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Encanto na Toscana The Tuscan Tycoon's Pregnant Housekeeper

Christina Hollis

Uma esposa conveniente... Simples e tímida Michelle Spicer mantinha sua cabeça baixa e seguia em frente com o trabalho, pois sabia o seu lugar. Entediado e inquieto no sul da França, Alessandro Castiglione acabara de descobrir em Michelle uma distração para espantar o tédio. Despida de seu uniforme e nua na cama de Alessandro, a tímida Michelle entregou-se a ele. No entanto, ela sabia que era apenas uma empregada, não a esposa de um milionário. Descartada, desonrada e com absolutamente nada, Michelle se vê com um bebê para cuidar e sem nenhuma alternativa a não ser retornar para a Inglaterra: Até Alessandro decidir que gostaria de provar seus encantos novamente...

Digitalização: Projeto Revisoras Revisão: Cassia


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Encanto na Toscana

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Para todas as pessoas que se importam com os outros, em todos os lugares. Tradução: Angela Monteverde Harlequin 2012 PUBLICADO SOB’ ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.à.r.l. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: RUTHLESSLY BEDDED, FORCIBLY WEDDED Copyright © 2009 by Abby Green Originalmente publicado em 2009 por Mills & Boon Modern Romance Título original: THE TUSCAN TYCOON'S PREGNANT HOUSEKEEPER Copyright © 2009 by Christina Hollis Originalmente publicado em 2009 por Mills & Boon Modern Romance Arte-final de capa: núcleo i designers associados Editoração eletrônica: EDITORIARTE Tel.: (55 XX 21) 2569-3505 Impressão: RR DONNELLEY Tel.: (55 XX 11) 2148-3500 www.rrdonnelley.com.br Distribuição exclusiva para bancas de jornal e revistas de todo o Brasil: Fernando Chinaglia Distribuidora S/A. Rua Teodoro da Silva, 907 Grajaú, Rio de Janeiro, RJ — 20563-900 Para solicitar edições antigas, entre em contato com o DISK BANCAS: (55 XX 11)2195-3186/2195-3185/2195-3182 Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171,4o andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 Correspondência para: Caixa Postal 8516 Rio de Janeiro, RJ — 20220-971 Aos cuidados de Virgínia Rivera virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

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CAPÍTULO UM

A qualquer minuto agora! Esse foi o pensamento de Michelle enquanto o Arcadia seguia com a proa apontada para o cabo de St. Valere. Esperara por isso. Mesmo assim, concedeu-se um momento para admirar o enorme iate de seu patrão, o senhor Bartlett, enquanto a embarcação de recreio formava uma cauda de espuma branca nas águas azuis do Mediterrâneo. Seria um grande problema quando esse emprego temporário terminasse... Se é que trabalhar como governanta da Villa Jolie Fleur pudesse ser chamada de “emprego”. Essa oferta fora um presente dos deuses, embora o fim de seu contrato pendesse no horizonte como uma grande nuvem negra. E bem nesse instante, observava uma nuvem carregada de chuva se aproximar de verdade. No dia anterior, a assistente de seu patrão telefonara para Michelle do iate. Parecendo tensa e exasperada, a mulher a alertara que um hóspede inesperado ficaria na Villa, e não no iate. Logo Michelle descobrira por quê. A visita ilustre do patrão que estava para chegar e que não gostava da vida no mar. Michelle achara graça, pensando em enjoo marítimo. Porém a verdade era mais complicada. O bilionário negociante de arte, Alessandro Castiglione, não podia ficar confinado no oceano em um iate cheio de outros convidados. Esperava-se que tirasse algumas semanas de completo descanso e privacidade, dissera a funcionária, porém seu tom de voz revelara mais para Michelle do que suas palavras. Imaginara então o que a esperava, pois já tivera que lidar com hóspedes complicados e difíceis. Alessandro Castiglione sem dúvida era um homem obstinado, que deixava seus empregados loucos. Era, segundo dissera a outra, "o homem mais bonito que costumava aparecer nas revistas!", porém Michelle sabia que era preciso mais do que beleza para manter um empresário no topo. Fazer faxina em escritórios no centro de Londres â ensinara há compreender um pouco o lado brutal do mundo dos negócios. Portanto, quando a outra acrescentara alguns mexericos, Michelle ouvira com reservas, não acreditando em tudo. A mulher dissera que esse homem recentemente assumira a empresa do pai e despedira quase todos os funcionários. E, como se isso já não fosse ruim o suficiente, ela acrescentara em voz baixa que eram todos seus tios, tias e primos! Que tipo de pessoa mandava embora os próprios parentes? Nem mesmo a mãe de Michelle fizera tal coisa! Lembrou-se da vida que abandonara com alegria alguns meses antes. Trabalhar para a mãe fora um inferno. A senhora Spicer era uma perfeccionista. As duas, mãe e filha, que formavam a Spicer & Cia, haviam obtido a reputação de fornecerem serviço doméstico rápido e discreto em qualquer ponto do centro de Londres. A senhora 3


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Spicer dava as ordens. Michelle fora a parte "& Cia" do negócio. A ela cabia todo o trabalho pesado. Mas agora estou no comando da minha vida! Pensando assim, apesar do nervosismo, permitiu-se sorrir de leve enquanto aguardava para saudar o famoso hóspede. Por pior que fosse, Alessandro Castiglione não podia ser mais tirano que sua mãe. Michelle sempre mantinha Jolie Fleur impecável, portanto essa visita inesperada não lhe daria trabalho. Qual a pior coisa que um homem exigente poderia fazer? Providenciar para que fosse despedida? De qualquer modo, só lhe restavam algumas semanas de contrato nesse cargo. Ele podia ser uma bomba prestes a detonar, mas Michelle confiava totalmente na própria capacidade. Sabia que, se trabalhasse com afinco e se mantivesse longe dele, não haveria razão para ele perder a paciência... Pelo menos não com ela. Um homem que despede os próprios parentes não hesitará em me dar um pontapé, e não estou pronta para partir! Seu aguçado senso de autopreservação a fizera sobreviver até esse momento. Agora que escapara da Inglaterra, estava curiosa para ver até onde chegaria. Um helicóptero surgiu nos céus. Certamente acabara de pegar o hóspede no iate para trazê-lo á terra. Michelle protegeu os olhos com a mão. Era sempre excitante ver um helicóptero sobrevoar o céu azul como se fosse uma gaivota graciosa. Ficou tanto tempo olhando para o alto que quase se esqueceu de que precisava recepcionar o visitante. Deu a volta até a entrada da Villa, examinando tudo com seus olhos experientes. Os vidros nas janelas reluziam. Dentro da casa tudo estava pronto. O proprietário do bufê e o jardineiro eram os únicos que permaneciam na época de férias, mas não estavam presentes no momento. Com um gesto nervoso, Michelle verificou as próprias unhas e o uniforme. Tudo limpo, como sempre. Manter-se ocupada era a maneira de lidar com o mundo. Sem nada com que se preocupar, pensou no que faria quando o hóspede inesperado aterrissasse. Vou recebê-lo com um sorriso e um cumprimento leve de cabeça, pensou. Depois vou apertar sua mão, dizer que toque a campainha se precisar de alguma coisa, e desaparecerei. Não parecia muito difícil. Michelle adorava esse emprego porque tinha muito tempo livre. As pessoas em geral á deixavam nervosa. A perspectiva de conhecer um homem que quase nunca era fotografado duas vezes com o mesmo modelo... Fosse uma mulher ou carro... Á apavorava. O barulho do helicóptero aumentou. Michelle sentia as mãos suadas. Distraída, passou-as sobre o tecido preto da saia do uniforme, mas logo parou. Uma anfitriã francesa educada nunca faria isso! Talvez tenha sorte e ele fique a maior parte do tempo na cidade, pensou, tentando desesperadamente ficar à vontade. Nesse caso, será um homem que gosta da noite, então mal o verei. Fazer com que passe um tempo tranquilo aqui será o suficiente. Todas as portas e janelas da Villa estavam escancaradas, permitindo que uma brisa suave penetrasse nos cômodos. Michelle se postou no seu lugar em frente à porta principal da residência já aberta, e esperou o helicóptero descer no heliporto. 4


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Esperou e esperou, mas ele não desceu. Continuava no ar. Algo estava errado. Gaston, o piloto, em geral estava sempre ansioso para retornar ao jogo de pôquer no iate, e não costumava demorar a aterrissar. Muitas sebes e flores haviam sido amassadas por causa disso, quando ele resolvia descer no gramado. Michelle presumiu que era um novo piloto nesse dia. Gaston nunca demoraria tanto. Entretanto, quando o helicóptero fez uma volta brusca e circundou a casa, procurando a melhor posição para descer, ela viu de relance o rosto do piloto era o velho e bom Gaston... Mas, diante de sua expressão furiosa, um perfeccionista o instruía na arte de aterrissar. Quando por fim o helicóptero desceu, estava perfeitamente alinhado com a letra "H" em branco, pintada no gramado central de Jolie Fleur. O barulho era ensurdecedor. Enquanto Michelle tentava pôr em ordem os cabelos despenteados pela ventania causada pelo movimento furioso das hélices, o desastre aconteceu. A porta em frente à qual se encostava bateu com força, prendendo a saia de seu uniforme. Ela deu um puxão frenético para se libertar, mas foi em vão. Desesperada, esperando por um milagre, girou a maçaneta, mas a porta não cedeu. Seu anjo da guarda devia estar de folga nesse dia. O coração de Michelle batia desordenadamente. O que faria agora? Acenar pedindo socorro para a figura alta que nesse instante saía do helicóptero? Pedir socorro a um hóspede, quando deveria ser o exemplo da eficiência? Alguém que dava aulas para um piloto experiente não devia ter paciência com empregadas estabanadas que cometiam erros ou deixavam as saias prender em portas. Com gesto frenético, Michelle tentou puxar o tecido devagarzinho pela fenda da porta, mas nada conseguiu. A alternativa era se livrar tirando a saia. Mas isso não era uma opção. Uma governanta descuidada era uma coisa. Uma governanta seminua era outra coisa, imperdoável... E inesquecível. Sentiu-se a vítima pronta para um sacrifício humano. Alessandro Castiglione estava de pé no gramado de costas para ela, enquanto aguardava que suas malas de grife fossem retiradas do helicóptero. Michelle observou, sentindo a pele queimar de vergonha. Longos e agonizantes segundos se passaram. Ficou tensa, pronta a dar milhões de explicações. Segurando uma pasta e um laptop, o hóspede deixou Gastou para lidar com outras coisas. Marchou em direção á casa, cobrindo a distância com passadas gigantescas. Não era um senhor idoso como Michelle esperara, porém pensar que um homem tão jovem já fosse uma figura obrigatória nos jornais piorava ainda mais sua situação. Ele pegou um caminho mais longo em meio a canteiros de tomilho e erva-cidreira, aumentando a agonia de Michelle. A natureza ao redor parecia não influenciar esse homem nem relaxá-lo. Ele era muito centrado. Sem olhar para a direita nem para a esquerda, a fim de observar o panorama, rumou diretamente para a porta principal da casa. Se Michelle não estivesse tão nervosa, teria admirado sua beleza máscula. As ondas naturais nos cabelos negros, os olhos castanhos e inteligentes. Porém, estava muda de vergonha. Com as mãos nas costas, continuou a tentar puxar a saia. Não deu certo. 5


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Quanto mais o visitante se aproximava, mas ansiosa ela ficava. Sentia os dedos dormentes de tanto puxar. Os pulsos também. E estava tão quente. Parecia uma borboleta se debatendo contra a vidraça de uma janela. Estava encurralada. E, como se isso não fosse suficientemente ruim, começava a perceber por que esse visitante em particular não se enquadrava no iate do senhor Bartlett. O iate fora projetado para férias e diversão. Alessandro Castiglione parecia não conhecer o significado dessas palavras. Apesar do calor, usava um terno muito elegante e caro, e uma camisa feita à mão. Suas únicas concessões para o clima do Mediterrâneo eram ã calça e o paletó de linho cor de marfim, o botão do colarinho aberto e a gravata cor de vinho que guardara no bolso. Michelle engoliu em seco. Dessa vez, as boas-vindas que ensaiara não iriam ser ditas. — Bongiorno, Signor Castiglione. Meu nome é Michelle Spicer, e tomarei conta do senhor durante sua estadia aqui em Jolie Fleur. O rosto pálido e aristocrático continuou impassível. — Não preciso que tomem conta de mim. Foi por isso que não fiquei no mar. Muita gente a minha volta. Tudo que fazem é me atrapalhar — resmungou, ele, em um inglês impecável e com o sotaque de um imperador romano. Michelle não conseguiu pensar em mais nada exceto no medo de explicar como era tola. Então, a dez passos de distância dela, a expressão de Alessandro mudou de distraída para pensativa. Ele ficou imóvel. Michelle tentou recuar, mas bateu com os calcanhares na madeira da porta. Não havia como escapar. Ela se encolheu enquanto ele a fitava de lábios franzidos. Michelle não sabia o que falar. Era o pior pesadelo da sua vida. Tentou dizer a si mesma que não se importava com a opinião que ele tivesse a seu respeito. Entretanto, na verdade, se importava muito. Empregados deviam ser discretos e silenciosos. E ali estava presa e sem esperanças de se movimentar. Terrível. Por que ele precisa ser tão bonito? Pensou. Seria muito mais confortador se fosse velho ou feio ou se esbravejasse comigo... Qualquer coisa seria melhor do que suportar esse olhar de interrogação e esse silêncio... — Bem! O que temos aqui? — Alessandro acabou por murmurar. — Você está presa. Que novidade! Replicou Michelle para si mesma, mas o brilho de zombaria nos olhos dele era óbvio. Então aquiesceu com um gesto de cabeça e tentou sorrir. — Sou... A governanta de Jolie Fleur, e farei tudo que puder para tornar sua estadia o mais agradável possível... Embora não saiba como farei isso presa nessa porta, acrescentou em silêncio. Ele a fez se sentir ainda mais presa com um olhar. — Tudo? — questionou ele com um sorriso malicioso. — Quer dizer que meus desejos serão ordens? É perigoso dizer isso, signorina, em especial quando parece estar imobilizada! Michelle gaguejou alguma coisa com a mente fervilhando de vergonha. — Também fiquei preso... Naquele maldito barco — acrescentou Alessandro, em um arremedo de consolação. Michelle se armou de coragem para tentar explicar. 6


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— A porta se fechou com um estrondo devido à ventania que o helicóptero provocou ao descer. A chave está no meu bolso, mas não a alcanço — murmurou, com a voz tão fraca que mal se reconheceu. Para sua surpresa, Alessandro balançou a cabeça em sinal de compreensão. — Precisa tomar mais cuidado. É uma porta muito pesada, Michelle. Teve sorte de prender só o vestido. Podia ter perdido os dedos. O coração de Michelle acelerou. Fitar aqueles olhos escuros provocava um estranho efeito nela. Nenhum dos defeitos que haviam lhe contado sobre Alessandro a interessavam agora. Esse era um homem que tivera muitas experiências. Podia ler em seu rosto. Devia ter trinta e tantos anos e os vincos entre as sobrancelhas davam caráter às suas feições bonitas; porém, para Michelle, Alessandro era mais lindo quando sorria. — Minhas chaves... — tentou dizer, mas não conseguiu, e só emitiu um ruído. Limpando a garganta de leve, tentou de novo: — Estão no meu bolso, mas não consigo alcançá-las. — Então está tudo resolvido — disse ele, se aproximando. Quanto mais Alessandro se aproximava, mais ela sentia as faces em fogo e mais; lindo ele lhe parecia. Sua aura de confiança deveria deixá-la tranquila, porém o efeito era justamente o contrário. Michelle parecia hipnotizada, apesar de Alessandro não perceber. Estava concentrado na cintura dela. — Se pudesse virar de costas... — sugeriu. — Como? Estou presa! — Vou lhe mostrar. Ele pousou as mãos em seus ombros, fazendo-a estremecer. — Michelle! Quem vir sua reação vai pensar que sou um monstro — comentou rindo. — Desculpe — murmurou ela. — Não se preocupe, tentarei ajudá-la. Assim dizendo, ele a fez se virar... Não para a esquerda, como ela imaginara, mas para a direita. Ela ficou de nariz para a porta. Já não podia vê-lo, porém não precisava. A presença dele mandava sinais de que estava apenas pensando em termos práticos e que não tentaria nada de ultrajante. — Continuo não podendo enfiar a mão no bolso — queixou-se ela. A fragrância da colônia cara que Alessandro usava chegou as suas narinas e ele perguntou: — Que tal se eu tentar? Michelle aquiesceu com um gesto de cabeça. O toque dele foi vagaroso. Parecia uma carícia. Ela tentou se controlar. Impossível. — Não... Por favor... Não faça isso... — protestou debilmente. Sentiu o calor da mão máscula penetrando no tecido do uniforme. Michelle pressionou o rosto de encontro à porta e tentou se, manter fria. — O que foi Michelle? — Nada. Só que é a primeira vez que sou tocada assim por um homem, refletiu consigo mesma. 7


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Os dedos pararam ao encontrar o que procuravam, e ela prendeu a respiração. A mão penetrou no bolso e se fechou no chaveiro. — Agora... Creio que vou ter que me aproximar ainda mais de você para alcançar o buraco da fechadura... Michelle não conseguia falar. Ele se inclinava sobre ela enquanto procurava a fechadura. Quando sua mão direita circundou a cintura fina, Michelle sentiu um nó na garganta. Ouviu-se um ruído seco e a porta se escancarou. A mão que a prendia se afastou e Alessandro deu um passo atrás. — Está livre — disse, fazendo um aceno na direção da entrada sorrindo. Então uma brisa os envolveu, e Michelle voltou à realidade. Tratou de segurar a porta para que ela não batesse de novo. — Obrigada, senhor Castiglione. Vou levá-lo até sua suíte. Depois faremos um passeio por Jolie Fleur, se quiser... — murmurou ansiosa para se tornar eficiente de novo. — Não... Ficarei bem — interrompeu Alessandro. — Não precisa se preocupar comigo, vá fazer o seu trabalho. Posso perfeitamente me orientar sozinho pela casa. — É claro, signor. Michelle fez um cumprimento de cabeça e deu meia-volta. — Aonde vai? — Vou trocar de roupa... Este uniforme está todo amassado. Moro no ateliê que fica logo ali. Ele franziu a testa. — Por que não mora na casa principal? — Sou uma funcionária temporária, signor. Portanto, não pertenço á casa. — Mas Terence Bartlett me disse que a casa estava deserta, deve haver muitos quartos vagos. Toda a sua equipe está com ele no iate. Só por isso pedi que me deixasse aqui, para ter mais privacidade. — Para falar a verdade — murmurou Michelle -, prefiro morar longe da casa principal, signor. Gosto de ficar; sozinha então o chalé é ideal. — Quer dizer, o ateliê? — corrigiu ele devagar. — Sim. Há muito material e equipamentos ali, mas nada é usado ou foi aberto. — Terence nunca teve tempo ou talento para usar o ateliê - comentou Alessandro com seriedade. - A construção é boa? — Maravilhosa signor— sorriu ela. Morar em um lugar que possuía um ateliê onde um dia alguém poderia criar uma obra de arte era outro motivo para Michelle adorar Jolie Fleur. O lugar era tão lindo que pedia para ser desenhado ou pintado. Gostaria de ter um pouco do material abandonado no ateliê no seu próprio apartamento. Então se lembrou de que de nada lhe serviria, pois não ousava tentar. — Será que posso dar uma olhada no ateliê? Como ela poderia recusar? Afinal, Alessandro seria o patrão temporário enquanto o senhor Bartlett estivesse ausente. Aquiesceu com um gesto de cabeça. A ideia de um homem se metendo em seu espaço particular normalmente a faria ranger os dentes, entretanto havia algo nesse homem que fazia com que concordasse com toda a 8


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naturalidade. Não desejava aborrecê-lo, porém esse não era o único motivo. Nos poucos minutos desde que ele deixara o helicóptero, Michelle percebera uma coisa. Alessandro Castiglione podia estar acostumado com a companhia de astros e bilionários, mas era a pessoa mais natural e sem afetação que ela já conhecera. E também não esbanjava palavras. Outro ponto positivo. Ela preferia um patrão que ficasse calado e a deixasse trabalhar em paz. Mas, apesar de ser tão carismático signor Castiglione a perturbava muito. Michelle conhecia seu lugar. Ele estava de férias e a tarefa dela era mantê-lo contente sem se meter no seu caminho. Ficou imaginando se passaria muito tempo na Villa ou se ficaria ausente quase sempre. E, será que teria companhia? Começou a refletir que observá-lo de longe seria muito mais divertido do que se esconder completamente...

CAPÍTULO DOIS O coração de Michelle sempre reagia com alegria ao ver seu lar temporário. Situavase em uma parte sombreada do jardim, e fora projetado de maneira que os canteiros de flores de cada lado estivessem bonitos em qualquer época do ano. A frente do prédio era quase toda de vidro e a hera faziam sombra para um balanço. Michelle abriu as portasjanelas e se afastou de lado para que Alessandro passasse. — Impressionante. — Alessandro Castiglione olhou em volta da sala de estar com suas vigas e obras de arte. Depois, foi para a cozinha e acenou de maneira apreciativa para a grande pia dupla de aço. — Seria interessante abrir uma parede para utilizar melhor o espaço — murmurou como se falasse consigo mesmo. Michelle ficou em silêncio em um canto enquanto ele passeava por ali de vez em quando, examinando alguma peça o equipamento que abarrotavam o local; um pacote de papel, uma caixa de lápis, alguns pincéis. Michelle ficou feliz por isso. A maioria das pessoas nem ligaria para tudo aquilo. Pagam para que você limpe tudo e nada mais, sempre dizia sua mãe. Porém, ela estava achando fascinante observar Alessandro. Sempre que ele percebia isso, sorria. Michelle viu que corava como uma boba, e tratou de desviar o olhar. O visitante sabia muito bem o efeito que causava nela. — Jamais soube que Terence possuía tantos livros sobre arte! - exclamou, passando os dedos longos pelas lombadas nas prateleiras, porém foi um volume aberto sobre a mesinha de café que chamou sua atenção. — Rafael. Um dos meus pintores favoritos. Importa-se que pegue emprestado e o leve para a Villa comigo? Sem esperar resposta, pegou o livro e começou a folhear de trás para frente. De todos os livros ali que tinha para escolher... Michelle sentiu como se ele tivesse enfiado a mão dentro de seu corpo e arrancado seu coração. Sabia exatamente no que ele estava pensando, pois sentira o mesmo muitas vezes ao folhear esse livro. Estava evidente que Alessandro se deslumbrava com as gravuras. Quando chegou à primeira folha, sorriu e leu 9


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em voz alta: — Um presente para Michelle Spicer pelo desempenho excelente? O Prêmio Lawrence de pintura? - Fitou-a nos olhos. — Então, esse livro é seu? Michelle disse que sim com um gesto de cabeça, emocionada demais para falar. — Uma leitura leve de cabeceira? — O livro é um pouco pesado para isso, signor. — Talvez para uma pessoa... Mas duas podem segurá-lo enquanto leem ao mesmo tempo. Uma leria e a outra olharia as pinturas. Certo? Uma visão de Alessandro Castiglione na cama a invadiu, e não envolvia nenhum livro de arte. Sufocou um gemido, mas não pôde evitar dar um passo atrás para se distanciar mais dele. Quando ele tornou a colocar o livro sobre a mesinha, ela ficou curiosa. — Não vai levá-lo consigo signor? Alessandro balançou a cabeça. — Não poderia. É seu e deve significar muito para você. — Significa... Mas, se o quer... — Obrigado. Aceito. Vou devolvê-lo logo. — Voltando a segurá-lo, ele acariciou a capa. — Este deve ser um lugar inspirador para você trabalhar, caso seja uma artista. É pintora? Quantas obras, fez desde que mora aqui? — Nenhuma signor. Há muito trabalho na casa a fazer. E não desenho nem pinto muito bem. É só um passatempo. Ele riu com educação e brandiu o livro no ar. — Onde está o seu currículo? Não o trouxe consigo? Michelle apertou os lábios antes de responder: — Queimou-se, signor. — Lamento. — Parecia realmente consternado. — Gostaria de vê-lo. Não importa. Não serei um hóspede chato. Terá muito tempo para dedicar a sua arte enquanto eu ficar por aqui. Alessandro disse a verdade. Nos dias que se seguiram, Michelle descobriu que de fato tinha algum tempo livre. Inacreditável. A família Bartlett estava sempre inventando e arrumando tanto trabalho para ela que acabava esquecendo o que pedira. Mas ela não esquecia, e cumpria todos os desejos dos patrões. Agora, sem precisar ir de carro à cidade, várias vezes por dia, Michelle pôde abrir sua caixa de pintura pela primeira vez desde que chegara à França. Seus esforços para fazer esboços inspirado-se nos arredores não tiveram grande sucesso. Sempre que via Alessandro, escondia o caderno no caso de ele querer olhar seu trabalho. Não queria mostrar seus desenhos para ninguém. Só vencera o Prêmio Lawrence por pura sorte. Estava surpresa com a quantidade de vezes em que esbarrava com Alessandro na propriedade. Ele sempre sorria, e trocavam algumas palavras educadas e banais. Mas Michelle estava intrigada. A família Bartlett e seus outros hóspedes passavam o tempo todo dentro de casa, inclinados sobre computadores ou celulares. Alessandro parecia gostar de ar puro tanto quanto ela. Uma vez, seu celular tocara 10


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para logo emudecer definitivamente. Quando Michelle saiu para regar algumas plantas, descobriu o celular no fundo do tanque de água. Ela o retirou, enxugou o melhor que pôde e correu para procurar Alessandro. A luz vermelha de "não perturbe" estava acesa na mesa do lado da porta de sua suíte, então ela deixou o aparelho molhado ali sem bater. Uma hora mais tarde, Alessandro a procurou. — Tenho algo para o lixo. — Colocou o celular na palma da mão de Michelle, fechando seus dedos com cuidado. — Disseram que preciso de férias. Agora que comecei a descansar, concordo que estou mesmo necessitado disso. Continuava apertando os dedos dela entre os seus, e ela se lembrou do toque de sua mão quando procurara a chave no seu bolso. Alessandro era muito diferente do executivo viciado em trabalho que ela imaginara. Acabou rindo alto. — Não pode jogar fora! Deve ter custado uma fortuna! — Michelle, não vai funcionar, agora que molhou. E sempre foi um problema para mim. Fitando-o nos olhos, ela acreditou, sentindo uma grande simpatia por Alessandro. — Não se preocupe signor. Vou guardá-lo. Um sorriu para o outro e o coração de Michelle quase parou. Alessandro Castiglione era lindo e simpático com ela... Alessandro não era uma pessoa que exigia que os empregados andassem a sua volta na ponta dos pés para não incomodá-lo. Era acessível, porém sua reputação ainda amedrontava Michelle, que tratava de se manter à distância. De qualquer modo, sempre que ouvia um ruído erguia os olhos para ver se era ele. Via-se procurando por ele o tempo todo. Quando esbarravam um no outro em um corredor, Alessandro sorria para ela, e o simples gesto compensava todas as horas em que Michelle ansiara por vê-lo. Mantinha-se ocupada na Villa, o que ajudava a não ficar sonhando acordada. Mas, após o trabalho, quando voltava para o ateliê silencioso, sua mente divagava. Recordava todos os instantes desde que Alessandro chegara. O toque de suas mãos fortes que a haviam mantido em pé enquanto abria a porta... E, mais do que tudo, os olhos escuros sombreados pelos cílios longos. Michelle tentava se distrair fazendo esboços no papel, mas, enquanto sua mente lhe ordenava para desenhar o jardim, seu coração desejava retratar Alessandro. Certa noite resolveu dormir mais cedo, porém o sono não chegou. Depois da meia-noite, desistiu. Rumando para a cozinha do ateliê, fez chá para se distrair e não pensar nele... Ou, pelo menos, não pensar tanto... Então, pegando um pacote de biscoitos, voltou para o quarto. Mas a visão da cama com os lençóis desfeitos a fez rumar para a varanda. Abrindo as portas-janelas, sentiu o ar sereno e pesado pelo aroma das flores. Sair para o jardim foi como mergulhar nas águas tépidas de uma piscina. A noite era linda e sem lua; porém, todas as estrelas surgiam com um brilho intenso. — Buona será, Michelle — ecoou a voz de Alessandro, baixa e profunda. — Boa noite. Michelle se voltou. Ele se recostava de maneira preguiçosa no balanço duplo do lado de fora do ateliê, segurando um copo. De imediato, Michelle tentou se cobrir com as mãos, ciente de que a camisola sem mangas de cetim e renda não era apropriada para usar na 11


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frente de um hóspede... Em especial esse hóspede! — Toma uma bebida comigo, Michelle? Ergueu uma garrafa de vinho da mesinha ao lado e encheu o próprio copo. Estendendo-o para ela, observou-a hesitar e sorrir. — Eu? — murmurou Michelle. — Não vejo mais ninguém por perto. — Mas... Mas, não posso! Não estou vestida... — Para mim, está bem. — Seu sorriso exibia os dentes brancos na noite escura. — Não consegui dormir e saí em busca de ar puro. É possível uma casa enorme possuir tão poucos bancos para se sentar ao ar livre? Os Bartlett não usam este lugar? Michelle balançou a cabeça. — Preferem seus computadores. Às vezes, passeiam pela casa com as visitas antes do jantar, mas, fora isso em geral eu tenho os jardins só para mim. Alessandro soltou uma risadinha. Um som íntimo, perfeito para a noite tranquila. — Nunca imaginei você se aventurando por aqui de noite. Parece tão quieta e reservada. — Adoro ficar aqui fora, me sinto perfeitamente segura. Alessandro deu de ombros e prosseguiu: — Enquanto caminhava no terraço, me senti como se estivesse em uma produção da Broadway com tantas luzes e lampiões em volta. Queria um espaço para relaxar. Ele usava uma camisa aberta no pescoço, tão branca como a que tivera ao chegar. E sua colônia tinha o aroma das flores, porém mais sensual. Michelle segurou com toda a força o copo que ele lhe dera. Tomou um gole e engasgou, desacostumada com as borbulhas do champanhe. — Champanhe é meu vício secreto — disse ele, rindo de novo e deixando a atmosfera mais leve. — Eu conheci o jardineiro esta tarde. Orgulha-se muito dos morangos da propriedade. Quando não apareceram no cardápio do jantar desta noite, fui colher alguns por conta própria. Pode pensar em um modo melhor de passar uma noite em claro? Michelle balançou a cabeça. Seus olhos iam se acostumando com o escuro. Agora via uma tigela sobre a mesa também. Alessandro pegou alguns morangos com a mão e os jogou dentro do copo com champanhe que ela segurava. Cada morango provocou um ruído seco e borbulhas. — O toque final — murmurou ele, observando a reação de Michelle. Ela ergueu o copo aos lábios e franziu o nariz com satisfação. Alessandro sorriu. As mulheres eram um de seus principais prazeres, mas a senhorita Michelle Spicer não se parecia com nenhuma que já conhecera. Era refrescante como um gole de água mineral. Beber champanhe devia ser uma raridade para ela, pelo modo como sorria de leve a cada gole. Estava completamente; esquecida da camisola curta que usava e do modo como o cetim se colava aos seios arfantes. Apenas uma mulher que se interessasse tanto pelas formas da natureza podia ser tão distraída a respeito da própria beleza. E Alessandro conhecia muitas mulheres. Todas analisavam o efeito que fariam sobre um homem. 12


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Em contrapartida, Michelle parecia completamente inocente. — Se come os morangos depois de ficarem impregnados com champanhe — explicou. Michelle sorriu e enfiou uma das frutinhas na boca. Jamais provara um morango tão saboroso. Suave e doce como o beijo de um anjo. Sentou-se ao lado dele no balanço em meio à noite cálida, e fitou Alessandro de rabo de olho. Ele olhava para o céu e seu perfil era lindo. Michelle imaginou que dizia belas palavras só para ela. E imaginou seus lábios acariciando sua pele. Ficar sentada ao lado dele era mágico. Nada poderia destruir esse momento. Alessandro a fitou sentindo o mesmo, e deu uma risadinha. — Morangos, champanhe e um estranho depois da meia-noite... Você ganhou o pacote completo, Michelle — comentou, sem malícia. O timbre profundo de sua voz a fez estremecer da cabeça aos pés, e Alessandro percebeu. — Está com frio... Dannazione! Se tivesse trazido o paletó, emprestaria para você. Por que não entra e pega um agasalho? — Não estou com tanto frio — respondeu ela, esperando que acreditasse. O momento era precioso demais para ser interrompido. — Então sente mais perto de mim. Vou aquecê-la. — Não estou com frio. Não mais, finalizou para si mesma, respirando fundo. Imaginou o que faria se Alessandro insistisse para que se aproximasse. Entre a vontade de fazer o que era certo e imaginar como seria maravilhoso fazer o que era errado, Michelle ficou tensa. O perfume das rosas se misturava ao de jasmim. Para ela, esse momento era um sonho que se transformara em realidade. Começou a se perder em um mundo de fantasia. — É assim que imagino um verdadeiro jardim campestre na Inglaterra — acabou dizendo. — Então está com saudades de casa, Michelle? — Oh, desculpe! Não pretendia dizer isso em voz alta. — Não se preocupe — murmurou ele com sua voz profunda e hipnótica. — E, já que a chamo de Michelle, deve me chamar de Alessandro. Michelle ficou mais tensa, e tratou de se concentrar nos morangos dentro do copo. Ele lhe entregou uma colher de prata. Uma a uma, Michelle retirou as frutas e saboreou esse prazer raro. — Não respondeu minha pergunta, Michelle. Está com saudades de casa? — Não, de jeito nenhum... Se estiver se referindo ao meu apartamento. Mas pus tudo isso para trás. Quero dizer... Não tenho mais um lar na Inglaterra. E ainda não consegui realizar meu sonho de ter uma casinha como esse ateliê, com uma roseira na porta. — Sim, mas isto aqui não é um lar de verdade, apenas um ateliê... Que eu esperava usar — acrescentou Alessandro. Michelle percebeu o tom de tristeza. — Pode trabalhar na mansão, signor... — Ele lhe lançou um olhar de censura. — Quero dizer, Alessandro. Deveria ter-me deixado acompanhá-lo em um passeio pela 13


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propriedade. A casa está equipada para ser um verdadeiro escritório comercial. Tem tudo... Ele a silenciou erguendo a mão. — Não, obrigado. Isto é tudo de que preciso no momento... Paz e tranquilidade. Hoje só quero beber champanhe sob as estrelas. Fez um gesto para o céu. Michelle ergueu os olhos, seguindo seu dedo. A costa ficava atrás deles, e estavam de frente para a Villa. Além de seus muros, surgiam quilômetros de campos. Não havia luzes de neon para ofuscar as estrelas que piscavam no céu de veludo negro. — Já viu alguma coisa mais bonita que essa Michelle? Ela disse que não, balançando a cabeça, embora pensasse que ele era mais bonito do que qualquer outra coisa à vista. Suas emoções estavam à flor da pele. Em parte desejava que Alessandro falasse mais e a seduzisse sob as estrelas. Mas o bom senso a fazia retroceder. Sua mãe sempre lhe, dissera que os homens não eram confiáveis. Nenhum ficava muito tempo para namorar Michelle depois que conhecia a temível senhora Spicer. Como resultado disso, Michelle não conseguia se sentir à vontade perto de Alessandro; estava ocupada demais procurando por sinais de alerta. Entretanto, se ele percebia sua tensão, nada demonstrou. — Creio que foi a noite mais agradável que já passei. — Ele ergueu o copo em uma saudação. — Obrigado por compartilhá-la comigo. Michelle ficou estupefata. Ninguém jamais lhe dissera algo parecido. — Se há alguma coisa que deseja Alessandro, pode me pedir — murmurou em tom profissional. Ele apoiou o copo na mesa. — Oferta perigosa, Michelle — disse, com olhar provocante. — Mas... Se não se importa... Talvez possa me fazer um favor? — O que é? — perguntou ela... Depressa demais. Ele sorriu de modo tentador. — Que tal se mudar para a Villa enquanto eu estiver aqui?

CAPÍTULO TRÊS

Michelle o fitou totalmente incapaz de falar. Alessandro se inclinou um pouco para frente; acrescentando com ar malicioso: — Posso imaginar como isso soa errado para você, mas não se preocupe. Será o nosso segredo. Ninguém precisa saber. Isso forçou Michelle a falar: — O que está dizendo? Corou e baixou a cabeça. O silêncio os envolveu. Quando ela tornou a olhar para 14


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cima, o sorriso compreensivo dele a fez vibrar. — Quero usar o ateliê para trabalhar. Sei que gosta de manter distância do resto dos empregados da casa, mas, no momento, não há ninguém. Poderá se mudar por certo tempo e deixar o ateliê para mim. — Fitou-a; dessa vez, com seriedade. — Pode confiar. Minha proposta nada tem de censurável. No silêncio, Michelle sentiu um som intenso dentro de sua cabeça. Eram seus sonhos que se espatifavam. — A menos que — prosseguiu ele — você tenha outras ideias em mente...? Michelle sentiu o perigo. Sua mãe podia ter afastado todos os seus namorados e pretendes, preservando sua inocência, mas, quando se tratava de Alessandro Castiglione, não era necessário ter experiência prévia para saber quem ele era. Um sedutor da cabeça aos pés. Com o pé, ele impulsionou o balanço, que começou a se mover suavemente ao sabor da brisa noturna. Michelle pensou que isso iria refrescar suas faces vermelhas, porém na verdade sentiu mais calor do que antes. Sensações estranhas percorriam seu corpo cada vez que o fitava. Jamais tivera tal experiência na vida. Sempre evitava fazer contato visual com os homens. Ali, na presença de Alessandro, o contato visual era um prazer. Ele passou o braço por trás do assento do balanço duplo com gesto displicente. Michelle sentiu uma vontade enorme de se apoiar no ombro forte. Já sentira a pressão de sua mão antes, e precisou fazer muita força para não ceder à tentação. — O que foi cara? Ela se levantou de supetão. — Não estou gostando disso. Alessandro riu. Um riso baixo e provocante. — Não...? Pois eu acho que gosta e muito. Michelle não conseguiu responder. Contar a verdade nessa hora só lhe traria problemas. — Esta noite pertence a nós dois; Michelle. Não há espectadores nem ninguém para ouvir atrás das portas. Somos livres para sermos nós mesmos. Fitou-a de alto á baixo com olhar experiente. Michelle se sentiu um coelho acuado por uma raposa esperta. Voltou-se a se sentar no balanço, vagamente surpresa com sua própria coragem. Ele sorriu e esticou as pernas. Sua linguagem corporal não podia ser mais clara. Parecia completamente diferente do executivo cansado do mundo que chegara à Villa poucos dias antes. Michelle prendeu a respiração. Ele era maravilhoso. Maravilhosamente perigoso, tratou de se lembrar. Algo em seu olhar a alertava para tomar cuidado. Afinal, não passava de uma funcionária temporária. Seria loucura encorajá-lo. Alessandro surgira em sua vida por acaso, e desapareceria com a mesma rapidez. — Deseja mais champanhe, signor! — perguntou, para romper a tensão. Ele balançou a cabeça dizendo que não, e ela apertou os lábios. Alessandro devia julgá-la uma simplória, falando de champanhe quando havia tantas outras propostas encobertas. O próximo passo seria julgá-la uma completa idiota. Michelle sabia que isso não era verdade... Apesar de sua mãe sempre chamá-la de 15


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boba. — Então... Qual sua resposta? — insistiu ele. — Vai se mudar daqui para que eu possa aproveitar os benefícios desse ateliê que Terence mandou construir? A mudança nos fará bem. Acredite. Michelle sabia que a última coisa a fazer era confiar nele. Por outro lado... Precisava provar que não era uma tola ingênua. Alessandro parecera muito cansado ao chegar à Villa. Já estava muito melhor. Não seria conveniente aceitar o que propunha? A música e a pintura provocavam milagres como forma de terapia. A arte em geral era benéfica. — Muito bem — concordou, antes que mudasse de ideia. Mas estava determinada a manter distância. — Ótimo... Deixou um bilionário exausto muito feliz — disse ele, rindo de leve. Michelle sentiu que não rira dela. A expressão de seu rosto falava em um cansaço mais profundo do que as palavras externavam. Estremeceu, e Alessandro pareceu sair de um sonho. — Você está com frio. Não devo mantê-la longe da cama por mais tempo, Michelle. Vou me retirar. Levantou-se e se inclinou, quase encostando seus rostos. Pegou a mão dela e a levou aos lábios. — Buona notte, Michelle. Bons sonhos — acrescentou, com um brilho de malícia nos olhos, enquanto se afastava. Michelle o viu se distanciar no jardim escuro. A camisa branca permaneceu visível por muito tempo. Sua figura só desapareceu por completo quando fechou a porta da casa. Isso rompeu o encanto que exercia sobre ela. Levantando-se do balanço, Michelle entrou devagar de volta no ateliê. Como pudera se enganar tanto com ele? Embora não tivesse dúvida de que sob o exterior elegante e belo Alessandro Castiglione fosse impiedoso, nessa noite demonstrara um grande charme. Michelle entrou correndo no ateliê. Michelle programou o alarme para as 4:00 horas da manhã, mas acordou a tempo de desligá-lo antes que tocasse. O barulho teria ecoado em meio ao silêncio e tranquilidade de Jolie Fleur. A lembrança do encontro à meia-noite com Alessandro estava vivida em sua memória. Não demorou em fazer a mala, que colocou na soleira da porta. Depois, tomou banho e vestiu um biquíni. Fora uma longa noite e dormira pouco. Um mergulho antes do café da manhã iria reanimá-la. O alvorecer no jardim era tão maravilhoso quanto á noite, e Michelle não via a hora de repetir o encontro com Alessandro. Colocou um roupão sobre o biquíni para ir até a piscina externa da Villa. O sol ainda estava fraco, envolvido pela névoa marítima. Deixando o ateliê pela última vez, sentiu a brisa fria no corpo. Circundou a piscina e parou de supetão. Alessandro já estava na água, nadando como um peixe. — Buon giorno, Michelle. — Ergueu a mão em uma saudação, e a água escorreu pelo braço musculoso. Nadou depressa até a borda. E a fitou da água. — A água está fria, mas nadar é uma boa maneira de começar bem o dia. Entre. 16


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— Eu... Não, obrigada. Não vim aqui para nadar. Apenas... Estava dando um passeio. Alessandro se atirou para trás, fazendo espuma. Michelle afastou os olhos do físico viril. A tentação era enorme, mas tentou agir como se ver homens musculosos só de calção de banho fizessem parte de sua vida. — Se não veio aqui para nadar, por que está usando um biquíni? Michelle baixou os olhos e viu que o cinto do roupão afrouxara durante a caminhada. Tratou de dar um nó mais apertado e se cobrir. Alessandro nadou de volta para a beirada com grande habilidade. Michelle corou, lembrando-se dos detalhes da conversa na noite anterior. Só ela ficara constrangida, e desejou dizer algo interessante. Alguma coisa... Qualquer coisa... Para recuperar a magia. — Então? O que está esperando? — insistiu ele. — Venha para a água comigo. Ela torceu a ponta do cinto. — Não posso... Sou apenas uma empregada aqui. Você é o, hóspede. — E só estou convidando-a para entrar na piscina. Não existe regra que impeça isso, existe? Michelle não sabia o que fazer e se sentia novamente hipnotizada por ele. O instinto lhe dizia para aproveitar, mas a decência a mandava correr para longe. Ela observou um passarinho percorrer a borda da piscina desejou ter a mesma determinação. — Desculpe Alessandro. Este não é o meu lugar. Ele nadava de costas sem tirar os olhos dela. Michelle não pôde deixar de admirar o corpo másculo e belo, os músculos rijos e a pele lisa. Quase dois metros de perfeição masculina. Alessandro tinha a palidez de quem ficava o dia inteiro atrás de uma escrivaninha, mas poderia ficar bronzeado com facilidade. Ela imaginou o efeito, e estremeceu. Sua expressão devia ser sonhadora, porque ele riu. — Se está determinada a ser um membro da criadagem, então também irei me ater às regras. Como hóspede, vou lhe dar uma ordem. É válido aproveitar a vida... Portanto entre na piscina e comece a se divertir. Michelle fora criada para obedecer às ordens. Mas essa em especial, á deixou apavorada. Sem pensar mais, despiu o roupão e mergulhou. A sensação de liberdade á fez relaxar imediatamente. O choque da água fria a reanimou como Alessandro previra. Ela retornou a superfície rindo. Olhou em volta para se orientar, e notou a cabeça morena que mergulhara de novo. De repente sentiu que Alessandro segurava suas pernas e subia ás mãos pelo seu corpo. Virando de costas, Michelle deu um impulso e se afastou para a borda com braçadas frenéticas. Quando a alcançou, ofegante viu que ele a seguira. — Não... Por favor, não me venha com brincadeiras, Alessandro. Não sou boa nadadora! Ele mostrou os dentes brancos. — Seu mergulho me pareceu excelente. Ela riu, constrangida e feliz ao mesmo tempo com o elogio. 17


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— Prefiro mergulhar de uma vez para não sentir tanto frio. Alessandro fitou seu corpo sob a água, fazendo-a corar. — Você é uma atleta. Posso afirmar, por causa do seu bronzeado. Durante sua vida profissional, Michelle ouvira; franceses falando inglês com sotaque, mas era a primeira vez que apreciava um sotaque italiano. Riu. — Não estou bronzeada de verdade! Apenas dou uma corrida ao sol quando posso. Ajuda-me a resolver os problemas. — Estou surpreso que uma garota tão jovem tenha problemas. A limpeza e ordem da Villa demonstram que é perfeita no que faz. O que mais pode preocupá-la? — Minha mãe morreu em abril. A expressão de Alessandro se suavizou. — Lamento. Michelle se censurou por incomodar um hóspede com sua vida particular, e tratou de apagar a má impressão. — Não lamente. Nós duas nunca fomos íntimas. — Íntimas? — Ele ficou sério, baixando os olhos para a própria mão esquerda sem aliança. — Alguns relacionamentos não valem a pena. Minha mãe nunca se incomodaria a me tirar da cadeia se fosse preciso. Michelle ficou surpresa. — Fala sério? Alessandro fitou o jardim de maneira pensativa. — Tudo que consegui na vida foi apesar de minha família, e não por causa dela. Michelle imaginou se o comentário tinha algo a ver com os parentes que despedira. Decidiu que era melhor não perguntar. — Então, lamento por você. Minha mãe não era tão má assim. Ele voltou a prestar atenção em Michelle. — Não fique triste por mim. Só provocará problemas. Curiosa, Michelle inclinou a cabeça para um lado. — O que quer dizer? Os olhos de Alessandro eram misteriosos. — Se ficar me olhando assim, logo descobrirá. Michelle estremeceu. Seus mamilos estavam endurecendo, e não era apenas por causa da água fria. Era pelo modo como Alessandro a olhava. Parecia ler sua alma. Ninguém jamais a examinara com tanta intensidade... Em toda a sua vida. Para ser honesta, ninguém nunca prestara atenção nela. Só reparavam quando deixava de fazer alguma coisa: a entrevista de trabalho que perdera porque sua mãe destruíra seu currículo, a única vez que faltara no trabalho por estar doente. — Tem um rosto fascinante, Michelle. Deixe-me desenhá-la — propôs de repente. Em todos os seus anos executando esboços, Michelle nunca tivera coragem de convidar um estranho para posar. Pensou em todas as oportunidades perdidas, e desejou ser espontânea como Alessandro. Ele viera com uma sugestão direta que ela nunca teria coragem de fazer nem em um milhão de anos. Tantas vezes tivera vontade de desenhar ou pintar uma pessoa, mas fora tímida demais para fazer algo a respeito. Agora Alessandro lhe mostrava como se devia agir. 18


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— Eu... Não sei. - Afastou os cabelos molhados do rosto para ter tempo de pensar. — Trabalho para o senhor Bartlett, e, se ele souber que andei pela casa posando quando deveria estar realizando minhas tarefas... Alessandro afastou sua objeção. — No momento, está trabalhando para mim, não para Terence Bartlett. Michelle fez silêncio. Nada podia dizer além de: — Se é assim, não posso recusar. Ele sorriu. — Sim — murmurou pensativamente. — Quanto mais a vejo, Michelle, mais eu percebo que está perdendo tempo aqui. Deveria ser imortalizada de alguma maneira. E sou a pessoa certa para fazer isso. Espere aqui, vou buscar meu material de desenho. Ela não tinha escolha. Alessandro se afastou da piscina e jogou seu roupão sobre uma das espreguiçadeiras. Vestiu-se e correu para a Villa. Michelle sabia que deveria estar com frio. Mas não estava. A visão dos músculos na água a enchera de um fogo perene e profundo, e Alessandro Castiglione era o responsável por isso. Desde o momento em que aterrissara em Jolie Fleur, tomara conta da vida de Michelle. Primeiramente a deixara com insônia. Depois, á excitara com seu toque no balanço e na piscina. E, no momento, á convencera a esperá-lo, enregelando na água. Assim que ele desapareceu, um vento frio soprou e Michelle ficou toda arrepiada. Tratou de mergulhar para não congelar. Precisava dar algumas braçadas para se esquentar. Porém, o exercício já não conseguia animá-la nem distraí-la. Só pensava em Alessandro. O alto e forte Alessandro Castiglione. Fazia o papel de empresário frio e indiferente, mas seus olhos escuros contavam outra história. Michelle voltou a estremecer, ante a lembrança de seu olhar quente. Se ao menos pudesse entender seu significado... Virando-se na água, viu-o regressar para a piscina. Agora usava jeans e uma camiseta justa e branca. Os músculos continuavam em evidência, é Michelle começou a ter fantasias eróticas. A calça tinha um corte impecável e parecia ter sido feita sobre medida. “Roupa esporte” no meio social de Alessandro queria dizer na verdade, "roupa de grife elegante". O bloco de desenho que trazia debaixo do braço estava encadernado em couro, e ele segurava na outra mão um estojo comprido de metal. Colocou o material sobre uma das cadeiras. — Se puder nadar um pouco na minha direção, Michelle, eu tentarei esboçar algumas ideias... Preciso de algo que torne meu trabalho produtivo. Arte é minha terapia. — Minha também — disse ela, timidamente. — Sempre quis frequentar uma escola de desenho, mas só consegui fazer um breve curso. Alessandro remexia no estojo. Escolhendo um carvão, fez alguns traços rápidos no papel. — Só uma olhadinha — falou, estendendo o bloco para ela. Michelle ficou surpresa. Em poucos traços, ela já podia se reconhecer. — Vá nadando devagar, para um lado e para o outro. — Enquanto ele desenhava, fez uma série de perguntas sobre trabalho dela. Sua conversa era leve e agradável... Até que perguntou uma coisa que a fez enrijecer. — O que a fez desistir do curso de arte? Ela não respondeu de imediato. Por fim, disse: 19


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— A resposta para isso é a mesma para a maioria de suas outras perguntas... Minha mãe. Ela não achava que arte fosse um bom trabalho. Não havia lugar na minha vida para nada não ser que ela aprovasse. Quando criança fui uma frustração para ela. Se não podia ser bonita, então devia ser útil. Alessandro franziu a testa e ela se sentiu incentivada a continuar: — "Arte não é trabalho; é uma perda de tempo, assim como ler" — disse Michelle, citando uma das frases favoritas da mãe. Alessandro ficou ainda mais sombrio. — Pensei tê-la ouvido dizer no ateliê que tinha alguns livros? — Tenho, sim... E esse foi o problema. São livros sobre arte, e mamãe os detestava. Quando não estava desenhando ou pintando, estava lendo sobre o assunto. Ela achava que fazia isso para desafiá-la. Essas palavras suavizaram a expressão de Alessandro, mas só um pouco. — Talvez fosse para o melhor — prosseguiu Michelle. — Tenho um trabalho que rende, e as escolas de arte, em minha opinião, costumam diplomar muita gente que no final se desinteressa. Alessandro trabalhava depressa, usando vários tipos de papel. Estava se divertindo. Qualquer homem podia seduzir uma mulher... E ele fazia isso com frequência... Mas o que estava realizando nesse momento era algo bem diferente. Quanto mais desenhava nos esboços, mais relaxado ia ficando. Até que a tensão o abandonou. Era muito gratificante. Por fim, deixou o trabalho de lado e se espreguiçou com vontade. — Devo parar de nadar? — perguntou Michelle, enquanto ele ficou a observá-la, a mão no queixo. — Sim. Venha se deitar em uma espreguiçadeira um pouco. Ela nadou até os degraus da piscina. Alessandro observou os pingos de água que escorriam pela sua pele macia. Sempre que ela erguia o braço, admirava a curvas perfeitas e naturais. Pisando as lajotas já aquecidas pelo sol, Michelle jogou para trás os cabelos molhados. Alessandro se sentiu excitado. Pegando uma toalha, embrulhou-a nela. Michelle segurou uma ponta e começou a secar os cabelos. — Espere... Fique assim. Quero que dê a impressão real de que acabou de sair da água, relaxada e secando ao sol. Pegou-a pela mão e a levou até a espreguiçadeira. Retirou a toalha em volta de seu corpo e a mandou se sentar ao sol. — Quer que faça alguma pose especial? — Está muito bem assim — assegurou, passeando o olhar pelo corpo de Michelle de maneira apreciativa. — Basta que se recoste e feche os olhos. Michelle levou alguns segundos para se sentir confortável e com vontade de relaxar. — Estou um pouco constrangida — confessou, com medo. Sempre usava biquíni, mas era a primeira vez que ficava tão perto de um homem lindo como Alessandro. — Não se preocupe. Já desenhei dezenas de mulheres... A maioria usando menos roupa que você agora. Michelle soltou uma risadinha. Isso a deixava mais à vontade. Mesmo assim, quando 20


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ele estendeu a mão para ajeitar seus cabelos molhados, ela recuou de modo instintivo. — Machuquei você, Michelle? — Não... De jeito nenhum. É que sou tímida quando alguém me toca. Sei que nunca mais levarei uma surra, mas meu corpo ainda não sabe disso. Ela tentou rir das próprias palavras, porém Alessandro estava chocado. Entretanto, logo se recompôs e sorriu. — Então tomarei muito cuidado para não machucá-la. Foi mais do que cuidadoso. A cada vez que erguia a mão para tocá-la, hesitava. Michelle teve o prazer dobrado da antecipação e da ação. O toque de Alessandro era sempre suave e a fazia se lembrar da noite sob as estrelas. Era quase insuportável. Já sabia como era ser tocada por ele. E quando reagia, ficando arrepiada, não era de frio. Alerta como sempre, Alessandro fixou sua atenção em uma gota de água que escoria pelo braço dela. — Avise se ficar com muito frio — murmurou, procurando a toalha. Com um único movimento preciso, esfregou o braço de Michelle. Quando afastou os dedos, ela suspirou. Um suspiro de total contentamento, como se fosse uma gatinha feliz. Recostou-se em uma almofada e fechou os olhos. — Antes que se acomode, acho que vou querer que jogue seus cabelos sobre este ombro... Assim dizendo, ajeitou-os como queria, mecha por mecha. Sob a carícia de seus dedos, Michelle sentiu uma estranha energia percorrer o corpo. Ele começou a secar as gotas de água que continuavam sobre sua pele, e Michelle estremeceu. Um riozinho desceu entre seus seios generosos, e pôde sentir a ponta de um dedo passando por ali...

CAPÍTULO QUATRO

Um gritinho de entusiasmo e antecipação escapou dos lábios de Michelle. Alessandro ficou imóvel. Sua mão estava tão próxima dela que Michelle podia sentir o calor. — Está ficando com mais frio — disse ele, reclinando-se para trás e deixando a mão cair sobre a coxa musculosa. — Vamos entrar... Já a fiz penar demais. — O sotaque agradável a fazia sonhar. — Inventei uma coisa para compensá-la pela sua paciência. É surpresa. — Oh, não devia ter se preocupado — gaguejou Michelle, porém secretamente feliz com a consideração dele. Abanando a mão para fazê-la parar com as palavras polidas, Alessandro pegou mais outras duas toalhas grandes muito bem dobradas da pilha sobre a cadeira ao lado da piscina. Passou uma pelas costas e, a outra, enrolou em volta dos cabelos molhados de Michelle. 21


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Ela adorou a sensação sob o sol. Era um luxo ao qual não estava acostumada. A seguir, sentiu que ele enxugava seus ombros e os cabelos. Deixou-se ficar sentindo o toque, aproveitando a intimidade mais do que poderia imaginar. — Isso é mais do que consideração da sua parte. É o paraíso! — murmurou. — Dio... A surpresa não é essa. — Alessandro riu baixinho. — Lá dentro há bolinhos e chocolate quente para o seu café da manhã. Aposto que não comeu ainda, acertei? Michelle balançou a cabeça em negativa. Esperava que seu estado de nervos não a fizesse perder o apetite! Ser servida por um hóspede era algo fora do comum. Alessandro já rumava para o interior da Villa. Ela o seguiu a uma distância respeitosa, mas sem parar de divagar. A Villa Jolie Fleur era seu local de trabalho, mas nessa manhã parecia que iria entrar na casa como uma convidada. Seus passos, em geral apressados, se tornaram mais vagarosos, e ela parou na soleira da porta. Era uma linda casa, dez vezes maior que o apartamento que deixara na Inglaterra. Cores claras e espelhos surgiam por todos os cantos. Ela tentou se concentrar nos arranjos de flores. Essa era uma grande oportunidade para admirar o lugar com olhos de visita, e ficou contente ao ver que tudo parecia muito bem conservado e limpo. Alessandro a parabenizara pelo seu serviço como governanta, e Michelle se sentira muito feliz. Agora ele preparara seu café da manhã. Jamais um patrão preparara refeições para ela. E era pouco provável que isso voltasse a acontecer, e sem dúvida jamais com alguém maravilhoso como Alessandro Castiglione! Michelle se dispôs a aproveitar o máximo possível. — O que está esperando? — ele perguntou por cima do ombro, com um sorriso enviesado que a encantou. Michelle desejou ter sempre toda a sua atenção, mas isso era impossível. — Imagine eu tomando o café da manhã servida pelo solteiro mais famoso e cobiçado do mundo! — murmurou, enquanto ele a conduzia até a enorme cozinha. — Isso é apenas um título que os tabloides me deram. Ainda não nasceu a mulher que possa me fisgar. — Sorriu como um lobo, enquanto a conduzia até o terraço iluminado pelo sol. — E isso é apenas um agradecimento por você ter tido a paciência de me servir de modelo. A vista marítima deslumbrante do terraço era enquadrada por trepadeiras floridas. Um cenário perfeito para o café da manhã. Michelle tomou uma caneca cheia de chocolate fumegante, e depois os dois se regalaram com bolinhos amanteigados, brioches e geleia de abricó. Ela estava tão nervosa que fingia comer mais do que de fato estava comendo. Assim podia admirar Alessandro. Ele era bom de garfo, e não tinha paciência com suas desculpas sobre não ter apetite. Por fim, encorajada, Michelle comeu quase tanto quanto ele. Mais tarde, tomando um cappuccino cremoso, recostou-se na cadeira e tentou decidir se o azul mais bonito vinha do céu ou do mar. — Poderia passar o dia inteiro aqui — murmurou, sem querer. — Perché no? Por que não passa? — Porque tenho que trabalhar, é claro. Alessandro passeou o olhar pelo terraço imaculadamente limpo e além, para a cozinha reluzente. Por fim, pousou os olhos em Michelle. 22


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— Esta casa me parece já muito bem arrumada. Estendeu o braço e retirou uma migalha de brioche do roupão dela. Era um gesto tão íntimo que Michelle ficou tensa, imaginando o que viria a seguir. Mas ele apenas a fitou, longa e intensamente. Era a mesma expressão que Michelle vira em seu rosto quando a desenhara. — Logo irei me instalar no ateliê. Então poderei planejar minha próxima pintura. Espero que me deixe segui-la dia e noite até conseguir as expressões que desejo? Se soubesse como já me segue dia e noite em pensamento, pensou Michelle. É a causa de minha insônia. Uma sensação deliciosa a possuía cada vez que se perdia nos olhos escuros dele. Alessandro consultou o relógio de pulso, e o momento mágico se desvaneceu. — A que horas chega o proprietário do bufê? Sem precisar ouvir mais nada, Michelle soube que ele voltara a ser o homem prático; estava mandando-a embora. A hora encantada do café da manhã terminara e, por mais que desejasse ficar ali, precisava se levantar. Se o dono do bufê chegasse e a visse ali, os comentários seriam inevitáveis. Suspirando, percebeu com realismo que não poderia passar o dia no terraço. Essas férias eram de Alessandro, não dela. Levou o maior tempo possível tirando a mesa e arrumando a máquina de lavar pratos, apenas para ficar perto dele, porém o momento de se afastar chegaria de qualquer jeito. — Obrigada pelo café da manhã, Alessandro, agora preciso ir. — Então, até logo, Michelle. Ela deixou a casa se sentindo abatida e desapontada. Alessandro mudara de atitude em uma fração de segundo como se percebesse que ela podia estar começando a ter ideias a seu respeito. Fora tão espontâneo e encantador na piscina que, de fato, á fizera fantasiar. Mas agora parecia querer erguer uma barreira de indiferença. Michelle imaginou por quê... E continuou a sonhar acordada. Alessandro se sentiu inquieto pelo resto do dia. Não conseguia se concentrar em nada. O jornal da manhã não lhe disse nada que já não soubesse por meio de seus associados comerciais. Quando abriu o livro que Michelle lhe emprestara, sentiu seu perfume e não conseguiu entender nenhuma palavra. Em vez de pensar na arte Renascentista, só via diante dos olhos a beleza moderna de Michelle. Enquanto isso, Michelle se movimentava pela Villa quase em silêncio, fazendo arranjos de flores, substituindo bebidas nas garrafas, afofando almofadas. Nunca dava o primeiro passo, mas, sempre que ele lhe dirigia a palavra, parava de trabalhar e respondia com timidez... Fosse sobre o pintor Rafael, o cardápio do dia ou algo tolo como o tempo. Nesse dia, ele almoçou no jardim, mas isso não o ajudou. Michelle também estava do lado de fora da casa, colhendo flores. Não podia vê-la da sua cadeira, mas o som das tesouras cortando as hastes e a fragrância das flores lhe diziam exatamente O que ela estava fazendo. Lembrou-se da noite em que haviam conversado com tanta naturalidade e intimidade. Podia visualizá-la tão bem que começou a desenhá-la de memória. As mulheres de seu círculo raramente possuíam a beleza natural ou a sinceridade espontânea de Michelle. Ela era única. A mãe de Alessandro fora uma balconista de loja, até que o velho Sandro Castiglione tentara elevá-la na escala social, e ela se tornara arrogante e insaciável. 23


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Ela adorara o estilo de vida, mas odiara todo o resto. Todos os homens da família Castiglione haviam lamentado se relacionar com ela. Alessandro franziu a testa ao recordar. Agora seu mundo era repleto de mulheres que tagarelavam sobre roupas e maquiagem como se isso fosse de vital importância; era um completo mistério para ele. No início de sua vida adulta, descobrira que, quanto mais dinheiro se dava para uma mulher, mais exigências ela fazia. Houvera uma delas que tomara tudo que ele oferecera, e mais ainda. Então, quando ele menos esperara, o atacara de um modo inimaginável. Usara-o como ferramenta para provocar ciúme no marido. A experiência era uma mestra muito severa. No momento, Alessandro tratava de prosseguir, mas sempre no controle das situações. Era a única maneira de aproveitar a vida. Passou o resto do dia trabalhando nos esboços que fizera de Michelle. Isso piorou sua insatisfação. Ela dizia que não se incomodava de ser chamada para que ele analisasse a curva exata de seus ombros ou o formato de seus olhos. E todas, ás vezes Alessandro dizia que seria a última, admirando o bom humor de Michelle. Quando começou a anoitecer, fechou-se no ateliê, determinado a continuar o trabalho. Afinal, o lugar era perfeito. A luz era excelente; não havia distrações; podia espalhar todo o seu material pelos cantos. Só faltava um modelo vivo. Imaginou se deveria procurá-la pela quinta vez, porém sabia que não deveria incomodá-la. Havia limites na vida... Até para ele. Caminhou até as portas-janelas que estavam abertas, viu as sombras da noite se aproximando do jardim. Um passeio por esse oásis de paz poderia acalmá-lo. Deixando de lado o bloco de esboços pela última vez, saiu do ateliê. Viu Michelle um minuto depois e parou antes que ela o visse. Ela estava de pé na grama, muito perto do ateliê, fitando os canteiros de flores. Uma brisa leve fazia dançar a saia de algodão do uniforme. A curva suave dos seios contrastava com a finura da cintura. Alessandro notou tudo isso com o olhar de artista, porém a testosterona o fazia imaginar muitos outros detalhes. Por baixo do vestido, sua espinha dorsal se curvava com graciosidade alcançando as nádegas... Que deviam ser macias o refletiu. Quanto às pernas longas e bem torneadas de Michelle, já as vira na piscina. A excitação sexual o dominou. Quando ela se voltou e o viu, entreabriu os lábios como se fosse dizer alguma coisa. Não havia necessidade de palavras. As mãos dele procuraram por Michelle enquanto se aproximava, e apertou-a nos braços. Choque e desejo a possuíram. Tentou falar, mas sentia-se perdida com a pressão do corpo másculo de encontro ao seu. Tremia da cabeça aos pés e o sentia tremer também. Então Alessandro a beijou ao sol poente com uma paixão tão intensa que todas as inibições de Michelle desapareceram. Ela retribuiu o beijo, o coração batendo desordenadamente enquanto se extasiava com a experiência. Estava sendo beijada pelo homem que enchia seus sonhos dia e de noite. Agarrou-se a Alessandro como se nunca mais quisesse largá-lo. Pertencia a ele. Sabia que estava desencadeando emoções que não podia controlar. Seu corpo fremia de desejo e ansiedade por algo que desconhecia. 24


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Nunca se sentira assim antes. Reagia por puro instinto, alerta para todas as sensações que Alessandro lhe provocava. Ele soltou seus lábios e ela atirou a cabeça para trás com um gemido, enquanto Alessandro deslizava a boca em seu pescoço. O tempo perdeu seu significado à medida que a ansiedade de Michelle aumentava. Apertou o corpo com mais força contra o dele. Sentia suas partes mais íntimas se abrirem para Alessandro. Ele estava pronto para a experiência também. Sua ereção se comprimia contras as coxas dela. Sempre seguindo os instintos, Michelle mergulhou a mão dentro do cós da calça de Alessandro e sentiu a rigidez de seu membro, desesperada para entender seu mistério. — Oh, Alessandro... Se ele não desejava seu coração, então estava pronta a lhe ofertar a única coisa que sem dúvida ele aceitaria. Enquanto as mãos fortes acariciavam seus seios, Michelle lutou para baixar o zíper da calça, por fim enfiando a mão completamente dentro do jeans. Descobriu que ele não usava mais nada por baixo do brim, e o acariciou sem pudor. — Não... — exclamou ele. — Ainda não. Ela reagiu com surpresa ante o tom de comando em sua voz. Alessandro se afastou um pouco... O suficiente para desabotoar o uniforme dela. Com um movimento rápido, o retirou, fazendo-a prender a respiração, mas ainda não terminara. Baixou as alças do sutiã, e ele encostou os lábios nos mamilos rijos, os dentes mordiscando e provocando, enquanto as mãos continuavam a acariciá-la. Michelle quase desmaiou de prazer. Sua respiração se tornou entrecortada enquanto murmurava o nome dele na escuridão silenciosa. Seus corpos pareciam um só. Com sensações que desejava satisfazer indo até o fim, Alessandro a faz deitar sobre o gramado. O aroma forte e gostoso da erva refletia sua paixão. Com um vislumbre de raciocínio, Alessandro pensou se sua fome por Michelle não era apenas resultado de sua vida vazia. Se o fato de cruzar a linha entre seu mundo e o dela não traria um pouco de aventura na rotina diária. Milhões de pensamentos se formaram e desapareceram em sua mente enquanto Michelle se contorcia sob seu corpo. Ela era uma experiência que Alessandro desejava ter. Rolando na grama, ele a possuiu, sua consciência se concentrou em preencher o vazio interior. Arremessou-se dentro dela, ouvindo seu gritinho, à medida que seus músculos se contraíam depois relaxavam. Michelle arqueou as costas em um gesto muito feminino de desejo e prazer. Ele a penetrou com mais força, como fantasiara fazer tantas vezes desde que chegara a Jolie Fleur e a conhecera. Seu prazer foi tão intenso que imaginou como conseguira resistir a Michelle por tantos dias. Ela se abraçou aos ombros largos, desejando que o ato nunca terminasse. Queria se entregar de corpo e alma a Alessandro. Essa era sua vida, e a oferecia para Alessandro Castiglione. Nada jamais se compararia a esse momento, ali com ele, sob o céu escuro do Mediterrâneo. — Oh, Alessandro — murmurou pela centésima vez, assim que conseguiu respirar direito. — Jamais imaginei que fazer amor pudesse ser tão maravilhoso, queria que minha primeira vez fosse a melhor... Fechou os olhos, emocionada, e suas palavras tão sinceras fizeram o sangue enregelar nas veias de Alessandro. 25


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Que diabos eu fui fazer? Pensou, sabendo muito bem que fora a pior coisa do mundo. Gentilmente, porém o mais depressa possível para não machucá-la, ele rolou para o lado. Michelle suspirou, deixando-o ainda mais constrangido. — Dio, Michelle, lamento... — Não. Foi fantástico. — Ela segurou seu rosto entre as mãos pequenas. Seu olhar brilhava de sinceridade. Alessandro não sabia o que fazer. Como pudera ser tão estúpido? Que desastre provocara. — Foi um erro — disse com firmeza, endurecendo o corpo e desviando o rosto no caso de Michelle fazer cara de choro. — Nunca deveria ter acontecido. — Eu sei, eu sei — replicou ela depressa em um sussurro que parecia vir de uma grande distância. Alessandro a sentiu se mover ao seu lado. Incapaz de fitá-la nos olhos tornou a se aproximar, colocando a cabeça de Michelle em seu ombro e abraçando-a com força. Tudo mudara entre os dois. Ele esperara lágrimas e recriminações. Entretanto, só o silêncio o recebeu. E isso era ainda pior. Sabia que a machucara, não apenas fisicamente. Essa realidade o atingiu como uma espada. Era a primeira vez que o sofrimento de alguém o afetava tanto, e foi um choque. Fatos e cifras eram muito mais fáceis de controlar do que sentimentos... Em especial quando esses sentimentos pertenciam á outra pessoa. Isso o fez pensar. Passaria mais uma noite em claro, mas com um propósito determinado, prometeu para si mesmo. Não deixaria Michelle desamparada. Tinha trabalho a fazer.

CAPÍTULO CINCO

Quatro meses mais tarde. Alessandro se sentava sozinho na sala de reuniões da Mouse of Castiglione. Examinou as contas a sua frente pela segunda e depois pela terceira vez. Os números se recusavam a fazer sentido. Seus colaboradores ficavam lhe contando a respeito do sucesso que Michelle fazia em sua nova vida na Inglaterra, mas ele não queria saber. Quando olhava para as fileiras de números, só via seu corpo sensual, macio e exigente sob suas carícias. A raiva inicial por causa da irresponsabilidade que cometera demorara um pouco para desaparecer. Para acalmar a própria consciência, combinara com o fundo de ajuda a jovens empreendedores que mantinha para que a ajudasse nos negócios, e assumira que isso seria o fim do relacionamento com Michelle. Entretanto, a fome por ela não desaparecera, e só em ler seu nome nesse relatório do fundo o deixava louco de desejo. Era preciso fazer alguma coisa para tirá-la dos pensamentos... De uma vez por todas. Desejava possuí-la de novo com a mesma paixão daquela noite no Mediterrâneo. Só isso o satisfaria. Tomando uma decisão e atirando os papéis para o lado, avisou a sua assistente que 26


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partiria para a Inglaterra... Imediatamente. Tremula de ansiedade, Michelle prendeu a respiração. Os olhos sorridentes de Alessandro a fitavam como se ela fosse á única mulher no mundo... Nesse momento e para sempre. Estavam deitadas sobre a relva macia em meio a sombras. Acima de suas cabeças, as folhagens murmuravam ao compasso da brisa. Com o dedo, ele desenhou o contorno do corpo de Michelle. Partiu dos ombros e desceu pela espinha dorsal ate os quadris arredondados. Ela gemeu e se abraçou mais a ele, se sentindo muito segura. Alessandro estava para depositar um beijo doce em seus lábios... O despertador fez Michelle dar um pulo na cama e deixar os sonhos, de volta à vida real. Por um longo tempo, se recusou a abrir os olhos. Sabia que milhões de pessoas fariam tudo pela oportunidade de ter a vida que ela tinha agora. Mesmo assim não tinha muita vontade de acordar para um novo dia. Alessandro sumira de sua existência. Oh, fora extremamente generoso, fazendo seus colaboradores organizarem sua galeria de arte e lhe darem o chalé em Costwold que ela sempre desejara. Porém, o senso de culpa dele não fora grande o suficiente para fazê-lo procurá-la outra vez. Michelle ia aos poucos aceitando o fato de que nunca mais o veria. Só tinha alegria quando dormia e sonhava. Seus sonhos sempre se focalizavam no irresistível e adorável Alessandro, não na realidade cruel. Assim que despertava, a dor da separação era quase impossível de suportar. O despertar destruía sempre a única felicidade que agora tinha na vida. Não estava mais no ensolarado sul da França. Estava na Inglaterra e na pior fase climática do ano. A única fragrância que sentia vinha dos sachês de lavanda que trouxera consigo. Pensando assim, Michelle gemeu. Ainda não era de manhã, era? Semicerrando os olhos para o despertador, tentou focalizar os números. Rolou para o outro da cama e voltou a cobrir a cabeça com o edredom. Por favor, por favor, deixe-me gozar de mais cinco minutos de calma antes da tormenta desabar... Sua prece não deu resultado. Seu estômago já se contraía, provocando náuseas. Como um bebê tão pequenino pode causar tanto desconforto? Pensou, cambaleando até o banheiro para se inclinar sobre a louça fria da privada. Fechou os olhos de novo. Se ao menos tivesse seguido um caminho diferente. Entregara seu coração para um homem com uma reputação terrível, que dera a entender diversas vezes abominar compromissos. A única vez que tentara entrar em contado diretamente com ele, uma muralha de secretárias e assistentes barrara qualquer aproximação. Michelle fora abandonada, e deveria ter esperado isso por parte de um homem como Alessandro Castiglione. Que esperança havia para uma garota estúpida como ela? Quando começou a se sentir melhor, abriu os olhos. Não valia a pena chorar sobre o leite derramado, mas não conseguia evitar. Alisou com delicadeza a frente da camisola. Sua vida agora deveria se concentrar no que fosse 27


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melhor para o bebê. Só lhe sobrara lembranças sobre o pai da criança... E uma carta. Um estremecimento percorreu o corpo de Michelle. De repente se viu de volta à Villa Jolie Fleur, na manhã após ter se entregado a Alessandro. Como se torturara ao se preparar para mais um dia de trabalho, imaginando como poderia voltar a fitá-lo nos olhos. Entretanto, abrira a porta da suíte que Alessandro ocupara na Villa e se deparara com seu livro sobre Rafael com um bilhete dentro, em que ele dizia que os negócios exigiam sua partida imediata, e que seus colaboradores entrariam em contato com ela. Apenas a casa solitária ouvira os soluços de Michelle. Desde o início, soubera que seus elogios e carícias não passavam de mentiras. E como sua equipe pudera entrar em contato com ele se estava sem celular? Bem, deviam ter ligado para a Villa. Correndo para o ateliê, Michelle encontrara o lugar vazio e abandonado também. Alessandro pegara todo o seu material de desenho e fora embora. Quando dois representantes muito bem vestidos da Fundação Castiglione chegaram mais tarde naquela semana para lhe entregar as chaves de uma casa e de um estabelecimento comercial na parte mais rica do interior da Inglaterra, o primeiro impulso de Michelle fora de atirá-las no rosto dessas pessoas. Mas, apesar de ser orgulhosa, não era tola. Ouviu com paciência enquanto os funcionários de Alessandro diziam que o senhor Castiglione costumava empregar sua fortuna para ajudar nos negócios as pessoas batalhadoras e merecedoras. Sabia que seu contrato temporário como governanta de Jolie Fleur estava para espirar, e que em breve precisaria de um novo trabalho. Parecera á solução ideal para todos os seus problemas. Da mesma maneira que conquistar o coração de Alessandro, segurança financeira sempre parecera um sonho distante para Michelle. Aceitar uma oferta tão generosa iria tranquilizar os dois. Quando seu contrato na Villa terminara, ela voltara, mas para uma nova vida no seu próprio país com tudo com que sempre sonhara... E mais ainda. Em poucas semanas, descobrira que estava grávida. Fora ao mesmo tempo a melhor e pior coisa que poderia lhe acontecer. Com outra vida para proteger, Michelle não podia se dar ao luxo de sofrer pelo que perdera. Por outro lado, agora tinha novas preocupações. Como daria uma infância melhor para seu filho se ele cresceria sem um pai? Michelle sempre chegava muito cedo à galeria de arte para garantir que tudo estivesse impecável quando as portas se abrissem. Estava em um vilarejo muito procurado por turistas na região de Costwold, famosa pelas conexões com a realeza. Seus clientes adoravam sua eficiência e ela nunca os desapontava. Entrou pela porta da frente, mal notando um carro azul que seguia lentamente pela praça do mercado. Checando seu celular, Michelle desapareceu no seu escritório. Comprara o celular nos primeiros dias de liberdade, logo após a morte da mãe. Fora um passo importante para a nova estrada que trilharia. E acelerei muito o passo nos últimos tempos, refletiu, quando o sino na entrada anunciou que se esquecera de trancar a porta ao chegar. — Desculpe, ainda não abrimos, mas pode olhar à vontade! — gritou, com sua melhor voz profissional e educada. Concentrando-se no celular, tratou de ler as mensagens recebidas. Como sempre, as 28


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únicas eram de amigos e clientes. Mais vinte e quatro horas haviam transcorrido sem notícias de Alessandro. Isso levava ao total de duas mil, novecentas e vinte e oito horas até o momento. Não que ela estivesse contando, é claro. Não faria sentido. Alessandro sempre deixara claro que não estava interessado em se comprometer com uma mulher. E, desde que Michelle voltara para a Inglaterra, descobrira o quanto ele falara a verdade. Ela encaminhava toda a correspondência sobre sua galeria de arte diretamente para Alessandro, mas o departamento financeiro sem rosto da Fundação Castiglione era quem lidava com isso. Nem uma vez Alessandro entrara em contato com ela. Todas as revistas femininas que Michelle lera alertavam que romances de férias como o seu sempre acabavam em sofrimento. Então, por que não acreditei? Pensou com amargura. Teria me poupado um oceano de lágrimas. — Michelle? A voz de Alessandro, profunda e com o sotaque característico, ecoou pela galeria. Era inconfundível. Ela ficou paralisada, lutando para acreditar no que ouvira. — Alessandro? — murmurou. Então o senso comum a impediu de correr para a porta. Não iria fazer papel de idiota pela segunda vez. Ela se embrulhara em um manto de frieza no dia em que ele a abandonara na Villa da França. Era hora de ver se o manto ainda servia. Precisava de respostas, e virou-se para confrontá-lo. O tempo pareceu parar. Toda a raiva e frustração de Michelle ficaram suspensas no ar. Ela o fitou transfigurada. Sua silhueta alta e imponente logo a fez se lembrar de tudo, como se tivesse acontecido no dia anterior. Cada detalhe importante, dos espessos cabelos negros e olhos escuros ao aroma da colônia pós-barba e toda a sua masculinidade, surgiram diante de seus olhos exatamente como Michelle recordava. Nesse dia, Alessandro usava um terno clássico feito à mão, uma gravata de seda azul-noite e abotoaduras de ouro surgiam nos punhos da camisa social branca. O efeito era maravilhoso e, sem dúvida, muito caro. Ele estava parado na sua frente em carne e osso, e Michelle tentou com todas as forças não se lembrar de seu corpo viril sem roupa. Sabia que a única coisa importante a descobrir era por que ele á deixara tantas semanas atrás sem dar notícias. Entretanto, quando seus olhares se cruzaram, Michelle se esqueceu de tudo, a não ser da tórrida paixão que Alessandro lhe inspirava. Uma paixão que percorria suas veias como lava e dificultava sua respiração. Ela o desejava. Por uma questão de sobrevivência, fora forçada a vestir uma armadura de indiferença quando Alessandro partira. Agora ele estava ali, e ela queria explicações... Porém seu corpo pedia outra coisa. De repente, uma necessidade diferente, mas também premente, a fez dar um passo atrás e segurar a garganta em um misto de pânico e constrangimento. — Oh... Oh, meu Deus... Estou enjoada... — Em geral, não causo esse efeito, tesoro — brincou Alessandro, mas seu sorriso desapareceu quando ela balançou a cabeça com força. — Não, estou enjoada de verdade... Ele abriu caminho enquanto Michelle passava correndo e entrava no banheiro pequeno além do escritório. Foi o tempo justo. Quase em seguida, Michelle sentiu a presença dele ao seu lado. Quando, por fim, parou de vomitar, ele lhe entregou uma toalha molhada. Michelle nunca se sentira tão grata por alguma coisa. Pressionou o pano 29


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úmido na testa, contente por pode esconder as faces vermelhas. — Posso fazer mais alguma coisa? — perguntou ele, o sotaque charmoso recheado de preocupação, e despedaçando o coração de Michelle mais uma vez. — Já fez bastante, não acha? — replicou ela, com a voz rouca de tanto esforço. Retirando a toalha de suas mãos, Alessandro lhe entregou um copo com água e gelo. Quando ela acabou de beber, tornou a pegar o copo e, depois, como Michelle continuava de joelhos junto à privada, ajudou-a a se levantar. Michelle se sentia fraca como um gatinho, e encostou-se a ele. Por alguns segundos, iludiu-se pensando que retornara ao paraíso. Então descobriu que não fora a única que mudara. Alessandro não a abraçava como fizera na gloriosa primeira e última vez que haviam se amado. Seu corpo estava tenso e distante. Segurou-lhe as mãos por alguns segundos e depois se afastou. O gelo em sua voz combinava com a expressão do rosto. — Arrumei para que tivesse um lar e um trabalho pelo resto de sua vida. Não tinha nada disso quando nos conhecemos. Havia um brilho perigoso em seu olhar que a fez refletir o que mais poderia dar errado em sua vida. Quando o desafiou, logo descobriu. Seus sonhos ficaram frente a frente com a realidade e se despedaçaram. — Quer que seja grata a você? Pelo fato de me manter com conforto e à distância? Quer ficar com a consciência tranquila? Para que eu não o constranja um dia na frente de seus amigos do tipo de Terence Bartlett? — Suas palavras soaram carregadas de dor. Seu coração sofrerá vários baques nos últimos tempos, mas jamais se sentira tão mal como nesse momento. — Você me deixou para que cuide sozinha do bebê, e espera que seja grata por isso? — Não, mas, se não pode se mostrar agradecida, poderia pelo menos... Alessandro parou de falar de supetão e a encarou. Lentamente os olhos penetrantes baixaram do rosto de Michelle para o resto de seu corpo. Ela observou os ombros largos subindo e descendo ao compasso de sua respiração rápida. Isso traía o tumulto dentro de Alessandro. Quando ele conseguiu falar, era óbvio que fazia força para se dominar. . . — Está grávida? Ora, por que será que isso não me surpreende? — resmungou, em tom irônico. — Crianças é uma ferramenta de barganha muito boa. Acho que nem preciso perguntar se pretende levar a gravidez adiante. Todos os terríveis boatos a respeito de crueldade de Alessandro Castiglione voltaram a assaltá-la nesse instante. — Fui largada completamente sozinha no mundo. Sei como é se sentir indesejada — despejou Michele, com amargura. — Preciso me cuidar. O que mais posso fazer? — Acho que nós dois já fizemos muito. Um longo silêncio se seguiu enquanto fitavam um ao outro. Então ele falou, enchendo o cômodo com sua voz possante: — De agora em diante, será tudo uma questão de minimizar os danos. Isso pode começar com o fingimento de um feliz reencontro. Michelle o encarou com seriedade. Na França, esse mesmo homem tomara tudo que ela tivera para lhe dar. Quando sumira de sua vida, criara um vazio que nunca mais seria 30


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preenchido por ninguém. Michelle tinha tantas perguntas a fazer, mas silenciou-se. Queria estender a mão e tocá-lo, relembrando o breve período de tempo em que haviam se amado, porém a expressão sombria de Alessandro a impediu. — Como consegue ficar aí parada com tanta calma, Michelle? — perguntou, com os olhos em brasa. A crítica amarga em sua voz á fez se defender. — Tento fazer o melhor na situação. É tudo que me resta — murmurou, com o rosto pálido de emoção. Sua reação pareceu deixá-lo ainda mais aborrecido. — Sim, é claro — resmungou. O fogo nos olhos dele desapareceu, dando lugar à desaprovação, como se aguardasse que ela se justificasse. Por um breve tempo, Alessandro fora a pessoa mais próxima a ela, mas fora um tempo de contos de fadas... E ele continua sendo um príncipe encantado refletiu Michelle. As mechas negras dos seus cabelos podiam estar mais curtas, porém continuava rebelde como ela lembrava. E a aristocrática frieza de suas feições permanecia, embora ela o achasse mais magro. Estaria trabalhando demais? Michelle ardia de vontade de saber. A notícia de sua gravidez fora um duro golpe para ele. Michelle podia perceber isso. Apesar de todo o sofrimento que Alessandro lhe causara, estava desesperada para confortá-lo. A sensação do queixo com um início de barba de encontro ao seu rosto seria tão gostosa... Balançando a cabeça de maneira involuntária, afastou a ideia. Alessandro estava bem barbeado no momento. Até isso mudara. Tudo estava diferente ente os dois... Em especial a expectativa nos olhos dele, que estavam escuros como carvão. — Bem? Não vai se defender, Michelle? Ela o encarou. Havia sido necessária a colaboração dos dois para fazer um bebê. Por mais assustadora que fosse sua reputação, Alessandro precisava ouvir algumas verdades. — Por que, exatamente? — Ela ergueu o queixo com determinação, e atacou também da única maneira que sabia. — Você me enganou, Alessandro. O que aconteceu conosco? Para onde foi? Desde que me deixou na França, tudo que faço é trabalhar, comer, dormir... E tentar esquecê-lo. — Bem, agora daremos ao mundo a notícia tão esperada de um final feliz — replicou ele com sarcasmo. — Nenhuma publicidade negativa deve abalar minha empresa. A manchete "Bilionário me deixou grávida, soluça a virgem," sem dúvida iria vender milhões de jornais. Mas não pretendo dar tal alegria aos jornalistas. No ano passado, quase fechei as portas de um tabloide por publicar que tinha um romance com a esposa de um concorrente comercial. Agora devem estar loucos para me pegar. Porém, isso não irá acontecer. Não havia dúvida a respeito... O que quer que "isso" significasse. Michelle via a determinação fria em seu olhar, e pela primeira vez desde que o conhecera, tempos atrás, sentiu medo. Alessandro pegou o celular no bolso do paletó e, após uma longa ligação irritada, desligou e tornou a confrontá-la. — Meu pessoal irá fornecer a noticia para a mídia sobre minha visita a você hoje. Farão algumas fotos, e uma breve publicação a respeito — disse. — Isso manterá os jornais 31


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felizes por algum tempo. — E será explicado por que você não entrou em contato comigo desde...? Alessandro arqueou as sobrancelhas e ela se calou imediatamente, como se ele explicasse, mesmo sem palavras, que seu último encontro fora apenas um aborrecimento na sua vida. Serenamente, ele ajeitou a gravata. A cor azul contrastava muito bem com o terno escuro e a camisa imaculadamente branca. — Como lhe disse várias vezes na França, procurava relaxar, e não criar relacionamentos sérios. A voz soou tensa enquanto ele tentava se justificar. Continuou a ajeitar os punhos da camisa e a analisar as abotoaduras como se isso fosse á coisa mais importante do mundo, mas, na opinião de Michelle, não precisava ajeitar nada, pois estava perfeito. Lindo e inacessível. Como sempre. Porém algo mudara, e, para ela, Alessandro Castiglione parecia uma casca vazia. Uma beleza de homem sem alma. O homem que a seduzira na Villa Jolie Fleur desaparecera. Analisou a expressão de seu rosto, mas, quanto mais olhava, menos entendia. — Se minha visita aqui hoje irá salvá-la dos abutres da imprensa, Michelle, então eu continuo achando que foi para melhor. — Seus olhos se suavizaram e ela deu um passo a mais em sua direção. — Por que nunca me telefonou? — murmurou, por fim, conseguindo fazer uma das perguntas que a atormentavam há muito tempo. De repente, cada segundo das horas que haviam passado juntos voltou em todos os detalhes, e isso a fez sofrer ainda mais. Não havia como esconder o ressentimento quando acrescentou: — Você me abandonou, Alessandro! Ele baixou as pálpebras sobre os olhos escuros que se tornaram ainda mais misteriosos, e murmurou: — Não agiu corretamente comigo também, Michelle. — Não pude fazer nada! — gritou ela, mas Alessandro não pareceu se importar, respondendo: — Mas eu posso, e farei. Ele falou com sombria determinação, arqueando as sobrancelhas e erguendo o queixo também, porém nesse momento Michelle reconheceu o antigo Alessandro. Em algum lugar sob o exterior diferente e seco estava o Alessandro da conversa à meia-noite no balanço em Jolie Fleur e no mergulho na piscina ao amanhecer. A paixão a dominara nessas ocasiões, e voltava nesse instante, enquanto se aproximava de maneira instintiva e aspirava o perfume dele. Seu corpo ansiava por contato físico. Isso poderia ser a chave da prisão onde vivia agora cheia de tristeza. O calor invadiu sua pele enquanto erguia a mão na tentativa de acariciar o rosto de Alessandro. Entretanto, ela deu um passo para trás como se tivesse sido queimada, e segurou a garganta com as duas mãos em um misto de pânico e constrangimento. — Oh... Oh, céus... Estou enjoada de novo... — É melhor terminarmos com isso agora, antes de sair — disse ele, com resignação. — Estaremos a salvo na Itália na hora do almoço. Michelle não teve tempo de perguntar o ele queria dizer com isso; a associação de ideias entre as palavras "almoço" e "comida" fizeram seu estômago se embrulhar ainda mais. 32


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Pela segunda vez, Alessandro se inclinou sobre ela enquanto Michelle vomitava em uma cena nada romântica ou sensual. De novo, ele lhe ofereceu uma toalha molhada e um copo com água de maneira muito, eficiente, enquanto ela estremecia da cabeça aos pés, presa pela ânsia. Michelle gemeu uma, duas vezes, enquanto pensava em jornalistas, viagens para a Itália, e tudo que isso implicaria. — Oh, não... O que todos irão pensar? — gemeu. Alessandro gesticulou com as mãos para cima em um gesto muito italiano. — Em um momento como este, ela se preocupa com modi... Boas maneiras! — resmungou para si mesmo, como se Michelle não estivesse ali. — No momento, só deve se preocupar com uma coisa, tesoro... E não é com as outras pessoas!

CAPÍTULO SEIS

Ela levou algum tempo para se, recompor. Alessandro fez chá e vários telefonemas no celular, falando rapidamente em italiano. Quando Michelle se sentiu em forma o suficiente para sair do escritório dos fundos e entrar na galeria, havia meia dúzia de fotógrafos do lado de fora. — Nunca estão muito longe — comentou Alessandro com ironia. Costwold está repleta de residências reais e esconderijos de artistas famosos, e os paparazzi ficam por perto para conseguir flagrantes e fotos indiscretas. — E eles abandonaram tudo isso para tirar uma foto de você? — perguntou ela, com cautela. — Não posso evitar. Nunca quis ser uma figura pública, mas preciso viver com isso e, como você, devo fazer o melhor possível. Na verdade, só o que me interessa é minha empresa, a House of Castiglione. Ela lhe deu um sorriso amarelo, incapaz de refutar essa verdade, pois parecia que Alessandro só se importava com o trabalho. Ele deixara muito claro que não haveria futuro para eles dois. Mas, na época, não fora o suficiente para fazê-la deixar de fantasiar sobre viver a vida simples de esposa de um artista. No momento, seus sonhos do passado e do presente haviam se transformado em cinzas sob o olhar atento e predador da mídia mundial. Sabia que meu romance de férias era bom demais para durar, pensou Michelle com tristeza, dizendo em voz alta: — Bem, creio que devo agradecê-lo por sua ajuda. Mas poderia passar muito bem sem seu exército de fãs. Ele balançou a cabeça, refutando o que Michelle acabara de dizer. — Tenho um plano de socorro, Michelle. Estou lhe oferecendo um meio de fugir, se assim desejar. Michelle percebeu que, fosse lá qual fosse sua oferta, exigiria muito sacrifício de Alessandro. Relembrou como se entregara a ele naquela noite gloriosa no Mediterrâneo. 33


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— Você me abandonou, Alessandro — repetiu, com uma calma aterradora. — Agora sabe por quê. — Ele fez um gesto para as lentes das câmeras, prontas a funcionar no momento que os dois deixassem a galeria. O queixo firme e orgulhoso de Alessandro ainda deixava os joelhos de Michelle parecendo geleia, mas, no momento, estava erguido de pura raiva. Todas as noites de espera, angústia e tristeza pareceram se transformar em um rio que transbordava. Não, não sei! Não sei de nada, Alessandro, pensou. Não sei por que deixou a Villa com tanta pressa, não sei por que meu local de trabalho está sendo cercado por fotógrafos às oito horas da manhã, e o pior de tudo... Ela tentou lutar contras as lágrimas de confusão. Ele sempre fora um mistério maravilhoso na época de Jolie Fleur, ma essa tela em branco agora era amedrontadora. Fitando-o, murmurou: — O que aconteceu com o artista engraçado e romântico que conheci na França? — É a vida. Foi isso que aconteceu — replicou ele com brusquidão. — É o que acontece por trás do cenário quando um homem ocupado se diverte e relaxa. Agora me dê á chave de sua casa. Suas malas precisam ser feitas. Tonta de cansaço e sem conseguir raciocinar direito, Michelle quase gargalhou. — Espere! Volte um pouco... Está indo depressa demais! Como poderei voltar para Rose Cottage passando por tantos fotógrafos? Será que me deixarão passar? — A cada minuto, mais paparazzi chegavam. — Não posso enfrentá-los me sentindo assim... Ele respirou fundo, enquanto Michelle estudava seu rosto, buscando desesperadamente por pistas sobre o que sentia. Foi em vão. Os olhos escuros estavam mais misteriosos do que nunca. — Não vai precisar Michelle. Meu pessoal irá ajudá-la. Assim serão as coisas de hoje em diante — falou, devagar e de modo compassado, como se ela fosse uma criança e ele, um pai furioso. — Aqui ou na Itália? — perguntou ela, juntando os fragmentos da informação que Alessandro lhe dera antes. — Em minha casa, é claro. Não pode ficar aqui. — Apontou com a cabeça para a multidão do lado de fora. — Não tenho a intenção de deixar você e meu filho aqui nem mais um minuto. Se ficar sozinha, será perigoso. E eu arriscarei meu negócio também — terminou com secura. — É verdade que despediu seus próprios parentes da House of Castiglione? — perguntou Michelle, sem conseguir conter a pergunta terrível. — Não esperava que você desse ouvidos aos boatos — retrucou-o, com uma voz tão áspera que a fez ranger os dentes. — Pensei que estivesse acima dessas coisas. Mas, pelo menos, isso acaba com a última ilusão que poderíamos ter. Nada sabemos um do outro, portanto poderemos começar nossas novas vidas juntos do zero. — Nossas novas vidas? — repetiu ela, confusa. — Foi o que acabei de dizer. Agora, vamos embora. Os paparazzi ficarão sentados lá fora durante dias, esperando pelo que desejam. Sua paciência é infinita. A minha não. — Fitou-a com olhar crítico. — Está com a sua chave? 34


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— Sim — respondeu Michelle. — Mostre-me. Distraída pelo aparecimento de um homem grande com um terno escuro do lado de fora da galeria, Michelle mexeu na bolsa. Nada encontrou e, enquanto Alessandro demonstrava impaciência, ela procurou em cada bolso. Aliviada, informou: — Enfim, encontrei. — Agora podemos ir — murmurou Alessandro, apressando-a. — Deixe que eu responda qualquer pergunta — disse o sotaque acentuado pelo nervosismo. Sem dúvida o gigante no terno escuro era seu empregado, pois abriu a porta da galeria para deixá-los passar. Sem uma palavra, Alessandro lhe entregou a chave de Rose Cottage. Michelle ia protestar, mas a mão pesada de Alessandro caiu sobre seu ombro. — Esse é Max. Ele providenciará suas malas, e um carro nos aguarda... Fique perto de mim e não diga nada. Ela aquiesceu com um gesto de cabeça, meio zonza, e então notou o lindo carro azul que vira antes rondando a rua. Estava no estacionamento mais perto da galeria. — É o nosso transporte para o aeroporto? Alessandro acenou que sim. — Quando parte nosso avião? — É o meu jato particular, e partiremos no momento que chegarmos lá. E agora... Silencio perfavore! — Segurou o braço de Michelle com determinação. — Precisamos sorrir para as câmeras, Michelle. Ela obedeceu sem questionar. A turba avançou para eles com os clarões dos flashes espocando. Em vez de afastá-la correndo deles como Michelle esperara, Alessandro parou e ergueu a mão. — Por favor, senhoras e senhores! Lembre-se de nosso acordo. Michelle e eu lhes daremos uma foto, conforme o prometido. Depois nos deixarão em paz, certo? Michelle não pôde dizer o que os paparazzi pensaram disso, porque no mesmo instante Alessandro arrebatou toda a sua capacidade de raciocinar, tomando-a nos braços e beijando-a com tanta intensidade que o universo pareceu explodir ao seu redor. Sua boca pressionou a dela com tanta força que Michelle só conseguiu pensar na paixão que haviam compartilhado uma noite. Ergueu as mãos, desesperada para sentir a força dos músculos viris que lhe davam tanta segurança. Seu perfume, os ombros largos e perfeitos sob as roupas de grife, traziam de volta todas as emoções de antes. Apenas uma coisa estava faltando. Quando Alessandro a procurara no jardim naquela noite em Jolie Fleur, seus olhos estavam vivos. No momento, eram magnéticos, frios e insensíveis apesar do calor de seu corpo contra o dela. Os dedos fortes se enterraram nos ombros delicados de Michelle, mas era um ato de posse, não de carinho. Sentindo o conflito íntimo de Alessandro, ela se agarrou a ele, louca para ser encorajada. Porém, ele recuou o suficiente para que a sua voz sussurrada fosse ouvida apenas por ela ao dizer: — É isso aí. — As palavras soaram frias como diamantes. Sorriu para as câmeras. — Se os fotógrafos não tiverem sido rápidos, peggioperte... Pior para você! Não haverá outra foto. 35


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— Parece muito seguro disso, Alessandro! Michelle falou com agressividade, mas a reação dele a fez se calar. Alessandro lançou um olhar tão venenoso para ela que a fez recuar. Aconteceu em uma fração de segundo, e só ela viu, mas seria um olhar que jamais esqueceria. Dando de ombros para o resto da plateia, Alessandro começou a empurrar Michelle para o carro. Apesar de ele estar sorrindo, exibindo os dentes muito brancos, ela só via a linha dura do queixo. O choque diante dessa expressão se transformou em pavor quando as perguntas começaram a surgir de todos os cantos. A equipe de Alessandro fizera um bom trabalho ao avisar a mídia. Mais vans chegavam, em um movimento incessante. A animação era contagiante. Louca para ser orientada em meio a essa confusão desconhecida, Michelle chamou Alessandro. Foi um erro. Na privacidade de seu escritório, ele estivera imobilizado pela raiva, porém a total falta de emoção com que a fitou nesse momento foi ainda pior. Com um sorriso gelado que nada fez para acalmá-la, ele se virou com seu profissionalismo frio para responder as perguntas. Estavam cercados por todos os lados. Apesar de sentir medo desse novo e desconhecido Alessandro, Michelle se viu procurando sua proteção. Ele segurava sua mão com uma força cruel que a machucava, e a expressão de seu rosto era pálida, mas usava de todo o seu charme para conversar com seus torturadores. — Por favor, não empurrem minha noiva, cavalheiros. Quando se aproximaram mais do carro, o motorista uniformizado abriu a porta de trás para Michelle, que, estupefata, parou. Alessandro a soltou, mas sem deixar de observá-la. Depois, deslizou os dedos pela sua nuca e a fez entrar no interior escuro do carro. Sua presença alta como uma torre bloqueava a passagem, portanto não havia como ela correr de volta para o santuário e a proteção de sua galeria de arte. O motorista e a porta aberta do carro impediam qualquer tipo de fuga. Michelle lançou um olhar desesperado para o outro lado. Acrescida pela presença de praticamente todos os habitantes do vilarejo, a turba aumentara e avançava. Se corresse, para onde Michelle iria? Gritos animados saíam da multidão. Ouvia-se o clique de esferográficas e o rumor de folhas de blocos sendo viradas. — Noiva! Mas nunca nos falou sobre noivado, Sandro! — Havia um tom de acusação no comentário anônimo, e o resto da multidão tratou de reforçar. Alessandro ria sem parar. — Pela primeira vez os surpreendi senhores — disse com afabilidade, mas Michelle notou a máscara cair um pouco quando ele acrescentou: — E, por favor, Sandro era o nome de meu pai. Não abreviem o meu nome. Eu sou Alessandro... Exceto pela genética, eu e meu falecido pai nada tínhamos em comum, certo? — Nada? E o modo como tratam as garotas bonitas? — disse alguém. Alessandro voltou a sorrir, porém apenas Michelle, que estava muito perto dele, viu o rubor em suas faces, que eram de raiva, e não de constrangimento. — Ninguém que me conhece de verdade diria tal coisa — replicou ele com displicência, porém seus olhos eram duas brasas frias sobre Michelle. 36


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— Mas a história parece se repetir, não acha? Como seu pai e sua mãe. Um noivado repentino com uma anônima moça que trabalha em uma loja? Tem alguma coisa para esconder? — disse outra voz estridente. A turba parecia clamar por sangue. A excitação era algo vivo ali. — O que os outros membros da House of Castiglione pensam a respeito? — perguntou uma terceira jornalista, berrando a plenos pulmões para se, fazer ouvir. — Sem comentários — replicou Alessandro, enquanto continuava a ocultar Michelle com seu corpo, procurando a segurança do carro. Mesmo quando a porta bateu, separando-a dos membros da imprensa, parecia que a multidão a cercava, deixando-a com falta de ar. Alessandro entrou no veículo pelo outro lado, e ergueu os vidros opacos. Todos os rostos risonhos do lado de fora se transformaram em silhuetas quando o motorista se acomodou no assento. Alessandro deu algumas instruções rápidas em italiano. Depois, ergueu uma cortina eletrônica separando o banco de trás do resto do mundo. Michelle lutou para controlar o pânico. Não fazia ideia do que Alessandro estivera pensando quando surgira de improviso na galeria, mas sabia qual era o problema agora. Ela era a causadora de toda a comoção. Sua vida fugira ao controle e as coisas só poderiam ir de mal a pior. Alessandro afivelou o cinto de segurança. — Vamos. Michelle se armou de coragem para manter a voz serena diante de seus sonhos desfeitos e da fúria contida de Alessandro. — Por que me chamou de sua noiva minutos atrás? — Porque é isso que você deve ser. Ele girou os olhos negros como carvões em brasa na sua direção. Não havia sinal da ternura romântica de antes, e Michelle estremeceu de medo; as palavras que ansiara por ouvir haviam se distorcido e soavam como uma ameaça. — Não tenho que dar minha opinião sobre isso, Alessandro? Ele resmungou com desdém. — Poderia ter sido honesta comigo e dito, semanas atrás, que não se protegia e poderia engravidar. Então nada disso estaria acontecendo. Como ele podia jogar na lama o momento que fora o mais importante na vida dela? — Lamento — murmurou Michelle com secura. — É claro que lamenta. — Ele começou a tamborilar com os dedos sobre o joelho e olhou pela janela do carro. — Mas está arrependida por desejar que isso nunca tivesse acontecido? Ou porque cheguei para controlar a situação quando pensou que obteria tudo do seu j eito? Michelle não pôde responder. Fitou as próprias mãos, que se tornaram borrões enquanto lágrimas embaçavam sua visão. Rezava para que Alessandro não estivesse pensando em aborto. A ideia passara pela sua cabeça por um breve instante de loucura e desespero, assim que descobrira estar grávida, porém jamais teria tomado tal providência terrível. E como é que Alessandro, um homem acostumado a andar pelas ruas em um carro luxuoso como aquele, poderia saber o que era o desespero? 37


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Michelle fechou os olhos e se enterrou no assento de couro. Acordara nessa manhã pensando que nada poderia ser pior do que um futuro solitário e de trabalho duro. Agora pensava de outra maneira. O percurso até o aeroporto foi tenso e silencioso. Alessandro só tornou a lhe dirigir a palavra quando seus funcionários os fizeram passar depressa pelas formalidades, e os instalaram no jato particular. Conhecendo o patrão quando estava de mau humor, a equipe tratou de desaparecer assim que possível. — Presumo que você esteja de fato carregando meu filho? A voz de Alessandro pareceu cortá-la ao meio. Michelle ergueu a cabeça e percebeu que ele devia estar se preparando há muito tempo para fazer essa pergunta; respirava com dificuldade e mordiscava os lábios enquanto aguardava por sua resposta. — É claro que sim. Não mentiria para você, Alessandro. — Segundo minha experiência, nada "é claro" quando se trata dessas coisas... Não no que diz respeito às mulheres. Mostrar-se amargo com ela era uma coisa. Mas falar com tanto cinismo e ser ofensivo quando mal a conhecia para julgar sua moral foi demais para Michelle. De repente ficou tão fria quanto ele. — Como ousa duvidar de mim sem ter provas, Alessandro? Talvez sejam as pessoas com quem está acostumando a conviver. Tenho certeza de que a deslealdade é comum e as palavras podem ser torcidas quando há muito dinheiro envolvido. Então talvez eu deva ter pena de você e tentar compreender como se sente... — Não poderia — interrompeu-o, com brusquidão. — Então, como pode esperar que me; case com você dessa maneira? Não acha que o casamento deve ser baseado na compreensão mútua? Alessandro balançou a cabeça. — Preciso me casar com você. Não há alternativa. Não permitirei que meu filho nasça ilegítimo. E, se não houver casamento, darei abertura para a imprensa conseguir exatamente o que andava esperando. Um grande escândalo. Tenho tentado me manter longe da terrível reputação de minha família, mas a mídia prefere monstros. — Respirou fundo e prosseguiu: — No ano passado, me acusaram de manter um caso, baseados apenas em algumas fotos ordinárias tiradas em um restaurante. Fui fotografado jantando com a esposa de um concorrente. Sabendo como o marido cobiçava a House of Castiglione, ela desejava comprar minha empresa para ele. Discutimos a respeito algumas vezes em reuniões secretas. Senti-me tentado a vender, mas no final decidi que não. Fomos fotografados durante uma dessas reuniões, e um jornal inventou um caso de amor que não existia. O escândalo quase acabou com a vida dela... E com seu casamento. Processei o tabloide mentiroso, e consegui uma retratação pela matéria publicada, mas a imprensa nunca esquece uma coisa assim. — Fitou Michelle de maneira determinada. — A notícia de uma mulher abandonada e um filho bastardo iria lhes dar a munição que esperavam para me atacar. Fitou-a com seriedade, os olhos brilhando de acusações. — Então? Conte a verdade, Michelle. Se eu não tivesse vindo buscá-la, iria se incomodar de me dizer sobre o bebê, antes de contar para eles? 38


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Logo no início, Michelle pensara em manter segredo sobre o bebê. Ao receber o resultado do teste de gravidez, seu primeiro impulso fora fugir e se esconder. E, após tentativas frustradas para entrar em contato com Alessandro, se conformara em viver sozinha com seu filho... E suas lembranças. Seria o preço a pagar pelos poucos dias de sonho que tivera na França. Abandonara o orgulho e aceitara o que ele lhe dera. Tinha seu chalé e seu negócio, porém isso não compensaria o resto da vida longe de Alessandro. Entretanto, a realidade era dura. Estava encurralada no assento do jato de Alessandro como se fosse uma testemunha em um processo. Retornou ao momento presente quando ele respirou de maneira exasperada, e, perguntou: — Por que não me contou logo? Michelle desviou o olhar para fora da janela. À medida que o jato particular alçava voo, seu humor decaía. — Como poderia ter contado? — murmurou por fim, vendo suas lágrimas refletidas no vidro. Cruzavam a costa e ela poderia encher um oceano com seu choro. — Você desapareceu, Alessandro! No dia seguinte, fui diretamente para o ateliê, mas estava vazio. Esperei que você voltasse, porém isso nunca aconteceu. O que deveria pensar quando soube que estava grávida? Que um homem que tratara de sumir logo após uma noite de amor seria um bom pai para meu filho? Não penso assim! Cravou os olhos angustiados em seu acusador, porém fora a vez de Alessandro afastar o rosto, os lábios fechados. A frustração de Michelle eclodiu em um gemido rouco. Tinha apenas seu bebê para proteger, e nada mais a perder. Por mais furioso que Alessandro estivesse já não se importava com isso. Talvez, no entender dele, estivesse, sendo seu protetor, mas esse não era o conto de fadas com que Michelle sonhara. Assim pensando, tornou a fitá-lo, mas uma estranha mudança se operara nas feições másculas. Os músculos do rosto haviam relaxado e ele balançava a cabeça de um lado para o outro. De modo distraído, pegara um guardanapo e desenhava... Mantendo as mãos ocupadas enquanto pensava. — Si... Capisco... Compreendo. Mas agora estou aqui — falou sem gritar. — Chegou a pensar em aborto? Ela aquiesceu com um gesto de cabeça, lutando contra as lágrimas que apertavam sua garganta e dificultavam a fala. — Não consegui — murmurou. — Mas pensou a respeito? — Sim, por um segundo — replicou Michelle, com um fio de voz. Passando um risco no desenho que fazia, ele despejou uma torrente de palavras em italiano, pressionando um dedo sobre os lábios. Por favor, não diga nada que possa fazê-lo se arrepender depois, pensou Michelle com tristeza. A luz do sol invadia o avião, formando um halo luminoso à volta de Alessandro. Quando por fim ele decidiu colocar em palavras seus pensamentos, parecia um anjo vingador envolto em luz. — Por que não ligou para o número que lhe dei Michelle? Ela corou de raiva. Era inútil ficar se lembrando do gentil cavalheiro encantador que conhecera na ensolarada Villa francesa. Ele já não existia... Se é que existira algum dia. O 39


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tempo todo em que Alessandro fizera o papel de homem comum estivera fingindo. O grande executivo sentado do lado oposto no avião nada tinha a ver com o rapaz simples e encantador que a seduzira com tanta facilidade. — Se eu não tivesse decidido visitá-la quando estava nas proximidades, creio que a primeira vez que ouviria sobre esse caso seria quando você chegasse a minha porta com a criança nos braços, pronta a discutir um acordo, não é? Melancólica, Michelle custou a responder: — Não! Isso era a última coisa que tinha em mente! — Chamar sua gravidez de "esse caso" mostrava claramente como Alessandro se sentia. Ela não aguentava mais, e mal conseguiu formular algumas frases para explicar. — Desde o momento em que soube estar grávida, decidi contar para você, Alessandro. E tentei. Mas você não facilitou as coisas, certo? As coisas estavam saindo errado, pensou Michelle, pressionando as mãos no rosto em um gesto de desespero. A solidão, o mal-estar, a incerteza e o terror que vivenciara nos últimos meses por fim emergiram com fúria. Apesar das boas intenções, sucumbiu bem ali, na frente dele. Com um suspirou, Alessandro retirou um lenço do bolso do paletó e o estendeu para ela. Olhando de propósito pela janela enquanto Michelle enxugava as lágrimas e se recompunha, balançou a cabeça em negativa quando ela lhe devolveu o lenço. — Sinto muito por tudo isso, Alessandro. — Tenho certeza de que sente. Mas não tanto quanto ficará se nosso filho crescer sem pai. Já bastará a tortura de viver sob os olhares de suspeitas de todos a respeito de nosso casamento feito às pressas. As pessoas não hesitarão em lhe dizer palavras cruéis e maliciosas sempre que tiverem oportunidade. Michelle andara profundamente mergulhada nos próprios problemas para pensar tão adiante. Quando Alessandro colocou as coisas nesse pé, ela pareceu recuperar o ânimo. — Não! Farei qualquer coisa para salvar meu bebê dessas mágoas! — Tenho certeza de que sim — murmurou ele. Contrastando com os soluços secos de Michelle, sua voz era irritantemente calma. Desafivelando o cinto de seu assento, cruzou a distância entre os dois e se sentou ao lado dela. Um artista de mãos suaves a fizera perder o juízo. Nesse momento, um empresário muito alto e amedrontador parecia ser o senhor de seu destino e dono de todos os objetos de desejo que o dinheiro podia pagar... Jato executivo, relógio de ouro, roupas de grife. Enquanto ele ajeitava os punhos da camisa, um dos atendentes de bordo surgiu carregando uma bandeja de prata. Sobre ela havia apenas um copo com champanhe gelada e outro com água mineral. — Deve estar com sede. — Alessandro se recostou para deixar o rapaz ajeitar a bandeja. Michelle agradeceu com um sorriso tímido. As bebidas só fizeram enfatizar o quanto estava longe de seu romance de férias. Em Jolie Fleur, Alessandro chegara a preparar seu café da manhã sozinho, espremendo o sumo de laranjas frescas em cima de cubos de gelo para que ela bebesse. Agora um garçom uniformizado abria uma garrafa de água mineral e a servia com formalidade. Quanta coisa acontecera em poucos meses. Quando Alessandro a deixara na França, 40


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ela se sentira completamente traída. Ele a abandonara depois de terem compartilhado um mundo de carinho. Nesse dia, Alessandro retornara à sua vida, cheio de acusações e a imprensa os rondavam. Se ele a deixara quando tudo parecia tão bonito e bom, como ela poderia confiar em Alessandro Castiglione agora, quando o cenário era tão sombrio?

CAPÍTULO SETE

Ideia de que o presidente da House of Castiglione pudesse deixar o coração governar a cabeça era algo que Alessandro desejava sufocar imediatamente. Ainda se irritava pelo fato de ter sido comparado ao pai. Odiava ser ligado intimamente a Sandro Castiglione. Em poucos anos, transformara o falido e antiquado negócio do setor de arte do pai em uma empresa internacional. A fortuna de Alessandro atraía para a sua vida um fluxo constante de mulheres lindas e mimadas... E isso era bom, até que elas ameaçavam se, interpor entre ele e seu trabalho. Era uma reação contra o modo como o pai sempre se comportara. O velho Sandro possuíra o senso moral de um patife e a lealdade de um escorpião. Tratava o trabalho como uma distração enquanto traía o maior número possível de mulheres. O velho Sandro usara as muitas amantes como objetos, abandonando-as com a mesma facilidade que tinha para jogar dinheiro fora. Alessandro não era um puritano, mas conduzia sua vida íntima com cautela e discrição... Exceto por essa vez, com Michelle, sempre escolhera com cuidado mulheres que entendiam seu estilo de vida. Elas conheciam as regras. Os homens Castiglione podiam aspirar o perfume de muitas flores, mas suas esposas eram escolhidas dentro de um reduzido círculo de influentes e tradicionais famílias da Toscana. Seu pai fora uma exceção, casando-se com uma balconista. E fora então que o destino se repetira, e Michelle, essa pequena estrangeira, entrara na sua vida, com cabelos da cor de caramelo e uma risada que era um bálsamo para sua alma. Fizera-o esquecer de seus parâmetros de conduta. Desde o primeiro momento em que a vira, nada mais existira diante de seus olhos. Eram dois estranhos, fazendo um intervalo na vida real sem pressão, sem compromissos e sem retorno. Alessandro não se lembrara de nem mesmo um instante da House of Castiglione durante todo o tempo que ficara na Villa da França. Fora o descanso perfeito de verão... Nada mais. Ou assim pensara. Meses depois, ali estavam os dois... Juntos de novo. E as circunstâncias não poderiam ser mais diferentes. Alessandro observava Michelle disfarçadamente enquanto ela bebericava seu drinque. Quanto mais a via, menos gostava de si mesmo. É tudo culpa minha, pensou com raiva. Possuí essa criatura ensolarada e gloriosa, e a transformei nessa mulher assustada e desconfiada do mundo. Confiança era algo muito delicado. Alessandro sabia disso muito bem. Era por isso 41


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que jamais oferecera para ninguém mais do que poderia se dar ao luxo de ceder. Até esse momento, sempre permitira que as mulheres se aproximassem e depois partissem quando desejassem. Mas essa garota era única no gênero porque fora ele quem se aproximara. E fora a única também que ele abandonara... Tal pensamento o deixou inquieto. Algo estava mudando em seu íntimo. Começara como uma simples e leve irritação, mas a sensação crescera dia a dia. Ele podia apontar com precisão o exato segundo em que começara. Fechou os olhos e visualizou a cena. Rumara de helicóptero para a Villa Jolie Fleur. O céu era azul-anil e o sol tão forte que não tivera dificuldade em vê-la em meio às sombras. Então acontecera. Em um relance, Alessandro percebera que ela estava presa e totalmente à sua mercê. Nenhum homem italiano poderia resistir a tal deliciosa oportunidade. Desse momento em diante se, esquecera completamente do trabalho, e fora oferecer sua ajuda para a dama em apuros. Quando ela girara os olhos grandes e adoráveis na sua direção, Alessandro sucumbira. Depois disso, as coisas haviam seguido de ruins para desastrosas. Com um sorriso trêmulo, a senhorita Michelle Spicer derrubara as defesas de Alessandro Castiglione e o fizera se esquecer de todas as regras. A única desculpa que ele tinha era que, com seu encanto natural e sem complicações, Michelle fora diferente de qualquer outra mulher que já seduzira antes. Deixara-o cego para os perigos envolvidos. E havia sido exatamente essas qualidades de inocência e gentileza que o fizeram procurar Michelle no jardim. Então tudo dera errado. Por não ter contado que era virgem, Michelle o enganara. Seu silêncio transformara sua sedução em algo baixo e confirmara a opinião ruim que Alessandro tinha das mulheres. Ele agira mal, porém o silêncio de Michelle fora ainda pior. Alessandro abriu os olhos. O que mais poderia ter esperado? Todas as mulheres eram iguais. Diante de um homem rico, se tornavam sanguessugas dispostas a pegar tudo que pudessem. Porém, Alessandro sabia, por experiência própria, o que podia acontecer quando nenhum dos pais se responsabilizava por suas ações, e faria de tudo para que isso nunca acontecesse com seus filhos. O problema ia muito além de seus sentimentos por Michelle. A questão era não deixar seu filho ter a infância solitária e triste que ele tivera. — Não sou o tipo de homem que se orgulha em deixar uma série de bastardos pelo caminho, Michelle — disse o sotaque mais forte por causa do tom agressivo. Michelle se sentiu zonza ao encará-lo, e ele prosseguiu: — Só estou interessado na criança. Esse bebê inocente precisa de um pai com moral e valores. Com um gemido de horror, Michelle encostou as mãos no rosto. Como ele podia falar com ela assim? O que acontecera com o homem gentil que a levara ao paraíso? Alessandro mudara, transformando-se de amante carinhoso em monstro cruel. Não era mais uma ajuda, mas uma armadilha. Ela precisava fugir... E, o quanto antes, melhor. — Não aguento mais — murmurou Michelle, procurando desesperadamente pelo lenço que ele lhe dera. Encontrou-o e secou o rosto, voltando a confrontá-lo. — Assim que desembarcarmos, quero que me ponha em um avião de volta para a Inglaterra! 42


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Alessandro pegou o copo de cristal na sua frente, examinando o conteúdo. — Não, irá comigo para a minha Villa, como já disse. Se reivindicar o direito de ser mãe de meu filho, precisa assumir a responsabilidade de se tornar minha esposa. Nesse momento, estão preparando seus aposentos na ala dos hóspedes. Estará tudo pronto quando chegarmos. Tomou um gole de champanhe e sorriu, apreciando sua safra favorita. Michelle piscou diversas vezes. — Então falou sério quando me chamou de sua noiva? — perguntou, em um murmúrio. — Jamais brincaria com algo assim — replicou ele. — Mas, e se eu recusar? Alessandro esvaziou o copo e pediu mais ao atendente de bordo. — Não fará isso se for inteligente e ouvir a voz do bom senso. Preciso de um herdeiro, e você está gerando meu filho. Não planejei isso para o momento presente, mas aconteceu. Case-se comigo e irei sustentá-la e cuidar de você e do bebê de agora em diante sem vacilação. Recuse, e terei essa criança no minuto em que nascer. Prefiro evitar escândalo, Michelle, mas não à custa de meu filho. Meus advogados garantirão que você nunca mais o veja nem receba um centavo se recusar minha proposta. Seus olhos faiscavam com implacável determinação. Michelle estava apavorada, mas não iria desistir de lutar até o fim. — As mães também têm direito — disse em tom de desafio, acariciando o ventre com gestos nervosos. — Se não fosse pela generosidade de minha fundação benemerente, hoje não teria um lar nem um trabalho. Uma condição para ter o chalé e a galeria de arte é a honestidade. Você omitiu para mim o fato de que seria pai. Isso significa que perderá casa e trabalho se a imprensa publicar que obteve isso por meio de chantagem. Como posso ter certeza de que não pretendia esperar para me dar a notícia sobre o bebê quando a gravidez já estivesse adiantada, a fim de evitar que eu lhe pedisse para abortar, e a fim de obter maior proveito financeiro? Nenhum tribunal no mundo deixaria uma criança crescer sem lar com uma mãe desempregada. Não quando a alternativa é melhor em todos os sentidos — finalizou Alessandro com frieza. Michelle não precisou relembrar a própria infância miserável para reconhecer a verdade. Sua única esperança era combater o escárnio na expressão de Alessandro. — Alessandro, como posso aceitar sua hospitalidade e me casar com você quando não para de me acusar? Que base é essa para um relacionamento? Se não quer ver a verdade, então não faz sentido passarmos nem mais um minuto juntos. — Disse a você no verão... Não estou interessado em ter um relacionamento estável. Entretanto, faz todo o sentido do mundo que unamos nossas forças, Michelle. Lembra-se da imprensa internacional ocupando sua ruazinha na Inglaterra? Aquilo foi brincadeira em comparação com o que terá que enfrentar na Itália. Lá, os paparazzi estão em seu próprio território. Minha propriedade na Toscana é segura. Não me incomodam ali. É meu paraíso particular contra eles. Mas, para uma mulher que recusar minha proteção... Bem, não posso garantir nada. Suas palavras eram quase uma ameaça. Michelle o fitou, porém sua expressão era 43


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impassível. — Todas aquelas pessoas na minha rua já terão desaparecido agora — disse ela, em uma tentativa de desafiá-lo. — Terão encontrado um novo interesse. — Não. — Alessandro balançou a cabeça e toda a sua autoridade foi expressa nessa única palavra. Colocou o copo a sua frente e a mesa estremeceu, assim como Michelle. — Não é assim que funciona a imprensa internacional quando um membro da família Castiglione está no centro do palco. Nos últimos dois anos, eu sou a imagem da House of Castiglione. Eu! Transformei um negócio que era motivo de risos em uma instituição respeitável. Devido a isso, tudo que faço vira notícia em meu país... O que é bom para a empresa de minha família enquanto a publicidade for boa. Não pretendo desprezar as vidas e as carreiras de todas as pessoas que trabalham para mim só porque a imprensa resolveu transformar seu pequeno drama particular em um grande escândalo. Ele mantinha um tom de voz baixo, mas que estava impregnado de reprovação. — Se você aumentar o frenesi da mídia fazendo uma cena quando aterrissarmos ou se recusar a proteção que posso lhe dar na Villa Castiglione; garanto que irão seguir cada um de seus movimentos daqui em diante. Todos os argumentos que Michelle pretendia dizer morreram em seus lábios. A ideia de chamar ainda mais atenção era terrível. Tudo que desejava fazer era desaparecer e manter seu bebê a salvo. De jeito nenhum desejava se atirar nas garras da imprensa. Quando chegaram ao aeroporto, Michelle olhou em volta em pânico. — Onde está minha bagagem? — Estou surpreso que pergunte — disse Alessandro, com um humor sombrio. — Nunca mais terá que se preocupar com esse tipo de coisa. Meus funcionários já tomaram conta de tudo. Você já não é uma governanta, Michelle. — Segurou-a com firmeza pelo cotovelo e a conduziu até uma saída particular. — Esqueça tudo e concentre-se apenas em sorrir, no caso de um fotógrafo aparecer com sua câmera a postos. O sol da Toscana brilhava sobre a carroceria lustrosa de um carro esporte preto que esperava do lado de fora do aeroporto. Alessandro, que sempre preferia dirigir seus carros, pedira que o veículo fosse deixado ali com antecedência por um membro de sua equipe. Abriu a porta e esperou que Michelle se acomodasse antes de se dirigir para o assento do motorista. — Aí vem um fotógrafo. E onde há um, haverá outros — explicou, com um suspiro exasperado. Alessandro tinha razão. Precisou manobrar o carro com cuidado em volta das figuras que surgiam de todos os cantos, tentando fazê-lo ir mais devagar. Todos estavam desesperados e curiosos para saber o que ele ia fazer. — São como formigas — disse, fechando os vidros escuros que impediam que os outros lá fora os vissem. Michelle ficou contente por ninguém poder vê-la, mas, enquanto o carro afastava seus perseguidores e chegava à rodovia principal, desejou poder olhar para fora. Apertando um dos botões no braço da poltrona, baixou a janela do seu lado. — Por que não usa o ar-condicionado? — disse Alessandro, enquanto o vidro baixava lenta e silenciosamente, deixando o ar quente e seco penetrar. 44


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— Eu queria olhar para fora — explicou Michelle. — Isso é lindo. — Respirou o ar forte do campo italiano. — É difícil não adorar este lugar — falou Alessandro, com uma voz carregada de ironia. Dirigia o carro com segurança e calma, e Michelle considerou seu silêncio estranhamente agradável. Só o conhecera como um artista que tinha mãos talentosas. Nesse momento, suas mãos também demonstravam suas qualidades de bom motorista. Era difícil afastar os olhos dele. Apesar da paisagem lá fora chamar sua atenção, Michelle não conseguia deixar de fitar o homem que retornara à sua vida tão de repente. Sua personalidade vibrante preenchia o interior do veículo e o corpo de Michelle reagia à proximidade dele. Era impossível ignorar Alessandro Castiglione. Por fim, ele saiu da estrada principal e prosseguiu ao longo de quilômetros de terras férteis de fazendas dos dois lados do caminho, seguidos de murros de pedra. A estrada começou a ficar mais íngreme, e Michelle avistou um vilarejo do lado da colina em frente. — É para lá que vamos. O outro lado do vale é ainda mais bonito. As palavras de Alessandro revelaram ser a pura verdade. As muretas de pedra de cada lado do campo de repente se tornaram mais altas, até que o carro percorreu caminhos sombreados. Casas muito antigas se erguiam ali, impedindo a entrada do sol. Gerânios apareciam em todos os cantos, alegrando as residências da estrada, mas a subida em declive era difícil. Por fim, Alessandro parou o carro. — Chegamos — anunciou com simplicidade. Michelle se aprumou no assento. Estavam parados em frente a grandes portões de ferro. Enquanto Alessandro digitava uma senha no interfone, ela tentou assimilar tudo que via. Essa parte da estrada estava mergulhada nas sombras e ficava ainda mais sinistra com as trepadeiras enormes que subiam pelo muro. Parecia á entrada de um cemitério. Michelle já andava com o moral baixo, e agora se sentia péssima, voltando a se recostar no assento. Só quando os portões automáticos se abriram ousou esperar algo melhor de novo. Sua primeira impressão do mundo de Alessandro foi de suntuosidade. Um caminho largo e comprido estava ladeado por árvores copadas. Michelle distinguiu vinhedos que cercavam toda a propriedade em linhas paralelas. Ao final de cada fileira havia roseiras brancas e cor-de-rosa alegrando o ambiente. — É lindo. Absolutamente lindo — murmurou. — Veja como as folhas das árvores já estão ficando vermelhas! — Sim... — resmungou Alessandro, como se notasse pela primeira vez que o outono anunciava sua chegada. — É por causa das noites frias e do sol fraco nessa época do ano. Michelle lhe lançou um olhar de esguelha. Ele olhou em volta e tornou a se focalizar no caminho à frente. Desapontada, ela tentou recuperar a animação que sentira assim que vira o cenário. Uma infinidade de castanheiros surgia na propriedade dos Castiglione, mas havia também pinheiros e ciprestes que pareciam sentinelas lembrando-a que essa era a verdadeira Toscana. Seguiram na direção de uma grande Villa encarrapitada em uma rocha. Pedras douradas e telhas avermelhadas davam-lhe um brilho alaranjado sob a luz 45


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do sol da tarde. Enquanto o carro avançava, era óbvio que se dirigia para a rocha e a entrada da casa. Michelle prendeu o fôlego. — Céus... Essa é sua casa? — Está impressionada? — Alessandro pareceu surpreso. — Claro que estou. Nunca vi nada parecido antes. O sul da França foi minha única viagem fora da Inglaterra. — Michelle torcia o pescoço, remexendo-se no assento para poder ver tudo. — Chegou a construir o ateliê que queria? Alessandro balançou a cabeça. — Ainda não. Será traumática a mudança do prédio que usei por tanto tempo. Não dá para ver daqui. Está na parte extrema da propriedade, porque eu queria ficar o mais longe possível do barulho. A resposta tensa fez Michelle pensar. Era como se esse novo e estranho Alessandro tentasse afastá-la da melhor parte de seu mundo. O ressentimento a fez dar uma resposta seca. — Creio que com isso quer dizer que não recebe qualquer pessoa em seus domínios particulares? — Vou lá para ficar sozinho. — A resposta pareceu uma chicotada. — Meus dias normais de trabalho já são recheados de pessoas e de problemas. Meu ateliê é meu refúgio. A menos que queira convidar alguém para ir até lá. O carro se aproximava da entrada da Villa. Não poderia haver contraste maior entre o pequeno ateliê na França e esse conjunto harmonioso de prédios. A Villa antiga original fora ampliada ao longo dos séculos. No momento, era um lugar mágico feito de telhas, torres e terraços. O carro se deteve em um pátio cercado por dezenas de janelas, cada uma com gerânios vermelhos. Era uma despedida maravilhosa do verão, porém Michelle já não estava com ânimo para apreciar o cenário. — Já que se sente assim, Alessandro, fico surpresa que tenha me deixado entrar em seu mundo secreto de artista, me convidando para posar em Jolie Fleur. — Naquela ocasião, admirava você mais do que admiro agora. Antes que Michelle tivesse tempo de pensar em uma resposta para esse comentário desagradável, Alessandro desceu do veículo e deu a volta para abrir a porta dela. Michelle ergueu o rosto primeiramente para sua figura alta que combinava com o lar ancestral e que a deixava intimidada diante de sua própria insignificância. Quando a criadagem circundou o caro e começou a retirar a bagagem, Michelle teve a prova definitiva de que o estilo de vida de Alessandro Castiglione era muito diferente do seu. E isso era demais para absorver de uma só vez. Colocou um pé no pátio coberto por pedrinhas, e hesitou. — Este lugar é enorme! Alessandro não estava com vontade de falar nada. Pegou-a pela mão e a fez deixar o carro. O toque firme e quente de seus dedos de início foi confortador, mas seu olhar sombrio á deixou; nervosa. Alarmada, Michelle sentiu uma sensação que era familiar percorrendo seu corpo da cabeça aos pés. Reconheceu o que era. Desejo. Tentou se afastar, mas Alessandro não a largou. — Tenho certeza de que uma garota esperta como você logo irá se acostumar. Agora 46


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vamos comer. Vou levá-la a seus aposentos enquanto meus empregados tomam conta de tudo. Mais tarde, faremos um passeio pela propriedade... No caso de você não estar cansada. O fato de ele mencionar comida provocou um aperto no estômago de Michelle, que a fez ficar tonta. As coisas estavam acontecendo depressa demais. Alessandro podia pensar que fora generoso fazendo-a escolher entre uma vida sozinha de luta na Inglaterra ou uma prisão dourada na Itália. Na verdade, ela não tivera escolha. A altura dos muros que cercavam o terreno, o tamanho da casa e da propriedade era incrível. Somando-se a isso havia os portões, e ela se sentia um pássaro dentro de uma gaiola. A ideia a deixou ainda mais zonza, porém, antes que pudesse resolver se sua situação era boa ou má, uma sensação ainda pior a dominou. — Michelle? O que é? Sente-se bem? — A voz de Alessandro parecia vir de longe enquanto ele se virava para fitá-la. Ela tentou respirar devagar e profundamente. Às vezes isso retardava o inevitável. Mas não funcionou. — Tem um banheiro aqui perto? — murmurou, engolindo com força as palavras saindo de sua garganta com grande dificuldade. Erguendo-a nos braços, Alessandro a carregou pela casa. Com meia dúzia de passadas largas, chegou a uma porta no vestíbulo. Carregou-a para dentro de um escritório que, apesar de elegante, era muito simples, e dali abriu outra porta que dava para um banheiro. Ali a depositou no chão com cuidado. — Essa é uma das vantagens de se trabalhar em casa — murmurou ele, enquanto Michelle corria como uma flecha até a privada. A que ponto eu cheguei, pensava ela. Estou tendo meu enjoo diário em um banheiro estranho e em um país estranho. Sua vergonha não podia ser maior. Para um homem tão sofisticado quanto Alessandro, esse seu comportamento devia ser o fim do mundo. Quando o enjoo passou, ela lutou para se recompor. Às suas costas, alguém abriu uma torneira. Enquanto sua visão clareava e os objetos entravam em foco de novo, pôde ver como o banheiro era luxuoso. As paredes e o chão eram de mármore verde, as peças, de porcelana, e todas as torneiras eram douradas. Então percebeu um par de sapatos pretos lustrosos ao seu lado. Começou a levantar a cabeça, passando pelas calças com vinco impecável, e percebeu que ele viera salvá-la de novo com um copo com água. — Si-sinto muito, Alessandro... Fraca e melancólica demais para se aprumar, Michelle esvaziou o copo, ainda sentada no chão do banheiro. — Pensei que o enjoo fosse sempre matinal — disse ele com calma. — Eu também. Mas as últimas semanas me demonstraram outra coisa. O enjoo pode acontecer a qualquer hora do dia ou da noite. — Vou pedir que meu médico, lhe dê alguma coisa. — Não... Prefiro que não. — Michelle balançou a cabeça, sentindo a garganta seca. — O máximo que ingiro é uma aspirina desde que soube sobre o bebê. Não quero começar a tomar remédios. 47


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— Tem certeza? — Alessandro observou seu rosto com atenção. Apesar da sensação de que fora virada do avesso física e mentalmente, ela aquiesceu com um gesto de cabeça. — Que bom. Também não gosto de tomar muitos remédios. — Ele acenou em um sinal de aprovação e tomou-lhe o copo das mãos. — Parece exausta. Descanse enquanto pode. Vou levá-la para seu quarto agora mesmo. Chamarei meu médico... — Ele já digitava um número no celular, porém Michelle segurou-lhe a mão. — Não há necessidade, de verdade. Já me sinto bem melhor. Provavelmente foi a viagem que me cansou, e o fato de não ter comido nada depois do café da manhã. Ele resmungou alguma coisa em italiano, e depois deu um, tapinha amigável no seu ombro. — Desculpe... Deveria ter insistido para que comesse mais. E estará muito cansada para visitas hoje, assim que se instalar no seu quarto. Direi para o médico vir amanhã cedo. Uma mera formalidade, você compreende, conforme já lhe disse. Só deverá comer e beber de maneira saudável... No melhor estilo italiano, é claro... Enquanto estiver carregando o herdeiro dos Castiglione. De algum modo, essas palavras a fizeram se sentir melhor e pior ao mesmo tempo. Tudo estava sendo retirado de suas mãos. Sua opinião não era pedida para nada. Enquanto o bebê crescia em seu ventre, Alessandro cuidava de todos os detalhes, por menores que fossem. Michelle sabia que deveria se alegrar com tanta ajuda. Entretanto, as últimas horas haviam trazido muitas emoções de uma só vez. O longo dia estressante, a viagem e seus hormônios em tumulto a arrastavam para o pior dos desesperos. Afastando da testa os cabelos empastados de suor, não conseguiu mais se conter. — Jamais quis que isso acontecesse — murmurou. Alessandro suspirou. — Mas aconteceu. Passando as mãos pela cintura de Michelle, ele a ergueu do chão com cuidado. Michelle se sentiu tão fraca e zonza que precisou se apoiar nele. Esperava vê-lo se afastar de maneira instintiva diante desse gesto de intimidade. Afinal, estivera furioso desde que haviam se reencontrado nessa manhã. Entretanto, em vez de afastá-la, Alessandro permaneceu firme. A tensão o fazia retesar os músculos, porém segurou-a pelo ombro, o que era um gesto de apoio. Michelle refletiu que era o único apoio com o que poderia contar, portanto agradeceu por isso. Fechou os olhos e tentou esquecer tudo, a não ser o bebê. — Depois de tudo que tem acontecido como posso pôr minhas ideias em ordem, Alessandro? Disse que quer melhorar a reputação de sua família, mas, se o bebê chegar antes do tempo, todos saberão que precisamos nos casar! — Deixe que eu cuide disso. — Como? Ela ergueu os olhos para ele enquanto Alessandro, com o queixo erguido e determinado, a fazia deixar o escritório de volta para o vestíbulo. — Minha equipe de Relações Publica é a melhor do país. Manchetes de jornais vêm e vão, mas a House of Castiglione deve prosseguir para sempre. 48


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Sua voz soou tão estranha que Michelle teve receio de perguntar o que ele queria dizer. Mas, como se lesse sua mente, Alessandro apertou sua mão. Foi um gesto cheio de calor e delicadeza que não era acompanhado pela expressão fria em seu rosto e sua voz, e a sensação boa duraram apenas alguns instantes. Logo em seguida, ele a soltou, e a conduziu para a suntuosa escadaria de mármore. — Deixe que eu cuide disso — repetiu com firmeza.

CAPÍTULO OITO

Michelle gostaria de se sentir aliviada com as palavras de Alessandro. Entretanto, ficou ainda mais confusa. Todo o desastre acontecera justamente porque confiara nele antes. Sabendo o que sabia agora, seria ingenuidade acreditar que ele resolveria alguma coisa. E, quanto a se casarem...! Michelle estava abalada... Física, mental e emocionalmente... E já não sabia no que pensar. Fora uma nova experiência após a outra, e no momento mal tinha forças ou vontade para colocar um pé na frente do outro. Quando uma empregada se aproximou correndo e sorrindo, fazendo uma pergunta em italiano que ela não entendeu, foi á gota d'água. Michelle prorrompeu em lágrimas. Alessandro dispensou a empregada com um gesto de cabeça. Esperou que ficassem a sós de novo para perguntar: — O que houve Michelle? — quis saber, com voz fria e controlada. — Eu n-não consegui entender o que ela dizia... Não falou em inglês... — despejou, entre soluços. — E por que deveria falar em inglês? — Alessandro arqueou as sobrancelhas. — Agora que você está na Itália, vai precisar aprender nossa língua. Mas, não se preocupe. Vou lhe arranjar alguém que a ensine — concluiu, afastando o problema com um aceno displicente. A última coisa que Michelle desejava nesse momento eram aulas de italiano. Já achava muito difícil se comunicar em inglês com o novo e estranho Alessandro. A ideia de precisar treinar com um professor estrangeiro a fez recordar o pavor que passara com as aulas de matemática na escola... Continuou a chorar, com um longo e paciente suspiro, Alessandro encontrou o lenço que já lhe dera antes e o colocou em sua mão. — Você não pode me ensinar? — perguntou Michelle assuando o nariz. Ele afastou a sugestão. — Não passo muito tempo aqui. Como já lhe disse, a Villa Castiglione é meu refúgio quando quero descansar dos negócios. Costumo ficar longe daqui por longos períodos. — Então ficarei sozinha na maior parte do tempo? — Existem lugares piores para se ficar — lembrou-o, com um olhar severo que pareceu fazer o sol sumir, e que abrangeu o vestíbulo. O lugar estava repleto de 49


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antiguidades e móveis de estilo... Um oásis silencioso de calma. — Por exemplo, sua rua cheia de paparazzi é bem pior. Michelle não precisou pensar muito para perceber o tom de ameaça por trás das palavras. Se não gosta daqui, pode voltar para sua casa. Ela tentou desafiá-lo com um olhar, mas foi impossível. Seus olhos estavam vermelhos e inchados demais para intimidar qualquer pessoa. E a luz dourada que se filtrava das janelas que descortinavam um pátio interno deixava Alessandro ainda mais distante e aristocrático. Seus olhos estavam envoltos em mistério, reforçando a sensação de que poderia erguer muralhas para afastar Michelle a qualquer momento que desejasse... Tentar se, opor a qualquer decisão que ele tomasse seria como dar nó em ponta de faca. Michelle nada podia fazer a não ser segui-lo em silêncio, enquanto Alessandro a conduzia escadas acima para uma das alas de hóspedes da Villa. A infância de Alessandro lhe ensinara que emoções era uma fraqueza. Até onde sabia, homens fortes não podiam se dar ao luxo de tê-las. Essa se tornara sua realidade. Seus verdadeiros sentimentos estavam enterrados tão profundamente que mal sabia que existiam. Entretanto, Michelle quase conseguira o impossível. Por várias vezes, tentara dizer a ela o que pensava exatamente sobre cavadoras de ouro que manipulavam as circunstâncias a seu favor. Então Michelle erguia os olhos castanhos e límpidos para ele, e as palavras morriam nos seus lábios. Céus, a garota era uma atriz. Ele fora completamente conquistado no verão pela sua simplicidade, mas não aconteceria de novo. Enquanto conduzia Michelle por estátuas e pinturas valiosíssimas a caminho da suíte que lhe fora destinada, Alessandro tentou se concentrar no ambiente que os circundava. Quando ela comentou como tudo ali era belo, ele anotou mentalmente que Michelle tinha razão. Percebeu há quanto tempo não admirava a velha casa. A Villa Castiglione podia ser considerada o lar de Alessandro... Embora, diante de seu passado tempestuoso, "lar" fosse uma palavra aconchegante demais para descrevê-la. As visitas que ali apareciam o deixavam pouco à vontade. Era como se, expor sem roupa aos olhos dos outros. Fora difícil para ele trazer Michelle ali, mas sentira que era o mínimo que poderia fazer. Não se podia esperar que ela, sozinha, criasse a criança. Alessandro disse a si mesmo que devia se alegrar pelo fato de ela ter aceitado com obediência. Ele não era uma pessoa agressiva por natureza, e não gostava de forçar ninguém a nada. As lembranças dos deliciosos dias de verão que haviam compartilhado continuavam vivas, e Alessandro desejava mantê-la assim. Michelle se entregara com tanta naturalidade e abandono. Tudo nela era tão convidativo... Em especial seu corpo, pensou, sentindo um súbito desejo. Lançou-lhe um olhar de esguelha enquanto caminhavam pela galeria do segundo andar. — Está com uma aparência melhor, Michelle. — Bem, esses enjoos vêm e vão. Como a fidelidade das mulheres, o pensou, lutando para não permitir que as lembranças o dominassem. Nesse dia, Michelle estava mais bonita do que nunca, os seios delineados pelo top justo. A ideia de acariciar a pele macia o invadiu e ele quase ergueu a 50


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mão. Tratou de se controlar e percebeu que esse exercício seria muito difícil no futuro. Cada vez que passavam por um dos criados, Michelle era cumprimentada com respeito como se fosse da realeza. Apesar do dia longo e exasperador, Alessandro se viu sorrindo diante da reação dela. A cada vez que era cumprimentada, Michelle ficava radiante por se sentir aceita. E ele gostava disso, apesar das circunstâncias. Afinal, agradar as mulheres era um de seus passatempos prediletos. Sua expressão ficou sombria apenas uma vez enquanto a conduzia pela galeria para sua suíte. Foi quando sentiu o celular vibrar no seu bolso; tratou de desligá-lo sem atender. Recentemente eleito o mais importante empresário do mundo, Alessandro sabia que conquistara isso sendo impiedoso. A tribo dos Castiglione não acreditara que um italiano pudesse despedir os próprios parentes, mas fora isso mesmo que ele fizera, pois era um bando de sanguessugas e preguiçosos. O mínimo que poderia fazer pela família depois disso, disseram os parentes ofendidos, seria se casar com uma boa moça da Toscana... E isso significava casamento com uma de suas primas. Esperava-se que Alessandro tivesse um bambini, assegurasse o futuro da House of Castiglione e mantivesse todos empregados pelo resto da vida. As narinas de Alessandro tremeram ao pensar nisso. Jamais recebera ordens de alguém, e não iria começar agora. Nada devia à sua numerosa família. E, quando se lembrava do modo como seu próprio pai sempre o tratara... — Alessandro? Você está bem? Ele emergiu de seu pesadelo particular, e murmurou: — Quê? Fitou Michelle e, ao ver seu sorriso apreensivo, lembrou-se do motivo que o fizera trazê-la ao seu santuário. Minha família quer um herdeiro para manter o império. É isso aí, pensou com amargura. Então deu de ombros. — Muito bem, Michelle, estava pensando no trabalho, é isso. — Oh, sei o que quer dizer — replicou ela com simpatia. Sua reação fora tão sincera que Alessandro riu. E depois não conseguiu mais parar de rir. Era a primeira vez em semanas que ria. Os dois se entreolharam, compartilhando suas angústias. Por um breve segundo, a magia do entendimento os uniu. Michelle arregalou os olhos, mas sua própria risada morreu antes de começar. Sua expressão revelou a Alessandro que trabalho era a última coisa que tinha em mente nesse momento. O desejo voltou a dominá-lo, ameaçando destruir sua máscara de indiferença e civilidade... Queria beijá-la ate perder o fôlego ali mesmo na galeria, deslizar a mão pela pele macia, carregá-la para a cama e fazer amor com ela durante toda a noite... Isso não vai resolver nada! Disse a si mesmo com brusquidão. Usar o sexo para bloquear mais lembranças dolorosas nunca o ajudara no passado. Mas, mesmo sentindo a necessidade de percorrer o caminho mais fácil, Alessandro começou a perceber uma nova e chocante verdade. Pela primeira vez na sua vida, admitia 51


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a si mesmo que sexo nunca apagaria sua dor. Desejava alguém que levasse embora a sensação de vazio em seu íntimo. Presa pelo olhar dele, Michelle não conseguiu se mover. Os olhos de Alessandro se moviam sobre seu corpo, deixado-a em fogo da cabeça aos pés. E ele sabia usar esse olhar. O toque de seus dedos não a teria afetado tanto. Alessandro a admirava nesse instante como se fosse um objeto de valor. E ela o desejava. Porém, o tempo todo sabia, por experiência própria, que, se permitisse algo mais, não teria como voltar... Uma mecha de cabelos se libertou do rabo de cavalo que ela usava. Com um gesto lento e calculado, Alessandro estendeu a mão e colocou os fios sedosos atrás da orelha de Michelle. — Continuam parecendo seda — murmurou, inclinando-se para frente de modo que ela captou o desejo em sua voz. Quando falou de novo, soou doce e calmo como um riacho no verão: — Estava curioso... Pensei que a gravidez fosse ocasionar dezenas de mudanças no seu corpo. Seu olhar, como sempre, era intenso. Michelle o sentia com a mesma força do hálito quente em sua pele. No instante seguinte, percebeu que iria beijá-la. A antecipação ocupava o ar como uma descarga elétrica. Irresistivelmente atraída para ele, Michelle fechou os olhos, aguardando pelo toque de seus lábios. Cansaço, ressentimento, solidão... Ela se esqueceu de tudo isso. O beijo seria celestial. Ouvia o som do próprio coração pulsando nos ouvidos e a deixando zonza. Então sentiu que Alessandro hesitava como se algo fora da bolha mágica de silêncio que se formara tivesse chamado sua atenção. Nesse exato segundo, ouviu-se uma saudação formal ecoando pela galeria. Era uma empregada, subindo às pressas com uma mensagem para o dono da casa. Em resposta, ele riu, e o encanto se quebrou. Michelle teve que ficar de lado e observar Alessandro e a criada sorrindo e conversando em italiano. As palavras nada significavam para ela, que se sentiu dolorosamente isolada! Tendo cumprido sua missão, a empregada foi embora tão depressa quanto chegara. Parecia que toda a criadagem da Villa julgava a coisa mais natural do mundo Alessandro trazer garotas ali... O que, concluiu Michelle, devia mesmo acontecer o tempo todo. — Seus aposentos estão prontos — anunciou Alessandro, de maneira formal... Haviam voltado a ser estranhos. Quando alcançaram o fim do corredor, ele abriu uma grande porta de carvalho. — Bem-vinda a sua suíte, Michelle. Tenho certeza de que será feliz aqui. Ela teve a súbita sensação de ser apenas mais uma garota na lista constante de convidadas de Alessandro. Seu rosto se contorceu com cinismo... Mas só até ver por trás da porta que Alessandro mantinha aberta. Todas as dúvidas desapareceram da mente de Michelle no instante em que ele deu um passo para o lado a fim de que ela entrasse. Michelle não esperara nada mais do que um simples quarto talvez com um banheiro anexo. O que encontrou foi um cômodo enorme e bem iluminado pelo sol com poltronas confortáveis, uma mesa... E isso apenas na saleta. Do outro lado, uma porta de vidro deixava ver parte de uma cama enorme com colunas, e uma sacada que levava para uma 52


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das torres da Villa a alguns metros de distância. Alessandro a conduziu até essa porta, e a abriu. Michelle cruzou a soleira, mas parou depois de dar alguns passos. — Vá. O que está esperando? — o incentivou. Michelle estava ocupada demais admirando o cenário à frente, e não respondeu logo. A suíte descortinava barrancos abaixo da Villa, dando a impressão de que se estava no topo do mundo. — A vista... É de tirar o fôlego! — murmurou ela. — Cuidado... Estamos no alto. — Alessandro a segurou, quando Michelle se debruçou para frente. Ele tinha razão. A posição da Villa no topo da colina significava que o solo estava a muitos metros de distância. Michelle tomou cuidado para não olhar diretamente para baixo... Seria demais para seu estômago delicado. Em vez disso, fitou os bosques com castanheiros no vale. O outono já pintava as folhas de dourado. — Está com frio? — Não, estou bem, Alessandro. Foi á vez de Michelle franzir a testa. Tomara tanto cuidado para que Alessandro não notasse como estremecia. Como ele percebera? Então, apavorada, notou o que a delatara. Deixando a sacada, ergueu as mãos e as entrelaçou, tentando esconder os mamilos rijos. Fora isso que a delatara. Estivera gozando tanto da brisa fresca de encontro a sua pele que se esquecera dos olhares observadores e lisonjeiros de Alessandro. Seu corpo desejou tocá-lo de novo, mas Alessandro já pensava o pior a seu respeito sem que ela se mostrasse afoita. Não iria confirmar suas suspeitas. Sentiu o rosto corar. Alessandro sorriu com compreensão e depois se afastou também. — Parece que já é hora do jantar — anunciou. Seus ouvidos deviam ser tão apurados quando sua visão refletiu Michelle, voltando a admirar seus aposentos. Havia lhe dado uma suíte em uma das torres da Villa e ali seria seu lar temporário. Uma sala de estar ensolarada conduzia a um terraço com mais cenários deslumbrantes do belo campo. E essa não era a única surpresa. Uma criada de uniforme estava arrumando a mesa para a refeição para dois em uma varanda fechada cheia de flores que fora projetada para ser uma sala de jantar íntima quando o vento frio cruzava o vale. Ali, fragrâncias se misturavam com os aromas orientais da comida. Sobre a mesa, salvas de prata exibiam maravilhosas saladas e outras iguarias que tentariam o mais exigente dos paladares. — Hoje foi uma experiência ruim para nós dois, Michelle. Vamos nos sentar e apreciar uma boa refeição. Puxou uma das delicadas cadeiras de ferro para que ela se acomodasse. O apetite de Michelle pareceu despertar nesse momento. Só de olhar para a comida, sentia-se reviver. Não pôde deixar de soltar uma risadinha quando se sentou. Vinte e quatro horas atrás ela andara comendo ovos e batatinhas; sentada em frente ao aparelho de televisão com uma bandeja no colo. Nesse momento, Alessandro Castiglione, empresário e bilionário, lhe fazia companhia, diante de uma mesa cheia de alimentos; saudáveis e feitos 53


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com apuro. E, com sua beleza máscula, completava o cenário de sonho. Este é o ambiente perfeito para sedução, pensou Michelle, com uma pontada no peito. A cena fazia tocar todos os alarmes possíveis em seu cérebro. Michelle sabia que devia ficar de sobreaviso. Já dera tudo de seu para Alessandro. E ele reagira abandonando-a. Entretanto, saber que sua coxa estava a milímetros de distância dela por baixo da mesa a fazia se esquecer desse episódio triste... — Isto é apenas uma amostra do que meus chefs podem fazer — disse ele, com justificado orgulho. — Diga-me do que gosta, e garantirei que apareça no cardápio — declarou, erguendo uma das salvas e oferecendo a ela. Seus dedos se tocaram quando Michelle aceitou, e Alessandro sorriu. Foi um gesto muito simples, mas a expressão de seus olhos dissera à Michelle muito mais que qualquer palavra. Ao mesmo tempo, ele analisava a situação. — Não tenho comido muito nos últimos tempos — disse Michelle, remexendo a salada no prato. Estava faminta, porém não tinha certeza se seu nervosismo a deixaria comer sem que se sentisse mal em seguida. Alessandro a fitou atentamente enquanto lhe oferecia outra iguaria. — Precisa se alimentar. Tudo que entra na sua boca deve fazer bem para o bebê também. Tem sorte de poder ajudar a criança a nascer com saúde. Michelle se encolheu. A menção que ele fizera à sua criança não passava de um truque para convencê-la a obedecer. Aceitou a salada, porém tratou de mudar de assunto, pois uma preocupação fingida a respeito de seu bem-estar era a última coisa que desejava de Alessandro. — E você tem sorte de morar em um lugar como este! — exclamou, pretextando uma animação que não sentia. — Deve ter sido maravilhoso crescer aqui. Um exército de criados para servi-lo em tudo, e sem precisar se preocupar em ter boas notas na escola. Assim dizendo, olhou em volta, admirando desde a comida até as flores. — Sorte não teve nada a ver com isso. Ao contrário, foi um infortúnio ter nascido aqui, mas tentei tirar o maior proveito possível do que a vida me ofereceu. Michelle abriu a boca, mas não conseguiu falar. Era um sacrilégio o que Alessandro acabara de dizer diante da vida privilegiada que sempre tivera, porém ele estava muito ocupado comendo para reparar o efeito que suas palavras haviam produzido em Michelle. E continuou a falar: — O único motivo que explica minha riqueza é que trabalhei e trabalho muito. Este lugar nada tem a ver com a House of Castiglione. Ao contrario, é meu santuário, para me, esquecer um pouco da empresa. Seu braço roçou no dela quando ambos quiseram alcançar a mesma travessa. Michelle se afastou depressa. — Por favor, sirva-se primeiro — pediu ele com gentileza. Entretanto, Michelle refletia sobre o que ele acabara de dizer. Alessandro podia ter seus defeitos, mas era muito sincero e não tinha falsa modéstia. O coração dela se acelerou enquanto refletia. Quantas mulheres já haviam estado ali, almoçando ou jantando com ele da mesma maneira que ela? E qual fora seu destino depois? Observar Alessandro em seu habitat natural a deixava nervosa. Pousou o garfo e a 54


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faca sobre o prato. Como podia pensar em comer em uma hora dessas? Alessandro interpretou sua hesitação como um pedido mudo para ser servida, e depositou um filé em seu prato. — Se vamos nos casar, Alessandro — disse Michelle devagar -, preciso aprender algumas coisas a seu respeito. — Poderia já ter feito isso se tivesse ligado para o número que deixei no bilhete de despedida — replicou ele com frieza. Michelle ficou tão indignada que suas faces coraram. — Tentei... Acredite! Quando liguei, sua secretária se recusou a colocá-lo na linha. Eu a ouvi dizer "é outra!" para alguém ao lado. Concluí então que costuma dar o mesmo número de telefone para todas, porque sabe que nunca conseguem passar pelas muralhas de funcionários seus! — finalizou às pressas. Fez-se um longo e pesado silêncio. Quando, por fim, Alessandro respondeu, foi com tanto veneno na voz que Michelle se encolheu na cadeira. — Então acha que sou do tipo de homem que mente para as mulheres? — Ele a encarou como se tentasse hipnotizá-la, e cravou o garfo no próprio bife. — Deixe-me lhe dizer uma coisa, Michelle, considero isso a pior forma de embuste. Se não me passaram sua ligação foi porque realmente devia estar muito ocupado. Tentou ligar de novo? — Achei que não queria me atender — admitiu Michelle. Ela conseguiu desviar os olhos, procurando ocultar a dor enquanto se lembrava das horas felizes que passara com ele. Sem dúvida, essas horas haviam tido um significado completamente diferente para Alessandro. — Você era tão diferente das pessoas com quem estava acostumada a trabalhar... Tão simples quando o conheci! Agora sei que tem dezenas de empregados, um jato particular, carros diversos em todas as partes do mundo e apartamentos em todos os lugares... Michelle se aprumou na cadeira. Não queria que Alessandro pensasse que estava obcecada e deslumbrada pelo seu estilo de vida de bilionário. Ele já pensava que estava querendo tirar vantagem. Se soubesse que Michelle lia tudo a seu respeito nas revistas elegantes, sua situação poderia piorar. — Não insisti em falar com você porque me disse que precisava viajar muito por causa do seu trabalho... — A House of Castiglione me deixa muito ocupado — concordou ele, com um sorriso. — Porém, há mais. Como já lhe disse antes, não gosto de ficar amarrado... Nem por pessoas nem por lugares, e estou sempre em movimento. Apesar da risada que acompanhou essas palavras, não havia alegria na expressão de Alessandro. Suas palavras sem dúvida tinham o intuito de dar um recado para Michelle, porém a proximidade de seu corpo a deixava zonza e pensando no que acontecera entre os dois em Jolie Fleur. Parecia que Alessandro sentia a profundidade da atração que despertava nela, porém se recusava a encorajá-la... Na verdade, fazia justamente o contrário. Michelle lutou para se concentrar na comida. Sua mente estava confusa. Sentia como se Alessandro fosse um grande hipnotizador. Podia convencê-la de qualquer coisa, para, em seguida, despertá-la de um sonho. 55


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Porém, ele continuava com o tom polido de um perfeito anfitrião. — Antes de herdar o negócio de meu pai com seus problemas, adquiri sucesso às minhas próprias custas. Deixei a escola assim que pude, arrumei um emprego em uma lanchonete, e trabalhei até me tornar diretor gerente. — Você trabalhou com fastfood! — exclamou Michelle, sem poder acreditar, esquecendo por um segundo sua própria situação. Mal podia crer no que acabara de ouvir. Ele afastou seu espanto com uma risada. — Queria provar meu valor em uma área onde ninguém pudesse dizer que envolvera o nome de minha família. Então, foi exatamente o que fiz... Enquanto fiquei no controle da empresa, ela passou de sofrível para líder de mercado e venceu uma série de prêmios do setor. Uma vitória e tanto. Michelle era muito cuidadosa quando se tratava de nutrição. A rede de lanchonetes em questão produzia o único tipo de hambúrguer que ela comia. Era espantoso como Alessandro se incumbira de algo tão comum e o tornara um grande sucesso. Michelle relembrou a própria infância infeliz e murmurou: — Seus pais deviam ter muito orgulho de você. — Ah... Neancheper sogno!... Nem em sonhos! — resmungou ele, porém logo assumindo uma expressão misteriosa. — De qualquer modo, os dois já faleceram. Mas, como costuma ler as colunas sociais, já deve saber disso, não é? Essas colunas também devem ter informado a você que meu pai era o homem mais generoso do mundo... Quando se tratava de dinheiro. Mas, se o assunto era amor e lealdade... Parou de falar de supetão, deixando a insinuação no ar. Segurando garfo e faca, continuou a comer. Seus movimentos eram tão rígidos que Michelle percebeu que acabara de reabrir uma ferida no peito de Alessandro. Precisava saber mais, porém sentia que no momento seria melhor mudar de assunto. — Suponho que sua mãe tenha lhe dado á segurança de que precisava — suspirou. Era uma pena que suas conversas sempre ficassem em torno da vida familiar. — Nunca tive uma mãe de verdade — respondeu ele, com simplicidade. Havia um estranho vazio nessas palavras. Michelle percebeu de imediato, e o fitou. — Oh, Alessandro. Desculpe ter tocado no assunto. Ele também a fitou. De novo, Michelle viu que estava alerta. Voltou a fechar as portas para mim, pensou, porém Alessandro afastou sua preocupação. — Não tem importância. Isso me preparou para ter sucesso. Quando fui empurrado para assumir a principal função na House of Castiglione, tudo mudou ao mesmo tempo. Michelle aproveitou para desviar o assunto da questão familiar. Ela mesma sofrerá muito com a mãe. Era confortador saber que não fora á única, porém não era momento para choramingar. — Saiu diretamente do ramo de fastfood para obras de arte? Que contraste! — exclamou, arregalando os olhos. — Como conseguiu administrar tal mudança? — Não foi um problema. — Alessandro deu de ombros. — Tinha passado muito tempo batalhando para melhorar a rede nacional de fastfood. Para mim, a qualidade é tudo. Não gosto de serviço malfeito. Ir trabalhar no negócio de minha família, a House of 56


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Castiglione, foi como sair de uma piazza... Uma praça moderna apinhada de pessoas, e entrar em uma catedral antiga e silenciosa. É possível administrar as duas coisas, no momento certo e sob as circunstâncias certas. — E você teve sorte? Alessandro pousou a faca sobre o prato e pegou uma jarra com vinho que brilhava como sangue enquanto ele se servia. — Não acredito em sorte. Durante a vida toda, forjei meu próprio sucesso sem a ajuda de ninguém e de nada. Provei meu valor sozinho. Não existe um ditado que diz "quem quer faz, quem não quer manda?" — concluiu com firmeza. Michelle mal podia acreditar no que estava ouvindo. A vida toda pensara que era a única pessoa no mundo que precisava provar seu valor a todo o momento. Agora sabia que existia mais alguém. Sempre fora tão desesperada por aprovação que nada mais interessara além de trabalhar para sua mãe. Mas, parecia que Alessandro tivera problemas iguais aos seus. — Quem fala assim, em geral é solitário — murmurou. — Mas você é tão confiante e bem-sucedido! Não pode ser solitário... Pode Alessandro? Ele apoiou os cotovelos sobre a mesa e pensou na resposta a dar. — É uma pergunta muito pessoal. Por acaso já lhe perguntei por que saiu da Inglaterra assim que sua mãe faleceu? Michelle baixou os olhos. — Não vamos falar sobre isso. Minha mãe morreria de vergonha se soubesse que a filha engravidou de um hóspede na Villa em que trabalhava. — Ela já não tem nenhuma influência sobre você, Michelle. Sua mãe partiu e você é adulta. Por baixo da mesa, ela sentiu seus joelhos se encontrarem por um breve instante. Teria sido por acidente? Entretanto, ao olhar o brilho nos olhos dele, refletiu que Alessandro Castiglione não era homem de fazer movimentos sem pensar. — Pode ser — respondeu ela, por fim. — Provou ser mulher suficiente para assumir meu filho em seu ventre, Michelle. E, no momento, isso tudo que importa para mim. A única coisa. Uma onda de intimidade os invadiu. — Ficaria surpreso se soubesse como sou insegura — murmurou Michelle, afastando o rosto. Estava prestes a perder o autocontrole. Precisava se dominar e antecipar o próximo passo de Alessandro! Precisava mudar o assunto para algo menos íntimo, antes que as lembranças dos beijos que havia trocado a fizessem vacilar e sucumbir. — Eu... Suponho que traga todos os seus amigos sofisticados para cá? Ao mesmo tempo em que falava, ralhou consigo mesma. Idiota! Agora ele irá automaticamente me comparar com as outras! — Só as pessoas que realmente me interessam chegam a ser convidadas para vir até aqui. E são muito raras, porque, sinceridade, não é o forte dos grupos que frequento e nenhum homem ou mulher foi até hoje convidado para ficar em uma das suítes de hóspedes. Você foi á primeira. 57


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Ela sentiu uma descarga elétrica percorrer seu corpo da cabeça aos pés. Então se enganara ao pensar que a Villa estava sempre cheia de garotas bonitas. Alessandro levou mais um bocado de salada à boca, e depois prosseguiu: — Mulheres bonitas, pinturas, esculturas... Interesso-me por tudo isso, porém as belas artes sempre foram minha preferência. — Deve gostar muito de trabalhar com arte em uma empresa como a House of Castiglione — replicou Michelle, desejando retomar para um assunto seguro. Mas duvidava que conseguisse. Estando tão perto dele, hospedada em sua casa, e agora ciente de que poucas pessoas haviam tido esse privilégio, era difícil se concentração em assuntos práticos. — Sim, gosto do que faço — disse ele. — Mas, quanto às pessoas com quem trabalho isso já é outra historia. — Levou mais uma garfada à boca e, depois de engolir, explicou: — Onde quer que exista dinheiro, a inveja e os interesseiros estão sempre por perto. — Posso imaginar. — Michelle balançou a cabeça. — Hoje todos querem me conhecer porque sou o presidente da House of Castiglione. Infelizmente, quase sempre pelos motivos errados. — Não pode ser verdade. Deve ter amigos sinceros, Alessandro. Ele riu com ironia. — Só uma pessoa que não sente a necessidade de impressionar ninguém diria isso. Michelle sabia que não precisava declarar sua admiração por ele, pois um oceano de admiradores e admiradoras devia rodeá-lo sempre. Aonde quer que fosse. Ela não passava de uma gota nesse mar de celebridades. Alessandro dava as cartas na vida... Tinha berço, fortuna e confiança. E Michelle não tinha nada. Mas a parte triste era que ele não parecia aproveitar nenhuma dessas vantagens.

CAPÍTULO NOVE

Michelle o observou enquanto bebericava seu vinho. — Você sabe mesmo viver em grande estilo, Alessandro. Ele não respondeu. Porém, Michelle tinha tantas perguntas a fazer... Fortificada pela comida excelente, não resistiu à pergunta que mais a incentivava: — Quantas pessoas até hoje ultrapassaram suas barreiras? — murmurou. — Poucas — respondeu ele, com a voz rouca e baixa. Era a abertura que Michelle queria. — Então se torna ainda mais surpreendente o fato de ter me chamado de sua noiva na frente dos jornalistas. — Já lhe disse que é a melhor solução. Nós nos casaremos o mais depressa possível para legitimar o bebê. Assim, minha consciência ficará tranquila, a House of Castiglione obterá o herdeiro que precisa e não necessitarei me preocupar com publicidade maliciosa. 58


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As coisas melhorarão ainda mais quando o bebê nascer. Criaremos a imagem perfeita de família feliz. Ele delineava seus planos com muita facilidade. Michelle mal podia acreditar no que ouvia. — Vai usar nosso filho como uma oportunidade? Ele sorriu como um lobo. — Irei proteger meu filho com todas as forças. Nunca deverá ser molestado por publicidade barata. E também não será usado pela mãe para exibição como se fosse mais um acessório da moda. Momentaneamente surpresa, Michelle reagiu tentando rir. — Você parece um assessor de imprensa, Alessandro! Ele a fitou com seriedade. — Sou realista. Por isso a avisei para não se apaixonar por mim, não me amar. Michelle sentia muita coisa por ele nos últimos tempos, mas talvez amor não fosse a palavra certa. Desejo e luxúria, sim. Mas, amor? Sem experiência em amar e ser amada, como poderia ter certeza? Rapidamente refletiu que era melhor ser hóspede na Villa da Toscana do que ser uma mãe solteira na Inglaterra. Sorriu de maneira provocadora, tentando achar uma brecha na armadura de Alessandro. — Nunca lhe ocorreu, Alessandro, que possa tê-lo obedecido, mas não me apaixonado por você, e que passei a odiá-lo por me abandonar? Já pensou que posso recusar sua oferta de me mudar para cá? Suas palavras só provaram para ele o quanto era inexperiente. — Não... Nem por um segundo. Vi que precisava de ajuda. Sou a pessoa certa para ajudá-la. Não há como você me recusar. — Fez uma pausa e acrescentou: — Pronta para a sobremesa? Fitou o prato dela, que continuava cheio, pois Michelle estivera muito envolvida na conversa para se lembrar de comer. Ela acenou, demonstrando que sim. Falar poderia quebrar o encanto. Uma empregada surgiu não se sabe de onde, e colocou um magnífico doce no meio da mesa. — Os franceses chamam isso de ninho de abelhas — explicou Alessandro, partindo uma fatia. — Aceita? O bolo tinha uma massa muito macia recheada com creme. — Não posso recusar algo que parece tão delicioso — disse ela, corando ao ver o brilho nos olhos de Alessandro. Deixando-a louca de desejo, Alessandro lhe passou o prato com o pedaço de bolo. Foi mais uma desculpa para que suas mãos se encontrassem. — Espere... Não comece a comer ainda. Falta o toque final — disse ele. A mesmo empregada ressurgiu com um jarro de mel. — Não vai deixar o bolo doce demais? — perguntou Michelle, arqueando as sobrancelhas. — Meu chef usa menos açúcar na receita. Mel é o acompanhamento ideal. Produzido na Villa Castiglione. 59


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Encorajada, Michelle sentiu o perfume suave do doce. — Experimente — disse ele. Ela hesitou, pois até então só experimentara mel comprado no supermercado, e não gostara. Porém, Alessandro sabia ser persuasivo. Michelle se serviu de um fio de mel sobre a fatia de bolo. — Não se parece com nada do que comi antes — aprovou, sorrindo. — Quer mais? — murmurou Alessandro. — Oh, sim... — respondeu Michelle com o fôlego curto, que nada tinha a ver com o mel. Seus joelhos voltaram a se encostar debaixo da mesa, e Michelle desejou que fosse uma simples coincidência, e nada mais. — Esse bolo é uma experiência e tanto, não? — quis saber Alessandro. — É maravilhoso. — Michelle comeu até a última migalha e depois se recostou na cadeira com um suspiro. — Cada garfada foi divina. — Fico feliz que tenha gostado. — Alessandro a observava com atenção. — Quer café? — Melhor não, — replicou Michelle, com pena. Aceitaria qualquer desculpa para continuar sentada em frente a ele... Menos essa. — Não suporto o cheiro do café desde... — Posso imaginar — retrucou Alessandro, antes que ela mencionasse a gravidez. — Dizem que a gestação afeta sua vida em quase tudo. Ela aquiesceu com um gesto de cabeça, porém emoções fortes a assediavam, e nada tinham a ver com sua gravidez, mas com Alessandro. — Afetou a minha vida também — disse ele com simplicidade. — Quer dar uma volta para conhecer seu novo lar? Se não estiver muito cansada — acrescentou com tolerância. A ideia de percorrer uma Villa maravilhosa ao entardecer era divina. E o fato de ser Alessandro seu guia era estupendo. Depois de um início incerto, o dia transcorrera como um sonho. Michelle fora atirada em um novo mundo. Havia tanto a aprender, e, apesar da aparência solene de Alessandro, ela só queria ficar ao lado dele. Talvez acordasse para descobrir que tudo não passara de um sonho. Tudo desapareceria como uma bolha de sabão. Podia ser. Afinal, Alessandro já sumira da sua vida uma vez, levando sua felicidade. O que o impediria de agir da mesma maneira de novo? Então ela aceitou fazer o passeio, determinada a não se deixar surpreender demais. Mas foi impossível, porque havia belezas por toda a parte para admirar. A Villa possuía até um SPA. Só os vestiários eram maiores que seu chalé na Inglaterra. Quando Alessandro a conduziu até a piscina e o bar, precisou fechar a boca para não demonstrar tanta admiração. — Você precisa fazer exercícios, Michelle. Andei pesquisando e soube que natação é algo que pode praticar até o bebê nascer. Michelle olhou em volta para os vasos de terracota, o chão e as paredes de ladrilhos brilhantes perto da piscina, e exclamou: — Parece um jardim tropical! 60


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Folhagens exóticas circundavam o bar. Palmeiras e bananeiras se agitavam com a brisa suave. Notou plantas enormes que nunca vira antes, e Alessandro explicou: — As originais vieram do exterior e logo se desenvolveram por aqui porque amam o lugar. Michelle percebeu que se aproximara dela e sentiu o calor de seu hálito no pescoço. — Fico feliz que fiquem e amem a Toscana... Contanto que se comportem — murmurou ele. Michelle imaginou se a mesma regra se aplicaria a ela. Se Alessandro gostava de dominar criaturas selvagens, sem dúvida poderia fazer isso com pessoas também e com maior facilidade. Ele inspirava sentimentos conflitantes. Desde que o conhecera, Michelle tivera consciência de que nenhum outro homem entraria em sua vida. Sua partida inexplicável de Jolie Fleur quase a matara de tristeza. Sua autoestima fora arrasada. Ao descobrir que esperava um filho, preparara-se para dar a ele uma vida muito melhor do que a que tivera, e isso lhe dera forças para prosseguir. Por isso precisava concordar com os planos de Alessandro agora. Por mais bizarras que fossem suas ideias de trazê-la para a Itália é se casar sem amor, pelo menos daria ao bebê a chance de uma infância perfeita. E, quem sabe, eventualmente eu também tenha uma chance de ser feliz, pensou, ousando lançar um olhar enviesado para Alessandro, que a conduzia pela vasta mansão ancestral. Até se conhecerem, Michelle passara todos os seus vinte e três anos de vida se preocupando como que os outros pensavam a seu respeito. Depois, por alguns dias gloriosos de verão, Alessandro afastara todos os seus temores. Preenchera sua mente e seus sentidos até que nada mais importara. E as lembranças boas sempre superavam as más. Admirava a beleza máscula de Alessandro sempre que pensava ser seguro. A presença calma e poderosa dele inflamava seus sentidos e, a julgar pelo queixo erguido e os ombros eretos, ele também estava travando sua batalha pessoal para conter os impulsos. Chegaram ao grande vestíbulo da entrada no térreo. — Foi aqui que cheguei. Deve ser o final de nosso passeio — disse ela, com tristeza. Tentava não olhar para a porta do escritório dele, onde ficara tão envergonhada por causa do enjoo súbito. Sentiu um calor intenso percorrer seu corpo ao lembrar que vomitara não apenas uma vez, mas duas, na frente de Alessandro. Porém ele parecia nem se lembrar disso, pois anunciou, abrindo a porta do escritório: — Ainda precisa conhecer a suíte principal. — Ele encostou-se ao batente e aguardou. Não havia como escapar. Michelle precisou passar por ele. O escritório de Alessandro exalava um odor gostoso de papel de alta qualidade e móveis novos. Dessa vez, não sentindo a premência de correr para o banheiro anexo, ela teve tempo para apreciar os vasos com plantas e flores que recobriam todos os cantos. Dali, Alessandro a conduziu para o elevador particular que os levaria ao alto da casa outra vez. Quando as portas com espelhos se abriram, ela se viu em um mundo de sons abafados por um espesso carpete cor de creme e folhagens exóticas. Como o SPA da Villa, 61


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havia palmeiras e orquídeas por todos os cantos. Quando alcançaram a área dos aposentos particulares de Alessandro, Michelle ouviu o som de pássaros. — Oh, um viveiro! — exclamou, vendo aves tropicais voejando entre as folhagens em um canto protegido. — Sempre quis um assim! Alessandro não demonstrou entusiasmo e a acompanhou até uma enorme gaiola dourada no final do vestíbulo. De início, os pássaros pareceram assustados com a presença de Michelle, porém, quando reconheceram Alessandro, voltaram a se tranquilizar e prosseguir no seu voo. — Queria de verdade? Dio seria a última coisa que eu gostaria de ter — disse ele, espantado. — Mas o viveiro sempre esteve aqui. Meu pai gostava de aves. Não aprovo que se aprisionem pessoas ou animais, mas essas pequenas criaturas recebem todos os cuidados vinte e quatro horas por dia. Então terão um lar aqui por toda a sua vida. Porém, quando morrem, nunca os substituo coitadinhos. Alessandro sorriu para as aves de um modo que enterneceu Michelle. — Mas, vamos lá... Está ficando tarde. Poderá visitá-los de novo depois que conhecer o resto de minha suíte. Michelle olhou em dúvida para as portas duplas cor de creme ao fundo do vestíbulo. O cheiro de tinta fresca atingiu suas narinas. Sentia-se uma intrusa ali. — Não sei... Mal nos conhecemos... — É a mãe de meu filho, e a apresentei para todos que vi hoje como minha noiva. Não há ninguém melhor qualificada para julgar a nova decoração que fizeram para mim. Empurrou-a para uma grande sala de estar contígua ao vestíbulo. Era sofisticada, nas cores, verde-clara e creme, e ainda mais bonita por causa dos tapetes escuros, antiguidades e quadros de bom gosto. Michelle não conseguia deixar de arregalar os olhos para tudo. A cada canto se admirava com uma peça linda, mas Alessandro parecia não se incomodar com nada. Conduziu-a por altas portas-janelas até um terraço. Um peitoril de grades era a única coisa que os separava do cenário à frente. A noite caía depressa, e Michelle admirou o grande espaço coberto por colinas que circundavam as terras ancestrais de Alessandro. O brilho distante de luzes mostrava a estrada serpenteando pelo vale Tiebolino. De vez em quando, a silhueta de uma coruja surgia nos castanheiros. Seu pio solitário ecoava como uma música melancólica pelo campo. — Posso passar muito tempo aqui e nunca me canso — disse Alessandro, em um tom confidencial que Michelle não ouvia há muito tempo. — Em geral, tudo isso está sempre deserto quando tenho tempo de ficar aqui, mas de vez em quando uma pessoa surge no meu campo de visão por alguns momentos... Um de meus empregados ou um trabalhador dos campos. Consigo ouvir algumas palavras ou testemunhar uma cena... Depois eles desaparecem. Havia um tom de satisfação na sua voz. Michelle estava intrigada; jamais conhecera alguém que gostasse de observar os outros à distância como ela gostava. Até então imaginara que a vida de Alessandro como grande executivo fosse repleta de pessoas em volta com muita animação. — É a situação perfeita, não acha? — disse ela sorrindo. — Por alguns minutos, pode 62


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desfrutar de uma intimidade com os outros sem que esperem nada de você. Você os vê e eles não, e observar aqui de cima é a camuflagem perfeita. Gostaria de ter um ponto de observação assim no meu chalé da Inglaterra. — Por que precisa se esconder? — perguntou ele de supetão. — Oh, sempre me sinto mais feliz quando passo despercebido. Alessandro levou alguns segundo para replicar, e suas palavras soaram amargas e experientes. — Pelo menos você teve escolha. Eu me escondo às vezes para ter um pouco de paz. Michelle riu. — Deve estar brincando! Minha mãe me inscrevia no concurso Miss Bolha de Sabão todos os anos desde que eu tinha um ano de idade. — Miss Bolha de Sabão? — repetiu Alessandro, com expressão curiosa. — É um concurso de beleza nacional patrocinado por uma indústria britânica de sabonetes — explicou Michelle. — A vencedora tem sua foto publicada na embalagem durante um ano, e recebe seu peso em dezenas de produtos da empresa. Alessandro tentou parecer impressionado. Não deu certo. Pela primeira vez, Michelle pôde ler seus pensamentos. Sabia que no íntimo estava rindo dela, todo mundo ria... Em especial os juízes do concurso. — Alguma vez venceu? — perguntou ele, por fim. — Nunca... Em cinco tentativas. Minha mãe gastou uma fortuna com spray de cabelos e aulas de postura para mim, mas não deu em nada. E a cada vez ela ficava mais desapontada. Aliás, desapontou-se no momento em que nasci. Desejava uma bonequinha para vestir com rendas, mas em vez disso teve... Alguém como eu — disse Michelle, abrindo as mãos em um gesto sem esperanças. Alessandro soltou uma gargalhada. — Acho que você está procurando elogios, não é? O olhar constrangido de Michelle o fez falar com cinismo. — Ora, deixe disso! Vai me fazer chorar de pena, Michelle. Sem dúvida não foi tão ruim ser mimada e cuidada por tanto tempo, foi? Michelle balançou a cabeça. — O passatempo de minha mãe era me exibir — respondeu com simplicidade. — Muito mais tarde, quando papai morreu e ela ficou sem dinheiro para as despesas, percebeu o que meus professores diziam o tempo todo. Eu não era uma pessoa talentosa em especial. Então foi preciso trabalhar, e eu só estava qualificada para fazer limpeza. — Então você teve que abandonar a luz dos refletores? — Foi um alívio! Jamais gostei de aparecer em público. E, quanto mais velha ficava, menos engraçadinha era para esses concursos. — Acho você muito bonita — murmurou Alessandro. Michelle tratou de mudar de assunto. — Disse que vai contratar um professor para mim? De italiano? — Sim. E, quanto mais cedo aprender meu idioma, melhor. Às vezes me atrapalho com a língua inglesa, e quando estou aqui na Villa tenho muitas coisas para resolver, e não terei tempo para lhe ensinar nada. Isso foi um choque para Michelle. Entendeu claramente o que seria um casamento de 63


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conveniência com Alessandro. Ele imporia todas as regras. O futuro dela seria feito de longos períodos solitários nessa enorme Villa. Mas ele parecia não perceber o quanto se sentia angustiada. Estava magoada, porém precisava ocultar a dor por causa do bebê. Tentou rir, sem sucesso. Então sorriu de leve e Alessandro a reconduziu para o interior da suíte. — Venha... Agora quero lhe mostrar um lugar especial. O lugar mais próximo ao coração de um italiano... A cozinha. E havia mesmo uma cozinha nos aposentos de Alessandro com um equipamento brilhante e moderno. Michelle notou que parecia uma cozinha de exposição. Era tudo perfeito demais. Não se via um grão de poeira ou uma manchinha. Nada de ímãs de geladeira, potes com flores ou latas de biscoitos. Ela visitara a enorme cozinha no térreo que era conservada pela criadagem, porém parecia nunca ter sido usada, e Michelle se perguntou por quê. Assustou-se ao pensar que era uma cozinha sem alma, assim como grande parte dos aposentos da Villa. Os últimos raios do sol desapareceram enquanto completava o passeio. Cansada, Michelle acompanhou Alessandro de volta à sala. Ele acendeu algumas luzes, mas o contraste com as sombras da noite a deixou zonza. Percebendo algo errado, ele se aproximou, vendo-a apertar as têmporas com as mãos. — Está exausta— murmurou. — Estou bem. Apenas um pouco tonta. Vai passar. — Mas, e o bebê? Havia reprovação em sua voz. Michelle mordeu o lábio. Estava muito acostumada a lidar com o cansaço desde o início da gravidez. Devia se difícil para uma pessoa privilegiada como Alessandro compreender que os pobres precisam "levar o barco" mesmo quando estão no extremo de suas forças. — Gravidez não é doença, Alessandro. O médico disse que devo continuar com minha vida normal. Ele não se impressionou. — Essa é a opinião de seu médico, mas de agora em diante será aconselhada pelo meu médico, que virá amanhã cedo para examiná-la. — Franziu a testa. — Tem certeza de que está bem? Sua suíte fica do outro lado da Villa. Uma boa caminhada daqui até lá. — Estou ótima. Só preciso de alguns minutos para me recompor, e algo para beber, se você tiver para me oferecer. — É claro. — Alessandro a guiou até várias poltronas junto a uma grande e antiga lareira. Acomodou Michelle ali, sempre com um olhar preocupado. — Se não pode tomar café, o que lhe apetece? — perguntou, agachando-se para acender o fogo com os gravetos que já estavam arrumados ali. Michelle lembrou que sempre que tentava fazer isso sujava todo o chão. Alessandro apenas riscou um fósforo, e a lareira foi acesa sem problemas. — Água mineral seria ótima. — Não prefere algo quente, já que está esfriando? Michelle sorriu. — Sim, chá, mas nunca consegui encontrar um bom chá na França durante o verão. 64


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— Ah, mas agora está na Villa Castiglione. Limpando as mãos, Alessandro se levantou e admirou as chamas. — Adquiri o gosto por chá quando fui para o colégio interno na Inglaterra. Precisei tomar isso... Era o chá ou ficar com sede. A cozinha aqui sempre tem um bom sortimento de tudo que as visitas desejam. Que mistura prefere? Michelle estava exausta, porém não pôde deixar de rir. — Sua cozinha tem o estoque de um supermercado? — Não posso lhe oferecer um supermercado completo — brincou ele -, mas temos chá da China, índia, e de outros lugares mais exóticos. Então... O que prefere? — Não faço a menor ideia. — Michelle começava a se sentir melhor. Esticou os braços e deixou as mãos caírem sobre a poltrona que ocupara. Depois, fez-se silêncio, apenas quebrado pelo barulho das achas de lenha na lareira. Nesse instante ela soube exatamente o que desejava. E, a julgar pelo olhar de Alessandro, ele também sabia. — Decida por mim sobre o chá — murmurou Michelle. Ele aquiesceu com um gesto de cabeça. Hesitou um instante... E depois se dirigiu até um aparelho de telefone meio escondido no assento da janela. Minutos depois de falar com a cozinha, uma bandeja com bebidas e mais comida foi entregue. — Seus criados o alimentam sem parar! — observou ela, assim que ficaram a sós de novo. — Tentam, mas prefiro qualidade á quantidade — replicou Alessandro, servindo o chá e passando a xícara para Michelle. São gentilezas como essas que o tornam diferente dos outros homens, pensou enquanto aceitava. A xícara de porcelana Royal Worcester tilintou quando ela mexeu o leite com uma colher de prata. Quando fitou a pequena travessa com docinhos e biscoitos, as guloseimas a fizeram esquecer que já havia comido, e muito bem. — Sirva-se — encorajou Alessandro, preparando para si uma bebida. — Não seja tímida. Ela escolheu um biscoito de limão em forma de triângulo, do tamanho de uma unha, e outro de amêndoas. — Sirva-se mais — insistiu ele. — Tudo está aí para ser comido. — Oh, mas é muita tentação — respondeu Michelle, com um olhar guloso para um merengue em miniatura que ocultava um morango silvestre. — Exijo que muitos ingredientes sejam produzidos nas minhas terras — explicou Alessandro com orgulho. — Assim, cada mordida faz bem. Cinco minutos depois, haviam consumido tudo, e as pálpebras de Michelle se fechavam diante do calor gostoso que vinha da lareira em frente à poltrona que ocupava. — Já parece estar melhor — falou Alessandro com satisfação. Suas palavras a fizeram despertar e Michelle se aprumou de supetão. Alessandro estava de pé ao seu lado, e ergueu uma mão. — Vá com calma... Não há pressa. Quer outra xícara de chá? — Sim... Por favor. Ela estendeu a mão para o bule ao mesmo tempo em que ele e seus dedos se 65


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encontraram... Primeiro por acidente, depois com uma leve pressão proposital. Isso só podia significar uma coisa, mas Michelle tinha medo de se mover e acabar com a fantasia. Fora uma coincidência, sem dúvida. Os dois haviam tentado pegar o bule ao mesmo tempo. Mas então Alessandro inclinou a cabeça para ela... Os impulsos que Michelle reprimira o dia todo a fizeram procurar o calor de seus braços. Com um gesto rápido, Alessandro a enlaçou. Tocou sua face, e Michelle estremeceu. Beijaram-se com um furor maior do que ela pudera imaginar.

CAPÍTULO DEZ

Prazer era tudo em que Alessandro pensara nesse dia. A notícia da gravidez de Michelle acabara com tal pensamento, focalizando-o na necessidade de legitimar a criança. Esse era seu dever. Então, onde entrava o prazer agora? A resposta era Michelle. A curva de seu pescoço, as ondulações de seus cabelos... Tudo nela clamava pelo toque de Alessandro. Quando ela se deixara cair na poltrona, toda vulnerável e pálida, ele soubera que não precisava mais se conter. Segurá-la nos braços do modo como fazia nesse momento parecia ser a coisa mais natural do mundo. Tentou beijá-la com vagar, mas seu desejo por ela estivera sufocado durante meses. Mal podia ser contido agora. O corpo de Michelle tremia sob seus dedos. Fazia tanto tempo... Tempo demais. Podia senti-la queimando de paixão por baixo do tecido leve de algodão do top que usava. Era maravilhoso. Cobriu seu rosto com beijos, arrancando gemidos de satisfação, enquanto Michelle fechava os olhos, usufruindo do momento. O problema de ser famoso era que a pessoa se tornava desconfiada. Cada vez que uma mulher sorria para Alessandro ou tentava se aproximar, ele ficava desconfiado. Culpava os pais por isso, por causa de seu comportamento egoísta, libertino e fútil quando ele ainda fora criança. Com frequência, no passado as pessoas se aproximavam dele na esperança de aparecer nos jornais. Se forem mulheres, queriam ter um romance ou algo assim, apenas para se promover. Mas Alessandro conseguia derrubar todos os seus esquemas. Tivera sucesso em reparar o prejuízo que a imagem de sua mãe, pai e demais parentes provocara na House of Castiglione. Agora Michelle entrara em sua vida, tudo bem, mas não tiraria sua paz de espírito. Ficaria com ela... Mas sob suas próprias condições. Casando-se com Michelle asseguraria o futuro de seu filho, e os dois fariam sexo sem envolvimentos emocionais. Romance era coisa de adolescente. Porém, sexo era para adultos como eles dois. Sorriu enquanto continuava a beijá-la. Sussurrou ao seu ouvido: — Já lhe disse que não me canso de olhá-la desde o instante em que desci daquele helicóptero? — Não. Diga agora... 66


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Era a voz de uma estranha, tão rouca e sensual, que Michelle mal pôde acreditar que fora ela mesma quem falara. Alessandro ficou muito excitado. Michelle estava se revelando uma verdadeira mulher. Ela era sua. Não havia dúvidas a esse respeito. Por alguns segundos, permitiu-se se concentrar totalmente nas sensações que percorriam seu corpo musculoso. Nada mais importava para ele. O passado e o futuro dos dois eram irrelevantes. Apenas o presente o interessava e consumia. Quanto a Michelle, podia ouvir Alessandro sussurrando, porém mal compreendia as palavras. Era impossível não responder aos seus beijos, e sentia todos os membros moles. — Você não é o Alessandro que conheci. — Não? — Ele soltou um risinho junto a sua orelha. — Mas você é exatamente como me lembrava! Não é verdade, pensou consigo mesmo. No verão, se entregou completamente. Hoje... Não sei dizer que tipo de mulher é. Uma que está sempre procurando a próxima oportunidade para tirar tudo de um homem ou a jovem inocente, pura e ingênua que tive nos braços? Porém, acabou decidindo que conhecia o modo de Michelle agir, e que ela nunca mais o enganaria. Essa noite pretendia tomar tudo que pudesse lhe oferecer, mas isso não faria a menor diferença para o futuro. Iria se casar com ela, garantindo que seu filho pudesse ficar são e salvo vivendo na Villa. E Michelle não poderia afetar sua vida de outras maneiras. Como todas as mulheres, em breve se cansaria de fingir ser correta, e procuraria outros caminhos para se divertir. Por sua vez, Alessandro pretendia ser o pai perfeito, fornecendo tudo que seu filho pudesse precisar ou desejar. O que Michelle escolhesse fazer não seria problema seu... Contanto que procedesse como a mãe e esposa perfeita em público. Sua mãe agira mal em público, porém Alessandro estava determinado a não deixar sua vida particular ser enxovalhada nas páginas dos jornais. As prioridades para Alessandro eram dar uma boa educação para o filho logo de início e torná-lo o herdeiro legítimo de sua empresa. Nada mais importava. Entretanto, de vez em quando Michelle o fazia pensar que era realmente uma pessoa honesta... A mulher que idealizara. Mas era perigoso dar asas à imaginação. O perfume dela o fez retornar ao momento presente. — Alessandro — ouviu-a murmurar. Alguma coisa estava acontecendo com ele... Estava gostando de todos os pequenos detalhes que separavam Michelle de todas as outras que conhecera. Seu corpo curvilíneo e os sorrisos tímidos contrastavam com as magrelas de expressão aguada que conhecera antes. — Não sou fiel — disse em voz alta, para que ela não tivesse ilusões a seu respeito. — Já disse isso para você no verão. Precisava repetir isso, correndo o risco de se tornar antipático, para que ela não construísse ilusões. E tentasse se aproximar demais. Afinal, provavelmente ela o enganara no sul da França. Engravidara de propósito. Ou não? 67


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Por um breve momento, a lembrança de tirar sua virgindade foi como uma bofetada em seu rosto. Hesitou, mas logo recuperou o controle. Sim, partira enquanto ela dormia, para evitar se comprometer. Alessandro só desejara um breve romance de verão e permanecer por mais tempo em Jolie Fleur apenas iria prolongar o momento que em que partiria o coração dela. Pensou que assim procedia com bondade e fizera de tudo para compensá-la, dando-lhe o chalé de seus sonhos e tornando-a dona de seu próprio negócio, por meio de sua fundação que ajudava jovens empreendedores. Depois ela parecera ter sumido de sua vida para sempre, e presumira que desejava esquecer o que acontecerá entre os dois. Entretanto, agora sabendo da gravidez, o casamento selaria o acordo. Iria proibi-la de usar a criança como ferramenta para extorquir mais dinheiro. E ela receberia uma renda regular por toda a vida... Enquanto ela se comportasse e obedecesse a regras dele. Segundo Alessandro, o dinheiro era o verme que vivia dentro de toda maçã. Assim, controlava tudo do modo como desejava... Provou de novo os lábios polpudos e cor-de-rosa de Michelle. O dia inteiro sua beleza discreta o tentara com visões de como poderia ser o futuro entre os dois. Agora iria redescobrir os encantos de seu corpo como se fosse á primeira vez. — Você me deseja. Sempre desejou. Deixe-me possuí-la — murmurou, com a voz rouca. Era uma declaração ousada, mas, apesar da vontade de possuí-la ali mesmo, na frente da lareira, Alessandro queria que Michelle decidisse. Da primeira vez, fora impetuoso demais, então tratou de se conter nesse instante, obrigando-a a tomar uma decisão. Se quisesse mudar de ideia e se afastar, tudo bem. Entenderia. — Nós dois sabemos como foi bom o sexo — disse ele, cheio de insinuações na voz. A resposta de Michelle foi rápida e desesperada. Afastou-se dele com um repelão e o fitou em cheio com expressão de dúvida. — Não posso. Não devemos. Senti-me zonza demais para afastá-lo naquela noite em Jolie Fleur, porém preciso me opor hoje. Entenda que não sou a mulher que você imagina. Não tentei enredá-lo com uma gravidez. Simplesmente aconteceu. E é por isso que não posso ceder de novo antes do nosso casamento. Não é do meu feitio. — Seus olhos brilhavam de um modo que o deixava constrangido. — Se deseja de fato se casar comigo, não irá se importar em esperar um pouco mais. Alessandro também se afastou com um repelão. Soltando uma exclamação de surpresa, passou a mão nos cabelos de maneira irritada. — Passei muito tempo sofrendo as consequências da má reputação de meu pai — disse. — De jeito nenhum a trouxe aqui com outra intenção a não ser a de me casar com você. É claro que me casarei com você. O que acha que sou? — finalizou, de modo sombrio. A resposta de Michelle foi imediata: — O tipo de homem que roubou minha virgindade e me abandonou. — Fiz o que achei melhor na ocasião. Foi minha culpa você ter cedido com tanta facilidade? — Fiquei envergonhada por ter sido tão fraca, Alessandro. Com vergonha porque sempre quis me conservar virgem até o dia de meu casamento... E por que... — Fitou o 68


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chão depressa, corando diante do tumulto que a possuía. — Porque gostei. Se o tivesse encontrado de novo no dia seguinte, não tenho certeza se conseguiria olhá-lo nos olhos... Aos poucos, a expressão de Alessandro se suavizou, até que um pálido sorriso surgiu em seus lábios. — Fique tranquila, que hoje conseguiu se controlar muito bem. Ela ergueu o rosto e ambos trocaram sorrisos tímidos. — Nossa situação é fora do comum, não é? Talvez... Bem, talvez nós dois tenhamos cometido erros — prosseguiu Alessandro com dificuldade, acrescentando depressa. — Não seja dura consigo mesma, Carina. Vencendo a distância entre os dois, ele depositou um beijo carinhoso na ponta do nariz de Michelle. Segurou sua cabeça com uma das mãos e seus dedos acariciaram os cabelos macios. — Nós dois temos passado por maus bocados, mas isso já passou. Disse a você no verão... É bom aproveitar a vida, Michelle. Relaxe e se permita viver. Ela devolveu o sorriso com hesitação. Quando a viu ceder um pouco, Alessandro cobriu seu pescoço com rápidos beijos. Michelle sempre pensara que era impossível para ela desfrutar a vida. A culpa a rondava constantemente, e hoje mais do que nunca. Estava grávida e desesperada para acreditar nas palavras de um homem que já a abandonara uma vez. O que mamãe diria? Tal pensamento a torturava. Fazia com que se afastasse dos braços de Alessandro. Mas não podia lhe dizer isso. De repente, percebeu que não podia lhe contar coisa nenhuma. Seus beijos e carícias a faziam sair desse mundo e ingressar em outro de sensações e prazeres infinitos. Com um gemido, deixou a cabeça pender para trás e se deliciou com os lábios dele sobre seus mamilos recobertos pelo tecido do top. A menos que o detivesse nesse exato momento, estaria perdida de novo. — Michelle... — sussurrou ele, com seu hálito quente. — Não precisa mais se negar nada... A menos que honestamente não me queira... Era a sua grande chance. Michelle relembrou os dias de verão e calor. O que a impedia de gozar tudo isso de novo? A experiência ainda estava fresca em sua memória. E, dessa vez, seria ainda melhor. Seria a esposa de e Alessandro, vivendo no lar de sua família e em meio a tudo que interessava a ele. Se fosse aceita no seu lar, poderia lutar para entrar em sua vida de maneira definitiva. Poderia começar tentando recuperar a breve felicidade que haviam usufruído no verão... Entretanto, a fria e dura realidade fez ruir essa fantasia. Alessandro estava lhe oferecendo uma existência de despesas pagas e, em troca, queria fazer parte da vida de seu filho. Isso era tudo... Nenhuma promessa de amor ou romance. Ela ficaria reduzida à categoria de mulher mantida e dependente. A vida na Inglaterra fora dura, porém Michelle descobrira sua independência. Agora Alessandro tomara o controle determinando onde ela moraria e o que comeria. Michelle começou a sentir pânico. Perderia tudo e seria absorvida pela personalidade dele. Ficaria totalmente dependente de Alessandro para tudo. Nesse momento, ele a acariciava de uma maneira que sabia ser irresistível. Desesperada, Michelle soube que precisava detê-lo antes que seu corpo começasse a 69


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ceder e sufocasse o bom senso que ainda lhe restava. — Não... Pare Alessandro. Não posso fazer isso. — Apertando com as mãos as costas largas, ela o afastou com um safanão. Foi mais rude do que pretendera, mas precisava ser decidida. Se traísse as próprias emoções, daria muito poder a Alessandro. — Não posso me casar sem amor, Alessandro. — Por que não? Ele parou de acariciá-la, e a fitou intensamente. — Não seria certo! — exclamou Michelle, surpresa por ver como ele não compreendia seu ponto de vista. — Tolice! É a única opção. O casamento irá tornar nosso bebê legítimo, assegurar o futuro da empresa e garantir que esta maravilhosa mansão antiga perpetue nosso nome por mais uma geração. Michelle o fitou com olhos diferentes. Não havia dúvida sobre a sinceridade das palavras de Alessandro. A tradição era algo muito importante para ele, e seu orgulho era imenso. Se ela se recusasse a se casar, Alessandro iria afastá-la totalmente de sua vida. Michelle pensou em seu pobre e inocente bebê, sofrendo no mundo por causa de seus escrúpulos, e tomou uma decisão. — Suponho que os Castiglione fazem esse tipo de casamento há séculos, não? — disse, com a voz lenta. — Escolher esposas movidas por razões práticas e sem amor? Satisfeito, Alessandro aquiesceu com um gesto de cabeça. — Certo. Pode pensar em algo mais racional para se, fazer? Você viverá aqui como minha mulher, e cuidará de nossos filhos. Todos ficarão felizes. Algo no raciocínio ousado e confiante dele a fez pensar. — Então... Pretende ter mais filhos? — Michelle acariciou o ventre de maneira pensativa. — Ainda nem tive este. Filhos dão trabalho. — Não se preocupe... Não precisará fazer nada, na verdade. Para isso existem os criados — murmurou Alessandro. — O que importa é sua presença na Villa Castiglione. Será a senhora de meu lar... Quero-a aqui vinte e quatro horas por dia. — E o que você fará enquanto eu estiver exercendo meu papel de Abelha Rainha da colmeia? Ele inclinou a cabeça para fitá-la como se sua pergunta tivesse sido uma piada. — Estarei trabalhando, é claro. Já lhe disse que não passo muito tempo aqui. — E ficará nos escritórios de Florença? — perguntou Michelle. Alessandro pareceu confuso. — Pode ser... Ás vezes. Viajo pelo mudo todo. Onde quer que a House of Castiglione exija minha presença, lá estarei. — Mas... Nem sempre estará em casa? Alessandro franziu a testa diante de tanta insistência. — Raramente. — Deu de ombros. — É assim que será nosso relacionamento. A distância poderá nos unir mais. — Verdade? — questionou ela. — Quem disse isso? Ele fez um gesto vago com a mão. — Oh, acho que li em algum lugar. — Uma criança precisa da presença do pai e da mãe — replicou Michelle. 70


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— Sim... Um trabalhando para ganhar o sustento e o outro em casa para cuidar dele. — Prefiro que nós dois cuidemos de nosso filho... Juntos. — Nem você nem ele passarão necessidades nunca — afirmou Alessandro. — Não estou falando de dinheiro ou coisas materiais. Fique com tudo isso, Alessandro, e ficarei com meu bebê. — Obrigado por ser tão compreensiva — murmurou ele, inclinando a cabeça em um gesto sarcástico. — Não estou com vontade de ser compreensiva. Sinto-me triste e desconfortável. — Michelle fitou as próprias mãos e suspirou. Tentou esfregá-las na calça, mas ele logo lhe estendeu um lenço imaculadamente branco. Com um gesto resignado, ela aceitou e ergueu o rosto para olhá-lo. Havia um sorriso débil nos lábios de Alessandro. — No meu entender, você está ótima. — Não. Devo estar com o rosto vermelho, as feições tensas, e isso não é nada bom para a gravidez — insistiu ela. Mas Alessandro não tinha tempo para ouvir suas lamentações. Com uma mão, apertou seu ombro e, com a outra, ergueu seu rosto. — Está falando tolices, caríssima. Pare com isso... E alce voo. Michelle fechou os olhos, recordando seu primeiro e último ato de amor. Dera tudo para esse homem vibrante, sexy e poderoso, e o vira destruir seus sonhos transformandoos em uma transação. Agora ele voltava a acionar seu charme, e era tão tentador... — Oh, como gostaria de poder confiar em você, Alessandro. — Um Castiglione jamais quebra suas promessas — respondeu ele, com seriedade. — Cuidarei de você enquanto for á mãe de meu filho. A lembrança do que ele significara em sua vida a dominou. Michelle desejava viver de novo a sensação de completa felicidade que ele lhe dera. Sem dúvida, viver como sua esposa, mesmo sobre condições tão estranhas, lhe daria a oportunidade de fazer amor com Alessandro mais uma vez, certo? Ou duas...? Ou ainda mais vezes...? Ele dera a entender que haveria mais filhos... Michelle tornou a tomar uma decisão. Se for isso que precisava fazer para ficar ao lado dele, então faria. Caso voltasse para a Inglaterra, talvez nunca mais o visse. Pelo menos Alessandro dissera que visitava a Villa Castiglione de vez em quando. Já era alguma coisa. Teria que se conformar. — Está bem. Quero me casar com você, Alessandro. Preparou-se para ouvir uma exclamação de alívio, uma risada... Qualquer coisa, mas não se preparou para o que de fato aconteceu. Um profundo e longo silêncio. Depois o ouviu dizer em voz baixa: — Farei de tudo para que nunca se arrependa disso, Michelle. Deixe-me lhe mostrar... Abraçou-a com força. Nós dois nos encaixamos tão bem um nos braços do outro. Como se nossos corpos fossem feitos um para o outro, pensou Michelle. E estamos ambos concentrados no bebê também, mas, além disso, o que temos? Afastou-se um pouco, imaginando se ainda teria 71


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forças para resistir. Será que meu desejo físico por ele irá compensar os momentos ruins do casamento? Quando não souber onde ele está, mas adivinhar o que estará fazendo... Talvez com outra mulher? A resposta surgiu de imediato em sua mente. Não sei. — Posso não estar lhe oferecendo amor, Michelle. Mas, pelo menos, estou sendo honesto a respeito do nosso casamento — murmurou Alessandro na sua orelha. — Somos adultos. Você precisa de mim e eu de você. E o bebê vem na frente de tudo. Será uma união perfeita, todos obterão o que desejam. Você terá uma vida de luxo aqui, e nosso filho será sempre a prioridade de minha vida. A qualquer tempo e lugar, meu herdeiro terá a preferência, pois lá estarei — finalizou, com tanta ênfase que Michelle acreditou. Chegara o momento da decisão. Até então Alessandro só a seduzira em sonhos, agora estava acontecendo de verdade. Ele a beijava e acariciava, fazendo-a perder a noção de tudo a não ser da paixão. Michelle não conseguiu resistir. Uma série de alarmes soava em sua cabeça, mas foram abafados. Não podia mais pensar em nada a não ser nos braços que a prendiam. Ela o fitou ciente de que um homem como Alessandro jamais ficaria preso a uma só mulher. Sabia que estava se preparando para mais tristezas e desilusões. Mas, afinal, tratou de se lembrar, já estou acostumada a essas coisas. Pelo menos podia se, agarrar a esses instantes de alegria, quem sabe algumas horas de prazer, e usufruir da presença de Alessandro sem ter arrependimento. Quando ele perguntou de novo, só foi possível dar uma resposta. Com um sorriso ao mesmo tempo triste e doce, ela murmurou quase sem fôlego: — Sim... Quero ser sua; de novo Alessandro. Por favor... Como da primeira vez.

CAPÍTULO ONZE

Suas palavras fizeram o corpo de Alessandro ferver de novo. Tomou a mão de Michelle, pronto para levá-la até seu quarto, porém o desejo foi mais forte do que tudo. Segurando seu rosto, beijou-a de modo longo e exigente. Enquanto suas mãos deslizavam pelo corpo macio e sinuoso, a língua explorava o interior de sua boca com uma precisão e conhecimento que a fez perder o fôlego. Entre beijos, ele murmurou: — Sou todo seu. Dispa-se para mim. Como em um sonho, Michelle se afastou. Alessandro franziu a testa. Questionou-a com os olhos, mas ela baixou os cílios longos. — Não tenho certeza... — sussurrou por fim, corando sem querer. Era quase difícil acreditar que reunira coragem para pronunciar essas palavras. — Sabe que não precisa mais ser tímida comigo. O tempo para isso terminou. Então, devagar, com gestos nervosos, ela retirou o top e o jeans que usava. Alessandro observou, admirando cada centímetro de seu corpo. Depois a fez deitar sobre o tapete quente e macio em frente à lareira. Com dedos experientes, removeu sua 72


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roupa íntima rendada e, tomando-a nos braços de novo, apertou os seios redondos de encontro ao peito musculoso. — Vou tornar essa experiência maravilhosa para você — prometeu, a excitação fazendo sua voz soar rouca. Surpresa com a reação de seu físico viril, Michelle se excitou mais ainda, repleta de sensações que percorriam cada parte de seu corpo. Os beijos foram se tornando mais apaixonados. Alessandro beijou os mamilos rijos, e Michelle arqueou as costas de maneira muito feminina. Comprimiu os dentes no ombro dele enquanto tentava parar de gemer de prazer. Sua reação ô deixou ainda mais excitado e louco de desejo. O modo como sugava e beijava seus seios a deixava fora da realidade. Quando Michelle percebeu que o mordia para evitar gemer, forçou-se a abrir a boca e deixou escapar um grito de agonia. Apertou com desespero as fibras do tapete onde estava deitada. Incentivado pela paixão que via e sentia nela, Alessandro tratou de tirar o máximo de roupas possível sem deixar de abraçá-la. Não podia suportar a ideia de largá-la. E não conseguia parar de desejá-la cada vez mais; seu perfume, seu gosto, sua maciez... Por fim despido, voltou á atenção de novo para os seios eretos e intumescidos. O órgão rijo a fez entreabrir as pernas e ele encontrou o calor de sua feminilidade. Michelle estremeceu de puro desejo. Seus dedos deslizaram pelos cabelos de Alessandro, mantendo sua boca junto aos seios. Podia sentir a umidade entre as pernas e seu sexo se abrindo para ele como uma flor. — Alessandro... Oh, Alessandro... — Uma voz o chamava, e ela percebeu que era a sua própria. Mal notara que seus lábios se moviam para falar. Alessandro fez uma pausa. Pressentiu que ela estava à beira do orgasmo, e desejava preenchê-la com sua masculinidade, a fim de compartilhar de seu imenso prazer. Cobriu-a com o corpo, apertando-a com a mão para aproximá-la ainda mais. Com uma estocada firme, penetrou-lhe, e Michelle correspondeu à sua ânsia, colando seu corpo ao máximo, desejando algo que mal sabia o que era, mas que era bom. Muito, muito bom. Ela o recebeu com volúpia, acomodando-o dentro de seu corpo, e Alessandro tratou de se dominar ao máximo para não alcançar o clímax imediatamente. Quando, por fim, isso aconteceu, o prazer para ambos foi indescritível. Então, quando ela sentiu a satisfação de Alessandro, ficou muito orgulhosa e feliz. E assim continuou mesmo quando ele se afastou. Michelle sabia agora que, mesmo que ele não ficasse sempre ao seu lado, teria maravilhosas lembranças para cultivar. Após o ato de amor, a satisfação e paz que a possuíram proporcionaram algo que raramente sentira em toda a sua vida. Felicidade observou Alessandro com as pálpebras semicerradas. Lutar para permanecer acordada era quase impossível... Até que o fitou. Alessandro a observava com sonolência e torpor. Porém, não havia emoção em seus olhos, e isso a frustrou. Uma lágrima escapou de seus olhos e caiu sobre a face ainda corada pelo ato de amor. Alessandro percebeu. Tomou-a nos braços e enxugou a lágrima com um beijo, murmurando palavras doces em italiano. Michelle não entedia o que ele dizia, mas sabia por que ele estava tão solene. Os votos do matrimônio ligariam a criança e ela mesma a Alessandro para sempre. Ele devia 73


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estar alertando-a de novo sobre o que esperar e evitar decepções. Em outras palavras, Michelle deveria ser completamente fiel e ele, apenas de vez em quando. Alessandro podia estar enxugando suas lágrimas nesse momento... Mas apenas faria isso quando quisesse e pelo tempo que desejasse... Alexandro acordou com um sorriso no rosto. Mas, dentro de instantes o sorriso desapareceu substituído pela preocupação. O que fora fazer? O que o dominara para possuir Michelle diversas vezes quando ela dissera que desejava esperar? Um selvagem tomara conta de seu habitual cavalheirismo. Isso fora inadmissível, assim como ter tirado a virgindade de Michelle antes. O que havia nessa mulher que o fazia se esquecer de tudo exceto do prazer que ela lhe dava? Moveu a cabeça só um pouco, e confirmou o que pensava. Michelle dormia profundamente ao seu lado. — Você é uma feiticeira. Também queria esperar pelo nosso casamento... Onde foram parar todas as minhas boas intenções? — murmurou ele, sentindo a brisa fria da manhã. Tomando cuidado para não despertá-la, examinou seu relógio de pulso. Quase 7:00 horas da manhã. Durante a noite, os dois haviam conseguido chegar até a enorme cama do quarto de Alessandro e, por fim saciados, haviam adormecido nos braços um do outro. Alessandro sabia que devia se levantar, esquecer a noite que passara com Michelle, e voltar á atenção para o trabalho. Entretanto, continuou deitado, fitando a companheira. Não suportaria abandoná-la pela segunda vez... Não depois do que acontecera e desencadeara tanta paixão. Adormecida, Michelle parecia completamente em paz com o mundo, e os seios arredondados arfavam de leve. Alessandro sabia que, no instante em que reabrisse os olhos, ela começaria a se preocupar de novo, então que continuasse a dormir. A visão do belo corpo em repouso o satisfazia tanto quanto fazer amor com ela. E então Michelle se moveu de leve. — Alessandro? Ele se inclinou para frente, tentando captar as primeiras palavras que ela diria nesse novo dia. Mas logo percebeu que Michelle continuava adormecida. Precisava ir embora, porém algo o mantinha ali ao seu lado. Disse a si mesmo que era porque não poderia deixá-la acordar sozinha pela segunda vez. Quando já estava se convencendo que essa era a razão verdadeira para ficar, Michelle voltou a se mover delicadamente. O lençol deslizou para baixo, revelando seu corpo inteiramente despido. Agora Alessandro sabia que não tinha mais uma desculpa para ficar ali. Entretanto, ficou hipnotizado... Em especial quando seus olhos captaram a cena refletida em um dos grandes espelhos com moldura dourada que circundavam o quarto. Despenteado e barbudo, ele parecia exatamente o que era... Mas Michelle lembrava um anjo. Totalmente tranquila no sono, havia uma sensualidade lânguida em sua postura que o fazia pensar em quadros de mestres famosos. Estava irresistível. Erguendo a mão, Alessandro estava pronto para acordá-la, mas hesitou. Sabia que não devia encorajá-la. Seria injusto para com Michelle fingir que poderia ser fiel a ela dali em diante. 74


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Seu pai e todos os seus tios sempre haviam traído as esposas. E sua mãe... O rosto de Alessandro se contorceu ao lembrar-se dela. Seu coração se contraiu. Herdara problemas dos dois lados da família. Recostando-se, refletiu onde estaria seu legendário autocontrole. Isso nunca deveria ter acontecido. Michelle expressara a vontade de esperar para fazerem sexo só depois que o acordo matrimonial estivesse acertado e a cerimônia, realizada. Se acordasse e se visse na cama dele, poderia culpar a si própria por isso, e não fora a única culpada... Pelo menos seria melhor que não acordasse naquela cama. Daria uma impressão errada de muita acomodação e intimidade. Em silêncio, ele se levantou e a ergueu nos braços com delicadeza. Ela apenas se remexeu de leve. Carregou-a nos braços para fora de seu quarto, atravessou o corredor e a levou até seu próprio dormitório, já iluminado pelo sol. Ela parecia tão frágil e desejável. Alessandro se demorou a olhar o ventre liso onde seu filho estava se formando, são e salvo. Nenhum mal aconteceria à criança nem agora nem no futuro. Tenho tudo sobre absoluto controle, pensou, com um sorriso nos lábios. Ajoelhando-se na beira da cama onde colocara Michelle adormecida, beijou a pele macia de seu ventre, e se retesou. Acabara de sentir um leve pontapé do feto. Ela resmungou alguma coisa, mas continuou a dormir. Esperou com o rosto encostado na barriga de Michelle... E lá veio de novo! O sorrido dele desapareceu. Ela nada dissera sobre sentir o bebê se mexer, então fora a primeira vez que isso acontecera, e ele fora o felizardo que tivera essa primeira experiência. Pensou em acordá-la e perguntar, mas e se estivesse certo? Sendo a mãe, sem dúvida Michelle gostaria de ter sido a primeira a sentir o bebê chutar. Como ele poderia dizer que roubara essa doce experiência dela? Deixou a cama e a cobriu com o edredom. Depois recuou até a porta, rezando para que o bebê chutasse de novo nesse instante e a acordasse para que pudessem compartilhar esse momento mágico. Mas isso não aconteceu. Alessandro fechou a porta enquanto tomava uma grande decisão. Por mais que desejasse revelar o que lhe acontecera, manteria segredo. Michelle precisava pensar que ela seria a primeira a sentir o bebê chutar. Quando despertou na sua própria cama, sozinha, as palavras de Alessandro voltaram a sua mente de maneira muito clara. Ele pode me desejar, mas nada me fará ficar na sua cama a noite inteira, refletiu com amargura. E, quando soube que Alessandro já deixara a Villa para ir ao escritório no centro, sua dor foi indescritível. Ele se satisfizera, e ponto final. Michelle sentiu náuseas. E, dessa vez, não era por causa do bebê, mas por causa do pai da criança... E de sua própria fraqueza e comportamento. Na noite anterior, se deixara levar pela sensualidade e se esquecera do sofrimento que Alessandro lhe causara no passado. Nesse momento, sentindo a brisa fria da manhã seguinte, percebeu com toda a clareza como seria sua vida com ele. Oh, o que fui fazer? Ela deixou a cama cambaleando e fitou o próprio reflexo no grande espelho de alfaiate do outro lado do quarto. 75


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Concordara com um casamento de conveniência no qual toda a conveniência seria de Alessandro. Caminhou até as janelas sentindo o sol da Toscana como se fosse mel que escorresse pela sua pele. O céu ainda mantinha o tom rosado do alvorecer. Michelle imaginou quantas gerações de maridos aristocratas haviam instalado suas esposas nesse paraíso solitário ao longo dos séculos. Pensou nas aulas de História que tanto amara no colégio. Não estou só. Estarei seguindo uma longa tradição, refletiu, tentando se encaixar na situação que vivia. Alessandro sugerira que ela podia dar as costas para sua generosidade e ir embora. Isso apenas significa que ele não me compreende, refletiu Michelle. Cruzou os braços sobre o peito e fitou o jardim iluminado pelo sol matinal. Sua vida fora difícil até conhecer Alessandro. Perdê-lo e voltar para a Inglaterra como mãe solteira seria impossível. Jamais conseguiria condenar uma criancinha ao tipo de infância que ela própria tivera. O pobre pequeno merecia tudo que pudesse lhe proporcionar. E, se isso significava se unir legalmente a Alessandro, então era isso que precisava fazer. O artista jovial que ela amara não existia. No seu lugar, estava um homem de negócios com um coração de pedra. Os dois se chamavam Alessandro Castiglione, porém o cruel era o verdadeiro, e o outro, afável, um disfarce usado para satisfazer seus próprios caprichos. Na noite anterior, pudera entender melhor seu caráter. Desse dia em diante ele iria considerar que fazer sexo com ela era seu direito e dever. Uma onda de constrangimento e vergonha a dominou. Já fora ruim ter-se deixado levar, porém, quando encontrasse Alessandro de novo, teria que encará-lo sabendo que ele tinha tamanha falta de consideração por ela que não permitira que passasse a noite toda na sua cama. Oh, é claro que abordaria o assunto com charme e tato, mas no íntimo, Michelle sabia que Alessandro era um daqueles homens que devia pendurar um cartaz na porta do quarto: "Só por uma noite". Assim pensando, Michelle foi até o banheiro de sua suíte. Era um verdadeiro conto de fadas espelhado, mas ela não conseguiu encarar a própria imagem refletida. O que andara pensado ao se entregar a um homem como Alessandro Castiglione? A resposta era fácil. Ficara cega e não vira seu caráter real. Alessandro nunca se interessaria em transformar a paixão original em um amor duradouro ou qualquer tipo de amor. Por que faria isso? Devia encontrar todos os dias mulheres muito mais elegantes e bonitas do que ela. Poderei me tornar sua esposa no nome, mas jamais passarei de uma aventura de uma noite, refletiu com amargura. Quando haviam se conhecido, Alessandro só estivera pensando em se divertir. E encontrara diversão. Para ele isso seria tudo... Mas Michelle agora sabia que o custo seria um coração em frangalhos. O seu coração. Apesar da determinação de Alessandro de encarar o casamento apenas como uma conveniência, sua mente divagava sempre voltando para Michelle. O edifício Castiglione em Florença estava repleto de lembranças de sua casa. A sala de reuniões, o refeitório, os corredores do andar executivo exibiam aquarelas e fotografias da Villa. E, em um lugar de honra na parede atrás de sua escrivaninha, encontrava-se emoldurada uma pintura grande que fizera de Michelle na borda da piscina de Jolie Fleur, usando apenas sua memória. 76


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Para ser honesto, era o melhor trabalho artístico que já fizera, mas se recusava a admitir... Mesmo para si próprio. Quanto mais olhava para a tela, mais repudiava sua situação. Fora desajeitado e descuidado. E seu relacionamento com ela estava carregado de emoções... Um mundo diferente do modo frio e calculista como costumava conduzir sua vida e seus negócios. E isso estava tendo um efeito negativo sobre ele, percebeu, quando o representante de um dos museus da cidade precisou tossir duas vezes para fazê-lo desprender a atenção do quadro. — E agora está noivo! — exclamou o cliente idoso para provocá-lo. — O que sua noiva, dirá entrando aqui e vendo essa pintura na sua parede? Sem afastar os olhos do quadro, Alessandro se levantou e cruzou o escritório com largas passadas. Depois, parou a poucos centímetros de distância da pintura cujo modelo com curvas voluptuosas carregava, no momento, o seu filho. — Essa pintura é o retrato de minha noiva, mas ela não tem o menor interesse em vir aqui. Entretanto, o senhor tem razão. Esse quadro distrai demais. — Com gesto brusco, virou a tela para a parede. O rumor das hélices do helicóptero fez a criadagem da Villa Castiglione entrar em polvorosa. Michelle se precipitou pela galeria do segundo andar, a fim de saber qual o motivo para tanta agitação. Chegou a tempo de ver o helicóptero com o logotipo de a House of Castiglione descer passando pelas janelas. Quando ela chegou ao térreo, o veículo já estava no pátio interno da Villa. — Alessandro! — gritou Michelle, da soleira da porta. — Pensei que ficaria ausente por muito tempo! — Dá para perceber. — Ele examinou o relógio de pulso e depois fitou Michelle. — Não viu a lista de instruções que deixei? Deveria estar descansando a esta hora. — E estava... Até que você chegou. Quando ouvi um helicóptero em cima do telhado, fiquei assustada... Ele estalou os dedos em um gesto de irritação. — Dannazione! Falei com o pessoal da segurança. Deveriam tê-la avisado de minha chegada. Michelle balançou a cabeça. — Você também os mandou manterem a casa um oásis de serenidade por causa do bebê, lembra? A segurança pode ter avisado os criados, mas eles jamais perturbariam minha sesta. Devem ter ficado assustados e com medo do que você faria se me acordassem. E esperavam que você desse o exemplo e me deixasse dormir também sem chegar com tanto espalhafato — finalizou com ênfase. Ele fez uma careta. — Entendi a indireta... De qualquer modo, não acontecerá de novo. Ficarei aqui na Villa por certo tempo. Decidi tirar umas férias curtas. A notícia deixou Michelle confusa, mas ela tentou ver o lado positivo. Enquanto Alessandro tirava umas férias, ela saberia onde ele estava. Seu humor começou a melhorar enquanto percebia que poderia haver outra vantagem também. Sem precisar se preocupar com os negócios, Alessandro poderia relaxar. E então o artista tranquilo e simples que ela conhecera em primeiro lugar poderia ressurgir em sua vida e encantá-la de novo... 77


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— Oh, que bom... Poderá passar algum tempo no seu ateliê pintando! — exclamou com alívio. Ele a silenciou com um olhar. — O que a faz pensar que terei tempo para isso? Tenho muito que fazer... Organizar tudo a tempo para a chegada do meu herdeiro. Quanto a você, deve voltar para a cama. Monsieur Mareei estará aqui dentro de... — consultou seu relógio de ouro. — quarenta e oito minutos, e desejará estar bem desperta para discutir modelos de seu vestido de noiva, certo? Depositou um beijo na fronte de Michelle, que suspeitou ser um gesto para ser visto pelos criados que observavam a cena e sorriam. — Mas... Não acha que os preparativos para a chegada do bebê devem ser um esforço conjunto? — retrucou, lançando um olhar de esguelha para os criados. Eles á deixavam nervosa, apesar de suas expressões benevolentes. Alessandro deu um, tapinha amigável em seu braço. — E é. Seu corpo está fazendo todo o serviço pesado, e quero garantir que o resto corra tranquilamente. Assim dizendo, caminhou para seu escritório. Michelle foi deixada sozinha e subiu as escadas de volta para o quarto. Não teve chance de voltar a dormir. Dentro de minutos, começaram a chegar automóveis, e portas foram abertas e fechadas sem parar. Eram pessoas que desejavam falar com Alessandro sobre diversos assuntos. Uma dessas visitas era para a própria Michelle: um estilista famoso, Monsieur Mareei. Mais tarde, depois que Monsieur Mareei tirou suas medidas e lhe mostrou seu portfólio de vestidos de noiva para celebridades, uma empregada trouxe a programação para o dia seguinte. Estava repleta de visitas: nutricionistas e especialistas de todos os tipos dariam consultas para Michelle. Ela não fazia ideia do por quê. Alessandro se sentia tão confiante que tomava as decisões ele próprio sem pedir sua opinião. Cansada e frustrada, Michelle se sentia um simples repositório para o bebê. Não haveria lugar para ela na vida de Alessandro depois que a criança nascesse. Tinha certeza disso. A única coisa que podia pensar era em como viver bem à margem. Como fora cega! Quanto mais pensava a respeito, mais percebia que perdera o Alessandro que amara no início. E isso acontecera no momento em que ele a deixara na França. Não podia enfrentar a vida de casada caminhando sobre ovos, à espera de ser posta de lado outra vez. E essa programação era o fim do mundo. Desculpando-se rapidamente com o estilista do vestido noiva e o deixando a falar sozinho, correu ao encontro Alessandro. Jamais se sentira tão determinada a fazer alguma coisa. Ele acha que resolve tudo por mim durante a gravidez e que é dono de minha vida e de meu corpo! Refletiu com raiva. Precisava defender sua causa... Antes que ele a distraísse com seus olhos profundos e seu charme. Aqueles olhos... Ela tratou de afastar o pensamento. Seus passos se tornaram mais vagarosos e hesitantes enquanto uma imagem de Alessandro surgia em sua mente. Então cerrou os dentes e continuou a andar com renovado ânimo. Sem Alessandro, sua vida era vazia de muitas maneiras... E ela se ressentia com isso. Michelle desejava ser 78


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independente, porém seus dias eram nada sem ele. Quanto mais pensava em ser uma esposa só no nome, mais se sentia enredada. Uma raiva justificada a deixou com medo e magoada ao mesmo tempo. Quando descobriu Alessandro na biblioteca da Villa, conversando com o marceneiro que faria o berço, estava prestes a explodir. Ouvindo os já conhecidos passos delicados de Michelle, ele se virou com um sorriso que teria derretido um bloco de gelo, mas que não teve nenhum efeito em Michelle. Ela o confrontou com as mãos nos quadris. — Procurei você por todos os cantos! Ele ficou surpreso com a agressividade em sua voz, e respondeu: — Bem, agora me encontrou. O que houve? — Não posso continuar vivendo assim nem mais um minuto! Você entra de novo na minha vida como um furacão e me arrasta para viver atrás desses muros altos. Todos os meus movimentos são monitorados, porém mesmo assim você não quer se comprometer de verdade comigo. Bem, este pode ser seu reino particular, mas não significa que pode mandar em cada segundo da minha vida! Alessandro arregalou os olhos. — Está me dizendo que não gosta de viver aqui? Com gestos calmos, foi buscar um copo com água para ela, que revidou: — É só nisso que pode pensar agora? Em água? — Outros no meu lugar poderiam lhe dar umas palmadas porque está se tornando uma menina mimada, porém procuro ser mais digno. — Eu? Mimada? — Michelle estava estupefata. — Como pode ter a coragem de me acusar disso quando é você que só faz o que quer! — Estou sempre disposto a negociar — retrucou-o, com toda a tranquilidade. — Quem é você, Alessandro? — perguntou Michelle, exasperada. — Sem dúvida não o homem que conheci na França! O que aconteceu com o sujeito divertido e amável que me seduziu no verão? Ele a fitou intensamente e depois murmurou: — Tornou-se pai. Levo muito a sério meus deveres e responsabilidades. E você deveria fazer ô mesmo, Michelle. A época de diversão acabou. — Grande casamento nós teremos! — a comentou, com ironia. — Isso depende de você. — Quer dizer que tenho escolha, Alessandro? — Sempre há uma escolha — falou ele com frieza. — Pode terminar tudo agora mesmo. Se, acha que não serei um bom pai e que você se sairá bem sozinha, não a impedirei. Michelle o fitou. Alessandro pouco se importava com ela; sua vida desmoronara e ele ali permanecia impassível. — Não posso — murmurou por fim. — Sabe disso tão bem quanto eu, Alessandro. Do seu jeito egoísta, deseja esse bebê também. E eu quero ficar perto dele. Isso me acorrenta a você. — Sabia que isso iria acontecer no momento em que permiti que você entrasse na minha vida! — gritou ele. — Aconteceu o mesmo com... Deteve-se. Ia dizer aconteceu o mesmo com meu pai, mas já não tinha certeza se 79


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Michelle seria tão má quanto sua mãe fora. — Foi o mesmo com quem, Alessandro? — insistiu Michelle. — Com suas outras namoradas? Bem, não posso fazer comparações com outros homens, porque você foi o único para mim até hoje. — O sofrimento trazia lágrimas aos seus olhos, mas prosseguiu: — E, se a vida com você será assim, então é melhor ir embora! — Virou-se e caminhou às cegas para a porta, esbarrando em cadeiras e poltronas no desespero de fugir. Desejava que Alessandro se comprometesse com ela, que a tomasse nos braços, mas ele nada fez. Correu pelo vestíbulo e saiu da Villa, respirando o ar fresco. A raiva e a frustração que a dominavam escaparam enquanto sorvia o ar nos pulmões. Continuou a correr pela propriedade sem se importar para onde ia.

CAPÍTULO DOZE

Michelle correu até suas pernas não aguentarem mais. Por fim, apesar do frio, ela se deixou cair, exausta. Escolheu a sombra de uma oliveira que, como tudo o mais na propriedade, naturalmente pertencia a Alessandro Castiglione. E eu também pertenço, pensou. Não era justo. Sua vida nunca lhe pertencera. Primeiro o pai a incentivara a ganhar uma bolsa de estudos. Depois, quando ele morrera, sua mãe arruinara seu futuro estudantil, e só quando a mãe se fora também Michelle conseguira ter uma vida própria. Então conhecera Alessandro. Entretanto, no fundo sabia que ele era um bom homem. Descobrir que ela estava grávida após tanto tempo sem notícias fora um choque para ele. Não era de admirar que agisse do modo como agia. Ele só está querendo fazer a coisa certa, me trazendo aqui para garantir uma boa vida ao filho. Apesar do frio, do cansaço e do sofrimento, Michelle começou a rir. Oh, pobre de mim! Tive um ataque de raiva, praticamente mandei embora um famoso estilista, briguei com meu irresistível futuro marido, e saí correndo nesse frio terrível... Tudo porque estou presa no paraíso sem nada para esperar a não ser o nascimento de meu adorado bebê! Assim colocado, vivendo em um paraíso, a última coisa que deveria sentir era pena de si mesma. Tratando de se recompor, Michelle refletiu que de nada adiantaria ser vista assim... Amarrotada, com o rosto inchado e manchado pelas lágrimas. Olhou em volta do paraíso que não conseguia apreciar. Vislumbrou o ateliê do qual Alessandro lhe falara, junto a um dos muros que circundavam a propriedade. Um sorriso iluminou seu rosto. Sabia que lá dentro devia haver uma pia onde lavar o rosto. E desejava ver os trabalhos dele de novo... Sua arte. Assim recordaria os bons momentos que haviam passado juntos. O Ateliê de Alessandro era um prédio de um único cômodo de teto baixo. Todas as janelas ficavam do lado norte, dando para a propriedade. E era totalmente isolado. 80


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Michelle entrou ali com muita facilidade. Alessandro não se preocupava em trancar portas dentro de suas terras bem protegidas. Ela parou no batente. O ateliê em nada se parecia com o outro, na França. Era escuro, triste e abandonado. Michelle estremeceu... Não apenas por causa do frio. Ali não era um lugar para ficar. Virou-se para ir embora, e descobriu que estava com problemas. A porta batera com força por causa do vento, e emperrara. Michelle resmungou. Se pelo menos não tivesse saído correndo e esquecido seu casaco e celular! Soprou as mãos geladas, mas de nada adiantou. Havia muitas frestas no velho prédio, e o vento as encontrara com facilidade. Começou a tampar todas as frestas e fechar as janelas estreitas, tentando se esquecer de que em breve escureceria. Descobriu uma pequena lamparina. E um aquecedor também, que Alessandro usara como mesa. Ao empurrar o aquecedor, derrubou uma pilha de livros e papéis. Decidiu se aquecer primeiro e depois arrumar a bagunça. Acendeu o fogo e a lamparina que encontrou. Depois, se ajoelhou no chão e começou a recolher os papéis. Enquanto fazia a arrumação, descobriu uma caixa grande repleta até a tampa com muitas coisas interessantes. Michelle não pretendia olhar, nem precisava, porém não resistiu. Tudo estava muito bem acondicionado em pastas plásticas ou de papelão com descrições sobre o conteúdo escritas à mão e algumas datas. A primeira pasta que ela pegou estava datada de algumas semanas atrás. Com medo de encontrar algo desagradável a seu respeito, guardou bem depressa a pasta de volta na caixa. Preferiu examinar outra, com boletins escolares e fotografias, pois assim evitaria sofrimento, refletiu. Alessandro fora um menino inteligente e aplicado, diferente dos pais, que eram displicentes e desatenciosos. Michelle leu uma dezena de bilhetes da diretoria do colégio que diziam quase todos á mesma coisa... Seria bom que vocês dois, ou um de vocês, comparecessem à escola nas reuniões de pais e mestres pelo menos uma vez por ano... A família Castiglione podia ter muita tradição, mas era um zero à esquerda quando se tratava de afeto. Lendo a papelada, ela descobriu que Alessandro passava quase todas as férias escolares no internato. Isso não era vida para uma criança. Michelle ficou horrorizada com as injustiças que ele sofrerá. A seguir, leu cartas datilografadas e com uma assinatura floreada do pai dele, alegando negócios importantes em Kentucky, Melbourne, Londres e o sul da França que o impediam de visitar o filho. Para cada desculpa dada havia um recorte de jornal datado com a caligrafia de Alessandro. Eram fotos de um homem de expressão orgulhosa nas corridas de cavalos ou teatros, e de uma mulher magérrima quase sempre de óculos escuros sobre o tapete vermelho no festival de Cannes ou em alguma festa elegante. Michelle fez uma careta. Seu filho nunca iria se queixar que ela era uma mãe ausente. Aposto que Alessandro odiava ser tratado assim, pensou, recordando as manchetes que já vira nos jornais a respeito dele, e que o chamavam de "Pobre Menino Rico" sem explicar por quê. Se eu tornar a ameaçar partir com o bebê, estarei provocando uma briga 81


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por nada. Michelle se sentou com as costas apoiadas na grande caixa. Precisava haver outra solução. Ela fora sufocada pela mãe quando criança. Alessandro fora deixado sozinho. Ela nunca fora independente e não sabia lutar para conseguir sua independência sem ser agressiva demais. E começou a ver uma luz no final do túnel. Alessandro era um magnata. Homens de negócios passavam o tempo negociando e eram dinâmicos. Precisava aprender a acompanhá-lo e ser uma esposa atuante. Só assim garantiria que ela e seu bebê participassem ativamente da vida do pai. Michelle sorriu. Uma onda de satisfação a dominou. Tentaria forçar a porta, sair e voltar para a Villa para se desculpar com Alessandro e; pôr seu plano em ação. Porém, mais tarde... O ateliê estava bem mais aquecido. Quase sufocante, pensou, franzindo a testa. Fechou os olhos. Seria uma pena abrir uma janela para deixar o vento entrar, porque resfriaria o ambiente de novo. E ela tivera tanto trabalho para esquentar o ateliê! Resolveu tirar um cochilo por causa da dor de cabeça que começava a incomodá-la... Mergulhado nós próprios pensamentos, Alessandro esfregava um dedo sobre os lábios. Era um completo mistério. Michelle desaparecera da face da Terra. A última vez que a vira ela correra para fora da Villa, furiosa o suficiente para ir andando até a Inglaterra. Entretanto, ninguém a vira sair da propriedade. Alessandro estava preocupado. Michelle virará de cabeça para baixo sua vida sempre tão organizada, e agora desaparecera. Não era possível. Em parte, ele ria da ideia de uma mulher abandoná-lo. Isso jamais acontecera. Porém, no âmago de sua alma, outra emoção começava a surgir. Um desejo enorme de saber onde Michelle se encontrava. Essa sensação era estranha para ele. No passado, sempre se sentira secretamente contente quando uma namorada se cansava de suas atitudes e, entre lágrimas, ouvindo-o dizer com um ar de fingida tristeza que era melhor assim, ia embora, frustrada. Isso o poupava de lhe dar o fora. Mas perder Michelle era outra perspectiva, completamente diferente. Jamais imaginaria que ela fosse embora. E sua própria reação para o que acontecera o surpreendia ainda mais. Desejava Michelle de volta, e não só porque era a mãe de seu filho. Pensando bem, desejara-a de volta na sua vida desde o instante em que a deixara na França. Fitou as chamas que dançavam na lareira da biblioteca e relembrou. O olhar assustado dela quando haviam se conhecido fora algo delicioso. Sua conversa à meia-noite no balanço do jardim fora ainda melhor. E, quanto à manhã na piscina... Um sorriso iluminou seu rosto másculo. Uma luz intensa brilhou em seu olhar ao se lembrar daqueles dias felizes e breves. Onde tinham ido parar esses dias? Lembrou-se dos desenhos que fizera na França, da pintura em seu escritório, e do quanto trabalhara no ateliê assim que voltara para casa, a fim de não deixar que o tempo apagasse os traços de Michelle de sua mente. Tentara gravar na tela as imagens intensas que vivera com ela em Jolie Fleur... 82


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Ninguém a vira deixar a propriedade. Essa era a pista de que Alessandro precisava. De repente, a solução surgiu. Michelle se parecia muito com ele... Ambos gostavam de ficar sozinhos, embora necessitassem muito de segurança. Ela devia ter ido para o único lugar dentro da propriedade aonde ele também iria. Agora tudo que precisava fazer era buscá-la. Michelle poderia se ressentir por aceitar sua ajuda, mas, paciência. Saindo de casa resolutamente, foi procurá-la. A noite estava muito fria. Deixando a Villa, Alessandro se viu em um mundo de sombras sob um céu estrelado. Corujas soltavam seus pios tristes, mas ele mal notou. Cobrindo a distância entre a Villa e o ateliê em menos de dez minutos, seus pés foram pisando as folhas secas. Uma enorme satisfação o dominou ao provar que estivera certo. Uma luz fraca e alaranjada surgia em meio à escuridão. Alessandro parou de caminhar para aproveitar o momento. Foi então que desejou ter trazido o casaco. Enrolar Michelle nele e carregá-la nos braços de volta para casa seria tão bom... O pensamento o fez sorrir enquanto prosseguia. Continuou de bom humor até que não houve resposta para suas insistentes batidas na porta do ateliê. Tentou de novo. — Sou eu, Michelle. Vim dizer... As palavras morreram em sua garganta. Ela o acusara de ser agora um homem diferente. Se ainda desejava o homem que a seduzira na França, ele estava disposto a mudar. Mas pedir desculpas com uma grossa porta de carvalho entre os dois não era o ideal. Tentou abrir. A porta não cedeu. Aborrecido, espiou pelo vidro da janela. A luz ia esmorecendo depressa, e mal conseguia distinguir os objetos... Exceto o velho aquecedor que usara como mesa. Da última vez que o acendera, ficara dor de cabeça, provando que o aparelho não estava funcionando bem. Olhou de novo. O aquecedor estava no meio do cômodo. Não havia tempo para pensar. Alessandro derrubou a porta batendo nela com o ombro diversas vezes, e recuou ante o ambiente abafado que o recebeu. A chama na pequena lamparina estremeceu com a lufada de ar fresco. E Alessandro viu Michelle, caída junto à caixa de lembranças. Respirando fundo, ele entrou e a puxou para fora do ateliê. O choque de ser agarrada de repente, combinada com o ar frio da noite, a fez despertar com um gemido. — Oh... Minha cabeça... — Idiota! — exclamou Alessandro, esfregando as têmporas com as palmas das mãos. — Espere aí... — Recordando a discussão que haviam tido na biblioteca, Michelle recuperou a consciência. — Não comece a me insultar... — Estava falando de mim mesmo, Michelle. Deixei que fugisse e pensei que a perdera... Apertou-a de encontro ao peito com tanta força que Michelle quase sufocou 83


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novamente. — Oh, Michelle... Ela estava confusa, mas pouco se importava. Alessandro estava ali, abraçado-a, e para ela só havia outra coisa mais importante no mundo. — O bebê... — gemeu. — Não, Michelle. No momento estou preocupado com você! — A intensidade na voz de Alessandro os fez ficar imóveis. Fitaram-se com os rostos muito pálidos. Entretanto, ele relutava em demonstrar tantas emoções, e mudou de assunto: — Quero dizer... O que queria dizer era... Você precisa estar bem, Michelle, para que nosso... Seu... Bebê... Quero dizer, meu herdeiro... Tenha chance de sobreviver. Michelle estudou seu semblante, tentando encontrar um laivo de ternura por trás da fachada de pedra. Ainda procurando não demonstrar emoção, Alessandro resolveu dar uma lição de moral. — Será que não pensou que essa velha lamparina e o aquecedor poderiam absorver todo o oxigênio do ateliê? Poderia ter morrido! Prendeu o fôlego, e sua expressão mudou de repente. Seus olhos ficaram escuros de medo diante de tal possibilidade. E Michelle ficou olhando enquanto outra ideia ainda pior contorcia as feições viris. — Ou foi isso mesmo que você pretendia? Depois do jeito como deixou a biblioteca? Dessa vez, ele não conseguiu esconder o pânico na voz. Por um longo tempo, Michelle não pôde responder. Fechou os olhos, incapaz de suportar o olhar horrorizado de Alessandro. Como ele podia pensar em tal coisa? As lágrimas não conseguiam afastar a dor de cabeça, e estava com a garganta seca. Por fim moveu o rosto, primeiramente para a esquerda, depois para a direita. — Nunca. — Essa única palavra ecoou em meio ao ar frio que os circundava. — Queria vê-lo de novo e ter nosso filho. Alessandro ficou calado por um longo tempo. Por fim, fitou-a com uma expressão diferente. — Depois de tudo que lhe fiz? Depois de trazê-la para um lugar estranho onde nem mesmo fala sua língua? — Você só fez isso porque se importa com nosso bebê... De um modo como ninguém se importou com você quando era pequeno. Ele franziu a testa. — Encontrou os recortes de jornais? Michelle aquiesceu com um gesto de cabeça. — E não é tudo, Alessandro. Li parte da correspondência guardada também. Fiz mal, mas não consegui evitar. Sinto muito. — Não se desculpe. Já li muita coisa que não devia também... — consolou ele. — Não, quis dizer que lamento você ter passado por tanto sofrimento — interrompeu Michelle, lembrando-se das cartas frias e impessoais do pai dele. — Agora sei por que se interessa tanto pelo nosso filho. Ela o fitou, tentando ler além de sua expressão de dor. 84


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— Tudo que vi foi um garotinho confuso que era tratado como um objeto. Seu pai e sua mãe, as duas pessoas em quem você mais deveria confiar no mundo, só pensavam em si mesmos e na publicidade. Ele sorriu. — Então percebe por que gosto tanto de escapar do olho da mídia e vir para cá, para a Villa Castiglione. Michelle aproveitou a oportunidade para dizer: — Então, já que gosta tanto, deveria passar mais tempo aqui, não acha? — Você deveria ser a última pessoa a me encorajar. — Alessandro riu sem alegria. — Por que uma mulher tão boa gostaria de passar mais tempo com um homem que teve pais adúlteros e egoístas? Está nos genes. — Está nos genes? — Michelle caiu na gargalhada. — Sim, nenhum deles dois nasceu para ser fiel — retrucou Alessandro. Michelle semicerrou os olhos. — Você está trabalhado muito para dar felicidade ao bebê, e isso demonstra o quanto é generoso e o torna completamente diferente de seus pais. Garanto que faço o máximo para não parecer com minha mãe; ela era mandona e hipocondríaca. Foi por isso que detestei quando você me viu passar mal. Gosto de guardar meus problemas para mim. Alessandro passou um braço pelos seus ombros. Mantê-la aquecida era tão gostoso. — Foi um prazer providenciar as coisas para o bebê. Sou responsável por você e quero ajudar. A preocupação em sua voz era tão sincera que a fez sorrir. — Obrigada, mas não se preocupe comigo. O problema é meu! Detesto que me vejam enjoada. Minha mãe adorava exibir seus males reais ou imaginários... — Parou de sorrir enquanto afagava o ventre, como era seu hábito nos últimos tempos. — Alessandro... — O que foi? Michelle segurou as mãos dele sem conseguir falar, e Alessandro pegou o celular imediatamente. — Tudo bem... Vou chamar uma ambulância... — Não precisa! Não é isso! — Arrancou o celular das mãos dele e as colocou sobre seu ventre. — Aí! Sentiu? Alessandro resolvera que agiria com surpresa quando Michelle sentisse o bebê pela primeira vez, e pensou que teria dificuldade, mas não teve. Voltou a ficar muito emocionado. — É... O bebê... Nosso bebê — murmurou encantado. — Tenho vontade de carregá-la nos braços até a casa, mas creio que não vai permitir que a mimasse. — Daqui em diante, pode me mimar quanto quiser — respondeu ela. — Não vou reclamar. — Sério? Depois de tudo que fiz a você? — Depois de tudo que fez por mim — corrigiu ela, acariciando-o no rosto. Alessandro fechou os olhos e deslizou a mão pelo ventre de Michelle, onde se abrigava seu filho. — Meus pais foram um terrível alerta para mim, mas eu exagerei me protegendo 85


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demais. Meus pais viviam para si mesmos com egoísmo e em busca de celebridade. Davam muito valor a coisas que para mim sempre pareceram vazias e superficiais. — Suspirou fundo e prosseguiu: — Cresci determinado a agir de maneira diferente em tudo. Entretanto, existe algo que tenho em comum com meu pai. Ambos produzimos um herdeiro sem querer. A diferença é que irei me responsabilizar totalmente pela minha criança. Quanto a você, cara mia, eu terei sucesso onde meu pai falhou. Falou com tanta autoridade que Michelle não teve dúvida que assim seria. — Por isso minha gravidez é tão importante para você — murmurou. Desejava dizer a Alessandro o quanto estava feliz, mas não era o momento. Sua própria satisfação não tinha a menor importância diante da oportunidade de Alessandro abrir seu coração. — Não quero conflitos e frustração para o meu filho. Quero que tudo seja perfeito para ele ou para ela— disse Alessandro, com firmeza. Michelle lembrou-se do modo como obrigara o piloto a aterrissar o helicóptero em Jolie Fleur no lugar correto. — Creio que ser pai e mãe exige abnegação — retrucou, com diplomacia. — Quero que nosso bebê seja feliz, mas não perfeito. Nada é perfeito. Ele ou ela terá pai e mãe que o amarão o tempo todo, e muito espaço para brincar e correr. Esse já é um começo maravilhoso que muitas crianças no mundo não têm chance de usufruir. Eu, por exemplo, gostaria desde menina ter podido viver minha própria vida e tomado minhas decisões. Mas fui obrigada a corresponder às expectativas de minha mãe o tempo todo. Alessandro sorriu com compreensão e a beijou. Circundou a cintura de Michelle com os braços e a puxou para si em um abraço apertado. — Daqui por diante, assim será para você, Michelle... Terá a chance de ser quem quiser. Farei de tudo para que nunca mais se sinta posta de lado ou que fique solitária, ou que seja abandonada. E uma promessa. A expressão nos olhos de Alessandro revelou para Michelle que ela estava salva e segura, agora e sempre. Alessandro a ergueu nos braços com facilidade e delicadeza para levá-la para casa, e a beijou de novo com uma ternura que jamais demonstrara antes. — Acredito em você — murmurou Michelle, aconchegando-se a ele.

Fim

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Jessa não pensaria a respeito do que eles tinham feito ou do jeito que tinham feito. Não pensaria a respeito de como ela tinha choramingado e gritado o nome dele. Repentinamente. Era apenas sexo, ela disse a si mesma. Apenas sexo. Não tinha necessidade de se torturar com isso. Não precisava deixar sua emoção tomar conta, apesar de seu coração desejar o contrário. Ela podia ser mais como um homem e conseguir separar as coisas. Por que não? Sexo era apenas sexo. Não tinha nada a ver com sentimentos, a não ser que um dos dois desejasse diferente. E ela não desejava isso. Fim de história. Agora Tariq podia seguir o caminho dele e ela o dela. Assim como eles tinham planejado. Não tinha necessidade de desenterrar ainda mais o passado deles. Podia ser encaixotado e guardado para sempre. — Então — ela disse, tentando soar trivial. — Finalmente é de manhã. — Verdade. — Tariq não se moveu apenas a observou. Era intimidante. Seu coração começou a acelerar, apesar de ela não ter certeza do por quê. — Não consigo deixar de notar que estou na França — Jessa disse, olhando além dele, para as graciosas ruas de Paris do lado de fora da janela. Ela sempre desejara visitar Paris. — Particularmente longe demais de York do que eu esperava estar. Espero que você não se importe... — Jessa. Ela corou repentinamente furiosa, ou foi assim que ela chamou a emoção que a atravessou, quente e perigosa. — Odeio quando você faz isso — ela disse. — Você não pode sempre me interromper. Não me importa se você é um rei. Você não é o meu rei. Isso é apenas rude. — E, claro, eu não gostaria de parecer rude — Tariq replicou. — Eu fiz você atingir o orgasmo mais vezes do que você pode contar, e você deseja me dar um sermão em... — Veja se você gosta? — ela exigiu interrompendo-o. — É frustrante, não é? Porque, obviamente, a pessoa que interrompe acredita que o que ela tem a dizer é muito mais importante, que ele é muito mais importante... — Ou talvez a pessoa que está falando é cansativa e histérica. — A voz dele era fria. Jessa mordeu o lábio e desviou os olhos. Ela ficou desconfortavelmente ciente de sua própria nudez, e do fato de que a coloração em sua bochecha era, sem dúvida, evidente em todo o seu corpo exposto. Jessa sabia o que estava fazendo. Ela estava deliberadamente evitando o número de elefantes no quarto. Outro jeito de fazer isso era simplesmente indo embora. A noite tinha acabado. Não havia mais motivo para eles conversarem a respeito de nada. Ele exigira o 87


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que queria, assim como ela, e seus segredos permaneciam guardados. Era hora de retornar com sua vida e finalmente colocar Tariq onde ele pertencia... Ao passado. Já tinha passado da hora de seguir em frente. Ela balançou as pernas para a beirada da cama e ficou parada sem olhar para ele. — Acho que vou tomar um banho — ela disse. Ela nunca soara tão educada. — Depois preciso voltar para York. Ela se sentiu constrangida. Tensa. Talvez fosse assim que ela continuaria se sentindo até que voltasse para a segurança de sua própria vida. Mas quando ela começou a se mover em direção ao banheiro, ela precisou andar na frente dele, e Tariq a segurou pela mão. — Venha aqui — ele disse calmamente. Ela hesitou, mas então se lembrou de que ela já tinha lidado com ele. Já tinha passado pela noite intacta. O que ele podia fazer agora? Fizera amor com ele tantas vezes que esquecera que algo além dele existia, e ainda assim, tinha acordado como ela mesma. Inteira, completa. Não estava perdida nele como estivera antes. Então por que estava nervosa? Ela se moveu em direção a ele, desconfiada. Tinha algo no jeito que ele olhava algo que ela não conseguiu desvendar. Não era aquela paixão sombria que ele parecia lutar contra tanto quanto ela. Não era cobiça. Ela estava mais do que familiarizada com essas coisas. Ele acenou para que ela chegasse mais perto, dentro do formato de V das pernas dele.

E leia também em Amores & Paixão, edição 171 de Jessica Paixão na Itália Elizabeth Power.

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