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“Adriano, conheço um lugar óptimo para implantares a tua prisão. Fica perto do Cabo do Mundo, ali em Matosinhos”. A Sofia esteve certa desde o início. Rapidamente recolhi informação gráfica para poder discutir com o orientador desta prova a possibilidade de implantar naquele lugar. O meu conhecimento sobre a sua história era nulo e a minha vontade foi frustrada. Este sentimento levou-me a investigar todos os lugares apresentados anteriormente, investigação decisiva para esta escolha final uma vez que a procura, que fora outrora, somente gráfica, passara, depois desta reunião, a ser também histórica, urbana e principalmente interpretativa. O lugar da Memória levou-me à memória do lugar. Esta praia, outrora chamada “dos Ladrões” devido às “[...] tradições de pilhagem costeira aos navios em perigo, [...]”114 foi cenário de um momento histórico importantíssimo e que motivou decisivamente esta escolha. Nesta praia desembarcou a armada de D. Pedro IV, cujo objectivo era libertar o povo português da governação absolutista de D. Miguel, que a “[...]11 de Julho (1828) é considerado sucessor legítimo e entronizado em Cortes à moda antiga, iniciando o “terror miguelista”, através de devassas e prisões por simples delação. A tradição liberal estima que quase um terço da população portuguesa tenha sido perseguida pelo miguelismo. [...] Em 1831, contavam-se 139 execuções e, pelo menos, 1500 deportados.”115 “No dia 8 de Julho de 1832, a armada de D. Pedro IV aproxima-se em busca de um bom local para desembarcar. Rumavam a norte, ao Mindelo, mas alguns naturais da região que vinham a bordo alertaram para a existência de uma praia a sul com condições para aportar. [...] Cerca de 7500 homens a quem chamaram de 107 Exército Libertador pisavam o areal pouco depois para se dirigirem ao Porto.”116 “A ocupação da cidade do Porto surge aos liberais como um ponto de partida para a ocupação e restauração da Carta. [...] No dia 9 de Julho, o exército liberal entra na cidade. Iria manter-se cerradamente cercado pelo grosso do enorme exército nacional até ao Verão de 1833. [...] O cerco do Porto opunha dois adversários infinitamente desiguais. [...] A anarquia que reinava no exército foi suportada por D. Pedro, a ponte de, pouco a pouco, a cidade lhe reconhecer coragem e decisão, associando-se a uma causa que não tinha querido fazer sua. [...] Dos “bravos do Mindelo” restavam 6 mil. Os sitiantes, quando o general Beaumont resolveu levantar, eram 35 mil. Por essa altura, já a cidade se decidira por D. Pedro, pela Carta e pelo Liberalismo.”117 “Oito anos depois, a filha de D. Pedro IV dirige-se ao local [Praia dos Ladrões], onde lança a primeira pedra de um monumento que perpetuou o acontecimento. O obelisco da memória do desembarque continua na praia que ganhou o nome de Memória.”118 O momento aqui descrito foi decisivo para a evolução do pensamento humanista português, impulsionando muitas das acções reformistas referidas na descrição do edifício da Cadeia e Tribunal da Relação do Porto e que marcaram, no fundo, o arranque do sistema penitenciário do nosso país. Este facto associado às características morfológicas do lugar, à relação ampla e franca que este estabelece com o horizonte e com o mar e à amplitude de um lugar fragmentado, urbanisticamente disperso e difuso, possibilitaram que fosse PACHECO 1986, p. 153 RAMOS 1994, p. 468 SCHRECK 2006, p. 25 117 RAMOS 1994, p. 469 e 472 118 SCHRECK 2006, p. 25 114

crescendo uma sensação de conforto em relação à escolha da Memória para a implantação do edifício prisional que proponho como exercício nesta prova final.

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Prova final em arquitectura na FAUP - 2006_2008