pois sua aproximação parecia perturbá-la. Nunca uma mulher o irritara tanto e com tanta facilidade.


– Quero o futuro dela resolvido. Mais do que qualquer coisa no mundo. E o único jeito é você juntando-se a eles. Com o longo histórico entre você e ele e seu apoio, Tyler deve ficar bom logo. Ele haverá de lembrar-se de seu eterno amor por Venetia e eles poderão cavalgar juntos em direção ao pôr do sol – disse Nikos, tentando manter a zombaria fora de seu tom de voz. Lexi cruzou as pernas no sofá. – Você tem colhões para pedir a minha ajuda, hein? Nikos abriu um largo sorriso. Que mudança no comportamento da mulher que o acompanhara, toda tímida, até ali. Agora ela olhava na cara dele, pois sabia que ele precisava dela, e estava ajustando sua atitude com base nisso, como ele fizera. E, para sua surpresa, Nikos gostava mais dessa versão audaz dela. – Minha... Masculinidade não tem nada a ver com a questão em jogo. É o que preciso fazer pela minha irmã, e estou fazendo isso. Lexi desviou o olhar, suas bochechas cor-de-rosa ao se dar conta do que dissera. Ele achava que ela fazia muito disso: falar sem pensar. – Apenas um mês atrás você fez com que dois dos seus brutos gigantescos me pegassem como se eu fosse um saco de lixo e me colocassem para fora, literalmente me jogando na estrada de concreto do lado de fora da sua propriedade nos Hamptons, como se eu fosse lixo mesmo! – disse ela, apontando o dedo trêmulo para ele. – Você de alguma forma passou pelos meus seguranças, invadiu minha propriedade e quase arruinou a festa, srta. Nelson. Seu passado pitoresco parece não ter ficado tão no passado assim... Teve sorte por eu não ter mandado prender você por invasão de propriedade. Ela ergueu o queixo, teimosa. – Eu não queria fazer nada demais, só ver o Tyler. – Ah, sim, o maravilhoso Tyler. Por quem você arrisca tudo, me parece. O fato de ele não ter atendido aos seus milhares de telefonemas não lhe deu nenhuma pista de que ele não queria nada com você? Porque não me parece nada idiota. Os olhos azuis dela foram tomados por uma sombra escura, e Nikos soube que ela estava se lembrando de sua conversa com Tyler. – Ele estava com raiva de mim, sim, mas eu não queria que ele cometesse um erro. – Você realmente não acredita nisso agora, não é? Porque isso faria de você a mulher mais patética do planeta. Ela arregalou os olhos azuis. – Uau, você não se contém mesmo, não é? – Porque ouvir a verdade em vez da sua versão romântica dos fatos dói? – disse ele, com um surto de ira cáustica. Nikos passou a mão trêmula pelo cabelo, irritado com a força de sua própria reação. Dizer a essa mulher que o amor dela por aquele menino a transformara numa tola não era sua responsabilidade, mas, se certificar de que sua irmã não cairia na mesma armadilha, sim. – Está certa. Não me importa por que você foi atrás dele. Tudo com que me importo agora é que precisa cuidar dele. – Por que ir até lá? Por que você simplesmente não o traz de volta para Nova York? Como viu naquele arquivo, Tyler e eu passamos nossas vidas todas aqui. Tenho certeza de que estar num novo país e entre estranhos não está ajudando. – A resposta a essa pergunta é simples: Venetia. Acredite quando digo que é melhor para todas as partes envolvidas que façamos isso lá.


Ela assentiu e levantou-se. O calmo comportamento dela parecia estranho. Ela estava pronta para abandonar o bom senso nato pelo homem que amava, mesmo que ele a tivesse largado. Seria fingimento aquela amostra de fogo que ele vira nela? E por que ligava para isso quando era disso que precisava? – Já arrumei as coisas com seu chefe na Vibe para você partir imediatamente. – Claro que sim... – disse ela, com um lampejo de raiva no olhar. Parando na porta, depois de abri-la, ela olhou nos olhos dele e perguntou: – Por que você acharia necessário ter todas aquelas informações sobre mim? Nikos deu de ombros. – Digamos apenas que eu queria me certificar de que você aceitaria minha... Proposta. Ela nem mesmo piscou. – E, ainda assim, você também estava muito confiante de que eu viria. Diga-me... – Eu estava no corredor com Venetia naquela noite na festa. Ouvi o que ele disse a você. Lexi encolheu-se, sua pegada na maçaneta da porta deixara os nós de seus dedos brancos. Ele não podia nem queria conter o desdém em suas palavras, o que ela notara. – Ele me chamou de vadia egoísta que não conseguia suportar o fato de que ele havia encontrado o amor com outra pessoa e que não seguia em frente com a minha vida, e que não conseguia ficar feliz por ela – recitou Lexi, como se estivesse lendo um roteiro. – Convenientemente, ele virou a cabeça e saiu andando enquanto você era jogada na rua. – E você achou que nenhuma mulher com autorrespeito concordaria em ajudá-lo depois disso. Nikos assentiu. – Achei que fosse precisar... De algo mais... Para persuadir você. Obviamente, não preciso. Ela ergueu uma sobrancelha e o queixo. – Não? – Você está aqui, não está? Lexi Nelson era a epítome de tudo que tinha dado errado na vida dele em nome do amor. Ele sentiu um forte revirar no estômago, uma lembrança do pesar e da raiva que ele propelira em necessidade de sobrevivência, pelo bem da irmã e dele mesmo. – Um telefonema e, uma hora depois, você vem correndo atrás dele, com o coração na boca, e subiu 19 andares de escada. Por que fazer tantas perguntas, srta. Nelson? Por que fingir que há alguma dúvida de que você largaria tudo para cuidar dele? Lexi forçou-se a lembrar que Nikos Demakis não a conhecia, que a opinião dele não importava, mas a incrível arrogância nas palavras dele irritavam-na profundamente. Como ela gostaria de poder se virar e jogar o desdém de volta na cara dele. Mas isso não tinha a ver com o homem enfurecedor que estava na sua frente, e sim com seu amigo, sua família, a única pessoa no mundo que sempre se importara com ela. Depois das palavras cáusticas de Tyler, depois da última briga, por fim ela aceitara que, o que quer que houvesse entre eles, nunca teve chance, sem ideia do porquê. Certamente doeria ver Venetia Demakis, a jovem herdeira que era tudo que Lexi não era: rica, sofisticada e excepcionalmente bonita. Mas... E se estivesse tendo uma nova chance de consertar as coisas entre eles? Ter Tyler, seu amigo, de volta? Ele que sempre estava lá quando ela precisou. Agora era sua vez.


Porém, o escárnio de Nikos Demakis era uma pílula amarga de engolir. A resposta dela seria “sim”, mas isso não queria dizer que teria que seguir as condições dele. Encarando-o nos olhos, teimosamente lembrando a si mesma de que Nikos Demakis precisava dela tanto quanto ela precisava ver Tyler. E ela não poderia deixar que ele se esquecesse disso, nem que em momento algum ficasse por cima. – Você cometeu um erro de cálculo, sr. Demakis. Não tenho nenhum desejo em ajudar você nem a sua irmã. Aproximou-se dela antes que ela pudesse piscar. Lexi manteve-se firme. – Não sem um preço. – O que você deseja, srta. Nelson? – Dinheiro – disse ela, satisfeitíssima com a surpresa no olhar dele. Lexi sorriu pela primeira vez em mais de um mês. Com o coração espancando seu peito, ela fechou a porta e reclinou-se nela. – Você tem rios de dinheiro e eu não tenho nada. O brilho nos olhos dele parecia ser de admiração. Lexi franziu o cenho. Ela queria deixá-lo com raiva, no mínimo. Falara a primeira coisa que lhe veio à mente. – Bem oportunistazinha você, não? – disse ele, olhando para ela com intenso interesse. Não havia nenhum rancor nas palavras dele. Não querendo deixar transparecer sua confusão, Lexi sorriu com o máximo de falsa confiança quanto lhe era possível. – Tenho que proteger meus interesses, não? Você está me pedindo para apertar o botão de pausa na minha vida e confiar em alguém como você. Ele riu. – Alguém como eu? – Sim, você mesmo admitiu que não tem consciência em se tratando do que quer. E se as coisas não acontecerem como você deseja? Se acontecer algo de que não goste? Você vai me culpar... – Como o quê? – Tyler recuperando a memória e decidindo que não quer mais ficar com Venetia, por exemplo. – Isso não! – O brilho no olhar dele era de uma fera. – Não tenho irmão mais velho para me resgatar, nenhuma família para cuidar do meu bemestar – disse ela, engolindo em seco a dolorosa verdade. – Acredite em mim, srta. Nelson. As pessoas dão valor demais à família. Você cresceu com pais adotivos... Isso não lhe diz alguma coisa? A veemência no tom de voz dele... Lexi se perguntara milhões de vezes por que seus pais teriam aberto mão dela, em seus mais baixos momentos, pensara se alguém pensava nela... E não conseguira nada com isso além de excruciante tristeza e incerteza. – Mas você está cuidando de garantir que Tyler se lembrará da sua irmã, consertando o mundo dela. Certificando-se de que ninguém a prive de sua felicidade. – E se eu não concordar com sua condição? – O cheiro dele provocava-a, seu tamanho, seu poder. – E se eu alertar a seu chefe sobre seu passado? Não entregue que está com medo. – Você vai arruinar a mim e isso não terá sentido... Você é assim tão sem coração a ponto de destroçar a vida de uma perfeita estranha porque ela não quer se encaixar em seus planos?


– Farei isso sim – sussurrou ele, aproximando-se dela. O calor do corpo dele... Lexi ficou paralisada, e esforçava-se para puxar o ar para dentro de seus pulmões. – Para garantir a felicidade da minha irmã, farei o que for necessário, e não sentirei nenhum remorso. Lexi forçou-se a pronunciar-se. Ela não tinha dúvida de que ele estivesse falando a verdade. – Mas isso realmente não serve a seu propósito, não? Arruinar a mim não vai consertar o mundo da sua irmã. Você precisa de mim e não gosta disso. Foi por isso que coletou todas aquelas informações... Porque precisava de uma ilusão que o colocasse por cima, no controle. – Ela viu algo no olhar dele e soube que acertara em cheio. Sua pulsação ficou acelerada. – Você distorceu algo simples e direito, e transformou num jogo. Eu teria largado tudo para cuidar do Tyler, mas agora, só irei se você concordar com a minha condição – disse ela, num tom de término. Lexi estava jogando um jogo perigoso, mas só faria isso em seus termos, recusando-se a ser vitimizada de novo, nem mesmo por causa de Tyler. – Tudo bem. Apenas se lembre de uma coisa: estou concordando com isso porque me serve. Sendo assim, você é minha empregada. Faz o que eu digo e não pode dizer que foi manipulada. – Mesmo que eu dissesse, você não perderia o sono por causa disso. Ele abriu um sorriso surpreendentemente cálido. – Que bom, você aprende rápido. Sou eu que vou pagar você e vou até mandar meus advogados elaborarem um contrato para tal. – Isso não é um pouco de exagero? Estarei lá para ajudar o Tyler... – O silêncio continuado dele fez com que ela sentisse um frio na espinha. – Não? Ele não respondeu a sua pergunta. Alguém bateu à porta e a morena de antes entrou na sala, fazendo biquinho. Ela puxou Nikos para si, nada sutil. – Achei que você quisesse comemorar, Nikos. Vai ficar livre em algum momento? Lexi observava a cena com a boca seca e a camiseta fina quente demais. Nikos não tirou os olhos de Lexi, abrindo um sorriso maroto ao notar o rubor dela. Envolvendo a cintura da morena, ele disse: – Creio que eu e a srta. Nelson já concluímos nossos negócios aqui. Sim, estou livre para comemorar, Nina.


CAPÍTULO 3

NIKOS XINGAVA em voz alta e com violência. Três dias depois que Lexi fora a seu escritório, e ela ainda tinha evitado as ligações do assistente dele. Exasperado, Nikos não conseguira que seus lacaios – palavra que ele não parara de usar desde que ela a usara – convencessem a mulher a ir para a Grécia. Ele voltara a Nova York, onde chegara às 3h, forçando-se a ficar acordado e chegando na Vibe, onde ela trabalhava, cinco minutos depois das 5h. Porém, ela não estava lá. Então, ele mandou seu motorista levá-lo até o apartamento dela no Brooklyn. Mesmo depois de um turno de dez horas de trabalho, a mulher irritante não tinha voltado para casa ainda. Prestes a ir até a polícia e declará-la desaparecida, ele entrara no apartamento dela, num dos quartos, forçando o casal nu que lá estava a dizer-lhe onde ela estava. Devorando-o com os olhos, a ruiva por fim informou-o que Lexi fora direto para outro turno na cafeteria da esquina. Então ali estava ele, na calçada, às 9h, do lado de fora de uma cafeteria lotada, cansado, sem dormir, e furioso. A necessidade de dinheiro ele entendia, ele que era a epítome da fome por riqueza e poder, mas essa mulher era outra coisa! Ele entrou na cafeteria, onde o forte cheiro de café fez com que sua cabeça doesse ainda mais. Com todo o alvoroço atrás do balcão, ele demorou um pouco para avistá-la no caixa. O coração dele voltou a bater num ritmo normal. Com um saco de papel pardo na mão, ela sorria para um cliente. Com o cabelo penteado para trás, os três brincos prateados na orelha esquerda captavam o brilho da luz do sol da manhã enquanto ela se mexia. Com um avental verde soltinho, ela agradeceu ao cliente e passou as mãos no rosto, e ele notou o tremor nos dedos dela, a leve oscilação de seu corpo enquanto ela se virava. Voltando para o rosto dela, Nikos notou as olheiras escuras sob os incríveis olhos azuis dela, que piscavam devagar, como se lutando para manter os olhos abertos e sorrir para o próximo cliente. Assolado por lembranças, Nikos sentiu formar-se um nó na garganta. A visão ela, cansadíssima, mal se aguentando em pé, nocauteou-o. Ele não sentia tal desolação profunda fazia muito tempo, porque, por mais que Savas tivesse feito com que ele trabalhasse nos últimos 14 anos, Nikos sabia que teria comida ao fim do dia. Mas, antes que Savas os tirasse de sua antiga casa, todos os dias depois da morte de sua mãe tinham sido uma lição em termos de sobrevivência.


As lembranças... O cheiro de graxa na garagem, combinado com a fome enfiando as garras em sua barriga e a falta de sono ameaçando nocauteá-lo... Tão potentes como se tivessem acontecido ontem. Essas amargas recordações somadas à atual exaustão fizeram com que ele perdesse a compostura, fosse tempestuosamente passando pela multidão, desse a volta no balcão e... Ofegante, Lexi recuou, piscando furiosamente. – Sr. Demakis, o senhor não pode estar de volta... Ele não deixou que ela terminasse. Ignorando os ofegos e sussurros da multidão, ele se aproximou dela, pegou-a no colo e saiu com ela da cafeteria. As bochechas dela ficaram carmesins e ela, boquiaberta. – O que você está fazendo? Ela se contorceu para se livrar dele, que apertou sua pegada nela. – Estou carregando você para fora. Com seu peso-pena, Lexi contorceu-se de novo. As curvas não existentes dela, das quais ele tinha zombado, esfregavam-se em seu peito, provocando uma chocante excitação em seu corpo cansado. Pela primeira vez na vida, ele abafou a sensação. Não foi fácil. – Pare de contorcer-se, Lexi, ou vou deixar você cair. – Coloque-me no chão, Nikos. A limusine dele apareceu junto ao meio-fio e ele esperou enquanto o motorista abria porta e, então, curvando-se um pouco, colocou-a no assento de couro, e depois ele mesmo entrou no carro. Uma raiva perversa corria quente em suas veias. Ele não deveria importar-se, mas não conseguia. – Bargirl à noite, barita de dia! Christos, você está tentando se matar? Lexi nunca ficara tão chocada assim antes. E ela fugira de um lar adotivo aos 15 anos, cometera um assalto aos 16, e vinha trabalhando num bar de alta classe em Manhattan, onde a norma era chocante, desde os 19. – Eu não posso simplesmente sair assim – disse ela em voz alta, suas palavras ecoando ao redor deles. O homem arrogante ao seu lado nem pestanejou. – Mande seu lacaio dar meiavolta. Faith vai perder o emprego e eu não posso... Ele se inclinou na direção dela, estendendo o braço. As palavras dela ficaram congeladas em seus lábios e ele a pressionou para trás em seu assento. Os cheiros do couro e dele mesclavam-se, formando algo que provocava os sentidos dela. A intensidade dele... Como se fosse um campo de força... Do lado de fora, o mundo pulsava com a energia nova-iorquina, e ali dentro... Era como se o tempo e o espaço tivessem parado. Ele soltou o nó do avental dela, que afundou as unhas no short, com o coração na boca, enquanto os dedos dele passavam por sua pele. Até mesmo neste alto nível de cansaço, ela estava mais ciente do que nunca de sua pele, com as sensações não familiares atacando-a. – Quem é Faith? A perguntava dele soava com uma fúria suprimida. Lexi soltou o quepe e tomou um gole da garrafa de água que ele lhe ofereceu. – Por que tanta raiva? – disse ela, sem pensar, não conseguindo se controlar. Ele puxou as mangas de sua camisa social preta. – Quem é Faith? – perguntou ele de novo, entredentes. Lexi soltou um suspiro.


– Minha colega de quarto, cujo turno eu estava cobrindo. Ela andou doente recentemente, e, se perder mais algum turno, vai perder o emprego. O que vai acontecer hoje, por sua causa. Ele se reclinou, olhando para ela como um gavião. O ar ainda estava carregado da raiva dele, mas, com a exaustão, ela não se importava mais. Estava tão cansada. Se apenas pudesse cerrar os olhos por um minutinho... – Como é essa Faith? – Quase 1,80m de altura, olhos verdes, loura. – Mas ela é naturalmente ruiva, não? – Como você poderia saber de uma coisa dessas? – disse Lexi, tomada pela tensão. – Da última vez que a vi, faz uma hora, sua amiga “doente” estava na cama nua com um homem, enquanto você se matava tentando fazer o trabalho dela. Pelo que vi, e foi muito, ela estava perfeitamente bem. Com as bochechas em chamas, Lexi lutou para achar uma resposta. – Faith simplesmente não faria... Faria. E não era a primeira vez. O peito de Lexi ficou apertado, suas mãos, trêmulas. Mas Faith era mais do que uma colega de quarto. Era sua amiga. Se não cuidassem uma da outra, quem cuidaria? – Talvez não fosse a Faith... – Ela tem uma rosa vermelha tatuada na nádega esquerda e um dragão no ombro direito. Quando ninguém respondeu, abri a porta e entrei. Sua amiga também grita bastante, que foi como eu soube que tinha alguém lá. Ruborizada, Lexi desviou o olhar dele. Era verdade. – Certo, então ela mentiu para mim – disse Lexi, incapaz de lutar contra a onda de exaustão. O que não entendo é por que você sentiu a necessidade de invadir meu apartamento e confrontá-la. – Você saiu daquele bar às 5h e, duas horas depois, não estava em seu apartamento no Brooklyn. Não faço ideia de como você está viva fazendo isso esses anos todos. A respiração dela era dolorosa. O choque pulsava em meio à exaustão. Ela vivia na cidade mais agitada do planeta e, mesmo quando tinha Tyler por perto, sentia como se a solidão fosse uma segunda pele, e a declaração de Nikos apenas trazia a verdade à tona com tudo. – Você não tem que se preocupar comigo. Levo minha segurança muito a sério. – O bem-estar da minha irmã depende de você. Preciso de você viva e não morta, jogada em alguma caçamba de lixo. – Você não gosta do fato de ter se preocupado por um minuto que fosse comigo? Pelo menos isso o torna humano. – Em contraste com o quê? Você também atua como terapeuta em meio-período? – Com um alienígena sem coração. Por que isso é relevante para você? Está controlando todos os meus amigos para que possa me manipular um pouco mais? – Ela se aproveitou de você. – Nikos olhou para Lexi como se estivesse estudando um inseto curioso. – Não está nem um pouco com raiva dela? – Ela não pretendia... – Magoar você? Parece que ela fez bem isso. Será que ela estaria imaginando a compaixão naquelas profundezas castanhas dos olhos dele? Ou sua falta de sono estava pregando peças nela de novo? Lexi sentia-se tão idiota quanto ele


clamava que ela era. – Faith teve uma vida difícil. – E você não? – Não se trata de quem teve a vida mais difícil nem de quem merece mais bondade, Nikos. Apesar de todas as mentiras e manipulações, Faith não tem ninguém. Ninguém que se importe ou se preocupe com ela. E sei como é a solidão. Não espero que você... – Sei o bastante disso – falou ele, num tom cortante. – Você ainda não assinou o contrato. Agora me forçou a voltar para Nova York com o expresso propósito de acompanhá-la até a Grécia. Muito bem, Lexi, exatamente o que você queria evitar. – Estive ocupada. Ele se inclinou para a frente rapidamente, mas ela devia estar se acostumando com isso, pois não se encolheu quando ele passou os polegares debaixo de seus olhos. O calor do corpo dele mesclando-se ao dela. – Você está pensando duas vezes quanto ao seu querido Tyler? Concluiu que ele não vale o dinheiro que estou lhe pagando? Ele falava quase como se quisesse que ela se recusasse a ajudá-lo. O que não poderia ser verdade. Ela não conseguira nem pregar os olhos desde que o horrendo contrato tinha chegado em seu apartamento e ela dera uma olhada na quantia exorbitante de dinheiro que lá constava. Mais do que já vira e provavelmente veria na vida. Só de lembrar disso, seu coração espancava seu peito. Dinheiro este que poderia usar para fazer aulas de arte em vez de ter que economizar cada centavo, que poderia usar para comprar roupas decentes uma vez na vida e não fazer compras nas seções de adolescentes das lojas ou em brechós. Dinheiro que poderia usar para dar um tempo em seu emprego como bargirl e investir esse tempo no roteiro de sua revista em quadrinhos e desenvolver um portfólio sem ter que se preocupar com a próxima refeição e com manter um teto em cima de sua cabeça. As possibilidades eram infinitas. Ainda assim, ela também sabia que qualquer coisa que conseguisse com esse dinheiro também teria um fator desgostoso... Pareceria sujo. Mas havia algo mais além de desconforto que a segurava de assinar aquele contrato. Este homem que a estudava intensamente parecia mais do que feliz por tê-la como sua funcionária paga, porque isso lhe dava poder não mitigado sobre ela. Era isso que lhe deixara com aquela sensação ruim. Se o tivesse acompanhado sem reclamar, ela estaria lhe fazendo um favor, mas não assim. Parecia que ele estava preparado para chantageá-la ou pagar-lhe uma imensa quantia em dinheiro para que fosse obrigada a fazer o que ele mandasse. Em vez de simplesmente pedir a ajuda dela, pois isso o faria parecer fraco. – Sobre aquele dinheiro... – começou ela a dizer, sentindo-se dividida ao meio por dentro, vendo a soma como um saco de dólares em cima de sua cabeça, como se ela fosse um de seus personagens dos quadrinhos. – Eu estava com raiva de você por me manipular. Não posso aceitar...


– Na semana em que tive o infortúnio de conhecer você – disse ele, inclinando-se tão para perto que ela podia sentir o cheiro de sua colônia e de sua pele. – Pedir dinheiro para cuidar de Tyler foi a única coisa sensata e inteligente que você fez. Realmente, ela não fazia ideia do que ele diria em seguida, nem no que de repente ela faria para que ele entrasse numa espiral de raiva. – Não abrace princípios inúteis agora rejeitando a oferta, srta. Nelson. Pense em algo selvagem e impulsivo que você sempre quis, mas pelo que nunca pôde pagar. Pense em todas as roupas legais que pode comprar. – Ele passou os olhos pela camiseta gasta dela, que lutou contra o impulso de se cobrir. – Talvez até mesmo algo que vá deixar Venetia na sombra na frente do seu ex-namorado, não? Ela ficou boquiaberta, sem palavras, olhando para ele: sua nova expressão padrão na frente deste homem. – Não tenho nenhuma intenção de competir com Venetia, nem tenho nenhuma ilusão de que até mesmo poderia fazer isso. Era como se houvesse uma conexão unilateral entre eles que permitia a Nikos ver direto os pensamentos dela. Como o sr. Spock fazendo uma fusão mental Vulcana. Se apenas fosse bilateral... Ela não sabia nada sobre ele, enquanto ele tinha um arquivo sobre ela. – Você é uma mulher estranha. Está me dizendo que não pensou em usar essa oportunidade para consegui-lo de volta? Que isso nem passou por sua cabeça? – Não – repetiu ela em voz alta. Ela adoraria ter seu amigo de volta, sim, mas não entraria numa guerra bizarra de meninas com Venetia para conseguir Tyler de volta como Nikos estava pensando que ela faria. – Tudo bem. Meu piloto está esperando. Partiremos em quatro horas. – Não posso partir em quatro horas. Tenho que encontrar alguém para sublocar meu quarto, tenho que arrumar um encanador para consertar a cozinha antes de partir e prometi à minha vizinha, a sra. Goldman, que a ajudaria depois de sua cirurgia em dois dias. Não posso simplesmente ir embora porque sua irmã não consegue pensar em não ser o centro do universo da vida do Tyler por mais alguns dias. Ele deu de ombros. – Não me importa quantas coisas você tenha listado para fazer por seus amigos parasitas nem no quanto você planejou se curvar pelo mundo todo, srta. Nelson. Não vou mais esperar. Ela franziu o cenho. – Eu não me curvo... – Você é o pior tipo de pessoa, ingênua... A profunda exaustão tirou-lhe a capacidade de protestar. Ela não deveria ficar magoada com as clínicas e disparatadas palavras dele... Mas estava. E ser afetada pelas palavras dele só provava que o homem tinha razão. Como ela podia se sentir mal em relação ao que um estranho, alguém tão cruel quanto Nikos Demakis, achava dela? – Seu quarto no apartamento não vai a lugar nenhum. Se houver alguma outra coisa com a qual você precise de ajuda... – Ele se demorou olhando as roupas dela de novo. – Alguma coisa que seja somente um problema seu e de mais ninguém, posso deixar meu assistente à sua disposição. – E se eu não concordar?


Ele deu de ombros. – Não importa. Sua opção é vir comigo como convidada ou cativa. – Isso é sequestro! Ele pegou algumas folhas de sua pasta e deu para ela junto com uma caneta. – É difícil admitir, mas estou vendo que fiz isso tudo do jeito errado. – O quê? Ele se inclinou para a frente, repousando os cotovelos nos joelhos. Seu olhar era solene, e piscou. Nenhum homem no mundo deveria ter permissão de ser tão lindo assim! – Eu deveria ter aparecido na porta da sua casa com o coração nas mãos, suplicando pela minha irmã, implorando por sua ajuda, tentando me tornar seu melhor amigo. Talvez até mesmo falar sobre a minha própria infância horrível, fingir estar no meu leito de morte... – Está bem, certo, tudo bem. Entendi – disse Lexi, cortando as palavras zombeteiras dele. Lexi sempre gostou de ajudar quando podia. Não deixaria que o homem manipulador à sua frente fizesse com que se sentisse uma idiota por isso. Lexi analisou novamente o documento, que ela pedira a um amigo que trabalhava num escritório de advocacia para dar uma olhada, mas ela sentia o temor no âmago. Ela seria empregada pessoal dele por dois meses, pelo que receberia cinquenta mil dólares, metade agora e a outra metade quando ele considerasse o trabalho terminado, algo sujeito aos critérios dele somente. Lexi estava recebendo uma quantia exorbitante de dinheiro para passar um tempo com Tyler numa ilha grega! Ainda assim, enquanto a limusine parava na rua dela, no bairro pobre de seu prédio, ela não conseguia desvencilhar-se da sensação de que havia um preço não escrito que teria que pagar. E ela não fazia ideia de qual seria esse preço.


CAPÍTULO 4

NIKOS FECHOU seu laptop e recusou a oferta da comissária de bordo para outro drinque. Ele não tivera uma boa noite de sono em quatro dias agora. Terminara o acordo com Nathan Ramirez e finalmente tinha uma solução para o problema de Venetia. Ainda assim, estava inquieto, com uma sensação estranha de energia acumulada fervendo em fogo brando sob sua pele. Vinha se esforçando demais nesse último mês e precisava de um tempo. Assim que tudo estivesse ajeitado com Venetia, ele levaria a irmã em merecidas férias. Ela sempre quis ver mais da cidade de Nova York. Ao pensar na cidade, seus pensamentos voltaram-se imediatamente para a srta. Nelson. Ele não ouvia nem um pio que fosse da cabine dela nos fundos do avião. Havia algo naquela mulher que sempre o deixava irritado. Entrando na cabine dela, ficou paralisado. Ela estava deitada bem na beirada da cama, metade do corpo para fora dela. Dormia como uma bolinha. Seu cabelo cor de mel brilhava com a fraca luz, sua boca aberta como a de um peixe. A camiseta branca dela não conseguia ocultar o perfil de seus pequenos seios. Um relógio de plástico com um grande mostrador na forma de uma caveira cobria a maior parte de seu pulso. Uma faixa das costas dela, que o distraía altamente, estava mostra, acima de seu short jeans. Panturrilhas delicadas e pés ainda mais delicados cujas unhas estavam pintadas com esmalte preto completavam a cena. Mesmo dizendo a si que deveria simplesmente sair andando, Nikos permaneceu onde estava. Geralmente ele prestava bem pouca atenção nas mulheres com as quais dormia. Ele conseguia o que queria e tirava a distração do caminho. Porque distração era tudo que uma mulher sempre fora para ele. Mas esta mulher deixava-o perplexo, irritado e aborrecido simplesmente com sua existência. Era tal mescla de inocência e um quê de calculista nela que ele achava fascinante. Nikos sorriu, lembrando-se da confusão dela, de seus belos olhos azuis arregalados, de sua respiração desconfortável com a aproximação dele no carro. Notando uma página debaixo dos braços dela, inclinou-se e puxou a revista que ali estava enrolada. Seu sangue começou a correr lentamente em suas veias enquanto ele sentia o cheiro dela. Baunilha. Simples e, ainda assim, fascinante, como ela.


Nikos endireitou a revista e olhou para o artigo que ela estava lendo: Como usar o sexo para conseguir seu homem de volta. Então a pequena garota insolente não queria aquele parasita de volta, é? Aparentemente ser chamada de vadia egoísta não a detinha. Desprazer e uma inexorável curiosidade competiam dentro dele. Que tipo de mulher se preocupava com um ex-namorado que virara as costas para ela, com uma amiga que a manipulava e, ainda assim, encarara Nikos quando ele a encurralara? A perspectiva efervescente da srta. Nelson em relação à vida e sua mais pura ingenuidade estavam começando a afetá-lo de um jeito desagradável. Quanto mais cedo ele a tirasse de sua vida, melhor. Murmurando um xingamento, ele se virou para sair quando a mulher sonolenta fez um barulho na cama. Com um rápido movimento, Nikos segurou-a antes que ela caísse da cama. Ele acabou de joelhos ao lado da cama dela, cujo corpo esguio estava aninhado nos antebraços dele. Aqueles olhos azuis abriram-se com tudo, cheios de terror. Ela se contorceu e se debateu nos braços dele, que foi atingido por um soco no maxilar. Grunhindo com a dor, ele a jogou em cima da cama não tão gentilmente assim. – O que você está fazendo? – disse ela, rolando para o outro lado e encarando-o. – O que você acha? – gritou ele. – Deveria ter deixado você cair no chão. Quem sabe a queda teria lhe dado um pouco de bom senso. Theos, mas a mulher sabia dar um soco e tanto! Se ele não tivesse virado, estaria com o nariz deslocado. – Desculpe-me. Só agi por reflexo. Ajeitando-se em silêncio, Lexi pôs o máximo de distância possível entre eles. E por fim a ficha caiu para ele. – Você tem medo de mim. – O silêncio dela era sonoro em volta deles. Nikos deixou as perguntas, o ego, tudo, de lado. Ele podia não gostar dela, mas o temor nos olhos dela, isso era real. – Eu sei que você pensa que sou um canalha sem coração, e está certa, mas eu jamais colocaria um dedo em você. Por fim, o olhar dela encontrou o dele. – Eu acho que sei disso. – Bem, que bom. – Dessa vez, ele não conseguiu tirar o sarcasmo de seu tom de voz. Ela fez uma careta e inspirou fundo. – Desculpe-me, não me expressei direito. Sei que você não vai me machucar, Nikos, pelo menos não fisicamente. E não é das suas intenções que tenho medo, mas... – Ela ficou bem ruborizada. – Mas de seu... Quero dizer... – Theos, Lexi! Simplesmente fale! Lexi suspirou, lutando contra a premência de sair correndo da cabine. Mesmo que a temperatura ali estivesse perfeita, ela ainda sentia o suor escorrendo por sua coluna. E eles dois, sentados na mesma cama, aquilo era íntimo demais. Tantas coisas, estranhas e enervantes, aconteciam dentro dela. Mas o homem merecia uma explicação. – Seu tamanho... Quero dizer... Você é um homem grande. O olhar dele reluzia com diversão. – Sim, tenho 1,92m de altura. Sou grande, em toda parte. E, até agora, você é a única mulher que não ficou espetacularmente feliz com isso. – O que o seu tamanho tem a ver com as mulheres ficarem fe... – Oh.


Ele deu risada e ela não conseguiu não sorrir. Ele era lindo, realista, e não parecia nem um pouco alguém de quem ela deveria ter ficado com tanto medo. – Você me deu a abertura perfeita para o comentário. Mais uma vez, você me deixou extremamente curioso. E me deve uma explicação. Lexi puxou os pés e abraçou os joelhos. – Não é nada que seja útil para você – disse ela, arrastando os pés. Ele nem pestanejou com o insulto. – Conte-me mesmo assim. – Fui transferida para um novo lar adotivo aos 12 anos. Adorei o lugar de imediato porque no último... Eles sempre tinham sido bondosos comigo, mas eu era a única criança. O novo lar era perfeito porque éramos seis crianças e foi onde conheci o Tyler. Mas nossos pais adotivos tinham um filho. Jason tinha quase 17 anos, mais velho do que qualquer um de nós, e era imenso. Desde o dia em que pisei na casa, ele implicou comigo. Todos os meses, a coisa piorava. Às vezes, ele me erguia e me jogava no chão, às vezes me trancava no armário. Fiquei bem esperta para evitá-lo, na maior parte do tempo. A coisa continuou por dois anos. Mas nesse lugar foi onde fui mais feliz, exceto pelos momentos com o Jason. O pior foi quando... Nikos entrelaçou sua mão na dela, com os dedos fortes e ásperos junto aos dela. Contendo a premência de puxar a mão, ela inspirou. Sua mão era minúscula junto à dele, mas a sensação era boa, forte, uma centelha de conforto preenchendo-a. – Você não tem que continuar. Lexi ergueu o olhar, mas não soltou da mão dele. Odiava que a sombra do medo que fora sua companhia constante naqueles anos ainda estivesse com ela. – Não... Veja... Eu achei que tivesse superado isso, mas creio que, pela forma como venho reagindo com você... – Ela torceu os dedos, mas ele os segurou com firmeza. – Eu recuso... Recuso a dar a ele qualquer poder sobre mim. – Ela cerrou os olhos e instantaneamente estava de volta naquele quarto, na cama de metal que rangera com o peso de Jason, o cheiro do suor dele, e ela podia sentir o corpo dele pressionando o dela. – Numa noite, quando eu tinha 15 anos – a voz dela saiu num sussurro desolado –, eu estava dormindo, e eu acho, eu não sei... Não sei por que ele se deitou ao meu lado. Não faço ideia nem mesmo de por que ele estava de volta na casa. Num minuto, estava dormindo em paz, no outro, acordei, e ele estava em cima de mim. – Ela estremeceu e afundou as unhas curtas na palma da mão de Nikos. – Ele me prendeu na cama com seu imenso corpo, prendeu meus braços acima da minha cabeça. Ainda consigo sentir o hálito dele na minha face. Não sei por quanto tempo, mas não conseguia respirar nem me mover... – Ele...? – Não. Não sei o que ele pretendia fazer. E, graças ao Tyler, nunca tive que descobrir. – Claro que sim. – As três palavras saíram com uma veemência que fez com que ela voltasse o olhar para o rosto dele. – Foi então que você fugiu? – Sim. Eu não conseguia mais aguentar isso. Só que dentro de uma semana, nós percebemos o quanto era difícil conseguir comida. Mas Tyler se recusava a me deixar. E ela não o abandonaria agora. – Os pais dele não acreditaram no que aconteceu? – Jamais contei a eles. O choque fez com que Nikos arregalasse os olhos.


– Por que não? – Eu não queria magoá-los. – Magoá-los? – Magoá-los? – repetiu ele, com uma fúria selvagem. – O filho deles a atacou enquanto você estava sob os cuidados deles. Era dever deles protegê-la! Ele vibrava com tanta emoção que Lexi não conseguia entender. Ela não sabia por que uma decisão que tomara anos atrás podia afetá-lo tanto. – Eles eram pessoas bondosas, Nikos. Eles me deram um lar por dois anos. Isso teria partido o coração deles... – Você não tinha que se preocupar com os sentimentos deles. Isso nunca deveria ser o fardo de uma criança. Quando se começa a aceitar essas coisas, acredite em mim, não tem volta – disse Nikos, com uma fúria palpável. – Seu tipo de inocência não tem lugar nesse mundo. Buscar um lugar para você nas vidas dos outros é uma coisa. Mas, a ponto de minar a si mesma... E, antes que você diga alguma coisa, não tenho nada a ganhar com isso. Este conselho é para o seu próprio bem. Lexi ficou com os olhos pregados nas costas dele enquanto ele saía da cabine sem nem olhar de relance para trás. Mais uma vez ele era aquele estranho arrogante e condescendente do primeiro encontro deles, aquele de quem ela não gostava, nem mesmo um pouquinho. Aquele que cortava seu coração no ponto, com verdades desconfortáveis que ela não queria ouvir, fazendo com que questionasse suas escolhas e a si mesma. LEXI SAIU da limusine e lembrou-se de não pegar sua bagagem. Em dois dias na companhia de Nikos e ela já estava se acostumando com os serviços. Fascinada com a pura e majestosa decadência do hotel à sua frente, ela levou um minuto para perceber que estava em Paris. Nikos tinha saído numa outra limusine sem dizer nada e ela se sentira um pouco aliviada com isso, e acabou nem se dando conta de onde tinham pousado. Ela subiu as escadas e dirigiu-se à recepção do hotel, controlando a premente necessidade de simplesmente ficar olhando para tudo ao redor. O saguão do hotel parecia um portal especial prestes a engoli-la. Ela se forçou a sorrir e se voltou em direção ao balcão, com o coração na boca. Odiava como o medo a tomava, mas não tinha como fugir disso, então, teria que subir pelas escadas de novo. Olhou de relance primeiro para a luxuosa cafeteria do térreo. Ela precisaria de umas doses de carboidratos para subir vinte andares de escada de novo. – O sr. Demakis tem uma suíte permanente aqui conosco no quadragésimo quinto andar – disse a recepcionista, e o coração de Lexi afundou em seu peito. – Mas recebemos um e-mail dizendo que a senhorita precisa de uma suíte no primeiro andar. Lexi poderia ter dado um beijo na mulher! Sentindo-se zonza com o prazer de não vivenciar a possiblidade de ter um ataque do coração outra vez, ela seguiu a funcionária uniformizada e ligou para Nikos com seu celular. – O que foi, srta. Nelson? – disse ele, com irritação na voz. – Eu dei meu número a você para emergências. Qualquer outra coisa de que precisar, é só pedir na recepção do hotel que eles vão providenciar.


A bolha da animação dela esvaziou-se com um sibilar tangível. Ela lambeu os lábios e forçouse a formar as palavras. – A suíte no primeiro andar... Eu... Obrigada por lembrar, Nikos. Depois de um silêncio pesado e embaraçoso, ele disse: – Você está fazendo isso de novo. Achando que todo mundo é como você. Não. Preciso de você viva agora. Depois, pode subir cinquenta ou cem andares. Não me importo com isso. – Por que estamos nos estendendo por aqui então quando você estava com tanta pressa de sair de Nova York? – disse ela, com sarcasmo. – Porque tenho uma reunião aqui que tive que adiar para ir buscar você. E ele desligou o telefone. Lexi ficou encarando o aparelho telefônico, boquiaberta. De repente, ela se sentia a mulher mais idiota do planeta por ter ligado para ele. Especialmente quando ele a havia largado sem cerimônias numa cidade estranha sem nenhuma explicação. Ela bateu com o celular na testa, furiosa consigo. Queria agradecer e... Veja o que ele fez! Mas ela não acreditava no que ele disse. Nikos podia ser arrogante, um enfurecedor pé no saco, mas ele tinha sim coração! Resolvida a manter certa distância dele, Lexi seguiu em direção à escada. PUXANDO AS beiradas de seu robe, Lexi saiu aos tropeços do chuveiro. Embaraço, pura fúria, terror puro e simples, tudo isso circulando por seu ser numa questão de segundos. Com o robe grudado em sua pele molhada, ela acompanhou a mulher francesa de mais de 1,80m de altura, que estava completamente nua, até o lounge da suíte. – Onde está o Nikos? – disse a mulher num delicioso sotaque francês. Então era isso... – Esta não é a suíte do sr. Demakis – conseguiu dizer Lexi, a despeito do choque. Com os ombros para trás, a mão com manicure perfeita nos quadris, Emmanuelle não perdeu nem um pingo da confiança com a qual ela invadira o chuveiro onde Lexi estava, ao notar o erro que cometera. Piscando, Lexi balançou a cabeça, a pura perfeição do corpo da mulher entalhada em seu cérebro. Ela olhou ao redor na suíte. A mulher não poderia ter vindo andando na rua e entrado no saguão do hotel pelada, poderia? Não que alguém fosse culpá-la por fazer algo assim, com um corpo daquele. Avistando uma toalha, Lexi jogou-a para a mulher e continuou a procurar pela roupa dela, respirando aliviada quando viu uma pequena pilha amontoada de seda vermelha em cima do sofá de couro creme. Ela estava recolhendo o vestido quando a porta se abriu e ali entrou o homem que ela queria estrangular! Com um cartão-chave na mão, como se fosse dono do hotel! – Não acredito nisto! O mundo inteiro pode ficar invadindo a minha suíte agora? Ele olhou do vestido vermelho na mão de Lexi para Emmanuelle e caiu na gargalhada. O som das risadas dele foi como um soco no estômago de Lexi. Tremendo de raiva, ela jogou o vestido em cima dele com tanta força quanto possível. – Essa mulher invadiu o chuveiro, nua, me dando um tremendo susto! – Acalme-se, srta. Nelson – disse ele com a voz macia, e pegou o vestido que ela jogou nele.


Nikos entregou o vestido a Emmanuelle, murmurando algo que Lexi não conseguiu ouvir ao pé do ouvido da mulher, que, por sua vez, assentiu e colocou o vestido. Ao lado de Emmanuelle, tão estonteante em seu vestido vermelho quanto sem ele, Nikos era a verdadeira epítome da perigosa sofisticação, ao ponto que Lexi poderia muito bem vir de outra galáxia. Ela não sabia nem por que se importava com isso, mas estava bem ciente do quão bom ele era em virá-la do avesso. – Presumo que ver Emmanuelle tenha deixado seu sistema nervoso em choque, não? – disse ele, olhando para ela, analisando desde seu cabelo molhado até o fino robe de seda que ela comprara na seção infanto-juvenil da loja de departamento local, ele passou marchando por ela. Sabendo que ele a provocaria impiedosamente, não importando o que dissesse, Lexi ficou de boca fechada. Emmanuelle deu um beijo no rosto dele, olhou para Lexi, jogou um beijo para ela no ar e saiu da suíte. Ele tirou uma mecha do cabelo de Lexi da frente de seu rosto. Ela estremeceu ao olhar para a barba dele por fazer, o pescoço dele, um festim para seus sentidos. – Você está bem ou devo chamar um médico? Ela cruzou os braços, afundando as unhas em sua pele para não se concentrar nas palavras dele. – Estou em algum tipo de reality show estilo The Bachelor em que você é o solteiro da vez? – A curiosidade estúpida era intensa. – A mulher em Nova York sabe da existência dessa daqui? – Hein? – Sua namorada, a morena de Nova York? Ele se sentou no sofá, suspirando e estendendo suas longas pernas. – Nina não é minha namorada. Nem Emmanuelle. – Ela entrou aqui, pelada, e saiu como um gatinho quando você pediu isso a ela. O que foi isso...? – Eu disse a ela que não queria mais vê-la e ela foi embora. – Então esse foi o fim da... Ligação de vocês? – Ligação, srta. Nelson? Eu voltei para o século XVI? Não é de se admirar que... – Caso, que seja, certo? – Lexi apressou-se a dizer. Ela não queria mais uma provocação em relação ao Tyler. – Isso foi cruel. Você diz que acabou e ela vai embora. É assim que...? – Que eu conduzo minhas ligações sexuais? Sim. E pare de se sentir mal por ela. Se ela quisesse pôr um fim nisso, ela teria feito o mesmo. – Então, aonde quer que você vá, tem uma namo... Mulher com quem faz sexo? – Sim. Eu trabalho duro e brinco do mesmo jeito. – Nem você nem ela tem expectativas em relação um ao outro? Com movimentos lentos, ele desabotoou o colarinho de sua camisa. – Isso está parecendo uma entrevista. Lexi precisou de toda sua força para manter o olhar no rosto dele. Ainda assim, ela continuou com as perguntas. – Você passa algum tempo com alguma delas? Comem juntos, saem para passear? Chama alguma delas de amiga? – Não. – Ele se levantou e foi até ela. – Você está se sentindo mal por mim.


Apesar de toda a riqueza dele e de sua vida social, Lexi Nelson e Nikos Demakis tinham algo em comum. Ele era tão solitário quanto ela. Só que ele havia moldado a vida dele desse jeito. Por quê? Pelo pouco que ela sabia de Venetia e Nikos Demakis, eles vinham de uma imensa e tradicional família grega. – Esse é um jeito horrível de se viver. Ele riu e o sarcasmo na risada dele a atingiu. – Isso é o que eu penso da sua vida. Ela travou o olhar no dele e, pela primeira vez, não havia ali nenhuma zombaria nem desprezo. Apenas a verdade nua e crua. – Na minha vida, não existe isso de relacionamentos que duram, nada de fazer favores a amigos que vão se aproveitar de mim. E, quanto ao sexo, as mulheres com quem fico querem exatamente o mesmo que eu. Nada além disso. Você entenderia isso se... – Se eu não fosse uma imbecil sem sofisticação? Esfregando os olhos, Lexi prostrou-se no sofá que Nikos deixara vago. Porque era isso que Tyler sempre lhe dizia, não? Que ela precisava viver mais, fazer mais coisas, simplesmente... Ser algo mais. Que estava vivendo a vida de todo mundo e não a dela. Lexi sempre dispensava isso rindo, sem na verdade entender a veemência nas palavras dele. – Eu ia dizer que saberia disso se levasse uma vida normal de uma moça de 23 anos em vez de bancar a Madre Teresa Júnior da sua vizinhança. – Ele se sentou ao lado dela, que se sentia atraída pelo calor do corpo dele. – Se é assim que você se vê, trate de mudar isso. Assim tão de perto, ele era ainda mais lindo, e a proximidade dele enervava-a no nível mais fundamental. A ciência aguçada que Lexi tinha da presença dele junto com os contínuos ataques verbais que ele fazia deixavam-na exasperada. – Existe algum mercado aqui em Paris onde vendem sofisticação por quilo? – Creio que já estabelecemos que você é esperta, srta. Nelson. Sofisticação, ou todo o resto que seja, se compra com dinheiro. Você passou um tempo olhando lojas na Quinta Avenida antes de sairmos de Nova York. Por que não comprou o que queria? Ela piscou, mais uma vez abalada com o quanto e com que facilidade ele exercia seu poder. – Seu assistente lhe passou atualizações a cada minuto do que eu fazia? – Eu estava na limusine preso no trânsito e a vi. Você ficou um tempinho em cada loja. Aparentemente, é tão diferente de Venetia quanto achei que fosse. – Espero que você fique tão ocupado que eu não tenha que vê-lo nenhuma vez quando chegarmos à Grécia. – Para que você possa passar o tempo todo com seu precioso Tyler? Nikos era o homem mais contraditório que ela já conhecera. – Não é por isso que você está me pagando essa quantia exorbitante de dinheiro? – O que você fez com a primeira metade do dinheiro? – Não é da sua conta. – Se eu descobrir que o emprestou para algum amigo ou alguma amiga que realmente precisa do dinheiro – havia um brilho perigoso no olhar contemplativo dele –, eu vou colocar você nos meus joelhos e espancá-la! As bochechas dela ficaram vermelhas quando a vívida imagem do que ele disse se formou em sua mente. A maldição de ser uma pessoa visual. – Não dei o dinheiro a ninguém nem o gastei.


– Por causa da sua moral idiota? – Não. Eu... Só quero deixá-lo guardado, certo? – Percebendo que estava gritando, ela inspirou fundo. – Se algum dia eu perder o emprego... E você provou como é fácil com um pouco de dinheiro e inclinação descobrir sobre o meu passado... E se eu não conseguir arrumar outro emprego, não quero passar fome de novo. Nunca mais quero ser reduzida a ter que roubar ou fazer algo errado de novo. – As recordações das dores de fome, do suor frio ao roubar, tudo isso era tão vívido que ela sentiu um nó no estômago. Ela soltou uma risada oca que soava tão patética quanto ela se sentia. – Você provavelmente deve estar achando que sou uma tola. A boca dele, ainda fechada, inclinou-se para cima, nos cantos, o entendimento nos olhos dele prendendo-a no lugar em que estava. – Acho que você é sim uma tola, mas não por isso. Apesar do tom de desprezo, nesse instante, ela acreditou que ele conhecia a sensação de impotência e do medo que a assombrava. – Naquele dia, você disse que entendia isso. Como? – Já passei fome antes. E também era responsável pela Venetia. – Mas sua família é rica. E você é rico. Tão rico que dá até náuseas. Ele sorriu, sem calidez. – Meu pai virou as costas para toda essa nauseante riqueza pela minha mãe. Quando tinha 13 anos, eles morreram com poucos meses de diferença um do outro. E até mesmo antes de morrer, ele geralmente estava se afogando no álcool, e era inútil para nós. O tratamento da minha mãe era caro. Durante quase um ano, eu fiz de tudo para trazer dinheiro para casa, o máximo que eu conseguia. E quero dizer tudo, qualquer coisa que fosse. O tom dele era monótono, e ainda assim ela era capaz de sentir a fúria e a impotência que irradiavam dele. Lexi entrelaçou os dedos nos dele, como ele fizera com ela antes. A sensação que a tomou despertou todas as suas terminações nervosas. O toque dela arrancou Nikos do poço de memórias em que ele caíra. Até mesmo agora ele lembrava do fedor do desespero, da fome. Ele viu a empatia nos olhos dela. – Sinto muito, Nikos. Errei ao presumir o que presumi. Ele assentiu, porque a pequena mulher ao seu lado não estava com pena dele. Lexi entendia a dor do menino de 13 anos que ele fora. Nikos a manipulara para que ela viesse com ele, mas ainda assim ela sentia empatia por ele. Como? Como alguém podia ter levado uma vida tão difícil e ainda assim reter a bondade como ela? O que Lexi tinha que ele não tinha? Lexi Nelson, apesar de tudo, era toda coração. Ao passo que Nikos... A dor que ele vira de alguma forma se tornara uma dura e fria parte dele, que ele abraçou por tê-lo levado até onde se encontrava agora. – Não se preocupe – disse ele, intensamente desgostoso da expressão abalada dela. – Sobrevivi. E me certifiquei de que Venetia também sobrevivesse. Lexi ficou curiosa, mas controlou-se e manteve a boca fechada. Levantando-se do sofá, ela ficou esperando de braços cruzados que ele se mexesse. Ele sorriu e não puxou as pernas para trás. Murmurando algo que ele não conseguiu ouvir, ela pulou por cima dele. Ao sentir cheiro do sabonete e da pele dela, Nikos sentiu um duro puxão de desejo.


Por que tinha mandado Emmanuelle embora em vez de aceitar o que ela lhe oferecia: sexo fácil e descomplicado? Reclinando-se no sofá, por mais que tentasse, em vez de pensar no corpo esguio de Emmanuelle e no prazer que ela lhe daria, sua mente continuava lembrando-se daqueles incríveis olhos azuis e de um corpo esguio quase sem curvas. Definitivamente, Lexi Nelson era uma distração interessante. Nada além disso. Com seu infinito afeto e coração confiante, não havia lugar para Lexi na vida dele. Com uma crueldade que ele aperfeiçoara com o passar dos anos, ele afastou a imagem de sua cabeça.


CAPÍTULO 5

SABENDO QUE se ficasse em seu quarto Nikos zombaria dela, Lexi vestiu um short jeans e uma camiseta surrada e larguinha e aventurou-se a voltar para a sala de estar. Ela ficou paralisada com as atividades ali. No lugar da mesinha de centro, havia uma arara com roupas de grife, com tecidos leves e cortes caros. Uma mulher alta e impecavelmente vestida estava ao lado da arara com um bloco na mão, enquanto outra, provavelmente sua assistente, desembrulhava um vestido vermelho do papel de seda, cujo som parecia caro, pensou Lexi. Seu coração estava acelerado, vergonhosamente animado. – Você está praticamente babando. Nikos estava sentado numa poltrona de couro, com as mãos entrelaçadas, as longas pernas estendidas à sua frente. Ele emanava uma energia latente. – O que está acontecendo? – Um presentinho para você. – Presente? – Ela aprendera que nada do que ele fazia não era calculado. – No estilo, “vamos fazer uma transformação no guarda-roupa dessa órfã aí?”. Meus amigos estão esperando para pular e chorar com a minha transformação? Ele envolveu o braço dela com os dedos e puxou-a para perto dele. – Então você nunca chegou a ver seus pais? Havia um tom gentil na voz dele que não lhe era característico e ela levou uns segundos para responder. – Não. – Você pensa neles, se pergunta...? – Eu costumava fazer isso, sem parar. Os primeiros quadrinhos que desenhei tinham uma órfã que segue numa jornada galáctica e descobre que os pais são viajantes cósmicos presos do outro lado da galáxia. Um dia percebi que, em termos de história, isso era fantástico, mas, na realidade, infelizmente, não. Agora, por favor, me diga o que está acontecendo? – A vida de Venetia é cheia de festas e estou lhe provendo uma armadura para que ela não a esmague. Pense em mim como sua fada madrinha. Ela caiu na gargalhada. – Poooor favor! Está mais para um pirata espacial enlouquecido!


– Como aquele dos quadrinhos em que você está trabalhando agora? Foi disso que você me chamou no primeiro dia, não foi? Ela ficou chocadíssima com o quão claramente ele se lembrava disso! Nikos levantou-se e fez uma pose com uma pistola imaginária na mão. Alto daquele jeito, ele deveria ter ficado estranho, mas não, ficou lindo! – Spike era o nome dele, não? Você me usou como base para o seu herói? Ela balançou a cabeça, incapaz de tirar os olhos da perfeição do perfil dele. Desejando ter uma câmera na mão, ela o estudava avidamente. – Spike é o vilão que sequestra a srta. Havisham. Você não é um herói, Nikos. – Ahh... Essa srta. Havisham é uma frágil beldade que conquista o coração dele e o ensina a amar? O coração dela parou. Xingando-se por sua imaginação descarrilada, ela sorriu. Não havia nada além de zombaria nas palavras dele. – Errou de novo. – A história toda está pronta? Fale-me sobre isso. – Ainda estou fazendo os esboços preliminares e esbocei a trama. Assim que eu terminar os personagens e a história, farei as planilhas dos personagens e a etapa final será começar a pintar. – Então você faz tudo isso à mão, sem software... – Sim, sou uma arte-finalista. Gosto de fazer isso à mão, acertar em todas as expressões, e ainda não decidi na verdade por um método de pintar, estou apenas brincando com todas as técnicas. Às vezes, vou colorir, às vezes... – Ela parou de falar quando ele sorriu. – Desculpe-me, eu me empolgo quando falo disso. – Entendo. Carros antigos me deixam com um tesão similar. – Ele deu risada quando ela ficou bem vermelha. – Parece interessante. Você tem tudo de que precisa para fazer isso? Ela assentiu. – Quando vou poder vê-los? – Ver o quê? – Seus desenhos. Quero vê-los. – Talvez quando você aprender a dizer por favor – disse ela, e ele soltou um ruído de desapontamento. Ela quase gostou dele nesse instante... Quase. O sorriso dele era sardônico. – Agora, por favor, agrade seu chefe e coloque aquele vestido vermelho. Eu sei que você quer fazer isso. Lexi pegou alguns dos vestidos de festa com a mulher e foi para o quarto. Ela não aceitaria nada disso, mas não havia mal nenhum em experimentá-los, não é? Em vez de experimentar o vestido vermelho, ela pegou o tubinho tomara que caia exatamente da cor de seus olhos, que ficou perfeito como se fosse feito para ela. Puxando o zíper para cima, Lexi virou-se para o espelho de corpo inteiro. O vestido de grife valorizava seu corpo. Ela não parecia sofisticada, talvez nunca seria. Mas, melhor do que isso, pela primeira vez desde que se dera conta de que nunca teria curvas, ela parecia uma mulher. Ao ouvir a batida na porta, ela parou de se admirar e foi até a sala de estar. Nikos estava apoiado na porta aberta, devorando-a com o olhar sombrio. O lampejo de pura apreciação


masculina no olhar dele tirou o fôlego dela. Aquele olhar... Lexi tinha imaginado Tyler olhando para ela assim tantas vezes, o que nunca aconteceu. E ver isso nos olhos de Nikos não era bemvindo e parecia chocante. Ela piscou com a tensão que se formara entre eles. – Você está estonteante, srta. Nelson – disse ele com a mesma voz sedosa com que a insultava. – Seu ex-namorado nem vai saber o que o acertou quando a vir com esse vestido. Com o coração martelando seu peito, Lexi acompanhou-o até o lounge e se pôs na frente dele. – Do que realmente se trata isso, Nikos? Por que você se importa tanto com como Tyler vai me ver? Diga-me a verdade ou vou embora daqui agorinha mesmo. Ele dispensou a estilista e sua assistente. Não havia mais nenhum humor. O olhar dele era frio e predador. – Não me ameace, Lexi. Chamá-la pelo primeiro nome era puramente para intimidá-la. Tudo nele a intimidava, mas ela se recusava a deixar transparecer isso. – Não minta para mim, Nikos. O silêncio dele foi o que bastou para convencer Lexi da verdade que estava o tempo todo na cara. – Você quer me usar para separar Tyler e Venetia. Ela esticou a mão para abrir o zíper na lateral do vestido, sentindo-se tão suja com ele quanto no dia em que invadira aquela casa. Seus dedos tremiam. Nikos olhou para ela, franzindo o cenho. – Acalme-se. – Não, não vou me acalmar. E abra este zíper aqui. Silenciosamente e sem encostar no corpo dela, Nikos fez isso. Tudo nessa situação estava errado. Ela suava frio. Assim que o zíper foi aberto, ela foi correndo para o quarto trocar de roupa. Marchando então de volta à sala, ela jogou o vestido em cima dele. – Drama, srta. Nelson? – disse ele, jogando o vestido de lado. – Finalmente algo em comum entre você e Venetia, além do Tyler. – Vou gritar se me chamar de srta. Nelson de novo nesse tom condescendente. Você me manipulou, mentiu para mim e me pegou como se eu fosse um saco de batatas. Você vai me chamar de Lexi e vai me dizer por que está fazendo isso. – Tyler é um babaca manipulador que não merece Venetia. Quero que ele saia da vida dela. – Tyler não é... – A opinião que você tem dele não significa nada para mim. Ela se encolheu. – Por quê? – Você é... – Ela teve a distinta impressão de que ele estava escolhendo cuidadosamente as palavras, o que a surpreendeu. – Cega no que diz respeito a ele. Lexi foi tomada por uma onda de confusão e medo. No que havia se metido? – Então por que deixar que ela o veja? Por que fingir que os apoia? – Venetia, apesar do drama, é muito vulnerável. Ela nunca se recuperou da morte de nossos pais. Sou o único no mundo que não a magoou até agora. Não vou mudar isso.


– Então eu faço o trabalho sujo para você, certo? E o que acha que vai acontecer com sua preciosa irmã se tudo correr como você planeja? – Ela vai chorar por ele. Eu vou explicar que vocês – plena repulsa revestia as palavras dele agora – sempre voltam um para o outro. O que não é inacreditável com o longo histórico de vocês dois. Odeio não ter como impedir isso. Mas vou aceitar algumas lágrimas do que algo mais perigoso que ela poderia fazer depois quando se der conta de que Tyler nunca a amou. A emoção no tom de voz dele era inconfundível. Tudo fora com essa finalidade. Lexi entendia isso, apesar de ser tortuoso, e quase o admirava por isso. – Você não pode protegê-la de tudo, Nikos. – Ela viu meu pai dar um tiro na cabeça dele. Falhei faz tempo nisso, de proteger a minha irmã. Lexi ficou paralisada. Ela achava que sua vida era desafortunada. – Seu pai se matou? – Porque ele não conseguia viver sem a minha mãe. – O gelo revestia suas palavras. – Venetia tinha 10 anos. Ela nem mesmo entendeu a morte da nossa mãe. O pior é que ela é exatamente como ele, emotiva, volátil e propensa a ter variações de humor. Com tudo que sei sobre seu amigo, sei que ele vai largá-la um dia. Estou adiantando isso para que os danos a ela sejam limitados. – Você não pode simplesmente fazer com que a vida dela seja desprovida de mágoas. As coisas não são assim. Não vou fazer isso. – Terá seu precioso Tyler de volta. Não me diga que isso nem passou pela sua cabeça. – Sim, mas não desse jeito. Estou fora. A tensão em Nikos era palpável. – Se acontecer alguma coisa com a minha irmã por causa do Tyler, vou considerar você pessoalmente responsável por isso. Sabendo que poderia evitar isso... Você consegue lidar com essa culpa, Lexi? Nikos não tinha nada de frio. Ele era apenas incrivelmente bom em colocar tudo isso de lado e moldar sua vida para que seguisse a mesma estratégia. Ele se colocara atrás de uma parede invisível onde nada podia atingi-lo. E ele queria manter a irmã ao lado dele. Lexi estava com o coração apertado. Tantas pessoas poderiam se machucar no caminho que ele estava forçando Lexi a seguir. Tyler, Venetia, a própria Lexi e Nikos, acima de tudo. E tudo que Nikos queria era proteger a irmã. Protegê-la do quê? – Isso tem a ver com tirar o Tyler da vida de Venetia... Ou o amor? – Não estou pagando para que me analise. Pode me chamar de vilão, como seu pirata espacial. Diga a si mesma que a estou forçando a fazer isso, se ajuda você a dormir melhor. – Se eu conseguisse ser alguma femme fatale, eu e o Tyler ainda estaríamos juntos. Mas não sou o tipo de mulher que faz os homens perderem a cabeça. Essas roupas todas? Desperdício. Tyler nunca vai largar Venetia por mim. – Não se subestime. Eu sei o quanto você pode mexer com a mente de um homem, e isso quando nem está tentando. Tudo o que tem de fazer é convencer o Tyler de que o lugar dele é ao seu lado. Nikos não ia desistir. Lexi ficou com náusea só de pensar que estava sendo paga para fazer isso. Mas ele não descansaria antes que Tyler saísse da vida de Venetia. E Lexi não duvidava de até onde ele seria


capaz de ir. O que queria dizer que Tyler sofreria para que Venetia não sofresse. E Lexi não podia deixar seu amigo à mercê de Nikos. – Tudo bem, vou fazer isso. – Vai? – Você me deixou sem escolhas, não? Você é o canalha manipulador que está fazendo isso com eles, mas, sim, serei sua ajudante do mal. Mas eu digo NÃO para essas roupas. Pensativo, ele se afastou dela. Lexi tremia. Mentir nunca fora seu ponto forte. Mas, por ora, tinha conseguido. Conseguira enganar Nikos. Que feito maquiavélico! Ela estava num jogo perigoso, mas não conseguia ver como sair dele.


CAPÍTULO 6

LEXI ACORDOU alarmada. O agradável aroma de manjericão e rosas apenas intensificava sua confusão. Geralmente, os cheiros que sentia eram de pizza velha e fumaça. Além disso, o silêncio reinava exceto pelas ondas, o que era perturbador, pois estava acostumada com os ruídos de seu prédio. Puxando os lençóis de algodão egípcio para junto de si, ela inspirou fundo e caiu na cama de novo. Estava na mansão de Demakis, num quarto só dela. Numa das ilhas de propriedade dele nas ilhas Cíclades. Cerrou os olhos, mas sabia que tinha dormido além da conta. Ela deu um pulo quando viu que eram 15h30. Eles tinham chegado na ilha às 4h. Estava cansadíssima e, quando Nikos lhe disse que Tyler poderia passar mais algumas horinhas sem ela, praticamente pusera em palavras o que ela mesma estava pensando. A viagem de Paris até a ilha fora dominada por um tenso silêncio. Ela estava nervosíssima com tudo que Nikos lhe dissera e com sua própria decisão impulsiva de continuar com o jogo. Ainda bem que ele a tinha deixado em paz. Ela foi então até o banheiro e ficou boquiaberta com a pura magnificência dele e seu luxo decadente. Até a pia era de prata. Então tudo que ouvira sobre a riqueza dos Demakis era verdade. E o pai de Nikos tinha se afastado disso tudo. Bem, ela estava ali e haveria de fazer de tudo em seu poder para garantir que Nikos não faria algo impulsivo. Mas ela poderia muito bem aproveitar os luxos. Como os daquele banheiro, por exemplo, onde havia torneiras de prata e uma variedade de aromas de sabonetes feitos à mão. E assim, ela ficou imersa na água. ELA ESTAVA sorvendo um coquetel sem álcool no glorioso deque de um iate de luxo enquanto uma herdeira grega olhava para ela como se quisesse reduzi-la a cinzas. Se olhares pudessem jogá-la para fora do iate, Lexi estaria beijando algas exóticas no fundo do mar quando pisou no deque ao lado de Nikos.


Ele a observara com aquela expressão inescrutável dele, acompanhara-a até o iate e a levara até Tyler, que a abraçara enquanto Venetia, sem o drama que Lexi tinha esperado, não perdera a compostura, apenas as emoções fervilhando em seus olhos traindo sua fúria. Não haviam se passado mais de 15 minutos quando Venetia os separou. Ainda assim, estava claro que Tyler não tinha nenhuma intenção de magoar Venetia, mesmo que não se lembrasse dela. Ele pedira pela presença de Lexi porque queria sua melhor amiga por perto, para ajudá-lo a pensar no que fazer e não porque era sua ex-namorada, como Nikos presumira. Quando Lexi se deu conta disso, Nikos tinha desaparecido. Lexi estava preparada para ver os dois juntos, sabendo que seus problemas com Tyler começaram bem antes de ele conhecer Venetia. Mas nem ela podia não notar que o que eles tinham era forte, o que deixaria um grego implacável muito enraivecido. Tyler e Venetia estavam no deque, cercados pelos amigos da garota. Ela não deixaria que ele nem mesmo olhasse para Lexi nessa noite. Provavelmente, nunca, se Nikos não estivesse lá para isso. Saindo do deque, Lexi sentia-se sobrepujada pela riqueza e pela sofisticação das pessoas festejando atrás dela, mas não era por isso que estava com aquela sensação pesada no estômago. Ela não lamentaria por si mesma. Essa ilha era gloriosa e Lexi não deixaria que a solidão dentro dela maculasse o quanto aproveitaria estar ali. NIKOS ESTAVA furiosíssimo. Mais uma vez, Savas o havia frustrado. Nos três anos em que Nikos entalhara seu caminho no império Demakis através de puro trabalho e determinação, ele trouxera para a empresa o mais amargo rival de Savas, Theo Katrakis, apesar da recusa veemente de Savas, provando que estava sim na hora de trazer dinheiro novo e novas parcerias para a empresa. O que tinha dado certo. Nos dois anos de parceria com Theo, um astuto homem de negócios com uma mente prática, a receita da Demakis Exports aumentara em quarenta por cento. Nikos não tinha dúvida de seu sucesso na nova empreitada também, mas isso fizera com que Savas o forçasse ainda mais. Outra reunião, outra recusa em nomeá-lo CEO. Ele voltou para sua garagem e tirou o encerado da Lamborghini Miura S que ele estava restaurando. Ele estava sendo testado, punido, tendo o que era seu por direito negado, por causa de seu pai. Só que Savas não entendia o quanto Nikos também odiava o pai. Ele não era e nunca seria como ele. Nikos tinha somente dois objetivos na vida: proteger Venetia e tornar-se CEO da Demakis. O que ele faria a todo custo. Uma determinação renovada corria em seu sangue. Ligando o celular, ele telefonou para seu assistente e ordenou que marcasse uma reunião com Theo Katrakis. – VOCÊ VAI ficar cega por desenhar no escuro. Lexi ficou ofegante e ergueu o olhar, as palavras de Nikos pareciam centelhas de fogo. O lápis até voou de sua mão. Suas pernas doíam por causa da posição que estavam, pressionadas ao


concreto da garagem. Ela entrara ali de fininho, perguntando-se o que seria aquilo, e, ao ver Nikos nu da cintura para cima, trabalhando furiosamente no carro, ela ficou parada, seus dedos formigando para desenhá-lo. Obviamente ela não notara quanto tempo tinha se passado. As veias no antebraço de Nikos estavam saltadas, seus dedos, cheios de graxa. – Há quanto tempo você está aqui? Suspirando, ela deu a mão a ele, que a puxou para que se levantasse. Suas pernas, doendo por ela ter ficado sentada ali por tanto tempo, vacilaram e ele colocou o braço em volta dela, equilibrando-a junto ao seu peito. Ele cheirava a suor e graxa, uma combinação incrivelmente estranha que a deixava facilmente sem fôlego. Nikos não parecia nem um pouco aquele sofisticado e charmoso homem de negócios do primeiro dia que zombara dela. Esse Nikos era sensato e prático, mas não menos intenso. Músculos esguios cobertos por sua gloriosa pele moreno-clara. Uma calça jeans justa e de cós baixo. Um peito que poderia ser entalhado em mármore, com um tanquinho e, ah, Glorioso Deus, aquela linha de pelos vinda do peito e desaparecendo dentro da calça jeans. A respiração dela ficou dificultada e rápida, e ela sentiu um calafrio. Os olhos castanho-escuros dele brilhavam com uma diversão que ele não escondia e alguma outra coisa... Que atiçava a necessidade dela. – Você gostaria que eu ficasse totalmente nu? Sim, por favor... Pela minha arte, sabe...? Ela ficou bem vermelha e desviou o olhar. Pegou o papel e o lápis, com um nó no ombro por ter passado tanto tempo ali desenhando Nikos. – Eu não pretendia incomodá-lo. Ele pôs as mãos nela, com gentileza, e virou-a. – Aqui? – sussurrou ele ao ouvido dela, traçando com os dedos o nó no ombro direito dela. Lexi assentiu, com a garganta seca. O hálito dele acariciava sua pele enquanto ele esfregava o lugar dolorido em seu ombro. Nikos era como uma fornalha atrás dela. A pressão que ele aliviava com os dedos apenas fluía para o restante do corpo dela. – Relaxe, agape mou. Você se lembra do que falamos? Lexi assentiu. Por mais que ficasse perturbada com isso, não havia nada de sexual no jeito como ele massageava seus ombros. Nikos usava sua sexualidade como se fosse uma segunda pele. Para ele, ser sexy era como desenhar para Lexi. Ela estremeceu com o quanto queria que aqueles dedos fossem de seus ombros para o restante de seu corpo, com o quanto queria reclinar-se naquele corpo dele e sentir a pressão de seus músculos. Ele pegou o papel da mão dela e soltou-a. O silêncio nunca fora tão enervante antes. Ela se virou devagar, tremendo. – Você é extremamente talentosa. Mas desenhou a mim, e não seu pirata espacial. Lexi não conseguiu nem mesmo murmurar uma palavra que fosse. Ela olhou de relance para o desenho. Ficou mortificada. Ela pretendia desenhar Spike e... Ali estava Nikos em toda sua glória. Havia uma fome física no olhar dele, um anseio elementar, que ela imaginara ter visto. – Todos os seus desenhos são assim tão autorreveladores?


Perguntas e respostas não ditas impregnavam o ar. Nããããão. Ela deu um passo para trás, querendo fugir desesperadamente. – Eu não deveria ter vindo até aqui. Eu... Eu só estava andando por aqui... – Então fique – disse ele, segurando em seu pulso e cortando sua confusão. – Eu não mordo, Lexi. Ela se sentia dividida por dentro. Era patética o bastante para admitir que o achava intensamente interessante e, ainda assim... Também sentia medo dele. – Você dormiu bem? Falei para as criadas não a incomodarem quando estivesse dormindo. Lexi assentiu, com um nó na garganta. Ela queria sentir raiva de Nikos. Mas entendia sua necessidade de proteger a irmã. Lexi só não queria que isso custasse a felicidade de Tyler. – Então aqui é tipo a sua Bat Caverna? Virando-se, ele riu. – Você lembrou! – Gosto de você aqui – disse ela. Nikos ergueu uma sobrancelha. – Aqui você parece mais legal, mais calmo, menos manipulador. Ele a ficou encarando sem comentar, uma sombra em sua diversão. Virando-se, apanhou uma chave de fenda. – Venetia disse alguma coisa a você? Hipnotizada pela mudança de assunto e pelos músculos se mexendo nas costas dele, Lexi não respondeu. Ele se virou e chegou mais perto dela. – Lexi? – O que foi? – Ela ficou ruborizada. – Venetia... Ela não falou nada, nenhuma palavra para mim. Só ficou me olhando com ódio, sabe? Como se quisesse me reduzir a micropartículas com seu raio laser. – É isso que o Spike pode fazer? – Neeeem... Acho que é uma nova personagem essa... A irmã-demônio do Spike. – Você está realmente me deixando tentado, thee mou. Então... Não teve nenhuma chance de falar com o Tyler? – Na verdade, não. Eles saíram do deque. E eu... Eu apenas não sabia o que fazer. – Você não gosta de festas? – Menos do que estar em meio a um mar de gente que nem sabe que existo. Eu poderia cair no oceano que ninguém nem perceberia que eu me fora. Ela não vai deixar eu me aproximar do Tyler, especialmente não na frente dos amigos dela, Nikos. É melhor eu não ir mais a essas festas, a não ser que você esteja nelas. O eco das palavras dela cercou-os, seguido de um silêncio ensurdecedor. Lexi tinha que justamente despejar seus temores logo em cima dele? Um homem que não tinha lugar para emoções nem as inseguranças que elas traziam. – Pode me chamar de tola. – Venha aqui. Quando ela não se mexeu, ele a puxou para perto de si. A pele dele formigava nos lugares em que roçava na dela. – Medos nem sempre são racionais. Eu sei disso.


Ela se afastou para longe dele, virou-se, lutando para se recompor. Ele não parecia desprovido de sentimentos. Parecia ter conhecido o medo pelo jeito que ele falou. – Acho que você estaria curtindo a festa – disse ela, precisando quebrar o silêncio. – Também não sou muito festeiro. Quando mais novo, não tinha tempo, agora não tenho interesse. Festas são apenas cenários de caçadas sexuais e não preciso disso. Não, ele não precisava mesmo disso. Ela encolheu as pernas quando ele se sentou do outro lado. Ele deslizou para o assento em movimentos lentos e medidos, e ela sabia que era para ela. Sentindo-se a pessoa mais idiota do mundo, ela se desgrudou do canto. Certo, então ela não queria exatamente sentar no colo dele, mas não havia motivos para insultar o homem. Ele notou o esforço dela com um sorriso no olhar. – Você está se acostumando comigo. A calidez naqueles olhos e o simples prazer nas palavras dele iluminaram uma centelha dentro dela, que sugou o ar, a fundo. – Por que você não tinha tempo? Ele deu de ombros. – Até poucos anos atrás, eu trabalhava todas as horas existentes. Não tinha graduação nem experiência no trabalho além do pouco que aprendera na oficina do meu pai. Trabalhei duro para chegar aonde estou. – Você não quis estudar? – Não tive essa opção. Se quisesse segurança para mim e para Venetia, as condições eram que eu fizesse tudo que Savas me pedisse para fazer. – Condições? – disse ela, com náuseas. Ele se levantou, como se não conseguisse ficar quieto no lugar. Limpou com um pano a superfície imaculada do capô do carro. Nesse lugar, Nikos sentia-se confortável, quase em paz. – Quando Savas veio nos pegar, ele tinha condições específicas. Se eu fosse morar na casa dele, se quisesse que Venetia tivesse tudo de que precisava, teria que fazer tudo e qualquer coisa que ele pedisse de mim. – O que ele pediu que você fizesse? – A pergunta dela foi instantânea. – Ele me disse para nunca esperar por algo que eu não tivesse feito por merecer. Que ser neto dele não significava nada no esquema das coisas. Fiquei proibido de mencionar meu pai ou minha mãe. Em uma semana, comecei a trabalhar na fábrica. – Mas isso foi... Desnecessariamente cruel da parte dele! – Savas salvou a mim e a Venetia de uma vida de fome e desespero. Ele só se recusou a nos dar isso de graça. Não foi uma condição injusta. – Sim, se ele fosse apenas seu empregador. Mas ele é seu avô! – Savas odiava o fato de que me pai tinha abandonado tudo isso. Ele queria garantir que eu não acabaria sendo um tolo como ele. Lexi agora entendia porque Nikos a chantageara e pagara por seus “serviços”, com tanta facilidade. Como tudo era uma transação para ele, tudo tinha um preço na mente dele, afinal, ele fora ensinado a pensar assim. Um menino de 13 anos, em luto com a morte dos pais, lidando com o choque da irmã, lutando pela sobrevivência, e o preço fora não mostrar fraqueza nenhuma. Lexi poderia culpá-lo por agir como ele agia? Justo ela, que conhecia a necessidade de sobrevivência?


– Ele devastou você, Nikos – disse ela baixinho, devagar, com um tom triste. Sua própria infância fora vazia, ela ansiava por alguém que a amasse incondicionalmente. E tudo que queria era ter uma família. Nikos tinha família. E conhecera menos bondade do que Lexi. Ele ria, e sua risada zombava dela. – Tudo que Savas fez foi para meu bem. Não viu minha posição atual? Serei o CEO da Demakis International em poucos meses, terei tudo que meu pai não teve. Você acha que algum dia sentirei fome de novo? Nós dois sabemos como é o desespero, agape mou. Admita. Admita que vale pagar qualquer preço para não sentir isso de novo. – Vi seu lugar no mundo. Quase me afoguei naquela banheira gloriosa. Você é realmente cego para o preço que está pagando por tudo isso? Até mesmo sexo é uma transação para você. – Você critica, mas consegue ouvir umas verdades também, Lexi? Uma onda febril de excitação tomava conta dela. Agora sabia por que o tinha desenhado com aquela expressão no olhar. Perto de Nikos, sentindo tudo que sentia na presença dele, Lexi não podia mais se enganar. De repente, ela soube por que seu relacionamento com Tyler falhara em tantos aspectos. Eles nunca deveriam ser nada além de amigos. Nunca. Era como se um portal invisível tivesse sido aberto. – Você está certo, não consigo – disse ela, optando pela covardia. Ela queria sair correndo antes de se trair, isso se ele já não soubesse como ela se sentia em relação a ele. – Mas eu posso lhe dizer que as coisas entre Tyler e Venetia não são fracas como você pensa. Há um fogo entre eles que eu nunca... – Nunca o quê? – Havia uma curiosidade perigosa no olhar dele. – Com todas as suas noções antiquadas, você se recusou a apagar o fogo dele, Lexi? Foi por isso que ele a deixou? Nikos estava próximo demais da patética verdade. E ela se sentia atraída por ele, e era algo intenso que nunca sentira antes. Por que outro motivo a diversão dele a magoaria tanto? Ele segurou no pulso dela e a puxou mais para perto. – Artigos na Cosmo não ganham da prática. – Você está se voluntariando? – disse ela sem pensar. – Vai me ajudar a praticar para que eu possa seduzir o Tyler e roubá-lo da sua irmã? Então eles foram sugados por uma caverna de tensão. Ele não tinha nenhum interesse nela. Lexi vira o tipo de mulher de que ele gostava e, como acontecia com todos os outros homens no planeta, tudo girava em torno de peitos e pernas. Pela primeira vez na vida, Lexi desejou prestar mais atenção em suas roupas, usar maquiagem. Porque ela queria que Nikos sentisse aquela fome que ela sentia por ele. – Tenho certeza de que posso ser persuadido a fazer isso – disse ele por fim. Lexi ficou lívida. Nikos arrependeu-se instantaneamente do que disse. Ela se recuperou rápido, e sua boca tremia com a fúria que sentia. – Fico feliz de ser uma fonte de diversão para você, mas preferiria mil vezes ser largada pelo Tyler de novo do que aceitar sua oferta. Eu preferiria dormir com um dos caras que frequentam a casa noturna em que trabalho. Você não tem sentimentos, é manipulador, arrogante, está brincando comigo porque se diverte com isso e não preciso de seu sexo por pena.


Ela saiu correndo da garagem como se estivesse sendo perseguida pelo próprio diabo. Pasmo por ter sido tão atingido pelas palavras dela, Nikos forçou-se a respirar, assolado por uma tormenta de emoções inexplicáveis. Ele nunca pretendera magoá-la. Tinha apenas cutucado Lexi, como sempre fazia. A curiosidade que ele sentia em relação a todas as facetas da vida dela, sobre seu relacionamento com Tyler, não tinha limites. Será que ele chegara ao ponto do problema? Não havia fim para a inocência dela? Por que deveria importar para ele se Lexi dormira ou não com Tyler? Você está se voluntariando? Sim. O corpo dele rugia com sua própria resposta, mas ele não queria apenas sexo, ele queria Lexi. Pela primeira vez na vida, Nikos queria algo que nem mesmo entendia. Mas ele entendia a atração, que era mais do que atração, que sentia por ela: era algo tão único como aquela mulher em si. A criação dela, seu isolamento, mesmo cercada de pessoas, sua solidão... Era como olhar para uma imagem dele mesmo que Nikos não sabia que existia, só que com compaixão, afeto, amor. E o fato de ela mexer com ele o deixava alarmado. Sem sentimentos, manipulador e arrogante. Ele era tudo isso e mais ainda. Mesmo assim, naquele momento, com seu corpo tremendo só de pensar em beijar aquela boca, perturbado com a mágoa porque ela não o julgava adequado, ele não era o homem que se forçara a se tornar. Antigas feridas e lembranças abriram-se, acharam caminho dentro dele, deixando-o tremendo. O lampejo de dor, quente e chocante, forçou-o a focar-se como nada mais. Ele não examinaria os porquês disso. Não havia nada que Lexi pudesse oferecer-lhe que não estivesse facilmente disponível a ele sem complicações. Nem o corpo dela, nem seu coração piedoso, confiante e cheio de amor para dar. Era bom que ele a tivesse assustado e ela tivesse saído correndo, porque ele não tinha nada a oferecer a ela também. Como as lágrimas que Venetia verteria, o lampejo de mágoa nos olhos de Lexi era um preço que ele estava disposto a pagar. Seria melhor que ela ficasse longe dele, que parasse de analisá-lo, de dar-lhe vislumbres de coisas que ele nem mesmo sabia que faltava em sua vida.


CAPÍTULO 7

LEXI ESFREGAVA o bronzeador nas pernas, amando o tom bronzeado que já tinha alcançado. O sol do início da manhã estava cálido em seus ombros desnudos, enquanto as ondas frescas faziam cócegas nos dedos de seus pés. Uma casa na praia, pequena em comparação com a mansão gigantesca, ficava perto do oceano, enquanto a residência dos Demakis estava a mais de três quilômetros da ilha. Deixando Tyler passando as tardes com Venetia, ela havia cruzado essa distância, curtindo o silêncio. Dez dias haviam se passado desde aquele dia dela na garagem com Nikos. Mas, em vez da raiva por ele ter brincado com ela, Lexi sentia-se mais incomodada pelo fato de ele não ter nenhum interesse nela, o que era um sinal de que ela não batia bem da cabeça, pois, com todo o resto acontecendo, isso não deveria importar tanto assim. Todas as manhãs traziam uma nova faceta da ira de Venetia com a presença de Lexi ali, revelando sua frustração pela falta de memória de Tyler. Porém, mesmo com todos os esquemas elaborados dela para ajudar Tyler a lembrar, Lexi só conseguia ver o medo que a remoía, seu amor por ele. Lexi entendia o medo que a emoção sombria nos olhos de Venetia causava a Nikos. Ouvindo Tyler caminhando na areia atrás dela, Lexi virou-se com um sorriso no rosto. Tyler estava abatido, com olheiras. – Você se lembrou de alguma coisa? – perguntou-lhe Lexi. Pondo-se de joelhos ao lado dela, Tyler balançou a cabeça em negativa. – Como você consegue até mesmo olhar para mim, Lex? Lexi foi tomada por um frio medo. – Do que você está falando, Ty? – Venetia contou-me o que eu disse a você naquele dia que veio nos ver. – Por quê? – Acho que foi para me lembrar do quanto eu queria que você sumisse. Só que não funcionou como ela queria. – Ele cerrou as mãos em punhos. – Eu quero ir embora, Lex. Há tantas coisas pelas quais tenho que pedir desculpas. Não quero ficar mais nem um minuto aqui. Abalada pela amargura no olhar dele, Lexi segurou em sua mão. Com a garganta ardendo pelo choro não derramado, ela forçou-se a dizer:


– Escute, Ty. Sim, você me magoou, mas não tenho dúvidas de que havia um motivo por trás disso. Nós somos assim, Ty, fazemos muito isso. Brigamos, gritamos e depois fazemos as pazes. Só que dessa vez as coisas são diferentes. Ele passou a mão no cabelo, com dor no olhar. – Eu... Não consigo acreditar que falei aquelas coisas ofensivas a você, Lex, acima de tudo... Lexi sentiu como se alguém estivesse sentado em cima de seu peito. – Tudo está perdoado, Ty. De verdade. Os olhos azuis dele brilhavam com afeto, as palmas de suas mãos segurando as bochechas dela. O cheiro familiar dele era reconfortante. – Eu baguncei tudo entre nós, e feio. E agora tenho que partir o coração da Venetia também. Eu... – Não faço ideia do que deu errado. – A respiração dela falhava. As coisas nunca voltariam a ser como antes entre eles dois. Mas seu amor por Tyler nunca seria abalado. Sabendo que Nikos a esfolaria viva por isso, ela disse: – Você não tem que decidir nada agora, Tyler. Sobre a Venetia. Está entendendo? Com os olhos brilhando com a mesma dor, ele balançou a cabeça. – Não consigo encarar nem a mim mesmo agora, quanto menos Venetia. Você é tudo que eu sempre quis no mundo e magoei você. Lexi cerrou os olhos enquanto ele a puxava mais para perto de si e pressionava sua boca na dela. Mas a única coisa que ela sentiu foi uma sensação de conforto e uma crescente desolação enquanto uma verdade da qual não podia escapar começava a cercar seu coração: era a perda de um sonho acima de tudo. Será que ele sentira algo assim naquele dia? Será que ele sabia que algo estava irrevogavelmente errado entre eles, mas não sabia como dizer isso a ela? – Nós vamos ficar bem, Lex. Verdade. Lexi abraçou-o com força. Ele sempre esteve lá quando ela precisou, sempre fizera com que ela sentisse que se importava com ao menos uma pessoa no mundo, que não era uma órfã indesejada. Eles não tinham nenhum futuro juntos além da amizade. Lexi tinha de volta seu único amigo, e não queria mais nada. Ela sentiu um arrepio e, sem se virar, sabia que não era Venetia. Nikos estava próximo. Preparando-se, não sabendo para que, especialmente por estar fazendo o que Nikos queria, ela se virou. E fitando a varanda da casa de praia onde Nikos e Venetia estavam, parados, como deuses gregos vingadores. Concentre-se na realidade, Lexi. – Não faça isso, Ty. Eu sempre vou amar você, mas não existe mais nada entre nós dois. Não arruíne o que tem com Venetia. Tyler virou-se para ela, com um sorriso triste no rosto. – Se eu realmente a amei com força o suficiente para magoar você, esse sentimento vai voltar, Lex. Mas chega da Venetia olhando para você como se fosse a causa dos problemas dela e chega do irmão dela olhando para você com se quisesse devorá-la. Pasma, Lexi ergueu o olhar. Nikos estava com a mão na irmã, provavelmente impedindo-a de descer as escadas correndo e arrancar os olhos de Lexi.


Lexi desvencilhou-se de Tyler. Amnésia ou não, dando-se conta de que as coisas entre ela e Tyler estavam certas ou não, Lexi havia beijado o noivo de Venetia. Sentindo-se tão suja quanto Nikos estava lhe pagando para que fosse, Lexi afastou-se de Tyler. NIKOS PERMANECEU onde estava até bem depois de Venetia descer as escadas correndo e ir até Tyler, com lágrimas escorrendo pelo rosto, exatamente o que Nikos queria evitar. Mas Nikos sabia que ela precisava derramar essas lágrimas agora, que era melhor que soubesse da verdade antes que fosse tarde demais. Porém, a impotência que ele sentiu não era nada se comparada com a caverna sombria de anseio que tomara conta dele ao ver Tyler beijando Lexi. Era exatamente o que ele queria, mas, ainda assim, ele ouvia o rugir em seus ouvidos, com um desejo possessivo de limpar da boca de Lexi o beijo de Tyler. Ele desejava aquele olhar faminto dela quando olhasse para ele. Queria fazer com que ela gemesse de prazer. Queria fazer cair uma chuva de todos os presentes do mundo sobre ela. Desejava possuí-la, ensiná-la a ser egoísta, queria mostrar a ela todos os prazeres do mundo. Queria uma parte dela, aquele elemento intangível que havia nela e que fazia com que Lexi fosse única. Ele precisou de alguns minutos para controlar-se, para lutar contra a premência de seguir os passos de Tyler e bater nele até que virasse uma polpa, para enfiar esse desejo num canto seu. O prazer que Nikos havia sempre buscado sempre fora passageiro, e ele gostava que as coisas fossem assim, mas agora ele queria Lexi. E não apenas por uma noite. Queria entender como ela funcionava, queria abraçá-la quando chorasse, desejava mostrar-lhe o mundo. E ele a teria. DEPOIS DO banho, Lexi jogou seu biquíni ensopado dentro da mala. Venetia poderia ter um exército de empregados para pegarem as coisas dela, mas Lexi não se sentia confortável deixando suas roupas sujas para outra pessoa pegar. Ainda mais agora que estava indo embora. Ela sentiu uma pontada de dor, mas lutou contra essa tola sensação. Não haveria de chorar por um homem que só zombava dela. E, mesmo que ele a desejasse, ficar com alguém como Nikos Demakis, mesmo que por apenas uma noite, não era algo que ela queria. Mal lidara com o que acontecera com Tyler. Nikos a cuspiria depois de usá-la, não deixando nenhum lugar para que se escondesse, nem dela mesma. Calçando os chinelos e colocando a bolsa de praia no ombro, ela estava procurando pelo interruptor para apagar as luzes em volta da pequena piscina. – Pode deixar as luzes acesas, Lexi – disse alguém atrás dela, deixando-a paralisada por alguns segundos. Ela se virou. – Nikos – disse ela, com o coração ainda acelerado. – Achei que você tivesse ido embora. – E perder a oportunidade de conversar com você? Com as luzes fracas da piscina, ela mal conseguia distinguir as feições dele. Exceto pela rigidez de sua boca e pela tensão que jorrava dele. – Eu realmente não tenho energia para discutir com você, Nikos. – Você não vai a lugar nenhum até termos essa discussão.


A boca sensual dele tornou-se uma fina linha de desprazer, ele se reclinou contra a parede, cruzando as pernas na altura dos tornozelos. No entanto, não havia nada de casual na forma como olhava para ela. – O que aconteceu com o Tyler? – Venetia contou a ele o que ele me disse naquela noite na festa. Ele se sente horrível por isso, Nikos, ele... – Ahh... Então tudo está perfeito no seu mundinho de novo. – O que você quer dizer com isso? – Ele voltou para você, exatamente como eu previ. Lexi ficou tensa. Nikos achava que as coisas entre Tyler e Venetia tinham acabado. – Você não está entendendo... – Entendo. Melhor do que você pensa. Entendo a dor lancinante da solidão, a necessidade de ser importante para alguém, de ser amado. Mas você é melhor do que isso, melhor do que ele. Diga-me que não vai voltar para ele. – Isso realmente não é da sua conta, não? Você não é meu cafetão, nem meu chefe. Ele mordeu a isca. Nikos estava na frente de Lexi num piscar de olhos. Com as mãos na parede, uma de cada lado dela, de forma que podia sentir aquele cheiro masculino dele, de forma a sentir o calor que irradiava dele e a banhava. Com a boca dele pairando a poucos centímetros da dela, Lexi queria fechar essa distância com uma dor e agonia que a cegava para todo o resto. – Sua estupidez não tem fim? – Tudo está acontecendo segundo seu plano sórdido. Por que você se importa com o que eu faço ou deixo de fazer? – Estou tentando protegê-la de si mesma, Lexi. Você é tão infernalmente idiota a ponto de acreditar que esse é o verdadeiro Tyler ou que ele não vai jogar você fora no momento em que se lembrar de tudo? Ou pretende dormir com ele e selar o acordo dessa vez? – Não tem nada a ser selado, está bem? Eu amo o Tyler desde os meus 13 anos, e, sim, eu dormi com ele. Mas foi horrível. Foi horrível da segunda vez também e fiquei apenas arrumando desculpas para não fazer isso de novo. Nós tivemos uma briga horrível e ele me deixou... Ele saiu de casa. Está satisfeito? Ele é tudo que eu tenho neste mundo, mas não resta nada entre nós dois. – Por que você o beijou então? – Mais uma vez, isso não é da sua conta. Ele a puxou para si num rápido movimento, com as mãos nos quadris dela, tirando-a do chão, esfregando sua ereção na barriga dela. A sensação era tão boa que ela gemeu alto. Flechas de prazer assolavam cada centímetro do corpo dela. Lexi olhou para ele, com a pele pegando fogo. – Nikos... – Sim, Lexi. Ele tinha um sorriso safado no rosto. Ela estava pegando fogo, e ele sorria. – Você e eu... Eu... Não posso... Isto parece... – Ela engoliu em seco, mal conseguindo evitar a lamúria de prazer em sua garganta.


Com as mãos na cintura minúscula dela, Nikos deu-lhe um beijo com a boca aberta, molhado e quente, na pulsação do pescoço dela. Terminações nervosas que ela nem sabia que existiam ganharam vida. Ela estava com a boca seca com a fome nua e crua que dançava nas feições dele. Havia um fogo derretido e negro nos olhos dele, e era por ela. – Isto que você faz comigo... Não é nem um pouco divertido. Lexi cerrou os olhos e lutou para puxar o ar para dentro de seus pulmões. Nikos Demakis, o homem mais lindo que ela já tinha visto na vida, desejava-a. Isso, somado à fome nos olhos dele... Era como se todas as fantasias decadentes dela tivessem ganhado vida... E ela era apenas a mesma e sem graça Lexi Nelson. Como haveria ela de dizer não a ele? Lexi esfregou-se nele, que a puxou contra a parede, sem tirar as mãos da cintura dela. Nas feições dele, estava estampado o tesão. – Não faça isso, thee mou. A menos que você queira que eu a tome contra a parede. Não que eu não vá fazer isso se for o que você quer. – Espere. – Ela foi avassalada pelo pânico. Lexi tinha que pôr um fim nisso agora. Enquanto ainda lhe era possível. – Por favor, Nikos, solte-me. Ele a soltou instantaneamente, devorando-a com o olhar. O silêncio dele gritava com ela, a face dele, uma máscara selvagem do controle. – Sinto muito. Eu não queria... O fato de você me desejar, isso é perigoso, subiu à minha cabeça... – Ela inspirou fundo. Isso não era justo, nem com ele, nem com ela. – Eu não acho que exista uma mulher viva no mundo que poderia dizer não a você, mas eu... – Toda vez que você olha para mim com esses olhos azuis, está se perguntando como seria me beijar. Seu corpo grita pelo meu toque, quer você saiba disso e queria aceitar ou não. – Sim, mas eu tenho controle sobre isso. Não vou fazer sexo com qualquer um, simplesmente, sem envolver meu coração. – Não, você só fará sexo com um amigo, para quem você não passa de uma muleta emocional, para impedir que ele a deixe, mesmo que realmente não queira isso, não é? Você está preparada para fazer qualquer coisa, desistir de qualquer coisa para mantê-lo em sua vida. Quem está usando o sexo agora? Todas as palavras dele eram a mais completa verdade. Só que ela não tinha visto isso até agora. Era a isso que tinha sido reduzido tudo entre ela e Tyler? Ela se prendera a ele por todos esses anos sabendo que as coisas não estavam certas? – Você não sabe do que está falando. Simplesmente não consegue entender porque eu e a Venetia iríamos tão longe pelo Tyler. Porque você não é capaz de entender nada, de sentir nada, e isso está começando a incomodá-lo além da conta. O rosto dele parecia uma máscara de concreto. Todos os músculos de sua face, congelados e contrastando com a emoção em seu olhar. – Sua pequena hipócrita. Eu vi quando ele beijou você. Mal podia esperar para cair fora, ainda assim se prendeu a ele. Quer saber como é sentir o oposto, Lexi? Quando mal se consegue esperar para arrancar as pessoas de alguém? Ela poderia ter dito que já sabia como era isso, pois era o que sempre queria fazer quando estava perto dele. Mas Nikos não lhe deu essa oportunidade. Pressionando o corpo dele no dela, colocando uma coxa entre as pernas dela e clamando por sua boca.


O ofego de choque dela perdeu-se na boca dele. O beijo de Nikos não era gentil como o de Tyler fora. Era como uma tormenta, como se ele tivesse ficado esperando a vida toda para fazer isso, como se a próxima respiração dependesse disso. Ele colocou as mãos sob a camiseta dela, até que suas palmas quentes estavam estiradas na carne desnuda dela. Nikos lambeu a parte interna do lábio inferior dela, sugou sua língua, levando-a às alturas. Era um beijo com propósito erótico, para possuir os sentidos dela, para provar que ele tinha razão. Mas ele não sabia que isso não era necessário. Ela já era escrava dos desejos de seu corpo quando estava perto dele. Um calafrio elétrico subiu pela coluna dela enquanto milhões de extremidades nervosas ganhavam vida. Seu sexo molhado deixou-a chocada e mais excitada ainda. Suas pernas tremiam e ela se esfregava nele, com uma necessidade ardente. Ele murmurou algo em grego. Ela estremeceu enquanto ele soprava ar quente em seu lábio inferior, que tremia. Algo quase como um pedido de desculpas chegou aos ouvidos dela. Nikos clamou seus lábios de novo, porém, dessa vez, ele estava explorando, provocando, e foi a inesperada gentileza que quebrou o encanto para ela. – Não – sussurrou ela. E então repetiu isso mais alto. – Não, Nikos. A intenção sombria nos olhos dele assustava-a, sua própria impotência em face ao fogo ardente entre eles assustava-a. Se ele a tocasse de novo, se a beijasse de novo, ela não diria não. Não conseguiria dizer não. Nikos era o primeiro homem a incitar um desejo de dobrar os joelhos nela. Por que ele tinha que ser tanta areia para o caminhãozinho dela... Tão diferente dela? E veja como se saíram as coisas com seu melhor amigo, uma voz insidiosa sussurrou aos ouvidos dela. Lexi passou a mão por seus lábios que tremiam, de onde o gosto dele não sairia com tanta facilidade. – Eu não amo você. Eu... Ele foi lentamente para trás, incrédulo. – Você ainda não aprendeu a lição? Seu amor pelo Tyler deixou-a cega para tudo. Você quer esse tipo de amor? – Não sei do que está falando. – Tyler teve um caso com Faith. Ele traiu você com sua amiga. – Você está inventando isso... Você... Parecia que o desespero dela era infinito. Se Nikos ficara com raiva antes, agora ele era um caldeirão ardendo em fúria. Pegando-a com gentileza, ele a afastou de si. – Eu sou um canalha insensível, é verdade. E não tenho ideias erradas em relação a quem ou ao que eu sou. Porém, não aceito o que as pessoas impõem a mim. Não deixo que me tratem como se eu fosse lixo. Ela fechou a boca dele com a mão. – Eu não tinha ideia de que Tyler e Faith... De que eles gostavam um do outro assim. Eu... Agora Lexi tinha juntado a última peça do quebra-cabeça. Finalmente, entendeu por que Tyler a chamara de egoísta. Porque ele se sentia preso a ela por culpa, porque mesmo com provas de que eles não poderiam passar de amigos, ela não o deixara ir embora, porque sua recusa de seguir em frente significava que ele também não poderia fazer isso. Porque ela fora detida, embora os dois tivessem sido responsáveis pelo roubo. Tudo porque ela sentia muito medo de viver sua própria vida.


Tantas vezes Tyler pedira que ela se inscrevesse numa faculdade em algum outro lugar, que mudasse de emprego, que assumisse um risco e ela... Estivera assustada demais para sair do lado dele, aventurar-se, por sentir-se aterrorizada com a ideia de ficar sozinha. De não ter ninguém que a amasse, de não importar para ninguém. Então ela continuara agarrando-se a Tyler, a Faith, arruinando as vidas deles no processo. Lexi convencera-se de que Tyler a amava, forçando-se a amá-lo e culpando-o. E era isso que ele estava fazendo de novo! Deixando Venetia, partindo o coração dela por causa da culpa de como tratara Lexi. E ela não poderia mais permitir que ele agisse assim! Lexi não podia mais ser covarde! Endireitando os ombros, ela olhou para Nikos. O medo era uma tatuagem primal em sua mente que Lexi tinha que embotar por tempo suficiente para conseguir falar. Pela primeira vez na vida, ela queria alguma coisa. Queria estar com Nikos, queria deleitar-se no desejo que sentia por ele. Lexi tinha que fazer isso agora, antes que perdesse a coragem, antes de esquecer de quantas vidas tinha arruinado por sentir medo, antes de voltar para seu lugarzinho seguro e deixar sua vida passar. Ela precisava deixar Tyler, tinha que se libertar. Se caísse, ele a seguraria. Ele sempre faria isso. Ela sabia disso agora, o que significava que estava na hora de começar a viver. – Você me deseja, Nikos? Sou sua então – disse ela, sabendo que agora não teria volta. Uma labareda de fogo ganhou vida nos olhos dele. Nikos deu mais um passo para aproximarse dela que, por instinto, recuou, ficando grudada na parede. Ela ficou com a respiração rascada enquanto ele colocava a palma de sua mão sob o seio dela. Lexi cerrou os olhos. Ele tracejou com os dedos a forma dos seios dela, que se arqueou ao toque dele. – Olhe para mim, Lexi. Você não tem que se esconder disto. Ela fixou o olhar nos olhos dele e tomou a boca dele com um beijo ardente. – Não vou mais me esconder, Nikos, nem me conter. Quero tudo que você pode me dar. Ele levou a mão até as nádegas dela, puxando-a para perto dele. O peso da excitação dele pressionando a barriga dela era a sensação mais pecaminosa do mundo. Todos os músculos dela derreteram, prontos para serem moldados no que Nikos desejasse. Ela agarrou a nuca dele e envolveu as pernas nos quadris dele. Nikos tentava abrir o sutiã dela enquanto mordiscava seus lábios. Ele estava em todas as suas células e ela não queria fazer nada além de afundar nele, ceder-se a ele. De súbito, ele não a beijava mais, e Lexi lamuriou-se por isso. Com as batidas de seu coração voltando ao normal, ela piscou e percebeu por que ele tinha parado de beijá-la. O chefe de segurança de Nikos estava parado do outro lado da piscina. Passando o polegar pela bochecha dela, Nikos abriu um largo sorriso. – Não acabamos. Lexi assentiu e tentou não afundar na parede. Ela ficou observando enquanto Nikos conversava com o homem com uma agitação crescente, até que ele soltou um xingamento que reverberou no silêncio. Ela se aproximou dele assim que o chefe de segurança saiu, segurou no braço de Nikos, apesar da raiva que jorrava dele. – Nikos, o que houve? – Venetia e Tyler passaram a tarde inteira sumidos. E ela não está atendendo o celular. – Não estou entendendo. O que você quer dizer com...?


– As empregadas viram Venetia fazendo as malas. As roupas do Tyler também sumiram. Aparentemente, um dos amigos dela pegou os dois num barco. Eles foram embora. Lexi ficou rígida quando Nikos soltou outro xingamento. Sem dizer mais nenhuma palavra a Lexi, Nikos se fora dali.


CAPÍTULO 8

O QUE aconteceu quando Lexi Nelson, a extraordinária e iludida covarde, decidiu finalmente viver e se jogar para cima daquele pedaço grego de mau caminho e macho alfa que tinha uma mulher em cada cidade por onde passava? O garanhão grego aparentemente perdera todo o interesse em sexo porque a irmã tinha fugido sabe-se lá para onde com Tyler. Então, em vez de realizar sua fantasia, Lexi estava dando uma espiadinha na vida noturna de Atenas com Nikos, alternando xingamentos e olhando com ódio para ela, parecendo ter dispensado qualquer atração que sentia por ela. Dessa vez, Lexi estava realmente enfurecida com a herdeira grega. Lexi sabia que Venetia gostava de Tyler, mas não esperava que ela fosse levá-lo para longe do irmão. Tudo isso porque Tyler tinha beijado Lexi. Se Venetia soubesse da verdade... Em seu coração, Lexi estava feliz porque Venetia se recusara a permitir que Tyler caísse fora de sua vida. Se apenas ela conseguisse remover a culpa e a preocupação que reluziam nos olhos de Nikos... Isso e o fato de que ele nem mesmo olhara para Lexi, menos ainda pusera as mãos nela de novo. Todas as noites, pelos últimos quatro dias, Nikos, decidido a interrogar todo homem ou toda mulher com que Venetia já tinha falado na vida, arrastara Lexi para várias casas noturnas e mansões, uma mais decadentemente rica e sofisticada do que a outra. Nos primeiros dois dias, Lexi tinha ficado pasma com essa visão da esfera de vida dele, quase gostando do vislumbre de um tipo de vida que ela antes só imaginara. Só que, a cada visita, sua já frágil autoconfiança só diminuía. Por toda parte, as mulheres altas, belas e sexies jogavam-se para cima de Nikos. Lexi podia muito bem ser uma alienígena de outra galáxia. Era realmente prova do foco e do amor de Nikos pela irmã o fato de que ele não tinha nem mesmo olhado duas vezes para nenhuma delas. Será que o desejo que ele sentia por Lexi tinha esfriado? Ela se preparara para o que aconteceria depois, não antes mesmo de ele a beijar de novo. E isso doía. Com um curto e grosso “Fique aqui”, ele a havia largado no lounge privado da casa noturna quase 45 minutos antes. O lugar tinha uma vibração sensual. E, pelas filas na porta e as poucas


pessoas ali dentro, Lexi sabia que era uma boate exclusiva. E ela percebera que a área onde estava era a atração principal. E podia ver o porquê. Separadas e posicionadas discretamente acima do palco principal, o lounge VIP, cercado de vidro por todos os lados, oferecia uma vista perfeita da boate. Ela estava sentada na beirada do provocante sofá-cama, o couro luxuosamente macio sob seu toque. Em meio à multidão e à música, ela facilmente avistou Nikos. Encostado na parede do lado oposto da boate, ele estava conversando com uma loura alta, cheia de curvas, cujo corpo estava numa posição convidativa para ele. Apesar da inveja, Lexi não conseguia encontrar um defeito na mulher. Nikos Demakis deixaria qualquer mulher tentada. Lexi estava prestes a sair do lounge privado quando um barman entrou para servir coquetéis. O sorriso nos olhos dele deixou Lexi animada. Ela tomou um gole da bebida e começou a mover-se ao ritmo da música, decidindo que não deixaria que a indiferença de Nikos arruinasse mais sua noite. NIKOS FOI empurrando as pessoas para abrir caminho, e sua frustração devia estar aparente, porque mais de um grupo de pessoas pulou de seu caminho. Ele subestimara demais a determinação de Venetia e a inveja que sua irmã tinha de Lexi. Lexi podia não ser linda, sofisticada nem rica, mas havia algo nela que fazia com que se olhasse a fundo e a desejasse. Ele entendia perfeitamente como a irmã deveria ter se sentido. Quatro dias depois, não havia nenhuma informação sobre o paradeiro de Tyler e Venetia. Nikos estava começando a acreditar que sua irmã voltaria apenas quando e se ela quisesse. Nesse ínterim, Savas estava apertando ainda mais os parafusos, Theo Katrakis estava pronto para começar as discussões sobre a diretoria e havia Lexi, cuja própria existência estava tirando o controle da vida de Nikos. Quatro dias com Lexi olhando para ele com aqueles grandes olhos azuis. Você me deseja, Nikos? Sou sua então. Nunca a aceitação por parte de uma mulher de fazer sexo com ele o afetara tanto. Ele subiu os degraus até o lounge privado, parando na entrada e empurrando a porta para abri-la. Lexi movia-se lentamente ao som da música, com sua saia curta exibindo as pernas perfeitamente. As luzes do lado de fora do lounge mostravam em lampejos seu sorriso e a calidez em seus olhos, e, em seguida, veio a delicada curva do pescoço dela, a prata de seus brincos brilhando. O colete de couro sem manga abraçava o corpo dela, exibindo as curvas de seus seios pequenos. Com as mãos para cima e atrás da cabeça, ela se movia com sensualidade. Ela estava totalmente perdida no momento. Nikos fechou a porta atrás de si e ela se virou devagar. Nikos esperava que Lexi desviasse o olhar, o que não aconteceu, mesmo com o rubor rosado na face dela. Estava diferente, e não apenas por causa de como estava vestida, mas a inclinação de seu queixo, a resolução em seus olhos. – Ela... – Lexi assentiu em direção à pista de dança. – Sabia aonde Venetia poderia ter levado Tyler? – Nós não fazemos ideia de quem levou quem.


Lexi franziu o cenho. – Tyler não está bem, não tem dinheiro nem conexões, e, da última vez que o vi, estava determinado a não magoar Venetia. É ele ou você quem está com amnésia? Parece que esqueceu tudo que aconteceu quatro dias atrás. Quando Lexi passou por ele, uma explosão de necessidade o atingiu. Seu corpo estava supersensibilizado com a presença dela, e, ainda assim, ele havia parado. Ele contara a ela sobre a indiscrição de Tyler com Faith num perverso momento de egoísmo. Foi algo completamente não característico dele, fraco, impulsivo e juvenil. E, de repente, seu controle sobre o que rolava entre eles dois, sobre seu desejo por ela, sobre a tormenta de emoções que ela liberara nele, era mais importante do que qualquer outra coisa. – Não, não esqueci. – Aquela mulher com que você estava falando o deseja. Aonde quer que formos, sempre haverá pelo menos uma mulher que o deseja. A declaração dela era, na verdade, uma pergunta. Nos últimos quatro dias, Nikos estivera apenas pensando em si. Obviamente, ela entendera isso como se ele não quisesse mais saber dela. Ele que tinha o desejo por ela intenso e constante em seu sangue. O tesão sempre fora antes apenas uma função de seu corpo, não de sua mente ou de seu coração. – Eu não a desejo, nem a nenhuma das outras. Nikos sabia o que Lexi queria ouvir, ainda assim, algum diabo nele queria que ela perguntasse, queria ouvi-la admitir isso de novo. Agora que ela via apenas Nikos e nada mais. – Você ainda está interessado em mim? Ele colocou a palma da mão nas costelas dela, sentiu seu coração acelerar-se sob seus dedos. – O que você acha? Ela se afundou em seu toque, seu olhar desafiando-o. – Então pelo que você está esperando? – Você quer isso porque está com raiva do Tyler, magoada pelo que ele fez. – Não estou magoada pelo que ele fez. Se eu não tivesse que me preocupar com você, poderia, na verdade, estar aproveitando esse vislumbre da sua vida de podre de rico agorinha mesmo. Ele foi tomado por uma furiosa surpresa. – Você está preocupada comigo? – Claro que sim. Qualquer um pode ver o quanto você ama Venetia, como está preocupado com ela. Naquela noite depois que eles se foram, você passou a noite toda procurando por ela. E eu... – Ela inspirou fundo. – Eu não quero que ninguém seja magoado no final disso. Nem o Tyler, nem a Venetia e, definitivamente, nem você. E não sei como lhe dizer para não se preocupar tanto assim, como fazer com que você veja que ela é bem mais forte do que você pensa. Ela me viu beijando Tyler, Nikos, e não desmoronou. – Você acha que esse é o único sinal de fraqueza? Ela viu meu pai se matar. Isso a machucou de formas que eu não consigo entender. Ela segurou na mão dele, desejando que olhasse para ela. Lexi era tão minúscula, tão delicada em comparação a ele. – Tyler não deixará que ela faça nada, Nikos. O que aconteceu entre nós foi tanto minha culpa quanto dele. Tyler nunca faria nada para machucá-la.


– Ele está preparado para abandoná-la. Eu disse que ele faria isso. – Sim, porque ele queria agir certo com ela. Isso não lhe diz nada? Ou você é teimoso demais para ver isso? – Não vou discutir a relação dos dois com você. – Não. Acredite em mim, também não quero fazer isso. Provavelmente Venetia está se divertindo muito e eu estou aqui, presa a você. Você me responsabiliza por tudo que está acontecendo... – Não estou responsabilizado você por nada disso. Só não acredito que vá me contar se o Tyler entrar em contato com você. Lexi fechou a boca. Não havia nem porque tentar negar isso. Nikos conhecia-a muito bem. – Certo. Mas eu não tenho celular e não acho que eu consiga nem espirrar na ilha sem que você saiba disso, então podemos parar com isso de me arrastar por aí como se eu fosse uma bagagem indesejada? – Bagagem indesejada, thee mou? – Você olha para mim como se quisesse abrir um portal espacial e me jogar por ele. Você entende o que foi preciso para que eu lhe dissesse aquelas palavras na semana passada? Ele puxou as mãos delas mais para cima e com mais força enquanto pressionava seu corpo ao dela. Lexi cerrou os olhos e lutou por um oxigênio que lhe era muito necessário. Sua pele parecia pegar fogo, suas pernas, derretendo-se com o anseio. – Desde que percebi a imbecil patética que fui todos esses anos, também me dei conta de que não sou totalmente não atraente. Eu posso não ser peituda nem ter longas pernas e, provavelmente, não ser tão atraente assim para homens com gostos tão refinados como você, mas há outros peixes no mar. Fofinhos, com covinhas e pé na terra como o Piers, por exemplo, que me acha atraente e nem sonharia em me xingar... – Quem diabos é Piers? – Piers é o barman que está me servindo os coquetéis. – E ele gosta de você? – Ela assentiu. – Sim. Ele cerrou os dentes, e assentiu. E ela teve a mais estranha noção de que ele não gostara do que ela dissera. Intensamente. – Então me ajude a entender, thee mou. Simplesmente qualquer homem vai servir para essa sua nova vida de assumir riscos? Ela o empurrou, lutando contra o calor que subia por seu pescoço. – Você está sendo grosso de propósito. – Sexo é tudo que você quer de mim? – Eu... Sim, é claro que sim. – Ela estava ficando boa em mentir. Mas então isso era fácil, porque ela não sabia o que mais desejava dele. E também não queria saber. Lexi nunca temera seus sentimentos antes, mas, com tudo que aprendera em relação a Tyler, com tudo que Nikos fez com que ela encarasse, ela preferia não ter nenhum sentimento agorinha mesmo. – Você mesmo disse que sexo não deveria ser complicado. – E ela queria fazer isso com o homem mais complicado que conhecera. Nikos passou o polegar sobre o lábio inferior dela, absorvendo-a com o olhar. Afastando-se dela, tirou a jaqueta de couro. – Deve haver uma plaquinha aqui, ache-a.


Franzindo o cenho, Lexi ficou com o olhar fixo na porta. Balançando a cabeça, ela olhou ao redor do lounge. Ficou tensa quando achou a placa. Não perturbe. Olhando nos olhos dela, Nikos sorriu. – Pendure-a na maçaneta e feche a porta. A plaquinha de papelão deslizou dos dedos dela. Sua pele formigava com ele, fixando o olhar nela, desafiador. Os joelhos dela tremiam, seu corpo inteiro parecia uma piscina de anseio líquido e expectativa. Ela olhou ao redor, para o imenso vidro à sua direita, que lhe dava uma vista perfeita da pista de dança e da multidão lá embaixo. Ela não era virgem. Claro que as duas vezes com Tyler foram dolorosamente desajeitadas. Mas, com o tremor nos joelhos e o puxão no estômago, bem que parecia. – Aqui? Agora? Nikos aproximou-se dela, devorando-a com o olhar, e entregou uma taça de champanhe a ela. – Sim, aqui, agora. Algum problema? De repente, Lexi ficou mais do que ciente de tudo ao redor. Sua pele, as batidas de seu coração, sua respiração apressada, a multidão lá embaixo e Nikos, alto e lindo e a distância de um toque. Ele se pôs atrás dela, com as mãos em sua cintura. Ela podia sentir cada sulco da palma da mão dele em sua pele. – O vidro tem uma vista unidirecional. – Eles não podem nos ver de fora? – Não. Ela sugou o ar. As mãos de Nikos subiram para suas costelas e ele a abraçou junto a si. – Eles não podem nos ver nem nos ouvir. É isso que quero, Lexi. Você está preparada para isso? O hálito quente dele passou sobre sua orelha, antes de ele a percorrer com a língua. Lexi agarrou os antebraços dele, sentindo-se tomada por um calafrio. Ela se virou nos braços de Nikos e ergueu o olhar para ele. O desejo líquido nos olhos dele e a sensação da palma áspera da mão dele em seus braços desnudos eram tudo que Lexi queria. Soltando-se dele, pegou a plaquinha no chão, pendurou-a na maçaneta e fechou a porta, com as pernas tremendo.


CAPÍTULO 9

NIKOS LUTAVA para controlar o desejo que tomava conta dele e fracassou miseravelmente em seu intento. Depois de fechar a porta, ela estava ali, de costas, um convite tentador. A faixa de pele exposta entre a bainha dos shorts dela e suas botas altas era a coisa mais erótica que ele tinha visto na vida. Um calafrio criou raízes em seus músculos. Ele estava nervoso, sentindo-se como estivesse se arriscando, como se fosse novo para o sexo, em vez dela. Nikos ajeitou-se no luxuoso sofá-cama de costas para a parede. Ela se virou e se apoiou na parede. Estava com as bochechas rosadas. Ela franziu os lábios e abriu a boca. – Venha aqui, agape mou. Os ombros dela ficaram tensos, e ele achou que ela fosse sair correndo. Em vez disso, ela foi andando na direção dele, sem tirar os olhos dele. Ele foi atingido por dúvidas e questionamentos a cada passo que ela dava, e tais dúvidas e questionamentos eram tão estranhos para Nikos quanto a força de seu desejo. Não havia nenhuma timidez no olhar dela, mas também não havia ali nenhuma audácia. Isso era importante para ela. O que temperava o desejo dele. Lexi não sabia como jogar segundo as regras dele. Nikos lutou contra a premência protetora que se erguia dentro dele, colocando-a de lado com uma crueldade que o havia ajudado a sobreviver e vencer apesar de tudo. Ele precisava parar de fazer desse momento mais do que realmente era. Ela o desejava. Ele a desejava. Não haveria de mudar, não começaria a ponderar sobre os sentimentos dela porque ela era diferente das mulheres com quem ele geralmente dormia. Nenhuma delas havia feito um esforço que fosse para saber o que estava por trás de sua ambição ou motivação. Ela era a primeira pessoa que o tinha visto sob a superfície, que se dera conta de que um homem, com medos e desejos, existia por trás disso tudo. Até mesmo depois de tudo que ele fizera para manipulá-la, ela lhe desejava o bem, preocupava-se com ele. Nikos tomou a mão dela na dele e a puxou para o sofá. Ele se reclinou no sofá para que ela sentasse entre suas pernas. Todos os músculos no corpo dele estava preparados para o prazer e a posse. Beijando o pescoço dela, sentiu o gosto de sabonete de limão e baunilha. Ele cerrou os olhos, rezando para que tivesse controle. Ela era tão delicada sob seu toque que parecia que ia


quebrar em suas mãos. E mesmo com o tesão aquecendo seu sangue, Nikos admitiu algo para si: ele não queria machucá-la. Esse sentimento era estranho e forte ao mesmo tempo. NIKOS ERA uma fortaleza de necessidade, e a língua dele em seu pescoço deixou Lexi totalmente sem ar. Jogando a cabeça para trás, Lexi deu-lhe melhor acesso ao pescoço. – Beije-me agora, Nikos. Com uma agilidade inacreditável, ele a virou com facilidade até que ela estava montada nele. As mãos dele continuavam nos joelhos dela. Lexi moveu-se para equilibrar-se, seu sexo esfregando na ereção dele. O som dos gemidos mesclados deles dois, do desejo e da necessidade, do tesão e do querer, reverberavam na sala em volta deles. A boca dele encontrou-se com a dela numa fúria de desejo; as mãos dele nas coxas dela limitavam bastante os movimentos dela, que lutava na pegada dele, movendo-se sobre sua ereção. – Não, thee mou – disse ele, antes de capturar a boca de Lexi novamente. Ele não a beijou como fizera na piscina. Beijara-a suave e lentamente, como se tivesse todo o tempo do mundo, como se não houvesse nenhuma intensidade que fosse em sua necessidade. Nikos lambeu o lábio inferior dela, fazendo pressão para entrar ali. Afundando as mãos no cabelo dele, Lexi abriu a boca. Prazer como ela jamais conhecera antes irrompia em sua barriga e descia. Precisando de mais do que ele estava lhe dando, ela segurou o maxilar dele e forçou-o a olhar para ela. – Mais, Nikos – sussurrou ela. Em resposta, ele sugou o lábio inferior dela com uma gentileza incrível. Ela colocou as mãos debaixo da camisa dele e encontrou a pele quente. No minuto em que tocou no mamilo dele, Nikos foi para trás e puxou as mãos dela dali. Toda vez que ela se aproximava, ele a afastava. Lexi deu um beijo desesperado na boca dele e saiu de seu colo, oscilando antes de equilibrarse, com o corpo zunindo com um desejo não atendido. Apenas uma sombra do anseio marcava as feições dele, pois o controle reinava sobre Nikos. Ela queria começar a viver sua vida, queria assumir um risco, e ir para a cama com Nikos Demakis era um risco. Ele tivera centenas de amantes e ela, um. Ainda mais do que isso, Nikos era um risco por recusar-se a deixar que ela se escondesse, ele não a mimava. E ela não queria que isso mudasse. Lexi abraçou seus braços e forçou as palavras a saírem. – Não é isso que eu quero. Ele se levantou. Ela continuou com o olhar fixo ao dele, maravilhada com ele, cujo maxilar parecia de granito. – Vamos sair daqui imediatamente. – Não quero sair daqui. Ele cobriu a distância entre eles e sorriu. Com as mãos nos ombros dela, puxou-a mais para si e sorriu.


– Tudo bem, eu não deveria ter começado isto aqui. Eu sei que tudo isto é novidade para você... – Ele beijou com fúria a boca de Lexi, até que ela não conseguia mais respirar. Era isso que ela queria, a paixão dele. – Mas também não é o fim. Ele foi para trás e, dessa vez, não parecia tão equilibrado. – Pare de tentar me proteger, Nikos. Você está agindo igualzinho ao Tyler. O olhar dele ardia com raiva. – Não sei do que está falando, mas você deveria saber que nenhum homem gosta de ouvir o nome do ex-namorado da garota, e definitivamente não nesse contexto. – Então pare de agir como ele. Nikos deixou um xingamento escapar. – Explique. – Você está fazendo o que acha que eu quero. Não está sendo você mesmo. – Essa é a coisa mais ridícula que já ouvi na vida. – Eu não vou quebrar, Nikos. Quero honestidade entre nós, seja na forma como você vai fazer amor comigo ou quando estiver na hora de dizer que as coisas acabaram entre nós. Está se controlando, imaginando se eu vou quebrar, se você vai me machucar. Ele puxou o cabelo dela para trás, e Lexi notou que ele não estava tão controlado quanto ela achava que estivesse. Esse não era o Nikos que a forçara a admitir o quanto o desejava. Algo havia mudado nele, entre eles, e ela não sabia o quê. – Não serei responsável por machucar você. Apesar de tudo que propus e fiz, nunca pretendi machucar você, Lexi. – Então me diga... Não, mostre-me do que você gosta. Faça amor comigo como faria com Nina ou com Emmanuelle. – Christos! Pare de se comparar com elas! Não consigo esquecer tudo que sei sobre você e quem você é! Lexi mordeu o lábio inferior. Calidez não tinha nada a ver com o desejo e o tesão que corria pelas veias dela. Nikos estava fazendo confissões a ela. Algo que ela não queria, mas não podia evitar ser afetada por isso. – Vai me machucar mais se não for você mesmo, Nikos. Creio que o Tyler... Ele só dormiu comigo porque achou que isso me faria feliz. Não consigo aguentar só de pensar que você está fazendo o mesmo... – Theos! Não consigo pensar direito com o desejo que sinto por você. Nunca passei tanto tempo pensando em sexo em vez de fazer sexo. Lexi sentia-se aterrorizada com o que estava fazendo, com o quanto estava se entregando a ele, mas, mesclado ao medo, também havia uma sensação de que fazia o que era certo. Ela cobriu a distância entre eles e beijou-o. Os lábios dele eram macios e suaves junto aos dela, as mãos dele em sua cintura erguia-a do chão. A língua dele mergulhava em sua boca, buscando e fazendo carícias, as mãos dele em suas nádegas puxava-a para a abertura em suas pernas. Puxando as mãos dela para cima, ele lentamente a guiou para a parede atrás dele. Um lento sorriso curvou os lábios dele. – Você quer saber do que eu gosto? – Sim.


– Eu gostaria que me dissesse o que você quer que eu faça. Tem que me pedir para fazê-lo, thee mou. – Certo. Ela desabotoou seu colete e o couro caiu, revelando a pele quente. Os dedos dele estavam firmes, apesar do nervosismo dela. Havia, pelo menos, uma centena de pessoas do outro lado do vidro. Mas eram os escuros olhos de Nikos que espalhavam o desejo como fogo selvagem por ela. Seus seios pequenos pareciam pesados, seus mamilos estavam rígidos na seda rendada de seu sutiã. O som da respiração irregular dele preenchia o ar da sala. – Mal posso esperar para tocar seus seios, Lexi. Venho enlouquecendo só de pensar neles. Nikos passou as juntas dos dedos na tira do sutiã dela, com o olhar faminto. Sem encostar nela, curvou-se e lambeu a curva superior do seio dela, que arquejou com o toque. Ele a mantinha junto à parede com o antebraço, impedindo que ela se inclinasse na direção dele. – Desculpe-me, thee mou. Esqueci minhas próprias regras. Agora, se você quiser alguma coisa... Ela ergueu o olhar para ele, com a boca seca, mas a necessidade triunfando sobre a timidez. Ela puxou a mão dele e beijou-lhe a palma. – Eu quero... – Ela engoliu em seco, com a necessidade em ondas passando por ela. – Que você... Toque nos meus seios. Ele abaixou a cabeça de novo. O cabelo dele fazia cócegas no maxilar dela, os dedos dele puxando a seda rendada para baixo. Ele tracejava círculos em volta do mamilo dela, repetidas vezes, fazendo com que ela sentisse arrepios. Por fim, ele apertou o mamilo dela entre seus dedos, fazendo com que os gemidos guturais dela enchessem o ar. Ele tomou a boca de Lexi num beijo ardente. – Agora...? – Chupe-os... Ela estava molhada só de pensar nisso. Se o plano dele era enlouquecê-la de desejo, estava conseguindo. Ele sorriu antes de puxar o lábio inferior dela entre os dentes. Ela apertou as pernas juntinhas, a pulsação de necessidade vibrando em seu íntimo. – Sim? Ela cerrou os olhos e, sem vergonha alguma, empurrou-se para cima dele. – Por favor, Nikos. – O. Que. Você. Quer, Lexi? – Chupe meus mamilos. Em resposta, ele a puxou para cima até que ela estava montada em seu joelho. A ereção dele esfregou-se exatamente onde ela precisava. Ela soltou um gemido. E então ele fechou a boca sobre seu mamilo. Uma onda de prazer puro e incandescente formou-se entre as pernas dela. Lexi mexeu-se, ela precisava de mais. – E agora? Ela abriu os olhos e olhou para Nikos, cujo olhar ardia em chamas de desejo. Se ela conseguia reduzir este homem poderoso a isso, não havia nada que não pudesse fazer. Sentia-se absoluta e poderosamente feminina naquele instante. Ela abriu um pouco mais as pernas e puxou a saia para cima.


– Toque entre as minhas pernas, Nikos – disse ela, no comando das palavras e do desejo que sentia. – Sem por favor? – Sem mais essa de por favor. Você quer isto tanto quanto eu. – Tire a calcinha. Ele puxou a calcinha para baixo, e pegou-a de seus dedos que tremiam, jogando-a atrás dele. Ela não estava exatamente nua, mas, sob o escrutínio dele, sentia-se gostosa e exposta, totalmente sexy. – Não olhe para baixo – sussurrou Nikos na curva de seu seio. Com cada centímetro de sua pele mais do que ciente do que ele estava fazendo, Lexi manteve os olhos em Nikos, na lânguida curva da boca dele, na forma como ele inspirava e expirava... Ela poderia ficar ali e beber dele a noite toda. A necessidade, lenta e sinuosa, fisgava seu baixo-ventre. A palma da mão dele passando por sua pele parecia que a marcava a ferro e fogo enquanto os dedos dele subiam por suas coxas, com a boca dele trilhando o calor molhado entre os seios dela, e seus mamilos ficavam rígidos com a necessidade. Os longos dedos dele finalmente encontraram as dobras de seu sexo. Ele fez carícias e puxoua, com uma pressão implacável que a mantinha gemendo seu nome. Ele segurou os ombros dela com força e tracejou círculos de enlouquecer em volta do mamilo dela. – E agora, yineka mou? A voz dele estava grave, rouca e soava faminta. Ela afundou as mãos no cabelo dele e forçou as palavras a saírem. – Quero que você mexa os dedos, Nikos – sussurrou ela. Ele empurrou os dedos para dentro dela, que jogou a cabeça para trás. A sensação era intrusiva, erótica, como nada que ela vivenciara antes. – O que você quer agora? – sussurrou ele. – Mais rápido, Nikos. Ele riu e aumentou a pressão. Terminações nervosas que ela nem sabia que existiam floresceram com tudo. Ele puxava e a acariciava, sussurrando palavras em grego que só aumentavam a destruição que estava causando nela. Ele beliscou o sexo dela enquanto sugava seu mamilo e ela atingiu o clímax violentamente, as ondas de seu orgasmo sem fim enquanto ele continuava com o ataque combinado de boca e dedos. Ela estremeceu junto a ele, inspirando e expirando dolorosamente. Abriu os olhos e ficou fitando os olhos escurecidos dele, cheios de desejo. Ele lambeu um de seus longos dedos e o puro erotismo deste ato levou uma nova onda de sensações até seu sexo. Lexi sentia-se uma estranha em seu corpo, uma liberdade feroz correndo por suas veias. – O que você quer, Nikos? – disse ela, num tom desafiador. Ele não respondeu. Afundando os dedos nos quadris dela, ergueu-a do chão e ela envolveu a cintura dele com as pernas. Ela ouviu o som do zíper da calça jeans dele, de um pacote de preservativo sendo aberto, sentiu Nikos estremecer ao colocá-lo. Em seguida, estava penetrando-a com um som gutural que parecia sair arrancado dele. Lexi afundou as mãos como se fossem garras nos ombros dele, com o prazer e a dor mesclando-se


dentro dela. – Mais, agape mou? Lexi não fazia ideia de como ele era capaz de dizer uma palavra que fosse. – Sim – sussurrou ela, cujo corpo ansiava por mais. Ele a penetrou um pouco mais. Nikos era grande, e ela, minúscula, e o prazer mais decadente pulsava no sexo dela. Lexi abriu os olhos e pegou-o analisando-a, com o desejo no olhar, com o qual ele a devorava. Agarrando os ombros dele, Lexi enterrou-lhe a boca no pescoço. Ele tinha gosto de suor e almíscar, um sabor incrivelmente erótico. Ela fechou os dentes na pele dele e sugou com força. Instantaneamente, ele mexeu os quadris e um fogo incrível lambia o âmago dela novamente. O xingamento que ele soltou soava doce aos ouvidos dela. Nikos saiu de dentro dela devagar, arrastando sua ereção pelas paredes do interior dela, provocando-a e atormentando-a, até que ela sentiu a perda instantânea dele, até que seu corpo gritasse para ser possuído novamente. E então ele a penetrou de novo. Várias vezes seguidas. Lexi gritou o nome dele, cuja pele estava escorregadia sob as palmas das mãos dela, cujos músculos flexionavam. Tê-lo dentro dela, segurar esse homem poderoso estremecendo em seus braços, tudo isso era mais potente e libertador do que qualquer coisa que ela sentira antes. Toda vez que a penetrava, Lexi sentia que ele perdia o controle e o desespero tomava conta dele. Até que ele soltou um grunhido rouco e ficou completamente imóvel. Lexi sabia que fazer sexo com Nikos seria fantástico, mas ela não tinha como se defender da ternura nos olhos dele, do beijo suave e lento dele em sua boca. Exceto dizer a si mesma que estava imaginando coisas, fazendo com que parecessem mais do que na verdade eram. Era sexo incrível e Lexi não deixaria que isso fosse arruinado por suas inseguranças. Medos e dúvidas? Arrependimentos e raivas? Ela lidaria com isso depois que voltasse a Nova York.


CAPÍTULO 10

LEXI HAVIA acabado de voltar para a mansão, vindo da praia, na tarde seguinte, enquanto Nikos voltava de onde quer que estava. Ele usava óculos escuros, mas ela sentia seu escrutínio como se ele estivesse com as mãos em sua pele. – Eu vou até o outro lado da ilha, onde o novo hotel está sendo construído. Se você quiser me acompanhar, encontre-me na entrada em 15 minutos. Peça a Maria para fazer uma mala com uma muda de roupas para você. – Eu mesma posso fazer isso, mas... Eu... Por quê? – Pode ser que eu tenha que passar a noite lá. Você quer ficar aqui sozinha? Se quiser, tudo bem. – Não, quero ir. Estarei pronta dentro de 15 minutos. Ela voltou para o quarto, mais confusa do que nunca. A tensão sexual entre eles tinha aumentado, e não diminuído, desde a noite anterior, em que os circuitos de seu cérebro pareciam ter sido fritos por causa de tanto prazer. Só os movimentos gentis de Nikos, enquanto ele a segurava em seus braços pelo que parecia uma eternidade, haviam perfurado as brumas sensuais. O que acontecera da boate até a pista de pouso, quando houve a decolagem particular? Ela não lembrava. Suas lembranças da noite passada eram todas dele e das sensações que ele lhe trouxera. A avalanche de sensações e de sentimentos. Nada do que ela quisera examinar nem falar nada. Então ela acordara na vasta cama na mansão dos Demakis, com uma estranha letargia no sangue, que queria dizer que ela adormecera no voo para a ilha. Lexi foi até o vestíbulo e seguiu os sons do helicóptero. Nikos esperava por ela. Ajeitou-se no helicóptero, absorta demais em seus próprios pensamentos para reclamar do silêncio dele. Olhando para as coxas dele moldadas pela calça jeans, ela sentiu uma pontada de dor na barriga ao relembrar o prazer que sentira. Ela cerrou as mãos em punho, com uma ponta de arrependimento por ter ficado tão perdida nas sensações enquanto ele se movia dentro dela e não ter passado de uma participante passiva. A premência de tocar a pele dele e sentir seus músculos enrijecerem-se era feroz. A viagem até o outro lado da ilha não levou mais do que dez minutos. O lugar era o mais próximo do paraíso que ela já vira na vida. E um hotel arruinaria isso, a tranquilidade, com os


turistas pontuando a paz. Mas ela guardou esses pensamentos para si enquanto eles aterrissavam e saíam do helicóptero. O novo hotel não era nem um pouco como ela imaginara. Era talvez um décimo do tamanho da mansão dos Demakis, com um design limpo e paredes brancas, designadas a refletirem a arquitetura grega. – Não era o que eu esperava. – Gostou? Ela assentiu. Fiquei preocupada de que fosse arruinar a atmosfera de paz daqui. – É uma abordagem nova para um hotel, sendo mais uma experiência autêntica do que apenas um lugar para ficar. Não há televisores em nenhuma das suítes e os hóspedes têm a suprema privacidade garantida. Até mesmo as refeições são de especiarias gregas. Os materiais da construção são ambientalmente conscientes, e todos os móveis são únicos, feitos especialmente por artesãos locais com materiais orgânicos. Meio que um retorno ao... – Básico – completou ela, com um largo sorriso no rosto. Não havia mais do que três suítes no prédio, cada uma delas bem aberta, dividida em áreas de dormir e de estar. Acessórios feitos à mão e móveis de madeira lavada por toda parte. Uma imensa varanda, com uma rede do mais macio algodão, apresentava uma bela vista da paisagem. – Não sei qual é o procedimento padrão para a manhã seguinte – disse Lexi, depois que Nikos terminou um telefonema e voltou o olhar para ela. – Nós damos um aperto de mãos e um tapinha nas costas? Ou é mais do que rude mencionar isso? Quebrei o código ao adormecer no carro? Acho que meu corpo cedeu com o influxo de feromônios. Sabe, porque o que fizemos foi... Fantástico. Ela fez uma careta ao notar o quão idiota isso soava assim que as palavras saíram de sua boca. Ele se virou para ela num piscar de olhos e segurou suas bochechas. – Isso é novidade para mim também – disse ele, grunhindo baixinho. – Então é melhor você começar a pensar em respostas. Quer que eu vá embora e fique em algum lugar no vilarejo? Foi só uma vez? Porque se foi, eu gostaria de ter sido avisada; tinha tanta coisa que eu queria fazer, e... Bem, eu curti cada minuto do que fizemos na noite passada. A questão é, e você, curtiu? Um lento sorriso curvava a boca dele. – Você não percebeu? – Honestamente. Não consigo me lembrar de coisa alguma exceto de pensar que eu podia morrer feliz. E hoje, estou chegando a conclusões graças ao fato de que você sumiu a manhã inteira e agora está olhando para mim como se quisesse que eu fosse invisível. Na verdade, eu vi uma capa de invisibilidade para vender no eBay e... – Você está falando coisas sem sentido. – Acho que aconteceu algo com meu cérebro ontem, porque sua presença agora faz com que eu só pense em sexo, e estou tentando encobrir isso... – Falando coisas sem sentido. – Ele assentiu e empurrou-a contra a parede. – Eu tive o orgasmo mais gostoso e mais intenso da minha vida toda na noite passada. Precisei de todas as gotas do meu autocontrole para não acordar você para que eu pudesse tê-la novamente, várias vezes. Sabendo que você não estava usando calcinha debaixo daquela saia... Nem sei como resisti a você. Todas as vezes que fechei os olhos desde esta manhã, eu podia ouvir seus choramingos


antes de você atingir o clímax, sentir seu gosto nos meus dedos. Isso está claro o bastante para você? – disse ele, passando a língua pela orelha dela. Nikos só tinha falado essas coisas, nada além disso, e ela ficou toda molhada. – O sexo foi glorioso, agape mou. E eu me sinto melhor do que fantástico, considerando que minha irmã ainda está sumida e que meu avô está usando isso como desculpa para negar-me o que desejo. É claro, Venetia. Sinto muito, Lex. Só me dê alguns dias e trarei Venetia de volta. Lexi lembrou-se do bilhete, do choque de o ter encontrado, com a escrita quase ilegível de Tyler. O bilhete que ela rasgara depois de relê-lo umas cinquenta vezes em dois minutos, com o coração na boca. Estava óbvio que Venetia não queria voltar e que Tyler não queria machucá-la. Sentiu raiva dos dois por fazerem isso, por enganarem Nikos e arrastá-la para o meio disso. Esse lance dela com Nikos era uma loucura temporária, ainda assim, ela não queria fazer nada que o magoasse... E Lexi sentia que isso aconteceria no final. – O que seu avô está recusando a você? – Ele e os camaradas dele estão se recusando a votar em mim para CEO. Savas está usando o fato de eu não ter protegido Venetia como arma. – Não entendo. Venetia e sua empresa são duas coisas completamente diferentes. Como ele propõe que você impeça sua irmã de 24 anos de viver a vida dela, sem a trancar em algum lugar e jogar fora a chave? O olhar dele confirmou que Lexi acertara em cheio na feia verdade. – Ele deve saber que você nunca faria uma coisa dessa com ela. – O que ele sabe com certeza é o quanto quero ser o CEO. – Quer mesmo? – Sim. Eu faria qualquer coisa para finalmente ser o CEO da empresa. Exceto magoar a minha irmã. Embora as sugestões de Savas estejam começando a fazer cada vez mais sentido. Desejando não a machucar, eu trouxe você para isso tudo e, provavelmente, joguei-a ainda mais nos braços do Tyler. – Então ele espera que você seja desalmado o suficiente para machucar sua irmã? – Sim. – Ele tem base para pensar que você faria uma coisa dessas, Nikos? – Você está tremendo, yineka mou – disse ele, passando as juntas dos dedos pelos lábios dela, que cortejava o perigo fazendo tais perguntas. Quando as coisas com Tyler e Venetia fossem resolvidas, Lexi iria embora, teria que fazer isso. – O que você quer saber, mas está com tanto medo de ouvir, Lexi? – Para seu avô chantagear você assim... Isso quer dizer que... – Que já fiz coisas para remover quaisquer obstáculos que fossem antes, sim. – Tipo o quê? – O filho da minha tia, Spyros, é um pouco mais velho do que eu, e era o preferido do meu avô. Ele era tudo que eu não era. Com boa educação, inteligente e, o melhor de tudo, obediente. Savas vinha preparando-o desde que meu pai caíra fora, para assumir o comando da Demakis


International. Mas esse era meu direito, não dele. Depois de uma década seguindo as rígidas instruções de Savas, eu só tinha o mínimo, então percebi que estava na hora de me fazer notar. – O que você fez? – Tem certeza de que quer ouvir isto, Lexi? Diga que não. – Sim. – Procurei informações e descobri o segredinho de Spyros, que tinha uma esposa de quem ninguém sabia, da qual ele estava tentando se livrar para casar-se com uma das netas do amigo mais antigo de Savas. Arranjei para que a esposa dele aparecesse na festa de noivado. Apesar dos pedidos de perdão de Spyros, Savas chutou-o para fora da diretoria. – Você sabia o que seu avô ia fazer com ele. – Todo mundo sabia, inclusive Spyros. Ele fez a escolha dele, eu apenas apressei as coisas. – Não entendo. Não é como se você não tivesse seu próprio dinheiro. – Ela se afastou da parede e andou pelo perímetro da piscina. – Aquele iate, o jatinho particular, esse novo acordo imobiliário que você tem com Nathan Ramirez... Por que se tornar o CEO é tão importante para você, Nikos? – Simplesmente é importante e ponto. – Por que você não pode ficar feliz com o que tem? Por que deixar seu avô forçá-lo a fazer alguma coisa? – Savas não me forçou a fazer nada, entrei nessa com uma meta em vista. Fiz uma promessa para mim mesmo: de que faria qualquer coisa para tornar-me o mestre de tudo. Comecei com nada, Lexi. E não vou sossegar até que eu seja tudo que ele não foi. – Até que você seja tudo que ele... Oh! Está falando do seu pai, Nikos? O que ele fez foi horrível, mas você tem que perdoá-lo. Foi seu avô, não ele, que o trouxe até esse ponto. Depois de tudo que você me falou sobre seu avô, por que será que seu pai deu as costas para tudo isso? – Não importa. Mesmo antes de ele morrer, nunca tivemos nada. Ele mal nos sustentava e ficou lá, um tolo idiota, enquanto a saúde de minha mãe piorava e ela acabou morrendo. Tudo que ele tinha que fazer era ligar para Savas e pedir ajuda. – Você acredita mesmo que Savas o teria ajudado sem condições? Que o teria acolhido sem um preço? – Qualquer preço teria valido a pena. Era dever dele cuidar dela, cuidar de Venetia. Ele não só não fez isso como se matou, deixando Venetia quebrada para sempre. – E você também. Nikos balançou a cabeça, desprezando o vislumbre da pena nos olhos dela. – Ele me ensinou uma lição muito valiosa logo cedo: o amor é um luxo que apenas os tolos querem. – Não estou dizendo que ele estava certo, Nikos, mas Savas nunca lhe deu nem a chance de sentir a dor da perda. – Não havia nada pelo que sofrer. Meu pai fora fraco a vida toda. Ele não conseguia confrontar Savas, não conseguia viver sem minha mãe. Não conseguiu nem ficar vivo por mim e pela minha irmã. Recuso-me a ser como ele. Tornar-me CEO da Demakis International é a última etapa dessa jornada. E Savas não pode me impedir de assumir essa cadeira. Lexi não teve chance de responder porque o som de um helicóptero cortando o ar chegou até eles. Um homem por volta de 70 anos saiu de dentro do helicóptero, seguido de uma jovem


mulher. Nikos deu um aperto de mãos nele e sorriu educadamente para a mulher. Lexi virou-se e voltou para o hotel, que ela havia amado e sentia que Nikos também o adorava. Subiu na rede da varanda, repassando mentalmente o que Nikos lhe dissera. De uma forma ou de outra, ela precisava resolver esse lance entre Tyler e Venetia, sem machucar ninguém no processo, muito menos Nikos. Mesmo com seu passado, Lexi conhecera a bondade. Nikos, não. Ela faria qualquer coisa para mantê-los livres de problemas. Qualquer. Coisa. QUANDO NIKOS se despediu de Theo Katrakis, ele se sentia tomado por uma satisfação selvagem. Finalmente as coisas pareciam estar se encaixando no lugar certo. A surpresa foi que o homem levara a filha para a reunião. E só de olhar para Eleni Katrakis, Lexi ficara lívida. Ela realmente achava que ele estaria interessado em Eleni depois da última noite? Nikos encontrou Lexi na rede, e o som do lápis no papel que tinha nas mãos era o único por quilômetros. Ele puxou a folha das mãos dela e voltou para dentro, e Lexi acompanhou-o em seguida. Rindo, Nikos analisou o desenho, extraordinariamente detalhado para algo criado com lápis e papel. O desenho era de uma mulher quase amazona, com seios grandes e cintura fina, pernas longas e musculosas, com o cabelo longo em volta de sua face, uma âncora de feminilidade. Trajava um vestido de couro com uma pistola no cinto. O mesmo desenho que ele vira na camiseta dela na primeira vez em que se encontraram, um contraste direto com a bela e delicada mulher que a desenhara, mas tão perigosa quanto. E um sorriso travesso curvava a boca da mulher do desenho. E ele achando que tinha sacado tudo sobre Lexi Nelson... Mas ele não teria como saber de tudo sobre ela nem se passasse dez vidas com ela. – Isso é um insulto muito grande, Nikos. – Este desenho... – Ele inspirou fundo. – É a coisa mais brilhante que já vi na minha vida. Lexi curvou a boca num amplo sorriso. – Então por que você está rindo? Ele acenou com o papel para ela. – Essa é a srta. Havisham, não é? Sua heroína? Aquela que o pirata espacial sequestrou? Ela assentiu, com um brilho nos olhos. – Ela é uma mulherzinha minúscula quando ele a sequestra. Mas essa é a verdadeira forma dela. Que só vem à tona quando ela ou alguém que ela ama está sendo ameaçado. – E o pirata espacial não faz ideia de onde ele se meteu – disse Nikos, franzindo o cenho, com a sensação de que sabia exatamente pelo que o pirata estava passando. Lexi não tinha que se transformar em nada para que Nikos sentisse arrepios. Ele sentiu algo como um aviso por causa disso em sua mente, mas colocou isso de lado naquele momento. – Isso. – Então me diga, por que ele a sequestrou? – A curiosidade dele era mais feroz do que qualquer outra coisa.


Lexi envolveu o pescoço dele com o braço e sorriu. Nikos preparou-se. Ele nunca passara antes mais do que cinco minutos com uma mulher fora de uma cama ou de um escritório. – Ele fica sabendo que ela tem a chave para um portal do tempo. E ele precisa voltar no tempo, mas ela não é exatamente o que ele imaginava. Nem a chave é tão simples. – Ela é a chave, não? – disse ele, olhando novamente para o desenho, captando a indicação de tristeza no tom de Lexi. Chocada, ela o fitou. – Como você adivinhou isso? Ela é a chave. Sacrificando sua vida, ele tem o poder de voltar no tempo, de ir a três lugares diferentes no passado de uma só vez. – O que ele vai fazer? Ela deu de ombros. – Agorinha mesmo ele acabou de descobrir a verdade e sente o peso disso... Porque, veja bem, o pirata espacial... – Está começando a gostar da srta. Havisham. Ainda assim ele vai tentar matá-la. – A menos que ela o mate primeiro – disse ela, rindo. Quando ele olhou para ela desacreditado, ela deixou de sorrir. – Talvez você entenda Spike, mas a srta. Havisham não é como eu, Nikos. Ela é forte, independente, uma sobrevivente. Se Spike ameaçar a sobrevivência dela, vai matá-lo. Ela já matou antes e não se arrepende disso. Isso, esse desejo sexual, pensou Nikos, ainda estava sob seu controle. Tinha que estar. Nunca antes esse tipo de controle fora tão importante para ele. – Não creio que ela seja tão diferente assim de você. – Eu me prendi ao Tyler por todos esses anos, deixei que Faith caminhasse por cima de mim... E tudo isso por quê? Por umas poucas migalhas de afeto, para sentir como se eu tivesse alguém que me amasse? A srta. Havisham é... – Ela pode ter peitos e pernas longas, e pode ser o máximo com aquela arma, mas tudo isso é externo, Lexi. – Ele colocou a mão sobre seu coração, que retumbava com o toque dele. – Aqui você é tão forte quanto ela, ou até mesmo mais. Ninguém poderia ter levado a vida que você levou e mantido a bondade que tem, sua calidez. Você não tem que reescrever sua história que já é extraordinária, yineka mou. Lexi engoliu em seco com a honestidade das palavras dele, com a ternura no olhar de Nikos. Ela desenhava fazia tanto tempo... Isso começara como um conforto e, em algum momento, tornara-se mais do que isso, era seu jeito de controlar coisas que não podia mudar, de endireitar as coisas que deram errado em sua vida. Nos momentos mais sombrios, fora a única forma que ela podia se prender a uma vida que não era nada além de solitária e às vezes até mesmo cruel. Ela sempre quisera que a srta. Havisham matasse Spike. Mas, desde que começara a fazer os desenhos, a história ganhara vida própria. E o homem que a fitava com desejo líquido no olhar, com tanta ternura, era ele. Nikos tinha mudado o curso da história dela e da própria vida de Lexi. Como ela deveria lembrar-se de que isso se tratava apenas de sexo quando ele fazia com que ansiasse por mais, quando olhava para ela como se ela fosse a mulher mais preciosa do mundo? Como ela deveria ir embora quando chegasse a hora? Ela jogou os braços em volta do pescoço dele e beijou seu maxilar, engasgando-se com as lágrimas presas em sua garganta. A profundidade das emoções dentro dela assustavam-na.


Então ela notou como ele ficara imóvel. Estava tão rígido em seu abraço que ela se perguntava se ele estaria até mesmo respirando. Colocando um sorriso no rosto, ela se forçou a recuar e olhou nos olhos dele. – Desculpe-me – sussurrou ela, forçando uma leveza que não tinha em seu tom de voz. – Quando falo das minhas histórias e dos meus desenhos, eu sempre fico emotiva. Ela pressionou sua boca na dele, não esperando para ver se ele acreditava nisso ou não. Porque ela entendia o desejo e a necessidade que sentia por ele, e isso ela usava para ancorar-se à realidade. Com um gemido, trouxe-a para perto de si, até que o baixo-ventre dela esfregou-se em sua ereção. Ela instantaneamente abriu as pernas e moveu-se sobre a ereção dele. Seu tempo com Nikos era limitado. O que a deixava desesperada. Ela tirou a camiseta com os dedos trêmulos. Ele jogou a cabeça para trás e riu. Um som grave que raspava a pele dela. De joelhos, ela atacou a calça dele, mas ele manteve as mãos dela presas no lugar. Ele lambeu sua clavícula. – Quero ver tudo de você desta vez. Ela assentiu, com a boca seca, e deslizou para fora do colo dele. – Também quero ver você todinho. Na cama. Ele se levantou e foi para perto dela, com um sorriso no rosto que o fazia ficar deliciosamente divino. – O que foi? Estou exigindo o que quero da vida, o que quero de você. – Estou vendo. E você fica gloriosamente bela fazendo isso. Ele passou o dedo pelo sutiã cor-de-rosa dela, que se forçou a não recuar. Falar era fácil, acompanhar com atos as palavras era diferente. – Você acabou de pensar nisso? – É como se meu subconsciente se expressasse toda vez que chego perto de você. Provavelmente você acha que fazer sexo na cama é chato, mas... Ele cobriu a distância entre eles e pegou-a no colo. Ela envolveu o pescoço dele com as mãos. – Nada com você é chato, srta. Nelson. Embora eu ache que podemos tornar isto interessante. Ele a jogou na cama e Lexi achou que fosse morrer com a maciez dos lençóis. – O que você quer dizer com isso, sr. Demakis? Ele começou a desabotoar a camisa e apanhou uma garrafa de champanhe do balde de gelo. Lexi ficou de joelhos na cama. – Você deveria saber que não sou de beber muito. Ele tirou a camiseta e tomou um gole do champanhe. – Quem disse que você vai beber o champanhe? Ele abriu o fecho do sutiã dela, enquanto sua língua encontrava o local exato no pescoço dela que a deixava louca, e o lambeu. Em seguida, ele baixou o short e a calcinha dela. Lexi estava desnuda agora. – Nunca mais diga que você não é bonita, thee mou. Ele a segurou pelas nádegas, os mamilos dela raspando o peito dele. Jogando a cabeça para trás, Lexi gemeu, tremendo. Nikos beijou sua boca, e ela explorava as costas dele com as mãos, querendo mais. – Você confia em mim, Lexi? – sussurrou ele junto à pele dela. Lexi assentiu, sem dizer nada.


– Então feche os olhos. Palavras sussurradas em grego e em inglês, promessas perversas, caíam numa chuva de sensações em cima dela, que ficou ofegante quando ele atou algo em volta de seus olhos, e era a gravata que ele tirara antes. Ele a empurrou suavemente pelos ombros para trás, e Lexi caiu na cama, tremendo. Atiçada pelo desejo, ela sentiu quando Nikos afundou na cama e a perna dele raspou deliciosamente a sua. Ela ficou ofegante quando o champanhe frio escorreu por sua clavícula, depois por seus seios, sobre sua barriga que tremia. Ela segurou os lençóis com as mãos cerradas em punhos, enquanto o líquido frio apenas aquecia o restante de sua pele ainda mais. Os lábios de Nikos encontraram os dela numa fusão de necessidade e tesão, todas as sensações amplificadas sem que ela visse o que ele estava fazendo. E, depois, ele lambia o champanhe do corpo dela, deixando-a pegando fogo. – Champanhe nunca foi tão gostoso assim, Lexi – disse ele, lambendo seu abdômen agora, e ela afundou os dedos no cabelo dele, gemendo. No minuto em que Lexi sentiu a respiração dele nas partes internas de suas coxas, ela fechou as pernas. – Nikos, eu... – Eu quero ver você, thee mou. Todinha. As coxas dele tremiam enquanto ela deixava que ele as afastasse uma da outra. Ele não deu tempo para ela pensar: separando as dobras, ele saboreou a intimidade molhada dela e Lexi soltou um longo gemido. Ele fez amor com ela com a língua, e ela foi alcançando um clímax cada vez mais intenso. As respirações dela saíam rascadas, seu corpo parecendo que ia implodir se ela não atingisse logo o clímax. Depois que Lexi teve o primeiro orgasmo, com um gemido gutural, Nikos penetrou-a. Lexi tremia violentamente debaixo dele, o peso dele tirando o fôlego dela, contorcendo-se enquanto ele a penetrava e saía num ritmo que dizia que o autocontrole dele estava espedaçado. Em seguida, ele fechou a boca sobre o mamilo enrijecido dela, que gozou de novo numa onda de espasmos. Ela afundou as unhas nas costas dele, sentindo a coluna dele ficar rígida, assim como os músculos. Depois de penetrá-la novamente, Nikos atingiu o clímax, com a pele ensopada de suor, esfregando-se na dela. Devagar, a respiração dele ficou estável de novo, mas ele ainda estava em cima dela, que tirou a gravata dos olhos, mas os manteve fechados. Só que ele a beijou de novo, devagar, suavemente. Ela sentiu o gosto do suor dele, de sua paixão e, acima de tudo, a ternura. E ela inspirou fundo, tentando controlar a avalanche de sensações dentro dela. Nikos afastou-se de Lexi, que instantaneamente virou de lado, com a respiração dificultada, mas por um motivo diferente. Estirando-se atrás dela, Nikos puxou-a para perto do ninho de seu corpo. Ele sentiu quando ela estremeceu enquanto a puxava para junto de si. – Você está bem, thee mou? Passando os dedos pelo antebraço dele, Lexi beijou a palma de sua mão.


Lexi podia dizer que controlava esse caso, mas sexo nunca seria apenas sexo para ela, que não sabia se ficava feliz ou triste com isso, mas era a verdade. Ela queria parar de se esconder da vida, mas isso também significava aceitar o que ela era. Estava na cama com Nikos porque, apesar da fachada dele, gostava dele, o que a assustava. Não podia mentir que se tratava apenas de atração ou desejo. – Nunca estive melhor, Nikos – disse ela, e sentiu o sorriso dele em sua pele.


CAPÍTULO 11

VENETIA E Tyler vão se casar amanhã de manhã. Desde o minuto em que Nikos recebera essa mensagem de seu chefe de segurança, havia apenas um pensamento em sua mente: será que Lexi sabia o tempo todo onde eles estavam? A preocupação dela com Nikos fora fingimento? Ela não negara que não contaria a ele se Tyler entrasse em contato com ela. Ainda assim, ele queria ouvir dela se o havia enganado. Ele agradeceu ao piloto e saiu do helicóptero. Tirando o celular do bolso, Nikos desligou-o. Sabia que Savas ligaria para ele, que não estava preparado para mais uma das manobras de seu avô. Theo Katrakis agiria a qualquer momento, e então Nikos finalmente teria o que queria, sem dessa vez pagar o preço de Savas. Cruzando o vestíbulo de mármore, ele tirou o casaco, o colete e a gravata. Subiu as escadas até o primeiro andar e parou do lado de fora do quarto de Lexi. Passava das 23h e, pela ausência de luz embaixo da porta e pelo silêncio, ela deveria estar dormindo. A última coisa que ele queria fazer era assustá-la. Entrando devagar e sem fazer barulho no quarto, ele viu que a cama dela estava vazia. Lexi estava lá embaixo, parada perto da piscina. Ela parecia inocente e jovem, como se fosse incapaz de algum engodo. Olhou para ele, sem culpa nos olhos. Ele sabia, e havia aceitado o máximo quanto possível, que o que Lexi tinha com Tyler era indescritível. Que ele era seu amigo, sua família, tudo junto. Que esse relacionamento nascera na época mais difícil da vida dela. Conhecendo essa solidão esmagadora, Nikos ficara feliz porque Lexi tinha Tyler. Só que a consequência disso era que Nikos sempre viria depois de Tyler para ela. Um lampejo de algo passou pelo olhar dela quando viu a cara fechada de Nikos. Medo? Vergonha? – Nikos, eu vim tentando... – Você sabia onde eles estavam esse tempo todo? A boca deliciosa dela tremia. – Responda a minha pergunta, Lexi. – Sim. A palavra reverberou aos ouvidos dele. Estava difícil respirar. Ele desviou o olhar para a superfície azul da piscina aquecida.


A brisa era gentil em volta deles, os sons do oceano, reconfortantes, e por dentro ele não sentia nada disso. Nikos sentia-se traído, magoado. Ainda que ela não lhe tivesse feito nenhuma promessa, não lhe devesse nada. A culpa era dele mesmo por se esquecer do que era importante. Porque, passando cinco dias com aquela mulher, fazendo amor com ela de todas as formas, acordando com a forma esguia dela junto de si, havia mexido com suas defesas, com sua armadura. Todas as vezes em que eles faziam amor, era como se ela estivesse transformando Nikos de dentro para fora, e ele não sabia como impedir que isso acontecesse. Sexo havia se tornado outra coisa, algo que ele nunca sentira antes. A fome dele por ela não conhecia limites, mas eram as pequenas intimidades que eles compartilhavam que lhe davam medo, eram as pequenas coisas pelas quais ele ansiava ver que permaneciam com ele bem depois de sair de perto dela. Lexi estava determinada a provar que Nikos tinha coração, um coração bondoso. Para impedila de seguir em frente com isso, ele lhe dissera que tinha contratado Spyros sem que Savas soubesse disso, porque ele sabia de tudo sobre os negócios. E ela sorriu, olhando para Nikos como se tivesse descoberto um tesouro, e beijara-o, forçando Nikos a admitir que, no fim das contas, Spyros ficara grato a ele porque nunca teria colhões para desafiar Savas e admitir o amor que sentia pela esposa. Mas agora ela havia lhe mostrado o lugar dele em sua vida, como todo o resto das pessoas com que ele se importara. Apesar de tudo, ela não havia pensado duas vezes nele, enquanto ele... Nikos estivera planejando pedir que ela ficasse ali por quanto tempo quisesse, ele havia preparado um estúdio para Lexi, ele... A mágoa cedeu lugar à raiva amarga que ele teve que engolir para conseguir falar. – Você estava simplesmente me manipulando, na esperança de que eu fosse ficar sabendo sobre o plano deles tarde demais? Ela olhou para ele com uma expressão de quem estava abalada, balançando a cabeça em negativa. – Não lhe contei porque achei que eles só precisavam de um tempo. Venho tentando pensar no que é melhor para todo mundo... – Você quer dizer... No que é melhor para ele. – As palavras saíram com uma onda de emoções sobre as quais, de repente, ele não tinha controle. – Porque todo mundo e todo o resto é secundário para você. – Esta semana inteira... Nunca me senti tão viva, tão feliz. Como você se atreve a macular isso com suas acusações ridículas? Ela soava tão caracteristicamente feroz que Nikos ficou imóvel, com o coração retumbando aos seus ouvidos. O olhar dela ardia com pura fúria. – Então por que você não...? Tyler saiu de trás da parede. Uma emoção feroz lavou-o, levando embora a mágoa, a raiva... Theos, o que estava acontecendo com ele? Lexi segurou com força nos dedos dele, recusando-se a deixar que ele saísse dali. – Eu sei o quanto ela significa para você, Nikos. Eu... Assim que fiquei sabendo que Venetia estava pedindo Tyler em casamento, fiquei louca de preocupação. Passei a manhã toda tentando entrar em contato com ele. Implorei para que viesse falar às claras com você.


Ele não podia mais desviar o olhar. Ninguém nunca antes considerara os sentimentos dele, ninguém se perguntara se ele estaria sentindo dor, ninguém achava que ele poderia se machucar e sangrar como qualquer outra pessoa, que ele queria ser amado e até mesmo protegido. Nem o pai dele, nem Venetia, nem Savas. Até que um dia ele parara de sentir. Transformara-se em pedra, deixando todo o resto faminto, exceto sua ambição. E Nikos não tinha se dado conta disso até que Lexi aparecera em sua vida. Essa sensação... Era gratidão, era medo, agarrava seu corpo e não soltava, mas, por mais cálida e excruciantemente real que fosse, ele não a queria. A única coisa que ele entendia, com que podia lidar, era seu desejo por ela. Nada além disso. – Eu me importo com Venetia – disse Tyler, aproximando-se de Nikos, a emoção transbordando em seus olhos. – E não sei como dizer não a ela sem a magoar, Nikos. Mas não posso me casar com ela assim, sem me lembrar dela, tendo destruído todos os relacionamentos importantes que já tive. Ele se aproximou mais de Lexi e plantou as mãos nos ombros dela, como se estivesse extraindo força dela. Nikos sentiu a premência de tirar as mãos dele de Lexi, de dizer a ele que não tinha nenhum direito a ela, de que ela pertencia a ele agora. – Confiei nas palavras de Lexi de que o bem-estar de Venetia é importante para você também, de que pode achar uma maneira para que eu saia desta sem a magoar. Eu sei que você me quer fora da vida dela, Nikos, mas tudo que desejo é a felicidade dela. Venetia pode vir a me odiar por isso. – Nikos? Por favor, diga alguma coisa... Nikos assentiu. Ele não sabia o que era certo ou errado agora. Apenas que a expressão nos olhos de Lexi, preocupada, na expectativa, permaneceriam com ele para sempre. – Onde minha irmã está agora? – Na estalagem. Ela estava ficando animada demais com o casamento amanhã e extremamente ansiosa em relação a não contar isso a você, então sugeri que ela tomasse um calmante e ela apagou – disse Tyler, encolhendo-se. Nikos assentiu, mais uma vez surpreso. Se Tyler amava Venetia ou não, Nikos não tinha como saber, mas claramente ele sabia lidar muito bem com ela. – Volte para a estalagem agora. Não diga nada a ela sobre ter vindo até aqui. Amanhã de manhã aparecerei por lá. Eu estava bem perto mesmo de descobrir onde vocês dois estavam. – E o casamento? – perguntou-lhe Tyler. Lexi estava certa. Sua irmã era mais forte do que ele pensava. – Convencerei Venetia a não seguir em frente com isso. Por ora. O que quer dizer que terei que dar a ela minha bênção em relação a você. Lexi olhou para ele. – Você vai fazer isso? Nikos cedeu à premência e a puxou para seu lado, incapaz de não tocar nela. A aparente felicidade dela e sua boa vontade com duas pessoas que a magoaram tanto... Era difícil que ele não fosse um pouco transformado por isso.


– Não vou pedir que você vá embora amanhã – disse ele por fim, olhando nos olhos de Tyler. – Minha irmã já sofreu muito. Jamais quero vê-la magoada. Tyler olhou nos olhos de Nikos, sem pestanejar. – Nem eu. Nem quero me casar com ela até me lembrar de tudo, até que eu a mereça. Tudo que peço é que você me dê a chance de tentar. Ainda segurando o pulso dela, Nikos levou Lexi consigo. – Estou lhe dando essa chance. ELA IRIA embora agora? A pergunta inócua atacou Lexi enquanto Nikos a empurrava para dentro de seu quarto e sumia para atender um telefonema. Agora que tudo entre Tyler e Venetia fora resolvido, pelo menos por ora, o que Lexi fora fazer ali não era mais válido. Tyler não precisava mais dela. O que queria dizer que seu trato com Nikos chegara ao fim. Lexi levantou-se da cama e foi até a varanda. Ela não queria ficar ali sentada e deixar que Nikos visse a confusão em seus olhos. Porque ela não queria ir embora, não queria afastar-se de Nikos. Ainda não. Talvez, nunca, sussurrou-lhe uma voz sinuosa. Ela não haveria de chorar, por mais que doesse. Precisava agir como adulta em relação a isso. Lidar com a situação como se fosse um caso passageiro. – Lexi? Ela ouvira Nikos entrando no quarto, inspirara fundo e aventurara-se a voltar para lá. Sentindo como se estivesse marchando para uma batalha. Nikos estava ao lado da cama, com os joelhos apoiados nela. Soltando as abotoaduras de sua camisa, ele passou os olhos pela face pálida dela com uma crescente curiosidade. – Eu achei que isso fosse o que você queria para eles... Uma chance de verdade. Lexi envolveu a si mesma com os braços, sentindo, inexplicavelmente, frio. – E é. – As coisas nunca teriam dado certo entre você e ele – disse Nikos, num tom suave e cheio de emoção. – O quê? Nikos, não estou lamentando pelo Tyler. Ele pegou as mãos dela nas suas. As mãos dela que eram do tamanho das palmas das mãos dele. Lexi tremeu quando ele passou um dedo por sua bochecha e pelas olheiras debaixo de seus olhos. – Obrigado por confiar a verdade a mim hoje. – Eu acho que gosta de iludir Venetia, seu avô e até você mesmo de que não entende o amor nem o afeto nem as questões do coração. Mas sei que não é assim. Acreditei que, em face à honestidade de Tyler, você daria uma chance a ele. Nikos inclinou a cabeça e sorriu. – Então por que essa expressão em seus olhos? – Você não precisa mais de mim aqui. Está na hora de voltar para Nova York. – Ahhh... Então você não vai querer isto?


Com a mão no pulso dela, puxou-a para fora do quarto, sem lhe dar uma chance de responder. Eles desceram as escadas em direção a um dos outros aposentos, aquele de que ela mais gostava ali. Com poucos móveis e, durante a maior parte do dia, iluminado pelo sol. – Abra a porta. Com o coração na boca, Lexi abriu a porta. Nikos acendeu as luzes. Ela ficou com lágrimas na garganta, uma confusão de emoções ao ver o que tinha à sua frente. Uma imensa mesa de desenho num dos cantos, com uma prancheta de desenho destacável perfeitamente posicionada para a altura dela. Um laptop prateado estava sobre uma mesa ao lado desta, com uma impressora e um escâner, e um arquivo ao lado. Havia toda uma sorte de outras coisas para desenho que ela pudesse querer na sala. Era como se ele tivesse feito o estúdio com base nos sonhos dela. – Você gostou? – É perfeito – sussurrou ela. – Você pensou em tudo. Mas, eu... Isso sempre foi só um hobby. – Por quê? Ela não conseguia nem responder por causa do tumulto de sensações que fluíam dentro dela. Durante anos, ela desejara que alguém pensasse nela, que alguém se importasse com ela. E percebera que, do jeito dele, Nikos tinha feito isso. – Você tem um talento acima da média, Lexi. Deveria terminar sua graphic novel e apresentar uma proposta. – Para quê? – disse ela, cujo coração espancava suas costelas. – Para publicação! Ou você pode apenas escanear alguns teasers e colocá-los na internet. Há uma grande comunidade on-line que é bem menos assustadora, se for isso que... – Espere. Como você sabe de tudo isso? – Pesquisei a respeito. As pessoas vão amar seu trabalho. Em comparação com tudo que tem por aí, não tenho dúvidas de que seu trabalho vai se destacar. Colocando na internet, você criará uma base de leitores e o melhor de tudo é que, sabendo que as pessoas vão querer ler, você se sentirá motivada a seguir em frente. Lexi piscou, incapaz de formular uma resposta. – Eu só... Não vai ser tipo o Superman nem o Homem-Aranha, sabe? Nem sou tão ambiciosa assim também. Eu só quero poder fazer mais isso e me sustentar com esse trabalho. – Então fique aqui – disse ele, cujos longos dedos seguravam os ombros dela. – O quê? – Fique aqui por quanto tempo quisermos isso. Parece que até mesmo o seu amigo vai passar um tempo aqui, certo? Ela deu risada com o último incentivo e gostou um pouco mais de Nikos. Ele estava tornando tão difícil dizer não para ele, recusar essa chance. – Não posso aceitar tudo isso... – Ela ficou bem vermelha. – Não posso simplesmente viver à sua custa, Nikos. Isso simplesmente macularia tudo o que temos. Por favor, tente... – Respeitarei seus desejos. A segunda metade do seu pagamento deve estar sendo debitada agora. – Ele colocou um dedo na boca de Lexi. – Antes que você diga alguma coisa, eu... Eu era o chefe. E tudo que eu queria era impedir que minha irmã se machucasse. Acho que fez um grande trabalho. Com esse dinheiro que tem, tudo que estou lhe oferecendo é um lugar para ficar. Não é nada menos do que eu faria por uma amiga.


– Você não tem amigos. – Além deste estúdio, não forçarei nada mais para cima de você. Pode até mesmo trabalhar algumas horinhas no hotel quando eles precisarem de ajuda. Ela achava que seu coração ia explodir. – É isso que você quer? Nikos curvou-se e deu um beijo no nariz dela. Na última semana, Lexi deu-se conta de que ele não fazia essas coisas de tocar, nem de abraçar, fora do contexto do sexo. Então, todas as vezes em que ele a tocava ou beijava era um presente precioso para ela. – Eu também quero isso... Mas não serei sua parada sexual na Grécia. Virei um Godzilla de raiva no outro dia em que aquela mulher encostou em você. Não sou sofisticada como suas outras... Ele levou as mãos até as nádegas dela e a puxou do chão até que estava aninhada em sua virilha, sua ereção pulsante fazendo peso no V das pernas dela. – Não olhei para nenhuma outra mulher desde que você começou a mexer com a minha cabeça. Não quero ninguém além de você. Lexi sorriu. Não era apenas ela que estava se aventurando num território novo. Ela passou os dedos pelo maxilar dele. Partes iguais de excitação e medo corriam em suas veias. Por quanto tempo isso haveria de durar? O que aconteceria quando ele acabasse com ela? Não seria melhor afastar-se dele agora? Ela encostou a face no peito dele, lutando contra a avalanche de perguntas, lutando contra a premência de fazê-las. Seu coração retumbava. Ele cheirava a sexo e calidez e... Até mesmo com todas as suas contradições, ele a fazia feliz. Estar com Nikos a deixava feliz, fazia com que se sentisse viva pela primeira vez na vida. Simples assim. Claro que havia o medo de que ele fosse acabar com tudo de repente, de que ela já estivesse envolvida demais... E aquela sensação de contorcer seu âmago toda vez que ele a buscava no sono. Quando todas as defesas dela vinham abaixo. Nikos gostava dela. Todas as ações dele compensavam pelas palavras que ele não dizia. E isso era o bastante para ela. Quando estava com Nikos, Lexi acreditava que era bonita, corajosa e que merecia o melhor que a vida tinha a lhe oferecer. Ela adorava o que se tornava quando estava com ele. Não se permitiria se preocupar com o futuro destruindo seu presente como havia feito por tanto tempo. Ele a tinha ensinado a viver. Ela envolvera a cintura esguia dele com os braços. Os músculos dele enrijeceram-se por um segundo, mas ela continuou abraçando-o, sabendo que esse tipo de intimidade era novidade para ele. Ela ergueu o olhar para ele e sorriu. – Vou ficar. Ele passou o polegar sobre o lábio inferior dela, com o olhar cheio de... calidez, e uma luz que ela nunca vira antes. – Que bom. Uma centena de coisas poderia sair errada num dia, mas este momento com este homem estava perfeito. Ela ficou nas pontas dos pés e deu um beijo intenso na boca dele, um beijo que lhe tirou o fôlego em dez segundos.


– Posso dar meu presente a você agora? Finalmente foi entregue ontem, e estou morrendo de vontade de mostrá-lo a você. – Um presente? – Nikos disse essas palavras como se ela tivesse apontando uma arma para ele. Lexi assentiu, embaraçada. – Não é algo tão grandioso quanto este estúdio, mas eu achei que... Ele a interrompeu, colocando um dedo nos lábios dela. – Traga o presente, thee mou. Ela subiu as escadas e apanhou o pacote de seu armário em dois minutos e voltou correndo para ele, segurando o pacote na mão, de repente se sentindo idiota. O que ela teria para dar que ele não tinha? LEXI TINHA um presente para Nikos. Era o que pessoas normais em relacionamentos normais faziam. Nikos ficou olhando para o pacote colorido e barato na mão dela e esforçava-se para permanecer imóvel em meio à tremedeira que ameaçava abalar seu corpo. Ele passara pelos momentos mais dolorosos de sua vida sem se despedaçar. Segurara o corpo fraco de sua mãe, vira a vida esvair-se dela enquanto seu pai chorava por ele, segurara Venetia em meio aos gritos silenciosos quando ela encontrou o pai sem sucumbir à dor da perda e à fúria que se desenvolviam dentro dele. Ainda assim, aquele pacotinho nas mãos de Lexi, somado à expressão de expectativa dela, era o momento mais perigoso que Nikos já vivenciara. Ele suava frio, queria sair correndo, embora uma parte dele estivesse louca para ver o que o pacote continha. Como uma criança que ele nunca fora. Sem pensar duas vezes, ele puxou o pacote das mãos dela. – Usei o escâner no seu escritório lá em cima. Assentindo, ele rasgou o pacote e uma camiseta branca, de baixa qualidade, caiu dali. Quando ele a desdobrou, Nikos ficou paralisado. Havia um desenho do pirata espacial Spike impresso na camiseta. Como aquela que Lexi usava da srta. Havisham, mas esta estava colorida, um contraste de preto e branco. Spike usava uma calça de couro preta e um colete também de couro sem manga. Havia uma pistola no coldre na lateral do corpo dele. Novamente, os detalhes eram incríveis, mas foi o rosto dele que chamou a atenção de Nikos. Spike olhava para algo ao longe. Era o momento em que ele descobria que a srta. Havisham era a chave que abriria o portal espacial. Nikos sabia que era. Parecia que alguém tinha usado a mão para forçar o coração dele a continuar batendo. Coração este que agora espancava suas costelas, com batidas selvagens. Essa era a coisa mais preciosa e ao mesmo tempo mais perigosa que alguém lhe dera. De repente, ele sentia a premência de ter aquele portal temporal em suas próprias mãos, para voltar no tempo e retirar o que dissera na última hora, voltar ao tempo em que não conhecia Lexi, quando suas emoções estavam trancafiadas. Ele cerrou as mãos em punhos e soltou um xingamento. – Nikos? Ele olhou para Lexi, cujo lábio inferior estava preso entre seus dentes, e ela não olhava nos olhos dele. Lexi tentou pegar a camiseta dele, mas Nikos tirou o braço bem a tempo.


– Foi uma ideia tola. Ele não haveria de estilhaçar esse momento para Lexi. Estirando o braço para mantê-la afastada, ele tirou a camisa e vestiu a camiseta que ela lhe dera. Calidez reluzia naquelas olhos azuis dela. – Talvez Spike devesse matar a srta. Havisham – disse ele, com emoção. Era um aviso para ambos. – Ele é um pirata sem coração, não é? Não vai milagrosamente se apaixonar por ela e querer salvá-la. Havia o lampejo de algo no olhar dela. – Eu nunca disse que eles terão um final feliz, Nikos. Quanto a Spike matá-la, eu diria que você ainda a subestima. Ela não vai deixar que ninguém a mate, menos ainda ele. Indo para trás, ela segurou a camiseta e puxou. – Está muito justa, não? – Ela piscou para ele e começou a puxar a camiseta para cima. – Agora vai ser realmente difícil tirá-la. Ele engoliu em seco com a chama do desejo nos olhos azuis dela e com o calafrio implacável que tomou conta de sua pele. E seu próprio desejo emudeceu os sinos de aviso em sua cabeça.


CAPÍTULO 12

PASSOU-SE UMA semana inteira antes que Nikos por fim desgrudasse de Lexi e fosse a uma reunião a bordo de seu iate com Theo Katrakis. Indo até o bar de vidro que era o orgulho do deque principal, ele estava prestes a pegar o uísque quando viu um balde de gelo com champanhe. Havia um bilhete dizendo que era de Theo, o que queria dizer que ele tinha boas notícias para Nikos. Porém, em vez da feroz onda de satisfação que esperava, uma imagem de Lexi, tremendo com champanhe fria sobre sua pele, veio à sua mente. Isso o deixou instantaneamente com uma ereção, a força de seu desejo, sem precedentes. E, a cada dia, Nikos sentia as dúvidas que vivenciava à noite com Lexi solidificando-se na fria e dura verdade. Mais de uma vez, Nikos tinha se pego fraquejando, fechando-se para o mundo e até mesmo para o trabalho. Adiando a reunião com Theo quando passara mais de um ano cuidadosamente cultivando essa associação, bloqueando-se para Savas, em vez de descobrir o que ele estaria tramando... Quando e como Nikos tinha se tornado esse homem? Era como assistir a ele mesmo existindo numa diferente realidade, tão vívida quanto aquela da história em quadrinhos de Lexi, uma existência feliz, paralela, que parecia tão frágil quanto era fantástica. A vida impiedosa que ele criara com tanto cuidado ia se desfazendo enquanto Lexi se tecia no próprio tecido da vida dele. Para um homem que nunca tivera um relacionamento romântico que durasse mais do que umas poucas horas, ter tal relacionamento com alguém como Lexi era como sentar-se numa caixa de explosivos. Havia uma semana que ele pedira para ela ficar, e agora ele sentia a tampa de ferro que colocara em seu controle afrouxar-se, e tudo que ele implacavelmente tirara de sua vida insinuava-se de volta. Foi quando se pegou em pânico no meio da noite, porque Lexi não estava na cama, perguntando-se se ela o deixaria como acontecera com sua mãe e seu pai, que ele percebeu que precisava sair dali. Ele suava frio enquanto se dava conta de que, caso se permitisse sentir demais, haveria somente dor. E depois de tudo a que tinha sobrevivido, Nikos não queria dor. Ouvindo um som atrás de si, ele se virou. Theo entrou, com o cenho franzido, e seu cálido sorriso traía a luz calculada de astúcias em seus olhos escuros. Dando um aperto de mãos em Nikos, ele o escrutinizou e os dois se sentaram a uma mesa, um em frente ao outro, no deque.


– Fiquei surpreso ao ouvir que você queria adiar a reunião, Nikos. Sua irmã está em segurança, não é? Cerrando os dentes, Nikos assentiu. Ele não podia culpar o homem pelas dúvidas que tinha no olhar. – Você ainda quer dar continuidade a essa aliança entre nós, então? – Claro que sim, Theo. Nada além disso é mais importante para mim. Theo sorriu. – Então tenho mais três votos do meu lado. Savas não controla mais a diretoria. Nikos sorriu. Seu sonho estava prestes a ser alcançado agora. Ele sentaria na cadeira de CEO. Ele deu um aperto de mãos em Theo, queria celebrar com Lexi, queria... – Mas tem uma condição. Nikos esperava por isso e estava preparado para isso. – Diga-me qual é seu preço, Theo. Theo manteve o olhar firme. – Case-se com minha filha, Nikos. Una os nomes Demakis e Katrakis para sempre. Nikos ficou zonzo, levantou-se e segurou no corrimão do barco. Seu primeiro instinto era gritar a negação que lutava para sair de sua garganta. O dissabor revestia sua língua só de pensar em Eleni Katrakis. Ele acharia outro caminho para a cadeira de CEO. Não podia nem pensar em olhar para qualquer outra mulher além de Lexi... Ele sentiu um calafrio, apesar do sol que brilhava. Estava mesmo considerando afastar-se da missão de sua vida por causa de uma mulher? Virar as costas para tudo pelo que trabalhara? Ceder ao desconhecido, a uma sensação sem nome que o enchia de medo? Para seguir os mesmos passos de seu pai, não deixando nada além de destruição no caminho... Nikos não queria essa vida; ele fizera de tudo para fugir dela. Não tinha nada a dar a Lexi, que era bondosa, generosa, afetiva. Quanto mais cedo eles seguissem com suas vidas, melhor. Era um caso, ambos sabiam disso desde o começo. E todos os casos, pelo menos os dele, chegavam ao fim. LEXI NUNCA se sentira mais intimidada antes. Embora estivesse, uma vez na vida, usando as roupas certas, os sapatos certos e maquiagem. O vestido azul de festa era tomara que caia e abraçava seu peito e sua cintura e então caía em seus joelhos com uma saia alegre. Seu cabelo estava penteado pra trás e preso em cima, deixando a nuca à mostra. A festa de inauguração do hotel do outro lado da ilha que ela e Nikos tinham “batizado” duas semanas antes estava aberto a partir dessa noite. E, pelo que ela ouvira do assistente de Nikos, estava reservado pelos próximos cinco anos, exatamente como previra Nikos. Lexi avistara um chef celebridade na festa, sobre o qual ela estava louca para falar com Tyler e até mesmo uma modelo de lingerie. Porém, mais do que celebridades internacionais, era a presença de Savas Demakis que a deixava inquieta. Ela havia imaginado que Savas pareceria cruel e assustador, mas ele se parecia, de modo geral, com todos os homens presentes ali nessa noite. Exceto quando ele parara na frente dela havia 15 minutos e disparara uma rajada de perguntas sem nem a cumprimentar, como se fosse privilégio


dele ter as respostas. O que ela acabara fazendo. Claramente ele não gostava da presença dela ali, mas Lexi se recusava a esconder-se como se fosse um segredo sujo. Com um suspiro, ela notara que cada vez mais convidados de Savas olhavam curiosos para ela, que teria ido embora para a casa do outro lado da ilha se não fosse pelo fato de que não via Nikos havia três dias. Ele tinha passado uma semana com ela, Venetia e Tyler, antes de ser chamado por causa de negócios urgentes. Pelo brilho nos olhos dele, Lexi sabia que tinha a ver com o voto para o cargo de CEO na Demakis International. Ela lhe desejara sorte, mas ele dissera que não precisava disso. E não tinha voltado nem mesmo ligado para ela. Segundo Venetia, a diretoria estava presente e faria um pronunciamento. O coração de Lexi ficou acelerado quando ela ouviu os sons de um helicóptero. Teve que lutar contra a premência de ir até Nikos. Ela pegou com um garçom uma taça de champanhe e juntou-se a Tyler e Venetia na mesa. No momento em que Nikos apareceu ali, as pessoas foram para cima dele por todos os lados. Feliz por estar sentada, Lexi sorveu um gole do champanhe, só para ocupar as mãos que tremiam. Cercado por homens e mulheres poderosos, Nikos parecia estar longe de ser o homem que a surpreendera com o estúdio. Ele olhara para a multidão, encontrara Lexi e fixara o olhar nela, mas um homem mais velho clamou a atenção dele, e o momento se fora. Poucos minutos depois, os convidados começaram a estabelecer-se em volta das lanternas de papel feitas à mão e os discursos começaram. Lexi esperara que Nikos ou o empresário americano, Nathan Ramirez, fosse fazer o discurso, mas era o homem mais velho que tinha ido ver Nikos na ilha havia algumas semanas que o fizera, apresentando-se como Theo Katrakis, um dos membros da diretoria da Demakis International. Ele ficou descrevendo os feitos de Nikos, e como a liderança dele havia injetado sangue novo e dinheiro na empresa e que os parabéns deviam ser dados a Nikos. O coração de Lexi batia com muita força: finalmente Nikos conseguira aquilo pelo que tanto batalhara. Nikos era o novo CEO da Demakis International. Theo deu risada e fez uma piada que Lexi não entendeu, mas imaginava do que se tratava quando Theo convidou a filha, Eleni Katrakis, para subir no palco com Nikos. Então Theo Katrakis abriu um sorriso radiante e fez um comentário para Savas, cujo largo sorriso fez com que Lexi visse a verdade: Nikos estava noivo de Eleni Katrakis. Enquanto Tyler a segurava, Venetia, chocada, olhava dela para o irmão. Mas todos ficaram emudecidos diante do brilho selvagem nos olhos de Savas Demakis. Ele impedira a história de repetir-se. Exigira que Nikos pagasse o preço para ser CEO, que pagara com seu coração. E com o dela também. Porque Lexi estava apaixonada por ele. Essa era a verdade mais aterrorizante que ela teria que encarar. O medo era um punho cerrado em seu âmago, algo oco em seu peito. Ela se sentira assim uma vez antes. A lembrança atingiu-a com força. Lexi tinha 5 anos e, depois de seu primeiro dia de aulas na escola pública, ela percebera que todas as outras crianças em sua classe tinham pais. Eram amados e não jogados de uma casa para a outra. E ela se dera conta de que seus pais, por qualquer motivo que fosse, haviam aberto mão dela.


Chorara até sua cabeça doer. Sentia-se da mesma forma agora. Como se tivesse perdido algo valioso, algo precioso que ela nunca teve para começo de conversa. De todos os momentos para dar-se conta do quanto ela queria que ele a amasse, para nutrir esperanças de que ele tivesse escolhido a felicidade, dele e dela, de todas as vezes para dar-se conta de que ficaria sozinha para sempre nesse mundo, porque nunca pararia de amar Nikos. Spike deveria matar a srta. Havisham. Ele havia dito a ela como isso iria terminar. Lexi não conseguia olhar para Nikos, não aguentava que ele visse o quanto ela o amava, não podia aguentar que ele visse o quanto isso tudo a machucava. Ela queria cair fora dali e esconder-se. Queria voltar num voo para Nova York nesse exato minuto. Se ela o visse, com certeza imploraria para que ele a amasse como ela o amava. Porque Lexi não conseguia ser sofisticada o bastante para permitir essa mágoa, não conseguia fingir, nem mesmo por um segundo, apesar de todos os avisos dele, que não tinha se apaixonado por ele. Lexi inspirou fundo e lutou contra o desespero. Se ia perdê-lo de qualquer forma, Lexi faria com que ele encarasse o que tinha feito. Encontraria o homem que fora bondoso por baixo da honestidade brutal, o homem que lhe mostrara o que era viver, e haveria de certificar-se de que ele entendia do que estava abrindo mão. PASSARAM-SE HORAS antes que Nikos conseguisse se livrar das atividades da noite. Todos os membros da diretoria queriam dar-lhe os parabéns; todos os investidores queriam um pedaço dele. Nikos forçara-se a permanecer ali durante cada minuto, dizendo a si mesmo que este era o momento pelo qual ele trabalhara por quase 15 anos. Ele procurava palavras para dizer a ela, se perguntava sobre como dizer isso a ela sem a machucar. Como fizera por três dias. Nikos tinha visto Lexi, sentada, quieta, a uma mesa nos fundos, com o vestido de seda azul que a deixava adorável, de tirar o fôlego. Até que Theo fizera o anúncio. Lexi parecia despedaçada e Nikos sentia como se tivesse engolido vidro. Só então que ele se deu conta do que tinha dado andamento. Ele estava parado do lado de fora do estúdio dela agora, pasmo ao vê-la enrolada na cadeira reclinável. Tinha pensado que Lexi teria ido embora correndo, cheia de repulsa. Talvez até mesmo tivesse esperança de que isso acontece, como um covarde fraco. Ele estava prestes a recuar quando ela abriu os olhos, que se focaram nele. Com os joelhos junto ao peito, as mãos cruzadas em cima deles, ela parecia minúscula, parecia que ia quebrar-se na imensa cadeira. Ela abriu um sorrisinho, mas havia tristeza naqueles olhos azuis. – Parabéns, Nikos. – Você está usando o vestido que eu escolhi. Ela olhou nos olhos dele e a intensidade da emoção nos olhos dela o alfinetava. – Usei este vestido por você. Ele me fez me sentir diferente, confiante. Eu queria parecer bonita nesta noite. Eu tinha a sensação de que seria uma noite especial.


Com o coração batendo rápido, e uma parte dele dizendo para ficar na porta, para não ir até ela, para agir com o pouco de honra que ele ainda tinha. – Nunca vi ninguém mais bonita antes. Ela inspirou fundo, como para se conter. – Uma vez na vida, eu acredito nisso. Tirando o casaco, ele permaneceu encostado na porta. – Eu... Eu não fazia ideia de que Theo anunciaria isso esta noite. Resignação curvava a boca de Lexi. – Você já dormiu com ela? O xingamento que ele soltou deveria ter criado uma geada no ar em volta deles, mas não levava embora a amarga necessidade de explicar porque ele tinha concordado com isso. Ele olhava para ela, que parecia diferente. – Christos, eu não tenho nenhum interesse nela. Eu nem mesmo olhei para ela. – Isso deveria fazer com que eu me sentisse melhor? Com o silêncio dele, Lexi sorriu. Era a coisa mais cínica que tinha visto no rosto inocente dela. E ele era responsável por isso. – Diga, Nikos. Diga-me para cair fora. Diga na minha cara que as coisas entre nós acabaram, que o nosso casinho chegou ao fim. Diga-me que está seguindo em frente com coisas mais importantes na sua vida. – Você sabe que não é... Ela balançou a cabeça e as palavras pararam de sair dos lábios dele. Não que ele tivesse alguma ideia do que dizer. – Não se atreva a dizer que não é assim. As pessoas têm casos e depois seguem em frente, certo? Sussurram aquelas palavras que você disse para Emmanuelle naquele dia. Diga-me que está na hora de eu fazer as malas. Eu ganho um presente de despedida? – Theos, Lexi. O que você está fazendo? Abraçando-se, ela olhou furiosa para ele, com olhos que pareciam os de uma tigresa raivosa e não da mulher que ele esperava encontrar. – Você estava esperando que eu simplesmente fosse sair de fininho, com o coração partido e de dar pena? Ou achava que eu ficaria tão desesperada para ser amada por você que aceitaria qualquer coisinha que tivesse a me oferecer? – Eu tive que fazer essa escolha. Esse casamento não passa de um acordo. Mas Lexi não ia recuar. A mágoa continuava a machucá-la por dentro, como se não houvesse fim para isso. Como se esse momento precisasse se ajustar dentro dela, como se ela precisasse ser mudada. Fúria fervente, seria a única maneira de sobreviver a esse momento. Ela deveria sentir essa fúria, senão daria ouvidos àquela voz em sua cabeça. Da garotinha cheia de mágoa, cheia de medo, aquela que desejava tão desesperadamente ser amada. A única forma de afogar essa voz patética era com a tormenta de fúria. – Você acha que eu posso encontrar consolo no fato de que está arruinando sua vida junto com a minha? – Não diga mais nenhuma palavra – disse ele, entredentes. – Não direi. – Ela limpou as lágrimas e olhou para ele, com o coração partindo-se em seu peito. – Não faz ideia do quanto só de pensar em deixar você me deixa aterrorizada. Não consigo


respirar se penso em não ver você nunca mais. Lexi cobriu a distância entre eles e ele se preparou, como se ela fosse uma arma que pudesse lhe causar danos. Ela levou a mão ao rosto dele, que imediatamente curvou a cabeça, e seu olhar era uma piscina reluzente de fúria e algo mais. Nas pontas dos pés, ela deu um beijo no rosto dele, que estremeceu. Enterrando o rosto no peito dele, ela o abraçou com força, memorizando o cheiro dele. – Fico petrificada porque nunca mais vou ver você de novo, nunca mais vou ouvir sua voz. Ninguém mais vai me achar bonita... – A voz dela partiu-se. – Ninguém mais vai me dizer para me defender, ninguém mais achará que sou extraordinária. Nunca estive tão aterrorizada antes porque nunca mais serei amada, Nikos. Ela deu outro beijo na palma da mão de Nikos e olhou para ele. A dor que viu nos olhos dele deixou-a sem fôlego. Mas ela haveria de dizer isso para ele, e por si mesma. – Estou apaixonada por você. Sempre vou amar você. Se não estivesse tão cego por sua ambição... Puxando as mãos para longe dela, Nikos recuou, uma veia pulsando em sua têmpora. – Eu contei a você coisas que não contei a ninguém. Isso não tem a ver com ambição ou ganância. Você tem que entender... Ela queria chacoalhá-lo, bater nele por não ver a verdade que estava bem na frente de seus olhos. – Você ainda acha que isso é uma vitória sobre seu pai? Porque não é. O lampejo de dor nos olhos dele teria feito com que ela parasse antes, mas não agora que ela estava cheia de fúria pura. Ele tinha mostrado a ela o que era viver e agora queria que ela voltasse a ver uma meia-vida. – Esse acordo que você fez é sua vitória sobre o seu medo de ser como ele. Porque você é, apesar de todos os seus esforços para não ser. Você é filho dele... Sente algo por mim. – Ela o cutucou no peito. – Você sente isto aqui. E isso o deixa aterrorizado. Aterrorizado por perceber que poderia ser exatamente como seu pai, que tem a mesma fraqueza que ele, que se permitir que essa coisinha por mim se enraíze, se a aceitar e deixar que cresça, isso vai devorar você por dentro, e não terá nenhum controle sobre si mesmo. E seu avô ofereceu-lhe a melhor maneira de controlar isso, não? – Pela última vez, Savas não teve nada a ver com isso. – Savas tem tudo a ver com isso. Vocês dois sentem-se aterrorizados pela mesma coisa. Dessa forma, pode dizer a si que venho em segundo lugar na sua vida, que suas emoções não têm nenhum poder sobre você. Está partindo o meu coração e enterrando o seu. E eu espero que tenha uma vida tão miserável quanto a minha será pela frente.


CAPÍTULO 13

NIKOS ESTAVA

sentado na cadeira de couro em seu novo escritório na torre da Demakis International em Atenas. Ele estivera nesta sala incontáveis vezes, do outro lado da vasta escrivaninha, enquanto Savas ditava cada vez mais condições que definiam sua sobrevivência. E ele conquistara todos os obstáculos jogados por Savas em seu caminho. Neste momento, essa cadeira era seu prêmio depois de anos de trabalho duro e doloroso. Só que ele não sentia o triunfo. A frustração reinava dentro dele, que não queria pensar em Lexi. Ele achava que ela entendia porque ele precisava disso. Não precisava dela mais do que precisava de sua análise. Aonde quer que ela fosse, ou fizesse ela o que fizesse, seria amada. Era uma questão de conforto e intensa inveja dentro dele. Nikos pegou a garrafa de champanhe do balde de gelo e tirou a rolha no exato momento em que Savas estava entrando ali. Curiosamente, ele ficara longe de Nikos desde a festa, havia uma semana. Como se soubesse que ele era um animal ferido, preparado para atacar quem se aventurasse a se aproximar dele. Savas não entendia nada de emoções. Ele carregava nas costas uma imensa responsabilidade sem reclamar. Savas tivera o pai de Nikos tarde e, quando ele dera as costas para sua riqueza, Savas já tinha quase 60 anos. Mas ele seguira em frente com sua vida, com seu dever, carregando a empresa, a família. – Parabéns – disse Savas, pegando a taça de champanhe de Nikos. – Você provou ser digno do nome Demakis. Nikos assentiu e tomou um gole, mas havia uma pergunta sem ser feita coçando em sua garganta, recusando-se a ser silenciada. Ele nunca perguntara a Savas antes sobre o pai. Nunca. Não havia porque fazer isso agora. Ainda assim, a pergunta saiu, e ele não pôde impedir. – Meu pai... Ele veio pedir sua ajuda quando minha mãe ficou doente? Savas arregalou os olhos por um instante infinitesimal antes que conseguisse esconder o lampejo de emoção. Mas Nikos vira isso. – Você não tem nada a ganhar mergulhando no passado, Nikos. Você se saiu notavelmente bem até agora, além das minhas expectativas. Nikos colocou a taça na mesa, seu coração espancando suas costelas. Savas virou-se, apoiandose pesadamente em sua bengala.


O pânico roubou-lhe o fôlego. Nikos plantou-se entre Savas e a porta. – Responda a minha pergunta. Ele veio pedir-lhe ajuda? – Sim, veio – disse Savas, sem nenhuma pontinha de dúvida no olhar. Nikos soltou o ar, a dor contorcendo seu âmago. Tudo que pensara de seu pai, que ele era fraco, fora marcado pela mágoa excruciante de que ele não tivesse feito nada por Nikos e Venetia. – O que você fez? – Apresentei a ele um conjunto de condições, exatamente como fiz com você. Nikos sentiu um frio na espinha. Por fim, ele entendia o que Lexi queria dizer quando falara que Savas exigira um preço de Nikos. Preço este que ele pagaria de boa vontade, esmagando seu próprio coração no processo. Ele lambeu os lábios, forçando as palavras a saírem. – Quais foram as condições? – Eu disse a ele que daria a ela cuidados médicos e dinheiro suficiente para viver o resto da vida dela com conforto. Em troca, ele tinha que se afastar dela. Em vez de aceitar o que lhe ofereci, seu pai decidiu continuar sendo um tolo. Exatamente o que Nikos havia pensado de seu pai... Até hoje. De repente, as veias de Nikos pareciam cheias de gelo. Tudo que seu pai precisava ter feito era afastar-se de sua mãe. E os últimos dias dela teriam sido vividos em conforto. Ainda assim, ele não fora capaz de fazer a escolha cruel, não conseguira deixar a mulher que ele amava. Será que a culpa tinha sido intolerável para que ele continuasse vivendo? Sabendo que seu amor por ela havia causado o sofrimento dela? A impotência transformou-se em raiva e Nikos virou-se na direção de Savas. Ambos sabiam que ele era um homem fraco. – Por quê? Por que você pediu isso a ele? Savas girou onde estava, a cabeça, ereta, o olhar, compenetrado e direto. – Ela o roubou de mim. Meu único filho, o herdeiro do meu império, e ele saiu correndo no minuto em que a conheceu. Ela o enfraquecia ainda mais. E o que ela ganhou em troca? Pobreza, fome, fracasso? – Ela não o enfraqueceu, Savas. Ele já era fraco. Savas encolheu-se. O cansaço que ele devia estar tentando controlar, a dor que ele deveria ter colocado de lado, tudo isso transparecia em sua face. Havia um pesar implacável ali e, para o choque de Nikos, arrependimentos. Savas nunca pretendera que o filho tivesse aquele fim que ele buscou. Savas fora motivado por um orgulho teimoso apenas. – Por fim, ele a decepcionou tanto quanto fez comigo. E eu não podia permitir que você cometesse o mesmo erro. Fiz você passar por tanta coisa, meu próprio sangue. Não podia deixar que você se tornasse um fraco como ele, incapaz de realizar seu dever. E havia custado a Savas ver Nikos sofrendo tanto quanto custava ao próprio Nikos. – Então você manipulou Theo para que ele fizesse um trato comigo. Meu casamento com Eleni Katrakis... Isso foi ideia sua! – Sim, fiquei sabendo da tal mulher americana, de como você estava envolvido com ela, de como ela fizera você mudar de ideia até em relação a Venetia. Dessa vez, eu não podia deixar de agir. – Nenhum de vocês dois estava certo. Está me entendendo, Savas? Se ele era irresponsável, fraco, você era amargo, abusivo. Quando ele morreu, eu e Venetia precisávamos do seu amor,


do seu apoio. Em vez disso, você usou minha raiva dele para sua vantagem. Você me fez odiar o meu próprio pai! Mas eu não sou fraco como ele, nem amargo como você! Nem o amor dele por Lexi haveria de enfraquecê-lo. Com o corpo tremendo ao dar-se conta disso, Nikos afundou em sua cadeira. Ele tinha um coração, que doía, que sangrava e, acima de tudo, que amava. E ele havia tirado a mulher que lhe mostrara isso de sua vida sem pensar duas vezes. Mesmo com o coração espedaçando-se, ela ainda tinha lutado por ele, por eles dois. Ela tentara mostrar a ele o que tinham e que ele estava destruindo. Porque o amor que ela sentia por ele tinha lhe dado aquela força, aquela coragem. Eu sempre vou amar você. Agora ele entendia o quão fácil e perfeitamente aquelas palavras tinham vindo a ela e por que estava tão furiosa com a escolha que ele tinha feito. Pegando os papéis que o nomeavam CEO com mãos que tremiam, Nikos levou-os até Savas. Ele deixou os papéis caírem na mesa e olhou nos olhos de seu avô. – O que você fez foi por um senso distorcido de culpa e amor. Você buscava me tornar mais forte do que ele. – Nikos engoliu em seco. – E eu sou um homem mais forte do que meu pai algum dia foi. Nunca falhei nos meus deveres com a minha irmã. Nunca haverei de trair sua confiança em mim. Mas Lexi... Ela faz parte de mim, Savas. Ela me torna mais forte. Ela enche minha vida de alegria. – Ele deu a volta no escritório e sugou o ar, a fundo. – Provei o meu valor a você uma centena de vezes. Mereço ser o CEO da Demakis International, mas não vou mais pagar o preço que você está pedindo de mim. Não vou perder a mulher que amo, muito menos atirar em mim mesmo e perdê-la. Quer que eu dirija esta empresa... Que seja seu legado? Então farei isso com ela ao meu lado. Só assim farei isso. Estou cansado de viver minha vida com base em você ou nele. Tenho que ser eu mesmo agora. Sem esperar pela resposta de Savas, saiu dali e fechou a porta, com a expectativa impulsionada pelo medo fervendo em suas veias. Ele mal podia esperar para ver Lexi, para pegá-la em seus braços. Porque, dessa vez, ele não sentia ressentimento pela mulher que passara por tanta coisa e ainda era capaz de amar. Dessa vez, ele queria esse amor. Queria amá-la como ela merecia ser amada. LEXI ESTAVA abrindo uma lata de sopa de cogumelos quando alguém bateu à porta. Ela sabia que não era Faith, porque ela estava brincando da versão adulta e menos divertida de escondeesconde depois que Lexi havia sido direta e dito a ela tudo que sabia sobre ela e Tyler e as mentiras que Faith lhe contara. E depois irrompera em lágrimas quando Faith lhe perguntara sobre Nikos. A favor dela, Faith ficara com Lexi um dia inteiro, cuidando dela antes de ir embora. Lexi sabia que ela não se fora para sempre, e com Tyler na Grécia, Faith era sua única amiga em Nova York. Mais de uma vez, Lexi pensara em ligar para Nikos, imaginara como ele estaria. Porém, no instante seguinte, os pensamentos dela voltavam-se para o noivado dele, e o ciclo vicioso voltava à fúria que ela sentia contra ele. Fúria esta que era a única coisa que a mantinha inteira. Ela não podia nem pensar no que sobraria quando essa fúria também se fosse.


Então ela ouviu alguém bater na porta de novo. Soltando um suspiro, ela espiou pelo olho-mágico e foi para trás como se tivesse levado uma mordida. Era Nikos que estava do outro lado da porta. Se fosse possível, seu coração teria pulado para fora do peito. Por uns poucos segundos, enquanto o pânico fluía por seus músculos, ela se esqueceu de respirar. As lágrimas chegaram aos seus olhos com a força de uma tempestade. – Abra a porta, Lexi. Eu sei que você está aí. A audácia do homem de achar que ela estava se escondendo dele! Inspirando fundo, ela abriu a porta. E sentiu o impacto da presença dele pulsando em todas as partes de seu corpo. A gravata dele pendurada no pescoço, a camisa, desabotoada e amassada. Ele já estava com a barba crescida... O que significava que só fizera a barba uma vez hoje, o que deixava Lexi com formigamentos nos lugares mais estranhos. Ela reclamara uma vez que a barba crescida raspava na pele dela e Nikos começara a barbearse duas vezes por dia. Então ela reclamara que sentia falta da barba crescida e, no dia seguinte, ele fizera cócegas nas partes internas das coxas dela com a barba que crescera. Meu Deus, esse homem podia mesmo virar Lexi do avesso! – Se isso tem a ver com o fato de eu ter pego o laptop, lamento, mas não vou devolvê-lo. Considere-o como parte do pagamento pelos danos causados a mim. Lexi tinha que manter isso nesse tom leviano e autodepreciativo ou cairia em lágrimas ali mesmo. – É por isso que você acha que vim até aqui? Porque você pegou um laptop? Ele olhou para ela antes de entrar pela abertura pequena no apartamento. Quando o corpo dele roçou no dela, Lexi ficou tensa. Suspirando, ela fechou a porta e encostou-se nela. Praguejando, ela passou a mão, nervosa, na barriga. Até mesmo com as roupas amassadas pelo voo, Nikos estava lindo, de tirar o fôlego, sexy sem fazer esforço. Não era justo que aquele homem tivesse tudo: aparência, sexualidade e aquela confiança arrogante. Lexi não podia ter esses pensamentos sobre ele, que estava noivo de outra mulher. Havia alguns limites que ela não cruzaria, nem em pensamento. Mas ao ver os olhos fundos dele, a expressão cansada no olhar dele, sentiu uma imensa satisfação. Realmente precisava canalizar mais a srta. Havisham. – Onde está sua noiva? – Presumo que esteja em Atenas, com o amante dela. – Se você veio até aqui para falar sobre sofisticados casamentos abertos e paradas para sexo em Nova York, então caia fora. Tenho trabalho a fazer. Ele tirou o casaco, puxou as mangas da camisa para cima e pegou um desenho que Lexi tinha feito do sofá. E jogou casualmente a bomba. – Não existe mais noivado. Ela ficou boquiaberta. Por uns poucos segundos, ela se perguntara se tinha imaginado essas palavras, e novamente estava entrando numa realidade alternativa em que ele voltava para ela e professava-lhe seu eterno amor. – Lexi? Você está bem?


Quando ela assentiu, ele voltou a andar pela sala de estar que ela havia convertido em estúdio. A ampla mesa de madeira que ela achara num mercado de pulgas estava inclinada e captava a luz do sol das janelas de vidro. E, preso na mesa, estava o penúltimo capítulo da história da srta. Havisham. Com as mãos trêmulas, ele passou o dedo pelo último quadro na página. Aquele em que a srta. Havisham estava parada sobre o corpo imóvel de Spike. Nikos olhou então para Lexi, que ficou sem fôlego com a expressão que ele tinha nos olhos. – Ela o matou então? Engolindo as lágrimas presas na garganta, Lexi assentiu. – Pelo menos, nesse rascunho. Nikos franziu o cenho. – O que você quer dizer com isso? Ela passou a mão nos olhos. – Não consigo me decidir quanto a um final. Vou me encontrar com um editor freelancer dentro de dois dias, mas ainda não tenho certeza do fim. Ela tem que mostrar a Spike do que ela é capaz, para que ele não a subestime nunca mais, mas talvez ela só vá deixá-lo aleijado. Talvez ela vá transformá-lo em seu ajudante... Vai saber? Ele piscou e ela se deu conta de que era para marcar a expressão dele. – Você está gostando imensamente disso, não? – Sim. Totalmente abracei o fato de que a vida de Spike está nas minhas mãos e posso infligir qualquer dano que eu puder nele. – Lexi ergueu os dois polegares, uma paródia para encobrir o infortúnio que sentia por dentro. – Mais uma vez, é um resgate por meio de uma fantasia ilusória. Balançando a cabeça, ele pegou o restante das páginas da mesa e folheou-as. – Você fez tudo isso em uma semana. Ela deu de ombros. – O dinheiro que você me pagou dará para alguns meses se eu trabalhar um mínimo de horas. Decidi que seria agora ou nunca em relação à história. – Isso é fantástico! O olhar faminto dele permaneceu nela por um tempinho antes que ele começasse a andar de novo de um lado para o outro. Lexi cerrou as mãos, abafando a premência de socá-lo. Como ele se atrevia a apenas anunciar que não havia mais noivado sem falar mais nada? Mas ela não pediria detalhes sobre isso. – Dá para parar de andar de um lado para o outro? Você está começando a me assustar, Nikos. O que aconteceu? Está todo mundo bem? – Sim, eles todos estão bem. Venetia está enlouquecendo a mim e ao Tyler planejando o casamento do século. O coração de Lexi afundou. Apesar dos pesares, ela e Venetia tinham formado uma estranha amizade. Ambas amavam Tyler, o que criara uma ligação surpreendentemente forte entre elas duas. No entanto, por causa do bruto sem consideração e intratável na frente dela, Lexi estava perdendo toda a diversão. – Eles já têm uma data? – Sim. Dezoito meses a partir de agora. Dá para se pensar que ela é a primeira mulher que já se casou na vida! Tenho um respeito renovado pelo Tyler por conseguir persuadi-la com uma


data tão distante. Lexi não falava com Tyler fazia uma semana, e até mesmo antes disso ela só falara com ele para dizer que chegara em segurança em Nova York e que estava bem. Ele sabia que ela não estava bem. Mas ela não queria ter ficado lá mais um dia e prometera a Tyler que cuidaria de si. Não podia falar com ele ao telefone. Porque, se fizesse isso, ela começaria a chorar, e não queria alarmá-lo. Porque, mais do que a ameaça de solidão, era a sombra da felicidade, a alegria que ela conhecera com Nikos que ficara para trás, que lhe causava dor. E ali estava ele de novo, mandando-a de volta à estaca zero, não que ela tivesse feito muito progresso e seguido em frente com sua vida. Ela ainda tinha algumas semanas antes de voltar ao trabalho e vinha comendo comida de delivery gordurosa, desenhando e dormindo depois de se acabar de chorar. – Então sua irmã está bem, você ainda é o CEO... – disse ela com muita amargura. – Por que você está aqui? Ele parecia grudado onde estava. Ela viu quando ele engoliu em seco, viu a sombra cair sobre a face dele. De repente, ela se sentiu exaustivamente frágil. Estar apaixonada era tão difícil. Ela daria tudo para fazer com que isso não doesse tanto. Havia uma desolação nos olhos de Nikos, tamanha necessidade que fazia com que Lexi tremesse da cabeça aos pés. – Eu sinto esse aperto no peito, thee mou, uma dor que nunca senti antes, como se alguém estivesse arrancando pedaços, implacavelmente, do meu coração. Lexi sentiu-se zonza com a emoção nas palavras dele. – Você não tem coração. – Ela pretendia soar cortante, mas soava imensamente triste. – Parece que tenho sim. Você reiniciou meu coração quando apareceu com tudo na minha vida. – Eu não “apareci” na sua vida. Você me manipulou. Forçou a verdade para cima de mim e então... – Ela bateu no peito dele. – Nunca senti tanta raiva de alguém na minha vida, Nikos, eu o odeio por fazer isso comigo. Ele a envolveu com os braços, sua pegada infinitamente frágil. – Não tanto quanto me odeio, thee mou. Theos, não existe nenhum palavrão que eu não tenha usado comigo mesmo nestes últimos dias. Eu tinha preparado um discurso completo, implorando a você e... Não me lembro de nenhuma palavra dele. Toda vez que me aproximo, você me desata um pouco mais. Você me mostra quanto mais eu posso sentir, quanto mais posso me magoar. Isso é um pouco assustador, Lexi. As lágrimas vieram para Lexi, que não tinha mais defesas para lutar contra Nikos. Não mais, não quando ele dissera essas coisas, não quando o calor do corpo dele era uma incrível fortaleza de calidez que a cercava. Ele a abraçou mais próximo de si e ela chorou. Lexi achava que não seria possível que seu coração se partisse de novo, mas a dor era tão pungente quanto sempre fora. – Não chore, agape mou. Não consigo aguentar isso. Estou desesperadamente apaixonado por você, Lexi. Você estava errada em uma coisa: isso... Não apenas se enraizou em mim, mas está me consumindo todo. Minha vida é terrivelmente vazia sem você. O poder que exerce sobre


mim, sobre a minha felicidade... Não tenho mais medo disso. Quero passar o restante da minha vida amando você, yineka mou. O coração de Lexi batia tão rápido que ela se perguntava se estava tendo um ataque do coração. – Você está falando sério, Nikos? Ele assentiu, o coração brilhando em seus olhos. – Sim. Não consigo parar de agradecer pelo momento que trouxe Tyler à vida de Venetia e você na minha. Você é a mulher mais maravilhosa que já conheci e eu quero viver minha vida com você. Quero ter uma família com você. Quero fazer amor com você todas as noites e todas as manhãs. Quero ouvir suas incríveis histórias sobre portais espaciais e dobragem de tempo. Quero ser o primeiro a ver todos os seus desenhos. Quero cuidar de você e quero que cuide de mim. O número de coisas que sinto por você... É estonteante e revigorante. Por favor, diga-me que você não quer uma cerimônia de casamento extremamente elaborada que nem Venetia ou isso vai me matar. – O quê? – perguntou Lexi, com o coração espancando seu peito. – Eu quero me casar com você, yineka mou, o mais rápido possível. Faremos a lua de mel no iate, acho. Prometi a Savas que voltaríamos dentro de um mês para que eu possa assumir oficialmente o meu novo cargo de CEO. Eram muitos choques para um só dia. – Ele concordou com isso? – Não dei a ele nenhuma chance de não concordar, eu disse que esse cargo não significava nada para sim sem você. Diga-me que é isso que você quer. Diga que me ama. Lexi sorriu, mas ainda não conseguia parar de chorar. – Eu amo você, sim, Nikos. Você me ajudou a descobrir que eu sou tão legal quanto uma heroína de ação imaginária com uma quedinha por matança. Ou até mesmo melhor... – Ela engasgou nas lágrimas de novo. – Você me fez querer viver a minha vida. E então me deixou, para que fizesse isso completamente sozinha. Percebi que é uma boa vida. Só que é bem mais feliz com você nela. Não quero passar mais nem um minuto negando-me essa felicidade. Ele encostou sua testa na dela e sussurrou as palavras na pele dela. – Então nunca terá que fazer isso. Sua felicidade, nossa felicidade... Isso é tudo que eu quero agora, thee mou. – Ele selou sua promessa com um beijo, e Lexi sentiu o estresse e a tensão deixando seu corpo. Seu coração espancava seu peito, e ela tremia nos braços dele, estourando de felicidade. – Embora eu ache que tenha que matar quem quer que seja esse tal de Tony Stark. – O quê? – Está escrito na sua camiseta que você ama o Tony Stark, agape mou. Você não tem permissão de amar ninguém além de mim. Ela riu e recuou um passo, amando o brilho do ciúme nos olhos dele. Amava esse Nikos, brincalhão e disposto a mostrar o que sentia por ela. O que lhe custara muito, e ela o amava ainda mais por isso. – Sinto muito, mas são ossos do ofício, Nikos. Eu sempre estou apaixonada por pelo menos uns dois ou três heróis fictícios. Recentemente, é o Homem de Ferro. Como você não pode competir com ele, é melhor que... Ela soltou um gritinho e virou-se enquanto ele a alcançou com dois passos rápidos e pressionou-a contra a parede com seu corpo imenso. Ela viu a fome nas linhas do belo rosto


dele, na forma como ele mexia os músculos, tentando controlar o desejo. – Quando eu tiver terminado de fazer o que farei com você esta noite, não vai se lembrar nem do seu próprio nome, menos ainda do nome de outro homem, thee mou. Meu nome é tudo que você vai dizer... Ou gritar. Ela estremeceu com a promessa sombria nas palavras dele, pela expectativa e excitação. Ela engoliu uma risada quando ele lhe pegou no colo e foi em direção ao sofá. Lexi balançou a cabeça e apontou para a outra direção. – O quarto fica para lá. O desejo rugia enquanto ganhava vida nos olhos dele. – Trezentas e sessenta horas e 43 minutos. – Desde que você fez amor comigo da última vez. – Eu acho que você é viciada em sexo, srta. Nelson. – Não – disse ela sorrindo. – Sou viciada em você, sr. Demakis.


JOGO DE PROMESSAS Maisey Yates

Hannah Weston soltou um xingamento quando tropeçou na bainha de seu vestido de noiva, distraída com os números rolando na tela de seu smartphone. Ela dissera que não trabalharia hoje. Era mentira. Havia clientes que dependiam dela. Zack nunca saberia disso. Entrou na limusine, ainda de olho no telefone enquanto puxava o vestido para dentro, batendo a porta depois de entrar. – Indo para a capela? Hannah ficou paralisada, o sangue congelando em suas veias enquanto a limusine se afastava do meio-fio e mesclava-se ao trânsito de São Francisco. Aquela voz. Ela conhecia aquela voz. Hannah inspirou fundo e então ergueu o olhar, travando-o com os olhos escuros e intensos no espelho retrovisor. Conhecia aqueles olhos também. Ninguém mais tinha olhos como os dele, com a habilidade de ler os segredos mais íntimos de alguém. Capazes de zombar e flertar com alguém numa única olhada de relance. Hannah ainda via aqueles olhos em seus sonhos. E, às vezes, em seus pesadelos. Eduardo Vega. Um dos muitos esqueletos em seu armário. Só que ele não estava lá dentro. – E vou me casar – disse ela. Não ficava intimidava, ela intimidava as pessoas. Em Nova York, Hannah tinha mais gana do que qualquer homem na sala de negociação em Wall Street. Era uma força reconhecida no mundo das finanças. Ela não sentia medo. – Oh, eu acho que não, Hannah. Não hoje. A menos que você queira ser presa por bigamia. Ela sugou o ar com força. – Não sou bígama. – Você não é solteira. – Sou sim. A papelada... – Nunca foi protocolada. Se não acredita em mim, faça uma pesquisa. Ela sentiu um nó no estômago. – O que foi que você fez, Eduardo?


O nome dele tinha um sabor tão estranho. Mas também nunca lhe fora familiar. Seu exmarido era essencialmente um estranho. Ela nunca o conhecera de verdade. Tinham morado juntos. Hannah havia morado em um quarto na luxuosa cobertura dele durante seis meses. Não comiam as refeições juntos, exceto nos fins de semana, quando iam para a casa dos pais de Eduardo. Não dormiam na mesma cama. Não dividiam mais do que o estranho “olá” quando estavam na imensa casa. Eduardo só falava com ela ou a tocava em público. Ele era abençoado com dinheiro, uma mente estratégica e uma total falta de se importar com a propriedade. Ela nunca conhecera um homem como ele. Antes ou desde então. – Eu? – Os olhos dele encontraram os dela no espelho de novo. Um sorriso curvava os lábios, e ela viu um lampejo dos dentes brancos em contraste com a pele escura. – Nada. Ela riu. – Que engraçado. Não acredito em você. Assinei os papéis. Lembro-me claramente disso. – E você teria ficado sabendo que o processo nunca foi finalizado se tivesse deixado um endereço para correspondência. Mas não é assim que você faz as coisas, não é? Diga-me, você ainda está fugindo, Hannah? – O que foi que você fez? Ela não tinha que responder a Eduardo. Não tinha que responder a ninguém. E, definitivamente, não tinha que fugir. Os olhos de Hannah se encontraram com os dele no espelho e sentiu uma pontada de emoção que zombava de seu pensamento anterior. Por que isso estava acontecendo agora? Ela ia se casar dentro de uma hora com Zack Parsons, o melhor homem que já conhecera na vida. Ele era respeitoso e honrável. Distante. Capaz de ajudar a alavancar sua carreira. Zack era tudo o que ela queria, tudo de que precisava. – É um processo complicado – disse Eduardo, cujo sotaque era charmoso como sempre, até mesmo quando as palavras dele faziam seu sangue ferver. – Alguma coisa se perdeu... – Seu canalha!

E leia também em Promessas & Paixões, edição 262 de Harlequin Jessica, Perigo de paixão, de Natalie Anderson.


262 – PROMESSAS & PAIXÕES Jogo de promessas – Maisey Yates Eduardo Vega precisa juntar os fragmentos de sua memória. E a melhor maneira é procurando a ex-esposa, Hannah Weston. Ela fez de tudo para curar as feridas do passado. Mas quando reencontra Eduardo, percebe que seus sentimentos por ele não estão enterrados. Perigo de paixão – Natalie Anderson Nadia Keenan tem uma missão: alertar mulheres sobre os cafajestes. E um nome recorrente em seu site é Ethan Rush. Contudo, esse playboy não irá permitir que sua reputação seja arruinada. E usará todo a sua sedução para provar a Nadia que ela está errada. 263 – OUSADIA & SEDUÇÃO Em nome da ambição – Nicola Marsh Ruby Seaborn só vê uma saída para salvar a empresa da família: casar-se com o magnata Jax Maroney. O acordo era proveitoso para ambos, principalmente depois de incluírem certos benefícios conjugais… Coração marcado – Helen Brooks Os ferimentos que destruíram o casamento de Melody James já cicatrizaram, mas seu coração está em pedaços. Contudo, Zeke, seu marido, irá lutar por ela, pois tudo o que ele mais deseja nesse Natal é ter a esposa novamente em sua cama!


Últimos lançamentos: 260 – ENCONTROS APAIXONADOS Noite inesquecível – Michelle Smart Uma noite com Pepe Mastrangelo deixou Cara Delany com algo mais do que lembranças quentes. Agora, ela precisa confrontá-lo e convencê-lo a assumir um papel que este orgulhoso siciliano jamais desejou: de pai. Imerso em escândalos – Jennifer Hayward Para se recuperar de um escândalo, Jared Stone faz uma oferta para Bailey st. John. Contudo, ela é uma mulher forte e não vai se subjugar às regras dele. E não demora muito para que esta batalha saia do escritório direto para os lençóis.


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

S644h Smart, Michelle Homens indomados [recurso eletrônico] / Michelle Smart, Tara Pammi; tradução Angela Monteverde, Ana Death Duarte. - 1. ed. - Rio de Janeiro : Harlequin, 2015. recurso digital Tradução de: Taming the notorious sicilian; A deal with demakis Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-398-2012-2 (recurso eletrônico) 1. Romance inglês. I. Pammi, Tara. II. Monteverde, Angela. III. Duarte, Ana Death. IV. Título. 15-24834

CDD: 823 CDU: 821.111-3

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: TAMING THE NOTORIOUS SICILIAN Copyright © 2014 by Michelle Smart Originalmente publicado em 2014 por Mills & Boon Modern Romance Título original: A DEAL WITH DEMAKIS Copyright © 2014 by Tara Pammi Originalmente publicado em 2014 por Mills & Boon Modern Romance Arte-final de capa: Isabelle Paiva Produção do arquivo ePub: Ranna Studio Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171, 4º andar


São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

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Jessica 261 michelle smart & tara pammi homens indomados  

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