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O conceito aqui enunciado possibilitou criar o segundo critério aplicado na escolha do lugar. Em síntese, o objectivo seria agora a procura de um lugar com uma relação mais íntima com a sua envolvente. A esta vontade juntou-se a intenção de consciencializar o recluso que o estado de reclusão constitui o limite e o fim do seu percurso enquanto elemento marginal à sociedade, sendo o lugar de implantação o primeiro indício que o único caminho a seguir será o da reabilitação. A prisão e o lugar onde esta se implanta fariam assim perceber, através das suas características formais e conceptuais, que “não basta punir (...). É possível – e desejável – ensinar aqueles homens e mulheres que haviam cometido crimes, que a separação forçada que a prisão impunha poderia ser o suporte para a aprendizagem de novas formas de viver na sociedade. Nascia assim a perspectiva segundo a qual a prisão poderia fornecer modelos de formação do comportamento.”112 A opção foi procurar uma proximidade ao mar, com o objectivo de tirar partido da situação de território limite, ao mesmo tempo que a linha do horizonte, por ele oferecida, proporcionaria o ambiente de reflexão necessário para a reestruturação do recluso. Assim os lugares localizam-se junto às praias de Silvalde, em Espinho, e da Memória, em Matosinhos, e estão também ilustrados nas imagens sendo que as suas principais características, vantagens e desvantagens se encontram descritas nas páginas 44, 45, 46, 47 e 48 do volume II desta prova final.

As motivações para o lugar “I drew the road, I drew the horizont, I noticed the orientation of the sun and sniffed the topography. I 105 decided where to build because that ain’t not been decided at all. In choosing the site I’ve committed either a criminal or a worthwhile act.”113 A escolha do lugar representa uma das atitudes decisivas de todo o processo de trabalho, pois será um dado fundamental do projecto. Será a primeira pista a seguir na formalização do edifício, pois nele encontrarei a envolvente a respeitar, a topografia a ler, os limites a redesenhar. O primeiro passo foi decidir qual dos dois critérios abordados seguir. Em discussão com o orientador desta prova cheguei à conclusão que implantar num lugar afastado da cidade seria a melhor opção para este exercício, dado que a intenção de criar um edifício prisional urbano, por muito que o projecto procurasse abrilo para a cidade, nunca poderia ignorar os seus espaços reclusivos, caracterizados pelos altos e imponentes muros, agressivos, certamente, para as ruas e construções que pontuam os lugares urbanos enunciados. É certo que o nosso território é todo construído por estes elementos limitrofes, lineares e austeros, na sua maioria construídos em granito, no entanto, o receio de causar mais uma cicatriz na cidade fez-nos abandonar a ideia. A escolha do lugar reduzia-se agora aos terrenos localizados nas praias de Silvalde e da Memória. Estes dois territórios, apesar de responderem ambos ao mesmo critério, são caracteristicamente distintos. Numa análise prospectiva poderíamos afirmar que as características morfológicas do terreno localizado em Espinho, pela sua ampla dimensão, pendente quase plana e envolvente marcada por edifícios militares poderia ser o lugar ideal para este exercício, possibilitando um projecto de traço largo e ancorado a um possível zonamento militar. No entanto, a Praia da Memória foi, desde o início, o lugar ideal para este exercício.

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GONÇALVES 2000, p. 17 COPANS 2005

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Prova final em arquitectura na FAUP - 2006_2008