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Transpondo esta imagem para o edifício prisional é possível perceber de que forma a organização descrita se traduz no funcionamento interno do edifício, dado que o recluso acede ao espaço de dormir tendo como cenário duas bandas de celas cuja repetição transmite uma sensação de ritmo interminável, incutindo neste, um sentimento de castigo constante. Esta organização foi aplicada pela primeira vez na tipologia radial reforçando a ideia que o castigo que o recluso teria de cumprir era, obrigatoriamente, torturante, contribuindo para isso a constante vigilância e a organização celular aqui descrita. As alas de reclusão encontram-se depois ligadas aos principais serviços prisionais, segundo os princípios legados pela Prisão de Brandenburgo procurando uma economia de percursos que evita o atravessamento de zonas descobertas exponenciando, assim, o factor segurança, mas assegurando a manutenção do carácter fluído desses mesmos circuitos. Os principais serviços dedicados ao recluso, dos quais se destacam o refeitório e as oficinas, são desenhados com dimensões que possibilitam a prática de actividades colectivas relacionadas com a educação, o trabalho ou a cultura, onde a luz e a ventilação natural, elementos permanentes no espaço, penetram o espaço através de vãos semelhantes aos utilizados nas celas. Esta economia de desenho traduz-se numa depuração arquitectónica muito expressiva, comum nos edifícios públicos do Estado Novo, e que confere a toda a massa construída uma clareza formal e organizativa que facilita a compreensão de todo o programa e do seu funcionamento, sendo, sempre que possível, eliminados os percursos múltiplos e os espaços inseguros. Se por um lado estas características, bem como a sobriedade cromática e a utilização sistemática do betão, 077 constituem referências indiscutíveis ao Movimento Moderno, existem outras que denunciam o regionalismo característico do modernismo português presente em grande parte dos edifícios públicos encetados pelo Estado Novo: “ [...] É unanimemente aceite que a afirmação da arquitectura do Movimento Moderno e a cultura que ela queria exprimir e afirmar, passava por uma ruptura com o passado. E esse passado era sobretudo um passado recente, oitocentista, pleno de concessões revivalistas e historicistas [...]. Assim numa primeira fase de afirmação do Estado Novo fascizante, a procura historicista e regionalista tende a suspender-se, sobrepondo-se uma crescente utilização de modelos internacionais [...], no entanto, com o final da década de trinta estas experiências tendem a transformar-se, apoiadas na utilização de um vocabulário quer historicista quer regionalista, apostado numa retórica de raiz clássica próxima dos modelos nazis e fascistas da época. Uma monumentalidade simbólica e desejada atemporal [...].”74 A pedra e a telha surgem aplicadas neste edifício com um conceito, marcadamente, saudosista da arquitectura de oitocentos, onde o trabalho de pedreiro surge quase como escultórico e a cobertura inclinada em telha é aplicada de forma sistemática em toda a composição em substituição da cobertura plana ou em borboleta do Movimento Moderno, onde se estimulava a aplicação dos novos materiais industriais como as telhas sintéticas e os asfaltos. É de facto estranho pensar que enquanto em Portugal se continuava a procurar referências na arquitectura do século XIX, em Chicago o edifício do Metropolitan Correctional Center of Chicago encontrava-se em fase de projecto explorando formas e conceitos contemporâneos, o que denuncia o atraso formal e conceptual da arquitectura moderna portuguesa durante o período do Estado Novo.

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COSTA 2001, p. 18, 19 e 20

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Prova final em arquitectura na FAUP - 2006_2008

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