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parlatório, as instalações para os guardas e os pátios exteriores com dimensões que possibilitam a prática de desporto e o lazer dos reclusos. No segundo piso, localizam-se os quartos de internamento do pavilhão clínico, um conjunto de celas disciplinares localizadas no pavilhão disciplinar, a capela e salas escolares, localizadas sobre o refeitório e as celas individuais que se estendem pelo “H” central e prolongam para o último piso. Em síntese é possível perceber que somente a zona central, dedicada ao alojamento prisional, possuí três pisos, possibilitando uma melhor exposição à luz e ao ar, sendo que os pavilhões disciplinar e clínico possuem dois pisos e todos os outros edifícios, que albergam as oficinas, administração, chefia, parlatório e serviços comuns, possuem apenas um piso. A boa organização programática e o bom desenho dos espaços são factores predominantes neste edifício. A luz e a ventilação natural pontuam todo o conjunto sendo que as celas individuais, com cerca de dois metros e meio de largura por quatro de profundidade, são dotadas de uma janela que contacta com os pátios exteriores localizando-se a um metro e meio de altura. Estas celas contactam, através de uma porta chapeada com as galerias internas, desenhadas de uma forma panóptica73, que possibilita uma percepção integral de toda a ala prisional facilitando a vigilância e o controlo dos percursos internos, ao mesmo tempo que permite que todos os pisos sejam iluminados zenitalmente. Estas galerias têm neste edifício duas leituras distintas, sendo que por um lado são usadas como um 073 acesso horizontal central, distribuindo os reclusos para as celas que se encontram adossadas às duas fachadas exteriores, como acontece nas alas prisionais nascente e poente; por outro lado, no braço que une estas duas alas referidas anteriormente, constrói-se uma galeria localizada a sul que dá acesso, simultaneamente, às celas adossadas à parede norte e a alguns espaços colectivos do edifício, ou seja, a capela, a escola e o refeitório, que se encontram no centro da composição, em pisos distintos. Esta atitude possibilita que a parede sul fique livre, deixando entrar luz e ar para este acesso horizontal que se desenha mais iluminado, amplo e nobre, constituindo uma artéria fundamental do esquema de acessos interiores do edifício. Por outro lado, quando visitei este edifício em Fevereiro de 2007 tive a oportunidade de verificar que era vontade geral da comunidade prisional a sua transferência para as celas da ala central. Esta vontade surge, segundo uma análise pessoal, associada ao facto de existir nesta, e devido à forma como é organizada, um factor menos opressivo do que aquele que se verifica nas alas nascente e poente, senão vejamos: se por um lado a disposição central da galeria possibilita uma maior rentabilização do espaço, optimizando um acesso que serve duas bandas de celas, aliás, usado de forma frequente na habitação, com exemplos que vão desde as conhecidas “ilhas” portuenses aos grandes edifícios de habitação, por outro lado, esta disposição formal sugere uma intenção de controlo comportamental, como são exemplo as Passage francesas, ou as mais recentes galerias das grandes superfícies comerciais, que organizam ao longo de uma artéria central duas bandas de lojas que procuram captar a atenção dos transeuntes que, ao longo do seu percurso, dificilmente resistem a entrar e comprar os produtos que estas oferecem.

73 Designação que provém da tipologia panóptica e que se refere a uma eficaz e integral vigilância dos espaços.

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Prova final em arquitectura na FAUP - 2006_2008