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ETIQUETA DO AMOR - Elizabeth Bevarly Amantes e rivais! Na época de escola, Ava Brenner era a garota popular que atormentava os dias de Peyton Moss. Porém, agora tudo mudou. Ele está prestes a ganhar o seu primeiro bilhão enquanto a vida de Ava ficou bem mais simplória. Peyton precisa que ela o ajude a entrar na alta sociedade. Para isso, ambos terão de superar a antiga rivalidade... E não demora muito para que passem de inimigos a amantes. Mas será que Peyton ainda irá desejá-la quando descobrir o escândalo que mudou o mundo de Ava por completo?

VOTOS ENTRELAÇADOS - Dani Wade Por tempo limitado? Famoso no mundo das artes, Aiden Blackstone havia conseguido fugir de seus piores pesadelos. Até ser obrigado pelo avô a fazer exatamente o que tentara evitar: voltar para sua cidade natal e se casar. Contudo, ele logo percebe que Christina Reece não seria apenas uma noiva de conveniência. Ela sabe que a única maneira de fazer com que esse casamento ultrapasse o tempo que foi acordado é convencendo o sensual marido a abrir seu coração… antes que seja tarde demais. Pois há um inimigo à solta, ameaçando destruir tudo o que ela ama, incluindo essa nova paixão.


Elizabeth Bevarly Dani Wade

APRENDENDO A VIVER

Tradução Maurício Araripe

2016


SUMรRIO

Etiqueta do amor Votos entrelaรงados


Elizabeth Bevarly

ETIQUETA DO AMOR

Tradução Maurício Araripe


Querida leitora, Em Etiqueta do amor, você vai conhecer a adorável butique Talk of the town e descobrir porque a dona, Ava Brenner, resolveu criar esse brechó especialmente para quem não tem muito dinheiro, mas possui bom gosto de sobra. Ela fica extremamente orgulhosa em vestir mulheres que desejam parecer e se sentir tão poderosas e cheias de estilo quanto possível. Ava sabe como a imagem é importante para definir o status de alguém. Essa foi uma lição que aprendeu há muito tempo. Por isso, adora dar às clientes um gostinho da alta sociedade, algo que provavelmente nunca experimentaram… e que Amber não pode mais desfrutar. Quer dizer, ao menos até Peyton Moss chegar à cidade. Ou melhor, retornar! Na época do colégio, Peyton e Ava eram antagonistas, divididos por fortes padrões socioeconômicos. De um lado, a menina de sangue azul. Do outro, o rapaz de colarinho azul. Era quase proibido que interagissem. Bem, exceto pela noite delirante na qual Ava e Peyton se entregaram de uma forma que nenhum de seus amigos aprovaria… e que ambos jamais conseguiram esquecer. Agora Peyton está de volta, precisando desesperadamente da ajuda de Ava! Será que eles conseguirão deixar os desentendimentos e a batalha de classes no passado? Boa leitura! Elizabeth


CAPÍTULO 1

T. S. Elliot tinha razão, Ava Brenner pensou, ao apressar o passo descendo Michigan Avenue e refugiando-se sob o toldo de uma loja. Abril realmente era o mais cruel dos meses. No dia anterior, o céu sobre Chicago estava azul e límpido, e as temperaturas na casa dos quinze graus. Hoje, nuvens acinzentadas despejavam chuva congelante sobre a cidade. Ela protegeu a cabeça com o cachecol. Sabia que a chuva arruinaria a seda cor de esmeralda, mas estava a caminho de um encontro com um vendedor em potencial, e preferia substituir um lenço estragado a arruinar o penteado. Imagem era tudo. Fora uma lição incessantemente repetida quando Ava ainda estava na escola. Abril não era a única coisa cruel. Garotas adolescentes podiam ser brutais. Ainda mais o tipo rico, egoísta e superficial encontrado em sofisticadas escolas particulares que usavam apenas a última moda e faziam pouco dos estudantes bolsistas que se viravam com liquidações em lojas de departamento. Ava deixou de lado o pensamento. Uma década e meia a separava da formatura. Era dona de seu próprio negócio agora, uma butique de aluguel de roupas chamada Talk of the Town, que atendia com alta costura mulheres que queriam apenas o melhor para as ocasiões especiais da vida. Embora a loja ainda estivesse funcionando muito na base da improvisação, estava começando a dar sinais de lucro. Pelo menos ela parecia uma mulher de negócios bem-sucedida. Ninguém tinha de saber que era sua própria melhor cliente. Tirou o lenço da cabeça e o enfiou no bolso do sobretudo ao adentrar no elegante restaurante. Ao aproximar-se da recepção, seu celular tocou. Era o vendedor que ela deveria encontrar, pedindo para adiar a reunião para uma noite mais adiante na semana. De modo que Ava jantaria a sós hoje à noite. Como de costume. Ainda assim, havia muito tempo que não tinha a oportunidade de sair e estivera trabalhando para valer este mês. Merecia um mimo. Basilio, o dono do restaurante, a cumprimentou pelo nome com um caloroso sorriso. Cada vez que o via, Ava lembrava-se do pai. Basilio tinha os mesmos olhos escuros, os cabelos grisalhos e o bigode bem cuidado. Contudo, tinha quase certeza de que, ao contrário do pai dela, Basilio jamais cumprira pena em uma prisão federal.


Sem nem verificar o mapa dos assentos, ele conduziu Ava até sua mesa preferida, perto da janela, onde ela poderia observar os transeuntes enquanto jantava. Contudo, ao erguer o cardápio, sua atenção foi chamada para um tumulto perto do bar. Ao erguer a cabeça, viu Dennis, o seu barman favorito, sendo importunado por um cliente, um homem alto, de ombros largos e cabelos negros como carvão. Era óbvio que ficara ofendido coma sugestão de Dennis de que bebera demais, uma condição que, francamente, estava evidente. – Estou bem – o homem insistiu. Embora as palavras não estivessem arrastadas, a voz estava um pouco mais alta do que o necessário. – E quero outro Macallan. Sem gelo. – Mas, senhor... – Agora! – o homem rugiu. A pulsação de Ava disparou ante a palavra zangadamente dita. Tivera três empregos durante a faculdade. Um deles fora de garçonete. Já lidara com sua cota de clientes que se torvavam valentões após beber demais. Por sorte, Basilio e o garçom dela, Marcus, estavam atentos para cuidar da situação. Ante a aproximação dos colegas, Dennis sacudiu a cabeça e ergueu a mão para detê-los. Com gentileza, disse: – Sr. Moss, talvez fosse melhor se, em vez disso, tomasse uma xícara de café. Ava sentiu o seu íntimo arder ante a menção do nome. Moss. Ela fora colega de um Moss na escola. Peyton Moss. Ele estudara um ano à sua frente na Emerson Academy. Entretanto, não podia ser ele. Peyton Moss jurara para todo mundo em Emerson que deixaria Chicago no instante em que se formasse e que jamais voltaria. E ele mantivera tal promessa. Ava retornara para Chicago apenas alguns meses após conquistar seu diploma em administração e encontrara vários antigos colegas, mas nenhum deles falar nada sobre o retorno de Peyton. Ela voltou a olhar para o homem. Peyton fora o astro do time de hóquei de Emerson, não só devido à habilidade, mas também ao tamanho. Os sedosos cabelos negros na altura dos ombros. E a voz, mesmo então, sensual e gostosa. Contudo, por agora, já poderia ter facilmente ficado mais grave, como o aveludado tom barítono do homem ao bar. Quando ele se virou para olhar Marcus, Ava conteve uma exclamação de surpresa. Embora o cabelo estivesse mais curto, e o rosto, mais marcado, era, sem dúvida, Peyton. Reconheceria aquele rosto em qualquer lugar, mesmo após 16 anos. Sem pensar, ela se levantou e correu para se posicionar entre Peyton e os outros. Com toda a calma de que foi capaz, disse: – Cavalheiros, talvez o que precisemos aqui é de uma intermediária imparcial para resolver esta situação. Se a reconhecesse, Peyton teria se acabado de rir. Na época de escola, Ava fora tudo, menos imparcial no tocante a ele. Mas ele também fora parcial no que lhe dizia respeito. Era o que acontecia quando duas pessoas frequentavam círculos sociais tão discrepantes, em um ambiente onde as divisões da sociedade eram claras, imutáveis e absolutas. Quando a classe superior encontrava a inferior em um lugar como Emerson, faíscas voavam. – Srta. Brenner, não acho que seja uma boa ideia – Basilio disse. – Homens nas condições dele podem ser imprevisíveis. E ele tem três vezes o seu tamanho.


– Minha condição é ótima – Peyton retrucou. – Ou seria se este estabelecimento honrasse os pedidos de seus clientes pagantes. – Apenas me deixe falar com ele – Ava pediu, abaixando o tom de voz. Basilio sacudiu a cabeça. – Marcus e eu podemos dar conta disto. – Mas eu o conheço. Estudamos juntos. Ele me dará ouvidos. Nós éramos... – de algum modo, conseguiu forçar a palavra a passar pelos seus lábios – amigos. Era outra palavra que teria feito Peyton rir. Os dois haviam sido muita coisa em Emerson. Relutantes parceiros de estudo, agressivos oponentes em treinos, e, por uma estranha e inebriante noite, amantes exuberantes. Porém, jamais amigos. – Eu sinto muito, Srta. Brenner – Basilio disse –, mas não posso permitir que... Antes que ele pudesse detê-la, Ava girou e seguiu na direção do bar. – Peyton – falou ao deter-se diante dele. Em vez de olhar para Ava, ele continuou a encarar Dennis. – Que foi? – Isto já foi longe demais. Você precisa ser razoável. Ele abriu a boca, mas hesitou quando o seu olhar cruzou com o dela. Ava já se esquecera de como ele tinha lindos olhos. Eram da cor e da limpidez de conhaque do bom. – Conheço você – ele disse, subitamente, mais lúcido. Seu tom era confiante, mas havia dúvida na sua expressão. – Não conheço? – Estudamos juntos – ela falou, deliberadamente sendo vaga. – Há muito tempo. A conexão pareceu surpreendê-lo. – Não me recordo de você em Stanford. Stanford? A última notícia que tivera é que ele estava seguindo para uma universidade na Nova Inglaterra para cursar algo vagamente acadêmico, para o caso de se machucar. Como é que acabara na costa oeste? – Não foi em Stanford. – Onde, então? Relutantemente, ela revelou. – Na Emerson Academy, aqui em Chicago. Sua surpresa multiplicou-se. – Estudou em Emerson? Ele não precisava parecer tão chocado. Será que ela ainda lembrava tanto uma moradora de rua? – É. Estudei em Emerson. Ele estreitou os olhos, estudando-a mais de perto. – Também não me recordo de você de lá. Sentiu uma pontada no peito diante do comentário. Deveria estar contente por ele não se lembrar dela. Quem dera Ava pudesse esquecer a garota que fora em Emerson. Quem dera também pudesse esquecer Peyton. Contudo, nos últimos 16 anos, ele e outros membros do seu círculo social haviam se inserido nos pensamentos dela, trazendo à tona sentimentos e lembranças que ela desejava poder enterrar para sempre.


Sem aviso, ele ergueu a mão até o queixo dela. Algo quente e elétrico percorreu o seu corpo ante o contato, mas ele não pareceu notar. Apenas lhe virou o rosto, de um lado para o outro, examinando-a de todos os ângulos. Finalmente, devolveu a mão ao balcão do bar. Ele sacudiu a cabeça, abriu a boca para falar, e então... E então sua expressão se modificou. – Ah, meu Deus. Ava Brenner. Ela deixou escapar um suspiro irritado. Droga, não queria que ninguém se lembrasse dela de como era em Emerson Academy, especialmente os garotos como Peyton. Especialmente Peyton, ponto. A despeito disso, uma onda de prazer lhe percorreu o corpo ao dar-se conta de que havia um espacinho para ela na sua lembrança, independentemente de quão pequeno fosse. Resignada, respondeu: – É, sou eu. – Macacos me mordam. Ela se jogou no banco do bar, fitando-a com aqueles penetrantes olhos dourados. Foi tomada de uma onda de emoções conflitantes, que havia muito não sentia... Orgulho e vergonha. Arrogância e insegurança. Responsabilidade e culpa. E, em meio a tudo, uma absoluta incerteza no tocante a Peyton, a si mesma, aos dois juntos. No passado e agora. Ah, sim. Definitivamente se sentia como se estivesse de volta na escola. E gostou tão pouco agora quanto gostara na época. Quando ficou claro que Peyton não ia mais causar problemas, Dennis pegou o copo de coquetel vazio do balcão e o substituiu por uma xícara de café. Basilio respirou aliviado e lançou um sorriso agradecido para Ava. Marcus voltou a atender as suas mesas. Havendo feito a sua boa ação do dia, Ava pensou em voltar para a própria mesa. Porém, Peyton ainda a estava fitando, e algo na sua expressão a fez hesitar, algo que despertou outra torrente de lembranças. Recordações diferentes das que a haviam assombrado naquela noite, mas igualmente desagradáveis e indesejadas. Pois fora Ava, e não Peyton, quem liderara a classe social reinante na elitista Emerson Academy. Fora Ava, e não Peyton, quem fora rica, egoísta e esnobe. E fora Ava, e não Peyton, a usar as últimas tendências da moda e a fazer pouco dos estudantes bolsistas que se viravam com liquidações em lojas de departamentos. Pelo menos até o verão antes do último ano, quando a sua família perdeu tudo, e ela mesma subitamente se viu passeando pelos corredores de lojas de departamentos. E então, fora ela quem se tornara pobre, indesejada e discriminada. Peyton não disse uma só palavra enquanto Ava o observava, ponderava todas as coisas que haviam mudado na década e meia desde que ela o vira pela última vez. Havia um toque de grisalho nos cabelos escuros e a barba estava por fazer. Não se lembrava de Peyton fazendo a barba quando estava na escola. Contudo, é possível que fizesse, mesmo se, naquela manhã, quando acordara ao lado dele no seu quarto, ele... Tentou conter as lembranças antes que estas se formassem, mas não foi bem-sucedida. Como tudo se desenrolara, quando foram forçados a trabalhar juntos em um projeto de um semestre que reunia calouros e veteranos. O dinheiro realmente mudava as coisas. Pelo menos, era o que acontecia em Emerson. As regras da escola estipulavam que aqueles com muito dinheiro deveriam desmerecer aqueles cujas famílias não tinham tanto, e que aqueles que nada tinham deveriam


ressentir os que tudo possuíam. Apesar disso, sempre houvera... algo... entre Ava e Peyton. Uma reação estranha e inflamável devido a... algo. Algo esquisito. Algo volátil. Algo que nenhum dos dois fora capaz de identificar ou entender. Nem, no final das contas, resistir. Chegara ao seu apogeu em uma noite na casa dela, quando os dois estavam trabalhando até tarde no projeto de classe, e acabaram... Bem, não fora exatamente fazendo amor, já que, o que quer que fosse que sentiam um pelo outro, nada tinha a ver com amor. Contudo, também não fora sexo. Fora mais do que a simples fusão de corpos. Chegara quase a ser a fusão de almas. Na manhã seguinte, Peyton saltara da cama por um lado, e Ava saltara pelo outro. Ambos proferiram acusações e desculpas, nenhum dos dois dando ouvidos ao outro. A única coisa em que concordaram é que haviam cometido um erro colossal, que jamais deveria voltar a ser mencionado. Não querendo ser descoberto, Peyton se vestira e fugira pela janela do quarto, e Ava a trancara após ele sair. Na manhã de segunda, entregaram a tarefa e voltaram a ser inimigos, e Ava prendera a respiração pelo restante do ano. Só depois que Peyton se formou é que ela pôde voltar a respirar. Por um total de três semanas. Até a própria vida ruir a seu redor, jogando-a no pé da escada social, entre as mesmas pessoas que tratara tão mal antes. Pessoas que ela rapidamente aprendera que não mereciam o tratamento que ela passara anos dispensando. Ava virou-se para Basilio. – Preciso de um favor. Poderia pedir para um de seus garçons buscar o meu carro na minha loja, para que eu possa levar o sr. Moss para casa? Ficarei aqui com ele, tomando café até o rapaz voltar. Basilio a fitou como se ela houvesse perdido o juízo. – Mas, srta. Brenner, ele não... – ... está no seu normal – Ava tratou de completar. – Eu sei. Por isso acho que merece um passe livre por hoje à noite. – Tem certeza de que é uma boa ideia? – Não, não tinha. Aquele Peyton era um desconhecido para ela. Não que o Peyton que costumava conhecer tivesse sido exatamente um livro aberto. Talvez não tivesse a melhor das opiniões a respeito do tipo dela quando estavam na escola, e talvez não tivesse sido lá um grande cavalheiro, contudo, também não fora do tipo perigoso. Independentemente do que o tivesse levado a se portar mal hoje, acalmara assim que reconhecera um rosto conhecido. Além do mais, estava em dívida com ele. Devia mais a Peyton do que jamais seria capaz de pagar. Contudo, pelo menos fazendo isso, poderia começar a fazê-lo. – As chaves estão na bolsa na minha mesa – falou para Basilio. – Meu carro está estacionado atrás da loja. Por favor – ela acrescentou. Basilio parecia disposto a protestar outra vez, contudo, em vez disso, disse: – Tudo bem. Eu enviarei Marcus. Só espero que saiba o que está fazendo. Nesse caso, eram dois, Ava pensou. PEYTON MOSS acordou de uma forma como havia muito não acordava. De ressaca. Quando abriu os olhos, não fazia ideia de onde estava, da hora, nem do que estivera fazendo horas antes.


Ficou deitado na cama por um instante, tentando descobrir como chegara ali. A verdadeira dúvida era: de quem era aquela cama? Ainda mais que, quem quer que fosse o seu dono, não estava nela com ele. Concluiu que o dono seria, na verdade, uma dona. Os lençóis cheiravam bem demais para pertencerem a um homem, e o papel de parede estava coberto de rosas. Percorrendo os olhos pelo quarto notou a penteadeira superfeminina, e a única janela do aposento estava atrás de uma cortina de renda. Quer dizer que devia ter voltado para casa com uma mulher desconhecida na noite anterior. Nenhuma novidade nisso, mas ir para casa com desconhecidas fora algo mais corriqueiro na sua juventude. Não que estivesse velho aos 34 anos, diabos, mas era uma idade em que se esperava que um homem se assentasse e decidisse o que queria da vida. Não que Peyton também já tivesse feito isso. Mas já se assentara um pouco e já descobrira boa parte do que queria na vida. Diabos, fora por isso que retornara para a cidade onde jurara jamais voltar a colocar os pés. Chicago. Deus. Da última vez em que estivera ali, tinha 18 anos e era indomável como um lobo selvagem. Deixara a cerimônia de formatura e seguira direto para a rodoviária. Nem voltara para casa para se despedir. Diabos, ninguém em casa se importaria se o fizesse. Ninguém em Chicago. Passou a mão pelos olhos e suspirou, cansado. Nada como uma boa dose de melodrama adolescente para começar bem o dia. Sentou-se na beirada da cama. O paletó e a gravata estavam pendurados por sobre o encosto de uma cadeira, e os sapatos estavam no chão perto dos seus pés. A camisa e as calças amarrotadas estavam abotoadas, de modo que nada desagradável acontecera na noite anterior. Com sorte, não haveria constrangimento, quando descobrisse quem era a sua anfitriã. Cuidadosamente, adiantou-se até a porta e seguiu para o banheiro à sua direita. Sentiu-se melhor após lavar o rosto. Mas, ao ver o reflexo no espelho, notou que ainda estava com uma aparência terrível. Encontrando um frasco de antisséptico bucal, cuidou do gosto de carniça na boca. Também encontrou um pente que usou para dar um jeito no cabelo e se encarregou o melhor que pôde da camisa amassada. Deixando o banheiro, detectou o aroma de café fresco, e o seguiu até a minúscula cozinha. A cafeteira devia ser programável, pois não havia ninguém ali. Olhando para o relógio, viu que mal passava das cinco, o que ajudava a explicar por que não havia ninguém de pé. Contudo, como a cafeteira estava programada para agora, isso significava que, quem quer que morasse ali, costumava já estar de pé a esta hora. Cruzou a cozinha com um único passo largo e se viu na entrada de uma sala de estar quase do mesmo tamanho que o quarto. Estava prestes a adentrá-la, quando um som vindo da sua direita o deteve. Era o som de uma mulher se espreguiçando. Em meio à penumbra, conseguiu identificar os contornos de uma mulher deitada no sofá. Ao longo dos anos, Peyton já se encontrara em inúmeras situações incômodas, muitas delas envolvendo mulheres. Contudo, não fazia ideia do que fazer naquela. Não sabia onde estava nem como chegara ali, muito menos tinha qualquer pista no tocante à identidade da mulher com quem ele passara a noite. Até onde sabia, ela poderia ser casada. Diabos, podia ser uma maníaca


assassina. E então, a anfitriã voltou a gemer com semiconsciência, e ele decidiu que não poderia ser a última coisa. Nenhuma maníaca assassina seria capaz de um som tão delicioso. Ainda assim, se ela estava dormindo aqui fora, e ele passara a noite no quarto, não tinha do que se sentir culpado, não é? Bem, exceto por expulsá-la da cama, quando deveria ter sido ele a dormir no sofá. E, exceto por ter apagado ali em primeiro lugar. O que diabos acontecera na noite passada? Mentalmente, repassou seus passos, desde o instante em que voltara a pôr os pés na sua cidade natal. Embora houvesse deixado a cidade de ônibus, 15 anos atrás, seu retorno fora de jatinho particular. O seu jatinho particular. Podia ter sido um viralata na juventude, mas, como adulto era... Ah, a quem estava tentando enganar? Como adulto, ainda era um vira-lata. Era por isso que voltara. De qualquer modo, após aterrissar, seguira direto para o Hotel Intercontinental, em Michigan Avenue. O tipo de lugar onde Peyton jamais teria tido a coragem de entrar quando garoto e que o teria expulsado a pontapés caso tivesse tentado entrar quando jovem. Engraçado como não tiveram problemas em aceitar o seu cartão platina ontem. Lembrava-se de ter ido até a suíte e jogado a mala de viagem na cama enorme. Lembrava-se de ter admirado Michigan Avenue pela janela, com seus prédios altos e lojas chiques. Toda aquela vizinhança parecera além dos limites para ele quando garoto. Ainda assim, viera para aquela parte da cidade cinco dias por semana durante nove meses do ano, pois era onde ficava a Emerson Academy for College Preparatory Learning. Nos outros dois dias da semana e três meses do ano, Peyton tivera de ficar com a sua própria gente na vizinhança dura de South Side, onde ele crescera. No dia anterior, olhando pela janela, fora brutalmente lembrado de como a sua vida adolescente naquela parte da cidade contrastara com a vida que levara na sua própria vizinhança. Por mais que odiasse Emerson, sempre fora bom poder escapar da vida em casa por oito horas por dia. Olhando para a Michigan Avenue, por mais estranho que pudesse ser, fora transportada para a própria vizinhança. Fora capaz de sentir o cheiro da graxa e da gasolina da oficina mecânica acima do qual ele e o pai moravam e onde trabalhara para poupar dinheiro para a faculdade quando não estava na escola. Escutara as sirenes de viaturas da polícia, circulando pelas quadras que as gangues consideravam suas. E então... Então vieram as lembranças de Emerson, onde conquistara uma vaga na equipe de hóquei, além de uma bolsa de estudos integral, graças às notas acima da média e à sua perícia no ringue de gelo. Deus, como odiava aquela escola, repleta de herdeiros de sangue azul. Mas adorava como o lugar era limpo e bem iluminado, cheirando a cera para pisos e perfume Calvin Klein. Gostava da ordem do lugar. Gostava de se sentir em segurança. Mesmo que apenas por algum tempo. Não que tivesse admitido nada disso na época. Não que tivesse admitido isso para ninguém agora. Contudo, mesmo então, sabia que uma educação na Emerson ficaria bem melhor no currículo escolar do que na decadente escola pública da sua vizinhança. Sendo assim, aturou os garotos ricos encontrando os poucos outros bolsistas determinado a acabar em um lugar melhor do que de onde vieram. Não deveriam passar de dez outros alunos e estavam em uma desvantagem numérica de dez para um. E de todos esses cem, apenas uma conseguiu mexer com Peyton. Ava Brenner. A Garota Dourada de Gold Coast. O pai dela era tão rico e poderoso, e ela, tão esnobe e linda, que era a princesa da escola. Os dias em Emerson sempre giraram ao redor de Ava e


do seu círculo de amizades, todos escolhidos a dedo pela própria princesa e todos pisando sobre ovos, sabendo que poderiam ser exilados ao menor capricho dela. Não passara um único dia que Peyton não tivesse de vê-la desfilar pelos corredores da escola, jogando aqueles lindos cabelos cor de cobre de um lado para o outro... olhando para ele como se Peyton fosse algo nojento que ficara preso na sola de seu sapato. E não passara um único dia em que não a desejasse. Mesmo sabendo que era mimada, superficial e egoísta. Ele abriu os olhos. É, lembrava-se agora de que estivera pensando em Ava no dia anterior. Na verdade, foi o que o levara ao bar do hotel. Lembrava-se disso, e lembrava-se também de haver entornado três copos de uísque goela abaixo, em rápida sucessão e de estômago vazio. Lembrava-se de ter sido educadamente convidado a se retirar do bar do hotel e de haver, surpreendentemente, obedecido. Descera a Michigan Avenue procurando outro lugar para beber. Depois... Tentou lembrar-se do que acontecera depois disso. Mas tudo que lhe veio à cabeça foi uma voz rouca e sexy, além do perfume de gardênias e um par de lindos olhos verdes como o mar, tudo estranhamente familiar. Isso trouxe o seu olhar de volta para a mulher adormecida no sofá. Na penumbra, pôde ver que estava deitada de lado, uma das mãos cobrindo o rosto. A manta com que se cobrira deslizava na direção do chão. Por algum motivo, sentiu-se compelido a adiantar-se até o sofá, pegar a coberta e estendê-la sobre a figura adormecida. Ao curvar-se, voltou a sentir o perfume de gardênias. E, mais uma vez, a lembrança de Ava Brenner lhe veio à cabeça. Era ela que sempre tivera o perfume de gardênias. Peyton lembrou-se da noite que ambos tiveram. A noite em que terminaram o projeto da escola. No quarto dela. Quando os seus pais estavam viajando. Em certo momento, ela descera até a cozinha para buscar algo para comer, e ele, sem qualquer vergonha, aproveitara a sua ausência para xeretar o quarto dela, abrindo o armário e as gavetas de sua cômoda. Chegara a roubar um par de calcinhas quando encontrou a gaveta das roupas de baixo dela. Seda amarela. Bom Deus, ainda o tinha. Ao enfiá-lo no bolso de trás, avistou o frasco de perfume sobre a penteadeira. Night Gardenia, dizia o rótulo. Ao estender a manta sobre a mulher adormecida, pôde lhe ver o rosto e sentiu o seu íntimo apertar-se. Tinha de estar imaginando coisas. A lembrança de Ava mexera tanto com ele que estava vendo o seu rosto em mulheres desconhecidas. As chances de encontrar a última pessoa que queria ver em Chicago, ainda mais poucas horas após a sua chegada, eram absurdas demais para serem calculadas. Havia dois milhões e meio de pessoas naquela cidade. O destino não poderia ser tão cruel. Contudo, Peyton sabia que era ela. Ava Brenner. A Garota Dourada de Gold Coast. Soberana absoluta da Emerson Academy for College Preparatory Learning. Personagem recorrente nos seus sonhos. E alguém que ele torcera para jamais voltar a ver.


CAPÍTULO 2

– AVA? Como se houvesse proferido um encantamento para libertar uma princesa de contos de fada de um feitiço maligno, os olhos dela se abriram lentamente. Peyton tentou uma última vez convencerse de que a estava imaginando. Contudo, mesmo na semiescuridão, podia ver que era Ava. E que ela estava ainda mais linda do que ele se recordava. – Peyton? – ela falou ao erguer-se do sofá. Ele cambaleou para trás, esbarrando em uma cadeira do outro lado da sala. Ah, Deus. Sua voz. O modo como ela dizia o seu nome. Foi o mesmo modo como ela o disse naquela manhã, no quarto dela, quando Peyton abrira os olhos para se dar conta de que o sonho frenético que tivera sobre os dois fazendo sexo não fora nenhum sonho. O pânico em seu íntimo agora era idêntico ao sentimento que tivera então. Uma explosão de medo, incerteza e insegurança. Detestava tal sensação. E não a sentira desde então... Ah, diabos. Não sentira desde aquela manhã, no quarto de Ava. Não entre em pânico, disse para si mesmo. Não era mais um garoto de dezoito anos cujo valor estava atrelado à sua perícia no ringue de gelo. Não estava morando na pobreza, com um pai bêbado, depois que a mãe abandonara a ambos. Com certeza não era o rejeitado da Emerson Academy, indigno de Ava Brenner. – Ah, oi? Eu acho – ela falou, sentando-se no sofá, e puxando a manta, como se pudesse se esconder atrás dela. Tudo que Peyton conseguiu dizer novamente foi: – Ava. Ela estendeu a mão de sob a manta para ligar o abajur na mesinha ao lado do sofá. Os olhos dela pareciam maiores do que ele se lembrava, e as feições angulosas pareciam ter ficado mais arredondadas. O cabelo estava mais curto e mais escuro do que na escola. E a boca que inspirara adolescentes a mutilar por ela... Bem, ainda inspirava mutilação. Mas, agora que Peyton era um homem adulto, mutilação tinha um significado completamente diferente.


– Quer um pouco de café? – ela perguntou. – Deixei programada a cafeteira. Já deve estar pronto. Se a memória não me falha, você gostava forte. Se a memória não me falha, ele repetiu para si mesmo. Anos atrás, ela preparara um bule de café para eles na sua casa, já se preparando para virar a noite, trabalhando no projeto. Ele avisara que gostava do café forte. Ela não se esquecera. Mesmo os dois mal havendo falado um com o outro após aquela noite. Será que significava alguma coisa? Ele queria que significasse? – Café parece ótimo – disse. – Mas eu posso me servir. Se não me engano, gosta do seu com leite e açúcar, não é? Tudo bem, então Ava não era a única que conseguia se recordar daquela noite em detalhes. Não significava nada. Ela apertou a manta ao redor de si. – Obrigada. Grato pela oportunidade de se recompor, Peyton retornou para a cozinha. Ava Brenner. Diabos, era como se houvesse ligado uma espécie de rastreador no instante em que voltara à cidade para localizá-la. Ou, talvez, houvesse sido ela a ligar um para localizá-lo. Não. De modo algum Ava estaria procurando por ele após todo esse tempo. Ela deixara bem claro os seus sentimentos por ele quando estavam em Emerson. E só fizeram brilhar com clareza ainda maior após aquela noite na casa dos pais dela. Ele também não estava procurando-a. Não passara de um perverso capricho do destino, ou de carma ruim, que tivessem se encontrado. Quando voltou para a sala trazendo o café, ela já prendera o cabelo no topo da cabeça com um nó improvisado que, por mais incrível que pudesse ser, a deixava ainda mais linda. A manta caíra, deixando à mostra um pijama de flanela de bolinhas. Jamais teria pensado em Ava Brenner como o tipo de flanela de bolinhas. Contudo, de um modo estranho, combinava com ela. Ava murmurou um agradecimento quando ele lhe passou o café, e, ao roçar os dedos nos dela, ele não teve como deixar de notar que sua pele continuava tão macia quanto antes. Por um instante, pensou em se sentar ao lado dela no sofá, porém, graças a Deus, o bom senso prevaleceu, e ele retornou para a cadeira. Quando confiou em si mesmo para não estragar a pergunta, disse: – Quer me dizer como acabei passando a noite novamente com você? Estremeceu por dentro. No fundo, não quisera fazer referências àquela noite na escola. Mas ela ergueu a cabeça ante a pergunta. Evidentemente, também não deixou de notar a alusão. – Você não lembra? Ele sacudiu a cabeça. Por mais constrangedor que fosse admitir, falou: – Não. Não lembro muito a respeito de nada após chegar a um restaurante em Michigan Avenue. Exceto, é claro, por recordações passageiras de olhos verdes, de toques suaves e do ligeiro aroma de gardênias. Mas Ava não precisava saber disso. – Lembra-se do que aconteceu antes disso? – Lembro. Contudo também não estava disposto a lhe contar isso. Suspirando ao ver que ele não pretendia se estender na resposta, ela tentou de novo.


– Quando foi que retornou à cidade? – Ontem. – Veio de São Francisco? A pergunta o pegou de surpresa. – Como sabe? – Quando me ofereci para levá-lo para casa, ontem à noite, disse que o passeio seria longo. Depois, me contou que mora em uma região chamada Sea Cliff, em São Francisco. Parece ser uma vizinhança agradável. Agradável era pouco. Sea Cliff era uma das comunidades mais caras e exclusivas de São Francisco, repletas de enormes e luxuosas propriedades. Seus dois vizinhos mais próximos eram um magnata editorial globalmente conhecido e um ícone aposentado do rock’n roll dos anos 1960. – Não é ruim – falou evasivamente. – Então, o que o levou à costa oeste? – Trabalho. – Antes que ela pudesse perguntar mais, ele virou a mesa. – Ainda morando em Golden Coast? Por algum motivo, ela estremeceu ante a pergunta. – Não. Meus pais venderam a casa mais ou menos na época que eu me formei na escola. – Devem ter se dado conta de que aqueles dois mil metros quadrados seriam demais para duas pessoas, em vez de três. Sem falar nos criados, é claro. Ela abaixou o olhar para o café. – Apenas dois empregados moravam no local. – Bem, perdoe o meu erro. – Ele olhou ao redor, passando os olhos pela sala de estar, lembrando-se do minúsculo quarto de dormir, e da minúscula cozinha. – E então, que lugar é este? – É... Sou a dona da loja lá embaixo. Uma butique de moda feminina. Ele assentiu. – Quer dizer que o apartamento veio com o lugar, não é? – Algo assim. – Mais fácil me trazer até aqui do que para algum lugar onde teria de explicar a minha presença, não é? Pela primeira vez, passou pela sua cabeça que Ava poderia ser casada. Diabos, por que ela não haveria de ser? Tudo quanto era sujeito em Emerson babava por ela. Seu olhar baixou até a mão que segurava a caneca de café. Nada de aliança. Outra coisa lhe chamou a atenção. Ela sempre usara joias na escola. Brincos de diamantes, anéis de rubis e safiras. Até mesmo um colar de esmeraldas que lhe realçava lindamente os olhos. Antes que pudesse ponderar o significado da ausência de joias, ela disse: – Bem, você não é exatamente uma pessoa fácil de explicar, não é, Peyton? Em vez de continuar especulando, disparou a queima-roupa: – O marido não aprovaria? Ela voltou a abaixar o olhar. – Não sou casada. – Mas ainda há alguém a aguardando em casa para quem teria de me explicar, não é isso?


O fato de ela não responder incomodou Peyton muito mais do que deveria. Procurou se convencer de que era melhor seguir adiante, conseguir a versão condensada dos acontecimentos da noite anterior e chamar um táxi. Procurou se convencer de que não havia nada em Ava que quisesse saber. Nada que ela pudesse dizer que lhe afetaria a vida agora. Procurou se convencer de que tinha de se lembrar de como as coisas eram ruins entre eles na época da escola, não de como foram boas durante uma única noite. Procurou se convencer de todas essas coisas. Porém, como era comum acontecer, não deu ouvidos a uma única coisa que disse. AVA FEZ o possível para se convencer de que não estava mentindo para Peyton. Omitir não era o mesmo que mentir, era? E o que deveria fazer? De modo algum queria que ele visse a caixa de fósforos que chamava de lar. Era para ela ser um enorme sucesso àquela altura. Deveria ter um endereço luxuoso em Gold Coast e um guarda-roupas repleto de peças de grife, assim como gavetas lotadas de joias exclusivas. Bem, tudo bem, tinha as duas últimas coisas. Mas pertenciam à loja, não a ela. Mas podia dar conta do aluguel delas. De qualquer modo, as pessoas acreditavam no que queriam acreditar. Mesmo sentado no apartamento fuleiro dela, Peyton presumia que Ava ainda fosse a mesma estonteante, embora superficial e esnobe, herdeira de Gold Coast que sempre tivera todo mundo comendo na palma de sua mão na época de escola e que costumava morar em um palácio e dirigir uma Mercedes conversível que ganhara de presente em seu 16º aniversário. Evidentemente, ele não soubera como o padrão de vida dos Brenner de Golden Coast havia sido reduzidos a um estado de pobreza parecido com o qual ele escapara em South Side. Não sabia que o pai dela ainda estava cumprindo pena por sonegação de impostos e fraude, tudo para sustentar um vício em drogas e garotas de programa. Não sabia que a mãe falecera em uma instituição mental, após anos tentando lidar com a angústia e o ostracismo causados pela traição do marido. Não sabia como, antes disso, Colette Brenner deixara o pai dela, e a levara para completar os estudos em Milwaukee, nem que Ava o fizera em uma escola muito parecida com Emerson, só que ela foi a bolsista pobre desprezada pela classe reinante de garotos ricos, do mesmo modo como ela menosprezara Peyton e os amigos dele em Emerson. Às vezes, carma podia ser uma colegial realmente cruel. Entretanto isso só era outro motivo pelo qual não queria que Peyton soubesse a verdade agora. Mal começara a pagar a conta do carma. Passando o último ano de escola no lugar dos alunos que tratara tão mal durante anos, sendo ela mesma tratada igualmente mal, fora uma tremenda lição de vida. Foi o único motivo de ter aberto a Talk of the Town. Para que mulheres que não tiveram as mesmas vantagens na vida que ela tivera pudessem ter a chance de andar nos sapatos de grife da alta sociedade, mesmo que por pouco tempo. Era algo que tinha certeza de que Peyton entenderia, caso viesse de qualquer outra pessoa que não fosse Ava. Se ele descobrisse pelo que ela passara durante o último ano do colégio, zombaria dela implacavelmente. Não que ela não merecesse. Mas uma pessoa gostava de ter um pouquinho de sobreaviso, antes de se ver em uma situação como aquela. Precisava de algum tempo para vestir


a sua armadura de proteção. Ainda mais uma pessoa que sabia a força irresistível que Peyton Moss era capaz de ser. – Não há ninguém me esperando em casa – disse em resposta à pergunta dele. Nem em nenhum outro lugar. Ninguém no seu antigo círculo de amizades quisera ter algo a ver com ela depois que passou a viver abaixo da linha da pobreza, e pisara em gente demais do lado de fora do seu círculo para alguém de lá querer falar com ela. Peyton não seria exceção. Quando voltou a erguer o olhar, ele a estudava com uma atenção que a deixou pouco à vontade. Mas tudo que ele disse foi: – E então, o que aconteceu na noite passada? – Você estava no restaurante de Basilio quando cheguei lá. Escutei gritos no bar, e vi Dennis, o barman, falando com você. Ele sugeriu que, hã, talvez pudesse querer uma xícara de café em vez de outro drinque. – Chama o barman pelo nome? – Claro. Além de Basilio, o proprietário, e Marcus, o garçom que me ajudou a levá-lo para o carro. Costumo sempre comer naquele restaurante. Era o único na vizinhança que ela podia pagar quando levava clientes e fornecedores em potencial. Não que fosse admitir isso para Peyton. Ele assentiu. – É claro que sempre come ali. Para que cozinhar para si mesma, quando pode pagar alguém para fazer isso por você? Ava ignorou o comentário. No fundo, Peyton acreditaria no que quisesse a seu respeito. Jamais lhe ocorreria que 16 anos poderiam amadurecer uma pessoa, tornando-a menos superficial e mais compassiva. Dezesseis anos, evidentemente, não o amadureceram, já que estava tão pronto para pensar o pior dela. – De qualquer modo – prosseguiu –, você não gostou da sugestão de Dennis de que bebera demais, Peyton, e ficou um tanto quanto... beligerante. – Beligerante? Eu nunca fico beligerante. Ava preferiu não discutir. Ele pareceu perceber o que estava se passando pela cabeça dela, pois acrescentou: – Não fico mais. Já faz muito tempo desde a última vez que fui beligerante com qualquer um. É, provavelmente cerca de 16 anos. Depois que se formou em Emerson, deve ter ficado sem alvos para a sua fúria. Especialmente Ava Brenner. – Basilio ia expulsá-lo, mas eu... quero dizer, quando percebi que era alguém que eu conhecia... eu... eu lhe disse que éramos... – De alguma maneira, conseguiu não engasgar nas palavras. – Velhos amigos. E me ofereci para levá-lo para casa. – E ele deixou? – Peyton perguntou. – Deixou que fosse embora com alguém que ele jamais vira na vida? Puxa, acho que ele realmente não queria ofender a galinha dos ovos de ouro. Fervilhando de raiva, Ava lhe disse: – Ele deixou porque você se acalmou depois que me reconheceu. Já estava até sendo gentil comigo, quando Marcus e eu o colocamos no carro. Difícil de acreditar, eu sei. – Antes que ele


pudesse fazer qualquer comentário, ela apressou-se em prosseguir: – Contudo, desmaiou assim que estava no carro. Não tive escolha senão vir com você para cá. Consegui acordá-lo tempo o suficiente para trazê-lo para o apartamento, contudo, quando estava programando a cafeteira, você encontrou o caminho do quarto e apagou novamente. Achei que fosse apenas dormir algumas horas, mas... Bem. Não foi o que aconteceu. – Tenho trabalhado muito nas últimas semanas. Um projeto importante. Não tenho dormido muito. – Também estava bêbado como um gambá – ela falou, mais porque ainda estava incomodada com o comentário da galinha dos ovos de ouro. A despeito disso, perguntou-se que tipo de trabalho ele devia fazer e que rumo a sua vida tomara desde que haviam se formado. Havia quanto tempo morava em São Francisco? Era casado? Tinha filhos? Não resistiu à tentação de olhar para a mão esquerda de Peyton. Nada de aliança. Também não havia qualquer marca indicando que já houvesse havido uma ali. Não que isso definisse alguma coisa. Mesmo não sendo casado, não significava que não houvesse uma mulher importante em sua vida. Não que Ava ligasse para isso. Tudo que importava para ela era livrar-se dele. Tirá-lo de seu apartamento. Tirá-lo de sua vida. Contudo, para a sua surpresa, escutou-se perguntando. – E então, por que está de volta a Chicago? Ele hesitou, como se estivesse tentando pensar em uma resposta. Por fim, disse: – Estou aqui porque a minha diretoria me forçou a vir. Diretoria? Ava pensou, tomada de incredulidade. Ele tinha uma diretoria? – Diretoria? – Ava perguntou. – Você tem uma diretoria? A pergunta pareceu ainda pior saindo de seus lábios do que na sua cabeça. Antes que tivesse a chance de pedir desculpas, Peyton lhe disse, com um olhar fulminante: – É Ava, tenho uma diretoria. Faz parte de uma corporação multimilionária da qual eu sou o principal acionista, além de presidente. Uma empresa que carrega o meu nome, já que, caso eu não tenha mencionado, sou o dono. Ava ficou mais espantada com cada palavra que era dita. Mas sua surpresa não se devia a descobrir que ele era um grande sucesso. Sempre soubera que Peyton era capaz de ser ou fazer o que bem quisesse. Apenas não imaginava que ele se tornaria o tipo coorporativo. Pelo contrário. Sempre zombara do mundo coorporativo. Desprezava qualquer um que ansiasse por fazer muito dinheiro. Desprezava pessoas como aquelas no círculo de amizades de Ava. E, agora, era uma delas? Contudo, desta vez, guardou para si o seu assombro. Ou pelo menos, pensou ter guardado, até ele acrescentar: – Não precisa parecer tão chocada. Eu tinha uma ou duas boas qualidades na época da escola, e uma delas era ética de trabalho. – Peyton, eu não quis dizer... – Uma ova que não quis. – Antes que ela pudesse retrucar, ele continuou: – Na realidade, Moss Holdings Incorporated está para se tornar uma corporação bilionária. A única coisa me separando


de todos aqueles zeros a mais é uma pequena empresa no Mississipi chamada Montgomery & Sons. Só que ela não pertence mais ao Montgomery e aos filhos. Todos morreram há mais de um século. Agora pertence às netas dos filhos de Montgomery, ambas na casa dos oitenta. Ava não fazia ideia do que dizer. Não que ele parecesse estar esperando uma resposta dela, pois, subitamente, ficou agitado, e levantou-se da cadeira, para andar de um lado para o outro. – Helen e Dorothy Montgomery – prosseguiu. – Duas doces velhinhas sulistas que usam chapéus e luvas brancas para reuniões coorporativas e todos os anos mandam cestas de Natal para todo mundo, com agasalhos e meias que elas mesmas fizeram. São meio que lendas na comunidade financeira. Ele se deteve perto da porta da frente, olhando para algo que Ava não conseguiu identificar o que era. – Ah, sim, todo mundo adora as irmãs Montgomery – ele murmurou. – São tão doces, tão velhinhas e tão sulistas. Sendo assim, parecerei um valentão quando for atrás da empresa delas com a minha costumeira... como foi mesmo que o Financial Times disse? Ah, sim. Com a minha costumeira “crueldade implacável e estarrecedora”. E ninguém irá querer voltar a fazer negócios comigo. Ele agora olhou para Ava com tamanha intensidade que parecia que aquilo tudo era culpa dela. – Não que haja muitos negócios ou comunidades financeiras que gostem de mim agora. Mas, pelo menos, fazem negócios comigo. Se é que sabem o que é bom para eles. Embora não soubesse se ela deveria fazer parte da conversa, perguntou: – Nesse caso, por que está indo atrás da empresa das Montgomery? Com crueldade ou não? Peyton voltou a se sentar, ainda parecendo agitado. – Porque é o que a Moss Holdings faz. É o que eu faço. Vou atrás de empresas em apuros e as adquiro por uma fração do que elas realmente valem, depois, as torno rentáveis novamente, em geral me desfazendo do que não é necessário, como pessoas e benefícios. Em seguida, vendo as empresas por um lucro considerável. Ou então, a desmembro e vendo as partes para quem der mais. De qualquer modo, sou o tipo de homem que ninguém gosta de ver chegando. Geralmente porque significa o fim de empregos, tradições e um estilo de vida. Em outras palavras, ela traduziu. O que ele fazia levava ao fim de carreiras e renda e mergulhava as pessoas no tipo de ambiente do qual ele tivera de se arrancar com unhas e dentes quando adolescente. – Nesse caso, por que faz isso? A resposta foi rápida e direta ao ponto. – Porque me rende um bocado de dinheiro. Ela teria perguntado por que fazer muito dinheiro era tão importante a ponto de destruir vidas, mas já sabia a resposta. Pessoas que cresciam pobres costumavam considerar dinheiro a sua maior prioridade. Muitos achavam que ter muito dinheiro consertaria tudo em suas vidas, resolvendo suas inseguranças e carências. Alguns eram determinados o bastante para se tornarem grandes sucessos, pelo menos no que dizia respeito a ganhar dinheiro. Consertar suas vidas e resolver suas inseguranças e carências era um pouco mais complicado.


Estranhamente, eram pessoas como Ava, que haviam crescido com dinheiro e tido tudo quanto era tipo de privilégio que se davam conta de como era errado acreditar nisso. Dinheiro não consertava nem resolvia nada. Claro, solucionava muitos problemas na vida. Mas não mudava quem uma pessoa era no seu íntimo. Não fazia ninguém respeitá-lo nem amá-lo. Pelo mens, não pelos motivos certos. E não trazia consigo promessa de... bem, de nada. – Mas por que estou lhe contando iso? – Peyton perguntou irritadamente. – Não sei. Talvez porque precise desabafar? Mas por que desabafar sobre um negócio, quando os realiza o tempo todo? A não ser que haja algo neste negócio em particular que o faz sentir como... como foi que disse? Um valentão e um cretino. Ignorando a analise, ele disse: – De qualquer forma, pensando em boa publicidade, projetos futuros em potencial, minha diretoria achou melhor eu não ir atrás das irmãs Montgomery como eu costumo ir atrás de outras empresas, com agressividade. Acham que eu devo... delicadamente convencê-las com o meu charme e minha simpatia. De algum modo a palavra delicadeza e Peyton Moss não combinavam, quanto mais charme e simpatia. Desta vez, Ava conseguiu ficar de boca fechada. Contudo, por algum motivo, ele parecia ter necessidade de falar sobre o que o trouxera ali, e, por algum motivo, ela não queria pará-lo. – A diretoria acha que será mais fácil de evitar processos e problemas com os sindicatos se convencermos as Montgomery a passarem a empresa para nós, em vez de nos apossarmos dela. De modo que me enviaram até aqui para, nas palavras deles, “exorcizar os meus demônios urbanos e aprender a ser um cavalheiro”. Eles até arrumaram alguém que, supostamente vá dar um jeito em mim. Um tipo de Henry Higgens. E, quando eu estiver refinado, voltarei para São Francisco e irei atrás das Montgomery & Sons. Mas delicadamente – ele acrescentou. Ele olhou para Ava como se estivesse esperando que ela dissesse alguma coisa. Não que ela soubesse o que dizer, embora, enfim, estivesse começando a entender o que o trouxera de volta a Chicago. Era óbvio que Peyton Moss não nascera para ser um cavalheiro. O que não significava que não poderia se tornar um. Com a devida orientação. O que, mesmo assim, era difícil de imaginar. Quando ela nada disse, ele apressou-se em acrescentar: – Mas quer escutar o melhor de tudo? O fato é que queria, mais do que provavelmente deveria admitir. – O melhor de tudo é que acham que eu deveria arrumar uma mulher enquanto estou aqui. Até contrataram uma daquelas casamenteiras de milionários, que deveria me apresentar... – ele inspirou fundo – ao tipo certo de mulher. A primeira reação de Ava foi um estranho alívio, ao se dar conta de que ele não estava em um relacionamento sério. Sua segunda reação foi uma decepção ainda mais estranha ante a perspectiva de que isso estivesse prestes a mudar. Ele acrescentou. – Os diretores acham que as irmãs Montgomery podem receber mais favoravelmente o seu negócio de família sendo tomado por outra família, em vez de um solteirão implacável, como eu. – Ele sorriu tristemente. – De modo que, para finalmente responder à sua pergunta, estou em Chicago, Ava, para apagar todas as evidências de meu constrangedor passado de pobre e para


aprender a ser um cavalheiro em uma sociedade refinada. Ah, e devo encontrar uma boa moça da alta sociedade que me dará uma aura de respeitabilidade. – Bem, nesse caso, espero que seja muito feliz nessa sociedade com a sua moça de alta sociedade. – Ah, o que foi, Ava? – ele perguntou, em um tom tão frio quanto o dela. – Não suporta a ideia de que agora estejamos no mesmo patamar social e financeiro? – Peyton, não é... – É, e lá se vai a vizinhança. – Peyton, eu não quis dizer... – Basta deixar a gentalha entrar para ir tudo por água abaixo, não é? Ava parou de tentar explicar e se desculpar, já que ele claramente não deixaria fazer nenhuma das duas coisas. O engraçado é que, na realidade, não estavam no mesmo patamar social e financeiro. Ava estava tão abaixo dele em ambas as categorias que nem seria atingida por trocados que caíssem de seu bolso. – E quanto a você? – ele perguntou. A mudança súbita de assunto a pegou de surpresa. – O que tem eu? – O que está fazendo agora? Lembro que queria ir para Wellesley. Que ia se formar em arte, ou coisa do gênero. Não conseguia acreditar que ele se lembrava do que ela queria estudar na faculdade. Ela mesma já quase esquecera. Não se permitira pensar em coisas como aquelas depois que a fortuna da família se evaporara. Embora inteligente, Ava sempre fora preguiçosa. Por que se preocupar com notas quando os pais tinham dinheiro e contatos para garantir que fosse aceita na faculdade que escolhesse? Só entrara na escola em Milwaukee porque quase gabaritara o exame de admissão. Como poderia contar para Peyton que acabara estudando administração em uma faculdade pública? – Inglês – ela respondeu evasivamente. – Eu queria me formar em Língua Inglesa. Ele assentiu. – Certo. E onde acabou estudando? – Wisconsin – ela respondeu, sendo deliberadamente vaga. Com surpresa, ele ergueu as sobrancelhas. – Universidade de Wisconsin? Escolha interessante. – A Universidade de Wisconsin tem um excelente departamento de Inglês. Era verdade. Ela apenas não fizera parte dele. Procurou se convencer de que não estava mentindo para Peyton. Referira-se ao estado, não à universidade. Ele que presumira errado, como estava presumindo muitas coisas a respeito dela. Para que o corrigir? Em questão de minutos, estaria fora de sua vida. – E agora é dona de uma butique de roupas. Bom ver que está fazendo bom uso do diploma em Língua Inglesa. Por outro lado, não é como se trabalhasse lá, não é? Pensando bem, inglês é um bom diploma para uma herdeira. Considerando que não precisa ganhar o seu sustento, como o resto de nós pobres coitados trabalhadores.


Em vez de se defender, Ava mordeu a língua. Ainda tinha uma centelha de orgulho que a impedia de revelar a verdade para ele. Tudo bem, isso e o medo de ser implacavelmente ridicularizada quando ele descobrisse que perdera tudo. – Terminou o seu café? – perguntou. Era a maneira mais gentil que conhecia de dizer cai fora. Ele olhou para a xícara. – É, terminei. Todavia não fez a menor menção de ir embora. Ava o fitou, considerando tudo que aprendera. Ele alcançara o sucesso em cerca de uma década. Ela se formara havia quase tanto tempo quanto ele, mas ainda estava lutando para sobreviver. Ir tão longe em tão pouco tempo não era apenas ambição. Era... Bem, era Peyton. Contudo, jamais teria adivinhado o seu galgar estratosférico se ele não tivesse contado. Deveria valer quase um bilhão de dólares, mas nada no modo como se vestia ou na sua aparência evidenciava isso. Tanto as roupas quanto o corte dos cabelos, apesar de serem de qualidade, não eram o que se esperaria de alguém na sua posição. Entretanto Peyton jamais fora alguém de ligar para aparência. Ao ficar de pé, ele hesitou. Como se quisesse dizer alguma coisa. Mas seguiu para a cozinha sem dizer uma palavra. Escutou-o lavar a xícara e colocá-la na secadora, depois seguir para o quarto de dormir dela. Quando voltou, usava o paletó e os sapatos, mas a gravata estava frouxa ao redor do pescoço. Parecia um homem que bebera demais na noite anterior e dormira em uma cama que não era a sua. Mas nem mesmo isso o tornava menos atraente. E era essa a questão, no fundo, Ava ainda se sentia atraída por ele. Mas poderia resistir a Peyton Moss, contanto que ele fosse embora agora e jamais retornasse. Por um instante, ficaram apenas a fitar um ao outro em silêncio. Havia tantas coisas que Ava queria dizer. Tantas coisas que queria que ele soubesse. Sobre o que acontecera com a sua família naquele verão havia tanto tempo e sobre como o seu último ano de escola a modificara tanto. Sobre a vida que agora levava. Mas não conseguia achar as palavras. Tudo que lhe vinha à cabeça parecia fraco, defensivo ou fedia a autopiedade. E não tolerava a ideia de Peyton pensando nela dessa forma. Por fim, graças a Deus, ele deu fim ao silêncio. – Obrigado, Ava... por garantir que eu não passasse a noite em algum beco sujo por aí. – Estou certa de que teria feito o mesmo por mim. Ele nem concordou nem discordou. Apenas seguiu para a porta da frente, abriu-a e cruzou o batente. Por um instante, ela chegou a pensar que ele fosse embora sem sequer se despedir, exatamente como dezesseis anos antes. Contudo, ao começar a fechar a porta, ele virou-se e olhou para ela. – Foi... interessante... voltar a vê-la. Sem dúvida fora. – Adeus, Peyton – ela disse. – Fico feliz que esteja... tão bem de vida. Estou feliz que esteja tão bem de vida.


– É, bem de vida– ele murmurou. – Sem dúvida nenhuma estou. O comentário foi curioso. Pareceu sarcástico. Mas por que ele pensaria o contrário? Tinha tudo que quisera conquistar. Contudo, antes que pudesse dizer outra palavra, ele fechou a porta. E então, como dezesseis anos antes, Peyton se fora. E não se despedira.


CAPÍTULO 3

NÃO ERA com frequência

que Ava escutava uma voz masculina na Talk of the Town. Mais incomum ainda foi quando reconheceu a voz grave vindo de fora do escritório como sendo de Peyton. Lucy, uma das suas vendedoras em tempo integral, esticou a cabeça para dentro do escritório. – Há um homem aqui fora a procurando, Ava – falou, ajeitando os óculos de aro preto. – Um sr. Moss? Ele pareceu surpreso quando eu disse que você estava aqui. – Abaixando o tom de voz, ela continuou: – Acho que estava querendo pegar o seu telefone. O que, é claro, eu jamais daria. – Ela sorriu, e, quase sussurrando, disse: – Melhor vir falar com ele. É um gato. No seu íntimo, Ava suspirou. Claramente Peyton não perdera a sua capacidade de ir de zero a cem na escala do charme em dois segundos cravados. O que ele estava fazendo ali? Cinco dias haviam se passado desde a conversa no apartamento dela, nenhum dos quais havia chegado ao fim sem ela pensar em todas as coisas que desejara ter dito para ele. Ela sempre se prometera, e ao carma, que, se um dia encontrasse qualquer um de seus antigos colegas de Emerson que ela tratara mal quando adolescente, pediria desculpas e faria de tudo para se redimir. Quem diria que quando o destino enfim colocasse uma de suas antigas vítimas no seu caminho, ele começasse pela maior de todas? Por que então não tentara se redimir no sábado? Por que não pedira desculpas? Por que, em vez disso, deixara que ele achasse que ainda era a mesma garota egoísta, superficial e esnobe que fora na época de escola? Muito bem, aqui estava uma segunda chance de fazer a coisa certa, mesmo não tendo certeza do que poderia fazer para compensar o seu antigo comportamento, o mínimo que poderia fazer era pedir desculpas. – Na verdade, Lucy, em vez disso, por que não o traz ao escritório? A surpresa de Lucy foi evidente. Ava não costumava permitir que ninguém além dos funcionários viesse até os fundos da loja. A cabeça de Lucy desapareceu do vão da porta, mas Ava conseguiu lhe escutar a voz ao longe. – Pode ir até o escritório nos fundos. Fica bem por ali.


Ava alisou o vestido justo da Yves Saint Laurent que pegara para usar naquela manhã. Acabara de ajeitar o cabelo quando Peyton apareceu na porta da sala, fazendo o seu escritório que já era pequeno parecer ainda menor. Estava ainda mais bonito do que na última vez em que o vira. Por causa do vento, o cabelo encontrava-se deliciosamente desordenado. Os olhos cor de uísque estavam mais claros. O terno amassado fora substituído por um par de jeans desbotados e uma jaqueta de couro. Lembrava mais o garoto que ela conhecera na escola, ou, pelo menos, o garoto que ela conhecera na escola nas poucas ocasiões em que o encontrara fora da escola. A princípio, ele nada disse. Apenas olhou para ela da mesma forma que o fizera no sábado, como se não conseguisse acreditar que ela fosse de verdade. Relaxando aos poucos, ele acabou se encostando no batente da porta e enfiando as mãos nos bolsos do jeans. – Oi – por fim disse. – Oi – ela respondeu. Tentou parecer tão descolada quanto ele, mas sentiu a mesma coisa que sentira no sábado, como se estivesse na escola novamente. Como se precisasse colocar nos ombros o manto da cruel princesa do gelo riquinha para se proteger das alfinetadas que sabia que estavam por vir. A ideia de que a garota que costumava ser ainda estivesse escondida dentro dela a deixava horrorizada. Jamais queria voltar a ser aquela pessoa. Jamais voltaria a ser aquela pessoa. Apesar disso, algo em Peyton fazia a adolescente arrogante borbulhar no seu íntimo. O silêncio tomou conta do escritório por um instante constrangedor. Depois, Peyton disse: – Você me surpreende, estando aqui. Vim na sua loja para saber se alguém aqui sabia onde eu poderia encontrá-la. Não esperava realmente encontrá-la aqui. Pois ele não achava que ela, de fato, trabalhasse ali. Não querendo voltar a ficar na defensiva, Ava procurou se convencer a não se deixar ofender pelo comentário e lembrou-se de que tinha de se redimir. A melhor maneira de fazer isso era ser a pessoas que ela era agora, e não a pessoa que costumava ser. – Estou aqui com muito mais frequência do que você pensa – falou mais uma vez evitando a verdade. Contudo, não podia exatamente apressar o apaziguamento do carma. Uma coisa era se redimir pelo seu comportamento passado. Outra era abrir seu coração para Peyton a respeito de tudo que acontecera com a sua família e admitir que terminara a escola na mesma posição que ele, e que agora realmente lamentava o modo como se portara durante todos aqueles anos. Isso não era necessário, não é? Entrar em tantos detalhes? Uma mulher tinha de ter alguns segredos. E Ava não sabia ao certo se poderia aguentar a satisfação de Peyton ao descobrir sobre isso. Ou, pior, se ele mostrasse o mesmo tipo de pena fingida que tantos dos seus antigos supostos amigos demonstraram. Ah, Ava, diziam sempre que ela dava de cara com eles. O seu pobre pai já saiu da prisão? Não? Querida, como é que você aguenta a humilhação? Precisamos nos reunir para almoçar um dia, tirála dessa lojinha onde precisa trabalhar até os dedos sangrarem. Eu ligo para você. Nenhuma ligação jamais foi recebida, é claro. Não que Ava as quisesse. E os comentários não a incomodavam mais, afinal, não ligava mais para aquelas pessoas. Porém, vindos de Peyton... Por


algum motivo, desconfiava que tais comentários a incomodariam muito. De modo que procurou enrolar. – Deveríamos receber alguns vestidos de baile da Givenchy hoje, e eu queria dar uma olhada neles antes de colocá-los nas araras. Era a mais pura verdade. Ela apenas não mencionou que teria estado na loja mesmo que estivessem esperando a entrega de plástico bolha. Ela passava mais tempo trabalhando na Talk of the Town do que as suas duas funcionárias em tempo integral combinadas. – Nesse caso, acho que tive sorte em ter vindo hoje. Parecia um pouco ansioso. – O que o fez vir? Pensei que estaria ocupado sendo apresentado a damas da alta sociedade enquanto estivesse na cidade. Ele sorriu debilmente, jogando o peso de um pé para o outro. – É, bem... na verdade... – Ele inspirou fundo, expirou, e tentou novamente. – Na verdade, é mais ou menos por isso que estou aqui. Ele gesticulou na direção da outra cadeira no escritório, e perguntou: – Importa-se se eu me sentar? – Claro que não – respondeu, embora, de certa forma, se importasse, pois isso o traria mais para perto, e seria ela a tentar parecer à vontade, quando, no fundo, nada poderia estar mais longe da verdade. Ele acomodou-se na cadeira e continuou a parecer intranquilo. Ela aguardou que ele dissesse algo, mas Peyton apenas olhou ao redor do escritório, seu olhar repousando sobre o calendário do Ano na Moda pendurado na parede. Depois, passou para a pilha de volumes grossos da Vogue, Elle e Marie Claire no estante, seguindo para a planilha de horas dos empregados, sobre a mesa, na qual ela estivera trabalhando, e, depois... Ah, Deus. A planilha de horas dos empregados, que tinha o nome e as horas dela proeminentes no topo. Apressadamente, pegou alguns catálogos e os depositou sobre a planilha. Ele enfim olhou para o rosto dela. – O Henry Higgens não deu certo. – O que houve? – Disse que eu tinha de parar de praguejar e maneirar o meu linguajar. Ava mordeu o lábio inferior para se impedir de sorrir, já que, para Peyton, isso era claramente um obstáculo insuperável. – Bem, se vai lidar com duas doces velhinhas do Mississipi, na casa dos 80 e que usam chapéus e luvas brancas, isso provavelmente é um bom conselho. – É, mas as irmãs Montgomery estão a cinco estados de distância. Não podem me escutar praguejando em Chicago. – Contudo, se for um hábito, agora é uma boa hora para começar a cortá-lo, já que... – Droga, Ava, posso parar de praguejar a hora que eu quiser. – Ah, é mesmo? – Diabos, pode apostar que sim. – Entendo.


– E deveria ter visto os ternos em que ele tentou me colocar. – Bem, ternos são de praxe para homens de negócios, ainda mais na sua posição. Estava usando terno no restaurante de Basilio ontem à noite. Por que o problema súbito com ternos? – O problema não é com ternos, mas sim com os ternos que ele queria que eu usasse. Um deles era roxo. Ah, desculpe – ele rapidamente tratou de se corrigir. – Eu quis dizer cor de berinjela. Ou outro era verde-vômito. – Não seria verde-abacate? – É. Pode ser. – São cores que estão na moda. Ainda mais para sujeitos jovens como você. Peyton sacudiu a cabeça. – Um terno deveria sempre ser preto, cinza ou marrom. Nada de cor de café, grafite nem ébano. Cinza. Marrom. Preto. Talvez, em certas ocasiões, azul-marinho. Com certeza não deveria ser roxo nem verde-vômito. Ava fechou a boca. – E não venha me falar das lições de etiqueta – Peyton prosseguiu. – E toda a bobagem sobre comportamento apropriado, seja lá o que for isso. Ele até tentou me convencer do que posso ou não comer em um restaurante. – Peyton, todas essas coisas são importantes quando se trata de lidar com as pessoas em situações profissionais. Ainda mais quando está fazendo negócios com pessoas da velha guarda, como parece ser o caso das irmãs Montgomery. Ele amarrou a cara. – Ava, não cheguei aonde cheguei estudando livros de etiqueta nem me comportando apropriadamente, seja lá o que for isso. O negócio era saber o que eu queria, e ir atrás. – E é óbvio que isso deu certo no passado – ela concordou. – Mas admitiu que terá de operar diferentemente com as Montgomerys. Isso significa usar um novo livro de regras. – Eu gosto do meu livro de regras. Por que ele estava ali? Ava voltou a se perguntar. Era uma conversa estranha para estar tendo com ela. Ainda assim, estavam se dando bem. Mais ou menos. Talvez ela apenas devesse se deixar ir com a correnteza. Ele murmurou algo inteligível, mas ela podia apostar que eram mais dos impropérios que ele deveria estar maneirando. Seu tom de voz ficou ligeiramente mais gentil. – Tudo que estou dizendo é que o tal do tipo Henry Higgens não me conhece, e não faz a mínima ideia do que vai dar certo ou não para mim. Preciso trabalhar com alguém que apare as minhas arestas sem desfigurar por completo a peça original. Tudo bem. Ela estava começando a entender. Ele queria ver se ela poderia recomendar outra pessoa para ele. Como era dona de uma loja como a Talk of the Town, Peyton achava que ela tivesse contatos no ramo dos estilistas que pudessem ajudá-lo. – Há vários estilistas em Chicago que são muito bons – ela falou. – Vários deles costumam trazer os seus clientes para mim. – Ela pegou um fichário contendo os cartões de visitas que acumulara ao


longo dos anos. – Apenas me dê um minuto para ver se encontro alguém cuja personalidade combine com a sua. Ah... Como se houvesse um ser vivo na face da terra cuja personalidade combinasse com a de Peyton. O melhor que ela poderia fazer era encontrar alguém que não se deixasse intimidar facilmente. Antes que tivesse a chance de abrir o fichário, Peyton pousou a mão sobre a dela. Ava tentou ignorar o frio na barriga. Inutilmente. Quando ele voltou a falar, sua voz pareceu vir de bem longe. – Não, Ava. Quem quer que recomende vai estar no mesmo barco que o último sujeito. Não me conhecerá. Não terá ideia do que fazer comigo. Por um instante, ela nada disse, apenas fitou a mão cobrindo a dela, notando como parecia ter o dobro da dela, como era mais áspera, e abrutalhada. Suas mãos eram tão diferentes. Contudo, se era assim, por que se encaixavam tão bem? Por que o toque dele parecia tão... perfeito? Relutantemente, puxou a mão de sob a dele e a pousou no colo. – Nesse caso, por que está... No instante em que seus olhares voltaram a se conectar, ela começou a entender. Decerto, Peyton não estava sugerindo que... De modo algum ele... Era ridículo sequer pensar que... Ele não poderia querer que ela fosse a sua estilista. Poderia? Ela era a inimiga eterna dele. O próprio Peyton dissera isso. Não na cara dela, mas para um amigo. Ava escutara os dois conversando ao sair do banheiro masculino, perto do armário dela em Emerson. Os alunos do último ano estavam estudando Romeu e Julieta, e ela o escutara dizer que os Montecchios e os Capuletos em nada ficavam a dever aos Mossen e Brenner. Ele dissera para o amigo que ele e Ava seriam inimigos para sempre. Depois, rogou uma praga para a família dela. Com muito cuidado, ela perguntou: – Peyton, por que exatamente está aqui? Ele se inclinou para a frente na cadeira, entrelaçando os dedos das mãos entre as pernas. – Exatamente? Estou aqui porque não sabia mais para onde ir. Não há muitas pessoas na cidade que se lembrem de mim... Ah, ela francamente duvidava disso. – E há ainda menos que eu gostaria de rever. Nisso ela podia acreditar. – E não devo voltar a São Francisco até, hã... – ele gesticulou com a mão, como se estivesse literalmente tentando encontrar a palavra certa – até eu ser adequado para o tipo certo de sociedade. Quando Ava nada disse, pois, francamente, não sabia o que dizer, ele suspirou e voltou a se recostar na cadeira. Por fim, à queima-roupa, disparou: – Ava, quero que seja a minha Henrietta Higgins.


PEYTON TENTOU se convencer de que não deveria ter ficado surpreso por Ava ter ficado sem reação. Foi mais ou menos o que acontecera com ele ao escapulir da sala do Henry Higgins no dia anterior. Mas de modo algum teria conseguido continuar trabalhando com o sujeito, e algo lhe dizia que qualquer outra pessoa, apenas seria pior. Como queriam transformá-lo de uma mochila de lona em uma bolsa de seda, se não sabiam como ele se tornara uma mochila de lona em primeiro lugar? De qualquer modo, jamais seria mesmo uma bolsa de seda. Tinha de trabalhar com alguém que entendesse que o melhor que conseguiria seria algo no meio do caminho entre as duas coisas. Como... uma bola de futebol de algodão. É, é isso. Mas ainda precisaria de ajuda para chegar lá. E teria de ser de alguém que não só soubesse como aparentar e se portar em alta sociedade, mas que o conhecesse e as suas limitações. E quem conhecia suas limitações melhor do que Ava? Quem entendia a alta sociedade melhor do que Ava? Talvez ela não gostasse dele. Talvez ele não gostasse dela. Mas ele a conhecia. E ela o conhecia. Isso era mais do que poderia dizer de todos os Henry Higgins do mundo. Apesar de suas diferenças, ele e Ava já haviam trabalhado juntos antes. Por que haveriam de não conseguir trabalhar juntos como adultos? Diabos, adultos deveriam ser ainda melhores em colocar de lado suas diferenças, não é? Peyton trabalhava com gente assim o tempo todo. Estavam sendo civilizados um com o outro, não estavam? Ou, pelo menos, vinham sendo, antes de Peyton jogar a bomba de Henrietta Higgins, e Ava ficar catatônica. – O que me diz, Ava? – ele perguntou, em um esforço de retomar a conversa. – Acha que poderia me ajudar. – Eu, hã... – Quero dizer, esse tipo de coisa cai bem dentro da sua alçada, não é? Mesmo que não fosse dona de uma loja que lida com moda e esse tipo de coisa. – Moda e esse tipo de coisa? Não dava para ele se portar mais como um adolescente? – Sabe tudo a respeito de como as pessoas devem se vestir e agir em situações sociais. – Sim, mas... – E me conhece bem o suficiente para não me vestir de roxo. – Bem, isso certamente é verdade, mas... – E falaria comigo da maneira certa. Não diria coisas como... – Ele tratou de imitar o homem que queria vesti-lo de roxo. – “Sr. Moss, poderia ter a gentileza de evitar as vulgaridades que determinamos anteriormente que seriam prejudiciais no tocante à sua recepção pelas damas que está tentando impressionar”? Você apenas diria: “Peyton, as Montgomery vão lavar a sua boca com sabão se insistir em continuar usando a palavra com M. E, simples assim, eu saberia a respeito do que estava falando e tomaria uma atitude a respeito. Desta vez, Ava apenas ergueu a sobrancelha, com o que poderia ter sido diversão ou censura. Ou algo mais que ele provavelmente não queria identificar. – Tudo bem, talvez eu não obedecesse logo de cara. Mas pelo menos saberia do que estava falando, e poderíamos chegar a algum tipo de compromisso. A sobrancelha abaixou-se, e o canto da boca repuxou-se, só não soube dizer se estava se repuxando para cima ou para baixo. Bem, pelo menos não estava jogando nada nele. Suspirando, ele endireitou-se na cadeira e a fitou nos olhos.


– Olhe, Ava, sei que jamais fomos os melhores amigos... – Mesmo tendo sido, por uma noite apenas, amantes, não pôde deixar de pensar, embora não soubesse o que ela pensava a respeito disso. – Mas é evidente que preciso de ajuda com meu novo eu, e não a conseguirei de um total desconhecido. Não conheço ninguém por aqui que possa me ajudar exceto você. Pois é a única aqui que me conhece. – Eu conhecia você – ela corrigiu. – Quando estávamos na escola. Nenhum de nós é a mesma pessoa que era. Algo na sua voz fez Peyton hesitar. Contudo, era verdade que, de muitas maneiras, não era a pessoa que fora na escola. Ava, evidentemente, ainda era. Talvez como adulta não fosse tão esnobe, egoísta nem superficial quanto a garota que fora, mas ainda era capaz de colocar um sujeito no seu lugar. Ainda tinha classe. Ainda era linda. Ainda era areia demais para o caminhão dele. Diabos, ela não mudara nem um pouco. – E então, fará isso? – perguntou, deliberadamente não lhe dando tempo para pensar. Mas ela pensou de qualquer jeito. Ficou aliviado quando Ava, por fim, sorriu. Até ela perguntar. – Quanto paga o cargo? Ele ficou de queixo caído. – Paga? Ela assentiu. – Paga. Com certeza, estava pagando o seu antigo estilista. – Sim, mas era o trabalho dele. Ela deu de ombros. – O que quer dizer com isso? Ele não sabia o que queria dizer com isso. Apenas supusera que Ava fosse ajudá-lo. Não pensara que ela pudesse ser mercenária no tocante a isso. Puxa, ela realmente não mudara desde a época da escola. – Tudo bem – ele por fim disse, friamente. – Eu lhe pagarei o que estava pagando para ele. Ele deu um valor, que era alto demais para pagar uma pessoa só para que esta lhe dissesse como deveria se vestir, falar e comer. Ava sacudiu a cabeça. – Não. Terá de fazer melhor do que isso. – O quê? – Peyton, se quiser usar a minha perícia nesse assunto, espero ser compensada de acordo. É claro que esperava. Ava Brenner jamais fazia algo sem ser compensada. – Tudo bem – ele repetiu. – Quanto cobra pela sua perícia? Ela pensou por um instante, antes de oferecer um valor cinquenta por cento mais alto do que ele havia oferecido. – Está maluca – ele disse. – Dá para construir o Taj Mahal com isso. Ela nada disse. Peyton ofereceu dez por cento a mais. Ela nada disse.


Ele ofereceu vinte e cinco por cento a mais. Ela inclinou a cabeça para um dos lados. Ele ofereceu quarenta por cento a mais. – Tudo bem – Ava falou, com um sorriso satisfeito. – Ótimo – ele murmurou. – Eu não quis ser exorbitante. Desta vez, foi Peyton a não dizer nada. Contudo, deu-se conta de que não era por Ava ter barganhado. Era porque fora gostoso cruzar espadas com ela novamente. Embora cruzasse espadas com inúmeras pessoas hoje em dia, jamais sentia a mesma satisfação que costumava sentir quando fazia o mesmo com Ava nos tempos de escola. – Mas, Peyton, terá de fazer a coisa do meu jeito – ela falou, despertando-o de seus pensamentos. Peyton detestava quando as pessoas diziam que tinha de fazer as coisas de um modo diferente do seu. Contudo, por algum motivo, sentiu-se estranhamente animado. – Tudo bem – disse. – Faremos a coisa do seu jeito. Ela sorriu. Ele procurou se convencer de que fora com arrogância. Mas tinha de admitir que ela também parecia feliz de ter aceitado o trabalho.


CAPÍTULO 4

POUCO MENOS de uma hora após Ava ter concordado em se tornar a estilista de Peyton, ela estava sentada diante dele, do outro lado de uma mesa de um restaurante em State Street. Ele lhe pedira para começar o mais rápido possível, já que estava ansioso para retornar aos negócios e já perdera uma semana com o estilista anterior. Como já era quase meio-dia, um almoço pareceu uma boa ideia. Após certificar-se de que sua ausência na loja não seria muito sentida, ela concordara. Por mais surpresa que tivesse ficado com o pedido de Peyton para ajudá-lo, ficara ainda mais surpresa ao se dar conta de que queria fazê-lo. Não porque ele a estava pagando, pois o montante mal daria para cobrir o custo de duas vendedora adicionais para substituí-la. A estranha felicidade, ela supunha, vinha do fato de que ela finalmente seria capaz de se redimir pelo modo como o tratara na época de escola. Era apenas isso, e mais nada, responsável pela estranha felicidade no seu íntimo. De qualquer modo, que diferença fazia? A questão era que deveria estar ajudando Peyton a se tornar um cavalheiro, fazendo com que ele pudesse aumentar ainda mais o seu império financeiro. A questão é que, ao ajudá-lo daquela maneira, não teria de expor sua alma no tocante a detalhes de seu atual estilo de vida. Que bem traria contar para Peyton o que acontecera com a família dela, 16 anos atrás? Não mudaria nada. Ela não poderia simplesmente fazer isso para se redimir pelos seus erros passados? Completaria a missão, realizaria o trabalho, e ele poderia voltar para a costa oeste sem saber de nada. É, isso mesmo. Suspirou internamente ao olhar para Peyton. Não por ele estar lindo sentado ali diante dela, embora estivesse, mas por estar com o cotovelo apoiado na mesa, e o queixo descansando sobre a mão. Ele também a precedera no caminho até a mesa, e se sentara sem sequer pensar nela, antes de pegar o cardápio como se não comesse havia semanas. As ações combinadas lhe davam uma ideia dos desafios que o Henry Higgins anterior havia enfrentado. – Peyton – ela falou, baixinho. O olhar dele jamais deixou o cardápio.


– Oi? Ela nada disse, até ele erguer o olhar para ela. – O que foi? Ela jogou os ombros para trás e empertigou-se no assento, delicadamente pegando e abrindo o cardápio. – O quê? – ele repetiu, ainda mais irritado, desta vez. Tudo bem, se Peyton ia se comportar como uma criança, ela o trataria como uma criança. – Sente-se direito. Ele estreitou os olhos e ia abrir a boca para protestar, mas ela sugestivamente arqueou uma das sobrancelhas, e Peyton voltou a fechar a boca. Para seu crédito, empertigou-se e recostou-se no assento. Era evidente que não estava feliz em obedecer, mas obedecera. – Tire o cotovelo da mesa. Peyton amarrou a cara, mas fez o que Ava mandou. Tendo capturado a sua atenção, ela prosseguiu com a lição. – Outra coisa, quando estiver em um restaurante com uma mulher, e o maître os estiver conduzindo à sua mesa, sempre deve permitir que ela vá na frente para que... – Mas como ela vai saber para onde tem de ir se for na minha frente? – ele interrompeu. Ava manteve a calma. – Talvez se surpreenda com isto, Peyton, mas mulheres são capazes de seguir maîtres em restaurantes tão bem quanto os homens. Além do mais – ela apressou-se em prosseguir, quando ele voltou a abrir a boca para protestar –, quando os dois chegam à mesa, se o maître não puxar a cadeira para ela se sentar, cabe a você fazê-lo. – Mas pensei que mulheres odiassem quando homens puxam a cadeira para vocês, ou abrem a porta para vocês, ou fazem qualquer outra coisa por vocês. – É verdade que algumas mulheres preferem fazer essas coisas elas mesmas, mas não todas. A sociedade já passou do ponto em que essas coisas são vistas como sendo machistas. Agora é simplesmente uma questão de... – Desde quando? – Ele voltou a interromper. – Da última vez que abri a porta para uma mulher, ela só faltou me agredir. Ava manteve a compostura. – E quando foi isso? Ele pensou por um minuto. – Na verdade, acho que foi com você. Estava saindo da aula de química, e você estava entrando. Ava lembrava-se bem do episódio. – E a razão de eu ter tido vontade de agredi-lo não foi por ter aberto a porta para mim. Foi por você e Tom Sellinger terem ficado assoviando quando passei. Em vez de ficar encabulado, Peyton sorriu. – Ah, é, esqueci essa parte. – De qualquer modo – Ava prosseguiu –, hoje em dia é questão de cortesia abrir a porta para alguém, seja homem ou mulher, e puxar uma cadeira para uma mulher. Mas tem razão. Há


mulheres que preferem fazer isso elas mesmas. Um bom indicador é o modo como uma mulher escolhe onde vai se sentar quando chega a uma mesa e vai logo puxando a sua cadeira. – Entendi. – Contudo, pelo que me contou das irmãs Montgomery, elas vão esperar que estenda tal cortesia a elas. – Tudo bem – ele murmurou. – Entendo o que quer dizer. – Não resmungue. Peyton voltou a estreitar os olhos para ela. Mas sua voz foi muito mais clara quando disse: – Muito bem, Da próxima vez que eu estiver em um restaurante com uma mulher, deixarei que ela vá na frente, e ficarei de olho em dicas. Mais alguma coisa? – Ah, sim – Ava retrucou, entusiasticamente. – Apenas começamos. Quando estiverem sentados, deixe que ela abra o cardápio primeiro. E quando estiver olhando o cardápio, é gentileza conversar sobre as opções. Não fique parado olhando para o cardápio até haver se decidido. Pergunte para a sua companheira o que ela acha que pareça estar bom. Se estiver em um restaurante onde já tenha comido antes, pode até dar sugestões. Ele pensou por um instante, antes de perguntar: – Não vai me fazer pedir para você, vai? Detesto fazer isso. – Eu não vou fazer com que peça para mim. Mas há mulheres que gostam quando os homens fazem isso. – E como diabos vou saber se elas querem ou não? Ava discretamente pigarreou. Ele a fitou sem entender. Ela permaneceu em silêncio. Ele pensou na pergunta, e revirou os olhos. – Tudo bem. Como... vou saber? – repetiu, deliberadamente deixando de fora a profanidade. – Saberá porque ela lhe dirá o que está planejando pedir, e quando o garçom se aproximar, você olhará para ela, e ela olhará para você e não dirá nada. Se ela olhar para o garçom, e disser que começará com uma salada de entrada, saberá que ela vai fazer o próprio pedido. – O que acha que as Montgomerys vão fazer? – Não faço ideia. – Droga, Ava, eu... Ela voltou a arquear a sobrancelha, e ele rosnou de irritação. – Detesto isso – ele finalmente sibilou. – Detesto ter de agir como alguém que não sou. Ava discordava que ele estivesse sendo forçado a agir como alguém que não era, especialmente porque, no fundo, tinha confiança de que ele tivesse potencial para ser um cavalheiro. Mas, apesar disso, disse: – Sei que odeia. E, se, depois da aquisição da empresa das Montgomery, quiser voltar aos hábitos antigos, ninguém o impedirá. Até lá, se quiser que a aquisição seja bem-sucedida, terá de fazer o que estou lhe dizendo. Bufando, ele resmungou outra profanidade. De modo que Ava fechou o cardápio e ficou de pé, pegando a bolsa que estava pendurada atrás da cadeira. – Ei – ele falou, também se levantando. – Onde diabos pensa que vai? Disse que me ajudaria. Ela continuou andando.


– Não se você nem vai tentar. Tenho coisas melhores a fazer com as minhas tardes do que ficar aqui olhando-o praguejar. – É... suponho que você poderia fazer um caminhão de compras esta tarde, não é? – ele retrucou. – E então, poderia ir para aquele restaurante onde você sabe o nome de todo mundo. Algum sujeito lá puxará a cadeira e fará todos os pedidos para você. E aposto que ele não praguejará. Ela se deteve e voltou-se para encará-lo. – Você sabe, Peyton, não estou certa de que a alta sociedade seja para você. Vá adiante e atropele duas velhinhas gentis. Sempre foi melhor fazendo essas coisas do que pedindo algo polidamente. Por que ela achara que isso poderia dar certo? Só porque haviam sido capazes de ser civilizados um com o outro por dez minutos no escritório dela? Pois, sim. Dez minutos fora o maior tempo que os dois já haviam sido capazes de permanecer na presença um do outro antes que as bombas começassem a cair. Bem, exceto por aquela noite na casa dos seus pais. Por outro lado, aquela noite também fora bem explosiva. Ela deu dois passos antes que ele a segurasse pelo braço e a virasse. Apesar de saber que um dos dois tinha de bancar o adulto, Ava se preparou para outra rodada de combate, mas, com sinceridade e suavidade, ele disse: – Desculpe. Ela relaxou um pouco. – Desculpas aceitas. – Será que pode voltar para a mesa? Por favor? Ela sabia que não fora fácil para ele pedir desculpas. O uso da palavra por favor provavelmente fora ainda mais difícil. Ele estava tentando. Talvez os dois sempre fossem ser como fogo e água, mas ele estava fazendo um esforço. Seria pequenez da parte dela não lhe dar outra chance. – Tudo bem – disse. – Mas, Peyton... Ela deliberadamente deixou a declaração em aberto. Já deixara claro os seus termos. – Eu sei – ele disse. – Eu entendo. E prometo fazer tudo que me disser para fazer. Prometo ser o que quer que eu seja. Bem Ava tinha dúvidas no tocante a isso. Com certeza Peyton seria capaz de fazer e dizer as coisas que lhe dissesse para fazer e dizer. Mas o que ela queria que ele fosse? Isso jamais aconteceria. Ele jamais a perdoaria pelo modo como se portara e o tratara na época de escola. Jamais conseguiria vê-la de outra forma que não fosse a abelha rainha que ela fora na época. Jamais seria amigo dela. Não que pudesse culpá-lo. O melhor que poderia esperar é que, após isso, teria lembranças mais agradáveis dela para substituir as terríveis do passado. E isso não era tão ruim, era? – Vamos recomeçar – disse. Ele assentiu. – Tudo bem. Ela estava falando sobre a tarde, é claro. Mas não pôde deixar de pensar em como seria bom se pudessem voltar o relógio algumas décadas e também recomeçar de lá.


DA ÚLTIMA vez que Peyton se viu em uma alfaiataria, na verdade, a única vez que Peyton se viu em uma alfaiataria, fora em um estabelecimento barato na sua antiga vizinhança que fazia promoções para casamentos e festas de formatura. Que era o motivo de ele estar na loja em primeiro lugar, para alugar um smoking para a formatura em Emerson. O lugar em nada lembrava a maravilha com painéis de mogno nas paredes e tapetes persas no chão onde ele agora estava. Sempre comprara suas roupas no varejo e estava acostumado a usar a primeira coisa que tirava do armário. Para ocasiões formais, tinha um único smoking que comprara em uma liquidação pouco após se formar na faculdade. Bastou Ava dar uma olhada na dúzia de peças de roupa que ele trouxera consigo para decidir que todo o seu guarda-roupas precisava ser renovado. Claro, ela tivera tato o suficiente para usar frases como: um pouco fora de moda e não é o melhor caimento. O resultado final era o mesmo. Ela odiou tudo. Estava agora postada ao lado dele, diante do espelho do alfaiate, e Peyton estudava o reflexo dela, em vez do próprio. Ainda não conseguia se acostumar como ela era linda. Estava vestida de maneira mais informal hoje, com calças largas bege e um macio suéter cor de creme. O cabelo estava preso para trás. Será que ela só o soltava para ir para cama? – Mostre-lhe algo formal da Givenchy – ela disse, falando com o alfaiate. – E traga-lhe alguns ternos Hugo Boss. Escuros, talvez algo com listras finas. Nada muito ousado. O alfaiate era velho o bastante para ser avô de Peyton, mas, pelo menos, o terno não era roxo. Pelo contrário, em um sóbrio tom escuro de cinza era, até mesmo para os olhos amadores de Peyton, impecavelmente cortado. Ele estava com uma fita métrica ao redor do pescoço, e os pequenos óculos empoleirados no nariz. Seu nome era sr. Endicott. – Excelentes escolhas, srta. Brenner – o Sr. Endicott disse, antes de ir buscar o que quer que fosse que ela tivesse pedido para ele buscar. Ava voltou a sua atenção para Peyton, estudando seu reflexo, como ele estudava o dela, e sorriu tranquilizadoramente. – Hugo Boss costuma ser o favorito de homens na sua posição. É o design perfeito para executivos poderosos. Pelo menos aqueles que não querem usar cor de berinjela, verde-abacate ou cor de café. E o sr. Endicott é um dos alfaiates mais conservadores de Chicago. Prometo que ele não trará nada roxo nem verde-vômito. Peyton assentiu, mas ainda não disse nada. Algo estranho considerando que jamais havia se visto sem palavras quando Ava estava por perto antes. Quando estavam na escola, dissera um bocado de coisas para ela que não devia. Mesmo Ava sendo egoísta, esnobe e superficial, ela não merecera muito do tratamento que ele lhe dispensara. Havia algumas ocasiões em particular pelas quais ele deveria se desculpar. – Não é que suas roupas sejam ruins – ela acrescentou, evidentemente confundindo seu silêncio com irritação. – Como eu disse, precisam apenas de... hã... uma modernização. Ava estava se esforçando para não dizer nada que pudesse criar tensão entre eles. E os dois vinham se dando surpreendentemente bem durante toda a manhã. Formais e hesitantes, e, de modo algum à vontade um com o outro, mas vinham se dando bem.


– Olhe, Ava, não vou pular no seu pescoço por me dizer que não estou na crista da onda em termos de moda – ele falou. – Sei que não estou. Faço isto porque estou entrando em um círculo do mundo dos negócios ao qual jamais havia tido acesso. Um círculo com certas expectativas que terei de respeitar. – Ele deu de ombros. – Mas tenho de aprender que expectativas são essas. É por isso que está aqui. Não vou arrancar a sua cabeça a dentadas se me disser o que estou fazendo de errado. Ela voltou a arquear a sobrancelha para ele, como fizera no dia anterior no restaurante, quando ele quase lhe arrancara a cabeça a dentadas por ela ter lhe dito o que estava fazendo de errado. – Não vou mais arrancar a sua cabeça a dentadas. A sobrancelha voltou a descer, e ela sorriu. Não era um grande sorriso, mas era um começo. O alfaiate retornou com três ternos e um único smoking, e Peyton respirou aliviado ao ver que escuros era a única palavra que poderia descrevê-los. O homem ajudou Peyton a tirar o seu casaco de couro, e gesticulou para que ele tirasse o suéter azul-marinho que estava usando por baixo. Quando estava apenas de camiseta branca e jeans, o alfaiate o ajudou a vestir o paletó do primeiro terno, resmungou algumas coisas e pegou a fita métrica do pescoço, começando a tirar as medidas dos braços, dos ombros e das costas de Peyton. – Agora, as calças – disse o homem. Peyton olhou para Ava no espelho. – Acho que pode entrar no provador para isso – ela falou diplomaticamente. Certo. O provador. Sabia disso. Ou, pelo menos, sabia agora. Quando retornou alguns instantes mais tarde, usando o que tinha de admitir que era um impecável terno carvão de listras finas com uma camisa branca que o alfaiate trouxera para ele, Ava estava de costas para ele, inspecionando duas gravatas que havia selecionado na sua ausência. – E então... O que acha? – ela perguntou. Ao aproximar-se dela, tentou parecer mais à vontade do que realmente se sentia. Contudo, seu desconforto não vinha do fato de estar usando roupas mais caras do que qualquer um dos carros que já tivera na sua juventude. Estava preocupado que Ava ainda não o aprovasse, mesmo vestindo a plumagem exuberante de sua tribo. Seu medo intensificou-se quando ela girou sorrindo, apenas para ver o sorriso na mesma hora desaparecer. Droga, ela ainda não gostava dele. Não, corrigiu-se. Não gostava do que ele estava usando. Grande diferença. Não era importante se ela gostasse ou não dele. Não era. Apenas precisava que Ava aprovasse a sua aparência. O que era óbvio que não aprovava. – Puxa – ela disse. Ah. Tudo bem, talvez ela aprovasse. – Você está... – Ela suspirou. – Puxa. Ante a reação de Ava, sentiu algo quente instalar-se na sua virilha. Era uma sensação familiar, mas uma que havia muito ele não sentia. Na realidade, havia mais de 15 anos. Era a mesma sensação que sentira certa vez, quando Ava olhara para ele do outro lado da sala que compartilhavam em Emerson. Por uma fração de segundos, ela não registrara que estivera olhando para Peyton, e seu sorriso fora sonhador. Naqueles poucos instantes, ela olhara para ele como se


Peyton fosse alguém digno de se admirar, e isso o fizera sentir como se nada mais na sua vida pudesse dar errado novamente. De alguma forma, naquele instante, estava sentindo a mesma coisa. – Você gostou? – perguntou. – Muito – ela retrucou, melancolicamente, e o ardor voltou a incendiar o seu íntimo. Ela por fim pareceu se lembrar de onde estava e do que deveria estar fazendo, pois abaixou os olhos para as tiras de seda nas mãos. – Mas você, hã, precisa de uma gravata. Ela deu alguns passos na direção dele, e, por algum motivo, se deteve, depois adiantou-se novamente até estar perto o bastante para tocá-lo. Contudo, em vez de fazer isso, apenas estendeu as duas gravatas, uma em cada mão. – Espero que não se importe – ela disse –, mas sou da opinião que é na gravata que o homem realmente mostra a sua personalidade. O terno pode ser bem conservador, mas a gravata pode ser mais descontraída e interessante. – Ela hesitou. – Desde que combine com o homem. Ele teve vontade de perguntar se ela realmente o achava descontraído, ou até interessante, mas nada disse, em parte por notar ligeiro rubor nas faces dela. Será que estava encabulada, ou o aquecimento no interior da loja estava forte demais? Depois, deu-se conta de que estava até fresco ali, o que significava que... – Se não gosta dessas, posso procurar algo diferente – ela falou, dando outro passo que ainda não a trouxe tão perto quanto ele queria. – Mas essas duas me fizeram pensar em você. Peyton se forçou a olhar para as gravatas. Uma era repleta de formas abstratas em diversas cores, e a outra parecia uma reprodução em aquarela de uma floresta tropical. Surpreendeu-se de ver que gostara delas. Eram másculas sem serem abrutalhadas. O fato de Ava ter dito que a faziam lembrar dele o deixou estranhamente lisonjeado. – Eu procuro algo diferente – ela falou, quando ele nada respondeu, mais uma vez tomando erroneamente o seu silêncio por reprovação. – Havia algumas listradas que talvez goste mais. Ela fez menção de virar-se. – Não, Ava, espere. Com um passo largo cobriu a distância que os separava, e lhe envolveu o braço com os dedos, gentilmente girando-a para si. Os olhos dela estavam arregalados de surpresa, e a boca, ligeiramente entreaberta. E, que Deus o ajudasse, o que mais queria era continuar puxando-a para si até poder lhe cobrir a boca com a sua. – Eu, hã, gostei delas – falou, colocando de lado pensamentos rebeldes. Mais uma vez, forçou-se a olhar para as gravatas. Mas tudo que viu foram os dedos elegantes segurando-as, as perfeitas unhas ovaladas e vermelhas. Naquela noite na casa dos pais dela, as unhas haviam sido cor de rosa. Peyton achara a cor das unhas muito mais inocente do que a própria Ava. Até os dois finalmente ficarem juntos, e ele se dar conta de que ela não era tão experiente quanto pensava, que era o primeiro sujeito a... – Vamos experimentar essa – ele falou, sem saber ao certo de qual gravata estava falando. – Qual? – A da direita – improvisou. – Minha direita ou a sua direita?


Ele engoliu a obscenidade que lhe veio à boca. – A sua. Ela ergueu a com as formas abstratas e sorriu. – Também foi a minha favorita. Ótimo. Antes que se desse conta do que ela estava planejando, Ava adiantou-se e passou a gravata ao redor do pescoço dele, erguendo a gola da camisa, de modo a poder deslizá-la por baixo. O perfume floral que lhe chegou às narinas em nada ajudou a dissipar as lembranças dos 16 anos de idade ainda dançando em sua cabeça, e a sensação dos dedos dela dando o nó na gravata dispararam a sua pulsação. Em um esforço para manter a sanidade, ele fechou os olhos e começou a listar mentalmente todas as cervejarias que já visitara em suas viagens. Graças a Deus, quando já estava chegando a Zywiee, na Polônia, ela já estava apertando o nó na sua garganta. – Pronto – Ava disse, ela mesma parecendo um pouco ofegante. – Obrigado – ele murmurou, a palavra não transmitindo a devida gratidão. – Não tem de quê. Quando voltou a abrir os olhos, viu Ava olhando para ele. Pior ainda, sabia que seu olhar também estava fixo nela. Antes que qualquer um dos dois pudesse dizer algo capaz de deixar a situação pior, ele voltou para o espelho, e o sr. Edincott tomou isso como sinal para recomeçar com os ajustes e as tomadas de medida. Fez algumas anotações em um bloco de papel, marcou o tecido com um pedaço de giz, enfiou alguns alfinetes em lugares-chave e mandou Peyton experimentar o terno seguinte. Quando retornou, Ava estava perto do espelho, usando um manequim para separar mais gravatas. Quando ele se aproximou, ela praticamente se mudou para o outro extremo do aposento. Era como se todas as vezes que passavam mais do que algumas horas juntos, um raio de desarmonia fosse atirado neles. Por que diabos tinha de ser assim? Desta vez, Peyton deu o nó na sua própria gravata, embora não com a mesma perícia que Ava, depois, virou-se para ela, em busca de aprovação, apenas para encontrá-la novamente escolhendo gravatas. Ele pigarreou. Ela prosseguiu com a caça das gravatas. Ele voltou-se novamente para o alfaiate. – Este também está bom. O ritual do giz, da fita métrica e dos alfinetes foi repetido mais duas vezes, até chegarem à prova do smoking. Só quando já estava descendo do estrado com o traje formal é que Ava voltou a lhe dar atenção. E, desta vez, ela não desviou o olhar, que o percorreu dos pés à cabeça. Peyton prendeu a respiração, ansioso para ver se ela iria sorrir. Ela não sorriu. Em vez disso, disse: – Hã, acho que está bom. – Antes que Peyton pudesse agradecer, ela prosseguiu: – Mas você precisa de um corte de cabelo. Tudo que passou pela cabeça de Peyton foi: dois passos adiante, um para trás. Diabos, era melhor do que nada.


– Suponho que esteja em algum lugar na sua lista de coisas para eu fazer. Ela assentiu. – Marquei uma hora para você no meu salão, hoje à tarde. Eles são ótimos. – No seu salão? O que há de errado com um barbeiro? – Nada. Desde que seja um estivador. – Ava, eu jamais pus os pés em um salão de beleza, e é um recorde que não estou interessado em quebrar. – Mas é unissex – ela disse, como se isso resolvesse tudo. – Não me importa se é sexo proibido. Encontre um bom barbeiro. Ela abriu a boca para discutir, mas a irredutibilidade dele deveria estar estampada no rosto. De modo que Ava fechou a boca e nada disse. Quando ficou evidente que nenhum dos dois iria dizer mais nada, Peyton voltou para o provador. – Não se preocupe, sr. Moss – o alfaiate disse quando Peyton passou por ele. – Está tudo indo maravilhosamente bem. – Como assim? – A srta. Brenner. Ela gostou dos ternos. E gostou ainda mais do smoking. – Como sabe? O alfaiate simplesmente sorriu. – Não se preocupe – ele repetiu. – Ela também gosta do senhor. Peyton abriu a boca para retrucar, mas nenhuma palavra saiu. O sr. Edincott continuou andando gesticulando com a mão para que ele se adiantasse. – Venha, sr. Moss. Ainda preciso marcar essas calças.


CAPÍTULO 5

APÓS CUIDAR do guarda-roupa e do cabelo de Peyton, grandes desafios, Ava voltou a sua atenção para a apreciação das coisas mais finas da vida. Arte, música, teatro. Ou, pelo menos, era para o que ela estava planejando voltar a atenção dele na manhã seguinte. Contudo, assim que bateu à porta da suíte de hotel de Peyton, descobriu que seus planos não iam sair bem como ela pensara. – Sinto muito – ele disse, a título de cumprimento. – Mas vamos ter de cancelar hoje. Tenho de me encontrar com a casamenteira. Eu esqueci completamente ontem quando estávamos fazendo planos para hoje de manhã. Ava procurou se convencer de que o súbito frio no seu estômago era porque estava irritada com o cancelamento de última hora. E estava irritada porque, por conta dos seus planos, ela folgara no trabalho, e poderia ter poupado um pouco de dinheiro, em vez de pagar hora extra para Lucy. Nada tinha a ver com o fato de que Peyton iria passar tempo com outra mulher. Não que a outra mulher fosse, você sabe, outra mulher, pois, para isso, Ava teria de ser sua mulher oficial, e, é claro, isso não era o caso. Além do mais, a outra mulher que ele iria ver hoje era apenas uma casamenteira. Uma casamenteira que o apresentaria a, bem, outras mulheres. Mulheres que ele estaria vendo socialmente. Confidencialmente. Romanticamente. O nó apertou-se ainda mais. Porque ela estava irritada, Ava procurou se lembrar. Irritada que ele estragara os seus planos. – Ah, tudo bem – ela falou, dando a impressão de estar triste, e não irritada. – Sinto muito, de verdade – ele voltou a se desculpar. – Quando verifiquei minha caixa postal, havia um recado de Caroline, a casamenteira, lembrando-me do compromisso. Aí, já estava tarde demais para ligar e avisar, e você não atendeu o seu telefone hoje de manhã. Devia ter ligado enquanto ela estava no banho. – Bem, não vai quer perder o seu compromisso. Deve ter muito a discutir com ela, antes que ela encontre a sra. Certa. – Na verdade, eu já me encontrei com ela. Vamos nos encontrar hoje porque ela já reuniu algumas possibilidades, e ela quer que eu olhe algumas fotos e examine alguns dados antes de passar para as apresentações. Talvez possamos empurrar as coisas para hoje à tarde.


– Claro. Sem problemas. E daí que Peyton estivesse se encontrando com a casamenteira? Encontrar a mulher certa era metade do motivo para ele estar ali em Chicago, e Ava nem precisava trabalhar com ele nesta parte. Tinha apenas de garantir que ele estivesse apresentável para qualquer mulher que viesse a conhecer. Agarrou-se com unhas e dentes a tal realização. – Mas, você sabe, Peyton, não estou certa se você já está pronto para conhecer qualquer namorada em potencial. Ainda temos muito trabalho pela frente antes de chegar a esse ponto. – Quanto mais ainda temos de fazer? No fundo, Ava tinha de admitir que ele avançara muito em apenas quatro dias. E não apenas por conta do novo guarda-roupa elegante e do novo corte de cabelo moderno, que ele, após muita insistência, por fim concordara em fazer no salão dela. De qualquer modo, o jeans desbotado e o suéter largo do dia anterior foram substituídos por um caríssimo jeans escuro e um suéter mais justo que ela sabia ser cor de café, mas que, após muita discussão surpreendentemente agradável, admitira para Peyton que era marrom. O cabelo mais curto deixara evidente os poucos fios grisalhos em meio a todo o preto, algo que lhe dava um ar de executivo distinto, sem falar em uma aparência extremamente sexy. Ele era o tipo de cliente capaz de fazer qualquer casamenteira babar, e isso nem chegava perto do efeito que teria sobre as suas candidatas em potencial. Era impressionante o que um pouco de refinamento podia fazer por um sujeito. Por outro lado, nem sempre eram as roupas que faziam o homem. O que tornava Peyton Peyton era o que estava por baixo das roupas. E isso era algo que nem mesmo ensinar-lhe as coisas mais finas da vida mudaria. Sim, ele precisava aprender a se tornar um cavalheiro, caso quisesse impressionar as irmãs Montgomery e adquirir a empresa delas. Mas havia homens das cavernas demais nele para permitir que o cavalheiro assumisse por muito tempo. Dar-se conta disso deveria ter deixado Ava ainda mais irritada, pois sugeria que tudo que estava fazendo era inútil. Contudo, em vez disso, a confortou. Lembrando-se de que ele lhe fizera uma pergunta que exigia uma resposta, ela disse: – Bem, eu estava meio que esperando cobrir as artes esta semana. E ainda precisamos afinar a sua etiqueta de restaurante. E deveríamos... – Ela hesitou. Não havia motivo para ela fazê-lo achar que ainda havia toneladas de coisas para fazer, porque a verdade era que não havia. Contudo, por algum motivo, ela se viu desejando que ainda houvesse uma tonelada de coisas para fazer. – Não é muito – disse. – Não falta muito. Em vez de parecer satisfeito com isso, Peyton também pareceu, bem, meio irritado. – É melhor eu ir – ela disse. – Que horas acha que vai ter terminado? – Não sei. Talvez eu possa lhe telefonar quando acabar? Ela assentiu e fez menção de ir embora. – A não ser que... Ela virou-se para ele. – A não ser que o quê? Ele pareceu pouco à vontade.


– A não ser que queira vir comigo. Era um convite estranho. Para começo de conversa, Caroline ficaria curiosa, talvez até irritada, se Peyton aparecesse com uma mulher. Uma mulher que Caroline não apresentara para ele, de modo que não poderia cobrá-lo por isso. Outra coisa é que, por que Peyton haveria de querer Ava consigo quando estava considerando decisões que tinham o potencial de mudar a sua vida? Como se houvesse escutado a pergunta que ela não fizera, Peyton continuou: – Quero dizer, talvez possa me dar conselhos, ou algo parecido. Eu jamais tive de trabalhar com uma casamenteira. Ah, e ela tivera? Caramba, havia mais de um ano que não saía com ninguém. Era a última pessoa que deveria estar dando conselhos amorosos. Não que fosse isso que Peyton precisava. – Por favor, Ava? – ele pediu, como se genuinamente quisesse que ela viesse junto. – Sabe o tipo de mulher que eu preciso encontrar. Uma que seja exatamente como... Você. É o que ele estivera prestes a dizer. Era a palavra que seus lábios chegaram quase a formar, a que ficou pairando no ar entre eles. Ava teve certeza disso, tanto quanto tinha do próprio nome. Após uma pausa imperceptível, ele completou. – Jackie Kennedy. Preciso encontrar uma mulher como Jackie Kennedy. Ah, claro, como se houvesse qualquer mulher no mundo como Jackie Kennedy. Como Peyton pulara de pensar em Ava para pensar nela era um mistério. – Tudo bem. Eu irei com você – disse. Não fazia ideia de quando tomara a decisão. E estava ainda menos certa do porquê de tomá-la. O mais estranho era que, por algum motivo, não estava mais se sentindo tão irritada. OS ESCRITÓRIOS de Attachments Inc. surpreenderam Peyton em sua primeira visita. Achava que o escritório de uma casamenteira estaria repleto de corações e flores, com alguma música brega tocando ao fundo. Em vez disso, o lugar lembrava muito o próprio escritório em São Francisco, vinte andares acima da cidade, com janelas panorâmicas que ofereciam belas vistas de Lake Michigan e do Navy Pier, e mobiliado com elegância e estilo. A música de fundo era Jazz. Caroline também o surpreendera da primeira vez. Ele estava esperando uma matrona de coque e óculos de aros apoiados na ponta do nariz, mas isso em nada descrevia a mulher que recebeu Peyton e Ava. O cabelo grisalho estava com um corte moderno, e os óculos estavam empoleirados no topo da cabeça. Usava um justo vestido azul-safira e saltos altos. – Sr. Moss – ela falou ao vir recebê-lo, estendendo a mão para cumprimentá-lo com firmeza, como qualquer executivo poderoso faria. – É bom revê-lo. – Contudo, a temperatura pareceu cair vários graus quando ela se virou para Ava. – E quem é esta? Antes que Ava tivesse a chance de responder, Peyton respondeu: – Esta é minha, hã, assistente, Ava Brenner. Caroline passou os olhos rapidamente por Ava, evidentemente satisfeita com a resposta. Ignorando-a logo em seguida, ela virou-se para Peyton. – Bem, se puder me acompanhar até o meu escritório, podemos começar. Confiante que os dois a estavam seguindo, ela girou nos calcanhares e voltou por onde havia vindo. Peyton virou-se para Ava e fez menção de dar de ombro, mas se conteve ao ver a expressão


do rosto dela. Ava parecia meio... irritada. Estava fitando-o como se ele houvesse acabado de ofendê-la. Repassando os últimos segundos na cabeça, lembrou-se de que a havia apresentado como sua assistente. Tudo bem, talvez tivesse sugerido que ela era sua subordinada, mas estava pagando-a para ajudá-lo, de modo que isso meio que a tornava sua funcionária, o que fazia dela sua subordinada. E qual era o problema? Alguns dos seus melhores amigos eram subordinados. De qualquer modo, não tinha tempo para outra discussão. Gesticulou na direção de Caroline e perguntou: – Você vem? – E eu tenho escolha? Desta vez, ele deu de ombros. – Pode esperar aqui fora se quiser. Por um instante, chegou a pensar que ele fosse aceitar a oferta e sentiu-se tomado de um estranho pânico. Precisava da ajuda dela. Não fazia ideia do tipo de mulher que a sua diretoria consideraria aceitável. Além de que ela teria de ter todas as qualidades que Ava tinha. Caroline os chamou, e, embora Ava tivesse ficado ainda mais tensa, ela se virou na direção da casamenteira e começou a adiantar-se. Alívio e uma estranha felicidade tomaram conta de Peyton ao segui-la. Pois precisava dela. Ou melhor, da ajuda dela. Por isso ficara feliz por ela não ter ficado na sala de espera. Não tinha nada a ver com o fato como simplesmente se sentia bem tendo-a ao seu lado. A razão pela qual se sentia melhor tendo-a ao seu lado era porque ela o estava ajudando. Ah, diabos. Estava apenas feliz, quer dizer, aliviado, que ela estivesse com ele. O escritório particular de Caroline refletia melhor o seu ofício, com suas paredes cor de vinho e os tapetes persas. A mesa era no estilo vitoriano, mas o ambiente pesado era temperado pela bela vista da cidade através da janela panorâmica ao fundo da sala. Pendurados ao longo de uma das paredes haviam vários certificados e dois diplomas de psicologia da Northwestern. A maioria dos livros na sua estante eram sobre relacionamentos e sexualidade. Pegando uma pilha de pastas de papel pardo sobre a mesa, Caroline convidou Ava e Peyton para se sentarem no sofá. Ela se acomodou em uma poltrona perpendicular ao móvel. – Posso chamá-lo de Peyton? – perguntou, sorrindo. – Claro – ele disse. Estava esperando que ela fosse sorrir para Ava e perguntar se também podia chamá-la pelo primeiro nome, mas, em vez disso, Caroline começou a revirar as pastas. Com um sorriso que não pareceu mais tão genuíno para Peyton depois que ela ignorou Ava, Caroline pegou uma das pastas e disse: – Inseri os seus dados, o que você gosta e desgosta, e está procurando em uma companheira, no computador, e encontrei quatro mulheres que acho que gostará. Esta em particular – ela falou, abrindo a pasta que separara – é um partidão. De família tradicional de Chicago. Nascida e criada aqui. Formada pelo Art Institute e ativa na comunidade artística local, curadora de uma peuena galeria em State Street, colunista de arte do Tribune, e membra das Daughters of the American Revolution... A lista não tem fim. Ela tem todas as qualidades que está procurando. Caroline passou a pasta aberta para Peyton. Ela continha folhas de informações impressas com uma foto de 12 por 18 do rosto da moça incluída. Naturalmente, seu olhar voltou-se para o retrato.


A mulher era, bem, não havia outro modo de dizer, uma beldade de tirar o fôlego. O cabelo era ruivo escuro e escorria por sobre os ombros expostos, olhos grandes e verdes com cílios espessos. Ele não teve dúvidas de que a foto devia ser retocada, nem que ela não teria a mesma aparência sem toda a magia da maquiagem. Ainda assim, ela era... Caramba. Simplesmente linda. – Caramba – ele falou, dando voz aos seus pensamentos. Bem, a parte deles. Havia alguns que seria melhor deixar na cabeça. – Sem dúvida – Caroline disse com um sorriso de satisfação. – O nome dela é... – Vicki – Ava completou por Caroline. – Victoria. As mulheres se entreolharam. – Victoria Haverty – a casamenteira acrescentou. – Vicki Nielsson – Ava corrigiu. – Conhece a srta. Haverty? Ava assentiu. – Ah, sim. Debutamos juntas. Contudo, Haverty é o seu nome de solteira. Ela é Vicki Nielsson agora. Os olhos de Caroline quase saltaram da cabeça. – Ela é casada? – Receio que seja. E, a última notícia que tive dela é que está morando em Reykjavik com o marido, Dagbjart. Isso foi há duas semanas. – Mas ela me deu um endereço aqui em Chicago – Caroline protestou, como se isso negasse tudo que Ava acabara de informar. – Em Astor Street? – Ava perguntou. Caroline levantou-se, adiantou-se até a sua mesa e pressionou algumas teclas no laptop em cima desta. Foi então que Peyton se deu conta de que todas as informações nas suas mãos não passavam de estatísticas gerais, como idade, nível de educação, ocupação e interesses. – É – a casamenteira respondeu, sem erguer os olhos da tela. – É a casa dos pais dela – Ava informou. – Ela visita a família com frequência. A casamenteira fitou Ava com incredulidade. – Mas por que ela haveria de se inscrever com uma casamenteira em Chicago quando está feliz casada e morando em... hã, onde fica Reykjavik? – Islândia – Peyton e Ava responderam a uma voz. Caroline parecia ainda mais confusa. – Por que ela se inscreveria na Attachments Inc. se está casada e morando na Islândia? Quando Peyton olhou para Ava, notou que ela estava se esforçando para não sorrir. – Bem – ela falou presunçosamente. – Talvez Vicki não seja tão feliz casada quanto o velho Dagbjart gostaria de pensar. E o velho Dagbjart é, bem, velho – ela acrescentou. – Tinha 76 anos quando Vicki casou-se com ele. Já deve estar com quase 90. Os Havertys são famosos por se casarem com membros de famílias ainda mais ricas do que eles, mas é evidente que Vicki subestimou a expectativa de vida escandinava. Sabia que homens na Islândia vivem mais do que homens de qualquer outro país?


A casamenteira não disse nada. Peyton também não. O que poderia dizer? Ei, Caroline, que verificação de antecedentes detalhada, hein? A casamenteira enfim pareceu se lembrar de que estava com um cliente que estava lhe pagando uma tonelada de dinheiro para lhe encontrar uma companheira, uma que já não fosse casada, de preferência. Voltando para o sofá, pegou a pasta das mãos de Peyton e a substituiu por outra. – Um simples engano. Estou certa de que gostará mais desta. Ele abriu a pasta para se deparar com outra folha de estatísticas, anexada a outra fotografia. Dessa vez, de uma mulher que não era tanto de tirar o fôlego, nem tão incrível quanto a primeira, mas ainda assim era linda e estonteante. Também tinha cabelos castanhos avermelhados, um pouco mais claros do que os da primeira, e olhos azuis tão claros que poderiam ser resultado de Photoshop. Ainda assim, mesmo sem retoques, a mulher era linda. – Esta jovem – Caroline disse – faz parte do melhor da alta sociedade de Chicago. Um de seus antepassados ajudou a fundar a Chicago Mercantile Exchange, e o pai dela está na Chicago Board of Trade. Os Lauderdales, donos da cadeia de loja de departamentos Lauderdale, entre outras coisas, são da família da mãe dela. Ela mesma tem dois diplomas universitários, um em Administração e outro em Design de Modas. O nome dela é... A casamenteira hesitou, olhando para Ava. Como se pegando a dica, Ava olhou para Peyton, e disse: – Roxy Mittendorf. Roxanne – ela se corrigiu, ante o olhar de Caroline. – Mas quando éramos garotas era Roxy. Naquele momento, quem hesitou foi Ava, como se estivesse pesando se falava mais ou não agora. Por fim, ela acrescentou: – Pelo menos até aquela viagem de férias, quando ela voltou para casa com gonorreia. Aí, começaram a chamá-la de Doxy. Não sei se foi por acharem que ela era, você sabe, uma concubina, ou porque o médico prescreveu doxiciclina para o tratamento. – Ela sorriu. – Mas acho que isso não vem ao caso, não é? Quero dizer, não é como se ela ainda tivesse gonorreia. Pelo menos, eu acho que não. Ela trocou olhares com Peyton e Caroline, e, quando nenhum dos dois comentou, ela, evidentemente, se viu na necessidade de acrescentar: – Bem, eu jamais a chamei de Doxy. Só soube da história da gonorreia depois da formatura. Peyton fechou a pasta e a devolveu para Caroline, sem nada dizer. Caroline entregou a terceira pasta, e, quando ele abriu, encontrou – surpresa! – outra ruiva, esta com um tom de olhos azuis que possivelmente podia ser encontrado na natureza. Quando ele olhou para a casamenteira, ela pareceu pressentir os seus pensamentos, pois disse: – Bem, você manifestou uma preferência por ruivas. E por olhos verdes, mas, com a exceção da minha primeira candidata, todas as outras têm olhos azuis. Não é muito diferente, é? Por algum motivo, ambos voltaram o olhar na direção de Ava. Ava com o cabelo ruivo escuro e os olhos bem verdes. – O quê? – ela perguntou inocentemente. – Nada – Peyton falou, grato por ela não haver conectado os pontos.


Ele realmente colocara no seu formulário de inscrição que tinha preferência por ruivas de olhos verdes? Com toda a sinceridade, não conseguia se lembrar. Pensou em várias das mulheres com quem saíra no passado e surpreendeu-se ao dar-se conta de que, em sua maioria, eram ruivas. Estranho. Gostava de todas as mulheres. Não estava nem aí se fossem ruivas, morenas ou louras, nem qual era a cor de seus olhos, nem quais eram as suas origens étnicas, culturais e econômicas eram. Se fossem inteligentes, engraçadas e bonitas, se o faziam sentir-se bem com elas, era tudo para que ele ligava. Se era assim, por que saíra com tantas ruivas? Ainda mais quando ruivas eram minoria entre as mulheres? Em vez de olhar para onde queria olhar, ele voltou a sua atenção para a terceira candidata em potencial. Antes que Caroline tivesse chance de dizer alguma coisa, ele ergueu a foto para mostrar para Ava. – Você a conhece? Ava pareceu quase culpada. – Na verdade, conheço. Mas você também a conhece. Ela estudou em Emerson conosco. Era do meu ano. Peyton voltou a olhar para a fotografia. A mulher não lhe parecia conhecida. O que era estranho, pois teria se lembrado de uma garota tão bonita. – Tem certeza? Não me lembro dela. – Pois deveria – Ava disse. – Jogaram hóquei juntos por três anos. Ele sacudiu a cabeça. – Não é possível. Não havia garotas na equipe de hóquei de Emerson. – Não, não havia. A compreensão o acertou como uma pancada na nuca. Peyton voltou a olhar para a fotografia. – Ah, meu Deus! – exclamou. – É Nick Boorman. – Nicholette – Ava corrigiu. – Ela responde por Nicholette agora. Peyton fechou a pasta e a devolveu para Caroline. – Não que haja nada de errado com isso – disse. – Mas seria meio, hã... – Esquisito – Ava sussurrou. – É. Caroline pegou a pasta e a colocou embaixo das duas outras que haviam sido rejeitadas. Olhando para Ava, ela perguntou: – Quem é você? Ava simplesmente deu de ombros. – Sou apenas a assistente do sr. Moss. Caroline não pareceu muito convencida. Desafiadoramente, ergueu a última pasta. Desta vez, não se dirigiu a Peyton, mas a Ava. – Esta candidata só está morando em Chicago há quatro anos. Originalmente é de Miami. Tem amigos ou família em Miami, srta. Brenner? Alguma conexão com a cidade? Ava sacudiu a cabeça. – Não. Caroline abriu a pasta e mostrou a foto para Ava, antes de mostrá-la para Peyton.


– Conhece esta mulher? Ava voltou a sacudir a cabeça. – Ainda não tive o prazer. – Ótimo – Caroline disse. Ela virou-se para Peyton e finalmente permitiu que ele visse o arquivo. – Esta é Francesca Stratton. Ela começou desenvolvendo softwares, e agora é presidente da própria empresa. O pai é neurocirurgião em Coral Gables, e a mãe é juíza no estado da Flórida. Naquele estado, a linhagem da família remonta a seis gerações. E, ela é uma prima distante do rei Juan Carlos da Espanha. Agora, Caroline estava olhando para Ava, como que a desafiando a vir com algo que pudesse colocar em dúvida o pedigree da mulher. Quando Ava apenas sorriu, a casamenteira prosseguiu: – Peyton, acho que seriam perfeitos um para o outro. Ele tentou não pensar em como Caroline considerara as outras três candidatas antes de Francesca mais perfeitas e pegou a pasta para dar uma olhada nos particulares da mulher. Gostara que, como ele, ela havia erguido a própria empresa, e o conhecimento técnico dela poderia vir a ser útil no seu próprio trabalho. Gostava de atividades ao ar livre, como mergulhar, alpinismo e cavalgar. Preferia rock’n roll a qualquer outro tipo de música, e comer fora a comer em casa. Era fã tanto dos Florida Panthers quanto dos Chicago Blackhawks. Não havia nada na ficha dela que o dissuadisse a concordar com Caroline. Ela realmente parecia perfeita para ele. Contudo, se era assim, por que não estava mais animado com a perspectiva de conhecê-la? De esguelha, notou que Ava estava se esticando para ler a ficha. Em vez de dificultar as coisas para ela, ele passou a ficha para Ava. – O que acha? – perguntou, quando ela chegou a última página. – Educação de Ivy League. Talentosa pianista. Membro da United States Dressage Federation. O que há para não se gostar? Engraçado, ela não parecia estar gostando tanto assim de Francesaca. – Onde acha que ela se encaixaria na escala Jackie Kennedy? Ava fechou a pasta e a devolveu para a casamenteira. – Bem, se Jackie Kennedy fosse uma jovem hoje em dia, acho que ela seria muito parecida com Francesca Stratton. – Uns oito, então? Com o que parecia ser resignação e pouca satisfação, ela disse: – Dez. Era exatamente o que Peyton queria escutar. Contudo, por que estava tão desapontado? Virando-se para Caroline, disse: – Temos uma vencedora. Quando poderemos marcar algo? A casamenteira parecia aliviada. – Deixe-me entrar em contato com Francesca e ver o que ficaria bom para ela. Depois, volto a falar com você. Qual seria a melhor noite para você? – Qualquer noite estaria bo... A pigarreada delicada de Ava o interrompeu. Ele olhou para ela, que estava sacudindo ligeiramente a cabeça.


– O que foi? – Disse que não achava estar pronto ainda para conhecer candidatas em potencial – ela lembrou. – Não, foi você quem disse isso. – E você concordou. Ainda há várias lições que precisamos repassar. Peyton não disse nada. Havia concordado. E, no fundo, não se importava tanto assim de adiar o encontro. Estranho, considerando como estava ansioso para deixar Chicago e voltar para São Francisco. Apesar de menos ansioso do que quando chegara, realmente precisava retornar para a costa oeste. De modo que ele e Ava precisavam encerrar aquilo o mais rápido possível. – De quanto tempo acha que precisa para me fazer passar por elas? – perguntou. Por algum motivo bizarro, estava torcendo para que fossem semanas. Muitas e muitas semanas. Em vez disso, ela disse: – Pelo menos mais uma semana. – Quer dizer que, talvez, no final de semana depois deste? Ela parecia querer dizer: Não. Só em muitas e muitas semanas. Mas, em vez disso, respondeu: – Hã, claro. Se trabalharmos duro, e você seguir as regras. Seguir as regras não era a coisa preferida de Peyton. Ainda assim, se isso lhe garantisse um encontro com a Jackie Kennedy dos dias de hoje. Ele virou-se para Caroline. – Que tal na sexta ou no sábado da outra semana? Se ela puder. – Tenho quase certeza de que uma dessas datas será boa. Eu avisarei qual depois que tiver falado com Francesca. Ótimo, ele pensou, sem muito entusiasmo. – Ótimo – ele disse, com entusiasmo. Peyton ficou de pé, com Ava imitando-o. Agradeceu a Caroline por todo o seu trabalho e ambos seguiram para a porta. Contudo, pararam quando Caroline chamou o nome de Ava. – Sra. Brenner – ela falou hesitantemente – A senhorita não estaria... hã... procurando emprego, estaria? Algo em meio expediente, que não interferisse com o seu trabalho como assistente de Peyton? Seria muito bem-vinda aqui na Attachments, Inc. Parecendo um pouco surpresa, Ava respondeu: – Ah, não. Mas muito obrigada. Peyton falou para Caroline que o motivo de Ava conhecer todas aquelas pessoas é que ela andava pelos mesmos círculos sociais que elas. A família dela era cheia de dinheiro, e Ava não precisava trabalhar. Sem conseguir se conter, ele acrescentou: – Além disso, no momento, para ser minha assistente, ela está me deixando sem um tostão. Subitamente, Caroline pareceu ainda mais interessada em Ava. Contudo, era engraçado como, de repente, Ava pareceu nervosa. – Entendo – a casamenteira falou. – Bem, nesse caso, talvez eu possa ajudá-la, apresentá-la a um bom homem com os mesmos valores que a senhorita? Em outras palavras, Peyton traduziu, apresentar Ava para um bom homem que valha tanto quanto Ava. Por algum motivo, o pensamento também o deixou nervoso.


– O que me diz, Ava? – a casamenteira disse, com um sorriso que chegou a parecer genuíno. Provavelmente, como o uso do primeiro nome, era reservado para clientes. – Gostaria de preencher uma ficha enquanto está aqui? Ava sorriu, contudo, de algum modo, parecia ainda mais alarmada. – Obrigada, Caroline, mas não estou no mercado no momento. A resposta fez Peyton se perguntar outra vez se ela não estaria seriamente envolvida com alguém, e fosse por isso que não estivesse no momento no mercado. Durante a semana que passaram juntos, ela jamais mencionara nada que o levasse a pensar que houvesse um outro significativo na sua vida, e parecia ter bastante tempo livre, já que trabalhava com ele todos os dias. Um sujeito que tivesse uma mulher como Ava esperando-o em casa não ficaria muito feliz de vê-la passando tempo na companhia de outro homem. Se Peyton tivesse Ava esperando por ele, certamente jamais... Mas ele não tinha Ava esperando em casa por ele. E não a queria esperando em casa por ele. Sendo assim, de que adiantava pensar nisso? – Bem, se mudar de ideia... – Caroline falou. – Será a primeira pessoa para quem ligarei – Ava prometeu. Peyton meio que desejou que fosse ele a primeira pessoa para quem ela ligasse. Droga, O que havia de errado com ele? Acabara de arrumar um encontro com uma Jackie Kennedy moderna. Deveria estar empolgado. Estava distraído, mais nada. Havia muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. A aquisição da Montgomery & Sons, as melhorias maciças na sua pessoa, a caçada pela mulher certa, os fantasmas do passado... Não era à toa que seu cérebro estava virando tapioca. – Terminamos aqui? – ele perguntou, com um pouco mais de irritação do que pretendia. – Você é quem sabe – Ava respondeu. – Então, terminamos – ele retrucou bruscamente. Sem aguardar uma resposta, seguiu para a porta. As mulheres que tirassem a conclusão que quisessem de seu comportamento. No que lhe dizia respeito, quaisquer lições que Ava tivesse em mente para o restante do dia estavam canceladas. Ele tinha trabalho a fazer. Trabalho que não incluía nada nem ninguém com mais do que um cromossomo X.


CAPÍTULO 6

AVA E Peyton estavam sentados em um banco do Chicago Institute of Arts, estudando Nighthawks, de Edward Hopper, no mais completo silêncio. Ela o instruíra a passar cinco minutos no mais absoluto silêncio, observando os detalhes de várias pinturas, naquela manhã, mas nenhuma delas capturara a atenção dele do modo como aquela o fizera. Parecia até que ele queria adiantar-se até a pintura e juntar-se às pessoas sentadas no café para uma xícara. Ele estudava a pintura, e Ava o estudava. Peyton mal falara com ela após terem deixado o escritório da casamenteira ontem, com exceção de uma explosão que a deixara sem ação. Após dizer que haviam encerrado pelo dia, ele ofereceu para mandar o motorista deixá-la em casa, onde quer que isso fosse, já que ela não lhe dissera o seu endereço. E por que isso? Será que ela ainda achava que ele não era digno de adentrar sua residência, como quando eram garotos, e ele tivera de sair de sua casa pela janela? Ava ficara momentaneamente sem palavras. Até então, pareciam ter um acordo não verbal de jamais, sob quaisquer circunstâncias, mencionar aquela noite. Em seguida, ela se recompôs o suficiente para retrucar que ele poderia ter usado a porta da frente se quisesse, mas que preferira sair pela janela por vergonha de ser visto com ela, que fedia a dinheiro em vez de gasolina e de lixo da sarjeta. O que se seguiu podia ter sido uma explosão de ressentimento e frustração que passara 16 anos fervilhando. Ambos ficaram tão horrorizados com o que haviam dito um para o outro, pelo que sabiam que jamais poderiam desdizer, que nenhum dos dois disse mais uma palavra. Também não pediram desculpas. Apenas ficaram olhando para fora das respectivas janelas até chegarem ao Talk of the Town. Ava descera do carro com instruções apressadas para ele se encontrar com ela no Art Institute na manhã seguinte e batera a porta, antes que ele pudesse objetar. Nenhum dos dois mencionara a discussão no momento. A conversa se concentrara exclusivamente em comentários sobre arte, mas fora civilizado. Apesar disso, havia certa tensão entre eles, e nenhum dos dois parecia saber como aliviá-la. Ela olhou para o relógio e viu que os cinco minutos que ela pedira para Peyton dar para a pintura haviam se tornado oito. Em vez de lhe dizer que o tempo se esgotara, ela também voltou a sua


atenção para a pintura. Era uma a que ela respondera imediatamente na primeira vez em que a vira, durante um passeio em campo da Emerson Academy, quando estava na nona série. As pessoas na pintura sempre lhe deram a impressão de estarem fazendo hora na lanchonete enquanto esperavam que alguma coisa, qualquer coisa, mudasse. A pintura ainda lhe dava a mesma impressão, só que, agora, as pessoas também pareciam solitárias. – Gosto como a iluminação parece mais intensa no sujeito atrás do balcão – Peyton falou, subitamente despertando Ava de seus pensamentos. – Faz ele parecer... não sei... uma espécie de figura espiritual, ou coisa parecida. Ele é o sujeito que oferece sustância, porém, talvez tal sustância seja mais do que apenas café e torta, entende? Ava virou-se para ele, surpresa ante a perspicácia do comentário. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ainda olhando para a pintura, ele disse: – O que também é interessante é que a única cor de fato nas pessoas está na mulher, e, em ambas as circunstâncias, são cores quentes. O vermelho no vestido dela e o laranja no cabelo. Contudo, talvez eu tenha notado isso apenas porque sempre tive uma queda por ruivas. Ele falara a mesma coisa no escritório da casamenteira. Ou, pelo menos, foi o que Caroline afirmara que fora o que ele dissera no questionário do seu formulário de inscrição. E após o comentário, ele se virara para Ava e... o cabelo de Ava. Sentiu um calor espalhar-se em seu íntimo, pois ele estava olhando para ela agora, do modo como olhara para ela naquela noite na casa dos seus pais. Os dois haviam estado sentados no chão do quarto de dormir, cansados de seus estudos, quando Ava levara a mão à nuca, queixando-se de dor incessante. De modo incomum para ele, Peyton se apiedara de Ava e pousara as mãos ali, massageando para avaliar a tensão. Em um instante, os dois haviam estado cansados e estressados com a tarefa de casa, e no próximo... – Quero dizer... – Ele gaguejou. – Isto é... É só... hã. – Isso é muito interessante, o que você disse sobre a luz e o sujeito atrás do balcão – ela interrompeu, fingindo não entender o porquê de sua súbita tensão. Fingindo que ela também não estava tensa. – Eu jamais havia pensado nisso. Em vez de voltar a sua atenção de volta para a pintura, Peyton continuou a olhar para Ava. Ah, Deus, isso era tudo de que ela precisava. Se seguissem o padrão de 16 anos atrás, iriam acabar horizontalmente no banco, seminus e completamente entrelaçados. Foi como havia sido naquela noite na casa dos pais dela. Da primeira vez, de qualquer forma... Haviam estado um nos braços do outro tão rapidamente, tão ferozmente, que apenas conseguiram abrir os botões e abaixar os zíperes. A segunda vez fora muito mais tranquila, muito mais demorada. Onde a primeira vez fora um ato físico, cuja intenção fora aliviar a pressão, a segunda fora muito, muito mais. – Na verdade – Ava prosseguiu, olhando ela mesma para a pintura. – É o tipo de interpretação que levaria a uma discussão que poderia prosseguir por horas a fio. O coração dela estava em disparada, e um ardor espalhara pelo seu busto, pelo seu rosto. De modo que se forçou a fazer o que fizera na época de escola, sempre que começava a reagir daquela maneira a Peyton. Incorporou a princesa do gelo de Gold Coast, que ficou horrorizada de descobrir que ainda residia sob a superfície, e se forçou a ser distante... metódica... e um bocado desagradável. Era a professora de Peyton, não... alguém que deveria estar experimentando


sentimentos estranho e antigos, que jamais deveria ter sentido em primeiro lugar. De qualquer modo, jamais seria capaz de competir com a Jackie Kennedy moderna. Era o último tipo de mulher que Peyton queria, ou de que precisava, para alcançar os seus objetivos. – E é exatamente por isso que não o quero dizendo coisas como essas – falou friamente. Notando a irritação dele ante o tom gélido, Ava insistiu. Não parou para pensar em como estava se portando exatamente do modo como jurara para si mesma que não se portaria, tratando-o do modo como o tratara na escola, mas estava começando a sentir coisas demais que não deveria estar sentindo, e não sabia o que mais fazer. – O que quero que tire deste exercício é algo um pouco menos perspicaz – prosseguiu com frieza. – Não deve ser muito difícil, não é? – Menos perspicaz? Pensei que a questão toda desta visita ao museu fosse me ensinar a dizer algo sobre arte que não me faça parecer um completo idiota. Ela assentiu. – Daí eu haver me concentrado nos trabalhos que temos hoje. Esses artistas e pinturas são conhecidos para todo mundo. Para o seu propósito, precisa dominar apenas alguns comentários superficiais. Nada profundo ou significativo. – Nesse caso, grande guru, me diga o que preciso saber a respeito deste? – ele falou sarcasticamente. Voltando a olhar para a pintura, já que era melhor do que olhar para a expressão zangada no rosto de Peyton, Ava disse: – Deveria dizer como é interessante que os temas em Nighthawks sejam similares ao Sunlight em Cafeteria, de Hopper, mas que a perspectiva do tempo é inversa. – Mas eu não vi Sunlight in a Cafeteria – ele salientou. – Sem falar que não faço ideia do que dia... hã... do que você está falando. – Ninguém mais com quem você possa falar também já viu – ela assegurou. – E não precisa entender. No instante em que dá mostras de que sabe mais a respeito de arte do que a sua companheira elas mudarão de assunto. Acho que você já está pronto no tocante aos artistas principais da arte americana. Amanhã examinaremos os impressionistas. Depois, se tivermos tempo, veremos os mestres holandeses. Peyton gemeu. – Ora, vamos Ava, com que frequência acha que esse tipo de coisa realmente vai surgir em conversas? – Com mais frequência do que pensa. E ainda temos de cobrir livros e música. Ele a fitou com uma expressão séria. – De modo algum precisarei saber dessas coisas todas antes do meu encontro com Francesca. Nem para andar nas altas rodas dos negócios. Você está apenas ganhando tempo. Ava o fitou boquiaberta. – Isso é ridículo. Por que eu haveria de querer passar mais tempo do que o necessário com você? – Não faço ideia – ele retrucou. – Deus sabe que não é como se você precisasse do dinheiro que estou certo de que me cobrará como hora extra. Acho que peguei essa... coisa... toda. Vamos adiante.


Bem, pelo menos ele estava cumprindo a regra de nada de profanidades. – Música – ela reiterou. – Livros. Ele bufou. – Tudo bem. Desde a época da escola que sou um grande fã de Charles Dickens. Que tal isso? Ela não conseguiu disfarçar a sua surpresa. – Lê Charles Dickens como lazer? Ele cerrou os dentes. – É claro. – Com um pouco mais de frieza, acrescentou: – E Camus e Hemmingway também. Acho que isso deve ser meio que um choque para você, não é? Que um lixo de sarjeta fedendo a gasolina como eu possa entender qualquer coisa que não seja as estatísticas esportivas no Sun Times. – Peyton, não era o que eu estava pensando... – Uma ova que não era! E já era a regra das profanidades. Mas Ava não o censurou, pois fora ela quem o levara a quebrála. Fez menção de negar a acusação, mas voltou atrás. – Tudo bem, pode ser que fosse o que eu estava pensando. Mas você nunca mostrou o seu lado cerebral na escola. Ainda assim, eu sinto muito. Não deveria ter presumido nada. Ainda mais considerando tudo que conquistou desde então. Ele pareceu surpreso e um pouco confuso com o pedido de desculpas. Contudo, ele ainda não facilitou as coisas para ela. – E considerando o que eu conquistei na época também – completou. – O que foi algo que jamais se deu ao trabalho de descobrir. Agora foi a vez de Ava de ficar surpresa. Peyton ainda parecia magoado com algo que acontecera... ou, melhor, não acontecera, anos atrás. Ainda assim, Ava falou: – Não fui a única que não se deu ao trabalho de conhecer meus colegas de classe. Também sempre fui mais do que deixava transparecer na escola, Peyton, mas você nunca notou nem se importou com isso. Ele deixou escapar uma exclamação de incredulidade. – Certo, mais do que apenas uma casca linda preenchida com nada além de seus próprios interesses? Eu acho que não. – Acha que não? No presente? Ainda acha que não passo de uma casca preenchida apenas com os próprios interesses? Preferiu não mencionar o linda. Ele nada falou, continuou a olhar para ela, do modo como o Peyton adolescente o fizera. – Acha que estou ajudando-o por mim? Não lhe passou pela cabeça que posso estar fazendo isso por que é algo legal para se fazer por um velho... um antigo colega de classe? – Está fazendo isso porque estou lhe pagando uma fortuna. Se isso não é interesse próprio, não sei o que é. De modo algum poderia convencê-lo sem revelar a realidade da sua situação. É claro que poderia fazer isso. Poderia lhe contar que sentira na pele tudo pelo que ele passara na escola e que sabia exatamente como Peyton sofrera.


Faça logo isso, Ava. Seja sincera com ele. Talvez, então, o carma volte a lhe sorrir. Contudo, nos calcanhares desse pensamento, veio outro. Ou, talvez. Peyton ria e diga as mesmas coisas que você escutou todos os dias em Prewitt, sobre parecer que morava em uma caixa de papelão sob a ponte, ou sobre não ser digna de limpar as casas de seus colegas, fedendo do jeito que fedia, e que talvez não morasse em uma caixa de papelão sob a ponte, mas, sim, em um lixão. Ela abriu a boca, honestamente não sabendo o que sairia. E ela se escutou dizendo: – Certo, eu esqueci. Dinheiro e posição social são mais importantes para mim do que qualquer outra coisa. – Invocando novamente a sua persona da época da escola, antes da queda, ela inclinou a cabeça para um dos lados e sorriu com frieza. Com uma voz capaz de congelar gelo, disse: – Mas isso é porque são mais importantes do que qualquer outra coisa, não são, Peyton? Isso é algo que você também aprendeu, não é? É o que você quer mais do que qualquer outra coisa agora. Suponho que isso faça de nós farinha do mesmo saco. Ele ficou boquiaberto, como se jamais houvesse lhe passado pela cabeça o quanto ele lembrava as pessoas por quem nutrira tanto desdém na época da escola. Os dois realmente haviam trocado de lugar. Em mais do que apenas no contexto social. No contexto filosófico também. Ela entendia melhor do que nunca agora que o que definia uma pessoa era o seu caráter, não o tipo de carro que tinha estacionado na garagem, ou o tipo de roupas penduradas no armário. Ava era pobre no senso econômico, contudo rica em outras maneiras, com certeza muito mais rica do que a garota faminta por integridade que fora na escola. Peyton, por outro lado, tinha dinheiro para queimar, mas estava com certa escassez de integridade, a julgar pelo que ele lhe contara sobre os seus métodos de negócios. Ele jogara muitas famílias no tipo de vida do qual se arrancara com unhas e dentes. E, atualmente, estava tentando tirar um negócio de família de suas últimas remanescentes para saqueá-lo. Iria colocar ainda mais gente na rua, e mais famílias em dívidas. E faria isso sob a fachada de ser um indivíduo benevolente e decente. Na verdade, hoje em dia, qual dos dois tinha mais a respeito do que se sentir culpado? – Acho que ambos já tivemos o bastante por hoje – ela falou de maneira decisiva. – Enfim poderemos escapar do museu? Ainda parecia irritado com o último comentário dela. – Sim, também já tivemos o bastante disso. Já que parece não ter problemas com a parte literária, amanhã encararemos a música. Ele deu a impressão de que iria resistir, contudo, em seguida, a resistência pareceu abandoná-lo. – Tudo bem. Como queira. Que horas quer que eu a pegue? Ela sacudiu a cabeça, como fazia todas as vezes em que ele fazia essa pergunta, e ele a fazia todos os dias. Ela disse a mesma coisa que dizia todos os dias em resposta. – Eu me encontro com você. Antes que ele pudesse protestar, outra coisa que ele fazia todos os dias, ela lhe deu o endereço de uma loja de discos de jazz em East Illinois e mandou que ele estivesse lá quando esta abrisse. – E, depois, aposto que almoçaremos em outro restaurante pretensioso – ele falou, claramente dando a impressão de estar cansado. – Já sei. Desta vez, até usarei um de meus ternos novos. – Faça como quiser.


Peyton não fazia segredo de que estava cansado de servir de Meu Belo Cavalheiro para ela. No fundo, não ligava para nada daquilo e só estava passando por tudo para avançar nos negócios. Quem dera Ava conseguisse compartilhar do seu desinteresse. Mas a razão para sua impaciência e irritação esta semana nada tinha a ver com não se importar. E tudo a ver com importar-se demais.


CAPÍTULO 7

PEYTON OLHOU para Ava do outro lado da menor mesa atrás da qual já fora forçado a sentar-se e fez o possível para ignorar a delicada toalha de mesa de babados e o jogo de chá de porcelana florida sobre esta. Esforçou-se ainda mais para ignorar a cascata de renda das cortinas e o carrinho de chá de ferro trabalhado. E melhor nem pensar nos pequeninos sanduíches triangulares com as cascas cortadas. Chá. Ela o estava forçando a tomar chá com ela. Em uma casa de chá, repleta de mulheres de luvas e chapéus. Diabos, Ava estava usando chapéu e luvas. Um pequenino chapéu com um daqueles finos véus brancos lhe caindo por sobre os olhos, e luvas brancas que iam até a metade do braço com uma infinidade de botões. O vestido branco tinha mais botões do que as luvas. Não estava usando o chapéu e as luvas quando adentrara a loja de discos, ainda mais cedo, de modo que ele não se dera contado que estava reservado para ele. Ela os retirara da enorme bolsa quando já estavam seguindo para a maldita casa de chá, que ela jamais dissera que era uma casa de chá. Ela dissera que estavam indo para um almoço tardio. Ainda assim, a aparição do chapéu e das luvas deveria ter sido o primeiro indício de que o “almoço” seria ainda pior do que algo para o que ele vestira o maldito terno. Algo que iria, nas palavras de Ava, ajudar na sua edificação. Quem dera pudesse acreditar que isto seria para a sua edificação, em vez de ser uma espécie de castigo pelo modo como se comportara no museu no dia anterior. Quem dera também pudesse achar que Ava parecia ridícula com os seus adereços. Adereços, uma palavra que qualquer homem que se preze teria feito de tudo para evitar usar. Diabos, ela parecia saída direto de um filme da Primeira Guerra Mundial. A verdade que é ela estava inacreditavelmente atraente. O que era justamente o que ele precisava. Ficar excitado por causa de Ava, a última mulher no planeta que deveria deixá-lo excitado. Tivera tanta certeza de que conseguiria permanecer sem ser afetado por ela, enquanto estavam envolvidos neste projeto de automelhorias. Afinal de contas, não haviam se dado muito bem naquela primeira manhã no apartamento dela. Contudo, em vez disso, se vira ficando cada vez mais fascinado por ela com cada dia que passava.


Exatamente como acontecera na escola. Procurou-se convencer de que era apenas físico. Do mesmo modo como fora físico na escola. Havia apenas alguma espécie de estranha química entre eles. Os feromônios dela falando com os ferômonios dele, ou coisa parecida. Falando? Diabos, estava mais para berrando. As pessoas não precisavam gostar umas das outras para se sentirem sexualmente atraídas. Bastava ter feromônios barulhentos e desagradáveis. Chá, lembrou-se a contragosto. Concentre-se no fato de que ela o está forçando a sentar-se em uma casa de chá, bebendo, eca, chá e comendo o tipo de coisa que nenhum macho que se preze deveria ingerir. Deus sabe o que aquilo faria com os seus níveis de testosterona. – Muito bem – ela falou em um tom de voz tão fresco quanto a roupa que estava usando. – Tomar chá. Este provavelmente será o seu maior desafio. Ah, Peyton não duvidava disso nem por um segundo. – Muitas pessoas acham que a arte do chá se perdeu ao longo dos anos – ela prosseguiu. – Mas, na realidade, ela vem ganhando mais popularidade. Daí a sua necessidade de se familiarizar com ela. – Ava – ele disse, reunindo o máximo de paciência de que foi capaz. – Acho que posso afirmar com segurança que, independentemente do quanto eu suba na sociedade, jamais convidarei ninguém para... – ele mal conseguia dizer as palavras – tomar chá comigo. Ela sorriu pacientemente. – Aposto que as irmãs Montgomery ficariam encantadas com um homem que as convidasse para tomar chá. E aposto que nenhum dos seus concorrentes pensaria nisso. Droga, Ava tinha razão. Duas doces velhinhas sulistas adorariam um lugar encantador como aquele. Diabos. Encantador. Outra palavra amplamente evitada por machos que se prezem. Para onde fora toda a sua testosterona? Ele bufou irritadamente. – Tudo bem. Apenas não espere que eu vá usar luvas brancas. – Suponho que sempre possamos fazer pequenas concessões. Como Henry James escreveu em Retrato de uma senhora: “Há poucas horas na vida mais agradáveis do que a hora dedicada à cerimônia conhecida como chá da tarde.” Ah, que bom. Pelo menos isto não duraria mais do que uma hora. – E eu não poderia concordar mais – ela prosseguiu. Peyton fez o possível para aparentar interesse. – Bem, é provável que o velho Henry jamais tenha passado uma tarde compartilhando uma caixa de Anchor Steam com os amigos, enquanto os Blackhawks davam uma surra nos Canucks. Ava sorriu delicadamente. – Sem dúvida. Ela deu início a um monólogo sobre a história de três séculos do chá da tarde, passando para a etiqueta do chá da tarde e completando com o cardápio a ser selecionado. Ainda bem que estavam tendo um chá completo, pois Peyton estava ficando com fome, ante as descrições dela. Quando ela


terminou, até mesmo o estômago macho dele já estava achando os pequeninos sanduíches triangulares e os doces finos apetitosos. Infelizmente, quando estendeu a mão para pegar um deles, levou um tapa de Ava. – Não se estique – ela falou. – Peça para que lhe passem. – Mas eles estão bem ali. – Estão mais perto de mim do que de você. – Ah, claro, cinco centímetros mais perto. – Não importa. Quem quer que esteja mais perto deve passar para quem quer que esteja mais longe. Tudo bem, ela definitivamente estava fazendo de tudo para ser teimosa, provocando-o deliberadamente. Pois bem, ele lhe mostraria uma coisa. Ele a mataria com a sua gentileza. Seria o mais cortês possível. E, graças a ela, aprendera a ser muito cortês. Empertigando-se na sua cadeira, ele invocou o vitoriano interior que sequer sabia ter e disse: – Se não for incômodo, srta. Brenner, importa-se de passar... – Como foi mesmo que ela os chamou? – Os canapés? Ela o fitou com desconfiança, claramente duvidando de sua sinceridade. Mas o que poderia fazer? Fora o perfeito cavalheiro. – Posso sugerir os sanduíches de pepino, ou as empadinhas de siri? Ele descerrou os dentes para responder. – Pode. – Qual é a sua preferência? – Os sanduíches de pepino. Por favor. Antes de pegar o prato, ela começou a desabotoar as luvas. Quando por fim retirou-as, o que pareceu ser uma eternidade depois, ela pegou o prato do sanduíche e o moveu 15 centímetros, de modo que este ficasse entre eles. Depois, serviu uma xícara de chá para cada um deles e acrescentou três cubinhos de açúcar à sua xícara. Peyton ergueu a sua xícara para a boca, e Ava pigarreou discretamente, assentindo com a cabeça na direção da xícara dele, que ele estava segurando pelo corpo, a coisa toda envolta por sua mãozorra, pois tivera medo de quebrar a aba delicada. Após alguns segundos de malabarismo, conseguiu segurar a xícara pela aba. Só então Ava acenou com a cabeça, indicando que ele tinha autorização para continuar. Caramba, ela realmente tivera de crescer daquele modo? Será que a mãe se sentara com ela dia após dia e a fizera memorizar todas as coisas que ela o estava fazendo memorizar? Fora forçada a se vestir de determinado modo e a desdobrar o guardanapo de certo jeito, e a falar apenas sobre assuntos aprovados com outras pessoas, da maneira como o estava ensinado a fazer? Ou a coisa toda vinha naturalmente para pessoas que nasciam de sangue azule com renda alta? Será que bom gosto e boas maneiras estavam gravados no seu DNA, assim como a cor dos olhos e do cabelo? Se era assim, será que no dele estava gravado ruas cobertas de lixo, brigar sujo e óleo de motor nas veias? Mais uma vez se deu conta de como vinham de mundos diferentes, e de como haveria um mundo de distância separando-os até o fim de seus dias. Mesmo com a sua renda agora rivalizando a dela, mesmo dominando todas aquelas lições que lhe garantiriam acesso ao mundo de Ava, ele


jamais estaria no mesmo patamar que ela socialmente. Porque jamais se sentiria tão à vontade com tudo aquilo quanto ela. Jamais seria instintivo para ele como era para ela. Ele detestará estar no mundo dela. Todas as regras e todos os costumes acabariam por sufocá-lo. Acabará matando tudo que fazia de Peyton quem ele era, do mesmo modo que tirar Ava de seu mundo acabaria por sufocá-la e matar tudo que fazia dela quem ela era. Contudo por que isso o incomodava tanto? Não era mais criança. Não ligava para em que mundo ela vivia, nem que jamais conseguiria cidadania lá. Na verdade, agora que se tornara um sucesso monstruoso, deliciava-se com seu passado durão nas ruas. Mesmo adolescente, sempre tivera um estranho orgulho de suas origens, pois vir de onde viera não conseguira destruir seu espírito, como acontecera com tantos em sua vizinhança. Mas, se era assim, por que o incomodava tanto que seu mundo e o de Ava jamais se encontrariam? A xícara já estava quase nos lábios quando uma resposta para a pergunta explodiu na sua cabeça. Incomodava-o porque, subitamente, soube que a coisa que o impulsionara ao sucesso, que o levara a escapar de sua vizinhança e lutar para chegar ao topo na faculdade, a coisa que o impedira de desistir, nas centenas de vezes em que quisera fazê-lo, que o levara a subir no mundo dos negócios e a fazer muito dinheiro... o que fizera tudo isso fora... Diabos. Não fora uma coisa. Fora uma pessoa. Ava. A xícara foi bruscamente abaixada, aterrissando com tal impacto que parte de seu conteúdo espirrou na mesa. Peyton nem sequer sentiu a ardência. Olhou para Ava, que estava olhando para um prato de biscoitos, tentando decidir qual ela escolheria. Não notou que ele derramara o chá, e, é claro, não fazia ideia de seus pensamentos turbulentos. Ela pusera o véu para trás, deixando à mostra o rosto lindo. Ela realmente não mudara muito desde a escola. E não apenas na aparência. Continuava linda, e tão elegante e refinada quanto sempre fora. E proibida. No final das contas, a Ava adulta não era diferente da Ava da adolescência. E ele também não. Ainda era, e sempre seria, o garoto invasor no mundo dela. Como se para enfatizar as diferenças, além dos biscoitos, Ava escolheu dois dos doces mais delicados para transferir para seu prato, justamente aqueles que ele teria medo de sequer chegar perto, por receio de destroçar as coisinhas frágeis com suas manzorras. Ele se virava melhor com um bom bife e uma montanha de purê de batata, acompanhado de uma garrafa de cerveja gelada. O néctar e a ambrosia do macho da classe operária. Quando Ava por fim ergueu a cabeça para ver como ele estava se virando, ela franziu a testa em sinal de confusão. Peyton tentou se concentrar no prato dos sanduíches, tentando dar a impressão de que estava indeciso. Mas, em seus pensamentos, ainda tentava lidar com a sua epifania. Deus, Ava. Sempre fora Ava. Não estava tentando dominar a arte das coisas finas da vida para adquirir outra empresa e acrescentar mais um zero aos seus lucros. No fundo, não. Claro que a Montgomery & Sons era o ímpeto, mas não estaria tentando fazer isso se não fosse Ava. Não teria feito nada nos últimos 16 anos se não fosse por Ava. Ainda estaria em sua antiga vizinhança, trabalhando na oficina com o pai. E poderia até ter tido uma existência feliz assim. Se não tivesse conhecido Ava.


Contudo, no instante em que pusera os olhos nela, na escola, algo o levara a ser alguém melhor na vida. Levara? Algo o motivara era uma palavra melhor. Pois, depois que Ava passara a fazer parte de sua vida, nada mais importara. Nada com a exceção de estar à altura dos padrões que ela poderia aprovar. Para que então, talvez, um dia, ela pudesse aprová-lo. E então, talvez, um dia, os dois pudessem... Não se permitiu concluir o pensamento. Tinha medo do que mais poderia descobrir ao próprio respeito. Já era ruim que houvesse compreendido o que o trouxera tão longe. Só não entendia por quê. Por que Ava tinha esse efeito sobre ele quando nada mais tinha? O que ela tinha que se instalara no seu íntimo? Por que fora o catalizador para ele escapar das ruas cruéis, quando as próprias ruas cruéis não haviam sido o suficiente? – Algo errado? – ela perguntou, despertando-o de seus pensamentos. – Não. Apenas tentando decidir o que eu quero. E era verdade. Apenas não queria nada que estivesse no prato de sanduíches. – Talvez um dos sanduíches de ovo ao curry? Ou, se quiser algo mais doce... Ele definitivamente queria algo mais doce. – ... pode experimentar o bolo de gengibre. Mas não isso. Ah, esta coisa com Ava não estava saindo como ele planejara. Que homem queria descobrir algo tão vital a respeito de si mesmo em uma droga de casa de chá? – Hã... É, pode me dar um desses sanduíches de ovo ao curry. Parecem... – A palavra escapuliu de sua boca antes mesmo que ele conseguisse se conter. – Divinos. Pronto. Foi a gota d’água. Podia sentir o que restava de sua testosterona escorrendo por cada poro. Havia um limite para quanto chá um homem aguentava tomar antes que deixasse de ser homem. E havia um limite para quanta autodescoberta um homem podia aguentar antes de perder a sanidade. Se Peyton não saísse dali logo, se não saísse de perto de Ava logo... – Olha, Ava, o que acha de encerrarmos por hoje? Acabo de me lembrar de uma videoconferência que preciso fazer em... – Olhou para o relógio e fingiu estar vendo a hora. – Ah, puxa, trinta minutos. Realmente preciso voltar para o meu hotel. Ela parecia genuinamente arrasada. – Mas o chá... – Não podemos levar para viagem? A julgar pelo modo como a expressão dela mudou, ele poderia muito bem ter saltado em cima da mesa e abaixado as calças, apresentando todo mundo ao Sr. Feliz. – Não – ela falou, por entre dentes cerrados. – Ninguém leva chá da tarde para viagem. Ainda mais em um lugar como este. – Não sei por que diabos não. Ah, pronto. Até mesmo a profanidade moderada devolveu um pouco de testosterona para ele. Agora, se ao menos encontrasse um jeito de recuperar o resto. Olhou ao redor até avistar o garçom e sinalizou para ele do modo mais desagradável possível. – Ei, garçom! Aqui! Será que podemos levar isto para viagem?


Todo mundo no aposento voltou-se para ele, e para Ava, com expressões horrorizadas. Peyton tinha de admitir que isso ajudou um bocado na recuperação de sua masculinidade. Tudo bem, então estava se portando como um cretino, e fazendo isso à custa de Ava. Mas, às vezes, em casos de emergência, um homem tinha de recorrer a sua rudeza. A seus maus modos. E, caramba, como era bom. Arriscou um olhar na direção de Ava e viu que ela pousara os cotovelos sobre a mesa, apoiando a cabeça nas mãos. – Ei, Ava – falou. – Tire os cotovelos da mesa. Que grosseria. Está todo mundo olhando para nós. Puxa, não posso levá-la a lugar algum. – Ele olhou para o garçom, que não arredara o pé de onde estava, servindo um pouco de bolo para duas senhoras. – Eu estou falando outra língua? – gritou. – É, você aí com a roupa de pinguim. Será que pode arrumar uma embalagem para viagens aqui, para... – ele gesticulou na direção do carrinho de chá e dos pratos de comida – para tudo isto aqui? Quero dizer, a esses preços, não vou querer desperdiçar nada, está me entendendo? – Peyton, o que está fazendo? – Ava perguntou, por trás das mãos. – Está tentando conseguir que nos expulsem daqui? Será que não estava óbvio? Será que realmente estava falando outra língua? – Garçom! – voltou a gritar. – Não temos o dia todo. Ava voltou a gemer por trás das mãos e disse algo para efeito de que jamais poderia tomar chá ali novamente. Peyton teve de se esforçar para não falar: De nada. Preferiu continuar invocando seu adolescente interior, que se surpreendeu de encontrar bem abaixo da superfície. – O serviço neste lugar é uma droga, Ava. Da próxima vez, deveríamos ir ao McDonold’s. Pelo menos eles entregam a sua comida em uma sacolinha. Não acho que esse sujeito vá nos trazer uma. Já devia ter dito o suficiente para fazê-la erguer a cabeça e esbravejar com ele, o mais polidamente possível, é claro, já que estavam em um local público. Contudo, em vez disso, Ava apenas abaixou as mãos e o fitou com uma expressão cansada. Verdadeiramente cansada. E ela não disse uma só palavra. Apenas ficou de pé. Pegou a bolsa e as luvas, virou as costas e foi embora com a elegância de uma czarina. Peyton se viu sem reação. Ela não iria dizer algo combativo em resposta? Não ia chamá-lo de grosseirão? Não ia dizer que homens como ele davam má fama a todo o seu gênero? Não ia cuspir fogo? Simplesmente iria embora, sem nem mesmo tentar? Quando se deu conta de que, sim, era exatamente o que ela ia fazer, ele saiu correndo atrás dela. Já estava quase na saída, quando percebeu que não haviam pagado a conta, de modo que voltou à mesa tempo o suficiente para deixar um punhado de notas de vinte sobre esta. Não esperou o troco. Diabos, o garçom merecia uma gorjeta de cem por cento pelo modo que ele acabara de se portar. Quando ele saiu da casa de chá para a rua, viu-se afogado em uma multidão de pessoas. Olhou para a esquerda, e depois para a direita, mas não fazia ideia de para que lado Ava fora. Lembrandose da roupa que ela estava usando, procurou um pouco de branco em meio ao mar de cores sóbrias dos ternos, olhando para tudo quanto era lado. Por fim, a avistou no meio da passarela no final do


quarteirão, abotoando as malditas luvas como se fosse a rainha da Inglaterra a caminho de vistoriar a guarda real. Saiu correndo atrás dela, contudo, quando chegou à esquina, ela já estava do outro lado da rua, e o sinal estava mudando de cor. Não que isso fosse impedi-lo, pois cruzou a rua, independentemente da cor do sinal, meia dúzia de motoristas sentando a mão na buzina para mostrar seu desprazer, e quase foi atingido algumas vezes por para-choques. Mesmo quando chegou em segurança ao outro lado da rua, continuou correndo, tentando alcançar Ava. Tomado de pânico, chegou a pensar que jamais fosse alcançá-la, até ela virar em uma rua lateral que estava menos movimentada. Ainda assim, teve de apressar o passo para alcançá-la. Por fim, chegou perto o suficiente para agarrá-la pelo braço e girá-la para si. Ava, na mesma hora, libertou o braço com um puxão. Peyton a soltou, erguendo as mãos em sinal de rendição. – Ava, eu sinto muito – ele falou, ofegantemente. – Mas... pare. Apenas pare um minuto. Por favor. Por um instante, ficaram ali parados na calçada, olhando um para o outro, esperando... alguma coisa. Peyton não fazia ideia do quê. Ava deveria parecer ridícula no seu vestido antiquado, com as luvas e o chapeuzinho com o véu tombado para o lado. Em vez disso, parecia feroz o bastante para parti-lo ao meio. Um pedestre esbarrou nele, fazendo com que desse um passo para a frente, até estar quase cara a cara com ela. Sem perder a pose, Ava recuou um passo. – Deixe-me em paz – ela falou sem preâmbulos. – Não – ele retrucou, com semelhante laconismo. – Deixe-me em paz, Peyton – ela repetiu, com decisão. – Eu vou para casa. – Não. Não tinha certeza se a palavra fora em resposta à primeira frase ou à segunda, contudo, no fundo, não importava. Não ia deixá-la em paz e não queria que ela fosse para casa. Apesar de sua convicção de pouco antes de que precisava ficar sozinho para colocar em ordem os pensamentos, subitamente, isolamento era a última coisa que ele queria. Não que fizesse ideia de qual era a primeira coisa que queria. Bem, talvez até soubesse, mas não tinha certeza se sabia o que faria com ela caso a conseguisse. Bem, talvez meio que soubesse isso também. Mas... – Você disse que ainda há muito trabalho a ser feito, antes que eu possa sair com Francesca – ele lembrou, colocando de lado tais pensamentos, e torcendo para que ficassem lá. – Falta apenas uma semana. Ela relaxou a postura. Ele percebeu que parecia cansada. Não conseguia se lembrar de já tê-la visto com aparência tão cansada. Não desde que haviam se reencontrado ali em Chicago. Não quando eram garotos. Era... perturbador. Depois, lembrou-se de que já a havia visto tão cansada uma vez. Naquela noite na casa dos pais dela, quando estavam estudando até tarde. Também o incomodara então. O suficiente para querer fazer algo que a deixasse menos cansada. O suficiente para pousar as mãos nos ombros dela, para massagear os músculos tensos. Contudo, no instante em que a tocara... Também colocou tal pensamento de lado. Realmente não precisava estar pensando nisso agora. – Deveria ter pensado no seu encontro com Francesca antes de ter me humilhado na sala de chá. – É, quanto a isso...


Mas Ava não o deixou completar. – Peyton, poderíamos trabalhar por um ano que de nada adiantaria. Você simplesmente continuaria nos sabotando. Ele não pôde deixar de notar o uso da palavra nos. Será que ela também notara como os colocara juntos no mesmo pacote? Mesmo que tivesse notado, o que isso significava, se é que significava alguma coisa? – Eu só nos sabotei hoje – disse. – E só porque você estava fazendo de tudo para tornar as coisas mais difíceis do que tinham de ser. Embora fosse verdade, não fora o motivo para ele se comportar como se comportara. Fizera isso porque precisava sair do lugar o mais rápido possível. O problema agora era convencer Ava de que ainda queria seguir em frente, após haver deliberadamente dado tantos passos para trás. E o problema era que, subitamente, sua vontade de dar prosseguimento àquela transformação ridícula tinha menos a ver com as irmãs Montgomery em Mississipi... e muito mais a ver com conquistar Ava ali em Chicago.


CAPÍTULO 8

AVA SUBIU até seu apartamento, com Peyton atrás, silenciosamente desejando que ele torcesse o tornozelo. Não o bastante para ter danos permanentes. Apenas o suficiente para fazê-lo ter de sentar-se e massagear o tornozelo, dando-lhe a chance de escapar dele. Apesar de suas exigências para que a deixasse em paz, Peyton a seguira por três quarteirões, sem que nenhum dos dois dissesse uma palavra. Achara que ele fosse desistir quando alcançassem a porta atrás da loja, que dava para a escada que levava ao apartamento dela. Mas ele enfiara o pé no vão da porta antes que tivesse a chance de batê-la na sua cara. Àquela altura, estava cansada demais para discutir com ele. Se ele quisesse segui-la até lá em cima, para que pudesse bater à porta do apartamento na cara dele, a escolha era dele. Todavia ele também foi mais rápido ali, enfiando o bico do sapato Gucci novo entre o batente e a porta, antes que ela tivesse a chance de conectar os dois. Ava apoiou-se na porta com força, tentando fazer pressão de modo a forçá-lo a remover o pé, para não ter os dedos do pé esmagados. Mas o pé permaneceu firme no lugar, dando mostras da robustez do design italiano. – Ava, deixe-me entrar – ele falou, empurrando a porta. – Vá embora. – Apenas fale comigo por alguns minutos. Por favor? Ela suspirou cansadamente e aliviou a pressão na porta, Peyton a empurrou com mais força, obtendo acesso ao apartamento. Contudo, surpreso com o próprio sucesso, ele deteve-se na metade do caminho, o rosto a poucos centímetros do dela, as pontas dos dedos ao redor da porta roçando nos dela. Mesmo através da luva, pôde lhe sentir o calor. Estava perto o bastante para ver a cicatriz no queixo que ele não tinha na época da escola, o dourado que circundava as íris dos olhos. Perto o bastante para sentir o seu calor se misturando com o dele. Perto o bastante para desejar que pudesse estar ainda mais perto. Que foi o motivo para ela largar a porta e seguir para a cozinha. Precisava de chá. Uma boa xícara de chá calmante. Mal tivera a chance de provar o seu na casa de chá. Um tranquilizador chá de camomila seria a perfeição. Qualquer coisa para desviar os pensamentos de querer ficar mais perto de Peyton. Não, tratou de corrigir-se. Qualquer coisa para tirar da cabeça a tarde terrível.


Sem perder um instante, tirou as luvas e o chapéu e pegou a chaleira de sobre o fogão, encheu-a de água e a devolveu para o acendedor, girando o botão para ligá-lo. Depois, ocupou-se em procurar as xícaras e o passador. Sentiu o olhar de Peyton sobre si o tempo todo, mas fingiu não ter notado que ele a seguira até a cozinha. Após deixar a xícara preparada, fingiu procurar alguma outra coisa nas gavetas. – Ava – ele por fim disse, quando se tornou claro que ela não estava disposta a dar continuidade à conversa. – Que foi? – respondeu, sem tirar os olhos da gaveta. – Será que pode, por favor, conversar comigo? – E não estamos conversando? – ela perguntou, sem erguer a cabeça. – Se não estamos conversando, o que estamos fazendo? – Não sei o que você está fazendo, mas estou tentando conseguir que você olhe para mim para que eu possa explicar o que fiz ainda há pouco. Não ia embora até que tivessem resolvido aquilo. De modo que Ava bateu a cabeça e voltou-se para ele. – Estava propositalmente tentando conseguir que fossemos expulsos dali – disse. – Tem razão. Eu estava mesmo – ele admitiu surpreendendo-a. Ele estava postado na entrada da cozinha, preenchendo o vão da porta, fazendo o aposento parecer microscópico. Durante a caminhada, ele tirara a gravata e desabotoara os botões superiores da camisa, mas ainda parecia pouco à vontade naquelas roupas. Verdade seja dita, durante toda a semana, ele não parecera nada à vontade em suas roupas novas. Sempre parecera pronto a arrancar a pele do animal no qual ela estava tentando transformá-lo. Entretanto ele pedira para que ela o modificasse. Não havia motivo para ela se sentir culpada. Estava tentando ajudá-lo. Estava sim. Fora ele quem estragara a tarde com o seu comportamento rude. Ele mesmo admitira. – Por que fez isso? Estávamos tendo uma tarde tão agradável. – Não. Você estava tendo uma tarde agradável, Ava, eu estava virando uma dro... um raio de Mary Poppins. – Mas, Peyton, se você quiser transitar – de algum modo, conseguiu se forçar a dizer as palavras – no meu mundo, precisa saber como... – Não preciso saber tomar chá – ele interrompeu, praticamente cuspindo as duas últimas palavras. – Admita, Ava, o único motivo de ter me levado até lá foi para ir à forra por alguma coisa. Por ser menos do que um cavalheiro... bem, o que você considera um cavalheiro, pelo menos... no Art Institute ontem. Ou, talvez, por algo mais ao longo desta semana. Deus sabe que é tão difícil entendê-la agora, quanto era na época da escola. Ignorando a sugestão de que ela o fizera ir à casa de chá como castigo, já que talvez houvesse um que de verdade nisso e ignorando a acusação de que era difícil de entender, já que Peyton provavelmente jamais tentara, preferiu se ater ao outro comentário. – O que eu considero um cavalheiro? – falou, tomada de indignação. – Aqui vai uma novidade para você, Peyton, estou tentando ensiná-lo a ser o que qualquer mulher no seu juízo perfeito gostaria que um homem fosse.


Ele sorriu, um sorriso arrogante, parecido com os que ele costumava lançar para ela na época da escola. – Ah, é? Que engraçado. Muitas mulheres que me conheceram antes desta semana gostavam de mim exatamente como eu era. Muitas mulheres, Ava – ele enfatizou. – Adoravam. Ela sorriu de volta com o que torcia para que fosse a mesma arrogância. – Veja bem que eu disse “qualquer mulher no seu juízo perfeito”. Considerando o seu círculo social, duvido que tenha conhecido muitas. Ela teve vontade de se esbofetear pelo comentário, não só porque era esnobe, mas porque também não era verdade. O círculo social não definia o juízo de uma pessoa. Longe disso. Mas esse era o efeito que Peyton tinha sobre ela. Ele a fazia querer que ele se sentisse tão insignificante quanto ele a fazia se sentir. Como acontecera na época da escola. Ele continuou a sorrir, mas os olhos estavam duros. – A questão é que, nos dias de hoje, ando no mesmo tipo de círculos que você costumava andar quando estava crescendo. E, diabos, Ava, pelo menos eu ganhei o meu dinheiro. Você não pode dizer o mesmo. Seu pai lhe deu tudo que já teve. E até mesmo o papai não trabalhou para ter tudo que tem. Ele herdou do velho, que herdou do velho deste. Diabos, Ava, quanto tempo faz desde a última vez em que alguém na sua família de fato trabalhou para ter as coisas boas que tem? Ela sentiu um aperto no peito ante as palavras dele. Não só porque o que ele dissera sobre o pai era verdade, mas também por que Ava detestava ser lembrada de como a família era, de como tratavam gente como Peyton. Detestava ser lembrada de como ela costumava ser, e de como tratara gente como Peyton. Ele também tinha razão quanto ao dinheiro que ela tivera na época de escola. Ela não fizera nada para ganhá-lo. Pelo menos Peyton tivera um emprego após a escola e ganhara o próprio dinheiro. Nesse ponto, ele fora mais rico do que ela. Jamais tivera o direto de tratá-lo como o tratara quando eram crianças. A chaleira começou a apitar, e, grata, ela virou-se para cuidadosamente despejar a água quente na xícara. Por longos instantes, concentrou-se apenas em preparar o chá, e nada disse. A agitação de Peyton ante seu silêncio foi quase palpável. Ele adiantou-se para dentro da cozinha, detendo-se a seu lado. Tão perto que ela podia sentir seu calor, inalar seu perfume. Tão perto que, mais uma vez, desejou que ele se aproximasse ainda mais. – É só isso? Não vai dizer mais nada? – O que mais eu deveria dizer? – Não sei. Algo sobre meu dinheiro ser dinheiro novo, e que não é digno de ser comparado ao seu, que tem tradição. Algo do gênero. A Ava adolescente teria dito exatamente isso. A Ava de hoje não. Contudo, o que a Ava de hoje queria era... Bem, provavelmente era melhor não pensar nisso. Não enquanto Peyton estivesse postado tão próximo, tão lindo e tão perfumado. Ela esquivou-se da pergunta, retrucando: – Por que eu haveria de dizer uma coisa dessas, quando você já disse? – Porque eu não estava falando sério. Por que não vai discutir comigo? – Por que quer que eu discuta?


– Pare de responder minhas perguntas com outras perguntas. – E eu estou fazendo isso? – Droga, Ava, eu... Como fizera durante toda a semana, ela falou instintivamente. – Olha a linguagem. Ele hesitou por um instante, antes de dizer: – Não. Isso, finalmente, fez com que ela erguesse o olhar. – O quê? Ele voltou a sorrir, contudo, desta vez, foi mais desafiador do que arrogante. – Eu disse “não” – repetiu. – Não vou olhar a linguagem. Estou cansado de olhar a linguagem. Como que para realçar a sua posição, a declaração foi seguida de uma sequência de profanidades que fizeram Ava estremecer. E então, ele ficou parado, esperando a retaliação dela, como se estivesse ansioso por isso. De modo que, como retaliação, Ava voltou para seu chá. Retirando o passador da xícara, ela o colocou de lado. Depois, levou a xícara aos lábios e assoprou baixinho. Olhando para Peyton, notou que sua irritação se transformara em raiva. Sem provar, devolveu o chá a bancada, mas continuou a fitar nos olhos amarelados dele ao falar: – Chega de discutir, Peyton. Estou cansada de fazê-lo e não leva a nada. Ele nada disse em resposta. Apenas ficou parado, com o corpo rígido, olhando firmemente para ela. E então, aos poucos, ele cedeu. Quase pôde sentir a luta abandonando seu corpo, como se estivesse tão cansado do antagonismo quanto ela. – Se eu pedir desculpas pelo meu comportamento hoje à tarde, voltará a trabalhar para mim? – ele perguntou. Sua vontade era responder não, dizer que ele já aprendera o bastante. Contudo, por algum motivo, nada respondeu. – Disse que ainda temos muito trabalho pela frente – Peyton insistiu. Ela continuou sem dizer nada. – Quero dizer, e se o encontro que Caroline marcar com Francesca envolver frutos do mar? Ou se ela nos mandar para uma degustação de vinhos? Nós mal começamos a ver vinhos, e isso é algo sobre o qual vocês ricos sempre acabam conversando. Ainda em silêncio. – Ou, ah, meu Deus, dançar. Não sei dançar aquele tal de Gangnam Style. Isso a fez sorrir. E escutou-se dizer: – Tudo bem. Eu ensinarei tudo sobre frutos do mar, vinho e dança até o final da semana. – E algumas outras coisas também – ele acrescentou. Ela ergueu o olhar ao escutar isso, e, na mesma hora, arrependeu-se. De algum modo, nos últimos instantes, ele se tornara ainda mais atraente. Parecia mais... gentil, mais acessível. Como o tipo de homem que nenhuma mulher em seu juízo perfeito pudesse deixar de querer. – Que outras coisas? Ele sorriu.


– Farei uma lista. – Tudo bem – ela concordou, relutantemente. Seria apenas por mais uma semana. Decerto, poderia ficar perto dele por mais uma semana sem perder o coração. A cabeça, apressou-se em corrigir. Sem perder a cabeça. – Promete? – ele perguntou, parecendo hesitante. Era um pedido estranho. Por que queria que ela prometesse. Era como se houvessem voltado a ser adolescentes. Não confiava nela? Ela cumprira com sua parte ao longo da semana, ajudando-o nas coisas que pedira que ela ajudasse. Foi só quando ele atirou tais lições pela janela e se portou como um completo idiota que ela resolvera pular fora. – É, prometo. – Promete me ajudar com tudo em que eu preciso de ajuda? – É, prometo. Contudo, em troca, terá de prometer que irá parar de me desafiar o tempo todo. Ele sorriu ante a exigência, porém, desta vez, não houve nada de arrogante nem desafiador no gesto. Na verdade, desta vez, quando Peyton sorriu, pareceu simpático. – Ora, vamos. Você adora quando eu a desafio. Ah, claro. Tanto quanto gostara quando estavam na escola. – Prometa – ela insistiu. Ele ergueu a mão direita com a palma voltada para ela, como se estivesse fazendo um juramento. – Eu prometo. – Mas o dia foi perdido – ela falou. – É tarde demais para começarmos qualquer coisa nova agora. – Sinto pelo modo como me portei na casa de chá. Mais uma vez, ele a surpreendia. – E sinto muito por tê-lo forçado a ir a uma casa de chá – ela admitiu. O comentário a fez lembrar de que ainda estava usando o chapéu e as luvas. Ela deu início à árdua tarefa de desabotoar cada um dos pequeninos botões de pérola da luva esquerda. – Não, não faça isso – Peyton disse abruptamente. – Por que não? – É só que... hã... quero dizer... Eu... – Peyton engoliu em seco. A expressão do seu rosto parecia de culpa. – Elas ficam muito bem em você. Ele parecia ligeiramente ruborizado, ela notou, tomada de surpresa. Seria isso realmente possível? Devia ser um truque de luz da iluminação fraca da cozinha. Ainda assim, algo em seus olhos fez com que ardor se espalhasse por todo o corpo dela, chegando a partes que não deveriam estar se aquecendo naquele momento. – Obrigada – disse, um tanto quanto tremulamente. Quando voltou a desabotoar as luvas, Peyton ergueu a mão na direção da dela, dando a impressão de que queria protestar novamente. Ela hesitou, fitando-o com uma pergunta silenciosa, e, com evidente relutância, ele abaixou a mão. Estranho, pensou, e retornou à sua tarefa, mas não pôde deixar de notar que o olhar dele continuava fixo nas mãos dela e como o músculo do maxilar parecia se retesar à medida que as faces iam ficando mais rosadas. Subitamente, as mãos pareceram


não querer mais cooperar. Quando cada botão foi demorando mais a ser libertado do que o anterior, Peyton adiantou-se, como que para ajudá-la. Quanto mais intenso o olhar dele, menos à vontade Ava se sentia, dificultando ainda mais seu progresso. Nesse ritmo, Peyton e Francesca estariam enviando seu primogênito para a faculdade antes que ela terminasse com a primeira luva. Por fim, ela rendeu-se e abaixou a mão direita, estendendo a esquerda para ele. – Será que pode me ajudar? – ela perguntou, com certa incerteza. Distraidamente, ele abaixou o olhar para a mãe dele. – O quê? – perguntou. – Minha luva – ela falou. – Os botões. Não estou conseguindo abri-los. Importa-se de me ajudar? A cor voltou a se espalhar por suas faces. – Hã, não. Não, é claro que não me importo. Será um prazer despi-la... Quero dizer, despi-las. Ajudá-la. A despi-las. É claro. Sem problemas. Ele levou as mãos até a esquerda dela, mas hesitou antes de fazer contato. Instintivamente, Ava adiantou-se, como se isso fosse ajudá-lo. Tudo que fez foi diminuir a distância entre eles, fazendo com que ele sentisse ainda mais intensamente sentisse o seu ardor e o seu perfume. Peyton adiantou-se, eliminando por completo a distância que os separava. Quando o torso dele roçou nela, algo no íntimo de Ava incendiou-se. Seu toque foi tão deliciosamente delicado, e inesperado, vindo de um homem como ele. Era diferente de tudo que já sentira antes. Lembrou-se de que isso não era verdade. Anos atrás, em seu quarto na mansão em Gold Coast, sentira um toque igualmente delicado e delicioso. Naquela noite em que Peyton curvara os dedos de uma das mãos sobre os ombros dela e deslizara os outros pela sua nuca, um gesto tão hesitante, tão gentil, que era como se estivesse tocando uma garota pela primeira vez, o que era ridículo, pois todo mundo em Emerson sabia que ele era imensamente experiente, mesmo aos 17 anos. Com o cuidado que um adolescente jamais deveria ter sido capaz, ele começou a massagear os músculos tensos. As massagens, contudo, logo começaram a escalonar. Seu toque contribuiu mais para agitar do que acalmar, despertando em Ava sentimentos que passara meses, anos até, tentando negar. Cada carícia de seus dedos a faziam ansiar por mais, até seus pensamentos se tornarem uma confusão de desejos, vontades e necessidades. Os toques afetaram Peyton tanto quanto ela. Em questão de instantes, o que começara como um esforço para tranquilizar se transformou em uma necessidade de excitar. Acabaram um nos braços do outro como dois animais, mal interrompendo o contato tempo o suficiente para respirar. Entretanto não passavam de garotos, ela lembrou-se, tentando ignorar o ardor que brotava em seu íntimo. E tudo quanto era lugar. Na época, estavam à mercê de incontroláveis hormônios adolescentes. Eram adultos agora e poderiam se controlar. Sim, ainda se sentia fisicamente atraída por Peyton. E desconfiava que ele ainda se sentisse fisicamente atraído por ela. Mas eram maduros e experientes o bastante para reconhecer que tal atração não levaria a nada, quando não havia mais nada entre eles para fazê-la durar. Sem a emoção para enriquecê-lo, sexo era apenas sexo. E ela há


muito já passara da fase de querer ter sexo com alguém quando sabia que não havia futuro para eles. Agora, as carícias dos dedos em sua mão estavam seriamente tentando-a a mudar de ideia no tocante a isso. Talvez, só desta vez, sexo sem um futuro não fosse algo tão ruim. E, então, Ava se deu conta de que Peyton não estava desabotoando a sua luva. Na verdade, estava abotoando-a novamente. – Peyton, o que está fazendo? – ela perguntou, surpresa e até um pouco ofegante. – Preciso de ajuda para tirar as minhas luvas. Ele mesmo pareceu um pouco sem fôlego quando disse: – Ah, acho que gosto mais de você com elas. – Mas... Ela não conseguiu completar o protesto. Nem sequer conseguiu completar a objeção, pois Peyton inclinou a cabeça e cobriu-lhe a boca com a sua. Um ligeiro suspiro de surpresa escapuliu, e ele aproveitou-se da sua boca entreaberta para prová-la mais profundamente. Com uma das mãos ainda entrelaçada à mão enluvada, ele a puxou para si, sua outra mão livre descendo até a parte inferior das costas para mantê-la no lugar. Não que Ava necessariamente quisesse ir a algum lugar. Ainda não. Aquilo estava começando a ficar interessante... Instintivamente, ela retribuiu o beijo, curvando a mão livre sobre o ombro dela, inclinando-lhe a cabeça de modo a lhe facilitar o acesso. Quando o fez, o chapéu bateu na testa dele. Soltou-lhe o ombro de modo a poder soltar os três grampos que o mantinham no lugar, mas Peyton também capturou essa mão. – Não – disse baixinho. – Mas está atrapalhando. Ele sacudiu a cabeça. – Não. Está perfeito onde está. Ambos estavam ofegantes. Seus olhares fixos um no outro, nenhum dos dois aparentemente certos do que fazer. A coisa toda não fazia sentido. Instantes atrás, estavam discutindo, e ela lhe dizia para deixá-la em paz. Sim, haviam chegado a uma trégua precária, mas isso ia além de qualquer tratado de paz que haviam estudado na aula de história do mundo. Por fim, ela perguntou: – Peyton, o que estamos fazendo? Por um instante, ele nada disse, apenas continuou a lhe segurar as mãos e a lhe fitar o rosto. Depois, disse: – Algo que estava para acontecer há muito tempo, eu suponho. – Não pode ser tanto tempo assim. Faz apenas duas semanas que voltou para Chicago. – Ah, mas isto começou muito antes de eu voltar para Chicago. Era verdade. Provavelmente começara no primeiro ano dela em Emerson. Na primeira vez em que pusera os olhos no garoto perigoso do segundo ano. Antes mesmo de saber o que era querer alguém, ela já queria Peyton. Apenas não compreendia como esse tipo de desejo podia ser profundo. Agora... Agora, entendia tudo muito bem. E agora, o queria ainda mais.


Ainda assim, resistiu. – Não é uma boa ideia. – Por que não? – Porque não há razão para isso. – Também não havia razão 16 anos atrás. Mas isso não nos deteve. – É exatamente onde quero chegar. – Mas éramos tão bons juntos, Ava. – Naquela única noite, fomos. Ele deu de ombros. – A maioria das pessoas não tem uma noite como aquela em toda a sua vida. Implícito na afirmação estava a ideia de que, se dessem prosseguimento ao que estavam fazendo, teriam não só uma, mas duas noites como aquela. Mas seria o suficiente? E, querendo-o ainda mais agora, não seria ainda mais difícil abrir mão dele depois? Não teve tempo para formular respostas para nenhuma das duas perguntas, pois Peyton voltou a abaixar a cabeça, beijando-a novamente. Desta vez, foi mais cuidadoso, evitando o chapéu, roçando os lábios nos dela uma, duas, três, quatro vezes. Com cada carícia de sua boca, o coração de Ava batia mais forte, sua temperatura subia ainda mais, e seus pensamentos se derretiam. Quando se deu conta, estava ladeando o rosto de Peyton com as mãos enluvadas e beijando-o com a mesma ternura que ele demonstrava para com ela. Exatamente como acontecera antes, as coisas escalonaram rapidamente. Ela mergulhou as mãos nos cabelos dele para pousar uma na nuca e a outra no pescoço. Depois, ambas as mãos desceram até a lapela do paletó, empurrando a peça por sobre os ombros largos. Tirando o paletó, ele levou as mãos ao topo do vestido dela, desabotoando o primeiro de muitos botões. A vontade de Ava era atacar os botões da camisa dele, mas, mais uma vez, as luvas a atrapalharam. Descolou a boca da dele para mais uma vez tentar removê-las, apenas para Peyton detê-la. – Quero tirá-las para poder tocá-lo – disse. – E eu quero que continue com elas. – Seu sorriso foi definitivamente devasso. – Pelo menos, da primeira vez. O chapeuzinho também. A pulsação dela disparou ante a perspectiva de uma segunda vez, talvez até de uma terceira. Exatamente como acontecera na noite da adolescência deles, mesmo a terceira se devendo apenas aos toques gentis de Peyton, pois ela estivera dolorida demais para acomodá-lo novamente. O toque foi bom. Gostava dos toques. Já fazia tanto tempo desde a última vez que tivera intimidades com alguém. De certo modo, não se deliciara com intimidades desde aquela noite com Peyton. Pelo menos, não tanto quando se deliciara com ele. Quando a primeira vez de uma mulher era com um homem como ele, deixava os outros sujeitos em desvantagem. E então, a segunda parte da declaração dele se tornou clara, e ela não pôde deixar de sorrir. – Há quanto tempo vem pensando nisto? – A tarde toda. – Mas não estou conseguindo desabotoar nada com elas. – Ah, não tem problema – ele garantiu. – Posso desabotoar o que quer que você, ou eu, queira.


Ele abaixou os dedos até o segundo botão no vestido dela, habilmente deslizando-o para fora da casa. Depois, seguiu para o terceiro, e para o quarto. E para o quinto. Enquanto o fazia, adiantouse, usando o próprio corpo para forçá-la a recuar na direção da porta da cozinha. Depois, para o corredor. Depois, para a porta do quarto de dormir. Depois, para o quarto de dormir. Chegou à bainha do vestido justamente quando alcançaram a cama, e, libertando o último botão, ele abriu o vestido. Por baixo dele, ela estava usando uma combinação de calcinha e sutiã brancos e rendados. Enganchando os polegares no elástico da cintura das calcinhas, ele as deslizou por sobre os quadris, e gentilmente a empurrou, fazendo com que ela se sentasse na cama. Ava começou a recuar, abrindo espaço para ele também, mas, agarrando-a pelas coxas, Peyton a deteve. – Sem pressa – murmurou. Voltou a puxar as calcinhas para baixo, por sobre as coxas e os joelhos, ajoelhando-se para poder passá-la pelas panturrilhas e pelos tornozelos. Contudo, em vez de erguer-se novamente, ele posicionou-se entre as pernas dela, afastando-lhe as coxas. Quando Ava mergulhou as mãos enluvadas nos cabelos dele, ele agarrou-lhe um dos pulsos, plantando um beijo no centro da palma. Ela fechou os olhos, sentindo o beijo através do tecido, através da pele e no seu cerne. Depois, lhe sentiu a boca na coxa nua e arquejou, arregalando os olhos. Instintivamente, tentou fechar as pernas, mas ele segurou uma em cada uma das mãos e as apartou. Depois, foi subindo cada vez mais com a boca, até prová-la da maneira mais íntima possível. O prazer acumulou-se no íntimo de Ava, ante as carícias de sua língua, fazendo com que ondas de deleite vibrassem pelo seu corpo. Repetidamente, ele a saboreou, deliciando-se com ela, excitando-a. Pouco a pouco, a tensão foi se acumulando, até ela chegar ao ponto de achar que não seria mais capaz de suportar o turbilhão que se apossara de seu corpo. No instante em que achou que fosse estilhaçar, a tensão se libertou com uma explosão de sensações, e, com os braços abertos, ela caiu cobre a cama, entregando-se às ondas que percorriam o seu corpo. Delirante e ofegante, ela, de algum modo, conseguiu erguer a cabeça o suficiente para ver Peyton ficar de pé. Quando ele levou as mãos aos botões da camisa, seu sorriso foi presunçoso e satisfeito. Havia quanto tempo estava deitada ali? Instantes? Meses? Uma eternidade? Por mais que tivesse gostado do que acabara de passar, gostava ainda mais de vê-lo despir-se. Ele o fez deliberada e metodicamente, seus olhos jamais abandonando os dela, deixando a camisa cair no chão e, depois, levando as mãos à cintura das calças. Podia ser viciado em trabalho, mas era evidente que também reservava tempo para malhar. O torso era musculoso, e os ombros e braços trabalhados se retesavam e flexionavam quando desafivelou o cinto e abaixou o zíper. Por baixo, estava usando um par de cuecas samba-canção de seda que Ava não tivera qualquer papel em convencê-lo a comprar. Ou ele se importava mais com as roupas de baixo do que com o que vestia por sobre elas, ou estava querendo impressionar alguém. Lembrou-se de que, em breve, ele estaria se encontrando com uma mulher que fora escolhida a dedo para ele. Arrancou tal pensamento da cabeça. Peyton estava com ela agora. Por ora, era tudo que importava. Quando ele tirou a samba-canção, estava completamente preparado para ela. Ava prendeu a respiração só de olhar para ele, tão confiante, tão imponente, tão macho. Ele deitou-se ao lado dela,


passando um braço por sobre a sua cintura e abaixou a cabeça na direção da dela, afastando de seu rosto o véu do chapéu, e a beijou profundamente. Ela lhe envolveu o pescoço com os dedos e o puxou para si, disputando momentaneamente a posse do beijo, antes de entregar-se por completo a ele. Peyton gentilmente cobriu um dos seios com a mão, massageando-o de leve. Depois, acompanhou a renda do sutiã, até encontrar o fecho na parte da frente, abrindo-o com facilidade. Depois disso, as mãos quentes e ásperas fizeram contato com a pele nua. Ele retirou os lábios de sobre os dela, deslizando beijos por sua face, ao longo da testa, do queixo. Depois, ainda mais para baixo, pelo pescoço e a clavícula, até descer por entre os seios. Traçou a curva inferior de um dos seios com a língua, antes de subir até o pico sensível. Ao tomá-la na boca, achatou a língua de encontro ao mamilo, provando-a ali, tão intimamente quanto o fizera em outro lugar. A tensão voltou a se acumular no íntimo dela, fazendo brotar um gemido de desejo. Peyton pareceu entender, pois cobriu-a com o próprio corpo, e sua boca retornou à dela. Enquanto a beijava, penetrou-a, longa, dura e profundamente. Ela jamais se sentira mais completa, mais inteira. Afastou as pernas de modo a acomodá-lo, e ele lhe deu um instante para acostumarse. Depois, recuou e impulsionou os quadris para a frente. Ava gritou ante a segunda estocada, a junção dos dois corpos perfeita. Quando Peyton apoiou-se nos antebraços, ela lhe envolveu a cintura com as pernas, e ele voltou a arremeter. Ava ergueu-se ao seu encontro, e, juntos, estabeleceram um ritmo que começou tranquilo, e foi se intensificando. Chegaram juntos ao apogeu, ambos gritando ante a ferocidade do clímax. Peyton rolou de cima dela, trazendo-a consigo, de modo a deixá-la por cima, olhando para ele. Sua respiração estava acelerada, alterada, assim como a dela, a pele quente e suada. No entanto ele sorriu ao olhar para ela, levando uma mão à sua nuca para soltar os grampos dos seus cabelos e libertá-los, até que estes cobrissem a ambos. Ele era tão lindo, tão inebriante. Um amante generoso e poderoso. Ela achara que seria capaz de lidar melhor com ele como adulto. Achara que os hormônios haviam acalmado a ponto de poder se controlar desta vez. Achara que estaria imune às repercussões adolescentes de sua primeira vez com Peyton. Não poderia ter estado mais enganada. Era mais potente agora do que jamais fora, e Ava era ainda mais suscetível a ele. Seu controle se evaporou no instante em que ele cobriu a sua boca com a dele. As repercussões desta vez seriam, no mínimo, catastróficas. Pois, antes respondera a Peyton como uma garota adolescente que nada sabia a respeito do amor e sobre como seu corpo funcionava, agora, respondia a ele como uma mulher que conhecia muito bem essas coisas. Mas não era com as consequências físicas que ela podia estar preocupada em uma situação como aquela. Ele colocara um preservativo antes de penetrá-la. Era o coração que a preocupava... Parte de si consideravelmente mais frágil. Uma parte muito mais propensa a partir-se.


CAPÍTULO 9

DA SEGUNDA

vez que Peyton acordou no quarto de Ava, ficou tão desorientado quanto da primeira. Só que, desta vez, não se devia ao consumo excessivo de álcool. Desta vez, devia-se a uma dose maciça de Ava. Como daquela primeira vez, estava deitado de barriga para baixo, mas, no momento, estava embaixo das cobertas, e não sobre elas. E estava compartilhando o travesseiro de Ava, que vagamente se recordava de ter enfiado debaixo dos quadris dela durante um instante particularmente passional, apenas para ser deixado de lado quando a virara. O rosto dela estava a poucos centímetros do dele, os olhos fechados. Estava virada de lado, a coberta por sobre a cintura, um dos braços dobrados por sobre o seio nu, as mãos sob o travesseiro. Parecia tão sexy, que ele sentiu-se agitar só de olhar para ela. Contudo, talvez não devesse incomodá-la com isso novamente. Ainda não. Um corpo precisava abastecer novamente as reservas antes de outra sessão como haviam tido. Com o maior cuidado possível, ele desceu da cama, detendo-se antes de ir a qualquer lugar para se certificar de que não a acordara. Café. Precisava de café. Ela, sem dúvida, também precisaria, depois que acordasse. Localizando a cueca e as calças, vestiu-as, colocou a camisa sem abotoá-la e seguiu para a cozinha. Ainda não conseguira se acostumar com o apartamento pequeno e voltou a perguntar-se onde seria a residência principal de Ava. Perguntou-se também, por que ela estaria tão determinada a garantir que ele não descobrisse onde era. Talvez ela o levasse para a sua casa verdadeira agora que os dois... Interrompeu ali mesmo o pensamento. Não havia motivo para achar que hoje seria diferente de ontem, ainda mais levando em conta a história compartilhada dos dois. Da última vez que Ava entrara em combustão espontânea como ainda há pouco, nada mudara do dia anterior para o dia seguinte. Voltaram para os próprios mundos e para o costumeiro antagonismo. Nada fora diferente. Exceto que agora, ambos sabiam como as coisas podiam ser explosivas, e fenomenais entre eles. Pelo menos fisicamente. Talvez daí a pressa em voltar à rotina. O modo como ele e Ava haviam ficado juntos o apavorara quando garoto. Mais porque não via a hora de isso acontecer de novo. Isso, provavelmente, fora o


que mais o assustara. De algum modo, sabia que jamais se saciaria de Ava, a personificação do fruto proibido. Não fizera sentido. Ainda a detestava, mesmo após terem feito amor... hã, melhor dizendo, sexo. Não detestava? Ainda achava que ela era egoísta, superficial e esnobe. Não achava? E ela deixara claro que também não gostava dele. Não deixara? Sendo assim, por que fantasiara com ela durante todos os dias do seu último ano na escola? Às vezes até fantasiara com ela de maneiras que nada tinham a ver com sexo. Indo ao cinema, ou deslizando de trenó pelo bosque. Chegara até a entreter a possibilidade ridícula de convidá-la para o baile de formatura. Fora o sexo, tentara se convencer. Ficara consumido por pensamentos a respeito de Ava porque passara a associá-la a sexo. Apesar de não haver sido virgem na ocasião, estava longe de ter visto tanta ação quanto a sua reputação levara os outros em Emerson a acreditar. Na escola, Ava, fora uma daquelas estranhas reações químicas entre duas pessoas, que, com a exceção disso, nada tinham em comum. Que jamais teriam nada em comum. Sexo fenomenal. Vínculo fraco. Não havia por que achar que a noite passada mudaria alguma coisa. Sem dúvida que os dois estavam se dando melhor agora do que na época da escola... normalmente. Mas isso era apenas porque haviam amadurecido e desenvolvida técnicas para lidar com pessoas com quem não queriam lidar. Sem dúvida que eram capazes de incendiar os lençóis na arena sexual. Mas em sociedade refinada? Provavelmente era melhor manter a distância. É. Tinha de ter sido por isso que haviam acabado na cama na noite anterior. De modo que fazia sentido concluir que a noite de hoje não seria nada diferente da manhã de dezesseis anos atrás. Exceto que, provavelmente, ele e Ava não gritariam tanto um com o outro, como fizeram no passado. E ele, talvez, não teria de sair pela janela para evitar ser visto. Um som às suas costas fez com que se virasse e deparou com ela postada no vão da porta, parecendo uma mulher fatal de um fabuloso filme da década de 1940. Estava usando um roupão de seda fina, repleto de flores vermelhas e o cabelo solto escorria por sobre os ombros. – Ainda está aqui – ela disse, parecendo surpresa. – Onde mais eu estaria? Ela deu de ombros. – Não sei – ela disse. – Quando acordei e não o encontrei, pensei... Quando ela não completou, ele disse: – Achou que eu tinha saído pela janela, descido pela calha e que me veria na escola na segundafeira? Em vez de sorrir, Ava simplesmente franziu a testa. – Mais ou menos isso. Em outras palavras, Ava achara que a noite passada seria uma repetição daquela noite 16 anos atrás. Que, mais uma vez, nada mudara entre eles. Que, hoje de manhã, realmente seria de volta à rotina. Caso contrário, não pareceria tão melancólica, e o quarto estaria repleto de ardor e alívio, em vez de tensão e ansiedade. Caso contrário, ambos estariam felizes. – Café? – ele ofereceu, para mudar de assunto. Contudo, lembrou-se, em seguida, que ainda não havia começado a prepará-lo. – Quero dizer, eu ia preparar café, mas não sei onde ele fica. – No armário à sua direita.


Ele o abriu e descobriu não apenas o café, mas uma variedade de guloseimas. Lembrava-se de sua outra visita que o banheiro também estava muito bem estocado. Afinal de contas, com que frequência Ava usava aquele lugar? Nenhum dos dois falou enquanto ele preparou a cafeteira. – O que está na agenda para hoje? – Peyton perguntou. – Na verdade, eu estava pensando em fazer um teste de campo hoje. O comentário o deixou confuso. Não fora o que haviam feito na noite passada? E o resultado não fora nada bom. – Como assim? – Estou pensando que, talvez, seja hora de apresentá-lo a sociedade e ver o que acontece. Ele sentiu um pouquinho de pânico. – Mas disse que ainda tínhamos muito a ver. – Não, você disse. – É, mas é porque há. Mais uma vez, ela hesitou. – Pode ser, mas esse é outro motivo para ir adiante e testar as águas da sociedade. Para ver onde ainda há pontos que temos de trabalhar. Quem sabe? Pode ser até que se sinta em casa e não precise de mais instruções. Ele duvidava disso. Por mais que tivesse aprendido nas últimas semanas, não tinha certeza se um dia se sentiria à vontade no mundo de Ava, mesmo que passassem os próximos dez anos estudando para isso. E por que ela parecia quase esperançosa de que ele não precisasse de mais instrução. Era quase como se quisesse se livrar dele. Bem, após a noite passada, provavelmente queria mesmo. Mas ele também queria se ver livre dela, não queria? Por que então estava fincando os pés na areia? – O que tem em mente? – perguntou. – Há um evento de angariação de fundos para o La Rabida Children’s Hospital em Palmer House hoje à noite. Será perfeito. Todo mundo que é alguém estará lá. Estou certa de que se a notícia de que Peyton Moss, quase bilionário, está na cidade se espalhar, não será difícil arrumar um convite. – Por que não posso ir como seu convidado? Ela desviou o olhar. – Porque não fui convidada. Ele ficou boquiaberto. Ava Brenner não fora convidada para o evento onde todo mundo que era alguém estaria? – Por que não? Ela continuou sem olhar para ele quando respondeu. – Eu, hã... Tive um desentendimento com a mulher que organizou o evento. Desde então, passei a não aparecer em qualquer evento com o qual ela esteja envolvida. – Antes que ele pudesse pedir mais detalhes, ela apressou-se em dizer: – Mas uma palavra sussurrada para a pessoa certa deve bastar para colocá-lo na lista de convidados. Fosse quem fosse a organizadora, deveria estar em Chicago há pouco tempo para ousar excluir a abelha rainha da escola mais abastada de Chicago de seu evento. Não fazia ideia do perigo que


corria, ignorando Ava. – E quem vai sussurrar essa palavra? – Uma amiga minha que vai ao evento me deve um favor. Acho que, até hoje à tarde, você deve estar recebendo um telefonema. – Mas... – Mas o quê? Ou está pronto, ou não. Se pudermos descobrir hoje à noite, melhor ainda. Certo. Porque, se ele estivesse pronto, os dois poderiam cada qual seguir o seu próprio caminho ainda mais cedo. E ele sabia que era melhor assim, e Ava sabia que era melhor assim. O lugar deles não era um do lado do outro. – Você também virá? – ele perguntou. – Já falei que não fui convidada. – Mas... – Você se dará bem sozinho. – Mas... – Poderá me dar o relatório amanhã. – Mas... – Mas o quê? Desta vez, foi Peyton quem hesitou. – Será que não poderia vir como minha convidada, ou coisa parecida? Achou que ela fosse agarrar com unhas e dentes a oportunidade de aparecer como convidada e dar uma banana para a mulher que a excluíra da lista de convidados. Mas ela em nada lembrava a Ava de antigamente ao dizer: – Não acho que vá ser uma boa ideia. – Nesse caso, eu não vou. Ela voltou o olhar para ele, e, por uma fração de segundos, Peyton, de fato viu a Ava de antigamente brilhar em seu olhar. Contudo, tão rapidamente quanto apareceu, ela desapareceu. – Tudo bem – falou com uma expressão cansada. – Eu vou. Mas apenas como observadora, Peyton. Terá de se virar sozinho para se misturar com as pessoas. – Para me misturar? – E o que mais for preciso. Apesar de sua vontade de discutir, ele recuou. Por ora. Já era o suficiente tê-la convencido a acompanhá-lo. O mais estranho foi Peyton descobrir que queria a companhia dela. O que era totalmente diferente de como se sentira naquela manhã, 16 anos atrás. Hummm. De modo que, agora que tinha o quem, o quando e o quê, tudo que precisava fazer era descobrir o porquê. E o mais intrigante de todos, o como. AVA ESTUDOU o próprio reflexo no provador do Talk of the Town. Sua principal preocupação parecia ser se conseguiria enganar os outros a pensar que aquele vestido era dela, e não alugado, e que era tão rica, refinada e glamorosa quanto qualquer um naquela festa, e não uma farsa que tinha de se esforçar para pagar as prestações do empréstimo que fizera para comprar o próprio negócio.


Era por isso que a maioria das mulheres vinha para o Talk of the Town. Para impressionar um empregador em potencial, para mostrar para os colegas de uma reunião escolar que estava progredindo na vida. Outras simplesmente queriam transitar por círculos sociais que jamais haviam transitado antes, mesmo que apenas por uma noite. Fantasias. Era isso que realmente alugavam na Talk of the Town. E era uma fantasia que Ava estava tentando criar para si mesma naquela noite. Pois, apenas em uma fantasia seria bem-vinda na alta sociedade onde já dominara. E apenas em uma fantasia ela e Peyton poderiam ficar à vontade lado a lado nesse mundo. Dezesseis anos atrás, ninguém no seu círculo de amizades estaria disposto a incluí-lo. Hoje, Peyton era bem-vindo, mas ela não. Antes que Peyton tivesse voltado para Chicago, ela não teria dado a mínima para esse mundo. Contudo, desde seu retorno, duas semanas atrás, e de haver feito amor com ele, ela começara a pensar de maneira diferente. Não no tocante a querer governar tal mundo novamente. Mas quanto a, pelo menos, ser bem-vinda ali. Pois era o mundo de Peyton agora. E queria estar onde ele estava. Ao longo das últimas duas semanas, começara a se sentir de maneira diferente em relação a ele. Ou, talvez, estivesse finalmente sendo sincera consigo mesma, no tocante a como sempre se sentira em relação a ele, mesmo na escola. Lembrara-se de tantas coisas sobre ele que havia esquecido ao longo dos anos. Coisas que estavam enterradas em seu subconsciente. Lembrou-se do sorriso torto que o fazia parecer maroto e irreverente. Lembrou-se de como ele sempre defendera os outros bolsistas em Emerson, agindo como protetor deles quando os outros membros da turma dela podiam ser tão cruéis. E lembrou-se de vê-lo guardar parte do sanduíche sob a camisa para entregá-lo para um cão faminto atrás do ginásio. Eram todos atos que definiam o verdadeiro caráter dele. Atos que a faziam se dar conta de que ele não era nada daquilo que ela e as amigas falavam a seu respeito, e tudo que qualquer garota normal poderia querer em um garoto. Mas Ava optou por ignorá-los. Desse modo, não teria de admitir como se sentia verdadeiramente a respeito dele, por receio de ser banida do único mundo que de fato conhecia, o único mundo a que pertencia. Mesmo com o passar dos anos, e a guinada drástica de sua sorte, Peyton ainda era o mesmo sujeito. Ainda tinha o mesmo sorriso. Ainda protegia os mais fracos, e não podia passar um artista de rua sem deixar metade do que tinha na carteira na caneca do sujeito. No fundo, não mudara nem um pouco. E o mesmo poderia ser dito do sentimento que ela enterrara tão profundamente no íntimo de sua versão adolescente. Ela suspirou. Ao passo que 16 anos atrás, algo entre eles não teria dado certo porque ninguém em seu mundo o teria aceitado, nem ninguém no dele teria lhe dado uma chance, estavam agora na mesma situação, só que em mundos opostos. O sucesso de Peyton o alçara a um patamar onde queria e precisava do tipo certo de mulher para ser sua esposa. O tipo de mulher que melhoraria a sua imagem e lhe daria impulso para alcançar voos mais altos. Alguém com acesso a todas as facetas da alta sociedade. Algum com linhagem e pedigree impecáveis. Peyton com certeza não iria querer uma mulher cujo pai era um presidiário, e cuja mãe sucumbira a enfermidades mentais, uma mulher que mal conseguia ganhar dinheiro o suficiente para sobreviver neste mundo. Peyton lutara duro para conquistar tudo que conquistara. Não iria arriscar o seu sucesso por alguém como ela.


Não quando tudo que Ava tinha a oferecer era alívio físico, independentemente de ser explosivo ou não. Talvez houvesse emoção e até amor da parte dela, mas da de Peyton? Jamais. Não houvera quando eram adolescentes, não haveria agora. Naquela manhã, ele nada falara sobre a noite anterior, apenas perguntando qual seria a lição do dia, como se o fato de terem feito amor nada houvesse mudado. Porque não mudara nada. Pelo menos, não para ele. Sentindo um aperto em seu íntimo, olhou-se uma última vez no espelho. A boa-nova é que o evento beneficente daquela noite era um dos maiores de Chicago, de modo que havia uma excelente chance de que ela e Peyton não encontrariam ninguém que houvesse estudado com eles em Emerson. O ponto negativo é que o evento beneficente daquela noite era um dos maiores de Chicago, de modo que havia uma excelente chance e de que ela e Peyton encontrassem todo mundo que houvesse estudado com eles em Emerson. Suspirando, ela girou, admirando as costas decotadas do justo vestido dourado e o coque perfeito do cabelo. Tinha de admitir que estava arrasadora. Deixou o provador para dar de cara com Lucy esperando-a. Por sua expressão de aprovação, concordava com ela. Bem, dava para se tirar a garota da alta-sociedade, mas não dava para se tirar a alta sociedade da garota. Não que algumas de suas antigas amigas não tivessem tentado. Sentiu um frio na barriga ante o pensamento. Realmente estava torcendo para que não encontrasse ninguém naquela noite. – Tenho de ir – disse. – Mais uma vez, agradeço por ter trabalhado tanto esta semana. Prometo compensá-la. – Com a quantidade de hora extra que ganhei, pode apostar que já me compensou – Lucy falou com um sorriso. Ava retribuiu o sorriso. – Não vá gastar com bobagens. Assim como Ava gastara com aquele vestido e os acessórios. Quem dera tivesse pensado em cobrar Peyton por despesas. – Divirta-se hoje à noite – Lucy falou, quando Ava dirigiu-se para a porta. – Não faça nada que eu não faria. Não se preocupe, Ava assegurou à amiga em silêncio. Ela já o fizera. Ao apaixonar-se por um homem que jamais retribuiria o seu amor.


CAPÍTULO 10

PEYTON ANDAVA de um lado para o outro diante do Palmer House Hilton, verificando o relógio pela décima vez e mexendo na gravata do smoking novo. Ava tivera razão no tocante ao telefonema. Naquela manhã, ligara para alguém chamada Violet, que disse que iria ligar para alguém chamada Catherine, e, antes mesmo que ele tivesse deixado o apartamento de Ava, seu celular tocara com a ligação de uma tal de Catherine, que costumava pertencer ao círculo social de Ava em Emerson, e alguém que conseguira tratá-lo pior do que Ava, se debulhando em gentilezas e dizendo que adoraria que ele viesse à sua “festinha”. Ela o fez prometer que a procuraria assim que chegasse, para que os dois pudessem colocar em dia a conversa, desde os velhos tempos. Como se ele quisesse falar com qualquer um de Emerson que não fosse Ava. Onde diabos ela estava? Já deveria ter chegado sete minutos e meio antes. Passou os olhos pela fila de táxis e carros luxuosos que se estendia por Monroe Street. Como se invocada por seus pensamentos, a porta de um táxi três carros adiante se abriu, e Ava desceu. Não apenas qualquer Ava, mas uma estonteante Ava de 24 quilates. Diabos, ela estava... Peyton interrompeu-se, não só por que não conseguia pensar em um adjetivo que lhe fizesse crédito, mas por que naquela noite não haveria nada de “diabos”. Era para ser um cavalheiro naquela noite. Pensando bem, contanto que não dissesse palavras como aquela em voz alta, podia pensar no que bem quisesse. E o que pensou ao ver Ava vindo em sua direção, coberta por dourado e azul safira era tudo, menos cavalheiresco. Droga. A verdade é que as duas últimas semanas haviam sido as melhores possíveis e as piores possíveis. Melhor, porque as passara com Ava, e agora sabia fazer coisas que aumentavam o seu valor social para mulheres como Ava. Mas pior porque, mesmo com seu valor social aumentado, Ava ainda não o queria. Não do modo como ele a queria. Tudo bem. Ela o queria. Pelo menos o quisera na noite passada. Ela definitivamente o quisera do modo como ele a quisera na noite passada. Apenas não o queria agora. Não do modo como ele a queria. E era um tipo de desejo diferente que ele sentia, que dava a impressão de ser mais


importante do que fora na noite passada. O que era estranho, pois, na noite passada, ele a quisera de um modo que parecera importante de verdade. O que era pior é que ela agora estava mais entrincheirada do que nunca nos seus pensamentos, e ele não fazia a menor ideia do que fazer a respeito. Ela não estava apenas em sua cabeça, estava em outras partes de seu corpo também. E não apenas as com que gostava de fazer sexo. Ela mudara um bocado desde a época de escola. Ah, sim, havia ocasiões em que ela tentava se esconder sob o mesmo disfarce de princesa do gelo que usara na época de escola, mas Peyton aprendera a enxergar através da fachada. Era mais calorosa, agora, mais acessível. Mais divertida. Mesmo quando discutiam, era divertido. Por outro lado, também sempre gostara de discutir com ela na época da escola. Agora que pensava um pouco a respeito, percebia que não poderia ter sido tão fria e distante naquela época, não o tempo todo. Deve ter havido algo nela que o atraíra, algo que ficara no seu subconsciente. Caso contrário, não teria ficado com ela na cabeça. Algo que seu consciente vinha tentando discernir desde que retornara a Chicago. Ava não era egoísta, superficial nem esnobe. Se fosse egoísta, não teria pensado em ninguém além dela e jamais o teria ajudado com suas melhorias, mesmo que ele a estivesse pagando por isso. E por que haveria de não pagar? Pagaria outra pessoa por sua perícia, e a dela era ainda maior, pois crescera no ambiente no qual ele tentava penetrar. Hã, quer dizer, adentrar. Hã... fazer parte. É, o ambiente do qual estava tentando fazer parte. Também não era superficial, pois sabia muito a respeito de muita coisa. Ela o apresentara a conceitos que ele jamais considerara, muito em nada relacionado à ascensão social. E não era esnobe, afinal, compartilhara com ele tal conhecimento, sabendo que ele o usaria para ascensão social, e não dando a mínima para o fato de seu dinheiro novo misturar-se com dinheiro tradicional. É, sem dúvida sabia por que gostava de Ava, e, naquele momento, o motivo estava vindo em sua direção envolto em dourado. – O que está fazendo aqui fora? – ela perguntou a título de cumprimento. – Esperando você. – Deveria ter deixado o meu nome na porta como sua acompanhante e entrado. Não é para estarmos juntos, lembra? Como ele poderia esquecer? Ela deixara bem claro que a noite passada não mudara nada entre eles. – Mas não conheço ninguém lá dentro. Como vou me misturar e interagir com as pessoas quando não conheço ninguém? – Peyton, o exercício é justamente esse. O exercício era uma droga. Assim como era uma droga ter de pagar dez vezes mais por um corte de cabelo, ou deixar de usar um jeans de 10 anos que já se moldara ao seu corpo. Por que diabos queria se juntar a uma classe de pessoas que tinha tanta coisa que era uma droga? Ah, sim, para elevar sua posição social. O que seria vantajoso para os negócios. O que lhe permitiria adquirir uma empresa que engordaria ainda mais sua conta bancária. Era o que importava, não era? Ganhar dinheiro? Aumentar o próprio valor de mercado? Pelo menos, fora a


coisa mais importante, antes de voltar a Chicago. De algum modo, nas semanas seguintes, isso perdera alguns pontos em seu marcador de coisas importantes no mundo. Imagine só. – Apenas me prometa que não sumirá de vista – pediu para Ava. – Prometo. Agora, entre lá e mostre que é o alpinista social suave e confiante que eu tanto a... Hã, que eu conheço tão bem. Peyton sentiu um aperto no seu íntimo ao vê-la primeiro tropeçar na palavra amo e depois descartá-la tão facilmente. – Ainda acho que falta muito para eu aprender. – Apenas dê-lhes o seu nome e entre – ela falou, apontando para a porta. – Contarei até vinte e entrarei também. – Assim que ele fez menção de afastar-se, ela sussurrou: – E sem praguejar. Ignorando o frio na barriga, Peyton forçou-se a adiantar-se. Não havia por que estar nervoso. Havia anos que frequentava lugares caros e chiques, e havia muito deixara de se sentir constrangido. O porteiro abriu a porta para ele e deu-lhe as boas-vindas ao Palmer House Hilton. Apesar de tudo que já conquistara, hoje à noite sentia-se novamente como um garoto de dezoito anos que jamais deixara Chicago. O garoto do lado errado da cidade que estava bancando o penetra em um lugar onde não deveria estar. Um lugar onde não era bem-vindo, ao qual não pertencia. A sensação só ficou mais intensa quando já estava dentro do hotel. Por dentro, o Palmer House Hilton parecia uma catedral bizantina, com suas colunas, arcos e tetos pinados. O lugar estava apinhado de pessoas vestidas tão elegantemente quanto ele, como homens de smoking e mulheres em vestidos de todas as cores e cobertas de joias. Sua anfitriã, Catherine Bellamy, agora se chamava Catherine Ellington, tendo se casado com Chandler Ellington, que estivera na equipe de hóquei com Peyton e que era um grandíssimo... Não conseguiu pensar em uma palavra socialmente aceitável para descrever Chandler. O sujeito sempre tratara Peyton da pior maneira possível em Emerson. De modo que ele e Catherine formavam o casal perfeito. Ao adentrar o grande salão, Peyton pegou um copo de bebida da bandeja de um garçom que estava passando, algo marrom que ele supunha ser algum tipo de uísque. Tomou alguns goles, mas a bebida forte de nada serviu para dissipar a inquietude. De modo que passou os olhos pela multidão em busca de uma figura envolta em dourado com acessórios azul-safira. Não teve problemas em avistá-la. Ava acabara de adentrar o salão e estava pegando uma taça de champanhe. Aguardou até que ela olhasse em sua direção e ergueu o copo para ela. Sorrindo discretamente, ela fez o mesmo, um gesto tão delicado que ninguém deve ter notado. Ava estava ali por ele. Inspirando fundo, Peyton virou-se e misturou-se à multidão. AVA CONSEGUIU passar pela primeira hora do evento sem qualquer incidente, basicamente posicionando-se entre dois vasos altos de plantas no mezanino, de onde podia manter os olhos na multidão abaixo e em Peyton e ainda ocasionalmente pegar uma taça de champanhe ou um canapé de algum garçom passando por ali.


Logo, ficou claro que Peyton não precisava que ninguém ficasse de olho nele. Desde o instante em que se misturara à multidão, parecia que nascera para aquilo. Contrariando suas expectativas, ele não dera um só passo em falso. Mesmo agora, estava com um copo de uísque na mão, com a elegância de um James Bond, e sorrindo para Catherine Bellamy, como se, com seu vestido Givenchy prata, ela fosse a mulher mais fascinante que ele já tivera o prazer de conhecer. Catherine o localizara poucos minutos após ele ter chegado, e Peyton ainda não conseguira escapar dela. Era evidente que Catherine estava tendo imenso prazer em escoltá-lo pelo salão, apresentando-o novamente a vários dos antigos colegas de classe. Peyton cumprimentara cada um deles com um de seus sorrisos estonteantes, jamais deixando transparecer como todos eles o haviam tratado tão mal na adolescência. Se era capaz disso, ele não precisava de mais lições de etiqueta de Ava. Após aquela noite, ele poderia tomar seu rumo sem ela. Poderia ir viver a sua vida bem-sucedida com a mulher de sangue azul que escolhesse e ter filhos do pedigree certo. Era a vida que ele queria, e a vida pela qual lutara tanto, durante tanto tempo, para ter. Era senhor do próprio destino, e este destino não incluía... – Ava Brenner. Ah, meu Deus. Embora não a escutasse desde a época de escola, ela reconheceu a voz antes mesmo de virar-se. Deedee Hale, dos Hale de Hinsdale. Ao lado dela estava Chelsae Thomerson, outra antiga colega. Ambas estavam com aparência fabulosa, é claro. – O que está fazendo aqui? – Deedee perguntou. Ela era incapaz de falar uma frase completa sem enfatizar uma palavra que fosse. – Não que eu não esteja absurdamente feliz em vê-la, é claro. Estou apenas surpresa. – Que vestido lindo – Chelsea acrescentou. – Acho que nunca vi uma imitação parecer mais genuína. – Olá, Deedee. Chelsea. – Ava falou, com o máximo de polidez possível. – Não é uma imitação. É da nova coleção de primavera de Marchesa. – E, como não foi capaz de se conter, ela acrescentou, com ainda mais polidez: – Não devem ter visto em nenhum lugar. Tenho o único em Chicago. – Ah – Chelsea disse. – Você o coloca à disposição naquela sua lojinha. – É. – E, a propósito, como vai esse seu projetinho? – Deedee perguntou. – Ainda tentando se reerguer? – Na verdade, esta noite, estou me reerguendo em um par de Escadas. – Ah – Deedee disse. – Também os coloca à disposição na sua lojinha? – É. – Já viu Catherine? – Deedee perguntou. – Acho que ela ficará muito surpresa de vê-la aqui. – Na verdade, não – Ava respondeu. – Mas há tantas pessoas aqui que não tive a chance de... Antes que tivesse a chance de terminar a frase, Deedee e Chelsea a ladearam e passaram os braços pelos dela. – Mas precisa ver Catherine – Deedee disse. – Ela faz questão de falar com todos os seus convidados. Tradução: Catherine vai querer saber que há uma penetra na sua festa, Ava pensou.


– E como você raramente comparece a essas coisas – Chelsea acrescentou –, estou certa de que Catherine vai querer vê-la. Tradução: aqui não é o seu lugar, e quando Catherine a vir, vai chutar seu traseiro daqui até a Saks na Quinta Avenida. As mulheres falavam sem parar, não dando a Ava a chance de dizer nada que pudesse facilitar sua fuga. Descendo as escadas até o salão, as duas mulheres localizaram Catherine, e, por tabela, Peyton, e conduziram Ava naquela direção. Peyton olhou para ela no mesmo instante em que Catherine o fez, e Ava não soube dizer qual dos dois pareceu mais surpreso. Contudo, Catherine recompôs-se primeiro, empertigando-se na sua pose de rainha, sorrindo regiamente e erguendo de forma aristocrática a mão para jogar para trás um dos cachos dos majestosos cabelos negros. Para ser franca, Ava ficou surpresa de ver que ela não estava usando uma tiara para o evento. – Minha nossa – Catherine falou, sem qualquer emoção na voz. – Ava Brenner. Mas que surpresa. Já faz anos. O que tem feito? Ava sabia que de nada adiantaria responder, pois Catherine sempre respondia as próprias perguntas. Contudo, ao contrário de Deedee e Chelsea, que ao menos fingiam ser educadas, Catherine, havendo ascendido ao trono de abelha rainha no instante em que Ava fora forçada a abdicá-lo, não via motivo para se conter. Ainda mais quando estava lidando com a plebe. Dito e feito. Catherine mal se deu tempo para respirar. – Ah, espere. Eu sei. Visitando seu pai na penitenciária estadual, e, sua mãe no manicômio, e administrando a sua lojinha fajuta. É fantástico que tenha tempo para bancar a penetra em eventos para os quais decididamente não foi convidada. Ava já tivera encontros suficientes com amigos antigos para não se deixar abalar nem se surpreender com o que quer que Catherine pudesse dizer. Nem ficar magoada, para falar a verdade. Não, apenas ter Peyton escutando as palavras de Catherine poderia fazer isso. E, na realidade, magoava um bocado. De tantas experiências passadas com antigos conhecidos, também sabia que a melhor maneira de lidar com eles era fitá-los nos olhos, sem ceder terreno. O que era bom, pois fazer isso significava que Ava não precisava olhar para Peyton. Já era terrível imaginar sua reação ante as revelações de Catherine. – Na realidade, Catherine, meu pai está em uma instituição correcional federal – retrucou, com toda a cortesia de que foi capaz. – Instalações federais são bem mais exclusivas do que as estaduais, você sabe. Não admitem qualquer um. A resposta teve o efeito desejado, deixando Catherine momentaneamente sem reação. Ponto para a penetra. Insistindo na ofensiva, Ava acrescentou: – E minha mãe faleceu faz três anos. Mas foi gentileza sua perguntar por ela, Catherine. Eu espero que sua mãe esteja passando bem. Ela e minha mãe sempre foram tão boas amigas. Até o pai de Ava ser desmascarado como um farsante. E então, a sra. Bellamy liderou a empreitada para incluir a mãe de Ava na lista negra de todos os redutos da alta sociedade de Chicago.


A graciosidade de Ava desarmara Catherine. Qualquer outra teria, se não se desculpado, pelo menos recuado. Mas não uma abelha rainha como Catherine. Mais uma vez, ela rapidamente recobrou a majestade. – E quanto ao seu pai? – perguntou. – Será que está para receber liberdade condicional? – Em quatro anos – Ava retrucou, sem perder a calma. – Por favor, não deixe de transmitir minhas lembranças também ao seu pai. Embora Ava não tivesse a menor consideração pelo pai de Catherine, não desde que o sr. Bellamy a encurralara na festa de 16 anos da filha e a convidara para seu gabinete, para tomar um drinque e sabe Deus lá o que mais. Catherine estreitou os olhos de irritação por Ava não estar mordendo a isca, nem se deixando intimidar. A polidez de Ava estava enlouquecendo Catherine. – E parece que sua lojinha está indo de vento em popa – ela continuou, acidamente. – Ora, ainda no outro dia, Sophie Bensinger e eu estávamos conversando sobre quantos intrusos grosseiros temos visto nos nossos eventos recentemente. Como hoje à noite, por exemplo – ela acrescentou, em tom sugestivo. – Todos usando roupas que não deveriam ter dinheiro para comprar, de modo que devem ter sido alugadas na sua lojinha pretensiosa. – Ela examinou Ava dos pés à cabeça. – Eu não fazia ideia de que fosse uma de suas próprias clientes. E é muita gentileza sua vestir os menos afortunados. Mas, francamente, Ava, será que não poderia fazê-lo em outro lugar? – E perder a oportunidade de encontrar todos os meus velhos amigos? – Ava retrucou sem sequer pestanejar. Agora, Catherine virou-se para Peyton, sabendo que não havia como evitar, Ava fez o mesmo. Procurou se convencer de que estava preparada para qualquer coisa, no tocante à reação dele. Confusão, raiva, arrogância, até mesmo mágoa. Só não estava pronta para uma total ausência de reação. Estava com uma expressão impassível, como se estivessem se encontrando pela primeira vez, e ele não fizesse ideia de quem ela era. Não fazia ideia do que ele estava pensando a respeito do que acabara de escutar. A voz de Catherine, ácida ao dirigir-se a Ava, era pura doçura agora. – Peyton, estou certa de que se recorda de Ava Brenner de Emerson. – Com uma risadinha, ela acrescentou: – Quero dizer, quem poderia esquecer Ava? Ela governava a escola com mão de ferro. Nenhum de nós escapava de sua tirania. Bem, pelo menos, não até o pai dela ser preso por desviar milhões dos fundos de investimento que deveria estar administrando, sem falar em sonegação de impostos, para que pudesse pagar a cocaína e as prostitutas. Ele chegou a passar sífilis para a mãe de Ava, dá para imaginar? E herpes! É claro que tomaram tudo que eles tinham para pagar as dívidas. Após isso, Ava teve de deixar Chicago e... Bem, ela foi morar com outros de sua laia em Milwaukee. É claro que você sabe o tipo de gente do qual estou falando, Peyton. Catherine chegou a estremecer teatralmente, como se receasse que ele não entendesse que ela estava falando justamente do tipo de pessoas com quem ele crescera, mas que tivera o bom gosto e a esperteza de deixar para trás. E Ava o ensinara tão bem que ele só hesitou por uma fração de segundos antes de sorrir. Mas o sorriso jamais alcançou os olhos. Por ouro lado, o mesmo poderia ser dito do de Catherine. Ou do de Chelsea. Ou do de Deedee. Puxa, Ava realmente o ensinara direitinho.


– É claro que me lembro de Ava – ele falou, estendendo a mão. – É um prazer revê-la. Ava soltou o braço do de Chelsea e pousou a mão na dele, tentando ignorar como seu íntimo se contorcia mesmo ante o simples toque. Antes que sequer pudesse dizer olá, Catherine voltou ao ataque. – É claro que se lembra de Ava. Como poderia esquecer alguém que o tratou tão mal? E eu já disse, Peyton, como admiro todas as suas impressionantes conquistas desde que se formou? Ainda segurando a mão dele, ainda fazendo com que seu íntimo desse cambalhotas, ele retrucou. – É, disse sim, Catherine. Várias vezes. – É que são tantas conquistas. Todas tão dignas de admiração. Todos nós em Emerson estamos orgulhosos de você. É claro que víamos o seu potencial quando era aluno de lá. Todos sabíamos que você se ergueria acima de suas, ahn, raízes humildes e se tornaria um incontestável sucesso. – Ela olhou para Ava. – Bem, exceto por Ava. Mas veja só como ela acabou. Um pai criminoso, uma mãe instável e nem um tostão no bolso. – Ela fez um gesto de pouco caso com a mão. – Mas há tantas outras coisas mais agradáveis sobre as quais podemos conversar. Estou certa de que ela já estava de saída. Se não estava, podemos chamar alguém para lhe mostrar o caminho. Por um instante tenso, Ava torceu para que Peyton viesse em seu resgate, e dissesse para Catherine que ela estava ali como sua convidada. Até teve esperanças de que ele fosse ignorar tudo que lhe ensinara sobre bons modos e dissesse para todos que, além disso, todos eles poderiam ir para um lugar aonde nenhum cavalheiro pensaria em mandá-los. Mas ela realmente fizera um trabalho excelente ao ensiná-lo. Pois tudo que ele fez foi lhe soltar a mão e dar um passo para trás, antes de levar o seu drinque à boca e tomar um gole. Sentiu uma pontada de decepção. Mas o que ela estava esperando? Não só Peyton estava se portando exatamente como deveria se portar, do modo como ela ensinara, mas não era como se Ava não fosse merecedora de sua rejeição. Na época de escola, teria feito a mesma coisa com ele. Baixinho, falou: – Obrigada, Catherine, mas eu encontro o caminho sozinha. – Ela voltou-se para Peyton. – Realmente foi um prazer revê-lo, Peyton. Parabéns pelas suas muitas conquistas admiráveis. Estava seguindo o próprio livro de regras e fazendo uma saída digna, quando pensou: Que diabos? Não estavam mais na escola. Ela não precisava ficar deste lado da divisão social, como fizera em Emerson. Nem precisava ficar ouvindo calada as alfinetadas de valentões como fizera em Prewitt. Não era parte de nenhuma das duas sociedades. Era uma mulher independente agora. Não devia nada a ninguém ali. Ela voltou-se novamente para o grupo, fitando Peyton nos olhos, e disse: – Não é verdade o que Catherine disse, Peyton. Sei que era melhor do que todos nós em Emerson. Ainda é. Eu não teria feito amor com você na época da escola se não soubesse disso. E eu não teria... não teria me apaixonado por você agora se não soubesse, de alguma forma, que sempre fora o melhor. Você é o melhor. Catherine estava tomando um gole de champanhe quando Ava falou a parte sobre fazer amor com ele e acabou se engasgando, espirrando champanhe em Deedee e Chelsea, sem falar na parte da frente do Givenchy da própria Catherine.


– Você dormiu com ele na época da escola? – Ela praticamente cuspiu. – Com ele? A última palavra foi dita com tanto desdém e repulsa que não havia como interpretar errado o que Catherine quis dizer. Que Ava descera ao nível mais baixo da humanidade ao envolver-se com alguém da revoltante classe inferior de Peyton. Que, apesar de suas tantas impressionantes conquistas dignas de admiração, ele jamais estaria à altura da sociedade “refinada” deles. Peyton, é claro, notou. Assim como Catherine, provavelmente por conta do olhar fulminante que ele lhe lançou. Na mesma hora, ela tentou disfarçar o deslize. – Quero dizer, fiquei tão surpresa em saber do... hã... envolvimento de vocês... na escola. Eram os dois tão diferentes um do outro. – Também me pegou de surpresa – Ava falou, ainda olhando para Peyton, incapaz de dizer como ele estava reagindo ao que acabara de escutar. – Que ele descesse ao nível de se envolver com alguém da nossa turma. Não é de se admirar que ele não quisesse que ninguém soubesse. Por fim, ele reagiu. Mas não com confusão, raiva nem arrogância. A julgar por sua reação, primeiro ficara surpreso, depois incrédulo, depois... algo que parecia ser felicidade? – Eu não queria que ninguém soubesse? – disse. – Mas foi você quem... Ele se interrompeu, olhando ao redor para os outros, que pareciam mais do que um pouquinho interessados no que ele estava a dizer. Como o cavalheiro que era, ele fechou a boca e não disse mais nada. Ava também não. Por ora, dissera o que precisava dizer. O que Peyton faria com tudo que descobrira hoje à noite, dependia exclusivamente dele: se ainda queria ter o selo de aprovação da alta sociedade ou ter algo a ver com ela. Caso desse valor ao sucesso profissional e a riqueza e posição social que vinham junto, seria cortês e fingiria que nada acontecera, enquanto continuava a bater papo com os novos melhores amigos, mesmo sabendo o que realmente pensavam a seu respeito. Faria novos contatos e reuniria mais convites para eventos como aquele. E, sem dúvida, conheceria tantas mulheres solteiras que Caroline, a casamenteira, se tornaria desnecessária. Independentemente do que Catherine dissera, e do que, no fundo, todos pensavam a seu respeito, era um deles agora... contanto que não fizesse besteira. Um membro de carteirinha da sociedade a que ele tanto quisera se juntar. Mesmo sendo nouveau riche em vez de dinheiro tradicional. Contanto que ele não fizesse besteira. Os filhos de Peyton teriam as vantagens que lhe foram negadas em escolas como Emerson. Contanto que ele não fizesse besteira. Era Peyton Moss, magnata e cavalheiro. Ninguém jamais voltaria a criticá-lo ou a tratá-lo como lixo. Contanto que ele não fizesse besteira. – Se me derem licença – Ava disse –, acho que vou embora agora. Ela se virou, e tinha dado dois passos quando a voz de Peyton a deteve. – Uma ova que você vai – ele falou. E bem alto. – É a minha... – a profanidade que ele usou para ênfase não era digna de ser repetida – convidada. Não vai a lugar algum, droga. Ela se virou, automaticamente fazendo menção de censurá-lo pela linguagem, mas se conteve ao ver seu sorriso. Era o tipo de sorriso que já vira nele duas vezes. Naquela noite, 16 anos antes, na casa dos pais dela, e na noite passada no apartamento. Um sorriso que não apenas deixava Ava sem defesas, mas também a desarmava por completo. Um sorriso de quem não estava nem aí para nada


nem ninguém, contanto que tivesse um instante com ela. Só que, desta vez, seria mais do que apenas um instante. Ele começou a afrouxar a gravata, depois deteve um garçom que estava passando e perguntou que diabos um cara tinha de fazer para conseguir uma... novamente a profanidade... garrafa de cerveja nesta... profanidade... de festa. Quando o garçom lhe disse que voltaria logo com uma, Peyton virou-se, não para Ava, mas para Catherine. – Você só fala bobagens, Catherine – ele falou, embora tivesse escolhido uma palavra diferente de bobagens. – Sei muito bem que ninguém em Emerson, inclusive você, jamais achou que eu seria grande coisa na vida. Bem, mas eu também jamais achei que nenhum de vocês... – ele olhou para Ava – bem, com uma exceção, jamais seria grande coisa na vida. Não é minha culpa que eu é que acabei estando certo. E, quer saber... Naquela altura, Peyton mandou todos fazerem algo consigo mesmos que nenhum cavalheiro jamais mandaria alguém fazer. Ava sentiu o coração dela se encher de amor. Catherine voltou a gaguejar, mas, desta vez, nem Peyton nem Ava ficaram por perto para escutar o que tinha a dizer. Afinal de contas, ela não era ninguém. Quem é que estava aí para o que ela tivesse a dizer? Ao seguir para a saída, passaram pelo garçom que estava trazendo a cerveja de Peyton, que com um movimento ágil pegou a garrafa e uma taça de champanhe para Ava. Contudo, ao chegarem ao saguão, nenhum dos dois parecia saber o que fazer em seguida. Ava olhou para Peyton, que a olhou de volta. E então, ele voltou a sorrir daquela forma desarmadora. – O que me diz de darmos o fora desta pocilga e encontrarmos um lugar onde as pessoas não sejam de classe tão inferior? Havia tanto que ela ainda queria dizer para ele, tanto que Peyton ainda precisava saber. – Não estava de todo certo lá dentro, sabe? Ele pareceu confuso. – Como assim? – O que disse a respeito de todo mundo em Emerson. Por mais errada que Catherine estivesse a seu respeito, tudo que ela falou a meu respeito é verdade. Cada tostão que a minha família tinha se foi. Meu pai não vale nada e está preso. Minha mãe estava em uma instituição mental antes de morrer. A maioria das roupas elegantes que tenho comprei em liquidação. Há oito anos que moro naquele apartamento acima da loja, que mal dá para garantir o meu sustento. Não sou o tipo de mulher que a sua diretoria quer que esteja com você, Peyton. Sabia que estava presumindo muito. Peyton não falara nada sobre estar com ela. Ele nada disse por um instante. Ficou apenas a fitá-la. Por fim, levou a mão à nuca de Ava, e com um puxão hábil, libertou o cabelo dela do elegante coque. – Fica melhor solto – ele disse. – O coque faz você parecer egoísta, superficial e esnobe. Coisas que você jamais foi. – Ah, eu fui sim – ela falou, sorrindo. – Bem, talvez, não superficial, afinal, eu me apaixonei por você.


Pronto, ela admitira. Duas vezes. Se ele não aproveitasse a deixa agora, jamais o faria. Ele sorriu de volta. – Bem, talvez fosse mesmo um pouco egoísta e esnobe, mas eu também era. Talvez por isso nós... – Ele hesitou. – Bem, talvez fosse esse o motivo de nos sentirmos tão atraídos um pelo outro. Somos parecidos demais. Ela sorriu, mas sua alegria estava começando a se esvair. Ele não ia dizer. Provavelmente porque não era o que sentia. – É, bem, não somos mais tão parecidos, somos? Agora, você é o príncipe, e eu sou a plebeia. Você merece uma princesa, Peyton. Não alguém que maculará a sua imagem profissional. Ele voltou a sorrir, sacudindo a cabeça. – Você me ensinou muito ao longo das últimas semanas. Mas não aprendeu nada, não é, Ava? Algo no modo como ele olhou para ela fez o coração de Ava voltar a vibrar de felicidade. – Diga-me você – falou. – Você estudou nas melhores faculdades. Eu só consegui ir para a faculdade pública. – A questão é justamente essa. Não importa onde tenha estudado. – Ele gesticulou na direção do salão que haviam acabado de deixar. – Olhe para todas aquelas pessoas cujos pais gastaram uma fortuna para mandá-las para uma escola como Emerson, e veja só os perdedores que acabaram se tornando. – Nós também estudamos em Emerson. – É, mas a nossa educação nada teve a ver com salas de aula, bibliotecas ou dever de casa. Eu só aprendi uma coisa em Emerson que me foi de valia, uma coisa que me ajudou nas minhas admiráveis conquistas... – Ele sorriu com genuína felicidade. – Aprendi que, independentemente de qualquer coisa, uma garota como você podia amar um cara como eu. Você me ensinou isso, Ava. Talvez tenha sido uma lição que demorei quase duas décadas para aprender, mas... – Ele deu de ombros. – Você é a razão de todas as minhas admiráveis conquistas. Você é o grande prêmio. Não importa o que nossos antigos colegas ou a minha diretoria pense. Por que eu haveria de querer uma princesa, quando posso ter a rainha? – Na verdade, eu me importo com o que alguém pensa de mim. Eu me importo com o que você pensa. – Não importa. O que importa é o que eu sinto. – Importa o que você pensa e sente. Ele voltou a levar a mão aos cabelos dela. – Muito bem, nesse caso, acho que amo você. Acho que sempre te amei. E sei que sempre, amarei. Agora Ava se lembrava de como a vida era quando tudo saia do jeito que era para sair. Era sublime. – Temos muito sobre o que conversar – ele falou. Ela assentiu. – É, temos mesmo. Ele inclinou a cabeça na direção da saída do hotel. – Não há hora melhor do que o presente.


É, Ava tinha de admitir que o presente era uma, profanidade, de hora boa. Por outro lado, o passado não fora tão ruim. E quanto ao futuro? Este estava parecendo mais promissor a cada instante.


EPÍLOGO

PEYTON ESTAVA sentado à mesa ligeiramente maior do que aquela na casa de chá em Chicago, observando Ava tomar nas mãos o delicado bule de chá de porcelana. De modo algum tocaria naquilo, mesmo que lhe rendesse pontos extras com as irmãs Montgomery, que haviam se juntado a Ava e ele na casa de chá mais conceituada de Oxford, Mississipi. Uma coisa era ser um cavalheiro. Outra era derramar água quente nas mãos enluvadas de suas novas sócias. – Peyton – a srta. Helen Montgomery disse – deve ter encontrado a única mulher de valor ao norte da Mason-Dixon Line. É melhor não a perder de vista. A srta. Dorothy Montgomery concordou. – Ora, com os bons modos e a sua elegância, ela poderia estar à frente de toda a Mississipi Junior League. – Ora, vamos, srta. Dorothy, Srta. Helen – Ava falou. – Desse jeito, vão me deixar encabulada. Vendo Ava usando um par de luvas brancas e um conjunto cinza ao estilo de Jackie Kennedy, Peyton não pôde deixar de pensar que não via a hora de levá-la de volta para o quarto de hotel. Era o último dia deles em Mississipi. Naquela tarde, após meses de trabalho, haviam acertado os últimos detalhes do acordo. Tudo que restaria era assinar os contratos, e Montgomery & Sons continuaria Montgomery & Sons, com Helen e Dorothy Montgomery como representantes e Peyton planejava manter a empresa intacta. Na verdade, ia investir o que fosse necessário para tornar a indústria têxtil rentável novamente, e esta se tornaria o carro-chefe da nova empreitada dele e de Ava. Brenner Moss Incorporated confeccionaria roupas para homens e mulheres de fabricação 100% americana, tanto em matéria-prima quanto em mão de obra. E Ava, a presidente, não via a hora de colocar a mão na massa. – Estamos contando com a sua presença em Chicago, em setembro, para o casamento – Peyton falou. – Ah, não perderíamos por nada. Por ora, Peyton e Ava dividiriam o tempo entre Chicago e São Francisco, contudo, mais cedo ou mais tarde, fundiriam a operação toda na costa oeste. Ela queria incluir a Talk of the Town sob a bandeira da Brenner Moss e abrir uma cadeira de lojas por todo o país, mas, por ora, entregara a


administração da loja para Lucy Mulligan, sua antiga encarregada de vendas. Contudo, assim que as coisas decolassem, Lucy iria se tornar sua assistente na Brenner Moss. Engraçado como Peyton retornara para Chicago com o único propósito de ampliar os negócios e ganhar mais dinheiro, e acabara ampliando os negócios e ganhando mais dinheiro... além de ganhar algo muito mais importante e valioso. Quem precisava da alta sociedade quando Ava era tudo que ele queria? – Devo dizer que vocês dois fazem o casal perfeito – Dorothy comentou. – Ambos são inteligentes e trabalhadores, e obviamente de linhagem muito boa – ela acrescentou. – Ora, vocês fazem me lembrar de Dorothy e de mim mesma. É evidente que tiveram uma boa criação. Sem dúvida, Peyton pensou. Tiveram apenas de esperar virarem adultos para ter essa criação. Mas, de certa maneira, Ava o fazia se sentir como se fosse um garoto novamente. – Quando o negócio de vocês decolar, ninguém vai falar em outra coisa – a srta. Helen disse. – A ideia é essa, srta. Helen – Ava concordou com um sorriso. Mas olhava para Peyton quando disse: – Bem, essa e vivermos felizes para sempre, é claro. Peyton também sorriu. Alguns diziam que viver bem era a melhor vingança, mas ele preferia acreditar que viver bem era a melhor recompensa. Isso fazia tudo valer a pena, independentemente de onde e como ele e Ava morassem. Tudo que importava é que estivessem juntos.


Dani Wade

VOTOS ENTRELAÇADOS

Tradução Maurício Araripe


Querida leitora, Votos entrelaçados é uma das histórias que mais gostei de escrever. Estou tão empolgada por poder mostrar um país e uma cultura que eu tanto amo. Christina é a quintessencial heroína sulista. Doce quando quer ser, forte quando precisa. Ela é a mulher perfeita para o herdeiro prodígio e cabeça-dura Aiden Blackstone, mesmo que ele esteja determinado a resistir. A primavera no sul dos Estados Unidos é uma época única, com o clima turbulento abrindo caminhos para novos começos. Bem parecida com a vida na Blackstone Manor. Eu adoro saber o que minhas leitoras pensam. Por isso, não deixe de visitar meu website daniwade.com e de me seguir no Twitter e no Facebook. Boa leitura! Dani


CAPÍTULO 1

AIDEN BLACKSTONE reprimiu um arrepio que nada tinha a ver com a tempestade vespertina que caía. Por um instante, ficou imóvel, fitando os elaborados entalhes na pesada porta de carvalho diante de si. Uma porta que ele se prometera jamais cruzar novamente... pelo menos não enquanto o avô ainda estivesse vivo. Eu deveria ter vindo, mãe, apenas para vê-la. Mas ele jurara jamais se permitir ser trancado outra vez no interior da Blackstone Manor. Achara que teria todo o tempo do mundo para compensar a mãe por sua ausência. Na ignorância de sua juventude, não se dera conta de tudo de que abrira mão com sua promessa. Agora, estava de volta para honrar outro juramento... a promessa de cuidar da mãe. A simples ideia já lhe deu um frio na barriga. Inspirando fundo, levou a mão à antiga aldrava de ferro, em forma de cabeça de urso. Procurou se tranquilizar, lembrando-se de que não ficaria ali muito tempo... apenas o necessário. Voltando a bater, tentou escutar o som de passos do outro lado da porta. Não era um lar quando era necessário esperar que alguém atendesse. Fora embora com a certeza de que provinha apenas da inexperiente juventude. Agora, retornava um homem diferente. Um sucesso em seus próprios termos. Apenas não teria a satisfação de esfregar isso na cara do avô. Pois James Blackstone estava morto. A porta abriu-se para dentro com um profundo rangido. Um homem alto, de postura ainda imponente, apesar do cabelo grisalho ralo, piscou várias vezes, sem saber se podia confiar nos próprios olhos. Embora houvesse saído de casa em seu 18º aniversário, Aiden reconheceu Nolen, o mordomo da família. – Ah, patrão Aiden. Estávamos à sua espera. – Obrigado. Ainda estudando seu rosto, o homem abriu ainda mais a porta, permitindo a entrada de Aiden e de sua bagagem. – Já faz um bom tempo, patrão Aiden – falou o homem mais velho, após fechar a porta, deixando a chuva torrencial do lado de fora.


Aiden buscou condenação nas feições do homem mais velho, porém nada encontrou. – Por favor, deixe a sua bagagem aqui. Eu a levarei para o seu quarto, assim que Marie o tiver aprontado. Quer dizer que a governanta, a mesma que assou biscoitos para ele e para os irmãos enquanto sofriam com a perda do pai, também ainda estava ali. Diziam que nada mudava em cidades pequenas. E tinham razão. Aiden passou os olhos pelo salão de entrada, também o encontrando igual a antes de sua partida. A única anormalidade foi a ausência de um retrato de seus pais, dele próprio, aos 15 anos de idade, e dos gêmeos caçulas, um ano antes da morte do seu pai. Depositando no chão a mochila de lona e a valise do laptop, ele seguiu Nolen até a galeria central da casa, onde havia uma enorme escadaria. O som de seus passos ecoou pelos corredores, como se o lugar estivesse vazio, abandonado. Mas sua mãe estava ali em algum lugar. Provavelmente ainda em seus antigos aposentos. Aiden não queria pensar nela, e em como a condição a deixava indefesa. Isso sem falar na impotência que ele sentia. Já fazia tanto tempo desde a última vez em que escutara sua voz ao telefone, pouco antes de seu derrame, dois anos atrás. Após o acidente de carro tornar as viagens complicadas para ela, a mãe de Aiden ligara para ele uma vez por semana, sempre que James não estava em casa. A última vez que vira o número de Blackstone Manor no identificador de chamadas fora o irmão para lhe dizer que a mãe sofrera um derrame, decorrente de complicações provocadas pela paralisia. Desde então, apenas silêncio. Para a surpresa de Aiden, Nolen seguira direto para a escadaria, o corrimão de carvalho reluzindo mesmo sob a iluminação fraca, como se houvesse acabado de ser lustrado. A maioria das reuniões formais na casa costumava acontecer no gabinete do avô, onde Aiden presumira que iria encontrar o advogado. Por ele, iria direto aos negócios. – O advogado cansou-se de me esperar? – perguntou Aiden, curioso para saber por que estava sendo levado a seu quarto, primeiro. – Minhas instruções foram para subir com o senhor – falou Nolen, sem sequer olhar para trás. Será que via com desconfiança a chegada do filho pródigo? Algo que fosse mudar a vida que Nolen conhecera durante os últimos quarenta anos? Pode apostar que ia. Tinha toda a intenção de usar o dinheiro do avô para trazer a mãe mais para perto dos filhos e para lhe oferecer os melhores cuidados possíveis. Venderia tudo e voltaria correndo para os próprios negócios em Nova York. Tinha apenas uma carreira duramente conquistada aguardando-o por lá, mas era algo que construíra com as próprias mãos. Não queria ter nada a ver com Blackstone Manor nem com as lembranças que residiam entre suas paredes. Seguindo cegamente, de repente notou a direção tomada por Nolen. Aiden sentiu intranquilidade em seu íntimo. Os antigos quartos dele e dos irmãos ocupavam o terceiro andar. Até onde ele sabia, apenas dois aposentos ocupavam o segundo andar: a suíte da mãe e a do avô. Não estava pronto para visitar nenhuma das duas. A da mãe, só depois de ter tido algum tempo para se preparar. A do avô, jamais. O advogado, Canton, dissera que James morrera na noite anterior. Desde então, Aiden estivera focado em fazer as malas e chegar ali. Pensaria no futuro depois que falasse com Canton.


– Nolen, o que está acontecendo? – indagou para as costas do mordomo, ao se aproximarem da porta da suíte do avô. Contudo, o outro homem não respondeu, apenas adiantou-se até a porta, girou a maçaneta e a abriu. – O sr. Canton está lá dentro, patrão Aiden. O uso da designação de infância que Nolen usava para ele incomodava Aiden, mas era melhor do que ser chamado de patrão Blackstone. Não deveriam nem ter esse sobrenome, mas, tendo apenas uma filha, o velho James exigira que esta desse seu nome aos filhos, excluindo qualquer outro legado que o pai quisesse passar adiante, e a mãe dele cedera. Aiden sacudiu a cabeça e cruzou a porta. Apesar da tempestade lá fora, o quarto estava quente, e seu olhar na mesma hora se voltou para a enorme cama de quatro colunas com a colcha de veludo roxo. Seu corpo todo se retesou. Observando-o da cama estava o avô. O avô morto. O resto do quarto desapareceu, assim como a tempestade caindo lá fora. Podia apenas fitar o homem que lhe comunicaram ter falecido. No entanto, ali estava ele, percorrendo de alto a baixo com o olhar avaliador a figura adulta de Aiden. Seu corpo parecia mais magro do que Aiden se recordava, mas ninguém poderia confundir o avô com um homem morto. Ainda tratou de se concentrar no adversário. Afinal, a melhor defesa era um bom ataque. Tal estratégia o mantivera vivo quando era jovem e estava quebrado. Também lhe servia agora que estava mais maduro e mais rico do que jamais poderia imaginar que ficaria quando deixara Blackstone Manor. – Sabia que era um osso duro de roer, James, mas não pensei que, mesmo você, fosse capaz de se erguer dos mortos – declarou Aiden. Para sua surpresa, um sorriso débil apareceu no rosto do avô. – Deveria ficar contente. Quem sai aos seus não degenera. Aiden reprimiu o ressentimento ante o clichê e acrescentou uma nova informação a seu arsenal de conhecimento. James podia não estar morto, mas estava falando com evidente dificuldade. Somada a palidez da outrora pele bronzeada do avô, Aiden só podia imaginar que algo muito sério deveria ter acontecido. Por que ele não estava no hospital? Não que Aiden fosse correr para casa para cuidar do avô, mesmo que soubesse que ele estava doente. Falava sério quando jurara não voltar a pôr os pés em Blackstone Manor até que o avô morresse. Algo que o velho sabia muito bem. Aiden sentiu-se tomado de raiva. Com lentas inspiradas regulares, acalmou o corpo e a mente. Subitamente notou uma mulher no quarto, aproximando-se da cama com um copo de água. Evidentemente irritado com a interrupção, James amarrou a cara para ela. – Você precisa disto – pronunciou ela, com o tom de voz suave, todavia insistente. Algo no som ameaçou temperar a reação de James. O cabelo ondulado da cor de nozes tostadas à perfeição estendia-se até o meio das costas. As ondas espessas emolduravam as feições clássicas e elegantes e a pele cremosa de estrela de cinema que acrescentava beleza ao quarto de doente, como


uma rosa em um cemitério. O jaleco azul deixava à mostra o contorno do corpo esbelto em todos os lugares certos. Quando ele tentou desviar o olhar, uma das sobrancelhas perfeitas arqueou-se. Ela olhou sugestivamente para James, uma das mãos abertas para revelar dois comprimidos. Foi então que ele se deu conta. – Invasora? Só se deu conta de que falara em voz alta quando ela estremeceu. James alternou o olhar entre eles. – Vejo que se recorda de Christina. Muito bem. E a julgar pelas costas empertigadas, ela se lembrava do apelido que ele tinha para ela. Aquele olhar teimoso, do tipo vou conseguir o que eu quero, trouxe tudo de volta. Ela costumava lhe lançar o mesmo olhar quando eram adolescentes, depois que ele a tratara como se fosse um mosquito incômodo, dispensando-a sem dar a mínima para seus sentimentos. Apenas uma garotinha pegando em seu pé e implorando pela atenção da família dele. Na ocasião em que zombara dela, por tentar se meter em uma família que não queria saber dela, suas lágrimas marcaram permanentemente a consciência dele. – Aiden – ela o cumprimentou com um frio balançar de cabeça. Em seguida, retornou sua atenção para James. – Tome estes comprimidos, por favor. Ela podia parecer elegante e serena, mas do outro extremo da sala, Aiden podia enxergar o aço sob a seda. Será que também seria sexy, ali por baixo? Não, não ia fazer isso. Sua severa política de romances de apenas uma noite só significava nada de vínculos. E aquela mulher tinha compromisso estampado na cara. Ele não passaria tempo o suficiente ali para descobrir nada a respeito de ninguém. Com um rosnado baixinho, James pegou os comprimidos de sua mão e os engoliu com a ajuda da água. – Satisfeita? A atitude não a abalou em nada. – Estou, obrigada. O sorriso apenas sugeriu a condescendência dirigida a ele. A presença dela ali como enfermeira intrigou Aiden. Entretanto, retornou o olhar para a cama que dominava o ambiente. – O que você quer? – Direto ao ponto – mencionou o avô, com a voz arrastada, erguendo ligeiramente um dos cantos da boca. – Sempre gostei disso em você, garoto. Tem razão. Melhor acabarmos logo com isto. – Ele endireitou-se um pouco na cama. – Sofri um infarto. Sério, porém, ainda não estou morto. Ainda assim, o ligeiro episódio... – Ligeiro! – exclamou Christina. James ignorou-lhe a interrupção. – ... serviu de alerta de que está na hora de eu colocar em ordem os negócios. Garantir o futuro do legado Blackstone. Ele assentiu na direção do homem de terno postado no canto.


– John Canton... meu advogado. Ah, o homem do telefonema. – Deve lhe pagar bem, considerando que está disposto a mentir a respeito de questões de vida ou morte. – Dadas às circunstâncias, ele apenas quis fazer a minha vontade – respondeu James por Canton, como de costume, não dando qualquer sinal de arrependimento. O que for necessário para realizar o serviço. As palavras que James repetira tantas vezes na presença de Aiden ecoaram em sua cabeça. – Sua presença se faz necessária em casa, Aiden – assegurou o avô. – É sua responsabilidade estar aqui e cuidar da família quando eu morrer. – De novo? – Aiden não conseguiu deixar de dizer. Mais uma vez, os lábios do avô se contorceram em um sorriso débil. – Mais cedo do que eu gostaria. Canton... Aiden franziu a testa quando a cabeça do avô se recostou nos travesseiros, como se não tivesse mais forças para continuar bancando o diabólico ditador de sempre. – Conforme o seu avô anunciou, sou o advogado dele – falou Canton, estendendo a mão para apertar a de Aiden. – Há cinco anos que cuido dos negócios de seu avô. – Minhas condolências – proferiu Aiden. Canton hesitou. James ergueu a cabeça, a irritação estampada no seu rosto. – Há coisas que precisam ser resolvidas, Aiden. E logo. Sua própria raiva veio substituir a curiosidade. – Quer dizer que vai providenciar para que tudo continue bem do jeitinho que você quer. Desta vez, James conseguiu impulsionar-se para a frente, uma sombra do seu antigo eu. – Há cinquenta anos que estou à frente desta família. Sei o que é o melhor. Não um vagabundo que foge ante o primeiro sinal de responsabilidade. Sua mãe... Com um suspiro, ele caiu para trás, tremendo ao fechar os olhos. – Christina – disse Canton. Christina adiantou-se até a cama e verificou a pulsação de James. Aiden notou o tremor nos dedos dela ao segurar o pulso frágil. Quer dizer que ela não era indiferente. Realmente se importava com o velho abutre? Era difícil de imaginar. Em seguida, com gestos eficientes e confiantes, ela segurou a cabeça de James enquanto este engolia mais água. Apesar de não querer se comover, Aiden sentiu o coração bater mais forte. – Você deveria estar em um hospital – alegou. – Depois que o seu avô recusou mais tratamentos, não havia como o manterem lá. Ele comentou que, se ia morrer, o faria em Blackstone Manor – informou Canton. – Christina já estava na residência e podia seguir as ordens dos médicos... O avô inspirou profundamente, com a cabeça enterrada nos travesseiros, os olhos cerrados. – E você pode? Ela o fitou com os olhos cor de chocolate. – É claro – retrucou ela, sem rodeios. – O sr. Blackstone não vai morrer. Mas precisará de um bom tempo para se recuperar. Eu preferiria que ele ficasse mais um tempo no hospital, mas...


Ela deu de ombros, a mensagem: o que fazer quando uma pessoa era louca? Isso incomodou Aiden. Seu lugar não era naquele quarto, nem com aquelas pessoas. Sua beleza e graça não deveriam ser maculadas pelo legado vil do avô. Mas a tranquila fachada profissional escondeu o que ela realmente pensava sobre a situação. Estaria ali apenas por causa do emprego? Ou tinha outro motivo? Novamente, Aiden a invejou, lamentando não ter o mesmo domínio sobre as próprias emoções. Mas estava enferrujado em lidar com o avô. Aproveitou que ela se retirou para um canto afastado do aposento para voltar toda a sua atenção para a batalha que pressentia que estava por vir. – Seu avô está preocupado com a fábrica... – começou Canton a dizer. – Não dou a mínima para o que aconteça com o lugar. Por mim, pode demolir, queimar, o que for. O maxilar do avô se retesou, mas ele não fez qualquer tentativa de defender o negócio no qual despejou o pouco de humanidade que tinha, ignorando as necessidades da família. Pelo menos, as necessidades emocionais. – E quanto à cidade? – questionou Canton. – Não liga para o que aconteça com as pessoas que trabalham em Blackstone Mills? Gerações de moradores da cidade, os amigos de sua mãe, crianças com quem você estudou, os sobrinhos e sobrinhas de Marie? Aiden cerrou os dentes. Não queria envolver-se. Contudo, rostos apareceram em sua cabeça ante as palavras do advogado. A fábrica tinha centenas de anos, e, pelo que Aiden soubera, era uma das líderes na confecção de produtos de algodão, especializada em tecidos de linho de alta qualidade. James podia ser um canalha, no entanto, sua insistência em qualidade mantivera a empresa viável em uma economia instável. Aiden passou a mão pelo cabelo úmido. Sem aviso, sentiu-se tomado por uma onda familiar de rebeldia. – Não quero assumir os negócios. Jamais quis. Adiantou-se até a janela, fitando a tempestade lá fora. Responsabilidades familiares não eram mais de sua alçada. Havia muito que passara o trabalho para os irmãos. E, para completar, a presença de Christina servia de constante distração. Como foi que ela acabara ali? Havia quanto tempo estava ali? Será que jamais encontrara um lugar para chamar de seu? Tomado de tensão, uma ligeira dor de cabeça começou a se instalar. – Considerando a sua idade, sabia que algo assim estava por vir. – Ele gesticulou na direção da cama. – Deveria ter vendido. Ou passado os negócios para outra pessoa. Para os meus irmãos. – Não é dever deles – insistiu James. – Como primogênito, é seu. E já está mais do que na hora de aprender o seu lugar. Como se pudesse pressentir a raiva fervilhando no íntimo de Aiden, Canton interveio: – O sr. Blackstone deseja que a fábrica permaneça uma instituição familiar que irá continuar a oferecer empregos e a ser o centro da cidade. Os únicos compradores em potencial que temos querem derrubar a fábrica e vender a terra. – Ah, a perpetuação do nome Blackstone. Já planejaram o monumento? – Farei o que for preciso. E você também. – Veio a resposta insistente da cama.


– E como espera conseguir isso? Eu já saí por aquela porta antes. Terei enorme prazer em fazê-lo outra vez. – É mesmo? Acha que isso é o melhor para a sua mãe? Dediquei a minha vida para dar continuidade ao trabalho duro do meu pai. Não permitirei que o trabalho de minha vida desapareça só porque não quer cumprir com o seu dever. Voltará para cá, onde é o seu lugar. Eu me certificarei disso. Aiden levou a mão à nuca, massageando-a. – Ah, não. Eu não vou entrar nessa. No que me diz respeito, a linhagem da família, o nome Blackstone, deveria desaparecer. – Sabia que pensaria assim. É por isso que estou preparado a fazer com que isto valha à pena para você. COMO QUE de longe, Christina escutou os homens discutindo. O choque a envolveu no interior da sua própria bolha de medo. O olhar de Aiden focou-se no advogado, enquanto este falava, mas o de Christina não abandonava Aiden. A máscara impenetrável de rebeldia e o orgulho que o protegia de qualquer emoção mais suave. A largura de seus ombros. O retesar dos músculos do peitoral e dos antebraços, lembrando-a de sua força, de seu controle. Poderia um homem forte como aquele ser vitorioso sobre alguém com o histórico de James de manobras ardilosas, tanto no âmbito profissional quanto no pessoal? – Por que não me dá a versão condensada? – interrogou Aiden comandando de um modo que chegou a deixar Christina arrepiada. Desta vez, Canton não olhou para James em busca de permissão. Pigarreou, e prosseguiu: – Seu avô deixou preparados os documentos legais cobrindo todos os ângulos. – Ele retirou papéis de sua valise. – Essencialmente, eles lhe concedem direito sobre a fábrica e Blackstone Manor. – Já avisei que não a quero. Pode vender. – Podemos. O comprador interessado é um grande concorrente, que irá fechar a fábrica e vendêla aos pedaços. Inclusive as terras que ela ocupa. Todas as cinquenta pessoas que moram na propriedade serão expulsas para que seus lares possam ser demolidos – explicou Canton. – O dinheiro da venda dará uma bela biblioteca de direito para a universidade – acrescentou James com prazer, antes de dar de ombros. – Não é o legado que eu tinha em mente, mas serve. James gesticulou para que Canton prosseguisse, o que este fez após uma breve hesitação. – Se escolher não assumir os negócios, o sr. Blackstone fará valer a procuração que tem da filha para interná-la imediatamente em uma instalação do condado. Christina deixou escapar um gritinho ao imaginar o caos que isso provocaria, o perigo que tal mudança traria para Lily, a mãe de Aiden. Havia cinco anos que ela cuidava de Lily, desde o momento em que recebera seu diploma de enfermagem. Mas, muito antes disso, Lily já fora uma segunda mãe para ela, o tipo de mãe que ela jamais tivera. A última coisa que deixaria acontecer era a entrega de Lily a cuidados inadequados. O olhar de Aiden concentrou-se no avô, com sua expressão endurecendo de novo.


– E o que aconteceria com mamãe nesse lugar? James sorriu, e as palavras odiosas deixaram os lábios zombeteiros. – Christina, acredito que já tenha estado nas instalações do condado, não é? Durante os seus estudos, não foi? Conte para Aiden. Christina estremeceu ao imaginar o que deveria estar passando pela cabeça de Aiden. Apenas alguém manipulador e egocêntrico como James poderia imaginar que renegar a própria filha inválida fosse a melhor maneira de preservar seu pequeno reino. Com a voz rouca, ela declarou: – Desde que sou enfermeira, que é classificada como uma instituição de qualidade inferior e é alvo de inúmeras queixas de negligência... Mas muito pouco é feito a respeito, pois é o único lugar que aceita os casos de idosos e enfermos que não tem condições de pagar. – Como sabe que não tenho dinheiro o suficiente para tirar da mesa tal opção? – Pode até tentar – respondeu Canton. – Mas a procuração dá ao seu avô a última palavra. – Nesse caso, vou levá-lo ao tribunal para conseguir que seja transferida para um de meus irmãos. Mas não para ele, Christina não pôde deixar de notar. – Pode fazer isso – pronunciou James. – Mas quanto tempo acha que isso vai levar? Meses? Um ano? Acha que sua mãe durará tanto em um... ambiente desses? – Faria isso com a própria filha? – inquiriu Aiden. Tendo o observado desde criança, instintivamente sabendo que ele era ainda mais perigoso do que a própria família, mas inexplicavelmente cativada pelo amor e pela preocupação de Lily, Christina sabia muito bem do que James era capaz, da falta de compaixão que tinha pelos outros. Esfregou as mãos trêmulas nas coxas. Quanto tempo Lily seria capaz de sobreviver aos cuidados inferiores das instalações do condado? Mesmo a mãe de Aiden estando em coma, Christina acreditava piamente que ela às vezes estava ciente do que ocorria ao seu redor. Da última vez em que mudaram Lily para uma clínica particular para a realização de alguns testes necessários, ela ficara agitada, com o coração disparando, e acabara contraindo uma virose no hospital. Como poderia ser exposta aos padrões inferiores das instalações do condado sem contrair algo letal? Angustiada, Christina adiantou-se. – É claro que ele faria – falou, com mais amargura e desespero do que pretendia. – Seu filho da mãe – proferiu Aiden, perfurando James com o olhar. – Sua própria filha... não passa de mais uma peça no seu joguinho. O coração de Christina bateu mais forte, o medo em choque com a admiração em seu sangue. Aquele homem, a selvageria de sua fúria, a fascinava. James socou a cama com o punho débil. – Isto não é um joguinho. Meu legado, a fábrica e a cidade devem prosseguir, ou tudo terá sido por nada. Melhor duas pessoas pagarem o preço do que toda uma cidade. Ficando imóvel, Aiden franziu a testa. – Duas pessoas? Canton ergueu a mão, chamando a atenção para si. – O negócio tem uma condição adicional. Ou aceita tudo, ou nada.


Mais uma vez passando a mão pelo cabelo, Aiden afastou-se até a janela, onde voltou a admirar a chuva pesada. Um raio brilhou lá fora, evidenciando o contorno dos ombros largos e tensos. Canton pigarreou. – Deve casar-se e morar em Blackstone Manor por um ano. Só então o seu avô o libertará do acordo, ou o deixará ter a sua herança, caso já tenha falecido. Aiden inspirou fundo, mas bastou um olhar para o avô para dar fim a seu autocontrole. – Não. De maneira alguma. Você não pode fazer isso. O corpo de James sobressaltou-se, com sua respiração ofegante. – Posso fazer o que eu bem quiser, rapaz. O fato de que há dez anos que você não visita a sua mãe não lhe trará muita simpatia por parte de juiz algum, caso tente conseguir a sua guarda. – A respiração foi ficando mais alterada. – É melhor manter esse seu gênio sob controle. Não se esqueça das consequências da última vez que resolveu me contrariar. Christina estremeceu. Conhecia bem as consequências de James. Não eram bonitas. Lily contara que a contínua rebeldia de Aiden lhe custara o acesso à mãe, e, com o tempo, custara a Lily a própria saúde. – Por que eu? Por que não um dos gêmeos? Em resposta à pergunta do neto, os lábios de James se retorceram cruelmente. – Por que é você que eu quero. Como eu, é teimoso o bastante para conduzir a nova geração até onde eu quero que ela vá. O medo agora estava dissipando o choque. Nolen, Marie e Lily, os outros residentes de Blackstone Manor, não eram tecnicamente parentes de Christina. Pelo menos, não por sangue. Mas eram o mais perto que ela já chegara em toda vida, de estar rodeada por aqueles que gostavam dela. Não estava disposta a vê-los destruídos pelos joguinhos doentios de James. Além do mais, ela devia muito à família e ao homem de olhar sombrio e intenso diante de si. Mais do que tudo, devia a Lily. Se, para pagar a dívida e proteger a família tivesse de ser uma peça no jogo, era o que faria. Em 26 anos, havia uma lição que a família de Christina lhe ensinara, de fazer-se útil. O advogado adiantou-se. – A papelada já está pronta. Ou se casa e mantém a fábrica funcionando, ou a sra. Blackstone será transferida imediatamente. – É pegar ou largar – completou James. Christina mal foi capaz de detectar o descair de derrota dos ombros de Aiden. – E onde é que eu devo encontrar esse ideal de virtude, disposta a se sacrificar pela causa? – Pensei que fosse bom em achar tesouros – retrucou James, referindo-se à carreira de Aiden como negociador de artes, deliciando-se com a vitória que já podia ver chegando. – Jamais me interessei em ter uma mulher. E duvido que alguma esteja disposta a tomar parte nos seus joguinhos, vovô. Inspirando fundo, contendo as náuseas em seu íntimo, Christina adiantou-se. – Eu estou – afirmou.


CAPÍTULO 2

– AH, E uma última coisa... Quando ditas por James, aquelas não eram palavras que Christina queria escutar. Saudosamente, fitou a porta da suíte. Apenas mais alguns metros e estaria livre... Por ora. – Uma relação platônica entre vocês dois não é aceitável. Meu objetivo é um legado. Não dá para conseguir isso com camas separadas. Sentiu o pânico brotando em seu íntimo, até Aiden responder: – Pode levar um cavalo até a água, vovô, mas não pode forçá-lo a beber. – Meu querido rapaz, frequentemente basta levar um cavalo até a água. E é bom que você trate de ficar com sede. O pior era que James tinha razão. Estivera no quarto com Aiden por apenas meia hora e sentia-se arder de atração cada vez que olhava para ele. Todavia, dormir com ele? Com um homem que praticamente era um desconhecido para ela? Não podia fazer isso. Mas, e quanto a Lily? Christina podia notar a tensão nos ombros de Aiden sob a camisa social úmida. O suspense era palpável no aposento, todos aguardando que alguém desse o passo seguinte. Entretanto, não seria ela. Não fazia ideia do que fazer, do que pensar. Simplesmente precisava dar o fora dali. Como que lendo seus pensamentos, Aiden virou-se para ela e adiantou-se alguns passos, apenas detendo-se para olhar brevemente na direção do avô. – Recuso-me a tomar este tipo de decisão em apenas uma questão de minutos. E a permitir que Christina faça o mesmo. Eu voltarei mais tarde. O autocontrole de Aiden ao retirar-se do quarto com ela a intrigou. O que estava realmente acontecendo por trás daquela máscara de desafio? Christina manteve a mesma pose, até as portas da suíte principal se fecharem atrás dela. Depois, cambaleou corredor abaixo, até as escadas, como se estivesse embriagada. Detendo-se ao apertar com as mãos a madeira fria do corrimão, inspirou fundo, sentindo os pulmões arderem.


Acabara de se oferecer para se tornar a mulher de Aiden Blackstone. Porém, considerando a exigência final de James, como poderia levar aquilo até o fim? Sobressaltada com o ruído de passos atrás de si, ela apertou com mais força o corrimão de madeira. Sabendo que Aiden e Canton estavam se aproximando, Christina tentou se recompor. Precisava chegar ao final da tarde sem ruir. Ao virar-se para encarar os outros, Nolen apareceu no final do corredor, seu semblante preocupado ao aproximar-se. Mas ficou calado. Provavelmente já sabia de cada detalhe do que ocorrera naquela tarde nos aposentos particulares de James Blackstone. De algum modo, ele e Marie sempre sabiam. – Ainda é cedo – mencionou Canton. – Podemos dar um pulo no cartório agora mesmo e dar início à papelada. Poderão estar casados até o final da semana. Nolen amarrou a cara para o advogado, careta dele a fazendo se sentir protegida. Não era algo comum. Normalmente, a protetora era ela. Com lentidão, sacudiu a cabeça ao virar-se para encarar os homens. – Preciso de tempo para pensar. E preciso ver como está Lily. – Ela está bem com Nicole – informou Nolen, estendendo o braço para ela. O homem era antiquado até os ossos. Seus músculos relaxaram um pouco, e ela sorriu. Ele sorriu de volta. – Mas, se for para tranquilizá-la, podemos dar uma passada lá. Seguiram para o outro conjunto de aposentos do segundo andar. Inspirando fundo, Christina olhou para trás por sobre o ombro. – Aiden, não quer ver Lily? Ele ficou a observá-la de alguns metros de distância, mantendo as emoções escondidas. – Mais tarde. – Foi a breve resposta. Ainda assim, suas feições não lhe diziam se ele simplesmente não podia encarar a mãe, ou se era porque não dava a mínima. Ele virou-se para Canton. – Não vou a lugar algum até que tenha dado uma olhada nos documentos e falado com o meu advogado. Assentindo, Canton adiantou-se até as escadas e começou a descê-las. Com uma postura aguerrida, Aiden o seguiu. Nolen deixou clara sua desaprovação com um resmungo, mas Christina o ignorou. Talvez fosse imaginação, mas Aiden parecia envolto em um manto de solidão. Após uma leve batida, Nolen abriu a porta da suíte de Lily, e Christina deixou para trás o mistério de Aiden. Ali, a decoração mais suave era bem diferente da opressão majestosa da suíte oposta. A tranquilidade suavizou os nervos abalados de Christina. Passaram pela área de estar com a televisão ligada baixinho e seguiram para os aposentos de dormir. Nicole, a sobrinha da governanta estava sentada na poltrona acolchoada ao lado da cama ajustável que James encomendara. Ela ergueu o olhar do grosso livro de enfermagem no seu colo. – Veio ver como as coisas estão indo? – perguntou Nicole. Christina assentiu. – Como ela está? – Ah, a tempestade não agradou ninguém, contudo, depois que fiz os exercícios dela, ficou bem. – Nicole sorriu. – Sinais vitais normais, de modo que está descansando tranquilamente agora. No


entanto, ainda é um pouco assustador vê-la reagir desse jeito. – Ah, ficaria surpresa ante as histórias que enfermeiras têm para contar sobre pacientes em coma. É uma área de estudo muito interessante. Ninguém melhor do que Christina para saber. Ela estudara cada caso, cada relato, que conseguiu encontrar. O dano do derrame sarara, todavia, Lily ainda não retornara para eles. – Um dia, você dará uma enfermeira excelente, Nicole – falou Nolen, sorrindo, como se ela fosse a própria neta. – Dará sim – concordou Christina. Encorajara Nicole desde o instante em que a garota aparecera fazendo indagações sobre os deveres de Christina. Agora, a moça era uma estudante de enfermagem na universidade, a 40 minutos dali, e ocasionalmente ajudava Christina. Enquanto Nicole e Nolen conversavam sobre alguns problemas mecânicos que ela tivera com o carro naquela semana, Christina verificou a pulsação de Lily. Em seguida, pousou a mão sobre a testa da paciente, notando que a temperatura estava normal. Seu profissionalismo terminou após passar os olhos pelos aparelhos, e ela inclinou-se para perto do ouvido de Lily. – Ele está em casa, Lily – sussurrou. – Não está muito satisfeito, mas, por ora, está aqui. Eu o trarei para vê-la muito em breve. Não havia qualquer indício de que Lily houvesse escutado, apenas apitos dos monitores. As feições débeis e pálidas de Lily jamais se moveram, seus olhos nunca se abriram. Mas Christina tinha de acreditar que ela estava feliz de saber que o filho estava novamente sob o teto da Blackstone Manor. Entretanto, não ficaria muito feliz com as maquinações do pai. Forçar duas pessoas a se casarem... Christina estremeceu ao recordar-se da sensação do olhar intenso de Aiden penetrando a fina máscara atrás da qual ela protegia as suas emoções. A chegada da governanta a despertou de seus pensamentos. – Que história é essa de casamento que eu escutei? – questionou Marie ao marchar para dentro do quarto, ainda usando o avental de cozinha. A vontade de Christina foi gemer. Como a notícia fora se espalhar tão rapidamente? Às vezes parecia até que os empregados tinham escutas espalhadas por toda a casa. – É mais um acordo de negócios do que um casamento – esclareceu Christina. – Se é que haverá casamento... Ainda não sabia ao certo se Aiden iria adiante com o plano. Também tinha suas dúvidas, mas o que importava era ter o direito legal de proteger Lily. Mas não poderia compartilhar a cama com Aiden. Decerto encontrariam um modo de contornar essa parte... – Não é natural – opinou Nolen. – Dois desconhecidos entrando em algo sagrado feito o casamento. – E tais palavras de sabedoria ditas por um solteirão convicto – sorriu Marie. – Aliás, não é como se fossem desconhecidos. Eles se conhecem desde que eram crianças. Christina sentiu uma pontada de pânico ao recordar-se do último encontro cara a cara com o Aiden de 17 anos. Todas as vezes que viera visitar Blackstone Manor, sonhara com ele de longe. Às vezes, a esperança de vê-lo a atraíra tanto quanto a companhia de Lily, mas aquele dia deixara bem


claro que ele não sentia muito por ela. Sempre que se aproximava dele, Aiden demonstrava a mesma desagradável resistência que os pais dela, que também a olhavam como se Christina fosse uma peste que desejavam que desaparecesse. Ao longo dos anos, enquanto ela ficava por ali, ansiosa por um pouco de atenção de Lily, ele a chamara repetidamente de invasora. Sempre fora assim que vira a presença dela em Blackstone Manor. Após a rejeição final, ficara o mais longe de Aiden Blackstone que pudera. Nolen não parecia disposto a desistir. – Estou dizendo que não é natural. Não é algo bom. James os está manipulando. Quer casar o próprio neto para satisfazer os seus propósitos. – E que propósitos seriam esses? – interrogou Marie, levando as mãos aos quadris. A boca de Christina já estava aberta, mas Nolen falou primeiro. – Construir algum legado idiota. Como se ele já não houvesse introduzido suficientes coisas desagradáveis neste mundo. Ameaçou a própria filha, caso não fizessem o que queria. – Aposto que isso não passa de papo furado. – Marie lançou um olhar de esguelha para Christina. – É verdade? Ele a está forçando a fazer algo que não quer? Aquilo estava fugindo ao controle. – Não. Eu me ofereci. E, ademais, nada foi decidido ainda. Mas eu cuidarei de Lilly... e de todos vocês. – Talvez a nossa Christina seja exatamente do que Aiden precisa – prosseguiu Marie. – Acredito que as coisas acontecem por um motivo. Christina sentiu o coração derreter ante o abraço carinhoso de Marie, mas duvidava que qualquer coisa que argumentasse pudesse amolecer o coração duro do herdeiro dos Blackstone. – Nunca se sabe o que pode acontecer em um ano – falou Marie com um sorriso. – Além disso, uma família cuida dos seus. Ela ficará bem aqui conosco. As palavras de Marie ecoaram na cabeça de Christina. Um ano podia ser pouco tempo de algumas maneiras, e uma eternidade de outras. Será que chegaria inteira do outro lado? Ou o coração partido acompanharia o pedido de divórcio? Desde que Lily e o resto de sua família estivessem com a segurança garantida, valeria à pena para Christina. Marie tinha razão. Aquelas pessoas eram sua família, o mais perto que ela chegara de ter uma desde o divórcio dos pais quando tinha 8 anos. A quem estava querendo enganar? Sua família jamais fora de verdade. Quando criança, o único propósito de Christina fora servir de peão nos estratagemas da mãe de arrancar cada vez mais dinheiro do pai. A personificação de alguém de duas caras, a mãe sempre era amorosa quando o pai aparecia, mas não perdia tempo em largá-la na casa de uma de suas amigas da alta sociedade quando não era mais útil. Uma dura lição que Christina aprendera muito bem. Porém, assim que completara 18 anos, prometera para si mesma que jamais retornaria àquele tipo de situação. De modo que, estaria mesmo disposta a fazer as honras de peão para James Blackstone? – QUANDO PRETENDE voltar? Aquela tal de Zabinski está me matando.


Naquele momento, não queria pensar em Ellen Zabinski. Já tinha problemas suficientes nas mãos. Após vinte horas pensando, Aiden sabia o que tinha de fazer. Ainda não queria, mas a escolha era inevitável. – Não vou. O silêncio com que a assistente Trisha respondeu era tão raro quanto algumas das obras de arte que ele importava. Enquanto aguardava que ela se recompusesse, adiantou-se até a janela que dava vista para o verdejante pátio, cuja serenidade chegava a lhe dar sono. E não de um jeito bom. Por que diabos estava considerando virar a vida de pernas para o ar, mesmo que por alguns meses? Em meio à enxurrada de razões para não fazer isso que lhe veio à cabeça, avistou a beldade de cabelo castanho cruzando o gramado para ir falar com o jardineiro. O sorriso de Christina o deixou sem fôlego. Quando falou, suas mãos gesticularam com elegante graça de modo a ilustrar suas palavras. Deveria estar preocupado com a sua mãe, não com a enfermeira dela. Mas Christina ergueu a cabeça para admirar o salgueiro chorão no quintal, expondo a pele sensível da garganta, e Aiden sentiu a boca aguar. Quando Trisha por fim falou, suas palavras foram lentas e cuidadosas. – O que está acontecendo? – Digamos que eu vou passar algum tempo colocando em ordem os negócios da família. Ela não engoliu essa. – Quanto tempo precisa para receber uma herança? Ele tinha testamento, não tinha? Por que precisa estar aí? – Sim, ele tinha um testamento. Mas não serviu de muita coisa, considerando que ele não estava morto. Após o milagre de outro prolongado silêncio vindo de Trisha, o habitual humor sarcástico dela voltou à tona. – Quer dizer que está tentando me convencer a me mudar para o interior da Carolina do Sul? Marty não ia gostar muito da ideia. A simples noção de Antonio Martinelli, nascido e criado na Itália, em Black Hills já era o suficiente para alegrar o dia de Aiden. – Não. Por mais divertido que isso pudesse ser, estou pensando mais nas linhas de lhe dar um assistente e um aumento. Outro silêncio, contudo, mais breve desta vez. – Não brinque comigo, Aiden. – Não estou brincando. Você trabalhou duro, aprimorou seu talento de vendedora. Vou precisar de ajuda. Podemos fazer muitas videoconferências e eu viajarei para aí sempre que for necessário. No entanto, a maior parte do primeiro contato e das vendas recairá sobre você. Aiden não gostava de ficar longe do trabalho, todavia, recusava-se a perder tudo que levara anos de sua vida construindo. – Será apenas temporário – garantiu. – Só até eu conseguir a guarda de minha mãe. Entretanto, ao ver Christina sair de seu campo de visão, Aiden se deu conta de que seus motivos não eram tão nobres assim.


Virando as costas para a janela, ofereceu a Trisha um breve retrato das exigências do avô. – Puxa! – vociferou ela. – E eu que pensei que avós ítalo-americanos fossem exigentes. Isso é loucura. Por que faria uma coisa dessas? – Pelo menos uma esposa será uma arma que poderei usar contra Ellen – assegurou ele, fazendo pouco caso de sua situação. Ficou arrepiado só de se lembrar da mulher com quem aproveitara uma de suas costumeiras noites, apenas para ela decidir que uma vez só não era o suficiente. Ela passara o último mês infernizando a vida dele. – Com que frequência ela tem ligado para o escritório? Aiden a bloqueara no celular. – Todas as tardes. Dá para acertar o relógio por ela. Não acredita que você não esteja aqui. Estou vendo a hora que ela vai aparecer aqui em pessoa e me forçar a usar o gás de pimenta nela. – Por favor, não vá ser presa. – Não serei... se ela se comportar... Pouco provável. Mas, apesar de bancar a durona, Trisha sabia ser diplomática. – Faça o que for preciso. Talvez o fato de eu passar alguns meses fora da cidade ajude. Enquanto isso, passe ligações de clientes para o meu celular. Equilibrar dois negócios distintos em dois estados diferentes não seria nada fácil, mas Aiden estava determinado a manter o que tinha conquistado em Nova York. Seu avô podia privá-lo da liberdade, mas não conseguiria destruir tudo que Aiden batalhara tanto para construir.


CAPÍTULO 3

SEU ADVOGADO não encontrara um modo de desatar os nós legais deixados por James. Não havia evidências para declará-lo incapaz. Se ao menos cretinice pudesse ser considerada instabilidade mental. E qualquer procedimento para obter a guarda da mãe levaria muito tempo. Aiden não estava disposto a correr risco com a saúde e o bem-estar da mãe. Devia demais a ela. De modo que o mau humor era justificado, mas sabia que já era hora de recuperar o controle. Afinal de contas, era um homem capaz de conduzir negociações de arte no valor de milhões de dólares, e não um adolescente enfezado. Poderia dar conta de um avô teimoso e de uma futura noiva, mas apenas se mantivesse a cabeça fria. Aiden só escutou os passos quando já era tarde demais. Mal teve tempo de erguer a cabeça antes de chocar-se com alguém que vinha descendo as escadas. Alguém macio, que deixou escapar um gritinho ao cambalear. Certos de que iriam cair, Aiden adiantou-se para impedir-se de perder o equilíbrio. Christina tentou recuar, mas o ímpeto trabalhou contra ela. Mãos se debateram, encontrando apoio nos ombros deles. O corpo dela chocou-se com o dele, estabilizando-se ao tornarem-se um só. O tempo parou para Aiden, e a única inspirada que conseguiu dar encheu os seus pulmões com o perfume fresco do cabelo dela, antes que o corpo voltasse à vida. As curvas macias e o perfume sexy o levou a puxá-la mais para si, tanto que os dedos se fincaram nas curvas arredondadas recobertas pelo jeans dos quadris, a carne macia cedendo sob a pressão. Há tempo demais que não tinha uma mulher. Devia ser por isso que estava tão abalado. Sua aderência implacável à regra de “sem compromissos” levara a uma vida de breves encontros. Sua última escolha fora errada, uma mulher que não ficou feliz quando ele saiu pela porta afora na manhã seguinte, o que o deixou desconfiado de todas as mulheres desde então. A escadaria estava mergulhada na escuridão, o que só fazia intensificar a ilusão de intimidade. O único som era o das respirações aceleradas dele e de Christina. Estavam tão próximos que o ligeiro tremor que percorria o corpo dela encontrou eco no dele. Foram necessários mais minutos do que Aiden gostaria de admitir para seu cérebro voltar a funcionar.


– Pensando em novas maneiras de invadir o meu território, Christina? Sentiu-a estremecer sob suas mãos, a tensão substituindo a deliciosa maciez. Exatamente como pretendera. Antes que pudesse se arrepender de qualquer coisa, ela recuou, apoiando a mão na parede. – Aiden – falou com afetada reprovação. – Lamento não tê-lo visto. Eu não. – E, só para constar, não estou invadindo nada. De modo que eu agradeceria se parasse de me chamar por esse apelido idiota. Seu ressentimento pela atenção que ela recebia ali em Blackstone Manor, quando eram crianças, levando-o a chamá-la de invasora, era um sinal de suas próprias necessidades da infância. A coisa escalonara até o ponto em que, em uma quente tarde de verão, dissera palavras cruéis das quais se arrependeria para sempre. – Estou tentando ajudar, Aiden. De verdade. A voz dela estava tão baixinha que intensificou a sensação de intimidade. Ele teve de pigarrear antes de falar outra vez. – Por quê? Não sou nada para você. – E sei que não sou nada para você, mas Lily é muito importante para mim. Sua natureza desconfiada, que tão bem lhe servia nos negócios, entrou em ação. – O que ele tem para usar contra você? – Lily. – Por quê? Existem outros empregos, outras pessoas precisando de enfermeiras. A intensidade do seu olhar foi quase visível na escuridão. – Se tivesse aparecido nos últimos dez anos, saberia que Lily foi como uma mãe para mim. Desde que éramos crianças. – Ela hesitou por um instante, abaixando o olhar. Quando voltou a falar, sua voz foi de novo firme e desprovida de emoção. – Entendo o que está sendo solicitado de mim. – Você se venderia para um estranho em troca do quê? Dinheiro? Na esperança de que vovô lhe dê uma fatia do bolo, caso trabalhe o suficiente para isso? – Não! – insistiu ela. – Não estou me vendendo, mas eu me sacrificarei para fazer o que é melhor para Lily. Acredito, como enfermeira, e como amiga de Lily, que ela esteja consciente de onde está. Esta casa tem sido o seu santuário desde o acidente de carro. Garanto que removê-la daqui irá afetar a sua condição física e emocional. Ainda mais se ela for colocada... – estremeceu ela – naquele lugar. Farei o que for necessário para manter Lily longe de lá. E quanto a você? Sentindo-se confinado, Aiden estava inquieto. – Acha mesmo que ele faria isso com ela? Ela fungou deselegantemente, um gesto que o pegou de surpresa. – Será que já esqueceu? Os anos apenas o deixaram ainda mais obstinado. – Você parece lidar muito bem com ele. Com incredulidade, ela ergueu as sobrancelhas. – Ele só me obedece em questões médicas porque tem medo de morrer. – Ele não tem medo de nada.


– No fundo, Aiden, todos temos medo de alguma coisa. A morte é a única coisa que James não consegue enganar nem intimidar. Ela podia parecer delicada, mas Christina estava se mostrando um bocado esperta. Além disso, um vínculo em comum os unia: Lily. Sabia que o dever para com a mãe era a fonte de sua culpa. E, apesar das palavras dela, sabia que a devoção de Christina para com Lily não era apenas amizade. Havia algo mais por trás daquela dedicação ferrenha. Mas ela podia apostar que ele descobriria o que estava acontecendo. O silêncio súbito deve ter sido demais para ela, pois Christina adiantou-se, como se para continuar a descer as escadas. A coisa polida a se fazer teria sido dar um passo para o lado, mas o anseio de sentir aquele corpo mais uma vez de encontro ao seu fez com que permanecesse perversamente imóvel. Ela deteve-se a milímetros dele, a tensão voltando a escalonar. – Aiden? – Quer dizer que está mesmo disposta a fazer isso? Que tortura deliciosa estar tão perto daquela mulher e manter as mãos longe. Seria capaz de fazê-lo? – Não sei. Não acho que seja capaz de, você sabe, compartilhar a cama com você. – Não se preocupe. Eu pensarei em uma maneira de contornarmos isso. – Tem alguma outra opção de esposa? No fundo, não lhe dei tempo para escolher. Outras mulheres? Podia pensar em muitas lindas que caíram nos seus braços ao longo desses últimos dez anos, mas nenhuma que estaria interessada em algo tão mundano quanto o casamento. Ele costumava manter distância do tipo bom para casar. – Não – admitiu, cedendo a passagem para ela. – Não acho que eu possa pagar à minha assistente o suficiente para se mudar para o meio do nada e me aturar em tempo integral. – Não é bem o meio do nada. – Colando-se à parede, ela passou por ele. – Podemos não ter a cultura de Nova York, mas ainda há um teatro, bons restaurantes e o country clube. – Ele a seguiu até a cozinha. – Não é bem algo que me interesse, mas cada um sabe de si. Interessante. – O que seus pais pensam a respeito disso? – Quem sabe? Quem se importa?, perguntou Christina em tom desabafo. Era estranho vê-la descartar tão facilmente a família. Tudo que ele vira desde que retornara o levava a acreditar que ela era muito voltada para a família. O que era mais um motivo para manter a calça abotoada quando ela estivesse por perto. O que fariam a respeito dessa cama? – Sinceramente, Aiden, eu quero ajudar – afirmou ela quando voltou a fitá-lo, longos momentos mais tarde. – Sei que a situação é, no mínimo, desagradável, porém, por Lily... Ela faria qualquer coisa! Mas seria ele capaz de colocar de lado os próprios desejos, como o de voltar a fugir para bem longe dali e focar-se nas necessidades da mãe e do seu lar de infância?


CHRISTINA DESCEU os úmidos degraus de concreto diante do tribunal de Black Hills, seguindo Aiden e Canton. – É oficial – o juiz de paz declarara, sorrindo de orgulho por ter realizado um casamento dos Blackstone. Por sorte, não era verdadeiramente oficial. Ainda tinha uma semana antes que saíssem os alvarás para recuperar a razão. Contudo, pensar em Lily, frágil, no entanto em segurança, na própria cama, era um forte indício de que Christina não mudaria de ideia. Chegaram ao pé da escadaria justamente quando um grupo de moradores locais, trabalhadores seguindo para o bar local para dar início ao final de semana, se aproximava. – Ora, vejam só, rapazes. É Aiden Blackstone, de volta de Nova York. Christina encolheu-se por dentro. Jason Briggs era o sujeito mais arrogante de Black Hills, e tinha a boca para provar isso. Considerando o atual estado de tensão, não era alguém com quem ela queria lidar. – Jason – cumprimentou Aiden. A julgar pelo tom, Christina supôs que ele não devia ter boas recordações de Jason. – O que está fazendo de volta aqui? – inquiriu Jason, como se fosse da conta dele. – Após todo esse tempo, não imagino que seja uma visita de lazer. – Ele olhou para Christina, atrás de Aiden. – Ou será que é? Os sujeitos com ele riram, deixando Christina nervosa. Apesar de Aiden não parecer ser o tipo a resolver as coisas no braço, Jason era conhecido por levar outros às últimas consequências. Todavia, era como comparar dinamite com estalinhos. Jason e os amigos podiam ser os peixes grandes do laguinho, mas o dinheiro de Christina estava no tubarão que acabara de invadi-lo. A metáfora provou ser apropriada, quando Aiden ignorou a provocação com a autoconfiança de alguém que não podia ser derrotado. – Estou aqui para cuidar dos negócios do meu avô, agora que ele está doente – falou tranquilamente, sem mencionar o verdadeiro propósito de sua visita ao tribunal. Foi Canton que agitou as águas. – Incluindo a administração da fábrica. Um burburinho espalhou-se pelo grupo, mas Jason apenas deu de ombros. – Duvido que ele possa fazer melhor do que Bateman. – Quem é Bateman? – perguntou. Os homens apenas ficaram a fitá-lo por um instante, antes que Christina respondesse: – Bateman é o atual capataz da fábrica. – Vejam só – comentou Jason, erguendo um pouco o tom de voz. – O sujeito nem sabe quem é o capataz, mas acha que vai consertar tudo que vem acontecendo por lá. – Estou certo de que darei um jeito – falou Aiden, com toda a calma, os braços cruzados. Tinha a presença de um líder. Jason ficou a fitá-lo por alguns momentos, uma clara tentativa de intimidação, antes de voltar os olhos arrogantes para Christina. Um alvo mais fraco. Apesar de alguns anos mais velho do que Christina, a diferença de idade jamais o impedira de dar em cima dela quando eram mais novos. A


rejeição de então não o agradara, de modo que, agora, não perdia a chance de incomodá-la sempre que se encontravam. – Estou vendo que o colocou em dia, não é, meu bem? Foi tudo que lhe deu? Informação? Satisfeito de ter dado algumas boas alfinetadas, Jason gesticulou para o grupo, que o seguiu como o bando de ovelhinhas que era. Aiden o observou afastar-se, antes de indagar: – Ele trabalha na fábrica? – Trabalha – respondeu Canton. – O pai tem um cargo de gerência, se não me engano. – Isso não o ajudará, se voltar a falar com Christina desse jeito. Surpresa, Christina notou o maxilar cerrado de Aiden. Ninguém jamais a defendera antes. Que Aiden bancasse o seu campeão, punindo Jason por ela... não sabia muito bem como isso a fazia se sentir. Ao notar que o olhar de Aiden estava fixo sobre ela, Christina enrubesceu. Por favor, que ele não seja capaz de saber o que estou pensando. – Do que ele estava falando? – questionou Aiden. Estava perguntando para ela? Por que não para o advogado? Entretanto, a direção do olhar de Aiden era inconfundível. – Bem, eu sei que tem havido alguns problemas na fábrica. Coisas estranhas acontecendo. Cargas atrasadas ou sumindo por completo. Equipamento em perfeitas condições subitamente quebrando. Coisas do gênero. – Sabotagem? Desta vez, Canton retorquiu: – De modo algum. Simples coincidência, mais nada. Mas Christina não estava disposta a mentir para a pessoa que talvez pudesse consertar tudo. – Algumas pessoas dizem que sim. Porém, não há prova de nada. Ainda assim, as pessoas estão começando a ficar nervosas, preocupadas com o próprio trabalho... Canton pigarreou, lançando-lhe um olhar que claramente dizia para ela calar a boca. – Tudo ficará bem, assim que se derem conta de que um Blackstone está de volta ao comando. Ainda assim, Aiden ficou a fitá-la, avaliando-a, como se estivesse catalogando cada uma de suas feições. O olhar que trocaram permitiu que ela enxergasse o instante exato em que ele teve a ideia. Christina poderia ser muito útil para Aiden. Ela conhecia a cidade de uma maneira que ele não conhecia mais. E, como Jason acabara de demonstrar, assumir o controle da principal fonte de renda da cidade não ia ser fácil. Moradores de cidades pequenas, especialmente no sul, tinham pouca tolerância com forasteiros que chegavam para lhes dizer o que fazer. O caminho que ele tinha pela frente não seria fácil, contudo, Christina tinha a sensação de que acabara de ser escolhida para pavimentá-lo.


CAPÍTULO 4

CHRISTINA ADORAVA ler para Lily, fossem poesias, artigos de revistas, ou um bom livro de mistério. Hoje, as palavras de uma história passada em uma cidade pequena como a delas as relaxaram, até ruídos abafados virem do quarto adjacente. Com uma olhada rápida para se certificar de que Lily estava bem, ela deixou o livro de lado e adiantou-se até a porta que ligava o quarto de Lily ao de Christina. O que estava acontecendo? Abrindo a porta, viu-se cara a cara com uma... parede? Uma parede de colchão? Seguindo para a outra porta da suíte de Lily que direcionava para o corredor, ela deu a volta. Nolen estava postado do lado de fora do quarto dela com os braços cruzados. – O que está acontecendo? – interrogou, furiosa. Nolen sacudiu a cabeça. – O rapaz. O patrão Aiden sempre foi do tipo de enfiar algo na cabeça e não parar até... Alarmada, Christina adentrou o quarto. – Por que está rearranjando a mobília do meu quarto? Móveis haviam sido empurrados para o lado, a cama havia sido desmontada, e o caos reinava. E Aiden estava postado no meio de tudo. Ele assentiu para os homens da mudança. – Acho que eu assumo daqui. Christina praticamente vibrou, enquanto aguardava para que liberassem o salão. Seus olhos se arregalaram e sentiu um frio na barriga ao ver os homens levando embora o seu antigo colchão. – Obrigado, Nolen – escutou Aiden dizer antes que a porta se fechasse. Depois, ele postou-se perto dela com a costumeira postura aristocrática. – Não acha que deveríamos ter conversado a respeito disso antes? O dar de ombros insolente de Aiden combinou com a sua atitude de pouco caso, o que, por algum motivo só fez aumentar a sua sensação de pânico. – Por quê? Você disse que faria isso pela mamãe. – Sim, mas não compartilhar a sua cama. Ele ficou em silêncio por um longo tempo, deixando-a ainda mais pouco à vontade.


Por fim, ele proferiu: – James conseguirá o que quer. Você mesma assegurou isso. – Mas, se lhe dermos o casamento, talvez... – Ele não quer isto pela metade, Christina. Sabe disso. Mas não vou forçá-la a fazer algo com que não se sinta à vontade. Ela ergueu as sobrancelhas, passando os olhos pelo quarto de pernas para o ar. – Pois parece ser exatamente o que está fazendo. Definitivamente não me sinto à vontade com isto. – Cada um de nós terá o seu lado. Eu manterei minhas roupas e coisas lá em cima, fora do seu caminho. Isto não terá de ser mais íntimo do que duas pessoas dormindo lado a lado. Sua vontade era lhe estudar o rosto, ver se ele realmente acreditava nisso, mas não teve coragem. Em vez disso, concentrou-se em manter o que restava de sua graça. – Olhe – advertiu Aiden. – Se vamos fazer isto, temos de mergulhar de cabeça. É isso, ou pulamos fora agora. Christina olhou para a porta do quarto de Lily. – Não. Estou dentro. – No entanto, ao olhar para o colchão tamanho queen que dominava o centro do quarto, teve de inquirir: – Não podia ter comprado dois colchões de solteiro? O sorriso com que Aiden lhe respondeu deveria ser ilegal. – E qual é a graça nisso? CHRISTINA ENFIOU os membros pesados pelos buracos dos braços da camisola, e a vestiu. O dia fora longo, e a noite insone que tinha pela frente provavelmente seria ainda mais longa. Seu conflito emocional se somava às preocupações com Lily, com a saúde de James e com o acordo com que concordara. E havia Aiden, é claro. Sempre Aiden. Às vezes, lamentava que cuidar de Lily não envolvesse trabalho mais intenso. Talvez assim pensasse menos. Um suspiro ecoou pelo pequenino quarto. Logo seria a mulher de Aiden Blackstone. O coquetel de medo, desejo e preocupações que lhe borbulhava pelas veias talvez fosse o suficiente para mantê-la acordada até então. Mas torcia para que não. Todavia, como diabos faria para compartilhar a cama com Aiden Blackstone? Longos momentos passados tentando imaginar isso a convenceram a se preocupar em um outro dia. Em vez disso, acomodou-se e deixou que a letargia a afundasse no colchão. Por favor, apenas algumas horas de esquecimento. Antes que pudesse adormecer, escutou um som vindo do quarto de Lily. Apesar de abafado pelo quarto de vestir que ligava o quarto dela à suíte, ela pôde escutar claramente o som abafado quando este se repetiu. Será que Nolen ou Marie haviam ido ver Lily antes de se recolherem? Com uma careta, Christina arrancou-se de sob as cobertas. Ao aproximar-se da porta entreaberta do quarto de vestir, pôde escutar vozes abafadas, e Christina conteve o seu avanço, não querendo interromper. Ao deter-se, pôde escutar as palavras “Oi, mamãe” e sentiu-se enraizar-se no lugar onde estava. Até onde sabia, ele não viera ver a mãe desde que retornara para Blackstone Manor.


Sabia que deveria ir embora e lhe dar privacidade. Em vez disso, se viu esgueirando-se até a porta e espiando através da abertura. Aiden estava curvado sobre uma poltrona, a cabeça baixa e os ombros descaídos, como se carregasse o peso do mundo neles. Ficou imóvel e em silêncio por um longo instante. Subitamente ergueu a cabeça, e, sob a luz fraca do abajur, ela pôde lhe enxergar as feições fortes e a barba por fazer. O ligeiro indício de cansaço a intrigou, uma pequena marca de imperfeição em um homem normalmente tão impecavelmente perfeito. Será que arranharia a sua pele se ele a beijasse? – Fiz besteira, mãe – falou ele, surpreendendo Christina, não apenas com as palavras, mas com o tom direto. – Parti quando garoto, cheio de raiva e orgulho. Não fazia ideia do que isso me custaria, do que nos custaria. – Aiden passou a mão pelo cabelo. – Você não me culpou na ocasião e provavelmente não me culpa agora. Esse é o tipo de pessoa que você é. Mas eu me culpo. Ah, como me culpo... O ligeiro soluçar partiu o coração de Christina. Não viu indícios de lágrimas, mas a profundidade da tristeza de Aiden chegou até ela. Sua vontade era ir até ele, abraçá-lo e dizer que a mãe dele entendia. Invasora. Aiden não iria querer seu consolo. E, se ele soubesse o papel que ela mesma tivera no acidente de Lily, o seu seria o último rosto que ele iria querer ver agora. – Mas prometo compensá-la. Prometo que ficará nesta casa pelo resto de sua vida. Eu também farei o possível, pensou Christina. Ele ficou de pé, mas não fez qualquer movimento no tocante a aproximar-se da cama da mulher sempre silenciosa. – Vovô acha que isto é uma espécie de joguinho, com ele no papel de mestre de xadrez. Mas não é. É um ato de penitência. Afinal, havia acabado de ir me ver quando sofreu o acidente. Vindo até mim, porque eu me recusava a ceder e vir até você. Resistir ao coroa era mais importante para mim do que você. Christina sentiu o coração apertar-se, quando suas palavras finais chegaram até ela. – Eu sinto muito, mamãe. Ele permaneceu imóvel por mais alguns momentos, antes de virar-se e ir embora. Christina não se mexeu. Não conseguiu. Ficou ali paralisada, dando-se conta de que aquilo podia ser um joguinho para James, mas Aiden era mais do que apenas um participante de bom grado. Seu investimento era muito mais profundo do que ela pensara, e, se ele um dia descobrisse a participação dela no acidente de Lily, entre todos, era ela que mais sairia perdendo.


CAPÍTULO 5

QUASE UMA semana após a promessa feita para Lily, o alvará de casamento chegou... E Aiden estava em sérios apuros. Ah, ele levaria a cabo o que fora combinado. No fundo, sabia que era a última coisa que poderia fazer pela mãe, a única coisa da qual ela poderia se orgulhar dele. Ela fizera dali o seu lar, envolvera-se a fundo com a comunidade, e iria querer que Aiden cuidasse desta. Não podia prometer ficar, mas podia se certificar de que a mãe tivesse um lugar seguro, e garantir o futuro da cidade. Ainda assim, o encontro com Christina no topo das escadas o assombrava. E o fogo com que ela discutira com ele no seu quarto, muito em breve o quarto deles, o tentava a querer aproveitar tudo que ela tivesse a lhe oferecer. O que tornava imperativo que algumas regras básicas fossem estabelecidas entre ele e a futura esposa, para que soubessem o que esperar... da situação e um do outro. Seguindo a orientação de Marie, encontrou Christina no jardim, sentada em um banco de ferro trabalhado, à sombra de uma árvore. – Olhe, Christina, em relação a esse casamento, deveríamos começar com... – foi logo falando. – Boa tarde, Aiden – disse ela. – Não quer se juntar a mim? Ela apontou para o banco diante do dela. Ele franziu a testa. – Christina, isto é um acordo de negócios. Deveríamos tratá-lo dessa forma. – Aiden, não é desse modo que tratamos de negócios no sul. Ou será que já esqueceu? Agora, pare de ser um cretino e sente-se. Ela o fitou com o mesmo olhar implacável que usara com James, embora, desta vez, a sobrancelha erguida parecia quase desafiar Aiden a contrariá-la. Que seja. Podia ser nova-iorquino agora, mas não se esquecera de como funcionava a hospitalidade sulista. Forçou-se a tomar o assento oferecido e estudou a futura esposa. – E como está esta tarde, srta. Christina? – perguntou com um sorriso zombeteiro. Sua rotina de cavalheiro sulista arrancou uma gargalhada daqueles lábios saborosos, o que só fez salientar as manchas escuras das olheiras. Pela primeira vez, questionou-se se o casamento seria


fardo para ela. Será que a família dela aprovava? Não se lembrava muito dos pais de Christina, com a exceção de Lily não gostava muito de nenhum dos dois. Se não se enganava, haviam se divorciado quando Christina ainda era bem jovem. Será que, assim como a filha, eles haviam mudado? Aiden se recordava de Christina como sendo uma menina grudenta e carente, sempre por perto, implorando por atenção. Ou talvez tais lembranças estivessem comprometidas por seu próprio ressentimento ante o fato de que ela, realmente, obtinha atenção, a atenção positiva pela qual Aiden ansiava. Agora, não havia nada de carente nela. A mulher calma e capaz diante dele era, ao mesmo tempo, admirável e carente. Ainda assim, queria tirar aquela máscara e ver a mulher de verdade que havia por baixo, a que ele vislumbrara quando ela defendera sua mãe e insistira em fazer o que era certo. Tal atitude era mais do que apenas o retrato da hospitalidade sulista. Ela possuía a têmpera sulista. Queria ir mais a fundo e aprender se a sua dedicação por aqueles ao seu redor poderia ser transferida para um pobre coitado feito ele. Aiden sacudiu a cabeça. Não, não ia acontecer. Quando finalmente fosse embora dali, queria que fosse sem deixar nada para trás. Era como vivia a vida. Sem vínculos... nem mesmo com a mulher com quem planejava se casar. O que não significava que não deveria aprender mais, mesmo que fosse apenas para guiá-lo ao longo do próximo ano. Suavizando o tom, indagou: – Está pronta? – Acho que estou. – Ela desviou o olhar para as flores do jardim. – Embora duvide que mesmo noivas de verdade jamais estejam prontas. Você é uma noiva de verdade. Tão rápido quanto o pensamento apareceu em sua cabeça, ele tratou de reprimi-lo. – Acabará logo. Antes que se dê conta, estarei voltando para Nova York e estará livre novamente. – Como assim estará acabado? Como poderá tomar conta da sua mãe e da fábrica de Nova York? – As lindas sobrancelhas voltaram a se erguer. – Não ache que James vai deixá-lo sair fácil desta. – Acalme-se. Deixarei minha mãe bem instalada e acharei um bom administrador para cuidar da fábrica. Sei como ajeitar as coisas... – Mas não sabe seguir o que manda a lei? – James está jogando sujo. Não vejo por que eu deva ter de ficar parado aqui fazendo tudo direitinho. – É o que a sua mãe esperaria. Ela estava certa. A mãe sempre esperava que tomassem o caminho certo, não o mais fácil. – Não se preocupe. Quando o instante chegar, terei encontrado uma maneira de romper o acordo e limpar toda essa sujeira. Ele vislumbrou mágoa em um rosto normalmente tão composto. – Obrigada – pronunciou ela em tom seco. – Será que pode parar de analisar cada palavra que digo, e simplesmente confiar em mim? – No fundo, eu não o conheço. Por que deveria fazer isso?


– Porque sei o que estou fazendo. Meu avô com certeza acha que é mais esperto do que nós. Ele está nos forçando a nos casarmos. – Na verdade, é o único que ele está forçando. – Mas a questão é, vamos permitir que ele continue conduzindo esta embarcação? Eu preferia estar no leme. Ela assentiu, como se houvesse acabado de tomar uma decisão. – O que exatamente está propondo? – Uma parceria. Uma sociedade com alguns objetivos-chave. Tal combinado seria mais para a sanidade dele do que da dela. Por mais que soubesse que deveria evitar ficar mais íntimo daquela mulher, não era santo. Mas não estaria sozinho naquela cama, e o sexo só faria complicar ainda mais a sua partida antecipada. NENHUMA MULHER deveria se casar de jaleco, mesmo o casamento não sendo verdadeiro. Entretanto, não houvera tempo para se trocar quando James a chamou até o gabinete. Achara que ele queria conversar sobre Lily, ou até sobre a própria saúde. Porém, ao chegar, encontrara um juiz local amigo de James. Agora, estava ali constrangidamente postada, aguardando que o drama chegasse ao fim. Aiden, por outro lado, parecia muito mais arrumado com a calça bege e a camiseta polo preta. Dava até para odiar o homem por ser tão lindo. Sentiu o olhar do juiz sobre si. Sua vontade era sair correndo da sala, mas Lily a ensinara a ser uma dama. Para evitar novos olhares, passou os olhos pelo único aposento em Blackstone Manor em que raramente estivera, o gabinete de James, com a sua atmosfera tão opressiva. De repente, Aiden postou-se diante dela. – Christina – murmurou, o som gostoso fazendo com que ela desejasse que aquilo fosse real, mesmo sabendo que não devia. – Você está bem? – Ele franziu a testa. – Quero dizer, não temos de fazer isto neste momento, se não quiser. Ah, tinham sim. Antes que a náusea que brotava em seu íntimo levasse a melhor sobre si. – Não. Estou bem – sussurrou. Nolen apareceu por sobre o ombro de Aiden. – Há alguém que queira presente aqui, srta. Christina? Eu posso dar um telefonema. Não sabia dizer se a expressão de surpresa que cruzou o rosto de Aiden se deveu à pergunta de Nolen, ou se foi devido à possibilidade de ela querer alguém ali. A última coisa de que precisava era um dos pais aparecendo ali. O irmão consideraria aquilo um desperdício de tempo. Além do mais, quanto menos gente soubesse, melhor. Pelo menos, por hora. Em uma cidade do tamanho de Black Hills, a verdade sempre vinha à tona. Ela fechou os olhos, tentando encontrar o eixo. Ao abri-los, já estava outra vez centrada. – Não, Nolen – replicou. – Toda a família de que preciso está aqui. Ela fitou Aiden nos olhos. – Estou pronta.


Eles assumiram suas posições, e o juiz Harriman a estudou por um instante, como se soubesse os segredos que ela estava desesperadamente tentando esconder. Não que, mais cedo ou mais tarde, todo mundo não fosse descobrir, afinal de contas, estava desposando o irmão Blackstone que ninguém via fazia dez anos. O conforto de Lily valia o orgulho dela. – Vamos tocar isto adiante – falou James, de sua poltrona atrás da escrivaninha. Pôde escutar Nolen e Canton posicionando-se atrás dela. Por Lily... – Caros amigos, estamos aqui reunidos neste dia para unir estas duas pessoas no sagrado matrimônio. Por Lily... – Sendo a sua intenção ingressar nesta união, juntem as mãos e proclamem tal intenção. Você, Aiden, aceita Christina como sua legítima esposa, para amar e respeitar, deste dia em diante, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, até que a morte os separe? Christina esforçou-se para não estremecer. Por Lily... – Aceito. – Você, Christina, aceita Aiden, como seu legítimo esposo... Por Lily... – Aceito. – Com esta aliança eu os uno... Em vez de olhar para as argolas de ouro que vieram sabe Deus lá de onde, Christina começou a fazer uma lista mental de todas as coisas que precisava fazer por Lily naquela tarde. E amanhã. E no dia seguinte. Por fim, o juiz Harriman deu fim a seu calvário. – ... e, pelo poder em mim investido pelo estado da Carolina do Sul, eu os declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva. Ela não se permitira pensar naquela parte. Por sorte, Aiden demonstrou ter mais bom senso do que ela. Sua mão ergueu-se até o queixo dela, quando ele se virou em sua direção. Sua mente registrou os mais insignificantes detalhes: Como as pontas dos dedos dele eram surpreendentemente ásperas, a diferença nas alturas quando ele se inclinou para ela, o primeiro roçar macio dos seus lábios nos dela... Por mim. Finalmente, o cérebro dela se desligou, deixando apenas os sentimentos. O desejo. Mas foi a vontade de enroscar-se nele que a fez dar um salto para trás. – Não foi tão ruim quanto achou que seria, não é, rapaz? – interrogou James zombando. O aposento parou de girar, e ela teve uma visão clara do desgosto no rosto de Aiden quando ele fitou com intensidade James, antes de lamber os próprios lábios. – Doce – falou, embora sua expressão fosse neutra. – Algo que você não entenderia, vovô. Tudo que Christina sentiu foi o rubor do constrangimento ardendo nas faces. Se o juiz ficou surpreso com a conversa, não demonstrou. Tirando a papelada da valise, declarou: – Vamos logo tornar isso oficial com algumas assinaturas.


Christina e Aiden assinaram, e, em seguida, as testemunhas e o juiz fizeram o mesmo. Mal haviam terminado, quando a porta se abriu. – Surpresa – proferiu Marie, empurrando para dentro do gabinete uma mesa de rodinhas com um bolo de três andares. – Marie, o que deu em você? – inquiriu Christina ao aproximar-se para ajudar a governanta. – O que deu em mim? O que deu em você? Não podia ao menos ter usado uma blusa decente? Christina tentou ignorar a crítica, contudo, ainda assim, se viu alisando o jaleco. – Todo casamento é um motivo para comemorar, minha querida – falou Marie em alto e bom tom, antes de continuar murmurando: – A não ser que queira o juiz Harriman dizendo o contrário por aí. Há um bom motivo para James ter escolhido o juiz com a mulher mais fofoqueira da cidade. Christina assentiu, mas não respondeu. Apenas cortou o bolo e sorriu, torcendo para estar deixando Lily orgulhosa. E em segurança. Christina procurou ficar o mais longe de Aiden Blackstone que pôde, sem levantar suspeitas. Mesmo quando estivessem compartilhando aquela cama grande no seu quarto, ela não se permitiria ficar intimamente envolvida com aquele homem. Não significaria nada para ele, e Christina já se conhecia o suficiente para saber que significaria tudo para ela. Como é que as pessoas aguentavam essas demoradas recepções após os próprios casamentos? Apenas vinte minutos de bolo foi mais do que o suficiente para Christina. Ela reuniu os pratos, ajudando Marie, enquanto os homens conversavam baixinho. Estava fatiando o bolo para congelar quando escutou alguém na porta da rua. Nolen mal conseguiu dar dois passos na direção da porta do gabinete de James quando um homem ali apareceu. Luke Blackstone, o irmão mais novo de Aiden. Um famoso piloto de provas, era conhecido por ser tranquilo, sempre com um largo sorriso no rosto. Aos olhos de Christina, ele meio que se tornara um irmão adotivo mais velho, o que visitava a casa com mais frequência entre os irmãos, permitindo que a amizade de infância se estendesse até a idade adulta. – E então, o que estamos comemorando? Ele olhou para Christina, para o bolo, para Marie e para o grupo de homens no outro extremo do aposento. Seus olhos cor de água se arregalaram quando avistaram o irmão postado ali. Foram necessários apenas alguns momentos para ele somar dois e dois. Luke era bonitinho, mas não era burro. Segundos mais tarde, ele estava marchando até a mesa do avô. Com as mãos postadas na monstruosidade de mogno, ele inclinou-se na direção de James. – O que diabos você fez? – rosnou ele. Christina teve vontade de chorar. Será que os horrores do dia do casamento jamais teriam fim?


CAPÍTULO 6

– AGORA, EXPLIQUE-ME de novo por que estamos em um bar na sua noite de núpcias? Apesar de todas as mulheres do bar estarem olhando para Luke, na esperança de conseguir vislumbrar o que os tabloides descreviam como “olhos sonhadores”, tudo em que Aiden conseguia pensar naquele instante era em nocauteá-lo. – Aparentemente, minha mulher acha que estar aqui a impedirá de ter de encarar aquela cama nova que coloquei no quarto dela. – Cara, se você precisa rastrear a sua mulher, vai ser uma noite de núpcias difícil. Tem certeza de que o casamento é real? – Ah, é real. – E mais tentador do que Aiden gostaria de admitir. – E é apenas temporário, mas isso não muda as exigências. As provocações de Luke tornaram-se sérias. – Ainda estou tentando me acostumar com a coisa toda. Só isso. Certificando-me de que Christina não esteja sendo usada. – Puxa, obrigado pela sua preocupação comigo, o seu próprio irmão. – Ah, você já é bem grandinho. Pode cuidar de si mesmo, embora, evidentemente, não muito bem. Luke ignorou o estreitar dos olhos do irmão. – Além disso, se quisesse a nossa ajuda, teria ligado. Jacob e eu teríamos pegado o primeiro avião para cá. Por que não ligou? – E ter meus dois irmãos testemunhando a minha derrota pessoal? Teria sido uma reunião familiar muito divertida. – Ainda assim – falou Luke –, sabe que teríamos vindo para cá. Aiden assentiu. Para piorar os seus problemas, podia escutar o cretino do Jason tagarelando na mesa atrás deles. A jovem servindo o balcão ficava insistentemente olhando naquela direção, como se esperasse problemas. Mas, ao contrário de Jason, Aiden tinha classe demais para começar uma briga de bar com alguém tão claramente indigno de sua atenção.


Enquanto Jason não partisse para ofensas pessoais, Aiden era capaz de olhar para o outro lado. Não queria dar início ao seu mandato na fábrica despedindo um cidadão proeminente e vocal. No entanto, Aiden tinha a impressão de que, mais cedo ou mais tarde, teria de lidar com Jason, e seria um prazer fazê-lo. – Está escutando isso? – perguntou Luke, gesticulando com a cabeça na direção de Jason, após tomar um gole da sua cerveja. Aiden saboreou o seu scotch. – Ah, sempre que esbarro com ele e a patota, escuto muitas insinuações e comentários. Ele sempre tem o cuidado de não ser muito direto. Não há confrontações escancaradas, todavia, Jason se acha importante, porque o pai dele faz parte da gerência da fábrica. Muito em breve, terei de lembrar ao sujeito o seu lugar na cadeia alimentar. – Avise-me quando for acontecer. Não vou querer perder. Mas, falando sério, não tive problemas nenhuma das vezes que vim até a cidade, e Jacob também não mencionou nada. – É, mas ninguém anunciou que vocês iriam assumir a principal fonte de renda de toda a cidade. – Quer dizer que o vovô realmente vai deixar que faça isso? Assumir a Blackstone Mill? – Já está feito. Há dias que estou mergulhado em documentos, e tenho uma reunião marcada com o capataz na semana que vem. Uma garçonete deu a volta no balcão, carregando uma bandeja cheia. Luke indagou: – Onde está KC? Há algum tempo que não a vejo. A garçonete parecia pouco à vontade. – Ah, ela saiu da cidade por algum tempo. Luke assentiu, a garçonete serviu-lhes os pratos, e os homens começaram a comer. De onde estavam, no canto do balcão do bar, Aiden tinha visão direta para as mesas no fundo do recinto, perto da pista de dança, onde a sua linda noiva estava sentada. Que bela lua de mel. Em vez de estarem na cama, ou tomando juntos uma ducha, estavam os dois em um bar, e sentados separadamente. Por outro lado, aquele não era um casamento de verdade, de modo que era melhor deixar para lá pensamentos de uma lua de mel descente. Entretanto, por mais que quisesse negar, falar aqueles votos genéricos abria um leque de possibilidades íntimas diante deles que não deveriam ser exploradas. Porém, era difícil não pensar nas opções provocantes... Ser proibido não o impedia de observar, de imaginar. Christina tinha classe demais para um lugar como aquele, mesmo usando o simples vestido de verão que lhe dava uma visão conservadora da pele cremosa. Mas ela parecia se encaixar ali, sorrindo para as amigas ao redor da mesa e para quem quer que parasse ali para conversar. Era evidente que era querida, exatamente como ele esperara, e sua natureza generosa fazia todo mundo se sentir à vontade. – E então, quais são os planos para a fábrica? – questionou Luke. – Ainda não bolei toda uma estratégia. Por ora, preciso apenas resolver as complicações que estão acontecendo por lá e arrumar um supervisor. Depois, posso voltar para Nova York e dar prosseguimento à minha vida de verdade. – Quer dizer que vai conquistar a confiança deles, pretendendo o tempo todo dar o fora assim que possível?


Quando colocado desse modo... – Não, vou conquistar a confiança deles para saber exatamente o que precisa ser feito para proteger a cidade. Uma administração forte manterá tudo nos trilhos, manterá a prosperidade da região e impedirá tubarões de se aventurarem nessas águas. Encontrarei o melhor homem para o cargo e todo mundo terá o que quer. – Ele ergueu o copo na direção da noiva. – Christina será útil em conseguir que as pessoas me aceitem. Veja só como ela era querida. – É, as pessoas aqui a adoram. No entanto, para ela ajudar, terá de convencê-la a ficar no mesmo aposento que você. Aiden aproveitou o privilégio de irmão mais velho para dar um tapa na nuca de Luke. Do outro lado do salão, uma garçonete conversava animadamente com Christina. – Aquela mesa tem tido uma rotatividade impressionante a noite toda. E com pessoas de todas as classes. Isso é raro em uma cidade pequena. – Ainda mais nesta cidade pequena. Mas não ajudará muito você estar aqui e ela ali. Aiden olhou com fúria para o irmão. – Só estou dizendo, meu irmão. Seria a hora? Christina não o notara. Escolhera deliberadamente aquele local para poder observála sem ser notado. Ver por si mesmo aquela faceta dela que Christina não parecia disposta a lhe mostrar. Agora, não conseguia parar de olhar para aquele sorriso sexy e a luz reluzindo dos ombros expostos. Após hoje à noite, a cidade toda saberia que estavam casados. – Vá pegá-la, tigrão. Desta vez, Aiden deu um tapa mais forte no ombro do irmão. – Eu vou. Deixando o irmão massageando o ombro, Aiden cruzou o salão, seu olhar fixo no grupo de mulheres no canto ao fundo. Finalmente o olhar de Christina voltou-se para ele... e fixou-se em Aiden. É isso mesmo, querida. Eu achei você. A excitação natural que estava se tornando tão natural quando estava na presença dela voltou a dar as caras. Seu coração disparou. Os músculos se retesaram. Ele inclinou-se para ela, o final de uma canção pop abafando suas palavras. – Christina, quer dançar? Por um momento, o pânico lhe arregalou os olhos, antes que ela sacudisse a cabeça. Olhando na direção das mulheres sentadas ao redor da mesa, o interesse ávido desta inconfundível, ele notou o dedo anelar vazio na mão esquerda de Christina e sussurrou: – Tem certeza? Desta vez, ela pousou a mão na dele, permitindo que ele a ajudasse a se levantar. Ele a conduziu até o outro extremo da pista de dança, para longe das mulheres agora cochichando. Aquele lado do salão estava mais vazio, oferecendo um pouco de privacidade. A música mudara para uma balada lenta, e ele simplesmente a puxou para si, enquanto acompanhavam o ritmo. A questão não era dançarem. Aiden apenas queria que fossem vistos juntos, conversando juntos, fazendo com que a comunidade os visse feito um casal. Isto nada tinha a ver com tê-la nos braços. Nada.


Infelizmente, Christina não estava cooperando. Estava tensa e empertigada. Ele tentou puxá-la mais para perto, ignorando o roçar do corpo dela de encontro ao seu. Como se isso fosse possível. Deus, mas era tão bom senti-la. – Pode relaxar, Christina – murmurou ele. – Afinal, somos casados. E esta é a nossa primeira dança. O que deveria lhe dar o direito de tocar toda a pele sedosa a seu alcance, mas não dava. Não podia se esquecer disso. Quando ela falou, foi pura polidez e preocupação. – Sinto muito. Não é você. É só que nunca fui muito de dançar. Ele ficou encarando-a, apesar de Christina está fazendo de tudo para não olhar para ele. – Nesse caso, por que não me conta por que está passando a noite de núpcias em um bar... sem mim? Ela sacudiu a cabeça. – Não é uma noite de núpcias de verdade. Não é o que diz aquela cama. – É o que deseja que pensem? – interrogou, assentindo para o salão. – Não. Não sei. – E por que veio até aqui hoje? Sentiu-a dar de ombros. O que não era bem uma resposta. Mas resolveu não insistir. Podia adivinhar. Compartilhar a cama com alguém que não conhecia direito não podia ser algo agradável para ela. Já para ele, fora o seu modus operandi por anos. Mas a ideia de ter Christina na sua cama em nada lembrava aquelas inúmeras noitadas que faziam parte de sua história. Seus braços a envolveram mais apertadamente, e uma das mãos pousou no limite do tecido do vestido de verão, oferecendo a primeira amostra da sensação da pele pela qual ele tanto ansiava. Os olhos dela se arregalaram, todavia, o corpo dela foi aos poucos acomodando-se ao dele. A sensação não deveria ser tão boa. – Assim é melhor – falou ele, com um tom de voz mais grave, relaxando junto com ela. – Não queremos ninguém achando que não goste de mim. Afinal de contas, a nossa novidade não demora a se espalhar. – Já seria do conhecimento geral se a mulher do juiz Harriman não estivesse fora da cidade, visitando a irmã. Aiden não pôde deixar de sorrir. – Cidades pequenas são assim mesmo. – É. James não escolheu a melhor hora para o seu plano. Vendo o próprio sorriso espelhado no dela, Aiden não pôde deixar de admirar como parecia ser natural tê-la nos braços daquele jeito. O sangue ruidosamente em disparada por suas veias abafava o barulho dos alarmes em sua cabeça. Como que por vontade própria, a mão lentamente foi subindo pelas costas dela, experimentando a pele exposta ao longo da espinha, encontrando o ponto sensível na nuca, sob a cascata de cabelo. Os olhos dela perderam foco quando Aiden a acariciou ali. Como seria repetir o ardente beijo daquela manhã?


Não. Melhor não ir nessa direção. Nada agradaria mais a James do que os ver envolvidos, o casamento tornando-se real, oferecendo-lhe uma nova geração para ele manipular. Mas Aiden não tinha planos de ficar por ali tempo o suficiente para que isso acontecesse. Independentemente de como a nova esposa pudesse ser tentadora. E não tinha a menor intenção de deixar que o avô voltasse a lhe controlar a vida. – Não precisa ter medo de mim, Christina – sussurrou de encontro ao cabelo dela. – Não precisa fazer nada que não queira. Sei que não queria a cama, mas alguém tinha de tomar a decisão. Estou apenas tentando atender às exigências de James e deixar que permaneça perto de Lily. Sentiu o suspiro dela de encontro ao pescoço. – Quer dizer que estava tentando ser galante, ao mudar o colchão do meu quarto sem a minha permissão? Ele não pôde deixar de provocar. – É um colchão confortável, não é? Ela recuou de modo a poder fitá-lo. – Isto não é piada, Aiden. Ele ficou a fitar solenemente os olhos cor de chocolate. – Prometo manter as mãos longe. A não ser que me peça o contrário – não resistiu ele acrescentando. Os lábios dela se entreabriram, mas as palavras não vieram. Sua expressão estava conflitada, e Aiden pôde perceber que ela não sabia se deveria repreendê-lo, ou aceitar-lhe a oferta. Para a sorte de ambos, a música chegou ao fim e a pista de dança foi invadida por fregueses do bar ansiosos por dançar ao som de uma música mais agitada. É claro que nada disso tornaria a noite que tinham pela frente menos longa.


CAPÍTULO 7

CHRISTINA FITOU o chalé de cuja existência ela se esquecera por completo. Da última vez que estivera ali, as ervas daninhas estavam na altura do ombro. Mas o adulto Aiden trabalhara duro no pequeno chalé que Lily mandara construir para ele quando era adolescente. Os arredores haviam sido desmatados e a varanda refeita. Ao dar a volta na casa, ela viu um aparelho de ar-condicionado novo ocupando uma das janelas laterais. Quer dizer que era aquilo que vinha ocupando Aiden nos últimos dias. Havia quase uma semana que Christina vinha evitando o marido e as lembranças constrangedoras do encontro no bar. As noites pareciam mais difíceis, entretanto, um ou outro sempre dava um jeito para não estar no quarto na hora de dormir, ou na hora de acordar. Christina encolhia-se no seu lado da cama para não roçar em Aiden enquanto dormia. Porém, faria de tudo para evitar uma repetição da noite de núpcias, quando Aiden adentrou o quarto justamente quando ela estava saindo do banheiro. Com uma especulação que a deixou pouco à vontade, ele passou os olhos pelos shorts e camisão que ela estava usando. Christina tratara de seguir para a cama, pegando o lado que ela preferia. Contudo, fechar os olhos como uma solteirona impressionável fizera com que escutasse quando ele se despira, a imaginação livre para fantasiar quanto de roupas ele deixara no corpo. Nem precisava ser dito que não estava dormindo muito. E os dias só estavam sendo um pouco melhores. Com o retorno de Luke para a Carolina do Norte, não tinha alguém com quem conversar, no entanto, também não precisava lidar com seus olhares especulativos. Considerando a teia complicada em que estavam vivendo, não podia culpar Aiden por planejar passar muito tempo ali. Provavelmente, precisava de um lugar que fosse só seu. Quem dera ela tivesse um. Notando a cerca que indicava o fim das terras da Blackstone Manor e o início das da fábrica, ela não pôde deixar de notar que ele estava o mais longe possível dela, algo que lhe abalou a confiança. Ela bateu na porta e aguardou. Música alta vinha de lá de dentro. Após bater mais uma vez, forçou-se a segurar a maçaneta e a abrir a porta. Adentrou o chalé. Aiden estava no outro extremo da sala, de costas para ela, costas tão deliciosamente musculosas que ela chegou a ficar com água na boca. O torso despido era magnífico.


O suor lhe escorria pelo vale da espinha, desaparecendo sob o elástico da cintura das bermudas. Os músculos dos braços e das costas se retesavam enquanto usava um formão e uma martelo. Diante dele estava um bloco de pedra que ele estava concentradamente entalhando. Ela se surpreendeu ao encontrar várias outras esculturas inacabadas espalhadas pela sala, como que aguardando a sua vez. Sabia que Aiden era um bem-sucedido negociante de arte, todavia, jamais soubera que ele criava suas próprias peças. Sentiu uma pontada de tristeza por ele não haver compartilhado isso com ela. Por outro lado, por que haveria de fazê-lo? Só porque lamentava não o conhecer, não significava que ele sentisse o mesmo. Sentindo-se constrangida, ela chamou: – Aiden? Não obtendo resposta, adiantou-se e pousou de leve as pontas dos dedos no ombro dele. Aiden olhou por sobre o ombro, com o olhar sombrio. Vários instantes se passaram antes que ele desligasse o som, abaixasse as ferramentas e se voltasse para ela com a cara amarrada. – Eu chamei o seu nome, mas... Christina gesticulou na direção do aparelho de som. Os músculos esculpidos não se restringiam às costas. Ela se deu conta de que havia muito que aquelas roupas sofisticadas vinham escondendo. – Sem problemas. Como posso ajudá-la? Ela engoliu em seco, desviando o olhar. – Eu... hã. Marie precisava lhe dar um recado. Mas ela avisou que não há telefone aqui. Não trouxe o seu celular? Ele sacudiu a cabeça, pegando uma toalha limpa de uma prateleira. – Muita distração. Ele enxugou o suor da testa e começou a descer pelos braços. Christina engoliu em seco, novamente voltando o olhar para as ferramentas e para os blocos de pedra. – Não sabia que você esculpia. Lily jamais mencionou nada. Ele guardou as ferramentas em uma caixa. – Ela nunca viu o meu trabalho. Eu só comecei depois que ela sofreu o acidente. É ótimo para aliviar o estresse. E Deus sabe como a situação deles era estressante. Ela gesticulou na direção do cavalo no qual ele vinha trabalhando. – Não sou nenhuma especialista de arte, mas isso me parece trabalho profissional. Em vez de escutar a sua aproximação, ela a pressentiu. – E é. Também vendo o meu trabalho, além do de outros artistas. – Ele gesticulou na direção dos outros blocos. – Pedi que a pedreira entregasse esses aqui, para que eu pudesse trabalhar até a minha assistente conseguir enviar um carregamento. Ah, um lembrete não muito sutil de que ele tinha uma vida antes de vir para cá. Ao contrário dela. – Que bom que tem isso... – gesticulou ela. – Quero que se sinta em casa... Christina tratou de fechar a boca. Isso o fazia parecer um visitante. E Aiden não era, e ela nem queria que fosse. Entretanto, após uma vida sendo treinada para agradar e para deixar as pessoas à


vontade, era difícil mudar. E, com ele postado ali ao lado dela, praticamente seminu, ela só conseguia funcionar no piloto automático. – Jamais me senti em casa aqui. – Ele voltou-se outra vez na direção da bancada. – Mas estou achando um jeito de fazer isso dar certo. Estava falando de esculpir? Algo unicamente seu, para ajudar a relaxar? Ou algo mais? Ela deveria ficar feliz por ele estar tentando, ficando, apesar da situação que detestava. Aiden lhe interrompeu os pensamentos. – Qual foi o recado? – O quê? – Comentou que Marie tinha um recado para me dar. De quem? – Bateman, o capataz, ligou para a casa. Quer reunir-se com você para falar sobre a fábrica. – É mesmo? Quando? – Hoje à noite. Após o expediente. – Na fábrica? – É. – Ela estranhou o tom da voz dele, mas achou melhor mudar de assunto, e saciar um pouco a própria curiosidade. – Como sabe o que esculpir? É o cliente quem escolhe? Ela adiantou-se até um busto pela metade. O contorno já estava feito, mostrando cabelo farto e alguns detalhes abaixo do queixo. Mas ainda não havia feições. Ela tocou na peça com a ponta dos dedos. A pedra estava áspera e fria, apesar da temperatura alta no recinto, o ar-condicionado perdendo a sua batalha. – Na verdade, é fácil – respondeu ele após uma demorada pausa. – Basta escutar. Ela olhou por sobre o ombro, notando-se sob o intenso olhar dele. – Escutar? A pedra? O olhar dele lhe percorreu o corpo, antes de deter-se em seus olhos. – Mais ou menos. É diferente com cada artista. Na maioria das vezes, tenho uma ideia geral do objetivo. Porém, os detalhes vão mudando de acordo com a complexidade e a composição da pedra. Ela estava sentindo as texturas com ambas as mãos agora, imaginando Aiden esculpindo e estudando os ângulos da peça, até encontrar o que gostasse. Sua abordagem de vida era semelhante. Não era do tipo de dar ouvidos a elementos externos. Preferia elementos sobre os quais tinha pleno controle. Subitamente se deu conta do calor masculino do corpo dele às suas costas. As mãos de Aiden deslizaram pelos braços dela, cobrindo-lhe os dedos, enquanto estes se curvavam sobre a pedra. Sua respiração acelerou-se, atiçando-lhe os cabelinhos da nuca, provocando arrepios de medo e excitação que fizeram o coração de Christina disparar. As pessoas podiam dizer que ele era um desconhecido, mas não era a sensação que ela tinha. O desejo latejante que sentia quando ele estava por perto já se tornara familiar. Ela passara longos dias pensando nele, longas noites ao seu lado, alimentando o próprio fascínio. E, por mais perigoso que fosse, não queria parar.


Ele inclinou-se para a frente, aprisionando-a entre seu corpo rijo e a bancada de trabalho. Sua excitação era inconfundível, roçando ligeiramente nas costas dela. Christina mal foi capaz de se conter para não se curvar na direção dele. A necessidade de responder intensificou-se, apesar de seus receios. Com um gemido, ele mergulhou o nariz na espessura de seu cabelo. Ela permitiu que a cabeça se inclinasse, expondo a pele vulnerável aos lábios exploradores de Aiden. Estremeceu ao sentir o calor úmido descendo pelo pescoço, a boca entreaberta de Aiden sugando e mordiscando. Christina ficou na ponta dos pés. Não estava mais pensando, apenas latejando. Por Aiden. Os braços lhe envolveram a cintura, intensificando a sensação de segurança dela frente ao perigo. Uma ligeira mordida na base do pescoço fez com que a sensação disparasse direto até seu íntimo. Seu corpo se derreteu em sinal de rendição. As mãos de Aiden deslizaram para cima, detendo-se a centímetros abaixo dos seios. Por favor, por favor, não pare. Ela teve vontade de gritar, mas, sem estar pronta para dar voz a seus desejos, mordeu o lábio. Os mamilos enrijeceram de expectativa. Quando ele não se moveu, ela roçou-se nele, deixando claro que queria mais. Abruptamente, ele agarrou-lhe os quadris, mantendo-a no lugar. Ficou paralisada ao se dar conta de que o gesto não provinha do desejo, mas de algo mais, a despeito da rigidez que a cutucava. Todos os movimentos cessaram, com a exceção das respirações dos dois. Quando a boca de Aiden deixou seu ombro e seguiu para sua orelha, ela de algum modo soube que não iria gostar do que ele estava prestes a dizer. – Christina, é melhor você ir. – Ele sacudiu a cabeça de encontro à dela. – Agora. Vá, agora. Suas mãos voltaram a se apertar, antes de a soltarem, mas ela não se mexeu. Não conseguia. E, aparentemente, ele também não. Deveria estar humilhada com a rejeição, mas as evidências da excitação de Aiden estimulavam o poder feminino lá em seu íntimo. Mesmo sabendo que ele a deixaria na primeira oportunidade que tivesse, Christina queria correr o risco de se queimar. Queria permitir que ele a amasse de uma maneira que jamais deixara ninguém fazer. Virou a cabeça e reuniu toda a coragem que possuía para sussurrar: – E se eu não quiser ir? Por um longo momento, tudo que pôde escutar era o próprio coração batendo. Por fim, Aiden recuou. – Nesse caso, terei de ser forte o bastante por nós dois. AIDEN DIRIGIU em silêncio para os limites da cidade, Christina sentada ao seu lado na cabine da caminhonete da propriedade. O constrangimento do ocorrido no estúdio mais cedo deixava o ambiente carregado. Quanto mais perto chegavam da fábrica, mais devagar Aiden dirigia. Desde o instante em que pisara de novo em Blackstone Manor, receara a chegada daquele momento. Mas não podia se


permitir pensar no porquê. Com certeza não poderia explicar sua relutância para a mulher lançando olhares intrigados para ele. Ela já exercia poder demais sobre Aiden. Aliás, explicar sua trepidação exigiria explicar por que pedira para que ela o acompanhasse. E que homem queria ser visto como um medroso incapaz de encarar o local de seus traumas de infância? Havia mudanças desde a última vez em que estivera ali. O estacionamento fora ampliado e repavimentado. Uma nova cerca com guarita havia sido instalada. Mas Aiden ainda via com raiva os prédios de metal e as chaminés. Para ele, sempre simbolizariam a opressão do avô. Assim que estacionaram a caminhonete, Christina desceu e adiantou-se na direção do prédio, mas Aiden ficou para trás. Cada passo era um esforço monumental. Desacelerando, Christina olhou para trás. – Aiden, você está bem? Ele não respondeu, apenas concentrou-se em mover os pés, pesados como blocos de concreto, um de cada vez. Seu olhar voltou-se para o prédio administrativo, adjacente à fábrica. Seus pensamentos gritaram para que ficasse calado, mas a presença tranquilizadora e indagadora de Christina arrancou uma resposta dele. – Desde que meu pai morreu que não venho aqui. – Acho que verá que muitas pessoas aqui se lembram do seu pai. Ele fez grande coisas pela fábrica. Ele iria querer que você fizesse o mesmo. Aos poucos, Aiden foi acelerando o passo, forçando-se a se concentrar em seu propósito. Não nas imagens do passado que lhe invadiam o pensamento. Ao adentrarem a recepção, foram recebidos por uma comitiva de duas pessoas. Um homem de paletó preto, que mais parecia um cientista, adiantou-se. – Sr. Blackstone. O sr. Bateman pediu que eu o recebesse. Se puder me acompanhar, eu o levarei de carro até o escritório dele. Aiden fez um gesto de pouco caso. – Tudo bem. Posso andar. Ainda queria dar uma olhada na fábrica antes. O homem parecia surpreso, mas não se mostrou disposto a discutir. A mulher da dupla adiantou-se e estendeu a mão. – Seja bem-vindo, sr. Blackstone. Sou Betty, a assistente do sr. Bateman. Se planeja dar uma volta pela fábrica, sugiro abafadores de som para os ouvidos. Aiden aceitou dois pares de abafadores, passando um para Christina, que sorriu em agradecimento para Betty. Aiden abriu caminho pela área de produção da fábrica, seguido de Christina, Betty e do homenzinho. De vez em quando, ele fazia perguntas para Betty. Avistou uma linha de produção sofrendo reparos e conversou com dois empregados a respeito. Aiden ficou tenso quando deixaram a fábrica e seguiram para o prédio administrativo. – Isto foi construído enquanto o meu pai estava aqui – falou Aiden, sentindo a boca seca. Betty replicou com surpresa na voz. – Foi sim.


A tensão de Aiden foi se intensificando à medida que cruzavam o interior do prédio, até chegarem a uma sala grande. – Aiden, Christina. Obrigado por terem vindo – disse Bateman. Aiden ficou surpreso de ver a mulher receber um abraço caloroso. Já a sua recepção foi mais contida. – Fui avisado que vieram pela fábrica. O que achou? Aiden notou orgulho e preocupação na voz de Bateman. – Tudo parece bem. O equipamento é moderno. Bateman assentiu. – A longo prazo, o custo-benefício de modernizações é melhor. Aiden concordou. – Há quanto tempo está no comando? – Doze anos. Trabalhei com o homem que assumiu pelo seu pai. Aiden estremeceu ante a menção ao pai, mas esforçou-se para relaxar. – Fez um bom trabalho. Bateman gesticulou na direção de uma área de estar. Sem se dar conta do que estava fazendo, Aiden conduziu Christina até um sofá e sentou-se ao lado dela, puxando-a para si. O calor dela ao seu lado o ajudava a manter-se focado. Precisava da proximidade dela, e, desta vez, nada tinha a ver com sexo. Conversaram por um minuto, Aiden bem se lembrando da lição de Christina sobre se portar com polidez. Depois, as coisas ficaram sérias. – Antes de começarmos, há algo sobre o que quero falar – anunciou. – Como estou certo de que sabe, há vários anos que administro o meu próprio negócio de importação e exportação de arte em Nova York. Notou o empertigar defensivo da postura de Bateman. – Mas uma fábrica está um pouco além da minha experiência – prosseguiu Aiden. – Venho estudando os relatórios do meu avô, mas eu gostaria que me pusesse a par de alguns detalhes logísticos deste tipo de operação. Fazer indagações, em vez de começar logo a dar ordens, talvez fosse a melhor maneira de começar. Bateman pareceu relaxar na sua poltrona. – A fábrica funciona em plena capacidade oitenta por cento do ano, parando para manutenção anual e nos feriados. É uma operação em larga escala. Ele seguiu explicando sobre a lucratividade, que estava em baixa após a seca do ano anterior, mas vinha melhorando. Aiden escutou atentamente, no entanto, o tempo todo prestando atenção em cada movimento da mulher ao seu lado. Dividir seu foco era novidade para ele. Normalmente, negócios sempre vinham antes do prazer. Mas Christina não podia ser ignorada. – Alguma preocupação financeira no futuro imediato? – questionou Aiden. – Não. Terá de pedir os números específicos para o departamento de contabilidade, mas graças ao programa de modernizações planejadas iniciado pelo seu avô e o reinvestimento de lucros, estamos em boa situação. Nossa base de clientes é estável e leal. Não temos preocupações financeiras no futuro próximo.


Aiden pressentiu que haviam chegado ao propósito da reunião. Christina também deve ter pressentido. Ela inclinou-se para a frente. – Há algo que precisamos saber? Bateman estudou demoradamente o rosto de Aiden, como se estivesse tentando decidir o quanto podia dizer. – Está tudo bem, Jim – insistiu Christina. – Não estaríamos aqui se Aiden não fosse fazer o melhor que pudesse pela fábrica e pela cidade. – Algo não está certo por aqui – o homem enfim falou. – Problemas aleatórios se acumulando. Não posso lhes dar um padrão. – Há quanto tempo? – interrogou Aiden. A notícia não era inesperada, mas ele queria detalhes. – Talvez um ano. Coisas pequenas, a princípio. Mas foi escalonando, o pior acontecendo recentemente. Um grande fornecedor cancelou de última hora. Alguém com quem trabalhamos há anos. Como tudo o mais, não passou de um incômodo. Todavia, quando, sem nenhum motivo, se recusaram a aceitar novos pedidos, o incômodo se tornou suspeito. Significou que tivemos de atrasar uma grande entrega para um cliente antigo. – Se a fábrica adquirir reputação para esse tipo de coisa, pode afetar as vendas – completou Aiden, com o que Bateman estava reticente em dizer. O outro homem trocou um olhar com a assistente. – Mostrou para ele? Betty assentiu. – Tivemos problemas com uma das linhas na semana passada – explicou Bateman. – O relatório do técnico diz que ele acha que não foi acidente. – Alguma ideia de quem faria uma coisa dessas? – inquiriu Aiden. – Qualquer empregado com acesso à área. Alguém da manutenção, ou até da limpeza. Na verdade, detesto pensar que possa ter sido qualquer um desses. Aiden sentiu Christina estremecer. – Acha que foi trabalho interno. Bateman concordou. – Infelizmente, acho. Por enquanto, não passou de irritações, entretanto, se a fonte for quem eu penso, eu me preocupo que da próxima vez... – Vá direto ao ponto – falou Aiden, distraidamente levando a mão às costas de Christina. – Há um ano, um homem chamado Balcher fez uma oferta pela Blackstone Mills. É alguém conhecido no ramo por comprar a concorrência a preço de banana e ir desmembrando-a aos poucos, até as fábricas fecharem. – Um processo de eliminação da concorrência. – Exatamente. Só que Blackstone não está mal das pernas. Ainda não. Porém, se os padrões de segurança no equipamento forem comprometidos... – Bateman passou a mão pela cabeça calva. – Receio que alguém possa se machucar. Aí teremos mais do que apenas a nossa situação financeira com que nos preocupar.


Aiden praguejou. Devia ser o comprador em potencial mencionado por Canton. O que destruiria Black Hills, a não ser que Aiden tornasse a fábrica viável. – Alguma sugestão? – Aumentar a segurança noturna? – inquiriu Bateman. – Estou preocupado em não causar pânico, mas pensei em alertar os gerentes do turno da noite para ficarem mais vigilantes e serem mais rígidos em se tratando de segurança. – Verei o que posso fazer para conseguir envolver as autoridades. O rosto de Bateman espelhava a própria preocupação. – Receio ter chegado a hora de fazer isso. Embora, eu tenha apenas a palavra do técnico, e nenhuma prova de verdade. Aiden ficou de pé, com sua postura combativa. – Balcher que se cuide. Pelo alívio da tensão no rosto de Bateman, Aiden pôde perceber que ele subira no conceito do homem mais velho. Ótimo. Teriam de trabalhar juntos nisso. Sabia que deveria estar amaldiçoando essa complicação, contudo, sua natureza competitiva estava ansiosa para lidar com Balcher... E vencer. Perdido nos próprios pensamentos, Aiden não se deu conta de que Bateman o observava com um brilho especulativo no olhar. – Diga-me – o outro homem falou. – Por que está fazendo isso? – O que quer dizer? – Não põe os pés na cidade desde os 18 anos. Sou inteligente o bastante para saber que não está aqui porque quer. – É um homem esperto. Aiden voltou a se sentar, desta vez em uma poltrona. Bateman ainda não terminara. – Sabe, eu estava em um cargo de gerência quando o seu pai assumiu por James. Eu o vi em ação diariamente. Independentemente do motivo para ele ter vindo para cá, seu pai ficou por um motivo, e um motivo apenas. As pessoas. – O que está dizendo? – Que vocês dois têm muito em comum. Aiden envergonhou-se de perceber que não tinham. Estivera tão preocupado com os próprios desejos e em se rebelar, que, desde a primeira noite ao lado do leito de James, mal pensara nos outros. O pai não se orgulharia nem um pouco do homem que ele se tornara. Foi tomado de uma necessidade súbita de dar o fora dali.


CAPÍTULO 8

CHRISTINA FICARA tão fascinada observando Aiden trabalhar que não estava preparada quando ele pediu licença e seguiu em direção à porta. Apesar da surpresa, a urgência que pressentiu nele fez com que ela chegasse primeiro à saída. Aiden seguiu na direção oposta à qual eles haviam vindo, e seus passos se aceleraram. – Aiden – chamou ela. – Aiden, aonde você está indo? Esforçou-se para alcançá-lo, mas ele seguiu alguns passos à sua frente, sem se virar para trás. Ande estava indo? Por fim, ela dobrou um canto e deparou-se com ele parado no corredor, com as pernas afastadas, como se houvesse parado subitamente. Ao aproximar-se, Christina notou que os músculos dele estavam vibrando ligeiramente. Com certa hesitação, estendeu o braço. Não era da conta dela. Ele deixara bem claro que ela não tinha o direito de se meter nos assuntos dele. Ainda assim, uma intensa necessidade interior de curar a fez adiantar-se. Assim que as pontas de seus dedos fizeram contato com o ombro dele, Aiden virou-se, cegamente retornando de onde viera. E dando de cara com ela. Ele conseguiu segurá-la, impedindo-a de cair de bumbum no chão. Dançaram alguns passos até se chocarem com a parede. Seus corpos pararam bruscamente. As costas de Christina apoiadas, os braços de Aiden ladeando-a, ele de frente para ela. – Aiden? – falou ela, tentando manter o controle. – O que foi? – Tenho de sair daqui. Ela quase não conseguiu escutá-lo através dos dentes cerrados. – Nesse caso vamos voltar pela... – Não. Era evidente que ele estava disputando o controle com algo intenso por baixo da superfície. – Por quê? – Eu não consigo. – Ele inspirou fundo, mantendo o rosto virado. Por fim, lenta e relutantemente, falou: – Não posso voltar para lá. Não posso ficar aqui.


Ela queria entender, mas se sentia navegando no escuro. De modo que, fez a única coisa que sabia. Plantou as mãos nas laterais da cintura de Aiden, aproveitando que os braços erguidos o deixavam vulnerável, e as deslizou até as costas, sentindo seu corpo duro como aço, por sob o algodão da camisa. – Deixe-me abraçá-lo. Por um instante, Aiden parou de se mover, até de respirar. Fechando os olhos, procurou irradiar mentalmente paz e tranquilidade, como aprendera a fazer muito antes do seu treinamento de enfermeira. Tinha de ajudá-lo a restaurar seu equilíbrio interior, fosse pelo toque ou por irradiações mentais. Ele voltou a inspirar fundo, desta vez com mais tranquilidade. Ela alinhou o corpo ao dele, concentrando-se apenas em sua respiração, enquanto suas mãos deslizavam ao redor dele. A intimidade da posição lhe suavizou a voz. – Conte-me o que há de errado? Ele cerrou o maxilar, aprisionando as palavras. Suas mãos espalmaram a parte inferior das costas, e ela inclinou a cabeça até encostar no seu peito, perto do coração. Mais uma vez, procurou irradiar energia positiva. – O que há de errado? – quis saber ele por fim, a pergunta carregada de raiva e amargura. – Eu digo o que há de errado. – Ele virou-se na direção do corredor de onde haviam vindo. – Ele morreu ali. Simplesmente deixou o escritório de alguém e tombou no chão. – O seu pai? O assentir de Aiden espatifou o autocontrole dela. Fitou-lhe os olhos sombrios, o rosto tenso, pressentindo as lágrimas que ele se recusava a deixar fluir. James realmente era um canalha. Ela pensara que ele os havia aprisionado em um casamento que não queriam. Não fazia ideia de que ele enviara Aiden de volta para o seu pior pesadelo. AIDEN MAL se lembrava de enfim ter encontrado a saída e de ter subido na caminhonete. Pelo menos não chorara como um bebê. Já fora terrível ter saído correndo feito um desesperado. Antes de voltar ali, passara dias, às vezes semanas, sem pensar no pai. Mas, agora, para tudo quanto era lugar para que se virava, havia lembranças dos pais, minando o autocontrole emocional que passara anos construindo. E não podia se dar ao luxo de perder isso, ainda mais na frente de Christina. O ritmo familiar dos pneus sobre o asfalto, a tarefa automática de dirigir de volta para a mansão, e a escuridão o ajudaram a recuperar o autocontrole. Mesmo quando Christina questionou: – Estava lá... quando ele morreu? – Naquele verão, ele se acostumou a me levar para o trabalho. Eu estava dando muito trabalho para Lily em casa, batendo de frente com James o tempo todo. Sendo assim, ele me fez de garoto de recados no escritório. Chegaram à propriedade e estava começando a chuviscar. – Ele acabara de sair de uma reunião quando o encontrei no corredor. “Oi, filho” foi a última coisa que comentou antes de infartar.


Aiden estacionou diante da garagem e desligou o motor. Nem ele e nem Christina fizeram menção de descer do carro. – Antes de virmos para cá, meu pai sempre teve tempo para mim. Era professor de administração em uma pequena faculdade. Mas James queria Lily mais perto, e acho que meu pai ficou sem jeito de recusar o salário que foi oferecido para tocar a fábrica. Dê uma boa utilidade para esse diploma, ele se recordava de James ter dito. No entanto, James insistia em métodos antiquados, e constantemente encontrava defeito nos utilizados pelo pai dele. – Betty mostrou muitas melhorias que o seu pai fez – declarou Christina. – Ele parecia ser um bom administrador. – Espero que tenha valido a pena – falou Aiden com amargura, apertando com força o volante. – Os intermináveis dias de trabalho e o estresse provavelmente o mataram. Ficaram longos minutos sentados em silêncio, os olhos de Aiden se cerraram. A chuva caía como boas lembranças sendo levadas por aqueles últimos momentos terríveis. Foi só quando as mãos dele relaxaram e seus olhos se abriram que Christina falar: – Pronto para correr? Ele sorriu, seu humor melhorando ao ver o brilho travesso nos olhos dela. Christina parecia saber exatamente o que os outros precisavam em qualquer instante. Era bom, mas ao mesmo tempo assustador. Ele assentiu, e ambos abriram suas portas. Correndo por sob as árvores, enquanto a chuva apertava. Com as pernas compridas, ele poderia facilmente ter deixado Christina para trás, mas ele se conteve, adiantando-se apenas para abrir a porta para ela. A cozinha estava às escuras, a casa em silêncio, exceto pelo barulho da chuva. Como ratos molhados, ficaram fitando um ao outro, as roupas pingando no chão. Os olhos de Christina encontraram os dele. Aiden não conseguiu conter um sorriso ante o cabelo encharcado e a camisa fina colada às belas curvas. Puxando o tecido molhado, ela começou a rir. Não o risinho afetado e polido de algumas das damas da sociedade que ele já conhecera. Mas não aquela mulher. Foi uma gargalhada com vontade que a fez curvar-se, deixando-a sem fôlego. Não teve opção senão juntar-se a ela, deliciando-se com a leveza após a tempestade de suas emoções. Deus, ela era linda. Mesmo agora. – Marie vai dar um chilique se molharmos o piso dela... – advertiu Christina. – Sem falar nas escadas. – Você vai mais longe do que eu, já que as suas roupas ainda estão no terceiro andar. Embora a cama deles estivesse no segundo. E foi quando ele resolveu brincar, mesmo sabendo que não deveria... – Não é problema – afirmou, fitando-a nos olhos o máximo que pôde, antes de puxar a camisa pela cabeça. O tecido encharcado caiu ruidosamente no chão. Observando-a atentamente, notou que o sorriso desaparecera, e o seu olhar se desviara do rosto dele. Embora a calça não estivesse tão molhada, ele levou a mão à braguilha. – Vai se juntar a mim? Christina estava sacudindo a cabeça antes mesmo de ele terminar. – Tem certeza?


O olhar dela acompanhou a calça até esta chegar ao chão, antes de subir novamente para devorar a cueca samba-canção que lhe restou. Não havia como disfarçar a reação de Aiden ante o interesse dela. – O que foi, Christina? Está com medo? Ela o fitou como se não soubesse como responder à indagação dele. Depois, adiantou-se na direção da porta. – Não. Estou bem. Antes que ele pudesse detê-la ela se virou, as roupas molhadas deixando uma trilha quando seguiu para as escadas. Mas ela não iria escapar tão facilmente. Seu coração bateu forte com expectativa ao ir atrás dela. O gosto dela ia ser tão bom. Bem melhor do que toda a amargura que fora forçado a engolir hoje. Foi atrás dela. Escutou-a suspirar antes de dobrar um canto e dar de cara com ela outra vez. – Estas escadas guardam as melhores surpresas – rosnou. Girando-a, ele a puxou para si, desequilibrando-a, como da última vez. As roupas geladas se colaram ao peito nu. – Com frio? – interrogou ela, mas não teve como disfarçar o modo como o próprio corpo estava tremendo sob as mãos dele. O perfume dela, jasmim ou alfazema, era tão suave que ele poderia inspirá-lo para sempre. Cada centímetro do seu corpo colocou-se em estado de alerta. Ladeando o rosto dela com as mãos, Aiden sussurrou: – Não estou mais. Em seguida, sem parar para pensar, saboreou a boca de Christina, deixando-se levar pela intensidade do seu destino. Os lábios dela se entreabriram. Língua chocou-se com língua, alimentando o fogo até este se tornar um inferno ardente. A sensação das mãos delicadas explorando seu peitoral arrancou um gemido dele. – Preciso de você, Cristina. Agora. – Sim – murmurou ela. Tratou de tomá-la nos braços. Aquilo ia acontecer, e nada iria impedir. Em questão de segundos, seus passos rápidos os levaram até o quarto dele no terceiro andar, deixando para trás qualquer possibilidade de interrupção. Deitando-a sobre a colcha azul-marinho, tirou-lhe a blusa. Com as mãos trêmulas, despiu-a, descobrindo os montes pálidos dos seios, que eram volumosos. Depois, chegou à barriga lisa e sedosa, descendo ainda mais até chegar aos pelos macios e escuros entre as pernas. Ele tentou apartar as pernas compridas, mas ela resistiu. – Não – sussurrou ela. Ele demorou alguns momentos para se dar conta dos medos dela. – Precisa mesmo esconder-se de mim, Christina? Pôde enxergar no olhar dela o instante exato em que ela tomou a sua decisão. Desta vez, fez pressão firme nos joelhos dela. Expondo a maciez ali no centro, enterrou os lábios de encontro a ela. O ávido som de paixão que escapou da garganta dela o incendiou. Qualquer pensamento deixou de existir.


Concentrou-se inteiramente em lhe proporcionar prazer. Na evidência lubrificada de sua paixão. Nos lábios sedosos do sexo dela. No agitar de seus quadris quando se concentrou no local mais importante. Bastou um suspiro, um breve gritinho ao chegar ao clímax, para deixá-lo desesperado para estar dentro dela. Recuando, plantou os joelhos no colchão, afastando-lhe ainda mais as pernas. Sua boca refez ao contrário o trajeto. Lambeu o anel delicado do umbigo de Christina, depois, deslizou ao longo das costelas, que subiam e desciam com sua respiração pesada. Mas foram as mãos dela que o puxaram mais para cima. – Por favor, Aiden – implorou ela. Ele a fez esperar mais um momento, enquanto sorvia profundamente os lábios dela, saciando uma sede que vinha se acumulando em seu interior desde o primeiro dia em que a viu. Unhas lhe arranharam de leve a pele, intensificando sua urgência. – Agora – exigiu ela. Ele não perdeu tempo enterrando-se nela, a passagem lubrificada envolvendo-o de maneira apertada e insuportavelmente quente. Não pense. Apenas sinta. Por um instante no tempo, havia apenas os dois. O erguer dos quadris de Christina possibilitando que fosse ainda mais fundo com cada estocada. O impulso das coxas levando-os a patamares do prazer até então desconhecidos para ambos. Ele fitou os olhos abertos de Christina, as profundezas cor de chocolate guardando inúmeros segredos. Enquanto seu corpo trabalhava com o dela, aquele olhar acorrentou sua alma à dela. Aiden viu beleza, aceitação e a promessa de prazer. Seus olhos perderam o foco ao enterrar-se mais profundamente, a expectativa instalando-se em seu âmago. Todavia, foi a admiração no olhar dela que o levou além do limite. Com um gemido, a tensão explodiu, abalando-o, como se o sexo entre eles o houvesse drenado de toda a rebeldia e frustração. Sem forças, largou-se sobre ela, saboreando os momentos de tranquilidade. De alívio. Um ligeiro sobressaltar dos quadris dela o trouxe de volta para o presente. A realidade tomou conta de seus sentidos. O silêncio da casa. A penumbra. A sensação do corpo de Christina envolvendo-o. Seu corpo voltou a enrijecer ante a carne sedosa que o envolvia, sem barreiras para... Sem barreiras! Com um puxão brusco, Aiden separou-se de Christina, e saltou da cama. A surpresa dela retardou sua reação, oferecendo-lhe um vislumbre dos seios trêmulos, da pele pálida marcada pelo toque dos seus dedos ásperos e o centro escuro, onde encontrara paz como jamais experimentara antes. Ela sobressaltou-se, afastando o cabelo escuro para longe de seu rosto e ele lamentou não poder ignorar sua expressão confusa. – O que foi? – inquiriu ela. Sob o pânico que lhe invadia as veias, seu raciocínio lógico sabia que estava fazendo tudo errado. Entretanto, quando foi que lidara com qualquer coisa emocional da maneira certa? Deveria estar


abraçando-a, levando-a ao clímax de novo, não afundando nas profundezas da própria raiva e do medo. – Preservativo – alarmou-se ele, com a paixão ainda na sua voz. – Eu não usei preservativo. Marchando até o armário, ele vestiu a cueca e a calça. – Não acredito que fiz isso. O que diabos deu em mim? – Ele vestiu uma camisa. Passara a vida adulta inteira evitando compromisso, especialmente do tipo a longo prazo, como paternidade. Imagens de Christina grávida apareceram em sua cabeça. – Diga que está tomando pílula. Por favor. Seus movimentos cessaram abruptamente ao olhar por sobre o ombro e avistar a mulher encolhida no meio da cama, com o corpo enrolado na colcha azul-marinho. O corpo com que ele acabara de fazer amor e depois fora embora sem sequer agradecer. Mas não conseguiu conter o pânico. – Diga que está tomando pílula – insistiu. Não conseguiu escutar o que ela murmurou. Cruzando o quarto, posicionou a mão com firmeza sob o queixo dela e o guiou até poder fitar as profundezas daqueles lindos olhos. Ela nem precisou falar. Podia dizer pelo modo como ela se encolheu que não estava usando nenhuma proteção. – Droga – sussurrou, subitamente sentindo as pernas bambearem. – Qual é o seu problema? – perguntou ela. – Eu não planejei isso. Não era o que eu queria. Ela levantou-se e postou-se ao lado da cama. Enrolada na colcha, estava com as costas empertigadas e tensa. Caminhou até sua pilha de roupas e começou a reuni-las. – Muito bem, então não é uma época boa do mês para conceber? – indagou, cinicamente. – Não é uma boa época do mês – respondeu ela, em um tom de voz robótico ao vestir as roupas molhadas. Para não a roubar de toda a dignidade, ele aguardou até que ela chegasse à porta antes de insistir em mais informações. – Está falando sério ou está apenas dizendo o que eu quero escutar? Ela virou-se para fitá-lo, a tristeza estampada em seus olhos. – Ser cretino é genético para vocês? Sem dizer outra palavra, ela virou-se. Ele a agarrou pelo braço, surpreendendo-se com a frieza de sua pele. – Christina, por favor. Sei que comecei isto, mas não quis nos deixar com uma criança que nenhum dos dois quer. – Como sabe que eu não quero? A surpresa o deixou imóvel por um instante. – Está me dizendo que quer que eu a engravide? – Não, Aiden – falou ela, com a voz um pouco mais firme do que antes. – Estou apenas dizendo que sempre quis filhos. Mas não precisa se preocupar. Eu cuido de tudo. Ele não teria de se preocupar?


– Eu não quero filhos. Jamais. Quando isto tiver terminado, volto para Nova York. Não vou ficar porque dei a James outra arma para usar contra mim. Tenho de ir embora. Os olhos dela se fecharam por um momento, e Christina manteve distância dele. – Eu entendo, Aiden. Pode acreditar que entendo. Prometo que conseguirá o que deseja. Conseguirá mesmo? Será que fazia diferença, considerando o que haviam acabado de experimentar? Tomado de vergonha, observou-a deixar o quarto com silenciosa dignidade. Quando o corpo exigiu que fosse atrás dela, mas o cérebro mandou que ficasse, teve de se questionar o que ele realmente queria.


CAPÍTULO 9

CHRISTINA PRECISOU apoiar-se no corrimão para manter-se de pé. Desceu as escadas com a cabeça erguida. Por mais que quisesse, recusou-se a esconder-se na suíte de Lily. Encararia Aiden como a mulher forte que queria ser, não como o ratinho assustado que fora tantas vezes no passado. Lembranças da noite anterior não tornaram a caminhada até o café da manhã mais fácil. Estivera perdida a partir do instante em que a boca de Aiden encontrara a dela. Todo o ardor, a excitação e a paixão que passara a vida inteira ansiando estavam contidos naquele beijo. Cada terminação nervosa de seu corpo se incendiara, e pensar tornara-se impossível. O que realmente mexera com ela fora o momento em que seus olhares se cruzaram. Com o corpo dele arremetendo cada vez mais profundamente entre as pernas dela, seus olhos fixaram-se nos dela por uma eternidade. Ela vira no homem interior a mesma necessidade de amor e aceitação que ela possuía. A necessidade de provar-se para o mundo e para si mesmo. Através dos olhos, sentira suas almas se interligarem de uma maneira que jamais experimentara antes. Diabos, controle de natalidade fora a última coisa a passar por sua cabeça. Evidentemente, ele recuperara a razão muito mais rápido do que ela. E, agora, era Christina a sentir-se constrangida. Ele não viera para a cama na noite anterior, de modo que tivera uma folga até o presente instante. Inspirando fundo, cruzou a porta com passos firmes. Aiden já estava sentado à mesa, tomando café e lendo o jornal. Pelo menos não seria o único foco da atenção dele. Nolen estava postado ao lado da porta da cozinha e lhe lançou um olhar malicioso ao vir servir o café de Christina. Diabos. Eles sempre sabiam das coisas. Sentiu-se corar. Jamais voltaria a fazer sexo naquela casa. – Christina, quanto a ontem à noite... – Aiden começou, assim que Nolen se retirou para ir buscar waffles frescos. – Não se preocupe. Foi um engano. Sem problemas. – Claro que é um problema. Eu sinto muito... Ela não saberia dizer se foi o seu olhar zangado ou o retorno de Nolen que o calou, mas pelo menos, por ora, não teria de escutar sobre o problema que ela era. Para seu alívio, Nolen


permaneceu ali, certificando-se de que Christina tinha tudo de que precisava. – Se precisar de mim, estarei aqui perto da porta – falou, um pouco mais alto do que necessário. Seu protetor. Aiden a estudou, enquanto ela passou geleia de morango nos waffles quentes. Apesar de não estar sentindo a menor fome, forçou-se a cortar um pedaço e a levá-lo à boca. Aiden voltou a falar enquanto ela mastigava. – Olha, você tem razão – concordou, para a surpresa dela. – Falei todas as coisas erradas, ontem à noite. Eu meio que me desesperei... – Meio que? – Mas quero acertar as coisas. Nós veremos um bocado um ao outro ao longo dos próximos meses... Não tanto quanto ela vira dele na noite passada. – ... e não quero criar constrangimentos entre nós. Tarde demais. – Sendo assim proponho que... – Sua desculpa de neto ingrato! Desta vez, a interrupção veio do corredor, deixando Christina desnorteada. Apoiado em uma bengala, James adentrou a sala. – Acha que já estou no túmulo, rapaz? Aiden recompôs-se em questão de segundos. – Infelizmente, não. – Ah, mas pode me ignorar, agir como se eu não existisse, enquanto conduz os meus negócios, bem debaixo do meu nariz? Tomado de raiva, James estava estranhamente corado e agitado. Christina ficou em estado de alerta. – Achou mesmo que eu não ficaria sabendo sobre a sua visitinha à fábrica? – estremeceu James, mas não deu um passo na direção das cadeiras vazias. – Não acha que deveria ter pedido permissão do verdadeiro dono da fábrica? Ou está querendo cair nas boas graças do capataz enquanto estou doente demais para impedi-lo? – E por que haveria de querer me impedir? Pediu que eu assumisse a fábrica. É o que estou fazendo, ao pé da letra. James segurou com força o braço de Aiden. – James... – disse Christina. – Tirando-me da jogada? – interrogou James agarrando com firmeza a bengala, parecendo oscilar. – Marcando reuniões pelas minhas costas? Eu ainda estou no comando. Ao ficar de pé, Christina sentiu-se tomada de calma. A enfermeira assumira o leme, lembrando que ela não deveria ignorar os próprios instintos. – James... Ele estava pálido, mas as faces estavam ruborizadas. E, sem dúvida, não estava firme nos pés. Aiden também ficou de pé, fitando o avô nos olhos. – Pois não estará no comando por muito tempo. Lembra-se?


Quando James levou a mão ao peito, Christina deu a volta à mesa em questão de segundos. – Por favor, James. O médico avisou que precisa ficar calmo. Vamos nos tranquilizar... – Você! – O olhar de James enfim voltou-se para ela. – Está ajudando-o a tomar tudo que é meu. Deveria ser grata por tudo que fiz por você. Em vez disso, está conspirando para me arruinar. Christina não sabia ao certo de onde vinha a paranoia. E nem queria saber. Naquele momento, ele precisava de calma e do seu remédio. Mas as próximas palavras de James a fizeram hesitar. – Eu deveria saber que não era boa o suficiente para o serviço. Conveniente, sim, mas esses genes traiçoeiros da sua mãe mais cedo ou mais tarde dariam as caras. Sentindo-se empalidecer, Christina bambeou nas pernas. – Basta! – ecoou a voz de Aiden. – Bateman pediu para se encontrar conosco na fábrica. Nós fomos. Se quiser um relatório escrito, o terá até hoje à tarde. James parecia querer dizer mais, porém, em vez disso, estremeceu. Colocando de lado tudo que não fosse o treinamento, Christina adiantou-se. – James, é melhor chamarmos o médico para vir dar uma olhada em você. Nolen! – chamou ela aos gritos. O pânico estampado no seu rosto, James arquejou. – Vai ficar tudo bem – acalmou ela. – Nolen, vamos levá-lo para o gabinete e chamar uma ambulância. Mas James não queria saber disso. – Não. Leve-me de volta para o meu quarto. O dr. Markham pode vir aqui. – Mas, James... – Não. Nada de hospitais. Se vou morrer, eu o farei em Blackstone Manor. Duas horas mais tarde, o seu desejo se tornou realidade. AIDEN FITOU a monstruosidade do monumento que James Blackstone erguera para si mesmo, antes de desviar o rosto enojado. Ele afastou-se da cripta, deixando Christina para trás, ainda falando com aqueles que vieram oferecer seus sentimentos, que se resumia a praticamente toda a cidade. Aiden só lamentava a pontada de culpa provocada pela morte de James. Aquelas últimas palavras, ditas em meio à raiva, o estavam deprimindo. O que seria exatamente a vontade de James. As emoções de Aiden não faziam sentido lógico, mas o avô o deixara com mais de um legado indesejado. Aiden subiu a colina, seguindo para o outro extremo do cemitério. Sentiu-se ligeiramente menos tenso quando se juntou aos irmãos no túmulo do pai. James Blackstone estava morto, e para valer desta vez. Por mais que detestasse celebrar uma morte, sem James, Aiden estaria livre para fazer o que bem quisesse, sem interferências. A guarda de Lily passaria para ele ou um dos irmãos, removendo o instrumento de punição de James. Após providenciar cuidados para a mãe e encontrar uma administração estável para a fábrica, Aiden poderia retornar para Nova York e para seu negócio. Se parte de si detestava a ideia de jamais voltar a sentir o gosto de Christina, ele tratou de reprimi-la. A longo prazo, assim seria melhor para ambos. – Está segurando a barra, irmão? – inquiriu Luke quando Aiden aproximou-se.


Aiden assentiu e virou-se para abraçar o irmão gêmeo de Luke, Jacob. Este voara para lá assim que soube por Aiden da notícia da morte do avô. Como presidente de empresa na Filadélfia, era o mais certinho e regrado possível, ao contrário do irmão. Postados lado a lado, parecendo reflexos no espelho, com o cabelo louro e os ternos idênticos, as diferenças não pareciam tão evidentes. Mas existiam. Apesar de morarem em cidades diferentes, os irmãos se reuniam por vários dias, três ou quatro vezes ao ano. Como moravam a duas horas um do outro, Aiden e Jacob costumavam jantar juntos ao menos uma vez por mês. Aiden olhou para a lápide do pai. Quem dera pudesse conversar com ele mais uma vez, conseguir um pouco de orientação no tocante ao rumo que deveria tomar dali. Seus instintos gritavam que deveria fugir, contudo, estava cada vez mais relutante em fazê-lo. E isso o assustava. Deixar as pessoas de Black Hills na mão não era o que a mãe iria querer. Mas receava que seus verdadeiros motivos fossem mais complicados do que isto. – Luke estava me colocando em dia com todo o drama – declarou Jacob. – Casado, não é? Aiden anuiu. – Não por muito tempo, eu espero. – Pensei que o acordo fosse por um ano. Ademais, Christina é uma mulher adorável – afirmou Jacob. – Sem dúvida – opinou Luke. – O acordo era por um ano quando James estava vivo. – Aiden recusou-se a pensar em como Christina era, de fato, adorável, e os irmãos não precisavam saber até onde as coisas haviam ido entre ele e a esposa. – Minha esperança é que, agora que ele se foi, não seja tão difícil desarmar essa situação toda. Vamos nos reunir com Canton amanhã para a leitura do testamento, e, depois, meu advogado se encarregará de tudo. Jacob assentiu lentamente, com a mão massageando a nuca, como costumava fazer quando estava pensando. Jacob era o solucionador de problemas do grupo. Quando garotos, sempre fora ele a encontrar maneiras de driblar as regras de James, e problemas de milhões de dólares não passavam de exercício intelectual para ele. – E qual é o plano? – perguntou Jacob. – Ainda não sei quanto aos cuidados a longo prazo para mamãe. A guarda poderia ser transferida para um de nós. Pensei em conversarmos com Christina sobre nossas opções. E rezar para que ela não lhe partisse a cara quando ele fosse embora. Ali não era o lugar dele, e Christina merecia coisa melhor. Voltou-se para o pé da colina e avistou Christina postada com Nolen e o diretor da casa funerária. O restante das pessoas já havia se dissipado. – Precisarei encontrar alguém para ficar encarregado da fábrica. Com todas as coisas duvidosas que estão acontecendo, terá de ser alguém inteligente o bastante para se antecipar às situações e durão o suficiente para dizer para Balcher que jamais venderemos. No instante, essa é a minha prioridade. – Acho que tenho o homem certo para você. Aiden voltou-se para Jacob. – Sério? Cara, às vezes você consegue ser assustador.


– Nem tanto. Eu quero o emprego. – Por quê? – Já há algum tempo que venho pensando em me mudar para cá. – Deixando para trás uma carreira bem-sucedida na qual ganha milhões? Novamente, por quê? Jacob deu de ombros. – É pessoal, está bem? Só quero que conversemos a respeito. Saber se é uma opção. – Se é? Claro que é. Mas quero que tenha toda certeza. Não quero ninguém preso em um lugar onde não queira estar. – Assim como você? – indagou Luke, estreitando os olhos de um modo que deixou Aiden pouco à vontade. Aiden ignorou a pontada de dúvida. Desde o primeiro dia, deixara suas intenções bem claras para Christina. – Isso mesmo.


CAPÍTULO 10

COM A expectativa fervilhando nas veias, Aiden abriu a porta do gabinete. Um homem mais velho estava postado diante da janela. Quando Nolen lhe comunicara quem o estava aguardando, Aiden ficara surpreso. Leo Balcher aparecendo em Blackstone Manor e pedindo para falar especificamente com Aiden fora uma tacada de sorte. Daria a Aiden a chance de ficar cara a cara com a concorrência no próprio território. Observou a forma encorpada de Balcher fitando as terras da propriedade como se já fossem suas. Podia se preparar para um amargo despertar. Ele virou-se sorrindo quando Aiden fechou a porta atrás de si. Mas Aiden estava com cara de poucos amigos. Ainda assim, Balcher cruzou o gabinete com a mão estendida, seu terno azulmarinho contrastando com a camiseta polo e a larga calça caqui do homem mais novo. Ao notar o modo como Balcher olhou para suas roupas informais, ele reprimiu um sorriso. Sob circunstâncias normais, Aiden jamais compareceria a uma reunião de negócios vestido daquela maneira. No entanto, Balcher devia considerá-lo alguém sem qualquer interesse em comportamento profissional, quando a verdade é que fora flagrado em uma hora inconveniente. Mas Aiden preferiu não corrigir as suposições errôneas de Balcher. Faria uso de qualquer vantagem que pudesse ter. – Sr. Blackstone. É um prazer conhecê-lo. – Por favor, me chame de Aiden – falou ele, suportando o apertão de mão firme do homem. Não está dando muito certo, meu velho. – É um lindo lugar, Aiden – falou Balcher, olhando possessivamente ao redor. Notando a madeira escura dos móveis e as cortinas pesadas, Aiden achou que realmente era chegada a hora de colocar abaixo o lugar e começar outra vez do zero. A falta de uma resposta pareceu desconcertar Balcher, cujo sorriso estava ficando amarelado. Por fim, ele mesmo resolveu romper o silêncio. – Dadas as circunstâncias, espero que a família esteja bem. – Obrigado. Como pode imaginar, estamos fazendo o possível. Há algo que eu possa fazer pelo senhor?


– Eu pensei que James teria mencionado o meu interesse em Blackstone Mills. Não comentara. Aiden descobrira por conta própria. – Presumi que teria algo a ver com a fábrica. Embora esteja surpreso de que esteja aqui para falar de negócios tão cedo após a morte do meu avô. O outro homem largou sua forma corpulenta em uma das poltronas de couro, diante da mesa, subitamente ajeitando a gravata, como se esta estivesse apertada demais. – Não precisa ser tão brusco, meu caro. Simplesmente prefiro largar na frente de qualquer outro interessado. Aiden inclinou-se por sobre a mesa. – Sou brusco ao negociar. É pegar ou largar. A despeito de sua vontade de se livrar da fábrica e ir embora, jamais a teria vendido para aquele homem. – Bem, estou certo de que o seu avô o informou de nossa conversa sobre a compra da fábrica e tudo conectado a ela. – Marie me anunciou que tínhamos visitas, de modo que achei melhor servir alguma coisa – pronunciou Christina, passando de lado pela porta, enquanto trazia uma bandeja de chá com bule, xícaras e uns bolinhos. Poderia lhe admirar a beleza o dia todo, todavia, ele a vira poucas vezes após o enterro. Ela estava fazendo todas as suas refeições no quarto de Lily, deixando-o à vontade com os irmãos. Tê-la ali com seus movimentos graciosos e sorrisos lisonjeiros apenas iria distraí-lo ao lidar com Balcher. – Isso não será necessário, Christina. O sr. Balcher não ficará muito tempo. – Ah. Tem certeza de que não vai querer um dos bolinhos de Marie? Juro que derreterão na sua boca. A expressão do olhar de Balcher deixou Aiden na dúvida se Balcher estava mais interessado no bolinho ou em Christina. Algo sombrio despertou no íntimo de Aiden, surpreendendo-o. Não precisava dela ali. – Creio que ainda não fomos apresentados – falou o homem, abrindo espaço na mesa para Christina depositar a bandeja. – Sou Leo Balcher, dono da Crystal Cotton. Com as mãos enfim vazias, ela estendeu uma delas para o convidado. – Olá, sou Christina. Esposa de Aiden. O homem arregalou os olhos. – Eu pensei que os garotos Blackstone fossem todos solteiros. Onde foi que ele fisgou uma preciosidade feito você? A irritação de Aiden estava crescendo. O que ela estava pretendendo? – Christina é do local – replicou. O homem pareceu achar que a graciosa Christina poderia ser uma aliada. – Ah, bem, eu estava justamente discutindo a compra da fábrica. – Balcher – interrompeu Aiden, enfim se dando conta de que Christina estava ali para representar os interesses de Lily, Marie, Nolen e de toda a cidade. E, como um cretino, ele a


excluíra da reunião. – O corpo do meu avô mal esfriou, e está aqui para falar de negócios? Que fim levou a civilidade? – questionou Aiden de maneira sardônica. De esguelha, viu os ombros de Christina relaxando, como se ela tivesse se dado conta de que ele não pretendia mandá-la embora. O homem se contorceu na poltrona. – Ora, você não tem passado muito tempo por essas bandas. Soube que não havia muito amor perdido entre vocês dois. Não há motivo para assumir um fardo desses. Afinal, duvido que após morar em Nova York esteja interessado em se instalar em um fim de mundo destes. Ele voltou a sorrir, como se a sua rudeza fizesse todo o sentido. – Tem razão. Não havia muita lealdade entre mim e o meu avô. Na verdade, ele era um ditador. Pela expressão do rosto do homem, Aiden pôde ver que Balcher estava se dando conta de com quem estava lidando. Mas Aiden ainda não queria mostrar as suas cartas. Christina fitou Balcher com uma expressão confusa. – Por que diabos iria querer outra fábrica? Esperta. Obtendo informações. – Bem, minha querida, concorrência é concorrência. É um mercado duro, levando a decisões duras. Não dá para todas as fábricas continuarem operando. Christina recuou discretamente. A fúria naqueles olhos cor de chocolate não deveria excitá-lo tanto. Por sorte, Balcher não notou. – Mas eu entendo que Blackstone Mills seja especial – falou Balcher, sorrindo. – E esta casa seria perfeita para mim. Pelo que ouvi a respeito de Aiden, estou certo de que poderemos chegar a um acordo. – Entendo. Que tipo de acordo tem em mente? Afinal de contas, acho que o capataz, Bateman, está ficando desconfiado. – Desconfiado? Do quê? Trata-se apenas de negócios. Aiden notou que Christina, agora posicionada atrás de Balcher, abriu a boca para protestar. Sabia o que estava se passando pela cabeça dela. Não se tratava apenas de negócios. Tratava-se dos lares e das vidas das pessoas. Ele entendia. Mas sua necessidade de obter informações era maior do que a vontade de deixar isso claro para Balcher. Lançou um olhar de alerta para ela antes de dizer: – Bem, nós dois sabemos disso, mas outras pessoas não. Não vou conseguir impedir Bateman de envolver as autoridades por muito tempo. Balcher pareceu irrequieto na poltrona. – Autoridades? – Bem, eu diria que o senhor não é exatamente conhecido por suas táticas limpas, mas sabotar equipamento pode levar alguém a se ferir seriamente. Se provas disso chegarem aos jornais, alguns poderão enxergar isso como indo longe demais. Aiden sinceramente chegou a pensar que os olhos de Balcher fossem saltar do rosto gordo, mas o homem lentamente se recompôs. – Não sei do que está falando, mas se esse probleminha é demais para você, terei prazer em tirálo de suas mãos. – Ele olhou para fora da janela, distraidamente esfregando a barriga, como se


estivesse com fome. – Junto com todas as regalias que o acompanham. – É uma pena que não seja do interesse da fábrica nem de Black Hills que eu venda para um homem feito o senhor. Lamento que tenha perdido o seu tempo. Pronto, a civilidade foi respeitada. Estava escoltando Balcher na direção da porta, quando esta se abriu e Nolen apareceu. Será que todo mundo estava escutando a conversa? – Peço apenas que considere... – insistiu o homem, sendo empurrado na direção da saída. Aiden não deve ter sido suficientemente claro. – Sei o que quer. Não vamos vender. Agora, fora. Aiden não pôde deixar de notar a expressão satisfeita no rosto de Christina. Quem dera estivesse lá por uma razão mais íntima. É uma pena que jamais voltariam a dormir juntos. Mas Balcher se recuperou rápido. Ele estendeu um cartão de visitas para Aiden. – Bem jogado, meu rapaz. Entretanto, mudará de ideia muito em breve, quando os problemas crescerem... e ficarem mais custosos. Aiden não hesitou em rasgar o cartão ao meio. – Entendo – mencionou Balcher, estreitando os olhos. Olhou para Christina postada ao lado da janela, antes de voltar-se de novo para Aiden, com o sorriso mais uma vez firmemente plantado nos lábios. – Apenas achei que a família seria a coisa mais importante para você agora. Não um negócio antigo. Desta vez, os alarmes internos de Aiden soaram. Era uma ameaça? Balcher estaria disposto a jogar tão sujo assim para conseguir o que queria? Olhou para Nolen, que fitava o visitante de cara amarrada. Christina também pareceu pressentir algo, e toda a sua doçura desapareceu. – O que exatamente quer dizer com isso? – Nada, madame. Apenas sei que um marido novo e protetor como o seu estaria apenas interessado em fazer o que fosse melhor para vocês e para o inferno com a cidade. Aiden não engoliu a falsa preocupação. – E estou. – Já tivera o bastante de formalidades para durar um verão inteiro. – Posso proteger minha família e manter os empregos das pessoas, em vez de entregar a fábrica para alguém que irá fechá-la e vendê-la feito sucata. – Como o senhor fez com a Athens Mill no ano passado, não foi? – acrescentou Christina. Apesar de parecer um pouco surpreso, Balcher não negou. Ignorando Nolen, o homem seguiu para a porta aberta. Talvez estivesse cansado de bater com a cabeça na parede. Ou talvez fosse um recuo estratégico para reavaliar seus novos oponentes. Antes de desaparecer, ele olhou de volta para Aiden. – Talvez não houvesse muito amor perdido entre você e o seu avô, mas vejo muito do velho em você. A raiva e a negação ainda corriam pelas veias de Aiden por longos momentos após a porta haver se fechado. Quando a névoa se dissipou, Aiden voltou-se para Christina. – Que diabos foi aquilo? Entrando aqui com chá e bolinhos como se isso fosse um evento social? – Não sei o que quer dizer. Eu estava simplesmente sendo educada.


– Estava me espionando. – Não seja ridículo. Parte de Aiden o alertou de que estava descontando as frustrações em uma inocente, mas, no que dizia respeito a Christina, estava cansado de pensar. Adiantou-se, encurralando-a de encontro à estante de livros. – Vamos deixar uma coisa bem clara, mocinha. Eu não aceitarei ser espionado. Não serei manipulado e não permitirei que brinquem comigo. Meu avô já fazia o suficiente disso. Não tolerarei o mesmo da minha mulher. Por um instante, podia jurar ter visto um vestígio da mesma emoção que vira anos atrás. Aquele olhar de cachorrinho perdido. Mas, seja lá o que tivesse visto, desapareceu em meio a enchente de algo mais potente. Em questão de segundos, ela estava o empurrando de volta, praticamente ficando na ponta dos pés para encará-lo. – Nesse caso, não seja alguém que precise ser espionado. Seja acessível, como foi na fábrica. Trabalhe comigo, conforme assegurou que faria. Você prometeu mesmo. A vontade de Aiden era ignorar o pensamento. Mas não conseguiu. Pois, independente do que Balcher argumentara, não era igual ao avô. Inspirando fundo, deliberadamente direcionou a conversa para uma direção mais segura. – Suponho que tenhamos dado uma boa dupla de tira bom e tira mau. As sobrancelhas dela arquearam-se ligeiramente com desconfiança. – Você poderia ter vendido. Facilmente. – Para aquele sujeito? Desnecessariamente cruel. Aiden sabia que devia recuar para longe, mas não conseguiu. Ela vasculhou o rosto dele em busca de garantias, porém, como Bateman, teria de aprender a confiar nele baseado nos seus atos. É claro que, se a leitura do testamento saísse de acordo com as expectativas, ela não teria muito tempo para aprender. Foi o lembrete da iminente separação que se aproximava tão rapidamente que, por fim, o levou a afastar-se. Quando ele caminhou de volta para a mesa, Christina murmurou: – Os criados não são os únicos bons em descobrir o que está acontecendo por aqui. – Não confia em mim? – E eu deveria? Com tais palavras, ela invocou lembranças de coisas que ele definitivamente deveria esquecer. Pele quente. Mãos ansiosas. Carne solícita. Tudo de que ele precisava manter distância. Ela olhou para o relógio. – Preciso ir dar uma olhada em Lily. Algo em seu íntimo protestou. Aquela poderia ser a última chance de tê-la para si. Depois da reunião com Canton... – E quanto a você? Você está bem? Ela lentamente virou a cabeça para ele. – Está preocupado comigo? Ou quer saber se lhe trarei mais problemas?


– Os últimos dias foram insanos. Estão para ficar piores. – Por quê? – Agora que James morreu, podemos resolver tudo isto – falou ele, gesticulando alternadamente entre os dois. – Entre nós. Toda a expressão desapareceu do rosto dela quando se deu conta sobre o que ele estava falando. Christina assentiu. – Ficará feliz em poder voltar para Nova York. – É o meu lugar. Ela o estudou por vários momentos. – Tem certeza?


CAPÍTULO 11

CHRISTINA HESITOU ao adentrar o gabinete. Demorando-se mais do que planejara ao lidar com Lily e Nicole, ela foi a última a chegar. Adiando o inevitável, como se isso fosse possível. Afinal, com testamento ou não, Aiden iria partir. Era uma pena que suas atitudes temperamentais não eram o suficiente para esfriar sua libido recém-despertada. Ela se deteve ao lado de Nolen, preocupada com ele desde a morte de James. – Como você está, Nolen? O mordomo olhou para ela. – Sei que era a hora dele, srta. Christina. Mas será uma grande mudança. Um arrepio percorreu o corpo dela. – É, será mesmo. Aiden aproximou-se, detendo-se por perto, como se quisesse falar com ela, mas Christina deliberadamente o ignorou. Após a montanha-russa emocional que havia sido a reunião com Balcher, não queria ter de lidar mano a mano com Aiden. Quando Canton tirou os papéis da pasta, Christina seguiu para o sofá e sentou-se ao lado de Luke, que sorriu para ela. Que Aiden pensasse o que quisesse. Já era hora de ela parar de se importar. Só havia a família presente, ou o que Christina chamaria de família. Os netos, ela mesma, Nolen e Marie. Será que isso significava que o testamento era a maneira que James tinha de continuar a controlá-los? Subitamente, seus receios pelo futuro se intensificaram. Ela jamais confiara nele. Nem mesmo na morte. Parecia ser algo crônico entre ela e os homens Blackstone. Contudo, com Lily como fator, ela não podia se dar ao luxo de virar as costas para seja lá o que estivesse por vir. Lily era tudo que importava agora, e não o coração partido de Christina ou o maldito orgulho de Aiden. – Como podem imaginar – começou Canton –, James deixou detalhadas instruções no tocante a como as coisas serão conduzidas após o seu falecimento. Gostariam que eu lesse o testamento verbatim, ou preferem uma visão geral?


– Apenas nos diga como poderemos desembaraçar este emaranhado feito por James... minha mãe, a fábrica, este casamento – exigiu Aiden. Christina procurou não se sentir ofendida por ter sido incluída em um emaranhado, ainda mais considerando que entendia o ponto de vista de Aiden. Além do mais, fora vista como uma complicação a vida inteira. Sendo assim, fingiu que não estava magoava tanto quanto nas vezes anteriores. – Processos de divórcio são fáceis de serem iniciados – alegou Jacob. – É, mas, ao final de tudo, a posição de Christina poderá ficar meio constrangedora – comentou Aiden. Ela inspirou fundo. Aquela discussão tinha de acontecer, mesmo magoando-a. Melhor que fosse em público em vez de apenas entre ela e Aiden. – E quanto a uma anulação? – interrogou Luke. – Uma anulação não seria difícil de conseguir, desde que se qualifiquem para uma – explicou Canton. Seu olhar voltou-se para ela, acompanhado dos olhares de todos os outros presentes no gabinete, e Christina sentiu-se ruborizar. Uma exclamação de protesto escapou involuntariamente de seus lábios. Havia certa satisfação superior no sorriso de Canton. – No entanto, suponho que a exigência de que o casamento não tenha sido consumado não se aplique mais... A humilhação de ter a sua sexualidade discutida em uma sala repleta de testosterona fez com que ela abaixasse o olhar. – E quanto à coerção? – inquiriu Aiden, chamando para si a atenção dela e de todos os presentes. – Afinal de contas, James me coagiu a entrar nisso. Mesmo Christina tendo se oferecido, estava apenas tentando me ajudar e a Lily. Podemos usar esse ângulo. Deveria se sentir grata por ele estar pensando nela. Se ao menos não estivesse lutando por algo que Christina não sabia se queria. – Não importa – interrompeu Canton. – James queria que tudo continuasse exatamente como está. Se me permitirem continuar... – Desembucha – exigiu Aiden com um rosnado. Jacob e Luke assentiram em sinal de concordância. Christina permaneceu em silêncio. Não queria nada daquele testamento. Nada, exceto ser deixada em paz para cuidar da amiga. – James mudou o seu testamento, após o retorno de Aiden e o seu subsequente casamento. O suspiro de Luke e as pragas murmuradas por Aiden eram sinais de que todos os homens se davam conta de que isso provavelmente não era boa coisa. – A vontade dele era que a sua presença e o casamento se estendessem durante o restante do ano combinado. Também expressou a sua certeza de que você desrespeitaria as instruções dele no instante em que morresse. James conhecia Aiden bem demais. – E então, o que é desta vez? – perguntou Aiden, com irritação na voz. – Ele não pode mais usar minha mãe como instrumento de pressão. Entre nós, netos, dinheiro não é problema. Então, o que


é agora? – Quem disse que Lily está fora da jogada? – indagou Canton, com um sorriso que lembrou a Christina por que temera e desprezara tanto aquele homem enquanto estava vivo. – O que está dizendo? – Estou dizendo que ficará aqui e cuidará de Lily, e Aiden ficará aqui e cuidará da cidade, exatamente como James queria. – Por quê? – Porque a guarda de Lily agora reverte para mim, assim como o controle de todos os fundos Blackstone. Imprecações explodiram dos homens ao redor, ao ficarem de pé bruscamente, mas Christina permaneceu paralisada no sofá, tomada de medo por Lily, pelo seu futuro. Todavia, uma pequena parte de seu cérebro, uma parte que ela se recusava a reconhecer, sussurrava: Ele ainda não pode ir embora. – Tudo permanecerá como está, por tanto tempo quanto o sr. Blackstone desejar. Ao final do ano, todas as heranças serão distribuídas e a guarda de Lily reverterá para Jacob. Isso não era de muito consolo para Lily. Muito poderia acontecer antes do final do ano. Aiden adiantou-se, com seu olhar quase perfurando Canton. – Que motivo pode ter para manter uma mulher incapaz de se defender longe da família, ameaçando a saúde dela? Isso sem falar em ameaçar o fim de toda uma cidade? – Não vai se dar bem com isto – acrescentou Jacob. – Não pouparemos esforços para proteger a nossa mãe. Encontraremos uma maneira de detê-lo. – Conforme este testamento – ergueu Canton os papéis –, vou sim. Podem contestar o quanto quiser, mas isto levará tempo. Mais tempo do que o ano que Aiden e Christina têm para cumprir as exigências. Se obedecerem às condições impostas por James, sua mãe não terá o que temer de mim. – Espere – sussurrou Christina, ficando de pé. – Você falou todas as heranças? – Falei. – Como eles estão presentes, suponho que Nolen e Marie também receberão algo? Está dizendo que eles terão de esperar até essas exigências serem cumpridas para receber o que é deles? – Não sou eu, minha querida. É o testamento. Se sua vontade não for feita, James deixou instruções para que seus bens fossem liquidados. Lily será transferida, e ninguém receberá nada. Mais cedo ou mais tarde, a guarda reverterá para Jacob, mas toda a herança irá para a universidade. A fábrica será fechada por completo. Não, não, não. – A herança é a aposentadoria de Marie e Nolen – argumentou ela. James só fizera aumentar as apostas com a sua morte. Estava ameaçando não apenas a filha e a população da cidade, mas todo mundo que significava alguma coisa para Christina. Pena que ele não estava ali para ela acabar com a raça dele. – Quer dizer que, se não fizermos isso, todo mundo perde? – conseguiu forçar-se a dizer por fim. – E não tem problemas em levar a cabo tais instruções? Canton inclinou a cabeça daquele seu costumeiro jeito condescendente.


– Não. – Por quê? – questionou ela. – Dinheiro. – Aiden cuspiu a palavra com nojo. – Ele fez valer a pena, Canton? Novamente, ele assentiu regiamente. – Muito. Mas James Blackstone era meu cliente, de modo que estou obrigado a lhe honrar a vontade. – Aposto que sim – pronunciou Luke. – Como assegurei, podem envolver os seus advogados, mas levará tempo. Melhor dar prosseguimento ao plano. Vendo Aiden vibrar de raiva, Christina pensou que o plano havia ido para o inferno e voltara. AIDEN PODERIA ter passado sem o jantar no country clube de Black Hills, onde a elite da região considerava um privilégio poder ser visto. No momento, ele preferiria o isolamento. Mas os irmãos insistiram em um agradável jantar, antes de partirem. Como a temporada de provas estava para começar, Luke passaria um bom tempo longe, e Jacob teria de dar início aos preparativos para a mudança de volta para casa. Como o testamento não falava nada sobre Aiden terceirizar a administração da fábrica, ainda estariam seguindo ao pé da letra a lei imposta por James. Uma lei que causava tanta tensão, ainda mais entre ele e Christina. A esposa da qual tentara se livrar na primeira oportunidade, assim que a convenceu a fazer sexo com ele. Brilhante. Como era possível uma mulher fazê-lo se sentir tão fora de controle e tão alerta ao mesmo tempo? Estava sempre tentando adivinhar o que ela faria em seguida... quando Christina não o estava enlouquecendo de desejo. Voltaram a evitar ficar no mesmo ambiente, exceto pelas refeições, quando Nolen ficava de olho em Aiden. Ficou surpreso que Luke tivesse sido capaz de convencê-la a acompanhá-los. Entretanto, ali estava ela, sentada entre ele e Luke, ao redor da mesa circular. Não conseguia tirar os olhos dela, e sabia que isso não era bom. Mas foi como notou o brilho no seu olhar, quando ela falou: – Vocês lembram como era divertida a feira quando estávamos crescendo? Eu, pelo menos, gostei das vezes que fui. Os garotos da escola também. Acho que é uma grande ideia. – Espere... O quê? – interrogou Aiden. – Onde você estava, cara? – provocou Luke. Sonhando acordado com uma mulher. – Pensando em trabalho. O que foi? – Christina teve uma grande ideia para melhorar o moral da comunidade – explicou Jacob. – Mostrar para todo mundo que você não é igual ao velho rabugento. Aiden olhou para a esposa com a sobrancelha erguida, fazendo com que ela desse de ombros, com um sorriso tímido.


– Mulheres pensam nessas coisas – mencionou. – Eu estava apenas pensando em uma maneira de sinalizar para a comunidade que você está tentando tocar as coisas, manter todo mundo unido, aumentar as vendas e coisa do gênero, e não preparando a fábrica para ser vendida. Como negociador de artes, essa história de investir na boa vontade da comunidade era novidade para ele. Sua ideia de filantropia sempre fora angariar contribuições financeiras. Mas podia enxergar a vantagem disso, e Christina conhecia os moradores do local melhor do que ele. – E a ideia é...? – Poderíamos organizar uma feira. Patrocinar um bando de competições com prêmios, jogos, comidas, brinquedos... Enquanto os outros ofereciam suas sugestões, Aiden não conseguia tirar os olhos do rosto empolgado de Christina. Deu-se conta de que aquela mulher possuía talentos que estavam sendo seriamente desperdiçados. Jamais conhecera outra pessoa capaz de unir as pessoas tão facilmente. Porém, ela continuamente permanecia do lado de fora. E ele não conseguia parar de se inquirir por quê. Por estar olhando para ela, notou a ligeira careta que lhe retorceu os lábios por uma fração de segundos. O que ela estaria escondendo sob a superfície? Estava determinado a descobrir. – O que foi? – perguntou. – Como assim? – indagou ela, quando se deu conta de que ele estava falando com ela. – Por que franziu a testa dessa maneira? O que há de errado? Com uma expressão do tipo, não é da sua conta, ela colocou um pedaço de pão na boca. – Não me faça insistir. Conte logo. – Meu pai está sentado perto das portas envidraçadas – relutantemente informou ela, por fim, gesticulando com a cabeça. Luke fez um gesto de pouco caso. – Ele mal preenche os requerimentos para ser sócio daqui. – Como sabe? – questionou Aiden. Luke olhou para ele por longos instantes, antes de finalmente responder. – Eu converso com ela, de vez em quando. Conversas têm o hábito de revelar coisas feito essa. Ui. Aiden não gostou de levar o fora na frente da mulher que... desejava. E muito. Preferiu ignorar o irmão. – Você fala com a sua família, Christina? – interrogou. O dar de ombros deu a impressão de que ela não ligava, mas os dentes mordendo o lábio inferior diziam o contrário. – Não quando posso evitar. Mas, não tem problema. Eles também não fazem questão de falar comigo. Quando o fazem, é mais para gritar comigo do que qualquer outra coisa. Aiden notou que a mulher sentada com o pai de Christina era jovem o bastante para ser irmã dela. – E quanto à sua mãe? – Falo com ela com um pouco mais de frequência, normalmente quando ela liga. – Para ver como você está. – Não exatamente.


– Para o quê, então? Christina ficou em silêncio por um longo tempo. Aiden estava prestes a insistir, quando Luke declarou: – Ela quer dinheiro. Hã? – Pensei que seus pais tivessem dinheiro. – Meu pai tem. Minha mãe está na categoria da pobreza distinta. – Ah, ela sempre liga para pedir uma ajudinha. – Não. Após o meu primeiro ano de trabalho com Lily, ela aprendeu que eu estava falando sério quando disse não. Nem sei por que ela ainda se dá ao trabalho de ligar. – Eles se divorciaram quando você estava com... – Oito. A separação foi feia. Muito feia. É claro que mamãe lhe deu muita munição com que trabalhar. Romances extraconjugais. Abuso de álcool. Esse tipo de coisa. – E ele a deixou com ela? Aparentemente, a infância de James fora moleza comparada com a de Christina. – Homens de negócios já têm coisas demais na cabeça para ainda se preocuparem em criar uma filha. Isso deve ter magoado. Ainda mais para uma menina de 8 anos. – Ele basicamente pagou para que minha mãe me levasse, dando-lhe uma generosa pensão alimentícia, apesar de ela mesma não ter levado muito, devido aos inúmeros casos que tivera. Isso não a impediu de lhe pedir mais, afirmando que eu precisava de uniformes, ou livros novos para a escola, ou aparelhos para os dentes, qualquer coisa para arrancar mais dinheiro dele. – E funcionava. – Não com a frequência que ela gostaria. Mais fez de mim um problema para ambos. Desde então, não mudou muita coisa. – Christina brincou distraidamente com a salada no prato. – Será que podemos falar de outra coisa? Por favor? O restinho de sua empolgação anterior desaparecera de seus olhos. Aiden sentiu-se tomado de culpa. – Como é que ela se sustenta agora, sem a sua renda? – Do mesmo modo que antes. Sempre a caça de um homem para sustentá-la. Não foram poucos, houve até outro ex-marido; contudo, com a idade, está ficando cada vez mais difícil. Ela liga a cada dois meses em busca de dinheiro. Francamente, considerando que a maior parte de minhas despesas é bancada em Blackstone Manor, eu até tenho dinheiro para dar para ela, mas... – Seria apenas jogar dinheiro fora. Ela assentiu. – Exatamente. Em vez disso, abriu uma conta de poupança para ela, na qual deposito todo mês. Mamãe nem sabe que tem um fundo de aposentadoria. Agindo por conta de um desejo inesperado, Aiden estendeu a mão para cobrir a dela, acariciando os dedos, outra vez saboreando a sensação delicada de sua pele. Ela parecia pouco à vontade, com a conversa e com o toque dele. Christina não tinha o hábito de falar muito a respeito de si. Na verdade, sempre que se adiantava, estava advogando em favor de


outros. Apesar de ela frequentemente complicar os seus planos, forçando-o a ver todos os lados da questão, não podia deixar de admirá-la por isso. Aiden lembrou-se do que ela fizera para tentar conseguir atenção quando adolescente e de como ele tentara enxotá-la do único lar que ela fora capaz de criar para si. Cara, era mesmo um cretino. Ela conduzia a própria vida em uma direção muito mais saudável que muitas teriam feito na sua situação. Mais um motivo para admirá-la. Se ao menos não o fizesse se sentir ainda mais como um fracassado. Apesar de todo o seu sucesso profissional, jamais conseguira fazer tal sensação ir embora. O que significava que era ainda mais essencial manter distância dela. Ter qualquer tipo de relação com Christina era loucura. Mas a simples verdade é que não conseguia ficar longe. No fundo, não queria. Conhecia-se o suficiente para saber que jamais seria capaz de manter as mãos para si durante os próximos dez meses. A questão era: o que deveria fazer a respeito?


CAPÍTULO 12

CHRISTINA NÃO retraiu a mão com a velocidade que deveria, mas era difícil sabendo que, vindo de Aiden, aquele simples toque era tudo que teria. Ainda assim, ver o pai aproximar-se da mesa despertou mais emoções do que ela era capaz de lidar. Como era possível que, mesmo após todos esses anos, ainda tivesse esse efeito sobre ela? George Reece deteve-se ao lado da mesa, chamando a atenção de todos para si. O irmão de Christina vinha logo atrás. A altura e o cabelo escuro semelhante ao do pai, Chad era alguns anos mais novo do que ela; no entanto, de acordo com George, poderia muito bem ter sido filho único. Não tinha a presença do pai. Em vez disso, dava a impressão de um daqueles jovens com poucas responsabilidades e ainda menos motivação. Completando o trio estava Tina, a madrasta de Christina. Melhor dizendo, a mulher com quem o seu pai se casara. Afinal, tinha apenas 28 anos, ao passo que Christina tinha 26. Loura e bronzeada, tinha o corpo esbelto de quem malhava regularmente e o olhar vazio de uma mulher que não dava a mínima para a própria inteligência, sem falar nos seios postiços que a coroavam uma mulher troféu. George jamais gostara delas inteligentes. Seu olhar rodou a mesa, antes de pousar em Christina. – E então, garota, não vai me apresentar? Ela estremeceu. Recompondo-se, levantou-se lentamente e com graça deliberada, estendeu a mão. – Papai. Como vai? – Soube que tem andado ocupada. Mas ele não podia ter se dado ao trabalho de ligar, podia? Tina riu. Aiden também ficou de pé, na esperança de desviar a atenção de todos das faces enrubescidas de Christina. – Sinto não tê-lo reconhecido, sr. Reece. Já faz muito tempo – comentou Aiden.


– Estou certo de que morar tanto tempo em Nova York deve ter obscurecido suas lembranças da cidade natal. Luke, Jacob. Ele assentiu para cada um dos homens. Por fim, seu olhar se voltou para Christina. – Teria sido normal nos convidar para o casamento. Ainda mais quando estava se casando com um Blackstone. Não foi muito cortês de sua parte. Atrás dele, Chad sorriu. O pai gostava da sua posição social. Jamais lhe passara pela cabeça que o casamento fosse ser a única coisa a garantir a aprovação dele. Jacob e Luke ficaram de pé. Mas Aiden se pronunciou antes deles. – Levando em conta o estado de saúde de meu avô, achamos prudente manter a cerimônia bem íntima. – É – proferiu Luke. – Eu mesmo só soube quando já estava na hora de cortar o bolo. Christina corou ante a piscadela de Luke. As explicações pareceram melhorar o humor do pai dela. – Já está na hora de começar a tomar decisões dignas de sua herança. De agir como a dama que deveria ser, em vez de a mera criada de outra pessoa. Tina não pôde deixar de se meter. – É bem verdade que isso a ajudou a fisgar um marido rico. Luke murmurou algo que pareceu muito com “ninguém melhor do que você para saber”, distraindo Christina do sermão que estava por vir. O pai sempre criticara tudo nela. Por que haveria de ser diferente com sua carreira como enfermeira? Todavia, o humilhante é que isso acontecesse na presença de Aiden. – Christina não é uma criada. Sua carreira é ajudar quem precisa. Mas suponho que não saiba muito a respeito disso – falou Jacob, calmamente. – E por que eu deveria saber? – inquiriu George. – Que proveito tiraria disso? Ela quase pôde sentir a surpresa dos homens. Mas não dela. Conhecia o pai, talvez até melhor do que este supusesse. Seu negócio era tirar vantagem de tudo, e descartar seja lá o que não o ajudasse nesse sentido. Como a filha que jamais quisera. Aiden ignorou o comentário do pai dela. – Bem, os cuidados dela com certeza mantiveram a nossa mãe viva durante todos esses anos. Somos gratos a Christina por isso. Ela sorriu debilmente, e, logo em seguida, censurou-se por olhar para o pai para ver a sua reação. – E, de novo eu pergunto, que proveito ela tirou disso? – George não se conteve, mas ela podia sentir a fúria fervilhando nos homens ao redor da mesa. – Anos passados ao lado do leito de uma inválida, quando ela poderia estar conquistando o seu lugar de direito na alta sociedade da Carolina do Sul. Entretanto, é onde ela acabará, graças à sua linhagem e, agora, ao seu casamento. Com o tempo, as pessoas se esquecerão do seu passado assalariado e a verão como deveriam, como a esposa do herdeiro Blackstone. Christina exclamou de indignação, com as expectativas do pai destroçando o amor-próprio tão duramente conquistado ao cuidar de si mesma e de outros desde a faculdade.


Antes que pudesse se recompor, Aiden já dera a volta à mesa e estava postado diante do pai, seus poucos centímetros de altura a mais forçando George a olhar para cima. – Todo o trabalho dela rendeu algo para Christina... uma família que se importa com ela, ao contrário de doadores de esperma e óvulo que vocês são. Você não é um pai. O dever de um pai é proteger os filhos, não os diminuir. Desacostumado a ser confrontado, George abriu a boca. Mas Aiden não lhe deu chance de falar. Com um sorriso predatório, fitou o pai dela no fundo dos olhos. – Sendo assim, pode voltar para os seus afazeres. Christina está bem, sem nenhuma ajuda sua. E não espere ser convidado para a mansão. Preferimos um ambiente... agradável. O rugir nos ouvidos dela abafou a resposta de George, mas não deve ter sido muito impressionante, considerando os sorrisos compartilhados entre os irmãos. Aiden a defendera com a lealdade de um cavalheiro. Com os homens Blackstone rodeando-a, as lágrimas se acumularam nos seus olhos pela primeira vez desde que vira o pai do outro lado do salão. Seus defensores. Seus protetores. Seus amigos. Enfim, a família a encontrara. CHRISTINA LARGOU-SE na cama vazia, esticando-se o máximo que pôde. Nicole assumiria o turno da noite durante os próximos dias, permitindo a Christina a luxúria de sono ininterrupto. Ela pretendia aproveitar. Encolhendo-se, deitou de lado. Embora a mente ansiasse por descanso, o corpo recusava-se a relaxar, mesmo após o banho quente que tomara. O cair gentil da chuva lá fora deveria tê-la acalmado, porém, em vez disso, a mente não parava de trabalhar. Nem sequer saberia dizer o que em Aiden a fazia ansiar tanto por ele. As raras ocasiões em que trabalhavam juntos para solucionar um problema faziam sua mente cantar. Mesmo discutir com ele fazia a adrenalina vibrar por seu corpo. Mais do que tudo, seu toque, seu sorriso, faziam com que o coração dela ganhasse vida. E jamais esqueceria quando ele a defendera contra as críticas do pai. Ele estava sempre presente em seus pensamentos, contudo, conseguira se distrair a tarde toda planejando a feira. Convocara algumas mulheres para ajudar, dera inúmeros telefonemas, fizera listas, e, depois, acompanhou Jacob e Luke até a porta, quando Aiden os levou até o aeroporto. Ele a observara o dia todo, os olhos lhe acariciando o corpo, como se as mãos desejassem fazer o mesmo. Sabia que o foco dele era no carnal. Ele a queria. Seu corpo sabia disso, o que a deixou arrepiada e latejante. O que ela faria se ele tomasse a iniciativa, se se juntasse a ela mais uma vez na cama? A reação de seu corpo era evidente resposta. Se ele viesse até ela, Christina aceitaria seja lá o que Aiden estivesse disposto a dar. Ele era um vício. Por mais que desejasse que a amasse, contentariase com menos, apenas para tê-lo novamente. Por mais triste que pudesse ser, era a verdade. Desde criança sonhava em ter alguém que a quisesse pelo que ela era. Não por preencher o papel de filha. Não por causa do dinheiro que podia fornecer. Não por causa dos serviços que podia oferecer. Alguém que simplesmente quisesse Christina, e ponto. Aiden a queria por vários motivos. Mas, quando a tinha nos braços, ela sentia como se ele a quisesse por ela mesma. Simplesmente queria sentir isso outra vez. Havia razões demais para não


poder tê-lo para sempre. Escutou uma batida na porta e estava se virando para levantar quando esta se abriu e Aiden entrou, fechando a porta atrás de si. Com a camisa social desabotoada, deixando à mostra a musculatura trabalhada do torso, parecia à vontade. Adiantou-se com passos lentos, com os olhos fixos nela, deixando-a ofegante e trêmula. – O que está fazendo aqui? – indagou ela, levantando-se da cama. – Você não sabe? Ela forçou-se a estender os braços, detendo o avanço dele. – Aiden, precisamos conversar sobre isto. Não posso... – engoliu ela em seco – não posso ficar neste vai e vem. Preciso saber o que estamos fazendo aqui. Estendendo a mão, afastou o cabelo dela para trás da orelha, as costas dos dedos roçando na pele, deixando-a toda arrepiada. – Não estou de brincadeira, Christina. Queremos um ao outro. Falando por mim, não dá mais para ignorar. Ela ficou a fitar-lhe o rosto, esforçando-se para enxergar alguma coisa, uma resposta no tocante ao que estava lhe incendiando a paixão. – Quer dizer que sou conveniente. É isso? – Longe disso, minha querida. O modo como me faz sentir nada tem de conveniente. Adiantou-se até ele e, ficando na ponta dos pés, roçou os lábios nos dele. – Quero você, Aiden – sussurrou, enterrando profundamente o medo, tão fundo que nem mesmo ela era capaz de encontrá-lo. – E eu quero você, Cristina. Mais do que já pensei ser possível. – Ele gentilmente a empurrou de volta para o algodão macio da colcha e curvou-se por sobre ela. – Não se esqueça, estamos nisso juntos. – Por favor – murmurou ela, dando-se permissão para estender os braços para ele. – Eu preciso de você. Com um rosnado, ele apossou-se de sua boca, a língua mergulhando profundamente. Aiden foi de zero a cem em questão de segundos, como se houvesse descartado suas reservas, assim como fizera com a camisa. Ela não conseguiu mais resistir. O desejo a consumia por completo. Independentemente do que acontecesse depois, tinha de tê-lo. Aiden lhe devorou a boca com devastadora habilidade. Primeiro, contornou os lábios com a língua, depois, mergulhou profundamente para explorar. Não se apressou, como na última vez em que estiveram juntos. Em vez disso, com o corpo cobrindo o dela, os braços ladeando-a, demorouse na sua boca. Ele lhe mordiscou o lábio inferior, gemendo baixinho na garganta. O corpo todo de Christina despertou. O anseio de voltar a lhe sentir as mãos na pele era devastador. Retribuiu os beijos com toda a intensidade crescendo em seu íntimo. Quando não foi o suficiente, arqueou o corpo, colando-se a ele. Após longos momentos, ele recuou, até mal estarem se tocando, no entanto, próximos o bastante para que suas respirações se confundissem. – Vou possuí-la tão lentamente, Christina, até tocar cada parte de você.


Aiden estava completamente focado nela, como se, seja lá qual fosse a barreira que estivesse mantendo erguida entre eles, esta tivesse sido destroçada. Por um instante, a excitação travou a sua respiração na garganta. Depois, ela veio com toda força. Como se as barreiras houvessem sido completamente derrubadas. Mergulhou ambas as mãos no cabelo castanho dele, puxando a sua boca de volta para si. Cedendo às súplicas dela, as mãos de Aiden deslizaram pelos braços desnudos, saboreando a pele com demoradas carícias. Ele a tocou repetidamente, como se não conseguisse se saciar. Deslizando as mãos pescoço acima, ele de novo lhe ladeou o rosto com elas, de modo a poder beijála. – Tenho de senti-la, Christina. Tenho de sentir mais de você – falou, estendendo a mão para a bainha da blusa dela. Impaciente, puxou a peça por sobre a cabeça de Christina com um único movimento, lhe deixando o torso nu ante seu olhar ardente. Sem qualquer vergonha, ela se esticou, oferecendo-se para ele, desesperada pelo toque de Aiden. Ele deu o que ela queria. As mãos largas envolveram os seios, massageando-os e provocando os mamilos sem dó nem piedade. Acariciando de suas costelas até os bicos, ela os sentiu intumescer, apenas para ele. Aiden a recompensou com lambidas e mordidas gentis, até ela não ser capaz de conter os gritos brotando na garganta. Cada toque preenchia um vazio em seu íntimo, um espaço há muito abandonado. As mãos de Aiden não eram o suficiente. Sem mais inibições, ela lhe envolveu a cintura com as pernas, tentando puxá-lo para si. Como se seus pensamentos estivessem ligados, ele curvou-se para esfregar o peitoral no dela. Christina gritou de prazer, arqueando-se em uma tentativa de manter ao máximo possível o contato com ele. Suas mãos agarraram-lhe as costas, saboreando a sensação dos músculos retesados. Com um rosnado, ele ficou de pé, com o olhar fixo no dela ao abaixar o zíper das calças. Ela queria olhar enquanto ele se revelava para ela, ansiosa para deliciar-se com seu corpo em toda a sua glória. Ficando de joelhos, ela mais uma vez colou a boca à dele. Aiden a puxou para si, enquanto suas mãos quentes lhe acariciavam as costas, deslizando para baixo, de modo a mergulhar por baixo do elástico da calça do pijama. A sensação de Aiden agarrando-a e massageando-a fez com que Christina se derretesse por dentro. Onde antes houvera fogo, agora havia um inferno. Com um empurrão de leve, ele a jogou de volta para o colchão, despindo-lhe a calça. As coxas se afastaram, ansiosas por atenção. Achou que ele fosse penetrá-la rapidamente, mais isso seria fácil demais. Curvando-se na cintura, ele, novamente, enterrou o rosto em seu âmago, provocando o caos. Dando cabo do pouco autocontrole que ela ainda tinha. Língua e dedos brincavam com habilidade devastadora, levando-a à beira do precipício, antes de Aiden recuar. O rosto dela ardia quando ele pegou a pequena embalagem de papel alumínio do bolso da calça, embainhando-se com habilidade. Nada de família, por mais que ela pudesse sonhar. Flexionando os braços musculosos, ele enganchou as mãos sob os joelhos dela e puxou, arrastando-a até a beira da cama, posicionando-a com perfeição para sua entrada. Sua urgência


deixava evidente um desejo desesperado. Para tê-la. Por Christina. Pela satisfação que o corpo dela poderia proporcionar. Satisfação que estava mais do que disposta a dar. Incomumente desinibida, ela afastou bem as pernas, curvando os joelhos de modo a descansar os calcanhares na beira da cama. Ele curvou-se para a frente, guiando sua rigidez até seu ardor líquido. Ela ergueu os quadris, ansiosa por aquele primeiro toque. Veio cedo demais, e não cedo o bastante. Ele sibilou quando sua carne encontrou a dela, cerando os dentes. Foi penetrando lentamente, centímetro por centímetro, depois, recuou outra vez. Sentindo cada vestígio de pressão ao ser alargada, Christina esforçou-se para ficar imóvel. Queria sentir cada centímetro. Mas seu âmago se recusou a lhe dar ouvidos. Os músculos internos apertaram-se ao redor da extensão invasora, acolhendo-a com carícias. A respiração de Aiden mudou. Bufou o nome dela, os pulmões esforçando-se para acompanhar o ritmo. O autocontrole de Christina despedaçou-se. Em questão de minutos, a cabeça dela estava se debatendo de um lado para o outro, as mãos agarrando os lençóis sob si. A parte inferior do corpo de Aiden engatou a quinta marcha, arremetendo vigorosamente para dentro dela, deflagrando explosão após explosão, enquanto as sensações atingiam seu ápice. O tempo todo, os lábios estavam colados ao mamilo, intensificando ainda mais o turbilhão que se espalhava por suas terminações nervosas. Em questão de segundos, o orgasmo explodiu em seu íntimo, apossando-se de seu corpo e rugindo em sua mente. As mãos dele agarraram o ombro dela e Aiden se enterrou o mais fundo que pôde em Christina, antes de ficar paralisado com uma expressão de atordoado êxtase. Ela saboreou cada suspiro, cada toque. Orgulho e satisfação penetraram seu estado de torpor. Aiden desabou sobre ela. Seus dedos desenharam trilhas ao longo dos músculos das costas dele, enquanto contava as batidas de seu coração. Aquilo era tudo pelo qual ansiara durante tanto tempo. Aquele homem. Aquele momento. Aquela paixão. Fora mais do que poderia ter esperado.


CAPÍTULO 13

AIDEN FICOU deitado, colado às costas de Christina. Jamais fora do tipo de ficar de conchinha. Todavia, fora atraído até ali apenas pela sensação de que... parecia ser a coisa certa. O tempo todo que passaram deitados juntos, a mão dele moveu-se como um rio lento e sinuoso, acariciando qualquer de pele que estivesse ao alcance... os braços, as coxas, os quadris, os seios. Não conseguia parar. Como se ela fosse uma gatinha ronronante, o corpo de Christina mostrava a sua apreciação, talvez até sem a permissão dela. Não deveria estar ali deitado com ela. Diabos, jamais deveria ter vindo até o quarto dela. Mas a verdade é que não conseguira se conter. Jamais tivera esse problema com outras mulheres. Sempre fora capaz de ir embora no dia seguinte. Entretanto, agora que se convencera de que poderia tê-la, não havia como voltar atrás. Apesar das circunstâncias, não via a hora de tê-la de novo. As palavras suavemente ditas de Christina o distraíram da luxúria que lhe percorria as veias. – O que o levou a mudar de ideia? – Sobre o quê? – Sobre estar comigo? Pela hesitação de Christina, podia perceber que, no fundo, ela não queria explorar aquele assunto em especial, de modo que não pôde deixar de admirá-la por sua coragem. Se iam ser íntimos entre si, ela merecia saber parte do que se passava pela cabeça dele. Melhor saber o motivo, e por que chegaria ao fim, do que permitir que o coração se emaranhasse em algo que não duraria. Ele suspirou, repousando a mão sobre os quadris dela. – Ainda não aprendeu nada a meu respeito, Christina? Ela estremeceu. – Como assim? – Sou do tipo imprevisível, que faz o que lhe dá na telha, e depois se arrepende. O que houve entre nós na noite passada não foi sua culpa nem minha. Foi resultado da atração entre nós. Ele roçou os quadris nela, deixando claro que a atração a que se referira em nada perdera a intensidade. Na verdade, sentia-se mais voraz por ela do que meia hora antes.


Ergueu-se de modo a ficar com o corpo empoleirado sobre o dela, e Christina deitou-se de barriga para cima. Ele a fitou nos olhos. – Ainda ficaremos aqui, nesta casa, juntos, por um bom tempo. Independentemente de como aconteceu, temos os mesmos objetivos... cuidar de Lily e garantir a viabilidade da fábrica. Enquanto isso, não há como ignorar o que você me faz sentir. De modo que, a não ser que me diga que isto não é o que deseja, acho que deveríamos aceitar isto como uma conexão da qual ambos poderemos nos beneficiar, apesar da situação. Por longos instantes, Christina ficou imóvel. Aiden estava sendo sincero, algo que nem sempre era apreciado. Ambos queriam se proteger, porém, não havia motivo para não aproveitar o desejo entre eles enquanto este durasse. Ele apenas teria de se certificar de que não fosse mais longe do que isso. CHRISTINA ACORDOU sobressaltada, com o coração batendo rápido, o corpo pronto para fugir correndo. A desconfiança de que esquecera algo importante passou por sua cabeça. O que seria? Será que era importante? Olhou para o relógio, apenas para perceber sua visão impedida por um peito nu repleto de pelos escuros. Sob o seu olhar, Aiden virou-se para ela. – Bom dia, linda – murmurou. Sentiu-se derreter em seu íntimo. Que maneira fabulosa de começar o... O dia! Erguendo-se, Christina olhou para a hora no relógio e levantou-se da cama com um salto. – Christina, aonde você vai? – Estou atrasada – falou, trancando-se no banheiro. Mal escovara os dentes e o cabelo antes de sair mais uma vez. Aiden estava sentado na beira da cama quando ela passou, seguindo para o armário, de onde retirou um conjunto de pijamas cirúrgicos. – Não acredito que dormi até tão tarde – falou, tentando concentrar-se em vestir-se, o que era difícil, considerando que jamais tivera um homem observando-a enquanto o fazia, ainda mais um que a fitava com tanta intensidade que parecia querer decorar as suas curvas. – Não é de se surpreender – falou Aiden, em tom de provocação. – Afinal de contas, eu a mantive acordada até bem tarde. Bem tarde era pouco. Ele viera até seu quarto depois das dez e a acordara duas vezes após terem apagado as luzes. Não que a insaciabilidade dele a incomodasse. Estivera tão disposta quanto ele. – Estou certa de que, mesmo sabendo que não vou prestar para nada o dia inteiro, não se arrepende nem um pouquinho – retrucou ela com um sorriso sedutor. – Nem um pouquinho. Ela se deteve na porta e olhou por sobre o ombro. A tristeza no sorriso dele fez com que seu coração se apertasse. Até onde Christina sabia, ele não estivera para ver a mãe desde aquela conversa no meio da noite que ela escutara. Mas não podia forçá-lo. A decisão tinha de ser de Aiden. – Tenho de ir trabalhar – avisou. Ele assentiu. O sorriso desaparecera. Ela forçou-se a ir embora.


Quando Christina adentrou o quarto de Lily, Nicole ergueu os olhos dos livros que estava guardando. – Eu já ia bater na sua porta – comunicou ela. – Desculpe o atraso. Pronta para o questionário de hoje? – Mais pronta, impossível... A voz de Nicole falhou, fazendo com que Christina olhasse por sobre o ombro. Aiden estava postado na porta de ligação, usando apenas a calça. Virando-se, Christina viu o largo sorriso de aprovação no rosto de Nicole. – Obrigada, Nicole – falou ela baixinho, ruborizada. Não estava acostumada a ter a vida particular exposta para o mundo. A outra mulher deixou o quarto, e Christina deu início à sua rotina de verificar o pulso e a temperatura de Lily. Notou que Aiden adentrara o quarto, apoiando-se no encosto de uma poltrona. Ele manteve-se a distância a postura reservada, enquanto ela falava com Lily. – Como se sente esta manhã, minha querida? Nicole cuida bem de você, não cuida? Devia ser doloroso para ele ver a mãe daquele jeito. Daí ele evitar aquele quarto. Queria lhe dizer que isso não era incomum. Que ele não era o único. Mas preferiu falar: – Percebo que nunca passou muito tempo em um quarto de doente. Os olhos dele se arregalaram antes que a mesma expressão impassível reaparecesse. – É tão óbvio assim? Suspirando, ela afundou na poltrona do outro lado da cama. – Costuma ser difícil para família e amigos em situações como esta – falou ela, sorrindo para Lily, a mulher que se tornara uma mãe substituta para ela antes do acidente. – Não só é doloroso vê-la doente e sem qualquer reação, mas é uma situação constrangedora. É muito mais fácil para enfermeiras que têm monitores a verificar e exercícios a realizar, e tarefas como dar banho e vestir. Temos um propósito, um trabalho a fazer. Podemos ser úteis – engoliu ela em seco –, tanto para o paciente quanto para as famílias. E ela provara ser mais útil do que jamais pretendera. – Há quanto tempo trabalha aqui? – questionou Aiden, adiantando-se até a janela. – Quase cinco anos. Algo pelo qual era grata, pois, após o acidente, lhe permitira retribuir um pouco a Lily tudo que esta fizera por ela, sendo alguém que se importava com o sucesso ou o fracasso dela quando estava na faculdade. A relação das duas se fortalecera ainda mais antes do derrame deixar Lily em coma. – Eu estava visitando Lily um dia, quando James me chamou até o gabinete e me ofereceu o trabalho de cuidar dela, morando aqui. – Ele a convidou? – Foi. No início ficara feliz. Só mais tarde é que se dera conta de como ser a enfermeira de alguém que se amava podia ser duro, ainda mais sabendo que ela provavelmente jamais se recuperaria. Aiden prosseguiu. – Não estava procurando trabalho?


– Eu tinha um fundo fideicomisso estabelecido pelo meu pai que me ajudou durante a faculdade, de modo que não estava planejando ativamente buscar trabalho até o semestre seguinte. O meu último. – Esperta. – Assim que tirei o diploma, vim morar aqui, oferecendo assistência a Lily com os exercícios e as atividades diárias. Apesar da paralisia decorrente do acidente automobilístico, os anos antes do derrame foram bons. A verdade é que ela montara uma vida ali, amando Lily, Nolen, Marie, Nicole e o restante dos empregados como se fossem a sua família. Blackstone Manor não era apenas seu lugar de trabalho, era seu lar. – Bons anos – sussurrou, voltando os olhos úmidos de lágrimas para as feições tranquilas de Lily. As últimas semanas a haviam deixado muito emotiva. – Como aguenta vê-la desse jeito? – interrogou Aiden, surpreendendo-a ao falar do pé da cama. Quando é que chegara tão perto? O rosto dele, antes tão composto, agora refletia um turbilhão de emoções. Não evitara a mãe porque não queria vê-la. Era justamente o contrário. Mas queria vê-la como ela era antes que o acidente mudasse tudo. Ela podia entender. – Porque eu a amo. Ele fitou intensamente Christina, como se quisesse verificar a autenticidade de suas palavras. Eram verdadeiras. – E se fosse culpa sua ela estar deitada aí? – inquiriu Aiden. Christina sentiu o coração apertar-se. – O que quer dizer? – forçou-se a perguntar. A mão dele tremia ligeiramente quando apontou para a mãe no leito de hospital. – Quero dizer que isto é tudo culpa minha. – Por quê? – Ela veio me ver, porque eu era egoísta demais para me curvar às exigências de James e vir até Blackstone Manor. Passamos alguns dias indo a galerias de arte e a peças de teatro. Ela adorava o lado criativo de Nova York. – Aparentemente sem notar, ele envolveu o pé de Lily com a mão. – Não sei se você se lembra do dia do acidente dela. Christina lembrava-se muito bem. O tempo ruim. Os alertas de tempestade. – Ela me contou que queria ir logo para casa, e não esperar que o tempo melhorasse – alegou Aiden. – Afinal, o sol ainda estava alto. Mas a coisa piorou e muito. Por que ela não parou? – Ele voltou a apertar o pé da mãe. – Eu deveria ter insistido para que ela esperasse. A culpa foi minha. O pé de Lily contraiu-se. O batimento cardíaco até agora tão constante na tela do monitor acelerou-se. Erguendo as mãos, Aiden deu um salto para trás. Pálido, ficou olhando para a mãe. – Está tudo bem, Aiden – falou Lily, adiantando-se até ele. – O que... foi isso? – indagou ele. – Lembra que eu adverti que o coma da sua mãe não é um estado constante? Pacientes em coma podem passar de um estágio para o outro, antes de voltar ao coma profundo. Ele assentiu, mas ela não teve certeza de que ele compreendia.


– Às vezes significa que eles respondem a coisas como clima, temperatura, toques. Às vezes podem até abrir os olhos e sentar-se antes de voltar ao coma minutos, ou até horas, depois. – A minha mãe já... – Sentou-se? Ele assentiu. – Não. – Ela acariciou o braço de Aiden. – Já desejei muito que ela o fizesse. Às vezes acho que esses episódios são o jeito dela de me deixar saber que ainda está aqui. Mas, na verdade, podem ser apenas reações físicas involuntárias. Para a surpresa dela, ele a envolveu com os braços, abraçando-a apertadamente. Nenhum dos dois ligando para o que levara àquele abraço, apenas se entregando a ele por longos momentos. Quando ele por fim recuou, ela decidiu dar a Aiden o que este mais precisava, quer se desse conta disso ou não. Pousando a mão no braço esculpido, murmurou: – Estou certa de que, independentemente de tudo, ela amaria o fato de você estar aqui. E, ao longo dos últimos dois anos, ela aperfeiçoou muito a sua capacidade de escutar. Por que você não começa com: “Oi, mãe”? Ignorando o retesar dos músculos sob os dedos, Christina deu meia-volta e afastou-se. Dar a Aiden a chance de curar as feridas provocadas pela separação entre ele e a mãe era o mínimo que ela poderia fazer por ambos. Se ao menos pudesse ficar com ele ao final de tudo.


CAPÍTULO 14

– AINDA ESTÁ um pouco cedo para o festival da colheita. Ano passado organizamos com a ajuda da escola. O que vocês acham que podemos fazer para aprimorar este festival, senhoras? – questionou Christina. Estava rodeada por um grupo de mulheres que adorava trabalhar juntas para o bem da comunidade. – Estou tão empolgada – confessou Mary Creighton, batendo palmas, como se fosse uma criança. – Já faz muito tempo desde a última vez que tivemos uma feira de verdade no condado. – E temos espaço de sobra para fazer o que bem entendermos – opinou Jean Stanton. – Será bom ter algo para nos distrair depois de toda essa... Ela se calou ante o olhar severo da outra mulher, mas a curiosidade de Christina já fora despertada. – Está tudo bem, Mary. Preciso saber dessas coisas. Continue, Jean. – É só que, com essa economia, tem sido duro pensar no que pode acontecer com a fábrica, após a doença do sr. Blackstone. Depois, começaram os rumores de estranhas ocorrências na fábrica e tudo mais... Christina não sabia que as ocorrências perturbadoras eram de conhecimento comum. Evidentemente, os funcionários tinham suas próprias ideias. – Eu sei, Jean. E, pode acreditar, Aiden e o sr. Bateman estão fazendo o possível para dar um fim a isso. – Que bom. Ainda mais após a falha no equipamento na semana passada – acrescentou Avery Prescott. – Saber que ele está pessoalmente envolvido nisso é tranquilizador para todo mundo. – Bem, quanto à feira... – insistiu Christina. – Bem as atrações já foram contratadas. Mas que tal um daqueles tobogãs de encher para as crianças? – Ou uma cama elástica? – É uma pena que KC não está na cidade – comentou Mary. – Ela sempre tem boas ideias para diversão adulta – falou, com uma expressão maliciosa.


– Hummmm... Algo que faça bem aos olhos? Eu estava pensando em pedir para Luke vir no final de semana em questão – anunciou Christina. – Ele poderia trazer o carro para ser exibido, assinar autógrafos... Estou certa de que é uma combinação que agradaria a homens e mulheres. A mais jovem do grupo, na ausência de KC Gatlin, Avery tratou de opinar. – Que tal uma barraca vendendo beijos? Acha que ele toparia isso? Porque o homem é mais delicioso do que algodão doce. As outras mulheres trataram de concordar. – Ainda mais com aquele uniforme de corrida – mencionou Mary. – O bumbum dele é mais firme do que... – Estão falando de mim, senhoras? Christina sentiu-se enrubescer por completo ao escutar a voz de Aiden. As mulheres ao redor dela gelaram, uma olhando para a outra com os olhos arregalados, até deixarem escapar risadinhas. Christina tentou manter o autocontrole ante o sorriso sexy de Aiden, mas seus pensamentos a traíram com imagens do corpo nu de Aiden. Ah, isso não ajudava em nada. – Aiden, estas são as senhoras que estão trabalhando comigo na feira. – Quem bom – disse ele. – Não tenho como agradecer o suficiente. Ele trouxe o charme para a mesa, e todas as mulheres na sala se derreteram. Até mesmo Christina. Especialmente Christina. A ardência naquele olhar, voltado para ela, a deixou toda arrepiada. Poderiam muito bem ter estado a sós no aposento. E, em seu íntimo, a esperança frágil de que ele pudesse ficar floresceu por completo. Ele virou-se e com um ligeiro aceno, afastou-se. Christina sabia que ele estaria no quarto dela quando subisse. No quarto deles. Só podia torcer para que aguentasse esperar tanto. Mary abanou-se. – Ah, garota. Que pão. Deve ser coisa de família. É uma mulher de sorte. Christina ficou ali sentada, o rosto ardendo cada vez mais enquanto as outras mulheres teciam elogios para o seu marido. – Tão alto. E todo aquele cabelo escuro. – E aqueles olhos escuros. – Avery estremeceu. – Tão intenso. – Viu os músculos dos braços? – interrogou Jean. – Ele podia me carregar para onde bem quisesse. Algo dos pensamentos de Christina deve ter sido revelado na expressão do seu rosto, pois as risadas cessaram. – Ah, querida – pronunciou Mary pousando a mão em seu braço. – Por acaso a estamos deixando constrangida? A vontade de Christina foi gritar: Sim! Contudo, preferiu morder a língua. – É claro que estamos – afirmou Avery. – Não foi nossa intenção, Christina. – A preocupação estava evidente em cada palavra de Mary. – É sério. Christina sorriu compreensivamente. Mary deu de ombros.


– Meu marido sempre declarou que falo demais. Christina sorriu. – Não faz mal. O alívio estampou-se no rosto de Mary. – Que bom. Por sorte, naquele instante, a porta voltou a se abrir, revelando Nolen com uma bandeja de guloseimas. O grupo levantou-se e o acompanhou até a mesa no outro lado do aposento, onde ele serviu os comes e bebes. Christina estava para se juntar as outras quando Avery fez sinal para que ela ficasse. – Você está bem, Christina? – Claro. Avery era uma boa amiga. Não haviam sido muito chegadas quando criança, no entanto, reconectaram-se quando Avery retornara à cidade, após conseguir o seu diploma de fisioterapeuta. Ambas eram solteiras, tinham a mesma idade e, como não tinham muito em comum, inclusive nenhum interesse no mundo de noitadas, podiam conversar facilmente sobre quase tudo. Com as outras mulheres se dispersando ao redor da mesa, Avery pegou algo para beber, mas os olhos azuis ficaram firmes em Christina. – Sinto como se todo mundo soubesse por que nos casamos e vai julgar tudo que eu proferir. – Não estão julgando você – falou Avery, tomando a mão de Christina na sua. – A maioria está feliz, pois o casamento traz consigo um senso de estabilidade. Cristina franziu a testa. – Para os empregos de tudo mundo? Avery assentiu. – E pelo futuro. Os motivos por trás disso não são da conta de ninguém além de vocês. Tudo que lhes interessa é que um dos netos Blackstone tem motivo permanente para ficar aqui e a fábrica continuará a ser administrada pela família. As pessoas sentem que podem confiar na família para não as abandonar. – Isso é o que me deixa perplexa. Elas não conhecem Aiden. Não o homem que ele se tornou. Avery sacudiu a cabeça. – Não importa. Ele é familiar, o que sempre é melhor do que o desconhecido. No que dependesse de Christina, ele não desapontaria. Como Aiden tinha suas próprias ideias, não havia garantias. Mas, ah, como ela desejava que houvesse. Até agora, ele trabalhara duro por Black Hills. Se ao menos ele fosse ficar. – Não vou insistir – prosseguiu Avery –, mas você sabe que estou aqui se precisar conversar, não sabe? Christina sorriu. – Obrigada. Avery deu de ombros, antes de direcionar a conversas para questões mais mundanas, ajudando Christina a relaxar. Era exatamente do que ela precisava. Um projeto para ocupar-se. Amigas para distraí-la.


Sem preocupações com o futuro. Nada de homens atraentes para virar seu mundo de pontacabeça. A VIDA constantemente tomava rumos inesperados. Christina passara a vida inteira indo a restaurantes e a filmes sozinha, passando os dias de folga em cafés ou em livrarias. Todavia, ao olhar ao redor da mesa de jantar, um mês mais tarde, enfim entendeu que não estava mais sozinha. Era para isso que família servia. – Tenho uma ideia – mencionou, chamando a atenção de todos. Jacob e Luke estavam na cidade para a feira. Nolen e Marie espiaram da porta. – Acho que deveríamos todos ir juntos à feira. – Feira? – falou Marie. – Desde criança que não vou a uma. – Estava trabalhando nela ontem à noite, e parecia tão empolgante. Sempre quis ir a uma. – Jamais foi a uma feira? Nem mesmo a do condado, quando era criança? – inquiriu Jacob. – Definitivamente tem de ver o que estava perdendo. Nolen, que adentrara o aposento trazendo uma bandeja com o café após o jantar, proferiu um alerta. – Não é seguro ir sozinha, srta. Christina. Os homens deveriam levar as damas. Luke concordou. – Eu não perderia por nada. Mas tinha de haver um estraga-prazeres. – Tenho relatórios para terminar – avisou Aiden, aceitando sua costumeira xícara de café preto de Nolen. – Mas Luke jamais encontrou uma montanha-russa de que não gostasse. – Ah, Aiden apenas não quer que ninguém saiba o amarelão que ele é – provocou Luke. O rosnado de Aiden foi acompanhado da animação de Christina. – Ah, conte-nos. – Luke – alertou Aiden. – Eu o machucarei. Uma expressão de falso terror tomou conta do rosto de Luke, o que provocou risadas entre os presentes. – Nesse caso, eu não contarei que montanhas-russas o fazem vomitar como uma garotinha. Aiden deu um empurrão no irmão, fazendo com que ele caísse da cadeira para o chão. Fascinada, Christina ficou vendo os dois homens rolando sobre o tapete oriental. Os rapazes sempre haviam sido do tipo físico. Nolen calmamente deu a volta no emaranhado de pernas e braços se contorcendo para pousar o chá de Christina diante dela. Jacob simplesmente observava os irmãos com uma expressão divertida no olhar. Quando finalmente o empate foi decretado, ou cada homem proclamou sua vitória, eles ficaram de pé e continuaram conversando como se nada houvesse acontecido. O cabelo em desalinho de Aiden e a camiseta torta trouxeram pensamentos levados à cabeça de Christina. O coração bateu mais forte ao imaginar-se lhe arrancando a camiseta e lhe dando mais motivos para estar ofegante. Ela deu a volta à mesa e postou-se ao lado dele, onde passou o braço pelo dele. Fitou-o nos olhos e, a título de provocação, sugeriu: – Que tal apenas sentirmos o ambiente?


A risada de Aiden desapareceu, e Christina não pôde deixar de notar o silêncio que tomou conta do aposento. Subitamente, sentiu cada centímetro de Aiden encostado em si. Embora todos soubessem que compartilhavam um quarto de dormir, mesmo após a morte de James, jamais haviam levado a relação íntima além da privacidade do quarto em questão. Constrangida, ela deu um passo para trás, apenas para ter Aiden puxando-a para si. Os olhos dele estavam fixos em seu rosto, mas sua expressão não era de fúria, nem de irritação. Ele apertou-lhe o braço. – Parece uma excelente ideia. O corpo dela automaticamente relaxou e retribuiu o sorriso dele com alívio. Todo mundo se retirou, sob o pretexto de ir cuidar dos preparativos para a noite fora. Mas Christina e Aiden permaneceram abraçados. Ela engoliu em seco, o coração batendo forte. Para qualquer um, aquilo poderia parecer insignificante, mas ela sabia que Aiden não era do tipo de gestos grandiosos, e nem de pequenos. E ele não acabara de surpreendê-la pela noite. Inclinou-se para beijá-la, entretanto, deteve-se antes de chegar seus lábios entreabertos. – E então, Christina... virá à feira comigo? Ela engoliu em seco e esforçou-se para usar um tom zombeteiro ao dizer: – Está me convidando para sair, Aiden? – Acho que estou. – Ele cruzou o resto da distância roçando os lábios nos dela. Uma, duas vezes. – Mas devo alertá-la que não pretendo deixar seu beijo de boa noite na porta de casa. O coração de Christina bateu forte. Se ao menos aquilo fosse de verdade. Para sempre. Mas pôs de lado suas esperanças e agarrou-se à oportunidade com unhas e dentes. Porque a verdade é que poderia ter o agora, e todas as lembranças que criassem, para consolá-la nos dias solitários que teria pela frente. Após beijá-lo demoradamente, assegurou: – Acho que posso conviver com isso. Foi seu mantra durante as próximas horas, em que se deliciaram com maçãs do amor e outras guloseimas, sem falar nos brinquedos na feira. Estava longe de ser a mais lógica das mulheres. Praticidade deveria fazer parte de sua profissão, porém, apegar-se aos outros fazia parte de sua natureza. Precisava de proximidade, e Aiden satisfazia tal anseio como ninguém jamais fizera. Que ele estivesse disposto a fazê-lo sob os olhares de toda a cidade significava ainda mais. Estava perdida e feliz. – Sra. Blackstone, será que arrecadarão dinheiro o suficiente para o novo playground? Christina sorriu para o sr. Blackstone e para a família. Ela abaixou o olhar para a netinha do capataz. – Espero que sim, querida. Será bom ter um novo, não é? – Certamente que seria – disse a esposa de Bateman. – Dará aos pequeninos algo para fazer enquanto as mães estão trabalhando. – Isto foi uma grande ideia – falou Bateman, quando a esposa e a neta se afastaram na direção das barraquinhas de atividades. – Todo mundo está se divertindo. Christina não tinha como discordar.


– E o marcador do total de fundos angariados só faz subir. Acho que o novo playground está garantido. Bateman estendeu a mão. – Obrigado, Aiden. Precisávamos de um pouco de diversão por aqui. De alguém para investir na comunidade. – A ideia não foi minha. Agradeça a Christina. Eu apenas ofereci um pouco de trabalho e encorajamento. Por mais que Christina quisesse se deliciar com os elogios dele, ela apenas deu de ombros. – É mais fácil atravessar tempos difíceis quando o fazemos juntos. Bateman sorriu em sinal de aprovação. – Desde que as coisas continuem tranquilas na fábrica, acho que os rumores acabarão morrendo. Acha que a conversa com Balcher deu resultado? Aiden fitou ao longe. – Não sei. Ele não parece ser do tipo que desiste ante o primeiro obstáculo. Sinto como se o relógio estivesse correndo no tocante ao próximo passo dele. – Torçamos para que não – mencionou Bateman. Amém. Se ao menos ela e a cidade pudessem dizer o mesmo, Christina seria uma mulher feliz. Costumava ansiar por algo diferente, mas, agora, rezava para que nada mudasse. Não era realista, mas era verdade.


CAPÍTULO 15

– VOCÊ VAI entrar? – perguntou Aiden. Christina estivera estranhamente silenciosa durante o percurso até em casa. Ela, às vezes, ficava assim, e ele aprendera a lhe dar espaço para pensar. Luke, Jacob e Marie havia muito tinham retornado para a casa, que estava silenciosa e mal iluminada. A vontade de Aiden era tomar Christina nos braços e carregá-la para o quarto, mas algo o conteve. Era quase como se houvessem passado para um novo estágio, e ele devesse outra vez pedir permissão antes de introduzir intimidade. Pela lógica, sabia apenas que seus sentimentos haviam mudado. Mas e quanto a ela? – Não sei – confessou Christina. Ainda estava sentada no interior da caminhonete, olhando para ele no escuro, como se estivesse em busca de algo, mas ele não sabia o quê. – Aiden... – O que foi? – Estou com medo. As palavras mal registraram. Sua vontade era apagá-las, mas sabia que não podia. – Eu sei – acrescentou, por fim. – Sou um risco. Mas a maioria das coisas que queremos na vida é arriscada. Cabe a você saber como lidar com isso. Não querendo forçar a decisão dela com sua presença, Aiden foi embora, cruzando o gramado verde. Ao chegar ao salgueiro chorão, escutou passos correndo atrás de si. Ao virar-se, viu Christina cruzar em disparada o gramado e atirar-se nos braços dele. O impacto o desequilibrou, e caíram juntos no chão. Aiden se viu em uma posição muito privilegiada, com as pernas de Christina lhe ladeando as coxas e os seios comprimidos de encontro a seu peitoral. Na mesma hora sentiu-se enrijecer, sua ereção forçando o zíper da calça até quase estourá-lo. Arqueou-se de encontro a sensação, mergulhando mais fundo entre suas pernas. Acompanhou o olhar de Christina quando ela olhou ao redor e sorriu. A espessa cascata de galhos da árvore de mais de cinquenta anos os escondia do mundo lá fora. Era como um véu protegendo a mística descoberta um do outro. Christina apoiou as mãos nos ombros dele para


impedi-lo de sair do lugar, enquanto girava os quadris, roçando lentamente a parte mais íntima na extensão dele. O coração de Aiden disparou. Precisava dela. Agora. Os lábios de Christina encontraram os dele. A boca entreaberta. A língua mergulhando profundamente. Tudo que tinha a dar era espelhado nele. Traçando a parte interna de sua boca, ele a explorou, o ardor úmido despertando uma necessidade de enterrar-se nela. Não poderiam demorar muito. Aiden sabia que a voracidade de Christina crescia junto com a dele, a julgar pelo modo como acariciava seu peito e mordiscava seu lábio inferior. Podia sentir na pele sua respiração ofegante, o que só fazia intensificar sua urgência. Com um movimento ágil abriu-lhe a blusa de botões, de modo a poder lhe explorar a pele macia e a renda do sutiã. Recuando, ela mergulhou a mão entre eles, procurando o botão da calça dele. Logo em seguida, foi a vez do zíper. E o preservativo não veio muito atrás. Mal se deu conta de que estava deitado no chão duro, as mãos gentilmente apertando os seios cobertos de renda, enquanto a esposa se preparava para cavalgá-lo. Aiden estava no paraíso. O único pensamento que passava pela cabeça dele era o refrão de mais, mais, mais. Ela ficou de pé para tirar a calcinha, e ele mal se conteve para não a puxar de volta para si. Queria tudo da mulher que o confortava e não tinha medo de salientar quando estava errado. Mais do que qualquer outra coisa, precisava que ela lhe completasse a alma. Se já não estivesse tremendo, Aiden teria começado. Puxando a esposa de volta para si, postou-se em sua entrada e a guiou para baixo. Era letal ir tão devagar, contudo, subitamente, arqueou-se e deslizou ela mesma o resto do caminho. Deixando-o sem fôlego. Incapaz de ficar quieto, de permanecer sob a mercê dela, ele agarrou-lhe os quadris, estabelecendo um ritmo contrário com o próprio corpo. Aiden saboreou cada grito de êxtase que escapou de sua garganta. Na escuridão, pôde ver a silhueta linda de Christina em contraste com o fundo de folhas. Enquanto ia rumo ao apogeu, apenas um pensamento lhe passou pela cabeça: Minha. Com isso, enterrou-se o mais fundo que pôde, permitindo que o próprio peso do corpo dela o ajudasse. O grito dela misturou-se com o dele. Seu corpo contraiu-se ao redor do dele ao chegar ao ápice, levando-o consigo. Por longos momentos, sentiu apenas o calor da carne dela, o martelar de seu sangue e a vontade de jamais soltar. Antes que pudesse se conter, o primeiro pensamento coerente que se formou no cérebro entorpecido foi: Não acho que possa viver sem isto. Mas a separação logo veio. Cristina simplesmente deslizou para o lado e estendeu-se no chão a seu lado. – Preciso me levantar – anunciou. – Mas, por algum motivo, meus músculos não respondem. Ele riu, sentindo o som vibrar em seu peito. – Precisa ter cuidado. Pode me deixar viciado se resolver terminar todas as nossas saídas deste jeito. – Ah, acho que eu poderia conviver com isso.


Ao ajudá-la a levantar-se, soube que ele também poderia. Porque, por mais incrível que pudesse ser, estava apaixonado pela primeira vez na vida. CHRISTINA ESPANOU a grama da calça antes de vesti-la. Deveria estar envergonhada, ou constrangida, mas não estava. Aiden mal lhe deu tempo de vestir a camisa antes de puxá-la na direção da porta dos fundos. – Isto está se tornando um hábito. – Ela riu, ofegantemente, ao subir as escadas, rumo ao quarto. Christina dormiu profundamente, sentindo-se segura nos braços de Aiden. No entanto, a dura realidade de um telefone tocando a acordou. – Alô? – atendeu Aiden. Era impressionante como mesmo sua voz sonolenta era capaz de deixá-la arrepiada. – O que houve? A voz abafada do outro lado da linha parecia ser feminina, mas urgente. A assistente de Nova York? – Algum dano? Isso fez com que Christina se sentasse na cama. – Quantas pinturas arruinadas? Ela ficou observando-o, enquanto a assistente respondia. O que ele iria fazer? Sentiu-se egoísta, mas não pôde conter os pensamentos que pipocaram em sua cabeça. E se ele fosse embora e não retornasse? Por fim, Aiden encerrou o telefonema. – Ei – proferiu ao virar-se na direção dela. – Lamento tê-la acordado. – Sem problemas. O que está acontecendo? – Vazamento de água no depósito. Trisha conseguiu evitar o pior, mas algumas obras foram danificadas. Vou ter de dar um pulo até lá. A boca de Christina ficou seca. – Por quê? Ela já não cuidou de tudo? – Acha mesmo que sou o tipo de sujeito de deixar que alguém cuide de meus problemas para mim? Sabia que ele não era. Mas a simples ideia de Aiden partindo despertava tantos temores. Christina não respondeu, e ele não ficou esperando por uma resposta. Já estava pegando roupas limpas no armário. – Vou tomar uma ducha e fazer as malas. Verei qual é o primeiro voo, e Jacob pode me levar ao aeroporto. – E quanto à fábrica? – questionou ela, levantando-se da cama e vestindo um roupão. – Jacob já está se inteirando mesmo. Pelo tom brusco, ela pôde perceber que as indagações o estavam irritando, mas não conseguiu se conter. – Não acha que deveria falar com Canton primeiro? Aiden empertigou-se, com o maxilar se cerrando.


– Não. – O tom assertivo deixou claro que aquela fora a pergunta errada a fazer. – Não preciso pedir permissão a ninguém para fazer isto. Meu negócio é minha vida, e não vou perdê-lo por causa de um joguinho idiota que o meu avô quis fazer. Eu fui claro? – Mesmo que outros saiam prejudicados? Ele marchou até ela, com a intensidade do seu olhar quase perfurando-a. – Está insinuando que não estou cumprindo a minha parte do negócio? – Está insinuando que o que aconteceu aqui não passou de negócios? De novo, a coisa errada para se dizer, pois toda a cor abandonou o rosto de Aiden. – Eu vou – advertiu ele. As duas palavrinhas foram o suficiente para exaurir a raiva de Christina. Ela abaixou o olhar. Estragara tudo, deixando que suas inseguranças afastassem Aiden. Não que importasse, considerando que ele não via a relação deles como, bem, uma relação. – Tudo bem. Eu entendo. Ficaram ali postados em silêncio por longos instantes, mas ela se recusou a erguer o olhar, com receio que Aiden visse que seu coração estava se partindo. Ele iria embora de qualquer forma. O que ela queria não importava. Jamais importara. Por fim, ele murmurou: – Tenho de tomar uma ducha. E seguiu para o banheiro. Christina refugiou-se na sala adjacente do guarda-roupas até escutá-lo ir embora. Uma hora mais tarde, estava de banho tomado, vestida e sentada ao lado da cama de Lily, lendo para a amiga, quando a sua vontade era dar vazão às lágrimas que ameaçavam jorrar. Passos do lado de fora do quarto lhe chamaram a atenção. Ao erguer o olhar, deparou-se com Aiden, postado na porta. Quase que hesitantemente, ele adentrou o quarto, adiantando-se até chegar ao pé da cama de Lily. Em um tom muito mais suave do que antes, declarou: – Estou partindo. Eu ligo para avisar quando voltarei, assim que tiver uma ideia do que precisa ser feito. Ela assentiu, usando todas as suas forças para manter a expressão neutra. Fora ela quem metera os pés pelas mãos, exigindo algo pouco razoável, por conta do medo. Todavia, era melhor ela aprender logo a lição de que relacionamentos não duravam para sempre. – Entende o que estou dizendo, Christina? – Claro – forçou-se a responder. – Olhe para mim. Inspirando fundo, ela o fitou nos olhos. – Sim? – Eu entendo o que está em jogo aqui. Entende mesmo? – Sei que a cidade precisa de mim. Sei que Lily precisa de mim. – Ele hesitou, inspirando fundo, antes de prosseguir: – Eu voltarei. Prometo. E quanto a mim?


Ignorando os próprios pensamentos, ela simplesmente concordou. Ele ficou a fitá-la. O celular tocou, mas ele o ignorou. – Há algo que queira me dizer, Christina? Ela abriu a boca, inspirando o ar que poria para fora as palavras amo você. Palavras que, sem dúvida, ele não queria escutar. De modo que ela apenas sacudiu a cabeça. – Eu sempre voltarei. Eu prometo. – Lily também assegurou que voltaria. – Do que está falando? – O tom de voz dele voltou a ficar mais duro. – Sei que sou responsável pelo acidente dela. Que durante anos deixei que o orgulho falasse mais alto do que a minha vontade de vê-la. Não preciso que você saliente minhas responsabilidades para mim, Christina. – Não foi o que eu quis dizer. – O que quis dizer então? Pois eu não permitirei que use a minha culpa para me manter aqui. Mais uma vez, o toque do celular preencheu o aposento. – Acho melhor você ir. Assentindo, Aiden fez justamente isso, deixando-a para trás. Como todo mundo na sua vida fizera.


CAPÍTULO 16

OS PÉS descalços de Christina afundaram-se na grama úmida. Não aguentava mais ficar enfiada dentro de casa. Aiden partira havia cinco dias. O tempo que Canton comunicara para Jacob que ele teria para se ausentar. Após aquela noite, estariam em violação do testamento. Aiden não entrara em contato com ela, de modo que não fazia ideia se ele planejava ou não estar em casa amanhã de manhã. Quem dera ela tivesse a opção de escapar, mesmo que apenas por algumas horas. Devia ter enlouquecido. Como pudera estar tão desesperada por amor a ponto de confiar o coração a um homem que desde o início deixara claro que não ficaria? Algo a levou até o estúdio de Aiden, como se estando ali, pudesse significar estar com ele. Foi tomada de um momento de hesitação quando chegou à varanda do chalé. Aiden mantinha a porta trancada, mas a chave ficava pendurada junto com as outras no hall da casa. A porta abriu-se com facilidade. Ela adentrou o aposento escuro e tateou atrás do interruptor, em vez disso encontrando o abajur na mesinha ao lado da porta. O brilho fraco revelou o espaço de trabalho que Aiden tanto valorizava. Se fosse a mãe, que cansara de descontar as frustrações nas coisas do pai, antes do divórcio, teria colocado em uso a marreta que ali encontrou. Mas violência jamais fizera parte de Christina. Já a culpa... Passara boa parte da vida lidando com a culpa. Culpa pelo acidente de Lily. Culpa por não evitar o derrame de Lily. E culpa por não ter sido capaz de tirar a mãe da vida destrutiva que estava determinada a levar. Na esperança de se distrair dos incessantes pensamentos, Christina adiantou-se até a estante, para ver o progresso das peças que vira na última visita. Mesmo achando que haviam ficado tão próximos nos últimos meses, Aiden jamais a convidara para ir ali. Apesar de sua invasão da primeira vez, ela decidiu respeitar à vontade dele. Talvez não quisesse que ela conhecesse aquela parte de si? Talvez jamais tivesse tido a intenção de ir além do sexo com ela? Adiantando-se, passou os olhos pelas esculturas inacabadas. Até chegar a última estátua no canto. Pode identificar a silhueta de uma mulher sob a luz fraca. Christina. Seu olhar traçou a curva


do próprio queixo, as ondas abundantes de seu cabelo e uma expressão que não conseguia identificar. Deslizou os dedos hesitantes pelos contornos de seu rosto, fascinada com a suavidade da pedra. O cabelo chegava a ter textura. Por que ele haveria de criar aquela incrível obra de arte, usando, de todas as pessoas que poderia ter usado, ela como modelo? O que poderia achar de tão fascinante que teve de capturar na pedra? Christina sobressaltou-se ao escutar passos na varanda. Será que Aiden retornara? Será que ficaria zangado por ela haver invadido o seu espaço pessoal? Os passos sobre a tábua corrida da varanda pararam, dando a Christina a impressão de que, quem quer que fosse,dera a volta pela lateral do chalé. Adiantando-se até a janela, cautelosamente espiou lá fora. Chegou a tempo de ver alguns jovens correndo na direção da trilha de terra que levava à propriedade da fábrica. Dois se detiveram por um instante no pátio, conversando, e dando a ela a chance de ver os seus rostos. Reconheceu-os. Um ela não conhecia pessoalmente, mas já vira na cidade. O outro, Raul, trabalhava meio-período na propriedade da Blackstone Manor. Intrigada, viu os dois jovens se virarem e avançarem na direção da cerca, até perdê-los de vista no bosque que rodeava a propriedade. Um arrepio lhe percorreu a espinha ao pensar que estava sozinha no interior do chalé com homens rodeando o local. Não sabia ao certo por quê. Havia mais de um ano que conhecia Raul. Não era o mais simpático dos funcionários, entretanto, jamais fora rude ou preguiçoso. Ainda assim, algo naquilo a incomodava. Deveria esperar até terem ido embora para deixar o chalé? Ou correr o risco de que a vissem ao sair agora? E se estivessem observando do bosque? Resolveu correr o risco. Estava a cinco passos da porta quando notou a fumaça. O pânico tomou conta dela ao ver o vapor acinzentado passando por baixo da porta. Apesar do choque, chegou à conclusão de que os homens haviam ateado fogo no estúdio. Com ela dentro. Tinha de descobrir até onde as chamas haviam alcançado. Olhou novamente para a janela que o ar-condicionado não obstruía. A construção não era grande, e o mesmo podia ser dito das janelas. Mesmo que a abrisse toda, achava que não conseguiria passar por ela. A fumaça passando por baixo da porta começou a ficar mais espessa, alertando-a de que uma decisão não poderia tardar. Apesar de não ser a melhor opção, a porta parecia ser a única saída. Tocou de leve no metal da maçaneta para testar a sua temperatura. Estava quente, mas não queimando. Embora o coração estivesse batendo forte, e os olhos lacrimejando devido à fumaça, ela se forçou a agir. Segurando a maçaneta, inspirou fundo e a girou. Protegendo-se atrás da porta, abriu-a lenta e cautelosamente. Tarde demais, se deu conta de seu erro. A porta abriu-se violentamente, derrubando-a no chão. O que aconteceu? Atordoada, tentou se levantar, mas o corpo se recusou a obedecer. Através da porta agora aberta, viu as chamas devorarem a varanda, chamas que, agora, ainda baixas, invadiam o chalé. Mexa-se. Agora. Mas nada aconteceu. Sua visão começou a ficar turva.


Algo úmido escorria por sua testa. Fechando os olhos. Tentou pensar. Precisava sair. Não conseguia se mover. O que deveria fazer? AIDEN SAIU do piloto automático ao notar uma estranha luz tremulante em algum ponto do lado oeste da Blackstone Manor. Pisou no acelerador. Quanto mais perto chegava, mais o mau pressentimento se enraizava nele. Abrindo a porta da caminhonete, Aiden pôde avistar uma coluna de fumaça vindo da direção geral de seu estúdio. Praguejando, lembrou-se do alerta de Balcher para ele tomar cuidado. Será que o homem de negócios rival decidira atingir os Backstone mais perto de casa? Sentiu-se tomado de fúria. Se o homem queria mandar um recado, ele o mandara para a pessoa errada. Aiden se certificaria de que Balcher pagasse caro por aquele ato. Descendo da caminhonete, correu para juntar-se a Jacob e os outros no gramado. – O que houve? Jacob apontou para a casa. – Avistei a fumaça quando passei por uma janela e alertei Nolen. Chamamos o corpo de bombeiros, mas demorarão um pouco a chegar. – Quanto tempo? – Pelo menos mais dez minutos – respondeu Nolen. – Estamos reunindo mangueiras para conectar às torneiras externas da propriedade, mas não sei se adiantará muito. Eu lamento, patrão Aiden. – Eu sei, Nolen. Ele olhou para trás, para o grupo reunido no gramado. Nicole e Marie um pouco mais afastadas. Luke e o jardineiro vinham trazendo as mangueiras. As únicas faltando eram Lily e... – Onde está Christina? Os homens se entreolharam. O corpo de Aiden se retesou todo. – Ela ainda deve estar na casa – afirmou Jacob. – Alguma vez a viu não estar envolvida em algo que aconteça nesta casa? – falou Aiden, já correndo na direção do chalé, seguido do irmão. Uma eternidade pareceu passar antes que alcançassem a clareira. O calor era intenso, e a fumaça dificultava a visão, mas Aiden escutou algo. – O que foi isso? – Alguém pedindo socorro – falou Jacob. – Ela está lá dentro. Olhando ao redor, Aiden notou que a varanda já estava praticamente mergulhada em chamas. Não caberia pelas janelas. Mas precisava encontrar um ponto de acesso e rápido. Fitou os degraus da varanda. – Aiden, não! – gritou Jacob, mas Aiden não deu ouvidos. Se parasse para pensar, seria tarde demais. Deixar Christina lá dentro simplesmente não era opção. As chamas eram mais intensas ao longo das paredes do que nas tábuas do piso da varanda. Erguendo a gola da camisa, Aiden arrancou em disparada, rezando para que as tábuas aguentassem o seu peso. Mal cruzara o vão da porta quando deu de cara com Christina estendida no chão.


Ah, Deus, por favor, não. Seu coração voltou a bater quando ela ergueu ligeiramente a cabeça. – Venha, meu bem, vamos dar o fora daqui. – Aiden? – falou ela, debilmente, antes de começar a tossir. Erguendo-a por sobre o ombro, ele voltou-se para a porta. A fumaça tornava difícil enxergar alguma coisa, mas alguém parecia estar jogando água no fogo. Aiden apontou para onde as chamas estavam mais baixas e arrancou para fora do chalé, sendo recebido por um refrescante jato de água fria em meio ao intenso calor. O jardineiro e Nolen continuaram manuseando as mangueiras, enquanto Luke e Jacob o ajudaram com Christina. Estendida sobre o gramado, ela continuava a tossir. Quando ela virou de lado, Aiden notou o sangue escorrendo pela lateral do rosto de Christina. – Luke, dê uma olhada nisso – pediu, sabendo que, como piloto de corridas profissional, o irmão tinha conhecimentos de primeiros socorros. Luke apontou a lanterna para o rosto de Cristina. Ela encolheu-se, fechando os olhos apertadamente. – Acho que foi apenas um corte. Ferimentos na cabeça costumam sangrar muito. Os paramédicos que virão com os bombeiros poderão dar uma olhada melhor. Que bom que a ajuda estava a caminho. Aiden não dava a mínima para o estúdio. Sua única preocupação era aquela mulher. Estaria perdido se algo acontecesse a ela. Não demorou muito para o gramado da Blackstone Manor estar repleto de veículos e luzes brilhantes. Policiais, bombeiros e paramédicos estavam no local. Christina estava sendo tratada. Ela não olhava para ele, não solicitou a sua presença. A única vez que pronunciara o seu nome foi em um momento que provavelmente o assombraria pelos próximos vinte anos. Após os paramédicos terem cuidado de seus próprios ferimentos, Aiden foi em busca do irmão, que estava conversando com o bombeiro-chefe, dois policias e Bateman, usando um casaco de bombeiro-voluntário. – Sabemos o que aconteceu? – perguntou bruscamente, assim que se juntou ao grupo. Os homens se entreolharam, antes de fitarem Jacob, que assentiu para um dos policiais. Este apresentou-se para Aiden. – Pelo que conseguimos descobrir, por volta da hora do pôr do sol, cinco indivíduos tentaram atear fogo no chalé. Conforme o padrão das chamas, usaram acelerante e incendiaram vários pontos da construção. – Cinco indivíduos. Identificou algum deles? Jacob anuiu. – Raul, um dos jardineiros. – Já os têm em custódia? O policial sacudiu a cabeça. – Ainda não. Mas já estamos atrás deles. Não irão longe. – Se não os capturou, como sabe quem foi? – Sua mulher pôde identificar dois deles...


– Quer dizer que ela os viu incendiar o chalé? – Viu dois deles com clareza e identificou o jardineiro – disse o policial. – Os outros ela apenas viu correndo para o bosque. Ela só se deu conta do que acontecera quando se aproximou da porta. Deve ter sido aterrorizante perceber que o chalé estava pegando fogo. – O que ela estava fazendo aqui? Jacob sacudiu a cabeça. – Não sei ao certo. Aiden sentiu-se tomado de culpa. Deveria ter estado com ela. – De algum modo, ela bateu a cabeça ao abrir a porta – prosseguiu Jacob. – Acho que ela percebeu que não tinha escolha senão tentar saltar por sobre as chamas da varanda. As emoções de Aiden estavam ameaçando fugir ao controle. Embora tivessem deixado as coisas mal resolvidas, a semana longe apenas confirmara o que sentia pela esposa. Não sabia o que poderia acontecer. Porém, naquele instante, não importava. Tinha de estar com ela. Agora mesmo. Jacob veio atrás dele quando Aiden seguiu para as ambulâncias, onde um paramédico conversava com Marie. Um segundo paramédico guardava o equipamento. – Como ela está? – indagou Jacob, quando se aproximaram. Marie voltou-se para eles, com a preocupação claramente estampada no rosto. – Melhor, eu acho. Aiden espiou para dentro do veículo. Christina estava deitada em uma maca, coberta por um lençol branco, uma máscara de oxigênio lhe cobrindo a boca. Sangue empapado ainda lhe manchava a lateral do rosto, acentuando ainda mais sua palidez. Aiden virou-se para o paramédico a seu lado. – Como ela realmente está? – Os pulmões estão irritados devido à inalação de fumaça. Vamos levá-la para o hospital, para que fique sob observação. Tratamos algumas ligeiras queimaduras e o corte na testa vai precisar de pontos. Mas, tirando tudo isso, teve muita sorte. Aiden voltou a olhar para a mulher que era a sua esposa e com quem ele se recusara a entrar em contato na última semana, dividido entre irritação e desejo. O outro paramédico informou que estavam prontos para levar Christina ao hospital. O primeiro instinto de Aiden foi insistir em ir junto, para poder estar com Christina. Mas ela ainda não abrira os olhos, e ele não sabia se era porque estava dormindo, ou porque o estava evitando. Sem saber se seria bem-vindo, Aiden virou-se para Marie. – Será que você e Nolen poderiam ir atrás deles? Ela vai querer alguém com ela, e ainda preciso cuidar de algumas coisas aqui. Marie assentiu. – Eu os manterei informados. Até que possam vir, é claro. Para ser sincero, ele podia ser a última pessoa que Christina iria querer ver. – Avise-me no momento em que souber de alguma coisa. Estarei lá assim que acabar aqui.


Nolen conduziu Marie até sua caminhonete, e, em poucos minutos, eles e a ambulância estavam a caminho do hospital. Aiden voltou o olhar na direção dos destroços que haviam sido seu estúdio. A simples ideia de Christina lá dentro, lutando para sair daquele prédio o apavorava. A familiar sensação de culpa voltou a atormentá-lo. Só que, desta vez, não permitiria que esta o afastasse daqueles que amava. Não desta vez nem nunca mais.


CAPÍTULO 17

AIDEN APROXIMOU-SE cautelosamente do leito da mulher que amava. De acordo com os médicos, precisavam apenas monitorar os níveis de oxigênio dela. Mas seu corpo estava tão imóvel, virado de costas para ele. Estaria dormindo profundamente ou apenas fingindo para não ter de lidar com ele? Arriscando-se, sentou-se na cama ao lado dela e pousou a mão em seu quadril. – Christina – chamou. Ela não respondeu, mas Aiden a sentiu retesar-se sob seu toque. – Você está bem? Posso lhe trazer alguma coisa? Christina continuou a não responder, mas ele pôde escutá-la prender a respiração. – Christina, sei que estraguei as coisas, meu bem. Eu sinto muito. Sei que falei o que não devia, no outro dia. – Ele hesitou, buscando as palavras apropriadas, embora soubesse que fosse outra vez meter os pés pelas mãos. – Fiquei zangado. Você sabe, melhor do que ninguém, como perco o controle quando acho que estou sendo manipulado, mesmo sendo do túmulo. Pensou ter escutado um soluço. Ela estava chorando? – Sinto por ter partido daquele jeito. Sei que não liguei durante a semana, mas estava tentando pensar em uma maneira de pedir desculpas. Caso não tenha notado, tenho a tendência de agir antes de pensar. Quando algo significa muito para mim, demora um pouco para a cabeça alcançar o corpo. Aiden consolou-se que a escuridão do quarto lhe escondia a vergonha. Tantas vezes na sua vida, seus erros haviam magoado aqueles que amava. Estava destinado a ser sempre definido por seus erros? Inclinou-se mais para perto dela. – Sinto muito, Christina. Mais do que posso expressar. Sei que não pode me perdoar agora, e não tenho como provar o quanto eu sinto muito. Mas prometo que um dia eu o farei, Christina. Eu a compensarei por isto. Querendo senti-la, ele estendeu o próprio corpo sobre a cama, ficando de frente para as costas dela. Ficaram ali silenciosamente deitados por vários minutos, até que o corpo dela começou, aos poucos, a relaxar de encontro ao dele.


Aiden não conseguiu dormir. Pensou na mulher frágil em seus braços. E em como, desta vez, queria matar seus dragões. Jamais permitir que alguém a fizesse se sentir indesejada de novo. Só torcia para que ela lhe desse a oportunidade, antes que fosse tarde demais. TRÊS DIAS mais tarde, um exausto Aiden adentrou a delegacia de polícia local para encontrar-se com os delegados que estavam cuidando do caso do incêndio criminoso. Ele recebeu boas e más notícias. – Acho que conseguimos pegar os cinco. O jardineiro foi o último a ser apreendido, pois havia fugido para o condado vizinho. Será que pode confirmar que é o homem que foi seu empregado? Aiden concordou. – Conforme os outros envolvidos, o plano básico era destruir o chalé – o policial informou, quando já estavam na sala de reconhecimento. – Não faziam ideia de que havia alguém dentro. Aquele ali... – assentiu ele para o jardineiro – era o chefe do bando. Ele incentivou a coisa toda, dizendo que o senhor não merecia assumir a fábrica e que, mais cedo ou mais tarde, acabariam todos sem trabalho. Dizem que estavam tentando expulsá-lo. Aiden não se deixou convencer. – Por quê? Eles tinham de estar trabalhando para alguém. A questão era: para quem? Para o homem que queria a empresa de Aiden? Para alguém da região que não gostou da troca na administração? Ou alguma nova ameaça desconhecida? – Estávamos torcendo para que conseguíssemos que o sujeito abrisse o bico, mas não está parecendo muito promissor. Enquanto os outros cantaram como canarinhos, ele não deu um pio. Mas talvez com os colegas o entregando, possamos dobrá-lo. Vamos ver. Aiden inclinou a cabeça, observando o homem através do vidro de face dupla. Os olhos eram frios e duros, levando Aiden a perceber que não seria tão fácil assim. Balcher poderia ter lhe prometido muita coisa, inclusive mais dinheiro se ele ficasse de boca fechada. – Encontraram alguma coisa que o ligasse a Balcher? – questionou Aiden. Ele já mencionara o rival nos negócios para o policial. – Não. Ele estava em uma convenção, recebendo um prêmio diante de 500 pessoas na noite do incêndio. Os registros telefônicos do jardineiro não o ligam a Balcher. Aiden sentiu sua frustração aumentar. Queria que Balcher fosse o responsável, pois era o que mais fazia sentido. E queria dar um basta em definitivo nisto para Christina. Ela se fechara desde o incêndio. Com todo mundo. Não queria que ela se preocupasse com a própria segurança. Contudo, Aiden tinha a sensação de que, até que descobrissem quem estava por trás disto, ninguém estaria a salvo. – Avise-me se descobrirem qualquer coisa. O detetive anuiu. – Pode deixar. E, só para constar, eu queria dizer que apreciamos tudo que tem feito para manter a fábrica funcionando. Não deve ser fácil virar sua vida de ponta-cabeça, mas significa muito para o povo desta cidade. Pouco à vontade com o papel de salvador, Aiden deu de ombros.


– Pode agradecer a Jacob quando o vir. Ter alguém que entende do negócio tem feito toda a diferença. – Mas pretende ficar, não é? Aiden concordou lentamente. – Pretendo. Se Christina ainda me quiser. O outro homem assentiu, e, após despedir-se, Aiden seguiu para o carro, para voltar para casa. Era estranho como passara a considerar Blackstone Manor sua casa. Talvez estivesse enfim amadurecendo. O lugar agora estava repleto de família, mesmo Luke não podendo retornar com tanta frequência assim. Aiden estivera até conversando com um empreiteiro para construir um novo estúdio, junto com um armazém, de modo a poder transferir para cá a sua base de operações, em vez de Nova York. A mosca em sua sopa estava sendo Christina. Vê-la aparentando tanta calma era inquietante. Não fazia sentido, e Aiden sabia que não passava de fachada. E ele tinha a sensação de que também estava irrequieta porque não estava trabalhando. Havia contratado alguém para assumir os cuidados de Lily por algumas semanas, já que Christina tinha recebido instruções de pegar leve, enquanto seus ferimentos saravam. Sob pretexto de poder escutar caso Lily precisasse de algo durante a noite, Aiden insistira em dormir com Christina, mas ela se mantinha do seu lado da cama. Mas, todas as manhãs, acordavam na mesma posição. Aiden abraçado a ela, com as pernas entrelaçadas. Ela nada mencionava, e ele também não. Mas isso estava para mudar. Aiden receava que, se não fosse capaz de derrubar o muro que Christina erguera ao redor de si para se proteger, ele a perderia de vez. Ela já fora negligenciada vezes demais no passado para poder esquecer, de modo que viera tentando lhe dar tempo. No entanto, em vez disso, a cada dia que passava, ela parecia estar cada vez mais distante dele. Se ao menos ela lhe desse uma chance, poderiam ter um futuro juntos. Naquele instante, era o que Aiden mais queria no mundo. Mais do que tudo, inclusive a própria liberdade.


CAPÍTULO 18

ESTAVA CHORANDO por causa de sapatos. Christina sabia que estava em estado lastimável, mas aquilo já era demais. Sapatos eram sapatos. E, sentada diante da porta aberta do armário, sabia que não estava em condições de tomar decisão alguma. Pois escolher qual par de sapatos ela jogaria fora não deveria levá-la às lágrimas. Na verdade, seu descontrole emocional nada tinha a ver com sapatos, e tudo a ver com Aiden. O problema é que ele a estava tratando como uma figura de porcelana que se quebraria ante o simples toque. Sentia falta das discussões e de trabalhar lado a lado com ele. Da conexão que sentira quando falaram sobre o pai dele. Da admiração que sentira quando ele enfrentara o pai dela. Acima de tudo, sentia falta da intensidade de sua paixão, da sensação de sua alma se fundindo à dele. Os dias eram torturas. As noites devastadoras. Iam dormir, cada um no seu respectivo lado da cama. Às vezes, ali deitada, sentindo-se inútil e vazia, Christina achava que daria tudo para tê-lo colado a si, como acontecera naquela noite no hospital. E, na manhã, estavam entrelaçados um ao outro, e o coração dela voltava a se partir. Algo teria de mudar, e muito em breve, pois tê-lo por perto e não ter de verdade a estava matando. Se fosse mais corajosa, pediria a ele para ficar. Por que não conseguia simplesmente pedir? Não era capaz de se forçar a encarar mais rejeição na sua vida. Saber que ele a deixara sem tentar entender os seus receios já dizia tudo. Tinha de escapar. Não podia mais passar um dia se lastimando, desejando coisas que não poderia ter. Mas os habitantes da Blackstone Manor haviam se tornado a sua vida. Como poderia partir? De modo que ali estava, fazendo a limpa no armário e chorando. Como se invocado por seu desejo, Aiden apareceu na porta. De seu lugar no chão, virou-se para olhá-lo. – Quando foi que voltou? – Alguns minutos atrás. A polícia agora tem os cinco sob custódia. Christina fez uma careta. Nem gostava de pensar naquele dia. – Eu terei de testemunhar?


Aiden sacudiu a cabeça. – Eu duvido. Já arrancaram confissões de quatro deles. Não conseguiram encontrar nada que ligue Balcher ao crime e não há qualquer outra pista que leve a outro mandante do crime. Para a surpresa de Christina, Aiden aproximou-se com passos cautelosos e ajoelhou-se ao lado dela. – Christina, o que foi? Christina pôde sentir-se retraindo. Enxugou os rastros de lágrimas das faces. A experiência lhe ensinara que homens não gostavam de mulheres emotivas. Quando ela não se moveu, ele juntou-se a ela no chão e a virou para si. Quer vestindo terno, suado e nu após fazer sexo, ou sentando no chão do quarto, usando camiseta e calça larga, Aiden ainda era, de longe, o homem mais atraente que ela já conhecera. E ali estava ela, de calça de ioga e blusa justa, com o cabelo preso para trás. Aiden sem dúvida nenhuma saíra perdendo nessa. Ainda assim, ele não se moveu. Apenas ficou a fitá-la, aguardando, com uma expressão que dizia que era melhor ela começar logo a falar. Não querendo discutir os sentimentos, optou por um tópico mais seguro. Deu de ombros. – Só quero que as coisas voltem ao normal. – Ela gesticulou na direção do armário. – Isto é tão inútil. Era verdade. Não ter um propósito para os seus dias, não lhe dava motivo para sair da cama. Tinha tempo demais para pensar, para se sentir indesejada e inútil. – Sabe que só queremos que fique boa, não sabe? – Eu sei, Aiden, mas eu estou bem. Preciso voltar a trabalhar. – Não age como se estivesse bem. Ele tinha razão. Não estava agindo como se estivesse bem. Estava se lamuriando, torcendo para que alguém cuidasse de todos os seus problemas, em vez de assumir o comando. Quando é que esperar que alguém desse o passo seguinte havia lhe trazido alguma vantagem? Era hora de fazer algo acontecer, em vez de esperar que acontecesse. Mas seria esse o passo certo a dar? – Estou mais do que pronta para voltar a cuidar de Lily. Não posso ficar aqui me sentindo inútil, enquanto outra pessoa faz o meu trabalho. – Inútil? – Era difícil entender a incredulidade no rosto dele. Mas ele não demorou a esclarecer. – Christina, você faz de tudo para ajudar todo mundo nesta cidade. Nolen, Marie. Nicole... Você se sacrificou para manter Lily em segurança... – Pare! Não faça isso. Ela ficou de pé, e ele fez o mesmo, aproximando-se dela. – Christina... – Não. Eu não me sacrifiquei por Lily. Eu a amo. Mas me oferecei para desposá-lo por causa de culpa. Eu devo isso a Lily. – Do que está falando? – Eu causei o acidente dela – sussurrou Christina.


Aiden sacudiu a cabeça. – Não. Ela estava voltando para casa. – Por minha causa. Você pediu para ela ficar mais um dia, para esperar o tempo melhorar. Mas eu estava doente. Apendicite. Estava internada após ter o apêndice removido. Marie ligou para Lily. Avisou que minha mãe me deixara sozinha no hospital. Diabos, ela mal ficara tempo o suficiente para eu sair do centro cirúrgico. – Ela engoliu em seco ante o turbilhão de lembranças. – Lily ignorou o mau tempo e voltou para casa para ficar comigo. Para que eu não ficasse sozinha. Eu só soube do acidente quando saí do hospital. – Ah, meu Deus, Christina. – Aiden adiantou-se, segurando-a pelos braços. – Será que não sabe que Lily jamais pensaria assim? Ela jamais a culparia pelo que obviamente fora um acidente. – Mas eu me culpo. Assim como me culpo por você ter voltado para cá para ficar. Você quer estar em Nova York. Entendo isso. Mas, em vez disso, está aqui comigo. – Isso não é culpa sua. Isso foi ideia de James. Ele nos colocou nesta situação... – Mas eu quero que você fique. O silêncio tomou conta do quarto. Ela realmente declarara isso em voz alta? Agora, não havia mais como recuar. – Você só está aqui porque tem de estar, Aiden. Mas eu o quero aqui comigo, permanentemente. – Engoliu em seco para prosseguir. – Amo você. Eu o amarei, quer esteja aqui ou em Nova York. Mas prefiro que esteja aqui. Lamento se isso faz de mim uma mulher carente e desesperada. Não quero que tenha de escolher entre estar preso a um lugar que odeia, só porque dormiu comigo e voltar para a vida que adora. Eu simplesmente... quero você. – E quem disse que tenho de escolher? A surpresa apossou-se dela. – Christina, há uma semana que espero que se abra comigo. Que precise de mim. Mas isso não aconteceu. Pensei ter sido claro no hospital. Não estou aqui porque tenho de estar. Estou aqui porque quero estar com você, com minha mãe, com minha família. – E quanto à Nova York? – Quem anunciou que precisa ser uma coisa ou outra? – Ele sorriu. – Essa recente viagem me ensinou que eu posso ter tudo. O negócio que construí. A família que amo. E a mulher de quem preciso. Ele aproximou-se cautelosamente, como se receando que ela fugisse e lhe ladeou o rosto com as mãos, erguendo-o para si. – Christina você desperta uma paixão em mim que... bem, é a única coisa que já foi capaz de superar a minha arte. Ela se sentiu afogando naqueles olhos escuros. – Desde que voltei para Blackstone Manor, cometi alguns erros. Não queria estar aqui, de modo que lutei com todas as forças para me libertar. Mas há um vínculo contra o qual não quero lutar. Seu braço lhe envolveu a cintura, puxando-a para si. – Você me desafiou a fazer o que era certo. Você lutou comigo. E você me amou. – Aiden...


– Deixe-me terminar. Porque não sei se sou capaz de ir até o fim. – Seu polegar lhe acariciou a linha do maxilar. – Sem dúvida alguma sou um homem melhor por isso. Seu carinho me lembrou de que não estou só. Sua paixão incendeia a minha própria. Seu propósito me aponta na direção certa. Seu perdão me mantém são. Não preciso de exigências para me manter aqui. Sou egoísta o suficiente para querer tudo. E espero que seja o que você queira me dar. As lágrimas escorriam livremente pela face dela. Inclinando-se para a frente, Aiden roçou os lábios nos dela, antes de recuar ligeiramente. – Deixe-me ficar com você – murmurou, de encontro a seus lábios. – Eu cometerei erros. Só espero que me ame assim mesmo. Ela lhe envolveu o pescoço com os braços. – Ah, Aiden. Não sabe que amo tudo em você? É um homem passional. Criativo. Trabalhador. Aceitarei qualquer parte sua que me deixe ter. – Nesse caso, pode ter tudo, pois não sou completo sem você. Amo você. Case-se comigo... mais uma vez. Christina levou os lábios aos dele e soube, sem qualquer sombra de dúvida, que seu coração enfim encontrara o lar. Não porque era necessária. Não porque alguém estava exigindo. Mas pela primeira vez na vida, era querida por causa de quem ela era por dentro, defeitos e tudo mais. Assim como queria Aiden. Por toda a eternidade.


BUSCANDO SONHOS Barbara Dunlop

– Olá, sr. Keiser. Ela saiu rapidamente do elevador, que desceu sem ela. Pelo menos teria alguns instantes com ele. – Você acaba de invadir o meu prédio. – Não – discordou ela. – O sr. Fielding me convidou. Tenho certeza de que ninguém seria capaz de invadir o prédio da Pinion Security. Seus olhos azuis brilharam. Ela só podia torcer para que fosse humor e não fúria. – Vegas a convidou para o segundo andar. – Mas é o senhor quem eu realmente quero ver. – Sendo assim, sequestrou o elevador até o andar privativo? Mila olhou ao redor, passando os olhos pelo estreito corredor que levava a duas portas. – Não me dei conta de que fosse um andar privativo. Recusava-se a admitir que pretendia vasculhar o prédio de alto a baixo para tentar encontrá-lo. – Como posso ajudá-la, srta. Stern? E, não, não tenho um emprego para a senhorita. Levar o recepcionista na conversa não prova a sua aptidão superior para o ramo. – Não foi essa a minha intenção. – E qual foi a sua intenção? – Falar com o senhor pessoalmente. Nesse caso, vamos acabar logo com isso. O cérebro de Mila na mesma hora saltou para os pontos ensaiados. – Não sei se está a par, mas o número de proeminentes mulheres de negócios, na política e celebridades femininas precisando de algum tipo de proteção pessoal aumenta a cada ano que passa. Estimativas mostram que empresas se concentrando nessa demografia poderão ver um incremento nos negócios de até quinze por cento por ano. E oferecer serviços para atender especificamente... – Está inventando.


Ela não se deixou abalar pela interrupção. – Não estou, não. Uma variedade de fontes públicas pode mostrar a ascensão no número de figuras políticas do sexo feminino, bem como o de mulheres nas áreas de indústria e na música. – Os quinze por cento. Está inventando os quinze por cento. Ele tinha de estar jogando verde. Mila era excelente mentirosa. – É mais curiosidade do que fato científico – admitiu. – Mas a questão fundamental é que... – Nós já atendemos mulheres – afirmou Troy. – Protegemos centenas de mulheres, com uma margem de sucesso de mais de noventa e nove por cento. Havia algo ligeiramente errado com a expressão do rosto dele. Ele estava mentindo de volta para ela. Mas, por que faria isso? E então Mila entendeu. Estava exagerando nos noventa e nove por cento para zombar dela. – Está inventando – proferiu, baixinho. – Uma variedade de fontes públicas pode mostrar que temos uma robusta clientela feminina. Ela esforçou-se para não sorrir. – Está inventando os noventa e nove por cento. – A empresa é minha. – Você tem um cacoete. – Não, não tenho. Ela ergueu o queixo. – Bem ali. Próximo à orelha esquerda. Há um músculo que se repuxa quando está mentindo. – É ridículo. – Outra mentira. – Vou lhe dizer a verdade. Não vou contratá-la. Nem agora, nem nunca. – Porque sou uma mulher. – Porque é uma mulher. – E acha que isso significa que não posso lutar corpo a corpo. – Não é o que eu acho. É um fato. – Sou muito boa – garantiu ela, deixando o desafio claro no seu tom. – Quer tentar? Ele riu. – Fraca e iludida. – Não espero derrotá-lo. A declaração pareceu confundi-lo. – Nesse caso, por que o desafio? – Espero me virar bem, surpreendê-lo. Superar as suas expectativas. – Vai acabar se machucando. Ela deu de ombros. – Provavelmente um pouquinho. – Possivelmente um bocado. – Eu quero mesmo este emprego. – Estou vendo. Mas não vou lhe dar um emprego só porque é tola o bastante para me desafiar para um combate corpo a corpo.


– Descubra do que sou capaz.

E leia também em Caminhos do Destino, edição 245 de Desejo, Uma família para amar, de Elizabeth Lane.


DESEJO 245 – caminhos do destino Buscando sonhos – Barbra Dunlop Relutantemente, Troy contrata a sedutora Mila Sterne para ser a segurança particular de sua irmã e sobrinho. Ela nunca cuidou de crianças. Contudo, Mila logo se vê completamente encantada pelo o bebê… e apaixonada por seu estonteante chefe! Uma família para amar – Elizabeth Lane Enquanto luta pela guarda da filha adolescente e do bebê que ela acabara de ter, Wyatt contrata uma babá para ajudá-lo. Mas ele não esperava se sentir tão atraído por Leigh Foster. Ela sabe que apaixonar-se pelo chefe é perigoso… principalmente se ele descobrir qual é a sua verdadeira relação com o pequeno Mikey. Último lançamento: DESEJO 243 – JOGOS DO AMOR – MAUREEN CHILD Castelo da paixão Aine Donovan não concordava com os planos de negócio de Brady Finn, mas não conseguiu resistir aos encantos dele. E quando o romance casual resulta em uma gravidez inesperada, Aine foge! Mas Brady não desistirá dela nem do bebê tão facilmente! Rio do desejo Mike tinha certeza que não poderia confiar em Jenny! Ainda assim, se entregou ao desejo arrebatador que sentia… e ela engravidara! Agora, Mike precisa descobrir se tudo não faz parte de um plano para destruí-lo ou se Jenny o ama de verdade!


Floresta de segredos Ficar preso em uma nevasca com sua assistente não era o que Sean Ryan planejara… muito menos ter um caso escaldante com Kate Wells. Imagina quando ele descobrir que Kate está esperando um filho seu?


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ B467a Bevarly, Elizabeth Aprendendo a viver [recurso eletrônico] / Elizabeth Bevarly, Dani Wade; tradução Maurício Araripe. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Harlequin, 2016. recurso digital Tradução de: My fair billionaire + A bride’s tangled vows Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-398-2249-2 (recurso eletrônico) 1. Romance americano. 2. Livros eletrônicos. I. Wade, Dani. II. Araripe, Maurício. III. Título. 16-33817

CDD: 813 CDU: 821.111(73)-3

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: MY FAIR BILLIONAIRE Copyright © 2014 by Elizabeth Bevarly Originalmente publicado em 2014 por Harlequin Desire Título original: A BRIDE’S TANGLED VOWS Copyright © 2014 by Katherine Worsham Originalmente publicado em 2014 por Harlequin Desire Gerente editorial: Livia Rosa Assistente editorial: Tábata Mendes Editora: Juliana Nóvoa Estagiária: Caroline Netto Arte-final de capa: Ô de Casa Produção do arquivo eBook: Ranna Studio


Editora HR Ltda. Rua Nova JerusalÊm, 345 Bonsucesso, Rio de Janeiro, RJ – 21042-235 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br


Capa Texto de capa Rosto Sumário

ETIQUETA DO AMOR Querida leitora Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Epílogo

VOTOS ENTRELAÇADOS Querida leitora Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14


Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18

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Elizabeth Bevarly & Dani Wade - Aprendendo A Viver  
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