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1ª EDIÇÃO - ANO 1- DEZEMBRO/2017

Universidade Anhembi Morumbi | Curso de Jornalismo | 6º Semestre | Turma CE Noite | 2017-2

Ciência, cultura e histórias de vida Temas Contemporâneos

ALCOOLISMO

A luta diária contra a doença

SUPERBACTÉRIAS Entenda o que são e como prevenir

ZANGADO

Inspiração para os gamers

POR MAIS IGUALDADE Camila Achutti é referência para mulheres na tecnologia

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Foto: Adriano Oliveira

Ciência, cultura e histórias de vida


EXPEDIENTE

Temas Contemporâneos

EDITORIAL A Temas Contemporâneos é uma revista voltada para ciência, cultura, tecnologia e histórias de vida. Dessa forma, é possível encontrar histórias emocionantes, matérias relevantes e muitas curiosidades. Nosso destaque nesta edição é a matéria “Uma mulher na tecnologia”. Nela contamos a história de Camila Achutti, que se formou em Ciência da Computação e, assim que se deu conta de que era a única menina na sala de aula, criou o blog “Mulheres na Computação”. Camila é cada vez mais reconhecida pela luta de inclusão das mulheres nesse segmento que é predominantemente masculino. “Enquanto o estereótipo da área não mudar, vamos todas, independentemente de posição e senioridade, ter que enfrentar essa pressão que sofremos por sermos mulheres no mundo da tecnologia. Por vezes isso é velado e até negado por algumas de nós, mas que a sociedade nos pressiona, não tem como negar!”, destaca Camila, na entrevista das páginas

Revista produzida por alunos do 6º semestre do curso de Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi Reitor Oscar Hipólito Diretor da Escola de Comunicação e Educação Prof. Dr. Luis Alberto de Faria Coordenador do curso de Jornalismo Prof. Dr. Nivaldo Ferraz Primeiro-ministro do curso de Jornalismo Prof. Ms. Alexandre Possendoro Professora orientadora Profa. Ms. Patricia Paixão Projeto gráfico Prof. Ms. Ricardo Senise

o alcolismo, dentre outras.

Redação e diagramação Adriano Oliveira Bruna dos Santos Felipe Savioli João Victor Aguiar Victor Pontes Vitor Azevedo

Boa leitura!

Data desta edição Dezembro de 2017

24 à 32. O leitor ainda encontrará um perfil sobre Thiago “Zangado”, um youtuber voltado ao público gamer que alcançou a marca de três milhões de inscritos este ano, e uma reportagem sobre

Ciência, cultura e histórias de vida

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Temas Contemporâneos

SUMÁRIO

CRÔNICA

Digitando...

Foto: Victor Pontes

05 A VIDA PÓS WHATSAPP

Por João Aguiar

06 SUPERBACTÉRIAS 12 ESPORTE E CIDADANIA 18 OS HERÓIS CRESCERAM THOR: RAGNAROK 22 Foto: Adriano Oliveira

COMPUTADORES 23

A noite todo mundo saiu para comer uma pizza, conversamos, demos risadas, os adultos discutiram na hora de dividir a conta, tudo como se nada tivesse acontecido. Já nos acostumamos, é todo dia a mesma história. Agora temos uma rotina real e outra virtual.

PINGUE-PONGUE 24

32 LUTA CONTRA O ÁLCOOL Foto: Fernanda Domingues

38 A VOZ DE ZANGADO 44 MULHER AO VOLANTE 48 CURTAS 4

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Foto: Adriano Oliveira

CIÊNCIA mais fazer o efeito desejado para tratar as pessoas infectadas por estas bactérias. O uso desnecessário de remédios antimicrobianos é um dos principais fatores para

Ao tomar um antibiótico, as bactérias que sobrevivem ficam mais resistentes a resistência bacteriana. Para o médico e doutor em doenças infecciosas da Universidade de São Paulo, Jorge Luiz Mello Sampaio, “as bactérias multirresist-

entes são o reflexo do nosso uso de antimicrobianos”. Esse fato tem preocupado a Organização Mundial de Saúde, que divulgou uma lista de medicamentos que já não responde ao tratamento de infecções por bactérias multirresistentes. Entre as bactérias que fazem parte do grupo mais crítico estão as Acinetobacter, Pseudomonas e várias Enterobacteriaceae - incluindo Klebsiella, E. coli , Serratia e Proteus -, que podem causar infecções graves, como infecções sanguíneas e pneumonia, chegando a levar a óbito. Essas bactérias já apresentam resistência aos medicamentos mais potentes, disponíveis no mercado atual,

que são os carbapenems e as cefalosporinas de terceira geração. Este grupo crítico preocupa diretamente os hospitais, lares de idosos e pacientes de Unidades de Terapia Intensiva. Processo de resistência Nosso corpo é colonizado naturalmente por diversos tipos de bactérias. Muitas delas são fundamentais para nossa saúde e proteção do nosso organismo. Mas quando somos colonizados por bactérias nocivas à saúde, podemos ficar doentes por uma infecção. Quando isso ocorre, é necessário o uso de antimicrobianos. Quando se faz o

Resistênci a pre o c up a p or f a lt a d e antibi óti c o s ef i c az e s

Elas estão cada vez mais resistentes Por Adriano Oliveira Você já tomou algum antibiótico sem prescrição médica? Alguma vez já abandonou um tratamento com esse tipo de medicamento, porque já estava se sentindo melhor? Então você deveria saber que, de alguma forma, pode ter contribuído para o processo de resistência das superbactérias. Esse assunto é tão grave que a comunidade científica já o considera como uma ameaça global na área da saúde. Os médicos passam por situações de não terem mais

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antibióticos que possam matar essas bactérias resistentes. O tema preocupa o mundo todo e a solução para este problema precisa ser apresentada o quanto antes. Mas o que são estas chamadas superbactérias? Superbactérias são bactérias multirresistentes a antibióticos. O assunto tem preocupado a Organização Mundial de Saúde (OMS), que tem alertado a classe científica para a necessidade de se encontrar uma solução para o problema considerado de saúde pública. Somente nos Estados Unidos, as bactérias multir-

resistentes matam cerca de 23 mil pessoas e deixam mais dois milhões de infectados por ano, segundo dados do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças – órgão americano de saúde com atuação semelhante à Anvisa). O que mais preocupa é que a forma de combate às bactérias causadoras de infecções faz com que as bactérias sobreviventes criem mecanismos de resistência ao antibiótico medicado. Quando isso acontece, os antibióticos que antes eliminavam a infecção, agora não conseguem Temas Contemporâneos

Foto: Adriano Oliveira

A lista da OMS é uma alerta aos profissionais da saúde, que têm cada vez menos alternativas para combater bactérias resistentes

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Arte: Adriano Oliveira

passaram por procedimentos invasivos como uso de cateter e sondas, sem a devida higienização de mãos dos profissionais ministrantes e dos materiais utilizados nestes processos, são mais vulneráveis a serem infectadas por bactérias multirresistentes. A doutora em ciências e pesquisadora na área de microbiologia, Fabiana Andrielli, alerta para os cuidados ao visitar um paciente em leito hospitalar. “É comum que se leve comida [ao paciente], mas tudo o que é matéria orgânica também serve de alimento para as bactérias. O visitante não deve sentar na cama em hipótese alguma [para evitar o contato com micro-organismos] e deve lavar as mãos antes, durante e depois da visita”, observa.

uso de antibióticos para tratar uma infecção, o organismo faz uma pressão seletiva, ou seja, o remédio mata as bactérias causadoras da infecção. Mas as que

A maior atenção por risco de contaminação está em hospitais sobrevivem sofrem um processo de mutação em seu DNA, replicando-se em novas bactérias, já resistentes ao medicamento utilizado. Isso ocorre devido ao fato de que as bactérias às vezes têm milhares de cópias de plasmídeos - moléculas de DNA que podem ser passadas entre as bactérias – com informações de genes de resistência aos antibióticos anteriormente utilizados em algum tratamento de infecção. Esse paradoxo entre remédio e doença é um dos pontos-chave desta questão. A doutora em microbiologia e professora adjunta na Universidade Federal de Santa Catarina, Fabienne Antunes Ferreira explica o problema. “Quando tomamos um antibiótico, não matamos somente a bactéria causadora da doença. Matamos também parte das bactérias do nosso corpo que nos protegem contra diversas infecções, e assim abrimos espaço para que as bactérias resistentes, que causam doença, consigam se instalar”, afirma. Como ocorre o contágio Algumas bactérias podem ser transmitidas pelo ar, mas a forma

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Infecção hospitalar O número de casos por infecção hospitalar pode diminuir com o cumprimento das normas de segurança pelos profissionais da saúde e também pelo público em geral, ao chegar em hospitais e em postos de saúde. A desin-

O cumprimento das normas de segurança por profissionais de mais comum de ser contagiado – ou colonizado – por bactérias é através do contato entre pessoas, no qual um indivíduo infectado toca em alguém não infectado e passa o micro-organismo. Um profissional de saúde que atende

um paciente sem infecção, sem ter usado luvas ou lavado as mãos após atender um paciente infectado, pode transmitir uma bactéria. O contágio também pode ocorrer por um objeto colonizado pela bactéria, sem ter

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sido devidamente higienizado antes de ser utilizado em outra pessoa. Por isso a atenção maior sobre a contaminação por bactérias multirresistentes é voltada para os ambientes hospitalares e os devidos cuidados a serem

tomados pelos profissionais na área da saúde. Pessoas portadoras de doenças crônicas, com a saúde fragilizada por doenças como diabetes, as que acabaram de passar por uma cirurgia ou que

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saúde pode evitar novos casos fecção dos materiais de trabalho como estetoscópio, aparelho medidor de pressão arterial e

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Foto: Adriano Oliveira

“Se prolongou, não é mais profilaxia, já é tratamento. Mas a pergunta que fica é: você está tratando o quê?”

Antibi óti c os atu ais s ã o in su f i ci entes em c as o s m ais g r ave s

termômetro, além do cuidado no uso do jaleco, são medidas importantes para evitar o contágio por bactérias multirresistentes. Para Fabienne Ferreira, “o jaleco é um equipamento de proteção individual do profissional de saúde que deve ser utilizado somente no momento do atendimento ao paciente ou no laboratório de pesquisa, nunca fora do ambiente de atenção à saúde”. No entanto, a falta de estrutura em boa parte dos hospitais pode ser um fator relevante nesta questão. “Eu sou absolutamente contra”, afirma Jorge Sampaio, sobre o uso de jalecos na rua. Porém o médico ressalta que “a maioria dos hospitais não oferece um lugar para você tirar o seu paletó, seu agasalho e deixar pendurado no seu armário, entrar com seu avental e não sair para a rua”.

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Uso indiscriminado de antibióticos O uso indiscriminado de antibióticos pode matar as bactérias do nosso organismo, que

“[Uso

de

antibióti-

cos] somente quando necessário, no menor tempo possível e sempre na dose correta” impedem a entrada de outras bactérias capazes de causar doenças no nosso corpo. Esses medicamentos devem ser utilizados com cautela e de forma adequada. Segundo Sampaio o uso de antibióticos deve ser feito

“somente quando necessário, no menor tempo possível e sempre na dose correta”. Com o intuito de diminuir o uso irracional de antimicrobianos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proíbe desde 2010 a venda de antibióticos sem prescrição médica. O tratamento com antibióticos só deve ocorrer quando uma bactéria causa doença. É importante saber que estar colonizado não significa estar doente. A infecção acontece quando uma pessoa se encontra nos grupos de risco, como as pessoas de saúde debilitada, os recém-operados ou doentes crônicos. Vale ressaltar que o uso dos antimicrobianos só deve acontecer caso apareça os sintomas. Mesmo com orientação, há casos de uso inadequado por médicos que prescrevem an-

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tibióticos para pacientes com sintomas, mas com infecção viral, que dispensa o uso de antimicrobianos. Outro caso de prescrição inadequada ocorre quando um profissional receita um medicamento cujo tempo de tratamento é maior que o necessário, fazendo uma pressão seletiva que poderia ser evitada. Um exemplo é a profilaxia cirúrgica, que é o uso de antimicrobianos um dia antes de uma cirurgia, para se evitar possíveis contaminações na região de um corte. O problema é quando o cirurgião prolonga a profilaxia para dias posteriores à cirurgia. Para Sampaio, “se prolongou, não é mais profilaxia, já é tratamento. Mas a pergunta que fica é: você está tratando o quê?”. Os pacientes devem seguir à risca a prescrição médica para o uso de medicamentos antimicrobianos. O abandono do tratamento ao sentir melhora é comum, mas prejudicial. Ao encerrar o tratamento antes do prazo recomendado, o quadro de infecção pode se agravar, levando o paciente inclusive à morte. A guerra dos profissionais da saúde contra as bactérias ocorre contra o relógio. O curto tempo disponível para o início de um tratamento à base de antibióticos não permite, muitas vezes, que seja possível esperar o resultado de um exame, como

um antibiograma. Um médico tem um prazo de apenas duas horas para iniciar o tratamento empírico, no qual o paciente recebe uma dose de antimicrobianos que tenham condições seguras de resolver o problema da infecção. Caso não haja a ministração de medicamentos neste período, as chances de o paciente falecer aumentam consideravelmente. Antibióticos na Agropecuária Uma outra preocupação pelos agentes de saúde é o uso de antibióticos como promotores de crescimento na agropecuária. Segundo o veterinário, pesquisador e desenvolvedor de produtos agrícolas e pecuários, Luiz Carlos Demattê Filho, os animais recebem estes antimicrobianos pela água e pela ração para se “obter um efeito anabólico, que é um efeito estimulador da capacidade de se nutrir de um alimento consumido”. Este tipo de uso para o medicamento tem sido praticado pelos países no mundo todo, o que tem despertado a atenção da OMS quanto a necessidade do

Um médico tem apenas duas horas para iniciar o tratamento de um quadro por infecção grave uso racional destes fármacos. Ao manipular a carne destes animais alimentares, é possível contrair uma bactéria multirresistente, caso não seja feita a higienização necessária, como lavar as mãos após limpar o frango in natura, antes de preparar uma salada,

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por exemplo. Além do risco de contrair infecções pela carne destes animais na hora do preparo dos alimentos, o descarte natural destes antibióticos no meio ambiente pode ser prejudicial e agravar os problemas de contaminação da sociedade através de rios e lençóis freáticos. “Quando os animais defecam, eles liberam no ambiente as bactérias resist-

Os antibióticos são utilizados

na

agro-

pecuária como promotores do crescimento entes, que contaminam o solo, as águas e podem voltar a infectar o homem, através da ingestão de água e alimentos contaminados”, alerta Fabienne Ferreira. Tratamento de esgoto Com a falta de tratamento de esgoto adequado, o saneamento básico também é importante para a prevenção de contaminações e doenças. Segundo relatório da OMS e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), 4,5 bilhões de pessoas em todo o mundo não têm saneamento seguro. De acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, apenas 37,5% do esgoto brasileiro é tratado. Esses dados são preocupantes, porque uma taxa de baixo volume de esgoto tratado aumenta a exposição da sociedade ao risco de contaminação por bactérias multirresistentes, que podem estar presentes na água.

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Foto: Victor Pontes

COTIDIANO expostos a fatores como criminalidade, tráfico de drogas e trabalho infantil, que se mostram saídas cada vez mais naturais para estes que foram privados da importância de correr e brincar sem preocupações que não deveriam ser suas.

Os p e qu enos d e s af i os i n erentes d o esp or te, simu l am c om p erfei ç ã o o s d e s af i o s d a v i d a a du lt a

Futuro em jogo: barreiras, incentivos e oportunidades Na ausência de condições básicas, o esporte surge como alternativa para o desenvolvimento social de crianças e jovens Por Victor Pontes É quinta-feira e o relógio marca meio dia em uma escola estadual da zona leste de São Paulo. Ao toque do sinal, grande parte das crianças daquela sala de aula sabe que aquele será o último contato delas com o esporte naquela semana. A aula de Educação Física virá somente na terça e amanhã as 04 aulas serão divididas entre Português e Química. Ao sair da escola e caminhar

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até as suas casas, possivelmente estas crianças não verão seus amigos jogando bola na rua e nem nos já escassos campinhos de várzea. A escolinha gratuita que ficava na praça foi desmobilizada por falta de incentivo da Prefeitura e por não conseguir pagar sequer um instrutor, que há alguns meses trabalhava voluntariamente. O acesso a pratica esportiva se tornou um privilégio para poucos, talvez aqueles que tenham maior poder aquis-

itivo e pais que se disponham a pagar, sem comprometer as necessidades básicas do lar, como o almoço e o jantar. O tempo livre e o acúmulo de energia, que poderiam ser depositados em alguma atividade física, ficam à disposição de fatores externos indesejados, que ocupam facilmente esse vácuo deixado pelo poder público. Em contrapartida, neste mesmo percurso é comum ver jovens com a mesma faixa etária,

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O cerne da questão O incentivo à prática esportiva regular é uma alternativa importante para aliviar as angústias e necessidades básicas como saneamento, segurança e suporte familiar presentes no dia a dia de crianças e jovens de comunidades carentes, contribuindo para uma formação social mais sólida, além de promover uma maior qualidade de vida, através da implementação de uma rotina mais saudável. Os trabalhos desenvolvidos em grupo e a imposição de objetivos a curto e longo prazo, permitem a criação de uma bagagem para a vida adulta, independentemente de se tornar ou não um esportista profissional. Essa regularidade de acordo com o Relatório Nacional de Desenvolvimento Humano do Brasil de 2017, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), tem o poder de “promover maior socialização, de melhorar a autoestima e a autoimagem corporal, de influenciar nas sensações e pensamentos positivos e de proporcionar distração das preocupações do dia a dia”. Segundo Davison Coutinho,

27 anos, professor, pesquisador e coordenador do Núcleo de Estudo e Ação Sobre o Menor da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) e ativista social na favela da Rocinha, “o esporte é um excelente caminho para a criança ocupar a mente e desenvolver o corpo. É essencial para o crescimento da criança como um todo”. Davison destaca que uma criança que pratica algum esporte aprende a trabalhar em equipe e compreende a importância do próximo no convívio social. “O esporte tem a capacidade de integrar cri-

“Uma

criança

que

pratica esporte aprende a trabalhar em equipe e compreende a importância do próximo no convívio social. ” anças e jovens das comunidades na sociedade, transformar suas vidas e reduzir os preconceitos e estereótipos. A prática esportiva faz com que tenham uma melhor autoestima e se sintam capazes e integrados socialmente”, complementa. Quando um jovem se sente fracassado na busca por um emprego, ou no aprendizado escolar, essa mágoa representa uma porta aberta para os caminhos errados, e o esporte, juntamente com a educação, “evitam que esse jovem tenha sua vida aliciada pelas vias do crime, oferecendo um

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futuro mais digno e humano”, finaliza. O entendimento das melhorias impostas pelo hábito de praticar esportes diversos como futebol, voleibol, judô e ginástica artística é reforçado por João Airton Pontes, 63 anos, doutor em Educação e especialista em Didática Aplicada à Educação Física: “ O esporte é um dos maiores vetores de inclusão, é o momento em que os jovens vão frequentar novos ambientes, conhecer pessoas e aprender o fundamental para a convivência social, exatamente conhecendo as regras do esporte que nada mais é, do que acontece no cotidiano”. Para dentro da escola A ausência de alternativas gratuitas para estes jovens fora do ambiente escolar, repassa às escolas, que enfrentam problemas estruturais em todas as esferas, a obrigatoriedade de supri-las por completo. Este fato não ocorre por inúmeros motivos, entre eles a falta de entendimento do esporte como forma de integração social e suporte para os professores que atuam no dia a dia. A real necessidade de “alfabetização esportiva” sobrecarrega o educador da área esportiva, que muitas vezes é escanteado em prol de outras matérias, consideradas mais importantes. A desvalorização velada não diminui a sua responsabilidade, transformando-o em responsável direto por essa integração, ficando sob a tutela dele, sem as ferra-

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Foto: Victor Pontes

Foto: Victor Pontes

mentas necessárias, a obrigação longe da escola, esse incentivo respeito. Sendo assim, o docente de manter os seus métodos gradativo auxilia no desenvolvi- deve aplicar atividades diversificondizentes com os aplicados mento de um instinto coletivo. O cadas que desenvolvam no aluno em nações mais desenvolvidas, simples fato de ser educado para uma capacidade reflexiva sobre a como afirma João Airton importância do processo. Pontes: “Acho que o esporte “Acho que o esporte deveria ser deveria ser o carro-chefe da Surgem alternativas fora da o carro-chefe da integralização integralização curricular. As sala de aula metodologias ficam a cargo do professor que está no curricular. As metodologias A absorção do valor da campo de trabalho, mas é ficam a cargo do professor que prática esportiva como ferfundamental que este profisramenta de inclusão social sional esteja atualizado”. está no campo de trabalho, e desenvolvimento saudável Deve existir a preocué obrigação constitucional e mas é fundamental que este pação que o aluno, além de está aparentemente no radar iniciar uma prática esportidas autoridades, através de profissional esteja atualizado.” va, participe de um processo iniciativas públicas como os de ensino estruturado que o Jogos Regionais, Jogos Aboriente a incluir essa prática no se tornar um bom atleta, não lhe ertos da Juventude e Jogos Esseu dia a dia ao longo dos anos. garante características inerentes colares, por exemplo. Segundo Por mais que este jovem não aos esportes coletivos, como sol- dados da Secretaria de Esportes, encontre muitas possibilidades idariedade, companheirismo e Lazer e Juventude do Estado de Ao s e exerc it ar, o j ovem c onta c om b enef í c i os f ísi c os em rel a ç ã o a s aú d e, a l ém d e mel h or ar o s e u c onv í v i o f am i li ar e es c ol ar

Os p e qu enos d e s af i os i n erentes d o esp or te, simu l am c om p erfei ç ã o o s d e s af i o s d a v i d a a du lt a

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São Paulo, fornecidos pelo coor- ca e individualizada. Em contato público, através de iniciativas denador de Comunicação An- com ONGs mantidas por ex-at- tímidas e cada vez mais limitaderson Dias, 30 anos, somente letas, por exemplo, os números das para os jovens de baixa renem 2017 foram destinados R$59 expostos se mostram ainda mais da e de classes sociais inferiormilhões para custear cerca O baixo incentivo do poder izadas, abre espaço para o de 700 projetos criados ou surgimento de alternativas mantidos por ONGS em público, através de iniciativas paralelas que visam suprir todo o Estado, valor que as carências impostas pelo tímidas e cada vez mais limitadas chega a R$530 milhões desEstado. Independentes em de 2010. Estes recursos são sua maioria de financiamenpara os jovens de baixa renda e derivados da cessão de 3% tos de grandes corporações e do valor de ICMS a receber. de classes sociais inferiorizadas, auxílio dos governos EstaduDiante destes dados, imal e Federal, tais instituições agina-se que o apoio das au- abre espaço para o surgimento de tem como objetivo manter toridades é suficiente para e executar programas edualternativas paralelas. manter projetos sociais que cacionais, esportivos e de suprem a necessidade de formação profissional, com crianças e jovens de baixa ren- distantes da realidade, por não crianças e adolescentes, auxiliada. No entanto, tais números não existirem de fato ou por estarem ndo além da questão esportiva, refletem a realidade, quando se mal distribuídos. no aprimoramento cultural, debusca uma abordagem mais cétiO baixo incentivo do poder senvolvimento humano, inclusão

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a 17 anos, com uma equipe de 20 educadores, sendo 10 voluntários. A Coordenadora de Projetos Sociais da ONG, Flávia Alves, 33 anos, ressalta que “diversas questões aparecem, mas dentre elas a que sobressai é a financeira. Nosso problema refere-se aos poucos recursos”. Quando perguntada se há algum incentivo governamental que os auxilie a

ma Time FC, Real Solidário e doações pontuais. ” Os valores doados têm diminuído em tempos de crise econômica, “o terceiro setor sofreu um grande impacto, pois as empresas privadas têm parado de realizar doações mensalmente para a Instituição. Ainda assim, a Fundação Cafu mantém um relacionamento com essas em-

Foto: Victor Pontes

social e estimulando o raciocínio e a criatividade. Há também a preocupação com o entorno, através de acompanhamento psicológico e social, buscando integrar os familiares nessa rotina. Com o passar dos anos, as iniciativas adotadas passam por uma atualização, pois a demanda por conhecimento muda e os jovens começam a buscar uma

É i mp or tante qu e o e sp or te s e j a pr ati c ad o d es d e c e d o, p ar a qu e o j ovem aprend a o fu nd ament a l p ar a a c onv i vênc i a s o c i a l

independência pessoal e entender melhor as questões financeiras, algo que é pouco explorado por seus pais, mas é amplamente abordado em tais projetos. A forma com que os conceitos são aplicados varia, mas as dificuldades enfrentadas no processo se assemelham. A Fundação Cafu, que leva o nome de seu idealizador o ex-jogador de futebol e pentacampeão mundial, atende 730 crianças e jovens de 04

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manter o projeto localizado no Capão Redondo, a resposta foi negativa, o que evidencia a necessidade de um mantenedor ou um grupo de mantenedores. “Atualmente os recursos financeiros da Instituição são viabilizados pelo próprio fundador, o Sr. Marcos Evangelista de Morais [Cafu] e doações realizadas pelas parcerias com empresas privadas, além de contribuições de associados e de terceiros, através do progra-

presas mesmo que não esteja recebendo os recursos, além de criar novas estratégias que visam à arrecadação de fundos para que as crianças assistidas não sejam impactadas e fiquem sem atendimento”, explica Flávia. Idealizado pelo judoca e medalhista olímpico Flávio Canto, o Instituto Reação, que possui 52 colaboradores e atende 1.300 crianças a partir dos 04 anos de idade na favela da Rocinha,

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também passa por dificuldades Anjo e Ciclocidade. Fazer o que pelo alto custo em manter um Do instinto colaborativo, nasce o sei e o que gosto me incentiva a projeto que atende uma parcela voluntariado trabalhar de maneira voluntária considerável da população inpara as instituições, sempre com fantil, em uma das regiões com Com o aumento das despe- o intuito de ajudar as pessoas”, maior índice de criminalidade sas, da quantidade de crianças e destaca Aragonez. do Estado do Rio de Janeiro. jovens que dependem dos projeMotivado por sempre ter De acordo com a coordetos e a queda da contribuição, o praticado esportes na infânnadora de Comunicação Julia número de colaboradores remu- cia e por acompanhar diversas Rockenbach, 27 anos, as difinerados é reduzido, o que teori- modalidades esportivas, Felipe culdades são diversas, mas a camente reduziria a qualidade contribui da maneira que pode, questão financeira também é o do serviço prestado. No entanto, colocando em prática o seu dom maior empecilho. “Manter uma é neste cenário que surge a figu- como comunicador: “O meu organização do porte do Reação, ra dos voluntários, trazendo uma trabalho é focado em ajudar na que já tem uma estrutura de funluz para as instituições através da comunicação institucional da cionamento bem estabelecida, solidariedade. ONG. Não faço a parte operatem um custo alto, então estamos Exercendo funções diversas cional, como algum atendimento sempre correndo atrás. Temos que vão do auxílio aos educadores educacional ou médico. Tenho a vários tipos de parceiros, muitos até a divulgação de eventos, estes função de divulgar as ações da estão conosco há muitos anos, já profissionais não-remunerados Gol de Letra e também de reoutros vêm e vão. Além disso, na que em sua maioria são mora- alizar conexões com empresas e Escola de Judô temos crianças dores das comunidades, desem- o terceiro setor”. em situação de vulnerabilEngajado com as cauidade que exigem cuidados “São as carências sociais básicas sas sociais e preocupado especiais com psicóloga e em manter uma sociedade que faltam na periferia. Educação mais justa e em condição assistente social. ” Porém, ao contrário da de igualdade, ele concorda de qualidade, acompanhamenFundação Cafu, o Institucom a afirmação de que exto não depende do investi- to social e psicológico, ajuda no istem insuficiências graves mento do idealizador e sim para as crianças de baixa do auxílio de empresas e primeiro emprego, práticas de renda. “São as carências de algumas iniciativas govsociais básicas que faltam atividades esportivas e de lazer. ernamentais, “atualmente na periferia. Educação de o nosso Polo Rocinha está Sem essas ações e ofertas, muitos qualidade, acompanhainstalado no Complexo mento social e psicológico, Esportivo da Rocinha, em jovens acabam indo para o lado ajuda no primeiro empreespaço cedido pelo Govgo, práticas de atividades erno Estadual e Secretaria violento da sociedade. ” esportivas e de lazer. Sem de Esporte Lazer e Juvenessas ações e ofertas, muitude. Também temos apoio do penham um papel socialmente tos jovens acabam indo para o Governo Federal e Estadual por fundamental. Não se limitando a lado violento da sociedade”, armeio da Lei de Incentivo ao Esuma ou outra instituição, atuam gumenta. No entanto ele enxerporte, que permite que empresas em diversas frentes. O jornalista ga as ações como as suas e as de privadas e pessoas físicas repasFelipe Aragonez, 32 anos, que é diversas ONGs espalhadas pelos sem parte de seu imposto de voluntário da Fundação Gol de extremos das cidades, junto ao renda para o Reação”. Além disLetra há mais de 10 anos, par- incentivo maciço do poder púso, a ONG conta com canais de ticipa também de outros proje- blico, como fatores prepondercaptação para doações on-line tos. “Também sou voluntário de antes para uma reviravolta neste feitas por pessoas físicas. outras instituições como Bike cenário.

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Arte: Vitor Azevedo

CULTURA

C ap as d e tr a di ci onais heróis d o s qu adr in ho s

O herói de ontem já não é o mesmo Com o lançamento do filme do Homem de Ferro em 2008, a cultura de super-heróis vem crescendo de forma expressiva no Brasil Por Vitor Azevedo “Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”. “Eu sou a vingança, eu sou a noite! ”. “Você é o último filho de Krypton!”. Essas são frases que todo grande fã de quadrinhos de super-heróis conhece e que permanecem vivas até hoje. São memórias daqueles que acompanharam grandes fas-

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es, sagas, momentos de altos e baixos dos super-heróis, como se fossem os amigos mais íntimos desses personagens fictícios. Porém, existe uma pergunta um tanto quanto intrigante que vai diretamente para os fãs da atualidade: “A quem pertencem essas frases?”. Os “novos leitores” sabem que quem proferiu a famosa frase “Com grandes poderes,

vem grandes responsabilidades” foi ninguém menos que Ben Parker, o famoso tio do Homem-Aranha? Sabem que o último filho de Krypton é o Super-Homem? Fã Raiz X Fã Nutella Utilizando memes para exemplificar bem o que acontece, temos de um lado o fã raiz,

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aquele que vai à banca comprar o jornalista, editor fanzineiro compram e leem as histórias o quadrinho, que espera ansi- e pesquisador de histórias em em quadrinhos. Porém, exosamente uma nova edição, que quadrinhos, Worney Almeida istem outras que sempre leram não se importa em gastar aprox- de Souza. as HQ’s e vão sempre continuar, imados R$40,00 por uma revisA popularidade dos film- mas é claro, que também adota de 45 páginas. Afinal, ele não es, a facilidade colocada pela ram ver as adaptações, tanto quer ler online, ele precisa tocar internet e os produtos que são pra TV como para o cinema”, na revista, sentir o cheiro do pa- vendidos aos montes pelas lojas declara Ferreira. pel e sentir uma forte emoção a de departamento permitiram cada página lida. que as pessoas que não conhe- Como era antes Do outro lado temos o fã ciam os super-heróis entendesnutella, que prefere ir ao cine- sem esse gigantesco universo Os super-heróis sempre foma, assistir às animações e aos que abrange gêneros, histórias, ram destinados ao público inseriados, que muitas vezes fantil. Além de divertir acredita fielmente na história “Concretamente temos dois pú- os pequeninos com suas que está sendo retratada pela histórias de luta do bem blicos de consumidores distintos: sétima arte, a ponto de discontra o mal, inspiravam cordar de tudo que um apreas crianças com seus atos os que consomem os personaciador raiz coloca em um de bondade e altruísmo. bate-papo. Entretanto, essas gens dos quadrinhos nas mídias Esse tipo de admirador histórias passaram a catipode até ler as HQ’s, mas ele eletrônicas, que são menos fiéis var outros públicos, como prefere ler de forma online, adolescentes e adultos, afinal, é gratuito e não é pre- e se interessam pelo tema mais que começaram a ver esse ciso sair de casa, bastam alno momento dos lançamentos de universo como algo inguns clicks e a aventura está teressante e legal. Dessa ali disponível, pronta para filmes e seriados, e o público que forma, os públicos das ser lida. histórias de super-herois Olhando para esses dois já consumia quadrinhos.” aumentou, atingido critipos de fãs, percebemos que anças, jovens e adultos. algo mudou desde a época em classes e etnias de diversos tiEssa paixão criou um púque os quadrinhos começaram pos. blico-alvo e passou a ser dia se tornar algo devidamente Caio Ferreira, do canal Es- recionado a pessoas que eram apreciado na sociedade. paço Nerd, observa, que inde- leitoras fiéis das histórias de “Concretamente temos dois pendentemente de ler os quad- super-heróis, os famosos Nerds. públicos de consumidores dis- rinhos ou ver os filmes, os fãs Sabe aqueles garotos que geraltintos: os que consomem os acabaram buscando as duas for- mente vemos nos seriados, que personagens dos quadrinhos mas para conhecerem os heróis. vestem uma camisa xadrez, por nas mídias eletrônicas, que “Acredito que existam pes- dentro da calça, com óculos são menos fiéis e se interessam soas que têm o primeiro contato fundo de garrafa e que são conpelo tema mais no momento com os super-heróis nos film- hecidos por estudar exaustivados lançamentos de filmes e se- es ou nas animações, e acabam mente? Então, esse era o famoso riados, e o público que já con- querendo conhecer melhor e se apreciador de HQ’s. sumia quadrinhos. Esse se man- aprofundar nas histórias daqueAcontece que ser Nerd nem tém estável e pequeno”, afirma las personagens. Por isso, elas era algo tão legal assim. Prin-

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do acordou, e os super-heróis possuíam mais fãs do que eles mesmo podiam imaginar. “Acho que este universo de super-heróis ficou mais popular dos anos 2000 para cá, com o aumento do número de adaptações cinematográficas de quadrinhos, os filmes de super-heróis”, diz Fabricio. Em 2008, os Estudios Marvel criaram um universo com-

crescer”, complementa Caio. De uma hora para outra, pessoas que até então jamais haviam demonstrado interesse nesses personagens, estavam usando camisetas, comprando action figures, assistindo incansavelmente aos filmes, querendo mais e mais dessa cultura. Aquilo que um dia foi alvo de chacota e bullying, alcançou um panorama surpreendente,

Essa paixão criou um público-alvo e passou a ser direcionado a pessoas que eram leitoras fiéis das histórias de super-heróis, os famosos Nerds. ser nerd não era mais algo ruim, todo mundo queria estar com uma camiseta do Homem de Ferro ou do Capitão América. “O negócio de super-heróis se tornou algo tão grande que acabou virando “moda”. Tem pessoas que são atraídas pela moda, porque tem bastante gente que gosta e elas ficam curiosas e acabam consumindo também. Mas também existem pessoas que já gostavam antes, e com o aumento de visibilidade sobre o assunto, acabou se apaixonando mais ainda”, comenta Apollo. Worney diz que não existe uma moda propriamente dita. O que acontece, segundo ele, é que os produtos originados

nos quadrinhos interessam a um público maior em períodos de lançamento. “O público em geral consome o lançamento e depois passa para o seguinte, que pode ser um filme de ação, suspense ou outro assunto que a indústria do entretenimento produz cotidianamente”, afirma. Olhando todo esse cenário, podemos dizer que no século XXI, os super-heróis estão agradando a uma boa parcela da sociedade, não importando se for pelas HQ’s ou pelos filmes. Os fãs mais antigos ainda preferem comprar seus quadrinhos, ver os filmes e séries, ter toda a fonte possível de seus personagens favoritos. Já os fãs da modernidade preferem ir ao cinema, ter acesso aos heróis de uma forma mais simples; Pra que ler 300 histórias, se é possível entender o personagem somente vendo o filme, não é mesmo? Porém, esse panorama não atrapalha nenhum dos lados, afinal, para a indústria dos quadrinhos, o importante é que as pessoas continuem a consumir

e consumir, dessa forma os super-heróis não morrerão. “Enquanto mais e mais adaptações estiverem na mídia, seja em filmes, séries, desenhos ou games, a tendência é que mais pessoas venham a conhecer os quadrinhos”, afirma Fabricio. Fernado Bedin possui uma perspectiva diferente do assunto. “Com a venda de quadrinhos através de megastores, aqui no Brasil, as vendas aumentaram um bocado e isso deva permanecer por um bom tempo. Porém, acredito que, num dado momento, somente os fãs mais assíduos devem consumir quadrinhos, a não ser que as editoras criem algo que quebre essa expectativa”. Somente o tempo dirá o que irá acontecer com a cultura dos super-heróis. No momento, cabe aos fãs continuarem a curtir, compartilhar e comentar sobre seus personagens mais queridos. Como já dizia o Homem-Aranha: “Às vezes a vida é um saco, mas sempre vale a pena viver!“.

Foto: Fernando Bedin

não atingiu somente as crianças ou os adolescentes, mas adultos, homens e mulheres. Foi aí que a situação mudou, os filmes já não estavam mais sendo consumidos pelo público infanto-juvenil ou os nerds, mas por todas as pessoas, não importava idade ou gênero. “Jamais imaginei que teríamos tantos lançamentos de filmes. Isso é muito legal, ver os personagens que acompanhamos nos quadrinhos há anos, e que transmitem tantas mensagens legais, ganharem cada vez mais destaque e alcançarem um público diferente”, destaca Fabricio. Caio também comenta sobre as adaptações dos super-heróis para Caio Ferreira gravando um novo vídeo para seu canal no Youtube, Espaço Nerd o cinema, e a conquista Parece que o jogo virou, não é partilhado, que foi responsável do grande público. por introduzir heróis, que até mesmo? “Quando foi lançado o filme então nunca haviam interagido do Homem Aranha, aqueO mundo muda, a vida entre si no cinema, criando bil- le primeiro com o ator Tobey muda, as tendências mudam, e heterias extremamente ricas e Maguire, começou a cair a fitudo aquilo que um dia foi alvo de sucesso, como foi o caso do cha das pessoas que os heróis de zuera, um dia pode se tor- filme “Os Vingadores”, dirigido que a gente assistia tanto nos nar “cool” e descolado. “Com o por Joss Whedon. desenhos e via nos quadrin“Com certeza houve um hos estavam sendo adaptados apoio de outras mídias, como séries de TV, desenhos anima- “boom” quando a Marvel re- no cinema. O universo dos sudos, cinema e games, a cultura solveu lançar o seu universo per-heróis foi expandindo cada de super-heróis cresceu”, declara compartilhado nos cinemas! vez mais no cinema e o povo foi Fernando Bedin, do Canal Cen- Tudo começou com o Homem ficando cada vez mais ansioso e de Ferro em 2008 e, desde então, feliz por ter tantos personagens tral HQS. Com o avanço das midias tel- a galera passou a acompanhar sendo adaptados para as telas”, evisivas, as coisas mudaram para de pertinho esse mundo mara- ressalta Caio. os super-heróis, entretanto, não vilhoso”, comenta Apollo HuntCaio ainda lembra que hoje foi de uma forma sútil, foi de er, criador do Canal SuperHero. os super-heróis também têm O estrondoso sucesso das destaque nos jogos e nos deum forma repentina, sem nincinematográficas senhos. “Essa cultura só tende a guém perceber. Um dia o mun- produções Foto: Caio Ferreira

cipalmente na adolescência, a pessoa que seguisse essas características, não era muito aceita, sofria o famoso bullying, ou seja, não era muito legal ser visto com uma HQ em baixo do braço, você era alvo de chacota. Estar lendo um quadrinho do Homem-Aranha, do Batman ou do Superman era, muitas vezes, motivo justo para aquela boa surra de valentão de escola. “O preconceito sobre os leitores de quadrinhos é um dado cultural e social muito enraizado. O problema é que a academia (escolas e faculdades) e a mídia ainda detêm esse preconceito e reproduzem o assunto por falta de informação”, declara Worney.

Fe r n a n d o B e d i n f a l a n d o s o br e o qu a d r i n h o Mo b y D i c k

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CRÍTICA

ARTIGO

Thor: Ragnarok

A nova extensão do corpo humano

O filme que quebrou a maldição do número 3

Existe uma teoria um tanto quanto famosa no mundo do cinema, que diz que todo o terceiro filme de uma franquia consegue ser o pior que seus antecessores. Mas ao que parece Thor: Ragnarok quebrou qualquer paradigma dessa teoria, na verdade, foi o filme que salvou a franquia do Deus Nórdico do Trovão no Universo Cinematográfico Marvel, e qual é o número? Três. O título apontava que esse seria mais um longa sobre o Deus do Trovão com um tom sombrio e dramas intermináveis, afinal, o Ragnarok é destruição de Asgard e dos Deuses Nórdicos, porém, o diretor Taika Waititi fez o caminho inverso proposto pelo título. Diferente dos antecessores (Thor e Thor: O Mundo Sombrio), Waititi traz um ar mais cômico para uma produção que representa o apocalipse dos Deuses, uma parte disso, culpa da famigerada “Formula Marvel”. Além disso, o esquema de cores vibrantes deu ao filme um tom mais divertido e mais caloroso, quebrando todo aquele clima mórbido e pesado retrato nos outros filmes do personagem. A criatividade do diretor neozelandês, unida ao estilo

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de produção da Marvel permitiu que o filme tivesse cenas de lutas icônicas, com direito a efeitos especiais muito bem trabalhados e perfeitamente alinhados. Vemos em “Ragnarok” uma evolução promissora para o personagem, foi-se o tempo em que Thor era apenas um personagem robótico e totalmente dependente de seu martelo, Mjölnir. Se antes, ele apenas detinha o título de “Deus do Trovão”, agora, de fato, Thor Odinson é o Deus do Trovão, e que possivelmente, entrará para o panteão dos personagens mais queridos dos Marvel Boys. Chris Hesmworth, ator responsável por dar vida a Thor, deu uma bela repaginada no estilo de seu personagem, Hesmworth está mais seguro com seu trabalho, agora todos os seus gestos parecem mais naturais possíveis, saindo daquela atuação mecânica. Suas expressões estão mais impostas em sua face, o ator se permiti até improvisar quando necessário. De fato, este é o primeiro filme do personagem, onde o ator mata a bola no peito e faz o gol sozinho. Porém, o jeitinho Marvel já está ficando manjado, o que anda deixando filme um pouco exaustivo. Mesmo com o lado positivo de agregar um

Por Vitor Azevedo tom mais leve para o filme, Thor: Raganarok coloca piadas em muitos momentos que não eram tão necessários, além de algumas serem extremamente forçada. Mesmo com inigualável atuação de Kate Blanchet, sua personagem Hela, será uma vilã lembrada por sua imponência, não por suas cenas lutas. A deusa foi subestimada, não tendo cenas icônicas, mesmo que sua luta contra Thor seja de brilhar os olhos, mas isso não é por conta dela. Thor: Ragnarok pode não ter sido o filme que trouxe o apocalipse dos Deuses nórdicos da forma que os fãs esperaram, mas foi o filme mais bem trabalhado do personagem até o momento. Todo o estilo irreverente do diretor Taika Waititi, deram ao Deus do trovão um novo parâmetro que pode ser muito bem explorado nos próximos filmes compartilhados desse gigantesco Universo. Para ser sincero, ver Thor: Ragnarok me deu uma esperança para o personagem, o que me faz crer que até o filme mais medíocre ainda pode ter salvação com cenas bem trabalhadas, um belo jogo de luz e com evolução de personagem. Afinal, foi dessa forma que a trilogia Thor foi salva.

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Estudos apontam que mais da metade da população usa internet diariamente Por Bruna dos Santos

É impossível não estarmos conectados nos dias atuais. Em muitos lugares temos acesso a redes Wi-fi, notebooks, tablets, celulares. A população tem se alimentando de informação a todo momento. A dificuldade no mundo hoje é estar desconetado, não acessar redes sociais, ficando, assim, fora do mapa. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), a quantidade de internautas chegou a 54,4% das pessoas em 2014. São 95,4 milhões de brasileiros com internet. Essa inclusão digital foi promovida pelo uso do celular como aparelho de maior preferência para navegar, de acordo com os dados, a cada cinco casas, quatro usam telefone móvel para se conectar. A cada momento nos deparamos com os novos conceitos que vêm surgindo e com a velocidade que estão ocorrendo e afetando o dia a dia e nossos meios sociais. A internet pode ser uma grande fonte de aprendizagem e socialização, a tecnologia deve ser utilizada para o crescimento das pessoas, e, em alguns casos, as pessoas crescem dependendo da tecnologia. Dessa forma, é necessário

ponderar sobre a forma que a tecnologia vem modificando a maneira das pessoas interagirem com as outras, mesmo que a ferramenta nos ofereça uma variedade de benefícios, como a praticidade e o entretenimento, ela pode distanciar as pessoas da realidade. Muitas informações não podem ser confiáveis, principalmente para as crianças que tendem a acreditar que “se está na internet, é verdade”. Muitas vezes a internet não tem certos meios de proteção. Ensinar as crianças a usar a internet é uma das coisas que deve ser feita, principalmente para elas aprenderem desde cedo a usar vários recursos de informação, verificar, questionar e confirmar o que encontram online. Mesmo com essas desvantagens e a maneira como as pessoas agem com a tecnologia em geral, tem várias formas de usá-la, como, por exemplo, melhorar a segurança, alimentação e muito mais, apenas sabendo como e de qual forma poderia melhorar situações simples do dia-a-dia de nosso país. De acordo com o Bloomberg, a tecnologia responde por 43% da alta de ações emergen-

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tes em 2017. Afinal, existem muitas áreas em que a tecnologia pode melhorar a eficiência e diminuir perdas e desperdícios. É estimado que cerca de 60% dos voos nos principais aeroportos do Brasil operem com atraso, certamente tecnologias mais avançadas poderão melhorar significativamente esse índice. Aproximadamente 40% da produção de grãos são desperdiçadas em razão de colheita, manuseio e transporte. Com o uso da tecnologia mais apurada e apropriada, essas perdas seriam diminuídas, elevando os ganhos para a economia, e reduzindo os custos de produção e preços. Existem perdas significativas de energia elétrica e de água, com a utilização da tecnologia que inibe esses tipos de delitos, poderia diminuir bem o preço desses serviços cobrados da população, por exemplo. vas descobertas da área de tecnologia são sempre esperança em facilitar as coisas, de baratear a produção de produtos e serviços, de se alcançar a cura ou ajudar no tratamento de várias doenças, enfim, das novas tecnologias são sempre esperadas coisas boas e melhor bem-estar para as pessoas.

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Foto: Adriano Oliveira

TECNOLOGIA este currículo e apenas 25 anos de idade, é cada vez mais reconhecida por sua luta pela inclusão das mulheres na tecnologia. É a primeira latino-americana a ganhar o Women of Vision,

além de ter seu nome incluso na lista das 24 mulheres que estão mudando o mundo na revista Marie Claire. Nesta entrevista Camila Achutti fala sobre a computação

na educação, seus projetos em desenvolvimento, suas inspirações e dificuldades que enfrenta para trazer a equidade de gênero na tecnologia.

Temas Contemporâneos: Sendo uma referência quando se fala em mulheres na tecnologia, você ainda sente essa pressão em provar que você merece estar nesta área? Camila Achutti: Sempre! Isso é algo que nós mulheres aprendemos a conviver. Enquanto o estereótipo da área não mudar, vamos todas, independente de posição e senioridade, ter que enfrentar. Por vezes isso é velado e até negado por algumas mulheres, mas que a sociedade as pressiona, não tem como negar!

TC: A universidade te ajudou de alguma forma a abrir a mente em relação ao despertar para esta realidade de desproporção de gênero na tecnologia? Camila: Super! Ter a convivência na Cidade Universitária [na Universidade de São Paulo] fez toda diferença na minha vida. Poder estar a poucos passos de áreas de conhecimento tão distintas e conhecer tantas pessoas me fez ver um milhão de possibilidades. Mas isso aconteceu pois partiu de mim, não percebo esse incentivo vindo das instituições.

TC: Além da sua luta pela inclusão das mulheres, você se preocupa com a expansão da tecnologia no Brasil, que inclui todos os gêneros. Como andam seus projetos em torno disso? Camila: No Mastertech e no Mulheres na Computação me preocupo em espalhar conhecimento e tentar sair do eixo Rio - São Paulo. Nosso projeto mais bem-sucedido é o Aprenda a Programar em um Fim de Semana, que já viajou uma série de cidades e vai continuar andando por aí! Temos muitas iniciativas Foto: Adriano Oliveira

C ami l a Achutti é referên ci a p ar a mu l heres n o s e tor

Uma mulher na tecnologia Lutando pela igualdade de oportunidades, Camila Achutti é referência para meninas que sonham em ter seu espaço na tecnologia Por Adriano Oliveira Quando era criança, Camila Achutti sonhava em trabalhar na NASA. Por influência do pai – programador de software – cresceu no meio da tecnologia e se interessou pela área. Sua vida começou a mudar após perceber que era a única menina da sala na faculdade de Ciência da Computação. Ao pesquisar sobre mulheres na tecnologia, percebeu que o assunto não tinha sido explorado no Brasil. Foi então

que criou o blog Mulheres na Computação, que aborda a desproporção de gênero na área da tecnologia. O blog ganhou força com a identificação de milhares de meninas que passaram pela mesma situação que Camila. Seu sonho de ir para a NASA terminou após estagiar na Google Califórnia. Ao voltar para o Brasil, mudou sua linha de pesquisa no mestrado, que tinha o foco específico em assuntos de interesse da agência espacial americana e passou a

se dedicar a assuntos relacionados à educação. Foi quando criou um projeto para ensinar crianças do ensino médio a programar. De lá para cá ajudou a trazer um desafio de empreendedorismo e tecnologia voltado para o gênero feminino, o Technovation Challenge Brasil, do qual é embaixadora. Fundou uma consultoria de inovação e tecnologia chamada Ponte 21, sendo também influenciadora digital na faculdade de tecnologia FIAP. Com todo Su a lut a inc lui te c nol o g i a p ar a c r i anç a s

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Foto: Adriano Oliveira

BATE-PAPO

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Camila na sacada do seu escritório, em São Paulo

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“Me preocupa um pouco o Brasil ainda estar falando em transformação digital! Já era para esse processo ter rolado!” conteúdo básico de educação? Camila: Temos que estar preparados hoje! Não dá mais tempo! Me preocupa um pouco o Brasil ainda estar falando em transformação digital. Já era para esse processo ter rolado! Não podemos mais esperar! Se esperarmos todas as variáveis alinharem, nunca vamos nos considerar prontos. TC: Em uma entrevista ao Papo de homem, você fala da dificuldade de convencer as pessoas da necessidade de incluir as mulheres na tecnologia e cita governos e empresas. Qual a forma você tem procurado convencer o Estado sobre inclusão de mulheres nesta área? Camila: Eu por vezes uso argumentos matemáticos. Se seguirmos excluindo metade do planeta - as mulheres, não vamos conseguir sustentar a velocidade de inovação que desejamos e precisamos. TC: Diante da realidade atual

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do país, de que forma o Estado pode trabalhar para que haja maior interesse das meninas pela tecnologia, ainda na infância? Camila:Trabalhar programação na escola é uma ótima [forma], pois já nivela as possibilidades de ao menos ter contato com a área. TC: Como os pais podem contribuir para incentivar suas filhas a se interessarem por tecnologia? Camila: Não dicotomizar toda a discussão de gênero já é um ótimo avanço. Não falar em carreira de menina e menino ajuda bem. E para os mais proativos tem mil cursos como o Code.org [site que ensina crianças a programarem utilizando personagens conhecidos] do Frozen [filme infantil], que está na boca das meninas e pode servir como porta de entrada na área para elas. TC: O ramo de tecnologia gera muito dinheiro e as mulheres hoje estão cada vez mais emancipadas. Você acredita que esta questão financeira pode ser um bom incentivo para que as meninas se interessem por esta área? Camila: Sim e não. Gosto do livro O Sexo Mais Rico da Liza Mundy. Ela fala sobre como escolhemos nossa carreira e por mais que a gente tente, ainda não é uma escolha baseada em finanças, e sim em propósito. Meu chute é que não ajudaria, mesmo porque ainda temos um ranço da mulher que é rica e bem-sucedida. TC: Qual o peso que você sente hoje estando à frente de um projeto ambicioso e complicado, como o de buscar a diversidade de gênero na tecnologia? Camila: Muita gente me cobra

uma diversidade que hoje está sendo construída, mas ainda é quase impossível dada a entrada de profissionais que hoje estão disponíveis. Então me sinto bastante pressionada e me preocupo todos os dias em aumentar o volume de profissionais de tecnologia do gênero feminino, para que posteriormente seja possível colher os frutos. TC: Na sua opinião, as formas de machismo no meio tecnológico de hoje diminuíram ou só mudaram de forma? Camila: Entendo que tivemos uma mudança qualitativa, hoje pelo menos conseguimos recon-

Foto: Adriano Oliveira

no online que também possibilidade uma forte expansão geográfica. TC: Em quanto tempo você acredita que o Brasil vai estar preparado para se popularizar o ensino da programação como

“O sistema educacional tradicional e os estereótipos sociais são as

maiores

dificul-

dades para a equidade de gênero.” hecer essas dissonâncias, mas ainda não conseguimos colher os frutos quantitativos, pois isso exige ainda mais discussão e trabalho duro para mudança cultural. TC: Quais mulheres te influenciam hoje e te inspiram a continuar com este projeto de equidade de gênero na tecnologia? Camila: Amo o Think Olga, Rede Mulher Empreendedora, Finanças Femininas, Programaria e tantos outros. TC: Quais suas maiores referências no empreendedorismo? Camila: Mundialmente admiro

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C om 25 anos , é empre s ar i a no r amo te c nol ó g i c o

muito a Arianna Huffington. TC: Quais as maiores dificuldades que você enfrenta hoje em abrir portas para as mulheres na tecnologia? Camila: Hoje nossas dificuldades são de inserção e ascensão. Precisamos entender como vamos apresentar as oportunidades de tecnologia da maneira igualitária para ambos os gêneros e para isso temos uma grande barreira que, é o sistema educacional tradicional e os estereótipos sociais do que são carreiras de meninas e meninos. Além disso temos desafios de ascensão dessas mulheres para posições de liderança. TC: Você acredita que um sistema de cotas para mulheres na tecnologia seria interessante ou

não há muito sentido neste tipo do programa para esse caso específico? Camila: Acredito em cotas para uma mudança drástica e como

“Muita gente me cobra uma gênero

diversidade que

ainda

de é

quase impossível pela quantidade de mulheres disponíveis hoje.” política transitória. Entendo que se nada de diferente for feito, não vamos conseguir avançar. TC: Você já disse que quer contar as histórias de grandes mul-

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heres que foram importantes para a história da tecnologia e não são conhecidas. Como você pretende fazer isso? Citando-as em palestras, como costuma fazer, no seu blog apenas ou pretende escrever um livro sobre este assunto? Camila: Escrevo sobre elas no blog e falo delas nas palestras. É sempre incrível! TC: Você já pensou em escrever um livro sobre sua trajetória? Camila: Sim e não! Ainda não sinto que tenho muitas respostas, fiz algumas perguntas certas, mas não me sinto preparada ainda para escrever um livro, ainda mais pautado na minha trajetória. Não cheguei nem perto que quero realizar! (Risos)

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Foto: Adriano Oliveira

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Mesmo jovem, Camila acumula prêmios por sua luta em equidade de gênero


Foto: João Aguiar

A última dose Pessoas que enfrentam todos os dias o alcoolismo contam suas histórias, lutas e superações para vencer a doença

Antônio da Cruz, tenho 57 anos, sou autor do site alcoolismo. com.br”.

E m cim a d a m e s a , o mai or v i l ã o

cima fica a igreja, na parte de baixo um salão, onde acontecem os eventos da associação. Os principais são as reuniões, e foi para assistir a um desses encontros que eu estava lá. Queria adentrar e conhecer de forma mais profunda esse mundo do alcoolismo. Para tal, precisava ouvir histórias de quem passou por isso, não havia lugar melhor. Mas antes da reunião é importante voltarmos dois dias no tempo. O dia que conheci pessoalmente Luiz Antônio.

O primeiro gole “Meu nome é Luiz Antônio da Cruz, tenho 57 anos, sou autor do site alcoolismo.com. br”. Foi assim que o primeiro personagem dessa reportagem se apresentou. Luiz é um ex-alcoólatra, e hoje é dono do maior portal sobre alcoolismo da América Latina, que existe desde 1995, quando a internet estava no seu início no Brasil. A data também responde como ele conseguiu criar um site com

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não aceitou nenhuma proposta. Segundo Mario Sergio Sobrinho, membro do Ministério Público do Estado de São Paulo, diretor de Alcoólicos Anônimos (A.A.) do Brasil e especialista em dependência química, o termo alcoolismo significa: “Abuso de bebida alcoólica por pessoa que, reiteradamente ou não, não tem limite para parar de beber, gerando prejuízo em um ou em vários campos da vida (família, escola, trabalho, relacionamento sentimental, concentração e desempenho das atividades comuns etc.).” Foi muito cedo que Luiz começou a conviver com essa doença. “Eu comecei a beber aos 14 anos de idade. Geralmente quando você entra nesse meio de álcool e outras drogas é pra você mostrar que quer se enturmar”, conta. Em artigo escrito por Flavio Pechansky, diretor do

Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas, sediado no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, ele relata que o álcool tem sido consumido por jovens com idade cada vez menor, o que aumenta o risco de dependência futura da substância. Isso acontece, porque é na adolescência que o ser humano forma sua identidade e desenvolve grande parte dos seus hábitos. “A falsa ideia do bem-estar gerado pelo álcool é acompanhada de uma espécie de poder ou glamour”, destaca o doutor Mario Sergio. O maior consumo de álcool na juventude também é acompanhado da reduzida reflexão, por alguns jovens, dos riscos que o álcool em excesso pode causar. “Ingerir cinco doses de álcool em curto espaço de tempo caracteriza a bebida em excesso para homens. Para as

mulheres, quatro doses de álcool podem caracterizar o beber em excesso, também conhecido pela expressão em inglês binge drinking”, explica o médico. Sem dúvida, você que lê esse texto já deve ter ouvido a singela frase: “tudo que é demais faz mal” ou “tudo que é exagerado não é saudável”. Não sei se realmente essa afirmação pode se aplicar a tudo, mas, quando falamos do álcool, ela se encaixa perfeitamente. Quando algum sentimento, algum pensamento, ou a realização de alguma atividade se torna excessiva e exagerada, normalmente as consequências são ruins. E o maior problema é que raramente ela afeta apenas o próprio indivíduo, todas as pessoas à sua volta se tornam vítimas da situação. “Teve uma certa vez que eu estava com meu padrasto na Foto: Reprodução / Youtube

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o nome alcoolismo. Eu, inclusive, brinquei dizendo que muitas pessoas já deviam ter tentado colocar esse nome nos seus sites, mas não conseguiram. De forma descontraída, ele me revelou que já ofereceram uma grana para ele vender o nome, mas ele

“Meu nome é Luiz

Por João Aguiar Não lembro a hora exata, mas já estava escuro quando encontrei com Luiz Antônio em frente a sua casa. Ele mora em uma rua muito tranquila, aparentemente até um pouco perigosa, por isso dei passos largos e rápidos. Quando cheguei ao seu portão, que fica no lado de um mercadinho, toquei a campainha e ele rapidamente desceu as escadas e apertou minha mão. “Vamos?”, disse. Estávamos indo para um dos núcleos da Associação Antialcoólica do Estado de São Paulo. Fomos conversando sobre a vida, principalmente a dele, claro. Luiz Antônio me falou sobre como funcionavam as reuniões, como a associação foi importante na sua recuperação. Falamos de uma entrevista que ele deu ao programa do Pedro Bial sobre alcoolismo. Curiosidades desse repórter que ele foi “matando” de forma muito gentil. Quando chegamos ao destino, descemos uma rampa. Em

SAÚDE E BEM-ESTAR

Luiz Antôni o d a C r uz , d ono d o site a l c o olismo.c om.br

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Foto: João Aguiar

rua. Quando dei por mim eu estava com uma faca na mão pra matar ele. Eu parei e pensei: cara o que aconteceu? Eu estava com o efeito do álcool, tem certo momentos que você tem aquela escuridão devido ao álcool, você fica fora de si”, conta Luiz. Em 2016 o portal da BBC no Brasil publicou uma matéria sobre homicídios cometidos por homens no mundo. Nela foi incluído um dado da UNODOC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime) que mostra que “o consumo de álcool e drogas ilícitas aumenta o risco de cometer um homicídio. Em alguns países, mais da metade dos homicidas atuaram sob influência de álcool”. Melhor pedir a conta No início dessa reportagem eu falei sobre um detalhe que pode passar despercebido, e confesso que passou por mim,

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Muitas pessoas destacam e aprovam o “bebedor social”, mas humilham e reprovam

do ele foi para cima do homem e deu uma rasteira nele, em uma comemoração que ocorria no bar. Depois disso, pegou um capacete e tentou agredir a esposa. A virada na vida desse homem, que hoje, plenamente sóbrio, lembrava diante de mim todos esses percalços, veio quando ele menos esperava. “Eu estava andando de moto, completamente alcoolizado, no bairro da Ponte Pequena. De repente passou uma viatura e os policiais perceberam minha situação e mandaram eu parar. Eu falei a verdade para o policial, falei que tinha problemas com álcool, que eu tinha me separado da minha esposa, mas pedi para não levar a minha moto, pois eu precisava dela para começar a trabalhar”. Luiz foi levado para delegacia, lá uma mulher sentou ao seu lado, se apresentou como assistente social da polícia civil. “Essa foi a minha salvação! ”, lembra emocionado. Ele foi para casa, e o irmão e a mãe o convenceram a visitar a Associação Antialcoólica do Estado de São Paulo. Foi a reviravolta decisiva da sua vida.

o “alcoólatra”

Hora de virar a mesa

com a dona do bar. “Ela sendo dona do bar, tinha que dar atenção para os clientes, e eu comecei a ficar com ciúmes de um dos clientes. O alcoólatra tem essa mania de achar que a mulher está traindo, é paranoia de alcoólatra mesmo”, conta Luiz. O ápice do ciúme foi quan-

Quando eu e Luiz descemos a rampa daquela igreja, logo de cara avistamos três senhores de braços cruzados conversando. Luiz que frequenta o local há muito tempo, logo os cumprimentou e me apresentou para eles. Eu me apresentei e falei o motivo da minha visita. Que-

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ria conversar com alguns deles, participar da reunião, descobrir o que ocorre naquele local capaz de transformar vidas como a do Luiz. É fato que nem sempre o jornalista é bem-vindo nos lugares, e nem sempre lhe abrem as portas, mas lá foi diferente. Todos se mostraram favoráveis a minha visita e a fim de colaborar (acredite o repórter em questão não está fazendo nenhuma média). Logo entrei no salão que estava cheio de cadeiras e pronto para a realização da reunião, levaram-me para a primeira fileira, onde estava sentado um senhor alto, cabelo preto, de óculos e extremamente simpático. Era Milton da Silva Gonçalves, mais um personagem vítima do alcoolismo. Apresentei-me para Milton e expliquei porque estava ali. Perguntei se poderíamos conversar um pouco e se ele me daria permissão para fazer algumas perguntas. Sem nenhum tipo de questionamento, ele aceitou. Fomos até a mesa principal, onde ele comandaria a reunião aquela noite, para fugirmos do barulho e bater um papo com maior tranquilidade. “Eu completei dia 27 de julho, 67 anos de vida, sou casado tenho, 2 filhos”, assim Milton começou a nossa conversa. Milton desde o começo decidiu deixar claro que era uma pessoa humilde, tinha uma história de vida simples. Para mim é uma história gigante, de desafios, tropeços, decisões equivocadas,

mas de muita superação. O primeiro contato com o álcool aconteceu aos 17 anos. Participava das festas que ocorriam no clube de futebol do bairro, onde ele inclusive jogava, e, influenciado por amigos, tomava um gole ou outro de vez em quando. “Eu comecei com o álcool, mas depois de certo tempo comecei a fumar maconha, usar psicotrópico, ingerir Optalidon [medicamento utilizado para tratamento contra dores]. Comecei a andar com más influên- Milton conduz a reunião da AAESP naquela noite do inferno ao céu”, diz. Milton cias”, lembra. Dr. Mario Sergio falou so- está limpo há 37 anos. Cortou bre o status que as pessoas que relações com o álcool. Enquancomeçam a beber recebem. Esse to eu ainda estava conversando início na maior parte das vezes com Milton, não mais como ocorre por influências de ami- repórter e entrevistado, mas sim gos. “Parte da nossa sociedade como amigos que se encontram ainda age com hipocrisia nesse e passam a perguntar curiosiponto, porque muitas pessoas dades um sobre a vida do outro, destacam e aprovam o “bebedor se aproximou um senhor, moresocial”, mas humilham e repro- no, de estatura mediana, magro. vam o “alcoólatra””, destaca o Tinha os mesmos 67 anos do Milton, a mesma humildade, a médico. “Eu fiquei durante 5 dias em mesma batalha diária, os mesum local com quatro amigos be- mos problemas com o álcool, a bendo. No dia 17 de agosto de mesma vontade de vencer e de superar essa doença. Ele estava ali para conversar O primeiro contato comigo. Primeiramente cumpricom o álcool aconteceu mentei, pedi para que sentasse a minha frente, no lugar que aos 17 anos. estava sendo ocupado por Mil1980, um domingo, eu cheguei ton. Falei que gostaria de saber em casa e uma namorada que eu um pouco sobre a sua história e tinha na época me chamou para como a bebida afetou a sua vida. conhecer a Associação. Eu fui Manoel Messias Felix sentou e

Ciência, cultura e histórias de vida

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Foto: João Aguiar

Manoel narra sua história durante a reunião da AAESP

assim que cheguei pela primeira vez na casa do Luiz. O mercadinho que fica ao lado da sua casa pareceu ser mais um entre tantos, mas ele tem um significado especial para aquele homem que topou contar suas histórias para mim. O estabelecimento é um divisor de águas significativo na vida dele. “Quando eu vim morar no Caxingui [zona oeste de São Paulo] aqui na esquina tinha um bar. Logo eu comecei a realizar minhas atividades. Foi passando o tempo, e eu virei cliente. Depois de uns 5 ou 6 anos eu conheci mais profundamente a dona do bar, a Léia, minha atual esposa”, conta. Léia foi conhecendo Luiz cada vez mais, descobriu, inclusive, que por diversas vezes ele saia do bar e ia trabalhar bêbado. Apesar de tudo, eles tiveram um caso. Ele acabou ficando


começou a narrar um pouco da sua história de vida. “Foram mais de 40 anos em que o alcoolismo me atropelou. Comecei com 14 anos e nunca pensei que lá na frente me tornaria um bêbado. Um engano”, afirma. A falta de controle sobre substâncias químicas, é uma onda enorme, como se fosse um tsunami, que passa e devasta tudo, levando tudo o que você possui. Te afasta de empregos, amigos, família... Te isola da sociedade. “Já fui gerente de supermercado, cheguei a ganhar muito bem. Por causa do meu grau de alcoolismo perdi esse emprego, não consegui arrumar outro em lugar nenhum”, disse Manoel. Enquanto me contava de coração aberto seus causos, eu o olhava no olho e conseguia sentir a mesma emoção que aquele homem sentia. Só não poderia entender a dificuldade que ele passou de forma plena, porque só quem enfrenta essa batalha

sentidos hospital

estava do

no

Campo

Limpo. Eu senti medo da morte” diária pode compreender. “Tive dois casamentos mas nenhum deles deu certo. No segundo cheguei até a roubar da minha própria esposa para fazer uso do álcool” No dia 9 de março de 2011, Manoel sofreu uma queda. Ele estava tão embriagado que não se lembra como caiu. “Quando

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erentes idades e formas de enxergar o mundo, mas com o mesmo desafio diário. Eles entraram em um mundo onde parece não existir saída.

Dormir a noite sem ter ingerido álcool é uma conquista. O prêmio é ser visto de forma digna pela sociedade Dormir a noite sem ter ingerido álcool é uma conquista. O prêmio é ser visto de forma digna pela sociedade, não ter vergonha de si, e saber que seus amigos e família têm orgulho de você. Eu fui ao encontro dessas pessoas para que elas me contassem suas histórias de vida. A verdade é que elas tentam apagar essas histórias e escrever um capítulo novo todos os dias. Foto: João Aguiar

“Quando recobrei os

recobrei os sentidos estava no hospital do Campo Limpo. Eu senti medo da morte”, lembra. Três dias após a queda, Manoel foi até a Associação. Na verdade, um filho falou que iria levá-lo para conhecer alguns amigos e acabou seguindo para a entidade. Ele se sentiu orgulhoso, mas quando chegou se deparou com uma sala como aquela que nós estávamos conversando. Após o término daquela primeira reunião ele fez um voto de abstinência, é um dos momentos principais desses encontros. Esse voto é feito por aqueles que estão lá pela primeira vez. No dia em que nós nos encontramos, Manoel estava há exatos 6 anos, 6 meses e 9 dias sem colocar uma gota de álcool na boca. No artigo desenvolvido por Wolfgang Heckmann e Camila Magalhães Silveira sobre aspectos clínicos e diagnósticos do álcool, os especialistas retratam que para que se desenvolva o alcoolismo, são necessárias certas características psicológicas ou determinados traços de personalidade. “Todavia, isso não quer dizer que exista um “tipo alcoólatra” determinado e bem definido”, destacam Wolfgang e Camila Após as entrevistas, me sentei ao lado de Luiz Antônio e acompanhei a reunião. Durante duas horas percebi que a afirmação do artigo citado acima é verídica. Observei pessoas com vidas bem diferentes, experiências das mais variadas, de dif-

O á l c o ol af a st a a s p e ss o a s, c au s a s ol i d ã o

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ENTRETENIMENTO Foto: Fernanda Domingues

Um homem sem rosto, mas com voz

“Zangado” era contra a ideia dele de se tornar um youtuber, já que não eram ligados no assunto internet. Portanto, ele foi obrigado a ter uma profissão e escolheu estudar Engenharia

No começo, eu usava

Como um rapaz que usava máscara do quadrinho “V de Vingança” tornou-se referência do vídeo game brasileiro”

uma máscara de pano

Por Felipe Savioli

muito maior, eu escolhi

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Quando eu decidi fazer

jogo faz com que ele se torne uma referência para os jovens comprarem certo game ou não. Isso é sensacional e almejado por qualquer youtuber”. A rotina de produção do youtuber é invejável. Ele conta que sempre tenta se manter o mais antenado possível sobre as notícias e os lançamentos no mundo dos games. Além disso, produz pautas diariamente e

um marco e me tornar alguém com alcance a figura do Guy Fawkes.

Thi ago Si l va e s e u l o g o d o Youtub e

era horrível. “Eu queria queimar o ‘’filme’’ do jogo, queria falar mal para quem eu pudesse, mas não sabia como, até que veio a ideia do YouTube”, complementa. Entretanto, não havia recursos para que Thiago Silva conseguisse fazer seu vídeo crítico. “Existiam uns sete ou oito canais brasileiros que faziam vídeos de gameplay apenas e eu não tinha câmera. Enfim, eram muitas dificuldades,

que me fizeram adiar essa ideia por meses”. Após muita dedicação e uma câmera emprestada de uma exnamorada, Zangado gravou seu primeiro vídeo para o Youtube. “Foi sobre o jogo Borderlands. Nessa época já até tinha me desfeito do jogo Golden Axe Beat Rider”. O que poucos sabem é que, no começo, a família de Thiago

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Civil, na Faculdade Federal do Mato Grosso. Zangado encontrou no YouTube uma forma de esquecer os problemas, como conta em seu livro “Zangado: O Que é ser um gamer e Como me tornei um”. “O YouTube foi, para mim, uma válvula de escape do estresse que eu vivia diariamente na minha adolescência”. Felipe Hayashi, produtor de conteúdo de games, cita que uma das inspirações para fazer seus vídeos foi o mascarado. “Zangado era um dos que eu acompanhava antes de começar o meu próprio canal. Na época poucos faziam vídeos, e o Zangado era um desses poucos. Já trazia um conteúdo diferenciado e sempre com bastante embasamento, tentando passar o máximo de informação

Foto: Fernanda Domingues

“E aê? Aqui é o Zangado!”. Tem jeito melhor de começar o perfil de Thiago Silva do que com essa frase que o deixou conhecido no mundo do YouTube? Todos os três milhões de inscritos e tantas outras pessoas que já acompanharam pelo menos um vídeo dele sabem que essas palavras são clássicas em sua abertura. Mas, afinal, quem é Zangado? Nascido em Cuiabá, no Mato Grosso, o ser misterioso de 27 anos que se identifica apenas como Zangado teve a ideia de começar seu canal com um motivo inusitado. Ele conta que comprou um Xbox 360, junto com alguns jogos, com três salários do seu estágio, em 2009. Dentre os jogos, o que mais gerou a sua curiosidade foi Golden Axe Beat Rider, um clássico dos jogos “arcades”. Para sua infelicidade, ou para sua raiva mesmo, o jogo

e era bastante amador,

para as pessoas”, explica. Segundo Lucas Venancio, do canal Altas Coisas e outro produtor de conteúdo para o Youtube, Zangado é atualmente um dos principais influenciadores da cultura gamer no cenário brasileiro. “Zangado é um gênio! A forma como ele produz seu conteúdo, desenvolvendo todo um roteiro de produção e fazendo uma análise completa de um

Z ang a d o é dubl a d or d o j o go G e ar s Of War 4

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tenta fazer seu conteúdo o mais diversificado possível, para

“Não dá para fazer só o dia-a-dia, eu tenho sempre de me superar e surpreender os fãs. Fico feliz por estar conseguindo isso por 8 anos”

e, após algumas semanas do lançamento de um jogo, se vale a pena ou não, para quem está assistindo o seu canal, adquiri-lo. Sobre esses programas, Lucas demonstra o quão bem produzida a análise do “Vale a Pena Jogar” é montada pelo produtor de conteúdo. “Se eu pudesse, o quadro vale a pena ou não jogar seria o que eu usaria no meu canal. Acho que as pesquisas que ele traz, os pontos de vista, tanto positivos quanto negativos, apresentados e a forma como ele expõe a opinião são invejáveis. Ele consegue fazer com que várias pessoas deixem de comprar um jogo por essa análise! ” Zangado, porém, afirma que cada vez mais os produtores de conteúdo referente aos games precisam buscar atualizações ainda mais constantes e sempre ter uma válvula de escape, além do projeto do próprio canal. “A

“O Youtube me deu a

possibilidade

de

expandir aquela roda de

amigos

para

o

mundo e eu aproveitei isso” minha dica para os criadores de conteúdo é que sempre falem sobre um assunto que entendam e que não deixem de estudar, nunca, pois o Youtube ninguém sabe até onde vai, mas o diploma ninguém tira de você”.

Max expõe uma linha de raciocínio parecida com a de Zangado, quando a questão é o ingresso de novos produtores de conteúdo. “Para os novos criadores a dica é não busque fama ou dinheiro. Faça algo que você goste e o resultado virá naturalmente! Trabalhe duro pelo objetivo que você almeja. Nos dias de hoje, principalmente no início, quanto mais você cria, mais rápido virão os resultados”. Contudo, mesmo com o constante crescimento de gamers no Brasil, ainda existe um grande preconceito quando citamos vídeo games no país. Hoje em dia, os produtores de conteúdo sobre videogames continuam ouvindo frases como “isso é coisa de criança” ou “você vai ficar o dia inteiro jogando isso? Não vai trabalhar?”. Zangado, em entrevista, evidencia seu ponto de vista sobre esse assunto. “Existe e sempre vai existir preconceito. O que as pessoas não enxergam é que não é diferente de uma pessoa que chega em casa e já vai pro bar tomar todas até o dia amanhecer. Em ambos os casos elas buscam a fuga da realidade”, explica o youtuber. Felipe Hayashi discorda de Zangado. Ele fala que o preconceito diminuiu. “O crescimento do próprio Youtube ajudou a combater esses preconceitos bobos, já que os games são um dos principais tipos de conteúdo consumidos no Youtube”. Pode-se dizer que uma parcela grande de pessoas que tinha esse

preconceito diminuiu ou mudou de ênfase, com a “dominação” do conteúdo gamer pelas mulheres. Muitas, inclusive escutam que videogame é coisa de menino e que elas deveriam gastar o tempo com outra coisa, não na frente de uma televisão com um controle na mão. Para Zangado, esse crescimento é repentino e massivo. “Eu acho legal as mulheres estarem conquistando um lugar no mercado de games e vejo mais mulheres se interessando pelo assunto hoje, do que quando comecei, há 7 anos.

Temos algumas que dominam todos os gêneros possíveis e caem “matando” nos multiplayers da vida”, complementa. Ainda sobre o percentual cada vez mais alto de mulheres no videogame, Max também se posiciona a favor dessa constante crescente. “Acho fantástico! Tenho percebido que as mulheres gamers estão cada vez mais participativas, tanto no mundo de criação de conteúdo, quanto no cenário gamer em si, inclusive muitas estão mandando super bem nos e-sports”.

Foto: Fernanda Domingues

atingir a maior quantidade de público possível. “Meu público é de uma faixa etária mais alta, a maioria de 18 a 34 anos, então é bem exigente. Não dá para fazer só o dia a dia, eu tenho sempre de me superar e surpreender os fãs”. Uma das vantagens de produzir um conteúdo tão qualificado é o reconhecimento que Zangado obteve como youtuber. Além de ser conhecido como um dos principais produtores de conteúdo do Brasil, Thiago também tem seu trabalho divulgado e visto fora do país. “O Youtube me deu a possibilidade de expandir aquela roda de amigos para o mundo e eu aproveitei isso. 10% dos meus fãs estão em Portugal! ”. Além do reconhecimento, existe o fato de gostar de comentar essas ideias com o público. “Eu gosto de dividir meus conhecimentos com as pessoas. Conto no meu livro que quando era pequeno eu e meus amigos sentávamos na calçada para discutir temas de Cultura Pop”. Maxwel Meireles, conhecido

como Max MRM, conta um pouco sobre o canal do Zangado e também sobre o porquê gosta de ver vídeos no youtube. “Pelo que conheço de sua produção, ele é um cara que busca bastante profissionalismo em relação ao que vai falar e mostrar em seus vídeos, sendo sempre muito informativo. Minha inspiração continua sendo o amor que tenho pelos games e pela criação de conteúdo. Muitas pessoas vêm até mim e me falam coisas como: ‘saí da depressão por sua causa’ e ‘você alegra meus dias’. Isso serve muito de inspiração para seguir em frente”. Um dos fatores que mais causam mistério é o uso da máscara. Zangado explica que não queria mostrar seu rosto no YouTube por sua cidade natal ser pouco habitada e, assim, poder andar na rua sem ser reconhecido. “Não queria gravar meu rosto na câmera para preservar minha privacidade. Sou um cara que gosta de ir ao cinema e a academia e, sem a máscara, ficaria impossível ir a esses lugares”. Sobre esse assunto, Lucas concorda com o fato da máscara. “Eu acho que sem a máscara ele não conseguiria viver uma vida normal for a do YouTube. Todos nós temos o direito de continuar fazendo o que gostamos, mesmo tendo a fama que temos por conta dos nossos canais”. Hoje em dia, o canal do Zangado conta com mais de três milhões de inscritos e é dividido em análise da primeira meia hora ou primeira hora de um game

Z ang a d o us a a má s c ar a p ar a p o d er pre s er var su a i d enti d ad e em Cui ab á

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Foto: Fernanda Domingues

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Z ang ado e m to d as as su as f as es d e youtub er

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CIDADES

De mulher para mulher

Foto: Bruna dos Santos

Com os números alarmantes de violência contra a mulher, o Lady Driver ganha força, enfrentando o machismo. Por Bruna dos Santos Foi depois de sofrer assédio em um carro chamado por um aplicativo que Gabriela Correa, de 35 anos, passou a procurar um serviço com motoristas mulheres. Como não encontrou nada parecido, decidiu criar o Lady Driver, um aplicativo de transporte de mulheres para mulheres. Formada nas áreas de Administração e Nutrição, a CEO do Lady Driver se dedicou muito a estudar sobre startups, tecnologia e investimentos. Ela conta que já havia sido empreendedora antes de fundar o aplicativo: “O aplicativo cresce a cada dia, mas ainda temos muitas barreiras para enfrentar. Se não fosse a paixão que eu tenho pelo negócio, já teria desistido”. Gabriela diz que sofreu preconceito pela iniciativa de criar o app., “Tive o apoio das minhas sócias primeiro, a Bianca Saab e a Raquel Correa, minha cunhada e minha irmã. Mas muita gente riu da minha cara, disseram que jamais daria certo e que eu estava louca”, lembra. A reação masculina em relação ao aplicativo foi machista, de acordo com Gabriela, inclusive de homens que criaram aplicativos para mulheres. “Na verdade, somos o único app criado de

mulher para mulher, e acho que isso explica o nosso sucesso, o entendimento e empatia entre mulheres”, explica Gabi. A expansão do aplicativo foi ótima. Em seis meses de funcionamento já estão cadastradas cerca de 8 mil mulheres na cidade de São Paulo e em Guarulhos. O Lady Driver agora quer expandir seu trabalho para o Rio de Janeiro. O reforço sobre a principal função do aplicativo é diário. Muitas mulheres sofrem com isso, motoristas que mudam o caminho, fazem incitações sexuais, constrangimento, qualquer tipo de situação em que a mulher e sua segurança são ameaçadas. E como se não fosse suficiente, ainda são culpabilizadas por estarem com roupas que “chamam a atenção” ou “terem atitudes que não são adequadas”.

“Na verdade, somos o único app criado de mulher para mulher” A escritora Clara Averbuck relatou recentemente que sofreu um abuso por um motorista da Uber no Rio, e lançou uma campanha incentivando

denúncias. Dessa forma, várias mulheres passaram a contar seus casos nas redes sociais, a hashtag #meumotoristaabusador, lançada por ela, foi citada 1.179 vezes. No ano passado, no Rio, 1.500 mulheres foram estupradas, de acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). O “Ligue 180” serviço de orientação e denúncia da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, recebeu no primeiro semestre desse ano mais de 560 mil ligações, entre denúncias, relatos e pedidos de informação. Em resposta ao caso de Clara, a Uber divulgou apenas uma nota informando que o abusador havia sido banido da empresa. A companhia disse também que “repudia qualquer tipo de violência contra mulheres”, e que está à disposição das autoridades para ajudar nas investigações. Os dados de violência à mulher reforçam a importância do Lady Driver. Gabriela e suas sócias se sentem motivadas a impulsionar o serviço e a permanecerem enfrentando o preconceito. “Não é a primeira vez que uma empresa fundada só por mulheres sofre algum tipo de preconceito, mas não é por isso que a empresa vai parar de funcionar. Nos dias atuais a sororidade é algo que está em alta. A aliança entre as mulheres Lady Driver funciona como o Uber e para pedir uma corrida, é só baixar app para iOS ou Android

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é muito mais fácil de encontrar destacou. A pesquisa também avaliou e vem com muita força”, destaca as práticas culturais nocivas às Gabriela. Os casos como o de Clara são mulheres em várias cidades cuja muito mais frequentes do que população é superior a 10 milhões se imagina, quando algum caso de habitantes. E considerou o de violência ganha destaque na acesso à saúde, mortalidade oportunidades imprensa, algumas vítimas se materna, sentem encorajadas a tornar econômicas, controle sobre a pública sua dor, mesmo sem saúde reprodutiva, entre outros denunciar o abuso. Outras, tópicos, para chegar ao resultado. porém, ainda permanecem em silêncio. Isso acontece porque muitas mulheres demoram a assimilar o que sofreram. Gabriela Manssur, autora do blog Justiça de Saia, afirma, “como mulher me sinto muito insegura nessa cidade, seja no transporte público ou privado, como os aplicativos de taxi”. Manssur explicou que recebe diariamente vários processos de mulheres que foram vítimas de algum tipo violência sexual. Na maior parte dos casos, os autores Foto de divulgação - Foto: Lady Driver/divulgação dos crimes são maridos, vizinhos, amigos de familiares e No ranking geral, São Paulo foi vista como a 11ª pior. “Nós, em “O aplicativo cresce a função do perigo, mudamos nossa rotina, comportamento cada dia, mas ainda e até personalidade com medo de sofrer algum tipo de assédio temos muitas barreiras no trabalho, escola e órgãos públicos. Onde estamos seguras para enfrentar.” nesta cidade?”, questionou a promotora. No estado de São Paulo, é parentes. “Como promotora, não me espanto com os resultados. registrado um caso de feminicídio No levantamento foi considerado a cada quatro dias, apontam o número oficial de denúncias, dados da Secretaria de Segurança porém esses dados representam Pública. No primeiro semestre de 2017, apenas 10 % do total de crimes que realmente acontecem”, foram notificadas 46 ocorrências

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que mostram um retrato da implementação da legislação no Estado. A lei federal, sancionada em 2015, define que o feminicídio transformou em hediondo o assassinato de mulheres motivado justamente por sua condição de mulher. Ela aumenta a pena por homicídio, que é de 6 a 20 anos de prisão, para 12 a 30 anos. De janeiro de 2015 a junho de 2017, foram classificados 142 casos no estado de São Paulo, se forem considerados também os casos de tentativa, em que o agressor não conseguiu matar a mulher, o número de registros aumenta para 417. A residência foi o local de morte de 63% dessas mulheres, assim como a maioria das vítimas tinha entre 18 e 25 anos. “Embora os homens sejam maioria entre os casos de homicídio, são elas que vivem maior risco dentro de casa, onde deveriam estar protegidas”, diz Sinara Gumieri, advogada e pesquisadora do Anis – Instituto de Bioética, que faz estudos sobre o tema. A região da Grande São Paulo foi a que mais teve registros desde 2015, uma pesquisa do Ipea, estimou o número de ocorrências com base os registros de saúde de 2009 a 2011 indicou que São Paulo tinha a terceira menor taxa do Brasil, 3,2 a cada 100 mil mulheres, contra 11,2 do Espírito Santo, que lidera o ranking nacional.

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CURTAS

Centenário de Jack Kirby

A culpa é do norovírus Por João Aguiar Ele é extremamente contagioso, e culpado por boa parte das doenças gastrointestinais dos seres humanos. O norovírus é pouco conhecido mais está presente nos alimentos, nas bebidas ou em qualquer outra superfície. O norovírus é espalhado com muita facilidade, ingerindo algo contaminado

ou até mesmo tocando em algum objeto, e depois levando a mão a boca, nariz e olhos. O primeiro surto foi relatado em 1968, em Norwalk, Ohio. Os principais sintomas causados por esse vírus são náuseas, vômitos, diarreia, dor estomacal e cãibras. É importante deixar claro que não existe nenhum tipo de tratamento específico para a infecção cau-

Por Vitor da Cruz sada por narovírus. Geralmente a melhora ocorre por conta própria, e, como se trata de um vírus, os antibióticos não causam efeito. Os principais cuidados a serem tomados para que essas criaturas não sejam um transtorno são a lavagem adequada e constante das mãos e uma boa higiene pessoal.

Elementar, meu caro Watson? Por Felipe Savioli Um dado extremamente interessante e, até certo ponto, preocupante, realizado por pesquisadores ingleses, é que metade dos jovens britânicos da atualidade acreditam que Sherlock Holmes e Rei Artur são personagens reais. O detetive, porém, é apenas uma criação de

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Arthur Connan Doyle, um dos mestres da literatura britânica. Já o lendário personagem medieval Rei Artur teve sua primeira aparição na literatura no livro Historia Brittonum, um trato medieval das histórias britânicas até o século VII, escrito pelo monge galês Nêmio. Um dado que assusta

ainda mais é que, na mesma pesquisa, os mesmos adolescentes acreditam que Winston Churchill, primeiro ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial e responsável por várias decisões de guerra feitas pela monarquia inglesa, é apenas um personagem fictício.

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Esse ano um dos maiores criadores de super-heróis e um dos desenhistas mais amados dos fãs desse gênero estaria completando 100 anos. Jacob Kurtzberg, conhecido pelo nome artístico de Jack Kirby, nasceu em 1917 em Nova York. Durante muito tempo, o artista tentou ingressar em diversas escolas de desenho, mas devido as dificuldades financeiras

de sua família, desistiu do ensino superior e se dedicou a ajudar a família. Em 1935, Kirby começou a trabalhar para a Fleischer Studios , onde fazia as sequências para o desenho “Popeye”. Ao ingressar na Marvel Comics, foi responsável pela criação de personagens icônicos, como Capitão América, Hulk, Homem de Ferro, Thor, e até mesmo, os Vingadores. Entretanto, se engana que Kirby só esteve presente na

Marvel Comics, o desenhista foi responsável pela criação de grandes personagens da DC Comics, como Etrigan, o Demônio, Kamandi, OMAC, Os Novos Deuses e o Quarto Mundo, Eternos, Homem-Máquina e Diabo, o Dinossauro. Jack Kirby, não foi somente um grande desenhista, mas por muitos é considerado o pai de grandes personagens que até hoje fazem a alegria de muitos.

Novo Call Of Duty mostra cenas da Segunda Guerra Mundial Por Felipe Savioli Call Of Duty World War II, o novo jogo desenvolvido pela empresa Activision, em 2017, traz momentos únicos para o jogador , remetendo a um passado triste e não muito distante, a Segunda Guerra Mundial. O game começa com frases

do ex-presidente americano, Franklin Roosevelt, dando apoio às tropas americanas, para entrar na praia da Normandia, lugar onde acontece a batalha do “Dia D”. Além das armas contidas no jogo serem as usadas no período, os principais personagensremetem às pessoas de alta patente da época.

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Os mapas de multijogador também se passam em lugares onde a guerra realmente aconteceu, como Alemanha, Gibraltar e Havaí. E, para finalizar o jogo, a última missão da história passa-se na tomada do Terceiro Reich, sede principal do comando de Hitler.

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Revista temas contemporâneos  

Ciência, cultura, tecnologia e histórias de vida. Destaque para reportagem sobre superbactérias (p.06) e entrevista pingue-pongue com Camil...

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Ciência, cultura, tecnologia e histórias de vida. Destaque para reportagem sobre superbactérias (p.06) e entrevista pingue-pongue com Camil...

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