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Perdidamente Tua Roxy and the Rich Man

Elizabeth Bevarly

Momentos Íntimos 11 Ele vivia de caviar e champanha... Filho adotivo, Spencer Melburne crescera cercado pelo luxo, mas parte de seu nascimento lhe fora negado: seu irmão gêmeo. Precisava que alguém o encontrasse, e quem melhor do que a sensual detetive Roxy Matheny? Ela vivia de sanduíches e cerveja Roxy necessitava muito trabalhar, mas cometeu a imprudência de se apaixonar pro Spencer à primeira vista. Profissionalmente, poderia dar ao milionário o que ele queria, porém, se sentia tentada a lhe oferecer bem mais...

Digitalização: Alice A. Revisão: Jurema


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Copyright © 1997 by Elizabeth Bevarly Originalmente publicado em 1997 pela Silhouette Books, divisão da Harlequin Enterprises Limited. Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma. Esta edição é publicada através de contrato com a Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá. Silhouette, Silhouette Desire e colofão são marcas registradas da Harlequin Enterprises B.V. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência. Título original: Roxy and the Rich Man Tradução: Dorothéa G. De Lorenzi EDITORA NOVA CULTURAL LTDA Rua Paes Leme, 524 – 10º andar CEP: 05424-010 - São Paulo - Brasil Copyright para a língua portuguesa: 1997 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA. Fotocomposição: Editora Nova Cultural Ltda. Impressão e acabamento: Gráfica Círculo

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PRÓLOGO

Spencer Melbourne sentou-se na cama, em meio à escuridão, tremendo com a brisa fresca de outubro, que fazia barulho nas venezianas do quarto. Apesar da noite fria, o suor escorria de sua testa, molhando o peito nu. O lençol branco e úmido jazia, amarfanhado, aos pés da cama, deixando seu corpo exposto. Ergueu a mão trêmula para afastar a mecha de cabelos pretos e molhados, respirando profundamente, tentando acalmar as batidas do coração. Não sabia quanto tempo fazia que vinha tendo aquele sonho, que surgia uma ou duas vezes por semana, agora muito mais real do que antes. E cada vez vinha acrescido de um detalhe. Enterrou a cabeça nas mãos e tentou lembrar-se do que fora diferente daquela vez. No mesmo instante, recordou o rosto: oval, branco como leite, emoldurado por cabelos curtos e escuros como os dele. Mas nada além disso. Nada de olhos azuis e vivazes como os seus, nada de maxilares fortes ou nariz afilado ou lábio inferior polpudo. Nada além de um borrão. O rosto de seu sonho não passava disso. De qualquer modo, sabia a quem pertenciam aquelas feições. Spencer tinha certeza disso, no fundo de sua alma, desde que era criança. E, mais do que tudo no mundo, desejava encontrar aquela pessoa. Não sabia como ou quando, mas, de algum modo, iria encontrá-lo. De alguma maneira, Spencer Melbourne iria achar seu irmão.

CAPÍTULO UM

Roxanne Matheny estava no meio da faxina de seu escritório, que herdara fazia pouco, quando bateram à porta. Em vez de ficar contente com a possibilidade de vir a ser um novo cliente, deixou escapar um resmungo irritado. Roxanne vestia um short preto de ciclista e uma camiseta muito larga e suja. Seus cabelos cor de café forte estavam presos num rabo-de-cavalo malfeito. 3


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Não era aquela a imagem profissional que desejava mostrar, pensou, observando a silhueta distorcida de uma pessoa por trás do vidro fosco. Olhou ao redor. A pequena sala parecia menor ainda com os velhos arquivos do avô. A luz do sol lutava para entrar através da sujeira acumulada na janela durante duas décadas, e a velha escrivaninha de tampo rolante a um canto, sem mencionar os móveis que a ladeavam, estava também coberta de uma pesada camada de poeira. Seu telefone ainda não fora instalado. Não contratara secretária, nem podia dar-se ao luxo de ter uma. Nem ao menos surgira a oportunidade de mudar o letreiro dourado à porta, onde se via escrito "Bingo Matheny, Detetive Particular", para "Roxanne Matheny, Investigações". Pensou em ignorar a batida. Afinal, o escritório ainda não estava em funcionamento e havia milhões de coisas a serem providenciadas antes que pudesse pendurar sua tabuleta. Então, lembrou-se de que só possuía setenta e oito dólares e trinta e seis centavos na sua conta bancária. Poderia obter um sinal daquela pessoa... Limpando o suor do rosto com a ponta da camiseta, Roxanne foi até a saleta e lutou com o ferrolho enferrujado até conseguir abrir a porta. Um homem estava parado lá fora, um tipo que dificilmente teria chamado sua atenção na rua. Porém, Roxanne o observou com atenção, porque estava trajando terno escuro, camisa branca e gravata discreta cor de safira com um nó muito bem-feito. Seus cabelos eram curtos e bem aparados; portanto, teve certeza de que ele não confundira seu escritório com o cabeleireiro unissex que ficava no térreo. Na verdade, não conseguia imaginar qual o motivo que trouxera aquele estranho ao seu bairro. Era possível notar, sem nenhum esforço, que ali estava alguém de posses. — Você é Bingo? Roxanne levou um susto, não só porque ele interrompera seus pensamentos como também porque sua voz era profunda e refinada, combinando muito bem com o restante. — Pareço alguém que se chama Bingo? Ele pareceu surpreso com a resposta. — Não sei. Como se parece um Bingo? Roxanne apontou por cima do ombro para a fotografia de seu avô, que ainda estava pendurada na sala. Fora tirada em 1942, quando Bingo tinha quarenta anos, e mostrava seu avô usando um chapéu-coco puxado para frente e carregando um revólver calibre 45 na cintura. Como sempre, estava carrancudo. — Aquele é Bingo. Meu avô. Spencer Melbourne estudou a fotografia, voltou a olhar para Roxanne e depois comparou a semelhança, concluindo: — Olhando para ele, também não diria que tem esse nome. 4


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— Bem, mas assim é. Bingo Matheny, o último dos grandes detetives. — Poderia falar com o sr. Bingo? — Não. Vovô está tocando harpa no céu. — Oh! — Posso ajudá-lo? — Você é detetive particular? Roxanne limpou a mão no short e estendeu-a. — Roxanne Matheny, a seu dispor. Spencer olhou para a mão estendida por um momento, antes de apertá-la. Quando o fez, prendeu os dedos de Roxanne com confiança, sacudindo sua mão três vezes antes de largá-la. — Entre — ela convidou, dando-lhe passagem. — Desculpe-me pela bagunça. Estou acabando de me mudar para cá. Bingo deixou este escritório para mim em testamento. — O que aconteceu com ele? Morreu no cumprimento do dever? Roxanne riu. — Bem, creio que posso dizer que sim. Um amigo encontrou-o na cama com sua esposa. A esposa do outro homem, é claro. Bingo nunca se casou. Nem com minha avó. Spencer arregalou os olhos, espantado. — Alguém matou seu avô em um rompante de ciúme? Roxanne riu de novo. — Não, Bingo teve um ataque cardíaco. Afinal, tinha noventa e cinco anos. Seu coração não poderia aguentar a emoção de fazer amor e ser pego em flagrante. Spencer franziu o cenho. — Você parece encarar a morte de seu avô com muito realismo. Roxanne passou o braço na testa, afastando os cabelos, e sorriu, triste. — Não me entenda mal. Tenho muita saudade de Bingo. Ele era... bem, indescritível. Mas viveu muito e bem. E partiu como desejava. Já era hora de ele conhecer outro mundo. — Outro mundo... — Então, o que posso fazer pelo senhor? Spencer Melbourne estudou a mulher à sua frente e ponderou se não seria melhor procurar outra agência de detetives. Bingo Matheny fizera algumas investigações para seu pai alguns anos atrás, um assunto delicado que o sr. Melbourne 5


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não desejava tornar público, e Bingo Matheny fora muito discreto e parecera ser uma pessoa íntegra. Esse foi o único motivo para Spencer ter ido procurá-lo. Então, ao localizar o endereço de Matheny nas Páginas Amarelas, vira que pessoas desaparecidas eram especialidade da firma. Spencer precisava encontrar seu irmão. Um detetive como Bingo tinha recursos que ele não possuía. Sem poder se conter, Spencer observou a roupa de Roxanne Matheny e o aspecto desolado de seu escritório. É claro, seria melhor contratar um bom profissional. Um que tivesse o mínimo de perspectiva sobre o que iria fazer. Escolheu as palavras, a fim de não ofender Roxanne. Percebeu que ela era muito jovem. Bem mais do que ele, que tinha trinta e quatro anos. Perguntou: — Há quanto tempo está no ramo? Os olhos de Roxanne abriram-se mais um pouco e, pela primeira vez, Spencer notou como eram escuros, quase tanto quanto seus cabelos. — No ramo? Eu? — Sim. Há quanto tempo trabalha com investigações, srta. Matheny? — insistiu Spencer, quando pensou que ela não fosse responder. Seus olhares voltaram a se encontrar, e então Roxanne fitou as próprias mãos. Esfregando com fúria a sujeira nas palmas, respondeu: — Na verdade não faz muito. Mas aprendi tudo com Bingo. Fui sua assistente em vários casos, os mais diversos, antes de me tornar detetive também. Tenho licença pelo Estado de Virgínia para exercer a profissão. Fui criada aqui mesmo, em Washington, e meus instintos são mais aguçados do que os de um perdigueiro. Seja lá o que for, posso fazer. Divórcio, corrupção, extorsão, pessoas desaparecidas... Spencer a deteve naquelas últimas palavras. — Pessoas desaparecidas... — Ora, isso é fácil — assegurou Roxanne, estalando os dedos, e continuou: — Apenas me forneça algumas informações. Siga-me. Spencer obedeceu, imaginando se estaria cometendo um grande erro ao fazê-lo. A outra sala parecia pior que a primeira, forrada de jornais e dando a impressão de que não era varrida havia séculos. Apesar de tudo, Roxanne Matheny remexeu em alguns documentos sobre a escrivaninha até localizar um lápis e um bloco e procurou à volta por uma cadeira; encontrou uma com rodinhas e atirou ao chão a enorme, pilha de papéis que estava sobre o assento. Então, empurrou-a para Spencer, para que ele se sentasse. Spencer não conseguiu evitar o pensamento de que talvez Roxanne Matheny soubesse o que estava fazendo. Acomodou-se enquanto ela se ajeitava na ponta da escrivaninha. 6


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— Então, está procurando por alguém, certo? — Sim. Meu irmão. Com o lápis sobre o bloco, Roxanne perguntou: — Quando foi a última vez que o viu? Spencer mordeu o lábio. Aquilo ia ser difícil de explicar. — Eu... hum... na verdade, nunca o vi. Roxanne observou-o com os olhos semicerrados. — Pelo menos, não me recordo de já tê-lo visto — esclareceu Spencer. — Poderia explicar melhor? — Fui adotado quando tinha dezoito meses de idade, de acordo com meus pais adotivos. Roxanne Matheny rabiscou mais alguma coisa no bloco. — Certo. E o quer descobrir é se tem algum irmão, não é? — Não. Eu sei que tenho um irmão. Um irmão gêmeo. — Como sabe disso? Seus pais lhe disseram? — Não, jamais. Eu apenas sei, por motivos particulares. — Olhe, senhor... Qual seu nome, afinal? — Melbourne. Spencer Melbourne. — Olhe, sr. Melbourne, gostaria de ganhar dinheiro, mas sou obrigada a fazer com que economize. Se está seguindo um palpite... — Não é palpite. — Mas... Spencer sabia que iria se arrepender por dizer aquilo, mas foi em frente: — Sonho com ele. Roxanne sorriu e, pela primeira vez, Spencer percebeu que não era uma mulher sem atrativos, apesar da aparência relaxada. Quando sorria daquele modo, chegava à ser quase... um tanto... bela. — Olhe, moço, todos nós sonhamos. Meu sonho é ganhar dez milhões de dólares, comprar um barco de dois mastros e velejar para o sul... Spencer a interrompeu: — Srta. Matheny, quer fazer o favor de me ouvir? O sorriso de Roxanne desapareceu. — Oh, claro. Desculpe-me. Então, costuma ter esse sonho — encorajou-o, pondo 7


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o lápis sobre o bloco. — Sim. Desde quando era criança. Não há muito a dizer, apenas que estou com alguém em um lugar que não reconheço, e essa outra pessoa... É exatamente igual a mim. — Viu o rosto do outro homem? — Não. — Então como sabe que é idêntico ao senhor? — Apenas sei. Spencer observou enquanto Roxanne escrevia mais alguma coisa, imaginando se estaria fazendo anotações sobre o que lhe contara ou um bilhete para atirar pela janela, pedindo socorro. — Srta. Matheny? — chamou, cauteloso. Roxanne ergueu a mão direita, o dedo indicador estendido, enquanto continuava escrevendo com a esquerda. — Espere um minuto — murmurou. — Então tem a sensação de que existe um irmão gêmeo em algum lugar. — Não, eu sei que existe. Por acaso já leu algo a respeito disso, srta. Matheny? — Não, creio que não. — São fascinantes os estudos feitos sobre gêmeos que foram separados quando nasceram e se reencontraram mais tarde na vida. Há uma série de similaridades entre eles. Houve casos de gêmeos que se mantiveram separados e, ao serem reunidos, ficaram sabendo que haviam se casado com mulheres parecidas ou que usavam o mesmo número de anéis no mesmo dedo ou que haviam dado o mesmo nome a seus filhos. E é fato que, em muitos casos, aparecem vestidos de maneira idêntica quando se encontram pela primeira vez. Também não é difícil que compartilhem as mesmas reações emocionais ou que sintam uma conexão psíquica; quer saibam, quer não da existência um do outro. — E o senhor experimentou essa... como direi... conexão psíquica, certo? Spencer fechou os olhos e tentou não gemer em voz alta. Sabia que devia estar dando a impressão de ser louco. Tinha certeza de que parecia com um daqueles homens patéticos que pedem ajuda a paranormais pelo telefone, em horríveis programas de rádio. Sabia que a srta. Matheny devia estar rotulando-o com vários adjetivos dados aos desequilibrados. Apesar disso tudo, abriu os olhos, encarou-a e confirmou: — Sim. Experimentei. — De que modo? 8


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Spencer temera que ela fosse perguntar aquilo. Sentindo-se inquieto, levantouse e começou a andar pelo escritório pequeno e abarrotado. — Tenho essas sensações de vez em quando, que surgem do nada. — Que tipo de sensações? Quando Spencer parou de andar, percebeu que estava a apenas alguns centímetros de distância de Roxanne. Em vez de voltar para a cadeira, sentou-se ao seu lado na grande escrivaninha e olhou para ela. As mechas escuras de seus cabelos eram mescladas por alguns fios mais claros, e os olhos castanhos pareciam zombeteiros. A boca, embora suave e de lábios carnudos, era circundada por pequenas linhas. Não era tão jovem como ele pensara a princípio. Devia ter mais ou menos a mesma idade que Spencer. Por um estranho motivo, aquilo o acalmou. Com voz tranquila, respondeu, afinal: — Uma sensação de que não estou só. De que existe um outro ser, em alguma parte do mundo, que me completa. De que alguém pensa em mim. De que... tenho um irmão. Não consigo afastar a certeza de que tenho um gêmeo em algum lugar, e gostaria de encontrá-lo, srta. Matheny. Pode me ajudar? Roxanne mordeu a borracha na ponta do lápis e encarou-o. Cabelos pretos e olhos azuis. Era uma combinação masculina que a deixara em apuros algumas vezes na vida. Porém, havia pouca probabilidade de algo acontecer entre ela e o sr. Melbourne. Era óbvio que ele não passava de um homem rico, excêntrico e tolo. Os dois nada tinham em comum. E Spencer jamais encontraria esse tal irmão gêmeo, pelo simples fato de que ele não existia. Mas o sr. Melbourne parecia tão sincero, tão inquieto, tão ansioso para conhecer a verdade que Roxanne não conseguia aconselhá-lo a esquecer tudo aquilo. — Seus pais adotivos ainda vivem, sr. Melbourne? Spencer pareceu surpreso com a pergunta, mas balançou a cabeça, devagar. — Não. Já tinham mais de quarenta anos quando me adotaram. Morreram com diferença de poucos meses, um ano atrás. Por quê? Em vez de responder, Roxanne fez outra pergunta: — Tem outros irmãos ou irmãs? Quero dizer, dentro de sua família adotiva. — Não. — Primos, tias, tios, qualquer coisa assim? — Alguns. Mas nenhum muito íntimo. — Não leve a mal, mas... acha que pode ser possível que tenha essas sensações tão fortes porque perdeu seus pais verdadeiros? Os olhos azuis se tornaram frios como gelo. — Está sugerindo que estou me 9


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iludindo? Roxanne arqueou as sobrancelhas. — Não. Talvez apenas se sinta sozinho. Frustrado... — Srta. Matheny, gostaria que soubesse que sou um dos mais proeminentes cidadãos de Washington. Roxanne pensou que era estranho alguém assim bater à sua porta. Spencer podia ter dinheiro, como provavam suas roupas. E bom gosto, também. Mas proeminência? Roxanne duvidava. Spencer devia ser apenas um milionário solitário que não tinha nada melhor para fazer em uma sexta-feira à tarde do que procurar alguma novidade. Muito bem. Talvez não fizesse mal que ele pensasse que era importante, contanto que isso o deixasse feliz. — Ora, ora, sr. Melbourne! Um de nossos cidadãos mais proeminentes? Sério? — Sério — respondeu Spencer, com um travo de amargura na voz. — Dirijo uma das maiores corporações de comunicações no país. Tenho mais investimentos e títulos da Bolsa do que possa imaginar. Sou sócio do Kennedy Center, do Smithsonian, contribuo para todas as organizações de caridade e conheço todos os políticos. E minha família faz parte da alta sociedade desde a virada do século. — Sou membro do Smithsonian também — disse Roxanne, sorrindo. — Não acha formidável o desconto de dez por cento a que temos direito em certas lojas? país.

— Não estou brincando, srta. Matheny. Posso contratar qualquer detetive neste — E, mesmo assim, me escolheu. Estou lisonjeada. De verdade.

— Não a escolhi. Na realidade, procurei pelo seu avô. Vim aqui porque Bingo Matheny fez um trabalho para meu pai, e foi muito discreto. — Que tipo de trabalho? Spencer hesitou. — Prefiro não falar a respeito. — Entendo. Bem, saiba que meu segundo nome é "prudência". E é com ela que costumo agir. Spencer ignorou o comentário e perguntou: — Olhe, quer o trabalho ou não? Vai pegar o meu caso? Roxanne não fazia alarde de sua integridade nem jamais sentira muita simpatia pelas pessoas em geral, mas Spencer Melbourne a sensibilizava por algum motivo desconhecido. Ali estava um homem muito intrigante. Com excesso de imaginação ou não, mostrava-se determinado a encontrar o irmão que não existia. Podia gastar muito dinheiro com um detetive, e sem dúvida o faria na sua determinada procura. Então, por que não ser ela a pessoa a receber os cheques, em vez de um de seus colegas de profissão mais careiros e menos merecedores? Enquanto Spencer estivesse disposto a 10


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pagar bem, Roxanne Matheny teria trabalho. — Certo, vou pegar o caso. — Estendeu a mão para Spencer. — Agora, vamos falar de meus honorários. E vou pedir um adiantamento...

CAPÍTULO DOIS

O rio Potomac ao amanhecer no final de outubro era uma linda paisagem, concluiu Roxanne, sentando-se à margem. À esquerda, vindo em sua direção, viu duas longas embarcações, cada uma impulsionada por sua equipe de remadores. Quebrando o silêncio da manhã, os sons fracos mas idênticos dos gritos das duas equipes, marcando o compasso. Havia algo de muito sereno naquele momento, alguma coisa maravilhosa, e ela não ousava se mexer e quebrar o encanto. Serenidade tinha sido uma companheira inconstante na sua vida, e Roxanne não era tão tola a ponto de deixar passar o pouco de paz que podia aproveitar. Roxanne fora até lá para encontrar Spencer Melbourne, a pedido dele, que era um dos remadores. Spencer iria atracar junto a uma casa de barcos em Georgetown, um pouco abaixo do rio, em alguns minutos. Roxanne levantou-se e limpou a parte de trás do fuso preto antes de vestir o agasalho velho, vermelho, desbotado e com capuz, e enterrar as mãos nos bolsos da frente. Então era isso o que os ricos faziam para relaxar, pensou ela, displicente, pegando o caminho à beira do rio até a casa de barcos. Nada mau. Mas devia ser terrível acordar tão cedo todas as manhãs. Isso era o melhor de trabalhar por conta própria: poder estabelecer os próprios horários. Bem, quase sempre, emendou, enquanto se aproximava da porta da casa de barcos que pertencia à corporação dirigida por Melbourne. De vez em quando iria ter Um cliente madrugador como aquele, alguém que esperasse tratar de negócios quando a maioria das pessoas ainda estava bocejando e tentando encontrar o outro pé do chinelo debaixo da cama. Roxanne sufocou um bocejo enquanto virava a maçaneta e entrava na casa. Teria de deixar de assistir à televisão até tarde da noite enquanto estivesse trabalhando para Spencer Melbourne. Mas tudo bem. A transmissão no velho aparelho preto-ebranco era horrível, e não havia mais bons programas de madrugada. 11


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"Casa de barcos" não era um nome adequado, Roxanne percebeu depressa. Aquele lugar mais parecia um clube de campo, as paredes revestidas de madeira escura, as tábuas do assoalho cobertas por tapetes caros, e arabescos no teto. Ao fechar a porta atrás de si, Spencer Melbourne entrou na sala e, ao vê-lo, o queixo de Roxanne caiu. Mal parecia o homem que encontrara da primeira vez, quatro dias atrás. Em vez do elegante terno escuro, trajava calça de training muito usada, azul-marinha, e uma camiseta cinza, a frente escura de suor e decorada com três grandes letras. Também trazia uma toalha em volta do pescoço, mas os cabelos ainda estavam úmidos e caindo sobre os olhos, que pareciam mais azuis do que na última sexta-feira. A umidade fazia com que ficassem ondulados nas pontas e, por uma estranha razão, Roxanne sentiu ímpetos de passar os dedos por eles e ajeitá-los. "Calma, menina", disse ela a si mesma. "Só porque um homem fica bem usando training não quer dizer que esteja disponível para namoro." — Srta. Matheny — disse Spencer, ao se aproximar. Sua voz estava mais relaxada do que estivera no outro dia. — Desculpe-me por fazê-la sair tão cedo, mas esta é a única hora que tenho hoje para encontrá-la. — Sem problemas. O que deseja falar comigo? Spencer relanceou os olhos por sobre o ombro e acenou com a cabeça para a porta por onde entrara. — Siga-me — disse, em tom de comando. — Sim, senhor — murmurou Roxanne, entre os dentes, obedecendo. Foram até a cozinha. — Café? — ofereceu Spencer, parando junto a uma máquina sofisticada. — Sim, por favor. Preto. Spencer encheu duas canecas com o logotipo da Melbourne Sistemas de Comunicações, estendeu uma para Roxanne e continuou a andar, em silêncio. Mais uma vez, ela o seguiu, obediente, até que Spencer parou diante de uma porta, nos fundos da casa, e estendeu o braço, indicando que Roxanne fosse na frente. Ao entrar, Roxanne viu-se em um pequeno cômodo, bem decorado como os demais. Mas, enquanto os outros eram mais formais e pareciam um tanto entulhados de móveis, aquele era aconchegante e agradável. Tinha as paredes pintadas de verdemusgo, e duas delas estavam cobertas por prateleiras com livros sobre pesca, náutica e negócios. O mobiliário era antigo e elegante. Aquele parecia ser o refúgio de Melbourne na casa, seu santuário em um lugar onde as pessoas iam e vinham, um local aonde podia ir sempre que desejasse se concentrar ou meditar. Roxanne não entendeu como podia ter tanta certeza daquilo se mal o conhecia, soube que aquela era a sua sala. Era um local muito masculino, simples e sem retoques. Por algum motivo, aquela ideia fez 12


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Roxanne sorrir. — Por que desejava me ver, sr. Melbourne? — Tive o sonho de novo na sexta-feira à noite, depois que conversamos. E ontem, outra vez. — É mesmo? — Sim. E um foi um pouco diferente do outro. — Viu um rosto dessa vez? — Não. Mas houve mais alguma coisa. — Como assim? — Deus, como sou mal-educado! — exclamou Melbourne, parecendo lembrar-se de algo. Fez um gesto em direção ao pequeno sofá perto da janela. — Sente-se, srta. Matheny, por favor. Roxanne assim o fez. Ali, naquela sala, Spencer Melbourne parecia muito mais acessível. Não se assemelhava a um homem que dirigia uma grande corporação ou que estudara em uma escola de elite como a Universidade George Washington ou mesmo que praticava um esporte elegante, como remo no rio Potomac ao amanhecer. Dava a impressão de alguém comum, com sonhos comuns e desejos comuns. E Roxanne concluiu que, de certo modo, Spencer era assim mesmo. Naquele momento, tudo o que ele desejava era estar reunido a uma família que jamais conhecera, algo que nem com educação, riqueza ou poder conseguira ter. Devido a esse desejo tão comum, que quase toda a humanidade tinha, Spencer se voltara para alguém comum: Roxanne Matheny. E por aquela razão, Roxanne de repente sentiu que não era tão comum assim. — Vai falar sobre seu sonho? — lembrou, já que ele continuava quieto. Spencer a observou por um momento, pensativo, e disse, embora relutante: — Pela primeira vez, eu soube onde estava. Roxanne estreitou os olhos. — O que quer dizer? — Antes, era incapaz de dizer onde estava. Era apenas... algum lugar. Com alguém. Tudo era vago e impreciso... a não ser por saber que a pessoa a meu lado era meu irmão gêmeo. Essa é a única parte do sonho que sempre foi clara. — Mas, agora, soube onde se encontrava. — De certa forma. Estava no quintal de uma velha casa. Não a reconheci, mas sem dúvida era um quintal. Vi a corda de estender roupa, um balanço e um carrinho vermelho virado de lado no pátio. Foi surpreendente como, de repente, tive tantos detalhes. Pude até ver a pintura descascada nos fundos da residência e alguns pontos de ferrugem no carrinho, e grama crescida, precisando muito ser aparada. Roxanne permaneceu cética. Era mesmo um excesso de detalhes que surgiam de 13


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repente em um sonho que sempre fora nebuloso. Porém, talvez o simples fato de haver compartilhado com outro ser humano pela primeira vez tivesse aberto uma espécie de porta psicológica no cérebro de Melbourne. Talvez... — Acha que o que viu era a casa onde morava antes de ser adotado, sr. Melbourne? Dessa vez, Spencer não hesitou: — Tenho certeza. Roxanne ainda não estava convencida. — Como pode estar tão certo? Sem afastar os olhos dela, Spencer respondeu: — Simplesmente tenho. — Do mesmo modo que jura que possui um irmão gêmeo por aí. — Roxanne percebeu que Melbourne cerrava os maxilares. — Sim, assim mesmo. Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, Melbourne deu um pulo da escrivaninha e começou a andar de um lado para o outro da pequena sala. — Olhe, srta. Matheny, sinto que está tendo dificuldades em acreditar em mim quando exponho os particulares da minha situação. Pode me chamar de louco, mas acho que isso pode atrapalhar sua investigação. Roxanne ergueu as sobrancelhas, surpresa com a reação de Melbourne. — Não, não irá interferir em minha investigação. Melbourne parou de andar e voltou-se para Roxanne. — Então, admite que não acredita em mim quando afirmo ter um irmão em alguma parte. Roxanne ergueu os ombros, sem se comprometer. — Não diria isso. Spencer postou-se à sua frente, as mãos nos quadris, olhando-a, feroz. A pose demonstrava grande autoridade, grande certeza de estar com a razão, e Roxanne não gostou dela. — Então, o que diria? — perguntou Melbourne. Roxanne mordeu o lábio, fazendo força para não sucumbir ao tom de comando. Por sua vez também se levantou, pôs as mãos nos quadris e tentou encará-lo. Embora fosse quase vinte centímetros mais baixa que Melbourne, ele pareceu ficar impressionado com sua postura, pois perdeu a agressividade. Porém, não deu sinais de querer voltar atrás. 14


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— Acho que é o tipo de homem acostumado a fazer prevalecer sua vontade — sentenciou Roxanne, com franqueza. — Possui dinheiro e poder suficientes para se circundar de vaquinhas de presépio que sempre dizem sim. Até então, pôde comprar e obter quase tudo o que desejou. Mas agora deseja uma família para substituir aquela que perdeu, e não há dinheiro que compre isso. E acho que esse sentimento de impotência anda turvando um pouco seu bom senso. Spencer semicerrou os olhos enquanto Roxanne falava, e suas faces ficaram vermelhas. Começou a respirar depressa e Roxanne percebeu que o deixara irritado de verdade. Ora, paciência! Jamais gostara de fazer rodeios, e não via motivo para começar agora. Spencer Melbourne não parecia homem de querer ser tratado com luvas de pelica, afinal de contas. Era bom ser franca com ele. E a verdade era que seria muito improvável encontrar uma família quando tudo levava a crer que não existia. — Entendo — respondeu ele, com simplicidade. — Acha que estou imaginando coisas e que tudo não passa de uma ilusão sem esperanças criada pela morte de meus pais. Que sou apenas um homem patético e solitário sem a menor chance de se ver reunido aos familiares que restaram. Roxanne suspirou e, pela primeira vez na vida, arrependeu-se de ter sido tão incisiva. O que será que havia em Spencer Melbourne que fazia brotar dentro dela um sentido de decência tão grande? Por que será que, de repente, tinha ímpetos de segurar sua mão e garantir que ela, Roxanne Matheny, detetive particular, iria encontrar sua família? Por que desejava puxar sua cabeça de encontro aos seus seios, acariciar sua fronte, pressionar os lábios em sua testa e... Eram aqueles olhos azuis! Sempre fora louca por olhos azuis, e os de Spencer Melbourne eram os mais lindos que já vira. Ainda mais agora, que demonstrara tanta frustração e desamparo, Roxanne não conseguia resistir. "Faça seu trabalho", ordenou a si mesma. "É para isso que esta sendo paga. Não deixe um homem dominá-la só porque é bonito, sexy e tem olhos sonhadores. Sabe que sempre se dá mal quando isso acontece." Procurando consertar o estrago que fizera, falou: — Olhe, sr. Melbourne, desculpe-me pelo que lhe disse. Não é que não acredite que sua família exista, só que não desejo que fique cheio de esperanças para, de repente, descobrir que eram vãs. — Por que não devo ter esperanças? — Como assim? — O que há de tão errado em ter esperanças? — Bem, apenas, nesse caso, que o senhor corre o risco de acabar desapontado, só isso. 15


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— Deixe-me dizer-lhe uma coisa, srta. Matheny. Não sou um homem patético e solitário que precisa de sua simpatia. Não está entendendo nada. Não vou ficar desapontado. Meu irmão existe. Isso é tudo. E por causa disso a contratei. Agora, se não está convencida tanto quanto eu, é melhor que contrate outro detetive para conduzir as buscas. Roxanne concluiu que ele estava certo. Ela ainda não tinha certeza de por que aceitara o caso. Talvez porque a tremenda convicção de Melbourne tivesse tocado algo em seu coração. Ou porque soubesse o que era desejar alguma coisa importante com tanta intensidade e saber muito bem ela não existia. Quantas vezes, quando criança, Roxanne inventara histórias para si mesma sobre uma mamãe e um papai, um irmão e uma irmã que a amavam muito e jamais a deixariam? Quantas vezes ficara acordada durante a noite esperando que viessem encontrá-la? Quantas vezes tentara se convencer, quando menina, de que fora separada de pessoas que estavam muito preocupadas por causa de sua menina perdida e fazendo tudo para recuperá-la? E quantas vezes viu suas esperanças ruírem por terra quando a realidade provava que nunca ninguém iria aparecer? Roxanne fora uma criança solitária. Seu pai partira quando ainda era um bebê, e sua mãe a abandonara alguns anos depois. Roxanne vivera na casa de diversos parentes até que, aos dezesseis anos, fora passar um verão com seu avô Bingo. De imediato, ambos perceberam que tinha nascido um para o outro. Só então ela encontrara um lar de verdade. Um tanto diferente, no entanto, pois seu avô saía muito e tinha horários estranhos, e, como resultado disso, Roxanne continuou passando muito tempo sozinha e sendo uma criança solitária. Mas, pelo menos, agora havia alguém estável a quem recorrer nas suas crises de adolescente. Bingo tinha resposta para tudo e uma filosofia de vida que, apesar de um pouco peculiar, quase sempre fazia sentido. Podia ser que suas respostas nem sempre fossem acertadas, mas sempre traziam conforto. Apesar de ser exibido e matreiro, Bingo Matheny fora um bom homem. Roxanne amara muito seu avô. Tudo isso era razão suficiente para manter Spencer Melbourne como cliente. Roxanne compreendia seu drama melhor do que qualquer outro detetive poderia. E talvez, de um modo meio estranho, assumir a busca de seu irmão a ajudasse a exorcizar o desejo que ainda tinha de encontrar sua própria família e que, sabia, nunca tivera. — Não será necessário procurar outro detetive. Se existe alguém que pode encontrar seu irmão, esse alguém sou eu. Dou-lhe minha palavra. Sua certeza mostrou ser satisfatória, pois percebeu que Melbourne relaxou, o que fez Roxanne reparar que Spencer Melbourne parecia sexy em qualquer ocasião. E por que estaria Roxanne de repente tão interessada na sua anatomia? "Porque você é uma tola", disse a si mesma. Já sofrerá uma vez por causa de um homem como ele. Apenas uma idiota deixaria se levar uma segunda vez. 16


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— Há apenas mais uma coisa que desejo lhe pedir, srta. Matheny. — Certo. O que é? — Na verdade, é uma ordem. — Não gosto muito de ordens. — E uma pena, porque essa é importante. — E do que se trata? — Quero atuar nessa investigação. Roxanne não sabia se gostara de ouvir aquilo. — Defina "atuar". — Quero ser informado de cada passo seu. Então, isso era tudo. — Não há problema. — Quero ser informado do que pretende fazer antes que o faça. — Como já disse, não há problema. — Sempre que descobrir alguma coisa, quero saber no mesmo instante. — Está certo. — E quero acompanhá-la seja aonde for. dizer:

Roxanne abriu a boca, para dar sua resposta habitual, mas apenas conseguiu — Problema. — O quê? — Eu disse: "problema". Grande problema. Não concordo. — Por que não? — Porque trabalho sozinha.

Spencer voltou a atravessar a sala e parou diante de Roxanne, reassumindo a postura de comando. — Desta vez não vai trabalhar sozinha. — Vou, sim. — Não, não vai. — Olhe, sr. Melbourne... — Não. Olhe você, srta. Matheny. Essa é a missão mais importante que já tive na vida. E não vou entregá-la por completo a uma pessoa que, na verdade, é uma estranha. 17


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— O senhor mesmo disse que Bingo fez um ótimo e discreto trabalho para seu pai — recordou Roxanne. — "Discrição" é meu segundo nome. — Pensei que fosse "prudência". — Ora, os ricos como o senhor têm vários nomes; por que eu não posso ter? — Srta. Matheny... — Não vou deixar que me siga a todos os lugares aonde eu for. De jeito nenhum. — Então o negócio está desfeito. Roxanne suspirou, exasperada. — Qualquer outro detetive lhe dirá a mesma coisa. Nenhum de nós deseja um cliente nos seguindo como uma sombra, fazendo perguntas e ficando no caminho. — Prometo não ficar no seu caminho. — Como posso saber? Roxanne não teve certeza, mas pareceu-lhe ver um rápido sorriso nos lábios de Melbourne. — Dou-lhe minha palavra. Roxanne sabia que ia se arrepender daquilo, mas respondeu: — Está bem. Pode atuar. Mas, se pisar no meu pé uma vez que seja, volta para sua mesa na sua firma, compreendeu? — Compreendi. — Ótimo. Melbourne estendeu a mão e, relutante, Roxanne fez o mesmo. Antes que ela se desse conta, Spencer cobriu sua mão, passando os dedos sobre ela de modo nada profissional. O contato foi quente e vivo, o aperto, forte e confiante. Roxanne pôde sentir naquela saudação que Spencer Melbourne era um homem que não desistia até estar satisfeito. Por algum motivo desconhecido, aquela constatação a inquietou.

CAPÍTULO TRÊS

— Uma certa srta. Matheny quer vê-lo, sr. Melbourne. 18


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Roxanne Matheny era diferente de todas as pessoas que Spencer já conhecera; tão simples a ponto de ser quase relaxada na aparência; tão franca a ponto de ser quase ofensiva. E muito, muito indiferente sobre quase tudo e todos. Incluindo Spencer Melbourne. Apesar disso, ele se sentia sempre ansioso a cada encontro com ela. Talvez justo por Roxanne não se sentir intimidada por ele, Spencer a considerasse tão agradável. Desde a morte de seus pais, Spencer não convivera com ninguém com quem pudesse ficar à vontade. A maioria de seus conhecidos eram seus empregados, e era preciso manter a hierarquia. Suas relações de amizade também o tratavam com a deferência concedida aos homens na sua posição, quer ele a desejasse, quer não. Entretanto, com Roxanne Matheny não se sentia obrigado a demonstrar autoridade. Spencer não tinha comando sobre suas idas e vindas, nem queria ter. Quando Roxanne entrou em seu escritório, vestia uma calça larga, de corte masculino, camisa branca, com um colete por cima, marrom e preto. Spencer ficou imaginando se deixara um chapéu de feltro e uma capa impermeável do tipo de Sherlock Holmes na antessala, e se carregava um relógio de ouro, como os antigos detetives de Hollywood. — Desculpe-me por vir sem avisar, sr. Melbourne, mas estava nas vizinhanças. — Tudo bem. Apertaram-se as mãos e, antes que Spencer convidasse, Roxanne já estava sentada. — O que descobriu? Roxanne esperou que ele também se sentasse, e então disse: — Descobri que isso não vai ser tão simples quanto pensei. — O que quer dizer? Pensei tê-la ouvido comentar que pessoas desaparecidas eram problemas fáceis. — Sim, pelo menos quando Bingo estava vivo. Ele tinha uma coleção enorme de contatos e amigos em cargos-chave. Pensei que também fossem meus contatos e amigos, mas a maioria não está demonstrando muito boa vontade comigo. — Por que não? — Meu avô tinha uma série de informações internas sobre as quais não me falou. — De que tipo? — Tais como quem está dormindo com a esposa de determinado congressista, ou com o próprio congressista; quem tem filhos não reconhecidos que estão sendo criados por diplomatas fora do país... — Oh, compreendo. 19


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— Acho que chantagem fala mais alto do que antigas amizades. — Então, o que faremos? Roxanne Matheny cruzou as pernas, reclinou-se na poltrona e entrelaçou as mãos nos joelhos. — Você não vai gostar. — Não me diga... — Conseguir uma cópia de seus arquivos de adoção e certidão de nascimento original vai ser quase impossível. Spencer forçou-se a ficar calmo. Havia muito tempo aprendera que nada era impossível. Além disso, Roxanne dissera que seria quase impossível, o que queria dizer que ainda havia uma maneira de conseguir o que desejavam. — Por quê? — perguntou Spencer. Sem alterar sua postura tranquila, Roxanne explicou: — Neste Estado, quando uma pessoa quer ter acesso a seus processos e saber quem são seus pais biológicos, tem de pedir permissão para obter uma audiência com a junta de adoção. Obtida a audiência, três juízes irão decidir se a pessoa tem boas razões para abrir os arquivos, E, se quer minha opinião, a simples curiosidade sobre um irmão gêmeo há muito tempo perdido e que pode nem mesmo existir não é um motivo forte. — E se, ao contrário, acharem meu motivo válido? — Então ainda poderá não ser bem-sucedido. Desde 1972, algo chamado "mandado confidencial" foi adotado nos arquivos de adoções. É opcional, mas é incluído quando uma ou duas das partes envolvidas o solicita. — E o que quer dizer? — Significa que, se a Corte reabrir seus arquivos e encontrar o tal "mandado confidencial", o caso se encerrará, e o requisitante não poderá ter acesso a eles de maneira nenhuma. — Talvez meu pai ou minha mãe não tenham assinado. — Então pode ser que haja uma pequena chance de os arquivos serem reabertos. Mas, de qualquer modo, terá de ter uma razão muito boa e, repito, não acho que a sua seja. — Mas ainda temos uma chance, ainda que pequena. Portanto, faça o que tem de fazer. Roxanne suspirou, cansada: — Já fiz. Imaginei que não fosse o tipo de homem que se deixa intimidar por coisinhas como cortes e juízes. 20


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Spencer ficou em dúvida se era um elogio ou não, e resolveu passar por cima. — Porém, podem surgir boas notícias — acrescentou Roxanne. — Se sua mãe verdadeira morreu e não constar o nome de seu pai verdadeiro, talvez forneçam a informação sem muito problema. — Morta? Chama a possibilidade de minha mãe verdadeira estar morta como "boa notícia"? De qualquer modo, não estou querendo encontrá-la, mas meu irmão. — Já preenchi a petição para o senhor, mas apenas como uma formalidade. Nesse meio tempo, vou tentar outros meios. Não foi só Bingo quem fez amigos. Também tenho alguns, embora não tão... influentes. Spencer semicerrou os olhos, sem saber se queria que ela explicasse aquele último comentário, mas Roxanne entendeu o contrário e explicou: — Tenho antigos namorados. Pelo jeito, terei de rever alguns deles. — Baixou a voz, como se falasse consigo mesma, e acrescentou: — Farei docinhos de chocolate, aveia e manteiga de amendoim. Falarei como uma menininha com Doug... Usarei aquele bustiê vermelho ridículo para Phil... Spencer teve que rir. — Adoro docinhos de chocolate, aveia e manteiga de amendoim. Um de nossos cozinheiros fazia sempre no Natal. Entretanto, Spencer evitou comentar sobre a "fala de menininha" e o "bustiê vermelho". Algo o impediu de tentar imaginar Roxanne Matheny usando certos tipos de roupa. Pareceu-lhe que ela sorria também, mas, quando voltou a fitá-la, sua expressão era de calma neutralidade. — Ted, um dos ex-namorados que gosta dos docinhos, trabalha no mesmo prédio onde ficam os arquivos. Creio que conseguirei que ele dê uma olhada em uma certa pasta... Spencer teve vontade de perguntar o que a fizera sair com um homem que se vendia por tão pouco, mas resolveu calar-se. Com quem Roxanne Matheny saía era problema dela, não seu. Porém, não conseguia refrear a curiosidade pela sua vida particular. — Então, o que faremos depois? — acabou perguntando. — Deixe-me dar um passo de cada vez, certo? — Certo. — Vou procurar Ted agora e verificar se ele ainda está... interessado. Em docinhos de chocolate, quero dizer. Não é necessário que me acompanhe. Pode estragar tudo. Uma imagem bizarra cruzou o cérebro de Spencer. Roxanne Matheny usando um vestido vermelho justo, saltos muito altos e um longo fio de pérolas no pescoço, segurando uma piteira de sete centímetros. Em sua cabeça, a cena foi se 21


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desenrolando, com Roxanne entrando em uma sala onde um funcionário atarefado tomava conta de sua vida, um fundo musical de saxofone. Spencer visualizou Roxanne aproximando-se do pobre-coitado, tomando suas mãos em concha e jogando as cinzas do cigarro dentro delas, atirando o homem sobre a mesa, segurando-o pelos cabelos e beijando sua boca. E então, com a mesma rapidez com que surgira a imagem, o funcionário foi substituído por Spencer Melbourne. Spencer afastou a cena criativa de filme policial de sua mente, recusando-se a ver Roxanne Matheny como femme fatale e ele mesmo como a vítima. Não «porque não desejasse saber como ia acabar aquela história, mas porque era melhor não pensar naquelas coisas. Pelo menos por enquanto. Spencer relanceou os olhos por The Wall Street Journal, dobrou o jornal com cuidado e olhou com o canto dos olhos para a moça ao seu lado. Não sabia muito bem até então por que exigira acompanhar Roxanne Matheny na busca do seu irmão gêmeo. Deus sabia que tinha coisas muito mais prementes para fazer. Um homem não podia dirigir uma empresa multinacional seguindo o tempo todo uma mulher que falava e agia como um personagem de romance policial. Mas, por motivos que ele próprio desconhecia, Spencer insistira. Dissera a si mesmo que era porque desejava evitar que Roxanne fizesse algo que o comprometesse ou que estragasse a investigação e porque desejava certificar-se se ela era tão boa quanto apregoara; ainda não estava certo de poder confiar em Roxanne. E entretanto, à medida que os dias iam passando, começava a duvidar de seus próprios motivos. Começava a se questionar se Roxanne Matheny não teria razão sobre o que lhe dissera na primeira vez que a vira. Não sobre a parte de Spencer ser um solitário, é claro. De jeito algum era um solitário. Sua vida era muito movimentada. Sua agenda de compromissos de trabalho e sociais estava completa pelos próximos vinte anos. Mantinha-se sempre cercado por pessoas e, quando não estava, bastava dar um telefonema. A mera sugestão de que era um homem só o fazia rir. Era a parte sobre ser uma pessoa incompleta, frustrada, que incomodava Spencer. Seria possível que um homem que tinha tudo pudesse ser infeliz? Bem, é claro que não tinha tudo. Seu irmão gêmeo não fora encontrado ainda. Foi por causa disso que Roxanne Matheny entrara na sua vida. E ela estava cumprindo o que prometera. Durante o transcorrer daquela semana, descobrira os detalhes de sua adoção, que ocorrera trinta e dois anos atrás, mantivera Spencer informado sobre suas atividades e deixara-o acompanhá-la em todas as suas misteriosas e perigosas incursões nos arquivos da cidade, no Departamento de Trânsito e na Biblioteca do Congresso. Spencer sabia que aqueles locais eram sempre visitados por detetives, mas, mesmo assim, se perguntava por que até então não tinham ido aos bairros mal 22


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frequentados usando óculos escuros e impermeáveis para camuflar suas verdadeiras identidades. Para ser honesto, aquilo o desapontara. Naquele momento, vendo Roxanne Matheny passar as páginas de jornais antigos em uma tela, Spencer começava também a se questionar se seu interesse no caso se limitava, exclusivamente, à busca de seu irmão. Sentira uma alegria muito grande e absurda quando a secretária avisara que a srta. Matheny telefonara pedindo que fosse encontrá-la na Biblioteca do Congresso. Não entendia por que se sentira assim, já que os lugares aonde iam eram muito monótonos e Roxanne Matheny jamais mostrara nenhum sinal de prazer na sua companhia. Não que ele esperasse por isso. Afinal, seu relacionamento era profissional. Spencer estava pagando por um serviço, e Roxanne, fazendo seu trabalho. Se gostavam ou não da companhia um do outro, era irrelevante. No entanto, aquele último detalhe estava se transformando em uma preocupação para ele. Spencer ficou observando os gestos graciosos de Roxanne mexendo na manivela, para frente e para trás, os olhos percorrendo as informações que se sucediam na tela. Na primeira vez em que a vira, não achara que fosse uma mulher atraente. Também não a achara feia, porém não o impressionara. Agora, entretanto, começava a perceber que julgara com muita pressa. Roxanne Matheny tinha feições graciosas. Seus olhos eram da cor de café, muito grandes, com uma expressão dramática devido às sobrancelhas também escuras, espessas, com longos cílios curvos. Mas era sua boca o que mais chamava a atenção. Primeiro, a julgara muito larga, porém era cheia e expressiva. O lábio inferior, tão protuberante que poderia dar um ar de menina antipática a qualquer outra mulher, em Roxanne transmitia uma sensualidade agressiva. O tipo de boca que pedia por um beijo. Spencer estremeceu, afastando aquele pensamento. — Não encontrei nada! — exclamou Roxanne, recostando-se na cadeira e olhando Spencer com comiseração. Spencer suspirou fundo. A pesquisa junto aos ex-namorados de Roxanne havia resultado na obtenção de uma cópia dos arquivos de adoção de Spencer, mas não diziam muito mais do que ele já sabia. A única informação adicional fora os nomes dos advogados envolvidos e a identificação da agência do governo que providenciara a adoção. Um dos advogados morrera seis anos atrás, o outro estava aposentado e morando em reclusão nas Ilhas Caimã. Portanto, até o momento, Roxanne estivera focalizando a agência de adoção para maiores informações. Agora, Spencer sabia que sua mãe natural fora uma mulher loira, de olhos azuis, um metro e setenta de altura, vinte e quatro anos de idade quando ele nascera e empregada como caixa de um mercado. Não tinha histórico médico, e seu parto fora normal. Seu pai tinha um metro e oitenta e cinco de altura, cabelos pretos e olhos 23


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castanhos, vinte e seis anos de idade quando Spencer nascera, também sem histórico médico significativo, e trabalhara como zelador de escola. Gente boa, simples, com emprego estável. O sal da terra. Então, por que deram seus dois filhos pequenos? Teria sido porque não eram casados em uma época em que o casamento era essencial para se ter filhos? Teria sido aquele um caso de amor ilícito? Teriam problemas de família ou financeiros? Ou não tinham querido as responsabilidades da paternidade e maternidade? Spencer disse a si mesmo que deviam ter morrido. Que outra explicação haveria? E de repente, sem aviso, começou a se preocupar com seus pais ausentes do mesmo modo como se preocupava com o irmão gêmeo. A voz de Roxanne o trouxe de volta à realidade: — Precisamos voltar à agência que cuidou da adoção.

— Mas eles se recusaram a revelar os nomes de meus pais verdadeiros ou os detalhes de meu nascimento. Também se negaram a nos deixar ver minha certidão de nascimento original sem permissão legal. Já namorou alguém que trabalha naquela agência e que possa roubar minha ficha em troca de uma noite dançando tango? — Não, mas sei como obter informações difíceis melhor do que ninguém em Washington. Spencer balançou a cabeça em negativa. — Não. De jeito nenhum. Não quero saber de nada se tiver de fazer algo ilegal, como arrombar ou invadir. — Ei! Foi o senhor que me pediu para ser mantido informado de tudo o que faço e de todos os lugares aonde, vou. Foi o senhor quem quis vir junto nesta aventura. Eu disse que não queria ser seguida, mas não! O senhor tinha de vir junto. E, agora que as coisas começam a se complicar, quer se afastar covardemente. Roxanne falara com a cabeça inclinada sobre seu bloco de anotações, de modo que Spencer não sabia se falava sério ou de brincadeira. Mesmo assim, chamá-lo de covarde era caso para desafiá-la para um duelo. Semicerrou os olhos. — Quem você está chamando de covarde? Distraída, folheando suas anotações, Roxanne respondeu: — Não o chamei de covarde, só disse que está recuando como se fosse um covarde. — Não sou covarde! — Certo. Não é. Quando voltou a encará-lo, Roxanne tinha uma expressão divertida no rosto. 24


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— Tem uma máscara de esqui preta e roupas pretas? Por um momento, Spencer a encarou, esperando que dissesse que estava brincando, o que não aconteceu. Então, perguntou: — Espera mesmo que eu a acompanhe? — Foi o senhor quem disse que queria... — Certo, certo! Eu. me meti nisso. Acho que é minha culpa. Aonde quer me encontrar e a que hora? Roxanne sorriu para ele. — No meu escritório. Sexta-feira à noite, às onze. Isso me dará tempo de estudar o lugar e verificar quem entra e sai e quando. Esteja lá. Assim dizendo, Roxanne mexeu as sobrancelhas fazendo graça. Spencer suspirou. — Só me prometa uma coisa, srta. Matheny. — Pode me chamar de Roxanne. Afinal de contas, vamos ser cúmplices. — Certo. Então, chame-me de Spencer. — Muito bem. Então, o que quer? — Prometa que, quando me prenderem, levará uma serra dentro de um bolo para mim, na cadeia. O sorriso de Roxanne aumentou. — Apenas me diga que sabor prefere.

CAPÍTULO QUATRO

— Ainda não acredito que você me convenceu a fazer isso. — Ainda não acredito que você esqueceu a máscara de esqui. — Quer dizer que falou sério?! — perguntou Melbourne. Roxanne deu de ombros. — Grande coisa! Se o pior acontecer, iremos lá atrás, no beco, esfregar sujeira no seu rosto branco. — Olhou para as ferramentas que trazia nas mãos e acrescentou: 25


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— Acho até que seria bom você se sujar de vez em quando... — O que quer dizer com isso? — Nada — balbuciou Roxanne. — Esqueça. Não conseguia entender o que a impelia a provocar tanto o refinado sr. Spencer Melbourne. Talvez fosse porque ele era refinado demais... Melbourne também era bonito demais. Vestindo jeans preto, suéter de gola alta e botas pretas de motociclistas, o rosto sombreado pela barba escura que começava a crescer e os cabelos negros caindo livres, sem a postura do homem de negócios, parecia o tipo de pessoa com quem Roxanne costumava namorar. Forte, vigoroso. Infelizmente, na vida real, ele não era nada daquilo, mas sim um executivo de terno e gravata acostumado às boas coisas da vida, alguém que não tinha nada em comum com Roxanne Matheny. O único motivo de estar com ela naquele momento era porque lhe pagava muito bem. Mesmo assim, Spencer não confiava em Roxanne, temeroso de que ela pusesse tudo a perder. Roxanne resmungou entre os dentes, com um suspiro irritado. Olhou para o relógio. Quase onze e meia. Aquela hora, o escritório da agência de adoção estava deserto. E, embora houvesse um segurança patrulhando o grande escritório, se Roxanne cronometrasse bem o tempo, havia poucas chances de ela e Spencer serem interrompidos em sua incursão. Era entrar e sair. Não levaria mais de quinze a vinte minutos, contanto que o funcionário que tomava conta dos arquivos tivesse o mínimo conhecimento possível do alfabeto, e presumindo que Roxanne conseguisse encontrar as pastas certas logo que entrassem. — Creio que tenho tudo de que precisamos, Spencer. Vamos! Enfiou as ferramentas no cinto que trazia sobre o fuso preto e vestiu o blusão, que escondia os quadris. As botas com sola de borracha não fizeram o menor ruído quando Roxanne encaminhou-se para a porta. De repente, voltou-se, preocupada, e perguntou a Spencer: — Você trouxe as luvas, não trouxe? Spencer fez uma cara de desagrado e retirou do bolso de trás da calça um par de luvas motorista, para que ela as inspecionasse. Roxanne deu sua aprovação. — Então, estamos prontos. — Ainda não acredito que esteja mesmo querendo levar isso adiante. Roxanne hesitou. — Olhe, não é necessário que vá comigo. Pensei que só quisesse se certificar. Estou agindo como me pediu. Se esperar aqui até... — Não — interrompeu Melbourne. — Vou com você. Se houver problemas, será 26


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minha responsabilidade, portanto quero estar presente. Roxanne franziu o cenho. — Se isso acontecer, será minha responsabilidade, não sua. — Fui eu quem a contratou. — Devo saber se estou fazendo meu trabalho bem-feito. — Mas se algo der errado... — Sr. Melbourne... — Spencer. Com um suspiro exasperado, Roxanne continuou: — Spencer, pode me dizer o que está nos detendo agora? Suas palavras pareceram fazê-lo esquecer o que ia dizer. Em vez de falar, ficou olhando para Roxanne em silêncio, como se não tivesse ideia do que ela estava dizendo. Enfim, perguntou: — O que quer dizer? — Que tem agido como uma galinha com o pintinho desde que me contratou. Quer saber o que faço e aonde vou e o que pretendo indo a determinados lugares. Diz que é responsável por mim e pelas consequências desse caso quando, na verdade, é o contrário. E não entendo por que não me deixa assumir a responsabilidade. — Roxanne afastou uma mecha de cabelo da testa e olhou para Spencer, com ar de cansaço. — Tenho feito esse tipo de trabalho desde que era adolescente, ajudando Bingo em suas investigações. Não deve se preocupar comigo. Nunca fui pega. Sou boa no que faço. Tem minha palavra de que nada farei para decepcioná-lo ou para expor o plano de busca de seu irmão. Pode fazer o favor de confiar em mim? — Eu confio — disse Spencer. — Apenas... — O quê? Spencer fitou as mãos, parecendo ter muita dificuldade para calçar as luvas. — Apenas... — Hesitou de novo, e então encarou-a. — Não quero que se machuque, Roxanne. Alguma coisa no modo como pronunciou seu nome deu a ela a impressão de que havia mais intimidade entre eles do que era verdade e fez com que Roxanne se sentisse acariciada pelo corpo todo, até o coração. Desejou ouvi-lo dizer seu nome muitas e muitas vezes, com a mesma entonação. — Não vou me machucar, Spencer. "Pelo menos com nada que possa vir a encontrar no trabalho. A não ser pelos olhos azuis do meu cliente, que me distraem das obrigações." 27


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— Mas vou com você assim mesmo — insistiu Spencer. — Certo. Então, vamos deixar de conversa e começar a trabalhar. Spencer segurou a porta aberta para Roxanne e acenou com o braço, pedindo que passasse na frente. Roxanne não estava acostumada com homens que agiam com galanteria, que abriam portas para as pessoas apenas porque aquilo era gentil. Em geral, os rapazes com quem saía passavam primeiro. Também escolhiam sozinhos o que iam jantar, o filme ou esporte a que iriam assistir e costumavam dar a entender que eram a pessoa mais importante no relacionamento. Talvez isso explicasse por que a vida amorosa de Roxanne era tão estéril. Afinal, não existiam homens decentes o bastante. Não havia rapazes que soubessem agir em sociedade. Enfim, os bons já estavam comprometidos. Relanceou o olhar para Spencer, enquanto se aproximava dele. Bem, pelo menos a maior parte dos homens bons já estava comprometida. E também não tramitavam na sua esfera social é nada queriam com uma garota como Roxanne. Não que Roxanne tivesse alguma coisa errada. Apenas duvidava que Spencer ficasse impressionado com o elogio que seu avô Bingo costumava lhe fazer. Duvidava que ser considerada uma "boa moça" fosse algo muito elogioso para Spencer, do mesmo modo que sempre fora para ela. Spencer Melbourne devia gostar de mulheres que calçavam luvas brancas no baile de debutantes aos dezesseis anos, não uma jovem que abria cadeados com luvas pretas. Devia apreciar mulheres que organizassem festas que fossem comentadas durante meses, e não que soubessem artes marciais e jogassem o adversário no chão. Spencer esperava que uma namorada usasse seda e babados, não shorts com desenhos havaianos e camisetas espalhafatosas. Sem dúvida, devia querer que sua companheira fosse feminina e submissa, não sempre ansiosa e agressiva como Roxanne. Dizendo a si mesma que fora uma louca em aceitar sua companhia, fingiu perder o equilíbrio ao passar por Spencer e deu-lhe uma cotovelada no peito. Rijo como uma rocha, constatou. Ele devia ser o único executivo engomado da cidade que não era flácido, careca e entediante. Por que ela? Entre todos os detetives particulares de Washington, por que Spencer Melbourne batera à sua porta? Spencer se inclinou para ampará-la quando ela escorregou junto ao seu peito. Roxanne sentiu os dedos de Spencer percorrendo seu braço, pressionando sua pele com mais familiaridade do que o normal. Por um breve, maravilhoso momento, Roxanne ergueu os olhos e viu algo em Spencer que a fez ficar com medo. Por apenas um momento fugaz e cintilante, pensou que ele se aproximou mais. Por um breve, esperançoso momento, pensou que Spencer fosse beijá-la. Então, ele a largou, soltando a mão e murmurando, suave: — Devagar. Tome cuidado. Achou que seria bom obedecer. Porém, Roxanne Matheny nunca fora do tipo que 28


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segue conselhos. Nem mesmo os que dava a si mesma. Afastando aquele pensamento com um dar de ombros, Roxanne saiu do escritório e esperou que Spencer a seguisse. Então, sem uma palavra, trancou a porta e dirigiu-se aos elevadores do outro lado do corredor. Quando a porta do elevador se fechou, Roxanne não pôde deixar de sentir um pouco de claustrofobia. Na terceira vez em que Spencer machucou o joelho, em total escuridão, decidiu que já era o bastante. Onde estava Roxanne, afinal? Ouviu rumores abafados do outro lado do recinto e voltou-se naquela direção. Ao mesmo tempo, a pequena lanterna de Roxanne se acendeu, e Spencer a viu junto a um arquivo, checando as etiquetas em todas as gavetas de metal, a cabeça inclinada, atenta ao trabalho. Apesar de saber que ela estava cometendo um crime, Spencer achou que parecia uma visão celestial. Tinha de parar de pensar em Roxanne daquela maneira. Spencer era o último tipo de homem por quem ela se interessaria. Roxanne Matheny deveria querer alguém que a amasse por toda a vida, e isso era algo que Spencer poderia fazer, mas, para sempre seria difícil. Não que Roxanne não merecesse ser amada assim, mas Spencer não era a pessoa certa. Envolvera-se com mulheres o suficiente, durante toda a sua vida, para saber que elas só lhe interessavam por algum tempo. Quando a novidade acabava, logo passava a desejar outra. Sempre que um relacionamento se tornava habitual, Spencer tendia a se afastar. Ele era assim. Casara-se com seu trabalho e, quando encontrasse seu irmão desaparecido, teria a família de que precisava. No momento, Roxanne era um mistério, um enigma. Era diferente de todas as outras que conhecera, Mas Spencer sabia que, caso tivessem um relacionamento sexual, ele acabaria descobrindo que Roxanne não era diferente das demais. Acabaria por ficar entediado e terminar com tudo. Roxanne merecia mais do que isso. Por aquela razão, mesmo que fosse a única, sabia que devia manter as mãos afastadas dela. Porém, graças ao fato de ter escorregado ao sair do seu escritório, Spencer descobrira que suas mãos estavam ansiosas por tocá-la. Não tivera a intenção de segurá-la. Roxanne nem ao menos perdera o equilíbrio. Mas, de repente, estava segurando-a e desejara ter feito mais que isso. Queria beijá-la. Muito. Apenas um esforço enorme o fizera controlar-se. Mas não tinha certeza de conseguir se dominar da próxima vez que aquilo voltasse a acontecer. Então, prometeu a si mesmo manter distância. — Encontrei! — sussurrou Roxanne, segurando a lanterna entre os dentes. Retirou uma pasta de arquivo de uma gaveta e ergueu-a como se fosse um troféu. O coração de Spencer começou a bater mais forte. — Encontrou? É o arquivo de minha adoção? Roxanne tirou a lanterna da boca e iluminou o próprio rosto, exibindo um amplo sorriso. 29


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— Spencer Melbourne — falou, imitando a voz grave de um barítono e estendendo a pasta em sua direção —, esta é a sua vida. Mas quando ele ia estender a mão para recebê-la, um grande ruído soou na sala ao lado. No mesmo instante, Roxanne apagou a lanterna. Spencer sentiu que ela segurava seu pulso e ficou imaginando como Roxanne conseguira se acostumar tão depressa ao escuro. Mas não teve muito tempo para isso, pois Roxanne começou a empurrá-lo, fazendo com que a seguisse. Mal ouvindo o barulho da chave girando na fechadura, Roxanne atirou Spencer ao chão, por trás de um móvel grande. Spencer caiu por cima dela e rolou o corpo, fazendo com que Roxanne ficasse em cima. Ela tentou se desvencilhar, mas o facho de luz sobre suas cabeças a fez ficar quieta. Spencer percebeu que haviam se escondido por trás de um enorme sofá e que estavam fora das vistas de quem quer que tivesse entrado na sala. Contanto que a tal pessoa ficasse do lado de lá. Spencer notou que os olhos de Roxanne estavam enormes, muito próximos dele, e quase negros. Eram os olhos de uma mulher excitada, não havia dúvida. E Spencer sentiu que também estava excitado. Roxanne sentiu sua reação, pois seus olhos ficaram ainda maiores e -sua respiração tornou-se entrecortada. Os seios arfavam de encontro ao peito de Spencer, enquanto se esforçava para não fazer barulho, e as faces tornaram-se escarlate. Roxanne umedeceu os lábios, fechou os olhos, e Spencer a apertou mais de encontro a si. Do outro lado do sofá, alguém assobiava, indo até a porta no extremo da sala, que se abria para uma escada que levava à saída. A tal pessoa mexeu na maçaneta que Roxanne tocara havia menos de dez minutos, a mesma que ela voltara a fechar após entrarem. A pessoa invisível retornou para o outro canto da sala, apagou as luzes e fechou a porta, trancando-a por fora. Toda a cena não durou mais de um minuto, mas para Spencer parecia que tinha se passado o tempo de uma partida de futebol inteira. Seu coração batia descompassado, e todo seu corpo vibrava. Uma linda mulher estava deitada sobre ele, responsável por fazê-lo se sentir mais vivo do que nunca. Roxanne era suave e quente, e estava tão excitada quanto Spencer. A escuridão os envolvia. Então, Spencer fez a única coisa lógica a ser feita: beijou Roxanne, do jeito que desejava fazer havia vários dias. Por alguns segundos delirantes, Roxanne correspondeu. Então, pareceu pensar melhor a respeito e afastou-se de Spencer. Em meio à escuridão, ele pôde sentir que ela hesitava. Sem nenhum pudor, Spencer aproveitou-se de sua indecisão. Em vez de deixá-la resolver, optou por fazer o que queria. Agarrou Roxanne e voltou a beijá-la. Dessa vez, quando sua boca cobria a dela, fez questão de deixar claro que não pretendia soltá-la. Então, de improviso, Roxanne correspondeu. Enterrou os dedos nos cabelos de 30


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Spencer e cobriu sua boca com seus lábios. Esfregou-se em Spencer e gemeu. Não tolerando ser tão dominado, Spencer se virou, fazendo com que Roxanne ficasse por baixo, pressionando seus corpos. Beijou o pescoço delicado, colocando a mão em sua cintura. Só então lembrou-se de que estava usando luvas, mas a impaciência e o pensamento, no fundo de sua mente, de que estava cometendo um crime, impediu-o de tirá-las. Com os dedos enluvados, acariciou-a e prendeu-lhe o lábio inferior entre os dentes. O desejo tornou-se maior e insistente. Sem cerimônia, desabotoou o sutiã que fechava pela frente e cobriu o seio de Roxanne com a mão enluvada, fazendo-a vibrar. Por baixo do couro fino, sentiu o mamilo enrijecer sob os dedos dele e beijou-a. Sentiu que Roxanne arqueava o corpo, sufocando um gemido, nada fazendo para detê-lo. Em vez disso, enterrou mais fundo os dedos nos cabelos de Spencer e puxou-o. Devagar, deslizou as mãos pelas suas costas e forçou-o a pressionar o corpo ainda mais contra o dela. Spencer podia sentir o calor da pele de Roxanne sob as roupas pesadas e desejou possuí-la. Entregou-se àquele abraço com abandono, até cair em si e perceber a loucura de tudo aquilo. Enfim, recuperou um pouco do bom senso e lembrou-se de onde estavam e o que tinham ido fazer ali. — Temos de sair deste lugar, Roxanne. Agora. Sentiu que ela fazia um aceno afirmativo junto ao seu ombro e tratou de se levantar. Spencer procurou pela mão de Roxanne e foi arrastando-a atrás, carregando a pasta de arquivo roubada embaixo do outro braço. Nenhum dos dois falou enquanto se esgueiravam até a porta, abriam-na e fechavam-na sem ruído. Sem problemas, desceram as escadas, sempre em silêncio, e cruzaram o estacionamento atrás do prédio. Spencer fingiu não perceber quando Roxanne pôs a mão por baixo da camiseta para abotoar o sutiã. Percorreram o pequeno trecho de volta ao carro de Roxanne e entraram. Só então Spencer ousou olhar na direção dela, e seu coração voltou a acelerar. Sob o brilho pálido e azulado de um poste de iluminação, pôde constatar que ela ainda estava com as faces coradas. Não pelo calor do desejo, mas por causa da barba de Spencer, que espetava. No alto da face havia uma mancha vermelha que levaria dias para desaparecer, e saber que fora ele quem causara aquilo calou fundo em seu íntimo. Os cabelos de Roxanne estavam despenteados, metade para fora do rabo-de-cavalo, e a gola da camiseta, rasgada. Spencer não fizera ideia do quanto fora rude com ela. Mas, em vez de se sentir culpado, ficou ainda mais excitado. Só que desejava reparar seu ataque intempestivo. Agora, queria pegá-la em seus braços e beijá-la com paciência e suavidade. Na próxima vez, pensou, faria isso. Na próxima vez. — Desculpe-me, Roxanne... 31


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Não tivera a intenção de se desculpar, mas as palavras saíram de sua boca, sem que percebesse. Na verdade, não lamentava o que acontecera, mas sim o fato de ter sido rude. Algo em Roxanne Matheny trazia à tona a fera dentro dele. Entretanto, aquilo não era desculpa para agir como um animal com uma mulher que merecia respeito. — Tudo bem — respondeu Roxanne, serena. Mas Spencer pôde afirmar, pelo tom de sua voz, que não estava tudo bem. — E agora? — Esqueça. — Roxanne olhava para frente, mas sem nada ver. — Vamos esquecer o que aconteceu, certo? — Roxanne... — Esqueça. Mas Spencer não queria. Ao contrário, resolveu atiçar a situação, dizendo: — Não sabia que o perigo era um afrodisíaco tão poderoso. Nada parecido jamais me aconteceu. Não pretendia me aproveitar de você daquela maneira. Apenas... — Você se aproveitou de mim?! Quando voltou-se para encará-lo, Spencer pôde ver, pelo seu olhar, que ela também fora possuída pela paixão. Havia algo selvagem e indomável em seus olhos, sobras da fúria que os dominara alguns minutos atrás e que ainda existia. — Roxanne, eu... — Não, não diga nada. O que houve lá dentro... aconteceu e pronto! Não significou nada. Foi apenas o resultado de uma situação tensa. Não vamos procurar por explicações que não existem. Vamos esquecer, certo? Porém, Spencer não estava disposto a encerrar o assunto com tanta displicência. De jeito nenhum poderia considerar o que ocorrera como algo sem significado. Mas também não tinha certeza se desejava se aprofundar muito na lógica de tudo aquilo. Se é que existia alguma lógica. — Certo? — repetiu Roxanne, insistente. — Ok — concordou Spencer, com relutância, mas acrescentou: — Por enquanto. Roxanne abriu a boca para dizer mais alguma coisa, mas Spencer a cobriu com seus dedos. Seu gesto a surpreendeu, emudecendo-a. Spencer baixou a mão e encostou-se nela, pressionando seus lábios nos de Roxanne, dessa vez com uma suavidade e doçura bastante diferentes da paixão insensata que o possuíra antes. — Por enquanto — repetiu ele. — Mas não acabou, Roxanne. Não vai acabar tão cedo.

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CAPÍTULO CINCO

— Céus! Roxanne esfregou os olhos cansados e voltou a olhar para a pasta sobre sua escrivaninha. A informação estava ali, preto no branco, e Spencer garantira o tempo todo que era verdade. De qualquer modo, Roxanne se surpreendera ao comprovar. Sentado no velho sofá de couro do outro lado do escritório, Spencer ainda vestia as roupas que usara na incursão ilegal. Pela milionésima vez, Roxanne teve que afastar a lembrança de seus abraços durante a invasão, apenas uma hora antes. No entanto, não conseguia evitar sentir um grande prazer quando recapitulava os acontecimentos. E mais uma vez maravilhou-se com a capacidade explosiva de Spencer Melbourne mostrar sua paixão. Tinham voltado para o escritório de Roxanne em total silêncio, e agora ela examinava a pasta. Ficara surpresa quando Spencer se negara a examinar os documento primeiro. Sentara-se no sofá, tapando o rosto com o braço, como se estivesse com receio do que iriam descobrir. Mas, ao ouvir a exclamação de Roxanne, ergueu a cabeça, alerta. — O que foi? Roxanne sorriu. — Você tinha razão. Existe um irmão gêmeo. Spencer pareceu relaxar o corpo inteiro. Foi então que Roxanne compreendeu que ele também tivera dúvidas até aquele momento. — Não pode imaginar o que isso significa para mim, Roxanne. Não sabe o que tenho sofrido nos últimos meses. Menti para você. Nunca tive certeza absoluta de que tinha um irmão gêmeo. Só agora. Achava que talvez estivesse tendo alucinações e que criara uma fantasia para preencher um vazio emocional causado pela perda de meus pais. Tem razão, Roxanne. Eu era um solitário. Mas agora... Posso ver? — Assim dizendo, estendeu a mão em direção à pasta. Roxanne virou o documento sobre a escrivaninha, de modo que Spencer pudesse ler. — Vê? Aqui está sua certidão de nascimento original. Há espaços para marcar se é nascimento de uma criança ou mais, e aqui está marcado "gêmeos". Spencer segurou o papel como se fosse uma relíquia que pudesse virar pó a qualquer momento. 33


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— Sherry McCormick — murmurou, suave. — O quê? — Era o nome de minha mãe biológica. Sherry McCormick. E meu pai era James McCormick. Eram casados. Roxanne se pôs ao lado de Spencer, lendo por cima de seu ombro. — E o nome que me deram quando nasci foi Stephen James McCormick. Roxanne mordeu o lábio. Parecia que a busca de Spencer não iria se limitar só ao irmão perdido, mas a seus pais também. Ela mesma não se lembrava direito dos próprios pais, e houvera épocas em que ficara imaginando como teriam sido. Segundo os parentes com quem morara, seu pai e sua mãe tinham sido imaturos, avoados e irresponsáveis. Roxanne preferia imaginá-los como dois boêmios impulsivos. Porém, isso não mudava o que ela era hoje. — Stephen James McCormick — repetia Spencer. — Que tipo de pessoa você imagina quando ouve "Steve McCormick"? Roxanne pensou um pouco antes de responder: — Acho que... Steve McCormick poderia ser um gerente de nível médio em alguma empresa. Talvez uma fábrica de automóveis. Seria casado com uma mulher chamada Susan ou Carol e estaria comemorando dez anos de casamento este ano. Teria três filhos, dois meninos e uma menina, e seria treinador do time de futebol dos garotos menores da escola. Assistiria a esportes pela televisão, estaria agora pensando em começar a fazer ginástica e seria fanático por sanduíches de carne assada e macarrão com bastante queijo. Spencer passou o dedo, com carinho, pelo nome impresso na certidão. — Acha que Steve McCormick seria um homem feliz? — Sim, muito feliz. — Também acho. — Spencer esboçou um sorriso tristonho. Roxanne não sabia muito bem aonde levava aquela conversa, mas continuou: — Então você acha que gostaria de ter crescido como Steve McCormick? Ele pensou por muito tempo. — Se tivesse crescido como Steve, jamais seria Spencer. — É claro que não. — Jamais teria conhecido meus pais adotivos, a quem adorava. — É verdade. — Não teria conhecido a maioria das pessoas que conheço hoje. Seria um homem completamente diferente. — Voltando a olhar para a certidão, comentou, em voz baixa: — Nada consta aqui sobre meu irmão, a não ser que existe. 34


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— Porque essa é a sua certidão de nascimento, não a dele. A adoção de seu gêmeo deve ter sido feita em separado, mas na certa pela mesma agência. E, já que não sabemos como ele se chama agora, seremos obrigados a vasculhar todos os arquivos outra vez. — O que podemos fazer? — Podemos rastreá-lo através de seus pais naturais. — Como? — Agora que sabemos o nome deles e que você nasceu em Virgínia, teremos de consultar a Central de Estatísticas e checar os arquivos. Fácil. Como eu prometi. — Poderá descobrir o que aconteceu com meus pais também? Se ainda estão... — Posso. Se quiser que eu o faça. — Quero. — Sem problemas. Spencer voltou a fixar os olhos na certidão, e Roxanne percebeu o quanto estava confuso. Talvez aquele estado de confusão o tivesse feito agir como agira com ela no escuro. Mas era melhor não pensar nisso. Sentiu que Spencer a segurava pelo pulso. — Roxanne? nunca.

Ela sé virou para encará-lo. Os olhos de Spencer estavam mais azuis do que — Sim, Spencer? — Obrigado. — Ora, só estou fazendo o meu trabalho.

Naquela mesma noite, Roxanne descobriu o paradeiro dos pais de Spencer, assim que ele deixou seu escritório e foi para casa. Toda a triste história estava ali, no arquivo, mas Spencer estivera tão empenhado em memorizar nomes que não se lembrara de ler o resto das informações contidas na pasta de papel grosso. Talvez não tivesse pensado que havia tanta coisa mais a investigar ou, quem sabe, não quisera saber naquele momento. De qualquer modo, Roxanne não apresentou suas descobertas para ele, a não ser uma semana depois. Manteve-se longe de Spencer por várias razões. Em primeiro lugar, ainda não tinha certeza sobre a estratégia que iria usar para localizar o gêmeo McCormick perdido. Depois, porque acreditava que Spencer precisava de um certo tempo para absorver o que descobrira antes que Roxanne jogasse o resto da história da família em seu colo. 35


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Mas, acima de tudo, Roxanne queria manter distância porque precisava pensar também. E não só sobre o caso. Tinha de descobrir o que, afinal, acontecera entre os dois naquela noite do arrombamento. Certo, talvez até já soubesse. Ela era solitária. Havia muito tempo não tinha um relacionamento amoroso, muito menos com um homem bonito como Spencer Melbourne. Roxanne era uma mulher normal, com desejos normais, e a oportunidade faz o ladrão, porém não era tão tola para meter-se em confusão. Se fosse um outro tipo de homem com quem tivesse algo em comum, talvez Roxanne deixasse o relacionamento prosseguir. Mas Spencer Melbourne era diferente de todos que já conhecera, e jamais iria esquecê-lo. Tinha de dar um basta na intimidade que começava a existir entre os dois. Não queria acabar sozinha pensando em um homem que não voltaria a rever e que era mais interessado em aparências e oportunidades do que em uma mulher que o amasse. Roxanne não queria mais errar por amor. Porém, já não tinha desculpas para deixar de vê-lo. Depois de uma semana, foi forçada a procurá-lo com os fatos que descobrira nos arquivos de adoção. Não tinha certeza de como Spencer iria encarar tudo aquilo. Roxanne decidiu abordá-lo com delicadeza. Um encontro de manhã quando ele estivesse sozinho. Então, ao ouvir o que Roxanne tinha a dizer, poderia se desesperar sem que ninguém soubesse. Porém, quando telefonou para ele naquela tarde, Spencer insistiu em vê-la no mesmo instante. Spencer morava em uma casa de tijolos vermelhos perto da universidade, longe do comércio e do burburinho, em uma avenida ladeada por árvores, e onde a vida era mais tranquila. Havia um parque em frente, onde os carvalhos se mostravam cobertos de tons vermelhos, dourados e laranja, as cores do outono, e crianças brincavam nos balanços. Roxanne parou para observá-las, sorrindo, quando ouviu que a chamavam. — Roxanne! Voltando-se, viu Spencer na soleira da porta de sua casa, do outro lado da rua. Ainda usava roupas de trabalho, dessa vez um impecável terno cinza, e Roxanne teve de lutar para controlar as batidas do coração. Atravessou a rua como se fosse puxada por ímã. Apesar das diferenças sociais, de educação e estilos de vida, algo em Spencer Melbourne a atraía com extrema força. Quando ficaram cara a cara, Roxanne percebeu que Spencer estava preocupado. Ele fitou as crianças no parque. — É divertido olhar para elas, não é? — Sim. Pelo menos a distância. 36


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— Não gosta de crianças? — Não faço muito o tipo maternal. — Eu gosto muito. Algumas vezes, depois de um dia cansativo, fico observando aquele parque da janela do meu quarto. As crianças têm tanta energia, tanta alegria... São completamente alheias à realidade do mundo. Vivem com intensidade o momento presente... Spencer parou de falar, e Roxanne ficou imaginando o que pretendera dizer. Triste, ele balançou a cabeça, sorrindo. — Acho que nenhuma daquelas crianças fica pensando em quem são na verdade. — Voltou a encará-la. — O que tem para me mostrar? Roxanne ficou um pouco desapontada com a mudança na conversa. Voltou a ser profissional. — Podemos entrar, Spencer? Só então ele pareceu perceber que estavam de pé, à soleira da porta. — Claro. Por favor. A casa de Spencer parecia-se com ele: elegante e decorada com muito requinte. Estava repleta de antiguidades e obras de arte, móveis de boa qualidade e luzes suaves. Roxanne pensou que deveria sair em reportagens de revistas de decoração. Porém, por estranho que fosse, a residência não era formal. A mobília era antiga e bastante usada. Havia uma pilha de revistas espalhadas sobre uma mesinha de centro. Muitas fotografias enchiam prateleiras, de maneira desordena. Uma xícara de café fumegante repousava sobre um aparador. Era uma casa que respirava vida, e Roxanne sentiu-se confortável e muito à vontade dentro dela. Porém, ao virar-se para Spencer, percebeu que ele não estava tranquilo, e ela podia imaginar por quê. Na última semana, estivera vivendo dois estilos de vida: aquele no qual se acostumara e aquele que poderia ter sido o seu. Por uma simples guinada do destino, sua vida mudara. Em vez de Steven McCormick era Spencer Melbourne, duas identidades distintas. Roxanne imaginava que a sensação devia ser horrível. Spencer sentiu um aperto no peito. Tinha medo do que ia ouvir e da sua atração enorme por Roxanne. Observou-a vestida comum fuso vermelho, um suéter que chegava até os joelhos, da mesma cor, e uma longa echarpe amarela em volta do pescoço. Folhas de árvores, coloridas e brilhantes, estavam presas em suas botas. As mechas escuras dos cabelos caíam em seu rosto e ombros, e suas faces tinham ficado coradas pelo ar frio da rua. Parecia uma flor exótica das florestas que devia crescer livre e selvagem, mas que estava ali, confinada sob a luz artificial de uma casa. Roxanne fazia um tremendo 37


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contraste de vibração e vivacidade em meio a móveis velhos e usados. Spencer pensou que não se encaixava naquele ambiente e, quem sabe, ele também não. Como Roxanne recusou uma bebida, Spencer foi se servir. — Acho que precisarei de um drinque. — Claro, Spencer. Afinal, está na sua casa. Aliás, ela é linda. Você tem muito bom gosto. Spencer já ouvira aquele tipo de comentário muitas vezes, mas sempre pontuados por um travo de desdém ou de inveja. Na boca de Roxanne, soava com autenticidade, sem inveja, sem ironia. Spencer gostou daquilo. — Obrigado. Foi minha mãe quem decorou. É mais um reflexo dela do que meu. — O que é aquilo? — Roxanne apontou para sua escrivaninha. Em meio a diversos livros, apoiava-se um ursinho de pelúcia, preto e marrom, com um olho só, rasgado, o forro aparecendo, muitas vezes costurado. Sempre pertencera a Spencer. Era seu legado. — Aquela — explicou ele — é a vida de Steven McCormick. Seu nome é Charley. E tudo o que tenho da época anterior à minha adoção. Minha mãe disse que eu me agarrava a ele no berçário do orfanato e que me recusei a largá-lo. Creio que Charley está comigo desde o dia em que nasci. Roxanne ficou olhando para o ursinho, e Spencer imaginou se não estaria pensando como era ridículo um homem adulto com um brinquedo rasgado, conservado como uma joia rara. Ele mesmo não tinha certeza do porquê de o ursinho ser tão importante na sua vida; portanto, nem tentou explicar a Roxanne. Segurara-se ao ursinho Charley nos seus primeiros anos de vida e, de muitas maneiras, ainda o fazia. O brinquedo era um sinal do mistério que o circundava. Talvez uma outra pessoa no mundo tivesse um urso igual ao dele. E, se esse outro existisse, Spencer não se importaria se estava sentado sobre uma escrivaninha de cerejeira que custara milhares de dólares ou dentro de uma caixa de papelão em uma garagem velha e úmida. Charley era sua ligação com seu irmão gêmeo. Era á maior preciosidade que possuía. — O que descobriu? — perguntou, dando novo rumo aos pensamentos. Roxanne pareceu voltar à realidade também, e estendeu a pasta. Por algum motivo, Spencer não quis tocá-la. — Há muita coisa aqui que você não viu na semana passada, Spencer. Precisa ver. — Sim — respondeu, mas não fez nenhum gesto para pegá-la. — Não quer olhar? — Não tenho certeza. 38


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— Foi por isso que contratou meus serviços. Para saber mais a seu respeito. — Não. Contratei você para saber sobre meu irmão. — Interessante distinção. Nunca lhe ocorreu que, descobrindo sobre seu irmão, descobriria mais sobre você mesmo? São gêmeos, afinal. Spencer respirou fundo. — Quando a contratei, não pensei nas consequências disso. Só pensava em encontrar meu irmão. Não me ocorreu que, no transcorrer das buscas, iria descobrir mais sobre mim mesmo. E agora não tenho certeza se quero tomar conhecimento de certas coisas. — Compreendo. Spencer pensou como Roxanne poderia compreender se ele mesmo não conseguia. Dirigiu-se a um sofá e convidou: — Sente-se, Roxanne. Sem se importar com a voz de comando, ela dirigiu-se ao canto oposto e sentouse em uma poltrona junto à lareira. Um pequeno ato de rebeldia, mas Spencer percebeu. Por que ficar surpreso se já a conhecia? Roxanne não gostava de receber ordens. — Conte-me o que descobriu, Roxanne. Ela começou a mexer na papelada dentro da pasta, com gestos cuidadosos. — Quer mesmo saber, Spencer? — Sim. Quero. Roxanne meneou a cabeça, compreensiva, e começou: — Muito bem. A primeira coisa que deve saber é que seus pais estão mortos. Faleceram em um acidente de carro a algumas milhas de sua casa em Richmond. É claro que, na ocasião, você e seu irmão estavam com alguém em casa. Spencer colocou o copo sobre uma mesa e enterrou as mãos nos cabelos, mas nada disse. Não devia ficar surpreso com aquela revelação. Sempre suspeitara. Então, por que se sentir tão magoado? — Continue, Roxanne. — Tem certeza? — Claro... — Pois bem. A segunda coisa que deve saber é que encontrei seu irmão gêmeo. Pelo menos, a certidão original dele, e é tudo de que preciso para começar a procurar. O coração de Spencer disparou. O que Roxanne iria dizer agora era o que ele esperara ouvir durante muitos anos, desde que era criança. A curiosidade que o 39


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deixara sem dormir muitas noites, que o impedia de trabalhar algumas vezes. Ia descobrir sobre sua outra metade, o homem igual a ele e, ao mesmo tempo, um desconhecido. Alguém que vivia neste mundo havia tanto tempo quanto ele, com as mesmas características genéticas, mas que tivera suas próprias experiências. A imagem no espelho. Um total estranho. Tudo o que Spencer conseguiu balbuciar foi: — Conseguiu? — Sim. — Como... como se chama? Roxanne mordeu o lábio e olhou para ele em silêncio, por um momento. — Roxanne? Qual o nome dele? — encorajou Spencer. Ela baixou os olhos para o chão e, quando voltou a olhá-lo, sorria: — O nome dele... é... Charlotte.

CAPÍTULO SEIS

Spencer fechou os olhos e respirou fundo. Na certa, entendera mal. — Charlotte? — repetiu. — Meu irmão gêmeo se chama Charlotte? O sorriso de Roxanne tornou-se mais amplo. — Não, sua irmã gêmea se chama Charlotte. — Minha... minha irmã? — Sim, sua irmã! — Mas... mas isso é impossível! Tenho um irmão gêmeo! Roxanne não pôde deixar de rir, e meneou a cabeça, teimosa. — Não, não tem. Quem nasceu, dezessete minutos antes de você, foi Charlotte Ellen McCormick. Spencer sorriu, nervoso, ansioso, porém cheio de satisfação. — Tenho uma irmã mais velha? — perguntou, sorrindo. — Parabéns, é uma menina! 40


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Levantando-se depressa, Roxanne foi sentar-se junto a Spencer no sofá. Abriu a pasta e percorreu algumas páginas amareladas até encontrar a que procurava. — Uma vez sabendo o nome de sua mãe biológica — começou Roxanne —, pude voltar ao Departamento de Estatísticas. Então, chequei a data de seu nascimento e encontrei uma outra data embaixo do nome dela, correspondente ao outro bebê. Foi simples assim. Eis uma cópia da certidão original de sua irmã. Roxanne entregou o papel para Spencer, que a examinou com a mesma deferência com que examinara a sua própria, dias antes. Mãe: Sherry McCormick. Pai: James McCormick, Nascimento múltiplo. Richmond, Virgínia. Todas as informações eram idênticas às suas. Exceto pelo nome e pelo sexo. Se a certidão estivesse correta, ele tinha uma irmã gêmea. — Como conseguiu isso, Roxanne? — Com um truquezinho. Arrumei uma carta de motorista do Estado de Virgínia com minha foto e o nome de Charlotte, preenchi um formulário, e me deram a certidão. Spencer olhou para Roxanne, incrédulo. — Quantas leis você terá de burlar ainda até acabar o trabalho? Roxanne deu de ombros, despreocupada. — Quantas forem necessárias. Bem, sua irmã não deve mais ser Charlotte McCormick. Com certeza, leva o nome de seus pais adotivos. Como você, era uma criancinha na época. Isso vai dificultar a busca. Mais difícil ainda será se tiver se casado e mudado o nome de novo. — Mas não é impossível, é? — Não, de maneira alguma. Mas vai demorar. Tenho vários caminhos a seguir e estou estudando qual será o mais rápido. Mas, para ser franca, Spencer, isso pode demorar bastante. Por incrível que pudesse parecer, aquilo não o incomodou. Já era suficiente, por enquanto, ter um nome, algo real que fazia parte de sua história familiar. Saber que estava ligado a um outro ser humano por laços tão fortes já era muito. — Tudo bem, Roxanne. Já é ótimo saber que não estou só no mundo. Sorrindo, Roxanne cobriu a mão de Spencer com a sua. — Não, não está só. Spencer olhou para a mãozinha que mal cobria a sua e acariciou-a, entrelaçando seus dedos. — Obrigado, Roxanne. — Por nada. Como já disse, é o meu trabalho. Tentou libertar a mão, mas 41


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Spencer não deixou. Então, Roxanne relaxou. Era uma sensação gostosa. — Deixarei o arquivo aqui. Além dos dados sobre sua adoção, existem informações que consegui sobre seus pais, seus falecimentos e sua irmã. Pelo que pude entender, não houve parentes vivos que pudessem ter tomado conta de vocês, o que fez com que ficassem sob a guarda do Governo e fossem dados para adoção. Mas você mesmo poderá ler a respeito, Não há muito nesse arquivo, mas já é um começo. Roxanne começou a se levantando sofá, mas Spencer a fez sentar-se do novo, e ela encostou-se nele, perdendo o equilíbrio. Spencer a tomou nos braços e a fitou, som saber o que dizer. — Você não vai embora, vai, Roxanne? Ela lutou para se aprumar, mas Spencer a reteve. Por fim, Roxanne deixou-se ficar. Porém havia uma rigidez na sua postura que não agradou a Spencer. — Sim — respondeu Roxanne. — Acho melhor ir. Você vai querer ler tudo em particular. Se tiver alguma pergunta, pode me ligar. — Preferiria que ficasse aqui enquanto leio. Assim, se tiver dúvidas, já esclareço. — Mas... — Se está com fome, posso pedir o jantar. Há um ótimo restaurante que entrega em casa e que me serve sempre. Tem tudo o que você possa imaginar. Que tal encomendarmos? — Não precisa se incomodar. Não estou com tanta fome assim. Porém, seu estômago roncou alto, contrariando-a, e Roxanne riu. — Do jeito que faz barulho, não só está com fome, como também não vai nem conseguir chegar ao portão sem desmaiar. Quando foi a última vez que se alimentou? Roxanne deu de ombros, sem graça. — Comi cereais no desjejum. — Não come desde hoje cedo?! Roxanne balançou a cabeça, confirmando. Não queria fazer drama contando a Spencer que gastara seus últimos dois dólares com uma xícara de café e um bilhete de loteria. — Não tinha sentido fome até agora — mentiu. — Então, que tal ficar para jantar? Os olhos de Spencer eram tão azuis, tão honestos, tão lindos, tão carentes... Mas era o tipo de homem que jamais imploraria por nada. Mesmo assim, aquele olhar demonstrava que estava mais perdido e desesperado do que qualquer pessoa que Roxanne já conhecera. 42


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— Por favor, Roxanne. Como não obtivesse resposta, com a mão livre Spencer acariciou seu rosto, sua boca e pescoço. Parou junto às suas espáduas, deslizando o polegar. Cobriu seu pulso com a ponta do dedo e sorriu ao sentir como as batidas do coração de Roxanne estavam rápidas. — Não vá — pediu, suave. — Fique aqui comigo. Só um pouco. Só até eu ter a chance de concatenar minhas ideias. Roxanne sentia a pele quente. Aqueles olhos... não era justo um homem ter olhos como aqueles. — Eu... Está bem. Devia se envergonhar de si mesma por concordar com tanta facilidade. Tinha de ter mostrado um pouco de força de vontade. Pelo menos, pedir que Spencer encomendasse sobremesa também. Mas nada disse. Ficou sentada no sofá, ansiando que Spencer a abraçasse mais e, ao mesmo tempo, apavorada com aquela perspectiva. Por sorte, ele a soltou, levantou-se e se afastou do sofá. Roxanne o ouviu falar ao telefone e depois voltar para seu lado. — Vou ver se tenho vinho para servir. — E Spencer saiu da sala. Roxanne sentiu-se aliviada. O conceito de Spencer sobre "encomendar" um jantar era bem diferente do que Roxanne tinha. Quando ela pedia comida em casa, um adolescente de cabelos compridos e rosto pouco amigável da Pizzaria do Dan aparecia à sua porta com uma caixa grande de papelão. Roxanne consumia tudo, depressa, no sofá do escritório, ouvindo rádio, e ponto final. Entretanto, no caso de Spencer, apareceram dois garçons de paletó branco impecável e gravata preta, cada um trazendo prato após prato, cobertos com tampas de metal. Após cumprimentarem Spencer, foram até a sala de jantar, onde colocaram uma toalha branca de linho sobre a mesa e a louça. Roxanne observou, estupefata, enquanto os dois rapazes acendiam velas, arrumavam flores frescas numa jarra no centro da mesa. Entraram com segurança e começaram a fazer um barulho típico de preparativos e deixando claro que já conheciam muito bem a cozinha de Spencer. Um momento depois, um dos garçons voltou, trazendo uma bandeja de prata com dois copos de vinho branco. Spencer pegou um deles, com naturalidade, ofereceu-o a Roxanne e serviu-se do outro. Agradeceu ao garçom, que voltou a desaparecer dentro da cozinha. — Espero que não se importe. Como você não conhecia o restaurante, eu mesmo fiz os pedidos. Roxanne ainda estava muito atordoada para falar; então, apenas bebeu o vinho e concordou, com um gesto de cabeça. 43


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Spencer já tinha levado seu próprio copo à boca, mas parou com ele no ar, ao ver a reação de Roxanne. — Você se importou? Roxanne saboreou a bebida suave, maravilhando-se com a diferença entre aquele e o vinho barato que costumava comprar no supermercado. A escolha de Spencer era muito melhor, e Roxanne quis saborear em vez de engolir de uma só vez. Voltou a menear a cabeça. Spencer suspirou, exasperado. — Bem, o que foi? Sim ou não? Espero não tê-la ofendido. — Não, Spencer, você não me ofendeu. Não me importo. — Não é nada muito especial. Apenas frango, salada, esse tipo de coisa, mas fazem muito bem nesse restaurante. "Nada muito especial", repetiu Roxanne para si mesma. Certo. Se aquela era a ideia que ele fazia de algo simples, não conseguia imaginar o que Spencer considerava formal. Mais uma vez, o abismo que separava seus estilos de vida a golpeou, e Roxanne ficou imaginando como teria sido para ele crescer naquele ambiente. Não conseguia imaginar uma vida tão luxuosa e privilegiada. Nem sabia se gostaria de viver assim, mesmo que tivesse oportunidade. Parecia que tudo dava muito trabalho. Imaginou se Spencer se dava conta de que poderia não ter conhecido todo aquele luxo. Se tivesse crescido como Steve McCormick, com pais de classe média, poderia ter sido bem parecido com ela, que lutava para ganhar o pão de cada dia, vivendo de cheque em cheque, não podendo comprar as coisas que desejava, nem mesmo as que necessitava. Se os pais biológicos de Spencer tivessem vivido e se ele não houvesse sido criado na alta sociedade, se todo o seu sistema de vida fosse baseado no "precisar", e não no "possuir", talvez ele e Roxanne tivessem tido muito em comum. E aquela atração que existia entre os dois poderia crescer. Mas, do jeito que as coisas eram, Roxanne via pouca chance de um envolvimento romântico entre eles. Talvez os opostos se atraíssem, mas será que era possível dar certo? Será que o destino estava pondo sua mão sobre Roxanne e Spencer? Ou tudo acabaria em nada? Talvez jamais viessem a saber. Tendo sido adotado, Spencer crescera cercado de amor e dinheiro. Mas seus pais biológicos também teriam lhe dado amor. E, ainda que não pudessem lhe propiciar uma educação esmerada e um ambiente luxuoso, Spencer, ou melhor, Steve, também teria sido feliz. Na verdade, Roxanne desconfiava que o Spencer que conhecia não se sentia satisfeito o suficiente. Embora não desse sinais de ser infeliz, também não parecia 44


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muito contente. Parecia que algo faltava em sua vida, mas Roxanne não atinava com o quê. Esperava que, ajudando-o a encontrar a irmã, Spencer ficasse mais alegre. "Mas não é para isso que ele a paga", lembrou-se Roxanne. "Essa parte não é da minha conta. Trato de pessoas perdidas, não de corações feridos." Mas Roxanne não conseguia se convencer daquilo, porque eram as emoções que também motivavam sua vida. Talvez sua ânsia em ajudar Spencer fosse proveniente do fato de que não conseguira ajudar a si mesma. Talvez quisesse vê-lo inteiro, porque Roxanne nunca conseguira ser uma pessoa por inteiro. Roxanne resolveu agir profissionalmente com Spencer, continuar fazendo o seu trabalho e depois voltar a viver sua própria vida. Sozinha. Apesar de tantos preparativos, o jantar acabou sendo algo agradável e simples. Quando terminaram, os dois garçons limparam tudo, empacotaram os objetos e desapareceram. Spencer e Roxanne voltaram à sala de estar, com seus copos de vinho. Spencer encaminhou-se para a pasta que continha os detalhes da adoção, ainda hesitante. Fora ele quem começara aquele processo e, apesar de não ter se preparado para a bola de neve em que se transformara tudo aquilo, não tinha escolha agora, a não ser prosseguir. Em silêncio, levou os papéis até uma escrivaninha no canto da sala, sentou-se, acendeu a luminária, colocou óculos de leitura e afrouxou a gravata. Roxanne ficou sentada no sofá, folheando uma revista. Quando Spencer voltou a olhá-la, duas horas haviam se passado em completo silêncio. Spencer estava mais confuso do que nunca, e Roxanne dormia, enroscada no sofá, as botas atiradas ao chão. Por um momento, Spencer esqueceu-se de quem era, de onde estava. Nas duas últimas horas, penetrara na curta vida de Stephen James McCormick e na morte trágica de seus pais. Lera tudo, desde sua entrega ao Estado até o orfanato onde passara quatro semanas; a entrevista e o histórico das pessoas que conhecera como seus pais a vida toda e, por fim, a casa onde crescera. Um funcionário do governo viera visitá-lo nos primeiros meses para assegurarse de que sua nova família o tratava bem. Mas, é claro, Spencer não se recordava de nada daquilo. Só conseguia se lembrar de duas pessoas que o haviam amado muito, que lhe proporcionavam natais inesquecíveis. Um homem e uma mulher que o haviam feito conhecer um tipo de vida que, em outras circunstâncias, jamais teria conhecido. Stephen James McCormick transformara-se em Spencer Mason Melbourne. Não havia mais nenhum Steve. Apenas Spencer. E ambos eram o mesmo. Spencer tirou os óculos, esfregou os olhos e respirou fundo. Voltou a se fazer a pergunta que o atormentava nos últimos dias: onde estaria naquele exato minuto se não tivesse sido adotado? Se Sherry e James tivessem saído de casa dois minutos 45


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antes e nunca houvessem sido atingidos na estrada por um caminhão de mudanças? Estaria ele trabalhando, então, como gerente de nível médio em uma fábrica de automóveis, como sugerira Roxanne? Possuiria um armário com roupas compradas em liquidação em vez de feitas sob medida? Estaria dirigindo um Dodge Caravan em vez de um Porsche 911 Cabriolet? Passaria horas quebrando a cabeça para tentar encontrar um jeito de pagar a hipoteca, agora que sua filha precisava pôr aparelho nos dentes e seu filho queria aprender a tocar clarinete? Teria de deixar de comprar o que queria por não ter dinheiro suficiente? E haveria uma mulher na sua vida, alguém em quem se abraçar todas as noites quando sentisse que os problemas o estavam minando? Steve teria problemas que Spencer nunca tivera. E talvez tivesse outras coisas que Spencer nunca teria. Qual das duas vidas seria melhor? Spencer deixou as mãos caírem sobre o tampo da escrivaninha. Jamais saberia, e não fazia sentido ficar se desgastando, imaginando uma vida que nunca existira. Relanceou os olhos para o sofá onde Roxanne dormia, tranquila, ignorando suas indagações interiores. Desde que a conhecera, ficara impressionado com sua segurança. Roxanne se aceitava do modo como era, e Spencer a invejava por isso. Pela confiança e certeza em si mesma, que às vezes o superavam. Ela era Roxanne Matheny, e quem quisesse que a aceitasse assim. Spencer a desejava. Mas o que fazer com ela depois que tivesse sido sua? Levantou-se, fazendo barulho com a cadeira. Roxanne resmungou, mas continuou dormindo. Devia estar exausta para adormecer tão profundamente ainda tão cedo. Spencer esperava que não estivesse se cansando demais com aquele caso, mas, na verdade, queria que Roxanne se envolvesse, e muito. Atravessou a sala sem fazer barulho. Inclinou-se sobre ela no sofá, mas Roxanne não acordou. Passou os dedos, de leve, por seu rosto, surpreso com a maciez e o calor de sua pele. Spencer sorriu. Devia acordá-la e levá-la para casa, mas algo o impediu de fazêlo. Tentou convencer a si mesmo que era porque não desejava interromper seu sono, mas na verdade sabia que a presença de Roxanne o deixava menos solitário. Pegou uma manta de algodão atrás do sofá, abriu-a e cobriu as pernas de Roxanne. Então, voltou para a escrivaninha, apagou a luz e ficou por um momento no escuro. Talvez Steve McCormick pudesse ter uma mulher esperando por ele todas as noites quando voltava para casa, pensou Spencer. Mas não seria Roxanne Matheny. Dirigiu-se para a escada na entrada da casa e subiu os degraus acarpetados. Voltou-se uma vez para vê-la dormindo, banhada por uma luz pálida que entrava pela janela. Sorrindo, de repente Spencer não teve tanta certeza se Steve seria o mais feliz deles dois. 46


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CAPÍTULO SETE

Roxanne acordou em um ambiente que lhe pareceu familiar. Estava deitada em um sofá, a sala às escuras, exceto por um facho de luz que penetrava pela janela. Mas, em vez do barulho costumeiro que circundava seu escritório e que fazia com que acordasse sobressaltada, havia um silêncio total. Só então percebeu que a luz da rua entrava por uma grande janela de vidro muito limpo, e não pelo vidro sujo por trás de sua escrivaninha. O sofá em que estava deitada era muito confortável, bem diferente daquele amarelo e barulhento na antessala, que ocupava como quarto. De repente, lembrou-se de que estava na casa de Spencer. A última coisa que se recordava era de tê-lo observado entretido na leitura do arquivo de adoção, notando o modo como seus dedos mergulhavam, nervosos, nos cabelos, surpresa pelo fato de ele ficar ainda mais bonito usando óculos. Lembrou-se de que o vinho a deixara com sono e como viera se deitar no sofá apenas por um minuto. Bem, tinha estado muito mais cansada do que imaginara. Lutou para ver as horas no relógio de pulso, em meio à semiescuridão. Quase duas e meia da manhã. Ir para sua casa nesse horário seria muito perigoso. Aquela era a hora em que a rua fervilhava com gente da pior espécie e que as pessoas de bem, como Roxanne, tratavam de já estar bem cobertas nas suas camas. Teria muita sorte se chegasse em casa sem ter sido assaltada. Pela primeira vez, notou a manta de algodão sobre as pernas e sorriu. Spencer não se importou de ela passar a noite em sua casa. Poderia tê-la acordado e a mandado embora. De qualquer modo, Roxanne Matheny não se aproveitava da hospitalidade das pessoas. Muito menos quando o dono da casa devia estar no andar de cima, dormindo, e seria tão fácil subir e... Dominou o pensamento absurdo. Seu estômago voltou a roncar, e Roxanne imaginou que Spencer não se importaria se ela levasse uns pãezinhos que haviam sobrado do jantar da véspera. Foi até a cozinha, abriu a enorme geladeira e, quando enrolava dois pãezinhos em um guardanapo de papel, um barulho a sobressaltou, fazendo-a virar-se de supetão. Spencer estava parado à porta, uma mão no interruptor, descalço, a camisa do pijama de seda azul-marinho amarrada na cintura, um roupão jogado sobre os ombros. Roxanne prendeu a respiração. Fantasiara muito sobre o tórax despido de Spencer, 47


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mas nunca pudera imaginar que a realidade fosse tão melhor que a fantasia. Os músculos do abdome eram rijos e bem delineados. Nervosa, Roxanne começou a apertar tanto os pãezinhos que quase os amassou. — Nossa! Você me surpreendeu roubando comida antes de ir embora — disse Roxanne, humilde, esperando que Spencer não pudesse ouvir as batidas desesperadas de seu coração. — Ir embora? Aonde pensa que vai a esta hora? Roxanne forçou-se a desviar a atenção daquele tórax maravilhoso e encarar o rosto de Spencer, que sorria. — Tenho de ir para casa. O sorriso desapareceu do rosto de Spencer. — Tem alguém esperando por você? — Não. Roxanne se arrependeu da resposta. Se tivesse dito que sim, poderia ter preservado a distância entre eles, que parecia diminuir minuto a minuto. Spencer voltou a sorrir. — Se ninguém a está esperando, então por que a pressa? Estamos no meio da noite, por Deus! Fique até de manhã. Tome café. Roxanne ergueu os pãezinhos. — E isto, o que é? Spencer aproximou-se de Roxanne até ficar a pouca distância. Sem sapatos, Roxanne era muito mais baixa, e viu-se olhando para o peito de Spencer. De novo. Seu corpo cheirava bem, como se tivesse tomado banho antes de deitar, exalando um aroma muito masculino. Erguendo os olhos, ela viu que o queixo de Spencer estava escuro pela barba que despontava, e lembrou-se de como o roçar de sua pele na dela deixara uma mancha em seu rosto. — Está mesmo roubando seu café da manhã? — perguntou Spencer. Respirando fundo, Roxanne respondeu: — Não é um roubo de verdade. É mais... — O quê? — Muito bem. Eu estava roubando. Mas, quando se rouba de um amigo, não é crime. É mais um empréstimo. Spencer pareceu pensar a respeito. — Você me considera um amigo? — Claro. — Então, passe a noite aqui. 48


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— Oh, não acho... — O que há, Roxanne? Está com medo do que possa vir a acontecer entre nós dois? — Claro que não — mentiu. — Por que pergunta? —Talvez porque eu esteja com medo do que possa acontecer. Ela não conseguiu dizer nada. Apenas inclinou a cabeça para trás e olhou-o nos olhos, fascinada com o fogo que eles transmitiam. — O motivo por que desci agora é que estava deitado na cama durante as últimas duas horas, acordado, tentando descobrir uma desculpa para acordar você. Roxanne continuou em silêncio. Sabia que devia responder, fazer alguma coisa para detê-lo, mas não conseguia pensar em nada. Para sua irritação, percebeu que não queria deter Spencer, desejava ouvir o que ele tinha a lhe dizer, e estivera pensando nas mesmas coisas que ele. Queria saber se desejava fazer amor com ela da mesma maneira que Roxanne. Então, em vez de detê-lo, ficou encarando Spencer, olhos nos olhos, encorajando-o a continuar. E ele continuou: — Quando conseguisse acordá-la — murmurou, pegando uma mecha dos cabelos de Roxanne entre os dedos —, arrumaria uma desculpa para me aproximar de você. Roxanne umedeceu os lábios e engoliu em seco. Mas continuou calada. — E então — prosseguiu Spencer, dando mais um passo em direção a Roxanne —, uma vez bem perto, arranjaria uma desculpa para... — Para fazer o quê? — encorajou Roxanne. — Deixá-la nua. — Oh, não... — Levá-la para minha cama. — Spencer... — Amar você. Roxanne podia ver que ele estava determinado a fazer aquilo e, em vez de ficar chocada, sentiu-se curiosa de saber o que aconteceria de especial se fizessem amor. Porém, curiosidade não era uma boa razão para fazer papel de boba. — Tenho de ir embora. — Roxanne... — Não, Spencer, estou falando sério. Preciso ir. Deixou os pãezinhos embrulhados sobre o balcão da cozinha e procurou pela echarpe, mas Spencer segurou-a pela outra ponta, sem largar. 49


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— Não vá. — Tenho de ir. — Por quê? — Porque não faz sentido alimentar essa atração que temos um pelo outro. — Por quê? — Porque não há futuro nela. — Por quê? — Porque... Spencer deu outro puxão na echarpe, obrigando Roxanne a aproximar-se. — Por que, Roxanne? Ela sabia o motivo. Havia muitos, muitos anos, um rapaz rico, de cabelos negros e olhos azuis, prometera tudo e a deixara sem nada. Porque Spencer era o mesmo tipo de homem no qual aquele rapaz devia ter se transformado. Ele e Roxanne eram diferentes, tinham vindo de ambientes diversos. Roxanne tinha certeza absoluta do modo como Spencer Melbourne a trataria quando se cansasse dela. Porém, não lhe disse nada. Apenas suspirou. — Porque... é loucura, só isso. — Não, não é. Sabe o que seria mesmo uma loucura? Roxanne não respondeu. Spencer passou a echarpe pelos ombros dela e, com um puxão final, trouxe-a para junto de si. — Isto seria uma loucura. Antes que Roxanne tivesse tempo de reagir, Spencer a beijou, deslizando a língua por seus lábios, fazendo com que um intenso calor percorresse o corpo dela. Sem forças, Roxanne encostou-se em Spencer, e suas mãos percorreram os quadris e a cintura dele, sentindo a maciez do tecido do roupão. Subindo a mão para seu peito, percebeu como estava quente sob seu toque. Roxanne abriu a mão, espalmando-a sobre o tórax musculoso, sentindo a vibração das batidas que se aceleravam. A outra mão enlaçou-lhe o pescoço, e Roxanne ficou surpresa com a nova reação violenta de seus batimentos cardíacos. Estava tão envolvida em explorar o corpo masculino que surpreendeu-se ao sentir Spencer envolvendo suas nádegas. Spencer pressionou, fazendo movimentos eróticos sobre a pele macia, o que fez com que Roxanne arqueasse o corpo contra o dele, sentindo-o vibrar de paixão. Roxanne deixou escapar um gemido, e Spencer silenciou a voz de seu desejo, cobrindo sua boca, deslizando a língua em seu interior, com profundidade. Mergulhou a mão sob o suéter dela até encontrar um seio envolto em rendas. 50


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Cobriu-o, sentindo o mamilo enrijecido. A respiração de Roxanne era uma mistura de gemidos e suspiros e, encorajando Spencer, tocou sua outra mão e encaminhou-a para seu outro seio. Spencer permitiu que Roxanne indicasse o caminho de seus desejos, e ela guiou sua mão para o ventre e para o interior de suas pernas. Só então Spencer a soltou, não porque Roxanne assim o desejasse, mas porque o clímax da paixão prometia irromper a qualquer momento, e Spencer não desejava que fosse tudo tão rápido. Seus dedos voltaram a acariciá-la, e Roxanne sentiu as pernas fracas. Foram caminhando para a sala de estar e subiram as escadas, entrando no quarto, Spencer sempre acariciando Roxanne, apenas parando para deitá-la na cama e tirar o roupão e o pijama. Ficou imóvel na frente dela, despido, o luar penetrando pela janela, iluminando seu corpo com um halo prateado. Enfim, Roxanne conseguiu falar: — Você está certo. Isso é loucura. Não devíamos fazer. Mas Roxanne não o encarava. Percorria seu corpo nu, que tanta curiosidade lhe despertava nos últimos tempos. Spencer possuía um físico magnífico. Era alto, forte, musculoso, e estava ansioso por possuí-la naquele exato momento. Então, apesar de ter acabado de dizer que aquilo seria loucura, com gestos lentos e sensuais, Roxanne despiu o suéter pela cabeça. Quando ia abrir o sutiã, Spencer a fez parar. — Deixe que eu faço isso. — Deitou-se na cama, ajoelhando-se em frente a Roxanne e, em vez de abrir-lhe o sutiã, tomou seu rosto. — Você é tão bonita! Não só seu corpo, mas sua alma, também. Você é tão... Parou de falar, como se não conseguisse encontrar as palavras certas. Então, concluiu: — Jamais encontrei uma mulher como você. Roxanne tentou libertar-se do nó que sentiu na garganta ante aquela declaração. Procurou convencer-se de que era uma novidade para Spencer, nada mais. O único motivo de estar com ela agora era pelo fato de Roxanne ser algo diferente, exótico, uma mulher menos refinada, menos inibida, menos policiada por regras sociais. Tentou convencer-se de que Spencer a considerava alguém fácil, selvagem, pronta a ter experiências que suas namoradas habituais não permitiriam. Ela tentou, mas não conseguiu se convencer daquilo. Tudo o que podia ver à sua frente era um homem ansioso e solitário, e só conseguia responder ao seu apelo com uma força incrível e perigosa. Não era possível evitar Spencer, assim como não conseguia evitar de respirar. Precisava dele. Não havia como retroceder agora. Tentou parecer racional, apesar da situação: — Será difícil encontrar outra mulher como eu no futuro; para sorte sua. Porém, o comentário frio entrava em choque com os sentimentos que se 51


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debatiam em seu peito. Spencer sorriu e acariciou suas faces. — Acho que já tenho muita sorte. Portanto, não preciso conhecer outras mulheres no futuro, iguais ou diferentes de você. Roxanne abriu a boca para protestar, qualquer coisa que pudesse diminuir o impacto das palavras de Spencer, porém ele a deteve, pousando o dedo sobre seus lábios. — Não diga mais nada. — Colocou as mãos nos ombros de Roxanne, pedindo: — Vire-se. Ela obedeceu, afastando as cobertas amassadas ao fazer aquilo. Os dedos cálidos de Spencer manejaram o fecho do sutiã, soltando-o. Passou as alças por baixo dos braços de Roxanne, e a delicada peça de roupa caiu ao chão. Roxanne sentiu-o movimentar-se por trás dela, o tórax encostando-se nas suas costas e as mãos segurando seus seios por trás. Com o polegar e o dedo médio, apertou seus mamilos com suavidade. Roxanne fechou as pálpebras e jogou os braços para trás, segurando os cabelos de Spencer. Sentia-se quente e úmida, Uma das mãos dele deslizou para o cós do fuso que Roxanne usava. — Vamos nos livrar disto — murmurou ao ouvido dela. Roxanne apenas acenou, concordando com medo de que sua voz falhasse, e permitiu que ele despisse seu fuso e a calcinha, deslizando-os pernas abaixo. Então, Spencer fez com que se virasse, ficando de frente para ele, nua e ansiosa. — Assim está melhor — sussurrou, a boca encostada à orelha de Roxanne. Mais uma vez, suas mãos procuraram os seios brancos, enquanto Roxanne espalmava as suas nos quadris de Spencer. Ouviu-o gemer, mergulhando a cabeça na curva do pescoço de Roxanne. Afastou seus cabelos e beijou-a na nuca, repetidas vezes. A cada beijo, Roxanne acariciava as costas de Spencer. Cada gesto fazia com que o sentisse mais exaltado e pronto para possuí-la. Então, Spencer afastou-se dela, segurando os ombros de Roxanne, que deve ter demonstrado uma enorme surpresa na sua expressão, pois Spencer sorriu e disse: — Quero que isto dure o maior tempo possível. — Spencer, eu... — Não diga nada. Não fale mais. Deixe que as coisas aconteçam. Vamos sentir essa mágica que nos possui. — Mas... — Psiu... Roxanne obedeceu. Afinal, não tinha mais forças para lutar. Passou a mão pela 52


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nuca de Spencer, puxou-o e beijou seus lábios de modo profundo e ansioso. Spencer se inclinou para frente, apoiando-se com as mãos no colchão e, devagar, a fez deitar-se. Os lençóis sob o corpo de Roxanne estavam frios, mas o homem sobre ela ardia de desejo. Spencer ficou entre suas pernas, enfiou as mãos nos cabelos de Roxanne e segurou-a firme, enquanto retribuía b beijo. Depois, abaixou a cabeça em direção aos seios, beijando primeiro um e depois o outro, deslizando a língua na pele quente, provando a textura, as curvas e reentrâncias, até que Roxanne pensou que ia enlouquecer de prazer. Então, satisfazendo sua ânsia naquele ponto, Spencer voltou a baixar a cabeça, dessa vez no umbigo e ainda mais abaixo. Afastou-lhe as coxas para melhor alcançar o ponto que desejava, com as mãos e com a boca. Roxanne jamais experimentara uma carícia tão íntima e excitante. Mal conseguia se mexer, tão surpresa estava pelas sensações que Spencer despertava em seu corpo com uma rapidez e intensidade indescritíveis. Só conseguia ficar deitada, quieta, amassando a fronha do travesseiro, imaginando como um ser humano podia suportar tamanho êxtase físico sem morrer de desejo. O tempo não tinha mais significado, e tudo ao seu redor pareceu desaparecer. Fechou os olhos e viu um caleidoscópio em chamas, sentiu que um nó de fogo começava a se desatar por inteiro em seu corpo. Muito devagar, fazendo com que ela sentisse que ia desfalecer, um estremecimento percorreu suas entranhas. Meneando os quadris, Roxanne atingiu o orgasmo. No mesmo instante, Spencer ficou deitado sobre ela, sorvendo seus gemidos com a boca, impedindo qualquer movimento de seu corpo. Roxanne não sabia quanto tempo se passara, até que abriu os olhos. Talvez alguns segundos, talvez horas. Quando conseguiu focalizar a cena ao redor, viu Spencer ao seu lado, apoiado no cotovelo, a mão sobre seu seio, o polegar traçando círculos sobre a pele quente. — Você está bem? — perguntou ele, sorrindo. Roxanne conseguiu acenar afirmativamente, muito cansada. — Acho que sim. Spencer sorriu ainda mais. — Isso é bom, porque ainda temos muito a fazer. — Temos? Ele soltou uma risada baixa, e Roxanne pensou nunca ter ouvido um som tão sensual em toda a sua vida. — Sim, senhora... Roxanne respirou fundo, encontrando forças para abraçá-lo e dizer: —Então, por favor... continue. Spencer inclinou-se sobre a mesinha-de-cabeceira e retirou algo da gaveta. 53


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Roxanne soube que a precaução era necessária, tanto para um como para o outro. Mas mesmo esse pequeno intervalo para dentro da realidade fez com que ela pensasse que o que estava fazendo só iria lhe trazer mágoas. Não passava de mera fantasia, ilusão. Então, parou de pensar, pois Spencer voltara a acariciá-la. — Quero tê-la por inteiro, Roxanne. Roxanne gostaria de responder que Spencer já estava dentro dela, desde quando chegara a seu escritório parecendo tão confuso e perdido. Mas, antes que pudesse dizer uma só palavra, Spencer a penetrou de fato, e as palavras, assim como sua respiração, ficaram presas na garganta. Os dois se fundiram em uma só pessoa. Roxanne imaginou se algum dia conseguiriam se separar. Gemia a cada arremetida de Spencer, entendendo que ele a conquistara de um modo como nenhum homem conseguira, instalando-se, a ferro e fogo, para sempre, em seu coração, não importando o que viesse a acontecer depois. Spencer estava dentro de Roxanne. Como desejara. Como Roxanne sempre soubera que estaria, para todo o sempre.

CAPÍTULO OITO

Quando Spencer despertou, ainda estava escuro. Roxanne dormia a seu lado, um braço sobre seu peito; o outro debaixo do travesseiro. A luz acinzentada do amanhecer, seu corpo parecia de prata, Spencer sentiu a perna de Roxanne passada sobre sua coxa, e o desejo o tomou outra vez. Respirou fundo. Roxanne o excitava demais. Spencer fizera amor com ela por duas vezes, possuindo-a com uma fúria que não lhe era habitual. Sentia-se como um animal quando estava com Roxanne, a paixão tirando qualquer partícula de bom senso. Havia tanto desejo, tanta ânsia... Agora seu corpo ansiava por mais. Spencer aproximou-se de Roxanne, que suspirou, feliz. Ela se encaixava bem na sua cama, nos seus braços. Enfim, na sua vida. Por um momento, fantasiou viver junto dela. Então, voltou a pensar no sonho. Olhou para o relógio na mesinha-de-cabeceira e viu que eram quase cinco horas 54


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da manhã. O sol logo nasceria. Voltou a olhar para Roxanne e, por um momento, desejou despertá-la, porém ela estava tão bem ao seu lado, quente e macia... Teria tempo, mais tarde, para contar-lhe sobre o sonho e para falar de muitas coisas. Quando voltou a despertar, Spencer viu Roxanne se vestindo. Levantou-se sobre um cotovelo e passou a mão no rosto, sem nada dizer. A luz que entrava pela janela era rosa, agora. Spencer observou Roxanne passar o suéter vermelho pela cabeça, e as mãos pelos cabelos, tentando ajeitá-los. Não sabendo que ele a observava, ela parou e passou os punhos fechados sobre os olhos. Ficou naquela posição por um longo momento, depois resmungou e baixou os braços. — Bom dia — disse Spencer, em voz baixa. De um salto, Roxanne voltou-se e, mesmo à fraca luz do quarto, Spencer pôde ver que ela estava em pânico; só não entendia o porquê. Depois da noite maravilhosa que tinham passado lado a lado, Spencer só podia imaginar que Roxanne se sentiria como ele: relaxada, serena e tranqüila. — Outra vez você me pegou tentando sair — disse ela, a voz rouca. — O que planeja levar consigo agora? — perguntou, sorrindo. — Além do meu coração, quero dizer. Roxanne retribuiu o sorriso, com a expressão ansiosa. — Nada, prometo. Vou parar na padaria perto do escritório. — Eu a levo para casa. — Mas Spencer não fez nenhum gesto para se levantar. — Mais tarde... — E bateu no lençol vazio ao seu lado, sentindo a fragrância quente e almiscarada do corpo de Roxanne, que impregnara o tecido. — Por que não volta para a cama e fica um pouco mais? E muito cedo ainda. Nenhum de nós dois tem compromissos tão cedo hoje. Roxanne balançou a cabeça. — Não, na verdade é muito tarde. Como não dissesse mais nada, Spencer tentou perguntar o que queria dizer com aquilo. Mas, antes que tivesse oportunidade, Roxanne saiu do quarto, e Spencer percebeu que ela falava a sério. Estava saindo de sua cama, de seu quarto, de sua casa.,. Deus! Estava saindo de sua vida! Jogando os lençóis para longe, Spencer pulou da cama, nu, e correu atrás de Roxanne. — Aonde vai? — Minhas botas estão lá embaixo— respondeu ela, sobre o ombro, sem andar mais devagar ou olhar para trás. — Roxanne... — Spencer segurou-lhe o pulso e fez com que ela se virasse para encará-lo. — Qual o motivo da pressa? 55


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Sabia que Roxanne desejava ficar. E muito. Podia ver em seus olhos. Mas ela nada dizia nem se mexia. — Roxanne? — insistiu. Ela continuou imóvel. Quando Spencer a tomou nos braços, Roxanne desabou. A cabeça tombou para a frente, os ombros arriados, até os joelhos dobrados, em posição da mais absoluta derrota. Mas continuou em silêncio. — Volte para a cama — pediu Spencer, com meiguice. Afinal, Roxanne balançou a cabeça, devagar, como se lutasse para conseguir fazer aquele gesto. Sua boca formou a palavra "não", porém nada pronunciou. — Por que não? Roxanne suspirou, tentando livrar-se, mas Spencer continuou segurando-a, sem querer deixar que fosse embora. — Spencer, por favor, solte-me. Tenho de ir para casa. — Não antes de esclarecermos algumas coisas. — Não há nada a esclarecer. — Eu acho que sim. — Muito bem. Mas, por favor, vista alguma coisa. Estarei esperando lá em baixo. Spencer sorriu, — Por que tenho de me vestir? A visão do meu corpo despido a deixa nervosa? — Mais ou menos. — E isso é ruim? Roxanne desviou o olhar. — Sim, é ruim. Spencer queria perguntar por que, mas achou melhor resolver um problema de cada vez. E, embora soubesse que Roxanne estava esperando que ele voltasse para o quarto a fim de se vestir, tinha medo de que ela aproveitasse aquele momento para escapar. Sem dúvida, Roxanne adivinhou o que Spencer estava pensando, pois acrescentou: — Não vou fugir. Prometo. — Está bem. — Spencer soltou seu pulso. — Dê-me cinco minutos. — Vou fazer café, se conseguir descobrir como funciona aquela sua máquina europeia. 56


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Assim falando, Roxanne virou-se e desceu as escadas, resmungando algo a respeito de o velho coador de café ainda ser melhor. Spencer não conseguiu deixar de sorrir ao vê-la desaparecer nas escadas. Os cabelos dela estavam emaranhados, graças aos malabarismos sexuais que haviam feito na noite anterior, um ninho castanho-escuro que formava uma espécie de coroa sobre sua cabeça. A vontade de Spencer era enfiar suas mãos entre eles e embaraçar os cabelos ainda mais. Ainda não entendia que fúria o possuíra na noite anterior. Enquanto permanecera acordado na cama e ela dormindo no sofá da sala, só pensara em Roxanne, sentindo-se ansioso e frustrado, louco para tê-la em seus braços. Em meio à escuridão do quarto, fantasiara sobre os dois engajados em uma luta amorosa. E, quando suas fantasias haviam se tornado fortes demais para combatê-las, fora obrigado a procurar o motivo das mesmas, encontrando-o pronto para fugir de sua casa. Por sorte, em tempo, descobrira que Roxanne estava tão ansiosa quanto ele para desvendar o segredo de tamanha atração mútua, e o resultado fora muito melhor do que o esperado. Spencer vestiu-se, apressado, desceu, as escadas descalço e encontrou Roxanne na sala de estar, sentada na ponta do sofá. As botas ainda estavam no chão. Roxanne sentava-se toda encolhida, os joelhos tocando o queixo, os braços rodeando o próprio corpo. Tudo nela dava a entender que não queria aproximação, mas Spencer não desejava deixá-la. Sentiu o aroma de café fresco, mas ignorou-o. Focalizou toda a sua atenção na mulher ali sentada, em posição defensiva, na sua casa, e não conseguiu entender como Roxanne podia se sentir assim depois de ter se entregado tão livremente a ele na noite anterior. Porém, ficou em silêncio, respeitando sua atitude, parado na abertura em arco que ligava a sala de estar à entrada. — Pode me dizer o que está acontecendo, Roxanne? Por que tentou ir embora hoje de manhã sem ao menos se despedir? Ela não o encarou e parecia nem tê-lo ouvido. Então, apertou os joelhos com os braços e, relanceando o olhar para Spencer, respondeu: — Pensei que seria mais fácil do que aguentar uma cena como esta que estamos tendo agora. — Que cena? — Esta — repetiu Roxanne, fazendo um gesto impaciente que abrangia a sala. — A terrível cena da manhã seguinte. É sempre tão esquisita... — Já viveu muitas "manhãs seguintes", não é verdade? Roxanne limpou uma sujeira imaginária no suéter. — Não, claro que não. Mas não sou tola. Sei o que está pensando. 57


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— Essa é boa! No momento, nem mesmo eu sei o que estou pensando. — Mas eu sei. — Pode me dizer, então? Roxanne falou, com voz trêmula: — Está pensando que teve uma pequena diversão. Que vai ser ótimo me levar para a cama durante um certo tempo. Mas em breve estará imaginando uma maneira de se livrar de mim. Spencer balançou a cabeça em negativa. — Errado. Não está nem perto do que penso a seu respeito. Por fim, Roxanne o fitou. — Acredite em mim, Spencer, sei muito bem o que estou dizendo. Já trilhei essa estrada. É território conhecido. Se não é o que você está pensando agora, em breve será. — Roxanne... Ela o interrompeu com um gesto de mão. — Vai me dizer que não quer se livrar de mim porque me estima, porque nunca encontrou ninguém como eu nem jamais passou uma noite como a de ontem. Spencer franziu o cenho. Era mais ou menos o que tivera intenção de dizer. — Dirá que quer continuar a me ver, que o que está acontecendo conosco é estranho e maravilhoso e que devemos esperar para ver como será. Bem, já posso lhe dizer isso: vamos dar muitas risadas juntos, nos divertir, e então, pouco a pouco, você vai começar a se aborrecer. Não responderá mais aos meus telefonemas, dará desculpas para sair mais cedo quando encontrar tempo para me ver e então descobrirá uma boa moça do seu meio social que se enquadra no seu estilo de vida muito mais do que eu: Roxanne fez uma pausa antes de continuar: — Mas não me dirá isso com essas palavras. Eu mesma descobrirei quando chegar à sua casa uma bela manhã a fim de ter uma explicação do porquê de suas ausências e encontrar a nova mulher... fazendo seus ovos mexidos na cozinha. Spencer cerrou os dentes. — Para você, isso tudo o que acabou de dizer vai mesmo acontecer, certo? — Como já disse, conheço bem esse território. — Isso não quer dizer que vá acontecer de novo. — Oh, vai sim. — Por que diz isso? 58


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— Porque vocês, homens ricos, são assim mesmo. O dinheiro faz coisas engraçadas com as pessoas. Não quero dizer com isso que você é um mau sujeito, Spencer, apenas que é diferente de uma garota como eu. E também não estou falando mal da sua fortuna. Devemos conseguir o que podemos nesta vida. Mas, mesmo assim, a riqueza muda a maneira de pensar das pessoas. — Elas acabam dando as costas para aqueles de quem gostam, é isso o que quer dizer? Roxanne cerrou os lábios. — Não. Só que... o dinheiro muda a percepção das coisas. Faz com que imaginemos gostar de alguém quando, na verdade, só nos importamos com o benefício que podemos tirar desse alguém. — E como você pode me beneficiar, Roxanne? Na sua opinião de pessoa pobre, quero dizer. — Tenho um estilo de vida que desconhece. Sou das camadas baixas, enquanto você está acostumado com as altas. Sou pão com manteiga, e você está enjoado de tanto caviar. Posso fazê-lo conhecer, apenas por curiosidade, o gosto do pão com manteiga. Algo para tirá-lo do tédio. — Não é verdade. Jamais gostei de caviar. Roxanne ignorou a tentativa de amenizar a conversa. — O que quero dizer é que, quando eu deixar de ser novidade, ficará cansado de mim e me abandonará. E, quando essa hora chegar talvez não esteja pronta para ser abandonada. Spencer franziu as sobrancelhas, tentando contradizê-la. Mas ele mesmo não fizera, a si mesmo aquelas perguntas pouco tempo atrás? Que fazer amor com Roxanne seria uma aventura casual? Com ou sem diferenças de classes, ele não costumava se envolver com uma mulher por muito tempo. Com a grande discrepância entre o seu estilo de vida e o de Roxanne, o rompimento não viria ainda mais cedo? Spencer chegou à conclusão de que só havia uma maneira de descobrir. — Então, vamos ter de dar um jeito na tal "diferença social", Roxanne. Suas palavras pareceram surpreendê-la. Roxanne ainda manteve o olhar, mas piscou diversas vezes, como uma boneca de corda. — O quê? — Disse que precisamos fazer algo para acabar com a distância cultural entre nós dois. Aliás, não é tão grande assim como você pensa. — Por que diz isso? Pela primeira vez desde que começaram a conversar, Spencer permitiu-se dar alguns passos pela sala de estar. Parou junto à escrivaninha e ergueu a pasta que 59


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continha os dados de sua vida, percorrendo os documentos com calma. — Porque talvez eu não esteja tão longe, afinal. — Spencer... — Roxanne, não sou diferente de você ou de outra pessoa qualquer. Está errada quando pensa que o dinheiro faz coisas engraçadas com as pessoas. — Segurou a pasta. — Se eu tivesse sido criado como Steve McCormick, ainda seria eu mesmo. Posso me vestir muito bem, falar de modo diferente, ter um trabalho diferente do que ele teria, mas continuaria sendo a mesma pessoa. — Não seria, não. — Sim, seria. — Jamais me convencerá disso. — Pelo menos, me dê a oportunidade de tentar. — Por quê? Qual o objetivo, Spencer? Roxanne levantou-se e começou a percorrer a sala no sentido contrário dele. — O romance entre nós dois nunca dará certo. Somos muito diferentes. — Digo que não somos. Quando Roxanne parou de contradizê-lo, Spencer aproveitou-se de seu silêncio. — Por favor, Roxanne, só peço que dê uma chance para nós dois. Para mim. Permita que eu entre em sua vida por um certo tempo e vice-versa. Verá que não somos tão diferentes quanto pensa. Ela o observou, pensativa, por algum tempo, parecendo ponderar a sugestão. Enfim, foi-se aproximando dele, devagar. — Muito bem, Spencer. Vamos nos dar uma chance. Mas já lhe digo que nunca... — Roxanne? — Sim? Spencer venceu a pequena distância que ainda restava entre os dois e colocou as mãos nos ombros dela, embora não a puxasse para si, como desejava. Apenas apertou-a, deslizou as mãos pelos seus braços e segurou suas mãos. — Se entrar nisso com tal atitude, então não dará certo, mesmo. Roxanne soltou um murmúrio impaciente. — Muito bem, muito bem, daremos uma oportunidade um ao outro. Ponto final. Spencer sorriu. — Você não vai se arrepender, Roxanne. — Vamos ver. 60


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Em vez de levar em conta o pessimismo dela, Spencer tentou de novo. — Então, por onde começamos? — Pode começar me levando para casa. — Ótimo. Onde você mora? — Mas este é seu escritório — disse Spencer quando parou o Porsche em frente ao prédio velho onde tudo começara. — Sim. Tem razão — respondeu Roxanne, esperando pelos comentários que, tinha certeza, viriam. Spencer a observou, sentado no banco do motorista, a expressão confusa. — Mas pedi o endereço de sua casa. Seu domicílio. — Este é meu domicílio. Spencer semicerrou os olhos. — Você mora no seu escritório? — Sim. — Por quê? Roxanne deu de ombros e respondeu com franqueza: — É o que posso ter no momento. — Mas... — O escritório é meu, graças a Bingo. É a única coisa que possuo. E também a mobília lá dentro e as roupas que estou vestindo. Todo aquele luxo que você já conhece — acrescentou, maliciosa. — Mas... — Vamos subir. Farei um café. Antes que Spencer pudesse dizer "não", Roxanne saiu do carro. Já estava na metade da escadaria interna do prédio, quando Spencer a alcançou. Roxanne pensou que o alarme do Porsche de Spencer de nada adiantaria. Naquela rua, o carro dele poderia ser "limpo" antes que o alarme soasse. Inclusive o alarme seria roubado. — Gosta de waffles, Spencer? — Sim. — Ótimo. Roxanne procurou a chave na mochila e abriu a porta do escritório, dirigindo-se para uma pequena geladeira a um canto. Apanhou um saco plástico com massa de waffles. Tirou um pouco da embalagem, atirou sobre uma chapa do fogão muito velho e então apertou o botão quatro vezes antes de conseguir acender o fogo. 61


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— Em geral, enquanto isto estivesse tostando, eu iria tomar banho no banheiro no final do corredor. Costuma levar quinze minutos para que fiquem prontos. Mas, já que me deixou usar seu banheiro hoje de manhã, não será necessário. — Roxanne... — Com licença. Vou trocar de roupa. Antes que Spencer pudesse detê-la, Roxanne correu para um pequeno armário do lado oposto da geladeira e começou a escolher entre as poucas peças de roupas ali penduradas. Já que iria se encontrar com um novo cliente naquele dia, optou por calça preta, camisa branca e um paletó azul-marinho. — Volto logo — falou com um tom falsamente alegre, entrando no armário e fechando a porta. Quando saiu, encontrou Spencer parado na mesma posição em que o deixara, olhando para ela. Embora tivesse dito a Roxanne que ia tirar o dia de folga para conhecer como vivia, tinha se vestido como se fosse trabalhar, com outro terno escuro, de corte impecável, caríssimo. Mas, em vez de isso fazê-lo parecer um homem de negócios conservador, suas roupas mal disfarçavam o temperamento selvagem que Roxanne agora conhecia. Os olhos azuis pareciam mais escuros, misteriosos, mais apaixonados do que na primeira vez em que entrara ali. — Acho que os waffles estão prontos, Roxanne. Se considera que massa queimada é boa de comer. Roxanne sentiu o cheiro acre e correu para o fogão, prendendo a respiração ao ver a bagunça. — Como foi que isso... Nunca aconteceu antes. Droga de fogão! Não deve ter mais de vinte e cinco anos.

— Por que não vamos tomar o café da manhã em outro lugar? Roxanne balançou a cabeça em negativa. fora.

— Não. Você quis viver minha: vida, lembra-se? E eu nunca tomo o café da manhã Spencer balançou um dos saquinhos com xarope de groselha. — Não me diga... Roxanne baixou a cabeça. — Bem, de vez em quando tomo, sim. Quando estou trabalhando ou atrasada. — Está trabalhando agora — lembrou-a Spencer.

— Sim, mas o dinheiro do depósito que o cliente me deu já acabou. — Então, peça que ele lhe pague adiantado pelo serviço completo. — Certo. Dê-me um minuto para preparar a conta. 62


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Apressada, Roxanne consultou o caderno onde anotava as horas trabalhadas e despesas, fez alguns cálculos de cabeça, rabiscou alguns números no papel e checou antes de entregar para Spencer. Ele checou também e, satisfeito, tirou um talão de cheques do bolso do paletó, preencheu uma folha e entregou-a para Roxanne, que agradeceu, examinou-o para ter certeza de que estava correto, dobrou-o com cuidado e guardou no bolso da camisa. — Certo, eu pago o café da manhã. Primeiro, vamos ao banco e depois ao Denny's. Spencer concordou. — Vamos fazer o que você costuma fazer. — Bem, o Denny's é um lugar de classe, mas, afinal, recebi dinheiro hoje. Spencer sorriu. — Então, vamos. Fora do prédio, ele parou junto ao carro, mas Roxanne continuou a caminhar, descendo a rua. — Roxanne! Ela se voltou. — O que é? — Aonde vai? — Ao ponto de ônibus. — Por quê? Roxanne suspirou, impaciente, enquanto voltava até Spencer. — Minha vida, lembra-se? Eu pego ônibus. Ou o metrô, quando não há ônibus para onde estou indo. — Mas estou com o carro estacionado logo ali... Roxanne arqueou as sobrancelhas. — Seu carro não faz parte da minha vida. — Mas... — Olhe, o ônibus passa em horários certos. Temos dois minutos para pegá-lo na esquina. — Assim dizendo, Roxanne recomeçou a andar. — Você vem ou não? Spencer lançou um olhar tristonho para o Porsche, como se fosse a última vez que iria vê-lo, e Roxanne pensou que talvez ele tivesse razão. Relutante, Spencer guardou as chaves e seguiu-a. Tiveram de correr para chegar a tempo, mas, como Manny, o motorista, conhecia Roxanne muito bem e, mais importante do que isso, gostava dela, não passou direto, como costumava fazer com outras pessoas. Roxanne e Spencer sentaram-se em bancos separados. 63


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Roxanne sentou-se perto de uma senhora idosa e sorridente, que usava luvas brancas e cheirava a lilases. Spencer sentou-se perto de um homem que discorria em voz alta, mas sem falar com ninguém em particular, sobre a hierarquia dos anjos, gesticulando. Acabou atingindo Spencer no ombro. Muito polido, Spencer se levantou e resolveu ficar de pé ao lado de Roxanne. — Isso acontece com frequência? — perguntou a ela. Roxanne sorriu. — Raymond é inofensivo. Às vezes se entusiasma com as Potestades. Spencer a olhou de modo estranho, mas Roxanne não conseguiu decifrar sua expressão. — Esta é minha vida, Spencer. É melhor se acostumar ou desistir. — Vou me acostumar. Mas terei minha vez também, você sabe. Roxanne estava a ponto de lhe perguntar o que queria dizer com aquilo, mas Manny freou de repente, para desviar de um garoto de bicicleta que surgiu do nada; Spencer perdeu o equilíbrio e caiu de quatro no corredor do ônibus. — Vou ter minha vez — repetiu ele, enquanto se levantava e tirava a poeira da calça. — Você não perde por esperar, Roxanne.

CAPÍTULO NOVE

No fim daquele dia, uma sucessão de acontecimentos levou Roxanne e Spencer a sentarem-se em um Escort alugado, do lado de fora de um armazém, em Foggy Bottom. A cabeça de Spencer ainda estava zonza como resultado de uma jornada típica de Roxanne. Do Denny's tinham ido para o zoológico a fim de encontrar um homem que suspeitava que a esposa não só o estava traindo como também chefiando uma sofisticada operação de tráfico de entorpecentes sediada na Floresta Amazônica. Dali em diante, o dia fora ainda mais bizarro. Roxanne checara de verdade as suspeitas do homem através de inúmeros telefonemas e consultas a lunáticos ainda piores, uma série de visitas e entrevistas que culminaram com a ida ao armazém deserto, num local escuro em uma zona perigosa da cidade. Já passava das onze horas, e Spencer gostaria de dar um basta no dia com Roxanne e voltar para a sua vida em casa, tomar um drinque e fazer amor com ela. Mas 64


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Roxanne tinha outros planos. — Você não pensa que as suspeitas daquele maluco têm algum fundamento, não é? — perguntou Spencer, pela décima vez naquele dia. — Claro que não. Mas ele está me pagando para descobrir, portanto o mínimo que posso fazer é dar a maior atenção possível ao caso. — Mas ele é louco! — A maior parte de meus clientes é. Spencer a olhou, desconfiado. — Excluindo você — esclareceu Roxanne, com um sorriso, virando-se para encará-lo. — Obrigado. — Por nada. Spencer deslizou a mão sobre o painel do carro alugado. — Creio que a essa altura meu Porsche foi queimado com tochas e não passa de um monte de cinzas. Roxanne disfarçou um bocejo. — É provável. — Eu gostava daquele carro. — Pode comprar outro. — Não será a mesma coisa. — Talvez passe a gostar mais de um novo. — Talvez... — Temos mais café. — Roxanne procurou uma garrafa térmica debaixo do assento. Spencer ergueu a mão. — Não, obrigado. Já tomei café demais. Meus nervos estão à flor da pele. Roxanne sorriu, mas nada disse. — Roxanne? — Sim? — Está carregando uma arma? Ela pareceu surpresa com a mudança de assunto. — Não. Por que pergunta? Spencer deu de ombros. — Este lugar não parece muito seguro. Pensei que detetives particulares sempre 65


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carregassem uma arma consigo. — Na verdade, a maioria não carrega. Isso é coisa de seriado de televisão. — Verdade? Roxanne assentiu. — Além do mais, não gosto de armas. Jamais gostei. Bingo sempre tinha muitas, nos mais variados lugares. Não porque fosse um detetive, mas porque gostava delas. As estatísticas mostram que é melhor andar desarmado, para evitar acidentes desnecessários. Spencer a observou por muito tempo, até Roxanne se sentir mal. — O que há, Spencer? Por que fica me olhando assim? Ele meneou a cabeça. — Você é um enigma. Roxanne ergueu as sobrancelhas, surpresa. — Eu sou o quê? — Uma mulher pequena que fala como um homem grande. Tem uma profissão própria de senhores duros, mas não é, em absoluto, uma pessoa fria e calculista. — Ei! Sou dura quando preciso ser! — replicou Roxanne, indignada. Spencer sorriu. — Não, não é. Você é uma manteiga derretida. — Não sou, não! — garantiu. A voz de Roxanne soou contrafeita, como se ao chamá-la de gentil Spencer a tivesse ofendido da pior maneira possível. Acrescentou, depois de um momento: — Aposto que venceria você na queda-de-braço. Spencer riu alto. — Venceria coisa nenhuma. — Aposto vinte dólares. — Feito! Sem mais delongas, Roxanne arregaçou a manga do paletó e da camisa, apoiando o cotovelo com estardalhaço no descanso de braço entre os assentos. Spencer sabia que estava delirando em aceitar um desafio daquele com uma mulher que devia pesar metade dele. Entretanto, o brilho de desafio no olhar de Roxanne o instigava; então, Spencer também arregaçou as mangas e colocou o cotovelo ao lado do dela, agarrando firme sua mão. — Preparado? — Já nasci preparado, Roxanne. — Quando contarmos até três... 66


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Contaram juntos e, em cinco segundos de disputa, não apenas Spencer tinha baixado o braço de Roxanne como também a puxara para si, fazendo-a sentar-se em seu colo. — Você me deve vinte dólares — lembrou Spencer. — Vou deduzir de minhas despesas. — Faça isso. No escuro, ele mal podia distinguir as feições de dela, mas seus olhos refletiam o luar, e Spencer podia ouvi-la arfar. Uma mecha de cabelos escuros caíra em sua testa e, sem pensar no que fazia, Spencer ajeitou-a. Então, passou a ponta dos dedos sobre seus lábios, com um toque levíssimo, desejando muito beijá-la, mas feliz apenas por estar perto dela. Roxanne não se moveu, porém encarou Spencer no escuro. Sua pele estava quente onde Spencer a tocara, macia, ansiosa por carícias. Sua bravata em demonstrar que era dura surtira o efeito contrário. Reforçara sua suavidade e sensualidade. Seu desafio fora excitante, e Spencer não era idiota para recusar tal oferecimento. Ao inclinar a cabeça em direção de Roxanne, Spencer abraçou-a mais forte por trás. Quando seus lábios se encontraram, Roxanne enfiou os dedos entre os cabelos dele, fazendo-o se aproximar ainda mais. O beijo tornou-se mais profundo, transformando-se em uma verdadeira guerra para ver quem dominava o outro. Era quase como se cada um desejasse provar quem estava mais desesperado, mais carente, mais solitário. No final, Spencer considerou que dera empate. Apertou Roxanne ainda mais, os corações batendo um contra o outro. Parecia que Spencer nunca mais a soltaria. Puxou a camisa de Roxanne para fora da calça e começou a desabotoá-la. Ouviuse então uma batida forte no capo do carro, e os dois se separaram. As janelas estavam tão embaçadas que não conseguiam ver o lado de fora, a não ser uma sombra parada do lado do motorista. Também não conseguiam distinguir, devido ao forte facho de luz de uma lanterna, se a figura estava sozinha ou acompanhada. Aquilo deixou Spencer preocupado. Ele e Roxanne estavam em uma área da cidade muito solitária e perigosa. Spencer percebeu que, no íntimo, não estava preocupado com sua própria segurança, mas com a de Roxanne. Desejava que o intruso fosse embora e os deixasse em paz, continuando a fazer o que faziam, estivessem ou não em uma zona segura. — Deixe que eu cuido disso — falou Roxanne, abotoando a camisa. — Mas... — Deixe comigo — repetiu, seu tom de voz deixando claro que não admitiria desobediências. 67


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Outra batida no capô, que sacudiu o carro como se fosse um inseto. Roxanne ajeitou os cabelos e começou a baixar o vidro da janela. — Acha seguro... — começou Spencer, mas interrompeu-se ao ver a expressão carrancuda de Roxanne. Decidiu obedecer pelo menos naquele momento. Roxanne terminou de baixar o vidro e, apesar da escuridão lá fora e da lanterna em seu rosto, pôde distinguir o uniforme de um segurança, sua enorme barriga, enquanto uma mão segurava a coronha do revólver na cintura. Roxanne maravilhou-se por ele ainda estar vivo fazendo coisas como bater no capô de um veículo suspeito em uma área como aquela, sem mesmo tirar o revólver da cintura ou chamar reforço primeiro. Também notou uma aliança na mão esquerda do homem e perguntou-se se a esposa sentiria muito se ficasse viúva, coisa que, no entender de Roxanne, iria acontecer em breve, a não ser que o segurança fosse mais cuidadoso. — Algum problema, senhor? Antes que o guarda tivesse tempo de responder, prosseguiu: — Aqui não é proibido estacionar, é? Odeio quando faço isso. Uma vez rebocaram meu carro. Foi tão embaraçoso... Procurei por placas, sempre faço isso agora, mas não vi nenhuma. Não me meti em encrenca, certo? Meu marido vai ficar furioso se eu fizer de novo. Custa oitenta dólares para retirar o carro. Pode imaginar uma coisa dessa? Oitenta dólares! O segurança baixou a lanterna e inclinou-se para olhar pela janela do carro. Não devia ter mais de vinte e um anos. Na certa, era recém-casado e tentava ganhar um pouco mais trabalhando à noite. Talvez ele e a mulher estivessem economizando para comprar uma casa, ou por causa de um bebê a caminho. Roxanne se questionou por que ficava se preocupando com uma pessoa que ia lhe dar problemas. — Moça, o que está fazendo aqui? Roxanne fingiu hesitar. — Estou aqui no carro com meu... Isto é... — Fez uma pausa proposital e concluiu: — Estou com um amigo. Isso é crime? Pela primeira vez, o guarda enfiou a lanterna pela janela sobre rosto de Spencer, que nada disse, cerrando os olhos ante o facho de luz e se encolhendo no canto do carro. O segurança voltou a focalizar sua atenção em Roxanne. — Seu amigo? Não acha que isso vai causar-lhe mais problemas com seu marido do que uma multa por estacionar em local proibido? Roxanne sorriu. — O senhor não conhece meu marido... — Não, senhora. Com toda a certeza. 68


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— Bem, então, se isso é tudo... Roxanne começou a fechar o vidro da janela. — Não, senhora, não é tudo. O segurança suspirou, exasperado. — Este aqui é um terreno particular. Ninguém deve estar neste local a esta hora da noite, exceto eu. Como passou pelos portões de segurança? Roxanne ergueu as sobrancelhas, com ar inocente. — Que portões de segurança? Não me lembro de ter visto. Bob? Viu algum portão de segurança? — indagou, voltando-se para Spencer, que balançou a cabeça em negativa, sem nada dizer; Roxanne sentiu que estava louco de raiva. Voltou-se para o guarda. — Bob também não viu nenhum portão de segurança. Tem certeza de que existe? O homem tornou a suspirar. — A senhora tem algum documento? Roxanne fingiu procurar a carta de motorista na bolsa, depois nos bolsos e no porta-luvas, queixando-se sem parar da falta de liberdade dos cidadãos. Quando afinal estendeu a carta de motorista para o guarda, este leu: — Srta. McCormick... — Senhora — corrigiu Roxanne, sentindo Spencer se retesar ao ouvi-la dar o nome de sua irmã gêmea. — Sra. McCormick, queira esperar aqui um instante enquanto vou dar um telefonema. — Claro que espero. Aonde mais iria? Bob e eu estávamos discutindo a nova lei que o presidente sancionou sobre política externa. Qual a sua opinião a respeito? Acho degradante que... — Desculpe-me, senhora. No momento em que o segurança desapareceu, Roxanne deu partida no motor, deixando uma nuvem de poeira para trás. No portão, deslizou seu cartão de crédito magnético no sensor e o portão se abriu, devagar. Spencer não pronunciou uma palavra até estarem bem longe de Foggy Bottom. Quando falou, pareceu que iria explodir: — Pode me explicar o que foi tudo aquilo?! Tem ideia de quantas leis quebramos?! Imagina como será fácil nos localizarem graças a este calhambeque que você alugou?! Tem ideia do que isso irá causar à minha reputação?! Sabe que posso até ir para a cadeia e que aquele segurança vai pedir um mandado de prisão contra minha irmã?! 69


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— Tem ideia de como parece estar histérico? — Roxanne estacionou o carro bruscamente. Spencer calou-se e olhou para ela. — Foi você quem quis ficar grudado em mim, lembra-se? Agora, quer fazer o favor de se acalmar e me deixar trabalhar? — Acalmar-me? Com você?! Como alguém pode se acalmar ao seu lado? Nunca se sabe o que vai fazer a seguir. — "Impetuosidade" é meu segundo nome. É bom se acostumar. — Roxanne... — Spencer, nada vai nos acontecer. Para começar, aquele segurança era muito inexperiente ou muito desinteressado para se preocupar em nos apanhar. A seus olhos, sou uma dona de casa entediada e solitária tentando vingar-se de alguma coisa que o marido fez, tendo um encontro com um sujeito qualquer em um local mal afamado. Spencer ia começar a objetar sobre o papel que Roxanne lhe dera naquela história, mas ela continuou: — Na certa, vai jogar fora a carta de motorista. Ainda que dê parte do incidente, o que afirmo ser improvável, Charlotte McCormick não existe. É outra pessoa agora. Ninguém vai prender sua irmã. Além do mais e muito importante, a carteira de motorista era falsa. — Mas... — E ele nem se importou em anotar a placa do carro, portanto nós dois estamos a salvo também. De qualquer modo, não usei meu nome verdadeiro para alugar este calhambeque. Pensa que sou ingênua? — E se os guardas estiverem esperando por nós quando você for devolver o carro? — Quem disse que vou devolver? — Roxanne! — Acalme-se. Irão encontrá-lo. — Claro! Destruído. — De jeito nenhum. Estamos agora em uma zona mais policiada que a Casa Branca. O carro estará seguro aqui. Spencer olhou-a, cheio de dúvidas. — Quer fazer o favor de confiar em mim, Spencer? Ele não concordou nem deixou de concordar. Apenas continuou olhando para Roxanne como se não soubesse o que fazer. Então, ela se adiantou. — Vamos tomar uma cerveja! 70


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Sem esperar por resposta, jogou a chave do carro debaixo do tapetinho e saiu, fechando a porta atrás de si e certificando-se de que estava trancada. Spencer abriu a porta do lado do passageiro e desceu, espreguiçando-se. Roxanne o observou, fascinada. Mesmo dentro de um terno de executivo, Spencer era fantástico. O Brickskellar era o único bar elegante em Washington onde Roxanne se sentia bem. Seu interior escuro e suas paredes nuas faziam com que se sentisse em casa. E a cerveja era muito boa, havendo de todas as marcas e nacionalidades. Até um homem como Spencer encontraria alguma que satisfizesse seu gosto refinado. — Posso ver a carta de vinhos? — pediu ele ao garçom. Deteve-se ao ver o olhar horrorizado de Roxanne e do homem. — O que foi? Algo errado? — Este lugar possui cento e cinquenta tipos de cerveja, Spencer. E o motivo para que as pessoas venham aqui. — Não tomo cerveja — respondeu, fazendo pouco-caso. — Mas esta é a minha vida, Spencer. — Muito bem. O que sugere? Roxanne sorriu. — Posso pedir para nós dois? — À vontade — respondeu Spencer, entre os dentes. O garçom virou-se para Roxanne, que pediu cerveja americana para si e uma francesa para Spencer. — Tem um buquê suave, intrigante sem ser ousada, sutil sem perder a força. Um sabor que permanece na boca por muito tempo — dissertou Roxanne, como se estivesse fazendo um anúncio para a televisão. — Li em uma revista. — Muito engraçado... — O que há, Spencer? Começando a se aborrecer com meu tipo de vida? — Não. Mas parece que você está fazendo de tudo para me aborrecer. — Resolveu mudar de assunto: — Então, o que vai dizer ao seu cliente? Roxanne deu de ombros. — A verdade. Que o armazém não mantinha uma grande rede de traficantes, mas apenas material escolar; que, apesar de uma busca exaustiva, não encontrei provas que indicassem que sua mulher estivesse tendo um caso com Elvis Presley ou qualquer outro, e que sua viagem foi mesmo para ver a mãe. — E acha que ele vai ficar satisfeito? Roxanne meneou a cabeça em negativa. — Acho que não. Assim que desligar o telefone, vai procurar outro detetive particular para me substituir. Pessoas como ele só ficam satisfeitas quando suas mais 71


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terríveis suspeitas são confirmadas. — Parece alguém que conheço. Roxanne semicerrou os olhos. — O que quer dizer com isso? Antes que Spencer pudesse responder, o garçom voltou com as cervejas, e Roxanne decidiu esquecer a pergunta. — Falando em casos, preciso saber como quer que eu continue agindo. Spencer tomou um gole da cerveja e seu rosto assumiu uma expressão de agradável surpresa, enquanto olhava para o rótulo. — Quero que encontre minha irmã. Pensei que já soubesse disso. — Sei. Mas levou em consideração tudo o que isso irá envolver? — Considerei que vou encontrá-la. Que vou reaver minha família. — E no caso de Charlotte não querer ser encontrada? Spencer ficou estupefato. — Claro que quer que eu a encontre. Por que não quereria? Roxanne suspirou. Não era uma grande moralista, nunca pensara muito a respeito, mas sabia que havia implicações morais naquilo tudo que Spencer estava lhe pedindo para fazer e duvidava que ele tivesse dado atenção ao fato. Tentou explicar melhor o problema: — E se ela não souber que foi adotada? Se seus pais nunca tiverem lhe contado? — Não acha pouco provável? A maioria dos pais adotivos conta a verdade aos filhos assim que têm idade suficiente para compreender. É o certo. — Mas se, no caso dela, isso não tiver acontecido e Charlotte fizer parte de uma família que adora? O que acontecerá quando tomar conhecimento de seu passado? Spencer ficou olhando para Roxanne. — Quero dizer, veja como isso afetou você, Spencer. Como se sentiria se descobrisse por acaso, porque um estranho bateu à sua porta um dia e disse: "Ei, adivinhe! Você não é quem pensa que é"? Spencer continuou calado. — E, mesmo que ela saiba que foi adotada, há uma grande possibilidade de que não tenha a menor vontade de vasculhar o passado. Coisas assim costumam mexer muito com a cabeça de uma pessoa. Na melhor das hipóteses, ela vai ficar transtornada. Na pior das hipóteses, terá de fazer terapia. E, em ambos os casos, pode muito bem não querer mais ver você nem pintado. Tem certeza de que quer fazer isso com sua irmã? Com você mesmo? Spencer tomou outro gole de cerveja e deixou seu olhar vagar. Roxanne 72


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permaneceu em silêncio e deixou-o pensar. Enfim, Spencer voltou a encará-la, a expressão pesada e séria. — Pode me chamar de egoísta sem coração, mas ainda quero encontrá-la. Então, se ela me afastar, tudo bem. Só desejo que saiba que existo e que almejo estar ao seu lado. Quero encontrá-la. Pelo menos uma vez na vida. Roxanne suspirou, sem estar certa se a decisão de Spencer era a mais acertada, mas sentindo-se na obrigação de acatá-la, por ser uma profissional. — Trata-se de minha irmã, Roxanne. Gêmea. Estivemos na barriga da mesma mulher. Fomos alimentados pelo seu organismo, sofremos o trauma do parto juntos. A mesma chama que me deu vida deu vida a ela. E algo me diz que, se eu sempre tive certeza da existência dela, ela também tem certeza da minha. Quero que você a encontre. Por favor. Roxanne suspirou, mas concordou: — Certo, Spencer. Vou encontrá-la para você. O que acontecer depois disso será responsabilidade sua. — Ótimo, porque tenho grandes planos, Roxanne. Grandes planos...

CAPÍTULO DEZ

A incursão de Spencer no dia-a-dia de Roxanne acabou como começara: tumultuada. Quando, afinal, retornaram ao escritório, por volta das três horas da manhã, descobriram que o Porsche de Spencer fora roubado. Havia um bêbado caído à entrada do prédio, bloqueando a passagem, o que fez com que Roxanne sugerisse que fossem até a escada de incêndio e entrassem pela janela. Depois de fazer uma verdadeira ginástica, Roxanne agradeceu a Spencer por trazê-la em casa sã e salva e mandou-o embora, mas ele já havia entrado também. — Não vai para casa, Spencer? — O quê? E deixar você aqui sozinha? Está maluca? — Fico sempre sozinha, todas as noites. — Hoje não vai ficar. Roxanne abriu a boca para retrucar, mas o olhar dele a deteve. Não importava o 73


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que dissesse, Spencer não arredaria pé. — Não há nenhum lugar para você, dormir. Eu durmo no sofá na outra sala. Mal tenho espaço para mim. Para dois é impossível. — Não se preocupe, me acomodo no chão. — Mas... Spencer fechou a janela é passou o trinco. Ao voltar-se para Roxanne, sua expressão não era mais agradável, nem sua voz. — Acredite ou não, Roxanne, não será a primeira vez que faço isso. Roxanne não conseguiu refrear a própria língua: — Oh, claro, quando você brincava de camping no seu magnífico quarto, no seu saco de dormir importado e com os amiguinhos vizinhos da mansão ao lado. Spencer franziu o cenho. — Sem contar uma cela na cadeia dos federais, — Cela? Foi preso pelos federais? Spencer ficou triste ao se recordar do que acontecera muitos anos atrás. — Foi só por uma noite. Na realidade, não passou de um engano. Eu me enquadrava na descrição de um homem que estava sendo procurado por assassinato. Quando checaram meu álibi e viram quem eu era, fui libertado. Roxanne ficou olhando para Spencer, incrédula. — Você foi confundido com um assassino? disse.

— Já disse que não cumpri pena. Mas esse episódio só vem provar o que eu — O quê? — Que nós dois temos mais em comum do que você pensa. Roxanne bufou, indignada. — De jeito nenhum! Jamais passei a noite na cadeia. Que surpresa tive com você

agora! — O único motivo de nunca ter sido presa é porque nunca foi pega em flagrante. Eu, por outro lado, até conhecê-la, nunca havia infringido lei nenhuma, mas mesmo assim fui parar na cadeia. Não acha que existe uma bizarra relação entre esses fatos? — Pode ser. Sinto muito. E que não consigo visualizá-lo dormindo sobre o chão de concreto de uma penitenciária, é isso. — Foi muito desagradável. Roxanne sorriu. — Acredito... 74


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— Parecido com o que vou passar hoje à noite. — Pode ir para sua casa. — Sem você, não. Roxanne não respondeu. Fez uma força enorme, para não pensar que as últimas palavras de Spencer tinham algum significado especial. Afinal, só dissera que não ia para casa sem ela. Não dissera que sua casa não seria um lar, a menos que Roxanne estivesse presente, dissera..? Roxanne censurou-se por ser uma tola e tentou se policiar, a fim de não fazer nada de que viesse a se arrepender. — Pelo menos, fique com o cobertor e o travesseiro, Spencer. Não vou precisar. A noite está quente. — Gostaria que viesse para minha casa agora. Assim dizendo, Spencer tirou o paletó, afrouxou a gravata, desabotoou os punhos e metade dos botões. Enrolou as mangas, descalçou os sapatos e passou as mãos pelos cabelos, exausto. A medida que executava esse ritual, Roxanne ia pensando que, pouco a pouco, Spencer ia perdendo a aparência de homem de negócios atarefado e rico, adquirindo o ar sexy que ela gostaria de explorar melhor. Por um segundo pensou em seduzi-lo a seu modo, agora que estavam no seu reduto, mas logo afastou a ideia. Por que piorar a situação? Dirigiu-se ao armário embutido que servia de quarto de vestir e, da prateleira de cima, tirou um cobertor e um travesseiro. Em silêncio, atirou-os para Spencer, que os apanhou no ar, também sem nada dizer. Ficou olhando para Roxanne, à espera de que respondesse a seu último comentário. "Ótimo", pensou Roxanne. "Deixe que ele perca o sono pensando na sua resposta." — Bons sonhos, Spencer. Roxanne pegou a escova de dentes e a camisola. Sem mais comentários, passou por Spencer e foi para a outra sala. Apenas quando fechou a porta de comunicação, percebeu que estivera prendendo a respiração. Ouviu alguns movimentos do outro lado, enquanto Spencer improvisava sua cama, e então se dirigiu ao banheiro no fim do corredor. Quando voltou, desabotoou a blusa e tirou os sapatos. Então, abandonou a camisola e deitou-se no sofá ainda vestida, um dos braços dobrado por trás da cabeça, do mesmo modo como vira Spencer dormindo na noite anterior. Ficou imaginando o que, afinal, eles tinham em comum. Spencer apoiou-se no batente da porta de ligação e ficou olhando para Roxanne por muito tempo antes de acordá-la. Os primeiros raios de sol penetravam com dificuldade pelas janelas imundas, mas, mesmo assim, ele podia ver que Roxanne 75


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dormia profundamente. Estava deitada de costas, a cabeça um pouco voltada para o lado em que ele estava, uma mão pendendo do sofá, os dedos roçando o chão. A outra estava sobre o ventre, e Spencer percebeu que era a primeira vez que via Roxanne tranquila. Mesmo quando dormira com Spencer em sua casa, não estivera tão relaxada. Ele sentira que Roxanne se mexera quase toda a noite, murmurando sons desconexos que revelavam ansiedade e agitação. Apenas ali, no seu escritório, seu lar, Roxanne se sentia confortável o suficiente para dormir bem. E, quando ficava assim, algo nela se modificava. O jeito distante que adotava para manter as pessoas afastadas se fora, assim como as palavras sarcásticas que usava quando uma conversa ia se tornando muito íntima. O muro que Roxanne erigira logo que se haviam conhecido e que impedia Spencer de olhar fundo em sua alma também desaparecera. No lugar de tudo isso, Roxanne jazia sem máscaras, desinibida, sossegada e natural. Os botões abertos da blusa deixavam entrever a renda cor de champanhe do sutiã. As faces estavam rosadas, os lábios entreabertos como se precisasse de mais ar durante a noite. Spencer esperava que ela tivesse os mesmos sonhos que o haviam martirizado, do tipo que faziam-no ansiar por ar e acordar todo suado e cheio de desejo e esquecer tudo o que acontecera ou viria a acontecer, focalizando apenas o momento presente. Esquecer qualquer coisa, menos Roxanne. Mas Spencer tinha planos para aquele dia, que incluíam Roxanne. Com algumas passadas silenciosas, aproximou-se do sofá e deslizou os dedos sobre suas faces. Ainda dormindo, Roxanne virou o rosto em direção da mão de Spencer, suspirando. Então, abriu mais os lábios e murmurou: — Spencer... O modo como pronunciou seu nome fez a pele dele pegar fogo. Gentil, tocou o lábio inferior de Roxanne. Mais uma vez, ela virou a cabeça, agora espreguiçando-se, e uma mecha de cabelos escuros caiu sobre sua, face. Spencer a repôs no lugar, acariciando a cabeleira de Roxanne, surpreso ao senti-la tão quente e viva. Enrolou um cacho no dedo e ajoelhou-se junto ao sofá. Tomou o queixo de Roxanne e beijou-lhe os lábios. Roxanne fundiu seu corpo ao dele. Eram um só. Algo nela respondia aos maiores anseios de Spencer desde a primeira vez em que a vira. Sentiu um desejo intenso por ela, e sabia que Roxanne sentia o mesmo. Só precisava saber o que devia fazer e dizer para que ela entendesse que nenhum dos dois precisava ser solitário nunca mais. Beijou-a com maior intensidade. O calor de Roxanne o envolveu, sua meiguice o enlouqueceu. Provar os lábios e o corpo dela era como aproveitar um longo dia de 76


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verão. O beijo o deixou lânguido, sem pressa de vê-lo terminar. Então, aprofundou-o ainda mais, os cabelos de Roxanne entre suas mãos. Roxanne cobriu as mãos de Spencer com as suas e retribuiu a carícia, com intensidade, com ânsia, até que despertou, Por um momento, continuou a beijá-lo com fúria e incontida audácia. Ao perceber o que fazia, porém, afastou-se de Spencer. Por muito tempo ficou apenas olhando-o, ainda sonolenta e confusa. Então, respirou fundo, passou uma mão trêmula nos cabelos e começou a arfar. — O que... está fazendo, Spencer? — Tentando acordá-la. Roxanne sentou-se. — Descobriu um modo muito interessante de fazer isso. Spencer deu de ombros, mas não esboçou nenhum gesto para se levantar. Em vez disso, colocou a mão entre as coxas de Roxanne, sentindo o calor de seu corpo por cima do tecido. — A meu ver, foi uma boa maneira. Ao encará-lo, os olhos de Roxanne estavam redondos e escuros. No lusco-fusco, Spencer mal podia ver sua expressão, porém o arfar de seu peito falava por si. Ela se sentia do mesmo modo que ele, naquele momento. Confusa. Agitada. Indócil. Excitada... — Você é a coisa certa a qualquer hora, Roxanne, o tempo todo. — Está louco, coitado... Spencer riu, sem alegria. — Talvez esteja. Mas, afinal, você só faz negócios com lunáticos, certo? Roxanne não respondeu. Spencer baixou a voz: — Portanto, devo me enquadrar muito bem ha sua vida. — Spencer... — Agora precisamos ver como você se enquadra na minha. Aquilo pareceu assustar Roxanne. Sorrindo, Spencer ergueu-se devagar, olhando para ela em silêncio. Roxanne continuava confusa, amedrontada e muito sexy. Spencer ainda a desejava com loucura. Mas havia algo que deviam esclarecer antes de continuar no caminho que desejava para os dois. — Vista-se — ordenou ele, indo recolher suas coisas na outra sala. — Vamos tomar o desjejum. Mas hoje será do meu jeito. Spencer sentia-se muito melhor uma hora depois, em frente ao seu fogão, 77


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dobrando uma parte da omelete sobre a outra e transferindo-a para um prato. Roxanne sentava-se à mesa da cozinha, tão quieta quanto durante a conversa que haviam tido em seu escritório. Pegaram um táxi para ir à casa de Spencer e aguardavam pelo carro alugado que a seguradora estava providenciando, enquanto começavam a busca do Porsche roubado. Spencer tomara banho, fizera a barba e estava vestido para trabalhar, ansiando pelo dia à sua frente como fazia muito tempo não ansiava. Porque naquele dia faria algo diferente, que nunca fizera antes. Naquele dia, iria compartilhar suas horas, sua vida, com Roxanne Matheny. — Então... toma café assim todas as manhãs? — perguntou Roxanne quando ele deslizou o prato para o lado da garrafa térmica. Spencer colocara a mesa com a louça que sempre existira na casa, desde que sua mãe a mobiliara décadas atrás: porcelana branca e simples, copos transparentes sobre descansos azuis, faqueiro de aço inoxidável e guardanapos também azuis. No centro da mesa, um galheteiro, um açucareiro e uma leiteira. Entretanto, Spencer acrescentara um adorno simples: um vaso de prata comprido com uma só rosa amarela, as pétalas raiadas de cor-de-rosa, começando a abrir para o sol. — Nem sempre, Roxanne. Isto aqui é luxo, como diria você referindo-se ao Denny's, ontem. Em geral, tomo duas xícaras de café preto e pego uma rosquinha para ir comendo no caminho. Estou sempre atrasado e com pressa. Roxanne hesitou por um momento antes de perguntar: — Mas hoje não está? Spencer sentou-se em frente a ela. — Não. Roxanne tocou a rosa, com delicadeza. — Por que a flor? Spencer observou seu gesto e sorriu. — Considero o dia de hoje uma ocasião especial. Os olhos de Roxanne percorriam tudo, sem se fixar em Spencer. — Por que motivo? — Hoje é meu aniversário. Ao ouvir aquilo, Roxanne encarou-o, e Spencer pôde jurar que fazia um rápido cálculo mental. — Está certo. É seu aniversário. Esse tempo todo estive fazendo pesquisas baseada na data de seu nascimento e nem me ocorreu... — E é o aniversário de Charlotte também. No passado, sempre ficava 78


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imaginando o que meu irmão estaria fazendo nesse dia. Hoje, pela primeira vez, imagino o que minha irmã estará fazendo para celebrar. Será que sua família vai lhe dar uma festa? Será que ela tem um encontro amoroso? Ou estará sozinha? Roxanne o olhou, pensativa. — Duvido muito que esteja sozinha no seu aniversário. Spencer levou a xícara aos lábios e fitou Roxanne. — Não tenha tanta certeza. — Ora, deixe disso! Quem passa o aniversário só? — Eu passo. — Mesmo? — Quase sempre. Não hoje, é claro. — Porque hoje não está com pressa. — Roxanne permaneceu impassível, mas seus olhos revelaram a Spencer que não se sentia indiferente. — Mas antes de seus pais morrerem não era assim, não é mesmo? Spencer meneou a cabeça. — Mesmo antes de sua morte eu evitava vê-los em meu aniversário. Evitava qualquer pessoa... — Por quê? Spencer deu de ombros, como se a resposta fosse óbvia. — Queria ficar sozinho. Roxanne apoiou a xícara e olhou-o. — Mas por quê? Nem eu passo meu aniversário sozinha. Spencer preferiu não analisar aquelas últimas palavras e falou: — Talvez seja bom eu esclarecer isso. — Ótimo. Hesitou, escolhendo as palavras. — Não é que eu desejasse ficar isolado. Minha vontade era estar com meu irmão gêmeo. Por estranho que pareça, ficando só nesse dia especial, sentia-me mais próximo dele. Ou dela, como vim a saber faz pouco tempo. — A tal conexão psíquica? — perguntou Roxanne, dessa vez sem ser irônica. — Sim. A própria. Sempre me senti... "próximo" a ela agindo assim no dia de nosso aniversário. — Bem... feliz aniversário! — Obrigado. 79


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— Obrigada por me incluir. — Eu é que agradeço, Roxanne, pelo apoio. Era desnecessário explicar que, depois de conhecê-la, ela se tomara imprescindível no seu aniversário. Pela primeira vez, desde que era adolescente, Spencer não ficaria sozinho naquele dia e, em vez de se admirar com aquilo, achou muito natural. Tomaram o café em silêncio, cada qual imerso nos próprios pensamentos. Quando terminaram, Spencer levou os pratos para a máquina de lavar louça, arrumou tudo e voltou para junto de Roxanne. — Está pronta para fazer parte de um dia em minha vida? — perguntou, ansioso para mudar de assunto. Roxanne ergueu a xícara e acabou de tomar seu café. — Tenho escolha? — Não. — Então é melhor acabarmos logo com isso. — Ótimo, porque tenho algo a dizer e estou ansioso. Roxanne levantou-se. Usava um suéter marrom muito largo que chegava até seus joelhos, calça jeans desbotada e botas. — Do que se trata, Spencer? Ele riu. — Você é uma garota bem grandinha. Tente descobrir. Terá todo o dia para fazê-lo. Assim dizendo, Spencer se aproximou dela e tocou seu queixo. Antes que Roxanne pudesse reagir, beijou-a. — Vai ter também toda a noite para adivinhar — acrescentou Spencer. — Mas... — Vinte e quatro horas. É o prazo que lhe dou. — Mas... A buzina de um carro interrompeu Roxanne. Spencer olhou para o relógio. — Deve ser o automóvel da companhia de seguros. Já é tarde. Acho que vamos ter de correr. — Aquele sujeito é um caso de hospício, você não acha? — perguntou Roxanne, olhando para Spencer, imaginando por que ele estivera ouvindo-a por tanto tempo. — Quero dizer, o que ele chama de "comunicações transatlânticas em benefício da arte" é a coisa mais inviável que já ouvi. 80


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Spencer sorriu. — Você percebeu também, não percebeu? — Sim, e olhe que não entendo nada desse negócio de comunicações. Por que deixou que essa reunião se estendesse tanto? Spencer deu de ombros. — Porque é o meu trabalho. Seria muito rude interrompê-lo no meio de sua apresentação. Além disso, nunca se sabe, de repente pode surgir uma informação interessante. — Por que não contrata alguém só para ouvir as propostas absurdas? Alguém que o livrasse dos malucos? Spencer levantou-se e encaminhou-se ao bar do escritório. Embora muito moderno para o gosto de Roxanne, o ambiente era impressionante: as paredes brancas, os móveis de ébano, os tapetes e objetos de arte com formas geométricas. O aposento exalava sucesso e poder sob a batuta do homem que dirigia os negócios. — Porque sou encarregado de pesquisa e desenvolvimento, Roxanne. — Pegou uma garrafa de água mineral e serviu-se. — Parte do que faço é ouvir propostas de novas tecnologias. Voltou para junto de Roxanne, sentando-se na outra ponta do sofá de couro negro. Ela arqueou as sobrancelhas, cética. — Aquilo não era tecnologia, mas pura bobagem. — Acontece com mais frequência do que possa imaginar. As pessoas acham que têm uma ideia que irá revolucionar as comunicações e acabam descobrindo que a mesma é inviável ou que já existem projetos para viabilizá-la. — Ou então? — Ou então são ideias malucas. — De modo que aquele homem estava dentro do contexto. água.

— Como alguns de seus clientes — acrescentou Spencer, tomando um gole de — O que quer dizer com isso? Spencer apoiou o copo sobre uma mesinha de desenho e aproximou-se dela. — Que, como você, lido com pessoas de todo tipo no meu ramo de trabalho. Roxanne suspirou. — Voltamos à velha discussão.

Spencer deslizou um dedo sobre o tecido do suéter de Roxanne, que começava a esgarçar. Era a primeira vez que a tocava desde o beijo de bom dia, e o leve toque 81


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esquentou o sangue em suas veias. Spencer continuou a acariciá-la, fazendo círculos sobre o suéter, e Roxanne lembrou-se daquelas mesmas carícias que fizera sobre sua pele nua. Sentiu o rosto corar. Os olhos de ambos se encontraram, e Roxanne soube que Spencer estava se lembrando da mesma coisa. Enfim, ele parou e segurou sua mão. — Voltamos a quê? — perguntou, inocente. — A sua mania de querer demonstrar o quanto temos em comum. — E qual sua opinião até agora? — Não vai dar certo. Só porque algumas faíscas brilham quando estamos juntos, não quer dizer nada. Atração física não dura muito. Ainda digo que estamos a quilômetros de distância um do outro em termos de modo de vida, o que torna nosso relacionamento impossível. — Roxanne... Ela se levantou e foi até a escrivaninha. — Esqueça, Spencer. Esqueça sobre nós dois. Não vai dar certo. Spencer consultou o relógio. — Estamos chegando ao final do expediente e tenho um compromisso depois do escritório ao qual eu... nós temos de comparecer. Negócios. Depois poderemos acabar a noite em um de meus lugares favoritos. — Maravilhoso. Posso imaginar como vai ser divertido. — Você vai gostar. Prometo. — Certo. Na verdade, tanto faz. — Tanto faz — repetiu Spencer. Sorriu com ar misterioso, mas nada disse para elucidar, e caminhou para a porta.

CAPÍTULO ONZE

O "compromisso" ao qual Spencer se referiu acabou sendo um coquetel elegante, Roxanne sentiu-se como um peixe fora d'água com seu jeans e suéter velho e desbotado. 82


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Não que possuísse roupas de festa que pudessem competir, por melhores que fossem, com as usadas pelas mulheres ricas e sorridentes à sua volta. Mas, era óbvio, algumas pessoas presentes tinham vindo direto do trabalho e ainda usavam saias e blusas que eram uniformes de grandes empresas. Roxanne também poderia ter vindo usando algo parecido. De qualquer modo, lembrou-se de que era uma mulher prática. Não estava ali a trabalho. Aliás, nem sabia muito bem por que viera. Em breve, tudo terminaria. Ansiava por voltar à realidade do seu dia-a-dia e parar de sonhar, concentrando toda a sua energia na profissão para, por exemplo, encontrar a irmã de Spencer Melbourne. Aquilo sim iria ocupar seu tempo. Afinal, tinha apenas um nome em uma certidão de nascimento para começar sua busca. Charlotte McCormick poderia ser qualquer pessoa agora e estar em qualquer lugar do mundo. Embora Roxanne soubesse a data e o local de seu nascimento, não tinha nenhuma pista para localizá-la. Roxanne achava que havia uma grande probabilidade de Charlotte ter permanecido na mesma região. Embora Washington tivesse um enorme fluxo e refluxo de pessoas, aquelas nascidas ali tinham a tendência de permanecer. No entanto, aquela área continha dois Estados, meia dúzia de condados, diferentes comunidades e uma das cidades com maior densidade populacional do país. Mesmo que Charlotte tivesse ficado, poderia levar meses, talvez anos, para encontrá-la. Mais uma vez, desde que assumira o caso de Spencer, Roxanne desejou que Bingo estivesse vivo. Ele saberia o que fazer. Acharia Charlotte McCormick em um piscar de olhos. Seu avô era genial para encontrar pessoas. Meio cão de caça, meio computador e banco de dados, meio vidente. Roxanne gostaria que ainda estivesse vivo por outros motivos, também. Durante as últimas semanas, desde que pusera os olhos em Spencer Melbourne, Roxanne sentia a necessidade de falar com alguém, tanto sobre o caso quanto sobre sua vida. E Bingo fora a única pessoa que parecia tê-la compreendido. Muitos julgavam seu avô um homem rude, mal-educado e impaciente. De certo modo, era verdade. Mas fora também uma pessoa amorosa, benevolente, decente, a seu modo. Pelo menos no que dizia respeito à sua neta. Bingo encarava tudo com naturalidade, desde um assunto profissional até os problemas clássicos de uma adolescente. Bingo fora um bom homem. O único que Roxanne encontrara na vida, a única pessoa que dissera que a amava. E, mesmo quando suas palavras afetuosas vinham acompanhadas por um soco no ombro dela, Roxanne sabia que dizia a verdade e, à sua maneira, demonstrava carinho. Bingo a amara. E Roxanne amara Bingo. Gostaria de têlo de volta, mesmo que apenas por cinco minutos, para que pudesse pedir-lhe conselhos no caso de Spencer. Pelo menos por cinco minutos não se sentiria tão só. — Você está bem, Roxanne? Por um breve instante, pareceu a ela ter ouvido a voz de seu avô, e sentiu o 83


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conforto que sua presença sempre lhe trazia, como um velho e usado cobertor. Então, percebeu que era Spencer a seu lado. Mesmo assim, sem entender por que, a sensação de conforto e amparo permaneceu, como se Bingo estivesse ali. Sem dar muita importância ao fato, Roxanne tentou afastar aquela sensação. Jamais Spencer Melbourne tomaria o lugar de seu avô. Jamais seria capaz de amá-la, compreendê-la ou confortá-la como ele. — Sim, estou bem. Por quê? Spencer hesitou por um instante. — Parecia um pouco solitária. Roxanne não tentou contradizê-lo. Estava se sentindo só, mas Spencer não precisava saber. — Estive pensando em alguém. — Eu também. Roxanne ignorou as entrelinhas do comentário e explicou: — Pensava em Bingo, meu avô. O quanto sinto a sua falta... Sim, Bingo Matheny tinha um faro único para analisar pessoas. De onde vinham, para onde iam, onde gostariam de estar. E, embora Roxanne parecesse ter herdado muito das qualidades do avô, não confiava tanto assim nos próprios instintos. Apesar de saber o tipo de homem que Spencer era, não conseguira evitar de se apaixonar. E, apesar de acreditar que a história sempre se repetia, sentia-se incapaz de dominar suas emoções. — Estava pensando que Bingo saberia o que fazer sobre Charlotte, Spencer, e onde começar a procurá-la. Eu não faço a menor ideia. — Confio em você. Roxanne soltou uma risadinha. — Melhor assim. Spencer colocou a mão em seus ombros e, pela primeira vez na festa, Roxanne olhou direto em seus olhos. O olhar dele externava tanta sinceridade e afeição que ela quase se convenceu de que a sensação de bem-estar que sentira pouco tempo atrás tinha razão de ser. Quase se convenceu. Roxanne desviou a atenção para o drinque que trazia na mão desde que entrara na festa. O gelo se diluíra no uísque. Ao beber um gole, sentiu que estava sem sabor, sem estilo, sem graça, e identificou-se com aquela bebida. — Vamos encontrar Charlotte um dia, Roxanne. — Vamos? Pensei que esse fosse o meu trabalho. 84


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— Agora é "nossa missão". — Fale por si. Para mim, não é uma missão. Só estou fazendo isso porque você me paga. — Preocupa-se em encontrar minha irmã tanto quanto eu. E não é só pelo dinheiro. Você se importa, Roxanne. — Engano seu. É só mais um caso para mim. Faça o que quiser. — Tudo bem. Roxanne olhou para Spencer, curiosa de saber o que ele quisera dizer com aquele simples comentário. Spencer a pegou pela mão e foi conduzindo-a. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Roxanne o viu despedir-se do anfitrião e acenar para os conhecidos. Então, sem cerimônia, empurrou-a para a porta de saída. Seguiram pelo estacionamento até o carro de Spencer, entraram e, em vez de dar a partida, ele a segurou nos braços. — O que está fazendo, Spencer? — Você me disse para fazer o que quisesse, lembra? Quero agarrá-la no carro. Desde ontem à noite venho tentando saber o que me faz tão louco por você, e agora descobri. Roxanne sabia que não devia fazer perguntas, mas não resistiu: — O que é? Spencer sorriu. — Ao seu lado, sinto-me de novo um menino, Roxanne. Tenho vontade de fazer coisas que não fazia havia anos e outras que nunca fiz. Gostaria de estar com o velho Mustang que possuía, meu primeiro carro. Tinha um assento bem maior que este, suficiente para... — Para quê? — Acho que você sabe. — Não faço a menor ideia sobre o que está falando. Antes que tivesse tempo de dizer mais alguma coisa, Spencer a beijou, e Roxanne não resistiu. Desejava que aquele momento não terminasse nunca. E na verdade custou a terminar. Spencer continuou a beijá-la, suas mãos percorrendo todo seu corpo até deterem-se nos seios encobertos pelo pesado suéter.

— Por que faz isso comigo? — Roxanne arfou, pensando por que precisava lutar tanto para conservar o autodomínio todas as vezes em que estava junto de Spencer. Ele riu, de encontro à sua boca. 85


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— Por que não? — Porque é loucura. Spencer beijou seu queixo, suas faces. — Não. É como nos sentimos um com o outro. E muito natural. — Não. É tudo tão primitivo... tão selvagem... — Como eu disse: natural. Vou tomar conta de você, Roxanne. Sabe que vou. Aquelas palavras soaram muito familiares aos ouvidos dela. Roxanne lembrou-se de que as ouvira do mesmo modo, muitos anos atrás. Ocorreu-lhe que a mesma coisa estava acontecendo de novo. As palavras de Spencer invocaram aquelas pronunciadas por Reggie Dodds quando ela era uma adolescente ingênua e, de repente, Roxanne transformou-se na menina assustada de dezesseis anos que se entregara de todo o coração. Spencer parecia-se muito com Reggie, percebeu Roxanne, afastando-se, brusca. Como pudera esquecer com tanta facilidade?! A mesma respiração entrecortada, o rosto bonito, a voz cheia de promessas e adulações. As mesmas cores, o mesmo passado, as mesmas roupas. Até o cheiro do couro do estofamento do carro de Spencer fazia lembrar o de Reggie. Em um carro como aquele, Roxanne perdera muita coisa: sua virgindade, sua inocência, sua alma. — Roxanne? O que houve? Ela apenas balançou a cabeça e o empurrou. Mas Spencer a apertou ainda mais. — Não! — gritou Roxanne, com mais veemência do que o necessário. Spencer a soltou, de imediato. — Pode me dizer o que houve, afinal? — Leve-me para casa. Dissera o mesmo para Reggie muitos anos atrás, em uma noite parecida com aquela. — Não antes de você me contar o que está acontecendo. — Spencer, por favor... A voz de Roxanne falhou, e ela cobriu o rosto com as mãos, esforçando-se para não chorar. Não chorara naquela noite nem nas que se seguiram. Tentara se convencer de que agira certo, porque amava Reggie e confiava nele. Reggie prometera tomar conta dela e fazê-la feliz. — Quem foi? As palavras de Spencer soaram na escuridão, golpeando o peito de Roxanne como um punhal. 86


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— Quem foi quem? — Quem foi o patife que a fez sofrer tanto e ficar tão desconfiada? Roxanne suspirou. Não adiantava negar. Reggie fora um patife que a traumatizara. Na verdade, depois que o tempo passara, Roxanne resolvera considerar o que Reggie fizera com ela como uma espécie de lição de vida. Uma aula de química. "Não misture sangue azul com sangue plebeu ou tudo irá pelos ares." Roxanne respirou fundo e contou: — Seu nome era Reginald Bleeker Dodds III. Satisfeito? — Ainda não. Pode continuar. — Por quê? — Porque acho que tenho o direito de saber. — Por quê? Spencer soltou uma exclamação exasperada. Estendeu as mãos para Roxanne, mas ela fingiu não perceber o gesto. Os olhos dele ficaram escuros de raiva ante a resistência de Roxanne, e baixou as mãos. — Porque me importo com você, Roxanne, só por isso. Se foi magoada, quero saber. Roxanne soltou uma risadinha triste. — Para que, Spencer? Para que desenterrar uma história que aconteceu há mais de quinze anos? — Porque essa história antiga impede que você seja feliz no presente. — Reggie é passado. O que ele fez ou deixou de fazer não impede que eu seja feliz hoje. — Então, não vai se importar de falar a respeito, vai? — Não irá mudar nada. — Como sabe? Roxanne olhou através da janela do carro para o estacionamento. — Roxanne, conte-me o que aconteceu. — Fui seduzida por um rapaz rico, de família importante. Entendeu? Rapaz rico. Está satisfeito agora? — Ora, apenas conheceu um idiota que por acaso tinha dinheiro, e por isso você rotula como crápulas todos os homens que têm uma conta bancária alta? Olhe, Roxanne, todo o mundo um dia é seduzido e abandonado, rico ou pobre, incluindo eu mesmo. E já superei a dor. Roxanne cerrou os lábios. 87


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— Foi mais do que isso. — Então conte. Com gesto firme, Roxanne colocou o cinto de segurança. — Muito bem. Deseja ouvir a versão sem cortes? Lá vai. Leve-me para casa e eu lhe preparo um drinque e conto todos os detalhes sórdidos da história. Você vai adorar. — Eu disse para me levar de volta para a minha casa, não para a sua. Spencer permaneceu em silêncio. — Spencer? Sem deixar de encarar Roxanne um só momento, ele saiu do carro, deu a volta pela frente e abriu a porta do passageiro, esperando que ela descesse. — Não vou sair — avisou Roxanne. — Disse para você me levar para minha casa. — Parece que esqueceu que ainda estamos celebrando um dia na minha vida. As vinte e quatro horas não terminaram ainda. Você me deve uma noite. Roxanne continuou a olhar fixo para frente. — Homem, você tem coragem. Caso não se lembre, já teve sua noite comigo. — Pode acreditar que jamais esquecerei. Mas aquilo aconteceu antes de fazermos o trato. Daquela vez você me concedeu de graça. — Quem disse isso? — Sem dúvida, você não resistiu muito. Mesmo na rua mal iluminada, Spencer pôde ver que atingira o alvo. As faces de Roxanne pegaram fogo e seus olhos se fecharam. — Ao contrário — continuou Spencer, esperando provocá-la ainda mais. — Se a memória não me falha, foi bastante receptiva naquela noite. Surtiu efeito. Roxanne desafivelou ó cinto e saltou do carro. Ficaram cara a cara, ela desafiando-o com o olhar para que dissesse mais alguma coisa. — E hoje à noite, Roxanne, espero repetir a dose. —Tente e verá o que acontece — revidou, de punhos cerrados. — Promessas, promessas... — murmurou Spencer, calmo. — Sim, você deve ser muito bom com promessas também. Sem entender muito bem o que Roxanne quisera dizer com aquilo, Spencer acenou para a porta da casa. — Vamos? — convidou. Aquela Roxanne fria não lhe agradava. 88


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Sem maiores comentários, Roxanne passou por ele, silenciosa, enquanto Spencer abria a porta. Sempre em silencio, ela postou-se no meio da sala de estar. Spencer fechou a porta e aproximou-se. — Quer um drinque? Roxanne tinha um olhar malévolo, e sua resposta o surpreendeu: — Uísque, por favor. Puro. Spencer sorriu, apesar de desconfiado. — Quem diria! Eu também quero uísque puro. Nossa! Temos muito em comum. — Por que fica sempre repetindo a mesma coisa? — Quem está repetindo? Temos mesmo muito em comum. — Não é verdade. Spencer voltou a sorrir enquanto servia as bebidas, e perguntou: — Em quem votou nas últimas eleições? — Nos democratas — respondeu Roxanne, erguendo o queixo e esperando que ele desse a resposta contrária. Entretanto, Spencer respondeu com sinceridade: — Eu também. Que tipo de filme você prefere? — De ação e aventura. — Eu também. Que tipo de música escuta à noite, antes de ir para a cama? — Jazz. — Suave ou agitado? — Suave. — Eu também. — Pequenas coisas não querem dizer nada. E o estilo de vida diferente que importa — persistiu Roxanne. — Você não vê as similaridades nos nossos modos de vida? — Claro que não. Afinal, elas não existem. Spencer aproximou-se com os dois copos e ofereceu um a Roxanne. — Pense bem. Passei um dia vivendo como você vive e vice-versa. Nenhum dos estilos foi muito diferente do outro. Roxanne o fitou, incrédula. — Não acredito no que ouço! Foram completamente diferentes! — Considere os seguintes fatos: número um, nós dois costumamos tomar café às pressas, mas, devido à presença do outro, abrimos uma exceção; número dois, 89


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costumamos estar atrasados e tivemos de correr; número três, ambos passamos parte do dia ouvindo um lunático e fingindo levá-lo a sério. — Ora, deixe disso, Spencer! Aquilo... — Número quatro: em ambos os dias acabamos estacionados em um carro de aluguel, excitados e com vontade de... levar as coisas avante, só que fomos interrompidos nas duas ocasiões: na sua vez por um guarda e na minha por Reginald Bleeker Dodds III. Roxanne nada disse, mas suas faces estavam rubras, as pupilas dilatadas, os olhos quase negros. — Número cinco... — A voz de Spencer tornou-se muito baixa. — Terminamos o dia desejando um ao outro com loucura, mas nada fazendo a respeito. Roxanne engoliu em seco, sempre em silêncio. Spencer ficou pensando em qual seria o problema dela. Por que não lhe dava uma chance? O que a segurava? Por que não permitia que o relacionamento dos dois avançasse? Como se lesse seus pensamentos, Roxanne relaxou. Ergueu o copo, com a mão trêmula. — Está com frio? — perguntou Spencer. — Sim, dentro do coração. Nada pode aquecê-lo. Spencer acariciou os cabelos escuros. — Conte-me o que aconteceu, Roxanne. Quando os olhos dela encontraram os dele, parecia uma outra pessoa, mais jovem, vulnerável. A mulher confiante e segura que Spencer tanto admirava desaparecera. Em seu lugar, havia alguém confusa, insegura, torturada. — Muito bem — concordou Roxanne, afinal. — Vou contar-lhe. E depois vou para minha casa. Encontrarei sua irmã, Spencer. Porque sou detetive particular e foi para isso que me contratou. Mas, depois de hoje, serei apenas isso para você: uma detetive. Spencer não gostou daquelas palavras. Porém, consentiu, com um gesto. Iriam conversar e depois ele decidiria o que fazer.

CAPÍTULO DOZE

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— Reggie era um rapaz rico — começou Roxanne, a voz com uma entonação monótona. — Bonito, encantador, sexy. Como você. A mesma cor de olhos, a mesma altura. Muito mais jovem, é claro, mas, se puséssemos vocês dois, um ao lado do outro quinze anos atrás, poderiam passar por irmãos. — E é isso o que a incomoda? O fato de eu ser parecido com seu antigo namorado? — Não, claro que não. Nada a ver com a semelhança física. — Então, qual o problema? Roxanne respirou fundo e afastou-se de Spencer, indo em direção às janelas que davam para a rua em frente. De costas para ele, impediu que Spencer visse a expressão de seu rosto, e aquilo o aborreceu. Mas a postura de Roxanne dizia-lhe que ficasse afastado naquele momento. Spencer forçou-se a permanecer em silêncio e observá-la a distância. — Reggie parecia-se com você de outras maneiras também. Gostava de carros modernos e caros, tinha carisma, sua família era tradicional, desejava continuar com o trabalho do pai, como diretor da empresa. Spencer deu de ombros. — E daí? — E... fez coisas para mim que não deveria ter feito. — Tais como... Roxanne manteve-se de costas, e Spencer pôde ver que a mulher amedrontada voltara a surgir. — Foi meu primeiro... meu primeiro... você sabe. — Tirou sua virgindade — ajudou Spencer, imaginando por que ela devia se sentir tão constrangida por dizer aquilo. — Entre outras coisas. A voz de Roxanne era grave, diferente da habitual. — Que outras coisas? Roxanne parecia hesitante em continuar e, quando o fez, soou distante e fria, como se falasse de outra pessoa, e não de si mesma. — Começou naquela noite. A primeira vez que nós... A primeira vez que... tivemos relações sexuais estávamos dentro do seu carro. Do mesmo modo que eu e você, hoje à noite. Spencer percebeu que as recordações machucavam Roxanne. — Na primeira vez, eu não estava mesmo preparada. Não o conhecia o suficiente e não desejava dar um passo tão sério ainda. Mas ficamos nos abraçando e... bem... 91


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sabe como são as coisas com adolescentes. — Refresque minha memória — disse Spencer, zangado, sabendo o que viria a seguir. — Adolescentes perdem o controle, às vezes. Reggie me disse: "Confie em mim, Roxanne. Vou tomar conta de você". E, ainda que eu lhe assegurasse que confiava, não me sentia pronta e não desejava fazer aquilo. Mas, mesmo assim, Reggie me possuiu. Foi muito doloroso. Havia muito mais coisas implícitas naquelas poucas palavras. Spencer podia ver em seus olhos. Ela se sentira violentada e traída. O patife a forçara. — Creio eu que hoje em dia isso é chamado de estupro — disse Spencer, surpreso por conseguir manter a voz calma. — Sim, e naquela época as pessoas não costumavam ser muito compreensivas. Quando uma coisa daquelas acontecia era porque a moça concordara. Além do mais, Reggie era considerado um bom rapaz, bonito e rico, e dissera que ia tomar conta de mim. Por que eu deveria me queixar? Muitas garotas dariam tudo para estar no meu lugar naquela noite. — Mas não você. Roxanne passou os dedos pelos cabelos e começou a andar de um lado para o outro da sala. Spencer podia sentir que estava a quilômetros de distância dele. Portanto, ainda que sentisse ímpetos de correr para ela e tomá-la em seus braços, não o fez. Sabia, por instinto, que ainda fazia-a recordar-se de um homem que recusara um "não" como resposta. Spencer não queria agir como Reggie. Roxanne continuou, hesitante. — Creio que, com o tempo, teria permitido que Reggie fosse o primeiro homem a me possuir. Mas, naquela noite, não o desejava. Tinha medo. Porém, Reggie não se importou e fez o que queria. Spencer lutava para conter a raiva e a repugnância que sentia crescendo dentro do peito. Não estava surpreso com a revelação. No entanto, aquilo acontecia com frequência. Spencer não duvidava que a experiência fora traumatizante e que marcara Roxanne. Não sabia o que fazer ou dizer para consolá-la. — Porém, isso não foi o pior, Spencer. Roxanne fixava o copo, incapaz de olhar para Spencer, e ele podia sentir que retornava ao passado, aterrorizada. Queria ajudá-la, fazer o que fosse possível para libertá-la da dor e da angústia que enchiam seu coração. Mas Roxanne Matheny não era mulher de aceitar consolo. Pelo menos, a Roxanne Matheny que ele conhecia. Essa nova versão à sua frente não lhe era familiar. Não sabia como reagir agora. — Não o deixei depois daquela noite. Fiquei com ele. Mesmo tendo sido horrível o que aconteceu, achei que assim deveria ser. Reggie sempre dissera que tomaria 92


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conta de mim, e pensei que era isso o que estava fazendo. Mas, claro, não era verdade. As coisa entre nós pioraram. — O que quer dizer? Spencer forçou-se a fazer aquela pergunta, apesar de estar convencido de não querer ouvir os detalhes, mas sentindo uma força que o impelia a continuar escutando. — Foi um péssimo relacionamento, Spencer. Não podemos parar por aqui? — Não. Nem você nem eu podemos parar agora. Isso faz parte do problema. Roxanne fitou o teto da sala e só então Spencer viu o brilho em seus olhos. Ela tentava não chorar, mas estava fraquejando. — Reggie começou a me controlar como um louco. Precisava saber o que eu fazia o tempo todo, exigia estar a par de com quem eu estava, tinha de falar comigo todas as noites. E todas as vezes em que me via, quase todos os dias, tinha de fazer amor comigo... à sua maneira. E eu concordei. Deixei que fizesse o que desejava. Porque pensei que o amava e que ele me amava também. Na verdade, só me entreguei e anulei minha personalidade. Não sei como aconteceu, mas... — Quanto tempo durou? Foi tudo o que Spencer conseguiu perguntar. — Quer dizer quanto tempo fiquei com ele? — Sim. — Pouco mais de um ano. Spencer respirou fundo, tentando acalmar as batidas violentas de seu coração. — Mais de um ano — repetiu. — E como terminou? Roxanne riu, um riso duro, sem alegria. — Essa é a melhor parte. Foi Reggie quem me abandonou, por assim dizer. Certo dia, à queima-roupa, disse-me que estava noivo da filha de um amigo da família. Disse que seria bom nos afastarmos um pouco enquanto estivesse ocupado com os preparativos do casamento, mas que me procuraria assim que voltasse da lua-de-mel e poderíamos recomeçar de onde havíamos parado. Enfim, Roxanne voltou-se para Spencer. Ele estudou seu semblante e pareceulhe que a mulher forte que conhecia voltara. — Não é engraçado? — perguntou Roxanne, com amargura. — Se não fosse por aquela última humilhação, poderia ainda estar com Reggie. Seria uma daquelas mulheres infelizes e patéticas das quais se ouve falar, presas a um crápula só porque não sabem viver de outra maneira e não têm suficiente fé em si mesmas para se desligar e prosseguir sozinhas. Spencer duvidou que Roxanne seria uma mulher daquele tipo, mas não fez 93


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comentários. — E onde estava Bingo quando tudo isso aconteceu, Roxanne? — Por perto. Ele odiava Reggie. Mais de uma vez ameaçou espancá-lo e só não o fez com medo de que eu fosse prejudicada com o escândalo. Bingo pensou, então, que eu já era uma garota crescida e que saberia tomar conta de mim mesma. Eu também pensei. Bem, ambos estávamos errados. Spencer e Roxanne ficaram em silêncio, olhando um para o outro, cada qual a um canto da sala. Ele desejava se aproximar dela, tomá-la nos braços, dizer que tudo aquilo era passado e que podia sentir-se segura agora. Mas as coisas não eram tão fáceis assim. As experiências da mocidade deixavam marcas profundas. Fosse bom ou mau, o que acontecia na infância e na adolescência marcava uma vida inteira. Spencer sabia muito bem disso. — Reggie procurou você quando voltou da lua-de-mel? — Não sei. Mudei-me do apartamento que dividia com outra moça. Tinha me mudado da casa de Bingo devido às nossas brigas por causa de Reggie, mas acabei voltando. Se Reggie chegou a me procurar, Bingo deve tê-lo ameaçado de morte, caso voltasse a se aproximar de mim. E Reggie não era nada estúpido. Jamais teria procurado briga com meu avô. — Então, na verdade, foi você quem deixou Reggie. Roxanne ergueu a cabeça, de supetão, os olhos muito escuros. — Como disse? — Foi você quem deixou Reggie, não o contrário. — Não, foi ele quem me abandonou. Jamais teria forças para deixá-lo. — Mas teve. Caso contrário, teria esperado que ele voltasse da lua-de-mel e a fizesse de capacho. Porém, deu a volta por cima e modificou sua vida. Roxanne balançou a cabeça, confusa. — Não, eu... Spencer não tinha muita certeza do que deveria dizer agora. — Roxanne... — Reggie me possuía, Spencer. Corpo e alma, ele me possuiu durante um ano. Quando estou a seu lado, sinto tudo aquilo voltar. Parece que estou perdendo o controle de minha vida por sua causa. Hoje você me disse que eu o fazia sentir-se um menino de novo. Bem, é assim também que me sinto quando estou contigo. Só que não quero me sentir desse modo nunca mais. Não posso deixar que isso aconteça. Não sobreviveria uma segunda vez. — Roxanne, não precisa se torturar. O que aconteceu no passado não é o mesmo 94


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que acontece agora. Não percebe? — Só percebo que me sinto do mesmo modo. Penso em você o tempo todo, sinto uma grande alegria quando estamos juntos. E não posso me entregar de novo. Nem a você nem a ninguém. — Mas não quero que você se entregue. — Não?! — Claro que não. O que sentimos um pelo outro é o mesmo. É carinho. É amor. — Não! Isso não é amor. Reggie chamava de amor também. — Até aí você tem razão. Spencer deu um passo na direção de Roxanne e amaldiçoou aquele homem do passado, ao vê-la retroceder, assustada. Se um dia encontrasse o tal Reggie Bleeker Dodds III, ele haveria de se arrepender de todo o mal que causou. Afastou o pensamento e voltou a focalizar-se em Roxanne. — Deixe que eu lhe mostre o que é o amor, Roxanne. Dê-me mais uma oportunidade. Então, se continuar sentindo que é errado, se achar que quero possuí-la por egoísmo, e não amá-la, poderá partir, e prometo nunca mais incomodá-la. Roxanne ficou em silêncio, olhando para Spencer, com os enormes olhos carentes. Spencer deu mais um passo adiante, e Roxanne ficou imóvel. Pouco a pouco, devagar, ele cruzou a distância que os separava e parou em frente a ela. Com um gesto calmo, Spencer segurou seu rosto e sentiu a respiração de Roxanne em seus dedos. Spencer inclinou-se e beijou-a. Foi um carinho muito suave, doce, e ele sentiu que Roxanne se inflamava. O coração de Spencer acelerou ao perceber como a deixava emocionada também e forçou-se a não se apressar. Queria ir muito devagar. Sabia como Roxanne era arisca, e precisava provar-lhe que seus receios em relação a ele eram infundados. Não iria usá-la nem traí-la. Não iria magoá-la. Tinha de fazer Roxanne compreender, e só conseguiria sendo paciente e demonstrando o quanto ela significava em sua vida. — Amo você, Roxanne — sussurrou, cobrindo sua boca para que ela nada dissesse. Spencer tomou seu lábio entre os dentes, com delicadeza. Roxanne arfou. Spencer inclinou a cabeça de Roxanne um pouco para trás, a fim de aprofundar o beijo. Roxanne havia apoiado a mão no peito de Spencer, apertando sua camisa, com força, mas acabou relaxando os dedos e deixando que permanecessem sobre o peito forte. Deslizou a mão para os cabelos de Spencer, a nuca, fazendo com que se aproximassem mais um do outro. 95


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Ao senti-la mais confiante, Spencer passeou seus dedos pelos quadris de Roxanne até atingir suas coxas. Roxanne entreabriu os lábios, ansiosa. Spencer, então, apertou-a de encontro ao corpo e ambos gemeram, movendo-se em harmonia. Voltou a percorrer as costas delicadas, subindo até alcançar seu seio, cobrindoo com dedos ansiosos. Roxanne pareceu submissa, e Spencer sorriu, aliviado e feliz. Ergueu o suéter que ela usava, mas, ao sentir que Roxanne voltava a enrijecer, retornou às carícias anteriores, a mão em seu seio e a outra em suas costas, e Roxanne voltou a relaxar. Seus corpos estavam muito colados, a pressão de Spencer fazendo-se sentir sobre as coxas roliças. Quando percebeu que Roxanne delirava de ansiedade, Spencer inclinou a cabeça e beijou a ponta de seu seio sobre a renda do sutiã. Roxanne não o repeliu, sua mão mergulhada nos cabelos de Spencer. Por um longo tempo, Spencer beijou seu seio por sobre o tecido da roupa e, por fim, desabotoou o sutiã, fazendo com que Roxanne o despisse. Com um fio de voz, ela pediu: — Continue... Então Spencer continuou a beijá-la, muitas e muitas vezes. Caiu de joelhos, com um gemido rouco, e beijou-lhe o ventre. Seu corpo doía de desejo e gostaria de possuí-la naquele momento, com pressa, apaixonadamente. Mas não faria isso naquela noite. Outras oportunidades surgiriam para que demonstrassem seu amor com fúria, mas não naquele instante. — É assustador o que acontece com nós dois quando estamos juntos — comentou Spencer, tentando manter a calma. — Parece que às vezes tudo foge ao controle. Mas não vou machucá-la. Eu te amo. Não quero ser seu dono; quero amar você. Sentiu a pressão dos dedos dela mais fortes, mas não sabia se o estava encorajando ou repelindo. Ergueu a cabeça para fitá-la, e então Roxanne começou a desabotoar o jeans. Spencer ajudou-a com gestos rápidos, desafivelando o cinto e baixando o zíper, deixando à mostra mais um pouco de Roxanne, exibindo a calcinha azul de cetim, tão transparente que permitia ver a parte mais íntima de seu corpo. Ele a beijou com intimidade, apertando suas nádegas. Depois, despiu-lhe a calça e a calcinha ao mesmo tempo. Por um momento, Spencer permaneceu parado, de joelhos. Depois, devagar, deslizou as mãos nos tornozelos de Roxanne, beijando seu umbigo. Roxanne pareceu perder o equilíbrio, e Spencer a segurou firme, continuando a 96


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acariciá-la. Roxanne gemeu, e Spencer não sabia se era um som de prazer ou se ela se sentia envergonhada. Levantou-se, tomando suas mãos. — Agora é sua vez, Roxanne. Sou seu, Faça o que quiser. — Leve-me para cima. Sem esperar por mais nada, Spencer a tomou nos braços e subiu as escadas. Roxanne desabotoou sua camisa enquanto subiam e Spencer deixou a roupa cair nos degraus. Ao chegarem ao quarto, Spencer colocou Roxanne no chão, e ela o ajudou a tirar a calça, começando a acariciá-lo. Spencer prendeu o fôlego, fazendo um esforço sobre-humano para dominar a paixão, mas os movimentos sensuais da mão de Roxanne fizeram com que perdesse a razão. Começou a guiar as mãos dela com as suas. Roxanne inclinou-se sobre o peito de Spencer, acariciando-o com os lábios. Esfregou-se nele, pouco a pouco caindo de joelhos,, do mesmo modo como Spencer fizera, momentos antes, enquanto passava os dedos pelos longos cabelos escuros. vez.

— Antes você tomou conta de mim — murmurou Roxanne. — Agora é a minha

Spencer achou que aquilo era um bom sinal. Então, parou de pensar, absorto em seus próprios sentidos e no desejo que Roxanne lhe despertava. Quando já pensava que seu coração não iria aguentar tanta emoção, Roxanne voltou a se levantar e, sem perda de tempo, Spencer a fez recuar até a cama. Inclinou-a sobre o colchão, apoiando suas costas e a acariciando em sua virilha. Roxanne gemeu alto e, já deitados, Spencer a penetrou sem perda de tempo. Roxanne permaneceu estática ao senti-lo dentro de si. Nada era tão perfeito, tão natural e completo. O que Spencer lhe despertava não se comparava ao que sentira em sua adolescência. Sim, perdera uma parte de si mesma desde a primeira vez em que o vira. Mas Spencer lhe oferecera parte de si em troca, para preencher o vazio de sua vida. Reggie nunca fizera isso. Jamais lhe dera nada de seu. Spencer, em contrapartida, dava-lhe tudo, e ela absorvia com cada poro de sua pele, cada nervo, cada célula. Roxanne chegou à conclusão de que era isso o que se sentia ao amar. Compartilhar. Dar e receber. De repente, sentiu-se duplamente forte, jamais teria que lutar sozinha outra vez. Nem Spencer, prometeu a si mesma. Juntos, criariam um mundo mágico. Os movimentos dele se aceleraram. Roxanne o apertou com força e, estremecendo, Spencer explodiu de amor dentro de seu corpo. Então, ele rolou para o lado da cama, mantendo-a aninhada em seus braços. 97


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— Eu te amo, Roxanne. Eu te amo. — Eu também te amo — murmurou Roxanne contra seu rosto, selando a declaração com um doce beijo. Por um longo tempo, ficaram em silêncio e imóveis. Permaneceram abraçados e exaustos, embriagados pelas emoções, sonolentos e satisfeitos. Spencer foi o primeiro a se mover. Equilibrou-se num cotovelo. — Será que ouvi bem o que você disse, Roxanne? — Sim. — Você me ama de verdade? Roxanne as sentiu. — Então diga de novo. — Eu amo você. Spencer sorriu, afastando os cabelos úmidos da testa dela. — O que a fez mudar de ideia? Roxanne segurou o rosto de Spencer. — Não sei se mudei de ideia. Acho que o amei desde o primeiro instante, mas tinha de resolver alguns problemas íntimos antes de admitir isso. — Beijou-o e continuou: — O que aconteceu com Reggie... marcou minha vida por um longo tempo. Nunca mais consegui me envolver com ninguém. E passei a me sentir mal no meio de gente rica porque me fazia lembrar dele. Mas, não sei por quê, nunca me senti mal a seu lado. Em sua casa, seu escritório, na festa hoje à noite. Em nenhum desses lugares, com você, me senti deslocada. Creio que foi porque estava comigo, me fazendo sentir normal, à vontade, natural. Você me deu tanto, Spencer... Jamais saberá quanto. Depois que Bingo morreu, pensei que ficaria só pelo resto da vida, mas... Spencer colocou o dedo sobre seus lábios, com delicadeza. — Não diga isso. Sei o que sente. Nenhum de nós dois voltará à solidão. Com ou sem minha irmã gêmea, que perdi, já encontrei minha família. Porque encontrei você. — Um dia acharemos Charlotte. Prometo. — Sim, mas, mesmo que isso não aconteça, serei um homem feliz. Tenho tudo o que desejo bem aqui. Você é minha família agora, Roxanne. Permita que eu seja a sua. Roxanne sorriu. — Está me propondo casamento? — Sim. — Eu aceito. Spencer soltou uma gargalhada, segurando um seio. 98


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— Já começamos a lua-de-mel! — Certo. Mas terei de trabalhar amanhã. — Não tenhamos pressa — murmurou Spencer, beijando-lhe o pescoço. Roxanne suspirou e deixou-se cair na cama, concordando.

EPÍLOGO

— Ande logo, Spencer, ou vamos nos atrasar. Spencer mirou-se no espelho do banheiro e arrumou a camisa. — Como se você estivesse muito preocupada, Roxanne... — Claro que estou. Não quero ouvir a sra. Edna Bison Morrow Van Metew se queixar de novo que chegamos atrasados. — O nome é Bighton, não Bison — corrigiu Spencer, pondo a cabeça através da porta aberta e olhando para Roxanne, parada no meio do quarto. — Chame-a de sra. Bison novamente, e ela nunca mais nos convidará para ir à sua casa. dela.

Roxanne deu um sorriso doce demais, o que o fez pensar que era esse seu plano

— Muito bem, Roxanne. Não aceitaremos mais os convites para o baile de máscaras anual beneficente dos Van Metew. Se quiser, poderemos nos desculpar hoje à noite, mandando apenas um cheque. — O quê?! E desperdiçar duas fantasias maravilhosas? Spencer riu. Como sempre, encaravam um assunto de maneira diferente. Aquele baile de máscaras era uma das festividades mais concorridas da cidade, conhecido por reunir celebridades de todos os meios: políticos, artistas, homens de negócios e militares. Naquele ano, Spencer resolvera ir de Capitão Gancho e gastara uma fortuna alugando uma fantasia de pirata desenhada por um grande costureiro. Por outro lado, Roxanne gastara três dólares em um capacete de jogador de hóquei, pegara um facão de açougueiro, e se fantasiara de Jason, o assassino do seriado Sexta-Feira Treze, terminando o arranjo com uma camiseta rasgada e manchada de ketchup. Spencer tinha certeza de que ela seria o assunto principal da festa e todos diriam: "Por que não pensei nisso antes?" 99


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— Tem razão, querida. Spencer não se sentia muito à vontade com aquelas botas de cano alto e a camisa aberta até o umbigo. — Você está muito sexy fantasiado de Barba Azul, Spencer. — Capitão Gancho, querida. Não tenho intenção de matar minha esposa. — Bem, se não quiser ir à festa, podemos encontrar outro modo de utilizar as roupas. Spencer entrou no quarto e tomou Roxanne nos braços. — Sabe, nunca fiz amor com uma mulher usando máscara de hóquei. Deve ser diferente. — Eu poderia ir até a cozinha e trocar as manchas de ketchup por creme batido. — Boa ideia! Gosto de sua imaginação criativa, Roxanne Matheny Melbourne. Nunca fiz amor com uma mulher coberta de creme. Hoje pode ser uma noite de novidades. Roxanne sorriu, e havia algo de misterioso em seu sorriso. Sabia de alguma coisa que ele ignorava. Mas, como Roxanne ficasse em silêncio, Spencer decidiu que deveria usar de tática para descobrir o que queria. — Gosto do jeito como se veste — disse ele, levantando um pouco a camiseta manchada — e gosto mais ainda de como se despe: Provocante, Roxanne se afastou. — Tenho uma pergunta — disse ela, rindo das dúvidas do marido. — Qual? — Preciso esclarecer uma coisa. — Muito bem. Pode falar. Ainda sorrindo, Roxanne o encarou. — Disse que nunca fez amor com uma mulher usando capacete de hóquei. — É verdade. — E que nunca fez amor com uma mulher coberta de creme batido. — Certo. Vai ser uma novidade. O que mais? — Que tal... uma mulher grávida? Já fez amor com uma? Spencer abriu a boca para dizer que não, quando percebeu o sentido real da pergunta. Ficou imóvel, por um momento. Então, pareceu sair de um transe. — Está dizendo o que penso que está dizendo? Roxanne assentiu. 100


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— Você está prestes a fazer amor com uma mulher coberta de creme batido, assassina de filmes de terror e... futura mamãe. Spencer desatou a rir. — Sempre ouvi dizer que mulheres grávidas tinham fantasias, mas essa é demais. Roxanne riu, atirando-se em seus braços e beijando-o. — Os testes foram positivos. Spencer ficou em silêncio, para degustar o sabor daquela descoberta. Agora iria descobrir a felicidade do ciclo da vida. Marido e mulher, pais e filhos, união familiar. Teria muito mais do que sempre desejara. O que começara como uma busca nebulosa por uma pessoa querida terminara como uma realidade, com mais de uma pessoa amada. Nada poderia fazê-lo mais feliz do que era agora. Aqueles tinham sido os desígnios do destino para conceder-lhe uma família. — Está decidido. Não vamos sair hoje à noite. Celebraremos em nossa casa. Como uma família. — Nossa casa — repetiu Roxanne, suave. — É uma expressão que nunca usei muito. Jamais pensei que teria um lar e uma família. Não de verdade. Não assim. Spencer a apertou mais de encontro ao peito. — Família... Algo que nunca esperei ter. Um dia encontraremos minha irmã, se Deus assim quiser, e ela saberá que é tia. Seja como for, está tudo ótimo. Para mim, para você, para o bebê, e para minha irmã, aonde quer que ela esteja. Fim

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