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Ao desenvolver este projecto senti que este seu primeiro momento reclusivo, bem como aquele que diz respeito à sua libertação, deveriam ser marcados por um espaço que lhe faça recordar para sempre aqueles episódios. Que lhe marque a memória.

Esta ideia evoluiu para uma vontade de distinguir o espaço de admissão do de libertação, marcando um percurso com entrada num ponto e saída noutro, contrário, como pólos opostos. De um lado, a reclusão; do outro, a liberdade. Com a progressão do desenho percebi que seria interessante materializar estes momentos distintos no mesmo lugar. Coincidentes no espaço, mas opostos no significado. Imaginei que, no momento de entrada, a interpretação que o recluso teria deste átrio seria em tudo distinta do seu olhar no momento de libertação. No princípio, este tinha significado amargura e tristeza, mas agora era sinónimo de esperança. Foi assim que eu me imaginei, se estivesse no seu lugar. Não existe melhor forma de projectar.

O desenho final procurou sintetizar estas duas premissas, sendo que as portas que materializam a entrada em reclusão e a saída em liberdade são distintas, opostas, desenhadas nas duas portarias que pontuam o projecto, mas é no átrio do edifício de reclusão que estes dois movimentos se cruzam. Um espaço que pela sua forma, proporção e luz procura enriquecer estes dois episódios. A entrada do recluso faz-se pela portaria de serviço. Ainda dentro do veículo celular o recluso é direccionado para o pátio de admissão, localizado a poente do edifício reclusivo e totalmente isolado ao 171 exterior. Este volume, que alberga as celas, projecta-se, em consola, sobre este espaço exterior, protegendo o acesso à admissão. O recluso, já fora do veículo, dirige-se para o interior do edifício, conseguindo visualizar toda esta justaposição de planos e volumes. A entrada no átrio de admissão faz-se por uma fachada transparente que constitui a porta para esta antecâmara, tensa, apertada, mas alta. Na penumbra de uma grade posicionada no primeiro piso, localiza-se a unidade de segurança que possibilita controlar o acesso dos reclusos ao parlatório. A relação visual entre estes dois espaços é garantida. Um representa a cisão com o exterior, o outro, a vontade de contactar com as pessoas que o ligam à sua vida em liberdade. Após ser revistado e de ter depositado os seus bens pessoais no balcão de entrada, o indivíduo acede a uma pequena instalação sanitária/enfermaria, onde lhe serão prestados os primeiros cuidados de higiene e de saúde e que se materializa segundo um volume de betão que interrompe o muro exterior, marcando desta forma a entrada no edifício. O recluso é depois conduzido ao átrio do edifício, espaço que antecede o seu acesso à unidade de reclusão, destinada a albergar actividades relacionadas com o lazer e com o trabalho e onde se encontra a sua cela, paradigma do isolamento que será um dormitório, uma habitação. Fria e impessoal, no início, mas progressivamente humanizada e transformada, para ser finalmente sua. Uma porta em grade encontra-se à sua frente. Antes de a atravessar, o seu olhar tenderá para uma galeria extensa e alta que se encontra a norte. Irá percorrê-la, quando for libertado, no entanto é um espaço que faz parte do seu primeiro momento de reclusão.

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Prova final em arquitectura na FAUP - 2006_2008

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