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procura aproximar os habitáculos do recluso daqueles que fizeram parte da sua vida em liberdade, na tentativa de reduzir a dificuldade deste, em se adaptar ao ambiente prisional. O desenho, quer ao nível da cela quer ao nível dos espaços colectivos, procurou associá-los, formalmente, ao ambiente em reclusão, sendo marcados pela dureza e natureza dos materiais de acabamento e dos espaços e, que a sua relação com o mundo exterior, fosse ao nível do seu uso, que não seria limitativo nem opressivo, reduzindo ao estritamente necessário o controlo dos movimentos. Esta premissa no desenho da cela procura construir uma realidade efémera, associada a um período que terá um momento inicial – a detenção – e um momento final – a libertação. Esta premissa foi conseguida através da organização criteriosa dos vários espaços da cela e do desenho cuidado dos elementos que os compõem, desde as peças do sanitário até ao mobiliário, desde a porta até à janela. Mais do que desejar que o recluso veja na cela um vulgar quarto de dormir, procuro que ele, uma vez em liberdade, não associe a cela a nenhum espaço que faça parte do seu quotidiano. A cela é uma cela. O quarto é um quarto. Acredito que a reclusão deve permanecer na memória de cada indivíduo que a experimenta, mas não deverá nunca assombrá-lo na sua vida em liberdade. O desenho do muro foi outro momento fundamental para este projecto. Assim como a cerca num convento ou a muralha numa cidade, também o muro num edifício prisional existe para limitar um lugar, definir um interior e um exterior e organizar os vários espaços que o compõem. Numa fase inicial, houve uma interpretação deste elemento, no sentido de perceber se existiria a possibilidade de o eliminar da composição ou se, através 183 do desnivelamento dos pátios, este poderia ser escondido. Esta investigação fez-me perceber que o muro não existe somente para evitar os movimentos de fuga, mas também para impedir a invasão dos espaços reclusivos. Neste sentido o muro tornou-se absolutamente fundamental, transformando-se no elemento que dialoga com as pré-existências e, cuja horizontalidade, contrasta com o alto edifício que pousa sobre ele. A dificuldade e as dúvidas surgiram na sua formalização. Por este definir a linha que limita o espaço público do de reclusão, o muro representa a última barreira a ultrapassar, em caso de fuga e exigindo que o seu tratamento, do ponto de vista da segurança, seja extremamente delicado e cuidado. Nos exemplos que estudei, este formaliza-se sempre através de uma adição de elementos pouco relacionados entre si que procuram impossibilitar e desencorajar as tentativas de fuga. Contrariamente, na proposta que desenvolvi, procurei criar mecanismos que se diluíssem com o desenho desta cerca e que respondessem de forma eficaz à função desta barreira. O muro surge, então, como um elemento contínuo, onde existiu a necessidade de eliminar as tradicionais redes ou arames-farpados, para que o betão, o reboco e o aço, geometricamente conjugados, procurassem materializar um limite difícil de ultrapassar. É certo que os elementos que evitei usar seriam, sem dúvida, eficazes na concretização dessa premissa, no entanto, procurei que o desenho não fosse fragilizado por uma adição de elementos que contrastariam com toda a composição, desenhada segundo uma unidade que resulta nos espaços de reclusão.

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Prova final em arquitectura na FAUP - 2006_2008

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