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A Chama Da Paixão To Wed Again?

DeAnna Tallcott BIANCA DUPLA 710

Você está convidado para o (re)casamento de Rowe Harrison e Meredith Worth,que vai ocorrer...mais cedo do que eles imaginam... Pegue um ex-marido e uma criança linda e misture bem... Surge uma nova família! Meredith Worth havia herdado uma doce menininha... e seu ex-marido, Rowe, fora indicado para ser o outro tutor... Portanto, agora ela e seu sexy ex tornavam-se "pais instantâneos", e por isso tinham de fingir ser um casal normal. A situação era conveniente demais, porém desconfortável... Porque Meredith se lembrava muito bem do que acontecera na última vez em que estivera nos braços de Rowe... Disponibilização do livro Valeria Digitalização: Joyce Revisão: Angélica


CAPÍTULO I

— Abbie, por favor! Você não pode parar com essa cantoria infernal? ― Meredith pressionou as têmporas com os punhos, desejando poder amarrar as cordas vocais da irmã. — Oh, sinto muito! Estou incomodando? — Abigail arqueou as sobrancelhas, segurando um frasco junto ao corpo. — Não está com dor de cabeça, está? Porque o médico foi bastante claro, dizendo que você não podia misturar aspirina com este remédio. — Não, nada de enxaqueca. — Meredith afundou o rosto no travesseiro, cobrindo-se até o ombro, o que deixou seus pés descobertos. Abigail apressou-se em cobri-la, prendendo a coberta no pé da cama. Observar a dedicação da irmã fez Meredith sentir-se culpada. — Sinto muito, Abbie. Abigail não respondeu, limitando-se a endireitar o corpo e recolher o frasco que deixara no criado-mudo. Meredith observou o edredom com trabalho de patchwork em chita vermelha e amarela, feito por sua mãe, quando ainda era uma jovem noiva em Dakota do Sul. Aquele edredom sempre a aquecera nas noites frias, desde a infância. — Sinto muito, não pude me conter. Eu odeio essa canção. — Os dedos de Meredith apertavam o tecido, com nervosismo. — Você me perdoa? — Por quê? Por criticar minha música? Não seja tola... — Mesmo assim, logo depois disso, Abbie voltou a murmurar a mesma canção patética, em voz bem baixa. — Você é uma romântica incurável. Sabia disso? — Acha isso, é? — Olhe, só porque teve um casamento desastroso, isso não quer dizer que precisa ficar se lembrando disso o tempo todo, jogando seu fracasso em cima de nós. — Imperturbável, Abbie abriu a bolsa sobre a cômoda, depositando o remédio dentro e procurando pela chave do carro. — Vou até o Woody's buscar sua outra receita. Quer que procure alguns namorados para você enquanto estiver na cidade? — Ora, não me aborreça, Abbie! — O romance está no ar, Meredith. — A moça vestiu sua jaqueta jeans, ajeitando os cabelos em seguida. — Sim, certo. — É mesmo, eu sei. Posso sentir. Eu... — Claro. Hoje é Dia dos Namorados. Mas não tente me enganar. Você se sente assim em todos os feriados. — Não, Mer, desta vez é diferente. Sou capaz de jurar que algo vai acontecer. Como...


— Abbie! — Tenho certeza. Meredith calou-se, incapaz de enfrentar a veemência das palavras da irmã. Mas só conseguiu se conter por alguns instantes. — Droga! Pare logo com essa coisa de namorados, está bem? — Ao dizer isso ergueu a cabeça do travesseiro e encarou a irmã. — E estou falando bem sério. — Vou pegar minha boneca. — Abbie agia como se não tivesse ouvido nada. — Abigail, escute-me. Tenho vinte e oito anos. Estou velha demais para esse tipo de euforia. Assim como você. Pense no Dia dos Namorados como um subproduto de uma sociedade comercial. Uma data criada para vender bonecas estúpidas. Isso vai evitar que tenha complicações, garanto. Cada vez que vejo uma boneca daquelas ou um balão em formato de coração vermelho lembro-me do som das caixas registradoras. — Você e seu trabalho! Só porque trabalha numa grande companhia agora pensa que tudo não passa de uma transação comercial. Está ficando cínica, Meredith, muito cínica. — Pare com isso! O mundo gira em torno do dinheiro. — Não é verdade. Lembra-se de como papai guardou todos os nossos bonecos em seu guarda-roupa até o Dia do Trabalho do ano passado? E o de Natalie no meio, porque o dela era o maior. De qualquer forma, o que importa é o sentimento. — Abigail... — Certo, certo. Quer mais alguma coisa da cidade? — Traga-me pasta de dentes. — Abigail sorriu, enigmática. Meredith detestava quando a gêmea fazia aquilo. Na verdade, quando acontecia, parecia que olhava para si mesma, para uma outra parte de sua natureza. Era como se mirasse um espelho, e, mesmo assim, por trás do exterior idêntico, com olhos e cabelos negros, visse um interior completamente diferente. Alguém que insistia em controlar tudo com metas, fazendo planos cuidadosos. Abigail sempre possuíra um forte instinto maternal. Sabendo disso, Meredith se esforçava para ser diferente. Aos seis anos, jurara a si mesma que iria na direção oposta de qualquer coisa que Abigail resolvesse fazer. Vez ou outra, quando estavam crescendo, começou a ver a si mesma e Abigail como sendo dois lados de uma bateria, o positivo e o negatiyo. Natalie, a terceira das gémeas, tivera a sorte de nascer com um rosto diferente dos das irmãs, e logo se tornara o coração da casa. Enquanto Meredith e Abigail eram ambas metódicas, Nat era a que mais gostava de cozinhar, e quem mantinha toda a família unida. Meredith virou-se de lado, tomando cuidado para deixar sua perna ferida para cima. A dor naquela região era bem grande. O sorriso zombeteiro desapareceu do rosto de Abigail. — Mer, você está bem? Posso esperar para sair mais tarde, quando você estiver... — Não. Vá agora. Tirarei uma soneca. Sempre me sinto melhor depois que tomo uma pílula para dormir. — Tem certeza? Porque se não... — As feições serenas da irmã mostravam-se ansiosas. No momento, abotoava o casaco com hesitação. — Pode ir, estou bem. — Mas... — Vá! — Bem, se você tem certeza... Demorarei cerca de uma hora. Se precisar de mim, ligue para a farmácia, e eu voltarei correndo. — Hesitou mais um instante perto da porta, olhando por sobre o ombro. — Mer, quer o controle?


— O quê? — O controle remoto, para a televisão. — Não, obrigada. Além disso, nem há canais suficientes aqui, já que papai não instalou uma antena parabólica. Meredith fechou os olhos, lembrando-se do rosto familiar do apresentador da CNN. Estava distraída, sentia as pálpebras pesadas, e mesmo assim sua mente retinha a letra tola da canção que Abigail murmurara um pouco antes. Odiava aquela música. Fazia-a lembrar-se de Rowe. Acomodando-se melhor, puxou o edredom e dispensou a irmã com um gesto de mão. — Sinto muito pelo que disse. Eu te amo, Abbie. Mas pode ir agora. Estou quase desabando de sono. Depois de mergulhar por instantes num sono profundo, com um pesadelo que a atormentava havia muito tempo, cheio de corações, flores e bonecos vestidos de cupidos, Meredith despertou ao ouvir alguém tocar a campainha dos fundos. Ainda sonolenta, imaginou que talvez Abbie tivesse comprado um daqueles horríveis balões, e não conseguia passar com ele pela porta dos fundos. Meredith conteve um suspiro e esforçou-se para focalizar a visão, levantando-se da cama com sacrifício. — Estou indo! Mas movia-se devagar, sentindo dores a cada passo que dava sobre o tépido carpete. Ao descer o degrau que levava para a cozinha, sentiu uma pontada lancinante, como se alguém enfiasse uma faca em seu joelho. Imprecou contra a dor e passou a caminhar com ainda mais cautela. Segurando as lapelas do robe, parou um segundo em frente ao espelho, olhando para o próprio reflexo. "Santo Deus, estou péssima!" As olheiras eram imensas. Submeter-se a uma cirurgia era um inferno, mas recuperar-se parecia ainda pior. Avançando para a porta, abriu primeiro a trava de segurança antes de passar à fechadura. Lá fora, ventava muito, o que era típico do mês de janeiro. A neve recobria a estrada, dando a toda a paisagem uma lúgubre aparência. A primeira coisa que Meredith viu foram as caras botas de couro, e depois toda a elegante roupa, incluindo as luvas de dirigir, que pendiam do bolso de trás da calça. "O quê?!" Não era incomum ver aquele tipo de caubói impaciente em Sanborn, mas eles costumavam vestir jeans. A próxima coisa que notou foi um aroma familiar vindo em sua direção. Todos os seus sentidos ficaram em alerta, e os mecanismos de defesa começaram a erguer uma barreira. Não era um estranho parado ali, e sim seu ex-marido. Enfim, Meredith ergueu a cabeça e fitou os olhos muito azuis de Rowe. A dor em sua perna parecia piorar. Pensou que estava prestes a morrer... Ou, pelo menos, desmaiar. Esforçando-se, teve de se apoiar contra o batente. — Ora, Rowe! — Tentava fingir sarcasmo. — Que gentil de sua parte ter vindo! O másculo e penetrante olhar a examinou da cabeça aos pés, passando pelos cabelos em desalinho, o rosto sem maquiagem, e detendo-se algum tempo no roupão amarfanhado. — Meredith! O que aconteceu com você, afinal?! — Comigo? Nada. A expressão de Rowe era de absoluta surpresa.


Observando-o mais uma vez, Meredith se convenceu de que Rowe Harrison era o tipo de homem capaz de colocar qualquer mulher de joelhos. A maior parte delas gostaria de ser sua namorada, companheira, e várias chegariam a implorar para ficar à sombra de alguém como ele. Mas não ela. Oh, não! Isso teria sido fácil demais. Tivera-o no passado, e o deixara ir. Estaria sofrendo algum lapso de consciência? Muito tempo tinha se passado, e Rowe continuava maravilhoso. Uma clássica boa aparência, com os cabelos muito bem penteados. Aquele era Rowe. Apenas alguns fios de cabelo fora do lugar, caídos ao acaso sobre a testa, só o bastante para lhe conferir aquele ar de alguém que precisava de um pouco de atenção. Como se mandasse a mensagem: "Vá em frente, coloque seus dedos entre os fios, arrume-os, cuide de mim". Meredith gostaria de fazer isso. E mais de uma vez durante os solitários últimos três anos. Sim, queria tocá-lo e levar uma eternidade fazendo isso. Rowe ainda a encarava, decerto tentando ler seus pensamentos. — O que deseja, Rowe? Nossa última audiência para tratar do divórcio foi há três anos, e acho que esta não é uma visita social. Esqueci de assinar alguma coisa? — Você está bem, doçura? Sua forma de falar tocou Meredith, provocando antigas recordações. Por um momento, esqueceu o sofrimento provocado pela perna, recordando que ele gostava de chamá-la de "doçura" sobretudo na cama. Sempre a fizera sentir-se suave, doce e desejada. "Ora, ora, pare com isso!" Não podia ficar vulnerável. Isso não fazia parte do jogo. Não com Rowe Harrison. — Estou ótima, muito obrigada. Recuperando-me de uma pequena cirurgia, só isso. — Cirurgia? — Ele deu um passo para a frente, levando uma das mãos à cintura dela, como se quisesse examiná-la. Meredith deu um passo para trás, apoiando-se na perna ruim, o que fez suas feições se retorcerem. Rowe segurou-a, impedindo-a de cair. — Meredith, o que... — Um pequeno acidente no depósito, Rowe. Não foi nada. Ao que parece, um operador de empilhadeira quis ver se eu podia segurar sozinha uma pilha de caixas de madeira cheias de brinquedos. — Pelo amor de Deus... — Tive um passeio de primeira classe numa ambulância linda, e ainda fui atendida por um médico bonitão. O que mais eu poderia pedir? — Tentou sorrir, fingindo-se inocente diante daquela expressão penetrante. Era como se tivesse uma necessidade íntima de feri-lo, mesmo não sabendo por quê. — Quero dizer, ele não era um neurocirurgião, mas... Rowe ergueu a mão, interrompendo-a. — Pare com essa conversa tola, Mer. Vai ficar boa ou não? — Não fico sempre? Sabe como sou dura na queda. Pelo menos já devia saber disso. As implicações do que disse eram claras. Embora o divórcio tivesse sido complexo, cheio de impasses teimosos e discordâncias, Meredith saíra dele intacta. Fazia questão de usar cada oportunidade que tinha para lembrar Rowe disso. Em certas ocasiões, achava que era a única coisa que havia lhe restado. Mas no íntimo sabia que seu coração jamais seria o mesmo. — Certo, Meredith, você é uma sobrevivente — Rowe concordou, com ceticismo, como se não tivesse se convencido com aquela súbita demonstração de força, a verve


que sua ex-mulher sempre gostava de demonstrar. — Por que está aqui? Não veio apenas para me ver, não é? — Também não vim para brigar. — Rowe... — Não, você está certa. Não vim para vê-la. A resposta foi gélida, como se mesmo a raiva que ele pudesse sentir já tivesse morrido. Ao notar aquilo, Meredith forçou-se a manter-se impassível. — Nunca imaginei que você tivesse voltado a viver aqui em Cooper. Tentei encontrála em seu apartamento de Kansas City, e o zelador disse... — Muito bem. O que você quer, mesmo, Rowe? — Falar sobre Jenny e Mike Garcetti. A forma quase irreverente com que ele disse os nomes deixou Meredith nervosa. Logo veio-lhe à mente a imagem da adorável Jenny e seu marido, Mike. No entanto, algo a perturbava. — Sim? — Jenny morreu num acidente enquanto praticava esqui aquático. Um arrepio de incredulidade fez o estômago de Meredith contorcer-se. "Não, não Jenny!" Eram grandes amigas desde os tempos do colégio. Até mesmo seus casamentos haviam sido na mesma época, com apenas alguns dias de diferença. — Na semana passada Jenny me contou que ela e Mike iriam ter a segunda lua-demel, para tentar outro filho! — Mike também morreu, tentando salvá-la, Mer. ― Meredith soluçou, lutando para manter a compostura. — Os dois? Os dois ao mesmo tempo?! Um gosto amargo veio-lhe a boca, e suas mãos passaram a tremer. Cerrou os dedos com tanta força que os nós ficaram esbranquiçados. — Não pode ser verdade! Jenny era instrutora de natação da Cruz Vermelha, e Mike... Por que ele... — Ela foi atingida por outro barco, Meredith. Ainda estava viva, mas Mike não conseguiu alcançá-la a tempo. — Rowe, eu... O choque monstruoso da verdade acabara de atingi-la por inteiro. Sentiu que precisava ouvir a voz dele. Tinha de obter mais informações. — Mike também... — Sinto muito, Mer. Pena que seja eu a lhe contar isso. Acho que a água estava turbulenta, e ele não usava traje de banho. Tentou mergulhar para salvar Jenny, e os dois acabaram afundando juntos. Os olhos de Meredith pareciam queimar. — Jenny mencionou a Flórida, mas eu... — Meredith ergueu os ombros. — Eu sei. — Ela me mandou um cartão-postal maluco e... — Não pôde mais se conter. Teve de apoiar-se na porta, virando-se para olhar para o interior da casa. Ao fundo, via a mesa de jantar onde ela e as irmãs faziam o dever de casa e tagarelavam enquanto seu pai cozinhava. Fora naquele mesmo ambiente que conhecera Rowe, com quem acabara se casando tempos depois. Agora, mesmo aquele cenário familiar lhe parecia inóspito. Toda a atmosfera era mais seca. Uma parte importante de sua existência acabara de morrer. — Jenny me mandava flores. A única pessoa em todo o mundo que fazia isso todos os anos em meu aniversário. E agora está morta. Não posso acreditar. Não consigo nem dizer as coisas que deveria.


— Meredith, eu compreendo. Você está chocada. — Chocada?! Meredith queria rir como uma histérica, mas em vez disso deixou escapar um suspiro frustrado. Seu coração queimava, batendo com força dentro do peito. — Foi por isso que vim lhe contar pessoalmente. — Rowe, por um instante, pareceu muito emocionado também. — Achei que era a melhor coisa a fazer, para nós dois. Meredith encarou-o, com um olhar que misturava confusão e tristeza. Jenny fora sua melhor amiga, e Mike completara o quarteto. Do primeiro dia do colégio até o fim. E agora estava acabado. Os dois haviam partido. Não existiam mais colegas de escola para conversar sobre o passado, lembrar-se de histórias antigas... Ou fazer algum tipo de confissão. Ninguém. Nem mesmo Rowe. Era como se de repente um buraco enorme tivesse surgido no meio de seu peito, e fosse ficar lá por uma eternidade. Meredith nunca mais seria a mesma. — A família marcou o funeral para amanhã à tarde, em Brookings. Meredith meneou a cabeça preocupada e confusa, sem perceber o quanto o homem que tinha diante de si mudara nos últimos anos. — Não posso, Rowe. É rápido demais. Preciso de mais tempo. — Sei disso. Sinto-me da mesma forma. — Rowe estendeu o braço com certa hesitação antes de acariciá-la no queixo. — Foi por isso que vim até aqui, doçura. Quero que vá comigo. Precisamos fazer isso juntos. CAPÍTULO II Espere... — Meredith murmurou, franzindo as sobrancelhas com apreensão. ― E quanto à menina? O que aconteceu com Sophie? ― Ela está com, a mãe de Jenny. ― Não acredito nisso. ― Por quê? ― Porque Jenny e a mãe nunca se deram bem. ― Meredith... ― Além do mais, Rowe, aquela mulher está tratando de um enfisema há anos, mal pode se mover. ― Com dedos trêmulos, Meredith ajeitou os cabelos curtos, em um corte que Rowe não vira antes, tentando recuperar um pouco do autocontrole. ― Não se lembra? Ela sempre tinha um cigarro na mão, e Jenny costumava referir-se à mãe como sendo uma "bomba de fumaça". Viviam brigando por causa disso. Rowe meneou a cabeça, mantendo o olhar fixo nela. ― Então ela fumava, e daí? ― Deu de ombros. ― Mer, o féretro sairá amanhã, à uma da tarde, e a mãe de Jenny quer que fiquemos hospedados em sua casa no final de semana. Acho que devemos aceitar. Ao dizer aquilo seu olhar fixou-se na perna ferida da ex-mulher. ― Desde que você possa. ― Claro que posso. ― Para provar, Meredith desencostou-se do batente e fez um gesto para Rowe acompanhá-la até a cozinha. O cheiro de couro que emanava da jaqueta e das botas logo invadiu o ambiente, fazendo-a se lembrar do último Natal que haviam passado juntos no rancho de seu pai, em Dakota do Sul. ― Se quiser, posso ajudá-la a fazer as malas, Mer. ― Não. ― Meredith já caminhava pelo corredor, dirigindo-se ao quarto. ― Quero


dizer, Abbie pode me ajudar. Afinal, nem trouxe muitas roupas para cá, e vou ter de pedir algo emprestado para minha irmã. Meredith não queria que Rowe a ajudasse. Sabia como ele funcionava. Na certa tocaria em suas roupas íntimas ajudando-a a dobrá-las, e a encararia com uma expressão bem conhecida, provocando-lhe sensações indesejáveis. ― Ei, doçura, você está bem? Respirando fundo, Meredith tentou evitar aqueles sentimentos, concentrando-se em Jenny e na tragédia que voltara a reuni-los. ― Claro que estou bem. Não estou sempre? Sinto-me ótima. ― Não precisa representar comigo. Conheço-a muito bem, não se esqueça. Talvez você nem mesmo devesse ir. ― Rowe passou os braços ao redor de Meredith, encostando o peito musculoso em suas costas. ― Se eu soubesse que tinha acabado de ser operada... O aroma de sua colônia após a barba dominava o ambiente. Meredith se virou devagar, dentro do círculo daquele abraço, respirando fundo. Sentia-se tola por ficar emocionada com a preocupação que Rowe demonstrava. ― Achei que nós dois deveríamos estar lá, juntos, Mer. Mas as famílias entenderão se você... ― Rowe? ― O quê? ― Fique quieto. Eu estou bem. Logo ficarei pronta. ― Meredith afastou-se, dando fim ao contato perturbador. "Deus, o que há de errado comigo?!" Devia estar pensando em Jenny, Mike e em sua filhinha. Sua alma era torturada pela tristeza, pela sensação de perda. Mas mesmo assim algum mecanismo inexplicável mantinha sua atenção fixa em Rowe. ― Abigail voltará em um minuto, e me ajudará a fazer as malas. Na verdade, minha irmã poderia até mesmo me levar. Nós estamos divorciados, e não espero que você... ― Nem pensar. Abigail ficará em casa. Ela seria um estorvo. Não precisamos disso agora. ― Rowe meneou a cabeça, estreitando os olhos azuis. ― Mesmo porque Abbie mal os conhecia, e você sabe como sua irmã é. Meredith sabia. Abigail fora abençoada com uma tripla dose de emoção. Lágrimas corriam de seus olhos durante qualquer comercial de televisão mais comovente. Era uma fã ardorosa de histórias de amor, e qualquer questão de caridade ou comentário triste a afetavam demais. Não, Rowe estava certo. Quando Abigail soubesse da morte de Jenny e Mike, além da criança de quatro anos que havia ficado órfã, decerto perderia o controle. A única coisa boa sobre a companhia da irmã seria o fato de que ela poderia se colocar entre Meredith e Rowe. A ideia era de certa forma atraente, ainda mais porque Meredith não sabia ao certo se poderia aguentar ficar tão próxima de Rowe outra vez. ― Rowe, entendo que Abigail seja um pouco sentimental, mas sob as circunstâncias... Sua cabeça começou a doer de repente, numa sensação física misturada à emocional, ambas fora de controle. Era como se tudo o que estava perdendo viesse à tona no mesmo instante. De maneira súbita e inesperada, nada mais fazia sentido. Jenny e Mike estavam mortos. Jamais tornaria a vê-los. Rowe saíra de cena por causa da dissolução de um contrato. ― Meredith, o que há de errado? ― Nada, eu... ― Você está pálida. Venha, sente-se.


Rowe conduziu-a com todo o cuidado até a sala de estar, levando-a até a poltrona. Ela caminhava devagar diante dele, com passos hesitantes sobre o tapete felpudo. ― Juro que não foi nada, Rowe. Eu estou bem. É que... ― Não precisa explicar nada, Mer. Sinto-me da mesma forma. Os dedos da mão forte desceram do ombro até o cotovelo de Meredith, e o gesto não parecia ter a intenção de querer acalmá-la. Podia chamar aquilo de intuição, mas Meredith sabia que, na verdade, o ex-marido queria tocá-la, abraçá-la, como se soubesse que aquele contato poderia diminuir a impotência e a angústia inconsolável do momento. Que Deus a ajudasse! Por mais que considerasse aquilo errado, Meredith desejava o mesmo. A tragédia de Jenny e Mike de alguma forma enfatizara os enganos em suas próprias existências. Naquele instante, tudo o que Meredith queria era voltar atrás, perguntar em que parte do caminho haviam errado. Por que tinham desperdiçado tudo o que sentiam? As divagações fizeram suas pernas tremerem. Pela primeira vez, em semanas, sentia-se nervosa. De forma involuntária, fechou o robe ainda mais sobre o peito, antes de erguer a cabeça para encarar Rowe mais uma vez. A expressão no rosto másculo era impenetrável. Naquele momento, a porta dos fundos da casa abriu-se, com estrondo. ― Rowe? Você voltou! Abbie quase voou para a sala de estar, deixando os pacotes sobre um dos sofás e abraçando Rowe. Teria até mesmo derrubado Meredith se ele não fosse habilidoso o bastante ao retribuir o abraço. ― Sabia que era seu carro lá fora! Sabia disso! ― Abbie observou-o com atenção. ― Você está ótimo. Verdade! Ele parece ótimo, Mer, não é mesmo? ― Sim. Abigail sorriu com ternura. ― Evidente que você não poderia ficar longe. Tinha certeza disso! Estou tão feliz que poderia até chorar, Rowe. Sabia que quando recebesse minha carta sobre Mer... Horrorizada, Meredith empertigou-se, afastando-se um pouco. O gesto abrupto fez a dor de sua perna piorar. ― Abbie! ― Bem, Rowe precisava saber ― a irmã desculpou-se, evitando encará-la. ― Que carta? ― Não a recebeu, Rowe? Mas eu coloquei os selos para que papai pudesse enviála. ― Abbie franziu as sobrancelhas, mas logo em seguida sua expressão tornou-se indiferente, como se não pensasse mais no assunto. ― Bem, isso não importa. Já faz uma semana. E hoje você está aqui, é o que interessa. Mais uma vez, abraçou-o, fitando-o em seguida com seus olhos idênticos aos de Meredith. ― Já faz tanto tempo, Rowe! Sentimos falta de você. Todos nós. ― Abigail, por favor! Esta não é uma visita social, quero deixar bem claro, irmãzinha. Você vai ter de me ajudar a fazer as malas. Jenny e Mike sofreram um acidente, e Rowe veio para me levar ao funeral, que será amanhã, em Brookings. Meredith sentia-se vazia. A não ser pelo choque da reação inicial, não chorava fazia muitas horas. Agira da mesma forma quando a mãe as abandonara. Por oito anos fora incapaz de chorar. As primeiras lágrimas genuínas que derramara por causa da partida da mãe haviam ocorrido quando Meredith já estava com quinze anos, na noite de seu primeiro encontro. Tivera uma crise ao se preparar, chorando muito, mas longe de toda a família. Saíra


do banheiro horas depois, com o rosto vermelho. Natalie, sempre prática, dissera que não haveria nenhum problema em cancelar o compromisso. Mas Meredith mantivera-se firme, tentando convencer-se de que poderia lidar com a situação se colocasse óculos escuros e usasse maquiagem. Entretanto, devia ter ouvido a irmã, pois a noite fora um desastre. Bem diferente de seu primeiro passeio com Rowe. ― Acho melhor irmos agora. ― Rowe levantou-se da cadeira, devagar. Meredith não tivera energia suficiente para declinar do insistente convite de Abbie para que ficassem para o jantar. Bob Worth remexeu-se, examinando Rowe com um jeito pensativo, enquanto estendia o braço para apanhar um guardanapo. ― Têm certeza de que querem ir agora, crianças? Está ficando escuro. E não haverá nenhum problema se você quiser passar a noite aqui, Rowe. ― Papai ― Meredith interrompeu-o ―, acho melhor irmos já. Não pretendo viajar por toda a manhã e ainda ter de comparecer a um funeral à tarde. Não aguentaria isso. Bob assentiu, levantando-se para estender a mão a Rowe. ― Fiquei muito feliz por vê-lo em casa de novo, rapaz. Pena que tenha sido nestas circunstâncias. ― Muito obrigado, Bob. Digo o mesmo. ― Rowe lançou um olhar furtivo para Meredith. ― Rowe, há um pequeno motel nas cercanias de Brookings, na estrada que leva à cidade. Tente ficar ali, os chalés são todos térreos. O fato é que minha filha tem passado maus bocados toda vez que precisa ir para seu antigo quarto. Há ocasiões em que prefere até mesmo ficar aqui na poltrona. Certifique-se de que ela não vai ter de lidar com nenhuma escada. ― Claro. Vou cuidar bem dela. ― Abigail também se ergueu. ― Preparei duas tortas para vocês levarem para as famílias. Se me derem um minuto para encontrar uma caixa... Todos, lembrando-se da gravidade da situação, evitavam trocar olhares. Rowe parecia desconfortável, e mantinha as mãos nos bolsos da calça. O sr. Worth fitava o bife inacabado e frio no prato. Meredith, automaticamente, colocou o prato de Rowe sobre o seu. O gesto, em si, era insignificante. Mesmo assim, fez com que ela notasse algo: o côncavo e o convexo ajustando-se com perfeição. Aquela era a forma como as coisas deveriam ser. ― Bem, então, acho... ― Meredith ergueu a cabeça, olhando ao redor, para todos os rostos familiares, sentindo-se mais uma vez fazendo parte de uma família. Rowe tocou-a de leve. ― Já coloquei sua mala no carro, Mer. Seu casaco está no closet? ― Sim. Pegue o azul, por favor. Ao encará-lo, um estranho sorriso curvou-lhe os lábios. Naquele instante, experimentava uma inacreditável sensação de déja vu. Exceto pela ausência de Natalie, toda a cena fazia-a recordar a noite em que tinham partido para a lua-de-mel. Também naquela ocasião os familiares os acompanharam até o automóvel, cheios de recomendações e uma saudável ternura. ― Vão com Deus! ― Abbie sorriu, triste. ― E dirija com cuidado, Rowe ― o sr. Worth recomendou. ― O clima não anda muito bom, você sabe. Rowe assentiu, segurando o volante com força. ― Vou manter o veículo sob controle, não se preocupe. ― Sim, veja o que vai fazer. Não quero que nada aconteça para nenhum dos dois. Abigail secou os olhos úmidos com as costas da mão.


― Tomem, eu coloquei as tortas numa bolsa térmica. Você está levando a receita, Mer? ― Sim, Abbie, em minha bolsa. ― O farmacêutico disse que ela tem de tomar as pílulas depois de comer, Rowe. ― Pode deixar, estou sabendo. ― Soltou o freio, ligando o motor em seguida. Bob Worth e Abbie estavam um em cada lado do carro. ― Não se preocupe, Abbie, ficará tudo bem. Vou me certificar de que Mer se cuide direitinho. Inclinando-se e colocando a cabeça perto do vidro semi-aberto, Abbie beijou a irmã, sussurrando-lhe ao ouvido: ― Fique bem, Mer. Ele vai mesmo tomar conta de você. É verdade, sei que vai. E é tão romântico vê-los juntos outra vez... O coração de Meredith disparou. Não podia fazer aquilo. Não queria ficar sozinha com Rowe. Não ali, confinada no interior de um automóvel, acompanhada por um milhão de memórias a atormentá-la. Seria péssimo para eles. Não poderiam chorar um no ombro do outro, nem buscar o conforto mútuo. Teriam de isolar seus sofrimentos, escondendo-os atrás de rostos impenetráveis. Os olhos de Meredith brilhavam, e teve de engolir em seco, para conter um suspiro desesperado. "Não diga mais nada, Abbie!", ela implorou, em silêncio. ― Bem, até logo, então. ― Até logo, Abbie. Foram para a estrada principal, deixando toda a familiaridade para trás. Meredith tentou ignorar a presença de Rowe, virando-se para trás. O movimento brusco provocou uma pontada incrível na perna. Poucos segundos depois, o cenário de sua infância, seu pai e sua irmã, desintegraram-se como duas nuvens de fumaça contra o fundo branco da paisagem de Dakota do Sul. Não havia alternativa a não ser encarar o tempo que teria de passar ao lado de Rowe, quisesse aquilo ou não. A quietude estava deixando Rowe louco. Meredith mal murmurara doze palavras durante os últimos cem quilômetros. Ele pagaria qualquer preço para saber em que ela pensava. Será que se sentia arrependida por não ter passado mais tempo com Jenny e Mike? Na certa. Meredith era do tipo que sempre se arrependia de não ter feito algo de maneira diferente. Agira da mesma forma em relação à mãe, e uma vez lhe confessara que crescera achando que, se fosse mais perfeita, mais bem-comportada, talvez a mãe tivesse ficado, ou então pudesse voltar. Fora essa esperança que a levara a ser a primeira da classe, líder de torcida, uma excelente atleta e sempre a estudante mais popular. Mas a mãe nunca retornara. Laureen se estabelecera em Minneapolis. A inutilidade dos esforços que fizera para reconquistá-la tinham feito de Meredith uma pessoa dura. Alguém que encarava tudo mais ou menos como um jogo. "E daí?", ela dissera, quando a mãe mandara a desculpa de que não poderia ir ao casamento. "Sou uma pessoa bem-suce-dida, de qualquer forma." Apenas Rowe sabia o quanto Meredith fora ferida por aquela ausência. Para amenizar, ela passara a cuidar de todos os detalhes do matrimônio com redobrada atenção. Cinco botões de rosa para o buquê de cada dama, nada mais, toques pessoais em tudo, incluindo a decoração da igreja. Os arranjos musicais, escolhidos com todo o cuidado.


Meredith ficara tão obcecada em provar para Laureen que não precisava dela que não queria deixar nada escapar-lhe. Tinha de ser perfeito. Seria o evento, a celebração da década. E Laureen não estaria lá para ver. Arrependimentos... Estranho. Essas eram as coisas que motivavam Meredith. Será que arrependia-se sobre a união fracassada deles? ― Cansada? ― Rowe indagou, de súbito, olhando de relance para uma parada de caminhões adiante. ― Podemos tomar um pouco de café, se quiser. ― Não, estou ótima. Com certa relutância, ele deixou seu pé pisar mais fundo no acelerador. Era como se a velocidade pudesse amenizar o estado de seus nervos em frangalhos. ― Não quer me dizer em que está pensando, Mer? Esteve muito calada, e isso está me deixando nervoso. Meredith continuou a fitar pela janela, recusando-se a encará-lo. ― Estava apenas pensando em Brookings. ― O que quer dizer? ― E um lugar horrível para se fazer um enterro, sobretudo em janeiro. Vários segundos se passaram até Rowe tornar a falar, num tom casual: ― Nunca pensei que pudesse haver um bom lugar para um funeral, Mer. Ainda mais nesta época do ano. Ela nada respondeu por um momento, deixando o olhar passear pelos campos cobertos de neve ao lado da estrada. ― Papai nos levou a um em Brookings uma vez, quando éramos pequenas. Nevava naquele dia. Nós três estávamos usando sa-patinhos de couro brancos, pode acreditar nisso? ― Um sorriso desanimado curvou-lhe os lábios. ― Os sapatos ficaram arruinados. Nunca consegui deixar os meus brancos de novo. Abbie chegou a lavar os dela, mas isso também não adiantou. Rowe olhou-a de relance. ― E só por isso acha que ninguém pode ser enterrado em Brookings. Mer... ― Não Jenny, nem Mike. ― Vamos lá, Mer. Desta vez ninguém teve escolha. ― Não é justo um tempo desses no enterro de Jenny e Mike. Eles eram tão jovens e felizes! E amavam-se tanto... Droga! Parece que quanto mais pensamos que nossa vida está organizada, estabilizada, algo sempre acontece para nos arrastar para o meio da miséria. Sempre! ― É mesmo, doçura. ― Rowe diminuiu a marcha. Meredith cruzou os braços, voltando-se para os campos alvos. ― Veja meu exemplo, Rowe. Passei momentos miseráveis depois do divórcio, e sinto-me pior agora. Não queria estar aqui com você, e não vou querer vê-lo nunca mais depois disto. ― Meredith, vamos lá! Quer você queira, quer não, fizemos uma história juntos. ― Chegou a hora de cortar os laços, Rowe. Depois disso, tudo estará acabado. Para nós dois. Ele pisou um pouco mais fundo no freio. Instantes depois, o automóvel estava parado. Então, encarou-a e tocou-lhe a gola do casaco. ― E se eu não sentir a mesma coisa, Mer? Por acaso vou ter de lhe implorar? ― Rowe, nós precisamos ir em frente. E, neste exato instante, sinto-me como se estivesse retrocedendo. Fico pensando em tudo o que aconteceu e... Rowe acariciou-a nos ombros, estendendo o outro braço em seguida para enlaçá-la. Pela primeira vez em muitos meses Rowe admitia a si mesmo o quanto sentira falta de tocá-la, de ter sua companhia. Não importava o que fizesse para se prevenir, Meredith


sempre dominava-lhe os pensamentos. ― Rowe... ― O quê? ― Inclinou-se, continuando a aproximar-se e inalando a exótica fragância que emanava dela, ao mesmo tempo que fazia um afago nos cabelos negros. Meredith parecia ainda mais linda. Rowe nunca a vira com os cabelos curtos antes. ― Rowe, o que acha que está... ― Beijando você, doçura. CAPÍTULO III O longo beijo foi temperado com um desejo indisfarçável. Meredith e Rowe queriam um ao outro, não havia dúvida nenhuma a respeito daquilo. ― Rowe, por favor... ― ela murmurou contra os lábios dele, respirando com dificuldade e parecendo impaciente. Rowe relutou a interromper o contato. ― Hum... Sim? ― Pare com isso! Rowe ajeitou-se no assento, tentando não sorrir. O belo rosto feminino que tinha diante de si estava ruborizado. Podia notar a respiração arfante, ainda que Meredith tentasse negar o óbvio. ― Não devia ter feito isso ― acusou-o num tom pouco convincente. ― O momento me pareceu perfeito. ― Está errado. ― Ora, vamos lá, Mer! O divórcio nunca acaba com a atração. Todo o mundo sabe que existem casais que depois de separados... ― Esqueça isso, Rowe. Nem mesmo sugira tal coisa. Não temos mais nada em comum. Não somos companheiros de cama, não somos... ― Eu sei! Não precisa me explicar tudo em detalhes. ― Deixou escapar um suspiro. Todo seu corpo tremia. ― Foi um erro de minha parte. ― Pode apostar que sim. ― Meredith tentou soar distante e fria. Mesmo assim, Rowe notou, olhando-a de relance, que a realidade era diferente. Parecia estar frustrada. As mãos delicadas seguravam a gola do casaco com força, como se isso pudesse protegê-la de todo o mundo. Mas parecia haver uma névoa turvando-lhe o olhar. Desviando-se, ela tentou focalizar algum lugar no horizonte. Aquela perda de compostura, o óbvio conflito interno, agradaram-no sobremaneira. Aleluia! Naquele instante a vida não lhe parecia tão árida. Meredith tinha ficado tão perturbada com o beijo quanto Rowe. Ou talvez se sentisse tão miserável sem Rowe quanto se sentira com ele. Que estranho consolo... Os pensamentos mais diversos passaram-lhe pela mente. Mas, agindo como se a carícia trocada tivesse sido uma pequena inconsequência, Rowe deu de ombros e ligou o motor, voltando à estrada. O restante do caminho até Brookings foi um tormento, como se o silêncio opressivo o lembrasse a todo instante de tudo aquilo que tinham perdido ao se separarem. Rowe estava parado ao balcão do motel arruinado nas cercanias de Brookings, incapaz de acreditar que aquilo era o melhor que poderia arranjar. Enquanto a recepcionista passava o cartão de crédito na máquina, ele olhou para fora, pela janela suja, e examinou a confusão em que estava se metendo.


O luminoso esverdeado piscava, intermitente, lançando seu brilho sobre a neve suja. O estacionamento estava cheio, mas apenas porque alguns operários da estrada tinham parado suas máquinas de limpar gelo no local. Havia vários sons ao fundo: conversas de homens em voz alta, portas sendo batidas do lado oposto ao pátio. Além disso, as luzes dançantes da fachada de uma loja de bebidas emprestavam a todo o cenário uma atmosfera deselegante. Carregar Meredith e seu mau humor, além das duas malas, pelas escadas externas seria um desafio. Para ela, a única consolação seria saber que ficariam em quartos separados, um em cada extremidade do corredor do segundo andar. No entanto, aquela distância incomodava Rowe. Queria tê-la mais perto, mesmo que apenas para ouvi-la através das paredes finas, para ter certeza de que estava segura. Aquilo não ia funcionar. Não mesmo. Cinco anos antes, uma situação daquelas jamais aconteceria. Teriam agido como amigos, saberiam resolver a situação. 25 Rowe era um homem razoável, Meredith, uma mulher racional. Desde o começo os dois tinham cultivado expectativas plausíveis a respeito do casamento e da conduta de cada um. Porém, de alguma forma, o divórcio mudara tudo. Logo depois do início do processo de separação, os desentendimentos haviam se tornado cada vez mais constantes. E no fim, os dois brigavam pelos motivos mais fúteis. Rowe lembrou-se, ressentido, de que, na época em que o juiz lhe entregara o termo de separação, sentira-se grato por poder livrar-se dela. Muito mesmo. Naqueles dias desejava retomar seu caminho e levar uma vida feliz, readquirindo toda a autoconfiança que tivera quando adolescente. A experiência só podia tê-lo tornado melhor, ensinandolhe muitas coisas. Mas ninguém jamais lhe contou que, junto com os papéis de distrato, viria uma grande carga de arrependimentos, uma inegável parcela de infelicidade. E, nos meses que se seguiram, não importava o que fizesse ou em que tocasse, tudo fazia recordar Meredith. Naquele momento, a recepcionista passou os dedos por entre os cabelos longos. Então, lembrou a primeira vez que tentara sair com outra mulher, depois de se separar. Aquilo acontecera em St. Louis, e Rowe imaginava-se livre e pronto para a diversão. Por toda uma noite, pagara drinques para a garota e fingira divertir-se. Mas quando, enfim, chegaram ao hotel, a moça sentara-se na beira da cama, encarando-o, provocando-lhe uma forte reação. Tudo tão frio, bem ali diante de seus olhos! Nada de formalidades, nada. Num átimo, a realidade descortinara-se diante de seus olhos. "Não é certo", Rowe pensara, imaginando Meredith e seu bom gosto clássico. Logo sua acompanhante naquela noite pareceu-lhe muito vulgar, com uma maquiagem muito pesada e o vestido curto demais. Tentando arrumar uma desculpa, Rowe olhara para o balde de gelo e, sentindo-se tolo como nunca, o apanhara dizendo que precisava sair para conseguir alguns cubos para um drinque. Na verdade, precisava respirar ar fresco, sair dali para pensar direito. O balde tinha ficado no canto do elevador, e Rowe jamais retornara àquele quarto. Algumas vezes, olhando para trás, Rowe imaginava quanto tempo a garota teria esperado. Três anos tinham se passado, 26 e nada mais acontecera depois daquele breve incidente em St. Louis. Talvez porque


nenhuma mulher pudesse se equiparar n Meredith... Deixando escapar um suspiro, Rowe meneou a cabeça. Decidiu afastar tais recordações e concentrar-se no presente. "Eu devia ter pedido para que a mãe de Jenny fizesse re-sevas num lugar decente." Depois de assinar um recibo, Rowe saiu para o ar frio da noite e entrou no carro. Ao estender a chave que tinha na palma da mão, lançou um olhar de relance para Meredith. ― Muito obrigada. Amanhã lhe faço um cheque. ― Sinto muito, Mer. Este... digamos... estabelecimento não parece ser muito confortável. ― Não importa, posso me arranjar. O tom frio daquelas palavras o incomodou, fazendo-o apertar o volante com mais força. De qualquer forma, ainda forçou-se a sorrir. ― Tenho certeza de que pode, mas... ― Rowe fez uma pausa, sentindo uma estranha hesitação. Por que tivera que arruinar as coisas com aquele beijo? ― Escute, Mer, vou dar uma olhada nos arredores. Talvez possa encontrar algo melhor para amanhã. ― Desde que não tenha de dividir a cama com baratas, sou mulher o bastante para suportar esta situação. Rowe meneou a cabeça, bufando, exasperado, imaginando que Meredith era dura como o gelo, e tão frágil quanto. Naquele exato momento, talvez o considerasse como um incómodo inseto. ― Veja bem, Mer, eu estava pensando... ― Olhou para o espelho retrovisor com ar distante. ― Sei que esta situação será difícil para nós dois, e pior para você, por causa da cirurgia e tudo o mais. Mas talvez fosse melhor que fizéssemos uma trégua, apenas pelos próximos dias, até que estejamos fora de toda essa confusão. Rowe esperou, procurando por um sinal qualquer na expressão dela. Não houve nem mesmo um piscar de olhos. Será que Meredith não havia sido tão ferida quanto ele? Será que não sentia nada? ― Esperto. ― O quê? ― Eu disse "esperto". Agora você quer uma trégua. Depois que teve a audácia de parar o automóvel e... e... O corpo dele ficou tenso. ― ...me beijar! ― Bem, achei que talvez você pudesse gostar! Estavam prestes a discutir. Rowe podia ver a batalha aproximando-se, como as nuvens escuras de uma tempestade. ― E mesmo?! Apenas um beijo inocente, não é? Tenha paciência! Mas não era assim que pensava há três anos e meio. Lembra-se de quando engoli meu orgulho e disse: "Ei, talvez tenhamos cometido um engano e devêssemos tentar de novo". As feições dele endureceram. ― Eu estava maluco, o que esperava? Você desapareceu e alugou aquele apartamento em Kansas City sem nem mesmo me dizer. ― Só porque não podia encontrá-lo por tempo bastante para trocar duas palavras! Você sempre estava tão ocupado viajando de um lado para outro do país que nunca conseguíamos nos falar. A única coisa que havia entre nós era uma secretária eletrôniCa, e na maior parte do tempo nem mesmo lembrava-se de checar os recados, Rowe! Como acha que eu devia agir? ― Certo, certo. Então fui eu que estraguei tudo. Mas nós dois sabíamos que a separação não seria nada fácil.


― Bem, posso dizer que não tornou minha vida melhor. ― Digo o mesmo. Parando o veículo, Rowe saiu, contornando-o para abrir a porta do passageiro. E então notou que Meredith sentia dor. Vê-la daquela maneira suavizou sua fúria. Rowe parou e respirou fundo. ― O que acha de esquecermos tudo isso, Mer? ― Tudo bem. E que você me irritou. ― Deixe-me ajudá-la. ― Rowe abaixou-se para tomá-la nos braços. ― Nada de movimentos súbitos. A sombra de um sorriso curvou os lábios dela. ― Eu já disse a mesma coisa para você. Mas é claro que nunca me ouviu. Ao subirem as escadas a tensão os envolveu. Aquela era uma piada particular. Na verdade, Meredith sempre dizia as mesmas palavras antes de fazerem amor. "Nada de movimentos súbitos, Rowe." Ele ainda podia escutá-la. "Fique comigo, bem juntinho. Não podemos permanecer assim até de manhã?" "Pena que agora isso seja impossível, doçura, mas eu queria você tão perto..." 28 Ao chegarem diante da porta, Rowe fez uma pausa, tendo ultima dificuldade para abrir a fechadura. Porém, logo depois já estavam entrando no aposento. Só então o silêncio foi quebrado. ― Rowe? ― Sim? Meredith não disse nada por um instante, mas seus dedos enlaçavam-se, nervosos, nas tiras da bolsa. - Sobre aquela trégua... Acho que podemos fazer isso. Rowe sentiu um estranho alívio. ― Tem certeza, Mer? ― Sim. Acho que exagerei em minha reação. Nunca fui muito boa quando se trata de doenças. Odeio ficar parada. É uma perda de tempo tão grande! ― Está tudo bem. ― Não. Eu não devia ter começado aquela discussão tola. Sinto muito, de verdade. Acho que tudo isso, a cirurgia, Jenny o Mike, ver você outra vez... Talvez esteja entorpecida até mesmo por causa do remédio que o médico me deu. ― Eu também tenho desculpas a pedir. ― Ele sorriu. Com certa hesitação, Meredith ergueu a mão, estendendo-a na direção dele. ― Certo. Mas, Rowe, ainda preciso lhe pedir um favor. ― Sim? É só dizer. ― Pode me ajudar a me deitar? Veja bem, não estou sugerindo nada, é apenas para me colocar na cama. Minha perna está doendo demais. Rowe assentiu, mas aquela foi a coisa mais difícil que fez desde que nascera. Outra vez chegar perto de um leito junto com Meredith, sem poder compartilhá-lo, era uma loucura rematada. O funeral tinha terminado. Um pequeno e grave rumor, causado por comentários discretos e pessoas chorando, dominava o ambiente. Os primeiros lugares vagaram, e a família começou a sair da igreja, em fila. Naquele momento, o olhar de Rowe cruzou com o de Sophie. O jeito amedrontado e desolado da menina tocou-o no fundo do coração. Pela primeira vez em muito tempo, outra pessoa além de Meredith o fez sentir-se humano.


29 ― Sr. e sra. Harrison? ― um homem sério, de cabelos grisalhos, perguntou, tocando no ombro de Rowe. ― Na verdade, é Mereditih Worth agora. Estamos divorciados. ― Oh... ― Os límpidos olhos azuis do cavalheiro foram de um rosto a outro. ― Entendo. Isso é muito... incomum. Posso falar com vocês, por favor? Sou Jules Rostenkowski, o advogado de Mike e Jenny. ― Claro. ― Prazer em conhecê-lo ― Meredith cumprimentou-o. ― Igualmente. Estive falando com o pastor, e ele disse que podemos usar o escritório na sacristia, se não se incomodarem. ― O sr. Rostenkowski gesticulou, indicando um corredor ao lado. Meredith e Rowe fitaram-se, imaginando o que poderia estar acontecendo. Mas o senso de dever os fez seguir o homem sem questionar. Minutos depois, todos estavam instalados com conforto. Rostenkowski abriu uma valise e retirou de lá alguns papéis. ― Bem, se a mãe de Jenny está com algum problema em relação ao testamento, ficarei feliz em... ― Não, sr. Harrison. Tudo está em ordem. Mike era muito meticuloso em relação a seus negócios. Mas é claro que numa situação como essa outros problemas vêm à tona. Rostenkowski arqueou as sobrancelhas, encarando os dois. ― Não sei se está ciente de que o pai de Mike foi internado há pouco num asilo. Ele sofre do mal de Alzheimer, que progrediu até um estágio que exige cuidados constantes. ― Não, eu não sabia. ― Além disso, as poucas tias ainda vivas de Mike estão muito idosas, mal podem cuidar de si mesmas, e seu único irmão está num sanatório desde a infância. ― O advogado ergueu os ombros. ― Um dano cerebral de nascença, parece. ― Sim, estamos a par. ― O que quer nos dizer, sr. Rostenkowski? ― Meredith inclinou-se para a frente. ― Jenny era filha única. O pai morreu quando ela era muito jovem, e a mãe não está em bom estado de saúde. Os diagnósticos não são nada bons, e, para dizer a verdade, essa tragédia não ajudou nem um pouco. ― Deixou escapar um suspiro, olhando de relance para os papéis que tinha diante de si. ― Sr. Harrison e srta. Worth, Jenny e Mike requisitaram que 30 vocês fossem guardiães legais de Sophie, caso algo lhes acontecesse. Deixaram indicado que deveriam manter a custódia física c administrar seus bens. Em inúmeras ocasiões, me asseguraram que eram as pessoas certas para enfrentar esse desafio. Um silêncio mortal seguiu-se ao anúncio. As feições eram ten-sas, os corpos estavam rígidos. Rowe tamborilou os dedos sobre os joelhos. Meredith recostou-se contra o espaldar da cadeira. ― Estavam cientes do desejo de seus amigos? ― Eu... ― Nós... ― Essas determinações foram feitas anos atrás. ― Eles mencionaram, sim. ― Mas?


― Nós nem mesmo conhecemos a criança. ― Afinal de contas, estamos divorciados e... ― Senhores, sinto muito, mas deixem-me esclarecer uma coisa. ― É claro. ― A situação é mais ou menos a seguinte: a não ser vocês dois, não existe mais nenhum tutor designado para a filha de Mike e Jenny. ― Mas pensei que eles mudariam o testamento ― a voz de Meredith ficara trêmula. ― Quer dizer, isso foi uma coisa tão súbita... Nosso divórcio aconteceu há três anos. ― Mas, de qualquer forma, precisamos encarar a situação real, senhorita. Se as coisas não funcionarem, a avó já me confidenciou que concorda que Sophie seja confiada ao Estado. Não haverá outra escolha. Agora quero que saibam que, em minha opinião, a menina ainda é adotável. Mas suas chances estão diminuindo rápido. As pessoas preferem adotar recém-nascidos e bebês, e este não é o caso. Odiaria ver Sophie relegada a uma série de lares adotivos. Hoje em dia, com toda a burocracia e... ― Lares adotivos?! ― O senhor não pode estar falando sério ― Rowe murmurou. ― Temo que sim. O fato é que precisamos tomar uma decisão, e bem rápido. Ficarei feliz em ajudá-los no que puder. Ou, se preferirem, posso deixá-los a sós para que discutam a situação. Por não ouvir nenhuma resposta, o advogado voltou a falar: ― Acho que vocês precisam de algum tempo. Ambos assentiram, e Jules levantou-se, colocando os documentos na pasta fechando-a e saindo, encostando a porta atrás de si. Meredith e Rowe ficaram por um longo tempo olhando para o vazio. A temperatura no ambiente parecia ter subido vários graus. Os minutos passavam muito devagar. Por fim, Meredith sussurrou: ― Não podemos fazer isso, Rowe. ― Mas também não podemos deixar a criança sob a guarda do Estado e sair daqui como se nada tivesse acontecido. Ela encolheu os ombros. ― Não diga isso. Sabe que não estou pensando dessa forma, mas... ― Então me diga que alternativa temos. ― Rowe, nunca quis ser mãe, você sabe disso. ― Como eu nunca quis ser pai. ― Em seguida, começou a bater no chão com a sola do sapato. O ruído a estava deixando louca. Meredith teve de voltar a falar, mesmo que fosse apenas para interrompê-lo: ― Sabe muito bem que nós dois sempre concordamos que iríamos nos concentrar em nossas carreiras. Ainda não sei como conseguiu me convencer de sermos tutores da filha de Mike e Jenny. ― Porque eram nossos amigos e fariam a mesma coisa por nós. ― A situação reversa nunca aconteceria. ― E o que queria que eu dissesse, então? "Não, não queremos sua filha"? Aquilo os fez se encarar. Na mente de ambos surgiu a visão da pobre e indefesa Sophie, sentada no banco de carvalho com seus lindos cabelos vermelhos. Por vários minutos, nenhum deles disse nada. A quietude estava começando a ficar insuportável. A cada instante, porém, trocavam olhares cheios de dúvidas. ― Rowe? ― Sim?


― Sinto-me mal, muito culpada. Sei que eu deveria ter um instinto maternal, mas não tenho. Quero dizer, há meu trabalho, muitos compromissos. E também preciso viajar, às vezes. ― Talvez possamos alternar nossos horários. ― Mas você vive em Chicago, e eu, em Kansas City. ― Certo. ― Então, não seria possível. Não com nossos afazeres. ― Eu sei. ― Rowe passou os dedos entre as mechas. ― Evidente que quero fazer o melhor que puder pela filha de Mike e Jenny, e sei que você também se sente assim. Sophie é adorável, mas... ― ...significa mais do que mudar alguns compromissos. E mais do que viver em cidades diferentes. Ser tutores de uma garota de quatro anos mudaria tudo. ― É isso. E, Rowe, nem mesmo sei se conseguiria cuidar de uma menina. Cresci junto com minhas irmãs, não me lembro bem do passado, e não havia ninguém para... Os olhos de Rowe fixaram-se nos dela. ― Entretanto, você foi uma garotinha uma vez, não é? ― Não é a mesma coisa. ― É, sim. ― Estou com medo, Rowe ― Meredith acabou admitindo, num tom suave. ― Apavorada. E se eu não conseguir, e se não pudermos... ― Claro que podemos. De qualquer forma, acho que também estou exagerando um pouco. Estou espantado até dizer chega, até mais do que você. ― Será que vão nos deixar cuidar das coisas como no divórcio? Poderemos compartilhar a custódia ou o quê? ― Parece que não terão muita escolha. Precisarão se contentar com o que pudermos fazer. ― Mas isso não é certo, Rowe. Devíamos poder oferecer mais do que isso a uma criança. ― Eu sei, nós devíamos. ― Por exemplo: precisaremos concordar mais em vários aspectos. ― Teríamos de nos entender. ― Pelo bem de Sophie. ― É claro. ― Discussões constantes, mesmo entre pais adotivos, não seriam positivas para seu bem-estar. ― Eu sei, você está certa. ― Talvez, se pudéssemos escrever tudo, fazendo planos detalhados, nosso contato seria mínimo. ― Meredith? ― Rowe descruzou as pernas e levantou-se, indo na direção dela. Suas mãos ergueram-se num gesto exasperado. ― Tudo bem, podemos fazer isso. Tem certeza? Os olhos dela estreitaram-se, e lágrimas surgiram logo depois. Seu queixo tremia, e Meredith suspirou. ― Não, Rowe. Não estou certa de nada. Abrace-me, por favor, só desta vez, e diga que podemos fazer isso. Droga! Será que pode me convencer? Rowe obedeceu, tomando-a nos braços. ― Podemos, sim, Mer, mas precisamos combinar algumas coisas primeiro. Meredith ergueu a cabeça, e seu olhar se fixou-se no dele. ― Por exemplo? Num gesto muito gentil, Rowe puxou-a para mais perto, segurando-a pela cintura.


― Para começar, temos de nos conhecer de novo. Talvez fosse uma boa ideia se morássemos juntos por um período, apenas para nos reacostumarmos um com o outro. CAPÍTULO IV Morarmos sob o mesmo teto? Não pode estar falando sério... ― Meredith o fitou, espantada. ― Estou, sim. ― Não seja ridículo, Rowe, estamos divorciados! ― Mas agora existe uma criança entre nós, Mer. A advertência de Rowe fez um arrepio percorrer toda a espinha de Meredith. O destino se colocara entre os dois. Aquela maternidade instantânea poderia modificar tudo, inclusive sua vida profissional. Sem falar em seu relacionamento com Rowe. ― Mude-se para minha casa até que as coisas estejam acertadas, Mer. Você não está podendo trabalhar, mesmo... Isso nos daria mais tempo até podermos decidir o que fazer com Sophie. ― Depois desta cirurgia, mal posso cuidar de mim mesma. Além disso, estou morando com papai e Abbie. ― E daí? ― Daí que seria melhor se todos fôssemos para lá. ― Ora, não podemos levar a garota para a residência de seu pai. ― Por que não?! Quando Meredith agia daquela forma ficava muito parecida com Bob, Rowe concluiu. ― Porque não funcionaria, Mer. ― Então devo supor que você tem uma ideia melhor. ― Sim. Acabei de comprar um imóvel com quatro quartos, no subúrbio. O espaço é mais do que suficiente. Meredith não estava preparada para aquela nova informação. Conhecendo Rowe como o conhecia, aquele excesso de estabilidade não podia deixar de espantá-la. Ergueu a cabeça, tentando adivinhar se aquilo seria apenas um blefe ou a pura verdade. ― Quatro dormitórios? ― Ele deu de ombros. ― Três dos quais estão vazios. Um pensamento fugidio passou pela mente de Meredith. No fundo, não sabia se tinha vontade de confrontar-se com a vida que Rowe levava depois do divórcio. E se encontrasse preservativos no banheiro, ou uma agenda repleta de telefones de mulheres estranhas? Era assim que as coisas funcionavam, não? Bastava o homem se separar para voltar a ter uma vida sexual ativa. Concordava que os dois precisavam se entender, mas viver sob o mesmo teto? Aquilo era impossível. ― Pense nisso, Mer ― Rowe pediu, interrompendo as divagações dela. ― Se voltássemos a viver com Bob, Abbie na certa se apegaria demais a Sophie, o que seria confuso. Haveria a casa deles, a sua e a minha. Mas um só lugar, com nós dois juntos, pelo menos no começo... Estavam muito próximos naquele momento. Seus corações pareciam bater em uníssono. A respiração de Rowe era profunda. ― Mer? ― Sim?


Droga! Será que não conseguia falar num tom de voz mais decidido? Por que ele sempre conseguia fazê-la sentir-se uma tola? ― Sei que a proposta pode lhe parecer uma insensatez, uma tolice até. ― Fez uma pausa, arqueando a sobrancelha. ― O fato é que preciso de você. Tudo bem, admito isso. Sei que se estiver lá poderá me ajudar um pouco, e isso fará com que a transição seja mais simples para nós dois. Saberá como instalar Sophie em seus aposentos, Mer, me ensinará a contar algumas histórias infantis e convencer crianças a comer vegetais. A voz grave e máscula estava ficando rouca: ― Quem sabe até me ajudará a encontrar o canal a cabo que só passa desenhos animados na televisão? Rowe estava perfeito no papel de pobre desamparado. Mas tentava manipulá-la, e ambos sabiam aquilo. Mesmo assim, o efeito final era estonteante. Meredith fora seduzida. Suas convicções pareciam cair por terra. Justificativas, desculpas e todo tipo de raciocínio se embaralhavam, e seu lado lógico racionalizou que o ex-marido havia marcado um ponto. Numa situação daquelas, os dois precisariam um do outro, sem dúvida. Se estivessem lado a lado, mesmo que apenas por um tempo, poderiam tomar decisões com muito mais rapidez. E isso beneficiaria muito Sophie. A atmosfera doméstica ajudaria a menina a acostumar-se durante os primeiros meses terríveis após aquela perda irreparável. Decerto ela iria precisar de dois adultos que lhe oferecessem conforto e encorajamento. Iriam funcionar muito melhor estando sempre por perto. ― Preciso lhe dizer que não quero que faça nada que não desejar, Mer. Meredith encarou-o, desconfiada. ― Claro que você quer, Rowe, não negue isso. ― Os ombros largos encolheramse. ― Certo, admito. Mas, como eu disse, acho que dessa vez precisaremos colocar a criança em primeiro lugar. Será mais prudente nos concentrarmos nas necessidades dela. Aquilo estava certo, claro, mas Meredith tinha de admitir que gostava de vê-lo tentar convencê-la, pois isso a fazia sentir-se desejada. Além do mais, não machucaria ninguém deixá-lo achar que vencera o primeiro round. ― Será tudo bastante inocente, Mer. Apenas pelo bem de Sophie. Estaremos fazendo isso pelos interesses dela. Meredith ergueu os olhos, encarando-o com uma expressão circunspecta. Sabia muito bem como responder àquela promessa. ― Tudo bem, Rowe, mas apenas por algum tempo. Acho que tem razão. ― Suspirou, exasperada. ― Farei isso. Se você pode encontrar espaço em sua vida para Sophie, creio que poderei fazer algumas concessões também. Mas só vou ficar até que a menina se adapte. Ficarei até Sophie se sentir segura o suficiente para viver entre nós dois. ― E seu trabalho? ― O que isso tem a ver com o assunto? ― É em Kansas City. Vários segundos se passaram, e durante o período o fogo da indignação começou a aquecer-lhe o sangue. ― Não exagere, Rowe. ― A Whitcomb tem uma filial em Chicago, você sabe. ― Sei, sim. ― Foi por isso que mencionei o assunto. ― Entendo...


― Acredito que, como em qualquer outra empresa, a Whitcomb esteja sempre procurando pessoas competentes que desejem se transferir. Virando-se abruptamente, Meredith livrou-se daquela proximidade incômoda, e então foi até a cadeira apanhar a bolsa. Apesar da dor na perna, movimentou-se com o máximo de dignidade possível. ― Esta não é a hora, nem este o lugar para discutirmos isso, Rowe Harrison. Já conversamos o suficiente para o dia do funeral de Jenny e Mike. Por isso, não sugira nada, e não me lembre de nada. Diga-me apenas... ― Interrompeu-se, lançando ao exmarido um olhar perscrutador ― O que mais você pode querer? O sorriso dele foi um misto de espanto e expectativa. ― Não acho que queira saber, Mer... O primeiro encontro oficial com Sophie aconteceu logo depois do enterro, nos fundos da igreja. Rowe comunicou à avó da garota que aceitariam o encargo que lhes fora conferido. Ouvir dizê-lo aquilo soou mais como um acordo de negócios para Meredith, como se fosse um contrato, onde só faltavam alguns detalhes para que os interessados pudessem assiná-lo. Ela precisou conter um suspiro, arrependendo-se de imediato de não intervir para amenizar aquelas palavras, dizendo que considerava uma honra receber Sophie, e que fariam o máximo para que a pequena se sentisse bem. Mas a anciã lona Bowman limitara-se a fazer um gesto de assentimento, ao mesmo tempo que enxugava os olhos com um lenço. Sua tristeza, misturada ao visível alívio, serviram para que Meredith se sentisse envergonhada pela primeira reação que tivera sobre a guarda da menina. ― Então, vamos até a antiga casa de minha filha. Vocês poderão pegar as coisas da menina. Sophie tem um armário cheio de roupas. Há mais do que precisa, mas Jenny sempre quis que tivesse tudo do melhor. Eu vivia repetindo isso, mas sabe como é... lona piscou, e novas lágrimas surgiram. ― Posso ajudá-la a empacotar tudo, se quiser, Mer. ― Podemos providenciar tudo, sra. Bowman, se for muito difícil para a senhora. ― Não, por favor. Minha única frustração é saber que não verei a menina crescendo. E como se eu perdesse a última parte de Jenny e Mike que tinha perto de mim. ― Faremos o melhor, sra. Bowman. Por Jenny e Mike. ― Vai me prometer que sempre me deixará saber como Sophie está, não é? Essa neta é o mundo para mim. Se eu não estivesse tão doente... ― A senhora sempre será a avó de Sophie ― Meredith assegurou, com gentileza. ― Ligaremos toda semana, e mandaremos fotos, vídeos... "Meu Deus, como pude prometer isso?" Nem mesmo tinha uma câmera de vídeo. Sempre discutira com as irmãs, o pai, e até com Rowe sobre a conta de telefone, e, com certeza, era a pior pessoa no mundo para escrever cartas. ― Sophie jamais se afastou de casa antes. Jenny nunca a confiou a outra pessoa também. Mike teve muito trabalho para fazê-la aceitar que contratassem uma babá para esse período de férias. Claro que Jenny estava feliz com a viagem, mas, se eu não vivesse tão perto e me oferecesse para ficar de olho na menina... Num gesto nervoso, lona segurou com força os braços da cadeira de rodas. Meredith assentiu com simpatia, porém, no fundo, perguntava-se se não seria mais sábio consultar um psicólogo infantil a respeito de Sophie. A mudança seria traumática para todos eles. Olhou de relance para Rowe. Como se fosse capaz de ler sua mente, ele piscou um olho, como se concordasse.


lona inclinou-se para a frente, tossindo e voltando a enxugar as faces. ― Não sei como poderei viver com isso... ― Cuidaremos dos outros detalhes no final de semana. ― Rowe fitou a anciã com seriedade. ― Fique tranquila. Só queríamos lhe dizer que tudo estará bem. Nós dois acreditamos nisso. ― Não sei se Sophie se lembra de vocês. ― lona olhou através do salão, para a cadeira onde a neta se sentara. ― Querida, venha cá, junto com a vovó. Sophie levantou-se, obediente, avançando na direção do grupo, com passos hesitantes. Uma vez ao lado de lona, segurou com timidez sua mão. ― Escute, meu amor, achei que você gostaria de conhecer Meredith e Rowe. Meredith era a melhor amiga de sua mãe. Elas estudaram juntas, e eram como verdadeiras irmãs. ― Eu sei, mas mamãe tirou o retrato deles de cima piano, algum tempo atrás. Um silêncio desconfortável seguiu-se, e todos trocaram olhares. Rowe deu um passo atrás, e Meredith engoliu em seco, ajeitando a lapela do casaco em um gesto automático. Ambos sabiam a que foto Sophie se referia. Ela fora tirada logo depois de seu casamento, pela própria Jenny. Era uma bela cena, revelando a camaradagem que os unira no passado, a essência do momento e a esperança no futuro. ― Estávamos tão felizes por ter sua mãe e seu pai conosco naquele dia, Sophie! ― Meredith sentiu a garganta ressecar-se de maneira incómoda. ― Queria que tudo fosse perfeito, e foi. O sol estava brilhando, e eles estavam conosco. ― Mas não vão voltar mais. Vovó me disse. Tanto Rowe quanto Meredith foram pegos de surpresa. Vários segundos se passaram. O que teriam dito a Sophie? Quanto a garotinha era capaz de compreender daquela situação? Apesar da dor na perna, Meredith abaixou-se devagar, apoiando-se, resoluta, num dos joelhos para encarar a expressão solene do rosto da criança. ― Eu sei, meu anjo. E compreendo como foi difícil para sua vovó lhe dizer isso. Também sei que deve ter sido doloroso ouvir. O lábio inferior de Sophie tremia. ― Deve ter sido muito triste ― Rowe concordou. ― Sinto-me como você. Dói bem aqui. ― Com a mão fechada, Meredith indicou o centro do peito. ― Acho que entende o que eu quero dizer, não é? Sophie assentiu, dando um passo para a frente. Estendendo o braço, tocou com sua pequena mão o rosto de Meredith, que sentiu um calor indescritível percorrê-la. Era como se alguém tivesse ferido seu coração, mais uma vez. O turbilhão de emoções impediu-a de esboçar qualquer reação, e levou algum tempo para recobrar a compostura. Só então lançou um olhar para Rowe, e notou-o tenso, como se estivesse lutando para manter o autocontrole. ― Sua vovó nos convidou para jantar hoje à noite, Sophie. ― O que acha? Gostaríamos de conversar com você e conhecê-la melhor. ― Meredith sorriu. Sophie assentiu, tirando uma mecha ruiva da testa. ― Meus livros e minhas bonecas estão na casa de vovó. ― É mesmo? ― Sim. Posso mostrá-los para você, se quiser. ― Isso seria ótimo. ― Mamãe e eu estávamos fazendo uma coleção, e papai disse que ia construir uma casa de brinquedo. ― Entendo.


― Aposto que você nunca viu bonecas tão bonitas. ― Sophie percebeu a reação constrangida de Meredith. ― O que foi? ― Nada, meu bem. E que não tenho uma filhinha para me manter informada com as últimas novidades. ― Nem meninos? ― Não. ― Como pode ser? Meredith hesitou, tentando, desesperada, escolher a melhor maneira de explicar aquela história para uma criança de quatro anos. ― Bem... ― Nós conversamos sobre filhos no passado. ― Rowe resolveu ajudar Meredith. Sim, no passado. Ela se lembrava do desapontamento que sentira na única vez em que, ao suspeitar estar grávida, logo soubera que não era verdade. Estranho... No fundo, uma parte dela desejava as mudanças trazidas pela maternidade. Mas racionalmente sempre julgara-se incapaz de gerar uma vida. Um novo toque de Sophie em sua face a fez voltar ao presente. ― Já que você não tem nenhum filho... ― A menininha fez uma pausa, encarando-a com um medo crescente. ― ...tem certeza de que me quer? CAPÍTULO V A astuta observação de Sophie atingiu Meredith em cheio. Será que suas dúvidas eram tão transparentes? ― Claro que quero! ― murmurou, resistindo ao impulso de tomar a pequena nos braços. Era muito cedo para aquilo, entretanto. Uma aproximação física naquele instante seria forçada, e na certa tornaria a menina arredia. Crianças eram muitos espertas, e, se exagerasse naquele primeiro encontro, talvez não conseguisse mais obter seu respeito. Naquele instante, Rowe ajoelhou-se, juntando-se às duas. Seus olhos azuis pareciam tão solenes como os da garota. ― Nós dois queremos você, Sophie. ― Tenho quatro anos. Já sou grande o bastante para entender se não me quiserem. ― Nós queremos ― Rowe repetiu, estendendo o braço para tocar-lhe o ombro. ― Tê-la a nosso lado sempre nos fará lembrar do quanto amávamos seu pai e sua mãe. ― Mas vai ter de se comportar, querida, para ficar com Rowe e Meredith ― lona interveio, autoritária. ― Eles vão cuidar de você, e poucas pessoas neste mundo teriam tanta sorte. Não se esqueça disso. ― Sim, senhora... Meredith piscou, espantada, lembrando-se das frequentes críticas de Jenny em relação à mãe. Será que a mulher precisava intensificar ainda mais as inseguranças da criança, justo naquele momento? ― Tudo bem, Sophie ― ela disse, gentil. ― Vai dar tudo certo. Ao ouvir aquilo, a menina baixou as pálpebras. A moldura dos cabelos ruivos a fez ficar parecida com um anjo. ― Mas eu posso cuidar de mim mesma. Sei fazer minha cama e guardar minhas roupas. Não como muito, e prometo que não vou causar problemas. ― E vai se comportar ― lona emendou. ― Vou me comportar.


A anciã olhou para o casal como se esperasse por alguma congratulação. Aquela cena, para Meredith, era de cortar o coração. A mulher parecia mesmo disposta a livrar-se da neta. ― Poderá comer o que quiser, Sophie. Sua mãe sempre me disse que é uma menina adorável. Tinha muito orgulho de você. Sei que é muito educada, e nunca, nem por um segundo, imaginei que pudesse causar algum transtorno. Meredith, pelo jeito, falou as coisas certas, mas a memória resolveu retroceder em décadas. Viu diante de si outra criança, que aos sete anos ansiava que a mãe voltasse para notar como era bem-comportada. Aprendera todos os truques e as tarefas domésticas para parecer útil e talentosa. Como Sophie, compensando aquilo que não podia controlar. A comparação era enervante, e acabou com o que havia restado de sua frágil compostura. ― Sophie, preciso confessar uma coisa. ― Rowe sorriu, suave. ― Em minha casa, não temos de nos preocupar muito com as camas. A empregada vai cuidar de tudo. ― Posso fazer outras coisas para vocês. Lavar pratos, por exemplo. E vovó me ensinou a dobrar roupas. Os olhos dele se arregalaram, e, por um instante, Rowe ficou pensativo. Relaxou e voltou a sorrir em seguida. ― Que pena! Mando tudo para a lavanderia da cidade, e as peças já vêm dobradas. Sophie encarou-o, confusa, parecendo preocupada, achando que tinha dito alguma coisa errada. Os olhos da menina eram brilhantes. Meredith conhecia aquela expressão, que transmitia ao mesmo tempo infelicidade e desespero, como se o mundo estivesse fora de foco. ― Você não tem de fazer nada para que a amemos, Sophie. ― Mas... e se não gostarem de mim? ― Tenho certeza de que vamos adorá-la. A menina lançou um olhar hesitante para a avó antes de voltar a observar Meredith, e em seguida inclinou-se para a frente, sussurrando para que a senhora não pudesse ouvir: ― Vocês não vão me amar. Não como mamãe e papai. Foi o que vovó falou. ― Querida... ― Tudo bem, Meredith, devo ficar contente por me aceitarem. ― Querida... ― Meredith não pôde continuar, pois sua visão estava turva por uma nuvem de lágrimas. ― Não, acho que você pode estar certa. É provável que não poderemos lhe dar um amor igual ao de seu pai e sua mãe, mas acho que também vai achar tudo estranho. Pelo menos no começo. Todos nós ainda estamos nos acostumando com a situação, e quer saber de uma coisa? Acho tudo isso muito natural. O silêncio que seguiu-se foi denso e constrangedor. ― É mesmo? De verdade? ― Pode acreditar, meu bem. Sophie fixou-se em Rowe, como se procurasse por uma confirmação. ― Sei que nenhum de nós se sente confortável, Sophie, mas acho que tudo vai mudar, porque... quando nos conhecermos muito bem, acredito que formaremos uma família. Meredith recusou-se a fitar o ex-marido ao dizer aquilo. Seria melhor deixá-lo pensar que estava apenas filosofando para o bem da menina. Afinal de contas, jamais formariam uma família feliz, e ambos sabiam disso. Então, depois de respirar fundo, decidiu continuar: ― Mas você precisa saber, Sophie, que haverá algumas diferenças. Em algumas


casas há meninos e meninas, e às vezes cães ou gatos. Outras crianças vivem na cidade, com pais separados e... ― Mer, acho que não é o momento. ― Eu... ― Meredith, por fim, abraçou Sophie. ― Rowe e eu faremos todo o possível para que se sinta bem, querida. Eu lhe prometo isso. Ao sentir a respiração infantil sobre sua pele, Meredith experimentou uma sensação de conforto e preocupação. Estava atormentada por sensações desconexas. O que a incomodava tanto? Ela mesma? Sophie? A morte de Jenny e Mike? Ou seria Rowe? Talvez fosse a própria perda na infância, com o abandono da mãe. Em todo caso, a única conclusão a que foi capaz de chegar era que precisava encarar novos desafios, quaisquer que fossem. Tudo aconteceu muito rápido, ou pelo menos o mais depressa que ambos puderam fazer acontecer. Depois de uma estada horripilante de três dias em Brookings, Meredith já aprendera os nomes de todas as bonecas de Sophie. Também descobrira que a menina possuía dúzias de brinquedos educativos, bichinhos de pelúcia, coleções de livros infantis, além de um closet cheio de roupas, muitas das quais não haviam sequer sido usadas. Todas as roupinhas de bebê tinham sido embaladas e etiquetadas, guardadas num armário. Sem dúvida, o casal preparava a vinda de um outro filho. Depois de examinar todo o conteúdo das caixas, Meredith separou alguns itens, como a primeira chupeta, o vestido do batismo e um detalhado e meticuloso álbum de retratos, entre outras coisas. Depois disso, com um tremendo senso de traição aos planos da amiga, empacotou o restante para encaminhar para caridade. Rowe ajudou-a o tempo todo, fazendo alguns comentários ocasionais sobre a não importância de preservar aqueles objetos do passado de Sophie. Ouvindo-o, Meredith lembrou-se de que a família dele não se importara em dar-lhe algum senso de tradição ou raízes. Mas não comentou nada, continuando a trabalhar em silêncio, convencida de que algum dia Sophie lhe agradeceria por haver guardado aquelas lembranças. A sra. Bowman selecionou alguns retratos do álbum, e Meredith ficou com o resto, guardando-os junto com os registros escolares de Sophie no jardim-de-infância, certificados de vacinação e a certidão de nascimento. Havia um relatório de uma psicóloga, indicando que o QI de Sophie era acima da média, e isso fez Meredith ficar pensativa por um instante. Não sabia como interpretar aquela informação. E Rowe também não. Mas, pelo visto, a criança que ambos haviam concordado em criar era uma superdotada. A ideia era apavorante, e forçou-os a avaliar se teriam mesmo condições de cuidar de alguém igual a ela. Mais tarde, Rowe insistiu em assumir o ultrajante custo dos funerais. Fez arranjos para mandar a mobília de Sophie para Chicago e certificou-se de que tudo fosse embarcado: a cama, os armários, os cobertores, e até mesmo os travesseiros. ― Quem poderia assegurar que a menina não sentiria falta de tudo aquilo? Seguindo aquela linha de raciocínio, Meredith assentiu. Em seguida, Rowe também separou todas as jóias de Jenny para Sophie. Tudo, desde as bijuterias, passando pelas elegantes pedras semipreciosas, colares, pingentes e adornos de cabeça. Algum dia, quando Sophie fosse mais velha, poderia decidir o que gostaria de manter. Fez a mesma coisa com as peças de cerâmica que Mike esculpira no colégio. Aquilo tudo havia sido feito por seu amigo, frutos de sua imaginação. Portanto, também pertenciam a Sophie.


Àquela altura, Meredith ficou de lado, deixando Rowe incumbir-se de alguns aspectos da tarefa que tinham diante de si. Ao mesmo tempo, observá-lo agindo com tanta sensibilidade a fazia lembrar do que tinham compartilhado um dia. Ele sempre fora meticuloso até os mínimos detalhes. Pena que não tivesse se conduzido da mesma forma durante o casamento... Talvez, se as coisas tivessem sido diferentes, eles pudessem ter tido uma chance. Retornaram para o rancho na noite de terça-feira, bem tarde, e informaram ao sr. Worth e a Abigail daquilo que não podiam contar por telefone: que a partir daquele momento haviam assumido a guarda de Sophie como tutores. Bob Worth e Abbie foram pegos de surpresa. No início, ambos murmuraram algumas advertências cautelosas, mas a todo momento tentaram não parecer críticos ou desanimadores. ― Isso será uma grande responsabilidade, filha. ― Você pensou muito bem nisso, Mer? ― Abigail perguntou. Entretanto, a irmã ficou totalmente extasiada ao saber da decisão de Meredith de voltar a Chicago com Rowe. Até mesmo Bob, depois de algum tempo, pareceu acostumar-se com a ideia de que o antigo casal voltaria a morar junto por um tempo, a fim de cuidar de Sophie. Em sua opinião, o bem-estar da menina devia estar acima de tudo. Natalie, porém, não foi tão sutil. Ansiosa, logo apareceu com diversos livros sobre como tratar de crianças, comprados às pressas. Desculpando-se pela interferência, disse que sabia que Meredith não teria tempo de pesquisar. Alimentando Crianças de Quatro Anos, Crianças e Estilos de Vida Alternativos, Crianças Compatíveis e Casamentos Incompatíveis, Divórcio e Seu Filho, Cuidando de Seu Filho, Quando é Hora de Chamar um Psicólogo eram apenas alguns dos títulos. Quando chegou a hora de partir para Chicago, toda aquela preocupação estava quase deixando Meredith louca. Mais uma vez naquela tarde, Natalie quis conversar, fazendo alguns comentários sobre a irmã voltar a viver com Rowe. ― O instinto me diz que essa criança é apenas uma desculpa, Mer. Estou advertindo. Você não vai deixá-lo de novo. Posso jurar que os dois não podem passar três minutos sozinhos no mesmo quarto. Poderia tornar as coisas mais fáceis para si mesma se aceitasse esse fato. Assim não teriam de parecer caminhar sobre ovos o tempo todo. Ora, apenas deixe que Rowe tome a iniciativa! E se isso não acontecer quando for tempo de partir... Meredith recusou-se a ouvir o resto. O que mais a incomodava, na verdade, era que, por trás de tanto sarcasmo, Natalie estava certa. Expor-se ao contato prolongado com Rowe era um risco. Tinha consciência disso, e a cada minuto essa sensação aumentava. Como se nâo bastasse, parecia haver uma estranha comunicação mental entre eles. Podia senti-lo entrando no dormitório. Poderia pressentir o que ele faria, ou o que diria. Ela era, inclusive, capaz de antecipar suas ações, como se uma ligação muito forte os tornasse um só. Cada um de seus mecanismos de defesa estava ligado em força máxima. Entretanto, não podia fazer nada para evitar aquilo. Sabia que estava com problemas terríveis. Até mesmo os insistentes pedidos de Rowe para que cuidasse de sua situação de trabalho na Whitcomb a deixavam mais nervosa. ― Por acaso já entrou em contato com a filial em Chicago? Você tem estudado o preço das tarifas aéreas entre as duas cidades? ― Ele perguntava várias vezes, no tom mais inocente possível. Numa dessas conversas, Meredith decidiu tomar a dianteira: ― Preciso falar com você, Rowe. ― Tudo bem ― ele concordou, sem nem mesmo erguer a cabeça, sentado à mesa da cozinha, continuando a fitar o jornal.


― Não sei o que Abbie faz, mas este sanduíche de carne assada é uma maravilha. ― Bem, o que queria lhe dizer é que meu gerente avisou que, dentro das atuais circunstâncias, está tudo bem se eu precisar de um mês extra de licença. ― Ótimo! ― Ele... também falou que não consegue me ver como mãe. ― Não estou surpreso. ― Rowe tomou mais um gole de café. ― Também adiantei que não poderia voltar para a loja de Kansas City. ― Ai! ― Rowe colocou sobre o tampo a caneca com o café quente, que acabara de levar aos lábios. ― Droga! Você viu? Queimei a língua. O que ia dizendo? ― Vou repetir: não pretendo voltar para Kansas City. ― Meredith?! ― Você estava certo. Precisamos reunir nossos esforços por algum tempo, pelo bem de Sophie. Morar em casas separadas já não foi bom em nosso caso, no passado. Não podemos esperar que funcione agora. O mais importante é fazer Sophie sentir-se bem e protegida. E, de acordo com um livro que Natalie me deu, se nós fornecermos um ambiente estável para um ajuste positivo da menina... ― Espere um minuto. Não quero que ache que estou forçando você a... ― Disse-me que está trabalhando muito, Rowe, e que tem todos aqueles quartos vagos. ― Estou. E tenho mesmo. ― Por isso, pensei... ― Poderá ficar por quanto tempo quiser, Mer ― Rowe afirmou com tanta rapidez que fez Meredith hesitar. ― Obrigada. Eu acho. ― Por falar nisso, você vai poder escolher entre três aposentos. "Não eram quatro?". Meredith foi tomada por uma sensação de arrependimento. Por outro lado, se ele se oferecesse para dividir o dormitório principal, ela teria reagido mal. ― Aceito aquele que você me indicar. ― Decida pelo que quiser. ― Claro. Agradeço. Ambos pareciam desconfortáveis, evitando se fitar. Parecia que naquele momento estavam pesando todas as possibilidades, avaliando a situação. Viam os novos fatos e lembravam-se dos antigos, esperando que as coisas tivessem mudado. E temerosos de que aquilo não tivesse acontecido. ― De qualquer forma, pedi minha transferência para Chicago. Sem dúvida, era a melhor coisa a se fazer para tudo ficar mais fácil. ― Ah, Mer... ― Não precisa dizer nada. Como já falei, era a opção mais lógica. Já pedi até mesmo para que papai cuide da locação de meu apartamento em Kansas. ― Vejo que não se esqueceu de nenhum detalhe. ― Rowe tentava parecer bemhumorado para disfarçar o espanto. Um sorriso conciliatório surgiu nos lábios de Meredith. ― Ao que tudo indica, terei de viver com você por algum tempo, mas, quando chegar a hora, pretendo encontrar um lugar para me instalar. ― Poderemos cuidar disso juntos. ― Não quero ser um fardo para você, Rowe. ― Nunca a imaginei dessa forma. Naquele momento, o som das pesadas botas de Bob à soleira dos fundos os interrompeu. Abigail também se aproximou, vinda da sala. ― Já está tudo no carro. Vocês podem ir agora, ou depois do jantar, se preferirem.


Bob pôs as mãos na cintura. ― Já estou ansiosa para receber as primeiras notícias de Sophie em Chicago. ― Abigail sorriu, sonhadora. ― Por algum motivo, essa menina tornou-se muito importante para mim também. CAPÍTULO VI Meredith trabalhou como louca. Queria que .tudo fosse perfeito, com nenhum detalhe fora do lugar. Depois de cuidar de seu novo quarto, que ficava bem ao lado do de Rowe, dedicouse à tarefa de preparar a chegada de Sophie. Por alguma razão, não queria que a criança visse as caixas ou a bagunça. Não desejava que Sophie presenciasse todo seu passado empilhado pelos corredores, as roupas jogadas sobre a cama. Meredith pretendia proporcionar-lhe a melhor adaptação possível ao novo ambiente, fazendo-a ver coisas familiares, como os brinquedos na sala de estar, a bicicleta e outros itens na garagem. Era verdade que Rowe tinha voltado ao trabalho no dia seguinte ao que haviam chegado a Chicago. Mas todas as noites trabalhava com ela, arrumando a mobília de Sophie, instalando prateleiras para livros e objetos, trocando as cortinas, pendurando os quadros, e coisas assim. Também não fazia uma reclamação sequer. Apenas concentrava-se no trabalho, compenetrado. Durante aqueles primeiros dias, enquanto Meredith, no íntimo, admirava a elegância clássica daquela residência em estilo inglês, ambos evitaram o contato um com o outro. Ela se espantava o tempo todo com a facilidade com que aquilo tudo acontecia. Mas Rowe também era capaz de gentilezas, como trazer-lhe um café durante os afazeres, dando a Meredith total liberdade para fazer o que bem entendesse. A noite, ele oferecia a chave do carro para que Meredith pudesse fazer alguns passeios, que acabaram acontecendo mais do que ela previra, ao notar que faltava xampu infantil que não provocava irritação nos olhos, manteiga de amendoim e geléia. De qualquer forma, Meredith sempre ficava fazendo compras até tarde. Talvez para certificar-se de que não veria Rowe mais do que o necessário. Aquela era a melhor maneira de agir. Mesmo assim, ao ajeitar os vastos ambientes da casa durante o dia, tinha de admitir que sentia falta da presença dele. Seu cheiro... Era como se as sensações ocupassem todo canto. Rowe estava sempre com ela, mesmo que, de fato, estivesse ausente. As vezes Meredith parava diante da escrivaninha ou dos retratos na sala de estar, admirando-os. Também observava os objetos decorativos que o ex-marido adquirira depois da separação. Fechava os olhos, tentando imaginar a ocasião em que os comprara. Mas havia uma foto que a deixou espantada. Era um retrato no qual Rowe aparecia ao lado de uma canoa. Sua pose parecia a de um selvagem que acabara de voltar do meio de uma floresta, cercado por vários companheiros, todos desconhecidos. Aquilo a perturbou muito. No passado, só tinham amigos em comum. Numa manhã, procurando lençóis para sua cama, Meredith encontrou um jogo de seda preto, muito sexy, que na certa destinava-se ao quarto principal. O tecido era convidativo, e o cheiro da loção após a barba de Rowe podia ser sentido neles. Tentou imaginar se ele mesmo os comprara, ou teria sido um presente sugestivo e íntimo. Mais tarde, quando tentava achar o aspirador de pó, aventurou-se no closet do


quarto principal, espantando-se ao encontrar vazio um dos lados do armário, como se Rowe esperasse que uma mulher colocasse ali seus pertences e roupas. A outra banda fora preenchida com ternos e camisas elegantes, que contrastavam muito com a parte vazia logo ao lado. A cozinha era ultramoderna, com todas as extravagâncias conhecidas pelo homem. Os armários embutidos tinham sido feitos sob medida, e havia dois balcões, desenhados para facilitar o trabalho do cozinheiro. Mesmo assim, toda a despensa estava vazia, assim como o refrigerador e o freezer. Depois de comprar algumas frutas frescas e vegetais para si mesma, Meredith cuidou de preparar um cardápio especial para Sophie, inclusive com algumas guloseimas. No supermercado, viu pistache em uma das seções e lembrou-se do quanto Rowe os adorava, levando cerca de meio quilo para ele. Era estranho estar naquela situação, cuidando daquele lar, compartilhando-o com Rowe. Sobretudo porque quase nunca conversavam. Aquilo quase a fez antecipar a chegada de Sophie, que ficara com a avó até que tudo estivesse instalado na nova residência. Mas mudara de ideia no último momento. O caminho de Rowe foi mais longo, passando por um parque e pelo jardim-deinfância. Naquela época do ano, a neve cobria tudo como um tapete branco, mas no próximo verão, com Sophie, talvez pudesse parar um pouco e diminuir o ritmo de trabalho. Poderiam fazer piqueniques, e Meredith também poderia vir. Olhando para a caixa da floricultura colocada sobre o assento do carro, Rowe perguntou-se o que ela diria. Era provável que jogasse aquilo fora. Ou talvez não. Podia ser que agisse diferente ao ver como a quem ele endereçara o cartão: "Doçura". Fizera aquilo de propósito, imaginando que assim conseguiria demonstrar sua gratidão por tudo o que Meredith vinha fazendo. Era engraçado como um pequeno detalhe como aquele podia desarmar uma mulher. Ao pensar nisso, lembrou-se de como o comportamento dela se modificava quando ouvia aquela pequena e simples palavra. Ao estacionar e apanhar tudo, inclusive sua valise e o notebook, Rowe ficou com as mãos repletas, mas aquilo não o preocupava. Sabia que Meredith nunca o via entrar pela porta dos fundos. O que dizer daquilo? Era mesmo o comportamento de uma mulher teimosa. Mesmo assim, toda casa parecia pulsar com vida nova... ― Como está indo, Mer? ― Ótima. Resolvi preparar um pouco de cereal com leite e frutas. Crianças sempre gostam disso. ― Suponho que vai me dizer que ficou cozinhando o dia inteiro. É verdade? ― Eu poderia. Enfim, Meredith virou-se, secando as mãos na toalha pendurada na parede. Havia uma pequena mancha de farinha em sua testa, mas ela ainda evitava encará-lo. Vestia uma simples calça jeans com camiseta branca. Rowe colocou o notebook e a valise sobre à mesa. ― Mer, posso ter um minuto de sua atenção, por favor? ― Sim, claro. ― Isto é para você. As sobrancelhas de Meredith arquearam-se um pouco antes de um suspiro escapar de seus lábios entreabertos. Suas mãos largaram a toalha, estendendo-se em seguida. ― Oh, Rowe... ― Vamos fazer de conta que hoje é o Dia dos Namorados. ― Como... eu... eu...


Rowe entregou a caixa longa, olhando de relance para as rosas e o cartão. Será que os dedos de Meredith ficariam trêmulos ao lê-lo? ― Você não devia. ― Pode ser, Mer, mas eu quis. Meredith manteve o olhar na caixa, erguendo-o devagar, logo em seguida, para fixar-se no urso de pelúcia que o ex-marido segurava no braço. Sem que notasse, seus lábios curvaram-se num sorriso. ― É para Sophie. ― Eu imaginei, Rowe. ― Apenas um presente de boas-vindas. ― E muita gentileza. ― Não acha que é demais? ― Meredith meneou a cabeça. ― Não. Vai mimá-la, mas não é demais. ― E então? Pretende abrir meu presente ou me fará ficar parado aqui a noite toda? Encolhendo os ombros, Meredith hesitou antes de, enfim, desfazer o laço. ― Muito obrigada, mas... ― Sim? ― Rowe observava cada gesto dela, que se movia devagar, como se na verdade não quisesse aceitar aquele gesto de ternura. ― Nunca comemoramos o Dia dos Namorados, Rowe. ― Por que fizemos essa bobagem? ― Ela encarou-o com seriedade. ― Você nunca deu importância para esse tipo de coisa. ― Acho que não, mas talvez até hoje tudo isso me parecesse muito tolo. Entretanto, as coisas mudam. Um profundo suspiro escapou dos lábios de Meredith assim que viu a dúzia de rosas vermelhas. Não brancas, muito virginais, nem cor-de-rosa, muito delicadas, nem amarelas, muito casuais. Apenas rosas vermelhas combinavam com aquela mulher corajosa e linda. ― Ah, Rowe, são maravilhosas! ― Nem mesmo sei se tenho algum vaso. Podemos ter de usar algum jarro d'água. O cartão estava nas mãos dela. Desviando a cabeça, Rowe olhou para o armário. ― Vou ver se consigo encontrar algo na sala. ― Se não me engano, o presente de casamento de sua tia Sherry foi um vaso de cristal da Tiffany ― ela murmurou. Ao se lembrarem daquilo, trocaram olhares. ― Sim, claro, você está certa. Tinha me esquecido. ― Rowe, rápido, foi até a sala de estar, voltando logo depois, com o objeto nas mãos. Mas fez uma pausa, tenso, pois notou que seu cartão estava sendo lido. O coração batia acelerado. Talvez tivesse exagerado. Continuou a examinar Meredith com atenção. O que escrevera apenas uma hora antes voltara-lhe à memória: "Já que o destino nos uniu outra vez, aproveitemos essa ocasião especial, na qual uma criança entrou em nossas vidas. Para sempre seu, Rowe". Meredith piscou. ― Isso... foi lindo, Rowe. Nem sei o que dizer. "Que tal um beijo, mesmo que seja apenas um gesto cordial? Ou um abraço. Algo, Mer, qualquer coisa!" ― Você sempre teve muito jeito com as palavras. ― Sempre tentei, doçura, sempre tentei... ― De certa forma, esforçou-se muito mais que eu. Nunca me senti muito capaz de dizer o que queria.


Rowe pigarreou, concentrando-se no vaso, e foi até a pia enchê-lo de água. ― Tudo bem, Mer, sempre pude lê-la como a um livro, você sabe. ― Pelo menos era o que dizia. ― Nunca a convenci? ― Em alguns momentos. ― Meredith colocou a caixa ao lado do notebook, sobre o tampo. Logo em seguida, pegou uma rosa. ― Na verdade, algumas vezes eu queria acreditar em tudo o que você me dizia. Então, no final... ― Não, espere. Que tal se começarmos a pensar no "final" como sendo apenas parte do passado? ― Podemos fazer isso? ― Não sei, mas podemos nos esforçar nesse sentido. Pelo bem de Sophie. Ela fez uma pausa, levando a flor ao nariz para inalar-lhe a fragância. ― Tudo bem, Rowe. Mas sinto-me mal por não ter nenhum presente para lhe dar neste nosso "Dia dos Namorados". ― Vou sobreviver. ― Sorriu. ― Ei! ― Sim? ― Percebi que você fez um guisado. Por acaso posso considerar isso como um presente? ― Evidente! Vamos dizer que o preparei para você. ― Rowe parecia deliciado. ― Sendo assim, isto é um começo, Mer... Passaram mais algum tempo conversando, e então jantaram. Logo depois, saíram, apressados, com destino ao aeroporto, para encontrar Sophie, que chegaria naquela noite. Naquele momento, tudo em que conseguiam pensar era na chegada da menina. Sua nova filha. CAPÍTULO VII Com um crachá com seu nome pendurado na jaqueta cor-de-rosa, Sophie desceu a rampa devagar. Quando viu Rowe e Meredith, seus lábios curvaram-se num sorriso de alívio, e ela correu, com os braços abertos. ― Acho que não pode haver engano sobre os responsáveis pela menina ― a comissária de bordo observou, alegre. Em seguida, checou a identidade de Rowe, que estava de joelhos para receber a pequena. ― Seja feliz, papai! Ninguém, incluindo Sophie, se incomodou em corrigi-la. ― Obrigado. ― Rowe voltou a guardar o documento, sem tirar os olhos de Sophie. ― E então, como foi o vôo? ― Tudo bem, mas eles não me deram amendoins. Disseram que eu podia enjoar. Meredith conteve o riso. ― É verdade? Não brinque! E não lhe deram nada em substituição? Sophie arqueou as sobrancelhas. ― O quê, por exemplo? ― Rowe quer saber se não lhe ofereceram nada gostoso, Sophie. ― Ah, sim! Biscoitos, mas sem creme de queijo. ― Entendo... ― Meredith avançou um passo, guardando a informação na memória. ― Mas, fora isso, tudo bem? A menina assentiu com um ar de enfado, como se seu primeiro vôo desacompanhada não tivesse significado nada. ― Não nos agradou ter tido de fazê-la viajar sozinha, Sophie, mas foi a melhor


solução. Como eu disse ao telefone para sua avó... ― Eu sei, Rowe, já entendi. O rosto de Sophie permaneceu impassível, deixando bem claro que não pretendia falar nada sobre as duas semanas ou sobre as mudanças que estavam prestes a acontecer em sua vida. ― O que é isso? ― Com o dedo indicador, Meredith apontou para o pequeno envelope que era visível no bolso da jaquetinha. ― Um bilhete de minha avó. A nota era um agradecimento polido. Havia algumas advertências sobre a última infecção de ouvido de Sophie, uma descrição de seus recentes pesadelos, assim como um trecho em que lona falava de seus próprios problemas médicos. A mulher também se desculpava por não ter conseguido ligar nas últimas semanas. Logo que fosse possível, entraria em contato. No fundo, Meredith continuava achando o comportamento da avó de Sophie frio e distante, o que considerava uma injustiça. De cería forma, ficava até mesmo indignada. Encarou Sophie. ― Está tudo bem, Meredith? ― Sim, Sophie, é que... ― Dobrou o papel e guardou-o. ― Vai ficar tudo ótimo, pode acreditar. A incerteza no rosto da menina desapareceu. Mas, mesmo assim, seu comportamento perante os dois adultos continuava hesitante. Rowe e Meredith trocaram olhares furtivos. Naquele momento em particular, Meredith esperava pelas reações de Rowe. Precisava do apoio dele. Algo para lhe dar coragem e lembrá-la da dura tarefa que teriam pela frente. E se Sophie começasse a chorar, ou ter pesadelos? Pior: o que aconteceria se a criança tivesse uma crise de medo no meio do aeroporto, com todos olhando? Deus, seria tão humilhante! ― Bem, agora temos de apanhar a bagagem na esteira. ― Sophie não se moveu. ― Espere, Rowe ― ela pediu, continuando imóvel. ― Nós nos esquecemos de alguma coisa? ― ele perguntou, virando-se para o carrinho de bagagens e examinando o conteúdo. ― Acho que esqueceram... Meredith e Rowe procuraram no chão. Não havia nada lá. ― Sim, Sophie? ― os dois perguntaram em uníssono, inclinando-se para a frente, como pais ansiosos. ― Isso aí é para mim? ― Sophie apontou o dedinho para o pacote que Rowe continuava mantendo sob o braço. Estavam tão preocupados com as reações de Sophie, tentando se certificar de que ela se sentia bem com a transição, que haviam se esquecido do presente. ― Claro que é, anjinho! ― Rowe estendeu-lhe o mimo. ― É de Meredith e meu. Seja bem-vinda! Sophie rasgou o embrulho e de imediato abraçou o urso de pelúcia. Vendo o rosto da menina iluminar-se, com um sorriso genuíno e os olhos brilhando, Meredith sentiu um desejo de apertar Rowe nos braços da mesma forma que Sophie fazia com o brinquedo. Não havia dúvida de que era o que desejava no momento. Mas daquela vez o impulso não se deu por um motivo qualquer, e sim pelo fato de ele ter tido o bom senso de antecipar aquele momento, ter se preocupado o bastante para oferecer um toque de suavidade a uma criança insegura. Mas, considerando tudo o que havia entre eles, limitou-se a levar a mão ao ombro de Rowe, enquanto Sophie continuava a checar o que tinha nas mãos.


― Muito obrigada! ― Meredith sussurrou. ― Isso ajudou muito. Os acontecimentos no aeroporto tornaram Meredith mais suave e doce, deixando-a disposta a experimentar um pouco mais o papel de dona de casa e boa mãe. "Mas isso será apenas temporário." Só até que estivessem instalados e Sophie se sentisse confortável. Nos dias seguintes, Meredith passou muito tempo observando a menina, e chegou à conclusão de que Sophie se considerava madura demais para algumas brincadeiras infantis. Havia momentos em que parecia estranhamente adulta. A garota não gostava de ficar sentada no chão para assistir à televisão, por exemplo. Preferia instalar-se no sofá. Nunca pedia por petiscos, ou um copo de leite, embora sempre aceitasse o que lhe ofereciam. Permitia que Rowe lesse para ela a sessão de quadrinhos do jornal, mas sorria muito pouco. Passava grande parte do tempo arrumando sua coleção de bonecas, mas jamais brincava com elas. E, a cada noite, agradecia a Meredith por colocá-la na cama, com polidez... como se se sentisse uma grande inconveniência. Por fim, uma semana depois, Meredith decidiu expor seus temores para Rowe: ― Não sei... Estou preocupada. Talvez Sophie não esteja se ajustando. Parece tão calada, tão reservada! ― Não se esqueça de que tudo aqui é novo para ela, Mer. Não fique tão preocupada com isso. ― É difícil me conter. Não é natural. Sophie é apenas uma menina. Devia rir. Pelo menos de vez em quando. Meredith ergueu as mãos num gesto desanimado. ― Sabia que nunca a ouvi rindo? ― Ora, vamos lá... ― Estou falando sério, Rowe. Sophie nunca riu de verdade. Pelo menos não de forma espontânea ou honesta. Isso não está certo. ― Você está exagerando. ― Talvez. ― Além do mais, se passaram só algumas semanas desde o funeral. ― Mesmo assim, sinto-me responsável. Em alguns momentos, gostaria de ter estudado psicologia, e então talvez pudesse ter as respostas certas. ― Relaxe. ― Muito bem, mas é mais fácil dizer isso do que fazer. ― Meredith suspirou, olhando com ar ausente pela janela da cozinha. ― Talvez devêssemos fazer alguma coisa mais familiar, como patinar no gelo. ― Ah! Você? Acha que pode patinar com essa perna machucada? ― Precisava me lembrar disso? Eu estava apenas querendo ter alguma ideia. ― E óbvio. ― Sei que estamos no meio do inverno em Chicago, Rowe, e que as pessoas ficam mesmo em suas residências. Ninguém é muito amistoso nesta época. Nem mesmo os caixas do supermercado. Sophie não conhece ninguém, não tem nenhum amiguinho. E já é tarde para matriculá-la em qualquer coisa, uma escola ou... — Meredith? — O quê? — Nós tivemos ocasiões familiares hoje à noite, lembra? — Ah, é? — Ei, vamos lá! Hoje, durante o jantar, enquanto eu estava sentado aqui, me senti no meio de um daqueles seriados antigos, tipo "Papai sabe tudo". — Rowe...


— E você, como sempre, estava perfeita. A comida, esplêndida. E a sobremesa, então? Aquela torta de chocolate era divina! — Crianças gostam de chocolate. Além disso, precisam de alimentos energéticos para... Ele interrompeu, estendendo as mãos sobre a mesa num gesto exasperado. — Calma, doçura. Sente-se aqui. Meredith, que estivera andando de um lado para o outro na cozinha, começou a apoiar-se na borda. — Não. — Rowe bateu com a palma da mão na coxa. — Eu quis dizer aqui. Olhando o colo dele, Meredith disse a si mesma que se ousasse fazer aquilo perderia a batalha. — Agora, Rowe, escute muito bem. — Estou ouvindo, doçura. — Pare com isso! Rowe sorriu ao mesmo tempo que enlaçou-a num abraço, forçando-a a sentar-se em sua perna. — Rowe! O que Sophie pensaria se nos encontrasse assim? — Meredith voltou a ficar em pé. — E daí? E se ela encontrasse? — Isso lhe daria uma impressão errada. Poderia pensar que... — Por falar em impressões erradas, o que anda acontecendo com você? A cada dia prepara um prato especial, todos excelentes. Hoje foi um assado, na noite passada, um guisado, e na anterior... — ...macarrão com molho de queijo. — E feito em casa, Mer. Nada daquela velha comida congelada. — E daí? Isso é um pecado? — Não, mas não se encaixa com você. Pelo menos não com a velha Meredith e seu forno de microondas mágico. O que quero dizer, querida, é que está me impressionando. — Rowe, não seja tolo. Estou apenas tentando fazer minha parte, para que Sophie se sinta num lar, da maneira como tinha prometido. — Ê tudo por causa dela? — Evidente. — E aquele velho ditado nunca passou por sua mente? — Qual? — Encarou-o, perplexa. — Que o caminho para o coração de um homem passa por seu estômago... — Não seja ridículo! — Eu não estou sendo. Na verdade, estou começando a me acostumar com seus quitutes. — Está fazendo uma tempestade num copo d'água — ela afirmou, sem pensar. — É mesmo? — Ele deixou a cabeça pender para trás, soltando um riso grave e envolvente. Por alguns segundos, Meredith esqueceu as palavras ásperas que haviam trocado no passado. Apenas conseguia recordar a familiaridade daquele riso, que sempre a amolecia e lhe passava uma sensação de conforto. Rowe sempre ria daquele jeito. Era um detalhe que ambos sempre haviam apreciado. Mas agora não tinha mais nenhum significado. Mesmo assim, no fundo, Meredith sentia-se feliz por tê-lo agradado de alguma forma, mesmo que fosse apenas com a comida. — Veja bem — ela murmurou, sentindo um impulso de envolvê-lo num abraço — e quanto a Sophie?


— Sim? — Temos de ser sérios em relação a esse assunto. Os olhos dela fixaram-se nos lábios de Rowe. A lembrança do beijo que haviam trocado no carro, a caminho de Brookings, surgiu de repente. — É o que vamos fazer, e o que estamos fazendo, doçura. Fique tranquila. — Rowe levantou-se e inclinou-se para a frente. Estava muito perto. Os seios de Meredith roçavam no tórax másculo. — O que eu... queria dizer sobre Sophie... — Sim, Mer, o que seria mesmo? — Ela é tão indefesa... — Certo. Entendo. — É mesmo? — Pode acreditar. — Estendendo os braços, Rowe, mais uma vez enlaçou-a, puxando-a para junto de si. — Sophie está se adaptando, tenho certeza disso. Você se preocupa demais, relaxe um pouco. Meredith empertigou-se. — Isso foi tudo em que pensei nos últimos dias, trancada aqui dentro, sem ter de trabalhar... — Para ser franco, me parece que você tem tido bastante trabalho por aqui, Mer. Mantém a casa limpa, cozinha, brinca com a menina o tempo todo... — O que quis dizer é que não tenho a companhia de outras pessoas adultas. — Então me deixe suprir essa deficiência. — Sorriu com malícia. — Rowe, fale sério.. Ele afastou-se um pouco. — Nós estamos nos saindo muito bem, Mer. Melhor do que qualquer pessoa poderia imaginar. Tudo sairá a contento, pode crer. Acho que estamos no começo de algo muito bom. Meredith não reagiu, mas algo nas afirmações de Rowe lhe causou um enorme desconforto. Parecia que ele aceitava tudo o que estava acontecendo como um desdobramento natural das coisas. Ela, entretanto, não podia negar o sentimento estranho que aquela situação lhe provocava. A nova experiência que estavam tendo ao conviver com sua "filha" podia conduzi-los para algo muito próximo de um desastre. CAPÍTULO VIII O escritório estava vazio. O único indício de atividade vinha das luzes que piscavam nas telas dos computadores. As revistas tinham sido arranjadas sobre a mesa por Angela, antes que ela fosse correndo para casa encontrar com seu novo namorado para jantar. Havia exemplares da Phorbes, do The New Yorker e Business Today. Eram sete horas, e Rowe estava cansado, sentindo todo o corpo dolorido e os músculos tensos. Por algum tempo ainda, ficou olhando ao redor, para a decoração fria, e o que lhe veio à mente foi a maneira radical como sua vida se modificara nos últimos tempos. A razão daquela mudança, claro, era a volta de sua ex-mulher, Meredith, acompanhada da suave e doce Sophie. No começo imaginara ter comprado aquele imóvel nos subúrbios apenas como um investimento, mas, pouco a pouco, todo o ambiente se modificara com a presença das duas, como se um toque de mágica tivesse envolvido o lugar.


A cada dia que se passava, Rowe ficava mais encantado com a incrível beleza de Meredith, o que lhe provocava uma sensação estranha e agradável. A sensualidade dela o perturbava. Com um suspiro, apanhou o paletó, colocando-o sobre o ombro, e começou a caminhar em direção ao elevador. No caminho para o lar, agradáveis recordações dominavam-lhe os pensamentos. A maior parte delas relacionava-se ao fato de sua residência ter adquirido uma personalidade própria, com cheiros, cores e risos muito especiais pontuando cada momento de convivência entre os três. Sim, sem dúvida, naquelas últimas semanas, a mansão se transformara em um verdadeiro lar. Quando o automóvel subiu a rampa em direção à garagem, um sorriso curvou os lábios de Rowe. Entrou, em silêncio, não querendo perturbar ninguém, pela porta dos fundos. Dirigiu-se à biblioteca, onde serviu-se de um drinque, instalando-se na poltrona de couro diante da lareira. Momentos depois, seu momento de contemplação foi interrompido por Meredith. — Tem alguém aí? Ela agora já não usava seus trajes formais de trabalho. O tailleur impecável e as blusas de seda tinham sido substituídos por calça jeans e uma camiseta simples. Não usava jóias, nem mesmo um relógio. Seus cabelos estavam penteados para trás, revelando toda a formosura de seu rosto. — Você está atrasado, Rowe. — Eu sei, sinto muito. Tive de atender a um cliente muito difícil. Posso jurar que o homem é workaholic. — Ora, ora... E você não sabe nada a respeito desse tipo de coisa, não é? — perguntou, irônica, erguendo o queixo em desafio. Orgulho e amor misturaram-se no fundo do coração de Rowe, que preferiu ignorar a insinuação. — Tem sopa no forno. Não poderíamos ter esperado até agora para jantar. — Bem, desculpe-me por ter uma vida e um trabalho! — Não me lembre disso. — Meredith parecia indignada, e se virou para ir à cozinha, sendo seguida por Rowe. Ao chegar lá, ela apanhou a terrina, colocando-a sobre o balcão da copa. Rowe encarou-a. — O que está acontecendo com você? — Comigo?! — Sim, com você, Mer. — Nada! Nada mesmo. — Meredith erguendo as mãos de maneira dramática. — Acontece que adoro ser uma prisioneira aqui dentro, sobretudo quando você trabalha catorze horas por dia e nem se importa em chegar no horário para a refeição, agora que a escrava pode cuidar de tudo. Acontece que não sei se tenho talento para isso. — Eu pensei... Rowe respirou fundo, olhando de relance para o corredor, ouvindo os sons que vinham da televisão ligada na sala de estar. Instantes depois voltou a encará-la com cautela. — Achei que estivesse gostando disso, Mer. Com movimentos lentos e estudados, Meredith colocou o prato no forno de microondas. — Eu gosto. — Deu de ombros. — Mas imaginei que íamos fazer isso juntos. — Como assim?


— Você faria sua parte, e eu, a minha. — Meredith, vamos deixar uma coisa clara: eu estou fazendo minha parte. — Certo. — Já vendi o carro de Jenny e o caminhão de Mike. O corretor me ligou de Brookings e disse que já conseguiu um comprador para o imóvel. Estou negociando isso agora, ao mesmo tempo que cuido dos detalhes do fundo de investimentos que faremos para Sophie. As contas continuam chegando, e preciso trabalhar, caso contrário... Rowe ficou muito sério, e seu olhar desviou-se para a janela, avistando o jardim coberto de neve. — O que eu quero dizer é que não tenho tempo de ficar brincando de fazer bonecos de neve. Meredith parecia irritada o bastante para gritar quando tirou o prato de sopa do forno, empurrando-o em direção a Rowe como se estivesse pronta para uma batalha. — Sabe de uma coisa, Rowe? Talvez você devesse tentar fazer isso algum dia. — Tentar o quê? — Fazer bonecos de neve. — Ah, pelo amor de Deus, Meredith! — Fale baixo! Sophie pode ouvi-lo. — Nós estamos tendo uma discussão, não é? É o que parece para mim, e sempre ergo a voz quando discuto. Decerto não pode esperar que mesmo com ela aqui... — Posso sim, Rowe. Os dois encararam-se até que ele, por fim, capitulou, em silêncio. — Não era isso que eu queria dizer, Mer. Quer dar uma olhada nisto? Talvez a faça sentir-se melhor. Colocando a mão no bolso da calça, Rowe retirou dois folhetos, colocando-os sobre o balcão. — Estive pesquisando as melhores escolas para Sophie frequentar no ano que vem. Selecionei duas: Thompkins e Brailey. Creio que qualquer uma das duas será excelente. Estão muito bem equipadas para cuidar de crianças superdotadas. Ambas possuem um conselho de orientadores, psicólogos... — Rowe, ela apenas vai para o jardim-de-infância. — Eu sei. — Então o que há de errado com a escola aqui do bairro? — Para ser franco, nem cheguei a ponderar a respeito. — Por que está fazendo tudo isso? — Porque precisava ser feito. — Rowe... — Acreditei que era o melhor. Que uma escola em tempo integral... — Um internato?! — Você precisará de um descanso. — Eu? Bem, eu... eu... — Você disse que Sophie precisaria de amigos. — Sim, mas... — Por enquanto poderemos levá-la para um lugar que existe em Wheaton, a cerca de oito quilómetros daqui. — Oito quilómetros?! Ela tem apenas quatro anos! Para Sophie, essa distância é quase como a metade de uma volta ao mundo. — Esperava que você a levasse, Mer. Não imaginei que a menina fosse sozinha. — Você está sendo superprotetor. — Sim, estou. Veja — ele murmurou, indicando um dos folhetos em particular. —


Eles têm todo o material de suporte. Laboratórios para desenvolver a coordenação motora das crianças em inúmeras atividades. Possuem também um laboratório de ciências para pré-escolares, um curso de introdução em computação, passeios no campo. A escola oferece seu próprio ônibus, e também um programa específico para a garotada que ainda não lê. Meredith interveio de imediato: — Sophie já está lendo. — É mesmo? — Sim. Percebi isso ao notar que ela era capaz de ler as legendas nos comerciais de tevê. — Não brinque... — É verdade! — Então temos uma menininha muito esperta, não é? — Sem dúvida. De qualquer forma, Rowe, acho que não devemos ir muito depressa com Sophie, sendo superprotetores dessa forma. Ela ainda não está preparada. — O que quer dizer com isso? — Sophie precisa nos conhecer melhor e sentir.-se confortável. Não quero pressioná-la, forçando-a a encarar uma situação tão pouco familiar. Pelo menos não tão cedo. — Mas você tinha dito... — Sei o que eu disse. Apenas pensei um pouco melhor, está certo? — Mas... — Rowe, por favor! — Meredith suspirou. — Talvez eu tenha deixado as coisas saírem de controle, por insegurança. Encare isso: você é a única pessoa em quem posso confiar aqui em Chicago. — Obrigado! — Não há por quê. Os dois trocaram olhares. — Nas últimas semanas, fico todo o tempo tentando imaginar se estou fazendo as coisas certas, ou não fazendo as melhores escolhas. — Está sendo maravilhosa, Mer. Impressionou-me bastante, juro. — Não sei... Às vezes me sinto um pouco tola por ficar rolando na neve lá fora. Também acho que li em algum lugar que isso é terapêutico. — Creio que sim. Sophie parece mais contente nos últimos dias. — Isso é bom. Como a tensão entre eles tinha diminuído, Rowe olhou para o prato diante de si. Estava faminto, e saber que Meredith preparara aquela comida estimulou seu apetite mais ainda. — Você parece esfomeado. — Eu perdi o... — Não queria ter começado uma briga hoje à noite. Estava apenas... não sei, talvez um pouco solitária e preocupada. — Meredith riu. — Talvez tenha percebido que estava com problemas quando comecei a assistir a uma novela na televisão, à tarde, depois que acabei de lavar a roupa. Rowe achou graça. — Até que não foi tão ruim, Rowe, admito, mas você corre o risco de eu gostar dessa situação e não voltar mais ao trabalho. Rowe continuou sorrindo. Estendeu o braço para apanhar uma colher e começou a comer. — Hum! Está bom!


Fitou-a de relance, notando que Meredith agora se ocupava de arrumar tudo sobre a pia. Rowe só voltou a falar depois de mais algumas colheradas. — Eu trouxe algo para você. ― Ela virou-se, surpresa. — Olhe em minha valise. Secando as mãos, Meredith cruzou o corredor em direção à biblioteca e voltou, momentos depois. — Isto? Ante o assentimento de Rowe, Meredith retirou o conteúdo da sacola de plástico vermelha da loja de livros Tailor. Logo estava segurando um volume de capa dura: Como Cuidar de Crianças. Um Guia de Sobrevivência para Pais. — Acredite ou não, é um best-seller. — Rowe a observava folhear as páginas, parando em algumas ilustrações. — Devem dizem alguma coisa aí de uma pessoa como eu. A figura paterna, ou algo do gênero. Se não me engano, li sobre homens que ficam intimidados com essa posição e acabam evitando a convivência com os filhos. Meredith encarou-o, mas pareceu hesitar antes de qualquer réplica, como se procurasse pelas palavras certas. — A descrição se encaixa, Rowe. — Ajudaria se eu dissesse que vou tentar melhorar? — Ajudaria. — Vou tentar chegar mais cedo, por exemplo. — Poderia fazer isso? — Por você, doçura, faria qualquer coisa. Meredith passou o dedo sobre a lombada no volume, bem devagar. Seus olhos pareciam sombrios, como se sua mente se debatesse em conjecturas complexas. — Rowe, desta vez, faça-o por Sophie. CAPÍTULO IX Rowe chegou em casa pouco antes das seis. Quando desligou o motor, Meredith empertigou-se no sofá da sala, ajeitando os cabelos, que tinham crescido um pouco nas últimas semanas, o bastante para lhe permitir um penteado decente. Será que Rowe iria notar? — Parece que vamos jantar mais cedo hoje — Meredith murmurou, levantando-se devagar. Sophie, que estivera entretida com um quebra-cabeça, encarou-a. Com um olhar de relance, vislumbrou as meias, que comprara com Meredith numa loja de departamentos, e sorriu. — Acha que ele vai notar? — Não sei, querida. Mostre-lhe. A menina parecia mais feliz com as meias do que com o traje de banho que lhe dera de presente. Talvez pudessem dar-lhe um gatinho. Sophie adorava gatos. "Claro, Meredith! Tudo de que você precisa agora é um monte de pêlos para limpar nesta sala." Mas seria mais uma coisa para mantê-los unidos. O animal de estimação da família. Meredith ouviu Rowe entrando pelos fundos e foi até a cozinha. — Fizemos compras por toda a manhã. — Entendo... — Rowe parecia contente. — E vamos ter vitela assada, porque Mer disse que é seu prato favorito. — É mesmo, Sophie? — As grossas sobrancelhas arquearam-se, antes que ele


lançasse um olhar para Meredith. — E com torta de cereja para a sobremesa, espero. — Parece que você é capaz de ler mentes! — Meredith sabia que Rowe iria rir ao ouvir aquilo, o que de fato aconteceu. — Conheço você muito bem, Mer. Sei o que a culpa pode forçá-la a fazer. Um som de descontentamento escapou dos lábios de Meredith. Mas, quando voltou a falar, sua voz soou bastante normal e controlada: — Vá tomar banho antes da refeição, Sophie. Rowe esperou até que a garota os deixasse a sós. — Também comprou um maiô para as aulas de natação dela, não é? Meredith arregalou os olhos. Será que aquele homem tinha um radar para ler qualquer pensamento ou ato seu? — Ei! Também sei o que a culpa é capaz de fazer comigo, Mer. Sabe que horas são? A aula em Tadpole começa às sete, e não quero me atrasar. — Como você... — Encare isso, Mer: não importa o quanto nos esforcemos para brigar, pois existe uma espécie de telepatia entre nós. Basta uma mera sugestão, uma pista e... — Rowe examinou os cabelos dela. — Já era hora de eu fazer algo a respeito disto — ela murmurou, virando-se, nervosa, para apanhar os guardanapos no balcão, notando, muito tarde, que já estavam sobre a mesa. — Sim. — Rowe colocou a valise sobre uma cadeira, aproximando-se alguns passos. — Rowe, sobre a noite passada... — Meredith, na última noite eu... Como falaram quase ao mesmo tempo, ambos se interromperam, engolindo em seco e evitando encarar-se. — Você primeiro. — Não, Rowe, você. Ambos sabiam que teriam pouco tempo antes de Sophie voltar. ― Mer... Esqueça o que aconteceu. Eu estava um pouco nervoso. Nada daquilo foi importante. ― Senti que deveria lhe dizer outra vez que eu... ― Não. ― Porém, queria ter certeza de que você compreenderia que... ― Eu compreendo. E o que me diz a respeito de irmos nadar juntos? ― O que quer dizer? ― Tive a melhor das intenções. Não quero que pense que estou brincando de ser pai apenas para agradá-la. ― Boas intenções? E quais seriam elas? ― Precisamos fazer Sophie se acostumar com a água. Jenny e Mike gostariam disso. Na verdade, comecei a pensar que quando ela for mais velha e descobrir como eles... ― Não, não diga isso, Rowe. As coisas não têm de ser assim. A morte de nossos amigos não precisa criar um medo, apenas tristeza, talvez. ― Meredith deixou escapar um suspiro. ― Tenho certeza de que Sophie ficará bem. Sei que ficará. ― E você? ― Ele a estudou com atenção, percebendo que, por mais estranho que pudesse parecer, sua ex-mulher parecia decepcionada pelo rumo que a conversa tomara. ― Também vai ficar bem, Mer? ― Estou me ajustando. ― Falando nisso... ― Rowe fez uma pausa, assumindo um ar diplomático e


relaxado. ―....tem o dia livre amanhã? Não planejou nenhuma ida ao shopping? ― Não. ― Otimo, porque me esqueci de lhe dizer na noite passada que vamos entrevistar babás. ― O quê?! ― Entrevistaremos babás ― repetiu, com as sobrancelhas arqueadas. ― Não está falando sério! ― Estou, pode acreditar. ― Em seguida, apanhou a maleta e abriu-a, retirando algumas folhas de papel. ― Aqui estão quatro currículos. Pode analisá-los depois que voltarmos da natação. Ela apanhou os papéis, olhando-os de relance. ― Uma babá, Rowe? Por quê? ― Está se saindo muito bem cuidando de Sophie, Mer, não tem nada a ver com você. ― Por um instante eu... ― Você terá de voltar ao trabalho, e então o que acontecerá? Por acaso acha que seria lógico deixá-la o dia inteiro em uma escola? Eu não acho. Esta é a coisa mais certa a fazer. ― Está se precipitando. ― E inevitável, Mer. Trata-se da progressão natural das coisas. ― Rowe, não estou pronta para isso. ― E nem eu. Entretanto, será a melhor coisa para todos nós. Aliviará a pressão sobre você e... ― Pressão? Não estou me sentindo pressionada. ― Ambos sabemos a verdade, Mer. Vitela assada, torta de cereja, bonecos de neve... Será isso mesmo o que quer? ― Você está cansado de mim! Rowe deu um passo para trás, confuso. ― Como assim? ― Eu sei como é. Mulheres que ficam em casa o dia inteiro são aborrecidas! ― Não mesmo, esqueça isso! Estou adorando cada momento das últimas semanas. ― Não me diga! ― Digo! ― Jamais em toda a vida encontrei um homem tão mentiroso quanto você, Rowe Harrison. ― Não estou mentindo. Naquele momento, o chuveiro da suíte de Sophie foi desligado, e ambos pressentiram que a menina chegaria em poucos instantes. ― E toda aquela preocupação que você... ― E daí, Mer? Qual é o problema se gosto de tê-la por perto. ― Ora, pare com isso! Só preciso de ajuda, Rowe, é isso o que quero. Há pouco tempo tinha minha identidade e objetivos. Agora parece que tudo isso ficou no passado. De uma hora para outra, acabei me tornando mãe de alguém, e sinto-me como se estivesse num abismo. "Profundo e escuro, junto com você, que brinca comigo e me atormenta. Ao lado de um homem que é capaz de tirar o chão de sob meus pés." ― É por isso que precisamos encontrar alguém para tomar conta de Sophie, Mer. Ela vacilou, lutando para manter o controle. ― Imaginei que não seríamos obrigados a nada. ― Nada.


― E se não gostarmos de nenhuma delas, Rowe? ― Não vamos precisar contratar ninguém. Aquela foi uma reação tipicamente masculina. Meredith hesitou, escolhendo as palavras certas antes de voltar a falar: ― Ainda assim, não sei. Tinha a desagradável sensação de que estava sendo destituída de seu papel de mãe substituta e mulher. E, não importava o quanto lutasse contra, já começava a se habituar com ele. ― Acho que não estou pronta para isso. Rowe encarou-a sem dizer uma palavra. Estar na casa dele, afinal de contas, provocara em Meredith uma reação, fazendo-a ver as coisas sob um ponto de vista que jamais considerara. Além disso, gostava de ver a forma como o ex-marido inclinava a cabeça para falar com Sophie, e como parecia satisfeito quando ia até o quarto ler uma história para fazê-la dormir... Tudo aquilo era muito adorável e perigoso. Por que não tinha considerado aquela hipótese antes? Por que jamais imaginara como seria ter um filho daquela união? Se fosse um menino, seria como Rowe, sempre sagaz e competitivo? Ou sendo uma garota, seria tão independente como a mãe? Meredith jamais considerara a gravidez como uma possibilidade real. Não até que Sophie aparecera em seu caminho. A menina adorável, que tinha o riso de Jenny e a natureza circunspecta de Mike. Uma mistura perfeita de seus dois melhores amigos. Lançando um olhar curioso para Rowe, estudou as feições fortes e calculou que traços gostaria que um filho dele herdasse. ― O que foi, Mer? ― Nada. ― Quando me olha desse jeito, sei que alguma ideia está se formando. ― Já disse que não é nada, Rowe. "Mentirosa!", disse a si mesma. Rowe Harrison estava em seu sangue, não podia viver sem ele. "Você e seu estúpido orgulho sempre atrapalharam tudo, transformando a convivência de ambos numa enorme confusão." Se tivesse um pingo de bom senso, diria a Rowe toda a verdade: que sentia-se confusa e que era possível que o que acontecera no passado tivesse sido um erro. E que talvez... ― Quer me falar alguma coisa, doçura? ―- Não. ― E que tal fazer algo. ― E Rowe abraçou-a pelos quadris. ― Será que este é o motivo daquele olhar curioso que me dirigiu? ― Rowe, pare com isso. Sophie... ― Fique quieta, poderei ouvir quando ela se aproximar. Sophie sempre pula o último degrau da escada com os dois pés. Não notou? Tem sido muito duro viver nesta casa com você, doçura. Depois de tudo o que compartilhamos, este estilo platônico está me matando. ― Rowe pôde sentir o aroma suave que exalava dos cabelos de Meredith. ― Quem liga para a vitela? O que eu queria agora era você. ― Rowe Harrison... De alguma forma, os seios dela haviam tocado no peito musculoso de Rowe, e aquilo doeu. Por um instante, Meredith tentou afastar-se, querendo acabar com a agonia daquele contato. Mesmo assim, sentia-se incapaz de mover um músculo. Rowe, por sua vez, sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Foi então que o som de dois pezinhos batendo no chão ressoou na sala de estar. Ele e Meredith retesaram-se, como se voltar à realidade fosse um verdadeiro tormento.


― Droga! ― Rowe gemeu, dando um passo para trás e passando os dedos entre os cabelos, num gesto nervoso. ― Será mesmo ótima a natação no ginásio, Mer. Vai ser uma noite familiar, por isso não ouse usar um maio muito cavado ou um biquini sensual. Não hoje. Eu juro, mulher, que estou a um passo de perder meu autocontrole. Pode apostar sua vida nisso! CAPÍTULO X Meredith acordou na manhã seguinte pensando no pai. Não conseguia entender por quê, mas sentia um desejo inexplicável de falar com Bob, para ouvir a voz calma e reconfortante tão familiar. Estivera tão ocupada nos últimos dias que mal se lembrara dele, mas agora não conseguia tirá-lo da cabeça. Talvez Bob soubesse como amenizar aquele descontentamento. Sempre fora assim no passado. Eram seis horas. Naquele momento, Bob devia estar colocando as botas e se preparando para tomar café, antes de ir alimentar o rebanho. Bob era um grande pai, com uma disposição incrível para ajudar e confortar as filhas. Uma verdadeira rocha. As pessoas do condado de Sanborn o consideravam um modelo. Todos haviam se acostumado com aquele riso robusto, forte, e com a estranha mistura de firmeza e ternura com que Bob sempre cuidara das gêmeas. Era algo de se admirar. Quase inacreditável. Bob se mostrara capaz cuidar de três crianças, e ainda assim trabalhar numa propriedade de dois mil acres. Por um instante, Meredith lembrou-se da carta que recebera na véspera, e então tentou afastar rápido aqueles pensamentos. "Esqueça isso, apenas esqueça, Mer!" Entretanto, o desejo de ouvir Bob outra vez a fez sair da cama. Depois de vestir um robe e calçar as pantufas, decidiu ir até a cozinha, para ligar de lá. Discou o número, e logo ouviu-o responder. ― Pai? ― Suas mãos tremiam ao segurar o fone com força contra o rosto. Não queria chorar. Tinha certeza disso. ― Não posso dizer que seja uma surpresa. Como vai indo, querida? ― Muito bem... ― A emoção tornava difícil se expressar. O que estava acontecendo com ela? ― Está fazendo frio por aí? ― Talvez cinco graus. É possível que chova. Era uma particularidade do pai rancheiro sempre se preocupar com o tempo. A recordação fez com que ela sorrisse. ― Estão prevendo tempestades de neve por aqui. ― Verdade, papai? Espero que não durem muito e que a primavera chegue logo. ― Eu sei. Seguiram-se alguns minutos de silêncio torturante. ― Devo supor que acordou cedo para fazer o desjejum para Rowe? Meredith queria protestar, dizer que mulheres não faziam mais esse tipo de coisa. Mas, na verdade, seus olhos desviaram-se para a cafeteira, forçando-a a se imaginar como uma verdadeira dona de casa. Por um segundo, pôde até sentir o agradável aroma do café fresco. ― Acho que estava mesmo pensando nisso. ― E como vai indo a pequena, Mer? ― Otima. Nós a levamos para nadar, ontem. ― Não brinque! Vocês três foram se divertir?


― Sim, você pode imaginar isso? ― Claro que posso, madame. ― Eu me preocupo com Sophie às vezes, papai. Ela é calada, e um pouco tímida, mas... É que... quero dizer... ― A criança ficará bem, querida. As vezes elas são retraídas. Apenas seja paciente. Mas lembre-se sempre de estar presente para ajudá-la, entendeu? Tanto você quanto Rowe. ― Farei isso. Nós faremos. Sophie é maravilhosa, e, acredite ou não, estou me ajustando a toda a situação melhor do que pensava. Papai... ― Fale, meu bem. ― Às vezes, quando olho para trás e vejo o que aconteceu, não sei como seria minha vida sem ela. Bob riu. ― Sim, eu entendo. As crianças podem provocar esse tipo de reação. ― É quase como se eu fosse mesmo a mãe dela. Meredith poderia apostar que naquele momento o pai estava sorrindo do outro lado da linha. ― Fico feliz, querida. Pode estar certa disso. ― Entretanto, há toda essa responsabilidade, esse amor e... ― São os grandes desafios que nos dão os grandes prêmios, não é? ― Acho que sim. ― Meredith fez uma pausa. ― Sophie é uma garota maravilhosa, papai. ― Sem dúvida. ― Oh, papai... ― Tenho de lhe dizer uma coisa, Mer. ― Sim? ― Sempre soube que você seria a melhor das mães. Mesmo quando dizia que nunca teria filhos, e seria vice-presidente da Whitcomb e... O corpo de Meredith ficou tenso quando ela lembrou-se da iminente volta ao trabalho na loja de Chicago. ― Isso ainda não está fora de questão, querido. ― Talvez não. Mas você possui instinto de preservar e proteger. E ele combina muito bem com você, Mer. Para lhe dizer a verdade, sempre admirei essa sua qualidade. Meredith teve de respirar fundo, tentando assimilar aquele profundo voto de confiança. ― Você sempre sabe dizer as palavras certas, não é, papai? Bob achou graça, e não respondeu à questão. ― E Rowe? Como vai ele? ― Você sabe... ― Imagino que esteja trabalhando como um louco. Tem viajado muito? ― Não... ― Meredith retirou o filtro da cafeteira e jogou-o no cesto de lixo. ― Está evitando esse tipo de coisa até que estejamos mais organizados por aqui. ― Ah, organizados... Meredith colocou agora o líquido quente na garrafa térmica. ― Ainda estamos aprendendo como é educar uma criança. Estamos nos adequando a nossas novas responsabilidades. ― Entendo. ― Foi ideia dele levar Sophie para nadar na noite passada. ― Não diga?!


― Sim, Rowe até mesmo ensinou-a a mergulhar antes que fôssemos embora. ― Bem, pelo que posso me lembrar, se há alguém capaz de atrair a atenção de uma garota é Rowe. Meredith sorriu. Se Bob apenas desconfiasse dos sentimentos que aquele homem era capaz de provocar em uma mulher... ― Sim, acho que é isso mesmo. Rowe até queria entrevistar algumas babás hoje. Disse-me que isso me daria algum tempo, mas não sei. Depois de ontem, resolvemos postergar isso um pouco. Ainda me sinto com se precisássemos nos conhecer melhor. Nós três. E uma pessoa estranha na casa... Meredith deu de ombros, como se o pai pudesse ver-lhe o gesto. ― Para mim, é a atitude correta a adotar por enquanto, filha. Melhor esperarem um tempo. Não há sentido em complicar. ― É o que penso, e como nos sentimos. Por alguns instantes, nenhum dos dois disse nenhuma palavra. ― Bem, então... quer mais alguma coisa, meu anjo? Ou apenas ligou para jogar um pouco de conversa fora? Como sabe, tenho um rebanho esperando para matar a fome. ― Era só isso, papai. Apenas queria ouvi-lo. Estava com saudade de você. ― Foi bom ouvi-la, querida. E, por favor, tome conta daqueles dois, entendeu? ― Vou fazer isso, prometo. Ao desligar, Meredith levou a mão à barriga e imaginou como seria sentir-se uma mãe de verdade, nos menores detalhes. Desde o primeiro momento, ao saber que um bebê crescia dentro de seu ventre. Durante tais momentos, uma mulher devia ficar muito preocupada com a reação de seu parceiro. Será que ele ficaria feliz, orgulhoso, ou apenas preocupado, tenso e um pouco descrente? A incerteza das mudanças nas formas... Como seria ter os dedos do parceiro tentando sentir os primeiros movimentos do bebê? Será que Rowe lhe daria toda aquela atenção, compartilharia daquelas mudanças? Se ela, Meredith, um dia resolvesse levar uma gravidez a termo, sabia que só poderia haver um pai para sua criança: Rowe. Perguntava-se como seria carregar o filho dele dentro de si. Não fazia a menor ideia. Só sabia que, pela primeira vez, aquele seu lado estava bastante curioso. ― Meredith? ― Ela virou-se. ― Sim? ― Você está bem? O olhar penetrante de Rowe baixou devagar até a mão que permanecia inerte sobre a barriga. ― Sim, ótima. Fiquei preocupada com papai, só isso. Ouvi no noticiário que deve nevar na região e quis saber como iam as coisas. ― Você ligou para Bob? ― Sim. ― E preparou o café? ― Preparei. Pegue aqui. ― Estendendo o braço, passou-lhe a cesta de pães. ― Deixe-me colocar um pedaço ou dois na torradeira para você. As sobrancelhas de Rowe arquearam-se de leve ao observar os gestos acanhados dela. Por que Meredith tinha de fazer aquilo? Afinal de contas, ele era sem dúvida capaz de cuidar de seu próprio desjejum. ― Muito obrigado. ― Rowe foi até o armário e apanhou duas canecas. Ela sorriu, apesar dos esforços para não fazer isso. Pegou as facas para a manteiga e o creme de amendoim.


― Com limão e açúcar, como sempre? ― Claro, Mer. ― Meu Deus! Você tem umas preferências alimentares terríveis, Rowe. Como todas as pessoas, devia preocupar-se mais com a saúde, agora que tem uma criança para cuidar. Rowe achou graça, e então procurou por algo no bolso da camisa. ― Deixe isso pra lá. Encontrei isto misturado na correspondência, ontem. Acho que você não deve ter visto. O envelope que Rowe lhe entregou era velho, decorado com um símbolo de paz, representando uma pomba. Na certa, uma relíquia dos anos sessenta. ― Sim, vi. Apenas me esqueci de pegá-lo. ― Ao dizer aquilo, Meredith fitou de relance a letra familiar, antes de virar-se para o balcão. ― Não vai abri-lo? ― Mais tarde. ― Por quê? Posso apostar que não vê sua mãe há meses e... ― Anos. ― Pensei que vocês fossem se encontrar no último verão, Mer. Isso não aconteceu? Meredith meneou a cabeça, concentrando-se em tirar o pão da torradeira e evitando encará-lo. ― Aquilo apenas não funcionou. ― Mas... ― Rowe fez um gesto indicando a carta abandonada sobre a mesa. ― Talvez seja algo importante. ― Não acredito nisso. Ao apanhar a torrada, Meredith amaldiçoou o fato de não poder suportar nenhuma perspectiva de reconciliação com sua mãe. ― Ai! Está quente! ― Largou as fatias sobre o prato e levou os dedos à boca. ― Suponho que pretende esperar até que eu tenha ido antes de lê-la. ― Não. ― Meredith virou-se, apontando a faca de manteiga para Rowe. ― É provável que eu nunca abra aquilo. Então, esqueça, está bem? ― Ora, vamos lá! ― Não. Não farei isso até que me sinta à vontade. E às vezes não me sinto bem por semanas. ― Mer, acho que ainda não a perdoou por aquele incidente em nosso casamento. Meredith espremeu o limão em uma das canecas, e então colocou o açucareiro sobre o tampo. ― Não mesmo, Rowe. Depois do divórcio, deixei de me incomodar com o fato de Laureen não ter ido à cerimónia. E a minha formatura. E por sempre esquecer-se de mandar cartões, mesmo em nossos aniversários, ou... ― Mer... ― Fique fora disso, Rowe, estou falando sério. Isso é entre ela e mim. ― Será que não percebe que está apenas fazendo seu sofrimento piorar? ― É mesmo? Bem, mas é meu sofrimento, está bem? ― Pelo amor de Deus, Mer! Laureen é sua mãe! Cresça! Meus pais também não eram perfeitos, mas não passei a ignorá-los ou hostilizá-los por terem escolhido viver na Europa, quebrando o contato comigo. Depois de colocar o prato com as torradas sobre a mesa, Meredith sentou-se na cadeira do lado oposto ao dele. ― Quer que eu lhe diga um pequeno segredo, Rowe? ― perguntou de maneira


cândida, sem um traço de. malícia. ― Algumas vezes acho que tenho um prazer perverso em deixar as cartas dela jogadas por aí, apenas vendo-as, como se implorassem para ser abertas, e sabendo que tenho o poder de ignorá-las. Virar minhas costas e às vezes esquecê-las por dias, até semanas, é uma delícia. Não sei se ajo assim de maneira intencional. Mas, certo ou errado, creio que é a forma que encontrei de me vingar. ― Ah, doçura... ― Eu sei, isto soa terrível. Porém, é minha vez de dar as costas a Laureen. Depois do que ela fez para nós e a Bob... ― Mordeu o lábio inferior. ― Não posso perdoá-la, Rowe. Já tentei, mas isso não é possível. Rowe parecia pensativo. Seus imensos olhos azuis continham um ar distante quando os baixou para a caneca. ― Sinto muito, Mer. ― Sei disso. Sempre reagiu assim, desde o começo. Lembra-se de quando lhe contei tudo pela primeira vez? ― Sim. Acredito que me apaixonei por você um pouco mais naquela noite. Queria poder fazer algo. Adoraria... fazê-la sentir-se melhor. ― Eu percebi. Por outro lado, achei que confiar em você nos tomaria mais próximos. Talvez tenha me enganado, não é? ― Não, agora sei que foi apenas honesta. ― Sinto muito, Rowe. Sempre tive sua simpatia sobre o assunto, mas desejava muito mais de você. ― Mas, Mer, vê-la ainda sofrendo deste jeito... ― Está tudo bem. ― Meredith ergueu a mão num gesto decidido, antes que Rowe pudesse dizer mais alguma coisa. ― É verdade. Quando me recuso a abrir esta carta, tenho a sensação de que nunca mais vou me deixar ferir por ninguém. As implicações do próprio divórcio dos dois foram ignoradas diante daquelas afirmações. ― Você leva isso aos limites da paranóia, Meredith. E se estiver esperando demais de Laureen? ― Pense nisto Rowe: nada é mais importante ou devastador do que virar as costas para alguém que o ama. Isso nunca vai me acontecer outra vez, eu juro. Rowe segurou-a pelo pulso. ― Tudo isso é muito triste, Mer. O pior é que existe algo dentro de mim que ainda faz com que eu queira fazer parte de seus dias, mesmo depois de tanto tempo. Piscando, Meredith engoliu em seco, sentindo que Rowe estava sendo sincero. ― Está tudo bem, Rowe. ― Ei, veja! ― Ele esboçou um sorriso de estímulo. ― Eu preciso ir, já estou atrasado. Que tal se formos hoje àquela pizzaria sobre a qual conversamos? Um colega do escritório me disse que é ótima, e acho que Sophie vai gostar. E então? Os olhos de Meredith brilharam. ― Sim, claro! ― Então está marcado: às seis da tarde. Rowe arqueou as sobrancelhas, e, parecendo distraído, levantou-se, apanhando a valise. Ao passar pelo balcão, voltou a olhar de relance para o envelope. ― Coloque isso numa gaveta, está bem? Apenas para que eu não tenha de vê-lo. Meredith assentiu, à beira das lágrimas. Um instante depois, sua mão cobriu a letra familiar da mãe. Rowe saiu, deixando-a sozinha no silêncio, livre para ponderar e refletir sobre todos os fatos que a deixavam tão indecisa. Meredith imaginou que o ex-marido já devia estar na esquina quando, enfim,


apanhou o envelope, abrindo-o devagar. Depois de terminar a leitura, cruzou os braços, repousando a cabeça neles. Parecia que alguém tinha lhe tirado todo o ar, por isso respirava com dificuldade. Então, rendendo-se à dor, começou a chorar. Então, deu-se conta de que precisava se recompor antes de encontrar com Sophie. Sim, era o que devia fazer. Manter-se forte e firme. Por Sophie e por Rowe. Se conseguisse se concentrar naquilo, tudo correria bem. Ela podia fazer aquilo. Sempre pudera realizar qualquer coisa por Rowe. CAPÍTULO XI Mais duas semanas encantadoras se passaram. Rowe não disse uma palavra a Meredith sobre a carta, e ela também não fez menção alguma, como se fosse alguma parte,de seu passado que devia ser convenientemente esquecida. Havia momentos em que se tornava tão óbvio que queria agradar a todos que pouco a pouco a vida de Rowe começara a mudar. A perspectiva de um longo e agradável verão aumentava todas as suas esperanças. Em vários aspectos... ― Ei, queridas! Há alguém em casa? ― Rowe entrou pelos fundos, exultante. Pela primeira vez na vida, deixara a valise no escritório sem sentir nenhuma culpa. ― Olá, Rowe! Adivinhe... Nós acabamos de fazer biscoitos de chocolate! ― Não?! Sophie vestia uma jardineira jeans, e havia um pacote com algumas sementes sobre uma das cadeiras da copa. Rowe colocou sobre a mesa os vídeos de desenhos animados que pegara na locadora, e apontou para o estojo de ferramentas de plástico com o qual a menina brincava. ― Isso é novo, não é? ― Sim. Vamos fazer um jardim. ― Não brinque... ― E esta é minha roupa de jardineira. ― Entendo. ― Meredith disse que vai me transformar numa fazendeira. ― Verdade? ― Sim, como o pai dela. Bob é um rancheiro, você sabe. ― Já ouvi falar. ― Acho que ele também tem algumas vacas e cavalos. Algum dia Mer vai me levar para cavalgar, mas teremos de usar trajes diferentes na ocasião. ― Olhe, Sophie, acho que ainda é muito cedo para isso. ― Afetuoso, Rowe apanhou a menina nos braços, que inclinou-se para trás, rindo. ― Para quê? ― Para uma roupa de montaria. ― O que Rowe está dizendo, Sophie ― Meredith interveio, com seu melhor sorriso ― é que o cartão de crédito dele não pode aguentar mais outro de nossos passeios de compras. ― Eu não disse isso! ― Bem, então deveria. Os preços dos departamentos infantis são assustadores. Rowe achou graça, e soltou a menina no chão, mostrando-lhe um vídeo. ― Trouxe isto para vermos mais tarde. ― Antes que a menina pudesse pegá-lo, Rowe cobriu a capa. ― Não... É este aqui.


Rápido, ele mudou as fitas, notando que Meredith notara seu embaraço. ― Aquele outro é para mais tarde. ― Ah, entendi, Rowe. É apenas para adultos. ― Sim. Teve oito indicações para o Oscar. O comentário defensivo fez Meredith gargalhar. Mesmo assim, permaneceu calada. "Que coisa! Eu não deveria ter sido tão óbvio." ― Parece divertido ― Meredith comentou alguns segundos depois, abaixando-se ao lado da cadeira para encarar Sophie. ― Querida, por que já não deixa seu vídeo pronto para depois do jantar? Aposto que vai querer ir para a cama cedo. ― Mas... Antes que a menina pudesse fazer qualquer protesto, Meredith a interrompeu: ― Oh, oh... Amanhã é sábado, e Rowe vai estar em casa. Precisamos aproveitar bem o dia, não acha? Um ar pensativo cruzou as feições da garota, como se ela tivesse segundas intenções. ― Certo, vou cuidar disso. ― Sophie caminhou com passos lentos para a sala de estar. O olhar de Rowe a seguiu. ― Nossa, você lidou muito bem com a situação! ― Estou aprendendo. Deve-se agir devagar, mas com firmeza. Está pronto para a refeição? ― Acho que sim. Diga-me, o que teremos antes dos biscoitos de chocolate? ― Que acha de macarrão com molho de queijo? Houve uma troca de olhares cúmplices e sorrisos. No íntimo, porém, Rowe sabia que estava faminto, mas de uma coisa muito diferente... Passava da meia-noite quando a situação chegou ao ápice, a um ponto onde não havia mais volta, quando se devia tomar uma decisão de vida ou morte. Era necessário encarar o medo e encontrar a coragem que transformava um homem comum no herói da cidade. Meredith estava estendida na poltrona, com uma tigela de pipocas no colo. ― Onde encontrou esse filme, afinal de contas? ― Por quê? ― Porque tem de tudo nele. Ação, aventura e sexo. ― Acho que você está exagerando um pouco, Mer. Talvez esteja assistindo televisão demais. Não é tão bom assim. Meredith ignorou o comentário, ajeitando-se e sabendo que estava sendo observada em cada pequena ação. ― Aquela foi a cena de amor mais erótica que já vi, Rowe. ― Qual? Eles nem mesmo mostraram... ― Não, depois. ― De qual está falando? ― Da hora em que estavam conversando. A maneira como ele foi carinhoso ao ajeitar as cobertas sobre a moça, e depois deitou-se a seu lado. Rowe desligou o aparelho com o controle remoto, ao mesmo tempo que a encarava. ― Desculpe-me. ― Ei, o que está fazendo, Rowe? ― Conte-me mais. ― Está quase acabando, quero ver o fim. ― Isso pode esperar. ― Rowe deixou o olhar passear pelas linhas arredondadas de Meredith, que se insinuavam sob o fino tecido da camiseta.


― Rowe, pare com isso. Ele, relutante, ergueu a cabeça. ― Vá em frente. Diga-me o que houve de tão fascinante naquela cena. Meredith hesitou, sentindo, por instinto, um sinal de advertência. A proximidade com Rowe estava lhe causando aquela tensão. A maneira como ele cruzava as pernas e procurava o contato físico... Algo estava para acontecer, e muito rápido. ― O que quis dizer é que aquilo é tudo o que uma mulher espera que aconteça depois que faz amor ― revelou, um tanto sem graça. ― A forma como sempre desejamos que seja. Com carinho, ternura, gestos simples que nos fazem sentir confortável e protegida. E então, depois, uma pequena conversa. ― Mer, eles estavam falando sobre... ― Eu sei, eu sei. Mas o que importa foi o gesto dele. O que há de tão errado em gostar disso? ― Céus! Quer dizer que todos esses anos eu estive fazendo as coisas erradas? ― Não disse isso! ― Nem precisava! Sei muito bem somar dois mais dois. ― Rowe, apenas quis que... ― Meredith meneou a cabeça, devagar, tentando conter o riso. ― São os pequenos detalhes que me comovem. Como a maneira que o protagonista sempre tirava os cabelos do rosto dela. ― Os seus estão curtos demais para caírem sobre a testa. ― Eu sei. Não me lembre disso. Cortei-os num impulso. ― Já lhe disse alguma vez que gosto de atitudes impulsivas? Houve uma pausa. ― Como aquelas velas? ― Na verdade, acho que fui muito óbvio. ― Por quê? Comer macarrão à luz de velas, em sua opinião, afinal, é impulsivo ou óbvio? Inclinando-se para a frente, Rowe se aproximou, tomando-a pela mão. ― Foi o meu jeito de dizer que gostei de ter você de volta em minha casa, Meredith. ― Admito que foi uma boa ideia essa de colocar-nos todos juntos, por algum tempo. ― É mesmo? ― Não doeu para ninguém. Rowe continuou a acariciá-la, chegando a suas mechas negras. ― Não mesmo? Que bom, Mer! É ótimo saber que ninguém sairá ferido. "Apenas meu coração, que não suportará ter de se separar de você mais uma vez, Rowe. Pode ser que isso sirva para diminuir a tensão entre nós. Ou para aumentá-la." ― Acredita mesmo nisso? ― Ora, vamos lá, Rowe! ― Mais uma vez, Meredith ajeitou-se na poltrona, tentando afastar-se do poder magnético daquele contato. ― Você sabe o que estou querendo dizer. ― Não. Esclareça-me. O que acha de termos uma conversa como aquela do filme? ― Nós não podemos. Nunca fizemos isso antes. ― Está enganada. Você pode não lembrar. Faz dez anos, quando ainda era uma caloura na faculdade, usando seu anel de formatura do colégio. ― Eu não sabia que esta iria ser uma conversa nostálgica. ― Há diversas coisas sobre mim que nem sequer imagina, meu anjo. ― Não fale como se soubesse tudo a meu respeito. ― Meredith encarou-o, beligerante. ― Você disse que nunca... ― Pare com isso, Mer, não quero brigar. A química entre nós sempre pareceu tão natural quando estávamos juntos, não é mesmo? ― Rowe, nós não devemos... ― Ela respirou fundo, mas mesmo assim as palavras soaram trêmulas.


― Não sei por quê. Os segundos passaram num silêncio tenso que pareceu durar uma eternidade. O único sinal de movimento na sala era a luz do painel do vídeo, que continuava piscando, azulada. ― Estamos mais velhos. ― Apenas três anos a mais do que quando nossos caminhos se separaram, Rowe. ― Somos adultos. ― Por isso devíamos nos conhecer melhor, sem alimentar ilusões. Mesmo assim, Meredith sentia um desejo incrível de ir para a cama com o exmarido, abandonar toda a cautela e atirar-se naqueles braços fortes outra vez. ― Deixe que eu me redima, querida. Quero ouvir o que eu fazia de errado, e você pode me ensinar a agir como devo. Rowe esperou pela reação de Meredith, e então aproximou-se ainda mais. A ponta de seu nariz tocou-a no pescoço, fazendo-o sentir o doce e feminino perfume. ― E, se eu não estiver fazendo nada errado, acho que posso consertar muita coisa do que aconteceu no passado. ― Ah, Rowe, pare com isso! Está sendo cruel comigo! ― Como viver a seu lado e não tentar, Mer? Eu te quero tanto... Não fuja de mim agora. Meredith gemeu e entregou-se, sentindo a pressão do corpo másculo e envolvendoo com as pernas. Os dois rolaram para fora da poltrona, parando sobre o tapete felpudo. Quando sentiu o peso de Rowe sobre si, porém, Meredith lembrou-se do bebê que imaginara ter em seu interior e desejou-o com firmeza, mais do que qualquer outra coisa em sua vida. O calor entre eles era incrível. Meredith sabia que poderia satisfazê-lo totalmente do ponto de vista físico. Mas aquilo não iria resolver seu grande conflito interior, nem as diferenças de ambos. ― Rowe? ― ela murmurou, virando a cabeça para evitar encará-lo. ― Nós temos de parar com isso. ― Doçura, por favor... A mão dele insinuara-se sob a camiseta, e se livrava do sutiã, deixando exposto o mamilo intumescido. Meredith sentiu uma volúpia indescritível. Um desejo tão grande, tão profundo, que a fez pensar num átimo tudo o que ainda poderiam ter, estando lado a lado. ― Não estou tomando pílulas, Rowe. ― Isso não importa. ― Rowe arfava. ― Contudo, não é uma boa hora para mim. Eu poderia ficar grávida. ― E? ― Nunca fiz planos para isso. Rowe suspirou, tentando conter o tremor que o contato com as curvas femininas lhe causava. Lutava consigo mesmo para se acalmar, e o esforço imenso fez com que suas palavras mais parecessem um sussurro: ― Esses eram seus planos no passado, Mer. Eu os conheci muito bem antes. Mas, de alguma forma, eles já não me interessam nem um pouco. O choque e a surpresa com o que Rowe disse atingiu-a com toda a força. Seus planos não lhe importavam? Empertigando-se, tentou sentar-se. ― O que você disse? Rowe pigarreou e apoiou-se sobre o cotovelo. Seus olhos fecharam-se, resignados. ― Que nada disso tem mais importância para mim. Veja bem, houve diversas situações entre nós que não fazem o menor sentido nas atuais circunstâncias. ― Rowe,


por fim, ergueu as pálpebras, e, quando se acomodou, sentando-se, fitou-a com a expressão que mais parecia a de um garoto impaciente. ― Por isso, não me faça perguntas difíceis. Os momentos se passaram, lentos. De tempos em tempos, cada um deles desviava o olhar para a tela escura da tevê, como se tentasse evitar, de alguma forma, o embaraço que a situação lhes causava. ― Meredith? ― Sim? ― Não se preocupe com o que poderia ter acontecido esta noite. ― Rowe, eu sinto... ― Não, não diga que sente muito também. ― Mas... ― Sabe por quê? Porque acho que, de alguma maneira, no futuro, nós vamos conseguir colocar tudo em seus devidos lugares, Mer, chegando a um ponto que jamais nos julgamos capazes de atingir antes. Pode apostar nisso, doçura. CAPÍTULO XII O domingo amanheceu quente. Meredith apanhou o jornal e guardou-o dentro da sacola. Poderiam lê-lo mais tarde, depois de uma manhã de brincadeiras no parque e do planejado piquenique. ― Apenas uma cesta de comida? ― Rowe observou ao sentar-se no banco do motorista e ligar o motor do carro. ― Sim, mas pensei um pouco melhor e acabei trazendo mais patê numa sacola, junto com um molho de coquetel. Ele encarou Meredith por um instante. ― Nada de hambúrgueres ou linguiças? Nem um pouco de carvão, ou uma grelha? ― Não. Nada tradicional. Eu queria preparar algo memorável. Rowe sorriu, e eles partiram, com uma Sophie esfuziante no assento de trás. ― Sabe, Meredith, uma das coisas que sempre admirei em você foi a forma como gosta de fazer coisas diferentes o tempo todo. ― Sim, sempre faço isso, não é? ― Faz, Mer. Você tem o dom. O percurso até o Parque Mathias levou cerca de meia hora. Chegaram cedo, e por isso puderam escolher uma boa mesa. Meredith deixou a tarefa a cargo de Sophie, que acabou preferindo um lugar às margens do lago, onde patos de várias tonalidades nadavam com tranquilidade. Por sorte, Meredith lembrara-se de levar um pouco de pão para alimentar as aves, e entregou o saquinho para a menina, que assim ficaria entretida por algum tempo. Depois de descarregar o automóvel, Rowe e Sophie foram dar uma volta. Brincaram no playground ao lado por algum tempo, e por alguns minutos desapareceram de vista. Mas logo os três estavam juntos de novo. ― Vocês precisam fazer tanto barulho? ― Meredith perguntou, erguendo o queixo de maneira imperiosa. ― Alguém vai acabar chamando a segurança do parque para vir atrás de vocês. ― E qual seria o motivo? ― Perturbar a paz, por exemplo, Rowe. Sem lhe dar atenção, Rowe e a menina correram para labirinto de canos metálicos, dentro dos quais os gritos dos dois eram amplificados ainda mais.


― Venha nos seguir, Mer! ― Não. ― Eu a desafio. ― Rowe... ― Desafio duplo. Nós a desafiamos. ― Rowe Harrison! ― Gatinha medrosa! O riso agudo de Sophie ecoou dentro do cano galvanizado. Meredith conteve um sorriso, e decidiu mudar de tática. Aproximou-se de uma das aberturas. ― Vocês estão presos aí ou o quê? ― É, é isso mesmo. ― Ora, não sei o que fazer para ajudá-los. ― Eu sei, Mer... ― Rowe Harrison, se não sair daí neste instante, terei de tirá-lo com minhas próprias mãos. ― Oh, querida, adoraria que isso acontecesse! ― As gargalhadas de Sophie aumentaram. ― Socorro! Socorro! ― Rowe começou a gritar, e Sophie imitou-o. ― Escutem aqui... Seguiu-se uma cacofonia de risos, que a interrompeu. Logo após, duas cabeças apareceram. ― Querem que eu lhes mande o lanche por uma corda para que comam aí? Por um instante, não houve resposta. ― Ei, Mer! ― O quê? ― Ela ouvia com atenção, notando que o tom de voz de Rowe mudara de súbito. ― Venha cá. ― Por que eu deveria? ― Bem... ― Alguns sussurros ininteligíveis foram ouvidos. ― Está confortável aqui dentro. ― Vocês estão testando minha paciência, meus caros. Até quando vão continuar se fazendo de tolos? Mais uma vez, a única resposta que veio do interior do labirinto foram murmúrios. ― Mer, nós temos algo para você ― Sophie revelou. ― Queremos que venha aqui para pegar. ― Certo. ― Venha logo! ― Se essa é a ideia que vocês fazem de piada... ― Não, nada disso. Logo saindo da penumbra, Rowe aproximou-se, seguido de perto pela adorável criança, que segurava algo, sorrindo. ― Lembra-se daquela conversa que tivemos sobre pequenos gestos, quando assistimos àquele filme? O olhar de Meredith concentrou-se em Sophie, procurando por uma pista. Mas a menina desviou a cabeça. ― Sim. ― Nós dois fizemos compras, ontem. ― Assim que Rowe disse isso, Sophie estendeu uma pequena caixa coberta de veludo. ― E escolhemos isso juntos. É um agradecimento por tudo o que tem feito por nós nestes últimos dois meses, quando deveria estar se recuperando.


― Abra! ― Sophie estimulou-a, mas Meredith hesitou. ― Vocês sabem... não deviam... ― Abra, Mer. Ao abrir, Meredith encontrou em seu interior um anel de ouro, no qual estava gravado, em sua parte interna: "Para uma mulher especial". A jóia tinha incrustado um diamante. Meredith respirou fundo. Rowe achou graça, e então inclinou-se para a frente, beijando-a no rosto. ― Congratulações, minha dama. Você é rainha por um dia. ― Você gostou? Gostou? ― O questionamento insistente de Sophie a fez voltar à realidade. ― Claro, é lindo. Obrigada a vocês dois. Em seguida, ajoelhou-se para receber um beijo da garota. Sophie abraçou-a. ― Grande! Agora posso alimentar os patos? ― Sim, o saco de pão está sobre a mesa. Rowe e Meredith ficaram vendo-a afastar-se. Alguns segundos se passaram antes que ela conseguisse encará-lo. ― Oh, Rowe, você não devia... Ele silenciou-a, tirando uma segunda caixa do bolso e colocando-a na mão de Meredith. ― Isto é para que use de hoje em diante. Para lembrá-la de quão especial você é, está certo? ― Não posso acreditar! Tratava-se de um colar pesado e, sem dúvida, bastante caro. Por alguns instantes, seus dedos brincaram com as jóias de ouro. Rowe deu de ombros, fingindo inocência. ― Também não posso acreditar que fiz isso, mas algumas coisas boas na vida não precisam ser entendidas. ― Hesitou, como se tentasse escolher as palavras adequadas. ― Acho que você é uma das coisas boas da vida, doçura. A maneira como ele falou a fez sentir-se desconfortável. Era como se aquele momento fosse mais íntimo do que aquele que haviam compartilhado na sala de estar, duas noites antes. Mas agora a confrontação mudara de aspecto. Sobretudo porque não se baseava em algo como o sexo. Não, aquilo era diferente. E do mesmo modo intenso e apavorante. Entretanto, aquele tipo de gesto muitas vezes podia transformar boas intenções numa grande dose de sofrimento ou dor. A tristeza de saber que um dia se perderia a pessoa amada... Ou então, talvez, arrependimento no futuro, por não ter tomado as decisões certas. Meredith não sabia se poderia sobreviver se se deixasse envolver por aquele homem uma segunda vez. Podia ser que não soubesse muito bem o significado daquilo que ele lhe oferecia. ― Você fala como se estivesse me comparando a uma garrafa de cerveja. ― O esforço de Meredith para parecer sarcástica foi um fracasso retumbante. As sobrancelhas de Rowe arquearam-se numa expressão espantada. ― Não era essa minha intenção. Meredith ficou estudando o lindo colar, sentindo-se meio tola. Considerou a ideia de recolocá-lo na caixa, e então pensou melhor. ― Rowe, se eu o usar hoje, talvez tudo mude entre nós. E sabe por quê? Porque eu não gostaria de perder isto, nem nada mais em minha vida. ― Então talvez devamos mesmo colocá-lo de volta na embalagem.


Os olhos de Meredith ergueram-se para fitá-lo. Estava preocupada por tê-lo irritado. ― Porque, neste instante, Mer, estou com uma tremenda vontade de rolar nesta grama com você. Os dois se aproximaram e, abraçados, voltaram para a mesa de piquenique. Sentaram-se juntos, como companheiros felizes, vendo Sophie brincar na margem do lago poucos metros adiante. Rowe decidiu logo depois, ler o jornal de domingo, e separou alguns cadernos, deixando outros para que Meredith também pudesse se entreter. Instantes depois, Rowe reparou que, com o caderno de finanças na mão, ela parecia pálida como uma folha de papel. ― Mer, o que foi? ― É a Whitcomb. Eles estão em dificuldades financeiras. Parece que a diretoria diz que o mercado está saturado e... eles estão demitindo, Rowe. Parece que duas mil pessoas, de todas as unidades do país, perderão o emprego amanhã. ― Tudo bem, querida, você sabe que nesta época do ano as vendas caem muito. Acontece em todas as primaveras. Eles demitirão alguns vendedores e voltarão a contratá-los em novembro, pode apostar. Meredith piscava, tentando manter a compostura. ― Como isso pode estar acontecendo? E eu, sentada aqui, com esta perna ferida, afastada há meses da companhia! ― Meredith, pense nisso: você e eu sabemos que aquela empresa estava crescendo rápido demais. As vezes, por isso, acabam acontecendo percalços deste tipo. ― Não tinha pior hora para isso acontecer, Rowe. Será que tenho uma nuvem negra sobre a cabeça, ou o quê? ― Estamos apenas na entressafra. ― Obrigada por me fazer sentir melhor. ― O que você queria que eu dissesse? Fatos são fatos. ― E, pelo visto, a única coisa que vou conseguir com minha transferência para Chicago é um lugar na fila dos desempregados! ― Meredith, é só um emprego. ― Sim! E é o meu emprego. ― Meredith bateu no peito, sentindo-se indignada, como se de um momento para o outro todas as ambições profissionais que cultivara por anos tivessem caído por terra. • ― Existem outros por aqui. ― Este era meu projeto de vida, Rowe! Construí toda uma carreira naquela companhia. Às vezes trabalhava oitenta horas numa semana. Eu... ― Esqueça as questões de dinheiro, Mer. Enquanto estiver comigo, não terá de se preocupar. ― Não faça o papel de provedor na minha frente! Estamos falando de meu futuro, de minha carreira! E se eu não tiver isso, o que terei? Apenas me diga: o que terei?! Foi cheio de espanto que Rowe a examinou, fazendo uma pausa durante a qual uma expressão pensativa dominou suas feições. ― Não sei, Mer. Diga-me você. O que possui neste exato instante? CAPÍTULO XIII O piquenique se tornou um desastre. Pouco a pouco, toda a atmosfera foi destruída por velhos medos e novas informações. Nem mesmo a presença de Sophie se mostrou capaz de amenizar a tensão que manteve Rowe e Meredith afastados por todo o tempo.


Eles começaram a jogar frisbee com a menina, e a certa altura Rowe fez algumas jogadas de risco, atirando o disco em espirais mais altas. De repente, o brinquedo acertou a perna ferida de Meredith ao voltar. A brincadeira foi interrompida de forma abrupta, quando ela abandonou o playground, emburrada, seguida por um Rowe consternado que não parava de se desculpar. ― Você está bem, Mer? ― Claro que estou! ― Foi um acidente. Juro. ― Como eu já disse, estou bem. ― Ao dizer isso ela forçou a passagem, evitando encará-lo. ― Eu estava me referindo a sua perna... ― Estou andando, não estou? ― Meredith parou diante da mesa, retirando a comida da cesta de piquenique e fechando-a com um gesto brusco. ― Agora vamos comer, certo? Rowe sentou-se, relutante. ― Está com fome, Sophie? ― Mais ou menos. Desejando mudar de assunto, Rowe decidiu falar sobre o emprego de Meredith. ― Mer? Veja bem, talvez devamos conversar sobre seu trabalho... ― Agora não. Estamos no meio de um piquenique. ― Mas o assunto a está preocupando, doçura. Então por que não podemos falar sobre como você se sente e... ― Esqueça! Nem eu mesma sei como me sinto. ― Meredith tentava concentrar-se em passar creme de queijo nos biscoitos para Sophie. ― Isso pode esperar. Falaremos disso à noite, quando voltarmos para casa. Este dia é todo de Sophie. Rowe assentiu, contrariado. Sophie deitara-se uma hora antes, exausta depois de tanta agitação. Rowe já havia descarregado o carro, mas Meredith continuava ajeitando tudo na cozinha. Ela nunca sabia ao certo o que fazer com as sobras, hesitando entre jogá-las fora ou guardá-las no refrigerador. Estava tão entretida, tentando achar recipientes para todos os alimentos, que nem reparou na aproximação furtiva de Rowe. ― E então, está pronta para conversar agora? ― Não. ― Mer, vamos lá! Ainda não conhecemos os detalhes da situação. O problema na Whitcomb pode ser uma coisa insignificante. ― Certo. ― Ficou nervosa o dia todo. Agora está resmungando como uma velhinha. Está na hora de parar de ser teimosa, e analisar os fatos. Meredith jogou no balcão a toalha com que secara as mãos. ― Não fiquei nervosa, Rowe. Nem resmunguei. E não estou sendo teimosa. ― Mentirosa, talvez? ― Como esperava que eu reagisse? Você, o senhor certinho! Aquele para quem tudo funciona. Tem um bom emprego, uma bela residência, uma carreira promissora... ― Então é isso o que a incomoda? Está me parecendo enciumada, sabia? ― Por acaso eu lhe disse alguma vez que o sonho de minha vida era ficar amarrada na pia de um lar cheio de crianças? ― Não que eu me lembre. ― As feições dele tornaram-se duras. ― Mas também não me recordo de você agir como se fosse a funcionária mais leal da Whitcomb. Para ser franco, lembro-me até de tê-la ouvido queixar-se muitas vezes das condições de trabalho,


do plano de pensão da empresa e da dificuldade para marcar suas férias. ― Basta! Nada pode ser perfeito. ― Rowe encolheu os ombros. ― Nem as coisas por aqui. ― Ora, vamos lá! Está tudo sob controle sob este teto. Você tem a mim para cozinhar, limpar tudo e entretê-lo, afinal. ― Entreter-me? Eu lhe exigi isso algum dia? ― desafiou-a. Seguiu-se um silêncio tenso. ― Podia até ter pedido, Rowe. Faço tudo por aqui, mesmo... ― Sentindo que a voz dela suavizara-se, Rowe aproximou-se. ― Isso é tão ruim, Meredith? De verdade? Antes que ele pudesse tocá-la, Meredith deu um passo para trás. ― Não sabe como tem sido para mim, Rowe, só isso. Já nem sei ao certo a que lugar pertenço. Não tenho nada. Não sou importante para nada, nem para ninguém. ― Isso não é verdade. ― Não tente me consolar. ― Não era o que eu pretendia. ― E não pense que estou tentando despertar sua simpatia, tampouco. ― Sei disso. As respostas curtas dele a desarmaram, fazendo-a hesitar. ― O que quis dizer é que esta é sua casa, em sua cidade, Rowe, não estou certa? Você tem seu trabalho aqui, seus colegas e o time de basquete do Chicago Bulis. É até mesmo sócio daquele clube no qual fomos nadar. Eu não tenho nada. Nada! Vim de Kansas City sem planejar, e agora devo ter perdido meu emprego. Meu apartamento lá já está alugado, e toda a mobília ficou guardada num depósito. Perdi contato com meus amigos. E, para piorar, não faço nada além de lavar roupas, cozinhar biscoitos e pensar no que não devia. ― Que tipo de coisa? Ela não gostou do tom sugestivo da voz de Rowe, nem do brilho curioso dos olhos azuis. ― Pensar nos negócios que deixei inacabados, por exemplo. ― "E pensar em ter um bebê seu!", seu subconsciente gritou. ― Mas, em vez de estar trabalhando de verdade, tenho apenas isso: a tarefa de cuidar de uma criança e de um ex-marido. O que acha? Um sorriso curvou os lábios dele. ― Incrível. ― Acha justo? ― É só o que a incomoda, Mer? ― Às vezes sinto que devia sair por aí tentando me encontrar, ou algo do gênero. ― Bobagem! Ainda vai demorar pelo menos uns dez ou quinze anos antes que faça algo tão drástico. Costumam chamar isso de crise da meia-idade... ― Não brinque! ― Se decidir mesmo fazer uma loucura, posso marcar a data num calendário para lembrá-la, na época certa. ― Muito engraçado! ― Apesar do protesto tímido, Meredith não conseguiu deixar de rir. ― De qualquer forma, não sei mais a que local pertenço. Ou a quem. ― Eu sei, Mer. Neste exato instante, seu lugar é aqui, ao meu lado e de Sophie. ― Rowe aproximou-se, enlaçando-a num abraço e conduzindo-a para a sala. ― Ah, Rowe, nós não devemos! ― ela protestou, sentindo que o súbito contato físico já começava a afetá-la. ― Isso vai servir apenas para tornar tudo mais difícil. ― Ou não...


Em seguida, Rowe inclinou-se sem aviso e beijou-a com paixão. ― Vamos nos preocupar com isso mais tarde, Mer. Este momento é nosso. ― Estreitando-a mais, puxou-a de encontro ao peito, fazendo com que os corpos se amoldassem. Não havia nenhuma dúvida sobre o quanto a queria. ― Você acha que estou superestimando meus problemas, não é? ― Meredith sussurrou. Agora seus lábios estavam quase colados ao rosto dele. ― Apenas quanto à Whitcomb, doçura. Só isso. Acredite, Mer, compreendo a pressão a que está sendo submetida, mas peço que esqueça tudo, ao menos por esta noite. Ela o desejava demais. Num momento como aquele seria muito fácil entregar-se por inteiro a Rowe outra vez. Mas não podia fazer aquilo! Se fizesse, estaria se iludindo. Contudo, jamais o quisera tanto. Como era possível que uma mulher adulta ficasse à beira de perder o controle como uma adolescente? E, além disso, pelo ex-marido. ― Durma comigo, Mer. ― Rowe acariciava-lhe os mamilos com a ponta dos dedos. ― Não precisamos fazer nada. Apenas fique comigo. ― Certo. ― Meredith tentou ser irônica, mas não pareceu convincente. ― Estou falando sério. Só queria me lembrar de como éramos juntos. Recordar aqueles momentos doces que até hoje não me saem da cabeça. Era uma proposta tentadora. Muito tentadora... ― Não vamos precisar fazer amor? ― Não acontecerá nada que você não queira. Ela hesitou. ― Eu quero. É que... ― Posso aceitar suas dúvidas, Mer. Juro que compreendo toda a incerteza e indecisão que sente. Porém, preciso tê-la aqui, comigo. "Droga! Por que Rowe sempre é tão bom com as palavras? Por que combinamos tanto?!" Um suspiro escapou dos lábios de Meredith. ― Isso foi um sim? ― Quer mesmo ficar aqui comigo, apesar de toda a confusão? ― Pode estar certa. ― Talvez leve horas... Rowe sorriu, estreitando-a com mais força. ― Otimo! Quanto mais tempo, melhor. ― Estou tão cansada que nem mesmo posso raciocinar direito. ― Então, durma. ― Rowe ergueu-a nos braços e começou a subir as escadas. Foram direto para o quarto principal, sem fazer um ruído sequer, para não acordar Sophie. Assim que a colocou na cama, Rowe apressou-se em ajeitar os travesseiros para acomodá-la melhor, e sentou-se. ― Vai se sentir melhor amanhã, querida. ― Meredith o encarou. ― Hum... Talvez... ― Logo a exaustão fez com que suas pálpebras pesadas se fechassem. Antes que dormisse, porém, Meredith ainda o ouviu falando: ― Sabe, Mer, esta é a mesma colcha que usávamos quando ainda éramos casados. Nunca me desfiz dela. A revelação surpreendente a fez entreabrir os olhos. Uma incrível ternura invadiu-a assim que reconheceu a peça. ― É mesmo?! Rowe deitou-se a seu lado, devagar, abraçando-a com cuidado.


― Durma bem, meu anjo. Eu só queria que você soubesse. ― Aquele pequeno detalhe tocou Meredith no fundo do coração. Fora embaixo daquela mesma colcha que ela sofrera os primeiros sinais da depressão. "Céus, ele não esqueceu!" Rowe tinha guardado uma recordação de um passado cheio de bons e maus momentos. Por quê? Velhas imagens começaram a suceder-se sem parar na memória de Meredith, mas o cansaço impediu-a de fazer uma relação entre elas. Quando adormeceu, porém, havia um suave sorriso em seu rosto. Meredith pôde sentir uma presença estranha no aposento. Quando ergueu a cabeça, percebeu a sombra de uma pequena silhueta hesitante parada à soleira e virouse no leito, tomando cuidado para não acordar Rowe. O braço forte ao redor dela lhe transmitia uma indescritível sensação de segurança e conforto. Os cabelos de Sophie caíram-lhe na testa quando se aproximou. ― Olá ― sussurrou, ainda segurando um pequeno cobertor que arrastava no chão. Sem maiores preâmbulos, subiu na cama, colocando-se entre os dois adultos. Num gesto preocupado, ofereceu-se para compartilhar seu cobertor com Meredith. O movimento despertou Rowe. Ele sorriu, a despeito do desconforto, e tentou focalizar a visão. ― Quem está aqui conosco, Mer? ― Sou só eu. ― Sophie ajeitou-se contra Meredith. ― Oh, sim, posso ver! ― Ainda aturdido, Rowe virou-se e notou que a garota adormecera instantaneamente. Em seguida, fitou Meredith. ― Bom dia, mamãe. A saudação espantou-a, mas mesmo assim a alegrou. ― Bom dia, papai. ― Está uma linda manhã, não acha? ― Sem dúvida. Tudo estava acontecendo muito depressa, transformando-os quase à força numa família. Todo aquele carinho, aquele lindo momento de intimidade... Mesmo assim, o lado racional de Meredith teimava em insurgir-se contra a situação. ― Isto não devia ter acontecido, Rowe. Sophie não devia ter nos encontrado assim. Ela sabe que somos divorciados. Rowe deu de ombros. ― E daí? Como podíamos adivinhar que ela acordaria mais cedo? Meredith tentou fingir indignação, mas concluiu que seria um esforço sem sentido. No fundo, sabia por que aceitara a proposta dele na véspera. Adorava estar cercada por pessoas que amava. E ela amava Sophie... e Rowe também. Por que não conseguia entregar-se àquele momento de paz sem se dar ao luxo de fazer planos loucos e distantes para um futuro que poderia jamais acontecer? Naquele instante, era bem difícil responder a essa pergunta. CAPÍTULO XIV Como vinha fazendo nas últimas semanas, Meredith levantou-se no mesmo horário que Rowe, mas em vez de simplesmente fazer café, resolveu preparar uma omelete para os dois.


Enquanto se ocupava na cozinha, ligou o rádio pela primeira vez desde que chegara àquela residência. Sua mente continuava fixa na noite anterior. Tinha sido tão bom, tão confortável dormir na cama de Rowe com Sophie entre os dois! Os raios do sol matinal penetrando pela fresta da cortina de forma oblíqua deram aos cabelos da menina a aparência de um halo dourado. Sim, um verdadeiro anjo, ela pensou, sorrindo. E quanto a Rowe? Ele nunca lhe parecera tão bonito antes. Era como se tudo naquele homem lhe transmitisse uma sensação de segurança e bem-estar. ― Ora, o que está fazendo, doçura? Juro que o aroma disso chegou até o quarto! ― Rowe abraçou-a e olhou admirado para a frigideira. ― E eu pensei tê-la ouvido dizer que não sabia cozinhar, Mer. ― Não, o que eu sempre disse é que queria ser rica o bastante para contratar uma empregada que fizesse isso por mim. ― Ah, é mesmo! Você e sua empregada... Bem, talvez esteja certa. ― Rowe sentou-se à mesa, observando-a dividir a omelete e servi-la em dois pratos. ― Pensei muito nisso ontem. Quando você dormiu, tive tempo para reconsiderar o que me falou. Acho que está certa. Posso estar sendo egoísta em relação a seus problemas na Whitcomb. Sei muito bem que preza demais sua independência. E, além disso, não posso negar que tem feito sacrifícios muito maiores que os meus desde que assumimos a guarda de Sophie. Claro que amamos a menina, mas foi você quem teve de fazer as maiores mudanças. ― Rowe... ― Não, espere um minuto. Deixe-me terminar. ― Apanhou o garfo e a fitou. ― Sou um caçador de talentos de uma das maiores agências de executivos de Chicago. Se esse problema com a Whitcomb for real, deixe-me ajudá-la a encontrar um novo emprego. Algo especial. Esqueça aquela empresa. É o mínimo que posso fazer. E então, o que me diz? Prefere uma daquelas companhias tradicionais, estáveis e sólidas? Ou a aventura de uma firma mais nova, algo parecido com a Whitcomb? Foi necessário um esforço enorme para que Meredith contivesse as lágrimas, mas dessa vez ela saiu-se bem. ― Prefiro a aventura. Rowe sorriu, como se já esperasse a resposta. ― Talvez uma tão arriscada quanto viver com você... ― Houve uma pausa significativa. Rowe levantou-se e apanhou o paletó, devagar, movendo-se com gestos estudados, de forma pouco natural. Beijou-a antes de sair. Não foi mais do que uma carícia amistosa na face, mas que deixou-a com vontade de muito mais. Meredith entrou na sala de estar. ― O que está fazendo? Em sua poltrona predileta, como sempre, Sophie assistia à televisão. ― É o Show dos Duendes... ― E está gostando? ― Estou. As duas ficaram sentadas lado a lado, quietas, por quase meia hora. Tudo em que Meredith conseguia pensar era na generosa proposta que Rowe lhe fizera. Enquanto avaliava a nova situação, acariciava os cabelos de Sophie com uma expressão ausente. ― Mer, você é uma boa mãe. ― Sabe de uma coisa, Sophie? Você torna essa tarefa bem fácil.


Como sempre, a garota lançou-lhe um sorriso adorável. Num gesto carinhoso, segurou-a pelo rabo-de-cavalo e fingiu uma expressão séria. ― Ei, não estou brincando! ― Eu também não, Mer. Respirando fundo, Meredith concluiu que talvez aquele fosse o momento mais apropriado para a conversa que vinha adiando. ― Precisamos falar sobre algo, meu amor. ― Certo. Diga. ― Minha perna já está quase curada. E Rowe está fazendo uma coisa que será muito importante para mim... ― É mesmo? O quê? ― Arrumando-me um emprego. Já que estou quase recuperada, nós pensamos... Sophie a encarou, perplexa. ― O que quer dizer? ― Voltarei a trabalhar, Sophie. Vamos procurar uma babá para você, e assim poderá fazer novos amigos. ― Não quero novos amigos. ― Talvez não agora. Mas aposto que vai conhecer outras garotinhas que adorarão brincar de boneca e... ― Não! ― Sophie, o fato é que esta é a casa de Rowe, e como já estou curada preciso encontrar... ― Eu disse "não"! Meredith achou melhor mudar a abordagem, lembrando-se de forma vívida que sentira a mesma coisa ao ser abandonada pela mãe. Precisava remediar a situação, e bem rápido. ― Trabalhar fora não significa que não poderei ficar com você, Sophie. As sobrancelhas da pequena arquearam-se. ― Pensei que seu trabalho fosse cuidar de mim. ― E é, mas... ― Vai me mandar de volta para a vovó? ― Não, querida! Imagine! ― Então, abraçou a menina com força. ― Você sempre estará comigo e com Rowe. ― Desde que papai e mamãe foram embora, vovó começou a gritar comigo, como se fosse minha culpa. Como se... eles tivessem ido embora por minha causa. "Meu Deus!" Meredith viu-se à beira do pânico. Sabia muito bem o que aquele tipo de sentimento podia causar a uma criança sensível. ― Você não foi culpada, Sophie. O que aconteceu foi apenas um acidente. Posso jurar que a última coisa que sua mãe e seu pai queriam era deixá-la. Eles te amavam demais. As vezes até acho que deve doer muito amar tanto assim. — Tudo bem. — Sophie ficou rígida, e fez um nítido esforço para afastar-se. — Você também não me quer. — Sophie, minha decisão de voltar a trabalhar não tem nada a ver com você ou o quanto te amo. Acontece que sempre trabalhei para me sustentar, e agora vou encontrar uma forma de fazer as duas coisas ao mesmo tempo: cuidar da carreira e também de você. Apenas isso. Verdade. Sua mãe trabalhava. — Sim, mas... — Mas? — Era diferente. Nós éramos uma família. E agora isso. Uma garota de quatro anos colocando-a contra a parede!


— Bem, querida, nós também somos, não acha? — Não, não somos. Vovó me disse que você e Rowe estão vivendo juntos apenas por minha causa. — Nós já fomos casados, você sabe. Nem um músculo se mexeu no rosto da menina, o que deixou Meredith ainda mais nervosa. — Como eu ia dizendo, Sophie, nós nos casamos, mas algumas coisas entre nós não funcionaram muito bem. — E se não funcionarem bem comigo? — Isso é... diferente. ― Sophie fitou o chão. — Sinto muito, Mer. Sempre achei que as pessoas precisavam ser casadas para formarem um lar. Agora entendi que talvez isso nunca aconteça com a gente. Por um instante, o peito de Meredith se apertou. As palavras da menina tinham tocado num ponto delicado de seu íntimo. — Eu também sinto muito, amor. Trancada na biblioteca de Rowe, Meredith refletia sobre a série de acontecimentos que tinham-na levado àquele ponto. Poucos meses antes, considerava-se uma mulher centrada, bastante motivada e profissionalmente agressiva. Fazia o que era necessário para ir em frente. Escolhia seus amigos e até mesmo os relacionamentos, para atingir suas aspirações. Sabia, claro, que era muito difícil chegar ao topo no mundo dos negócios. Mas agora, diante da reprovação de Sophie, podia ver o quanto sacrificara de si mesma. Num instante, passara a limpo aquilo que fora sua "vida" nos últimos três anos: um apartamento pequeno e frio, com um armário cheio de roupas... e um coração vazio. As vezes passava oitenta horas por semana no trabalho, com a indefectível valise nas mãos. Reuniões, encontros de negócios, compras e vendas. Vendas, vendas! Em várias ocasiões passara noites em claro, sempre obcecada. Era para isso que queria voltar? Ou será que preferia a doce companhia de Sophie? Ou, uma ideia ainda mais perturbadora, a companhia de Rowe? As indagações sucediam-se com uma velocidade vertiginosa, e era tão difícil respondê-las quanto organizar as próprias ideias. Para isso, teria que encarar seus temores. Foi quase um alívio quando o telefone tocou, trazendo-a de volta à realidade. — Meredith? — Sim? Houve um pausa do outro lado da linha, entremeada por ruídos de folhas de papel sendo manuseadas. — Colton McEntire. — Colton? Eu... sua voz está diferente. O diretor de marketing da Whitcomb? O que teria levado Colton a ligar? — Talvez esteja um pouco rouco, afinal de contas, depois de tantas reuniões para reestruturar a empresa. Ficou sabendo das novidades? — Apenas o que li nos jornais. — Nem tudo foi revelado para a imprensa, é óbvio. Em determinados momentos, devemos ter cuidado com as informações que vazam para a mídia. Um boato pode crescer sem explicação lógica, como um incêndio, se é que me entende. — Sim. — Bem, Meredith, estamos mesmo fazendo uma reestruturação. A companhia cresceu rápido demais e nos forçou a isso. Mas ainda queremos tê-la na filial de Chicago. É um mercado em potencial, você sabe, mas acredito que teremos muito o que fazer pela


frente se quisermos manter os lucros. — E acha que sou a pessoa indicada para essa tarefa? — Tenho certeza. Além do mais, quem poderia cuidar das pesquisas tão bem como você? — Sei... E devo supor que trabalharia para a empresa como free lancer, não é? — Ora, você sabe como esse tipo de coisa funciona. — Sem dúvida. Mas dessa vez prefiro encontrar algo mais regular. — O quê?! Meredith hesitou, olhando pela janela para o jardim dos fundos, onde Sophie brincava. — Tenho outros compromissos agora. — Meredith mordiscou o lábio inferior. — Uma família. Instantânea... e embalada para viagem. — Está me dizendo que se casou com algum viúvo com filhos? — Você me conhece, Colton. Isso seria fácil demais. Não, reencontrei meu exmarido, e nós dois fomos incumbidos da guarda de uma criança. — Acho que não entendi muito bem. — É uma longa história, Colton. Contarei todos os detalhes quando nos encontrarmos. Bem, por enquanto, tudo o que você precisa saber é que prefiro um trabalho normal, com horário fixo. Acredite se quiser, mas agora tenho uma filha de quatro anos. E um... tipo de marido. — Um "tipo" de marido? — Depois eu conto mais, como já disse. ― Colton riu. — Eles têm de vir em primeiro lugar. Preciso das noites e dos finais de semana livres. — Estamos no meio de uma guerra, Meredith. — Nesse caso... — Meredith deu de ombros, mesmo sabendo que seu interlocutor não podia vê-la. Colton hesitou por um longo momento, para então dizer: — Seja bem-vinda, Mer. É bom tê-la de volta. Vamos precisar muito de você. E eu sabia que acabaríamos trabalhando juntos de novo. CAPÍTULO XV Rowe chegou para jantar naquela noite com visível bom humor. Ninguém podia sentir-se tão bem, Meredith pensou, olhando-o com uma mistura de inveja e ciúme. Estava decidida,a contar logo sobre a ligação da Whitcomb, bem como suas preocupações relacionadas a Sophie. Mas, no fundo, também temia a reação que ele teria. Será que Rowe consideraria uma afronta quando contasse que aceitara o emprego oferecido por Colton, ainda mais depois de ele ter prometido que lhe conseguiria algo? E, em particular, após terem passado a última noite juntos? Fora justo aquilo que a fizera mudar de ideia. Como podia voltar a colocar a carreira em primeiro lugar depois que seu coração tinha experimentado tanta ternura? A animosidade que existira em sua relação com Rowe desaparecera, substituída por um sentimento novo e estimulante. A única coisa que restara do passado tinha sido um agradável companheirismo, resquício dos momentos de verdadeiro amor que tinham compartilhado um dia. Meredith sabia como isso era precioso, e não queria arriscar-se a perder tudo de novo. Nem agora, nem nunca.


Sim, era melhor não se antecipar, e contar as novidades com muita cautela. Meredith percebeu algo estranho no comportamento do ex-marido quando Rowe desviou o olhar. Mais parecia um menino que tinha sido apanhando no meio de uma traquinagem. — Certo, certo. Eu ia fazer isso depois do jantar — ele admitiu, caminhando até a geladeira para apanhar uma cerveja. — Mas acho que não posso esperar. Sim, é isso. — Isso o quê? — Meredith o encarava com curiosidade, preparando a pasta de alho para assar pães no forno. — Grandes novidades! Você vai adorar! — Então por que esse seu entusiasmo parece tão forçado? — Parece? — Sim. — Decerto é porque estou um pouco nervoso. — Você? Rowe Harrison... nervoso? — Bem, deixe-me começar. — Rowe fez uma pausa, sentando-se e assumindo a postura de um homem de negócios. — Tudo bem, conte-me logo. — Consegui lhe arranjar um emprego, Mer. Você pode começar amanhã. — Rowe... — É o melhor que havia disponível, e... escute só, posso jurar que é superqualificada para o cargo. Você será perfeita. — Espere. Agora me ouça um minuto. — Meredith precisou respirar fundo para manter o controle. — Não pense que vou aceitar qualquer posição sem... Ignorando a súbita alteração na voz dela, Rowe tirou um papel do bolso do paletó: — Leia isto, Mer. Sua procura por trabalho acabou. É ideal para o seu caso. Procuram por um especialista em marketing, com conhecimentos sobre alimentos e nutrição. — Nutrição? Mas eu me formei em administração! ― Rowe, mais uma vez, ignorou a tentativa de protesto. — Bobagem, Mer. — Creio que não está raciocinando direito, Rowe. — Ora, pare de ser cabeça-dura! — Pela centésima vez naquele dia ele examinou o papel. — Veja aqui. Procuram uma pessoa que conheça crianças muito bem. Você deve ter aprendido muito nos últimos tempos, fazendo compras para Sophie, não é? — Não pode estar falando sério, Rowe. Isso é uma piada, não é? Ele riu. — Tolinha... Prosseguindo, esta vaga requer alguém que conheça a fundo os intrincados detalhes... ou, se preferir, intimidades... de relacionamentos familiares. — Rowe Harrison! Que brincadeira é essa? — Meredith ainda não sabia ao certo o que pensar, mas ficou intrigada com o sorriso dele. — O salário é ótimo. Os benefícios, inimagináveis. Férias remuneradas, bônus, plano especial de pensão para aposentadoria, carro fornecido pela empresa... O esquema todo é fantástico. Você seria maluca se recusasse uma chance dessas. — Que chance? — Meredith sentia-se abatida. Dissera a Colton que poderia começar em três semanas... — Por que está rindo tanto? Parece um adolescente perdido no meio de um baile de debutantes, Rowe. — Há apenas uma coisinha... — A expressão dele tornou-se séria de repente. Um instante depois, porém, evitava encará-la. — A função exige dedicação integral, vinte a quatro horas por dia. — O quê?! — Meredith ergueu o pedaço de papel e tentou ler, mas Rowe


interrompeu-a com um gesto de conforto. — Certo, certo. Acalme-se. Deixe-me contar sobre a parte boa... Olhe isto. — Com agilidade retirou do bolso uma pequena caixa e abriu-a. Lá dentro estavam as mesmas alianças que tinham trocado ao se casarem. O papel, claro, era uma cópia da certidão de casamento, com um pedido de renovação anexado em branco. Ao notar isso, Meredith não conseguiu conter as lágrimas. Suas emoções eram desconexas, misturando alegria e medo. — Você! Por que está fazendo uma coisa dessas comigo, Rowe? ― Rowe levantouse e enlaçou-a, colocando a caixinha e o documento sobre o balcão da copa logo em seguida. — Fiz isso porque te amo. Sempre amei e sempre vou amar. — Sim. Está certo. Mas acho que ainda não terminou. Onde está o desafio? A brincadeira fez com que ele pensasse depressa. Mas isso não era problema para Rowe Harrison e sua língua afiada. — O que acha de um recomeço, Mer? Desta vez, lógico, incluindo Sophie. Uma família. Quero tentar outra vez. Acho que chegou nossa hora, você não? — Tenho certeza de que sim! — Sophie entrou correndo. — Faça alguma coisa antes que ela vá embora, Rowe. Senão Meredith vai acabar alugando um apartamento em outra cidade e arrumando um trabalho bobo. Enfim, Meredith já estava recomposta o bastante para retomar o autocontrole e conseguir expressar-se melhor: — Tarde demais, queridos. Eu já consegui um trabalho. Telefonaram-me da Whitcomb hoje à tarde. — Não! — Sim. E fiz questão de trabalhar no horário normal, nada de horas extras à noite ou nos finais de semana. — Não pode estar falando sério — Rowe murmurou. — E aceitaram suas condições? Meredith assentiu com um gesto de cabeça, confirmando. — Nossa, você deve ser boa mesmo! — Ao dizer aquilo, muito sem jeito, Rowe deixou escapar uma risada. — Ora, mas que tolice a minha... Evidente que é ótima. Sei disso. Então, os dois se abraçaram. O gesto era carregado da mais sincera das emoções. — Mal posso acreditar! Mas hoje à tarde cheguei até mesmo a escrever para minha mãe... Erguendo a cabeça, Rowe fitou-a com espanto legítimo. — Mandei-lhe uma carta para contar que queria voltar para você, querido. Disse que só precisava de mais algum tempo para escolher as palavras certas para expressar o quanto preciso de você, e que... — Adorável! — O quê, Rowe? — Eu disse "adorável". Acho que você nunca vai saber o quanto é amada, Mer. Por mim e por Sophie. Porém, saiba que passaremos o resto de nossas vidas tentando fazêla entender. — Rowe pegou a menina no colo. — Certo, Sophie? A garotinha riu. — Ela sabe que eu a amo, bobinho! — Você já lhe disse isso? — Não. Mas Meredith sabe. Mães sempre sabem esse tipo de coisa. Isso era o que mamãe... você sabe, aquela que vive no céu... Era o que sempre falava.


— Uma mulher esperta! — Sim. Papai dizia que eu tinha herdado a inteligência dela. — Não brinque... — É verdade. — Sophie assentiu com solenidade. Quebrando aquele momento de magia, Meredith resolveu intervir, brincando. Na verdade, sentia uma imensa necessidade de rir ao lado das pessoas que mais amava no mundo. — E então, senhor? E quanto àquele discurso todo sobre eu ser amada? Vai se casar comigo outra vez ou não? Qual é sua resposta? — Sim, sim, sim! Nunca mais vou me separar de você, Mer. Nem de Sophie. — E promete que não vamos discutir mais por causa de assuntos tolos como trabalho? — Isso nunca mais vai acontecer. Meredith relaxou, sentindo-se segura pela primeira vez em décadas. — Evidente que existe um detalhe... ― Um arrepio percorreu a espinha dela. — Qual? — Agora que tudo foi acertado... seu trabalho, Sophie... ora, tudo, enfim! Precisamos marcar logo uma data para a cerimônia. Apenas para tornar tudo mais oficial, sabe como é. — O sorriso de Rowe era, a um só tempo, malicioso e satisfeito. — Já sei! — Sophie quase gritou. — Casem-se no dia das mães! Dessa forma, nunca nos esqueceremos de que Meredith fez de nós uma família! — Boa escolha, Sophie! — Imagine! Como se tudo tivesse acontecido apenas por minha causa... Rowe encarou Meredith, pensativo. — De algum modo, acho que foi isso mesmo o que aconteceu, Mer. Porque nenhum de nós, em toda essa situação, teve tanta coragem quanto você. Sempre a amarei por isso, doçura. — Eu também te amo, Rowe Harrison. Sempre o amei. ― Rowe sorriu, em silêncio. Não precisava falar. O amor e a alegria haviam voltado a seu lar. Daquela vez, eles realmente formavam uma família.

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Deanna Tallcott - A Chama Da Paixão  

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