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SHIRLEE

BUSBEE A AMANTE CATIVA


A bela e voluntariosa Nicole Ashford não sabia o que era a paixão, mas estava destinada a viver aventuras e prazeres além do que qualquer mulher do seu tempo poderia imaginar. Ao descobrir uma trama cruel contra ela, foge de seu aristocrático lar inglês em um navio corsário com destino aos exóticos paraísos piratas de Nova Orleans e ao abandono requintado das cavernas escondidas das ilhas Bermudas. No entanto, a própria ousadia de sua fuga a lança em um perigo ainda maior, como a amante cativa de um famoso bandido dos mares, o capitão Sable, cujos beijos, ternos e apaixonados, consomem sua alma. E nada vai apagar as chamas do amor para o qual ambos nasceram!


PRIMEIRA PARTE Inglaterra, 1808

A Fugitiva PRIMEIRO CAPÍTULO

Era um desses dias quentes e preguiçosos de agosto que de vez em quando acariciavam as colinas e vales de Surrey, perto da pequena aldeia de Beddington's Corner. Os raios de sol se filtravam no quarto de Nicole Ashford como fios de ouro irresistivelmente tentadores e, entretanto, por alguns minutos, Nicole se recusou a abandonar o conforto do macio colchão de plumas. Ignorou com firmeza o impulso de levantar-se e encarar o novo dia. Afundou mais a cabeça no travesseiro confortável e acolhedor e aconchegou o fino lençol de linho ao redor de seu corpo esbelto. Mas tinha perdido o sono, e com um suspiro indolente se virou até ficar deitada de costas sobre o amplo leito coberto com uma colcha bordada. Languidamente, seu olhar topázio vagou sem rumo pelo quarto encantador, observando a cômoda de brilhante jacarandá, o armário de madeira de cerejeira e os brilhantes tons do florido tapete colorido que cobria o chão. Das altas janelas penduravam cortinas brancas feitas com o mesmo tecido bordado da colcha da cama; um baú de mogno, repleto agora de brinquedos descartados, achava-se debaixo de uma das janelas e a sua esquerda estava à cadeira de balanço de carvalho sobre um de cujos braços tinha caído descuidadamente o vestido enrugado que tinha usado no dia anterior. A visão desse objeto recordou-lhe que muito em breve teria que levantar-se, já que hoje era um dia especial; essa tarde seus pais iam dar uma festa no jardim e tanto Giles, seu irmão gêmeo, como ela mesma, estavam autorizados a assistir. Uma festa no jardim poderia não parecer um acontecimento social muito excitante para alguns, mas como Nicole ainda não tinha doze anos e esta seria sua primeira festa de adultos, seu regozijo era bem compreensível. Além disso, não era frequente que Annabelle e Adrian Ashford passassem uma temporada em Ashland, a casa de campo da família, e Nicole apreciava muito os poucos momentos que compartilhava com seus pais. Com uma sensação de ditosa antecipação, o longo cabelo emoldurando suas delicadas feições que já chamavam a atenção para sua beleza, afastou os lençóis para


levantar-se quando se deteve bruscamente ao ver que a porta do dormitório se abria de repente e Giles invadia o quarto. -Nicky! Ainda está na cama, grande preguiçosa? Se vista depressa, Sombra teve seu potro ontem à noite! -gritou Giles e sua voz juvenil soou cheia de orgulho e excitação. Seus olhos cor topázio, tão semelhantes aos de sua irmã, brilhavam com reflexos amarelos e uma mecha de cabelo castanho escuro caía sobre sua testa. A carinha de Nicole se iluminou subitamente com um arranque de júbilo e saiu da enorme cama enquanto dirigia a seu irmão uma série de perguntas: - Por que não me acordou antes? Estava lá quando nasceu o potro? De que cor é? É uma potranca ou um potro? Giles riu as gargalhadas. -Me dê uma oportunidade, tagarela! Não, não estava lá quando nasceu, assim tire essa expressão zangada de seu rosto... Te ganhei por pouco. É uma potranca, bonita e negra, igualzinha a Sombra. Nasceu logo depois da meia-noite. OH, espera para vê-la, Nicky! Está muito bem formada e é muito suave. Tem os olhos grandes... Com o peito infantil cheio de orgulho, terminou altivamente-: Papai diz que vai ser minha! -Oh, Giles! Que sorte tem! Alegro-me tanto! -exclamou Nicole com autêntico prazer. Tinha recebido seu próprio cavalo, Maxwell, no ano anterior e estava realmente encantada de que agora Giles tivesse o seu. Vestiu apressadamente o vestido enrugado do dia anterior e se preparou mentalmente para a reprimenda que lhe daria sua donzela mais tarde. Lavou rapidamente o rosto e passou uma escova pela emaranhada massa de cabelo encaracolado. Um segundo mais tarde, os gêmeos corriam escada abaixo, cruzavam o amplo e elegante vestíbulo e saíam pelas sólidas portas duplas da entrada principal da mansão. Levou-lhes só um momento descer a saltos os poucos degraus de mármore da entrada e desaparecer por um dos lados da magnífica casa de campo. De mãos dadas e quase sem fôlego chegaram às cavalariças situadas atrás da casa uns minutos depois. Nas pontas dos pés e respirando o aroma acre e forte que exsudavam os cavalos e o mais doce e fresco da palha recém-cortada, aproximaram-se da quadra do fundo. Adrian Ashford, alto e elegante, vestindo calças de camurça e uma apertada jaqueta azul de botões de prata, já estava ali, assim como também o chefe das cavalariças, o senhor Brown. Adrian olhou por cima do ombro e lhes sorriu, enquanto com um gesto lhes indicava que podiam aproximar-se mais. - Já vejo que a despertaste. Não podia esperar? - inquiriu com um amplo sorriso lhe curvando a boca aristocrática. Umas faíscas brincalhonas cintilavam em seus grandes olhos escuros. - Não! Além disso, Nicky ficaria furiosa se não o houvesse dito imediatamente. Já sabe como é mal-humorada! - respondeu Giles com olhos alegres. Nicole lhe mostrou a língua, e sorrindo com doçura para seu pai, esclareceu: - Estou crescendo. As senhoritas não são mal-humoradas!


Giles caiu na gargalhada e tanto Adrian como o senhor Brown o imitaram, para maior desgosto de Nicole. Com pena de sua filha, Adrian a levantou nos braços e murmurou carinhosamente: -Está quase muito crescida para isto, minha pequena. Dentro de alguns anos terei que recordar que já não é minha garotinha mimada. - Oh, papai! Sempre serei sua garotinha mimada! - prometeu Nicole apaixonadamente, jogando os braços ao redor de seu pescoço e abraçando-o com desespero, quase convulsivamente. Seu pai a beijou na testa e voltou a depositá-la no chão. Colocou-lhe uma mecha de cabelo castanho avermelhado escuro detrás da orelha e disse: - Tenho certeza de que o será, amorzinho. Mas venham, admiremos a bela filhinha de Sombra. - A potranca era exatamente como a havia descrito Giles: negra, tão negra e lustrosa como o ébano e com enormes olhos cor café. Com um suspiro de puro deleite e sem preocupar-se com seu vestido, Nicole se ajoelhou sobre a palha macia que servia de leito aos animais e, acariciando a potranca, cantarolou: - Oh, que bonita! Como é linda! Sombra, uma extraordinária égua puro sangue de patas longas, tão negra como sua filha, esfregou o nariz contra aquela desajeitada réplica de si mesmo e soprou pelas narinas. Nicole soltou uma gargalhada. -Acredito que Sombra está muito orgulhosa de sua filha. - Erguendo o rosto de feições delicadas para seu irmão, perguntou, excitada-: Como vai chamá-la? - Achei que você gostaria de lhe pôr o nome, já que você me deixou escolher para o Maxwell - murmurou Giles, um tanto envergonhado. -Posso? De verdade, Giles? Deixará que eu lhe escolha um nome? - É obvio, tola! Quem mais se não você. Seus olhos topázio brilharam como pedras preciosas quando Nicole voltou o olhar à potranca. Enrugou a testa, pensativa, e disse ao fim de uns minutos: -Sei que não é muito original, mas eu gosto do nome Meia-noite. Disse que nasceu logo depois das doze e certamente é tão negra como a meia-noite! - É perfeito, Nicky! - Uma escolha excelente - comentou Adrian. Em seguida, ajudando Nicole a ficar novamente de pé, disse-: Acredito que nos entretivemos muito nas cavalariças. Provavelmente sua mãe estará se perguntando onde nos colocamos. Não esqueçam que em umas poucas horas começarão a chegar nossos convidados. - Como se pudesse esquecê-lo! - protestou Nicole. Giles a olhou com um sorriso zombador e lhe disse: - Bem, se isso for o que vai vestir e se for deixar que essa juba rebelde caia assim por suas costas, parece que sim o esqueceste! - Sabe muito bem que não é assim! Espera para ver-me dentro de um momento. - E escapou correndo com a longa juba vermelha flutuando ao vento como uma bandeira.


Duas horas mais tarde, enquanto Nicole estava de pé na larga escadaria de mármore que levava a entrada de Ashland, saudando os convidados que iam chegando, ninguém teria relacionado aquela encantadora criatura com o diabinho impertinente que se ajoelhou sobre a palha do estábulo. Nicole, com porte gracioso e confiante entre seu pai e Giles, o longo cabelo vermelho escuro recolhido em uma profusão de cachos de cabelo que caíam em cascata pelas costas quase até a cintura, usava agora um elegante vestido de fina musselina amarelo ouro e saia ampla até os tornozelos, por onde aparecia a renda das delicadas anáguas. A menina era tudo o que devia ser a filha de um aristocrata. Da brilhante fita amarela que segurava seu cabelo até os pequenos escarpines de pelica branca que calçavam seus pés, era a filha que qualquer homem poderia orgulhar-se. Adrian Ashford estava realmente satisfeito tanto de seu filho como de sua filha, e era evidente pelos olhares que lhes dirigia enquanto recebiam os convidados. Nicole estava adorando cada momento daquela cerimônia. A única coisa que a decepcionava era que sua mãe, Annabelle, decidisse receber os amigos e vizinhos nos jardins, em vez de na larga escadaria de acesso à mansão junto com seu marido e seus filhos. Mas era um defeito tão pequeno em um dia tão maravilhoso, que Nicole não lhe deu importância. A festa era todo um êxito; os perfumados jardins estavam cheios de membros da classe mais rica e elegante da Inglaterra alegremente embelezados e de serventes com librés brancas e douradas que iam de um lado a outro oferecendo gigantescas bandejas de refrescos dispostos de maneira tentadora. Colocaram delicadas mesinhas brancas com cadeiras combinando debaixo dos majestosos carvalhos e nogueiras de frondosos ramos para aqueles que desejassem sentar-se à sombra e observar os outros. Nicole e Giles, saciados de limonada gelada e deliciosos bolos de creme, passavam rapidamente de um grupo a outro, desfrutando da atenção de que eram objeto. Contudo, ambos sabiam muito bem que era sua primeira festa de adultos e portanto se esmeravam por comportar-se bem, o qual não deixava de resultar surpreendente, pois todo mundo na vizinhança sabia que os gêmeos podiam ser os diabinhos mais travessos e impertinentes que poderiam encontrar. - Nem um pingo de maldade em nenhum deles - dizia o coronel Eggleston com pomposidade-. Mas que problemas podem causar esses dois! Contei-lhes a vez que caçaram uma raposa e a prenderam no galinheiro de Lorde Saxon? E essa pequena Nicole é um ouriço selvagem e incontrolável como a maioria. Diabos, se a semana passada sem ir mais longe, subiu ao mais alto da copa da velha nogueira que está à entrada de nossa casa! Sem dúvida uma atividade pouco digna de uma jovenzinha a ponto de converter-se em uma Dama! Nicole, ao aproximar-se do coronel e da senhora Eggleston enquanto conversavam com o vigário e sua esposa, ouviu o comentário e por um momento um arrebatamento súbito de raiva lhe sacudiu o corpo. Esse coronel tinha que contar a todo mundo! Pensou furiosa. Não era mais que um velho falastrão e pretensioso! Mas


a explosão de cólera desapareceu tão rapidamente como tinha vindo e os saudou com rosto sorridente. - Boa tarde, coronel Eggleston, senhora Eggleston, vigário e senhora Summerton. - Hoje está preciosa, querida - exclamou a senhora Eggleston rapidamente depois de ter percebido o olhar carrancudo que tinha escurecido por um instante o rosto radiante da menina. E porque a senhora Eggleston, com seu cabelo branco e gentis olhos azuis, era o mais parecido a uma avó para os gêmeos, e porque verdadeiramente estava se comportando o melhor possível, Nicole esqueceu imediatamente os comentários do coronel. Entretanto, não ficou com eles muito tempo, já que ao ver seu pai só em uma esquina da casa encaminhou seus passos para ele. Adrian lhe rodeou os ombros com o braço e a estreitou contra seu corpo. -Feliz, minha filha? -OH, sim... Mas estou me cansando um pouco de sorrir a todo mundo e de me comportar tão bem. Não quererão voltar logo para suas casas? Adrian soltou uma gargalhada. -Que falta de tato! Mas é exatamente o que eu penso! - Olhando a seu redor, perguntou com indiferença -: Onde está sua mãe? Faz uns minutos que não a vejo. - Está caminhando pelo jardim de rosas com o senhor Saxon, acredito. Ao menos foi ali onde a vi pela última vez. Assombrada, Nicole sentiu que se esticava o corpo de seu pai e levantou a carinha para lhe ver o rosto. Subitamente pareceu mais tenso e mais severas as rugas marcadas pela risada. Mas então riu com uma risada peculiar que Nicole não tinha ouvido antes nele. - Bem, por que não vamos buscá-los? E como a ela nada agradava mais que estar em companhia de seu encantador pai e de sua linda mãe, aceitou alegre a sugestão e caminhou atrás de seu pai que já tinha empreendido o caminho a grandes pernadas para o jardim de rosas que se estendiam à esquerda do gramado. Encontraram Annabelle e Robert Saxon poucos minutos depois nos fundos do jardim. Annabelle, que usava um lindo vestido de cintura alta cor verde folha que mostrava seus seios mais do que o conveniente, estava languidamente recostada sobre os almofadões amarelo brilhante de uma poltrona do jardim, situado debaixo de um salgueiro que lhe brindava com sua sombra. Robert Saxon se achava sentado a seu lado com a cabeça inclinada atentamente em direção a Annabelle. Em um arranque de inocente orgulho, Nicole não pôde deixar de admirar a deslumbradora beleza de sua mãe, sua chamejante cabeleira vermelha, as feições absolutamente perfeitas e os olhos de gata de cor esmeralda. Annabelle Ashford era sem dúvida uma das mulheres mais adoráveis e belas de toda a Inglaterra.


-Ah, estava aqui, querida -disse Adrian-. Não acha que trata a seus convidados com certa descortesia ao abandoná-los? Annabelle encolheu os ombros com displicência, e estendendo os braços a Nicole brindou-lhe com um de seus deslumbrantes sorrisos. A menina correu ansiosamente para seus braços. Não era frequente que sua mãe lhe demonstrasse seu afeto e Nicole entesourava esses estranhos momentos. Com a cabecinha apoiada sobre os adoráveis seios de Annabelle, Nicole sorriu timidamente a Robert Saxon, que lhe devolveu o sorriso com um tom zombador. Dirigindo a seu marido um olhar calculador, Annabelle murmurou: - Faz muito calor, Adrian, e sabe bem que estas festas campestres não são de meu agrado. Retornarei em um momento. Só queria desfrutar de uns minutos de paz e quietude, e Robert se ofereceu tão galantemente a me acompanhar longe de todos esses rústicos charlatões, que não pude resistir. Nicole ergueu os olhos redondos de assombro e os cravou nos de sua mãe. -Não gosta da festa, mamãe? Parece-me magnífica! - Certamente que sim, carinho! O que acontece é que esta classe de reuniões sociais não são tão excitantes como as que estamos acostumados a frequentar seu pai e eu em Londres. Não Prestes atenção às palavras de sua mãe. Satisfeita com a explicação, Nicole voltou a reclinar-se sobre o peito de sua mãe sem dar-se conta do quadro encantador que apresentavam. Foi Robert Saxon quem fez um comentário a respeito: - Tenho que te felicitar, Ashford, por possuir uma esposa tão adorável e, aparentemente, uma filha também extremamente adorável. Com esse cabelo, essa boca e esses imensos olhos cor topázio, em alguns anos terá pretendentes chamando a sua porta. Nicole se ruborizou e virou a cabeça, embora estivesse muito satisfeita pelo elogio. Adrian olhou longamente para Saxon sem nem sequer sorrir e fez um comentário evasivo. Percebendo que os três mais velhos só estavam conversando tolices diante dela, depois de um último abraço Nicole se incorporou. -Se me desculparem, irei à busca de Giles. - Pode ir, meu amor - respondeu Adrian, e sem pensar mais Nicole partiu pelo caminho de paralelepípedos em direção a casa. O ar estava impregnado de um suave aroma de lavanda que se mesclava com o forte perfume das roseiras que ladeavam o caminho. Respirando fundo, Nicole saboreou a embriagadora fragrância que a rodeava. Hoje tinha sido um dia especial. Tão perfeito que o recordaria para sempre. Sua primeira festa entre adultos, e mamãe tão adorável e papai tão elegante e bondoso. Era maravilhoso. Maravilhoso viver aqui em Ashland, maravilhoso ter um irmão como Giles e ser a filha de tais pais. Com uma sensação de orgulho crescente se aproximou da majestosa casa que chamava de lar pensando nas gerações dos Ashford que tinham vivido nessa mesma casa, dos Ashford que tinham navegado com Drake, dos Ashford que tinham lutado contra


Cromwell e tinham ido ao exílio com seu príncipe, dos Ashford que tinham sido conselheiros e amigos dos diferentes monarcas, e sentiu que lhe enchia o peito de orgulho. Algum dia ela também faria grandes coisas! Seriamente que sim! E Giles e mamãe e papai estariam muito orgulhosos dela. Depois, rindo de sua própria veemência, começou a correr em busca de Giles. Encontrou-o como era de esperar no palheiro das cavalariças, que era o lugar perfeito para olhar do alto Sombra e Meia-noite, e os gêmeos passaram vários minutos juntos observando os movimentos ainda torpes e inseguros da potranca. De repente, Nicole ficou novamente em pé e sacudiu a saia para desprender a palha que se aderiu ao vestido. -Será melhor que retornemos, Giles. Papai considera uma descortesia abandonar nossos convidados. Giles assentiu com impaciência e lentamente começou a descer os degraus da escada que levava ao chão da quadra. Nicole o seguia quando o pé escorregou e começou a cair. Tratou de salvar-se, só que não pôde recuperar o equilíbrio e seu corpo mergulhou para baixo, baixo, baixo...

Afogando um grito, Nicole se sentou na cama e seus olhos enfebrecidos percorreram o quarto. Era seu dormitório, como devia ser, só que diferente. Os móveis eram os mesmos, mas o baú já não estava cheio de brinquedos nem havia um vestido enrugado sobre o braço da cadeira de balanço. Também se sentia diferente em seu interior, porque se deu conta, desconsolada, de que tinha estado sonhando de novo com aquele dia maravilhoso há mais de um ano, com a vida que tinham levado então, sonhado que Giles, mamãe e papai ainda estavam vivos. Reprimiu um soluço, afastou as mantas e cravou o olhar na porta. Sabia que nunca mais Giles invadiria seu dormitório, que seu pai nunca mais voltaria a chamá-la de sua garotinha mimada, que sua mãe jamais voltaria a estreitá-la contra seu peito. Escapou de sua garganta um gemido de dor e com movimentos torpes avançou, cambaleante, para a janela que dava ao gramado dos fundos, esse gramado onde fazia só um ano se realizou aquela festa inesquecível. Parou diante da janela e cravou o olhar vazio na distância. Só podia angustiar-se e lamentar da rapidez com que tudo podia mudar. Seis semanas depois da festa do jardim viajaram a Brighton. Adrian tinha decidido que o ar marinho seria uma mudança muito agradável para todos eles. E foi... No começo. Giles, ela e toda a família amavam o mar, com bastante frequência, saíam para navegar na baía de Brighton, deleitando-se com o ar revigorante e as ondas. Adrian até havia lhes comprado um pequeno iate que batizou de Nicole, coisa que quase tinha feito à menina explodir de orgulho. OH, sim, foi algo maravilhoso... Até aquele dia.


Aquele dia o céu estava um pouco nublado e um forte vento soprava pela baía, o mar estava agitado e o tempo não parecia que fosse melhorar. Adrian e Annabelle planejaram com certa antecipação sair para navegar sozinhos no Nicole porque Annabelle tinha alegado que queria ter seu marido só para ela por um tempo. Mas Giles, como o diabinho travesso que era, decidiu surpreender seus pais entrando furtivamente a bordo e escondendo-se na cabine, decidido a não deixar-se ver até que o iate estivesse o bastante longe para que não pudessem devolvê-lo ao cais. Talvez se Nicole não tivesse torcido o tornozelo e não tivesse tido que guardar repouso, Giles teria ficado com ela. Salvo pelo tornozelo deslocado, possivelmente Nicole também se unisse a essa travessura. Mas o destino decidiu outra coisa: Nicole estava confinada na residência de verão observando do balcão que dava à baía quando ocorreu o acidente. Com o pé comodamente levantado sobre uma pilha de almofadas macias, viu o Nicole afastar-se com destreza do cais e deslizar-se sobre as ondas agitadas da baía. Sorrindo, imaginou a aparição inesperada de Giles no convés. Mas de repente o sorriso se desvaneceu, pois o pequeno iate que estava navegando com o vento, virou a esmo e deu um giro em volta de si mesmo. Ante o olhar horrorizado de Nicole, o brilhante iate branco afundou quase imediatamente sob as águas agitadas da baía. As horas que seguiram ao acidente foram dominadas por um medo sufocante enquanto ela aguardava alguma notícia de sua família. Não podiam afogar-se, não podiam, repetia-se uma e outra vez como se fosse uma prece. Logo começaram a chegar vários amigos dos Ashford, a senhora Eggleston entre eles. Foi precisamente a senhora Eggleston quem teve a dolorosa tarefa de informar à garotinha pálida que sustentava entre seus braços que seus pais tinham morrido afogados; seus corpos tinham sido arrastados até a praia pela maré antes do amanhecer. Nada se soube do Giles e se acreditava que tinha ficado preso na cabine do iate sem poder sair à superfície. O mero pensamento de Giles preso para sempre no fundo do mar fez com que a dor voltasse a ser tão intensa e insuportável que Nicole fechou os olhos e deixou escapar um grito afogado de angústia, desejando acreditar com todas suas forças que aquilo não tinha sido mais que um horrível pesadelo. Mas não era. Em certo modo, Nicole sentia mais falta de Giles que do Adrian ou de Annabelle, pois seguindo o costume das famílias aristocráticas da época, seus pais estavam frequentemente muito ocupados para seus filhos, e Nicole e Giles estavam mais familiarizados com babás e preceptores que com seus próprios pais. A morte de toda a família tinha sido para Nicole uma tragédia em mais de um sentido. Não só perdeu seu irmão gêmeo, seu pai e sua mãe, mas essas mortes a deixavam completamente só no mundo, sem parentes próximos. E isso não resultaria tão dilacerador se o coronel Eggleston e sua esposa tivessem sido nomeados seus tutores. Ao menos com eles teria se sentido amada e querida. Mas Annabelle tinha


uma meio-irmã, Agatha, que junto com seu marido William Markham reclamou a tutela alegando ser parente direto da família. Os Markham estavam relacionados só remotamente com ela, mas como seu direito era maior que o de uns vizinhos carinhosos como os Eggleston, Agatha e seu marido tinham sido nomeados seus tutores. Tutores da pequena Nicole Ashford e administradores de sua muito vasta fortuna. Foi e ainda era um arranjo muito infeliz para Nicole. Uns estranhos ocupavam agora os aposentos onde seu pai e sua mãe tinham dormido. Nem sequer se salvaram os aposentos de Giles, pois Edward, seu primo de dezessete anos, tinha exigido com arrogância que lhe fossem destinados. Os Ashford não se relacionavam muito com os Markham, posto que as duas meio-irmãs demonstraram mútua aversão ao longo dos anos. E o mais importante de tudo, Annabelle provinha de uma família nobre e enriquecida, enquanto que Agatha, a despeito do oportuno matrimônio de sua mãe viúva com um viúvo rico e aristocrata, apenas era de boa família. E agora Nicole estava sob a autoridade de uma tia com quem não tinha nada em comum, uma pessoa a quem quase nem conhecia e um tio cuja vulgaridade e grosseria lhe renderam o desprezo da aristocracia local. Reclinando a cabeça no batente da janela, Nicole viu o dia através de olhos nublados pelas lágrimas. Se Giles estivesse vivo, as coisas não seriam tão ruins. Se Giles estivesse com ela, os Markham talvez não lhe pareceriam tão abomináveis. Ao menos então Giles e ela poderiam encontrar consolo um no outro. Mas agora... Só quando começou a vestir-se recordou que a senhora Eggleston viria visitá-la essa manhã e se animou um pouco. Ao pensar na recente tragédia da senhora Eggleston esqueceu por um momento seus próprios problemas. O coronel tinha morrido há menos de duas semanas e agora, disse-se Nicole, era hora de consolar a sua viúva. «Poderemos nos consolar mutuamente e juntas enfrentaremos qualquer coisa», pensou a menina.


CAPÍTULO II

-Não pode me abandonar! -explodiu Nicole subitamente -. Não pode fazer isso! Oh, senhora Eggleston, me diga que não é verdade. Por que deve partir para o Canadá? -choramingou Nicole triste. Tinha empalidecido ao ouvir o que a senhora Eggleston acabava de lhe revelar. Ambas estavam no salão azul, e a senhora Eggleston com muita suavidade e delicadeza acabava de lhe dar a má notícia de que partiria à manhã seguinte rumo ao Canadá. A voz de Nicole soou tão desolada e triste que por um momento abalou a decisão da senhora Eggleston. Já sabia que a menina ficaria consternada e por isso mesmo, covarde e deliberadamente, deixou esta visita para o final. A reação de Nicole a comoveu mais do que tinha esperado ou queria admitir, mas sorrindo com determinação, disse: -Querida, por mais que quisesse ficar aqui e por muito que sentirei sua falta, não posso seguir vivendo em Beddington's Corner por mais tempo. – Os descoloridos olhos azuis pareciam suplicar a compreensão da menina -. De vez em quando todos temos que fazer coisas que preferiríamos não fazer, e esta, temo-me, seja uma dessas ocasiões. Daria qualquer coisa para não ter que te abandonar agora, mas me é impossível seguir vivendo em Rosehaven. - Mas, por quê? - inquiriu Nicole. Seus enormes olhos, muito abertos e suplicantes, brilhavam por causa das lágrimas contidas. Sentindo-se ainda mais culpada, se isso fosse possível, a senhora Eggleston desejou poder brindar a Nicole uma migalha de consolo. Pensou compassivamente na pobre criatura ao recordar como se desvaneceu a luz de seu rostinho quando recebeu a notícia da morte de seus pais. Uma luz que jamais tinha retornado ao seu rosto. Deliberadamente, a senhora Eggleston se negou a pensar nos Markham e no que estavam fazendo à menina, e só conseguiu seguir falando depois de recordar-se severamente que não estava em condições de fazer nada pela criatura que tinha diante de si. -Querida, sei que as coisas são muito difíceis para ti neste momento, mas com o tempo talvez não as encontre tão terríveis como lhe parecem agora. Dentro de poucos anos será toda uma Dama e assistirá a todas as festas sociais de Londres. Então tudo isto te parecerá só um sonho ruim. Foi uma desafortunada escolha de palavras. Nicole tinha muito fresco na memória o sonho sobre sua vida tal como era no passado e as lágrimas que essa manhã tinha contido com muita força de vontade, derramaram-se subitamente e


rodaram por suas bochechas. A senhora Eggleston sentiu que se enchiam seus olhos de lágrimas, e soltando um murmúrio inarticulado, estreitou Nicole contra seu peito. O pequeno corpo da menina se sacudia entre soluços. - OH, minha pequena, não chore assim! Por favor, não o faça! Logo eu também estarei soluçando e não obteremos nada. Lutando para recuperar o controle sobre si mesmo, finalmente Nicole conseguiu conter as lágrimas, mas continuou soluçando. Obrigou-se a si mesmo a separar-se da senhora Eggleston e disse quase sem voz: - Sinto muito, não devia me comportar como uma criança. É que nunca pensei que me abandonaria. Desolada, a senhora Eggleston murmurou suavemente: - Nicole, querida, não é o fim do mundo, já o verá. Escreverei-te e deve me prometer que responderá a todas as minhas cartas. Continuaremos sabendo como vamos na vida e embora saiba que não é a mesma coisa que nos vermos, será suficiente. Já verá como tenho razão. -OH, como pode dizer isso! Sabe que minha tia regula cada pinique que lhe peço... Já imagino negando-se a pagar a escandalosa soma de dinheiro que se necessita para enviar uma carta ao Canadá - exclamou Nicole com veemência, e nesse momento pareceu recuperar um pouco de sua antiga vitalidade. A senhora Eggleston mordeu o lábio. O que dizia Nicole era verdade. A mansão, as terras e a fortuna pertenciam a Nicole. Entretanto, os Markham, depois de mudar-se para lá com seu filho, atuavam como se Nicole fosse um estorvo desnecessário com o qual tinham que viver. Mais de uma vez, a senhora Eggleston tinha visto Agatha mandar Nicole daqui para lá como se a menina fosse uma mendiga abandonada que, inadvertidamente, ousava aparecer ante sua augusta presença. E Edward não media palavras quanto a demonstrar sua aversão por sua prima, tratandoa com tanta hostilidade que consternava a senhora Eggleston. Quanto a William, o marido de Agatha, o peito da senhora Eggleston se inchou de indignação ao recordálo; passava todo o tempo fazendo comentários repugnantes e vulgares e parecia estar sempre beliscando as bochechas ou os braços de Nicole, rindo de sua pequena benfeitora. Ao olhar a esguia figura vestida de musselina branca, à senhora Eggleston achava incrível que essa menina magra de rosto cansado e olhos opacos que se encontrava agora de pé, abatida, do outro lado do salão, pudesse ser a mesma Nicole que tinha pulado tão cheia de felicidade e alegria no dia da festa do jardim. Recuperaria algum dia esse ar de júbilo, voltaria a irradiar felicidade outra vez? Recordando-se mais uma vez que não podia fazer nada para remediar sua desgraça, a senhora Eggleston fechou sua mente para mais pensamentos perturbadores. Compreendendo que alongar essa despedida resultaria penoso para ambas, disse com forçada alegria: - Bem, me escreva quando puder, meu amor. E agora temo que devo partir.


Foi necessário muita coragem e determinação para abandonar essa criatura solitária e afligida, mas sabia que não podia lhe oferecer outra alternativa já que ela estava, de fato, em piores condições que Nicole. Ao menos a menina tinha um teto sobre sua cabeça. A senhora Eggleston saiu do salão rapidamente, mas com o coração oprimido. A angústia que afligia à senhora Eggleston não se devia só aos padecimentos de Nicole. Ela mesma se encontrava em sérias dificuldades, em apuros muito graves, mas por nada no mundo deixaria que alguém se inteirasse deles, e certamente não os ia contar a Nicole, pois a pobrezinha já tinha muitas amarguras em sua vida. A morte inesperada do coronel Eggleston por causa de uma inflamação pulmonar tinha sido um grande golpe para ela, mas outro mais rude esperava a recente viúva. Pouco depois do falecimento descobriu que o coronel não só não lhe tinha deixado nenhuma fortuna, mas também além disso estava terrivelmente endividado. Rosehaven, a elegante mansão onde a senhora Eggleston tinha vivido durante mais de vinte anos, seria vendida, assim como também todos aqueles objetos de valor que o casal tinha reunido ao longo de seus quarenta anos de matrimônio. Teria que enfrentar o mundo sem um penique em um momento de sua vida em que tinha esperado gozar de um futuro seguro e sem sobressaltos. Ninguém, e muito menos Nicole, inteirou-se da desgraça que havia tocado sua sorte, e com orgulho gentil e obstinado estava resolvida a seguir mantendo-o em segredo. A suas amizades, e tinha muitas, dizia-lhes com um amplo sorriso que Rosehaven guardava muitos lembranças... Que era uma casa grande para uma mulher velha e só como ela e que de todos os modos desejava uma mudança. Aos que lhe perguntavam onde viveria no futuro lhes respondia que se alojaria com uns parentes longínquos no Canadá. Na verdade, tinha sido muito afortunada ao conseguir um emprego como dama de companhia de uma velha dama francesa que estava a ponto de partir da Inglaterra ao Canadá. E como à senhora Borair pensava embarcar na quarta-feira, esse era o último dia da senhora Eggleston em sua amada Beddington's Corner. Retornou a Rosehaven e passou o resto da manhã fazendo as malas. Passaria essa noite no The Bell and Candle, a única estalagem que havia em Beddington's Coner, e partiria na manhã seguinte para Londres. E assim, deprimida e triste, continuou dobrando as roupas que considerava mais adequadas para seu novo emprego. Depois ficaram várias horas livres antes que chegasse a carruagem que a levaria ao centro de Beddington's Corner. Durante essas horas vagou pelas amplas salas vazias de sua casa pela última vez, despedindo-se de tudo o que tanto tinha amado em sua vida. A casa guardava muitas lembranças, pensou com melancolia, algumas tristes, outras felizes. Deteve-se diante de um mirante que dava ao lago, e como se fosse ontem, viu Christopher Saxon, rindo alegremente, seu juvenil rosto moreno e o espesso cabelo negro azulado lhe dando a aparência de um bandoleiro selvagem,


enquanto pescava do lago de águas pouco profundas a uma Nicole de só quatro anos que gritava a todo pulmão. Perguntou-se com pesar o que teria sido desse jovenzinho brilhante e distinto. Não tinha pensado em Christopher por anos, pois era uma lembrança dolorosa, e se perguntou se o moço ainda seguiria com vida. Estava tão bonito durante aquela primavera há nove anos – alto, bonito, pele bronzeada e olhos de incrível fulgor âmbar dourado, que parecia impossível que pudesse estar morto, ou que tivesse sido capaz de cometer as atrocidades que se murmuravam dele. A senhora Eggleston conhecia Christopher e Nicole desde que eram meninos e ele também, assim como os gêmeos, tinha sido um visitante assíduo de sua casa. Sorrindo com ironia, reconheceu que parecia ser seu destino sempre afeiçoar-se pelas crianças e entretanto, não poder ter uma própria. Mas Christopher quase tinha sido o neto que nunca teria, e ainda não se resignava a acreditar nas histórias que se contavam dele. Deixando de lado esses pensamentos tristes, repreendeu-se com dureza: não tinha sentido desenterrar o passado. Resolutamente deu as costas ao lago, mas ao recordar o que tinha acontecido na última vez que se afastou de Beddington's Corner, vacilou. Se aquele verão não tivesse partido com seu marido a Espanha, talvez Christopher ainda estaria com eles, um jovem de vinte e quatro anos, e não vagando pelo mundo e em desgraça se é que ainda seguia vivo. Atemorizava-a deixar Nicole convencida de que estava em uma situação desgraçada. Mas sabendo que não havia mais nada que ela pudesse fazer, a senhora Eggleston se disse que só porque ao deixar Christopher tinha sofrido uma desgraça não tinha por que acontecer o mesmo a pobre Nicole. Certamente que não! E no entanto, sem que a senhora Eggleston fosse plenamente consciente disso, sua partida de Beddington's Corner certamente marcaria o início de uma nova vida para Nicole; uma vida cheia de enganos e perigos. Sua partida de algum modo iria despertar Nicole da apatia em que caiu depois da morte de seus pais, e foi em um estado de ânimo pensativo e introspectivo que se reuniu com os Markham e seu filho, Edward, à hora do almoço. Depois da refeição, Edward, com um brilho zombador em seus olhos azuis e um rictus malicioso nos lábios que desmerecia a beleza de suas feições, dirigiu-se ofensivamente a Nicole: - Pobre bebê, agora está completamente sozinha. Vá! O que fará agora? Entreabrindo as pálpebras ao ver que Nicole não reagia, continuou - Bom, agora que a velha «Eggie» se foi, possivelmente tenhamos um pouco de paz nesta casa e não nos tropeçaremos com ela com frequência. E talvez agora será um pouco mais amável comigo... Não te parece, querida prima? Nicole lhe dirigiu um olhar desdenhoso. A maioria das vezes podia provocálo até lhe fazer perder a paciência para em seguida sorrir beatificamente quando seus


pais a repreendiam por sua aparente falta de controle. Mas hoje Nicole estava muito angustiada pela partida da senhora Eggleston para rebelar-se. Edward, compreendendo que sua prima não lhe proporcionaria nenhuma diversão, encolheu os ombros e saiu da sala de jantar, presumivelmente em busca de companhia mais alegre. Agatha, cujas feições gordinhas conservavam um vestígio de beleza, observou com evidente carinho a saída majestosa de seu único filho. Tinha o descolorido cabelo loiro artificiosamente arrumado em uma cascata de cachos de cabelo que só teria sido apropriada para uma jovenzinha que tivesse a metade de sua idade, e o vestido que tinha posto, embora muito na moda, parecia ter sido feito para uma mulher que pesasse vários quilos a menos que ela. Ao observar como se inchava o peito de sua tia de orgulho maternal quando Edward transpôs a porta, Nicole ficou olhando fascinada a forma como as costuras se esticavam quase até rasgar-se e entretanto conseguiam não explodir. Quando Edward saiu da sala, Agatha recolheu a carta que tinha estado lendo a William. Era de uma amiga particularmente íntima que vivia em Londres. -OH, escuta isto, William! Beth escreve que conheceu Anne Saxon! - e Agatha começou a ler em voz alta -: «A semana passada tive a sorte de conhecer alguns de seus vizinhos”. Não lhe disse que Ashland delimitava com a herdade do barão Saxon? Estou segura de que assim foi. Bem, querida minha, aí estava eu na biblioteca Hookham's e com quem acha que me encontrei? Nada menos que com a jovem Anne Saxon! É uma garota muito bonita com todos esses cachos de cabelo dourados e esses olhos tão, tão azuis. Pelo que entendi veio passar a temporada social em Londres e os cavalheiros já a qualificaram como a "incomparável". Se diz por aí que até estão apostando que se comprometerá antes que comece realmente a temporada». Pondo a carta de lado, a tia lançou um olhar rancoroso a pobre Nicole. -Sabia que Anne estaria em Londres? Nicole suspirou. Acima de tudo, sua tia ambicionava confraternizar com a aristocracia e havia se sentido mortificada e furiosa quando lhe fez entender quase à força que enquanto todas as portas estavam abertas para a órfã Nicole Ashford, estas não se abririam de par em par para seus tios de menor linhagem. Portanto, tratando de evitar que sua tia a submetesse a um de seus famosos ataques cheios de frustração sobre a injustiça de «certas» pessoas, respondeu em tom moderado: - Não. Anne tem dezoito anos. É quase uma adulta. Por que teria que me dizer que partiria a Londres? - E decidindo que o caminho mais acertado era lhe devolver o ataque, Nicole perguntou-: Por que te interessa tanto o que faz Anne? Olhando-a com desgosto, Agatha replicou com raiva: - Será melhor que tenha muito cuidado com o que diz, senhorita!


William, o rosto inchado e vermelho pelos efeitos de várias taças de vinho que se serviu durante o almoço, exclamou com sinceridade. -Vá! Vamos! Não deve repreender desse modo a nossa pobre Nicole, recorda o quanto lhe devemos. Espero que quando crescer um pouco se interesse mais por essas fofocas que você tanto gosta. Pelo menos uma vez Nicole agradeceu a intervenção de seu tio, embora nem por isso lhe teve mais carinho. Manteve os olhos baixos cravados na mesa e pela enésima vez desejou ter estado também no iate aquele dia fatídico. Odiava esses constantes conflitos que explodiam por nada e a defesa protetora de seu tio era, às vezes, pior que as repreensões de sua tia. Agatha, não satisfeita de tudo ainda, murmurou: - Duvido-o! É a criatura mais insípida que conheço! William tratou de aplacar os ânimos placidamente. - Não perca os estribos, meu amor. Quando Nicole for apresentada na sociedade, mudará. Não tenho a menor duvida. -Mas é que Nicole não será apresentada em sociedade - disse Agatha bruscamente. Nicole levantou a cabeça de repente ao ouvi-la e pôde interceptar o olhar furioso que seu tio lançou a sua esposa. - Por que não serei apresentada em sociedade? - perguntou, perplexa. Sua tia pareceu confundida e evitou a pergunta. -Basta já de falar! Pode te levantar da mesa. Sabendo que algo andava muito mal, Nicole ficou rígida e ergueu o queixo, desafiante. - Por que não me apresentará em sociedade? Fulminando-a com o olhar e lhe demonstrando abertamente a aversão que sentia por ela, Agatha explodiu: - Porque vai te casar com o Edward! Não há necessidade de gastar todo esse dinheiro em uma temporada em Londres para procurar marido. Já está tudo arrumado. Muda de assombro por um momento, Nicole só pôde ficar olhando fixamente a sua tia. Casar-se com o Edward! Casar-se com esse ocioso e perverso filho das duas pessoas que mais detestava no mundo? - Edward! - exclamou finalmente com evidente repulsão -. Jamais me casarei com ele! Devem estar completamente loucos se acham que o farei! De súbito seu tio, com o rosto mais avermelhado ainda pela cólera, ordenou: - Agora não seja tão presunçosa e escuta o que temos para te dizer! Possui uma imensa fortuna e nós somos seus únicos parentes. Não queremos que ninguém se aproveite de ti. - Em tom mais calmo continuou-: Seu matrimônio com o Edward assegurará que tudo fique em família. Não permitiremos que nenhum aventureiro caça-dotes se case contigo por seu dinheiro.


- Não, de caça-dotes já basta vocês! - explodiu Nicole com absoluto desdém, os olhos topázio quase negros de fúria e o rubor lhe corando as bochechas. Levantouse de um salto da cadeira e com uma voz que tremia de ira mal contida, esclareceu-: Esquecem que vocês não são realmente meus parentes diretos! Que a fortuna que tanto lhes preocupa não pertence a sua família a não ser à minha! Depois, sem sequer escutar os gritos destemperados de William lhe ordenando que permanecesse em seu lugar, saiu correndo da sala de jantar, atravessou toda a casa e se refugiou nos estábulos. Na quietude das cavalariças, respirando ainda agitadamente, reclinou a testa acalorada sobre o pescoço sedoso de seu cavalo. Na verdade, já não pertencia tão somente a ela, pensou com amargura, pois antes de gastar dinheiro em comprar um cavalo ao Edward, William tinha ordenado que seu filho poderia usá-lo quantas vezes quisesse. Maxwell tinha sido um presente de seu pai ao completar onze anos e a mortificava ter que compartilhá-lo com alguém que maltratava tanto aos animais como Edward. Com dedos carinhosos acariciou a ferida ainda aberta que tinham feito às esporas de Edward na pele lustrosa. «Oxalá Edward montasse outro cavalo», pensou sentindo-se mais desventurada ainda. Era verdade que havia outros cavalos nos estábulos, mas nenhum tão magnífico como Maxwell, pois seu tio, no que proclamava ser uma jogada acertada para economizar dinheiro, tinha vendido todos os cavalos de caça e os puro sangue de seu pai, deixando na quadra só alguns pangarés e um par de cavalos para as carruagens. Maxwell também teria sido leiloado com os outros, só que Nicole tinha despertado da letargia em que se encontrava desde as mortes de sua família para desafiar seu tio, exigindo saber com que direito vendia coisas que em realidade eram dela. Seu tio voltou atrás, já que não desejava que lhe formulasse muitas perguntas a respeito de aonde ia todo esse dinheiro. Um som de passos devolveu Nicole ao presente. Imediatamente se encolheu no canto mais distante dos estábulos, posto que neste preciso momento não desejava falar com ninguém. Ansiava que quem quer que fosse se afastasse dali o quanto antes, mas em vez de fazê-lo, um momento mais tarde alguém mais se reuniu com o primeiro intruso. Nicole ouviu um suave murmúrio, depois uma gargalhada afogada e depois silêncio. Curiosa, espiou por cima da quadra e ficou paralisada ao ver o Edward, com as calças baixadas, deitado sobre um montão de feno com Ellen, a empregada da cozinha. As mãos de Edward desapareceram debaixo das saias de Ellen e Nicole piscou incapaz de acreditar no que estava vendo. -OH, senhor Edward, o que pensaria a senhorita Nicole se pudesse vê-lo neste momento? - brincou Ellen abrindo as coxas ante o olhar horrorizado de Nicole, enquanto Edward se deitava sobre seu corpo. Nicole não era tão menina para ignorar o que estavam fazendo, e enojada virou a cabeça para não seguir contemplando-os. Edward grunhiu em voz alta e murmurou com voz pastosa:


- A pequena Nicole fará o que lhe mande. Nicole provou o sabor da bílis que tinha subido até sua garganta, e acreditou que vomitaria. Mas resistiu a onda de náuseas e, com os olhos fechados e a mente em branco, esperou até que terminassem seu desprezível ato. Depois do que pareceu uma eternidade, acreditou ouvi-los ficar de pé e depois, mais claramente, ouviu a voz de Edward. -Virá esta noite a meu quarto? O sussurro de Ellen não chegou até Nicole, pelo qual se sentiu agradecida. Tinha ouvido bastante e não desejava escutar mais nada. Depois que partiram da quadra, ela continuou petrificada em seu lugar durante mais alguns minutos. Em seguida, como uma raposa perseguida por uma matilha selvagem, saiu aos tropeções e empreendeu uma veloz carreira para o bosque que crescia detrás dos estábulos. Às cegas, encontrou o caminho que levava ao deserto chalé de verão que se converteu em seu refúgio preferido. O chalé não ficava nas terras dos Ashford, mas sim pertencia ao vizinho mais próximo, o Barão Saxon. Sempre tinha tido um atrativo especial para Nicole, e ultimamente só encontrava um pouco de consolo e distração entrando ali às escondidas como uma intrusa e subindo ao sótão do chalé para esquecer seus pesares sonhando acordada. O chalé se associava em sua mente com épocas mais felizes, momentos em que tinha sido muito jovenzinha e em que os Ashford e os Saxon se visitavam mutuamente com frequência. Todas essas lembranças a levavam sempre a esse lugar. O chalé foi se deteriorando com o passar dos anos. Os sofás e poltronas macias, sempre verde com suas almofadas vermelhas descoloridas estavam gastas e opacas, as paredes estavam rachadas e descascadas. O edifício já não era de um amarelo alegre e brilhante, mas sim de um tom triste e parecido ao da terra molhada, que não dava nenhuma pista sobre seu encanto passado. Anos atrás, Giles e ela tinham descoberto o pequeno sótão que no passado se utilizava como armazém de inverno. Os gêmeos o tinham convertido, imediatamente, em seu lugar secreto; um lugar onde ninguém os incomodava, um lugar onde podiam deitar-se no chão e olhar o céu azul pelo buraco do teto enquanto compartilhavam segredos e sonhavam em voz alta. Mas isso pertencia ao passado, refletia Nicole enquanto subia pelos degraus que conduziam ao sótão. Os acontecimentos desse dia só haviam agudizado os padecimentos que estava suportando e a aflição que a embargava cada vez que considerava seu futuro. Nunca mais poderia consolar-se se dizendo que as coisas se arrumariam sozinhas, porque obviamente não o fariam. Os Markham acreditavam de pés juntos que tanto sua fortuna como sua própria pessoa lhes pertenciam para dispor delas como quisessem. Mas não lhes permitiria fazer o que bem entendessem, prometeu-se com firmeza. E pela primeira vez em muito tempo, o espírito indomável e a obstinação que


sempre tinham preponderado nela, despertaram e se agitaram depois de um longo sono. O que fazer? Perguntou-se, consternada. Jamais cederia aos planos dos Markham! Edward era um ser desprezível e repugnante. Com uma expressão de asco, franziu o nariz ao recordar os ofegos que tinham brotado dos corpos enfebrecidos que se retorciam no feno. Edward jamais, mas jamais, faria isso a ela! Tendo tomado tal resolução, Nicole pareceu sentir-se melhor. Mas, sabendo que a menos que os fatos fossem propícios ou que tomasse ela mesma o destino em suas débeis e delicadas mãos, estava condenada a casar-se com Edward, começou seriamente a considerar a possibilidade de escapar. Sem muito entusiasmo começou a refletir sobre os métodos que poderia utilizar para obtê-lo, e como a seus treze anos era ainda muito ingênua, não tinha consciência dos obstáculos que se apresentariam em seu caminho. Primeiro, sua fantasia a levou a pensar em converter-se em taberneira em alguma estalagem desconhecida e distante cujo bondoso proprietário e sua esposa terminariam afeiçoando-se por ela. Depois, decidiu que em lugar disso, fugiria para Londres e ofereceria seus serviços como donzela... Ou talvez, como dama de companhia de alguma anciã encantadora... Ou era muito jovenzinha para isso? Melhor ainda, disfarçaria-se de menino e empreenderia uma vida aventureira nas filas do exército ou, melhor ainda, na Armada Real-. Acaso não tinha planejado Giles ser oficial da marinha, não foi o almirante Nelson o herói de seu irmão como também o dela mesma? E quando seu pai, rindo, informou-lhe que não poderia seguir seu irmão ao alto mar, não tinham planejado os dois gêmeos que ela subiria a bordo clandestinamente no navio atribuído a seu irmão para divertir-se lutando contra os franceses? Quanto mais pensava nisso, mais a atraía esse plano desatinado que quase tinha ficado no esquecimento. Exalou um longo suspiro e de súbito desejou com toda sua alma a presença reconfortante de Giles a seu lado. O som dos passos de alguém que se aproximava do chalé dispersou seus pensamentos e cautelosamente espiou desde seu refúgio do sótão. Tranquilizou-se ao reconhecer a figura ligeiramente roliça de Sally O pai de Sally tinha sido o cavalariço principal de Ashland até que William, em outro arranque de mesquinharia, despediu-o. Sally e Nicole se conheciam desde criança. Sally Brown era mais velha que Nicole, logo faria dezesseis anos, e já algum tempo a amizade que as unia tinha começado a mudar devido ao crescente interesse de Sally pelo sexo oposto; algo que no momento aborrecia a Nicole. -Nicky, está aí acima? -gritou Sally assim que entrou no chalé. E, com um grunhido, Nicole respondeu de mau humor. -Sim, aqui estou. O que quer? -Bem, desça de uma vez e lhe direi! Nicole fez uma careta, convencida de que Sally estava a ponto de aborrecê-la lhe contando alguma história tola sobre o suposto interesse amoroso que sentia o filho


do fazendeiro do condado. Mas contudo, quase se alegrou de ver Sally hoje, pois era de natureza alegre e seu bate-papo lhe faria esquecer no momento à família Markham e a iminente partida da senhora Eggleston. Com olhar sonhador, Sally suspirou. -OH, Nicky, deveria ver a esplêndida criatura que se hospeda na estalagem. Acaba de chegar, mas Peg diz que só passará ali esta noite. OH, como eu gostaria de trabalhar na estalagem! Peg tem a sorte de conhecer ali aos homens mais bonitos e ainda por cima lhe pagam por isso! Nicole voltou a fazer uma careta e falou em tom de supremo aborrecimento. - Isso era tudo! Acreditei que tinha algo interessante que me contar. -Mas é! Deveria vê-lo... Alto, com o cabelo tão escuro que em realidade é negro azulado e seus olhos me lembram os de um leão, dourados e perigosos. -Como sabe? Viu-lhe? -perguntou Nicole, interessada apesar de tudo. - OH, sim! Peg me permitiu lhe servir o almoço e posso te dizer que mal pude me conter para não lhe tocar... É tão diferente a todos os daqui. Seu nome é capitão Sable, é americano, e Peg diz que se deteve no povoado para visitar uns amigos esta noite e que amanhã parte para Londres de novo. Imagine ele tem um navio todo dele! Segundo Peg esteve na Inglaterra comprando mercadorias para vender na América, mas lhe ouviu dizer que não teria inconveniente se um ou dois moços de Surrey desejassem contratar-se a seu serviço. -Sally soltou uma risadinha nervosa-. Imagina Jem ou Tim de marinheiros em alto mar? Se o capitão Sable soubesse... Beddington's Corner não é o lugar adequado para encontrar lobos do mar! Nicole olhou fixamente para sua amiga com seus olhos topázio. - Marinheiros? Diz que esse homem procura marinheiros? - Bom, isso acredito, ao menos é o que disse a Peg quando lhe perguntou, muito cortesmente, já sabe, o que o trazia por aqui. -Para desculpar a curiosidade de sua irmã, Sally acrescentou-: Não temos muitos visitantes desconhecidos por estas terras e Peg se perguntava o que estaria fazendo em Beddington's Corner um cavalheiro tão bonito como ele. Nicole, tramando em sua mente febril um plano incrível, perguntou com impaciência: -Onde está agora? Sally encolheu os ombros. - Não sei, saiu da estalagem depois do almoço. Provavelmente não retorne até tarde. -Sally exalou outro suspiro-. É provável que não volte a lhe ver nunca mais. -Silêncio!... -disse Nicole de repente. Voltando a cabeça na direção pela qual tinha chegado Sally, escutou atentamente por um segundo e depois exclamou: - Depressa! Ao sótão, vem alguém! -Que importância tem? -perguntou Sally, mas Nicole não lhe prestou atenção e começou a subir ao sótão. Sally vacilou um segundo e logo com ar resignado seguiu


à menina. Mal tinha se reunido com Nicole e se situado para ver comodamente o que acontecia no chalé, quando entrou no edifício um homem alto. Sally afogou uma exclamação de surpresa. - É ele! É o capitão Sable! Aparentemente, o homem alto que tinha entrado no chalé não ouviu a exclamação da jovenzinha, pois nem sequer levantou a vista. Em troca, permaneceu no mesmo centro da sala e pareceu examiná-la lentamente enquanto Nicole, fascinada a despeito de si mesmo, observava o rosto barbado de feições marcantes e viris. Por uns minutos, o homem continuou imóvel, olhando a sua redor e Nicole teve a estranha sensação de que o lugar guardava lembranças para ele, lembranças não muito felizes. De repente, o homem agarrou uma das descoloridos almofadas vermelhas e em um arranque de fúria a jogou longe de si com uma exclamação de desgosto. Nicole ouviu que se aproximava um segundo homem, e viu como o corpo do capitão ficava rígido ao voltar-se e cravar o olhar na porta. E assombradas, tanto Sally como ela, viram entrar o único filho que ainda ficava vivo de Lorde Saxon, Robert Saxon em pessoa. - Perguntava-me se retornaria a esta cidade depois de tudo - disse Robert em saudação. O capitão Sable sorriu e seus dentes branquíssimos resplandeceram contra a barba negra. - Já não sou um adolescente para ser manipulado a vontade. E, além disso, estou prevenido contra ti esta vez... A anterior confiava em ti. Robert o estudou por um momento, percebendo o corpo forte e alto, os ombros largos e as pernas longas e musculosas. Sem dar sinais de ter sido perturbado por suas palavras, disse com absoluta calma: - Foi uma sorte que te encontrasse a caminho de casa. Seria intolerável que Simon te visse e se afligisse. -Isso disse... Mas me desculpará se duvidar de sua palavra! Robert esboçou um sorriso e disse: - Mas, na verdade, não duvida totalmente de minha palavra. Se o fizesse, não teria estado de acordo em te encontrar aqui comigo primeiro. Quer ouvir o que tenho a dizer? Os olhos dourados se entrecerraram perigosamente e o capitão Sable replicou em tom detestável: - Não muito, mas como fui néscio o bastante para me reunir contigo em lugar de seguir meu caminho, terei que fazê-lo, verdade? -Assim parece - assentiu Robert e depois continuou-: Meu pai sofreu um ataque cardíaco quase fatal no mês passado e por algum tempo tememos que morresse. Está bastante doente, mas duvido que sua presença pudesse lhe ajudar em algo. Surpreendeu a todos, mas agora sua saúde está melhorando, digo-lhe isso para


aquietar qualquer temor que pudesse ter de que esteja em seu leito de morte. Mas qualquer comoção, qualquer surpresa desagradável poderia lhe conduzir um ataque fatal. Se estiver tão resolvido a lhe ver... A ver um homem que não deseja verte... Sugeriria-te que esperasse umas semanas. -Impossível! Só foi um capricho o que me trouxe aqui hoje. - O capitão Sable titubeou-. Eu gostaria de lhe ver, Robert - disse por fim -. Meu navio zarpa no fim desta semana, e duvido muito que possa voltar algum dia para a Inglaterra. Minha vida está na América e não há nada que me retenha nestas terras... Assim não deve te inquietar acreditando que quero lhe impor minha presença pela força para despertar mais uma vez a maledicência das pessoas. Só desejava lhe ver para melhorar um pouco nossas relações. -Que admirável de sua parte! -comentou Robert, seco, aparentemente impassível ao tom veemente da voz do outro-. Mas infelizmente, impossível. Sugeriria-te que partisse em seu navio esta mesma noite e que se esquecesse por completo de voltar a ver Lorde Saxon. - Mas ao reconhecer o gesto obstinado na boca de traços aristocráticos do outro, acrescentou cautelosamente -: Sei que não confia em mim e talvez com motivos fundados, mas o que fiz só foi para o seu próprio bem. Quando o capitão Sable avançou, furioso, Robert levantou uma mão e ordenou-: Me escute até o final! Não quero discutir contigo! Como comecei a dizer faz um segundo, não confia em mim, mas neste caso acredito que devesse fazê-lo. Tentarei te aplainar o caminho se insistir. Me deixe falar primeiro com Simon. Tratarei de introduzir o tema gradualmente para que a comoção não seja tão grande. Mas te peço que esteja preparado se por acaso fracasso. -Por que devo confiar em ti? Como sei que não está mentindo para mim? resmungou o capitão Sable com voz apagada. - Não sabe, nem pode sabê-lo - respondeu Robert, displicente -. Mas o estado de saúde de Lorde Saxon pode verificar-se muito facilmente. E me acredite quando digo que qualquer acontecimento inesperado e perturbador poderia precipitar um ataque fatal. Se desejas correr este risco, segue adiante e te apresente diante dele. -Maldito seja! -explodiu o capitão Sable com violência-. Sabe que não ousaria fazê-lo depois do que me disse. Muito bem então, nesse caso farei o que você diga. Mas que Deus te ajude, Robert, se você... - Meu querido jovem! Esquece que ele é meu pai e que eu não faria nada que o perturbasse. Quanto a ti... Não me interessa absolutamente, mas tratarei de te consegui um encontro. Onde está hospedado? Apertando as mandíbulas, o capitão Sable murmurou: - No The Bell and Candle Robert, falei muito a sério quando disse que não desejava provocar um escândalo. E devo retornar a Londres amanhã. Terá que atuar esta mesma tarde. Não posso postergar mais minha partida. - Quase como desculpando-se, acrescentou-: Reconheço que deveria ter notificado a alguém de minha volta assim que cheguei à Inglaterra, mas nem sequer tinha pensado então que


tentaria lhe ver. Foi só ontem quando me perguntei se possivelmente não podia tratar de aliviar a tensão entre nós. - Mm. É uma pena que a ideia tenha cruzado por sua cabeça. Mas posto que assim aconteceu, farei o que possa. E se não tiver notícias minhas até amanhã as dez quererá dizer que fracassei e pode estar seguro de que qualquer tentativa por sua parte de incomodar a um velho doente terá perigosas consequências. - Muito bem, entendo. Se não tiver notícias de ti até então, saberei que nada mudou -o capitão Sable respondeu engolindo em seco. Os dois homens não disseram mais nada; saíram juntos, mas tomaram direções opostas assim que abandonaram o chalé. Agora que este estava deserto, Nicole e Sally se olharam. -Vá! -explodiu Sally por fim-. Pergunto-me do que se tratava tudo isso. Por que quereria esse capitão Sable ver Lorde Saxon com tanta urgência? Nicole não respondeu; a conversa que acabava de ouvir não lhe interessava muito. O que sim lhe importava, entretanto, era que o capitão Sable estava em Surrey e que procurava marinheiros. Esse era o pensamento predominante em sua mente sem recordar sequer todo o outro que se havia dito ali A quem lhe interessava saber por que desejava ver o velho Lorde Saxon? Ou por que Robert Saxon estava disposto a interceder por ele? A ela não! Em voz alta, disse: - Que importância tem? Provavelmente era um segundo mordomo e surrupiou algumas peças da baixela de prata e agora deseja aliviar sua consciência de remorsos. - Talvez. Mas não acredito que fosse isso. Embora seja o mais provável disse Sally decepcionada-. Entretanto, não teria sido mais excitante se tivesse sido algo mais que isso? Como se... -OH, Sally, quer te calar, por favor -murmurou Nicole, exasperada. De repente desejou que a deixasse a sós com seus pensamentos. Sally se ofendeu pelas más maneiras de Nicole e replicou mal-humorada: -Bom, se isso for o que quer! Deixarei que siga zangada aqui acima sozinha. É tão menina, Nicole. De verdade que não sei por que me incomodo contigo. Nicole se arrependeu imediatamente pois não desejava ferir os sentimentos da Sally. - Sinto muito, e não estou zangada. Mas, Sally, eu gostaria de estar a sós, se não te importar. -Muito bem, irei. Verei-te a semana na entrada na feira de cavalos ou sua tia te proibiu de ir? - respondeu Sally com resignação. Com a mente em outra parte, Nicole disse distraidamente: - Provavelmente. Ao menos isso acredito. Uma vez sozinha, Nicole permaneceu sentada pensando durante vários minutos. O mar, talvez essa era a resposta. América, longe dos Markham. Lhe


apresentava aqui uma oportunidade nunca sonhada e magnífica. Certamente a sorte era quem tinha guiado a Sally até ela esse dia. Com a cabecinha infantil cheia de planos e projetos, com uma chama de esperança lhe iluminando a alma, Nicole desceu de seu esconderijo e pôs-se a correr em direção a Ashland. Não foi até muito depois do jantar, que se desenvolveu em meio de uma atmosfera tensa e incômoda, quando Nicole pôde ao fim pôr em ação seu plano. Mas uma vez que lhe permitiram levantar-se da mesa para retirar-se a suas acomodações, surpreendendo a sua tia ao não discutir a ordem, subiu a seu dormitório e se trancou com chave. Passeando pelo quarto, com mãos trêmulas de excitação febril, procurou entre os poucos e apreciados pertences de seu irmão que tinha pegado para guardar. Entre eles estavam os objetos que procurava; um par de calças descoloridas, uma de suas camisas e sua jaqueta preferida de tweed marrom, suave e gasta pelo uso. Tirou o vestido depressa e vestiu as roupas de seu irmão, usando o cinturão de um de seus próprios vestidos para sustentar a calça na cintura. Não tinha que deixar-se acovardar por detalhes tão mínimos como calças frouxas pelo uso e uma jaqueta cujas mangas quase lhe cobriam as mãos, assim com ar decidido se olhou no espelho com otimismo. Que ridícula parecia, pensou rindo nervosamente, enquanto estudava a cômica figura que refletia o espelho. Mais séria, reparou nos longos cachos de cabelo vermelho escuro com reflexos de fogo. Teriam que desaparecer! Sem piedade nenhuma, cortou irregularmente os longos cabelos sedosos. Com muito cuidado recolheu as mechas que tinham caído ao chão e as guardou na capa de um travesseiro com a ideia de jogá-las no primeiro poço que encontrasse no caminho. O cabelo, o que tinha ficado da esplêndida cabeleira avermelhada, sobressaía-se em irregulares mechas, mas lhe davam uma aparência mais masculina, a de um atrativo rapazinho. Mais satisfeita agora, voltou a estudar sua figura no espelho. Felizmente ainda não lhe tinham desenvolvido os peitos, mas franzindo o cenho estudou atentamente o rosto. Grandes olhos rasgados, castanhos com tons de topázio bordeados de longuíssimas e espessas pestanas negras a olhavam do cristal azogado lhe causando certa insatisfação. O narizinho era gracioso e reto embora com traços infantis ainda. Uma boca grande e generosa, com o lábio inferior carnudo e sensual e um queixo pequeno mas firme completavam o quadro. Depois de um escrutínio mais severo ficou agradada com seu aspecto. Parecia um rapazinho, embora muito bonito, salvo por essas longuíssimas pestanas arqueadas. Bem, os atos desesperados requeriam medidas extremas. Cautelosamente, com a carinha muito colada ao espelho e a tesoura na mão recortou com esmero as pestanas até que ficaram virtualmente inexistentes. Jogando outro longo olhar ao espelho se convenceu de que ninguém adivinharia seu verdadeiro sexo. Então, secretamente jurou que fosse qual fosse o resultado de sua aventura, não retornaria nunca mais. Esta noite veria esse homem no The Bell and Candle e lhe obrigaria a levá-la ao mar com ele. Sem jogar outro olhar ao espelho


nem mudar de ideia, subiu agilmente pela janela e desceu pelos ramos do velho carvalho que crescia junto a casa.


CAPÍTULO III

Se Nicole sentia aliviado seu espírito no momento de escapar pela janela de seu quarto, o mesmo não ocorria ao capitão Sable. Sentado na sala privada da estalagem com uma espumosa jarra de cerveja espessa e amarga na mão, considerava intolerável a situação em que se achava. Não obstante, no momento lhe era impossível fazer nada a respeito. Depois de um discreto interrogatório a uns quantos habitantes da aldeia, tinha tido que aceitar que Robert não lhe tinha enganado quanto à saúde do barão. Simon Saxon tinha sofrido um ataque cardíaco em janeiro e as birras e os súbitos arrebatamentos de cólera do ancião eram bem conhecidos entre os aldeãos. Mas apesar desta notícia, lhe irritava ter que permitir a Robert Saxon o direito a decidir em seus assuntos privados. Desgraçadamente, parecia que teria que confiar na diplomacia do Robert. Sabia que se comportou como um néscio ao retornar, como um néscio ao pensar que talvez Lorde Saxon lhe tinha perdoado ou averiguado a verdade. E ter retornado sozinho e desarmado era perigoso. Era perigoso ter saído de Londres sem companhia e mais perigoso ainda haver confiado em Robert. Agora se dava conta de que devia ter trazido Higgins consigo. Mas tinha deixado bem claro que não tinha intenção de ficar na aldeia, repetiu-se Sable obstinadamente, afirmando que partiria logo para não retornar. Essa informação deveria bastar para que Robert se abstivesse de planejar alguma surpresa desagradável, como a que lhe tinha preparado na última vez. Perguntou-se com rancor se Robert teria contado a essa rameira da Annabelle que ele tinha retornado. Os lábios de Sable se afinaram em um rictus amargo e um brilho desagradável e detestável brilhou em seus olhos âmbar dourado. Haviam se passado quatro longos anos. Quatro anos de brutalidade e crueldade inenarrável na Armada Real, tudo isso habilmente organizado pelo bondoso Robert Saxon. Quatro anos nos quais passou de um moço idealista a um homem duro e calculista que tinha lutado em sangrentas batalhas navais e padecido as carícias do látego de nove caudas sobre suas costas; as cicatrizes o acompanhariam até o dia de sua morte. Recordando esses anos sua mão apertou a jarra até que se branquearam os nódulos. Zangado consigo mesmo por permitir que a fúria surgisse tão depressa, bebeu de um gole o conteúdo da jarra e em seguida a deixou sobre a mesa com golpe surdo. Inflexivelmente, obrigou-se a si mesmo a afastar essas lembranças e pensou que, em certo modo, Robert lhe tinha feito um favor. Que Robert o tinha alistado na marinha por seu próprio bem era discutível! Uma gargalhada cortante e dilaceradora


brotou de sua garganta e se levantou da cadeira, impaciente, desejando não ter reservado a sala privada. Necessitava a companhia de seus semelhantes, não a solidão daquele pequeno quarto. Beddington's Corner era uma pequena comunidade e The Bell and Candle, como as típicas estalagens da campina inglesa, hospedavam e serviam principalmente a granjeiros e aldeãos do lugar. A sala privada não se utilizava com frequência; poucas damas e cavalheiros de categoria se detinham em Beddington's Corner. Em busca de companhia mais agradável que seus sombrios pensamentos, saiu da sala, sem encontrar-se com a senhora Eggleston por escassos minutos, e se reuniu com um grupo barulhento no austero salão de escuras vigas de carvalho. Quando o olhar ofegante e malicioso da roliça dona da cantina chamou sua atenção, abandonou seu plano de beber até embebedar-se. Uns minutos mais tarde, a garota estava esquentando seus joelhos e soltando risadinhas nervosas por suas insinuações e galanteios ousados. Entre chiados de risada e falsos protestos, permitiu-lhe saber que seu nome era Peggy, que ficava livre a meia-noite e que estaria mais que contente de compartilhar seu leito solitário. Sorrindo, Sable encontrou uma mesinha em um canto tranquilo e se dedicou a observar com interesse o comportamento ruidoso dos alegres lavradores do lugar reunidos no bar. Peggy, de bom humor, rechaçava seus avanços com sonoras palmadas e olhava com frequência ao cavalheiro alto de cabelo negro sentado com descuidada elegância em um canto do salão. Esse homem sim que era bonito, pensava com deleite, e um verdadeiro cavalheiro além disso, com essa barba recortada, gravata branca engomada e mãos limpas de dedos longos. Ao aproximar a meia-noite um estremecimento de impaciência lhe percorreu as costas. Logo estaria subindo sigilosamente pela escada de serviço com esse cavalheiro e, ao ver o olhar indolente e divertido que lhe dirigia através de suas espessas pestanas negras, sentiu um agudo prazer na boca de seu estômago. Sable, sabendo que estaria prazenteiramente ocupado durante o resto da noite, bebeu pouca cerveja da que correu em abundância durante a noite. Minutos depois da meia-noite, ao subir pela escada com Peggy, tinha a mente limpa e seu passo era firme. Chegaram a seu quarto ao final da escada uns minutos mais tarde. Sable abriu a porta de um empurrão e deixou que Peggy entrasse primeiro. Ela deu uns passos no quarto escuro e soltou um grito de dor porque um objeto pesado golpeou violentamente sua cabeça. A moça desabou. Quando Sable compreendeu o que tinha acontecido, deu um salto para trás e se apertou contra a parede do corredor. Em guarda agora contra o perigo repentino, seus dedos procuraram a pesado faca marinheira escondida entre suas roupas. Com o corpo tenso contra a parede, voltou à cara para a porta aberta esforçando-se ao máximo para ver o interior do quarto. Duas figuras vagas pareceram desprender-se da penumbra do quarto. Um grosseiro juramento saiu da boca de um deles ao inclinar-se sobre o corpo de Peg. - É a maldita dona da cantina! Onde está o homem?


Ambos se viraram depressa e saíram correndo ao corredor no preciso momento em que Sable, faca em mãos, saía de seu esconderijo. Surpreendidos e sobressaltados, os dois homens vacilaram antes de equilibrar-se sobre ele, mas Sable saltou agilmente e de um chute enviou a um dos homens contra o outro fazendo com que ambos caíssem rodando pela estreita escada. Depois, descendo a grandes saltos se lançou sobre eles antes que pudessem sequer recuperar-se. Conteve-se de matá-los só quando compreendeu que se o encontravam perto do pátio da estalagem com dois cadáveres ainda mornos, Robert se beneficiaria tanto ou mais que com sua morte ou desaparecimento. Chamou o hospedeiro a gritos e manteve ocupados aos rufiões esquivando a perigosa pontaria de suas botas lustrosas. Passou uma hora antes que tudo ficasse arrumado, e não precisamente a satisfação de Sable. Peg tinha recuperado a consciência, mas lhe doía de tal forma a cabeça que, de agora em diante, pensaria duas vezes antes de aceitar entrar no quarto de algum cavalheiro desconhecido. Os dois homens proclamaram sua inocência a gritos afirmando que se equivocaram de quarto e que não haviam tocado à mulher; devia ter caído e golpeado a cabeça contra o chão. Peggy não podia recordar nada e Sable supôs que ganharia muito pouco pressionando-a, assim aceitou friamente as falsas desculpas e deixou que o hospedeiro os jogasse da estalagem. Aparentemente eram dois conhecidos valentões do lugar e o hospedeiro não desejava ter problemas com eles. Sable, displicente, estudou e repassou os acontecimentos da noite. Ficava descartado seu passatempo amoroso com Peggy. Mas o mais importante era que sabia que tampouco poderia dormir, já que permanecer umas horas a mais em Beddington's Corner era brindar uma segunda oportunidade a Robert Saxon para que o atacasse. Pagou seu gole de licor e ordenou que lhe preparassem seu cavalo. Esses homens não se equivocaram de quarto e se, como tinha planejado em um princípio, embebedar-se até alcançar um agradável estado de euforia, teriam completado sua tarefa: já fosse assassiná-lo, como suspeitava, ou meramente lhe fazer retornar à Armada Real. Duvidava que Robert usasse novamente esse truque e estava convencido de que tinha planejado degolá-lo em seguida. O percalço de esta noite lhe fez compreender que ganharia muito pouco ficando e que seria muito improvável que pudesse chegar a ver Simon Saxon. Robert se encarregaria disso. Era compreensível que o hospedeiro se mostrasse consternado pelo acontecido, e enquanto Sable esperava com impaciência que lhe selassem o cavalo, o bom homem tentou minimizar o desgraçado incidente. A Sable não reconfortaram suas palavras e se afastou a grandes pernadas em direção às cavalariças, resolvido a averiguar por que motivo demorava tanto o cavalariço. À luz mortiça de uma lanterna observou os movimentos torpes do moço sonolento até que, exasperado, gritou: -Solte-o! Volte para a cama, eu mesmo o farei.


O jovem, sem discutir as ordens, retornou dando tombos a seu leito no meio do feno e com movimentos seguros e rápidos Sable terminou a tarefa. Estava a ponto de tirar o cavalo para fora da quadra, quando o deteve uma vozinha rouca. - Por favor, senhor, o senhor é cavalheiro de Londres que anda em busca de marinheiros? Surpreso, Sable virou-se e observou com divertido assombro a pequena figura que estava frente a ele. O rapazinho, vestido com roupas muito folgadas para seu corpo mirrado, devolveu-lhe o olhar com olhos redondos e bordeados de pestanas irregulares. Um chapéu de abas negras lhe cobria a cabeça e deixava aparecer mechas curtas e irregulares de um cabelo escuro, todo o qual lhe dava uma aparência muito estranha. Era quase um menino, não devia ter mais de dez anos, calculou Sable, e sorrindo bondosamente disse: - As notícias viajam depressa... É verdade que necessitava alguns marinheiros, mas temo que as circunstâncias são tais que me encontro obrigado a partir antes do que tinha planejado. Interessa-te uma vida no mar? Com o coração lhe pulsando com tanta força que estava segura de que ele podia ouvi-lo, Nicole ofegou: -Sim, senhor. Me levará com você? Sou muito mais forte do que pareço e trabalharia muito duro. Meneando a cabeça lentamente, Sable tratou de suavizar o golpe enquanto enfrentava os suplicantes olhos topázio do rapazinho. - Estou seguro de que o faria, mas é um pouco... Jovem. Talvez a próxima vez? Saudou o menino com um cortês movimento de cabeça e se voltou para montar o cavalo. Um pé já estava no estribo quando uma mão atrevida e desesperada lhe agarrou o braço e uma voz cheia de paixão lhe suplicou quase chorando: - Por favor, senhor! Me leve com você! Prometo-lhe que nunca se arrependerá. Por favor! Do alto olhou aqueles grandes olhos suplicantes e vacilou, estranhamente comovido por aquele rapazinho. Percebendo que o homem começava a ceder, Nicole lhe rogou: - Por favor, senhor, me dê uma oportunidade! - Sable poderia haver-se afastado dali a galope, pesaroso por ter rechaçado à criatura, se o moço de quadra não tivesse despertado ao ouvir as vozes e tivesse intervindo nesse momento. Embora fosse uma estalagem rural, The Bell and Candle era um lugar muito respeitável onde não se tolerava que os mendigos importunassem os hóspedes. Encolerizado, o cavalariço se aproximou e jogou dali a Nicole. Tomando-a pelo pescoço da jaqueta, tentou jogá-la fora das cavalariças enquanto gritava: -Fora daqui, vagabundo desprezível! Vá mendigar em outra parte. Não importune a este cavalheiro.


Perdidas todas suas esperanças, Nicole deu rédea solta à irritação concentrada e quase cuspindo de raiva investiu contra o moço de quadra, arranhando e chutando como um animal selvagem, até o ponto de morder o braço do despreparado rapaz. -Me solte de uma vez! Vou ao mar! Farei-o! Farei-o! O moço de quadra era quase duas vezes maior que Nicole, e uma vez que passou sua surpresa, equilibrou-se sobre ela resolvido a lhe dá a palmadas de sua vida. Mas Nicole lutava como uma louca e dava tantos golpes como recebia, conseguindo que lhe saísse sangue do nariz. Era uma luta injusta e só Sable podia lhe dar fim. Arrancando-a das mãos do moço de quadra enquanto ela golpeava com os punhos fechados, exclamou rindo: - Muito bem, minha raposa. Irá comigo! A surpresa a deixou sem fala e imóvel, mas em seguida, ignorando a dor do nariz ensanguentado e do olho que inchava rapidamente, sorriu. E Sable, incapaz de compreender seus motivos, encontrou-se lhe devolvendo o sorriso. Sable montou sobre seu cavalo, agachou-se e levantando o corpo leve da menina, colocou-a a suas costas sobre a garupa. Então, cavalgando na noite sem estrelas, abandonaram Beddington's Corner sem olhar para trás. Com a cabecinha apoiada sobre as costas de Sable, os bracinhos fracotes envoltos ao redor de sua cintura como se nisso dependesse a vida, Nicole mal podia conter-se para não gritar de júbilo. Tinha conseguido! Já estava caminho do mar!


SEGUNDA PARTE 1813

O JOVEM NICK

«Que o amanhã se encarregue do amanhã, deixe as coisas do futuro ao destino.» Charles Swain, Males Imaginários.

CAPÍTULO IV

A lagoa parecia um espelho e Nicole contemplava distraidamente a água azul turquesa enquanto seus pensamentos vagavam ao ritmo indolente das ondas. Estava deitada sobre a areia branca e quente de uma das ilhotas que formavam o arquipélago das Bermudas. Mas não estava sozinha, um homem a acompanhava. Tinham descido do navio não fazia muito, em busca de umas horas de quietude e intimidade. Fazia tempo que essas ilhas se converteram em um dos paradeiros favoritos do capitão Sable, e o fato de que grande parte da Armada Real estivesse estacionada na ilha principal acrescentava um pitada de interesse e de perigo ao uso contínuo que fazia delas. As centenas de ilhotas que se estendiam como um gigantesco colar através do oceano Atlântico eram esconderijos ideais para muitos dos corsários norteamericanos que espreitavam e pirateavam navios britânicos, franceses e espanhóis. As Bermudas eram a última parte de terra até os Açores, e a cálida corrente do golfo que levava aos navios, carregados de especiarias, tabaco e açúcar das Antilhas, para as águas mais frias e verdes do Atlântico norte, corria a pouca distância dos recifes de coral que as circundavam. Eram muitas ilhas e ilhotas, a maioria desabitadas, para que a Armada Real pudesse patrulhá-los eficazmente, e os corsários norte-americanos, sem pensar duas vezes, souberam tirar rápida vantagem desse fato; além disso, não lhes assustava nem a frota mais poderosa que pudesse sulcar o oceano. Com o maior descaramento sobrepujavam em velocidade e capacidade os navios de guerra mais pesados dos britânicos, e os deixavam para trás, impotentes e humilhados. Os insolentes norteamericanos não tinham aversão tampouco de atacar e até capturar de vez em quando


algum navio de guerra britânico, posto que a luta declarada pelo presidente Madison em 1812 brindava aos corsários a glória adicional de estar cumprindo uma tarefa patriótica cada vez que capturavam um desses navios. Suas pilhagens à frota de combate inglesa não eram muito numerosos, mas a Armada Real não era o banco preferido dos norte-americanos. Sim o eram, em troca, os navios mercantes carregados a caminho da Europa procedentes das Antilhas, e estes não só atraíam aos corsários, mas também aos piratas que se equilibravam sobre eles como tubarões famintos. O capitão Sable, como muitos outros que navegavam com patente de corso de vários países, enriqueceu com esses transportes repletos da riqueza das ilhas. Embora ultimamente, raciocinava Nicole com ar pensativo, o capitão Sable parecia tomar sua atividade de corsário como um mero passatempo. Atuava mais como um tigre bem alimentado, satisfeito, mas mesmo assim incapaz de resistir à tentação de apanhar as roliças pombas que desfilavam debaixo de seu nariz em forma de navios mercantes ingleses. A Belle Garce, seu veleiro de linhas elegantes e fortemente armada só tinha feito duas presas nos últimos seis meses e Nicole suspeitava que Sable tinha capturado ambas -um bergantín inglês procedente da Jamaica e um casco de navio mercante espanhol em viagem a Cádiz- para acalmar o descontentamento crescente entre a tripulação, ou simplesmente porque estivesse aborrecido. Franzindo o cenho cravou o olhar nas tentadoras águas da enseada onde se encontrava, tratando de desentranhar o mistério de um homem que podia batizar a seu navio A Belle Garce. Há tempos que Sable atuava de maneira estranha e com desassossego se perguntou se não seria por que tinha descoberto seu disfarce. Inquieta, moveu-se sobre a areia quente, desgostada pelo rumo que estavam tomando seus pensamentos. Perguntou-se por que não podiam ficar as coisas como estavam. Tinha crescido e amadurecido muito nesses cinco anos, pois estiveram cheios de aventuras excitantes e perigos. Às vezes até ela mesma esquecia que era mulher e não o grumete alto e magro de La Belle Garce. Sua máscara a tinha resultado relativamente simples durante o primeiro ano mais ou menos, pois a natureza, como se a apoiasse, tinha-a dotado de uma estatura que estava acima da de uma garota normal e uma voz grave que seria incomum em uma mulher, mas que passava inadvertida em um jovenzinho. O capitão, sem compreender ainda o estranho capricho que se apropriou de seus atos, tinha-a deixado sobre a coberta descuidadamente e não tinha pensado mais nela. Nicole passou várias semanas de angústia e terror inexprimíveis vivendo na estreita adega do navio antes que Sable voltasse a reparar nela. Enquanto isso trabalhou como uma escrava durante horas intermináveis e árduas, de modo que ao chegar a noite se desabava completamente exausta em sua rede pendurada na coberta junto com as dos outros membros da tripulação. Deram-lhe as tarefas mais imundas, desde esvaziar os potes com a urina e os sedimentos dos camarotes dos oficiais até o trabalho duro e exaustivo de raspar o casco do navio.


Sendo o membro de posto mais baixo da tripulação, assim como também o mais jovem e novato, esteve à inteira disposição de todos á bordo e durante aquelas primeiras semanas aterradoras lhe pareceu que tinha passado mais tempo levando recados que outra coisa. Assombrosamente ela conseguiu aguentar tudo isso e seguir vivendo. A ideia de haver escapado dos Markham dava brios a seu ânimo abatido e as brisas frescas e salobras que sopravam do oceano acalmavam os remorsos na consciência por ter dado um passo tão precipitado. Também havia outras compensações, pois adorava que a enviassem a arboladura, e adorava subir pelas escadas como um macaco ágil entre as velas, sem medo do perigo e quase embriagada pela altura vertiginosa. E também estava o poder do mar para drogá-la, seus incontáveis estados de ânimo, da plácida mansidão até o regozijo do trovão e a explosão da tempestade. E a excitação; sim, a excitação... Jamais, pensou sonhadoramente, poderia esquecer sua primeira batalha no mar... Aquele dia em que avistaram um navio mercante espanhol e A Belle Garce caiu sobre sua presa como um falcão. Quando dispararam os primeiros tiros de canhão como aviso havia sentido um estremecimento de terror juvenil, mas por suas veias corria o sangue de outros guerreiros navais e ansiosamente, com os olhos brilhantes e a alma desejosa de aventuras, entrou na refrega disposta quase com impaciência. Quando o capitão percebeu sua magra silhueta correndo de um lado a outro das cobertas cheias de fumaça, ordenou-lhe asperamente que entrasse em um dos camarotes e se mantivera longe do perigo. Furiosa, ela exigiu retornar a coberta, mas ele não o permitiu sob nenhum conceito. Enternecido possivelmente pela evidente juventude do guri, Sable destinou Nicole a seu serviço pessoal. No navio se desataram as línguas fazendo comentários jocosos e zombadores sobre o «menino bonito» do capitão Sable, mas Nicole, muito consciente do perigo que corria, por uma vez conteve sua língua prudentemente e fingiu não ouvir... Nem compreender o que queriam dizer. Assim que se converteu no criado pessoal do capitão diminuiu o perigo de ser descoberta, já que ele, com a mesma indiferença que concederia a um cachorrinho precoce, tinha-lhe ordenado que dormisse em um canto de seu camarote, e portanto, cheia de indignação, pendurou sua rede no canto mais afastado do já não tão amado capitão Sable e com muito pouco entusiasmo se encarregou da tarefa de manter em perfeitas condições não só seu camarote mas também suas armas e objetos de vestir. A decepção que lhe produzia sua nova posição no navio era evidente e as olhadas furiosas que lhe enviava enquanto trabalhava em excesso cumprindo suas ordens pareciam proporcionar ao capitão uma diversão perversa. E frequentemente repreendia seu antigo grumete por sua falta de gratidão: -Sabe, jovem Nick, neste mesmo momento poderia te nomear meia dúzia de moços da adega que estariam encantados de encontrar-se em sua pele... E para cúmulo fariam muito melhor seu trabalho!


A língua ingovernável de Nicole a impulsionava a falar imprudentemente além de fazer de modo desrespeitoso, o qual sempre lhe conduzia um forte puxão de orelhas que lhe deixava a cabeça zumbindo durante uma hora. Mas o capitão deixava bem estabelecido seu ponto de vista e ela se resignava à monótona tarefa de cuidar de seus objetos pessoais. Murmurando para si mesma que estaria muito melhor como taberneira ou donzela em alguma estalagem, Nicole chiava os dentes e se dedicava a trabalhar. Mas estava à vista o alívio dessas tarefas cansadas e aborrecidas, embora, uma vez mais, não era precisamente o que ela teria desejado. Quando ele descobriu por acaso que seu ingrato grumete também sabia ler e escrever, circunstância que lhe fez valorar de outra maneira o moço, imediatamente o pôs a trabalhar redigindo listas do despojo capturado. Por fim, a mal-humorada Nicole era não só seu servente pessoal, mas também seu secretário. Em seus momentos de maior calma se dava conta de que se, se tivesse ficado com a tripulação de homens rudes de La Belle Garce, era duvidoso que seu sexo tivesse permanecido oculto por muito tempo, e certamente não durante cinco longos anos. Mas como propriedade privada do capitão e seu secretário além disso, tinha ficado isolada do resto dos homens. Quanto ao próprio capitão, enquanto cumprisse com presteza suas ordens jamais desperdiçava nela um segundo olhar. Mas às vezes ela se perguntava se não suspeitaria de seu segredo, e deitando-se de lado sobre a areia, olhou de frente a seu acompanhante e lhe perguntou de improviso: - Allen, acha que o capitão Sable está informado de que sou uma garota? -Por todos os céus, espero que não! Se assim fosse, sua vida não valeria nem um balde de água suja - respondeu Allen com desnecessária rapidez. Contemplando seu rosto escuro e franco, seu cabelo castanho e encaracolado que se movia levemente com a suave brisa marinha, Nicole se perguntou mais uma vez as razões que teria tido ele para unir-se à tripulação do capitão Sable. Allen Ballard era um enigma para Nicole. Alistou-se em La Belle Garce menos de um ano depois de desertar da Armada Real, e ela frequentemente quebrava a cabeça para decifrar os motivos que tinha tido para fazê-lo. Sabia muito pouco dele, mas pelo esmero de suas roupas e suas excelentes maneiras, era evidente que provinha de um ambiente mais refinado que a maioria da tripulação. Seu ar de segurança, tanto como suas maneiras e seus trajes, indicavam que devia ter sido um oficial, assim não era surpreendente que Sable o tivesse elegido como segundo em comando para sua última viagem. Nicole tinha se sentido atraída por Allen instantaneamente. Recordava a Giles por seu temperamento tranquilo e sua atitude considerada, e um desses estranhos laços de amizade a bordo de um navio tinha surgido entre eles. Como passavam a maior parte de seu tempo livre juntos ao tocar o porto, Allen não tinha levado muito tempo para descobrir que Nicole não era o rapazinho esbelto pelo qual se fazia passar.


Isso tinha acontecido em uma ocasião muito parecida com a de hoje, quando ele se topou com ela quando estava deitada e completamente nua sobre a areia de uma baía afastada. Ao princípio não tinha podido acreditar o que viam seus olhos. Imediatamente, Nicole lhe suplicou que não a traísse. Não lhe agradou a ideia e menos ainda quando lhe confessou a contra gosto toda sua história. Em vão tinha discutido para que lhe permitisse arrumar sua volta à Inglaterra, ao seio de sua família. Durante todo o tempo Nicole, inflexível, cravava-lhe o olhar sem dizer uma palavra. Resistiu a todas as súplicas que ele empregou, mas tinha notado que era estranho que nunca empregasse o único argumento contra o qual ela não tinha defesa alguma: notificar-lhe ao capitão. Perguntou-se com frequência o porquê, mas preferia não se aprofundar no tema. Algumas vezes, entretanto, assaltava-a a suspeita de que Allen era algo mais do que aparentava. Mostrava um interesse excessivo em tudo o que acontecia no camarote do capitão, especialmente em seus papéis oficiais e listas de navios e carregamentos capturados. Nicole tinha pensado que Allen simplesmente se interessava pelos lucros que se tirariam das pilhagens até que, fazia muito pouco, tinha-o encontrado revisando os papéis privados de Sable. Nesse instante viu um olhar assassino em seus olhos até que a reconheceu, e depois uma expressão estranha tinha cruzado fugazmente por seu rosto... Arrependimento? Confusão? Resignação? Foi uma situação embaraçosa e rapidamente Allen a tinha ameaçado a guardar o segredo lhe prometendo que se ela não o traísse, ele não a trairia. Curiosamente esse pacto os uniu mais ainda, pois Nicole já tinha deixado de olhar o capitão Sable com os olhos de adoração com que o tinha feito no começo. Mas hoje não queria pensar em nada. Ansiava desfrutar desses momentos de liberdade e, impaciente, retorceu-se debaixo do tecido áspero de sua tosca camisa de algodão. Em circunstâncias normais, Nicole teria se despojado de toda a roupa no instante que chegou à praia. Mas Allen era um tanto peculiar nessas coisas, então se cobria com uma versão abreviada de seu traje habitual, a camisa amarrada debaixo dos peitos e as calças de algodão recortados quase no nascimento das esbeltas coxas. Tinha outro par de calças negras de algodão para vestir antes de retornar ao navio, pois ninguém que visse suas longas pernas delicadamente torneadas poderia ter alguma dúvida sobre seu sexo. Ficando ágil e graciosamente de pé, estudou a figura reclinada do Allen. Usava uma roupa bastante parecida com a dela, exceto que suas costas fortes e musculosas estavam nuas ao calor do sol e que de seu cinturão pendurava uma longa faca de marinheiro. Nada de camisas para o Allen, pensou ressentidamente, mas como era habitual nela seu humor variou de súbito e lhe perguntou: -Quer dá um mergulho da rocha? -Embora Allen gostasse, esse riacho em particular não era um dos favoritos de Nicole pela atmosfera de melancolia e tristeza que se abatia sobre ele e que a desassossegava. Talvez se devesse às rochas


vulcânicas que se erguiam a ambos os lados penetrando no mar como dois braços sinistros. A lagoa era muito mais profunda que a maioria, a água era escura e de um tom azul escuro e ameaçador em lugar do azul celeste preferido por Nicole. Mas possuía um alto penhasco no final de um dos braços que resultava um lugar excelente para mergulhar nas frescas profundidades. Com um olhar indolente nos olhos azuis, Allen murmurou sonolento: - Vá na frente, Nick. Te seguirei dentro de um momento. Então Nicole escalou lentamente as rochas. Ao chegar ao topo permaneceu mais de um minuto com o olhar perdido no mar aberto antes de cravá-lo nas profundidades cristalinas e azuladas da lagoa a seus pés. Nesse lugar as águas tinham quase cinquenta metros de profundidade e o fato de que não houvesse rochas ocultas o convertia em um lugar ideal para mergulhar de cabeça. Jogou uma olhada por cima do ombro e ao ver que Allen por fim estava começando a subir para o topo, saudou-o alegremente com a mão erguida. Então a graciosa figura de cabelo chamejante e longas pernas douradas mergulhou na água. Mergulhou até o fundo e em seguida com golpes de tesoura de suas pernas se impulsionou de novo à superfície. A água era um verdadeiro deleite depois de sofrer o calor abrasador do sol na pele e por uns minutos Nicole nadou em amplos círculos à espera de Allen, que ainda se achava no topo da rocha. Não pressentia nenhum perigo, só gozava das carícias da água do mar; então flutuou de costas e deu uma patada na água que levantou uma coluna de espuma em direção à rocha. -Mergulhe de uma vez, é como estar no céu. Allen, desde uns seis ou sete metros de altura sobre a superfície da água, sorriu-lhe e olhou apreciativamente o quadro tentador que lhe oferecia. Mas subitamente ficou rígido e com voz áspera, dominada pelo terror, gritou: - Cuidado, Nick! Debaixo de seus pés! Deixou de pular instantaneamente e cravou o olhar na água. E ali estava, nadando em círculos a não mais de quinze metros de profundidade justo debaixo dela, a forma alongada e mortífera que teme todo homem do mar: um tubarão! Um calafrio percorreu suas costas e o terror a paralisou. Logo, recuperandose um pouco, começou a dar braçadas torpes e inseguras, decidida a nadar os poucos metros que a separavam de um lugar seguro. Sua única esperança era alcançar a praia, posto que os lados levantados da lagoa não lhe ofereciam nenhuma possibilidade de escapar da água. Rogou ferventemente que o tubarão só tivesse curiosidade e quando seu primeiro ataque de terror amainou começou a nadar com seu habitual estilo forte e rápido. Mas o tubarão tinha algo mais que mera curiosidade. Havia algo tão aterrador e ameaçador nos círculos cada vez mais fechados que dava essa criatura que Nicole percebeu que só seria questão de uns minutos antes que o monstro atirasse uma dentada a suas longas pernas cintilantes na água. Como se estivesse indeciso, o tubarão deslizou com rapidez até alguns metros adiante dela, lhe cortando desta maneira a retirada à praia já fosse por acidente


ou intencionalmente. Nicole parou em seco sua carreira para a areia, pedalando na água para manter-se flutuando e tragando um nó de terror enquanto observava o tubarão que nadava de um lado para o outro a escassos metros de distância frente a ela. Jogou um olhar incerto em direção ao Allen, que seguia de pé sobre a rocha com o rosto tão branco como o de Nicole e os olhos fixos na brilhante criatura ameaçadora que agora estava nadando a não mais de três metros de distância. Allen gritou com voz que queria ser alentadora: -Segue nadando, Nick. Pelo amor de Deus, não te deixe dominar pelo pânico... Isso só pioraria as coisas! Segue nadando! Tragando uma baforada de puro medo e dizendo-se inflexivelmente que sua vida não podia acabar na pança de um tubarão, seguiu o conselho do Allen. Mas observou que o tubarão estava outra vez justo debaixo dela e começava a subir lentamente para seu corpo indefeso, com as mandíbulas abertas deixando ver as fileiras de dentes como lustrosas folhas de serra. Sabia que ia morrer de um momento a outro. Como em um sonho ouviu o mergulho de cabeça do corpo do Allen ao mergulhar na água. O ruído e as vibrações surpreenderam o tubarão, que deteve o ataque mortal e saiu disparado como se estivesse atemorizado. Ao ver a cabeça do Allen emergir a superfície, gritou-lhe: - Que diabos está fazendo? Agora ambos estamos em perigo. -Suponho -gritou ele severamente-, que devia permanecer lá encima olhando como te rasgava. Te cale, Nick, e começa a nadar. O tubarão, que em nenhum momento se afastou muito, retornou e esta vez o fez perto do Allen, que não o perdia de vista. Com mão firme agarrou o cabo da faca de marinheiro de folha afiada. - Vá de uma vez, Nick, maldita seja! -gritou-lhe por cima do ombro. -Mas você! -argumentou ela sabendo que ele tinha razão mas incapaz de abandoná-lo a sua sorte. -E que demônios você pode fazer? Se me fizesse o maior favor de ir daqui imediatamente, talvez eu poderia fazer o mesmo! Agora não é o momento de ações heroicas! Afogando uma risadinha histérica se perguntou como qualificaria ele suas próprias ações. Em seguida, com a velocidade nascida tanto do temor de sentir em qualquer momento essas mandíbulas serradas lhe rasgando o corpo como do conhecimento de que Allen não tentaria salvar-se até não vê-la a salvo, dirigiu-se com rapidez à praia. Mas pelas braçadas lentas e regulares que dava Allen e pela forma em que mantinha sua vista cravada na água, soube que o tubarão ainda o seguia. Desesperadamente seus olhos esquadrinharam a pequena praia deserta em frenética busca de algo, algo que pudesse utilizar para ajudar ao Allen, mas não encontrou nada.


Com grande cautela, Allen seguia nadando sem afastar os olhos nem por um segundo da figura cinza que continuava deslizando-se silenciosa e desalentadoramente a pouca distância. Não era um tubarão enorme, mal mediria uns três metros de comprimento, mas até um tubarão da metade desse tamanho era um inimigo mortal para um homem no meio do mar. A faca que ainda agarrava na mão lhe dava certa tranquilidade, como também o fato de que a costa estava cada vez mais perto. Mas Allen estava bastante familiarizado com os tubarões e não se confiou muito. Nesse momento, o tubarão nadava em paralelo a não mais de dois metros de distância, e uma ou duas vezes trocou repentinamente de direção, nadando justo debaixo de Allen, com a espinha dorsal a escassos centímetros de suas poderosas pernas que seguiam dando fortes golpes de tesoura. Estavam já perto da praia e Nicole pôde ver por si mesmo a longa forma destruidora que parecia voltar-se mais ousada aproximando-se cada vez mais do corpo bronzeado do Allen. «OH, Meu Deus, salve-o! Ele me salvou , não permita que morra! Por favor!», disse-se a si mesmo. Deu um passo adiante resolvida a lançar-se novamente à água, mas se o fazia, conhecendo a valentia de Allen, bem poderia ser em vão. Assim ficou petrificada na praia com o corpo congelado até os ossos ao ver que o tubarão voltava a deslizar-se uma vez mais debaixo do Allen. Momentos depois, girando com movimentos sinuosos, a criatura começou a mesma investida mortal com que só minutos antes tinha ameaçado a ela. Allen pressentiu o ataque iminente do tubarão e a afiada folha de sua faca lhe pareceu um amparo débil contra as fileiras de dentes agudos e a pele áspera como papel de lixa de seu adversário. Mas sabia que um homem podia ganhar de um monstro semelhante, pois o tinha presenciado dúzias de vezes, e com uma prece esperou poder repetir essa façanha. Ao embate de uma onda que fez com que a cabeça e os ombros do Allen saíssem à superfície, o tubarão se equilibrou sobre ele a tal velocidade que o deixou pasmado, mas conservou a coragem e o sangue-frio ao confrontar a investida mortal, e a distância entre eles foi de centímetros. Depois, só a um cabelo de distância das mandíbulas devastadoras, Allen se afastou bruscamente para um lado, sustentando agora a faca com ambas as mãos e a folha apontando à cauda do animal. Então o cravou na parte mais vulnerável. A força do impulso do tubarão estripou à besta das guelra até a cauda. Lhe jogando uma olhada apenas, Allen viu o animal, ferido mortalmente, derramando sangue e tripas pela cavidade aberta, dirigindo-se enlouquecido de volta ao mar aberto. Em seguida, nadando com intolerável impaciência, alcançou à costa e cambaleou até os braços abertos de Nicole. Abraçaram-se por um longo momento, trêmulos e estremecidos até o mais recôndito de seus seres. -OH, Meu Deus, Allen! Estava tão assustada! -murmurou Nicole ainda pálida como uma morta. Allen sorriu enquanto tratava de recuperar o fôlego a grandes baforadas.


-Eu estava um pouquinho inquieto! Nicole soltou uma risada nervosa, uma risada que raiava a histeria. Mas um momento depois ambos estavam rindo sobre a areia pelo puro prazer de estar vivos. Nicole foi, entretanto, a primeira em ficar séria. - Devo-te a vida, Allen. Como poderei corresponder dignamente a tanta valentia? Por um segundo seus olhos azuis estudaram aquele rosto e aquele corpo esbelto cujas curvas tentadoras eram evidentes sob a roupa molhada, mas se limitou a sorrir. -Tolices, jovem Nick! Mas não acredito que voltemos a nadar neste lugar nunca mais; não gostaria de passar por isso outra vez. Com um calafrio, Nicole contemplou as águas tranquilas da lagoa. -Não! Certamente que não! Não querendo continuar a pensar o quão perto tinham estado da morte, revolveu-lhe com carinho o cabelo molhado. -Vamos! Não é para tanto! Esquece-o e recorda a próxima vez que não deve te afastar tanto da costa. Esboçando um débil sorriso, assentiu, completamente de acordo com a sugestão. -Só nadarei em águas pouco profundas, não se preocupe. Vestiram-se rapidamente sem mais conversa, mas Nicole sabia que estaria para sempre em dívida com o Allen e que lhe devia a vida. Seu ato de coragem tinha sido uma valentia indisputável e jamais o esqueceria. Jamais!


CAPÍTULO V

A Belle Garce estava quase deserta quando subiram a bordo um momento depois. Agora Nicole usava o cabelo penteado para trás e preso bem apertado em um rabo de cavalo que lhe esticava as feições, endurecendo-as e dissimulando a feminina delicadeza de seu rosto. Usava umas calças baratas de algodão que ficavam folgados, igual à camisa, e tinha toda a aparência de um moço alto e magro de quinze anos. Havia alguns homens jogando dados na proa e entre eles Nicole reconheceu facilmente a cabeça loira de Jake. Jogou-lhe uma olhada, surpresa mais uma vez de todas as perguntas que formulava esse homem. Como se percebesse o olhar fixo nele, Jake levantou a cabeça e Nicole viu que, como de costume, tinha a bochecha cheia daquele tabaco que mascava sempre. Não era uma pessoa agradável nem atrativa e Nicole decidiu que cultivava deliberadamente essa aparência anódina e pouco conspícua para passar inadvertido. Ninguém se lembraria dele cinco minutos depois de havê-lo conhecido. Mas Jake formulava uma infinidade de perguntas, pensou Nicole enquanto o saudava com um leve movimento de cabeça antes de partir apressadamente ao camarote do capitão Sable. - Olá, senhor Higgins - saudou ela alegremente ao encontrar-se com o segundo oficial inclinado sobre um mapa estendido em cima de uma das largas mesas do salão. - Bom dia, Nick. Procura o capitão? Nicole simpatizava com o senhor Higgins. Seus olhos cor de café sempre estavam risonhos e parecia ter certa debilidade por ela, já que mais de uma vez tinha oculto aos olhos de lince do capitão algumas das pequenas faltas que ela tinha cometido. - Não. Não precisamente. Mas acreditei que devia me apresentar no navio. Estive em terra toda a manhã - admitiu com um sorriso culpado. - Bem, o capitão saiu de visita. - Um sorriso malicioso lhe enrugou ainda mais o rosto apergaminado e murmurou-: E nós sabemos bem a quem foi visitar. - A Louise Huntleigh - respondeu Nicole em tom inexpressivo, sem entender por que lhe deprimia a notícia. Higgins assentiu e seus olhos brilharam maliciosamente. - E se o capitão não toma cuidado, seus dias de corsário terão acabado. -Isso me parece muito difícil -disse arrastando as palavras uma voz grave da soleira da porta.


Nicole deu meia volta e sentiu que o coração lhe dava um tombo no peito ao encontrar-se com o olhar âmbar dourado do capitão. Ultimamente cada vez que se enfrentava de súbito com ele reagia da mesma maneira e isso lhe desgostava, assim como sua desavergonhada masculinidade, mais patente agora que estava à porta do camarote absolutamente nu, salvo por uma toalhinha amarrada ao redor dos estreitos quadris. A pele bronzeada de intensa cor bronze escuro, o peito largo e com músculos bem desenvolvidos ostentando um matagal de finos pelos escuros, as pernas longas e robustas e o resto de seu corpo, representavam nesse momento para Nicole a viva imagem de uma lustrosa pantera selvagem de pelagem dourada, olhando-a com ironia com seus olhos dourados por entre espessas pestanas negras. Era evidente que acabava de retornar de um banho no mar, pois em seu caminho tinha deixado um rastro de gotas de água salgada sobre o piso de madeira da coberta. Ignorando os dois ocupantes do camarote, desatou a toalhinha e a tirou. Nicole desviou o olhar da figura alta de ombros largos completamente nua que se dirigia, imperturbável, a seus aposentos privados. O movimento instintivo de Nicole não passou despercebido para Higgins, que a olhou com expressão intrigada. Nicole lhe sorriu fracamente e depois de um minuto, surpreso ainda pelo acanhamento do suposto moço, Higgins encolheu os ombros e voltou a estudar o mapa. Mas antes que ela pudesse escapar da perturbadora presença do capitão, sua voz a deteve: - Nick, onde diabos puseste as calças negras que comprei em Boston na última viagem? Com um suspiro de resignação, sabendo que suas horas de liberdade tinham terminado, Nicole, reticente, entrou nos aposentos privados de Sable. Nu ainda, estava de costas para ela diante de uma cômoda de carvalho com uma gaveta aberta enquanto revolvia e procurava entre as roupas. E por um momento Nicole ficou cativada pela beleza sem igual desse corpo viril, duro e bronzeado pelo sol. Era alto, um pouco mais de um metro e oitenta, um Apolo perfeitamente proporcionado do cocuruto até as plantas dos aristocráticos pés. Nicole desejou ferventemente poder ver sua nudez, sua beleza quase pagã, com a mesma indiferença com que via qualquer outro membro da tripulação. Mas não podia. Sable a desassossegava, fazendo com que se agitasse nela sua feminilidade entorpecida, e ultimamente esses inoportunos sentimentos tinham aumentado até o ponto de voltar seus movimentos torpes e vacilantes. Esta vez não foi diferente, e quando Sable voltou à cabeça e lhe jogou um olhar impaciente por cima do ombro, ela cruzou o quarto e tropeçou com uma banqueta de madeira. A rápida reação de Sable, que deu um salto e a sustentou tomando-a pelos ombros, salvou-a de cair de bruços no chão diante dele. - Espera, jovenzinho. Que eu tenha pressa não significa que espere que caia a meus pés -disse-lhe com um sorriso, e os dentes contrastaram com o negrume da barba recortada.


Uma vez mais a assaltou essa estranha sensação de ficar sem fôlego, e foi tão consciente da proximidade desse corpo nu, quente e com o perfume salobro do mar, que por um momento aterrador acreditou que se derreteria em seus braços e ofereceria a boca a inflexível crueldade experimentada de seus lábios. Mas, afogando um ofego, recuperou-se com celeridade enquanto uma voz interior vociferava: recorda que acredita que é um moço! Separou-se de seus braços com brutalidade e murmurou: - Suas calças estão aqui no baú, exatamente onde me ordenou que as pusesse. - É verdade - respondeu com estudada indiferença, mas se marcaram rugas de desconcerto entre suas negras sobrancelhas ao aceitar dela o objeto em questão -. Acontece algo errado, Nick? -perguntou-lhe inesperadamente. Nicole resmungou: - Não. Está-me resultando difícil me acostumar ao balanço do navio nesta viagem. -Soltou um suspiro de alívio quando finalmente lhe deu permissão para ir-se lhe jogando um olhar penetrante e inquisitivo com os olhos entreabertos. Não estaria tão aliviada se soubesse que esse olhar a seguia, aprofundando-se mais as rugas de desconcerto que tinha entre as sobrancelhas, ao ver que escapulia do camarote. Sable se perguntou que demônios ocorreria ao moço. Nick tinha estado tão nervoso e assustadiço como um peixe no arpão ultimamente e estava decidido a averiguar o motivo. Pensando-o melhor, considerou que seria preferível perguntar ao Higgins; este parecia saber tudo o que acontecia no navio. E lembrando de todos os anos que ele e Higgins tinham passados juntos, sorriu. Tornaram-se companheiros desde que o homem mais velho tinha tomado sob seu amparo a um jovenzinho perplexo e confundido que foi jogado nos braços nada carinhosos da Armada Real. Aqueles primeiros meses resultaram um inferno até com a intervenção protetora de Higgins. Suas costas levava as marcas dos resultados daquelas vezes em que Higgins, um traidor condenado por falsificação, não tinha podido impedir a seu jovem amigo, muito impetuoso, que cometesse loucuras e sofresse os correspondentes castigos. Evocando aqueles anos, Sable pensava frequentemente que teria se tornado louco se não tivesse sido pelo Higgins e seus conselhos serenos e moderados. Mas até o Higgins, cansado daquele sistema brutal, quando Sable jurou que fugiria do navio, acompanhou-o, invertendo subitamente os papéis, pois era Sable quem dirigia agora e Higgins quem o seguia. Existiam poucos homens, e no momento nenhuma mulher, em quem Sable pudesse confiar, mas Higgins era um deles; o outro teria assombrado às pessoas se soubessem: era um negro ex-escravo chamado Sanderson. Este também tinha conhecido a adversidade antes que Sable e Higgins se topassem com ele pouco depois de ter desertado. Estava no soalho de leilões de escravos em Nova Orleans, e se dizia que o iam vender por haver desobedecido seu amo. Foi só por acaso que os dois se encontraram na praça naquela calorosa manhã ensolarada, mas ao ver aquele corpo vigoroso carregado de correntes que levava com


orgulho, afetou profundamente a Sable quando recordou os grilhões que ele mesmo tinha sofrido fazia pouco. Reunindo seus recursos fizeram uma oferta pelo homem e logo se encontraram perto da indigência e donos de um escravo conhecido por seu caráter indesejável. Um estranho trio tinha saído do leilão de escravos: um homem baixo semelhante a um gnomo, um jovem alto e de ombros largos e um negro esbelto e áspero. Seus passos os levaram a ferraria dos irmãos Lafitte, e uma vez ali, com uma careta de desgosto ante os pesados grilhões de ferro ao redor dos tornozelos do homem, Sable exigiu que os serrassem. Concluída a tarefa, esmagou rudemente os documentos da compra e a última moeda de ouro que ficava contra a mão do surpreso negro, lhe dando a liberdade. Nesse mesmo instante tinha ganho um escravo para toda a vida. Com um sorriso indolente nos lábios, Sable desprezou essas lembranças do passado e se dirigiu ao escritório do navio. Higgins ainda se achava ali. Com a cena do Nick ainda fresca em sua mente, Sable perguntou: - Higgins, notaste algo estranho no comportamento de Nick ultimamente? O moço me considera um monstro e não posso explicar por que. Higgins vacilou por um momento antes de responder, recordando por um instante o acanhamento tão peculiar que parecia atacar ao moço cada vez que o capitão, vestido ou nu, aproximava-se dele. Finalmente, disse: -Não posso dizer que tenha notado nada, acredito que o menino está crescendo e possivelmente está um pouco ressentido por ser nada mais que seu criado. Talvez Nick seja ambicioso. Sable soltou uma gargalhada. - Duvido-o. Às vezes se comporta comigo com o maior descaramento e outras trata de confundir-se com o biombo para passar inadvertido. Mas possivelmente tenha razão. Terei que meditar sobre seu futuro. Nicole teria se horrorizado ante a ideia de que o capitão planejasse seu futuro, mas por sorte não se inteirou da conversa que tinham mantido os dois homens nem das opiniões trocadas por ambos. Por conseguinte, continuou dedicando-se a suas tarefas habituais como se nada tivesse mudado, embora fosse consciente de que Sable parecia observá-la com maior atenção e mais uma vez a inquietou a ideia de que tivesse descoberto seu disfarce. De noite, enquanto jazia em sua rede, o capitão invadia sua mente. Zangada, amaldiçoava-o. Até quando não estava perto tinha o poder de acossá-la. Alguns dias depois, esses pensamentos voltaram a assaltá-la enquanto estava deitada sobre a areia quente de outra pequena baía. Estava sozinha e se recuperou em parte do terror que tinha paralisado seu coração a primeira vez que entrou no mar depois do ataque do tubarão. O pânico abjeto tinha desaparecido, pois acreditava que tinha sido um capricho da sorte e que não era provável que acontecesse outra vez.


Mas evitava a lagoa onde tinha ocorrido o incidente e jamais nadava muito longe da costa; algo do que se burlaria o capitão se soubesse, considerando-a uma covarde. Suspirando, moveu o corpo nu sobre a areia mudando de posição, desejando que seus pensamentos não girassem sempre em torno do exasperante e autoritário capitão Sable. Até pouco tempo não tinha meditado muito sobre a relação que lhe unia ao capitão. Ele só estava ali, em segundo plano. Refletindo sobre o tema, reconheceu em silêncio que o tinha admirado enormemente durante os primeiros anos a bordo do La Belle Garce; ele era essa criatura divina que tinha convertido em realidade suas fantasias mais amalucadas, quem a salvou dos Markham e encheu sua vida de excitação. Não tinha sido até a guerra com a Inglaterra quando começou a questionar seus sentimentos. Era curioso, pensou de repente, que nos cinco anos que tinham estado juntos, nunca tivesse mostrado curiosidade por saber algo em relação a seu jovem secretário e moço de bordo ao mesmo tempo. Nunca demonstrou interesse algum por saber o que a tinha impulsionado a ir ao mar, ou se deixou para trás família que pudesse estar preocupada com ela. Supunha que em parte se devia a que ninguém perguntava os motivos ou os antecedentes dos indivíduos de olhar duro e gestos ásperos que navegavam em navios corsários e piratas e que ele, simplesmente, tinha estendido essa mesma falta de interesse em seu caso. Existia uma regra tácita pela qual ninguém, nem sequer o capitão, podia bisbilhotar nas razões de um homem para desejar o anonimato da vida no mar. Sable jamais lhe tinha prestado muita atenção além de assegurar-se de que fizesse o ordenado. Nunca foi desnecessariamente cruel, embora sim foi um supervisor exigente e rigoroso. Nicole jamais questionava sua relação com ele a bordo do navio, nem a maneira como dirigia A Belle Garce, e descobriu que havia muito nele digno de admiração. Mas isso era antes, refletiu sombriamente, antes que exibisse seu absoluto sangue-frio e pavorosa insensibilidade. Aconteceu há três meses. Um membro da tripulação, um jovenzinho de não mais de dezoito anos, tinha subido clandestinamente a bordo uma mulher ao sair de um porto da França rumo à Nova Orleans. Tratava-se de uma rameira, uma de tantas que exerciam seu ofício na zona portuária, e Nicole muitas vezes se perguntou como Tom, esse rapazinho, podia haver-se apaixonado por aquela criatura de feições desagradáveis e ignóbeis e olhos de olhar ardiloso e furtivo. Mas o estava e pior ainda, deixou-se convencer por ela de que sem ele sua vida não tinha sentido. Deixouse cegar tanto pelo amor e por aquela mulher, que o manipulou habilmente para que violasse uma das regras cardeais do navio: nenhuma mulher a bordo quando se estava em alto mar. Fazia dois dias que tinham zarpado da França quando descobriram a rameira e Nicole estremeceu ao recordar à ira surda que demonstrou Sable quando Tom e a mulher foram levados a sua presença. Encarregou-se de Tom rapidamente; trinta açoites diante da tripulação e passar o resto da viagem no calabouço.


Nicole contemplou o castigo sem estremecer-se sequer, mas as costas do moço tinham ficado feita uma massa de carne rasgada e sangrenta quando tudo terminou. O castigo era cruel, mas Tom conhecia os riscos e Nicole compreendia, embora lhe desgostasse, que se necessitava uma mão de ferro para fazer cumprir as leis pelas quais se regiam as vidas dos corsários. Poderia ter estado em desacordo com o castigo imposto por Sable, mas não lhe guardava rancor por isso. Não, o que a enojava era o castigo que lhe tinha imposto à mulher. Concluídos os açoites, o olhar frio de Sable caiu sobre a mulher. Olhou-a fixamente durante muito tempo como se estivesse indeciso a respeito do que queria fazer com ela. Então entreabriu os olhos; a mulher interpretou mal o interesse que lhe mostrava e lhe lançou um tímido olhar de convite. Observando-a com rosto inexpressivo, disse: - Levem abaixo e deixem que a tripulação desfrute de uma rameira! Os olhos da mulher se dilataram de horror, gritou e suplicou quando um grupo de marinheiros, sorrindo socarronamente, forçaram-na a descer à adega. Então, sabendo o que lhe aguardava a mulher, Nicole sentiu verdadeiras náuseas. O coração de Nicole tinha sofrido profundamente pelo calvário da prostituta. Nenhuma mulher, pensou com fúria, nem sequer uma vil rameira, merecia semelhante castigo, atender incessantemente às exigências de toda a tripulação de La Belle Garce. Evocando o incidente com viveza e detalhe, agitou-se, inquieta e triste, na praia. Ainda a angustiava e lhe formava um nó na boca do estômago. Os homens eram uns verdadeiros selvagens, pensou com desdém. Depois, um esboço de sorriso lhe curvou a boca grande e generosa; não, não todos os homens, Allen não era assim. Pensando no Allen sorriu agradada. O querido, querido Allen. Foi precisamente ele quem tinha sugerido a Sable que não era conveniente que Nick estivesse exposto a tudo o que ocorria nos aposentos do capitão. Sable tinha olhado ao Allen com frieza, e logo esses olhos dourados e rodeados de espessas pestanas negras caíram sobre o jovem rosto de Nick. E sem dúvida, recordando as vezes que convidou a damas de moral duvidosa a passar a noite em seu camarote enquanto Nick supostamente dormia em um canto, a boca de Sable se torceu em um sorriso indolente e malicioso e ordenou a Allen que encontrasse algum lugar próximo onde acomodar o menino. Pouco depois, Nicole passou a ser a orgulhosa possuidora de uma despensa junto à porta que conduzia aos aposentos do capitão. Em realidade tinha sido uma despensa, mas Allen ordenou ao carpinteiro do navio que realizasse algumas modificações sem importância. E assim Nicole teve um quarto diminuto apenas do tamanho suficiente para pendurar sua rede e colocar o pequeno cofre forrado de couro onde guardava seus escassos pertences. Ao passar os meses agradecia frequentemente a Sable que tivesse seguido a sugestão de Allen. O sol queimava muito para seguir imóvel por mais tempo, por isso Nicole se levantou e caminhou lentamente até a beira do mar. O último vestígio de temor ao


ataque de algum tubarão desapareceu e mergulhou na água transparente até que lhe chegou à cintura; Em seguida nadou certo trecho por volta de mar aberto, atraída por seu azul intenso. Mergulhou até que se sentiu um pouco cansada, depois se impulsionou com indolência para a costa. Acreditando que ninguém a observava, atuava com tanta naturalidade e falta de inibição como só os jovens podem fazê-lo, e risonha, ficou de pé e elevou o rosto para receber a carícia do sol, enquanto ao redor de seus esbeltos quadris se formavam redemoinhos as águas verde-azuladas como um magnífico manto de cetim cintilante. Mas Nicole não estava sozinha. O homem, que permanecia com o rosto transfigurado pelo espetáculo que se apresentava a seus olhos, achava-se escondido entre a maleza exuberante da selva tropical, e petrificado em seu lugar, não fez nenhum ruído. Ao princípio, assombrado e aturdido, só podia olhar fixamente a jovem alta e esbelta que ria na água com o escuro cabelo avermelhado caindo ao redor de seus ombros como um manto de fogo. Nicole tinha se convertido em uma jovem alta e elegante, mas não desajeitada. Era de ossos miúdos e figura deliciosa com belos ombros arredondados e peitos erguidos, não voluptuosos, mas mesmo assim muito femininos. Observando sua cintura estreita, seus quadris delicadamente arredondados, o observador se perguntou como alguém podia ter ignorado qual era seu sexo. E quando ela avançou pela água para a praia de areias brancas, com as pernas longas e flexíveis brilhando como ouro molhado ao sol, conteve a respiração ante a beleza daquela mulher de membros longos e figura escultural. A suave pele dourada era imaculada e a boca de lábios carnudos desatou nele um desejo imperioso de capturá-la entre seus braços e provar a doçura de seus beijos. Começou a avançar quando um ruído a sua esquerda deteve seus passos. Instantaneamente reconheceu o homem que se aproximava pela praia. - Maldita seja, Nick! Quantas vezes tenho que lhe advertir isso. Qualquer um poderia vir e te descobrir! Surpreendida, Nicole ergueu a cabeça, temerosa, mas ao ver quem era, sorriu. - Allen, inquieta-te muito. O navio está do outro lado da ilha e os homens nunca deixam o povoado... Estão muito ocupados bebendo rum e saciando-se com as rameiras. Por que demônios tinham que vir tão longe? - Essa não é a questão! Alguém poderia fazê-lo e então sim que estaríamos em uma confusão. Já disse uma e outra vez que se desejas nadar me faça saber isso, assim, ao menos, posso vigiar que ninguém se aproxime. Fazendo uma careta e completamente despreocupada por sua nudez, Nicole grunhiu: - Acredito que se preocupa demais. Allen meneou a cabeça, aborrecido. - Não acredito que te dê conta do risco que está correndo. Vista-se logo!


De bom humor, Nicole se vestiu em suas largas calças de algodão, e sem amarrar os seios como fazia normalmente, deslizou sobre seu corpo a tosca camisa de algodão branco. - Já está, satisfeito? -disse. Um sorriso cruzou pelo rosto torrado de Allen e seus olhos azuis faiscaram. - Sim, estou satisfeito, mas acredito que sou o bastante homem para preferir verte como estava! Agora veem aqui e deixa que te arrume essa juba emaranhada! Obediente, Nicole avançou até deter-se diante dele. Allen se sentou sobre uma das pedras arredondadas da baía e, fazendo-a ajoelhar-se na areia diante dele, começou a lhe desembaraçar o pesado cabelo avermelhado. Logo o jogou para trás sem nenhum olhar e o atou em uma longa trança que caía por suas costas. Quando terminou, ficou de pé e lhe estendeu uma mão para ajudá-la a levantar-se. Ao olhar-se em seus grandes olhos topázio, obscurecidos pelas espessas pestanas negras e o tom dourado de sua cútis, perguntou-se, inquieto, quanto tempo mais poderia durar essa farsa. A boca de Nicole era muito sensual para ser masculina; seu nariz, com essa pureza de linha ligeiramente quebrada na ponta, era também muito feminina. O fato dela ter tirado três anos de sua idade desde o começo a tinha ajudado muito: em princípio um jovem delicado de quinze anos podia parecer-se com Nicole. Sorriu-lhe, mas não pôde evitar lhe perguntar: - Quanto tempo mais pode continuar levando este disfarce, Nicole? Cedo ou tarde terá que terminar com esta paródia. Não pensará te converter em um marinheiro de grande experiência, verdade? Nicole encurvou as costas e se afastou do olhar inquisitivo de Allen. Com a vista na lonjura, entreabrindo os olhos contra o reflexo do sol na água, disse muito devagar: -Se fizesse o que me diz e retornasse a Inglaterra, não teria conseguido nada mais que uma pausa de cinco anos. Ainda sou menor de idade, mulher, e os Markham ainda têm controle sobre minha pessoa e meu dinheiro. Só tenho duas alternativas... Esperar até alcançar a maioridade ou me casar. – Virando-se, perguntou em brincadeira-: Casaria-te comigo, Allen? Mudo pela surpresa, Allen a olhou turbado e a risada de Nicole borbulhou ao ver sua expressão. -Como vê, não tenho mais remedeio que esperar a maioridade. Ao dar-se conta de que seu silêncio não era muito cortês nem adulador para ela, Allen tentou lhe dar uma explicação e começou a gaguejar sob o olhar fixo e risonho de Nicole. Seu autodomínio às vezes o alarmava. Essa jovenzinha carecia de pudor virginal e pensava com tanta claridade e sagacidade como um homem, tanto era assim algumas vezes que Allen se perguntava se, se dava conta de que era mulher. Não estava apaixonado por ela, mas a queria estranhamente como a um irmão menor, e de vez em quando até ele se via em apuros para recordar que era uma mulher. Mas


outras vezes, como agora, era bem consciente de que era uma moça de linhagem com uma família na Inglaterra que estaria se perguntando o que teria sido dela. Nicole carecia de pudor e vaidade. Era uma moça franca sem nada de dissimulação. Nada de desmaios nem de rubores virginais. Allen sorriu sem poder evitá-lo ao imaginar o efeito que causaria na decorosa Londres a primeira vez que abrisse sua boca bonita e sensual e soltasse uma das blasfêmias mais coloridas e pitorescas aprendidas durante sua longa associação com uma tripulação de rudes e grosseiros homens do mar. Passando o braço ao redor de seus ombros em um gesto cheio de afeto fraternal, guiou-a para o atalho que cruzava a selva. -Sabe uma coisa, senhorita, se acreditasse que ia funcionar, casaria-me contigo. Mas muito me temo que me faria dançar uma dança tão agitada que iria à tumba muito antes do que o tenho planejado. -Oxalá quisesse te casar comigo, Allen -disse Nicole lentamente -. Está seguro de que não te adviria a fazê-lo? Depois de tudo, levamo-nos maravilhosamente bem e sei que poderia expulsar aos Markham. Allen simplesmente meneou a cabeça ao ouvir o tom persuasivo de sua voz. - Nicole, Nicole, que garota tão estranha é! Não sonha te apaixonando algum dia? A surpresa deteve seus passos e o olhou com perplexidade. - Mas eu te amo! Amo-te mais que a ninguém no mundo! - protestou. Allen respondeu amavelmente: - Essa é a classe equivocada de amor, Nicole. Algum dia descobrirá o que quero dizer e então me compreenderá quando digo que o que sente por mim não é suficiente. Carrancuda, olhou-o longamente com olhos dúbios, Allen lhe beliscou a ponta do nariz. -Não se preocupe -aconselhou-lhe-. Esquece-o. Já saberá muito em breve o que quero dizer, assim que te consiga as roupas apropriadas. Propensa a argumentar, Nicole abriu a boca para aprofundar o tema, mas Allen lhe deu um empurrão e ela avançou relutantemente pelo atalho. Para mitigar seu mau humor, Allen se pôs-se a rir. - Vamos, jovem Nick, tenho uma surpresa para ti... Espero que você goste. Lentamente desapareceram em meio da maleza e fora do alcance do observador furtivo. Uns minutos mais tarde, o homem saiu de seu esconderijo e empreendeu o caminho pela selva. Embora não tinha podido ouvir a conversa das duas figuras da praia, viu claramente o ar de intimidade que existia entre eles. Havia um sorriso desagradável naqueles traços e lábios bem marcados ao pensar sombriamente que o jovem Nick não seria o único que receberia uma surpresa.


CAPITULO VI

Allen e Nicole, ignorando por completo que alguém os tinha estado observando, continuaram pelo estreito caminho de terra entre a exuberante folhagem tropical até chegar a uma área onde a selva cedia passo a ocupação humana, À força de perseverança e golpes de facão tinham feito retroceder a selva para dar lugar às plantações de cana de açúcar, ao longe podia ver-se aqui e lá o brilho branco de uma casa ou de algum edifício contra a cortina de fundo de um céu azul brilhante e uma profusão de matizes de verde, rodeando a plantação que começava ao final do atalho por onde tinham vindo, chegaram por fim a seu destino: uma casinha caiada de um só andar. A casa pertencia ao capataz da plantação, um escocês, um tal Jan MacAlister, a quem Allen tinha conhecido quase ao mesmo tempo em que Sable descobriu os encantos nada desprezíveis de Louise Huntleigh, a única filha do dono da plantação, e enquanto Sable cortejava com certa indolência a Louise, nasceu uma estreita amizade entre Allen e MacAlister, assim, cada vez que A Belle Garce fazia escala nas Bermuda e Allen estava livre de suas tarefas a bordo, passava quase todo o tempo com MacAlister, acompanhado a maioria das vezes pela Nicole, O sagaz escocês não necessitou muitas visitas para descobrir o segredo que Allen e Nicole tratavam de ocultar, Mas além de resmungar que ambos eram uns néscios por continuar com semelhante disfarce, MacAlister fez a vista grossa. Se aquela bonita moça queria passar por moço, dane-se ela. Jan estava disposto a fazer vista grossa, mas Marthe, sua mulher, uma mulata clara, miúda e graciosa, que além disso era a donzela de Louise, não pensava o mesmo. A situação em si era um verdadeiro ultraje a seu sentido do decoro, mas um só olhar e uma ordem severa de seu amado Jan sossegaram as palavras de censura em seus lábios. Mas, apesar de sua desaprovação manifesta, Marthe tinha um coração terno e admirava secretamente o descaramento de Nicole. Quando Allen a abordou para lhe pedir ajuda, esteve mais que disposta a ajudá-lo em seus planos. Assim que entraram na casa, Nicole olhou ao redor do quarto com curiosidade procurando algum indício da surpresa que lhe prometesse Allen. Mas a moradia de polida madeira escura e paredes brancas estava exatamente igual à sempre.


Marthe, levantando da poltrona de alto respaldo de cano, e vestindo um fresco vestido branco, sorriu a Nicole. Jan, com sua eterna pipa apertada entre os dentes e um brilho especial nos claros olhos azuis, riu. - Vá, vá, moça, entre estes dois vão te deixar boquiaberta com todos esses trapos e adornos que esteve reunindo Marthe. Nicole olhou com suspicacia a sua esposa e ao Allen, mas Marthe protestou com sua suave voz melodiosa: - Te cale! Senhorita Nicole, venha comigo e não lhe dê nenhuma atenção. Quase como um animal que cheira o perigo, Nicole jogou um olhar cheio de cautela em redor do quarto. Allen sorriu ante a evidente inquietação da jovem e lhe deu um tapinha nas costas. - Vá com Marthe. Não te fará nenhum mal. Esta, impaciente por começar a transformação, agarrou-lhe pela mão e a conduziu a um pequeno quarto. Fechando a porta diante das caras sorridentes dos dois homens, girou e examinou a sua pupila. Nicole, rígida como uma estátua no centro do quarto, olhou a tina de bronze cheia de água perfumada como se fosse um escorpião. Um vestido de musselina amarelo ouro estava estendido sobre a cama, e com consternação crescente seu olhar caiu sobre as escovas e pentes e os estranhos potes de conteúdo desconhecido que lotavam a penteadeira. Engolindo em seco, retrocedeu um passo, mas Marthe, com um brilho de determinação em seus olhos negros, disse-lhe: - Vamos, não é para tanto, senhorita Nicole. Não gostaria de ver o que pode fazer Marthe? É só para nos divertimos um momento. Além disso, não lhe agradaria tomar um bom banho quente de água de chuva em lugar dessa horrível água de mar? Cautelosamente, Nicole se aproximou da tina e afundou a mão na água. Certamente era mais suave ao tato, e estava deliciosamente temperada. Como sabia que passaria por ingrata se desdenhava aquilo que Marthe e Allen consideravam uma agradável surpresa, rendeu-se com resignação. Sem muito entusiasmo deixou que Marthe a acomodasse na tina e depois se submeteu aos serviços da mulher. Assombrada, encontrou o banho de seu agrado e desfrutou mais do que tinha imaginado. Além disso, era o bastante feminina para decidir que também lhe gostava do sabão perfumado à lavanda que Marthe usava com tanta eficiência. Não gostou que lhe lavasse o cabelo e protestou com veemência até que Marthe lhe verteu um balde de água gelada sobre a cabeça. Depois disso permaneceu sentada, furiosa e jorrando água enquanto Marthe ignorava as ameaças que sussurrava Nicole e continuou com sua tarefa como se sua pupila fosse uma verdadeira senhorita acostumada aos serviços de uma donzela em lugar de uma selvagem mal-humorada. Mas uma vez que o banho e a conseguinte lavagem de cabelo ficaram para trás, a jovem, envolta em uma imensa toalha branca e sentada em uma cômoda cadeira, encontrou-se tão relaxada que quase caiu adormecida enquanto Marthe lhe secava os longos cachos de cabelo avermelhados. Habilmente lhe recolheu a brilhante cabeleira


sobre o cocuruto em compridos cachos de cabelo. Depois de lhe empoeirar generosamente todo o corpo, Marthe insistiu para que vestisse uma camisa de seda muito fina antes de lhe deslizar o vestido de musselina amarelo ouro pela cabeça. Era um objeto à última moda, mas é obvio, Nicole não sabia, nem que tinha sido incluído, acidentalmente, em um pedido que tinha feito Louise uns meses atrás. Quando descobriu que o vestido era muito grande para a diminuta Louise, Marthe, recordando o plano mal esboçado do Allen, rogou a sua senhora que o desse de presente. Logo, tinha-o alterado ligeiramente e de cor para que se adaptasse ao corpo alto e esbelto de Nicole, e agora o traje lhe sentava como se tivesse sido feito a medida. Um pouco desconcertada, Nicole se olhou longamente ao espelho, incapaz de acreditar que essa criatura que a contemplava do cristal pudesse ser ela. O sutiã tinha um decote profundo que deixava os ombros ao ar e cobria apenas seus jovens peitos erguidos. Debaixo do busto havia uma fita de cetim cor verde musgo que se atava em um laço, enquanto que o resto do vestido caía em suaves dobras até os pés descalços. Desgraçadamente, Marthe não tinha podido conseguir sapatos do tamanho dos pés magros e compridos de Nicole. Mas a jovem lhe subtraiu toda importância à falta de calçado adequado. Agitadamente, como a criatura turbulenta que era, irrompeu na sala onde Jan e Allen estavam sentados conversando sobre os últimos acontecimentos da guerra do senhor Madison. Os dois homens levantaram a vista ao uníssono e seus semblantes foram um tributo à destreza de Marthe. Nem sequer em suas fantasias mais amalucadas tinha esperado Allen que Nicole fosse tão bonita e a contemplou com a boca aberta como se fosse a primeira vez que a via. Era uma jovenzinha adorável, pensou assombrado enquanto seu olhar se deleitava nos brilhantes cachos de cabelo de fogo para logo descer pela testa larga, as sobrancelhas negras e as pestanas espessas e longas. Marthe lhe tinha escurecido levemente as sobrancelhas e as pestanas e lhe tinha aplicado uma capa muito fina de pó de arroz antes de lhe pintar a boca. Allen aplaudiu em silêncio a habilidade daquela mulher. Mas não havia nada de artificial na luminosidade dos olhos topázio e enquanto Nicole dançava pelo quarto com a saia do vestido revoando ao redor de suas pernas, gritou: - Me olhem! Não estou esplêndida? Acham-me bonita? - Baixando os olhos, perguntou maliciosamente -: Me diga, Allen, sou tão bonita como as mulheres de madame Maria que Sable e você visitam? Como a casa de madame Maria era um famoso bordel de Nova Orleans, Allen evitou o rosto colérico de Marthe. Esclarecendo a voz, incômodo, repreendeu-a: -Nick, Nick, não tem que te comparar com elas... E as senhoritas não falam dessas coisas! - Mas eu não sou uma senhorita e não conheço outras mulheres - confessou com uma candura que os paralisou, para logo acrescentar com picardia -: Salvo a Marthe.


Allen não sabia se voltava a rir por aquela afirmação tão ingênua ou ceder ao desejo imperioso de lhe puxar as orelhas. Julgando que a risada era o curso mais seguro para seguir, disse: - Bem, temos a esperança de poder remediar essa grave falha de sua educação! Ao ver a expressão rebelde no rosto da jovem, Allen levantou uma mão em sinal de advertência e ordenou: -Agora me escute até o final, Nick, e preste atenção ao que vou dizer. A resposta que recebeu foi um bufido impróprio de uma dama, mas para surpresa de todos, sem discutir a ordem, Nicole se desabou em um sofá próximo e resmungou: - Me deixem em paz, não me incomodem. Sou ditosa como sou e o que faço não é de sua incumbência! Ignorando suas palavras de irritação, Allen se sentou frente a ela e tomando uma mão, falou-lhe em tom de rogo: - Agora me escute. O que proponho fazer não te fará mal... De fato, ajudaráte. Tem que aprender a ser uma garota e uma dama cedo ou tarde. Marthe e eu nos propomos te fazer recordar como deve atuar uma senhorita. Se alguma vez retornar ao lugar que te corresponde na sociedade, não pode fazê-lo usando roupa de homem e blasfemando como um marinheiro. Pensa no que estou dizendo -concluiu em tom severo. Nicole apertou os lábios e afastou a mão com brutalidade. Teria gostado de sair do quarto como uma tromba e arrancar o vestido a farrapos, mas o sentido comum lhe aconselhou a ficar sentada. A verdade de suas palavras era óbvia. Nicole não tinha considerado seu retorno à herança familiar. Era algo que ocorreria em um futuro nebuloso e remoto. Tão somente albergava a esperança de retornar algum dia, expulsar dali aos Markham e logo viver feliz por sempre. Indecisa, mordeu o lábio e reconheceu para si que o que dizia Allen tinha sentido. Neste preciso momento nem sequer estava segura de querer retornar a Inglaterra. A contra gosto, perguntou: - O que é exatamente o que querem fazer? Allen sorriu ante seu aparente desinteresse. Era tão menina... Não, já não era uma menina, nem sequer a vista de seus pés descalços aparecendo por debaixo do elegante vestido podia dissimular o fato de que era uma jovenzinha muito bonita. Mas também era uma pequena descarada e a tarefa não seria fácil nem simples. Albergava a esperança de poder manipulá-la com habilidade até conseguir que sentisse o desejo de ocupar seu lugar em sociedade como a jovem de linhagem que era. Cautelosamente, medindo o terreno, respondeu a pergunta: - Marthe e eu decidimos que poderia gostar de que lhe tratassem como a uma jovenzinha. Pensávamos que se estivesse de acordo, sempre que A BeIle Garce toque o porto aqui, ela atuaria como sua donzela e Jan e eu, com a ajuda de Marthe, instruiríamo-lhe sobre as maneiras de uma verdadeira dama. Será uma experiência


diferente para ti. Estou seguro de que desfrutará. Certamente não tem nada que perder. Nicole o observou com o cenho franzido. Não podia achar nenhum defeito no raciocínio do Allen, mas mesmo assim receava esse plano. Do que lhe valeria aprender a ser uma dama se carecia de planos imediatos para pôr em prática esses conhecimentos? Jogou uma olhada a Marthe e Jan, depois ao Allen. Os três rostos só mostravam um interesse cheio de afeto. A contra gosto resolveu que se era tão importante para eles, por que não fazê-lo? E durante aquela noite descobriu que, efetivamente, divertia-se e desfrutava mais do que tinha podido imaginar. Allen estava encantado enquanto fazia elogios provocadores que lhe avermelhavam as bochechas e acentuavam o brilho de seus olhos topázio. Jan e Marthe o acompanhavam tratando-a como se fosse uma visita. Quão único não lhe agradava era quando os três ao uníssono lhe corrigiam a língua ingovernável ou lhe faziam notar que as senhoritas não se desabam sobre as cadeiras, nem tragam e balbuciam quando bebem champanha. Allen se burlava da fascinação que o espelho exercia sobre ela. Mas não podia remediá-lo. Estava hipnotizada por sua própria imagem refletida nele; entretanto, não era vaidade o que atraía seus olhos ao espelho uma e outra vez, era assombro! Tinha que seguir olhando para tranquilizar-se e convencer-se de que a jovenzinha do espelho era ela mesma. Allen estava entusiasmado com os resultados daquela noite, mas não lhe revelou o que pensava quando ambos empreenderam o caminho de volta ao navio. Ainda ficava muito que aprender antes que ele desejasse vê-la no Almack's, mas esta noite tinha sido o primeiro passo para fazer tomar consciência de que existia outra maneira de viver. Pela enésima vez desejou que ela tivesse aceitado ficar com Jan e Marthe. Lhes teria encantado e embora um capataz e sua amante mulata não eram a companhia ideal para Nick, era muitíssimo melhor que a que tinha em La Belle Garce, sob o olhar perspicaz... Lascivo, corrigiu-se rapidamente, de Sable. Teria se entusiasmado muito mais se tivesse sabido que Nicole tirou o vestido e observou Marthe enquanto tirava até o último vestígio de pós e carmim com verdadeira tristeza. Não estava preparada para admitir que desejava conservar seu traje de senhorita, mas a tinha assaltado um desejo estranho e desconcertante de que esse exasperante capitão Sable a visse embelezada com o esplêndido vestido de musselina amarelo ouro e com o cabelo recolhido no alto da cabeça. Esse pensamento a alarmou e estava inquieta ao subir a sua rede na pequena despensa de La Belle Garce. O acontecido essa tarde e essa noite tinha agitado velhas lembranças e preceitos esquecidos pela metade. Nunca pensava em sua «outra» vida, a vida mimada da senhorita Nicole Ashford, mas essa noite despertaram essas reminiscências: lembranças de sua mãe, tão bonita e sempre sorridente, com a luz das velas cintilando em seu cabelo vermelho como as chamas do lar e seu vestido de


cetim formando redemoinhos ao redor dos pés quando se apoiava no braço que lhe oferecia seu marido. Seu pai, bonito e elegante, vestido de seda, com a renda branca da camisa como espuma perto da garganta. Juntos desciam pela majestosa escada de carvalho para receber a seus convidados enquanto Giles e ela espiavam por entre as grades da balaustrada superior; abriam-se de par em par as portas esculpidas do salão e os meninos vislumbravam a longa mesa de mogno oculta sob uma toalha de linho branca como a neve, o cristal lançando brilhos à luz das velas e a prata brilhando no salão. Quanto tempo tinha passado desde aqueles dias! Entretanto, suas lembranças eram tão claras e vívidas como se tivesse sido ontem. Consciente de que passava muito tempo pensando em Sable e em coisas que era melhor esquecer, Nicole tentou dormir Foi inútil. Sua mente estava muito ocupada e pela primeira vez a pequenez do quarto pareceu asfixiá-la. Maldição! Por que tinha Allen que intrometer-se em sua vida? Ele era o único culpado deste desassossego que a atormentava! Se a deixasse em paz ela sozinha resolveria seus problemas. O que ia fazer agora? Não possuía muito mais que a roupa que levava posta. Sua parte dos carregamentos saqueados nestes cinco anos tinha sido ínfima e, para piorar, não tinha economizado nada, nem um penique. Simplesmente se deixou levar a deriva vivendo cada dia como se fosse o último. De repente compreendeu que retornar a Inglaterra não seria nada fácil, que teria problemas e dificuldades que nunca antes tinha sequer imaginado. Não poderia apresentar-se à porta de seu lar de qualquer jeito. Com toda segurança teria que provar sua identidade e sobreviver de algum jeito até que reconhecessem seus direitos. Para consterná-la ainda mais lhe ocorreu a ideia de que ninguém lhe acreditaria e apertou os lábios. Ela era Nicole Ashford e ia recuperar sua fortuna... Mas, como? Revolveu-se, inquieta, na estreita rede. Maldito Allen! Por que não podia deixá-la em paz? Assim estava feliz, disse-se com fúria. Quem gostava desses velhos vestidos ridículos e sabões perfumados? A ela não! Lhe gostavam dos banhos de água de mar, sua gasta camisa e as calças de algodão. Mas, por outra parte, deixou escapar um suspiro ao recordar a suavidade da camisa de seda. Que suave a tinha sentido em contato com sua pele! A preocupação do Allen de que Nicole pudesse esquecer às vezes que era mulher era infundada. Recentemente, fazia um ou dois anos aproximadamente, tinha começado a ser cada vez mais consciente de um desassossego e inquietação que estavam diretamente relacionados com seu disfarce. Não o teria reconhecido por nada do mundo, mas sem dar-se conta tinha começado a interessar-se pela vestimenta e os modos das poucas mulheres com quem entrava em contato; não precisamente as prostitutas com as quais pulavam os marinheiros a primeira noite que tocavam o porto depois de semanas intermináveis no mar, a não ser as damas um tanto refinadas que convidava Sable a seus aposentos.


Era muito tarde e Nicole airadamente jogou a um lado a manta que lhe cobria o corpo. Não queria pensar mais em tudo isso. Estava cansada e um pouco enjoada pela quantidade desacostumada de vinho que tinha bebido durante a noite. Refletiu sobre o acontecido, suspirou profundamente e um sorriso de prazer lhe curvou os lábios. Sonolenta, perguntou-se se sua transformação teria impressionado a Sable, mas então se irritou consigo mesma por pensar nele desse modo. O que lhe importava o que opinava Sable... De nada? Sabia já que tipo de mulheres gostava, loiras melindrosas como a adorável Louise, não empregadas descaradas, altas e de cabelo castanho avermelhado, que se sentiam mais confortáveis em roupas de moço que em sedas e rendas.


CAPÍTULO VII

Nicole dirigia olhadas coléricas em direção a Sable. Era algo que fazia com frequência, mas desde que haviam partido das Bermuda, dava-lhe a sensação de que ele estava se esforçando extraordinariamente em incomodá-la. A fazia trabalhar todo o santo dia, correndo primeiro atrás de uma coisa e logo outra. Quando não a mandava para fazer recados inúteis, obrigava-a a copiar cuidadosamente com sua formosa letra itálico uma cópia completa da lista de cada carregamento que tinham conseguido durante o último ano. Nicole não via nenhuma razão para essa tarefa e suspeitava, zangada, que só a queria ter presa a sua mesa de trabalho. Mas o que lhe irritava de verdade era a mudança repentina em seus hábitos, que o tinha convertido no homem mais desordenado do mundo. Deleitava-se em desarrumar de propósito tudo o que tinha a seu alcance. Depois, em lugar de deixá-la só para encarregar do asseio, recostava-se indolentemente contra o marco da porta e observava com olhos críticos como ordenava seu quarto desafiando-a a que se queixasse. Nicole mordeu o lábio e ignorou o desafio que via em seus olhos enquanto terminava de fazer a cama que tinha deixado completamente desfeita. - Isto é tudo, senhor? - perguntou ela estoicamente. - Hmm, suponho que é tudo por agora. Nicole, feliz de escapar de sua presença, que a turvava cada vez mais, deu Alguns passos para a porta, mas ele seguia parado na soleira. Parou em seco a curta distância dele. Não estava segura de qual era seu estado de ânimo e além disso, se sentia ligeiramente inquieta. Havia um brilho estranho nos olhos amarelo dourados de Sable, e não gostava da maneira como a estava observando. Aquele olhar alimentou sua inquietação, e odiando-se por seu nervosismo, Nicole perguntou: - Posso passar, senhor? Ou há algo mais que deseje? Sable se endireitou lentamente enchendo o oco da porta com seu corpo alto e musculoso até que a cabeça morena quase roçou a viga de madeira. - Que idade tem, Nick? - perguntou de repente. Sobressaltada e abrindo os olhos topázio, gaguejou: - Tenho... Quinze. Um desagradável sorriso distorceu por um instante as feições do capitão. -Quinze, hmm. Não opina que já é muito velho para ser grumete? Tomada por surpresa, Nicole o observou com cautela enquanto passava a seu lado a caminho do escritório onde se via uma coleção de garrafões de licor. Depois de


servir uma generosa porção do escuro rum da Jamaica, girou, sentou-se pela metade sobre a beira do escritório com uma longa perna balançando-se sem tocar o chão e voltou a lhe cravar o olhar. Ao olhá-lo sentiu por um momento um curioso tremor na boca do estômago. Pensou que era uma das criaturas mais viris e vitais que tinha visto em sua vida. E agora mesmo, com a branca camisa aberta quase até a cintura que deixava ver um peito musculoso coberto de fino pelo negro e encaracolado, os quadris estreitos e as longas pernas embainhadas em apertadas calças negras, fez com que Nicole, mais incômoda que nunca, olhasse-lhe como homem, um homem de irresistível atrativo para as mulheres. Certas lembranças íntimas dele com outras mulheres nesse mesmo quarto se amontoaram em sua mente e um rubor incontrolável lhe tingiu as bochechas. Furiosa consigo mesma, fulminou-o com o olhar e perguntou com agressividade: -Está-me dizendo que não requer mais de meus serviços... Senhor? - Disse isso por acaso? - perguntou arrastando as palavras enquanto esse sorriso desagradável voltava a lhe curvar os lábios. Tenso, acrescentou-: Se escutasse o que eu digo, Nick, com tanta atenção como escutas tudo o que diz Allen, nossa relação seria mais suportável. Mas além disso, limitei-me a comentar que quinze anos é uma idade um pouco avançada para as tarefas que realiza. Provavelmente devesse te atribuir ao carpinteiro do navio, ou talvez poderia estar interessado em te adestrar como assistente de artilheiro. Você gostaria disso? Era pelo que sempre tinha suspirado, mas agora estava pasmada. Não poderia continuar com seu disfarce se estivesse em contato direto e íntimo com a tripulação. A primeira vez que fosse incapaz de realizar uma atividade que requeresse musculatura masculina sua situação seria realmente crítica. Confiando em que o semblante não a tivesse delatado, levantou o queixo e disse com a maior desfaçatez: - Eu gostaria mais do que tudo! Especialmente ser aprendiz do mestre artilheiro. A boca do capitão se torceu em um rictus ao ouvir as valentes palavras da jovem e seu tom desafiante. Deixando o copo sobre o escritório com um ruído surdo, replicou com acidez. -Bem, pode esquecê-lo! Depois de cinco anos acostumei a sua insolente eficiência! Com uma fúria irracional pelo susto que lhe tinha dado, esquecendo outra vez o perigo de deixar que sua língua mordaz a governasse, colocou as mãos sobre os magros quadris e replicou: -Você tirou o tema. Eu só estava prosseguindo com minha usual insolente eficiência! -Cuidado, Nick - disse ele em voz baixa-. Não me provoque ou te tratarei como merece. A ameaça subjacente naquela voz à fez voltar a si e baixou os olhos. A seguir disse inexpressivamente:


- Peço-lhe desculpas, senhor. Se me desculpar, posso continuar com as listas dos carregamentos? Os papéis nos quais tinha estado trabalhando ainda estavam esparramados sobre o escritório e depois de retirar uma pesada cadeira de carvalho, sentou-se muito rígida e começou a escrever. Resultava-lhe muito difícil concentrar-se com Sable a tão curta distância dela. Sua descarada masculinidade e a força de seu corpo a distraíam muito, perturbando-a mais do que o devido. Pela extremidade do olho pôde ver uma mão torrada pelo sol brincando distraidamente com uma corda que estava sobre o escritório e desejou com veemência que saísse dali e a deixasse sozinha. Sabia que a estava observando, sabia que tinha a vista fixa em sua cabeça inclinada; podia senti-la e os músculos de seu pescoço se enrijeceram. Pior ainda, teve vontade de gritar de raiva quando ao tomar outra folha de papel viu que lhe tremia ligeiramente a mão. - Relaxe, Nick. Já sabe que não te morderei. - Era óbvio que estava se divertindo as custas dela e os dentes de Nicole chiaram. Então, esquecendo mais uma vez o papel que representava e dominada pelo fogo que brilhava em seu cabelo, lançou-lhe um olhar cheio de veneno. Lhe devolveu um sorriso falso e um brilho zombador nos olhos cor âmbar. -Jovem Nick, me ocorreu que apesar destes longos cinco anos de estreita associação sabemos muito pouco um do outro. Agora, por que supõe que seja? Esforçando-se por aparentar uma calma que não sentia, respondeu, tensa: - Duvido que a maior parte dos capitães se interessem muito em seus grumetes. -Incapaz de dominar o impulso, acrescentou com sarcasmo-: Tudo o que temos em comum é roupa suja, potes de urina e camas desfeitas... Temas de conversa nada excitantes. Não é necessário saber muito de mim enquanto realize minhas tarefas satisfatoriamente. -Mas não o faz - comentou ele, sombrio-. É insolente e não simpatiza comigo... Um fato que não toma muito trabalho em esconder, poderia adicionar. Considerando que te trouxe para o mar porque me suplicou isso, teria que pensar que te agrado até certo ponto. -Endurecendo a voz, açulou-a-: Mas não é assim, verdade, Nick? - Não acreditava que meus gostos e aversões fossem tão importantes para você - respondeu com cautela -. Nunca antes fez nenhum comentário a respeito de minha atitude e se mi... -vacilou um momento-, aversão fosse tão aparente como você diz, certamente haveria dito algo antes. -Com absoluta ousadia, terminou-: Acredito, senhor, que imagina coisas. - Parece-te, Nick? Imaginei acaso a olhada que me jogou faz uns segundos? E estive imaginando essas olhadas ominosas que me seguem quando saio deste mesmo camarote? - perguntou secamente.


OH, Deus, onde estava Allen?, Pensou ela, inquieta. Onde estava qualquer um que pudesse interromper essa conversa? Criando ânimo, enfrentou o olhar daqueles olhos dourados e falou baixinho: -Só resta me desculpar se tiver achado minha atitude pouco agradável. Lamento lhe haver aborrecido e no futuro tratarei de não lhe dar motivo de queixa. Era uma resposta pomposa e sabia, mas desejava terminar de uma vez essa confrontação e que ele saísse do camarote. Sable tinha apertado os lábios ao ouvi-la e deixando o copo outra vez sobre o escritório com um golpe mais rude ainda, quase cuspiu as palavras: -Não quero suas desculpas, maldito seja! É todo um perito em evitar perguntas, meu amigo! -Inclinando-se para frente e com o rosto a escassos centímetros dela, grunhiu-: Agora me diga, jovem Nick, por que te resulta tão odioso me servir? Quero uma resposta desta vez... Não uma desculpa ou um pedido de desculpa! Olhando fixamente aquela cara barbada que tinha tão perto, Nicole se sentiu afligida por emoções encontradas. Em primeiro lugar era consciente de sua dignidade e virilidade, do tênue aroma de tabaco e salgado ar marinho que se desprendia dele. Além disso lhe resultava insuportavelmente penoso que a boca de Sable estivesse tão perto de seus lábios e se perguntou qual seria a reação desse homem se ela chegasse a inclinar-se para frente e pressionasse seus próprios lábios trêmulos contra essa boca firme e sensual. - Estou aguardando, Nick. Suas palavras fizeram em pedaços seus pensamentos caprichosos e a devolveram à realidade. Toda inocência e candura, disse lentamente. -Acredito que todos os moços têm épocas de rebeldia e ressentimento contra aqueles que têm autoridade sobre nós. Se dei a sensação de lhe ter antipatia algumas vezes, deve ser por esse motivo. Um bufido de exasperação precedeu às palavras de Sable: - Muito preparado, Nick. Uma resposta que não é uma resposta. - tornou-se para trás e agarrou o copo-. Algum dia destes você e eu vamos ter outro pequeno bate-papo. Em certo sentido você é mi... er... tutelado e acredito que não fui muito justo contigo. Talvez me ocuparei mais de ti no futuro... Muito mais que no passado Ficou de pé depois de esvaziar de um gole todo o conteúdo do copo de rum. Contemplou o semblante de assombro e desconcerto de Nicole com um sorriso e terminou: - Desfrutará, estou seguro! - E saiu majestosamente. Durante vários segundos Nicole só pôde olhá-lo fixamente enquanto se afastava. Que demônios tinha querido dizer com isso? Perguntou-se. Com um suspiro voltou para as listas de carregamentos, mas não podia concentrar-se no trabalho. Não era próprio de Sable indagar dessa maneira, e poderia ter jurado, antes daquela


manhã, que ele mal era consciente da existência de seu grumete. O que havia por detrás de seu estranho proceder? Tampouco tinha gostado da forma como seus olhos lhe tinham percorrido o corpo. No passado quase não a tinha olhado. Acaso esses olhos de lince descobriram alguma falha em seu disfarce? Tinha adivinhado algo? Teria se tornado seu rosto muito feminino? Jogou uma olhada nervosa a seus peitos aplanados, que, como era habitual, estavam enfaixados debaixo do tecido da camisa. Não, somente podia lhe chamar a atenção sua falta de musculatura viril. Seu disfarce não lhe tinha falhado, estava segura... Ou quase. Talvez, concluiu, estivesse aborrecido e se divertia açulando-a. Se tivesse sabido ou sequer suspeitado algo, ela não estaria agora sentada ante aquela mesa. Um calafrio serpenteou por sua coluna vertebral ao recordar o destino da rameira ruiva e começou a trabalhar. Dedicou-se a sua tarefa por algum tempo. O quarto estava em silêncio e só a perturbava o tamborilar suave das ondas contra o casco da nave e o agradável sussurro do vento nas velas. A Belle Garce foi construído fazia quatro anos seguindo as ordens precisas e o desenho detalhado do capitão Sable. Era um veleiro de quatro mastros, larga, baixa e bem estreita. A nave não era a não ser uma ameaça de trezentas e dezenove toneladas, armada com vinte canhões curtos e grossos de cinco quilos e meio e dois canhões largos de proa de oito quilos para a captura do inimigo. O quarto onde se encontrava trabalhando Nicole era o escritório do capitão; a pesar da fina toalha de mesa que cobria o piso e das cortinas cor damasco que penduravam das escotilhas da popa, o pesado escritório de carvalho do canto assim como as cartas de navegação e os mapas que cobriam as paredes davam clara prova disso. A mesa de Nicole estava situada a estibordo e no centro da sala destacava outra mesa muito polida com várias cadeiras baixas de couro ao redor. O ruído produzido por uma porta ao abrir-se fez com que Nicole erguesse rapidamente a cabeça. -Graças a Deus que é você, Allen -murmurou. Ele riu enquanto se apoiava na beira da mesa onde ela trabalhava. -O que acontece, Nick? Esteve te chateando outra vez o capitão? Nicole soltou a pluma e perguntou seriamente: - Allen, pensa que Sable sabe que sou uma garota? O brilho malicioso de seus olhos azuis se desvaneceu imediatamente. Preocupado, perguntou: - Que te faz perguntá-lo? Disse algo? Mostrando certa impaciência, respondeu: - Está atuando de uma maneira estranha. Esta manhã disse uma fileira de tolices a respeito de não nos conhecer mutuamente e de ocupar-se mais de mim no futuro.


Allen soltou um assobio quase inaudível. Carrancudo, esfregou o queixo. - Hmm, eu não gosto de nada disso! Sable não é nenhum parvo e qualquer um que te olhasse com atenção se daria conta de seu disfarce. Nick, isto resolve o assunto. Quando chegarmos à Nova Orleans terá que me permitir que me encarregue de ti. -OH, Allen, não me venha outra vez com isso! Ele não pode sabê-lo. Se soubesse, pode estar seguro de que não estaria sentada aqui agora. - Não esteja tão segura. É como um gato em muitas coisas e é muito capaz de brincar com uma ratinha de cabeça avermelhada. Falo a sério, Nick, quando tocarmos o porto esta vez tem que desembarcar comigo e me encarregarei de ti. Estive meditando muito sobre isto, Nick... Não pode continuar como até agora. Se rechaças minha ajuda não me deixará outra alternativa que contar-lhe a Sable. Consternada, Nicole lhe suplicou com o olhar. Mas seu rosto era uma máscara de determinação absoluta. -Estou falando muito a sério, Nick. Toda esta encenação se acaba assim que toquemos o porto de Nova Orleans. Estudou-o em silêncio. Era curioso que por fim se decidisse a usar a ameaça definitiva. E se perguntou por que escolhia este momento para usá-la. É obvio, ela poderia vingar-se... -Não está esquecendo que posso contar a Sable... O que sei de ti? O semblante de Allen se petrificou e um olhar terrível apareceu em seus olhos. - Está me ameaçando, Nick? Devo te advertir que não o faça. Corre em busca de Sable se o preferir, mas não poderá provar nada e certamente revelará seu disfarce faça o que faça. Por outra parte - continuou meigamente-, poderia manter a boca fechada quanto ao que suspeitas e deixar que me ocupe de ti até que esteja em posição de ânimo favorável para retornar a Inglaterra. -Gentilmente, acrescentou-: Agradame, Nicole, e me encarregarei de te levar sã e salva a sua família no instante em que o diga. - Já vejo -comentou ela, friamente-. Muito bem, temo-me que não tenho outra alternativa que aceitar seu bondoso oferecimento. - A voz de Nicole acentuou a palavra bondoso e Allen encolheu os ombros. Tomou uma mão de Nicole entre as suas. - Não tome assim, Nick. Se meditar um pouco te dará conta de que tenho razão. Agora é a única solução e deveria haver lhe exigido isso há muito tempo. Não se preocupe muito de que pague seus gastos de agora em diante... Faz-me feliz fazêlo. Se te desgostar muito, pode levar uma conta precisa e me pagar uma vez que recupere sua posição social e sua fortuna. - Depois lhe rogou-: Sejamos amigos, Nicole. Fomos companheiros durante muito tempo para nos separar zangados... Especialmente quando só estou pensando em seu bem-estar. Um sorriso involuntário curvou os lábios de Nicole.


- OH, maldito seja, Allen! Que se faça como diz. Estou cansada de lutar contra ti e talvez seu plano seja o mais sensato. - A contra gosto, admitiu-: Certamente não tenho nada que perder provando-o. Mas te pagarei até o último penique. Ouviu-se uma tossidela discreta detrás deles e virando-se Nicole ficou com a boca aberta ao ver Sable recostado contra a porta; com os braços cruzados sobre o peito os observava atentamente. - Aconteceu algo à mão de Nick? - inquiriu, cáustico. Allen a soltou como se fosse um carvão em brasas e ficou de pé com brutalidade enquanto dizia entre dentes: - Er... Nick acreditou que lhe estava formando um furúnculo e a estava examinando. Em tom sarcástico, Sable murmurou: - Médico também, nada menos. Devo comunicar ao cirurgião do navio que quando necessitar um assistente a próxima vez estará encantado de cooperar com ele. - Afastando-se da porta com um movimento felino, abriu-a de par em par e ordenou com voz gelada -: Necessitam-se seus serviços na coberta, Ballard. Em caso de que não o tenha notado, há muita atividade no navio. Avistamos uma nave e acredito que é muitíssimo mais importante que o furúnculo da mão do Nick. Além disso acrescentou com voz de seda-, Nick está a meu cargo... Não ao teu. O rosto de Allen não mostrou nenhuma emoção, mas apertou os lábios ao ouvir o comentário final de Sable e seus ombros ficaram rígidos ao sair. Quando partiu, Sable fechou a porta e virou-se. -E desde quando ocorre isto? -perguntou com voz forte. Evitando uma resposta direta, Nicole se esforçou por manter o semblante em branco. - O que? Não entendo o que diz. - Com ar inocente, perguntou-: O senhor Ballard não deve entrar aqui? Sable sufocou um juramento e a fulminou com o olhar. - Não tome por estúpido! Acredito, jovem Nick, que teremos esse bate-papo muito em breve, um agradável, tranquilo e privado bate-papo pessoal… só você e eu! Uns golpes rápidos à porta do camarote impediram de continuar a conversa. Abrindo a porta de repente, Sable gritou a Jake, que estava diante dele. - Sim! O que passa agora? -Senhor, estamos nos aproximando com rapidez. A nave é um paquete inglês fortemente armado, mas trata de evitar combate. Perseguimo-lo? Sable sorriu com cinismo e deu uma palmada no braço do Jake. - Bem, você que opina? Lançando um olhar a Nicole por cima do ombro, ordenou-lhe com voz cortante: -Você fica aqui! Não quero ver sua cara na coberta. Entendido?


Nicole assentiu enquanto ia formando um nó na boca do estômago. Sobre sua cabeça já podia ouvir os pés descalços dos homens correndo pela coberta preparados para a ação, assim como o retumbar dos canhões. Os atiradores mais destros, com os rifles carregados e preparados, estariam subindo pelos cordames até seus postos e Nicole sabia que a coberta principal seria um formigueiro de atividade febril enquanto tiravam do meio tudo aquilo que estorvasse a batalha iminente e o armazenavam na adega. Sable, desde sua posição vantajosa na ponte de comando, estaria vociferando as instruções de último momento enquanto os navios iam se aproximando um do outro. Nada disso a incomodava quando se atacava algum navio espanhol ou francês. Mas quando o navio era inglês, seus sentimentos entravam em conflito. Mais tarde, quando traziam os prisioneiros a bordo e transpassavam às presas ao navio vencido, sentia-se inquieta e alterada por ter que unir-se a outros no saque a seus próprios compatriotas. Tentou ignorar o que estava acontecendo a seu redor e se concentrou nas listas de carregamentos. Mas, incapaz de passar por cima o estrondo dos canhões e os ruídos da luta encarniçada, ficou a observar o desenvolvimento da batalha pela porteira. A luta que seguiu foi feroz. Os rugidos e estampidos dos canhões retumbavam no mar sob os raios do sol e o ar se enchia de fumaça e gritos dos feridos. Enquanto Nicole seguia olhando, o paquete, em uma desesperada tentativa de inutilizar a Belle Garce, descarregou uma feroz surriada. Mas não fez muito dano já que seus canhões não tinham o alcance dos da Belle Garce, e Sable, tendo antecipado essa manobra do capitão do navio inimigo, já tinha ordenado que A Belle Garce mudasse bruscamente de rumo e os disparos jamais chegaram ao navio. Quando ao fim se fez o silêncio, Nicole se introduziu no camarote privado de Sable e espiou pela escotilha. O paquete tinha lutado com valentia, mas não tinha podido competir com La Belle Garce em um plano de igualdade. Tinha caído o mastro maior e as velas penduravam feitas farrapos enquanto a nave se mantinha a flutuação com muita dificuldade. Os feridos lotavam a coberta e Nicole se achava olhando a nave quando arriou sua bandeira para render-se. Com um nó na garganta, Nicole voltou à cabeça para não ver as cenas de açougue. Por que tinha que atacar navios ingleses? Perguntou-se. Era fácil esquecer que os Estados Unidos estavam em guerra com a GrãBretanha; necessitava-se um acontecimento como este para fazer recordar a Nicole à guerra do senhor Madison. A campanha militar do Canadá era algo remoto para ela. Era como se os países beligerantes fossem outros. As violentas batalhas nos Grandes Lagos e o bloqueio à Baía de Chesapeake não significavam muito para ela. Não via razão para preocupar-se com uma batalha que se livrou semanas ou meses atrás e cujo resultado já estava estabelecido. Nova Orleans e o Caribe estavam a grande distancia do ataque britânico ao Forte Stephenson sobre o rio Sandusky ao norte de Ohio. Mas


agora, com a tripulação vitoriosa de La Belle Garce abordando o paquete inutilizado seus oficiais e tripulação tomados prisioneiros, a guerra do senhor Madison -a «Guerra do Impressor»- era muito real e estava muito perto. Abriu-se a porta e Nicole levantou a cabeça. Ao ver Sable o coração lhe deu um tombo no peito. Tinha uma ferida leve na testa e trazia um pequeno cofre de pele e bronze sob o braço. Seus olhos ardiam com fogo dourado pela vitória e o vento tinha revolto seu cabelo negro azulado, acrescentando ainda mais encanto, pensou Nicole, a seu grande atrativo. Com um jubiloso sorriso, jogou o cofre sobre a mesa e exclamou. - Achamos um tesouro, Nick! A Armada Real pagará muito para o recuperar de nossas mãos. Sua natural curiosidade fez com que Nicole se aproximasse da mesa. A fechadura que selava o cofre tinha saltado com o disparo de uma pistola, mas ficou desiludida quando, ao espiar o conteúdo, viu somente uns quantos livros negros e alguns documentos. - O que são? - perguntou com um olhar perplexo nos olhos. Quem respondeu foi Allen, que se aproximava silenciosamente por detrás dela: - Livros de chaves britânicos. Um silêncio detestável seguiu às palavras do Allen. Com a vista fixa no cofre aberto, Nicole sabia que Sable a estava observando com atenção. Manteve imperturbável o semblante, ocultando a consternação que sentia. Entristecida, perguntou-se quais seriam os sentimentos de Allen com respeito à captura desses livrinhos negros que revelariam os segredos dos despachos cifrados britânicos que tinham tido a má sorte de cair em mãos dos norte-americanos; esses livrinhos, pensou Nicole, confundida por suas emoções encontradas, que proporcionariam aos norteamericanos uma injusta vantagem sobre os ingleses. Sable se sentou sobre a mesa perto do cofre, acendeu um charuto fino e negro e tirou um dos livros. Allen não pôde evitar um movimento involuntário para frente como se quisesse lhe arrancar o livro da mão. Sable o olhou maliciosamente com um sorriso desagradável lhe torcendo a boca. - Está interessado neles, Ballard? Allen soube conter-se e responder com absoluta calma: - Não, não em particular. Mas eles explicam por que o paquete lutou com tanto desespero. Simplesmente me interessaria saber que motivos teve o capitão desse navio para não destruí-los antes de permitir que caíssem em mãos inimigas. Sable encolheu os ombros. - Foi o bastante néscio para esperar até o último minuto antes de tratar de livrar-se deles. Pilharam-no preciso momento em que ia jogá-los pela amurada. Cravando um olhar penetrante no rosto de seu interlocutor, acrescentou-: É uma verdadeira lástima que não tenha sido mais preparado e veloz.


Allen guardou silêncio e Sable, perdendo ao parecer todo interesse nele, começou tranquilamente a folhear o livro. - Hmm, não posso tirar muito sentido de tudo isto, mas estou seguro de que os militares apostados em Nova Orleans estarão encantados com eles. – Em seguida, como Allen não dava sinais de querer partir, olhou-o significativamente e lhe perguntou-: Não tem nada que fazer na coberta? O rosto de Allen se tingiu de vermelho e sem mais uma palavra, virou-se e saiu. Sable o observou, fechar a porta a suas costas e seu olhar caiu uma vez mais sobre o rosto de Nicole. Dava a sensação de estar esperando que falasse, mas que a matassem se podia pensar em algo que dizer. Liberando uma batalha interna, rasgada entre a lealdade aos ingleses e a Sable e o conhecimento de que esses livrinhos poderiam custar à vida a centenas de britânicos, teve que conter-se violentamente para não arrancar os livros da mão magra e aristocrática que os sustentava, agarrar o cofre e jogá-lo pela escotilha. Seus pensamentos deveram traí-la porque Sable soltou uma gargalhada áspera e murmurou: - Eu não o tentaria, Nick. E se estivesse em seu lugar, aprenderia quanto antes a não deixar transluzir seus sentimentos tão abertamente. Nicole enfrentou os olhos do capitão com ousadia, embora o coração lhe golpeasse o peito como um tambor. - Temo-me que não lhe entendo, senhor. O que quer dizer? Tirando o charuto de entre os dentes e jogando o livro no cofre, ficou de pé. Instintivamente, Nicole deu um passo atrás pois se sentiu alarmada ao o ter tão perto. A gargalhada de Sable soou mais como um grunhido de satisfação, pensou Nicole com receio ao ver que se aproximava mais dela. Teve que fazer um grande esforço para não continuar retrocedendo, já que tinha a plena segurança de que era precisamente isso o que estava tratando de obrigá-la a fazer. Dominando-se, permaneceu em seu lugar e levantou o rosto para o do capitão, que Luzia um sorriso sinistro na boca a só centímetros de distância. Sustentaram-se o olhar por um momento e a Nicole lhe ocorreu à peregrina ideia de que ele tinha a intenção de beijála. Com muita frequência tinha visto dançar em seus olhos a chama do desejo quando queria deitar-se com alguma mulher como para não saber reconhecê-la, e podia jurar que por só um instante, uma fração de segundo, aquela chama tinha brilhado em seus olhos. O desconcerto e a confusão foram aumentando, então a moça engoliu em seco com grande esforço e repetiu estupidamente. -O que quis dizer? - Parece-me que sabe muito bem o que quis dizer, Nick. - Então a deixou virtualmente paralisada quando lhe passou um dedo comprido e magro pela cara, enquanto murmurava-: Uma cútis muito suave para um moço, Nick. Pergunto-me se de verdade é um moço.


Sacudida pelo terror, jogou a cabeça atrás bruscamente e com dois saltos se afastou ao outro lado do quarto. Com a voz rouca e mais áspera agora pelo medo, exclamou: -Não seja ridículo! É obvio que sou um moço! O que outra coisa poderia ser? Ultimamente esteve com um humor muito estranho, senhor, e desejaria que não descarregasse todo seu mau humor brigando comigo. - Diz que meu humor é estranho? Quem sabe? - replicou em tom meditativo. Olhou-a nos olhos com expressão enigmática e Nicole desejou que se fosse dali. Por um momento acreditou que seguiria com suas perguntas desconcertantes, mas o olhar de Sable se desviou aos livros de chaves. Encolhendo os ombros como se tivesse se cansado daquele jogo, Sable se aproximou da mesa e recolheu os livros negros. - Estes, acredito, estarão mais seguros se os guardar na caixa forte. - Sem mais, girou e se dirigiu a seu camarote privado. Dominada por emoções contraditórias, viu-o depositá-los na caixa de segurança que estava perto de sua cama. Ele possuía a única chave que a abria; era uma caixa enorme e muito pesada, assim não tinha medo de que pudessem roubá-la. Não podia fazer nada absolutamente para detê-lo, refletiu com desconsolo, sem saber se realmente queria fazer algo. Ao menos, enquanto os livros estivessem guardados na caixa forte não poderiam fazer mal a ninguém. Não era tão desatinado que Nicole se encontrasse em um verdadeiro dilema: sentia grande apreço pelos Estados Unidos, mas ainda seguia considerando-se inglesa. Esses livrinhos negros a colocavam em uma posição muito incômoda. Uma parte de seu ser desejava destruí-los e entretanto, no fundo, simpatizava com os norteamericanos. Mais desventurada que nunca ao descobrir que já não sabia o que pensar da guerra, deixou escapar um longo suspiro. Essa noite, quando saiu em busca de um pouco de ar fresco, viu Allen perto da proa do navio e lhe comentou que desejava que esses livros desaparecessem. Allen a olhou de um modo peculiar e lhe perguntou: - Não te incomoda que os norte-americanos vão usar a informação contra seus próprios compatriotas... Que muitíssimos marinheiros ingleses vão morrer por causa disso? Sentindo-se envergonhada, como se fosse culpa dela que se encontraram aqueles malditos livros, Nicole respondeu fracamente: - Sim, certamente. Mas, Allen, estamos em guerra e estou segura de que os navios britânicos também as engenham para roubar segredos dos norte-americanos. O semblante de Allen se endureceu. -Escuta bem -resmungou em tom áspero e a meia voz-, Grã-Bretanha está lutando por sua vida... Acha acaso que está nesta guerra por pura diversão? Intensificou-se sua luta interior e Nicole sussurrou em tom lastimero:


- Não. Mas, Allen, por favor, me compreenda... Resulta-me muito difícil tomar partido... Estive longe da Inglaterra por cinco anos e todos os que tratei durante esse tempo foram norte-americanos. As feições de Allen se endureceram ainda mais e seus olhos azuis quase se voltaram negros devido à violência de suas emoções. Seu punho se fechou com força e Nicole teve a inquietante sensação de que se estivessem em alguma outra parte, longe de olhadas curiosas, lhe teria sacudido levado pela ira. Então ela formulou em voz alta a pergunta que durante tanto tempo tinha estado flutuando no ar. - Você não é realmente um desertor da Armada Real, Verdade, Allen? Na escuridão não pôde ver a expressão de seu rosto, mas percebeu a tensão de seu corpo. Permaneceram calados durante vários segundos, com o olhar perdido no mar infinito até o horizonte. Ao fim, Allen rompeu o silêncio. - Digamos que eu gostaria de ver o fim desta maldita guerra! E que farei tudo o que esteja a meu alcance para que termine o quanto antes. Nicole engoliu em seco sem saber se devia alegrar-se ou não de que Allen tivesse recusado lhe responder. Tinha alguma importância? O principal era que a guerra terminasse e, era realmente imprescindível que se tomasse partido por alguma das partes em conflito? Nicole acreditava que não. Pensativa, murmurou: - Eu também faria qualquer coisa que ajudasse a lhe dar término. Não é correto que dois países com vínculos tão estreitos estejam em guerra. Allen disse então: -Então me ajude, Nick! Esses livros de chaves trarão mais derramamento de sangue, mais homens e navios perdidos para os dois lados. Mas se os roubássemos de Sable e os destruíssemos, não os teria nenhum dos dois opositores. - Roubar-lhe a Sable? - perguntou ela, indecisa, já que não lhe alegrava a ideia de ter que haver-lhe com ele. -Sim! Temos que fazê-lo, Nick. Se, se destruírem esses livros, não só não os terão os norte-americanos mas também tampouco os britânicos! Não te dá conta...? Economizarão-se as vidas de muitos homens... Norte-americanos e britânicos. Me ajude! Entretanto, Nicole vacilava, pois sabia que Sable ficaria furioso e que ela seria uma traidora. Mas por outro lado, convencida de que estaria ajudando a terminar a guerra, e compreendendo que ao compartilhar a sorte de Allen estaria cortando para sempre a relação tão estranha que a unia a Sable, aceitou. Não capitulou com entusiasmo sincero, mas deixou de lado suas dúvidas com determinação. Ajudaria ao Allen e cumpriria com sua obrigação para dar término às hostilidades entre os Estados Unidos e Inglaterra.


-Sim, ajudarei-te -respondeu com inapetência enquanto seus olhos refletiam o torvelinho de sentimentos encontrados que se debatiam em sua alma -. O que quer que faça? Allen a estudou severamente, pois estava convencido de que não se comprometeu de coração, mas logo encolheu os ombros; necessitava a ajuda de Nick e sabia que estaria disposta quando chegasse o momento decisivo. - Não nos convém atuar agora... Caso que pudéssemos fazê-lo. Não teríamos nenhuma via de escapamento e uma vez que desaparecessem os livros, Sable saberia que os tinha roubado alguém do navio. Esperaremos até chegar a Barataria. Tudo o que pode fazer enquanto isso é vigiar estreitamente a Sable e me avisar assim que os tire da caixa forte. Separaram-se pouco depois. Nicole retornou silenciosamente a sua despensa e Allen ficou apoiado sobre o corrimão da coberta com os olhos perdidos na imensidão cambiante do mar. Queria ter esses livros com tanto desespero que tinha que recorrer a todas suas forças para dominar o impulso de roubá-los imediatamente, aquela mesma noite, a qualquer risco. Seu único consolo era saber que os livros não serviam de muito a Sable. Por desgraça, muito em breve estariam em mãos das autoridades norte-americanas. Oxalá tivesse sido ele quem descobrisse o frenético oficial, um tal tenente Jennings-Smythe, no momento de tratar de destruir aquela informação decisiva. Agora, em vez de repousar a salvo no fundo do mar, refletiu furioso, descansavam na caixa forte do capitão Sable. Esses livros não deviam cair em mãos dos norte-americanos, decidiu Allen com raiva. Não deviam cair em mãos inimigas!


CAPÍTULO VIII Embora Sable não voltasse a provocar mais cenas inquietantes, Nicole vivia em constante conflito com sua consciência pelo que faria a ele. Sonhava com que esses detestáveis livros de chaves se desvanecessem no ar evitando desse modo a necessidade de inimizar-se com Sable. Quando se achava a sós no camarote do capitão, passava horas com o olhar cravado na caixa forte tratando de fazê-los desaparecer pela força de vontade. Mas era inútil: sabia que estava comprometida a roubar aqueles livros negros. A volta à baía da Barataria se fez sem dificuldades e Nicole o viveu como uma chegada ao lar quando divisou os contornos das ilhas Grand Terre e Grand Isle no horizonte. Durante cinco longos anos Grand Terre, o quartel general de Jean Lafitte, o aristocrático contrabandista de terrível fama, tinha sido como seu segundo lar, já que o primeiro era A Belle Garce. Era precisamente em Grand Terre, ao leste de Grand Isle, onde Lafitte tinha construído enormes armazéns para guardar o produto das pilhagens cometidas pelos numerosos navios que fervilhavam na baia. Também ali tinha construído um grande barracão de escravos bem provido, bordéis, casas de jogo e cafés para diversão dos piratas. Lafitte era o rei dos contrabandistas e passeava descaradamente por Nova Orleans, com seu porte erguido e galhardo, acotovelandose com os ricos e aristocratas como se lhes desafiasse a lhe negar o direito de estar ali. Muito poucos o faziam, pois o contrabando era um modo de vida quase respeitável na Louisiana do sul, e havia mais de uma família aristocrata que devia sua fortuna ao contrabando, para grande consternação dos norte-americanos. Os crioulos, brancos de ascendência francesa e espanhola que dominavam essa região, não achavam nada de errado nisso, e quando os funcionários e comerciantes norteamericanos tentavam lhes fazer compreender que era uma atividade ilegal, topavamse com olhares de incompreensão e tons de protesto. - Indubitavelmente, monsieur está equivocado, meu avô foi um grande contrabandista! É só uma forma mais de vida, n'est ce pas? Era em efeito uma forma de vida, e os incontáveis braços pantanosos do rio ao sul de Nova Orleans constituíam um marco ideal para os contrabandistas. A zona pantanosa era como uma catacumba, com esconderijos onde armazenar as mercadorias antes de transportá-las secretamente pelas vias de água dos braços lamacentos até os armazéns da cidade.


Faziam muitíssimas operações de contrabando em pequena escala, mas o grupo do Lafitte, localizado em Grand Terre, era de longe o mais numeroso, já que contava com mais de mil homens. A baía da Barataria estava cheia de navios de todos os tamanhos e formas: faluchos, lugres de velas vermelhas e veleiros; alguns navios capturados eram consertados para voltar ao mar; navios piratas e uns poucos navios corsários; e ali, arrogante, com suas três presas atrás, A Belle Garce. Como ocorria sempre que retornava um navio ao porto, havia uma atividade febril tanto a bordo do navio como em terra. Normalmente, Nicole adorava esse período de intensa excitação, mas essa viagem tinha sido diferente e desagradável em muitos sentidos, e estava tensa e nervosa sabendo que dentro de pouco tempo Allen e ela mesma baixariam a terra para ficar ali indefinidamente. Uma vez que esses livros de chaves estivessem em suas mãos, não haveria volta. Nunca mais navegaria em La Belle Garce como o grumete-secretário do capitão, e nunca mais voltaria a dormir em seu estreito chiqueiro ocultando sua identidade sob aparência de rapaz. Era o final de uma aventura que tinha começado ao ser içada à garupa de um cavalo fazia muitos anos. A pobre Nicole não sabia se estava contente ou triste. Allen e ela tinham combinado de seguir um plano muito simples. Como sabiam que a maioria da tripulação estaria em terra e que o capitão ficaria a bordo até depois da primeira saída, decidiram surpreendê-lo em seu camarote no navio quase deserto. Depois de atá-lo e amordaçá-lo, seria fácil lhe tirar a chave que tinha pendurada ao pescoço, abrir a caixa forte, recuperar os livros e escapar para a costa remando. Deixariam-no amarrado em seu beliche com a esperança de que o descobrissem horas mais tarde. Não surpreenderia a ninguém vê-los chegar juntos a terra, já que o jovem Nick sempre seguia os passos de Ballard. Tampouco se surpreenderiam que chegassem com um pequeno baú nem que partisse imediatamente em direção à Nova Orleans. Muitos membros da tripulação já estavam fazendo projetos para a orgia de vinho e mulheres que encontrariam naquela cidade de vida licenciosa. Só Allen e Nicole sabiam que seu destino final não seria Nova Orleans. A única falha do plano era que Sable abandonasse o navio antes do previsto levando os livros de chaves. Era imprescindível que o navio estivesse quase vazio; seria catastrófico que algum marinheiro entrasse inoportunamente no camarote do capitão com alguma petição de última hora. Allen permaneceria fora, embora perto, e tocaria a Nicole ocupar-se de que Sable ficasse em seu camarote até que se dispersasse a tripulação. Para isso, Allen tinha deslizado uma pequena pistola com cabo de marfim nas mãos de Nicole lhe advertindo que a usasse só no caso de que Sable tentasse abandonar seu camarote. Tinham a esperança de que não o tentasse até que Allen estivesse preparado para entrar em ação. Nicole estava tão nervosa como uma potranca assustadiça a vésperas de sua primeira corrida. A pequena pistola que tinha escondida na cintura lhe pesava como um canhão e cada vez que Sable falava, estava segura de que tinha descoberto o


complô. Esforçou-se por manter-se fria e distante e fingiu estar ordenando sua mesa de trabalho enquanto ignorava a turbadora proximidade de Sable. Higgins entrou para conversar brevemente com o capitão, Sable mandou Nicole em uma missão na despensa. Quase se negou a fazê-la, mas com o Higgins ali, não teve mais remedeio que obedecer. Apressou-se o quanto pôde, temerosa de que Sable se fosse antes de sua volta; o trajeto de volta o fez correndo, e entrou no camarote quase sem fôlego. Sable estava sozinho e recebeu a informação com um grunhido indiferente. Parecia não ter pressa em abandonar o navio e Nicole deu graças a sua sorte. Mas isso não queria dizer que duvidasse de sua habilidade para retê-lo ali: poucos homens se atreveriam a discutir com uma pistola. Entretanto, se sentiria muito mais segura se Allen estivesse a seu lado. Para falar a verdade, Nicole estava destroçada. No fundo estava convencida de que devia certa lealdade a Sable, mas não podia permitir que entregasse esses livros de chaves aos norte-americanos. Inconscientemente, franziu o cenho. - Preocupado por algo, Nick? - perguntou Sable, e Nicole se sobressaltou ao ouvir suas palavras. Deixou de revolver os papéis e se voltou para olhá-lo de frente. - Pois não, senhor. Só estava concentrado em meu trabalho. Já sabe o que acontece quando se tem a mente ocupada. Um bufo de desconfiança recebeu suas palavras. Sable estava descansando em uma das amplas poltronas de couro situados junto ao escritório. Estava meio vestido, com a camisa branca de linho aberta quase até a cintura, e Nicole subitamente caiu vítima de um desejo desconcertante de passar suas mãos por aquele peito musculoso. Uma mão de Sable se apoiava sobre o escritório e sustentava um copo de rum escuro apesar da hora tão temprana. Além disso estava fumando um fino charuto negro e seu aroma embriagador flutuava no ar. Observando-o por debaixo das pestanas, percebeu mais uma vez essa sensação de energia e poder contidos que emanavam dele. Por uma fração de segundo questionou a prudência de ganhar sua inimizade; sabia de sobra que podia converter-se no inimigo mais devastador e cruel. Rodeava-os o silêncio exceto pelo suave tamborilar das ondas contra o casco. Pressentindo que se esperava mais dela, perguntou abruptamente: - Não gostou de minha resposta, senhor? Esmagando o charuto em um pires de porcelana e aparentemente absorto na tarefa, disse em tom pensativo: - Não, não gostei de sua resposta, mas nunca me agradam totalmente. Nicole conteve sua língua, pois não desejava que se desatasse outra discussão entre eles. Ao não obter uma resposta nem um comentário mordaz sobre suas palavras, Sable desviou o olhar à cara da jovem. -Nada que dizer, jovem Nick?


Nicole meneou a cabeça e lhe voltou às costas deliberadamente. Ouviu-o levantar da poltrona e lhe deu um tombo o coração quando ele comentou: -Um Nick calado é algo incomum. Está planejando algo por acaso? Nicole manteve a cabeça encurvada desejando com todas suas forças que a deixasse em paz. Não poderia suportar outra dessas conversas inquietantes e estranhas que pareciam não levar a nenhuma parte. Foi uma sorte que não pudesse ver Sable nesse momento, pois estava olhando fixamente a parte posterior de sua cabeça com um olhar penetrante e especulativo. Fez-o assim durante vários segundos, mas como Nicole não reagia, encolheu os ombros com indiferença e se dirigiu a seu camarote privado. Nicole supôs que estava se vestindo para abandonar o navio. Sentiu a boca ressecada e soube que, a menos que Allen aparecesse imediatamente, teria que lhe impedir de sair. Sua mão se deslizou para a pequena pistola, e voltou à cabeça para olhar pela soleira da porta precisamente no momento em que Sable retornava ao quarto vestido e com o cofre negro de couro sob o braço. Bem, disse-se corajosamente, chegou o momento! Sable arqueou uma sobrancelha ao ver que se levantava da mesa e se dirigia à porta de saída. -Vai sair, Nick? Se aguardar um minuto pode vir comigo. Sem dúvida ignorante da traição que estava a ponto de cometer, não lhe deu mais atenção. Deixou o cofre sobre o escritório e o abriu, lhe dando as costas. Depois de revisar o conteúdo, fechou a tampa de um golpe e girou a chave. Colocando-o mais uma vez sob o braço, virou-se, detendo-se de repente quando seu olhar caiu sobre Nicole, que de pé e muito erguida diante da porta, sustentava uma pistola na mão. -Vá, vá! -exclamou quase divertido-. Significa isso o que acredito que significa? Nicole engoliu em seco, ignorou o comentário inoportuno e disse com os dentes apertados. - Deixe esse cofre sobre o escritório. - É obvio. O que você disser, será feito. Espero que não seja uma pessoa nervosa, Nick. Aborreceria que me fizesse um buraco por acidente - murmurou Sable enquanto seguia suas instruções. O cofre ficou sobre o escritório e a salvo, logo ele se sentou sobre a beira e cruzou os braços enquanto perguntava, fascinado - Esperamos que Allen apareça ou vai fazer tudo sozinho? A pergunta a sobressaltou, sobre tudo a referência ao Allen. Teria adivinhado o complô? Certamente seu tom era muito tranquilo e essa atitude desconcertava Nicole. Tinha esperado um acesso de cólera, não essa indiferença divertida. Lançou uma olhada inquieta ao rosto de Sable e percebeu que embora parecia estar seguro e tranquilo, tinha uma linha tensa ao redor da boca e seus olhos estavam deliberadamente inexpressivos.


- Não vai responder? Bom, é uma atitude prudente. Vejo que Allen te ensinou muito bem. - Seus olhos se desviaram do rosto de Nicole e se ergueram por cima dela -. Aqui chega o bom Allen. Com alívio infinito, Nicole virou-se para a porta e nesse preciso instante Sable atacou. Nicole só teve um segundo para compreender que se deixou enganar por um dos truques mais velhos deste mundo. Os braços de Sable lhe rodearam o corpo como duas garras de ferro e suas mãos quase lhe destroçaram as suas enquanto lhe arrancava a pistola. Lutando vigorosamente, Nicole lhe golpeou os braços para poder escapar, mas ele a dominou sem esforço e a apertou mais contra seu peito em um abraço doloroso. -Néscio! - sussurrou-lhe ao ouvido-. De verdade achou que conseguiria se safar? Muito enfurecida para ter medo, os olhos de Nicole se voltaram negros de fúria. -Me solte! -cuspiu-lhe-. Deixe-me ir! Lutou em silêncio até que se deu conta de que os estranhos olhos ambarinos a estavam olhando fixamente, que a boca luzia um sorriso satisfeito e que as mãos que a sustentavam com firmeza se tornaram quase acariciantes. Jogou bruscamente a cabeça atrás dominada pelo receio e lhe aumentaram os olhos ante a expressão que viu na cara de Sable. -Sabe - afirmou ela. Ele a estreitou mais contra seu corpo se isso fosse possível e murmurou: -É obvio que sim, pequena feiticeira - e imediatamente seus lábios lhe cobriram a boca. Seu fôlego cheirava a tabaco, seus lábios eram duros e ásperos e, às vezes, selvagens ou ternos ao mover-se sobre os dela. Ao sentir seu contato os sentidos de Nicole giraram vertiginosamente; era incapaz de pensar com claridade enquanto permanecia rígida entre seus braços desejando que a soltasse. Depois do que pareceram horas, os lábios de Sable abandonaram a boca machucada de Nicole e os braços se afrouxaram. Com uma expressão inquisitiva no rosto, Sable lhe perguntou: - É porque sou eu ou Allen é o único com quem compartilha seus encantos? Tensa e falando entre dentes apertados, explodiu: - Por que não o pergunta a ele? - Tenho a intenção de fazê-lo, moça. Proponho-me formular infinidades de perguntas ao bom Allen - esclareceu levantando uma sobrancelha. Como se esse fosse um sinal, a porta se abriu de par em par e dois marinheiros musculosos entraram na sala sustentando entre eles a um Allen ensanguentado. Ao ver Allen, Nicole avançou para ele, mas a mão de Sable a reteve a seu lado.


-Te comporte - ameaçou-a com voz fria-. Você gostaria de te unir a ele? Estou seguro de que os homens adorariam. Gelada pelo que sugeriam aquelas palavras, ficou imóvel, incapaz de entender onde tinha falhado o plano, ou como tinha sabido Sable que era mulher. Quanto tempo fazia que sabia? Perguntou-se, enjoada. Desde o começo? Não, certamente não; nem sequer ele teria exposto uma menina a um estilo de vida tão cru e frequentemente tão cruel. Então quando? De repente teve consciência do murmúrio de conversa que a rodeava, mas foi à voz de Sable a que se destacou: - Leve-o para baixo e o acorrentem. Encarregarei-me dele mais tarde. - E suas palavras a tiraram de seu estupor. - Não! - gritou, e pegando Sable despreparado quase escapou da mão de ferro que lhe pressionava o braço. Mas esse punho apertou mais sua carne macia lhe machucando o braço. Consciente de que seria impossível escapar da mão de aço que a tinha presa, arranhou-lhe a bochecha barbada com todo o ódio contido. Soltando um juramento, Sable a soltou, mas tomou pelo outro braço imediatamente e, fazendo-a girar, deu-lhe uma bofetada. Assombrada, Nicole exclamou: - Golpeaste-me, bastardo! Com os olhos brilhantes e entrecerrados, Sable resmungou. - E te golpearei outra vez se repetir esse truque! Logo, ignorando-a, gritou aos marinheiros boquiabertos: - Já me ouvistes, fora de minha vista! E mantenham suas bocas fechadas acrescentou em tom ameaçador. Se Nicole acreditou antes que a sala tinha estado silenciosa, esse silêncio tinha sido quase estrondoso comparado com o que desceu agora depois que os homens partiram arrastando Allen entre eles. Nicole recusou olhar para Sable lhe dando as costas e mantendo a vista fixa na escotilha. Estava tão confundida pelos acontecimentos e furiosa com Sable por ter descoberto seu sexo, que por um momento se sentiu esgotada, sem saber qual seria seu próximo passo. Com certa dor e pesar lhe ocorreu pensar, enquanto contemplava pela escotilha as verdes ondas cheias de espuma, que era improvável que tivesse direito a decidir o que aconteceria de agora em diante. Embora muito jovem e insensível à paixão, Nicole conhecia mais do que o devido a respeito das obrigações animais que impulsionavam os homens. Sabia que Sable a desejava: seu corpo tinha traído esse fato da maneira mais explícita quando tinham lutado minutos antes. Agora mesmo recordava o calor que tinha emanado dele quando a mantinha presa a ele, e podia evocar muito claramente a pressão do endurecido membro de potência viril que tinha cobrado vida subitamente quando os corpos se retorciam juntos.


Engoliu com dificuldade, lhe tinha ressecado a garganta. Parecia injusto que tivesse que converter-se em mulher antes de ter tido a oportunidade de ser uma garota, refletiu com pesar. Seus pensamentos abordaram então o inevitável e se perguntou se Sable trataria sua virgindade com gentileza... Ou se a tomaria com paixão brutal. Ao menos sabia o que esperar dele, o qual era muito mais do que sabiam as meninas de sua idade e criação. Mas, por outra parte, retornaram a sua mente certas lembranças, desconcertantemente claras e detalhadas, de Sable tendo relações sexuais com outras mulheres - algumas nesse mesmo quarto- e engoliu em seco mais uma vez. Sabia que podia ser amável e gentil porque o tinha visto sê-lo; também sabia que podia ser um animal e pediu fervorosamente que fosse terno com ela. Resignada a sua sorte, levantou seus frágeis ombros e lentamente se voltou para olhar a Sable. Estava reclinado junto à porta com os olhos entreabertos olhando o fino fio de fumaça de seu charuto. Despenteou-se durante a curta luta mantida e uns quantos cachos caprichosos caíam sobre sua testa ampla aumentando sua aparência de pirata. Ao enfrentar esses olhos duros do outro lado da sala, sentiu-se incômoda pela rapidez dos batimentos de seu coração. Para combater seu próprio nervosismo, levantou o queixo em gesto de desafio e falou com voz fria: -O que pretende fazer conosco? Sorrindo desagradavelmente, disse em tom casual: - Fez muito mal. Em lugar de um silêncio pétreo deveria mostrar todos os sinais de inocência ultrajada e exigir saber o que fez o bom Allen para estar nesta situação. Aceitou a derrota com muita facilidade. Desiludiste-me, Nick. Estava seguro de que tentaria confrontá-lo descaradamente. Nicole se endureceu ao ouvir o tom zombador e provocador e, incapaz de conter-se, explodiu: -Do que me teria servido? Obviamente conhecia todo o plano. - Hmm, é verdade... Mas nunca, pequena arpía, nunca revele tão descaradamente que perdeste. Poderia ter me convencido de que não estava envolvida no plano do Allen. E se tivéssemos conservado nossa relação atual, teria podido ajudar a seu cúmplice. É uma lástima que não seja mais preparada. Nicole se conteve fazendo um esforço sobre-humano e cravou a vista em um ponto por cima da cabeça de Sable ignorando suas provocações. Sable sorriu, agradado. Que pequena arpía mais obstinada era. E que inconsciente de sua própria beleza. Um sentimento de intensa satisfação o alagou enquanto a contemplava. Nunca mais se levantaria pela metade de sua cama tentado pelos pensamentos do adorável corpo de membros longos e esbeltos que dormia a curta distância; nunca mais voltaria a persegui-lo a lembrança dessa jovem saindo da água nas Bermuda. Não lhe importava quem era, nem por que estava em seu navio disfarçada de homem. Era uma mulher, uma mulher desejável, que tinha conspirado contra ele. Se entrecerraram seus olhos ao recordá-lo e durante um longo momento seu duro olhar


se cravou na cabeleira escura onde um raio de sol arrancava brilhos avermelhados como chamas acesas. O que se podia esperar dela, pensou injustamente. As mulheres de cabelo vermelho, qualquer fosse o matiz, não eram de confiar. Que bem tinha aprendido essa lição, refletiu com amargura. E de repente apareceu ante ele o rosto de Annabelle... Annabelle a do cabelo de fogo e os olhos verdes... Annabelle que tinha mentido e enganado e urdido sua ruína enquanto ele depositasse seu jovem coração a seus pés... Cadela mal nascida! Cadela mendaz e conspiradora! Nicole, que seguia com o olhar perdido atrás dele, estava-se cansando de sua incerteza. Não ia permitir que a provocasse ou a amedrontasse. Desgraçadamente, não era hábil em ocultar suas emoções e sua atitude beligerante se refletia claramente em seu rosto. As negras lembranças de Sable se desvaneceram ao lhe ver a cara e com algo próximo a uma gargalhada, perguntou: -Pensa ficar assim para sempre? Posso te assegurar que te cansará disso depois de algumas horas. Lançou-lhe um olhar frio e distante enquanto respondia: -O que outra coisa poderia fazer? -Sua voz soou fria como o gelo e ao ver o rápido sorriso que apareceu em seus lábios poderia lhe haver parecido uma adaga no coração. Ele se separou da parede e se aproximou lentamente dela, pô-lhe um dedo no queixo e lhe ergueu o rosto para que o olhasse nos olhos. Então agachou a cabeça e burlonamente lhe acariciou a boca com os lábios. - Parece impaciente. Está ansiosa de que comecem suas novas tarefas? murmurou contra a boca. Logo seus lábios se deslizaram pela bochecha e lhe beijou a orelha -. Certamente que se assim o desejar, podemos começar imediatamente. Passou muito tempo desde que estivemos nas Bermuda e não posso pensar em ninguém que tivesse preferido para romper meu celibato forçoso. Nicole se afastou bruscamente dele. -Nem sequer Louise Huntleigh? Os olhos dourados resplandeceram de fúria entre as espessas pestanas negras e Nicole percebeu o súbito arrebatamento de mau gênio. -Deixaremo-la fora disto! -ordenou. Impulsionada por uma emoção oculta e desconhecida, argumentou: -Por quê? Não é sua amante? Acha que se sentirá agradada quando se inteirar de que estiveste pulando com outra? - É muito jovenzinha, não é assim, Nick? - mofou-se ele. Logo, ao ocorrer-se outra ideia, perguntou-: Que idade tem? Sem dúvida não os quinze anos que me tem feito acreditar. Enquanto estamos nisso também poderia me dizer seu verdadeiro nome. Não posso seguir te chamando Nick. Embora deva confessar que, apesar de tudo, provavelmente sempre pensarei em ti como Nick.


Não podia decidir o que lhe responder, mas eram perguntas tão insignificantes para resistir que lhe deu as respostas que lhe pedia. - Bem, Nicole, outra pergunta com sua permissão. Quanto faz que é a amante de Allen? Essa pergunta, vociferada asperamente, fez com que Nicole tomasse uma pausa. Certamente não lhe acreditaria se afirmava que jamais tinha sido a amante de Allen nem de nenhum outro. Por outra parte, quando ele a tomasse como faria sem lugar a dúvidas, sua virgindade seria evidente. Resignada, murmurou: -Jamais fui sua amante. - Minha querida criatura, esperas que acredite nisso? - perguntou zombador. Lhe sustentando o olhar, desafiou-o: - Não há uma maneira de averiguá-lo por acaso? - Ao ver o brilho especulativo nos olhos ambarinos, acrescentou-: Juro que me defenderei e pode estar seguro de que não o desfrutará! -O que? Não desfrutar de ser o primeiro! -burlou-se-. É muito jovem e cândida para pensar assim. A virgindade da mulher é o dom mais prezado por um homem. - Mas eu não sou sua mulher - replicou ela, zangada mas mesmo assim estranhamente excitada. -Não -respondeu com um sorriso em seus lábios-. Não no momento! Nem tampouco provamos a verdade de sua afirmação. Devo admitir que me resulta difícil acreditar que Allen não se aproveitou de ti. Certamente que - finalizou ele malicioso estou desejoso de que me demonstre o contrário. Ignorou a provocação e considerou mais prudente mudar de tema. - O que vai fazer com o Allen? O sorriso se desvaneceu imediatamente e se endureceram suas feições em uma máscara de severidade implacável. - Conviria-te esquecer do Allen. Não é benéfico para ti por agora. -Lhe esquecer? Deve estar louco! Quero-lhe! Não posso lhe afastar de mim como se nada tivesse acontecido! - gritou apaixonadamente. - Ama-lhe? - perguntou ele, cortante -. Faz um momento afirmou que não foram amantes. Te decida, Nick. Qual é a verdade? -Maldito seja! Inverte tudo o que digo. Não te direi mais nada. Pensa o que quiser. Fará-o de todos os modos - acrescentou ressentidamente. Os olhos de Nicole eram quase negros pelo fogo da paixão e o sofrimento ao lhe jogar estas palavras, mas Sable não se mostrou comovido. Observava-a como se fosse uma criatura divertida. Exasperada por sua atitude, Nicole deu uma patada no chão e pondo os braços na cintura, gritou: - Deus te amaldiçoe, Sable! Não fique aí sentado! Responde minha pergunta. O que pretende fazer com o Allen? Sable soltou uma gargalhada zombadora e disse em tom desdenhoso:


- Não está esquecendo que sou o único que está em condições de perguntar e exigir respostas? Recupera a calma, jovenzinha impetuosa. Chiando os dentes, Nicole tragou sua raiva impotente. Como se atrevia a permanecer tão frio, tão insensível, quando tinha feito um caos de sua vida e encarcerado o Allen, Allen que lhe tinha salvado a vida! Virou-se resolvida a sair dando uma portada, mas a voz de Sable, severo agora, deteve-a em seco. -Sente-se, Nick. Não vai a nenhuma parte, ao menos no momento. Sua lealdade com o seu... er... cúmplice, embora admirável, é desnecessária. Esse homem é perfeitamente capaz de ajeitar-se por sua conta. Você não! Se eu não te desejasse como te desejo... Só Deus sabe por que... Estaria presa na adega com ele. E até lhe pendurariam com ele - acrescentou com deliberação. Comovida e escandalizada, Nicole explodiu: - Não pode enforcá-lo! Não tem nenhum direito! Ele continuou imperturbável. - Não o enforcarei. Deixarei essa tarefa às autoridades de Nova Orleans. Endureceu a voz e continuou- Seu precioso Allen é um espião britânico. -Como sabe? Não tem nenhuma prova! - Não necessito nenhuma prova. Dá a casualidade que sei que é membro da Armada Real, de fato capitão. Em caso de que o tenha esquecido, Estados Unidos está em guerra com a Inglaterra. Mesmo que não tivesse tratado de roubar o livro de chaves, poderiam pendurá-lo pelo só feito de estar em meu navio. - O que diz? Allen não fez nada enquanto esteve a bordo de seu navio. Nem sequer pode provar que estava fazendo algo indevido hoje -replicou Nicole com desdém tratando de ocultar o medo que lhe oprimia o coração. Sable respirou fundo e sufocou o impulso de pô-la de barriga para baixo sobre seus joelhos e propinar-lhe uma boa surra para fazê-la entrar em razão. Não parecia dar-se conta da gravidade de sua situação e sua fé cega em Allen lhe chateava grandemente. - Allen pertenceu às tripulações de outros dois navios antes de incorporar-se ao La Belle Garce. Diria que foi pura casualidade que esses dois navios anteriores fossem tomados pelos britânicos a poucos dias dele ter subido a bordo e que ambas às vezes escapasse milagrosamente o senhor Ballard, só para reaparecer mais tarde sobre outro navio dos Estados Unidos? Nicole, perturbada, revolveu-se em sua cadeira, mas se aferrou a sua atitude agressiva. - Está inventando para desacreditá-lo. Além disso - persistiu-, para que quereria permanecer em La Belle Garce um capitão da Armada Real? Trata-se de um navio civil... Não leva segredos militares. Sable quase sorriu pela referência possessiva que utilizou para o navio, mas sua voz não revelou seus pensamentos ao lhe responder.


-Allen não é nenhum parvo! Só tinha que permanecer incógnito em La Belle Garce e subministrar a seus superiores as datas de saída e as rotas de outros corsários. Ante o olhar de incredulidade da Nicole, acrescentou: - Eu também tenho meus próprios métodos para averiguar coisas. Foi uma tarefa simples conseguir que certo... er... Amigo na Jamaica pedisse alguns dados sobre um suposto espião da armada. Naturalmente, não se deu nenhuma informação quanto às ordens que tinha Allen ou seu paradeiro, mas o testemunho que recebi revela claramente que o Escritório do Almirantado Britânico em Londres tem em muito alta estima ao jovem capitão Allen Ballard. Horrorizada e não pouco consternada ao descobrir que efetivamente Allen era o espião que ela tinha suspeitado, Nicole empalideceu. Era indubitável que Sable apresentaria sua informação às autoridades apropriadas e enforcariam ao Allen. No momento o perigo que ela mesma corria passou a segundo plano ante o perigo de morte que corria Allen, e estudou atentamente a Sable. Segundo todas as aparências, este não se alterou absolutamente pelos acontecimentos do dia, até se poderia dizer que era indiferente a tudo. Se tivesse concordado que Allen continuasse em seu posto, o teria permitido, como teria feito vista grossa com respeito a seu próprio disfarce indefinidamente. Não estava segura de seu papel naquele drama, mas suspeitava que ele se aborreceu da situação e tinha decidido lhe pôr término. Tinha a plena convicção de que o desejo que sentia por ela tinha sido um fator decisivo, e considerou a possibilidade de usar a paixão de Sable em proveito próprio. Cautelosamente, perguntou: - Se obtivesse algum benefício pessoal, esqueceria a identidade do Allen e lhe permitiria escapar? - Minha querida Nick, está tratando de me subornar? - perguntou, curioso. A jovem assentiu lentamente enquanto a excitação fazia ferver o sangue em suas veias. Mas Sable fez pedacinhos sua ilusão rindo cruelmente. - O que tem para oferecer? Nem um penique, e não acredito que Allen esteja em condições de negociar comigo. Era uma situação delicada e Nicole estava jogando com a hipótese muito aventurada de que Sable a desejava disposta a satisfazer seus desejos e não chutando e arranhando. Era uma realidade muito dura, mas respirando profundamente, disse com ousadia: -Não tenho nada que oferecer exceto minha própria pessoa. Proponho-te um trato... Eu vou a sua cama voluntariamente e fico contigo todo o tempo que deseje e você libera o Allen... Tem minha palavra.


CAPÍTULO IX

A proposta extravagante de Nicole deixou Sable estupefato. Depois de vários minutos de desconcerto, perguntou com curiosidade: -Está dizendo que te converteria em minha amante se liberasse Ballard? -Exatamente! -respondeu com mais confiança do que sentia. Durante um longo momento o olhar de Sable passeou sem pressa pelo corpo esbelto da jovem. Inconscientemente, ela ficou rígida de fúria pela evidente apreciação que fazia de seu corpo e, esquecendo toda prudência, ergueu o queixo, desafiante: - Bem, aceita o pacto? Com um leve sorriso zombador lhe curvando os lábios, Sable se afastou do escritório e caminhou com lentidão para ela. Quando a prendeu entre seus braços, o corpo de Sable estava quente e duro. Nesse momento Nicole sentiu um tremor nas pernas que não tinha nada que ver com o medo. - Por que não? - Perguntou ele em um murmúrio e em seguida seus lábios lhe cobriram a boca, sondando e explorando-a. Nicole permaneceu entre seus braços, dócil e insegura, repetindo-se que o fazia pelo Allen. Seus lábios eram macios, suaves e inexperientes sob os de Sable e depois de um momento ele levantou a cabeça e brincou: - Terá que te esmerar mais que isso, Nick. Incuravelmente sincera e ligeiramente irritada, Nicole replicou: -Como poderei fazê-lo se não sei o que devo fazer? Sable voltou a arquear uma sobrancelha, mas esta vez incrédulo e irônico. - Vai continuar com essa absurda pretensão de virgindade? Em seu lugar eu não o faria. Vi-te aquela tarde quando te encontrou com o Allen na lagoa e fui testemunha do abraço que deram. Jamais, minha querida Nick, tente me fazer passar por tolo. - Estou dizendo a verdade - afirmou ela, inflexível -. Além disso, seria muito néscio por minha parte tratar de mentir sobre algo que pode verificar-se com tanta facilidade. Observou as feições barbadas com suma atenção e desejou que ele não fosse tão destro em ocultar suas emoções. O que havia detrás daqueles inescrutáveis olhos dourados? O semblante não o traiu e Nicole se agitou, inquieta, entre seus braços de


aço enquanto os segundos passavam e ele continuava calado. Finalmente, ele comentou: - Há uma só forma de averiguá-lo, não é assim? Nicole assentiu lentamente e o coração lhe pulsou com fúria na garganta. Lhe observando o rosto fixamente, Sable a soltou e disse com brutalidade: - Deixaremo-lo aqui. - Um sorriso repentino iluminou seu rosto e lhe jogando um olhar malicioso, acrescentou-: Prevejo uma pausa muito prazenteira para ambos. Nicole não abriu a boca. Ele tinha aceito seu oferecimento temerário e precipitado e ela estava obrigada a cumpri-lo. Pelo menos tinha o consolo de saber que Allen estava a salvo. Inquieta, recordou que Sable não tinha aceito exatamente, mas o tinha deixado entender com claridade. O olhar de preocupação de Nicole caiu no cofre quando ele o jogou ao ombro. Ao advertir o interesse de Nicole, Sable sorriu com frieza e esclareceu sem piedade: - Não lhes teria servido de absolutamente nada, Nick. Esses livros de chaves abandonaram o navio esta manhã quando estava na despensa. Higgins já deve estar quase à metade de caminho de Nova Orleans nestes momentos. Nicole ficou branca e quase gaguejando de raiva exigiu: -Como é possível? Nem sequer te aproximou da caixa forte esta manhã. - Não é tão preparada como acredita, Nick. Foi muito simples tirá-los ontem à noite e confiar-lhe ao segundo oficial esta manhã. Um indivíduo muito leal esse Higgins - concluiu com esse tom lento tão irritante que estava acostumado a empregar. Nicole se sentiu culpada ao ouvir falar de lealdade, mas odiava o tom irônico da voz, assim com o corpo tão rígido e insensível como era possível, permitiu-lhe guiá-la para fora do quarto. A coberta estava deserta à exceção de alguns tripulantes que passeavam ociosamente. Ninguém falou enquanto se baixava o bote à água e subiam nele. Foi um silencioso trajeto até a costa; os únicos sons que rompiam o pesado silêncio que os envolvia eram o bater dos remos, o assobio das ondas ao açoitar o casco e o ocasional grito de uma gaivota no ar salobre. Sable prestava pouca atenção a Nicole e por um segundo, enquanto se afastavam do bote, considerou a ideia de pôr-se a correr a toda velocidade pela praia e proteger-se nos edifícios de tetos de palha depois das primeiras fileiras de árvores. - Eu não o tentaria se estivesse em seu lugar, Nick. - A fria advertência de Sable fez com que tropeçasse na areia e, desprezando a desalentadora ideia de que devia lhe haver lido o pensamento, perguntou com inocência: -A que te refere? - Sabe muito bem a que me refiro! Basta já de tratar de me enganar. -Logo, com toda deliberação, acrescentou-: Recorda o pobre Allen.


Reconheceu, doída, que quase tinha esquecido do Allen e abandonou a ideia de escapar. Algumas horas mais tarde, enquanto deslizavam para um pequeno desembarcadouro, Nicole percebeu que tinha estado ensimesmada em seus próprios pensamentos enquanto remontavam lentamente as negras águas e pantanosas do rio. Cravou o olhar vazio nos imensos ciprestes em seus pedaços de musgo cinza como véus espectrais. De repente se sobressaltou ao perceber que tinham chegado a seu destino e, como alguém que acordava de um sonho desagradável, reagiu mentalmente e adotou uma máscara de serenidade para ocultar o torvelinho interior. Thibodaux House era uma antiga plantação. As terras se arrebataram da selva virgem quando Nova Orleans não era mais que um punhado de choças de madeira apinhadas ao longo de uma curva infestada de pântanos e animais do turvo rio Mississipi. Onde antes tinham reinado os pântanos e os espectrais bosques de ciprestes e carvalhos, estendiam-se agora os campos de algodão e de cana de açúcar até as mesmas margens dos paredões que retinham o rio e os sempre cambiantes braços pantanosos que de outro modo teriam rodeado e coberto outra vez a terra. Fazia tempo que já tinham destruído a casa original, e a tinha substituído por outra mansão mais moderna e elegante. A casa atual tinha menos de vinte anos, embora os carvalhos imponentes que rodeavam a larga avenida que levava a ela eram quase centenários. Seus enormes ramos nodosos por pouco se tocavam por cima do caminho e delas penduravam os galhos e folhas como uma névoa sutil cinza esverdeada, formando um longo arco sombrio por onde agora caminhavam Sable e Nicole. A avenida terminava abruptamente e ante eles se erguia Thibodaux House, majestosa sob o sol invernal. Magnólias, pacanas e os sempre pressente carvalhos se achavam disseminados em estudado descuido pelas imediações do edifício como o marco de um formoso quadro. E a casa, sabedora de sua extraordinária beleza, emergia, orgulhosa e magnífica, desse parque natural de grama verde esmeralda que a circundava. Galerias, largas e frescas, rodeavam a casa pelos quatro cantos. Um corrimão de ferro trabalhado em filigrana de cor verde clara contornava o piso superior, enquanto que as graciosas colunas de tijolo estucado que rodeavam a piso inferior eram de um branco incrível. As persianas que adornavam as numerosas janelas altas e estreitas eram do mesmo tom verde que o corrimão superior, assim como às duas escadas a ambos os lados da casa. Por uns momentos Nicole se permitiu o prazer de admirar a serena e quase arrogante beleza daquela mansão. Mas pouco depois não pôde menos que perguntarse a que se devia a presença de Sable no lugar. Tinha amigos tão ricos e de tão boa disposição que podia visitá-los à vontade? Ou tinha obtido essa casa por meios ilícitos? E graças a suas suspeitas e receios, pôde dissimular toda a admiração que sentia. Nem sequer lhe arrancaram comentário algum os pisos de mármore branco e negro do imenso vestíbulo principal cujos ladrilhos estavam dispostos em um


encantador desenho de diamante. Com o corpo rígido e a cabeça alta permanecia ao lado de Sable enquanto ele falava em voz firme com um negro alto e esbelto de austero traje negro e camisa branca que acentuava o negrume de sua pele. Nicole não prestou atenção ao bate-papo mantido em voz baixa mas sim deixou o olhar perder-se no espaçoso vestíbulo, sem ver nem ouvir nada. Tão absorta estava em seus esforços por aparentar indiferença que o leve toque de Sable sobre seu braço, ao lhe levar em direção a imponente porta principal, fez-lhe dar um coice. Sorrindo, Sable comentou com frescura e aprumo: -Nervosa, querida? Não tema. Asseguro-te que não tenho nenhuma intenção de te atacar como um lobo faminto. Suas palavras mordazes não tranquilizaram Nicole, mas suspeitava que não tinha sido essa a intenção. Recuperando-se, lançou-lhe um olhar de ódio. Sable riu, e apertando a mão que lhe rodeava o braço, empurrou-a dissimuladamente para a galeria baixa. Ignorando o evidente rechaço da jovem, continuou empurrando-a em direção a uma das escadas. No primeiro degrau os recebeu uma negra jovem e sorridente com a cabeça envolta em um lenço grande de vivas cores. Sable saudou a jovem com amabilidade, e Nicole, vendo com amargura como se iluminava de alegria a cara negra da moça ao ouvir suas palavras, perguntou-se como era capaz de cativar sem o menor esforço a quem se propor e quando o desejava. Ao menos a ela não a estava cativando, pensou. Sable baixou a vista e a observou. Como se adivinhasse seus pensamentos, afirmou: - Estou seguro de que estranha à efusiva alegria dos serventes a minha volta, mas eles por alguma estranha razão sentem prazer em trabalhar para mim. Não têm, suponho, sua mesma opinião desfavorável quanto a meu caráter. - Meu prezado senhor, sua relação com os serventes não é de minha incumbência -disse com displicente aborrecimento-. Neste momento o único que me interessa é minha cama e meu banho. - Então sem dúvida te agradará muito o serviço de Médica. Será sua donzela enquanto permaneça aqui. Não deixe de lhe pedir tudo o que necessite - acrescentou em tom enérgico. - Não tenha nenhuma dúvida de que o farei - ronronou docemente Nicole. Sable sorriu; depois se afastou em direção ao escritório do capataz, um edifício pequeno de tijolo localizado do outro lado da cozinha da plantação. Como era típico das casas da Louisiana, a cozinha era uma construção separada detrás da casa principal; logo vinha o escritório do capataz, detrás desta os pombais e um pouco mais à frente as duas fileiras de pequenas cabanas de tijolo que serviam de alojamento aos escravos. Ao longe, detrás destas, o capitão Sable pôde ver os campos verdes de cana de açúcar. Por um momento se compadeceu da família que tinha perdido toda essa riqueza tão somente em uma partida de jogo de dados, mas os esqueceu com rapidez ao abrir de um empurrão a porta do escritório de seu capataz.


Nicole passeou pelo espaçoso dormitório elegantemente decorado no qual se encontrava, perguntando-se como chegou Sable a rodear-se de semelhante luxo. Era um quarto esplêndido: suaves tapetes de lã cobriam a maior parte do lustroso piso de madeira; uma enorme cama de mogno esculpida e alegres tapeçarias de seda amarela estavam situada contra uma parede; aqui e lá se viam mesinhas adornadas com incrustações; algumas cadeiras e poltronas estofadas em damasco de excelente qualidade se agrupavam perto da lareira; e ainda por cima do suporte da chaminé um magnífico espelho dourado refletia todo o dormitório. Voltando as costas à chaminé, caminhou até uma das janelas altas e estreitas com cortinas de cetim do mesmo matiz amarelo que as colchas da cama e ficou com o olhar fixo na lonjura. A vida era realmente endemoninhada, pensou com tristeza. Ontem a essa mesma hora, Allen e ela tinham o mundo nas Palmas das mãos e agora o maldito capitão Sable tinha mandado tudo ao inferno. Ficou contemplando a grande extensão de grama à mortiça luz do entardecer e tratou de imaginar como se sentiria no dia seguinte... Depois daquela noite! Em silêncio observou o pôr do sol e desejou, ao vê-lo desaparecer lentamente detrás dos altos carvalhos, que a noite já tivesse passado. Mas, apesar de um certo acanhamento, Nicole não era covarde e tinha dado sua palavra. Era verdade que lhe agradaria mudar de opinião e enquanto Médica se ocupava no quarto a suas costas e estendia sobre o leito uma bata de seda de cor verde intensa e uma camisola de um tom mais claro, mas não menos transparente, sentiu o desejo premente de sair correndo do quarto e suplicar a Sable que esquecesse esse néscio pacto que tinha feito no navio. Entretanto, ao pensar no destino do Allen compreendeu que não podia fazêlo. Sabia que os planos de Sable com respeito ao Allen se alteraram por sua intervenção, e o capitão lhe faria cumprir o prometido. Sombriamente, como um gladiador preparando-se para a arena, deixou que Médica lhe soltasse e lavasse o cabelo, e com o mesmo ar de resignação se submeteu ao banho de água perfumada de jasmim. Fechando os olhos, desejou que seu corpo intumescido relaxasse na água quente e para sua surpresa assim foi. Lamentou deixar o banho, mas permitiu que a donzela a envolvesse em uma enorme toalha macia e a guiasse à cama. As mãos suaves e eficientes de Médica lhe deram uma massagem, relaxando-a pouco a pouco. Logo com um azeite ligeiramente perfumado com uma mescla de jasmim e madressilva lhe esfregou a pele até deixá-la suave e elástica. Com docilidade, Nicole vestiu a camisola e a bata que cobriram seu corpo nu com suaves dobras até o chão. De repente, perguntou-se aonde tinha ido parar sua vontade de brigar, e recordou que não devia haver nenhuma resistência por sua parte, que tinha que estar disposta e desejosa: esse tinha sido seu próprio pacto. Seu atordoamento era tal que nem sequer a aparição de Sable com uma bata de seda dourada com brilhantes dragões chineses em negro conseguiu fazê-la reagir. Atuando como se receber cavalheiros em seu quarto fosse frequente, permaneceu impassível enquanto Sanderson, o negro com quem tinha falado Sable ao


chegar, punha a mesa e procedia a lhes servir o jantar. Era uma comida digna da realeza, mas pelo muito que saboreou Nicole os suculentos camarões, o filet de boeuf aux champignons, e o arroz da Índia com ostras, poderia ter estado comendo casca negra de pão ressecado. Com o segundo prato se serviu um vinho da borgonha vermelho intenso e Nicole esvaziava sua taça tão depressa como a enchiam. Sable, esparramado em sua poltrona e saboreando um charuto depois do jantar, sorriu ao vê-la esvaziar outra taça de vinho com ar desafiante. A jovem olhou ao Sanderson, mas o criado, ao ver o decidido gesto negativo de Sable, fingiu não vêla, e interpretando corretamente o olhar que lhe enviava seu amo, tirou a mesa com rapidez. Logo Sanderson saiu do quarto não sem antes deixar uma garrafa de conhaque para Sable. Ela o viu partir, consternada, e depois decidindo precipitadamente que o ataque era a melhor defesa, respirou a fundo e disse: -E agora? Sable lhe sorriu com certa indolência, mas depois de apagar o charuto pela metade esmagando-o no cinzeiro, desvaneceu-se seu sorriso. - E agora, minha pequena arpía... Averiguaremos quanto de verdade há em tudo o que esteve me dizendo!


CAPÍTULO X As palavras a sacudiram como uma rajada de vento gelado. Petrificada, observou-o com olhos obscurecidos pela emoção quando ele ficou lentamente de pé e começou a aproximar-se. Sable ficou junto a ela por um momento e lhe estudou o rosto de feições levemente turvadas, olhos quase negros pelo torvelinho de emoções que a embargavam e boca generosa e incitante. A cabeleira escura de reflexos avermelhados lhe caía sobre os ombros e lhe emoldurava o rosto lhe dando a aparência de alguma estranha criatura dos bosques; uma criatura selvagem jamais tocada pelos homens. Seus olhos se atrasaram por um momento sobre a boca entreaberta e depois se deslizaram até as suaves curvas dos seios, contemplando-os como enfeitiçado ao vê-los subir e descer cada vez mais depressa sob a renda verde de sua camisola. Nicole jamais havia se sentido tão consciente de seu próprio corpo, mas por outro lado nunca tinha usado uma roupa tão transparente em sua vida, nem, o mais importante de tudo, nunca tinha sido o objeto do interesse sensual de Sable. Percebeu uma estranha sensação de indiferença a tudo o que a rodeava, quase como se aquilo estivesse acontecendo à outra pessoa. A sensação continuou inclusive enquanto ele a envolvia com seus braços. Não era a ela a quem estava beijando com lábios apaixonados; os braços que a estreitavam contra aquele corpo magro e alto, sustentavam, em realidade, a outra garota, enquanto ela, Nicole, era simplesmente uma espectadora. Sable percebeu sua falta de atenção e teve consciência de sua indiferença, assim afastou os lábios da boca de Nicole. Podia sentir no corpo gracioso que apertava entre seus braços e na brandura dos lábios que havia coberto com sua boca. Observou-a com os olhos mais ambarinos que nunca, ocultos pelas grossas pestanas negras. Talvez fosse virgem como afirmava, mas tinha suas dúvidas. E como acreditava mais propenso ao engano que à lealdade, perdeu pouco tempo em preliminares. De um ligeiro tapa lhe arrancou a camisola agarrando-a pelo decote e puxando para baixo. Nicole ficou nua e imóvel ante ele e a luz das velas banhou o corpo esbelto e marmóreo. Ao contemplar a beleza desse corpo de seios erguidos com mamilos de cor intensa, o estreito tronco sobre uma cintura pequena e esbelta, o estômago tenso e plano e o adorável triângulo escuro entre as longas pernas, Sable ficou sem respiração


e o desejo explodiu nele como um vulcão ardente. Levantando-a em seus braços a levou a cama. Sable se deitou ao lado de Nicole que permanecia imóvel sobre os lençóis perfumados, com o longo cabelo caindo como um manto de fogo ao redor dos ombros. Deitado de lado perto dela, tocando-a apenas, inclinou a cabeça e a beijou devagar a pesar do desejo premente de seu corpo, mas sem obter resposta uma vez mais. Aborrecido, incorporou-se apoiando-se em um braço e a olhou à cara. Com o semblante sério e essa sensação de total indiferença desvanecida levemente, Nicole cravou o olhar no duro rosto barbudo. dele emanava um desejo animal que perturbou ainda mais sua calma exterior. - Me olhe, Nick - ordenou-lhe suavemente, e tomando o queixo a obrigou a contemplá-lo de frente. Com voz que traía sua ira contida e crescente, resmungou-: Quando te beijo, maldita seja, quero sentir que estou beijando a uma mulher de verdade e não a uma solteirona de lábios ressecados. Espremeu-lhe a boca com um beijo violento obrigando-a a entreabrir os lábios. Explorou e saqueou sua boca lhe sustentando firmemente o queixo na mão sem lhe permitir nem uma pausa durante o assalto. Sacudida pela crua impaciência da boca de Sable, Nicole se sentiu impotente contra o súbito fluxo de desejo que emergia em todo seu corpo. Incapaz de resistir, seus lábios se tornaram suaves e complacentes debaixo dos dele. Quando percebeu que Nicole se entregava sem resistência, soltoulhe o queixo e seus dedos começaram a lhe acariciar o queixo e o pescoço antes que sua mão se deslizasse aos ombros e descesse pelas costas, deixando um rastro de fogo em seu caminho. Nicole se sentiu como uma possessa, como se outra criatura, um animal sensual e ardente, tivesse entrado em seu corpo. Seus braços se estenderam por vontade própria para abraçar Sable. Suas mãos, seguindo os ditados de seu próprio desejo, acariciaram a cabeça escura de Sable e em seguida, ousadamente, deslizaram-se para baixo para explorar seu corpo comprido e esbelto, as costas largas sulcada de ásperas cicatrizes e os braços de músculos suaves e tensos como o ferro. As mãos de Sable eram como tochas de fogo deslizando-se com delicadeza sobre o corpo da jovem; sua boca já não saqueava, mas seguia faminta e exigente enquanto tentava despertar e agitar o desejo nela. Nicole estava se afundando em novas sensações sem poder pensar com prudência nem por um segundo, devorada por uma paixão que ardia com mais intensidade com cada nova carícia. O corpo duro e quente de Sable parecia arrastá-la para as profundidades dessa paixão devoradora: o suave roce do pêlo do peito sobre seus seios, a fortaleza daquelas pernas contra as suas, e o símbolo de sua masculinidade entre elas, quente e vibrante. Quando o desejo apagou todo pensamento coerente de seu entendimento, Sable já não pôde dominar mais suas emoções. Já não pôde tocar e explorar com igual delicadeza a carne sedosa da moça. Esquecendo sua possível virgindade, cegamente, sua mão procurou a acetinada suavidade entre as pernas e seus dedos se introduziram nela sem prévio aviso.


Ao sentir essa primeira carícia violenta entre as coxas, todo o corpo de Nicole se esticou. Invadiram sua mente as lembranças de Sable com outras mulheres e soube que não poderia seguir adiante. Os pensamentos mataram a paixão que tinha nublado seu entendimento e separando a boca da de Sable, afastou-se temerosa engenhando-se para evitar suas mãos. Metade sobre o leito e metade de joelhos sobre o chão, cravou-lhe o olhar enquanto ele franzia o cenho e seguia com os olhos frágeis pela paixão. Tratando de lhe explicar sinceramente os motivos que a levavam a seu rechaço, gaguejou: -Eu... eu não posso! Por favor, entenda! As palavras pareceram deixar Sable pasmado e por mais de um minuto ficou olhando-a fixamente, incapaz de entender o que lhe dizia. Mas depois recordou sua possível virgindade e trocou toda sua atitude: seus olhos se voltaram quentes e insinuantes ao pousar-se sobre o rosto tenso de Nicole. -Silêncio, carinho. Venha a mim e me deixe te ensinar. Não te machucarei... prometo-o. Por Deus, Nicole, me deixe te amar - disse com voz rouca, e desarmandoa com sua gentileza, tomou entre seus braços seu corpo dócil até deitá-lo junto a ele. Permaneceram assim, juntos, durante vários segundos e Nicole tomou consciência dos corpos nus roçando-se; quando ele a beijou movendo os lábios em suave ritmo sensual, afundou-se novamente em um embriagador mar de desejo. As mãos viris exploraram as esbeltas curvas e, lentamente desta vez, enlouquecedoramente, acariciando-a, tocando-a com doçura. Atordoada, tratou de liberar-se da teia de aranha que Sable estava tecendo ao redor dela, mas seu corpo já estava apanhado no desejo ardente que ele tinha despertado com tanta perícia. Um fraco gemido escapou de sua garganta quando os lábios de Sable deixaram sua boca, machucada pelos beijos ardentes, para deslizar-se lentamente até os mamilos endurecidos. Não estava preparada para o prazer que lhe proporcionaram seus dentes ao lhe mordiscar com ternura a carne morna enviando um calafrio de puro desejo animal por suas costas. Suas mãos se moviam sobre a pele com energia sensual, lhe acariciando lentamente a parte posterior do pescoço, descendo pela coluna até os quadris, excitando-a além de toda razão. Atraiu-a para ele e ambos ficaram de lado, com os seios roçando o rude pêlo do peito viril. Então Sable lhe fez sentir que estava duro e preparado para ela. Rapidamente tomou uma mão e a guiou a ele ignorando a surpresa da moça. Instintivamente Nicole soube o que desejava e experimentou uma súbita onda de ternura quando lhe ouviu conter o fôlego e ficar tenso enquanto suas mãos inexperientes exploravam sua essência. Um gemido afogado surgiu dele quando ela continuou acariciando-o e Sable sentiu crescer sua necessidade dela, até que soube que devia possuí-la o quanto antes. Devagar, depositou-a sobre a cama enquanto lhe explorava a boca com crescente urgência. Nicole estava tão turvada por todas aquelas sensações novas para ela que por sua mente não passou nem um só pensamento coerente. Quando a mão de


Sable tocou suavemente entre as coxas, Nicole se sobressaltou, metade de medo, metade de impaciência, mas ele a tranquilizou falando contra sua boca. - Não te mova, amor... não resista, carinho. Será maravilhoso... prometo-o. Com um estremecimento Nicole se apertou contra ele e Sable mudou levemente de posição enquanto seus dedos, gentis e peritos, facilitavam o caminho para a posse. Ficou entre suas coxas, separou-lhe as pernas com os joelhos e liberando a boca por um segundo, murmurou: - Me deixe, amor, me deixe te encher e me perder em ti. Aturdida e presa de um exacerbado frenesi de desejo, Nicole mal lhe ouviu. Sentiu que se erguiam seus quadris e depois experimentou a primeira pressão de sua entrada. Ele a possuiu docemente, tão docemente que apenas houve um instante de dor, e logo se deslizou dentro da suavidade morna e úmida de suas coxas. Assaltada por um amontoado de emoções e sensações, Nicole pôde sentir que seu corpo se expandia para tomá-lo, para amoldar-se a aquela invasão. Beijando-a, lhe sussurrou meigamente: -Sim, minha pequena, era virgem depois de tudo. - Mas logo o tom ligeiramente carinhoso se perdeu e sua voz adquiriu um tom rouco-: Deus, não sei se poderei me conter... desejo-te com tanto desespero. Sua boca tomou posse dos lábios entreabertos de Nicole e seu corpo, apesar de suas palavras atento à inexperiência da jovem, começou a balançar-se contra ela até que não pôde aguenta-lo mais, e investiu violenta e quase dolorosamente dentro dela. Embora tratou de não machucá-la, Nicole não estava preparada para os movimentos súbitos e violentos do corpo viril e deixou escapar um grito de dor. Ao ouvi-lo, Sable se obrigou a diminuir a força de seus movimentos, mas o corpo suave de Nicole lhe impulsionava a enchê-la, a tomá-la como jamais tomou a nenhuma outra mulher. Levado de um impulso incompreensível, desejou marcá-la com sua posse, tomá-la com tal intensidade e potência que fosse para sempre dele. E Nicole, alheia a tudo menos ao corpo sólido e compacto que estava unido ao dela, subitamente, com um arrebatamento febril se emparelhou com ele, elevando seu corpo ao encontro de sua investida enquanto suas mãos lhe agarravam atraindo-o contra ela como se não pudesse saciar-se dele. E quando ao fim teve esgotado a última emoção incrível convertendo-se em uma rajada selvagem de delicioso prazer, Sable embalou o corpo trêmulo de Nicole entre seus braços. Ela estava exausta pela tormenta que ele tinha desatado e confundida pela facilidade com que tinha sucumbido a sua paixão. Nenhuma só vez tinha pensado em Allen e agora recordava com sentimentos de culpabilidade que se supunha que se entregou a Sable pelo Allen. Ficou ali entre seus braços, consciente de certo desconforto entre as pernas e de repente se encheu de tristeza seu coração. Sable tinha sido gentil e terno, não podia negá-lo, mas mesmo assim não se apagava a sensação de que o acontecido àquela noite era algo do que nunca se poderia sentir orgulhosa. Disse-se que o tinha feito pelo Allen e não se arrependia: devia-lhe a vida e tinha pago um preço muito pequeno


por isso. E contudo, ainda havia uma pergunta que lhe corroia a alma... foi só pelo Allen que se entregou a Sable? Não podia respondê-la e não queria enfrentar-se à verdade. Intranquila, afastou-se um pouco do corpo relaxado de Sable e depois de uns minutos começou a cochilar, mas não pôde conciliar um sono profundo. Passados uns vinte minutos mais ou menos, com as lágrimas não derramadas lhe apertando a garganta, sentou-se na cama ignorando Sable que jazia junto a ela com a mão sobre o travesseiro onde tinha estado brincando com seu cabelo. -Aonde vai? - Não sei. Tiveste o que desejava. Já não pode tirar mais nada de mim. Sable se limitou a sorrir e seus olhos se voltaram ainda mais dourados e quentes ao contemplar suas belas e delicadas feições. -OH, não. A ti, desejarei-te uma e outra vez durante algum tempo. Já estou faminto de ti outra vez, sabia? Nicole lhe olhou e logo rapidamente desviou a vista da prova crescente do que dizia. Deitada junto a ele, com a mente confusa, tomou uma decisão. Allen odiaria o pacto que fez por ele e agora ela sabia que não poderia continuar com isso. Já tinha entregue sua inocência a aquele homem. Não podia dar mais e não queria dar mais, temerosa do que poderia lhe revelar de si mesmo. Alheio por completo a sua agitação e desconcerto, Sable estava lhe acariciando as costas com a ponta dos dedos enquanto sua boca se deslizava sobre o ombro. - Veem de novo a mim, Nick -pediu com voz rouca pela paixão. - Não, jamais! - replicou Nicole subitamente enojada pela sordidez de tudo aquilo. Afastou-se dele de um salto com os olhos obscurecidos pela vergonha -. Fiz um pacto estúpido. Não posso me converter em sua amante. Acreditei que poderia, mas agora descubro que, nem sequer por salvar ao Allen, posso me converter em uma vulgar prostituta... e muito menos em uma das tuas. Sable endureceu o gesto e sentiu a fúria subir a sua garganta ao ver que ela pudesse pensar que tudo terminaria tão facilmente. - Pode estar bem tranquila em relação ao seu pacto! - grunhiu ele-. Não tenho nenhuma intenção de soltar ao Allen Ballard e nada que possa fazer mudará minha decisão. - Ante o olhar incrédulo da Nicole, riu suavemente-: Nunca disse que o soltaria com essas mesmas palavras, tem que reconhecê-lo. - Mas você... você - Nicole ficou sem palavras enquanto tratava desesperadamente de recordar suas palavras exatas. - Eu disse «por que não?». Devo reconhecer que poderia estar implícito. Mas devia ter te assegurado antes de dar por certo que estava de acordo. Sua fúria diminuiu um pouco ao ver a expressão perturbada de Nicole e quase carinhosamente acrescentou: - Não se encontra em mãos dos norte-americanos em Nova Orleans no momento, assim poderia dizer que cumpri com o pacto. Mas, me ouça bem, Nicole,


não soltarei ao Allen... ao menos não imediatamente. Quando decidir que não vai causar mais problemas, considerarei-o. -Mas o prometeu! -protestou Nicole acaloradamente, sem compreender muito bem o que estava dizendo Sable. - Você também! - replicou ele-. Prometeu ser minha amante todo o tempo que eu o desejasse... mas ia voltar atrás, não o negue. - Isso é diferente! -argumentou à defensiva. - Temo-me que não posso ver a diferença. E embora os acontecimentos não estejam dando quão resultados tinha planejado, eu cumpri minha parte. Allen ainda está vivo e até agora não está no calabouço de Nova Orleans - soprou Sable. -É um canalha traidor! Uma besta monstruosa! Enganou-me deliberadamente! - gritou Nicole, furiosa, jogando raios pelos olhos cor topázio-. Sabia que eu acreditava que o liberaria depois de esta noite! - E você teria ido pela manhã, não é verdade? - grunhiu ele-. Teria-te ido reunir com seu cúmplice depois de enganar astutamente ao capitão. Nicole ficou pasmada que ele pudesse considerá-la capaz de semelhante perfídia. - Por favor, poderíamos esquecemos por um momento de Allen e do pacto? perguntou em tom humilde -. Poderia entender que mudei de opinião? Não quero ser sua amante, Sable... e Allen não tem nada a ver com isto. - Mas faltaria a sua palavra. Deu-me isso, não o negue - explodiu, cortante. - Você também deu... e tampouco a cumpriste. Sabia que acreditava que deixaria livre ao Allen pela manhã. Assim está faltando a sua palavra também! -Não exatamente! -respondeu sorrindo -. Eu nunca te dei minha palavra. Você sim e agora não quer cumprir o prometido! Bem, me deixe te dizer, moça, que não me agrada que não me paguem as dívidas. Esqueceremos seu pacto, de acordo! Esqueceremo-lo e te tratarei como deveria ter feito quando descobri sua traição. Cheio de rancor, esticou os braços para apanhá-la. E nesse instante, antes de saltar fora da cama, pensou que todas as mulheres eram iguais... mentirosas, trapaceiras e traidoras, e que nem sequer Nicole era distinta da primeira mulher que tinha feito que o desterrassem e vendessem à armada. Prostitutas... todas elas, até a última! Nicole tinha visto a determinação no olhar de Sable um momento antes que se movesse e se ocultou detrás da mesa onde tinham jantado. Ao vê-lo avançar sentiu um calafrio pelas costas. Percebeu que o impulsionava uma emoção estranha, uma emoção na qual ela só tinha influenciado em parte e com temor crescente observou seu avanço. Tinha o cabelo negro revolto e a luz vacilante das velas projetava sombras sinistras sobre seu rosto barbado e seu corpo alto e esbelto. Seus olhos tinham um olhar gelado e penetrante e o rictus malvado de sua boca lhe fez compreender que só matando-o poderia salvar-se. Giraram lentamente ao redor da mesa, caçador e presa, e


procurando freneticamente uma via de escapamento ou alguma forma de detê-lo, os olhos de Nicole deram com a taça que ele tinha usado durante o jantar. Sem pensá-lo duas vezes, agarrou-a e de um golpe contra o canto da mesa lhe quebrou a parte superior; empunhando-a pela base se preparou a usar as afiadas bordas como arma. Resplandeceram os olhos dourados e ele riu suavemente. - Acha que isso me deterá? Nicole assentiu vigorosamente abrindo muito os grandes olhos e decidida a tudo. - Não me deterá, sabe - respondeu ele com frieza -. Proponho-me te ter e nada, nada, deterá-me! Arremeteu contra a mesa e Nicole teve que abandonar seu amparo. Agora não havia nada entre seus corpos nus, salvo a borda afiada e brilhante da taça. Sustentou-a como se fosse uma faca e cautelosamente começou a retroceder afastando-se dele. O coração golpeava furiosamente em seu peito e se sentiu um tanto enjoada. Devia ter estado louca para ter sugerido um pacto tão monstruoso e mais louca ainda para ter deixado que as coisas chegassem tão longe. E enquanto Nicole seguia retrocedendo, endureceu-se a expressão de Sable e apareceu um brilho glacial em seu olhar antes de atacar. Nicole, surpreendida por seu movimento brusco e inesperado, tropeçou com uma poltrona e não pôde recuperar o equilíbrio nem proteger-se. Sable agarrou a mão que sustentava a taça e lhe torceu o braço detrás das costas. Empurrou-a por toda o quarto e lhe afundou a cara na cama. A dor do braço era insuportável e, por um momento, com a cara afundada no colchão de plumas, acreditou que ia asfixiá-la. Então a mão se afrouxou e seu braço ficou livre; antes que pudesse tomar ar, as mãos viris de Sable lhe agarraram os quadris e lhe levantaram a metade do corpo fora da cama. Lutou e se retorceu para liberar-se, mas lhe tinha rodeado a cintura com o braço e a sustentava firmemente e, cheia de incredulidade e um estranho comichão de impaciência, sentiu a outra mão deslizar-se entre suas coxas. Soube instintivamente o que pensava fazer e lutou com maior denodo e ferocidade, relutava a ceder ao desejo que se agitava em seu interior, mas sua resistência excitou ainda mais a Sable. O braço soltou a cintura e com ambas as mãos em seus quadris a penetrou por detrás. Incapaz de liberar-se, nem sequer segura de desejar estar livre, Nicole só tinha consciência desse corpo potente que estava penetrando-a e, com horror, experimentou uma repugnante explosão de prazer quando ele continuou investindo-a até o mais profundo. E então essa posse metade selvagem, metade excitante, chegou a seu fim quando Sable soltou um grunhido gutural de pura satisfação carnal e se separou dela. O corpo violado se desabou sobre a cama. Sentia dor entre as coxas e em seu cérebro ardia um fogo colérico que nublou sua razão. Vagamente ouviu Sable dizer sem emoção na voz: - Sinto muito, não merecia isso e não devia ter perdido a paciência... mas, Nick, temo-me que buscou isso. - A desculpa indiferente inflamou seus turbulentos


sentimentos e soltando um grunhido selvagem se incorporou de costas e virou-se em sua direção com o braço estendido e a taça quebrada na mão. Embora Sable se moveu com a velocidade do raio, não pôde escapar ileso. O talho deu totalmente no peito de Sable, desceu em diagonal sobre as costelas da esquerda à direita e desceu pelo estômago e a virilha até terminar na coxa. Sable se separou de um salto, mas Nicole, empunhando a arma improvisada, seguiu lhe espreitando como um animal enfurecido, resolvida a destruir essa parte dele que lhe tinha tirado a virgindade fazia tão pouco. Sable a observava com cautela. Era evidente que estava resolvida a castrá-lo e mais evidente ainda que gozaria ao fazê-lo. Retrocedeu cautamente, mantendo-se a distância daquela parte de cristal afiado como uma navalha. Nem por um segundo afastou o olhar dos olhos de Nicole enquanto se moviam pelo quarto com os papéis invertidos: ela a caçadora e ele a presa ansiada. Mas Sable tinha a mente ágil. Permitiria-lhe aproximar-se; logo, no último segundo, com habilidade a esquivaria afastando-se bruscamente da arma. Uma e outra vez escapou fora de seu alcance levando-a com habilidade para onde ele queria. Mais enfurecida ainda por esses saltos de bailarino que executava Sable, Nicole brandia a taça cada vez mais freneticamente. De repente, quando a mesma fúria a voltou descuidada, afastou o olhar dos olhos de Sable... e nesse preciso instante ele agarrou sua pesada bata de seda. Usando-a como faria um matador com sua capa, fê-la girar no ar e a envolveu ao redor do braço da Nicole cobrindo a taça, que ficou inutilizada. Imediatamente se equilibrou sobre ela e a aprisionou entre seus braços enquanto com uma mão agarrava a que ainda empunhava a arma. -Solta-a, Nick! -ordenou, mas Nicole a apertou com mais força. Sable a sujeitou firmemente enquanto apertava a mão de Nicole cada vez com mais intensidade e lhe causando mais dor. - Não o farei! -ofegou ela retorcendo o magro pulso para liberá-lo do abraço de ferro-. Jamais! O punho de Sable se fechou com mais força e Nicole se deu conta de que lhe torceria o pulso se não soltava a taça. A pressão era quase insuportável e logo, de repente, desapareceu. Os dois ouviram o desagradável som do osso ao quebrar-se e ela caiu sobre ele enquanto a taça se desprendia de seus dedos intumescidos. Sable deixou escapar um grande suspiro de alívio ao sentir que ela relaxava e quase com ternura levantou o corpo da derrotada Nicole entre seus braços e a depositou na cama. A dor do pulso era como um surdo batimento do coração, e enquanto jazia na cama sentiu brotar estúpidas lágrimas femininas detrás das pálpebras. «Não vou chorar!», pensou mais furiosa ainda. Sua humilhação era o bastante grande sem necessidade de desfazer-se em lágrimas. Jazia de lado, ignorando Sable por completo, com o corpo encolhido e dolorido. Sable ficou contemplando-a com rosto inexpressivo, preso de uma multidão de emoções concentradas. Confusamente descobriu que a desejava. Outra vez, agora! Com o desejo se mesclava uma momentânea ternura e um agudo


remorso pelo trato que lhe tinha dado. E por incrível que fosse, admitiu que sentia uma estranha satisfação por ter comprovado que não lhe tinha mentido a respeito de sua virgindade. Agitado por estes pensamentos contraditórios, afastou-se dela com impaciência. No quarto reinava a confusão e a desordem devido à luta que tinham mantido. Com grande rapidez esteve junto à corda de sino e chamou o servente. Logo voltou para a cama, vestiu a bata e cobriu o corpo de Nicole com a manta. Quando Sanderson foi a sua chamada, Sable lhe pediu várias coisas e lhe mandou que pusesse ordem no quarto. As feições de Sanderson não traíram o que pensava a respeito de tal petição a essas horas da noite nem do estado do quarto. Calado e eficientemente endireitou as cadeiras e poltronas derrubadas, pôs as mesinhas de mogno em seus lugares correspondentes e recolheu as partes de cristal do chão. Retornou pouco depois trazendo o conhaque e as demais coisas que Sable tinha pedido em uma grande bandeja de prata. Depois de depositá-la sobre uma mesa, perguntou: -É tudo, senhor? Sable o despediu com um leve movimento de cabeça, serviu-se uma taça de conhaque e acendeu um charuto. Durante comprido momento permaneceu de pé olhando fixamente o corpo imóvel de Nicole. Esta, por seu lado, estava totalmente exausta. Nesses momentos desejava estar morta. Não, refletiu subitamente, desejava que Sable estivesse morto. Rodou penosa e dolorosamente sobre o outro lado. Era melhor, disse-se, ter o inimigo sempre à vista. Com semblante impenetrável lhe devolveu o olhar, embora arqueasse uma sobrancelha como lhe questionando a imprudência de mostrar tão às claras o que sentia. Sem nenhuma pressa, agarrou a jarra de água quente e a bacia, assim como os panos que tinha pedido, e foi para ela. Ao olhá-la do alto lhe recordou uma raposa que tinha visto uma vez com a pata quase decepada por seus próprios dentes em seus desesperados esforços por escapar da armadilha. A criatura tinha olhado para o caçador furtivo que se aproximava da mesma maneira: temerosa, e não obstante pronta para lutar por sua vida. Comovido pelo olhar de Nicole, vacilou. -Não tenho o propósito de te machucar outra vez -disse por fim. Depois, anulando toda a compaixão que poderiam ter irradiado suas palavras, adicionou com brutalidade -: A menos que me force a isso. Nicole encolheu os ombros, apertou os lábios em gesto de rebeldia e o amaldiçoou com seus olhos topázio. Indiferente a sua hostilidade, puxou as mantas e deixou o corpo nu ante sua vista. Nicole se dominou para permanecer imóvel enquanto a mão de Sable lhe acariciava a coxa e o quadril. Mas, com um suspiro de pesar, reprimiu seu desejo e pegou delicadamente a mão ferida da jovem. Nicole se encolheu de dor apesar da suavidade do toque e Sable sorriu compassivamente.


- Sinto muito. Não teria te machucado de propósito, mas não tinha nenhum desejo de passar o resto de minha vida falando com uma vozinha estridente de uma menina. Em qualquer outra circunstância, Nicole se teria posto-se a rir ante suas palavras, mas aquela vez não estava de humor. Entretanto, por mais que tratasse de negá-lo, esse homem a atraía irresistivelmente. Observou-o com o olhar opaco e ressentido e se perguntou, desconsolada, por que ainda podia olhá-lo e encontrá-lo atrativo. Mas é que era tão chamativo, pensou zangada, com essas feições cruéis e sardônicas, os olhos amarelos ouro brilhando no rosto barbado e o cabelo tão negro que tinha reflexos azulados. As mãos de Sable a tocavam com muita delicadeza. Estava seguro de que o pulso não estava quebrado pois sabia exatamente quanta pressão tinha exercido, mas estava torcido e devia lhe doer muitíssimo. A enfaixou quase como um profissional, usando as tabuletas e as tiras de linho que tinha pedido antes. Não lhe faria nenhum mal ter a mão em repouso um ou dois dias e tinha um pouco de láudano para lhe acalmar a dor. Serviu um pouco de conhaque em uma taça, adicionou-lhe umas gotas de láudano e a ofereceu. - Pensa me drogar agora? - perguntou com desprezo. - Precisamente, minha pequena putinha. Para seu próprio bem. Seja uma boa menina e beba isso tudo -disse sorrindo fracamente. Com uma careta de resignação tomou a taça que lhe oferecia e bebeu todo o conteúdo de um só gole. Recostando-se nos travesseiros levantou o olhar para ele,curiosa a respeito de qual seria seu próximo passo. Ia desvanecendo o medo que havia sentido antes. Com o pulso enfaixado, o calor agradável do conhaque correndo por suas veias e o pior já passado, descobriu que podia olhar o futuro com mais ânimo do que tinha acreditado possível fazia uns minutos. Sable deixou a taça vazia sobre a mesa ao lado da cama. E logo, para surpresa de Nicole, começou a lhe lavar todo o corpo com o resto da água morna. Não havia rastro de desejo no rosto barbado ao inclinar-se sobre ela e esfregá-la com a esponja para apagar todo vestígio da virgindade perdida e de sua própria paixão brutal. Que estranho era que depois daqueles acontecimentos cheios de violência pudesse agora comportar-se como o amante mais terno e considerado. Sua inesperada bondade e ternura a deixaram perplexa. O láudano estava surtindo efeito, sonolenta, e desejou que se fosse e a deixasse em paz. Tinha tomado o que queria, não era assim? agitou-se, nervosa e ressentida, sob suas mãos, contente quando ele por fim jogou a esponja e o pano dentro da bacia. Mas parecia que Sable não tinha terminado com ela. Nicole o observou com olhos dilatados de assombro quando começou a tirar a bata e se deitou a seu lado. O láudano entorpecia seus reflexos, mas levantou os punhos para lhe golpear o peito. Sable soltou uma gargalhada e lhe agarrou as duas mãos, com cuidado para não lhe


causar dor no pulso ferido. Segurou-lhe firmemente os braços e quando se inclinou sobre ela, misterioso e determinado, Nicole exclamou com raiva: - Outra vez não! Nem sequer você poderia ser semelhante besta! Um sorriso zombador curvou a boca de Sable. Logo baixando o peso quente de seu corpo sobre o dela, lhe separando as pernas com os joelhos para poder penetrála, sussurrou-lhe contra os lábios: - Já descobrirá que posso ser muitíssimas coisas.


CAPÍTULO XI

Sable, como de costume, abriu os olhos assim que as primeiras luzes da alvorada se infiltraram no quarto. Nick era uma verdadeira feiticeira, pensou com ternura. Se chegasse a despertá-la agora, já não descansaria tão confiante junto a ele, mas sim se prepararia imediatamente para a luta lançando raios desafiantes pelos olhos, lhe amaldiçoando e lhe odiando a cada palavra que dissesse. Era uma lástima, pensou sonolento. Se pudesse aceitar o que tinha acontecido como algo natural, não sofreria tanto. Tinha que lhe acontecer cedo ou tarde, se não com ele com algum outro homem. Era algo tão simples. Ele sempre tinha tratado bem a suas amantes, como Nicole sabia de sobra. Sorrindo, recordou a expressão de assombro de seu rosto quando deu, como presente de despedida a certa dama muito especial, uma carruagem e dois casais de baios. Certamente, era consciente de que não faria menos por ela, mais em realidade, se levasse em consideração sua virgindade. Por que não podia ser razoável? Lhe oferecia uma mercadoria que ele estava disposto a pagar; era algo do mais simples. A proximidade de Nicole perturbou suas divagações e com um apetite que não conhecia a saciedade sentiu que seu corpo se endurecia de desejo. Roçou apenas o braço estendido da jovem e preguiçosamente esfregou o nariz contra sua orelha. Mas inclusive adormecida lhe rechaçou, virando a cabeça. Deixou-a tranquila contra vontade. Talvez fosse o pulso enfaixado, tão indefesa, ou poderia ter sido a doce suavidade de seu semblante o que lhe deteve. Fosse o que fosse, em modo algum esfriava a paixão que se despertou nele; entretanto, reprimiu seus desejos naturais e a deixou dormir em paz. Uma hora mais tarde, depois de vestir-se e tomar o café da manhã, estava de caminho a Grand Terre. Tinha que ocupar-se de certos assuntos ali. E o mais importante de todos era o destino de Allen. Discutiria-o com Lafitte, decidiu pensativamente. Juntos estudariam o meio mais proveitoso de desembaraçar-se de seu antigo subtenente. Pedir um resgate, possivelmente... ou vender-lhe aos funcionários norte-americanos? Nick não iria gostar, mas Sable encolheu os ombros. Isso não lhe importava absolutamente. Algumas horas mais tarde Grand Terre estava já à vista; Sable, depois de deixar o bote, cruzou a praia. Atrás da fileira de árvores que rodeava a ilha se construíram cabanas de teto de palha que albergavam a muitos dos piratas e


contrabandistas com suas mulheres. Bordéis, casas de jogo, cafés e outros estabelecimentos que proporcionavam abundante bebida e diversão a aqueles homens, sempre ansiosos de novos prazeres, apinhavam-se perto do centro da ilha. No extremo sul se encontrava o barracão para os escravos e não muito longe dali os amplos e sólidos armazéns. Como um lírio brotado de uma montanha de lixo, no centro da ilha, elevava-se a mansão de tijolo e pedra de Lafitte. Estava suntuosamente mobiliada: tapetes finos cobriam os pisos de todas as salas, quadros pintados pelos principais artistas da época e pesados espelhos barrocos de molduras douradas adornavam as paredes, e lustres de cristal cintilavam e resplandeciam nos tetos. Homens de negócios, lojistas, donos de plantações e traficantes de escravos, todos sem exceção acudiam a Lafitte em busca da melhor mercadoria. Na Louisiana do sul dificilmente se achava um ramo do comércio que não se abastecesse, ao menos em parte, das mercadorias de Jean Lafitte. Em seus armazéns se vendia tão somente a melhor qualidade em sedas, rendas, conhaques, vinhos, tabaco, especiarias e muitos outros artigos custosos e de grande demanda. Como tinham proibido a importação de escravos fazia alguns anos, somente em Grande Terre o dono de uma plantação podia comprar, a um preço razoável, mão de obra adicional. Só com o tráfico de escravos tinha já um negócio florescente. E as suas não eram operações secretas nem mau vista, pois homens respeitáveis e proeminentes acudiam abertamente a comercializar com ele. Em Nova Orleans tanto o governador Claiborn como os funcionários norte-americanos chiavam os dentes de raiva e impotência, já que lhes resultava impossível conter esse comercio extremamente lucrativo e totalmente ilegal. Claiborn havia se extralimitado até o ponto de mandar fazer circular pôsteres em que se oferecia uma recompensa de quinhentos dólares para a pessoa que lhe levasse o notório pirata Jean Lafitte. Este, rindo, fez uma contraoferta imediatamente: ele pagaria mil e quinhentos dólares a qualquer pessoa que lhe levasse o governador a Grand Terre. Enquanto recordava esse incidente não tão longínquo, Sable sorria e seguia ao servente que o conduzia ao escritório de Lafitte. - Mon ami, que gosto voltar a verte! Estive-te esperando hora após hora desde que recebi a notícia da chegada de La Belle Garce ao porto. Como é que te atrasaste tanto? Sorrindo, Sable tomou um dos excelentes charutos que repousavam em uma caixa de cristal sobre o escritório de Lafitte. -Tinha um assunto que requeria minha atenção - respondeu enquanto o acendia. - Ah, sim, o assunto do jovenzinho que não é jovenzinho e a quem descobriram abraçando-se com o capitão em seu camarote - murmurou Lafitte com dissimulação.


-Que o demônio me leve! -resmungou Sable irritado, mas encolhendo os ombros escolheu uma das cadeiras de veludo vermelho do amplo salão e se sentou cruzando as pernas. Lafitte, ainda sorrindo, voltou a sentar-se detrás de seu escritório. Era evidente pela profusão de papéis que havia ali que Sable lhe tinha interrompido enquanto estava trabalhando, mas isso acontecia frequentemente e Lafitte sempre sentia prazer em ver um de seus melhores capitães. Os dois eram homens de grande estatura; possivelmente por muito pouco, Sable era o mais alto. Lafitte, uns anos mais velho, era um homem muito bonito. Sua tez escura e seus vivazes olhos negros delatavam sua ascendência francesa. Seu cabelo era escuro, tão negro como o de Sable, e seu porte e maneiras tinham uma espécie de elegância e refinamento que o faziam ainda mais atrativo. Certamente ninguém o teria tomado jamais por um contrabandista. O passado de Lafitte estava envolto em mistério e além do fato de que com seu irmão Pierre tinha aberto uma ferraria em Nova Orleans alguns anos atrás, conhecia-se muito pouco de sua vida anterior. Já naquela época os irmãos se ocupavam de vez em quando em traficar mercadorias de contrabando. Da humilde ferraria passaram a uma agradável casinha de campo perto das ruas St. Philip e Bourbon, e finalmente expandiram seus negócios até que tiveram que utilizar um armazém no cais. Descontente com os descuidados métodos dos fornecedores piratas, Lafitte, junto com seu irmão, tinha tido a ousadia de viajar a Grand Terre e ficar à frente de toda a desorganizada estrutura do bando; as unindo às dos corsários formou uma das maiores redes na história do contrabando. Homens como Dominique You, de quem diziam que pertencia em realidade à família Lafitte; os notórios piratas Gambi e Chighizola, mais conhecido como Nez Coupé por seu nariz cortado; e o experiente homem do mar, contrabandista e artilheiro Renato Beluche, a quem Lafitte chamava oncle como se fosse seu tio, todos eles reconheciam a Jean Lafitte como seu chefe, o Boss. E o capitão Sable era um de seus tenentes de maior confiança. Os dois homens conversaram sobre coisas irrelevantes durante uns minutos até que Sable fez menção do tema que mais lhe interessava: Allen Ballard. Lafitte franziu o sobrecenho. -O que deseja fazer com ele? Afinal é seu prisioneiro e não estando em condições de passar mais informação, não me preocupa muito qual seja sua sorte. Podemos lhe entregar aos norte-americanos, com o qual ganharíamos sua benevolência... ou poderíamos devolvê-lo aos britânicos depois do pagamento de uma bonita soma. Não importa; beneficiamo-nos de ambos os modos. -Desenrugou o cenho e mostrando um sorriso particularmente sedutor, murmurou-: Uma situação agradável, não? -Acredito que eu gostaria de lhe reter prisioneiro por enquanto e lhe tirar um pouco mais de informação - disse Sable lentamente-. Por outra parte, podemos nos livrar dele em qualquer momento... mas possivelmente chegue a lhe necessitar


enquanto isso. Incomodaria-te muito se o transferissem do navio a seu calabouço aqui na ilha? Lafitte deu seu consentimento imediatamente e a pedido de Sable chamou um servente para que levasse a Belle Garce a ordem do traslado do Allen. Quando o criado partiu, Sable perguntou: - Desejas estar presente quando lhe interrogar? Os olhos negros de Lafitte brilharam com um brilho de ironia ao responder: - Em modo algum, e tampouco você gostaria que o fizesse. Não me deixo enganar por sua atitude indiferente, mon ami. Quer a este homem para seus próprios fins e por razões pessoais desejas que esteja em meu calabouço. Se não fosse por isso, jamais me teria mencionado sua existência. Sable sorriu ironicamente sem que o desconcertasse o mínimo a correta interpretação feita pelo Lafitte. - Bom, me ocorreu que possivelmente um ou dois membros de minha tripulação poderiam estar em desacordo com minha decisão - reconheceu-. Ballard era muito popular entre meus homens. - Certamente! Um espião sempre é - replicou Lafitte, cortante-. Mas, falando em espiões -continuou-, chegou-me a informação há pouco tempo de você haver embarcado pela última vez de que se fazem perguntas indiscretas sobre ti em Grand Terre. Obviamente surpreso, Sable perguntou: - Que classe de perguntas? - Mm, algumas como: Qual é o verdadeiro nome do capitão Sable? De onde veio? Quando? Perplexo, Sable olhou fixamente para Lafitte. - Por que alguém se interessaria desse modo por mim? Sabe quem é? - Isso não sei. Os rumores correm como um rastro de pólvora em Grand Terre, mas não se sabe nunca de onde nascem. Talvez não seja nada, mas acreditei conveniente lhe advertir. Talvez alguém queira te fazer mal. Algum marido ciumento? Ou alguém que se beneficiaria se chegasse a sofrer um desastre? Quem sabe? Por um segundo Sable pensou em Robert Saxon, na Inglaterra, mas desprezou a ideia como absurda. Nem seu braço podia ser tão longo. Sem alarmar-se muito pela notícia que lhe tinha dado Lafitte, Sable evitou o tema encolhendo os ombros e habilmente mudou de assunto. Contemplando pela janela a baía distante além das espaçadas copas das árvores, perguntou: - Quanto me daria por La Belle Garce? - Como disse? - A voz de Lafitte refletiu sua estupefação-. Devo ter entendido errado... acreditei que acabava de me perguntar se compraria seu navio. -Hmm, exatamente isso. Decidi vendê-lo. Tenho vontade de levar uma vida respeitável.


Se Sable tivesse declarado a intenção de converter-se em monja da Ordem das Ursulinas de Nova Orleans, Lafitte não poderia haver-se horrorizado mais. Com voz quase inaudível, repetiu: -Vender A Belle Garce e converter-se em um cavalheiro respeitável! Cuspiu a última palavra com evidente desagrado. Cravando o olhar no rosto barbado de Sable com consternação, gritou-: Deve estar completamente louco! Por quê? No momento Lafitte não podia encontrar palavras para expressar seus sentimentos. Era simplesmente incompreensível e Sable, compadecendo-se dele, esclareceu com amabilidade: - Desfrutei muito de nossa sociedade, tirei proveito dela, mas já não sou o jovem impetuoso de dez anos atrás. Estou enfastiado de brincar de pirata, embora me disfarce sob o nome mais aceitável de corsário. Falando francamente, não necessito mais do La Belle Garce. Consegui uma fortuna considerável que me permite deixar meu papel de corsário, ou se preferir que o diga em términos mais diretos, de pirata. Recuperando-se um pouco, Lafitte suspirou. - Assim abandonará a seus amigos e será como esses cavalheiros dignos e respeitáveis de Nova Orleans. - Sable se pôs-se a rir. -Jamais voltaria às costas a um amigo e duvido que possa me converter em um modelo de decoro. Lafitte permitiu que um sorriso mal esboçado distendesse suas belas feições por um segundo. -Estou de acordo. -Logo, mais sério, perguntou-: Está seguro de que isso é o que te propõe fazer? Não trocará de opinião, digamos dentro de seis meses, mais ou menos? A risada se desvaneceu por completo dos olhos dourados de Sable enquanto estudava o charuto aceso com certa melancolia. -Sim, estou seguro e te darei um pequeno conselho... se não o levares a mal. Lafitte levantou uma sobrancelha com expressão divertida. . - Vais ensinar a dar de mamar a sua própria mãe? O jovem capitão sorriu fugazmente, mas logo disse com deliberação: - Eu se fosse você, seguiria meu exemplo e me afastaria de Grand Terre e de tudo o que significa. Lafitte ficou rígido, e consciente disso, Sable sustentou seu olhar de irritação. Suavemente, acrescentou: - Jean, preste atenção. Os dias turbulentos quase acabaram. Estamos em uma época de decadência, e se interpretasse todos os sinais corretamente, veria-o tão claro como eu. Os norte-americanos não vão te aguentar muito tempo mais a suas portas, e o que é pior, estão convencendo aos brancos reacionários de ascendência francesa de que somos uma verdadeira ameaça que deveria erradicar do país. É só questão de tempo que tomem medidas drásticas. - Deliberadamente, acrescentou-: Essa pequena


rebelião de escravos da Paróquia de San Juan Batista uns anos atrás te fez bastante mal. Lafitte assentiu com um grunhido. Tudo o que dizia Sable até agora era verdade. Produziu-se uma rebelião instigada pelo banho de sangue que tinha assolado o Haiti vários anos antes. E quando descobriu-se que os cabeças eram escravos trazidos de contrabando da África por Lafitte, a gente mais respeitável da comunidade se indignou e atemorizou. Mas a diferença de Sable, Lafitte não via o começo do fim nesses pequenos contratempos. Tinha indignado a muitos outros antes; não era nada novo. - É um rato que abandona o navio antes que se afunde, mon ami? -perguntou sem animosidade. Sable apertou os lábios e agarrou com força a taça que tinha na mão. - Não. Se o fosse, esperaria seis meses ou um ano antes de me afastar. -Logo em tom inexpressivo, disse - Te desligue, Jean, antes que perca tudo. - Ora, é um incômodo! Sentindo como sente, acredito que é muito melhor que deixe de pertencer à organização. Não quero homens que duvidem de mim. Sable ficou de pé, deixou a taça de vinho e se inclinou muito, mas muito corretamente. Virou-se disposto a partir, mas Lafitte murmurou: -Espere! Mostrando só uma curiosidade cortês em suas feições, Sable se virou. Lafitte, levantando-se de detrás de seu escritório, disse: - Sinto muito. Somos amigos, não é assim? Como tais deveríamos ser capazes de falar francamente sem que o outro se ofenda. Devo admitir que estou contrariado, e muito, mas não desejo que nos separemos como inimigos. A boca de Sable se estendeu em um sorriso lento e preguiçoso enquanto lhe faiscavam os olhos. - Você estava zangado, eu não. Simplesmente considerei apropriado permitir que te passasse o mau humor antes de voltar a verte. - Mau humor! - Lafitte se sentiu insultado de que se usasse semelhante palavra para referir-se a ele, mas logo compreendeu que Sable tinha razão, sorriu e lhe estendeu a mão. Enquanto as estreitavam, disse-: Darei-te um bom preço por seu veleiro, mon ami. Quando quer que se acertem todos os detalhes? - Não tenho pressa, mas agora que me decidi, preferiria terminar com tudo o antes possível. Digamos antes que acabe a semana, em primeiro de dezembro? Já teria decidido o que fazer com o bom Allen nessa data. - Muito bem. Lamento muito perder a um de meus capitães, mas espero te reter no futuro como um assíduo e bom cliente. Passará aqui à noite, é obvio, e espero te ter a minha mesa a hora de jantar. De acordo? Sable assentiu rindo. -Sempre o homem de negócios acima de tudo. - É obvio, mon ami. O que outra coisa poderia ser?


Uns minutos depois se separava do Lafitte e empreendia caminho para o calabouço. Alegrou-se do amparo que lhe brindava o grosso casaco contra as rajadas cortantes do vento gelado que soprava da baía enquanto avançava para o sólido edifício de tijolo em que se encontrava o calabouço. Resultava-lhe estranho pensar que chegava a seu fim esta etapa de sua vida, mas tinha servido para seus propósitos e agora estava resolvido a tomar um novo rumo. Ao entrar na prisão inexpugnável que Lafitte e seus piratas chamavam calabouço, descobriu com muita satisfação que Allen tinha chegado fazia só uns minutos e já estava acorrentado em uma das celas ao fundo do edifício. O famoso calabouço não era muito grande, constava de uma pequena sala principal e quatro celas diminutas, embora não se apresentavam muitas ocasiões para usá-las em Grand Terre. A maioria das disputas resolviam a murros ou a navalhadas e o calabouço era tão somente um símbolo da lei e da ordem impostos por Lafitte. Mas isso não queria dizer em modo algum que não fosse absolutamente sólido. Allen se achava na última cela e Sable franziu o nariz de asco enquanto caminhava pelo corredor estreito e escuro até seu destino. O aroma rançoso de corpos que jamais viam a água e outros vapores ainda mais desagradáveis viciavam o ar; perguntou-se burlonamente se seu novo alojamento seria do agrado do Allen. A julgar por seu aspecto macilento era evidente que não, pensou Sable, enquanto observava, impassível, o homem com os pulsos acorrentados ao muro. Tinha a roupa rasgada e ensanguentada; alguns machucados lhe manchavam o rosto. Ao ver um machucado recente, Sable perguntou, interessado: - Tentou escapar enquanto lhe traziam para terra? Não recordo que estivesse tão ruim a última vez que nos vimos. Allen levantou a cabeça ao ouvi-lo e deu um puxão instintivo nas correntes. -Bastardo! -grunhiu jogando fogo pelos olhos-. O que fez com Nick? - Não quererá dizer Nicole? Allen conteve a respiração. - Disse-lhe isso? - gritou com voz rouca sem poder acreditar no que ouvia. - Digamos que pude descobri-lo por mim mesmo. Igual a você, ela não se mostrou muito amigável. Allen estudou o homem que tinha em sua frente. Como oficial assumia seu próprio risco e o dava por certo, já que sempre tinha sido consciente do risco que corria. Nicole era outra questão. - Onde se encontra agora? - perguntou, inflexível. Sable arqueou as sobrancelhas e o olhou com desdenhosa reprovação. -Seu destino é minha coisa. -Sable, me escute! -começou com a maior seriedade, e esquecendo toda cautela, falou sem tino lhe contando toda a história, muito mais do que Nicole lhe havia dito. Não lhe tinha dado mais que sua idade e seu nome de batismo. Mas Allen, impulsionado por sua preocupação por Nicole, não se deteve ante nada e o contou tudo a Sable: seu nome completo, seus antecedentes familiares, tudo! Só ao vacilar


por um momento caiu na conta da curiosa imobilidade do outro homem e do sorriso zombador de seus lábios. Era um sorriso melancólico e se Allen tivesse podido ler seus pensamentos se teria ficado perplexo e consternado. Sable conhecia muito bem o sobrenome Ashford, tinha-o amaldiçoado durante anos. Estava marcado para sempre com fogo em sua mente, associado com ignomínia, desonra, mentiras e traição. Não pôde a não ser maravilhar-se da ironia da situação, de que a órfã Nicole Ashford caísse em suas mãos. - Não o entende? - perguntou Allen interrompendo seus pensamentos-. Nicole Ashford provém de uma boa família. Deve ser devolvida a seu lar antes que se meta em problemas mais graves. Recuperando-se um pouco e com uma expressão de franco cepticismo, Sable perguntou: - Por que não disse algo antes? Agora é um pouco tarde para lamentações! Allen mordeu os lábios, resistente a confessar que tinha tido suas razões ou que seus motivos estavam longe de ser altruístas. Sable aguardou em silêncio, imperturbável, mas ao ver que Allen não oferecia nenhuma resposta, começou a impacientar-se. Quando o silêncio se voltou embaraçoso, Allen lhe perguntou: -O que te propõe fazer com ela? Sable, estudando descuidadamente as unhas de sua mão elegante e bem formada, disse com frieza: -Fazer? Proponho-me não fazer nada. Desse modo me resultará mais entretido. É provável que me divirta observando-a enquanto se esforça por me ocultar os verdadeiros fatos... esses fatos que você, seu melhor amigo, mostraste-te tão ansioso de me comunicar. -Sable, não entendeste nenhuma palavra do que te disse? É acaso um homem tão carente de escrúpulos que arruinaria o futuro de uma garota tão jovem e inocente? Seus olhos dourados brilharam zombadores quando Sable lhe olhou por um instante antes de dizer de maneira contundente: - Sim, é obvio que o sou! Um rictus de ira impotente desfigurou a boca de Allen, mas Sable se limitou a rir e se dirigiu à porta. antes de cruzá-la, voltou-se e olhou uma vez mais ao prisioneiro. -Não se preocupe mais pelo futuro do jovem Nick -burlou-se-. de agora em diante penso tomá-la sob meu amparo. -Com os olhos subitamente velados e inescrutáveis, acrescentou-: Suponho que sabe bem a que me refiro. Allen se debateu em suas correntes. -Sable, maldito seja! Me escute! - Mas suas palavras caíram em ouvidos surdos, já que Sable, com uma zombadora inclinação de cabeça, saudou-o e partiu. Uma vez a sós, os pensamentos de Allen voltaram irresistivelmente para Nicole. Horrorizava-o a ideia de que a jovem se convertesse na amante de Sable. E o que pensar de seu próprio destino? Quanto tempo mais o reteria prisioneiro esse


homem e quais seriam seus planos para desfazer-se dele? Tentou ver com objetividade os acontecimentos que tinham tido lugar ultimamente, mas seus pensamentos eram erráticos. De algum modo, Sable devia haver-se informado de seu complô. Por que se não enviou a aqueles dois marinheiros para capturá-lo? Soube no mesmo instante em que entraram em seu camarote no dia anterior, esteve seguro de que algo tinha saído errado, e como um néscio tentou escapar. Essa só ação destruiu qualquer esperança de poder esclarecer sua situação mentindo. Maldito Sable! Como demônios se inteirou de quando devia atacar? Uma meia hora mais e Nick e ele teriam estado longe de seu alcance. E o que ia ocorrer a Nick? A teria violado já? E o mais importante de tudo... Onde estava ela neste momento? Nesse preciso instante Nicole ia a caminho de Grand Terre. Despertou ao redor da hora em que Sable partiu para a ilha. Permaneceu deitada, quieta e sem fazer ruído durante uns minutos, ainda um pouco atordoada pelo efeito do láudano, até ir gradualmente tomando consciência de tudo o que a rodeava. A cama era macia e seu primeiro impulso foi aconchegar-se ainda mais em sua acolhedora calidez. Mas um movimento imprudente de seu pulso machucado a avivou súbita e dolorosamente e todos os acontecimentos desagradáveis da noite anterior voltaram a sua mente. Com muita cautela olhou ao redor e exalou um suspiro covarde de alívio quando descobriu que Sable partiu e o quarto estava vazio. Incorporou-se e com movimentos torpes devido ao pulso dolorido, acomodou dois travesseiros debaixo das costas e estudou a situação. O pior já tinha passado. Descoberto seu engano, Allen estava preso e ela mesma era prisioneira de Sable. Tinha sido convertida em mulher às mãos do experiente corsário e no processo machucou um pulso. Sentia o corpo rígido e machucado e lhe doía um pouco entre as coxas. Graças a Deus tudo tinha acabado. Estava viva, embora um pouco maltratada, mas totalmente alerta. O ruído de uma porta ao abrir-se distraiu seus pensamentos e, endireitando os ombros, viu que se abria totalmente. Ao aparecer à cara redonda de Médica soltou uma risada de alívio. - Desejas um pouco de café ou chocolate talvez? - perguntou a donzela alegremente. Nicole lhe sorriu, decidida a atuar com a maior naturalidade possível. -Café, por favor. -Titubeou um segundo e logo perguntou-: Onde está Sable? Médica a olhou surpresa. -Sable? Oh, deve te referir ao amo! foi por assuntos de negócios e não retornará até à tarde. Enquanto isso, deixou ordens para que estivesse o mais confortável possível e tivesse tudo o que deseje. Nicole observou Médica com ar pensativo. Quanto haveria dito Sable a seus serventes? Conheceriam a verdadeira situação? E até que ponto o obedeceriam? A menos que Sable tivesse deixado ordens em contrario, nada lhe impedia de


desaparecer enquanto ele estivesse ausente. Bom, só havia uma maneira de averiguálo. -Eu gostaria de tomar um banho -disse ela de repente-, e me traga roupas e algo para comer. Por favor, poderia te encarregar de tudo isso? Médica desapareceu e retornou uns minutos depois com vários vestidos pendurando do braço. - O amo não estava seguro de que houvesse algo aqui que te servisse esclareceu com expressão de incerteza-. Temo-me que estes vestidos sejam muito curtos. Nicole ficou rígida ao dar-se conta do significado implícito nessas palavras e reprimiu seu mau gênio com muita dificuldade. Em troca, sorriu fracamente. - Prefiro andar nua antes que me cobrir com as roupas de alguma de seus amantes. Porei-me as minhas. Médica se escandalizou. - Mas não pode! As damas não usam calças. - Duvido muito que seu amo tenha tido uma dama de verdade nesta casa antes! -replicou, furiosa, Nicole-. Traz minhas roupas ou me consiga outros objetos. Certamente haverá uma camisa limpa e calças de algum dos serventes que possa tomar emprestados. No momento não posso ser muito exigente. Os olhos de Médica se dilataram de espanto, mas se foi do quarto e pôs-se a correr pelo corredor. Uma dama vestindo roupas de serventes, e para cúmulo de homem. Meneando a cabeça pelas coisas estranhas que estavam passando, Médica comunicou o pedido a Sanderson. O mordomo ficou surpreso, mas lhe entregou uma camisa branca e calças de algodão cinza. Depois de um banho e vestida com roupa de homem, Nicole explorou a casa de Sable. Em realidade estava procurando certos artigos, e lhe iluminaram os olhos quando descobriu a sala de armas ao fundo da casa no segundo piso. Era uma sala muito masculina. Sobre uma parede se viam umas poucas cabeças de animais dissecados - uma raposa, um puma e um cervo- colocadas artisticamente, e em outra algumas gravuras com cenas de caça marcados em madeira. Os móveis eram grandes, cômodos e pareciam usados. Havia um armário bem sortido de licores contra uma parede, mas o que mais interessou Nicole foi o armeiro. Depois de abrir o estojo de carvalho, ficou a examinar as diversas armas até que encontrou o que queria: uma afiadíssima faca de caça, uma pequena pistola de dois canhões, alguns projéteis e pólvora. Depois de muito refletir, resolveu esconder tudo na gaveta de uma mesinha de mogno larga e estreita. A seguir abandonou a sala. Tomou o café da manhã com muito apetite descobrindo que, apesar do ocorrido ontem à noite, estava faminta. A vida seguia seu curso sem importar o que acontecia, pensou com tristeza. Mas recuperava o ânimo a cada minuto que passava e


depois de terminar a refeição, pediu emprestada uma velha jaqueta de caça que claramente pertencia a Sable e saiu para dar um passeio. O morno sol de finais de novembro não oferecia muito calor e soprava um vento frio. Contente pelo casaco que lhe oferecia a jaqueta de Sable, perambulou pela larga avenida de carvalhos que levava ao rio. Detendo-se a beira de um comprido cais de madeira que terminava nas águas turvas e lamacentas do Mississipi, planejou seu próximo passo. Era óbvio que Sable não tinha informado a ninguém da verdadeira situação que existia entre eles. Os serventes atuavam como se fosse uma convidada, um pouco louca, mas convidada ao fim. Mas obedeceriam suas petições até o ponto de lhe dar um guia que a levasse a Grand Terre? Nicole sabia bem que terminaria perdida ou dando voltas em círculos pelos pântanos se tentava a viagem sem ajuda. Distraída, deu um chute em um torrão de terra que caiu no rio; sua mente estava ocupada com o problema que tinha entre as mãos. Não esperaria calmamente o retorno de Sable; devia fugir imediatamente. Voltou às costas ao rio com determinação e empreendeu a volta a casa com passo vivo. Ao encontrar-se com Sanderson no vestíbulo principal, disse com indiferença: - Decidi não esperar a volta de seu amo. Partirei dentro de uma hora. Por favor, ordene que preparem uma cesta com comida para a viagem e encontre alguém que me conduza a Grand Terre. Lamento esta decisão inoportuna, mas se quero chegar à ilha antes do anoitecer, devo partir imediatamente. Ignorando a expressão de censura da cara do mordomo, dirigiu-se com resolução à sala de armas e colocou as que tinha escolhido antes nos espaçosos bolsos da jaqueta. Saiu da sala e pouco depois se dirigiu ao quarto que tinha compartilhado com Sable. Empurrou a porta e entrou, contente ao vê-lo vazio. Sem desperdiçar nenhuma olhar no leito onde a noite anterior Sable lhe tinha feito amor tão apaixonadamente, dirigiu-se à porta que comunicava com o quarto contiguo. Estava sem chave e depois de revisá-lo para certificar-se de que também estava vazio, entrou e fechou a porta a suas costas. Evidentemente esse era o quarto de Sable. Móveis sólidos e pesados de madeira escura e uma cama enorme com colcha de veludo cor vinho tinto. Mas Nicole não se interessava pelas preferências de Sable em assuntos de mobiliário e decoração, assim cruzou o quarto e sem vacilar remexeu em seu estojo de joias, que estava aberto sobre uma enorme cômoda de várias gavetas. Tirou um dos lenços de linho de Sable e envolveu nele um alfinete de gravata de diamantes, uma esmeralda, um anel de pérolas, outro alfinete de gravata -de rubis esta vez- e outras joias valiosas. Perto do estojo de joias havia algumas moedas de ouro e sem nenhum escrúpulo também se apoderou delas. Allen e ela necessitariam quanto objeto de valor caísse em suas mãos.


Cheia de confiança, esperou com impaciência em seu quarto por uns minutos. Quando decidiu que tinha passado suficiente tempo, percorreu o corredor e desceu a escada fingindo aborrecimento. - Está tudo preparado? - perguntou ao Sanderson sem muito interesse-. Eu gostaria de partir o mais rápido possível. Antes que pudesse lhe responder, um negro com uma cesta de vime quase tão grande como ele entrou aos tropeções no vestíbulo. Olhando o menino, Sanderson respondeu com relutância: - Assim acredito. Aqui está à comida que pediu e Jonah, que será seu guia, está aguardando-a no cais. - Fez uma pausa, indeciso, mas Nicole encarou seu olhar com altivez enquanto arqueava uma sobrancelha como em sinal de provocação. -É tudo, senhora? -disse finalmente-. Samuel a escoltará até o cais. Nicole inclinou a cabeça cortesmente e seguiu o menino que carregava a cesta. Teve que reprimir-se para não arrancá-la das mãos e pôr-se a correr como um animal selvagem em direção ao rio. O coração golpeava com um ruído surdo contra suas costelas, mas um sorriso de satisfação lhe curvava os lábios. Depois de acomodar-se na piragua e ver como se alongava a distância entre ela e o cais, não pôde controlar a risada que escapou de sua garganta. O jovem negro que conduzia a embarcação a olhou com estranheza, mas não lhe importou. Tinha provisões, uma pistola, dinheiro e liberdade!


CAPITULO XII Nicole não se equivocou ao calcular que seria quase de noite quando chegassem à ilha. Por conseguinte, não se surpreendeu que a recebessem as primeiras sombras do crepúsculo ao atracar em seu destino. Despediu-se do guia e entregou uma moeda de ouro, em seguida recolheu a cesta e cruzou a praia a grandes pernadas. Uma vez perdida de vista a piragua, meteu-se precipitadamente entre a vegetação que rodeava a ilha e, escondida entre as folhas secas, sentou-se para meditar. Tinha conseguido escapar. Estava armada e levava provisões. O próximo passo era liberar o Allen. Estaria ainda no navio? Oxalá não! Resultaria-lhe impossível planejar seu resgate de La Belle Garce. Já teria se espalhado os rumores a respeito de seu disfarce entre toda a tripulação, assim correria um risco muito grave se chegava a pôr os pés na coberta. Um comprido suspiro brotou de seu peito. Maldição! A vida não podia ser tão injusta. Necessitava do Allen, necessitava-lhe com urgência! Destampou a cesta distraidamente e ao descobrir um frango inteiro assado ao forno, ficou a mordiscar uma coxa absorta em seus pensamentos. Era provável que Allen não estivesse no navio. Poderia encontrar-se já a caminho de Nova Orleans. Não, talvez não. Allen possivelmente permanecia ainda em La Belle Garce, a menos que Sable tivesse retornado a Grand Terre. Um calafrio lhe percorreu o corpo e desejou desesperadamente que Sable estivesse a mais de vinte milhas de distância. Deve ter interrogado os serventes a respeito de seu destino. Ou melhor se achava em Nova Orleans ou -tragou saliva nervosamente- talvez ali mesmo na ilha. Contrariada, jogou o osso de frango no chão e ficou de pé enquanto limpava as mãos esfregando-as nas calças como faria um moço. Não lhe permitiria que a assustasse. Se estava na ilha, o mais seguro era que estivesse com Lafitte, e enquanto ela se mantivesse a boa distância da mansão, poderia evitar encontrar-se com ele. Mas nada disso resolvia o problema do Allen. Desde seu esconderijo, um montículo coberto de arbustos, tinha uma excelente vista da ilha e da baía. Quase por acaso seu olhar caiu sobre o pequeno calabouço de tijolos. Examinou-o a débil luz do crepúsculo. Allen bem poderia estar ali. Era uma possibilidade bastante remota, mas valia a pena averiguá-lo. Mesmo que descobrisse que não era assim, ao menos reduziria os lugares nos quais pudesse estar. Ocultando a cesta da comida debaixo de um matagal, deixou seu esconderijo e começou a avançar tímida e cautelosamente para o interior da ilha, indo de uma árvore a outra e de uma casa a outra até chegar por fim à prisão. Estava nervosa e lhe


tremiam as pernas quando se apoiou contra a parede traseira do edifício. Duas vezes durante o trajeto tinha visto membros da tripulação de La Belle Garce caminhando bêbados e aos tropeções de um bordel a outro, e cada vez ela tinha tido que esconderse entre as sombras. Entretanto, isso não fazia a não ser lhe recordar o grave perigo que corria. Se chegavam a reconhecê-la, que Deus a ajudasse! Seria mil vezes pior que tudo o que pudesse idear Sable para mortificá-la. Depois de recuperar o fôlego e um pouco de sua coragem, começou a tratar de localizar ao Allen detendo-se debaixo de cada janela gradeada e chamando por seu nome. Ele lhe respondeu na terceira e Nicole suspirou de alívio. -Está sozinho? -perguntou-lhe em um sussurro-. Está ileso? - Por amor de Deus, Nick! O que está fazendo aqui? - Jogando uma olhada nervosa ao corredor escuro por onde tinha desaparecido Sable fazia só uma hora, acrescentou-: Fala depressa. Sable pode retornar. Encontra-te bem? Nicole afirmou com a cabeça; então, ao dar-se conta de que Allen não podia vê-la, respondeu: -Sim, mas não percamos tempo falando. vim te liberar. Na cela às escuras Allen sorriu. Bendita fosse! Com que calma o dizia, como se fosse a coisa mais simples do mundo. - Nick, não quero te desanimar, mas estou acorrentado ao muro e a porta da cela tem uma fechadura muito sólida. - Ora! Quem se importa? Estou armada, levo uma pistola no bolso. Já pensarei em algo -disse com mais confiança da que sentia. Não obstante, ao mesmo tempo a proximidade do Allen a fazia abrigar a esperança de que sua sorte estava mudando. Apoiando-se contra os tijolos da prisão e esquadrinhando a escuridão em busca de algum indício de ter sido descoberta, faloulhe uma vez mais-: Quem tem as chaves? Há algum guarda contigo? - Não. O único guarda é o velho Manuel e se encontra no quarto da frente. Ele tem as chaves da cela, mas temo que seja Sable quem tem a dos grilhões, Nick. A voz soou desolada e triste. Maldito capitão! Era acaso infalível? De repente, o significado das palavras de Allen entraram em sua mente. Sable estava ali! Esticou-se todo seu corpo. Mas depois do primeiro sobressalto, empenhou-se em não deixar-se vencer pelo pânico. Sable não era nada mais que um homem e não o próprio diabo como queria fazer acreditar. Cometia erros; o fato de que ela estivesse ali era prova disso. Mesmo assim, seus olhos vasculharam a escuridão com inquietação crescente. A ideia de que Sable pudesse estar oculto na noite, observando-a, era ameaçadora, mas a desprezou resolutamente sacudindo a cabeça. Não era nenhuma menina medrosa para assustar-se com as sombras. -Está seguro, Allen? Não terá deixado as chaves com o velho? Allen franziu o cenho.


-Poderia ter razão, Nick -disse lentamente. Era verdade, usou-se uma chave à parte para fechar as correntes, mas não havia motivo para acreditar que não se adicionou a enorme argola que servia de chaveiro e que estava pendurada no quarto principal da prisão. Ele tinha dado por certo que Sable tinha ficado com ela. Entretanto, a pergunta de Nick tinha sentido, já que Sable não tinha contado com a fuga da jovem. Sorriu com gesto sombrio. O capitão tinha subestimado ao jovem Nick. Ainda sorrindo fracamente, disse: -Há uma forma de averiguá-lo, Nick. Terá que conseguir que o velho Manuel te entregue as chaves. Pode fazê-lo? Nicole levantou o queixo, desafiante. Conseguiria essas malditas chaves embora desse a vida nisso! Com mais otimismo agora, sussurrou: - Não se preocupe, no pior dos casos, cortarei as correntes a tiros. Me dê uns minutos, já pensarei em algo. - E o fez. Sua coragem e descaramento lhe tinham sido úteis para escapar de Sable, e se tinham servido uma vez, serviriam outra. Na ilha a disciplina não era rígida e o emprego de Manuel como carcereiro servia mais para salvar as aparências e lhe dar algo que fazer. Nas contadas ocasiões em que se usava o cárcere, os prisioneiros recebiam a seus cupinchas, que iam lhes dar ânimos. Era costume inveterado do velho Manuel nessas circunstâncias entregar as chaves aos visitantes para que entrassem e saíssem a seu desejo. Ninguém nunca se aproveitou dessa negligência, principalmente porque embora os prisioneiros podiam grunhir e queixar-se a vontade, todos tinham um temor reverente por Lafitte. Jean era justo, mas sabiam que era melhor não contrariá-lo. A partir de suas visitas a Grand Terre como membro da tripulação de Sable, Nicole sabia que a disciplina era inexistente. Caminhou com serenidade para a frente da prisão e entrou. Inquietava-a a ideia de que tivessem alertado ao velho espanhol de sua fuga, mas desprezou esse pensamento covarde e falou com ousadia. - Vim para visitar Allen Ballard de La Belle Garce -disse em tom cortante -. Onde está? O velho, sonolento pelo rum de todas as noites, assinalou vagamente em direção das chaves. - Tome você mesmo. Está na última cela à esquerda. Nicole pegou as chaves com o sangue lhe golpeando as têmporas enquanto lhe tremiam os dedos de júbilo pelo êxito que tinha tido. Com a maior indiferença caminhou ao longo do corredor estreito e escuro até a cela do Allen e procurou com estupidez a chave da porta. Tremiam-lhe tanto as mãos que perdeu uns minutos preciosos antes que a porta se abrisse de par em par. Com o coração na garganta, correu ao encontro de Allen. Por um momento permaneceram olhando um ao outro, e logo, com um grito afogado de agonia ao ver seu aspecto machucado e macilento, Nicole se jogou sobre seu peito e o abraçou com força. - Allen, sua pobre cara! O que lhe fizeram? Foi muito duro?


Allen lhe sorriu com ternura e sussurrou contra seu cabelo suave com lábios maltratados-: -Não é nada, Nick. E agora que está aqui, tudo sairá bem. Nicole voltou a lhe abraçar enquanto se enchiam de lágrimas seus olhos; com a mesma naturalidade de uma irmã beijando a seu irmão adorado, pousou os lábios sobre os do Allen. Desgraçadamente, o homem alto e de barba negra que apareceu de súbito na soleira da porta aberta não pensou o mesmo. Para ele tinha toda a aparência de uma reunião de amantes. Seus lábios se franziram em um rictus de fúria enquanto soltava um grunhido, e seus olhos dourados brilharam como fogo amarelo. - Comovedor! - resmungou. Nicole e Allen ficaram paralisados ao uníssono. Nicole virou-se, agarrando a pistola na mão. Sable mantinha-se como um gigante diante da porta com as pernas separadas e o rosto muito negro na penumbra reinante. Allen percebeu a intenção de Nicole e gritou: -Não, Nick! O ruído do disparo atrairá uma multidão. Não poderia escapar. Em tom sarcástico, Sable murmurou: - Está seguro de que não quer dizer que não teria tempo de te liberar? Allen olhou com fúria para o capitão, mas foi Nicole quem replicou: -Feche a boca, Sable, ou te dispararei! Ele se inclinou burlonamente. - Seus desejos, senhora, no momento, serão meus desejos mais ferventes. Observando-o com ira nos olhos, Nicole manteve a pistola em direção ao peito do capitão e ordenou: - Vá para ali, contra a parede. Sable, com uma careta que poderia ter sido de ira ou, pior ainda, de risada, obedeceu à ordem. Com expressão de aborrecimento, perguntou: -Propõe-te me acorrentar como ao bom Allen? Em resposta assentiu brevemente com a cabeça, logo se aproximou, com cautela. A aparente docilidade de Sable não a enganava absolutamente. Lhe apontar com a pistola com uma mão e tratar de acorrentá-lo com a outra resultaria uma tarefa difícil. Olhou carrancuda ao capitão e logo alentadoramente ao Allen. Seria prudente liberar primeiro ao Allen: assim os dois teriam a Sable a sua mercê. Mas, para exasperação de Nicole, nenhuma das chaves que tinha em seu poder encaixava na fechadura dos grilhões. -Se tivesse me perguntado, querida, poderia haver te economizado o trabalho -comentou Sable-. A chave que buscas descansa em uma gaveta da cômoda do quarto que me ofereceu Lafitte para passar a noite. - Nicole fulminou com o olhar ao homem que descansava comodamente apoiado contra a parede, com aparência tranquila. - Se cale! - murmurou tensa enquanto avançava para ele. Só ficava uma solução. Acorrentaria a Sable ela sozinha e logo romperia as correntes a bala. Depois teriam que correr depressa para esquivar a multidão que


certamente se reuniria ao ouvir os disparos. Não era o que teria desejado, mas parecia ser a única alternativa. De pé diante de Sable, ordenou: -Se fizer um só movimento que me desagrade, dispararei para matar. Entende-me? Observando-a com atenção, assentiu devagar, com os olhos, duros e especulativos, cravados no rosto pálido mas decidido da jovem. -Coloca o pulso nesse grilhão -ordenou Nicole-. Faz-o com cuidado, Sable, e recorda que eu adoraria te matar. Mas ele se limitou a cruzar os braços sobre o peito e disse: - Não tenho intenção de fazer nada tão imbecil. Adiante, dispara se te atreve. Gaguejando de ira, gritou: - Maldito seja, Sable, faz o que te ordeno! - Não - respondeu com absoluta calma. Vendo a expressão de Nicole, Allen a advertiu: -Tome cuidado, Nick. Está te provocando deliberadamente. A jovem tentou tragar a ira fazendo um grande esforço. Mas foi inútil, as chamas que ardiam em seus olhos traíam seu temperamento ingovernável. Ter seu inimigo diante de si burlando-se dela fez com que perdesse toda a cautela. Explodindo de cólera se equilibrou sobre ele e puxou furiosamente seus braços enquanto gritava: - Fará o que digo embora tenha que te obrigar eu mesma! Ignorando seu pulso ferido, levantou a pistola e aplicou-lhe um golpe feroz na bochecha. Um gemido de dor escapou de sua garganta por causa do pulso machucado, mas imediatamente se converteu em um grito de fúria quando Sable entrou em ação. Envolvendo-a com seus braços de aço, apanhou-a em um abraço nada gentil. Allen lutava inutilmente com as correntes enquanto eles lutavam ante seus olhos. De repente, Nicole sentiu que a pistola lhe escorregava da mão. Estava apanhada como uma raposa em uma armadilha e sabia. Tinha o peito apertado contra o de Sable e seus braços a espremiam até deixá-la sem fôlego. O amor próprio lhe impedia de suplicar e o sentido comum lhe indicava que era inútil desperdiçar suas forças. Condenado mau gênio, pensou, desgostada consigo mesma. Por que teria permitido que a dominasse desse modo? Fechou os olhos, desprezando sua própria estupidez, e se amaldiçoou por ser tão impetuosa como era. -Fazemos as pazes, Nick? -perguntou ele, com severidade. Os olhos de Nicole se abriram de repente; lhe odiando e tratando de imitar seu próprio aprumo arrogante, disse arrastando as palavras: - Está me pedindo isso? Que estranho! Até agora sempre ordenaste. Sorrindo, Sable se surpreendeu ao sentir algo semelhante à admiração por aquela jovenzinha intrépida.


-Que revoltada está! -disse com ironia-. Alguma vez fica onde lhe deixam? Sem dignar-se a responder, Nicole olhava fixamente e em silêncio a boca dura e cruel que estava à altura de seus olhos. Não queria cercar um duelo verbal com semelhante indivíduo. - Sable, me escute! - exigiu Allen do outro lado da cela -. Não quis me ouvir antes, mas deve compreender que é justo que devolva Nicole a sua família. Leva-a a Nova Orleans e deixa-a no primeiro casco de navio que saia para a Jamaica... dali conseguirá viagem para a Inglaterra. Tenho o dinheiro para pagá-lo, assim como também o suficiente para uma dama de companhia. As diferenças que existem entre você e eu são entre você e eu. Ela não tem nada a ver com isto. Suplico-lhe isso, deixa-a partir! O rosto de Sable adquiriu uma expressão glacial e seus olhos dourados olharam com aversão ao homem acorrentado. - Deixá-la partir! Perdeste o miolo? Por que tinha que fazê-lo? O que ganharia com isso? O semblante de Allen também estava tenso enquanto seu cérebro trabalhava freneticamente procurando algo que seduzisse aquele homem. Não tinha nada que oferecer e apelar à nobreza de seus sentimentos era completamente inútil. Sable carecia de sentimentos e de nobreza! Nicole pôs término à angustiosa situação. - Não suplique por mim, Allen - pediu suavemente -. O fato, feito está. Não tem culpa de nada. - Jogou a cabeça para trás, desafiante, e acrescentou-: Forjarei meu próprio futuro e não o farei pactuando com gente como Sable. - Lançou um olhar feroz ao homem que a aprisionava entre seus braços com os olhos cheios de desprezo. Sable sorriu com ironia. -Você acha? -Jogando uma olhada desafiadora ao Allen, estreitou mais seu abraço e, inclinando a cabeça, apanhou os lábios despreparados e confiantes de Nicole com sua boca. Como se fosse consciente da raiva doentia que dominava Allen, beijou profundamente a Nicole, procurando a doçura de seus lábios sensuais. Nicole não tentou resistir àquela boca voraz, supondo que o fazia para atormentar ao Allen e recordar a ela mesma que lhe pertencia inteiramente. O beijo não lhe proporcionou nenhum prazer; suportou-o, e quando chegou a seu fim, um estremecimento de alívio sacudiu seu corpo. Sable franziu o cenho pela reação de Nicole, mas a soltou encolhendo os ombros. Recolheu a pistola do chão e a segurou debaixo do largo cinturão de couro que rodeava sua cintura. Voltando a atenção a Nicole, examinou-a cuidadosamente, lhe acariciando os peitos e coxas deliberadamente, sem nenhuma reserva. Lágrimas de humilhação brilharam em seus olhos por semelhante vexame diante do Allen. Entretanto, o comportamento de Sable tinha um propósito bem definido. Estava-lhe fazendo ver claramente ao Allen, da maneira mais cruel possível, que Nicole lhe pertencia por completo. A imagem da Nicole beijando ao Allen estava gravada a fogo


em seu cérebro e ao recordá-lo sentiu o impulso de tomá-la ali mesmo, sobre o piso imundo da cela e lhe fazer amor diante do outro homem. Como se possuindo-a ante ele pudesse provar seu título de propriedade, igual a um menino provocando a outro e dizendo: «Note bem, é minha!». Mas ao ver a expressão tensa de Nicole, o impulso se desvaneceu, e pela primeira vez, quase a metade de sua vida, deixou de lado seus próprios desejos e apetências por respeito a outro ser humano. O rosto de Nicole, que refletia com tanta claridade as emoções que a embargavam, fez com que lhe resultasse insuportável à ideia de degradá-la ainda mais. Sem dizer uma palavra guardou nos bolsos a faca, as moedas e as joias que encontrou minutos antes. Guiou-a em seguida para a porta da cela, lhe rodeando o braço com a fornida mão para que não opor resistência. A contra gosto, Nicole obedeceu à pressão que exercia sobre seu braço. A situação era tão similar à cena da manhã anterior em La Belle Garce, que não pôde conter o estalo de gargalhadas histéricas que brotou de seu peito. - Não, não vou desfazer-me em pranto - disse ao ver o olhar severo de Sable -. Simplesmente me resulta muito divertido ver que duas vezes em tão poucos dias lhe engenhaste para sair triunfante. - É muito obstinada - murmurou ele com um brilho zombador e divertido nos olhos-. Parece ter a ridícula ideia de que pode me dirigir a seu desejo por ser melhor estrategista que eu. Que vergonha, jovem Nick, como te ocorre! Exasperada, esteve a ponto de abrir a boca para travar batalha, mas recordando discussões passadas, voltou à cabeça ao outro lado. Sable, contemplando com olhos apreciativos os brilhos de fogo no cabelo escuro, sorriu. Depois, ao voltar a vista para o Allen, o sorriso se desvaneceu e lhe disse: - Deixa de preocupar-se por ela. Como bem pode ver, tudo o que disse antes era verdade: tenho o futuro do Nick perfeitamente controlado. Em silêncio, pois não havia nada mais que dizer, Allen observou com desconsolo como Sable jogava a chave à porta da cela e desaparecia de sua vista levando Nicole quase à força. Desabou contra o muro completamente abatido. Pobre Nick! Nunca deveria ter lhe escutado. Se no mesmo instante em que descobriu seu sexo tivesse dado a devida atenção! Agora era muito tarde. Era sua prisioneira tanto como ele e não podia fazer nada para ajudá-la. Mas por todos os demônios, que intrepidez a sua, pensou, admirado, ao recordar com súbito afeto quão resolvida estava a liberá-lo. Dava-se conta de que teria sido melhor enviá-la com uma mensagem a seus superiores com a notícia de sua captura. Mas já era muito tarde. Ao menos ela estaria livre e seus aliados ficariam imediatamente em ação para liberá-lo. Sable as tinha engenhado; duas vezes para lhes superar em astúcia e Allen se perguntou, mais abatido que nunca, se sempre teria que ser igual.


Sabia que não tinha cometido erros. Foi cuidadoso em extremo e duvidava muito que Nicole tivesse revelado algo. Além disso, ela não podia confessar nada, já que nada sabia sobre seus planos. De repente outra ideia surgiu em sua mente e lhe brilharam os olhos: não existia nenhuma prova de suas atividades, estava plenamente seguro disso. Não obstante, achava-se indefeso ante o capricho de Sable. Nem sequer lhe tinha culpado de algum delito. Mas esse homem obrava por conta própria e poucos, se os havia, atreviam-se a questionar suas ações. Sim, era bem sabido por todos que até o próprio Lafitte fazia vista grossa a certas faltas de seu capitão favorito. E desse modo seguiram lhe torturando seus desventurados pensamentos: preocupação pela Nicole, pesar por não ter atuado antes e especulações sobre Sable. A jovem, ao ter de carcereiro a Sable mais uma vez, não se encontrava de muito bom humor precisamente. Doía-lhe muito o pulso e se perguntava se desta vez não o teria quebrado de verdade. Não podia fazer nada pelo Allen nesse momento. Compadeceu-se um segundo dele e logo dedicou todas suas energias a simular uma atitude de absoluta confiança em si mesmo, tanta como o fosse possível nessas circunstâncias adversas. Encheu-a de satisfação o ar de aborrecimento e despreocupação que assumiu ao entrar na casa de Lafitte pelo braço de Sable. Por nada no mundo lhes teria revelado a inquietação que palpitava em sua garganta nem o nó de ansiedade na boca do estômago. Suas costas estavam rígidas como uma tábua; a cabeça bem erguida e os olhos brilhantes de desafio. Não estava vencida, mas sim tinha sofrido um ligeiro reverso, isso era tudo. Como só tinha servido como grumete, jamais tinha visitado o interior da mansão de Lafitte, assim com muita curiosidade observou tudo o que a rodeava. Depois de ter olhado com penetrante minuciosidade a profusão de magníficos espelhos de molduras douradas que cobriam as paredes, as inumeráveis mesas com intrincadas incrustações de madrepérola e outras pedras preciosas e os lustres de cristais, decidiu que os gostos do Lafitte raiavam a vulgaridade e franziu os lábios com desdém. Ao ver sua reação, Sable sorriu levemente. - Não é um pouco excessivo? Jean acredita que é o que se espera dele. Mas além disso é uma maneira não muito sutil de assegurar a seus clientes que é perfeitamente capaz de satisfazer suas exigências. Tudo o que nos rodeia é uma prova disso. Tendo chegado à conclusão que seria melhor se tratava Sable como a alguém fastidioso a quem teria que suportar, Nicole assumiu uma expressão de absoluto aborrecimento e encolheu os ombros, dando a entender que estava por cima dessas frivolidades e que só a educação, algo que Sable desconhecia por completo, retinha-a a seu lado. As gargalhadas do capitão não ajudaram a suavizar sua irritação, assim que lhe voltou às costas.


Não serviria de nada insultá-lo e era néscio pensar que outro ataque físico pudesse ter êxito. Como todo bom jogador, sabia quando a sorte estava contra ele. Suspirou, pensando que a sorte a tinha abandonado ultimamente. Ainda estava muito ofendida devido às calamidades sofridas para poder pensar clara e serenamente. E com Sable precisava estar calma e alerta. No momento sua única defesa era a indiferença. Onde tinha fracassado seu mau gênio, talvez sua reticência glacial teria êxito. Jogou um olhar imprudente por cima do ombro e pegou Sable com um sorriso radiante nos lábios. Jogou faíscas pelos olhos e perguntou grosseiramente: -Algo te diverte? Os esplêndidos dentes brancos de Sable brilharam entre a espessa barba negra quando respondeu: - Sim, você! Juro que não posso recordar quando, fora da cama, é obvio, uma moça me brindou tanto deleite e diversão como você. O ofego estrangulado de raiva de Nicole não chegou aos ouvidos de Sable, pois nesse preciso instante Lafitte fez sua entrada na sala com rosto sorridente. - Ah, já retornaste, mon ami. Partiu tão de repente ao receber essa mensagem de que alguém estava rondando pelo calabouço que me perguntava se foste retornar esta noite. Ao ver a figura alta e esbelta de Nicole, deteve-se ao passar a soleira da porta, enquanto seus olhos negros observavam com atenção o rosto inexpressivo e tenso e a postura rígida da jovem, com franca apreciação. Durante um momento se viu submetida a um exame minucioso e de repente Lafitte, voltando-se para Sable, murmurou: - Já vejo! compreende-se como o obteve. É alta para ser mulher e com essas roupas folgadas suas formas ficavam ocultas. Que idade me disse que tinha? Sem dá atenção ao rosto iracundo de Nicole, Sable respondeu: - Dezoito anos e uns meses, acredito. E certamente, o cabelo puxado para trás tão apertado era outra forma de dissimular seu sexo. Solto é diferente. Para alguém tão grande, Sable se moveu com graça felina, e antes que Nicole pudesse adivinhar seus propósitos se aproximou dela de uma só pernada e com mãos ásperas e hábeis lhe soltou o cabelo. Liberado da trança que o segurava, caiu em suaves ondas de fogo mogno ao redor dos ombros e Lafitte entrecerrou os olhos, admirado. - Muito bonita - murmurou -. Estaria interessado em vendê-la? Daria-te um bom preço. Os olhos de Nicole se dilataram de horror e voltou rapidamente o olhar a Sable. Inconsciente a expressão de súplica que refletiam seus próprios olhos, Nicole lhe cravou o olhar lhe induzindo a dizer que não. Ele a observou com certa ironia e voltando-se para Lafitte disse baixinho: -Talvez mais adiante. Ainda não acostumei a ela. Volta a me perguntar isso dentro de uma ou duas semanas.


Normalmente, Nicole teria reagido furiosa ante essas palavras indiferentes, mas não lhe agradava o brilho calculador dos olhos de Lafitte e imediatamente decidiu que gostaria ainda menos de compartilhar com ele as intimidades que Sable a tinha obrigado a aceitar. Adoraria arrancar o fígado de Sable e dá-lo de alimento aos tubarões, mas, ao mesmo tempo, relutava em permitir que Lafitte percebesse que as coisas não andavam bem entre eles dois. Pôde notar o olhar curioso que lhe jogou Sable quando permaneceu muda apesar do sarcasmo. Depois de esperar uns segundos, encolheu os ombros e disse para enfurecê-la mais: - Já vê Jean, a mulher quase perfeita... ela sim que sabe quando manter a boca fechada! Os olhos de Nicole, ardendo de indignação, voaram ao rosto de Sable, mas prudentemente, mais uma vez, não disse nada. Lhe sorriu e a desafiou a lhe demonstrar que estava equivocado. Observando o casal, o gigante de barba negra e a esbelta moça insolente, Lafitte sorriu. Sable, sem dúvida alguma, estava a ponto de descobrir que todas as mulheres não eram iguais, que existiam algumas poucas que podiam resistir a seus agrados e elogios. Mas isso não queria dizer que o capitão estivesse se esforçando muito por seduzir à esbelta jovem; parecia sentir prazer em provocá-la, algo que Lafitte jamais tinha visto antes nele. Todo isso resultava muito interessante tendo em conta a conversa de horas antes. Teria caído por fim Sable no laço mais velho do mundo? Haveria essa jovenzinha sido capaz de abrir brecha em seu peito? Se em realidade fosse assim, resultava mais que evidente que nenhum dos dois protagonistas era consciente disso. Entre as preferências de Lafitte, fazer dinheiro ocupava o primeiro lugar e imediatamente depois estava sua afeição para o romântico, e a ideia de seu amigo de coração de gelo apanhado nas garras de um amor não correspondido lhe fez sorrir com ar bonachão. - Pensa te retirar cedo, mon ami? -perguntou-lhe com um brilho particular nos olhos-. Tinha pensado que poderíamos jogar uma ou duas mãos antes de ir dormir. É obvio -disse, mais sorridente ainda-, compreenderei muito bem se já não considerar esses planos de seu agrado. Sable o olhou com tranquilidade e meneou a cabeça. - Parece-me bom. Assim que instale Nick me reunirei contigo na biblioteca. -Que desconsiderado de minha parte! Certamente, devemos nos ocupar de sua comodidade. Darei as ordens pertinentes agora mesmo. Sable desprezou com um gesto o oferecimento de Lafitte de chamar um servente e saiu resolutamente da sala levando Nick rumo à majestosa escada. Uma vez no piso superior, conduziu-a pelo vasto vestíbulo atapetado até a série de quartos que Lafitte tinha posto ao seu dispor.


Fechando com firmeza a porta a suas costas, estudou o semblante furioso da jovem com desaprovação. Subitamente ocorreu a Nicole que, a pesar do tom provocador e seu modo natural de comportar-se, Sable estava colérico, dominado por uma fúria glacial, quanto mais alarmante por sua falta de fogo. Mas ela não se intimidava facilmente e lhe lançando um olhar iracundo, disse entre dentes: - Não te detenha por mim. Estou segura de que Lafitte anseia sua companhia. - Voltou-lhe as costas desdenhosamente, mas uma mão férrea a agarrou pelo ombro e a fez virá-se até ficar cara a cara. Seu semblante já não estava sereno e sorridente: tinha a mandíbula tensa, a boca afinada em uma linha dura e cruel e seus olhos brilhavam como ouro gelado. Quando falou, suas palavras foram afiadas e cortantes como adagas: - Lafitte pode esperar! Antes temos que arrumar algo entre você e eu. Se lembro bem, devia permanecer na plantação. Penso que deve recordar que não estou acostumado a dar ordens só para ouvir o som de minha própria voz. Que tenha te convertido em minha amante não altera o fato de que quando te ordeno que faça uma coisa, espero que a cumpra. Entende-me? - Sacudiu-a ligeiramente ao dizer isto último. - Entendo-te, barriga de tubarão! - replicou airadamente. Lhe cravando um dedo no peito, explodiu-: quem não entende é você! Eu não sou um espólio que capturaste, e por nada no mundo serei sua amante... nem nenhuma outra coisa! sacudiu-se com fúria tratando de liberar-se da mão que a retinha pelo ombro, mas a apertou tanto que acreditou que o osso estalaria. Controlando seu mau gênio com mais paciência do que acreditava ter, Nicole exigiu com frieza: - Me solte! Já me quebrou o pulso, pretende me quebrar também o ombro? As mãos se afrouxaram um pouco, mas não a soltou de tudo. - Não me tente, pequena cadela! Como me sinto neste momento poderia te quebrar facilmente todos os ossos do corpo, e o que é mais, desfrutaria fazendo-o! - Se sentir desse modo, por que me deixa prisioneira? - replicou acaloradamente. Um sorriso desumano curvou seus lábios e bruscamente a atraiu com rudeza contra seu corpo robusto. Colada a ele, Nicole pôde lhe sentir rígido de desejo e acreditou que ia possuí-la outra vez ali mesmo e nesse momento. Protestando, Nicole tentou voltar-se para trás, mas as mãos de Sable se deslizaram por suas costas até lhe cobrir as nádegas, atraindo-a mais contra a pélvis. Investiu-a repetidas vezes para que tomasse consciência de que estava excitado de desejo ardente e disse grunhindo: -Essa é a razão pela qual te retenho a meu lado! Alterada, mais do que podia recordar ter estado, não pôde menos que tornarse a chorar. -Não tem piedade? Nenhuma comiseração por outro ser humano? esqueceste toda noção de moralidade? - Era uma necessidade, sabia, mas as palavras tinham


saído precipitadamente do mais fundo de seu ser esmigalhado. A moça ficou olhando com olhos escuros e brilhantes de lágrimas contidas. Ele a contemplou por um momento com olhos como linhas rasgadas e disse em tom glacial: -Careço de toda noção de moralidade! Desejo-te, Nicole, e nada nem ninguém na terra me impedirá de te possuir quantas vezes me agrade. Não me faça perder tempo com pedidos de perdão ou lágrimas. Os rogos me chateiam e as lágrimas me aborrecem. Se no futuro recorda esta conversa, economizará-te muitas amarguras e angústias. Te conforme sabendo que quando me fartar de ti, te compensarei grandemente. Estupidamente perguntou: -E se nunca te farta de mim? Subitamente, os olhos dourados de Sable refletiram uma risada genuína. Com uma gargalhada, burlou-se: - É muito presumida, Nick. Não existe uma só mulher no mundo que possa me satisfazer durante muito tempo, e você está muito longe de pertencer ao tipo de mulher que prefiro.


CAPÍTULO XIII

A estadia ficou como uma tumba depois da partida de Sable. Durante vários segundos Nicole permaneceu rígida como uma estátua com o olhar perdido na porta que acabava de fechar-se. Ele não podia haver dito essas palavras atrozes, pensou em meio de seu atordoamento. Logo, um estremecimento lhe sacudiu o corpo. Sim, sim podia. Havia-as dito e, pior ainda, com toda sua má intenção. Com o espírito abatido, encaminhou-se à cama de luxuosas cortinas de cetim e se jogou de bruços sobre ela. Por muito, muito tempo permaneceu deitada ali sem querer pensar, e não obstante, presa de seus pensamentos. Oxalá existisse alguma maneira de voltar atrás no tempo, disse-se com mais desejos que esperanças. Em seguida encolheu os ombros filosoficamente. Sable já fazia tempo que sabia que era mulher, e embora jamais tivesse tentado lhe roubar os livros de chaves com Allen, igualmente teria capturado o oficial, e suspeitava que de todas as formas a teria obrigado a compartilhar sua cama, de boa ou contra vontade. Esse homem aproveitou astutamente o pacto precipitado que lhe tinha oferecido e ela foi o bastante imbecil para acreditar que ele estava disposto a fechar um trato e cumpri-lo. Mas a tinha enganado tão facilmente que lhe revolvia o estômago de vergonha cada vez que pensava nisso. Por um momento fugaz acariciou a ideia de ver Sable reduzido a adorá-la com servilismo e arrastando-se a seus pés enquanto que ela gozava pisoteando seus sentimentos mais íntimos. A ideia, ao princípio, tinha sido um mero sonho de vingança, mas franzindo o cenho em súbita concentração, começou a meditar seriamente nisso. E se chegasse a ser imprescindível para suas necessidades, tanto que não pudesse viver sem ela? Possivelmente se inverteriam os papéis? E se conseguisse ser o bastante habilidosa e ardilosa para estender um laço a algum sentimento terno que tivesse, não cairia em suas próprias mãos o poder? Não estaria Sable disposto, até ansioso, de agradá-la? De fazer o que ela quisesse? Tal como liberar o Allen e... - lhe brilharam os olhos de entusiasmo- expulsar os Markham de suas propriedades na Inglaterra. Como se fazia para escravizar um homem? Tinha observado, embora não atentamente, a várias mulheres tratando de seduzir a Sable com todos seus encantos e artimanhas, mas sem resultado. Brincava com elas, manipulava-as para seus próprios fins e depois as esquecia. Carrancuda, tentou recordar se alguma tinha retido seu interesse, o qual lhe indicou uma coisa: sua tarefa não ia ser simples.


A vantagem que tinha sobre as outras era que não estava apaixonada por ele, a pesar do fogo físico entre eles, e que estava resolvida a usá-lo da mesma forma como ele tinha feito com as outras mulheres. Também compreendeu que grande parte do atrativo que exercia sobre Sable era, sem dúvida alguma, sua reconhecida antipatia por ele e seu caráter desafiante. A ideia de lidar com o capitão, de derrotá-lo em seu próprio jogo, reanimou o espírito de Nicole. Passeou pela estadia com planos mal esboçados em sua mente até que se desvaneceu o primeiro acesso de entusiasmo. De repente se deu conta de que era muito tarde e de que estava rendida. Jogou uma olhada indecisa à cama, pois não lhe agradava muito a ideia de que ao retornar Sable a encontrasse adormecida. Ao mesmo tempo adorou a possibilidade de lhe desconcertar por completo, já que se esperava encontrar a sua volta uma arpía furiosa, toparia-se em troca com uma mulher tão absolutamente indiferente a ele que podia ir dormir tranquilamente sem nenhum escrúpulo. Sorrindo tirou a roupa e se meteu entre os lençóis. Enquanto ia caindo no sono lhe ocorreu que sua presença repentina e inesperada certamente alteraria os planos de Sable; entre sonhos desejou que as mudanças fossem desagradáveis para ele. Em realidade, a chegada imprevista de Nicole causava poucos inconvenientes a Sable, embora teria preferido não ter que apresentar-lhe ao Lafitte. Mas além disso, sua presença mal alterava seus planos. Pensava retornar a Thibodaux House pela manhã isso ainda seguia em pé, só que agora contaria com a companhia colérica de Nick na viagem de volta. Ao voltar para a biblioteca ignorou a óbvia curiosidade que aparecia nos olhos do Lafitte, e servindo uma taça de delicioso conhaque francês se sentou comodamente em uma das amplas poltronas. Sable atuava como se nada tivesse acontecido e os dois homens passaram o resto da noite como planejaram em princípio, jogando, fumando charutos e bebendo conhaque contrabandeado. Se Lafitte esperava que Sable se retirasse cedo, teve uma desilusão. O capitão ficou até bem passada a meia-noite discutindo de tudo menos da mulher que estava acima. Quando resultou evidente que Sable não mencionaria Nicole, Lafitte bocejou e ficou de pé. - Mon ami, está disposto a te retirar como o estou eu? Ou seu silêncio se deve a que suas reflexões estão no piso de cima com essa garota? Contrariado por ter deixado vagar seus pensamentos, Sable respondeu de modo cortante: -Se quer ir à cama, vá. Não te detenha por mim. Com o semblante afligido, Lafitte comentou: -Sem dúvida deve ser hora de ir à cama. Está ficando absolutamente irritado O... -seus olhos adquiriram um brilho zombador de risada contida ao acrescentar-: ... Será que tem problemas com o amour? Soltando um suspiro de exasperação, Sable se levantou da poltrona.


- Amour! - Pronunciou a palavra como se fosse uma maldição -. Vós os franceses vivem tagarelando sobre este tema. Essa jovenzinha magricela não é nada fora do comum. Não significa nem um pouquinho mais que meia dúzia de outras mulheres que poderia te nomear. - Tratando de dissimular sua irritação, despediu-se de Lafitte com um morno Bonne nuit e cruzou a grandes passados o vestíbulo para dirigir-se a suas acomodações. Surpreendeu-lhe encontrá-la às escuras e seu assombro chegou ao cúmulo ao ver Nicole profundamente adormecida. Quanto mais a olhava, mais crescia sua irritação. «Por todos os diabos! », pensou furioso. Tinha mais descaramento que um cigano. Nicole se agitou na cama como pressentindo sua presença, e ao abrir os olhos e ver o olhar frio e dourado cravado nela ficou paralisada. Dominado o impulso instintivo de retroceder ao ver o rosto barbado sobre ela, ficou quieta e com o semblante impassível para não delatar seus sentimentos. Sustentaram-se o olhar durante alguns segundos sem poder desviá-lo nenhum dos dois. Em seguida, sem afastar a vista dela, Sable retirou as mantas que lhe cobriam o corpo com lenta deliberação... Nicole não fez nada para impedir-lhe e permaneceu imóvel inclusive quando sua mão lhe acariciou suavemente um seio lhe esfregando o mamilo com insistência. Entretanto, em seu interior liberava uma cruel batalha contra a ardente paixão que ia se apoderando de seu ser. Tinha planejado que a próxima vez que se encontrassem não cederia a essa... essa... ânsia de que lhe fizesse amor, e entretanto, agora que tinha chegado o momento, tinha que resistir aos ditados de seu próprio corpo. Com uma terrível sensação de impotência percebeu a dureza que ia adquirindo o mamilo sob a mão acariciadora e se envergonhou por esse sinal traiçoeiro. Seu corpo tinha vontade própria e uma ideia diferente da que tinha ordenado seu cérebro. Uma sensação doce e morna abria caminho para suas coxas e com determinação febril cravou os olhos nos do homem desprezando a expressão fria e insensível que achou em suas douradas profundidades. Percebeu que estava se contendo, brincando com ela como se não lhe interessasse realmente. Nesse instante lhe odiou de verdade, odiou-lhe pelo poder que parecia exercer sobre seu corpo indefeso. Desejava-lhe apesar de tudo o que tinha passado, mas não obstante estava furiosa de que ele pudesse contemplar sua nudez, acariciá-la e permanecer impassível enquanto a devoravam seus próprios desejos. Olhando-a fixamente nos olhos, deixou de lhe acariciar o seio e com angustiosa deliberação deslizou a mão pela pele morna até a cintura. Quase divertidamente os dedos avançaram até o umbigo e então a mão bem aberta se deslizou pelo ventre para as pernas. Ao ouvir o ofego, mescla de terror e impaciência que escapou de Nicole, os lábios do homem apenas se curvaram em uma fugaz careta cruel.


Nicole não podia evitar o pulsar acelerado de seu coração e estava furiosa por saber que a traíam seus olhos enquanto ele, maldito fosse, ainda parecia impassível. Tratou desesperadamente de manter a compostura, mas a delatavam uma dúzia de indícios: seus olhos estavam dilatados e escuros de paixão e os mamilos rígidos de desejo. Eram dois verdadeiros duelistas: ela lutando por manter-se fria e hostil, e ele excitando-a deliberadamente e lhe exigindo resposta enquanto ele mesmo se mostrava distante e reservado. -Odeio-te, maldito! – disse-lhe à cara com voz rouca. Mas ele nem sequer percebeu. Atordoada, perguntou-se se a estaria castigando pelo ocorrido ontem à noite. Logo todo pensamento coerente a abandonou quando os dedos viris, que tinham deixado de atormentá-la brincando sobre seu ventre, penetraram em seu interior. Todo seu corpo vibrou com o impacto dessa suave carícia e seu prazer cresceu em intensidade ao continuar ele seus movimentos. Nicole lutou tudo o que pôde contra a sensação de deleite que se apoderava de seu corpo; depois, com um gemido atormentado, retorceu-se afastando-se dele. Jazia na cama metade de lado, metade de bruços cobrindo os seios com os braços. Em vão tentou apanhar uma dúzia de pensamentos fugazes e emoções fugidias enquanto uma pontada quase dolorosa e penetrante exigia alívio entre suas coxas. O semblante de Sable já não era impassível e uma magra capa de suor sobre sua testa delatava sua própria luta para conter-se. Arrancou a roupa com feroz rapidez e, antes que Nicole pudesse recuperar-se, pressionou seu corpo robusto contra as costas da jovem. Seu fôlego suave e quente lhe acariciou a orelha e Nicole sentiu como esse corpo viril e ardente se amoldava ao dela enquanto jaziam de lado sobre a cama. O contato se estendia a todo o comprimento dos corpos: o peito peludo contra as costas graciosas, as nádegas arredondadas e turgentes curvando-se contra o estômago plano e as pernas em harmoniosa curvatura. Quis separar-se bruscamente, mas um braço robusto e vigoroso lhe rodeou a cintura e em um sussurro lhe disse: - Ontem à noite foi um erro e me proponho remediá-lo agora mesmo. Me deixe, Nick, me deixe... me deixe te amar. Mal o ouviu, pois já lhe havia coberto um seio com a mão antes de deslizarse uma vez mais entre suas pernas. Era consciente, e ao mesmo tempo alheia, de outras coisas além disso do fogo que ardia em suas virilhas: o outro braço vigoroso debaixo de seus quadris, a respiração agitada do homem quando a sentiu derreter-se contra ele abandonando-se por completo, e sua masculinidade quente e pulsante movendo-se com suavidade entre suas coxas. Não a penetrou imediatamente mas sim a explorou uma vez mais e com toda deliberação lhe fez provar pela primeira vez a doce experiência do pleno gozo sexual. Nicole se ouviu gritar quando, com a mão entre as pernas, ele a levou ao topo do prazer, mas suas sensações e emoções giravam em um torvelinho fora de controle e nesse instante nada importava salvo que aquela


sensação não cessasse. E não cessou. Mal tinha voltado para a prudência quando ele, ainda de lado, investiu suavemente dentro dela, fazendo com que seu corpo penetrasse até o fundo de sua acolhedora suavidade enquanto suas mãos a apertavam com força contra ele. Como um fogo mortiço que de súbito cobrasse nova vida, sentiu que todo seu corpo lhe respondia com paixão renovada e ávida; completamente alheia ao que fazia, curvou mais seu corpo para lhe facilitar a posição, arqueando-se contra ele. Ao alcançar a culminação, esta vez foi como se todos os nervos de seu corpo explodissem de prazer. Ofegante e ainda em meio de uma tempestade, com os olhos muito abertos de assombro pela experiência vivida, ficou deitada, quase sem ter consciência do homem que estava junto a ela e lenta, muito lentamente foi voltando para seu estado consciente. Agora sabia sem lugar a dúvidas por que lhe perseguiam com tanta falta de vergonha todas aquelas mulheres, e teria dado qualquer coisa para não fazê-lo ela também. Com certa inapetência virou-se para olhá-lo de frente. Estava deitado de costas com um braço debaixo da cabeça, observando-a. Contemplou-o durante mais de um minuto enquanto se perguntava como podia odiá-lo e ao mesmo tempo não poder impedir que todo seu corpo se convertesse em uma massa trêmulo ante a só ideia de seus beijos. Em voz baixa e tom desafiante, declarou: - Ainda te odeio! Por incrível que fosse, ele sorriu, não com essa expressão temerária e zombadora que ela conhecia tão bem, a não ser com certa pesarosa ternura. -Sabe que isso é exatamente o que pensava que diria? Pode ser que me odeie, Nick, mas seu corpo não me odeia. Sable se deitou de lado e seus rostos ficaram a escassos centímetros de distância. Sua mão lhe percorreu delicadamente o corpo e se deteve quando encontrou o triângulo escuro das pernas. Desesperada, Nicole ficou rígida ignorando o súbito e inesperado acesso de desejo no estômago. -Vê? -riu baixinho ao perceber a resposta do corpo feminino-. Poderia fazer com que me desejasse outra vez, apesar do que diz sentir por mim. - Bruscamente lhe cobriu a boca com os lábios sem lhe dar oportunidade de responder. Foi um beijo totalmente distinto a todos os que lhe tinha dado antes. Era suave e premente de uma vez, quente e profundo. Erguendo a cabeça, contemplou-a e com voz pastosa pela paixão que crescia em seu interior, sussurrou-: Posso, Nick? Posso lhe demonstrar isso? Nicole negou sacudindo a cabeça sem poder falar e com o olhar perdido nas profundidades douradas de seu olhar. Não era necessário, pensou com pesar, não se precisava provar o que ambos sabiam tão bem. Ante sua negativa, Sable suspirou e se afastou dela com relutância, mas sem fazer nenhuma tentativa de lhe fazer mudar de opinião. Em troca, sobressaltando-a


um pouco, envolveu-lhe o corpo dócil com os braços e a estreitou contra seu corpo. Depois lhe acariciou a testa com os lábios e murmurou: - Durma, Nick. Temos um longo dia pela frente. Para sua surpresa, o corpo frágil e feminino se aconchegou confiantemente no seu peito e lhe obedeceu imediatamente, imediatamente caiu em um sono profundo. Sable, que por algum tempo, depois de ouvir a respiração serena de Nicole que revelava que já dormia com placidez, seguiu insone pensando no futuro. Lafitte e ele tinham finalizado os transações para a venda de La Belle Garce durante a noite e ao chegar à manhã Nick e ele estariam a caminho de casa com uma pesada bolsa de moedas de ouro. Também essa noite tinham conversado sobre o destino de Allen Ballard, que passaria os próximos meses como hóspede involuntário do calabouço de Lafitte. Sable ainda não tinha tomado uma decisão sobre o destino final do oficial, mas enquanto isso estaria a em segurança. Tendo resolvido os problemas de La Belle Garce e do traidor Ballard, só ficava uma dúvida por resolver, que estava agora, morna e confiante, junto a ele: Nick! Logo saberia de seu segredo e se perguntava como reagiria ao inteirar-se de que o capitão Sable e Christopher Saxon eram uma só pessoa. Christopher Saxon. Sentia-se estranhamente satisfeito ao pensar que em menos de vinte e quatro horas voltaria a usar seu verdadeiro nome. Desapareceria por fim a dupla personalidade do corsário barbado chamado Sable e o elegante e bem barbeado dono da plantação. O engano tinha começado fazia muito tempo, quando Higgins e ele escaparam do navio. Para evitar que lhe descobrissem as autoridades britânicas em busca de desertores, fez-se chamar Sable Lacey. Mas quando se uniu ao bando do Lafitte, este lhe sugeriu as grandes vantagens de uma dupla personalidade. Christopher esteve de acordo com ele. Foi assim como o capitão Sable tinha saído a navegar e Christopher Saxon tinha ganho uma fortuna, incluindo Thibodaux House, nos luxuosos salões de jogo de Nova Orleans. Sable jamais tinha aparecido por essa cidade, embora Saxon o fazia periodicamente. Este vivia vários meses ao ano em Thibodaux House. Era verdade que desaparecia durante meses e meses, mas a quem lhe importava? E quem ia perceber que durante essas prolongadas ausências do Saxon reaparecia o capitão Sable em Grand Terre e A Belle Garce voltava a fazer estragos nos mares? Ninguém exceto Nick! Fingindo indiferença se disse que não tinha importância. E não obstante... Nicole poderia facilmente destruir seu prestígio entre os membros mais respeitáveis da sociedade de Nova Orleans. Importava-lhe muito acaso? A atividade de corsário não era uma profissão desonrosa, mas se elevariam umas quantas sobrancelhas, seguiriam-lhe alguns sussurros mal-intencionados e já não seria bem-vindo em alguns lares. Mas era um risco que tinha que correr... Além


disso, maldito o que lhe importava a «sociedade»! Naturalmente que também podia deixar Nick com o Lafitte... mas a ideia lhe desagradava em excesso. A memória era uma coisa esquiva e traiçoeira. Enquanto jazia insone voltaram para ele outras lembranças de Nick: seu corpinho esbelto subindo pelos equipamentos do barco como um macaco; a chamejante excitação ardendo em seus olhos topázio ao menor indício de uma batalha; a forma como franzia os lábios com determinação enquanto trabalhava no escritório de seu camarote. Milhares de imagens dela como Nick cruzaram com rapidez por sua cabeça e se perguntou como tinha estado tão cego para não ter vislumbrado a verdade através do disfarce durante tanto tempo. Possivelmente o fez sem sabê-lo. Tratou-a de uma maneira muito especial e provocadora que ninguém podia entender, tinha tolerado sua insolência até o inconcebível e de algum modo, deliberadamente ou não, preocupou-se de que estivesse a salvo durante as batalhas. Admitiu a contra gosto que sempre existiu um afeto despreocupado embora ilógico para o Nick. É obvio que não tinha pensado nenhuma só vez em seu grumete durante os períodos em que desaparecia para converter-se em Saxon, e se perguntou como tinha se arrumado durante suas ausências. Recordou de Ballard com desgosto. Certamente. Com toda segurança ficava em La Belle Garce enquanto estavam em Grand Terre, e como a maioria dos membros da tripulação viviam retirados de todos, não teriam lhes dado muita atenção. Mas tinha sofrido graves riscos. Insone por completo por esses pensamentos, separou-se delicadamente do corpo adormecido de Nicole e desceu da cama. Sobre a mesa do outro lado do quarto havia uma bandeja com licores. Servindo uma taça de conhaque passeou com impaciência pela estadia, enquanto seus pensamentos, inexplicavelmente, tomavam um rumo que lhe desagradava sobremaneira. Se lhe perseguiam as lembranças do Nick como grumete, esses pensamentos evocaram outros, que como a uma besta adormecida, tinha mantido a distância nas curvas mais profundas de sua mente. Quando pensava na jovem era inevitável que recordasse a sua mãe e feitos que era melhor esquecer. Mas aquela noite não podia negar suas lembranças e com desespero evocou a bela mãe de Nicole, Annabelle, e a seu tio. Meditando sobre como lhe usaram com tanta habilidade quase adoeceu de fúria. Durante quanto tempo, perguntou-se, teria suspeitado o marido de Annabelle que existia outro homem na vida de sua mulher. Não pôde ser por um longo período ou não lhe teriam utilizado como bode expiatório. Voltando o olhar ao passado o viu tudo com muita claridade: a aventura amorosa entre seu tio Robert e a voluptuosa esposa do vizinho, ambos agarrados nas redes de matrimônios que não podiam ou não queriam confrontar. Foi o medo ao escândalo que os guiou a lhe utilizar e lhe sacrificar? Ou acaso seu tio tinha outro plano pior ainda? Com quanta facilidade, pensou agora, podia ter morrido na marinha deixando Robert como herdeiro da fortuna e do título do avô, além de todas as propriedades da família Saxon.


Em seu interior ardia uma fúria controlada enquanto refletia a respeito daqueles dias tão longínquos. Céus! Como tinha adorado a deslumbrante Annabelle, a mulher de cabelo como labaredas e um corpo que consumia a um homem como o mesmo fogo. Oh, com que astúcia lhe tinha enrolado, e ele, como um parvo, tinha-lhe oferecido todo seu amor juvenil. Foi incapaz de ocultar sua adoração e aos mais velhos divertia seu amor pueril. Mas nada sabiam dos encontros secretos que mantinham no chalé onde lhe tinha introduzido nos mistérios do desejo físico. Estava seguro de que Robert estava informado deles. Soube também Robert quão apaixonados tinham sido, como Annabelle lhe havia desprovido de sua virgindade e lhe tinha iniciado minuciosamente nas artes do amor? De algum modo duvidava de que seu tio o tivesse sabido! Annabelle resultou como um narcótico em suas veias, recordou Christopher enojado, enquanto o atormentava e brincava com ele, ecoando zombador de suas promessas de amor eterno e lhe ensinando o engano e a sedução. Mas por sua deusa ele podia suportar algo, até a atitude depreciativa com que lhe tratava diante de outros, porque sabia que ao cair à noite se perderia dentro de seu corpo. Soprou de desgosto por sua própria vaidade. Deve ter estado completamente louco para acreditar que uma mulher dez anos mais velha que ele e na plenitude de sua beleza se apaixonasse por um rapazinho de quinze, inseguro e magricelo. Ela jamais o tinha amado. É obvio que agora sabia, soube desde aquele momento terrível e negro em que seu avô, com o rosto tenso pela ira, tinha-lhe jogado na cara aquelas palavras de condenação enquanto ela, essa cadela traidora, soluçava piedosamente enxugando as lágrimas com um lenço e gritava que ele a tinha violado e logo ameaçado contando-lhe a todo mundo para seguir aproveitando-se dela e satisfazer sua lascívia. Ainda agora podia sentir a cólera que se apoderou de seu ser, e seu desespero ante aquele final tão cruel de seu sonho de amor. O marido de Annabelle tinha permanecido rígido ao lado de sua esposa, enquanto seus olhos escuros refletiam o desconsolo que sentia ao ver que Christopher era só um menino com quem não podia bater-se em um duelo. E o orgulho impediu que Christopher respondesse às acusações. Tinha o semblante petrificado e algo em seu interior tinha morrido esse dia. A beira de um ato violento, saiu do salão quase correndo só para cair nas garras de Robert. Com desagrado recordou com que facilidade se deixou manipular. Ignorando nesse momento a relação entre Robert e Annabelle, foi como argila nas mãos de seu tio, que aparentou compadecer-se de seu sobrinho e lhe sugeriu abandonar a casa por um tempo e retirar-se a alguma escura estalagem do campo onde poderiam discutir a fundo o problema. Logo Robert, em tom conciliador, tinha tratado de estancar as profundas feridas de sua alma enquanto bebiam cerveja nos fundos da estalagem; depois lhe arrebataria inclusive aquela ilusão de consolo e compreensão. Com raiva mal contida, voltou a ver a última cena repulsiva do drama: ele mesmo, amarrado e amordaçado, cruelmente açoitado por seu tio, e Annabelle nos braços de Robert. Tinham-lhe obrigado a contemplar, com fascinação e repugnância, como eles, alheios a sua presença copulavam como animais no chão, e com aversão


ainda podia ver o olhar de Annabelle enquanto alisava e endireitava a saia enrugada e perguntava: - O que acontecerá a ele? Agora que já serviu seu propósito, como vais te livrar dele? Robert tinha soltado uma gargalhada abraçando-a com paixão. - Não se preocupe. Amanhã a esta mesma hora estará em alguma parte do mar, outra vítima desafortunada das rondas marinhas...só que meu pai e seu marido não saberão. Eles suporão que preferiu escapar antes que confrontar a desonra. Ela sorriu e seus olhos verdes brilharam de júbilo. - É tão preparado, Robert. Quem poderia ter ideado um plano tão perfeito para responder às suspeitas do Adrian? Ele está plenamente convencido de que Christopher é o homem com quem estive me encontrando. -riu, divertida, obviamente agradada pela situação. Mas suas preocupações não se acalmaram de tudo-. Mas, o que acontecerá se retorna? -perguntou com certa ansiedade na voz. Robert tinha encolhido os ombros com indiferença. - Isso, meu amor, é duvidoso em extremo. Já se encarregarão dele os rigores da armada. Além disso, estamos em guerra com a França. E embora chegasse a sobreviver, não poderia prejudicamos. Quem lhe acreditaria? -Suponho que tem razão. –Anabelle não lhe deu nenhum só olhar e uma hora mais tarde Christopher estava nas fornidas mãos de um oficial depois de que Robert lhes guiasse a sala com um sorriso radiante no rosto. O corpo de Christopher tremia pela força e a intensidade das emoções que lhe assaltavam e apertava tanto os punhos que os nódulos estavam brancos apesar da pele bronzeada. Malditos fossem! Pensou enfurecido. Que apodrecessem no inferno! Serviu-se de outro conhaque com mãos trêmulas pelo furor desatado pelo ódio profundo que lhe consumia. Tragou-o de um sorvo cegado pela ira. Retornou do passado fazendo um esforço sobre-humano. Acabou-se, já tudo isso tinha passado e estava terminado, disse-se com tristeza, e seguir obcecando-se com isso só conseguiria lhe destruir. «Ah, néscio», pensou com desagrado, «ninguém pode te ferir, faz muitíssimo tempo que cerceaste violentamente essa habilidade a todos aqueles que lhe aproximam. Esquece o passado. Nada pode fazer para remediar o que já ocorreu, e Annabelle está fora de seu alcance, morta, afogada no mar!» Mas, a vingança era uma violenta emoção difícil de rechaçar, e deliberadamente, cravou o olhar em Nicole. Que ironia do destino que a filha de Annabelle tivesse que cair em suas mãos. Devia reconhecer que sentia certo prazer em atormentá-la, em dobrar a vontade de Nick a seus desejos e - sua própria honestidade lhe obrigou a acrescentar- em castigá-la pelos pecados horrendos de sua mãe.


TERCEIRA PARTE CHRISTOPHER

«Mas o amor é cego, e os amantes não podem ver as belas loucuras que eles mesmos cometem.» Shakespeare, O mercado de Veneza.

CAPITULO XIV

Christopher Saxon, com uma expressão de tedioso desdém no rosto magro e bem barbeado, escutava o bate-papo ocioso que se desenvolvia ao seu redor. Jamais conseguiria entender por que diabos tinha permitido que seu amigo Eustace Croix lhe persuadisse a assistir a soirée dos Laville. Por Deus, aborrecia-se soberanamente! Devia supô-lo. Os Laville eram pessoas idosas e também o eram a maioria de seus convidados. Ontem à noite, quando Eustace lhe suplicou que lhe acompanhasse, deveria ter estado fora de seu juízo para não negar-se terminantemente. Christopher Saxon não era, em realidade, um homem particularmente sociável. Calado e retraído, mantinha-se afastado daqueles que teriam procurado sua amizade. Frio, duro, impassível e insensível eram alguns dos epítetos que se diziam a suas costas. Na aparência os merecia de sobra: limitava-se a encolher seus elegantes ombros e a virar as costas a tudo àquilo que lhe desgostava. Isso não significava que lhe esquivassem ou que fosse impopular. Muito pelo contrário!


Todas as manhãs durante suas esporádicas estadias na cidade, seu servente apresentava uma pequena bandeja de prata com vários convites para assistir a esta reunião ou aquela festa, ou para acompanhar a um conhecido ou outro a alguma briga de galos ou a ver as últimas belezas no Baile dos Quarteirões, como se conhecia em todo o sul às pessoas que tinham um avô negro entre seus antepassados. Em virtude de sua grande fortuna e rosto atrativo, era o favorito das damas com filhas casadouras. E a maioria dos homens lhe consideravam bastante agradável, embora um tanto insolente. Mas jamais lhe faltava companhias ou diversões e sempre se guardou deliberadamente de fazer amigos íntimos. As amizades em geral tinham o costume de formular perguntas indiscretas, apresentar-se de visita em momentos inoportunos e de interessar-se em assuntos que não eram de sua incumbência. Ao princípio se absteve de socializar com as pessoas por necessidade, e depois porque se converteu em um hábito. Convinha-lhe sobremaneira que ninguém conhecesse muito bem ao Christopher Saxon. A sociedade refinada o aceitava como era. De maneiras corretas, sua família estava bem relacionada na Inglaterra e ninguém podia dizer nada em seu contrário. Certamente alguns membros da aristocracia crioula ainda se lembravam da forma como tinha adquirido sua fortuna -a confortável mansão de Vieux Carré, e a plantação, Thibodaux House- mas eram poucos e nem sequer eles punham em dúvida a necessidade do jovem Eugene Thibodaux de jogar toda sua fortuna nas cartas. Uma pergunta inoportuna da volumosa matrona que estava a seu lado o fez voltar para o presente e com hábil desenvoltura dissimulou sua falta de atenção e se incorporou ao bate-papo. O resto da soporífica noite passou com lentidão e quase não pôde conter sua alegria e alívio quando pôde ao fim escapar dali. Jamais voltariam a enrolá-lo para concorrer a outro daqueles intermináveis jantares dos Laville. No trajeto de volta a seu próprio casarão de tijolo e estuque a poucas ruas da mansão onde se celebrou a noite, descobriu que ainda não tinha sono. Por um momento contemplou a ideia de ir a algum dos bordéis ou casas de jogo em busca de diversão, mas não lhe seduziu totalmente. Depois de ordenar que levassem uma garrafa de uísque a suas acomodações, despediu-se do servente até a manhã seguinte. Tirando o traje de gala, vestiu uma pesada bata de seda negra, serviu-se de um copo de uísque e abrindo a porta saiu para o balcão que dava ao pátio. Permaneceu ali um longo tempo com o olhar perdido enquanto bebia o uísque. Sabia que devia dar-se por satisfeito, mas não era assim e tanto os lugares como as diversões que antes absorviam sua atenção agora lhe resultavam francamente aborrecidos. Sobressaltou-se ao compreender que se encontrava em ponto morto sem ter ao certo em que direção encarrilhar suas energias. O capitão Sable tinha morrido. A plantação estava organizada até o ponto de não requerer mais que uma superficial supervisão para funcionar à perfeição. Não


era um homem a quem lhe atraíra uma respeitabilidade sedentária e nesse momento não estava seguro de que tivesse sido sensato vender A Belle Garce. Talvez não fosse feito para uma vida indolente e cômoda, pensou com ironia. As últimas semanas não tinham sido tão agradáveis como tinha pensado, pois faltou essa faísca de desafio e excitação que necessitava para sentir-se a gosto com a vida. A visita daquela noite não era diferente das outras. Na verdade agora sabia que nunca mais se converteria no capitão Sable, mas isso só não explicava seu descontentamento. Teve que admitir com certa inapetência que estava enfastiado e aborrecido. Devia ter trazido Nick consigo, decidiu ironicamente. Sorrindo, pensou que ela sim teria ajudado a lhe animar a vida criando incidentes com frequência. E contra sua vontade, perguntou-se o que estaria fazendo aquela noite. Provavelmente de visita na cabana de alguma rainha do vodu para obter uma poção que lhe causasse uma morte prematura. Cada vez mais contrariado, descobriu que seus pensamentos voavam para Nick nos momentos mais inoportunos. Dançando com umas das beldades reinantes na sociedade e contemplando seus olhos café verdadeiramente formosos, descobria que preferia os da Nick. Os seus eram mais profundos, mais brilhantes e certamente muito mais vivazes. Em uma soirée onde lhe apresentaram à encantadora sobrinha de seu anfitrião, chegou à conclusão de que embora tivesse uma boca deliciosa, a de Nick era mais suave e mais incitadora. Uma noite na ópera, ao perceber uma chamativa beldade de cabelo castanho avermelhado, considerou que seus cachos de cabelo eram insípidos e descoloridos comparados com os reflexos chamejantes do cabelo escuro de Nick. Para alguém como ele ter estes pensamentos inquietantes lhe irritava e perturbava e se amaldiçoou por seu néscio encantamento por aquela arpía rebelde de olhos topázio. Com um bufido zombador entrou de novo em seu quarto. E ao despertar à manhã seguinte, aborrecido por sua suscetibilidade da noite anterior, expulsou de propósito todos os pensamentos sobre o futuro e se lançou a uma orgia de atividade. Durante a semana anterior ao Natal compareceu a reuniões e soirées das casas mais elegantes de Nova Orleans. Com todos os minutos desses dias cheios de compromissos agradáveis, convenceu-se de que isto era precisamente o que queria. Esta vida de farra em farra poderia ter continuado indefinidamente a não ser por dois incidentes que ocorreram à noite do famoso baile de Natal na casa do governador. Christopher, junto com centenas de membros proeminentes da sociedade da Louisiana, assistiu ao acontecimento social, e foi justamente ali onde se topou com um inesperado espectro de seu passado. Era uma mulherzinha miúda e vivaz ao redor de sessenta e cinco anos, brilhantes olhos azuis e macios cabelos brancos; estava pulcramente vestida embora com um traje muito simples, e era evidente que atuava de acompanhante. Não a viu ao princípio pois, quem presta atenção a personagens tão opacos?


Nunca pôde explicar-se muito bem por que tinha advertido sua presença. Talvez a forma como mantinha a cabeça erguida ou os rápidos movimentos de seu corpo o que evocou algo em sua memória. Do outro extremo do salão se encontrou observando-a com o cenho franzido, totalmente perplexo. Estava convencido de que tinha que falar com essa mulher e finalmente engenhou para que lhe apresentassem à senhorita Leia Dumas, que parecia ser a jovem a seu cargo. Então se inteirou do nome da dama de companhia... a senhora Eggleston em pessoa! Ao ouvir esse nome se desvaneceram os anos e voltou a ser o rapazinho de doze que à força de adulações e lisonjas conseguia sempre algum doce da mulher do coronel. Ela não tinha mudado muito nos anos transcorridos, embora seus suaves olhos azuis já não eram tão risonhos e seu rosto, ainda terno, observava um certo ar de melancolia. Ficou verdadeiramente surpreso quando, ao ouvir seu nome, lhe olhou à cara e exclamou: - Caramba, Christopher, que alegria voltar a verte depois de todos estes anos! Sorriu-lhe com certa pesadumbre e murmurou: - E eu a você, senhora. Mas me conte, como é que se encontra aqui? Ela titubeou e a ele não lhe escapou o olhar inquieto que jogou a jovem a seu cargo, a presunçosa senhorita Dumas, cuja expressão revelava às claras o desgosto que sentia porque o esquivo monsieur Saxon prestava mais atenção a sua humilde governanta que a sua bonita pessoa. Assim Sable não se surpreendeu quando a senhora Eggleston se agitou, nervosa. - É uma história muito longa e te aborreceria. Quereria lhe pedir o próximo baile à senhorita Dumas? Acredito que está começando um agora. Garbosamente, Christopher obedeceu seu rogo e conduziu à senhorita Dumas, agora radiante de alegria, para o salão de baile. Mas não tinha que se deixarse separar de seu propósito, e habilmente extraiu toda a informação que desejava de sua presumida companheira de baile. A senhora Eggleston tinha ficado reduzida a ganhar a vida servindo a todo aquele que necessitasse de seus serviços. Não contente com o que conseguiu surrupiar a sua companheira, ao final do baile levou de retorno à senhorita Dumas até onde estava à senhora Eggleston e logo esperou perto dali até que um cavalheiro crioulo convidou a jovem para dançar. Sob o pretexto de uma conversa cortês, convenceu à senhora Eggleston de que se reunisse com ele em privado dentro de dois dias. Ela se mostrou indecisa, mas não pôde resistir a suas lisonjas. Obtido seu objetivo, Christopher se dirigiu ao salão de jogo. Estava carrancudo ao entrar ali. A senhora Eggleston tinha sido sempre uma de suas favoritas e lhe enojava a ideia de que tivesse que estar à mercê de uma criatura tão exigente, consentida e vaidosa como aparentava ser a senhorita Dumas.


Normalmente não pensava nisso, mas aquele caso era diferente pois tinha querido estranhamente à senhora Eggleston. Foi bondosa com ele quando era um jovenzinho e se assombrou ao descobrir que ainda conservava gratas lembranças quase esquecidas de deliciosas tardes passadas na casa dessa mulher. Mas então voltou a prevalecer nele seu habitual espírito sardônico e a excluiu de propósito de seus pensamentos. Se não tomasse cuidado começaria a preocupar-se com outra pessoa. Isso, decidiu, sorrindo cruelmente, era de tudo inaceitável. A senhora Eggleston ficou relegada a um escuro canto de sua mente e um momento mais tarde se reuniu com um grupo de amigos junto a uma das mesas do salão. Muitos dos homens idosos, felizes de terem escapado aos olhares vigilantes de suas esposas, desfrutavam de umas partidas de whist. A maioria dos jovens se encontravam no salão de baile, mas ao Christopher não resultou difícil dar com três conhecidos que necessitavam um quarto jogador para completar uma partida de naipes em um canto isolado. Foi só depois de ter jogado umas quantas mãos quando começou a tomar consciência da conversa que tinha lugar virtualmente ao lado. A referência ao nome de Lafitte chamou sua atenção e com ar indolente desviou o olhar das cartas que tinha na mão ao grupo de homens a sua esquerda. Reconheceu vagamente a um deles, mas estava muito mais familiarizado com os outros dois, Daniel Patterson e Jason Savage. O primeiro estava ao comando das forças navais estacionadas em Nova Orleans, e precisamente lhe tinha enviado os livros de chaves de forma anônima. Naturalmente, Christopher tinha pouco em comum com ele, mas como era o comandante em chefe, tinha considerado oportuno e prudente conhecê-lo. Jamais machucava a ninguém cultivar a amizade daqueles que poderiam lhe prejudicar e Patterson era um franco opositor de Jean Lafitte. O conhecimento que possuía de Jason Savage não se apoiava em nenhuma relação pessoal. O que sabia tinha recolhido das fofocas e dos bate-papos de salão e era bem consciente de que Savage não era um homem a quem se pudesse contrariar impunemente ou ignorar. Parecia gozar da mais absoluta confiança do governador Claiborn e tanto a facção norte-americana como os crioulos lhe tinham em muito alta estima. Ao Christopher tinham apresentado à bela esposa de Savage, Catherine, uns anos atrás em uma festa e esteve de acordo com aqueles que diziam que era uma das mulheres mais encantadoras que tinham pisado em Nova Orleans em muitos anos. Mas além de sua muito bela esposa, o interesse que Jason Savage tinha despertado em Christopher se devia a seu conhecimento de que aquele homem era o centro ao redor do qual giravam muitas coisas. Embora parecia alheio e desligado das circunstâncias, se rumoreava que tinha firmemente agarrado em suas mãos o coração do estado da Louisiana e portanto, Christopher se interessava em todas suas atividades com algo mais que mera curiosidade. Mas nesse momento o que excitava sua atenção eram as palavras do Patterson:


- Repito-lhes isso, não posso entendê-lo! Nem como chegaram a meu escritório, nem por que faria semelhante coisa algum esbirro do Lafitte. Com seu modo lento de falar, Jason murmurou: - Talvez pensou ganhar algo por isso... uma recompensa, ou possivelmente até o perdão. Quem sabe? - Sua voz sugeriu a pergunta: «Quem se importa?», mas não a formulou. Patterson se zangou por seu tom indiferente e explodiu: -Não, maldita seja, Jason, nada disso! Esses livros se materializaram misteriosamente no interior de meu escritório. Não havia nada que os acompanhasse... nem mensagem, nem identificação, nada. Somente os livros. interroguei exaustivamente a todos os meus homens e ninguém sabe nem se explica como puderam chegar ali. Quem quer que os tenha deixado ali não estava interessado em recompensa alguma, ou de outro modo teria havido alguma mensagem com esses malditos livros. - Está bem seguro de que são autênticos? Te enviar livros falsos seria uma jogada magistral dos britânicos e muito ardilosa. Eles, estou seguro, encarregariam-se de que só recebesse aqueles despachos que queriam te fazer conhecer. Um dos outros homens aventurou uma sugestão procaz que pareceu incomodar ao Patterson, e Christopher, que continuava escutando furtiva mas descaradamente, sorriu. Patterson, com bastante altivez, replicou: -Este não é um assunto para risadas... e sim, os livros são autênticos! Não somos nenhum novatos em nosso trabalho! A conversa trocou de tema e quando Christopher começava a aborrecer-se e estava a ponto de partir, Patterson novamente disse algo que voltou a cativar sua atenção dispersa. -… atacar à Nova Orleans. - Oh, vamos, Daniel! Os britânicos não estão para desdobrar mais tropas e navios de guerra para nos atacar. Estão muito ocupados ao longo da fronteira canadense e na região dos Grandes Lagos para inquietar a Nova Orleans - refutou um comerciante. Patterson emudeceu como se compreendesse que tinha sido um tanto indiscreto e encolheu os ombros. Foi Jason, entretanto, quem continuou com o tema: -Eu não diria isso, John -disse em tom lento-. Atacar e conquistar Nova Orleans seria uma jogada estratégica por parte dos ingleses. Necessitam uma vitória para dar fôlego às tropas e continuar com a guerra, e esta cidade lhes brindaria uma vantagem decisiva nas conversações de paz em São Petersburgo. Embora estou a par de que os britânicos rechaçaram a mediação oferecida pelo Czar, sei que expressaram o desejo de manter negociações diretas. É possível que a razão pela qual não seguiram adiante com as negociações se deva a que querem contar com uma vitória decisiva para reforçar seu poder quando se sentarem para negociar. Neste momento acredito que é como disse... querem sentar-se à mesa da paz com uma boa jogada nas mãos.


Assim não desprezem um ataque à Nova Orleans com tanta facilidade. - Jason desviou seus olhos verdes do semblante perturbado de seu companheiro e os voltou para Patterson -: Estabeleceu-se com certeza que têm um ataque planejado à cidade? Tem provas disso... ou só está especulando a respeito? Incômodo, Patterson murmurou: - Não se estabeleceu convincentemente, deveria sabê-lo. Só houve indícios, e um dos despachos capturados recentemente menciona uma campanha que teria que se desenvolver no sul. - Daniel, trata de me dizer que o governador está informado disto e não está fazendo nada para verificá-lo? - gritou um dos homens. Patterson se revolveu na cadeira, incômodo, desejando não ter introduzido esse tema na conversa. Disse algumas palavras que Christopher não pôde ouvir, mas que pareceram tranquilizar os outros, embora um deles se voltou resolutamente para o Jason. . - Seu tio atua nas altas esferas do governo inglês. Pensa que poderia inteirar-se de algo por meio dele? Jason sorriu com ironia e nesse momento seus olhos se toparam com os do Christopher. Sustentaram o olhar e este teve a curiosa convicção de que Jason sabia muito bem que o seu era algo mais que interesse ocioso. Durante um pouco mais de sessenta segundos os olhos verdes enfrentaram os dourados, e depois, como se já tivesse formado uma opinião, sua atenção voltou para seus companheiros de mesa. Falou com certa nota de tédio na voz: - Roxbury está velho e é totalmente leal a Inglaterra. Se eu estivesse tão louco para viajar a Grã-Bretanha em busca de provas definitivas, meu tio, um homem muito ardiloso, saberia perfeitamente para que estaria eu aí no instante em que pisasse em terra inglesa. Não só me resultaria impossível averiguar coisas de importância, mas também além disso, mon oncle se encarregaria de que minha visita fosse muito curta e muito desagradável para mim. Encontre algum outro parvo que vá atrás de seus sonhos de fadas! - E subitamente, o olhar do Jason se cravou, desafiante, nos olhos de Christopher. Uma vez mais se sentiu submetido a essa olhada esmeralda de olhos brilhantes e entrecerrados que pareciam medi-lo. Christopher, fazendo um grande esforço, ignorou-a e não deu sinais de ser consciente dela. Mas um momento depois, ao abandonar o salão de jogos, esteve seguro de que aqueles olhos verdes lhe seguiam e que em um futuro muito próximo se formulariam algumas perguntas diretas e agudas sobre sua pessoa. Em realidade, havia muito pouco que Jason Savage não soubesse já a respeito de Saxon. Durante um longo momento depois da partida de Christopher, permaneceu com a vista cravada no lugar por onde se foi, até que uma pergunta repetida pela segunda vez pelo Patterson lhe devolveu à realidade. Simulando estar completamente enfrascado no tema, reatou a conversa com seus amigos.


Pouco depois Jason se desculpou e saiu para dar um passeio pelo jardim. Para qualquer um que o olhasse pareceria que tinha escapado do buliçoso salão de jogos em busca de um pouco de ar fresco. Uma vez fora e longe da indiscrição de possíveis curiosos, apressou o passo ao cruzar o magnífico jardim do governador, lôbrego e úmido agora pelas persistentes chuvas que caíram durante vários dias, até chegar a uma grade de ferro forjado em filigrana. Abrindo-a, cruzou cuidadosamente pelo lodaçal em que se convertiam as ruas de Nova Orleans no inverno e se deslizou com sigilo no interior de um abrigo para carruagens. - Jake? -chamou em voz baixa. - Por aqui - respondeu uma voz áspera de uma pilha de palha em um canto. Um sorriso distendeu suas feições e Jason relaxou um tanto quando de entre a palha apareceu Jake, um homenzinho desalinhado de cabelo loiro mal cortado e barba incipiente. Poderia ter desde trinta a cinquenta anos, com toda a aparência de um tipo grosseiro, o qual se confirmou quando um momento depois cuspiu descuidadamente por cima do ombro um bocado de tabaco mascado e um jorro de saliva cor café. A figura alta e elegante de Jason, vestido com traje de gala, jaqueta de veludo negro e colete branco de cetim, não podia ter contrastado mais com a do outro sujeito. - Viu-lhe? - perguntou diretamente Jake. Jason assentiu. - Acabo de lhe ver. Não é um homem que possa passar inadvertido com facilidade. Jake, está seguro de que podemos confiar nele? Incomodaria-me muitíssimo que os britânicos se inteirassem de quanto preocupa a Claiborn um ataque à cidade... ou do desprotegida que se acha Nova Orleans. - Que me parta um raio, Jason! Não vivi acaso estes últimos quatro meses com esse infame libertino? - Fez uma pausa só para lançar outra cuspida de tabaco por um lado da boca e continuou-: É possível que Saxon seja um pirata e que se faça chamar capitão Sable, mas não guarda nenhum amor pelos britânicos. Eu estava aí quando capturou esses livros de chaves. Se não se sentisse norte-americano até o fundo de seu negro coração, jamais teria enviado Higgins com os livros para entregarlhe ao Patterson. Além disso, se for espião não ataca aos de seu próprio bando. Não lhes tem nenhum carinho aos britânicos, isso é seguro! Entrecerrando os olhos verdes para concentrar-se, Jason comentou finalmente: - Muito bem, terei que confiar em sua palavra. E como nunca me falhaste em cinco anos, suspeito que sabe do que está falando. - É obvio! Não por nada me chamam Jake o gato! A veemência daquelas palavras fez Jason sorrir, e pinçando no colete, tirou umas moedas de ouro que depositou na mão suja que se estendia com ansiedade.


-Considero que com isto te arrumará por um tempo e te sugeriria que partisse esta mesma noite para Terre du Coeur... no caso de alguém ter te descoberto. Quero que esteja a salvo, livre de todo perigo. -Não estou assustado! -replicou Jake, belicoso. Já não tão sorridente, Jason reconheceu. -Já me dou conta disso! Mas, meu petit amigo, não te salvei de que te destroçasse a cabeça a golpes aquele ave de rapina enfurecido no Natchez sob a colina só para que a perca agora. Ordeno-te que vá a Terre du Coeur! -Se soubesse que era tão bastardo e tão mandão, com gosto teria deixado que me destroçasse a cabeça! - resmungou Jake com rudeza. - Não me cabe nenhuma dúvida de que o teria feito, posto que é o homem mais teimoso que conheço! -respondeu-lhe Jason, crispado, a caminho da porta -. Faça o que deseje -disse-lhe por cima do ombro. - Parto-me - resmungou o outro com resignação. Sorrindo para si mesmo, Jason rapidamente retornou ao baile do governador. Viu Christopher Saxon mais uma vez antes de finalizar a noite e observou com atenção à graça e desenvoltura do jovem ao mover-se por todo o salão de baile. Sim, pensou, Christopher Saxon encaixaria a perfeição no papel que lhe tinham atribuído.


CAPITULO XV A noite seguinte ao baile, depois do jantar, Christopher passou a seu gabinete, e estava descansando frente à chaminé quando entrou o mordomo na sala. -Senhor, um tal senhor Jason Savage está aqui e deseja lhe ver. Um momento depois, surpreso e bastante intrigado, Christopher ficou de pé para receber Jason Savage. - Que sorte lhe encontrar em casa esta noite! -disse Jason ao estreitar a mão estendida de Christopher-. Tinha pensado lhe visitar mais cedo pela tarde, mas as circunstâncias conspiraram contra. Christopher sorriu com cortesia e se manteve cauteloso. - Isso está acostumado a acontecer às vezes. Posso lhe oferecer alguma bebida? Xerez, porto ou talvez uma taça de conhaque? - Um conhaque, obrigado. Uma vez servidas às taças, os dois homens se acomodaram frente ao fogo da chaminé. Savage jogou uma olhada à estadia com suas cortinas verdes de damasco, corridas agora para evitar o frio invernal, o fino tapete de Bruxelas, as imponentes estantes de mogno e comentou: - Vejo que o gabinete sofreu muito poucas mudanças desde que deixou de pertencer à família Thibodaux. Circunspeto agora, Christopher ergueu uma sobrancelha e tomou um sorvo de conhaque. -É esse o motivo de sua visita -comentou em tom frio-, ver que renovações tenho feito na casa? - Absolutamente, e estou convencido de que você sabe disso. - Para que veio então? Não é minha intenção parecer pouco hospitalar, mas não acredito que esteja aqui por cortesia. Há algo em que possa lhe ajudar? Sua franqueza sem rodeios pôs Jason em um dilema. Como ia encarar o objeto de sua visita? Indubitavelmente, esperava contar com um pouco mais de tempo, e mesmo assim não estava seguro de querer discuti-lo no primeiro encontro com Saxon. Por desgraça este não parecia estar de humor para trocar amenidades, nem para deixar-se enganar com mentiras corteses. E como Jason também preferia a franqueza antes de dá voltas, declarou com brutalidade: - Eu gostaria que fosse a Inglaterra por mim! Christopher o olhou, estupefato. -Me perdoe! Perdeu o juízo? Estamos em guerra com a Inglaterra! - Muito certo, mas alguém como você seria possível ir ali.


-E por que diabos teria que fazê-lo? Jason voltou a sondá-lo com o olhar, logo se decidiu a dar uma explicação. - Porque me interessa saber exatamente o que tem de sério nesse suposto ataque britânico a Nova Orleans! Christopher, subitamente pensativo, afundou-se com lentidão na poltrona enquanto seus pensamentos voavam em uma dúzia de direções. Poderia ter esperado qualquer coisa da visita do Savage menos isto. - Por que eu? - inquiriu vários segundos depois. Jason fingiu estudar o líquido ambarino de sua taça. - Por que não você? Christopher, impaciente, ficou de pé e, dando as costas ao fogo, encarou Jason. -Ninguém em seu são julgamento se aproxima de um completo desconhecido com o tipo de proposta que você acaba de me apresentar! Não sou tolo! Eu gostaria de saber que classe de jogo está jogando, Savage. As pestanas negras de Savage realçaram o brilho de seus olhos verdes enquanto escrutinava aquele homem hostil de olhar penetrante, e quase com indiferença, admitiu: - Não é nenhum jogo. Há uns meses estive pensando em enviar alguém à Inglaterra... A ideia estava fixa em minha mente antes mesmo que surgisse o mais leve indício de um ataque britânico a Nova Orleans. Ainda bastante desconcertado, Christopher voltou a exigir uma resposta explicativa: - Por que eu para tal missão? Não sou um diplomático nem, poderia acrescentar, mostrei nunca tendência alguma para a política... e somos dois desconhecidos. Por todos os céus! -explodiu por fim -. Até poderia muito bem ser um espião britânico! -É-o? -inquiriu Jason em voz baixa. Lhe lançando um olhar de desgosto, Christopher exclamou de modo abrupto: - É obvio que não! Mas você não sabe, só tem minha palavra de que não o sou. Jason esboçou um sorriso. - Mas eu sim sei, meu amigo. Como disse faz um momento, não estou brincando. E como a ideia de enviar alguém a Inglaterra me ocorreu faz vários meses, estive procurando o homem que, segundo minha opinião, pudesse levar com êxito esta missão. -Em tom apaziguador, continuou-: Não levei em conta em um princípio... admito-o. Mas você despertou minha curiosidade, e há alguns meses lhe vigio com atenção. - Jason se calou e depois deliberadamente disse-: capitão Sable! Christopher ficou tenso, mas não deu nenhum outro indício de que as palavras de Savage lhe afetassem. Sempre tinha corrido o risco de ser descoberto, mas


não era um golpe fatal. Preferiria manter separadas suas duas vidas, mas não havia razão para sobressaltar-se de terror porque descobriram seu segredo. Tudo dependia do que Savage pensasse fazer com esse conhecimento. E de algum modo, Christopher não acreditava que pensasse entregá-lo às autoridades. Encolhendo os ombros, murmurou: - Assim é, admito-o ante você, sou o capitão Sable... mas não sou nenhum pirata infame. Muitos homens menos honoráveis que eu se fizeram ao mar fazendo-se chamar corsários. Que importância tem? Jason sorriu profundamente admirado pela evidente arrogância de Saxon. - Mon ami, você me compreendeu mau, me agrada um homem de ação. Que você seja o capitão Sable não me importa. Se eu tivesse descoberto que você estava saqueando navios norte-americanos e que em realidade era um espião britânico, como suspeitava no princípio, então este encontro jamais teria tido lugar. Posso ser franco? Uma gargalhada de indignação precedeu a explosão de exasperação de Saxon. -Não já foi o bastante? - Talvez. Perguntou-me por que lhe abordava e serei sincero. Não há ninguém mais. Tenho uma opinião formada sobre você, graças a um espião muito perito que trabalha para mim. Sei que brincou de ser corsário, mas isso não lhe desmerece ante meus olhos. Também sei que não guarda carinho pelos britânicos... apesar de sê-lo de nascimento. -Savage, acredito que seria melhor deixar uma coisa bem clara... eu não sou britânico e não o fui desde que me sequestrou uma patrulha marinha e me alistou na armada faz quase quinze anos. Sou norte-americano por adoção. - Christopher cuspiu as últimas palavras um pouco envergonhado de sua ferocidade. - Muito bem, então. Estamos de acordo. Se for tão norte-americano como diz ser, acredito que desejará fazer algo por sua pátria de adoção. - Jason fez uma pausa, mas ao ver que Saxon lhe escutava com toda atenção, continuou animadamente -: Esta guerra do senhor Madison não está partindo tal qual se previu ao princípio, como saberá você muito bem. Se não andarmos com pés de chumbo, acabaremos derrotados de uma maneira absoluta e humilhante. A grandiosa conquista do Canadá que originou este maldito assunto é um desastre. Os Estados Unidos terá sorte se puder conservar suas próprias fronteiras, muito menos ganhar um só centímetro de terra canadense. Não concebo como Madison pôde permitir que semelhantes falcões de guerra como Henry Clay e John Calhoun influíssem em seu ânimo. E qualquer um que ache que nesta maldita guerra se está lutando por nossos marinheiros capturados na Armada Britânica necessita que lhe examinem a cabeça! Serve como uma bonita justificativa sentimental, mas não está conseguindo absolutamente nada... foi um pretexto para esconder nossa decisão de invadir o Canadá. Oxalá Deus... - Jason calou na metade da frase, consciente de que se deixou arrastar por sua paixão-. Desculpe-me! Não era minha intenção lhe aborrecer com


meus pontos de vista pessoais sobre esta guerra. Mas o que disse é verdade e me convence da conveniência de seguir adiante com meu propósito... devemos deter esta ação detestável o antes possível! E não quero ver Nova Orleans envolta em uma guerra contra sua vontade. Christopher, absorto em seus pensamentos e com o braço apoiado sobre o suporte da chaminé, perguntou: - Considera verdadeiramente possível que os britânicos nos ataquem? Admito que têm uma frota bastante eficaz nos perseguindo no Golfo do México, mas o grosso de suas tropas, navios e homens, está no norte. - É verdade. Mas, por favor, recorde que Napoleão sofreu uma contundente derrota em Leipzig, Alemanha, em outubro e agora está batendo em retirada de Moscou e sofrendo perdas ainda maiores. Pelas informações que recebi, Napoleão se encontra em uma situação nada invejável. O marechal de campo britânico, Wellington, cruzou os Pirineos faz uns meses e está agora em território francês; embora a batalha seja sangrenta e intensa, não me cabe dúvida de que Wellington obterá a vitória. Assim que tenham arrancado os dentes de todas as forças armadas de Napoleão, nada impedirá os britânicos de voltar-se contra nós. A captura de Nova Orleans fortaleceria sua posição, e possivelmente atiraria um golpe mortal a nosso país. Jason passou a mão por seu grosso cabelo negro. - Todos meus informantes indicam que os britânicos estão se preparando para um grande ataque, que confiam será surpresa, em alguma parte do sul dos Estados Unidos. Não se pôde identificar positivamente a Nova Orleans como esse objetivo, mas a lógica indica que nossa Rainha Crioula é, sem dúvidas, a cidade que os ingleses esperam tomar. Com ar pensativo, Christopher levou a taça de conhaque aos lábios, tendo decidido já que iria a Inglaterra. As ideias e as palavras de Jason com respeito à guerra coincidiam com as suas próprias e estava convencido da gravidade da situação. Os norte-americanos tinham sido forçados a sair do Fort George na desembocadura do Niágara; os britânicos tinham incendiado o povoado de Newark e continuavam seu avanço para o Fort Niágara, enquanto seus aliados indígenas estavam empenhados em saquear o povoado de Lewiston, Nova Iorque. As notícias eram todas más, apesar da vitória do tenente... agora capitão Perry, depois de ganhar o controle do lago Erie. Era verdade que tinham matado ao Tecumseh em setembro e as esperanças dos índios de formar uma grande confederação se desbarataram; o general Andrew Jackson tinha assumido o comando na guerra contra os Creeks, mas o quadro não era nada alentador. Existiam muitas frentes nessa guerra, do Canadá até a Florida, com escaramuças que aconteciam em uma dúzia de lugares diferentes e sem vitórias nem derrotas bem definidas. A guerra de 1812 estava se convertendo em um fiasco aparentemente sem propósito nem fim determinado e absolutamente inútil. A notícia de um possível ataque a Nova Orleans, entretanto, arrancou Christopher de sua apatia


e de sua quase cega aceitação da guerra. E descobriu que desejava com toda sua alma fazer o que estivesse a seu alcance para impedir tal coisa. -Se quiser que vá a Inglaterra, farei-o - disse com brutalidade-. Mas devo admitir que não vejo como posso ser de alguma ajuda para você. Era apenas um moço quando me arrancaram de meu país e tenho poucas fontes de informação, se as houver, que pudessem ser de utilidade. - Não espero um milagre, meu amigo. Sei que você possivelmente não descobrirá nada. Sou consciente da situação, e não poderei abrir muitas portas para você... por razões óbvias. -Seu tio? -perguntou Christopher, inflexível. Jason assentiu e perguntou secamente: - Conhece meus antecedentes familiares? Ou, como suspeitei, chegou a ouvir a conversa de ontem à noite no baile do governador? Um sorriso fugaz passou pelo rosto de Christopher. -Naturalmente! Você quer um homem que tenha bons ouvidos e bastante engenho, equivoco-me? -Já vê -disse Jason, divertido -, você é o homem que necessito. Mas recorde, estará completamente sozinho, não contará com ajuda de ninguém. Posso lhe recomendar que veja certas pessoas... mas a coisa deve ficar entre nós dois. Minhas cartas de apresentação lhe fariam mais mal que bem. Se chegasse ou seja se soubessem que nos conhecemos, suspeitariam de cada movimento que fizesse. Tal como estão às coisas, passará muito mal ali. Christopher encolheu os ombros. -Farei o que possa, mas você deve ser mais preciso. Do que me servirá descobrir que é iminente um ataque se não conto com provas? E quantas provas necessita? Jason, juntando as mãos pelas gemas dos dedos, cravou-lhe o olhar por uns segundos. Depois falou com grande lentidão. - Só sua palavra bastará. Ao ver a surpresa refletida no semblante de Christopher, continuou: - Tudo o que preciso é algo mais tangível que os rumores que circulam por aí para expô-lo ante os militares. Eu responderei por você, e sem presunção posso lhe assegurar que confiarão em minha palavra. -Com uma careta, Jason acrescentou-: E se um homem de minha escolha vem diretamente da Inglaterra com a notícia de um ataque à cidade e eles não nos enviam tropas e equipamento, não saberei o que fazer. -Lhe endureceu a voz ao continuar-: o governador Claiborn escreve constantemente pedindo reforços, mas lhe ignoram. Não se pode permitir que essa situação continue em vista de um provável ataque... - Não está se arriscando muito? Como pode estar seguro de que não lhe trairei?- perguntou Christopher, curioso.


-Você poderia fazê-lo -admitiu francamente Jason-. É muito possível que esteja me arriscando de modo imprudente. Mas conheço quais são seus sentimentos para os britânicos. Sei também que possui terras aqui em Louisiana, terras que duvido muito que queira ver devastadas pela guerra. Fez uma posição aqui em Nova Orleans antes que começasse a guerra. Christopher ainda se mostrava cético. E então Jason sorriu com esse sorriso tão sedutor e disse com amabilidade: - Além disso há vezes em que devo confiar em meus próprios instintos. - Quanto tempo tenho antes de partir? - Naturalmente eu desejaria que saísse no primeiro navio que possamos fazer zarpar do porto. Mas deve ter um motivo legítimo para retornar a sua terra natal, ou passou por cima esse detalhe? Christopher fez uma careta. - Já pensei nisso e me ocorreu uma ideia que poderia resultar. O problema é o tempo. Pelo menos necessitarei um mês, ou talvez dois. Carrancudo, unindo as espessas sobrancelhas negras na testa ampla, Jason perguntou em tom severo: - Dá-se conta de que o tempo é um fator muito importante? - Sou bem consciente disso! Mas pela mesma razão, não haverá deslocamentos rápidos nesta época do ano, e por agora sabemos onde se acha o inimigo. Você mesmo admite que não sabemos com certeza que Nova Orleans seja o alvo. Com isso em mente, arriscaria-me a conjeturar que, quaisquer que sejam seus planos, não porão em marcha nada concreto antes do próximo outono, e isso presumindo que Napoleão seja derrotado em todos os frontes europeus. Até que lhe imobilizem ou lhe aniquilem por completo, os britânicos e seus aliados estarão ocupadíssimos. -Christopher calou por um momento enquanto media o efeito de suas palavras sobre o Jason. Savage estava lhe observando com muita atenção e Christopher teve a curiosa sensação de que, apesar do que Jason havia dito minutos antes, ele ainda estava sujeito a julgamento. Escolhendo as palavras com cuidado, continuou: -Se você estiver de acordo com minha avaliação da situação, acredito que admitirá que enquanto chegue à Inglaterra por volta de dois de abril, teria tempo mais que suficiente para descobrir o que se planeja e retornar antes que o inimigo. Admitirei que poderia estar calculando-o tudo com muita precisão e sem me deixar nenhuma margem de tempo, mas sem uma razão legítima para retornar a Inglaterra, não lhe serei útil. - Exatamente, qual é este plano que requer dois meses para ser aperfeiçoado? -perguntou Jason com frieza. Christopher vacilou. Era um projeto muito débil, mas o único que lhe ocorria nesse momento, e dependia de muitíssimas coisas. Acima de tudo, da senhora


Eggleston e Nick. E não lhe agradava ter que dar explicações a ninguém. Estava acostumado a fazer as coisas a seu desejo. Jason podia suspeitar do dilema em que se encontrava Christopher. Depois de tudo, este não lhe conhecia o suficiente, e pelo que Jason sabia a respeito do Saxon, não era um homem acostumado a dar razões de seu proceder. Depois de chegar a uma decisão, Christopher disse em tom totalmente inexpressivo: - Ontem à noite me encontrei com uma velha amiga minha, uma tal senhora Eggleston. - A governanta da senhorita Dumas? Surpreso, Christopher lhe olhou longamente: havia algo que ignorasse Savage? e assentindo com a cabeça, admitiu: - A mesma. Só que quando eu a conheci, vivia perto da herdade de meu avô e era a esposa de um coronel retirado. -E bem? Rapidamente e sem revelar mais do imprescindível, Christopher lhe explicou a respeito de Nicole Ashford, omitindo a relação pessoal que os unia. Mas Jason captou a muito leve mudança de inflexão na voz profunda de Christopher cada vez que se mencionava o nome da garota e tirou suas próprias conclusões: o jovem Saxon não era de tudo indiferente a aquela moça. Mas suas palavras não revelaram nada disto quando perguntou com ar pensativo: - E acredita que poderá apagar os últimos cinco anos em alguns meses e ter essa garota apresentável para março? Christopher encolheu os ombros. - Não tem por que ser impossível. Depois de tudo, seus primeiros treze anos foram como os de qualquer outra senhorita, e acredito que a senhora Eggleston será competente para polir todas as suas asperezas. - Bem, só resta esperar. Reconheço-lhe o mérito de pensar com rapidez e improvisar. Christopher inclinou a cabeça em sinal de agradecimento; lhe distenderam as feições e um sorriso lhe curvava os cantos dos lábios quando murmurou: -Obrigado. Confio em que lhe resultem igualmente satisfatórias o resto de minhas atividades. Jason arqueou uma sobrancelha em gesto zombador. - Estou seguro de que cumprirá sua tarefa. Não me equivoco frequentemente nos entendimentos com meus semelhantes, e decididamente não tenho intenção alguma de me equivocar esta vez. Christopher se limitou a assentir com a cabeça. Jason ficou de pé e exclamou com surpresa: - Parece que cobrimos os pontos mais importantes em pouquíssimo tempo. Por agora, você empreenderá com seus próprios planos, mas me mantenha informado


de qualquer problema ou atraso. Por minha parte, terei-lhe a par de qualquer novo acontecimento que possa fazer necessária uma maior rapidez. -Entendido. Encontrarei-me com a senhora Eggleston na quarta-feira como tinha planejado e, de acordo com o resultado dessa reunião, partirei para Thibodaux House imediatamente. Depois que Jason partiu, Christopher deu voltas pela biblioteca como uma besta enjaulada. Em um dado momento decidiu que devia ser o homem mais imbecil do mundo por considerar sequer a possibilidade de envolver-se em semelhante intriga, mas sabia que aquilo apaziguaria o descontentamento que lhe tinha estado chateando tanto, ao tempo que lhe permitiria fazer algo por aquele país que lhe tinha adotado. Embora não se considerasse um patriota, Nova Orleans era sua cidade. E lhe desgostaria sobremaneira que a guerra devastasse suas terras. A ideia das forças britânicas sobre o chão da Louisiana era intolerável, e que lhe condenassem ao inferno se ia permanecer impassível deixando que isso acontecesse. Felicitou-se em silencio por ter sido capaz de urdir o plano para devolver à herdeira Nicole Ashford ao lugar que lhe correspondia legitimamente. Jason Savage, passeando também por sua elegante biblioteca, estava atormentado pela incerteza. O plano de Saxon para fazer retornar a Nicole era admirável, mas Jason, mais velho e menos impetuoso que Christopher, via vários perigos ocultos. Depois de manter o olhar perdido no fogo por um bom momento, sentou-se detrás de seu escritório e começou a escrever ao secretário de estado, James Monroe. Era uma carta breve, e depois de relê-la, selou-a. Christopher, decidiu, não tinha necessidade de estar informado disso. Se fracassava, fracassava; mas se Monroe aprovasse sua sugestão, teria um pouco de valor que oferecer a aquele jovem. Christopher, enquanto isso, continuava analisando seu plano desde todos os ângulos. Desconfiava tanto ou mais que Jason de seu possível êxito, mas no momento era tudo o que tinha. Nick não lhe causaria nenhum problema. A senhora Eggleston se mostraria desejosa de aprovar a ideia, se acreditasse na história que ia contar-lhe. Naturalmente, não poderia dizer nada sobre suas verdadeiras razões para desejar voltar para a Inglaterra, nem lhe confiar a verdade sobre sua relação com Nicole. Tinha-lhe comovido muito ver a senhora Eggleston a noite anterior. Ainda não estava seguro se essa emoção foi desagradável ou agradável. De menino, abandonado frequentemente a seus próprios recursos por pais mais preocupados com os gracejos de seu círculo de amizades aristocráticas que por seu próprio filho, derrubou-se na senhora Eggleston que lhe tinha proporcionado o único afeto profundamente humano que conheceu, além do seu irascível avô. Mal tinha alcançado a adolescência quando seus pais morreram em sua carruagem ao cair


estrepitosamente por um precipício. Essa tragédia lhe impulsionou a aferrar-se ainda mais a calidez e prudência que lhe brindava. Talvez, considerou, se ela não se ausentasse com o coronel aquele catastrófico verão, ele jamais teria sucumbido ao feitiço sinistro de Annabelle e seu tio nunca teria podido apanhá-lo com tanta destreza. Não gostava de ter que enganar a senhora Eggleston, mas se consolou com a ideia de que estaria muito melhor sob seu cuidado que na situação atual. Na quarta-feira, quando saiu para encontrar-se com ela, ainda seguia considerando a fundo os planos mal esboçados. Encontraram-se diante da loja de uma costureira famosa, e depois de uma breve conversa Christopher conseguiu convencêla para que subisse a sua carruagem. Tinha chegado à conclusão de que esperaria antes de lhe revelar a presença de Nick. Uma vez que a senhora Eggleston estivesse sob seu amparo, poderia, ou ao menos assim o esperava, urdir uma história convincente para explicar por que Nick se encontrava atualmente na plantação, sem dama de companhia, e por que tinha estado com ele esses últimos cinco anos. Embora lhe confessaria que tinha atuado como corsário com Nick ajudandoo, não havia necessidade de que se inteirasse de sua relação com o Lafitte, nem que navegava sob o nome de capitão Sable. Não, decidiu Christopher, pensativo, não havia nenhuma razão para que dissesse tudo. Não duvidava de sua habilidade para conseguir seus propósitos; o verdadeiro problema chegaria mais adiante quando tivesse que convencer à senhora Eggleston de que aceitasse mentir sobre suas próprias atividades nesses cinco anos e dizer que Nicole e ela tinham estado juntas. O primeiro passo devia ser arrancar à senhora Eggleston das garras da senhorita Leia Dumas. Tinha decidido que lhe ofereceria o amparo de seu lar ocupando o lugar de uma tia preferida. Nisto era sincero, e mesmo que Jason Savage não lhe tivesse visitado, Christopher não teria permitido que continuasse em sua situação atual. Agora poderia valer do estado de dependência em que ela se encontrava, embora isso não era precisamente o que tinha planejado para ela em um princípio. O engano não prejudicaria em nada à senhora Eggleston e decidiu que, quando tudo tivesse acabado, continuaria encarregando-se de seu bem-estar. Mas primeiro devia convencê-la de que seria bem-vinda sob seu teto. Apresentou-lhe a ideia da maneira mais cortês e afetuosa possível, e estava tão seguro de ter êxito que tinha pensado instalá-la em sua casa da rua Dauphine essa mesma tarde. Mas não tinha contado com a gentil determinação da senhora Eggleston de ganhar seu próprio sustento. Com os olhos cheios de lágrimas pelas palavras carinhosas de Christopher e um sorriso trêmulo nos lábios, murmurou:


- É muito bondoso por sua parte. - Mas sobrepondo-se à emoção, disse tristemente - Não posso, Christopher, não seria conveniente. Algum dia te casaria e chegaria a lamentar este gesto tão nobre de agora. Fiz isso até este momento e embora algumas de minhas pupilas foram... – Titubeou antes de dizer - ariscas, procuro aceitar de boa vontade tudo o que me proporciona o destino. Não posso te permitir semelhante sacrifício e que se carregue do cuidado de uma velha como eu. Tenho um pouco de dinheiro economizado e quando chegar o momento de não encontrar emprego, manterei-me, se não com todos os luxos da vida, pelo menos com o necessário. - E enquanto isso -explodiu ele irritado-, está à mercê de uma menina arrogante que é indigna de varrer o chão que você pisa. Por Deus, senhora, tinha melhor opinião sobre você! Por que tem que escravizar-se quando lhe estou oferecendo com toda sinceridade uma maneira de livrar-se de tudo isto? Plano à parte, estava furioso de que não aceitasse sua ajuda. -Que temperamento, Christopher! -desaprovou ela gentilmente-. Tinha tido a esperança de que mudaria ao amadurecer. Quase a ponto de sufocar-se com as palavras de fúria que desejava lançar à grisalha cabeça da anciã, Christopher fechou a boca. Controlando seu mau gênio com grande esforço, falou em tom moderado -Senhora, está se comportando da maneira mais ilógica que tenho visto. Diz que prefere seguir a mercê de belezas malcriadas e obrigada a ir daqui para lá enquanto elas se casam e você volta a procurar emprego. É isso o que deseja? Inquieta, respondeu: - Bom, não precisamente. Eu adoraria ter a cargo alguns meninos adoráveis e ficar em um lar com uma só família durante o resto de minha vida. -Suspirou-. Mas todos querem preceptoras jovens... dizem que sou muito velha e talvez tenham razão. Como vê, não resta mais nada a não ser trabalhar como acompanhante ou ama de chaves. A senhorita Dumas não é desagradável, Christopher. Fui dama de companhia de uma dama émigré francesa entrada em anos e ela sim me exasperava um pouco. Animosamente, acrescentou-: A senhorita Dumas é um anjo comparada com madame Bovair - disse, brindando a Christopher um quadro real do que deve ter sido sua existência infernal. Profundamente comovido, concentrou-se nos cavalos, já que não podia falar. A senhora Eggleston pousou uma mão branca com finas veias azuis sobre o braço de Christopher e perguntou-: Não está zangado comigo? Sim que o estava. Terrivelmente zangado com ela, mas não o disse. - É obvio que não - respondeu friamente -. eu adoro que me jogue na cara minha generosidade e que em cima a rechace desta maneira. - Falava a sério. Por algum motivo queria tê-la a seu cuidado, ele que não sentia afeto por ninguém, ou assim se convenceu há muito tempo, e ela não o permitia.


Comovida por suas palavras, ela desviou o olhar. Continuaram deste modo durante alguns segundos; logo, incapaz de suportar seu olhar pela aflição que a consumia, perguntou-lhe em tom mais suave: - Qual é sua objeção principal? Viver na casa de um solteiro? Se for assim disse impetuosamente-, darei-lhe sua própria casa. Mas me deixe lhe assegurar que não nos estorvaria nem um pouco. Confesso que seria agradável compartilhar minha comida com outra pessoa e saber que haveria alguém me esperando quando retornasse. Ela sorriu apenas e observou: - Se for isso o que desejas, por que não te casa? Com toda segurança preferiria que fosse uma esposa a que te esperasse... não uma velha como eu. Depois, soltou um ligeiro suspiro e comentou-: É uma lástima que não esteja casado, pois desse modo poderia preparar o quarto dos meninos... você não me consideraria muito velha para ser a preceptora de seus filhos. -Está dizendo que trabalharia para mim? -quis saber, incrédulo. -Bom, é obvio que o faria! Elevando seus olhos ao céu, amaldiçoou aquele orgulho tão obstinado como gentil e exclamou: -Deus, me dê forças! Muito bem, senhora, não viverá em meu lar sem ganhar seu sustento. Me dê uma semana, duas no máximo, para fazer certos acertos e depois retornarei para lhe apresentar outra proposta que espero encontre mais de seu agrado. Pouco tempo depois deixava à senhora Eggleston a menos de uma rua de onde se encontraram, e vendo afastar-se pela calçada a frágil figura daquela mulher admirável, sentiu-se cheio de divertida frustração... mulheres!


CAPÍTULO XVI A biblioteca de Thibodaux House era uma sala estreita que se estendia ao longo de toda a casa; tinha altas janelas em ambos os lados que ocupavam quase toda a largura da sala. Uma magnífica lareira de mármore verde musgo se destacava no centro de uma das paredes e um pouco mais longe se via uma porta esculpida que comunicava com o vestíbulo principal da mansão. Um espelho imponente de moldura dourada se apoiava sobre o suporte da chaminé e frente ao fogo que ardia na lareira havia duas elegantes poltronas de veludo escarlate de aparência frágil, mas extremamente confortáveis, entre as quais se via uma grande mesa de mogno. Em um lado da sala havia um escritório espanhol de madeira escura e linhas graciosas com sua correspondente poltrona de couro negro, e no outro lado, debaixo de uma das janelas, uma mesa larga e estreita de pernas muito finas. Um delicioso tapete oriental alegrava o piso com seus brilhantes tons de pedras preciosas. Na parede oposta à chaminé se abriam duas portas janela que davam acesso à galeria. Em conjunto, era um salão elegante e sedutor, e Nicole passava grande parte de seu tempo ali, especialmente em dias cinza e de frequentes garoas como aquela tarde. Apesar dos protestos de Médica seguia vestida de rapaz, e afirmava com solenidade que andaria nua antes de usar um vestido descartado por alguma antiga amante de Sable. Só tirava as calças cinza e a camisa branca de linho de noite para ir dormir e quando a necessidade exigia que fossem lavados. Normalmente Nicole se encontrava na biblioteca ao entardecer, e agora estava olhando vagamente pela janela, absorta em seus pensamentos. O Natal tinha chegado e tinha passado. Já tinha transcorrido a primeira semana de 1814 e Sable ainda não tinha retornado de Nova Orleans. As frias garoas como a daquele dia tinham caído com frequência durante duas longas semanas, e a tinham mantido prisioneira no interior da casa; sem o alívio que lhe proporcionava percorrer a cavalo a propriedade acompanhada de um moço de quadra negro de semblante sério, sentiase como uma pantera enjaulada. Havia um livro no chão que acabava de jogar fazia uns minutos em um incomum arranque de violência. Normalmente não teria maltratado um livro dessa maneira, mas aquela sensação de impotência e a forçada inatividade estavam lhe crispando os nervos. As tensões sofridas nas últimas semanas deixaram rastros bem visíveis em sua pessoa. Empalideceu a cor de canela e sua tez agora luzia um suave e leitoso tom de magnólia, que era extremamente atrativo sem ela sabê-lo ou lhe importar sequer. Tinha perdido peso e os delicados ossos do rosto eram mais perceptíveis. E, apesar de


sua aparência delgada, havia um pouco de fragilidade nela que resultava desconcertante. Os ruídos provenientes do vestíbulo a arrancaram bruscamente de seus erráticos e sombrios pensamentos e com o semblante carrancudo ficou a escutar com atenção os sons apagados que se filtravam pelas paredes cobertas de livros. Sable tinha chegado! Estava absolutamente convencida de que tinha que ser ele. Por qual outro motivo tinha estado de tão péssimo humor todo o dia? Sem prestar atenção alguma ao tombo que deu seu coração ao pensar em sua volta, reuniu toda sua força de vontade para permanecer quieta, exatamente onde estava. Não se enganava acreditando que não estava excitada pela ideia de sua volta: estava-o, mas só porque uma briga com Sable, e estava segura de que haveria alguma, arrancaria-a daquele terrível tédio em que se encontrava. Escutando agora com todas as suas forças, ficou tensa quando resultou óbvio que havia uma mulher com ele. Através das paredes as palavras soavam imperceptíveis, mas estava muito claro o suave murmúrio de uma voz feminina. Apertou os lábios com desgosto: provavelmente outra de suas queridas! Ao diabo com sua esperança de lhe escravizar. Passaram vários minutos durante os quais Nicole pôde perceber, pelos ruídos que faziam os vultos ao ser arrastados ou golpeados uns contra os outros, que havia trazido uma boa quantidade de bagagem com ele. Ao pensar de novo na voz feminina, soltou um bufido... deviam ser dessa prostituta certamente! Estava tão concentrada em forçar-se a permanecer na biblioteca e em ocultar suas emoções atrás de uma máscara de indiferença, que o ruído da porta ao abrir-se e fechar-se com firmeza a sobressaltou. Esperando que fosse Sanderson para lhe anunciar a chegada de Sable, jogou uma olhada por cima do ombro e ficou estupefata ao ver o elegante cavalheiro de pé junto a uma das poltronas escarlate. No começo não reconheceu Sable vestido à última moda. Usava calças cinza clara, jaqueta azul com formosos botões de prata e um colorido colete piqué: era a imagem de um homem de gosto impecável. Seu esplendor fez Nicole piscar e em seguida seus olhos voaram ao rosto viril. Pela primeira vez via suas feições sem o adorno da barba espessa que as tinha oculto e se assombrou de quão diferente parecia. A boca, com sua sensualidade inerente, tinha um risco mais firme e aristocrático; a linha dura do queixo e o queixo enérgico e agressivo eram mais óbvios, sem ser um rosto de beleza clássica; o nariz um pouco longo e os olhos talvez um pouco afundados para semelhar-se à pura e verdadeira beleza viril. Mas era um rosto cativante, belamente robusto, e o impacto que produziam esses olhos âmbar dourados sombreados por espessas pestanas negras era suficiente para que a maioria dos observadores, tanto homens como mulheres, passassem por cima os pequenos defeitos de suas feições.


Um leve sorriso estava lhe curvando os lábios naquele momento, e tirando as luvas, perguntou: - Não me saúda, Nick? Tinha pensado que depois de uma separação tão longa estaria feliz de me ver. Consciente da súbita aceleração dos batimentos de seu coração, Nicole se esforçou por permanecer impassível, e arqueando uma sobrancelha, murmurou com ironia: - Os peixes que nadam no mar são felizes ao ver que o tubarão retorna? Duvido-o. E seria conveniente que não esquecesse que há uma só razão pela qual ainda desfruto de sua... ah... hospitalidade, ou te esqueceste do Allen? Aquelas palavras fizeram desvanecer o sorriso de Christopher. -É uma pequena víbora. Não, não esqueci ao bom Allen, mas acredito que te aferra muito a esse pretexto. Nicole lhe brindou com um exasperante sorriso de superioridade e voltou à cabeça para olhar pela janela. Sentia a poderosa presença masculina atrás dela, mas seguiu lhe dando as costas com obstinação. O fôlego de Christopher lhe acariciou o cabelo e foi dolorosamente consciente de sua proximidade. -Por que -resmungou ele em voz grave-, quero te estrangular e ao mesmo tempo te beijar até que te derreta entre meus braços? Sem esperar uma resposta, a fez girar sobre si e antes que ela pudesse defender-se ou adivinhar sequer suas intenções, as mãos fortes e perigosas de Saxon se fecharam ao redor de seu pescoço, e inclinando a cabeça, com boca faminta e inflexível, desceu com paixão sobre seus lábios macios. Uma incontrolável labareda de desejo abrasou Nicole e instintivamente se apertou contra o corpo de Christopher, percebendo sua reação instantaneamente ao contato dos corpos. Permaneceram abraçados por longos momentos enquanto a boca de Christopher explorava a dela com uma impaciência próxima ao desespero. As mãos de Nicole, que segundos antes tratavam de lhe machucar o pescoço, afrouxaram-se e seus dedos de forma inconsciente começaram a acariciá-lo. Afastando a boca de seus lábios com um esforço sobre-humano, Christopher cravou o olhar no rosto da moça, e perdendo-se nas escuras profundidades daqueles olhos incríveis, murmurou: -OH, Deus! É uma feiticeira, Nick! - e logo envolveu aquele corpo frágil com seus braços espremendo-o contra ele enquanto sua boca beijava febrilmente todo o rosto, antes de pousar-se uma vez mais sobre os lábios entreabertos de Nicole. Aturdida, não lutou contra suas próprias emoções nem indagou por que acontecia aquilo... estava muito imersa no intenso prazer de encontrar-se outra vez entre seus braços. Mais tarde censuraria seu proceder, amaldiçoaria sua estupidez... mas, OH, Deus!... agora não!


Jamais se saberia quanto tempo teriam permanecido perdidos nesse abraço nem até onde lhes teria levado essa súbita onda de paixão. Ouviu-se um golpe discreto na porta, e com uma força de vontade que desconhecia possuir, Christopher deixou de beijá-la e afastando-a quase com rudeza, respondeu a chamada com voz impaciente: -Sim, o que acontece? Sanderson entrou desculpando-se pela interrupção. - A senhorita Mauer desejaria saber se tem instruções para ela antes de começar a desfazer as malas. Respirando agitadamente e passando a mão pelo grosso arbusto de cabelo negro azulado, Christopher grunhiu: -Oh, que o diabo a leve! -Segundos depois, ao compreender que não era isso o que se esperava dele, ignorou o silêncio abatido de Nicole e inquiriu com mais calma: - Acomodaste-a em suas acomodações? -Sim, senhor. Está no segundo piso como o senhor ordenou. Acaba de tomar um lanche e está preparada para assumir suas funções. - Muito bem. Então lhe diga que por hoje se encarregue de estabelecer-se em seu novo lar. Não é necessário que comece com suas tarefas até amanhã. Sanderson saudou com uma inclinação e saiu do quarto. A conversa, embora breve, deu a Nicole o tempo que necessitava para controlar-se. Lutando por sufocar uma emoção que era curiosamente parecida com o ciúmes, falou com desprezo: -Vá, vá, sim que é ambicioso! Duas mulheres de uma vez! Não te assusta a ideia de que poderíamos te esgotar? Certamente - acrescentou vivazmente-, se está me substituindo, não posso lhe dizer quão encantada estou. Posso ir dar as boas-vindas a minha substituta? Certamente me sentiria muito feliz de mudar de quarto com ela. Não há razão para que a senhorita... er Mauer, não a chamou assim Sanderson?, instale-se no segundo piso com os serventes. Farei a mudança com ela em um instante. -Cale a boca, Nick -disse Christopher em tom amigável. Ele também se recuperou e estava mais agitado do que nunca. Olhando o semblante irado de Nicole com certa indiferença, confundiu-a por completo ao dizer-: A senhorita Mauer é uma criada. Que pensamentos ruins tens, querida minha. É sua donzela. A roupa a que se referiu são alguns objetos que comprei para ti. Ela as ajustará a sua figura... tentei estimar suas medidas com exatidão e ela se ocupará de corrigir qualquer equívoco que eu tenha cometido. Ante a expressão indignada de Nicole, continuou em tom mais duro: - Manterá a boca fechada até que tenha terminado de falar! Mauer é uma donzela muito cara que esteve sempre ao serviço de grandes damas. Amanhã mesmo começará a te vestir como é próprio em uma senhorita de sua fila. Você cuidará muito bem de sua língua e seguirá suas indicações. Também deixará de usar esses


juramentos e blasfêmias de marinheiros aos quais é tão aficionada, cumprirá minhas ordens e começará a te preparar para retornar a Inglaterra. Muda de assombro, Nicole lhe contemplava como em um transe hipnótico. -Voltar para a Inglaterra? -pôde articular ao fim com uma voz que não se parecia em nada a dela. Christopher assentiu, consciente de uma repentina dor na boca do estômago ao dar-se conta do que se comprometeu a fazer. Preferiu não examinar em profundidade qual era a causa dessa inesperada reação, se a ideia das dificuldades que deveria encarar ou o saber que Nicole muito em breve estaria fora de seu poder. -Caracóis! O tio se tornou respeitável! Bom, que me pendurem as barbas! disse Nicole com grosseria pondo os braços na cintura. Crisparam-se os lábios de Christopher. - Estou seguro de que pode me oferecer uma excelente exibição de linguagem ruim, mas se contenha. De agora em diante, tem que fazer tudo o que esteja em sua mão para te converter no que deve ser. Mauer é só o começo, já que muito em breve espero instalar aqui a uma Governanta. Não temos -acrescentou, pensativo-, muito tempo, assim vamos ter que nos apressar, querida, para te converter da noite para o dia em uma senhorita distinguida. -Por quê? -inquiriu ela, perplexa. - Porque eu o digo - replicou Christopher tranquilamente, mas suas palavras estavam carregadas de significado. O semblante de Nicole mudou. - Sempre tenta te safar? - É obvio. Olhou-lhe com ira por um momento e logo, soltando uma exclamação de raiva, empreendeu o caminho para a porta. Já com a mão no trinco, deteve-se quando Christopher falou. -Trocaram-lhe de quarto. Virou-se e o olhou nos olhos. - Por quê? Seguindo as regras nos detalhes? - inquiriu em tom gelado. Christopher assentiu. - De agora em diante esquecerá toda relação que tenha existido entre nós. Para a senhorita Mauer é somente minha pupila. Sua preceptora, uma tal senhora Eggleston a propósito, não se encontra ainda entre nós devido a uma inflamação pulmonar. E como não tenho os anos suficientes para albergar em minha casa a uma pupila jovem e bela a sós, sem provocar falatórios, permaneci ausente enquanto sua preceptora esteve doente. Foi só quando Mauer consentiu em entrar em meu serviço que pude retornar. Mesmo assim, será melhor quando chegar à senhora Eggleston. Disse essas palavras sem nenhuma emoção, como se recitasse uma lição que Nicole devia aprender imediatamente. Mas ela tinha outras ideias, e furiosa, gritou:


- Esperas que acredite nessa mentira? Cruzando a sala rapidamente, Christopher agarrou as mãos de Nicole e as apertou entre as suas. Em tom firme, exclamou: - Mais vale que acredite e a recorde. De agora em diante, essa é a única verdade. É minha pupila, a senhora Eggleston sua preceptora e vais contar essa historia a qualquer um que pergunte. Se não o fizer, se me contrariar, Nick, descobrirá que sou o homem diabólico que sempre acreditou que era. - Impulsionado por seus próprios demônios, acrescentou-: Recorda-o, Nick, a vida do Allen depende de ti. Tenta me desafiar e o matarei com minhas próprias mãos! Nicole lhe olhou fixamente e perturbada pela violência que flutuava no ar, sussurrou: - Por quê? Para que faz isto? O que te propõe? Ao olhá-la não pôde entender nenhuma das emoções que ela estava experimentando. Como ele mesmo estava confuso e inseguro, sua voz foi áspera em excesso: - Porque quero! Te restituirei a Inglaterra o antes possível. Em pouco tempo terá progredido até o ponto de ser aceitável para sua família, ou ao menos isso espero. Assim poderemos zarpar no final de fevereiro... talvez um pouco antes, se for muito aplicada e diligente. Mauer tomará medidas oportunas e eu voltarei a partir para Nova Orleans dentro de uma semana. Um novo guarda-roupa substituirá ao que supostamente perdeu quando o navio, também imaginário que a propósito, naufragou. Era o navio em que a senhora Eggleston e você viajavam do norte, onde ambas tinham estado vivendo até que pude te trazer aqui. - Esboçando um débil sorriso, acrescentou-: Foi então quando adoeceu a senhora Eggleston. Uma experiência muito traumática. Foram muito afortunadas de escapar com vida. -Por que - perguntou Nicole com voz apagada -, estávamos vivendo no norte? -Oh, isso -exclamou ele com grande soltura-. Não sabia que quando escapou de Benddington's Coner há cinco anos foi com a senhora Eggleston? Lhe olhando como se lhe acreditasse louco, Nicole murmurou: -Eu escapei com a senhora Eggleston? -Sim. Foi um ato muito irresponsável por sua parte, mas a senhora Eggleston se compadecia de seu calvário... e não se deu conta de que tinha te escondido em sua carruagem até que chegou a Londres. Os olhos de Nicole lhe esquadrinhavam o rosto com uma expressão próxima a histeria. - Deve estar completamente louco! Ninguém acreditaria nesse conto... além disso, quem é essa ditosa senhora Eggleston? -Sua expressão se alterou por um instante antes de exclamar em tom de incredulidade -: A senhora Eggleston! A viúva do coronel Eggleston? Christopher assentiu.


- A mesma. Encontrei-a casualmente em Nova Orleans. Por um segundo estudou Nicole preocupado. Depois se encaminhou às duas poltronas levando Nicole quase a rastros. Sentou-se em uma delas e com um gesto lhe indicou que devia sentar-se na outra. Lhe obedeceu como alguém que se move sob os efeitos de um transe hipnótico. Finalmente, Nicole pôde articular: -Como conhece a senhora Eggleston? - Franzindo o cenho, acrescentou-: E o que está fazendo aqui? Christopher titubeou. Quanto devia confiar a Nick e quanto devia manter em segredo? Decidiu que quão único era vital manter em segredo era a visita do Jason Savage e a verdadeira razão que lhes levava a retornar a Inglaterra. Que Nick pensasse que tinha sofrido um repentino ataque de remorsos e estava desejoso de devolvê-la a seu lar. Com cautela, Saxon perguntou: -Jamais te perguntaste quem sou eu exatamente ou o que estava fazendo na Inglaterra faz cinco anos? - Foste contratar marinheiros - respondeu ela, perplexa -. Ao menos isso foi o que disse Sally. - Sally? -Sally Brown. Sua irmã Peggy trabalhava na estalagem. Peggy te ouviu perguntar por aí. Christopher sorriu. - Assim por isso soube que andava procurando marinheiros! Perguntei-me isso frequentemente, mas nunca pensei muito na resposta. Com impaciência, Nicole perguntou: -E então? E com certa inapetência, Christopher admitiu: - Nick, sou o neto de lorde Saxon. E de agora em diante, será melhor que esqueça que alguma vez existiu o capitão Sable e que recorde que meu nome é Christopher... não Sable. Durante vários segundos, Nicole ficou lhe olhando, atônita. Ao fim, recuperou a voz. -O Christopher que fugiu? O rosto de Sable se converteu em uma máscara rígida de rasgos cruéis ao assentir. - O mesmo. - Então claro que conhece a senhora Eggleston -comentou maravilhada-. Conhece todos em Beddington's Corner! -Não a todos -corrigiu ele em tom cortante-. Nunca tive o prazer de conhecer seus tutores, os Markham. -Oh -exclamou Nicole sem expressão. Tinha dúzias de perguntas que voavam em todas as direções em seu cérebro intumescido. Por que se tornou pirata? E por que diabos queria retornar agora a Inglaterra?


Com um sorriso nos lábios, Christopher burlou: - É isto tudo o que tem a dizer? Nicole estava tentando encontrar palavras. - Hmm, não, é que fiquei aniquilada ao descobrir que em realidade é alguém que conheço quase de toda a vida... que nossas famílias foram vizinhas, até amigas. Recuperando-se um pouco, fez uma conjetura ardilosa -: Além disso, não me dirá nada que não queira, de todos os modos. - E de repente, como se compreendesse todo o significado do que lhe tinha revelado, explodiu seu mau gênio e exclamou-: É uma besta infame, Sable, e sabe. Ter me tratado como o tem feito! Podia entendê-lo em parte quando era só o capitão Sable, mas teve a criação de um cavalheiro. Seu avô é um lorde! Teria esperado algo melhor de ti! Os olhos de Christopher se voltaram impenetráveis e se desvaneceu seu sorriso, deixando o semblante frio e detestável. - Cuidado, Nick! -advertiu-lhe suavemente -. Não te erigi em meu juiz. Sou o que sou... não importam os motivos; tudo o que importa é o conto que vamos contar ao mundo. E o faremos embora vá a vida nisso! Nicole tragou mais palavras iradas e, ficando de pé de um salto, disse com desprezo: - Parece que é um homem de grande talento para as intrigas! Estou segura de que inventará algum conto acreditável... assim, me diga, por que estávamos no norte? Como vivemos todos estes anos a senhora Eggleston e eu? E de que maneira tivemos a grande desgraça de cair sob seu amparo? Furioso agora também, sobre tudo ao pensar que se a maldita cadela de sua mãe tivesse mantido as pernas juntas ele não estaria nesta situação ignominiosa, levantou-se e resmungou: -Uma desgraça, é claro que sim! Tem muita sorte de que não te estrangule e te jogue no rio. Não me pressione muito, Nick! Depois de exasperá-lo, Nicole desejou, irracionalmente, não havê-lo feito e em tom mais calmo, disse: - Não pode esperar que aceite com mansidão o que fez, e acredito que se nossos papéis estivessem investidos, você também devolveria golpe por golpe. Christopher, interiormente, reconheceu, embora a contra gosto, a justiça dessas palavras, mas se limitou a menear a cabeça. Ao ver que seguia calado, Nicole explodiu, irada: - Me conte esse relato que tenho que aprender e terminemos de uma vez com esta farsa! - Muito bem, fugiu com a senhora Eggleston faz cinco anos quando ela saiu da Inglaterra. Após estivestes vivendo em um pequeno povoado no Canadá britânico. Devido às lutas fronteiriças, a senhora Eggleston considerou que seria mais seguro abandonar a área. Além disso também acreditou que era hora de que retornasse e reclamasse seus bens. Desgraçadamente, seu navio foi afundado por um corsário


norte-americano e lhes levaram a Charleston. Eu estava ali com a ideia de comprar meu próprio navio mercante quando nos encontramos por acaso. Como é natural -e Christopher aqui lhe fez uma reverência zombadora-, ao me inteirar de seu calvário me comprometi imediatamente a velar por vocês. Viajamos a Nova Orleans, onde caiu doente a senhora Eggleston e se viu obrigada a ficar na cidade. Eu te instalei em Thibodaux House e voltei imediatamente para Nova Orleans. Agora acabo de retornar com uma donzela respeitável e algumas roupas em substituição das que perdeu no mar. Em uns poucos dias voltarei a partir para me ocupar do resto de seu novo guarda-roupa e para escoltar até aqui à senhora Eggleston, já totalmente recuperada. Olhou severamente para Nicole tratando de ver como estava tomando a história. Mas também Nicole podia, de vez em quando, ocultar suas emoções, e durante todo o relato seu semblante se manteve inescrutável. Ignorando sua falta de interesse, Christopher continuou-: dentro de pouco tempo me encarregarei de fazer todos os acertos necessários para nossa viagem a Londres. Além disso -acrescentou provocadoramente-, se fizer tudo o que digo e não me criar problemas, liberarei o Allen... dentro de um período de tempo razoável. Christopher estava bastante satisfeito com sua história. Era coerente e tinha consistência. Além disso, o mais importante de tudo era que ia haver um oceano entre eles, um oceano e uma guerra. Resultaria quase impossível que alguém pudesse refutar sua história, e quem quereria fazê-lo? A senhora Eggleston era um modelo de respeitabilidade e ela mesma lhe tinha confessado que teve tanta vergonha de sua condição econômica que não permitiu que nenhuma de suas amizades conhecesse a verdade. Todos acreditavam que abandonou a Inglaterra por lhe ser impossível viver ali depois da morte do coronel, e que tinha decidido alojar-se com uns parentes longínquos do Canadá. Uma coincidência que Christopher benzeu com ardor. Com a senhora Eggleston contribuindo com credibilidade e sua própria volta como o jovem dissoluto que tinha feito uma fortuna na América do Norte, não teriam muitos problemas durante os primeiros encontros com os antigos conhecidos. A explicação daqueles cinco anos era sólida; o desejo da senhora Eggleston e do Nick de retornar à pátria tampouco podia dar lugar a conjeturas. Sua própria aparição providencial na cena era o menos convincente de tudo, mas só para alguém que fosse suspicaz a respeito de suas razões para voltar para a Inglaterra. Certamente os Markham criariam algumas dificuldades, se estavam tão resolvidos a controlar a vida e a fortuna de Nick como parecia. Mas desta vez ela não lutaria sozinha, já que teria a seu lado tanto à senhora Eggleston como a ele mesmo para apoiá-la, e tinha o pressentimento de que se seu avô estivesse vivo ainda, o velho Simon Saxon estenderia a luta contra os vizinhos inimigos. Uma vez que se demonstrassem os direitos de Nick e ela tivesse o controle de seus bens, já não lhe serviria mais para seus fins. Para esse então esperava ter conseguido toda a informação possível e empreenderia a volta deixando-a para trás. Por um momento se deu conta de que essa perspectiva lhe entristecia, mas rechaçou


com força esse sentimento. Ela não significava nada para ele, simplesmente tinha se acostumado a sua presença. E como estava zangado por algo que não podia ou não queria entender, falou com irritação: - Acha que poderá recordar o que eu disse? É bastante preparada, assim não terá muitos problemas. Nicole afirmou sentindo um nó gelado no peito. Dominando-se com grande esforço, perguntou em tom inexpressivo: - É tudo? Posso me retirar agora ao meu quarto? Zangado e sem conhecer o motivo, Christopher explodiu: -Sim, Por Deus! Saia de minha vista de uma vez! Sem mais uma palavra, Nicole partiu precipitadamente da biblioteca, correu pela galeria e subiu também correndo ao primeiro piso... a suas novas acomodações. No amplo vestíbulo se topou com Médica, que, com o semblante imperturbável, conduziu-a ao aposento que agora teria que ocupar. Perguntar a Sable... ou Christopher, como queria que lhe chamasse agora, onde estava seu novo quarto, teria sido mais do que podia suportar. Sem entender-se a si mesmo, nem por que tinha esse doloroso vazio no estômago em lugar de sentir-se plenamente feliz, ignorou os baús e vultos que estavam espalhados pelo quarto, e com algo parecido a um soluço se jogou de bruços sobre a cama coberta com colchas de seda verde. Certamente que não eram lágrimas, Nicole jamais chorava, mas estava perigosamente perto disso. Mordeu os lábios para que deixassem de tremer e se disse que deveria considerar-se a garota mais feliz do mundo. Allen ficaria livre... com o tempo. Já não teria que suportar mais que Sable, não, Christopher lhe fizesse amor, e logo a levaria a seu lar na Inglaterra, colocaria-a na posição que lhe correspondia por direito e desalojaria dali os Markham como ela sempre tinha planejado. Perplexa, perguntou-se por que tudo o que realmente desejava era seguir brigando com Sable... Christopher, lutar com ele e depois perder-se entre seus braços. Esses pensamentos não deviam ser tolerados. Dizendo-se que era a comoção, a forma inoportuna em que se faziam realidade todos seus sonhos, os responsáveis por essa terrível depressão que a oprimia, arrancou seus pensamentos daquele tema tão penoso e se obrigou a concentrar-se em todas as coisas adoráveis que havia trazido Christopher consigo. Chamou Médica, e em poucos minutos começaram a desfazer os baús e as caixas. Christopher lhe disse que só havia trazido algumas roupas, mas ao ver a meia dúzia ou mais de esplêndidos vestidos e trajes, não via como poderia chegar a necessitar mais alguma coisa. Percorreu-os com o olhar uma e outra vez: uma de cor verde maçã de muito fino cetim; delicadas sapatilhas de seda; uma capa de seda deliciosamente frisada; três camisolas do mais fino percal com batas combinando, primorosamente bordadas com motivos rosas; um muito elegante traje de montar de tecido verde brilhante adornado com galão negro a militaire; um pequeno chapéu de


montar de castor negro com cordão de ouro e borlas e uma longa pluma de avestruz cor verde; dois pares de botas de cano longo negros, um par com fitas e debruado de verde; uma capa de renda e uma toalha de banho d' Angouléme com borda de renda Vandyke... era realmente incrível. Para uma jovenzinha que durante anos tinha tido por única vestimenta os objetos varonis que agora levava postas, parecia um guarda-roupa de conto de fadas, e ao recordar que logo haveria mais coisas, quase ficou sem fôlego. Um baú menor continha todos os diversos objetos que encantavam a maioria das mulheres e Nicole, a contra gosto, descobriu que nisso não era diferente às demais. Com deleite tirou dali delicadas camisolas de seda, alguns xales adornados com lentejoulas, um jogo de pentes, escovas e um espelho de mão oval com incrustações de madrepérola, sabões e azeites deliciosamente perfumados, assim como também várias garrafas de perfume de muito fino cristal. Nicole corria de um objeto a outro com júbilo infantil e suas mãos pareciam acariciar os formosos vestidos e xales. De puro gozo se meteu no banho preparado com precipitação e generosamente perfumado com um dos azeites que tinha tirado de um frasco. Durante um momento desfrutou da suavidade da água acetinada e logo Médica a ajudou a vestir uma das camisolas novas com seu correspondente penteado. Mais tranquila, sentou-se diante do pequeno fogo que ardia em sua quarto enquanto Médica lhe escovava a longa juba ondulada. Com o olhar cravado nas chamas saltarinas, Nicole tomou várias decisões. Não pensaria em Sable... ou Christopher, como devia recordar lhe chamar. Entretanto, por alguma razão, pressentia que ele sempre seria Sable para ela, sem importar o que o futuro pudesse lhes proporcionar. Mas de agora em diante se esforçaria ao máximo por recuperar suas boas maneiras e seguir os ditados da sociedade refinada. Fosse o que fosse que ele estivesse tramando, restava o fato de que ela faria exatamente o que sempre tinha desejado. O único inconveniente era que Allen não ficaria livre imediatamente. Franziu o cenho ao pensar no Allen. Christopher, e lhe chamou assim firmemente em seus pensamentos, havia dito que o soltaria... mas, podia confiar em sua palavra? Sim, decidiu depois de meditá-lo muito. Christopher estava cheio de manhas, mas se dizia que ia fazer algo, ocuparia-se de levá-lo a término. E tinha afirmado diretamente que Allen ficaria em liberdade. Ileso? Lhe gelou subitamente o sangue. Christopher era perfeitamente capaz de liberar o Allen e entregá-lo aos militares norte-americanos. Caindo na conta repentinamente de que devia ter lhe interrogado mais a fundo, começou a ficar de pé, mas Médica a deteve com brutalidade lhe recomendando que permanecesse sentada e muito quieta. E é obvio, ela não podia ir a seu encontro vestindo roupa tão inapropriada. Com que rapidez voltava a impor as regras de urbanidade, pensou com muita ironia e cinismo. Essa noite dormiu mau, deu voltas e voltas na cama e despertou meia dúzia de vezes só para voltar a cair em um torpor inquieto. Embora tratasse de convencer-se


de que aquele sono intranquilo se devia à mudança de quarto, no mais fundo de seu ser sabia que não tinha nada a ver com isso. Em algum recôndito lugar de sua consciência sempre tinha albergado a ideia de que algum dia retornaria a Inglaterra e a seu lar. Como, quando e por que carecia de importância. Nicole não era propensa a afundar em seus sentimentos e só conhecia suas emoções de modo superficial, mas a forma inoportuna como isto tinha acontecido, fez que, pela primeira vez em sua vida, examinasse suas emoções mais profundas. E não lhe agradou absolutamente o que descobriu! Tentar ignorar a atração física entre o Christopher e ela era inútil. Existia e teria sido uma néscia se o negava. Gostasse ou não, parte de sua intranquilidade se devia a desagradável ideia de que seu corpo desejava ao do Christopher, e que teria dado qualquer coisa para estar na quarto contiguo ao seu, sabendo que viria a sua cama quando lhe desejasse muito. Estava secretamente consternada e envergonhada, mas reconhecia que era a verdade. Não estava, em troca, tão segura com respeito a sua volta a Inglaterra. Realmente desejava voltar? Acreditava que não, se isso significava separar-se para sempre de Christopher. Incômoda e um pouco assustada ao ver aonde a conduziam seus pensamentos, revolveu a roupa de cama de tal maneira que perto do alvorada teve que levantar-se para esticá-la. Voltou para o leito e ficou deitada renunciando a toda tentativa de dormir. Estava prisioneira de uma armadilha que ela mesma tinha feito; seu orgulho não lhe permitiria voltar atrás no que sempre foi seu desejo mais fervente, tirar os Markham de sua herdade. E estava o convencimento adicional e doloroso de que por mais que ela jogasse no vento todos os seus sonhos, não era provável que Christopher mudasse seus planos. Ao contrário, com toda segurança a interrogaria e se perguntaria a que se devia sua mudança de atitude e talvez adivinhasse algo que nem sequer ela estava disposta a admitir. Portanto, em vista da noite que acabava de passar, a senhorita Mauer se encontrou com uma jovem taciturna e sonolenta ao apresentar-se na quarto pela manhã. A senhorita Mauer tinha toda a aparência de ser o que Christopher tinha afirmado dela -uma donzela muito eficiente- do cocuruto de seus escuros cabelos grisalhos, pulcramente penteados e recolhidos em um coque sobre a nuca, até as resistentes sapatilhas negras que calçava. Não era uma mulher grande nem particularmente bonita, mas seus faiscantes olhos negros, seu sorriso corajoso e seus movimentos ágeis e destros faziam dela uma pessoa muito agradável. De voz suave, ao falar se notava seu acento francês. Depois de assegurar-se com uma rápida olhada de que toda a roupa estava pendurada no grande armário de madeira de cerejeira em um canto do quarto, cruzou as mãos e perguntou em tom respeitoso: - Deseja começar a vestir-se, mademoiselle?


Nicole, sentada na cama e pressentindo que o dia não seria nada fácil para ela, estudou a mulher por uns momentos. Teria gostado de expulsá-la do quarto, mas sabendo que isso só causaria uma cena com o Christopher e que a senhorita Mauer não era culpada daquela situação, disse com desânimo: -Suponho que devo fazê-lo. – Em seguida, em um arranque de sinceridade que conquistou o carinho e a estima da donzela nesse mesmo instante, confessou -: Sabe que nunca tive minha própria donzela até agora, assim terá que me ensinar como devo fazer as coisas. Nada poderia ter sido mais idôneo para fazer da senhorita Mauer sua escrava. Acostumada às caprichosas mulheres da sociedade e envelhecidas beldades que lutavam desesperadamente contra os estragos do tempo, Nicole era uma mudança refrescante e prazenteira. E uma vez que esta se decidiu a aceitar o inevitável, tudo partiu rápida e alegremente. A manhã resultou muito agradável para Nicole, que, a pedido da senhorita Mauer, provou primeiro um vestido e depois outro, enquanto a donzela tomava nota apressadamente das mudanças necessárias. Logo que terminaram as provas, Mauer se dispôs a modificar um vestido para que Nicole o usasse esse mesmo dia, e como era uma excelente costureira, prometeu que os outros estariam preparados em um ou dois dias. Depois de uma animada troca de opiniões, a primeira roupa escolhida foi um traje de sarja cor âmbar com mangas longas e diminutos botões nos pulsos, tudo à última moda. Tinha o decote alto, que mais uma vez estava muito solicitado, e o que teria sido um sutiã escandalosamente decotado foi dissimulado com um xale de renda de cor crua. Enquanto a senhorita Mauer dirigia a agulha com eficiência, as duas mulheres mantiveram um ameno bate-papo. Naturalmente, essa troca de amenidades e comentários foi muito cauteloso por parte de Nicole, que desejava ter interrogado Christopher mais a fundo a respeito do que tinha dito exatamente à senhorita Mauer. Em realidade, não tinha que haver-se inquietado pela impressão que poderia causar à donzela suas respostas cautelosas. Mauer sabia muito bem que não era conveniente averiguar a vida de seus senhores, e se por acaso descobria algo escandaloso, sua boca estava firmemente selada, posto que ninguém empregaria a uma fofoqueira que divulgasse tudo o que sabia. Uma vez que teve terminado o vestido a sua inteira satisfação, Mauer sugeriu em tom vacilante que talvez antes de vesti-lo deveria se encarregar do cabelo da Nicole. Surpreendida e um tanto receosa, Nicole perguntou: -O que quer dizer exatamente?


- Mademoiselle, você tem um bonito cabelo e um tom castanho avermelhado tão escuro e intenso, Oh, mas possivelmente um pouquinho longo e mau cortado, n'est-c ps? Observando no espelho o brunido arbusto de fogo escuro que caía até a metade das costas, Nicole reconheceu com certa reticência: -Sim, provavelmente está um pouquinho comprido e não lhe dei muitos cuidados. Mais animada, a senhorita Mauer sugeriu: -Não lhe parece que se o recortar um pouco seria mais manejável e poderia pentear-se mais na moda? Com uma faísca de malícia nos olhos, Nicole aceitou a sugestão sem pensálo duas vezes, segura de que Christopher o proibiria se soubesse. E assim, de perfeito acordo, embora não pelas mesmas razões, empreenderam a criação da «nova» Nicole. Ao redor de duas horas depois, o grande espelho da quarto refletia a imagem de uma bela jovenzinha embelezada com muita elegância. O cabelo caía um pouco mais abaixo dos ombros e uma delicada franja cobria sua testa. Mas Mauer o recolheu em cachos sobre o cocuruto, deixando cair só um comprido cacho de cabelo que depois de muito trabalho e paciência se fez descansar sobre um dos ombros. O traje âmbar se amoldava perfeitamente a seu corpo e a cor fazia um prazenteiro contraste com o brunido cabelo avermelhado. Um xale adornado com lentejoulas sobre os ombros e sapatilhas de seda cor bronze completavam o traje. Durante muito tempo Nicole olhou fixamente aquela criatura alta e indubitavelmente elegante que estava ante ela. Parecia incrível que essa jovem de grandes olhos escuros e esbelta figura, de peitos arredondados e turgentes, vestida tão na moda, pudesse ser ela. Com o coração lhe saltando no peito, perguntou-se se Christopher encontraria mais apetecível a essa «nova» Nick. Ou se continuaria lhe fazendo esse amor metade selvagem e metade terno em um momento e ao seguinte a feriria com sua irritação e mordacidade.


CAPÍTULO XVII Se os acontecimentos do dia anterior tinham desconcertado profundamente a Nicole, tiveram exatamente o mesmo efeito sobre Christopher. Jamais tinha esperado a onda de intenso prazer que se abateu sobre ele ao ver a esbelta figura de Nicole vestida com roupas varonis, nem tinha esperado sentir esse fundo pesar ante a eventualidade de uma separação. O fato de experimentar ambas as emoções lhe torturava e lhe deixava esmigalhado entre a ira de que alguma mulher pudesse despertar tal sentimento nele e o medo, misturado com inquietação, a respeito das causas daquelas emoções tão anormais. Não tinha nenhuma intenção de cair na mesma armadilha de anos atrás, e muito menos com a filha dessa cadela da Annabelle. Desafogou parte de sua ira dando uma portada ao sair da biblioteca. Logo chamou Sanderson e lhe exigiu que preparasse uma bandeja com licores e que a enviasse à sala de armas. Mais sereno, cruzou o amplo vestíbulo a grandes passos. Minutos depois, ajeitado a vontade na cômoda poltrona de couro com o olhar perdido no fogo da lareira, começou a beber um copo de uísque um atrás do outro. Era algo que poucas vezes fazia, mas naquele momento não queria pensar em nada. Desejava convencer-se de que tudo ia saindo como foi pedido e que qualquer sentimento de pesar por sua parte se devia tão somente a que ainda não se cansou do corpo de Nicole. Ela não significava absolutamente nada para ele. Não era nada mais que um peão que devia usar, como o era a senhora Eggleston. Christopher estava terrivelmente confuso e inquieto. Acreditava ser um homem duro e o era. Entretanto, desde que tinha decidido retirar-se de toda relação com Lafitte e sua vida de corsário, a máscara de insensibilidade que usou durante tantos anos estava mostrando as primeiras gretas. Podia dizer a si mesmo que sua preocupação pela segurança de Nova Orleans era do todo egoísta; não queria que se prejudicassem seus próprios interesses, não era assim? Também podia procurar alguma desculpa por seu comportamento com a senhora Eggleston. depois de tudo, debatia consigo mesmo, ela sempre tinha sido boa com ele. Além disso, usaria-a para seus próprios fins, verdade? E se estava fazendo o correto ao restituir Nicole Ashford a seus parentes da Inglaterra, era só porque servia a seus propósitos. Tendo denegrido seu próprio caráter a sua inteira satisfação até convencer-se de que era realmente a besta obscena e imunda que Nick proclamava, começou a beber até embebedar-se. À manhã seguinte despertou com um gênio de mil demônios, mas algumas coisas se esclareceram em sua mente. Não ia mais queimar os miolos tratando de


procurar as razões pelas quais atuava daquela maneira; o fazia porque convinha a seus Interesses. Vestindo-se apressadamente com calças de camurça e botas altas, dispôs-se a passar toda a manhã com seu administrador, Hans Barrel, revisando os livros de contas da plantação e discutindo os planos que deveriam fazer durante sua ausência. Depois de passar agradavelmente a manhã com Hans e de convir que ao dia seguinte visitaria algumas inovações que fez, retornou à casa de melhor ânimo, negando com veemência que pudesse se iludir ver Nick usando algum dos custosos vestidos que havia lhe trazido. Seja como for, quando se preparava para subir a seu quarto e trocar de roupa para o almoço, precisamente Nicole estava descendo. Ao encontrar-se cara a cara, ambos ficaram petrificados durante longos segundos; Nicole quase em metade da escada e Christopher com um pé sobre o primeiro degrau. O semblante dela mudou enquanto pareceu ficar sem respiração ao vê-lo tão de repente, e Christopher não pôde esquecer a chama fugaz que iluminou de ouro seus olhos enquanto contemplava, encantado, a adorável criatura vestida de âmbar. Ambos se recuperaram com rapidez, embora ainda se contorcesse um músculo na bochecha de Christopher quando recuperou a voz. -Está muito bonita. Será um motivo de orgulho para mim, querida. Esquecendo seu papel, Nicole explodiu: - Eu não contaria com isso! As plumas luxuosas não convertem à gralha em pavão! Christopher se limitou a sorrir. - Em seu caso lhe convertem em uma avezinha... er... deliciosamente bonita. -Está se referindo às aves migratórias como as prostitutas? -replicou Nick-. Uma pomba manchada para ser mais exata. Christopher entreabriu os olhos e endureceu a voz: - Já basta! Sabe muito bem que não deveria dizer nada de prostitutas nem de pombas manchadas. Recorde-o no futuro! Descendo com lentidão pela escada, Nicole se aproximou e quando seus olhares estiveram à mesma altura, sorriu-lhe com doçura e sussurrou: -Quem tem a culpa de que eu saiba dessas coisas? Quem manchou a pomba? Christopher a atraiu com brutalidade contra seu corpo, agarrando-a pelo pulso. Ambos estavam furiosos agora, mas Christopher lutava, além disso, contra o desejo repentino de levar-lhe à cama. Dominou-se com muita dificuldade. - Se falas desse modo diante de qualquer pessoa, estará arruinada para sempre! - E porque sua só presença lhe comovia profundamente e reavivava a lembrança do beijo que deu em Allen na penumbra do calabouço, quis feri-la ainda mais-: E Allen morrerá! -Bastardo! - gritou Nicole com fúria nos olhos enquanto lutava por soltar-se. Enojado tanto de si mesmo como da cena que tinha criado, soltou-lhe o pulso e perguntou com severidade:


-Entendeu bem? Nicole lhe fulminou com o olhar enquanto esfregava o pulso dolorido. - Perfeitamente - murmurou. Christopher lhe brindou um sorriso tão frio e cruel que ela ansiou apagar-lhe com uma bofetada, mas ele murmurou: - Então, posso confiar em que dominará sua língua rebelde no futuro? Lhe ignorando e muito ofuscada para que lhe importasse o que ele pensava, virou-se e se afastou com passo irado. Por uns momentos, Christopher fico imóvel, contemplando-a e admirando o balanço de suas saias. E uma vez mais teve que reprimir o impulso selvagem de lhe arrancar a roupa enquanto se afastava. Encolhendo os ombros, subiu correndo a escada e trocou depressa as calças de camurça por outras de vestir do mesmo tecido e uma jaqueta azul de corte imaculado. Higgins, outra vez em seu papel de criado de quarto, calçou um par de botas negras adornadas com borlas, a última moda introduzida na Inglaterra pelos mercenários alemães. Jogando um olhar a seu velho amigo, Christopher perguntou: -Já te instalaste? Tudo a sua satisfação? Um amplo sorriso enrugou ainda mais o rosto apergaminado do marinheiro e Higgins respondeu com tom alegre: -Perfeitamente senhor! É bom estar de volta, e estou muito contente que não voltemos para o mar. Sinto-me muito velho para seguir indo daqui para lá por todo o mundo. Christopher deu-lhe um sorriso que poucos tinham visto. - Bem, não te acostume muito à comodidade, amigo. Recorda que zarpamos para a Inglaterra dentro de seis semanas, talvez menos. Higgins assentiu, mas seu sorriso se desvaneceu e as dúvidas se refletiram com claridade em seu semblante. - Parece-lhe que é prudente, senhor? Ainda estamos em guerra com a Inglaterra e em principio nós somos ainda desertores. E duvido que seu tio se mostre muito agradado quando você apareça por ali. -Sou bem consciente do perigo que corro com meu tio Robert, Higgins. Mas é nosso dever devolver à senhorita Ashford a seu lar. Quanto à guerra, recorda que não é mais popular na Inglaterra do que é aqui. Engenharemo-nos para nos mover com rapidez e sair sãs e salvos. -Christopher falou com desenvoltura e muita confiança. Estava contente de não ter explicado ao Higgins a verdadeira razão daquela viagem a Inglaterra. O que este ignorasse não lhe prejudicaria e poderia, de fato, lhe salvar a vida se por desgraça se chegasse a descobrir a verdadeira missão e fosse capturado. E sem conhecer os pensamentos que cruzavam pela cabeça de Christopher, mas sabendo por experiência própria que nada lhe faria retroceder uma vez que tinha


tomado uma decisão, Higgins encolheu filosoficamente os ombros e ficou a dobrar as calças de camurça que Christopher tinha deixado cair sobre uma cadeira. - Como diga senhor, mas eu não gosto de nada disso. Christopher tampouco gostava, por diversas razões, e nem todas concernentes aos riscos que implicava, mas recusou pensar nisso. Enquanto isso, Nicole conseguiu apaziguar seu mau gênio, e estava tão furiosa consigo mesma como o estava com o Christopher. Sua intenção tinha sido mostrar-se tranquila e amável, mas não tinha feito outra coisa que perder a compostura logo que lhe teve diante de si. Medindo a biblioteca a grandes pernadas de tudo impróprias de uma dama, começou a repreendesse severamente com palavras que teriam orgulhado à mulher de um pescador. Pouco a pouco foi recuperando a calma e quando se reuniu com ele no salão para almoçar, sua atitude era de uma cortesia glacial. Comeu em silencio absoluto e os comentários de Christopher só conseguiram lhe surrupiar monossílabos. Ao final do almoço, Christopher estava iracundo. Empurrando a cadeira para trás com mais força que a necessária, ficou de pé e ordenou: - Eu gostaria de ter umas palavras contigo na biblioteca. Agora mesmo! - Sinto-o muito - murmurou Nicole -, mas a senhorita Mauer e eu estaremos muito ocupadas esta tarde. Pareceria-te bem esta noite antes do jantar? Christopher ficou a seu lado com grande rapidez, levantou-a de um puxão da cadeira, e a arrastou ao interior da biblioteca ante os olhos atônitos de Sanderson. O peito de Nicole subia e descia de raiva contida ao levantar os olhos relampejantes ao rosto impassível de Christopher. Lutando para manter-se fria e indiferente, perguntou: - Era necessária esta exibição de força? Tem a desfaçatez de esperar que eu atue como uma dama, enquanto que sua atitude está longe de ser a de um cavalheiro. -Se desejas que eu atue como um cavalheiro, não me trate como se não existisse. Não espero que esteja contente com a situação, mas será melhor que aprenda a me dar o trato cortês que brinda a um tutor. Tampouco espero sua gratidão, mas sim respostas corteses e não rancorosas e altivas. Nicole lhe voltou às costas e mordeu o lábio, mortificada. Ignorando suas palavras ásperas e dolorosas, disse com voz contida: -Sinto muito que não lhe agradem minhas maneiras, mas deve recordar que não estive em contato com gente cortês e culta a muito tempo. - Suas maneiras são aceitáveis, querida. É sua atitude que necessita uma mudança -comentou com secura Christopher, desvanecendo-se sua ira com a mesma rapidez com que tinha surgido. Ao ouvir suas palavras, os olhos de Nicole tornaram-se duas brasas.


- Minha atitude é nem mais nem menos a que você merece. Não esqueço que a vida do Allen pende sobre minha cabeça... nem tampouco deixo de recordar o acontecido entre nós. Christopher se aproximou e a tomou pelos ombros, lhe contemplando o zangado rosto, perguntou: - Acha que me agrada utilizar o Allen como uma arma contra ti? Nicole de repente ficou sem fôlego e se assustou com a onda de emoções que tinha provocado nela o mero toque de suas mãos. - Acha-o? - insistiu ele. -Não sei! -gritou ela. Essa resposta não proporcionou muito prazer a Saxon. - Deixa-me muito poucas opções -confessou-lhe com amargura-. Deve me obedecer sem discussão... e Allen parece ser a única pessoa que significa algo para ti. -Em tom acusador, acrescentou-: Até estava disposta a te prostituir por ele! Nicole encolheu os ombros, enfrentando-se a seu olhar. -Não o esqueci -murmurou-. Nem que me enganou. Pensa que esquecerei algum dia o que aconteceu? -Não -assentiu ele, abatido-. Você não o esquecerá, mas... -e soltou uma gargalhada cruel-, eu tampouco. Soltou-a e Nicole se separou dele imediatamente. Por um segundo ele a contemplou com certa tristeza no olhar. Finalmente disse: -Fazemos uma trégua? Nicole assentiu com cautela. - Tentarei te tratar como a meu tutor, mas não espere que me agrade. -Bastará com isso -disse rapidamente-. Mais seria exagerar sua atuação. Nicole passou o resto desse dia em um estado de total confusão. Não podia lhe entender: um momento era um homem cruel e brutal, ao seguinte, exigente, e logo lhe pedia sua opinião como se realmente lhe importasse. Christopher devia partir na quarta-feira para Nova Orleans e passaram esses poucos dias até sua partida tratando-se com meticulosa cortesia. A manhã do dia anterior a sua partida, depois do café da manhã, Nicole formulou uma pergunta que tinha estado lhe rondando na cabeça por algum tempo: -O que sabe a senhora Eggleston de mim? Explicaste-lhe o porquê de minha presença em sua casa? - Não. Surpreendida, olhou-o nos olhos. - Quer dizer que ela não sabe que estou aqui? - Não, ainda não. Mas saberá antes de chegar. Proponho-me lhe contar uma parte da verdade... que te disfarçou de rapaz e esteve a meu serviço como grumete até muito recentemente, quando descobri seu segredo. Naturalmente -continuou em tom


zombador -, assim que soube quem era, tomei imediatamente as medidas necessárias para corrigir o problema, daí que te encontre na situação atual. Mais confundida ainda, Nicole seguiu lhe olhando e disse: -Mas... mas -gaguejou-, e a história que me contou... que vivi todo este tempo com ela no Canadá? - Hmm. Não se preocupe. Com o tempo, a senhora Eggleston corroborará todo esse embuste, mas por agora só precisa saber o que eu quero que saiba. - Vacilou um momento e logo perguntou-: Pode recordar as duas versões sem te confundir... da verdade para a senhora Eggleston e a da vida no Canadá quando estivermos na Inglaterra? -Mais vale que possa, não é assim? -respondeu Nicole em tom sombrio. -Esperemos que assim seja -disse ele arrastando as palavras. Christopher passou o resto do dia ocupado com os assuntos de Thibodaux House; afastando deliberadamente de si todo pensamento relacionado com Nicole e forçando-se com obstinação em negar quão desejável a encontrava. Quando essa noite ele desceu para jantar, Nicole já estava no salão usando um encantador vestido de seda cor verde maçã que dava um realce especial ao tom marfim de sua pele. O sutiã tinha um grande decote de acordo aos ditados da moda e Christopher teve que esforçar-se por afastar seus olhos da pele acetinada que deixava a mostra. Tinham-lhe penteado o cabelo em suaves cachos que lhe emolduravam o rosto caindo em estudada desordem, e ele sentiu o impulso de beijar o lugar onde o pescoço esbelto se unia a macia pele nua do ombro. Enquanto a contemplava apreciando sua beleza, afligiu-lhe a necessidade quase imperiosa de lhe arrancar o vestido do corpo e lhe desordenar grosseiramente esse penteado tão primoroso com seus requerimentos amorosos. Pôde sentir que seu próprio corpo lhe traía, endurecendo-se de desejo enquanto caminhava para ela. O aroma do perfume que usava era tentador, e teve que resistir a todos os seus instintos carnais, que tinham cobrado vida tão imperiosamente; Saxon cuidou que ela se sentasse antes de encaminhar-se ao outro lado da mesa. Furioso consigo mesmo e com ela por excitá-lo desse modo, indicou friamente ao Sanderson que servisse a mesa. Ao longo de toda a refeição foi plenamente consciente da ereção nas calças apertadas a sua pele. As amáveis tentativas de Nicole para estabelecer uma conversa foram recebidos com tal frieza e brutalidade que muito rapidamente lhe fizeram renunciar a toda tentativa de bons modos. Ao término da refeição Nicole se levantou da mesa com alívio, despediu-se dele com um boa noite nada cordial e saiu do salão depressa e inexplicavelmente deprimida. Christopher quase não se deu conta da saudação; estava muito ocupado reprimindo seus instintos mais baixos para inquietar-se pelo que pudessem pensar os outros. Tão somente vários minutos depois da partida de Nicole pôde levantar-se da mesa com seu corpo uma vez mais sob controle.


Colérico e perturbado, saiu da casa com a intenção de dar um longo passeio e assim aplacar seu mau gênio. Desgraçadamente, tinha começado a garoar mais uma vez, e depois de andar alguns metros, renunciou ao passeio e voltou para a casa de pior aspecto e mais colérico que antes, se fosse possível. Dirigiu-se a seu quarto com passo irado, vestiu uma bata e se serviu de um copo de uísque. Lhe via tão áspero e mal-humorado que Higgins, que sempre desfrutava de uma breve conversa com ele de noite, jogou-lhe um só olhar e cuidou de fazer suas tarefas vespertinas o quanto antes e sair do quarto soltando um suspiro de alívio. A leve garoa se converteu em uma verdadeira tempestade. De pé na soleira da porta aberta que dava à galeria, ficou contemplando os relâmpagos que ziguezagueavam fugazmente iluminando o negrume do céu. Não tinha sono e a força esmagadora da tormenta despertou nele uma espécie de excitação primitiva. Saiu à galeria e deixou que a chuva lhe açoitasse o rosto sem piedade. Por um momento quase pôde imaginar que estava caminhando pela ponte de comando de La Belle Garce como tinha feito tão frequentemente no passado. Então, como em um sonho, encontrou-se caminhando lentamente em direção ao quarto de Nicole. A tormenta a tinha despertado e tinha permanecido vários minutos deitada no leito, observando os relâmpagos por uma janela debaixo do beiral da galeria e escutando o rufo e a fúria dos trovões com sonolento regozijo. Sentou-se na cama e o ar frio deu totalmente em sua pele nua. A pesar do deleite que lhe brindavam suas camisolas novas, preferia o contato sensual dos lençóis sobre o corpo nu. Levou as pernas cobertas com a manta ao peito e as rodeou com os braços, apoiou o queixo sobre os joelhos e ficou contemplando, fascinada, o céu sempre cambiante. Embora estivesse deitada em seu dormitório confortável e acolhedor, aquilo lhe recordava as tormentas em alto mar; entretanto, não era tão formidável como aquelas, pois faltava o movimento ondulante e vigoroso de La Belle Garce sob seus pés. Recordou com melancolia o sabor agridoce da chuva nos lábios e as rajadas de vento lhe revolvendo o cabelo quando permanecia imóvel sobre as cobertas do navio açoitadas pelo vendaval. Levantou-se da cama com rapidez e cobrindo-se com uma das batas novas correu descalça para a porta janela. No preciso momento em que abria de par em par as duas folhas se ouviu o retumbar de um trovão, seguido de um relâmpago gigantesco que iluminou todo o céu e destacou em prata a figura imóvel de Christopher contra o corrimão, de costas a ela, absorto na tormenta. Quando lhe viu, seu ímpeto morreu e ficou petrificada com um pé na galeria. A fúria da tormenta lhe encharcou, grudando a bata ao corpo, delineando seus peitos erguidos, as pernas brilhando tenuemente ao abrir a bata e flutuar no vento. A comoção que lhe produziu sua presença fez com que afrouxasse a mão que sustentava a porta, e com uma súbita violência que a sacudiu de pés a cabeça, o vento a arrancou da mão e a bateu com força contra a parede.


Christopher virou-se ao ouvir o estrépito e ambos se olharam durante o que lhes pareceu uma eternidade. Ele tinha o rosto molhado pela chuva, e à luz intermitente dos relâmpagos seu cabelo parecia veteado de prata quando a luz fazia cintilar as gotas de chuva que descansavam sobre seu cabelo negro. Nenhum deles falou e Nicole, ao correr os segundos, só foi consciente de um súbito sufoco e um nó apertado no estômago. Assustada pelas emoções que lhe provocava soltou um grito inarticulado e retrocedeu, cambaleante, ao interior do quarto, mas Christopher se moveu com a velocidade do raio e com um grito afogado disse: -Nick! - E a estreitou contra seu peito. Lutando contra Christopher tanto como contra ela mesma, Nicole lutou para escapar, mas não houve escapatória possível quando a boca úmida e exigente de Christopher começou a mover com urgência entre furiosa e terna sobre seus lábios. Não podia agitar os braços e tinha o corpo oprimido contra o dele, fornido e duro. Enquanto se retorcia entre esses braços poderosos, Nicole era consciente de muitíssimas coisas: do doce sabor de seus beijos, do contato íntimo das pernas longas e musculosas com as dela, e por cima de tudo, da nudez de ambos, já que quando se abriu sua bata durante a resistência, a de Christopher também o fez. De repente Nicole conteve a respiração, pois ao lhe roçar a virilha advertiu que estava enlouquecido de desejo. Christopher, perdido em seu próprio inferno, não tinha nenhuma intenção de lutar contra si mesmo e o que desejava. Nick estava em seus braços, onde ele a queria, e não pensava em nada, salvo nas deliciosas sensações, estranha mescla de dor e prazer, que lhe provocava o corpo flexível e suave de Nicole retorcendo-se contra ele. Lhe enchia os braços como ninguém nunca o tinha feito, e esse corpo alto e esbelto se adaptava a suas próprias formas como se tivesse sido modelado para ele e nada mais que para ele. Em algum lugar recôndito de sua mente desejou, com toda segurança, que ela não o rechaçasse desse modo, mas não tinha importância... tudo o que importava era aliviar-se dessa terrível pressão entre as pernas. Consumia-lhe e atormentava, e parecia que Nick era a única mulher que tinha o poder de mitigá-la. E enquanto continuava beijando-a, lhe sustentando agora a cabeça entre as mãos para que não afastasse a boca de seus lábios, as resistências de Nicole foram debilitando-se pouco a pouco até parar totalmente. E foi então quando ela permitiu que o desejo ignorado até então a avassalasse por completo, sabendo que, fosse pelo que fosse, só Christopher era capaz de aplacá-lo. Ao perceber que ela se fundia nele, Christopher levantou a cabeça, e entreabrindo os olhos cravou seu olhar inquisitivo nos dilatados olhos escuros de Nicole. Os seus próprios brilhavam de paixão e ao ver seus próprios desejos refletidos tremulamente naquelas pupilas insondáveis, disse em um sussurro: -OH, Deus! Desejo-te e esse desejo é tão potente que me faz mal, Nick. Cura-me!


Alheia ao que ele havia dito, ou sequer ao que suas palavras tivessem comprometido se Nicole as tivesse ouvido, lhe soltou a bata lenta e deliberadamente. E Nicole, estremecendo-se com a ideia do que ele ia fazer com seu corpo -desejandoo tanto ou mais que ele- não tentou fugir quando ele a soltou o tempo suficiente para deixar cair sua própria bata ao chão junto com a dela. Logo a levantou em seus braços e a levou a cama. O que seguiu não teve comparação com nenhuma das outras vezes em que tinham unido seus corpos no passado. Moveram-se lenta e sensualmente como duas pessoas em transe e Nicole, pela primeira vez em sua vida, descobriu o verdadeiro significado de fazer amor. Porque esta vez sim se fizeram amor, não só para satisfazer a luxúria ou a paixão animal, a não ser expressando da maneira mais natural e bonita possível todo aquilo que nenhum dos dois se atrevia a reconhecer. O corpo de Christopher parecia feito de veludo quente ao contato com as pontas dos dedos de Nicole, que lhe explorava lentamente, deslizando suas mãos para baixo pelo rosto, o nariz, a boca, curvada agora de paixão, até o peito coberto de pêlo negro e curiosamente suave, escorregando em seguida até as costas onde pôde perceber as cicatrizes que a marcavam para sempre, e que lhe fizeram franzir o cenho sem que soubesse, e logo ascendendo outra vez até que os dedos tropeçaram com a áspera seda escura de seus cabelos. E foi ela quem lhe levou os lábios a sua boca lhe sustentando o rosto entre as mãos enquanto lhe roçava em doce e tentadora provocação. Na primeira tentativa de Nicole de lhe tocar, Christopher tinha ficado imóvel, apanhado na sutil teia que ela estava tecendo com toda deliberação. Tremendo com a força irresistível da paixão que lhe dominava, permitiu-lhe descobrir o perigoso prazer de seduzir e sucumbir quando os dedos lhe abandonaram o rosto e baixaram, indecisos, por seu corpo até que as palmas se curvaram sobre suas nádegas, explorando a forma e a textura de seu corpo. Christopher suportou esse delicioso e penoso prazer tudo o que pôde, mas quando os seios turgentes roçaram com delicadeza seu peito e as mãos femininas encontraram ao fim sua masculinidade, gemeu e, rodando agilmente, apanhou-a debaixo dele. Capturando entre os dentes o lábio inferior de Nicole, grunhiu com voz pastosa: - Quer me torturar? Lhe soltando a boca, os lábios empreenderam um lento e ardente caminho passando do pescoço até os seios, acariciando-a suavemente com mãos que seguiam a curva de seu corpo até chegar a suave redondez dos quadris. Enquanto os lábios de Christopher atormentavam a pele sensível de seus seios, Nicole sentiu que todo seu corpo estremecia ao endurecer os mamilos e crescer mais e mais o desejo. Logo, a respiração se estrangulou em sua garganta quando as mãos de Christopher, com gentil insistência, deslizaram-se entre suas coxas em busca da suavidade aveludada que guardavam celosamente. Seu toque, delicado e ao mesmo


tempo exigente enquanto os dedos lhe acariciavam a parte mais íntima de seu ser, provocou uma aguda agonia de desejo, e seu corpo começou a retorcer-se por vontade própria ao ritmo dos movimentos daquela mão. Mas esta vez não se contentou com um papel passivo, e com um premente puxão de cabelo aproximou a boca a seus lábios, e sua mão foi direta aonde Christopher mais o desejava. Quando seus dedos lhe abrangeram, inchado e a ponto de explodir de desejo, ele deixou escapar um estranho som gutural do fundo da garganta, entre um gemido e um suspiro, e rapidamente se deitou em cima dela. Os corpos se encontraram e se fundiram um no outro quando ele se deslizou profundamente nessa calidez que lhe oferecia. Encheu-a e lhe expandiu a delicada suavidade até que escapou de Nicole um profundo gemido de prazer e dor, mas quando, ao ouvir o som de seu grito quase animal, ele vacilou, Nicole lhe abraçou com as pernas e sussurrou roucamente: - Não! Não me deixe... ainda não, por favor! - O corpo de Christopher deu um salto convulsivo ao ouvir a súplica e seus olhos se entreabriram até ficar convertidos em duas litras de ouro de deslumbrante intensidade. A ritmo lento, quase preguiçoso, começou a investi-la enquanto ela levantava com ansiedade os quadris e a boca viril se movia com urgência crescente sobre o rosto da jovem. Nicole estava cheia dele, estavam-no todas as fibras de seu ser. Era como se estivesse se impregnando dele... de seu aroma, do fraco, mas persistente aroma do tabaco que fumava, do aroma acre do uísque e desse masculino aroma almiscarado que constituía a essência de Christopher. Estava girando loucamente em um sonho sensual, embriagada com seu sabor, a boca aberta deslizando-se com o passar do pescoço musculoso e tenso, a língua saboreando o gosto salgado de seu ombro, só para retornar com avidez em busca da ternura selvagem de seus beijos, enquanto lhe explorava a boca faminta com uma crueldade tão doce que era mais embriagadora que o vinho. O suave comichão do pêlo do peito sobre os mamilos e o roce das pernas duras sobre as coxas, excitavam-na até o paroxismo e se retorcia de modo incontrolável debaixo dele. As mãos de Christopher voaram aos quadris de Nicole, guiando seus movimentos com o desespero que nascia de sua necessidade de liberação. A chama lacerante do desejo que os devorava os tinha prisioneiros, enquanto seus corpos se uniam com intensidade febril. . O desejo cresceu até que ela ficou rígida em meio de uma doce agonia que a transpassava e que de súbito explodiu em uma onda de prazer tão intenso que, inconscientemente, cravou as unhas nas costas de Christopher e soluçou em voz alta, gritando seu nome, com o corpo trêmulo e úmido pela força aniquiladora do êxtase delicioso que ele prodigalizava a seu corpo. Flutuando, deixando-se levar, quase aturdida pelo prazer que ele provocava, ficou deitada na cama, saboreando o roce de sua pele, o espasmo de seu corpo quando ele, também, não pôde suportar mais a intensidade da paixão e deixou que a essência de seu ser se derramasse dentro dela.


E depois não houve nenhuma palavra entre eles, só silencio e plenitude e essa sensação de embriaguez que segue a um prazer tão agudo e intenso. Cheia e saciada, Nicole voltou à cabeça e a apoiou sobre o ombro de Christopher, e com surpreendente rapidez, caiu adormecida como uma criança, com o corpo ainda apertado contra o dele. Ele não dormiu tão facilmente, e tendo uma experiência grandemente maior do aspecto físico do desejo, soube que essa noite a união dos corpos tinha sido algo que estava mais à frente do sexo. Contemplou o rosto adormecido de Nicole com atitude pensativa: suas feições adquiriam a doce inocência da juventude, as sobrancelhas escuras como espessos leques negros sobre os olhos, a boca suave e meigamente curvada, e o cabelo ondulado serpenteando gentilmente sobre uma bochecha. Olhando-a, teve consciência das sensações e emoções mais estranhas: perplexidade pelas estranhas emoções conflitivas que ela despertava nele e o desejo obsessivo de posse. Lhe pertencia! E essa era uma ideia em excesso estranha vindo de um homem para quem as mulheres eram meros brinquedos... nem sequer inteiramente humanas. E enterrado no mais profundo de sua alma existia certa quantidade de carinho e ternura... se não pela Nicole Ashford, ao menos pelo Nick. Agora mesmo podia recordar com viveza a sensação que lhe produziu o contato daquele corpinho magricela apertado contra suas costas aquela noite cinco anos atrás quando se afastavam de Beddington's Corner. Sorriu na escuridão, recordando também como tinha atacado com ferocidade o moço de quadra. Tinha sido como uma pequena arpia. E se existia algo que ele admirava por cima de todas as coisas era o espírito combativo. Sem dúvida nenhuma, Nick era um dos diabinhos mais valentes e corajosos que já tinha conhecido em sua vida. E súbita e inexplicavelmente, pensou no perigo que ela tinha vivido durante todos esses anos em La Belle Garce seus braços a rodearam de modo instintivo para protegê-la. Mataria a qualquer um que lhe fizesse mal. Depois, sorriu. Pobre Nick, estava a salvo de todos, menos dele. Sonolento, apoiou a bochecha sobre o cabelo de Nicole. Bem, não ia desperdiçar mais energias pensando em Nick essa noite. Jamais lhe fez nenhum bem deixar que suas emoções se enredassem com mulheres: eram criaturas divertidas e lhes fazer amor era uma maneira agradável de passar uma noite ou duas. Jamais deveria deixar que a ternura cobrasse força por nenhuma delas, pensou sonolento.


CAPÍTULO XVIII À manhã seguinte Nicole abriu lentamente os olhos. Permaneceu deitada e imóvel, não de tudo acordada, com o corpo e as emoções saciados e em repouso pela primeira vez desde fazia muitas semanas. Um sorriso apareceu em seus lábios, se espreguiçou sensualmente e abraçou o travesseiro que ainda conservava a marca da cabeça de Christopher. Não sabia exatamente a que horas tinha partido, mas suspeitava que devia ter sido ao raiar a alvorada. E a julgar pela débil luz que se filtrava no interior do quarto, certamente não tinha passado muito desde então. A seu lado, onde ele tinha dormido, os lençóis conservavam um pouco do calor de seu corpo. Os braços de Nicole se ateram mais ao redor do travesseiro como se este, por arte de magia, converteu-se no corpo vital e grande de Christopher. Estava sonolenta e com o corpo relaxado, plenamente feliz. Apoiou a bochecha no oco do travesseiro e reconheceu que estava apaixonada por Christopher Saxon. E por alguma razão inexplicável, essa ideia não engendrou o espanto e repugnância esperados por ela. Não podia negá-lo mais, qualquer que fosse o preço para ela e sem importar os sofrimentos que possivelmente lhe reservasse o futuro. Um pouco envergonhada, caiu na conta de que boa parte da fúria e aversão dirigidas ao capitão Sable tinham sido uma forma de autodefesa, uma tentativa de fechar os olhos à atração crescente que sentia por ele. Até o fato de ficar do lado de Allen e contra o capitão tinha sido só para esconder de si mesmo os incertos desejos de seu coração. Um sorriso melancólico cruzou fugazmente por seu rosto ao recordar às outras mulheres e as outras noites de paixão na vida daquele homem e sacudiu a cabeça. Aquela noite tinha sido diferente, pensou com paixão. Carrancuda, cravou o olhar em seu travesseiro. Tinha-a abandonado à alvorada sem nenhuma explicação. Com absoluta firmeza se disse que não quereria que os serventes cochichassem por havê-lo encontrado deitado em sua cama. A ideia de que não desejasse que suas relações amorosas fossem motivos das falações a reconfortou um pouco. Sentou-se na cama e chamou Mauer enquanto afastava as mantas. Se ele soubesse de seu plano original não teria partido ainda para Nova Orleans. Rogou com


o maior ardor que o acontecido entre eles àquela noite lhe tivesse feito trocar de opinião com respeito ao futuro. Depois de banhar-se rapidamente, com a ajuda de Mauer vestiu um vestido de suave musselina cor amarela e passou com rapidez uma escova pela cabeleira escura e lustrosa. Impaciente, sentou-se quieta só o tempo suficiente para que Mauer entretecesse uma fita amarela de seda entre seus brilhantes cachos. Christopher tinha que sentir algo por ela algo distinto do comum, pensou obstinadamente. Se depois daquela noite ele a tratasse com frio desdém, odiaria-lhe com toda sua alma. Seus sentimentos eram muito novos para ela, muito frágeis para suportar um rechaço ou sequer indiferença. Necessitava confiança, algum pequeno gesto que lhe permitisse saber que aquela noite tinha sido especial para ele também. Ao cruzar o vestíbulo principal e ver a bagagem de Christopher empilhada com esmero junto à porta, deixou escapar um suspiro de alívio. Ainda não tinha ido, mas a simples presença dessas malas não era nada favorável. Ainda seguia pensando em partir essa manhã. Tratou de convencer-se de que teria alguma explicação aceitável... sem dúvida não partiu ainda porque estava aguardando-a para falar com ela. Nicole ansiava acreditar que seu súbito reconhecimento do amor que sentia por ele tinha engendrado o mesmo reconhecimento em Christopher. Estava disposta a fazer toda classe de concessões em qualquer tipo de relação que pudessem chegar a manter. Se quisesse que fosse sua amante, aceitaria-o sabendo que com o tempo poderia fazer com que a amasse. Mas se a rechaçava, estava convencida de que não suportaria semelhante dor. Não queria lhe odiar, desejava com toda sua alma lhe amar com paixão. E estava totalmente segura de que ele devia sentir algo especial por ela. Por um momento ficou de pé no centro do vestíbulo sem saber onde lhe encontrar. Logo, ao dar um passo vacilante em direção à biblioteca, Sanderson a sobressaltou ao sair de improviso da sala de jantar pelo lado oposto do vestíbulo. Ao vê-la ali, saudou-a: -Bom dia, senhorita Nicole, levantou-se muito cedo hoje! Lhe brindou com um sorriso radiante e lhe perguntou: -Viu o senhor Saxon? Ainda não partiu, verdade? - OH, não! Não partirá até dentro de uma hora ou mais. Acabo de lhe servir o café da manhã. Reunirá-se com ele? - Obrigado, isso é precisamente o que desejo fazer! Quando ela entrou no salão segundos depois, Christopher levantou a cabeça surpreso. Nicole estava excepcionalmente bonita e adorável esta manhã, pensou, com esse bonito rubor nas bochechas e um brilhante brilho em seus olhos topázio escuro que realçavam até mais sua beleza. O vestido amarelo contrastava com os reflexos de fogo de seus cachos escuros, e ao recordar esse cabelo espalhado sobre o travesseiro, sentiu que algo se apertava com dor no mais profundo de seu ser.


Com um sorriso trêmulo nos lábios, Nicole se encaminhou à cadeira que costumava usar e murmurou com acanhamento: - Bom dia. Sanderson lhe serviu uma xícara do forte café com sabor de chicória que era o preferido de Christopher e depois partiu, sem dúvida para encarregar-se de seu café da manhã. A sós, os dois se olharam dos extremos da larga mesa, e Nicole ficou horrorizada de repente ao não ter nada que dizer. O que devia dizer a um homem depois de ter passado uma noite como a de ontem, e em especial alguém como Christopher? Ele vestia calças de camurça e botas altas, preparado já para partir para Nova Orleans. Jogou-lhe um olhar furtivo e viu com desalento que seu semblante tinha uma expressão sombria e inescrutável que a encheu de temores. Mas quando ao mesmo tempo advertiu seus olhos sonolentos que delatavam uma noite mau dormida, um sorriso agradado apareceu nos cantos de seus lábios. Ela conhecia a causa dessa sonolência. Foi uma espécie de sorriso satisfeito e reservado que curvou seus lábios. Christopher o reconheceu e pôde recordar que era exatamente igual ao da mãe quando estava particularmente encantada com algo: Annabelle tinha sorrido assim com muita frequência naqueles dias prévios a sua traição. Olhando com severidade a suave curva desses lábios, sentiu raiva ao pensar com que facilidade podia ter tornado a cair na mesma armadilha. Mas o sorriso lhe recordou intensa e dolorosamente algo no que não queria pensar. -Diverte-te alguma coisa? -perguntou com voz irritada-. Não me viria mal rir a gargalhadas esta manhã. Sobressaltou-a o tom ofensivo e sarcástico de sua voz e o sorriso se desvaneceu de seus lábios. - Não, nada em particular. É que esta manhã é encantadora -respondeu. Seu mau humor a deixou cautelosa, e ignorante da causa de seu aborrecimento, bebeu o café e desejou que houvesse alguma forma de dissipar as correntes perigosas que percebia na sala. Mas Christopher não tinha que privar-se da discussão que estava procurando com afã: - Sempre sorri assim porque é uma manhã bonita? - perguntou de maus modos -. Tem que te sentar ao outro lado de minha mesa sorrindo como uma idiota? A xícara de Nicole se chocou contra o prato. Seu temperamento explosivo se inflamou como uma tormenta de verão. Tratando de evitar uma discussão, mas sem estar disposta a ignorar a provocação, perguntou com frieza: - Sempre tem um caráter tão espantoso ao te levantar? - Não o recorda, Nick? Não faz tanto tempo que deixamos A Belle Garce. Certamente, umas poucas semanas não lhe terão feito esquecer como sou depois de


uma noite passada com uma prostituta. - Pronunciou as últimas palavras impulsionado pela ira contra si mesmo. Estava mais à frente do raciocínio; tudo o que compreendia era que a filha de Annabelle estava sentada diante dele, a filha de Annabelle, adorável, possuidora de uma beleza e calidez que teriam eclipsado a bela casca de ovo vazia de Annabelle com a mesma facilidade que um diamante desluciria um pedaço de vidro! Estava apavorado e era incapaz de confiar em seus próprios instintos, pois já lhe tinham traído uma vez. Estava atuando torpemente e ao mesmo tempo se achava furioso... furioso contra Nicole por despertar nele emoções e sentimentos que acreditava mortos fazia tempo, e colérico contra si mesmo por não poder julgar com exatidão se essas emoções e esses sentimentos eram verdadeiros ou falsos. Desejava com ardor recuperar sua acostumada indiferença para as mulheres e convencer-se de que a noite anterior não tinha acontecido nada. Ao ouvir aquelas palavras tão desagradáveis algo explodiu com força no interior de Nicole. Ao ver seus sonhos feitos pedacinhos, aturdida pela palavra que ele tinha usado para referir-se a ela, irrompeu na pior raiva de toda sua vida. -Como te atreve! -gritou com a voz estrangulada. Estava vibrando com a força de sua própria ira, virtualmente chispando de fúria, e sem pensá-lo nem um instante, sua mão se fechou ao redor da xícara de frágil porcelana que acabava de depositar em seu prato. Soltando um grito de indignação, jogou-a na cabeça de Christopher. Ele se agachou e a xícara não acertou no alvo, mas um pouco de café quente lhe salpicou quando passou voando a seu lado. Ele também ficou em pé de um salto e se enfrentaram por cima da larguíssima mesa coberta com a toalha branca de linho. -Basta já destas tolices! -trovejou a voz de Christopher contendo com muita dificuldade sua ira. Mas os lábios de Nicole se franziram em uma careta de dor quando respondeu: - Você acha? Nem sequer comecei! - Então o pires passou zumbindo muito perto de sua cabeça, e mal pôde esquivar o pesado pimenteiro de prata maciça que o seguiu raudamente. Encontrava-se tão consternado e surpreso que não foi o bastante rápido para esquivar o saleiro de mesa do mesmo jogo, e este lhe deu totalmente na boca do estômago. A fúria que sentia Nicole lhe dava mais forças. Via tudo vermelho e procurou com desespero algum outro objeto pesado para jogar-lhe. Seus olhos se pousaram sobre um magnífico candelabro de prata lavrada que dominava o centro da mesa, e com um juramento que teria orgulhado a qualquer marinheiro, lançou-o em direção ao Christopher. Felizmente não acertou no alvo, mas por desgraça se estrelou contra a parede justo no momento em que Sanderson, com a bandeja carregada com o café da manhã de Nicole, entrava no salão.


A jovem não perdeu tempo e arrancou a bandeja de prata com o prato de presunto e ovos das mãos do surpreso Sanderson. Com uma pontaria infalível a jogou em Christopher. - Bastardo! -gritou-lhe. O prato lhe acertou totalmente no peito e os ovos se aderiram ao peitilho da camisa até que ele, com certa afetação, desprendeu-os com as pontas dos dedos. Com os olhos dilatados de estupor, Sanderson contemplava Christopher enquanto este tratava de limpar a massa aderida à camisa e a jaqueta com um guardanapo. Com absoluta calma, Christopher disse: - Pode partir, Sanderson. A senhorita Nicole e eu terminaremos de tomar o café da manhã muito em breve. O serviçal cravou o olhar atônito nele, mas se limitou a dizer: -Como ordene, senhor. - E desapareceu. No salão reinou o silêncio. As palavras serenas de Christopher tinham atravessado a vermelha neblina de fúria que envolvia Nicole, e com olhos horrorizados contemplou o estado em que tinha ficado o lugar. Christopher a observou com cautela. Tinha visto raivas antes, mas sem dúvida Nick se superou. Enquanto que por uma parte estava furioso com Nick, por outra lutava para conter a risada. Em realidade não a culpava por sua explosão. Ele esteve procurando uma briga do momento em que despertou essa manhã, e a tinha conseguido. E ao pensar no aspecto ridículo que apresentava, perguntou: - Passou já a tormenta ou devo correr e procurar refúgio? Nicole estava doente. A fúria a tinha abandonado tão depressa como tinha chegado, e agora só desejava sair arrastando-se até algum lugar e morrer. Dirigiu-se cegamente para a porta, mas Christopher a puxou pelo braço. - Não vá - pediu com suavidade. A angústia de Nicole era tão óbvia que ele se sentiu inexplicavelmente comovido. - Nick, sinto muito. Não devia ter dito o que disse. - Sorrindo meigamente, continuou-: Estou de um humor de mil demônios esta manhã, querida. Esquece o que acabo de dizer e comecemos de novo. Nicole ergueu a vista e lhe estudou por um momento, sem confiar no tom persuasivo de sua voz, nem acreditar no brilho quente que faiscava em seus olhos dourados. Tinha-a enganado muitas vezes no passado e não podia lhe perdoar que tivesse diminuído algo que para ela foi uma ocasião transcendental. Até passado a primeira explosão de cólera, ainda estava muito zangada. - Não - respondeu obstinadamente -. Não começaremos de novo. Esclareceste perfeitamente sua posição. As coisas estão igual à ontem pela tarde. Ontem à noite foi um equívoco. Pode estar bem seguro de que não voltará a ocorrer. Retirou-lhe com firmeza o braço que a retinha e disse com cortesia ao dirigir-se à porta.


-Confio que a viagem será prazenteira e estou esperando com muito interesse voltar a me encontrar com a senhora Eggleston... no passado foi uma boa amiga minha. -Sem mais, desapareceu deixando Christopher, pálido e tenso, olhando com verdadeira consternação e bastante zangado a porta que acabava de fechar-se. Ficava a sensação de ter prejudicado um pouco de maneira irreparável. Desassossego, descobriu que desejava a oportunidade de voltar a viver esses últimos minutos. Mas se recuperou rapidamente e fazendo um esforço recordou as perfídias de Annabelle e em um arranque de cólera amaldiçoou a todas as mulheres... e a Nick com mais veemência que a nenhuma outra. O que estava lhe passando? refletia pouco depois enquanto a piragua avançava lentamente rio acima para Nova Orleans. Que demônios lhe ocorria ultimamente? Nick estava sempre em seus pensamentos! E além disso, descobria que despertavam nele sentimentos e emoções que tinha acreditado arrancados de si pelas ações desumanas de Annabelle. Não queria que ninguém atravessasse a muralha de indiferença e crueldade que tinha erguido para proteger sua sensibilidade. E resolveu que manteria Nick a uma distancia prudencial. Não se deixaria persuadir pela ideia de apaixonar-se por ela: era inconcebível a sua idade, e muito menos de Nick. Durante o resto da viagem procedeu a esquecer Nicole. Com meticulosidade ergueu uma barreira muito alta e muito fria entre eles e persuadiu a si mesmo de que agora tinha a situação bem controlada. Convencido disso, estava muito satisfeito de si mesmo quando essa tarde foi visitar a senhora Eggleston. A família Dumas tinha saído e não retornaria até a noite. A senhora Eggleston estava desfrutando de um merecido descanso de sua voluntariosa pupila. A senhorita Dumas tinha estado irritada e exasperante a semana passada, e a senhora Eggleston quase disposta a deixar de lado seu orgulho e aceitar o que lhe tinha oferecido Christopher. O relato das vicissitudes de Nicole comoveu à senhora Eggleston e se mostrou desejosa de aceitar o emprego que lhe propunha. Permaneceu sentada e como hipnotizada enquanto Christopher narrava à história da aventura vivida por Nicole. - Essa Nicole Ashford! - disse ela ao fim com um brilho malicioso em seus pálidos olhos azuis-. Sempre foi uma menina revoltosa. E embora me escandaliza que uma senhorita de sua linhagem irrepreensível fizesse algo tão indecoroso, devo admitir que não me surpreende. A morte de seus pais e seu irmão gêmeo foi um golpe terrível para ela, e seus tutores, os Markham, não eram pessoas de bom coração. Claro que sim, sentirei-me muito ditosa e mais que disposta a tomá-la a meu cargo e acompanhá-la a partir de agora em adiante. Meneando a cabeça branca e com um olhar de aprovação para Christopher que lhe fez sentir realmente incômodo, continuou:


- É tão bom! E Nicole é muito afortunada de que fosse você quem descobrisse seu engano. Que terrível se tivesse caído em mãos de algum monstro sem escrúpulos que se aproveitasse do que era. Sentindo-se mais incômodo que nunca e bastante envergonhado, Christopher desprezou os elogios com um gesto. - Foi um privilégio e, o asseguro, nada de importante. -OH, Christopher! -protestou, exaltada-. O que teria acontecido se encontrarse nas garras de alguém que... -a voz se reduziu a um sussurro horrorizado- tivesse destruído sua inocência? Dá horror só pensar nisso! Ela é muito, muito afortunada de que fosse você. Poderia ter lhe acontecido algo! Christopher nunca se encontrou em uma situação tão constrangedora em sua vida, e trocou de tema com rapidez: -Sim, bem, tudo isso felizmente ficou para trás. Em seguida respirou fundo e se agitou na poltrona ao começar a parte mais delicada de seu plano. - Naturalmente, desejo vê-la de novo em seu lar e com sua família -disse com energia-. Acredito que é importante que se faça algo para que retorne a Inglaterra o antes possível, apesar desta guerra desafortunada. Com o semblante preocupado, a senhora Eggleston aventurou, vacilante: -Christopher, não acredito que seja tão simples como o pinta. Odiando-se por levá-la exatamente aonde queria de maneira tão descarada, e por outro lado convencido da imperiosa necessidade de fazê-lo, Christopher se mostrou muito surpreso: - O que quer dizer, senhora? - Logo, fingindo interpretar erroneamente o sentido de suas palavras, concedeu-: Certamente, teremos que encarregamos de que esteja à altura das circunstâncias, mas você será capaz de fazer isso, sem lugar a dúvidas. Marcando-se ainda mais as rugas de preocupação que sulcavam sua testa, a senhora Eggleston falou com lentidão: - Não estava pensando tanto nisso como no possível escândalo que se produzirá se chegar ou seja sei que Nicole esteve navegando todos estes anos disfarçada de moço. -Seriamente, acrescentou-: Querido, isso não pode consentir-se jamais! Estaria completamente desprestigiada. De maneira nenhuma podemos permitir que isso se saiba! -O que sugere você? -perguntou Christopher em tom inexpressivo. A anciã lhe dirigiu um olhar nervoso. Estava segura de que se não tivesse abandonado a Nicole, isso não teria acontecido. Agora se sentia desejosa de fazer algo para pôr as coisas em seu lugar... até mentir, o qual ia contra seus princípios. Como não queria que Christopher acreditasse que era uma mulher que podia enganar com facilidade, brincou com a gasta renda que rodeava seu pescoço e ao fim disse com precipitação:


- Poderíamos dizer uma mentira... poderíamos dizer que esteve comigo. Cada vez mais aborrecido consigo mesmo, Christopher se aferrou rapidamente a suas palavras. -Sim, claro. Devia havê-lo pensado. Me permita alinhavar uma história adequada, e depois, se não levar a mal, usaremo-la para ocultar as desventuras de Nick. Sentiu-se agradecida de que lhe tirasse a decisão das mãos, sorriu com expressão bondosa e perguntou: -Quando devo avisar aos Dumas? - Hoje mesmo - afirmou ele, cortante -. Quero que esteja fora de seu domínio esta mesma noite. Quando ela mostrou sinais de obstinação, rapidamente a convenceu de que o tempo urgia, que cada dia que Nick passava sem uma dama a seu lado, sua situação se tornava menos apropriada. Abrandou-se seu terno coração ao pensar na possível desgraça da pobre Nicole, e sem discutir nada mais, dedicou-se a fazer as malas. Deixou uma nota em que se desculpava por abandonar o serviço tão de repente e rogava que a perdoassem. Demitir-se desse modo ia contra sua natureza, mas com o Christopher urgindo-a com insistência não teve tempo de mudar de opinião e foi assim como saiu rápida e definitivamente da casa dos Dumas. A senhora Eggleston e Christopher permaneceram em Nova Orleans só dois dias mais dedicados a diversas tarefas. Ele deixou as medidas que a senhorita Mauer tinha tomado de Nicole na loja da costureira e persuadiu com manha e adulações à senhora Eggleston de que tinha que se fazer tudo de maneira apropriada, ela também necessitaria um guarda-roupa completo. Ao princípio protestou, horrorizada de que um cavalheiro lhe comprasse seus vestidos, mas Christopher, aceitando seus pontos de vista com a maior inocência, continuou dizendo: - Certamente que você tem razão. Não tinha reparado em como se sentiria. Só espero que ninguém comente sobre o guarda-roupa custoso de Nick e ache que você se privou de tudo por ela. Recorde também que não se saberá nada dos apuros pelos que passou, nem que esteve ganhando a vida com seu trabalho. Mas, por outra parte, para que não haja uma grande diferença entre vocês, teremos que suprimir alguns dos trajes que encomendei para Nick e mandaremos fazer outros diferentes. Já me entende, um pouco mais prático e duradouro. Ao meditar em todas as privações que tinha padecido a pobre Nicole durante esses anos, a senhora Eggleston se sentiu desprezível, tal como ele tinha previsto. Esquadrinhando o semblante inexpressivo de Christopher, exclamou angustiada: - OH, não! Não acredito que seja necessário. A pequena Nicole merece algo alegre e frívolo depois desses trajes varonis que esteve usando. Christopher não respondeu. Depois de lutar com sua consciência durante uns segundos mais, a senhora Eggleston murmurou fracamente:


- Antes que privar à pequena Nicole, talvez deva aceitar um ou dois vestidos para completar meu guarda-roupa. -Lhe iluminaram então os olhos e acrescentou-: E naturalmente te devolverei o dinheiro graças ao fabuloso salário que quer me pagar. Reprimindo um sorriso, Christopher a viu andar a passo vivo para o fundo da elegante loja da costureira. Enquanto a senhora Eggleston estava ocupada com a costureira que tomava medidas e lhe ensinava um pequeno mostruário dos tecidos para seus novos vestidos, Christopher manteve um bate-papo muito satisfatório com madame Colette, a proprietária da loja. Quando a senhora Eggleston descobrisse sua mutreta seria muito tarde: encontraria-se com mais roupas de vestir que as esperadas, e o que se pode fazer com objetos feitos a medida salvo as usar? Além de encarregar-se dos guarda-roupas das damas, Christopher passou várias horas com seu banqueiro e seu agente de negócios, discutindo o andamento de seus assuntos durante os seis meses em que estaria ausente do país. E as engenhou para encontrar-se com Jason Savage durante algumas horas na véspera de sua partida para a plantação. Depois de um agradável jantar, Jason disse com bastante satisfação: - Parece que não está desperdiçando tempo e que seu plano já está bem encaminhado. Christopher fez uma careta. -OH, sim. Estou me convertendo em um perito em enganar anciãs confiadas. Jason arqueou as sobrancelhas, divertido. - Resulta-lhe uma tarefa muito pesada? -Muito! -exclamou Christopher, desanimado-. Não acreditei que me servir dela me ia contrariar tanto, mas tenho descoberto que é assim. O único consolo que posso encontrar é que tudo é por uma causa nobre e que a senhora Eggleston sairá beneficiada. Essas poucas palavras agradaram ao Jason em boa medida. O que estava fazendo era arriscado e, mesmo tendo o relatório de Jake sobre o Saxon e seus próprios instintos para lhe guiar, era um grande alívio descobrir que Christopher não era tão insensível e inescrupuloso como aparentava. Jason se perguntou que classe de homem era em realidade. Um cavalheiro de boa família, um corsário, o dono de uma plantação, um jogador profissional, um cúmplice de Lafitte e agora... um patriota ou espião? Qual era a verdade sobre ele? Os olhos verdes de Savage escrutinaram pensativamente esse semblante duro e quase desventurado e Jason chegou à conclusão de que Saxon guardava com zelo sua verdadeira personalidade e o mais recôndito de seus pensamentos e sentimentos. O tempo diria se tinha sido acertada sua decisão de requerer seus serviços. Deixando esses pensamentos de lado, perguntou: - Quando considera que poderá estar preparado para partir? Deve me avisar com suficiente tempo, pois tenho que encontrar um navio que esteja disposto a confrontar o risco do bloqueio britânico do Golfo do México.


- Ainda devo aguentar, pelo menos, um mês mais, mas se o tempo o permite, suponho que poderemos zarpar em meados de fevereiro. Nick não é em realidade a sem modos que eu temia. E a senhora Eggleston e eu teremos seis semanas no mar para completar sua transformação. Certamente o tempo nos brindará mais incerteza que os progressos de Nick. Jason assentiu, recordando com um calafrio sua própria travessia invernal fazia uns anos. -Sim, estou de acordo. Contudo, começarei já a procurar um capitão de navio disposto a arriscar-se a ser capturado pelos britânicos. Depois de tudo, não há razão para esperar até o último minuto. Christopher ergueu os ombros. - Pode ser que sua tarefa e a minha se concluam ao mesmo tempo. Ter que zarpar uma ou duas semanas antes do planejado não nos viria mau. -Sim. Não encontro palavras para lhe expressar quão inquieto estou pelo atraso, caso tivesse em mão neste instante o capitão e o navio -confessou Jason com sinceridade. -Acreditei que tínhamos decidido que não tentaríamos nada antes do outono como data mais próxima, e isso se derrotarem completamente Napoleão na Europa apontou Christopher. -OH, provavelmente você tenha razão, mas eu não gosto da incerteza queixou-se Jason com uma careta. Christopher sorriu compassivamente; tampouco ele transbordava de alegria pelas dificuldades a que teria que fazer frente. A empreitada era arriscada e estava infestada de incertezas. -Se tivéssemos mais no que apoiamos e uma pessoa em particular de quem solicitar informação, pessoalmente me agradaria mais. Mas como não é assim, terei que nadar às cegas por minha conta e esperar que tudo saia bem ao final. - É verdade - murmurou Jason sem muito entusiasmo. -Vá! -disse Christopher, exasperado-. Se pude vencer aos britânicos no mar, coisa que fiz, não vejo motivo para duvidar de minha habilidade para superá-los com manha em terra. - Sorridente, adicionou-: De todos os modos não têm miolo! Friamente, Jason remarcou: -Esquece que eu sou inglês em parte e que você tem sangue inteiramente inglês nas veias. -Sim, mas como vê, ambos tivemos o sentido comum de cair na conta da pouca perspicácia que têm os britânicos e rapidamente aliamos a nossa nova pátria replicou Christopher com um brilho zombador nos olhos dourados. Jason se limitou a grunhir: - Eu nasci aqui. Com o olhar mais brilhante ainda, Christopher voltou a replicar imediatamente:


-Também Benedict Arnold! Rindo a gargalhadas, Jason meneou a cabeça. - Não se remói a língua... e é um argumento eficaz, devo admiti-lo. -Mas depois se apagou sua risada e inquiriu-: Falando em traidores... como fez para desertar das hostes de Lafitte sem que lhe acusassem de traidor? Christopher fez uma pausa; não se sentiu muito agradado pelo giro da conversa, mas encolhendo os ombros apontou: -Jamais estive envolvido no contrabando; não estou tratando de me separar de Jean para me desculpar. Eu era corsário. Certamente sabia que os artigos de minhas presas seriam introduzidos como contrabando em Nova Orleans, e suponho que isso me faz em teoria um contrabandista, mas conheço muito pouco sobre as atividades do Jean. Ele sabe que não lhe trairia, embora Claiborn suba a recompensa a cem vezes seu valor atual. Jean é um bom amigo para mim e para o estado da Louisiana. Acredita que está oferecendo algo que a gente deseja, e talvez seja certo. Com toda segurança que não lhe faltam compradores. - Mas entretanto, ele viola a lei com cada carga de contrabando que aflui à cidade -argumentou Jason, sombrio-. Claiborn não vai tolerá-lo muito mais. - Sei - admitiu Christopher, sério -. Disse ao Jean quando renunciei que ele também devia retirar-se, mas não o fará. E em um enfrentamento entre eles, não estou tão seguro de que Jean não saia triunfante. - Talvez, mas se volta mais descarado cada dia, e Claiborn não pode permitir-se passar por cima eternamente uma afronta tão grande. E foi com essa nota de tensão como se separaram.


CAPÍTULO XIX

Na semana que seguiu à catastrófica confrontação na sala de jantar, Nicole tinha conseguido controlar sua fúria e superar a ferida infligida a seu amor próprio. Com amargura chegou a compreender que Christopher jamais permitiria que mulher alguma significasse algo para ele; resolveu, então, desterrar de sua mente todo pensamento relacionado com esse homem insensível. Desde esse momento se dedicou com afã a permitir que Mauer a transformasse em uma dama. -Não caminhe a pernadas como um homem, Ma chere! Non... não se sente na cadeira como se fosse um cogumelo, petite, s'il vous plait! Deve mover-se com muita graça, como uma flor balançada pela brisa... oui! Non, non. Dessa maneira não... deste modo! - E assim se passavam as horas e os dias. Ao princípio Nicole se rebelava, ferida e zangada saía da sala como um furacão, mas retornava depois de um tempo, contrita e envergonhada de sua explosão de raiva. Esta vez Higgins ficou na plantação, pois Christopher, depois da cena do café da manhã, não confiava plenamente em Nicole. Não era de se estranhar que a companhia de quem fora um dia o segundo oficial de La Belle Garce alegrasse um pouco a vida de Nicole. Estava familiarizada com ele e sempre lhe tinha apreciado quando viveram juntos como camaradas de bordo. Com o Higgins podia refrescar lembranças dos incidentes dos últimos cinco anos e rir das brincadeiras dos tripulantes, mas por cima de tudo, podia ser ela mesma. Só com o Higgins podia sentar-se no chão com as longas pernas cruzadas em uma postura totalmente imprópria de uma dama, ganhando e perdendo imensas somas de dinheiro imaginário enquanto jogavam os jogo de dados. Por desgraça Christopher e a senhora Eggleston chegaram uma tarde quando os dois estavam enfrascados nos jogo de dados, sentados no chão diante da lareira com o tapete enrolado o suficiente para que os jogo de dados pudessem ricochetear e rodar sobre o piso de madeira polida. Nicole, inclinada ansiosamente para diante com os olhos fixos nos jogo de dados que acabava de lançar Higgins, não se precaveu de sua chegada. - Incomodamos? - inquiriu Christopher de repente.


Ao ouvir o tom glacial de sua voz, Higgins, com uma expressão culpado no rosto, ficou de pé de um salto, resmungou algo sobre que seria melhor ajudar a desfazer as malas e desapareceu com notável rapidez. Nicole não demonstrou nenhum interesse em levantar-se. Apoiou-se sobre as palmas das mãos inclinando-se para trás e lançando um olhar provocador ao rosto carrancudo de Christopher, murmurou: - Oh! Já retornaste! Oxalá tivéssemos podido terminar esta partida. Estou perdendo e lhe devo meio milhão de libras. Apertando os lábios e ao mesmo tempo reprimindo um deplorável desejo de rir desse comportamento extravagante, levantou-a de um puxão e disse à senhora Eggleston: -Como vê, sua tarefa não será fácil. E a senhora Eggleston, contemplando a jovem alta e bela como uma deusa que tinha diante de si, desprezou para sempre todas suas ideias a respeito da «pequena» Nicole. Mas logo, ao vê-la vestida com um traje muito na moda de fina lã verde bolo apertado em sua esbelta cintura que chegava até o chão em uma graciosa saia ampla, e seu cabelo penteado com delicioso bom gosto em suaves cachos ao redor dos ombros, sentiu-se mais tranquila. A jovenzinha não era irrecuperável. E a senhora Eggleston agradeceu ao céu que Nicole tivesse ao menos todo o aspecto de uma dama. Inclinando um pouco a cabeça e com um sorriso afetuoso nos lábios, a senhora Eggleston disse calmamente: - Olá, querida Nicole. Quem teria imaginado quando nos dissemos adeus aquele dia em Ashland, que voltaríamos a nos encontrar nesta terra estranha? E devo dizer, além disso, o muito que chegaste a te parecer tanto a sua mãe como a seu pai. Desprendendo-se da mão de Christopher com uma leve sacudida, Nicole sorriu, cheia de picardia, para ocultar o regozijo que sentia ao voltar a ver sua velha amiga. - Pelo que me lembro, sempre teve muito tato - respondeu-lhe. Mas, apesar de seu rosto sorridente, a senhora Eggleston estava muito fatigada pela viagem, e já sentia remorsos pelas mentiras que ia ter que dizer. Quando Nicole percebeu a postura cansada dos frágeis ombros da anciã, aproximou-se com rapidez a ela e lhe rodeando a cintura com o braço, sugeriu: - Permita-me que a conduza ao seu quarto? Estou segura de que estará desejando pôr os pés perto do fogo. Encarregarei-me de que o acendam imediatamente. -Oh, sim! Eu adoraria! -respondeu à senhora Eggleston com grande alívio. - Talvez até lhe viria muito bem uma xícara de chá. Estou equivocada? tentou-a Nicole. -Oh, vá, isso seria muito agradável. Querida Nicole, que gentil de sua parte.


Christopher observava a pequena cena com certa ironia. Mas estava satisfeito de que as duas mulheres não tivessem demonstrado uma imediata aversão mútua, e se sentia muito agradecido de não ter encontrado Nicole em uma travessura maior que a de estar jogando dados com seu criado pessoal. Mais valia ao Higgins ter uma boa desculpa para esse quadro enternecedor que lhes tinha oferecido fazia uns momentos... poderia ter servido facilmente para que a senhora Eggleston tomasse aversão por Nick e arruinasse seus planos por completo. Mas à senhora Eggleston, escoltada por Nicole, agradava-a comprovar que a querida jovenzinha não tinha perdido a cálida espontaneidade que possuía desde de menina. Sempre era muito mais gratificante instruir a uma pupila a quem se queria, e a senhora Eggleston amava muito a Nicole Ashford. Estava segura de que poderia lhe ensinar tudo o que precisava saber. Nicole também estava mais resignada e quase feliz desse primeiro passo de seu definitivo retorno a Inglaterra. Em seu interior temia reencontrar-se com a senhora Eggleston e não sabia o que teria feito se a boa senhora a tivesse desprezado ou tratado com arrogância. Compreendia agora que seu comportamento tinha sido pouco comedido. Ao repassá-lo em sua mente, maravilhou-se de sua própria temeridade e se sentiu profundamente agradecida de que Christopher, quaisquer que fossem seus motivos, aplainasse-lhe o caminho de sua volta à Inglaterra. Súbita e inexplicavelmente deprimida, deixou escapar um suspiro ao introduzir a senhora Eggleston em seu quarto. Era uma estadia digna de uma dama de sua idade, acolhedora e cálida com suas paredes rosadas; um grosso tapete de apagados tons rosa, azul e verde cobria o piso de madeira lustrosa; também podiam ver-se várias poltronas de damasco rosado e uma cama muito tentadora com colchas da cor rosa mais pálido que pudesse imaginar-se. A eficiente Médica já tinha aceso o fogo na lareira e depois de ajudar à senhora Eggleston a despojar-se do casaco, perguntou-lhe em seu tom suave e diferente se madame quereria tomar algo quente. Nicole deixou à senhora Eggleston depois de certificar-se de que estava cômoda e que lhe tinham servido o chá. -Veremo-nos a hora de jantar - despediu-se Nicole. Retirou-se com discrição para permitir que a anciã descansasse um momento e recuperasse as forças depois de uma viagem tão longa. Alguns minutos mais tarde, enquanto sorvia lentamente uma xícara de chá aromático, a senhora Eggleston contemplava com atitude pensativa o fogo da lareira com os pés apoiados sobre uma pequena banqueta de veludo. Não estava de tudo satisfeita com a história que lhe tinha contado Christopher, embora fingisse está-lo. Conhecia-lhe desde de menino e sabia, como se ele mesmo o houvesse dito, que estava mentindo. Por uma parte estava segura de que algo do relatado era verdade,


pois compreendia que Christopher era o bastante sagaz para incluir um pingo de verdade em sua história. Mas, onde começava a mentira? E por quê? Com uma tranquilidade que teria surpreendido ao Christopher, quase distraidamente, considerou a possibilidade de que este tivesse desonrado Nicole. Suspirando, depositou a xícara sobre o prato. Não queria pensar que fosse capaz de semelhante coisas, e ao recordar com um sorriso o trato considerado que lhe tinha dispensado, desprezou a ideia como indigna. Contudo, percebia com claridade que existia tensão no ambiente e uma atração evidente entre esses dois jovens. Afinal, conhecia-os desde do berço e os tinha visto crescer desde que eram uns mucosos até converter-se em uns arrumados jovenzinhos. Meneou lentamente a cabeça e desejou pela enésima vez não ter estado ausente com o coronel quando Annabelle contou aquela malévola história. A senhora Eggleston soube, desde do primeiro momento em que ouviu os rumores, que estes não podiam ser verdade e ao recordar ao jovenzinho gentil e sensível que tinha sido Christopher e compará-lo com o homem duro e receoso que era agora, seu coração se endureceu mais ainda contra a defunta Annabelle. Sempre foi consciente de que era uma rameira sem princípios morais, mas nunca teria imaginado o cínica e pouco escrupulosa que era em realidade até aquele fatídico verão. Tudo isso tinha ficado para trás, refletiu, agradecida. Agora Christopher e Nicole eram adultos, e talvez algo bom e nobre poderia resultar desse reencontro estranho mas providencial deles três tão longe da Inglaterra. Mais tranquila, adormeceu frente ao fogo, em paz consigo mesma pela primeira vez desde que partiu de Beddington's Corner cinco anos atrás. Se a senhora Eggleston estava tranquila e Nicole resignada, não acontecia o mesmo com Christopher, posto que sabia que o que lhes esperava no futuro não ia ser tão fácil de superar como parecia as duas mulheres. Estava satisfeito, entretanto, com o curso dos acontecimentos, exceto pela situação existente entre Nick e ele. Nas semanas seguintes teria que amaldiçoar uma e mil vezes sua preocupação crescente por Nicole. Continuamente se via forçado a sua companhia. Certamente, a senhora Eggleston estava sempre presente, sorrindo-lhes, enquanto Christopher escoltava Nicole a uma poltrona e lhe ajudava a sentar-se com compostura; a seguir cercavam a requerida conversa cortês durante uns minutos, só para ter que repeti-la porque a senhora Eggleston dizia que Nicole tinha estado muito rígida e dura em seus movimentos. Sorrindo e com um brilho especial em seus bondosos olhos azuis, a senhora Eggleston repetia: -Querida, deve aprender a te relaxar quando estiver na companhia de cavalheiros. Não fique rígida como um pau. Agora o tentaremos de novo. Reúnemlhes no vestíbulo como antes e Christopher te escoltará até aqui e esperará até que se sente.


E o faziam outra vez, e então Nicole o fazia com menos rigidez e pomposidade, mas durante todo o tempo era mais que consciente da proximidade de Christopher. Com determinação, Nicole pôs todo seu afã em apagar os últimos cinco anos de sua vida. Aprendeu a sorrir a Christopher com a devida cordialidade quando ele fingia lhe solicitar a mão para um baile; voltou-se uma perita em conversas refinadas quando os três jantavam juntos; e sob a direção da senhora Eggleston aprendeu a dominar os intrincados detalhes da hora do chá. Tampouco se descuidava de sua educação intelectual, embora fosse discutível que pudesse aprender muito em tão pouco tempo. E como tinha comentado a senhora Eggleston, às senhoritas não eram examinadas para comprovar se suas mentes estavam bem treinadas. Tudo o que a sociedade levava em conta era a graça de seus movimentos, a conversa cortês que podiam cercar e suas maneiras deliciosas. Logo Nicole se habituou a esperar os serviços de Mauer e de Médica e as deferências de outros serventes. E tão somente em alguma ou outra ocasião tinha saudades da liberdade de que tinha gozado até fazia tão pouco tempo. Mas esse modo de vida também tinha suas compensações, e a presença da senhora Eggleston fazia mais fácil de suportar a situação entre o Christopher e ela. Assim correram os dias e ela foi adquirindo cada vez maior naturalidade em suas maneiras e nas conversas que a senhora Eggleston considerava indispensáveis em uma senhorita de linhagem. Quando tudo isso ficou bem claro, a esfera social de Thibodaux House se alargou de modo considerável. O acontecimento social mais fácil e com muito mais ameno foi tomar o chá com Hans e sua jovem esposa. Com uma graça e encanto dignos do papel que representava, Nicole fez com que se sentissem confortáveis como se em realidade fosse a pupila de Christopher. A isto seguiu um jantar em uma plantação vizinha, e apesar de certo nervosismo ao princípio, a noite passou sem nenhum esforço. Christopher contemplava a nascente Nicole com certa admiração e hostilidade ao mesmo tempo, pois enquanto estava satisfeito com a rapidez com que ia se convertendo em um modelo de jovem bem educada, detestava a aparente facilidade com que o obtinha. Observando a maneira como lhe sorria, como se ele não fosse mais que o tutor que fingia ser, recordava com dor o engano de sua mãe. Assim tinha fingido Annabelle diante dos outros, sorrindo-lhe com a mesma indiferença e depois correndo para lhe permitir derramar beijos fogosos em sua boca ávida e complacente. Ambas eram iguais, pensava com desdém. Entretanto, deitado na cama e insone noite após noite sabendo que ela dormia ao outro lado do amplo vestíbulo, não se sentia tão seguro. Durante o dia podia fingir indiferença, interpretando seu papel ante a senhora Eggleston, mas as noites eram intermináveis E o sono esquivo, especialmente aquelas noites em que a senhora Eggleston insistia em aperfeiçoar a graça e a elegância de Nicole no salão de


baile. Era tanto um delicioso prazer como uma dolorosa tortura sustentá-la entre seus braços enquanto giravam ao redor do pequeno salão de baile de Thibodaux House. Para Nicole a intimidade dos braços de Christopher ao redor de sua cintura, a mão apoiada na dele e os corpos quase roçando-se, era uma agonia que não acreditava poder suportar por muito mais tempo. Por sorte a senhora Eggleston não tinha intenção de dedicar muito tempo a essas frivolidades. Chegou o dia em que Christopher, depois de consultar com a senhora Eggleston, decidiu que estavam preparados para retornar a Nova Orleans. Assim que chegaram à cidade, ele foi visitar a casa de Jason Savage. Uma vez que trocaram saudações, Jason disse: - Deve ter lido meu pensamento, pois ontem mesmo lhe enviei uma mensagem em que lhe pedia que retornasse a Nova Orleans se a senhorita Ashford estivesse apresentável. Devo considerar que o está? Christopher assentiu. -Sim, assim acredito. De qualquer modo, considero que qualquer deficiência que tenha que ser erradicada pode desaparecer aqui na cidade. Precisa sair e ficar em contato com a sociedade e não seguir movendo-se como uma marionete diante de nós dois. -Excelente! Em sua ausência fiz alguns acertos que espero recebam sua aprovação. Devo me desculpar por um em particular que não discutimos antes, e que confio não lhe faça me considerar muito arbitrário. Uma sombra de receio cruzou pelo semblante de Christopher antes de perguntar: -O que é? Os dois homens estavam sentados na biblioteca da casa da cidade dos Savage, Jason detrás de seu imponente escritório e Christopher ao outro lado. Jason recolheu um dos papéis que estavam em cima do móvel e o estendeu. Era uma breve carta, e Christopher levou só uns segundos percorrer o conteúdo com a vista. Com semblante inexpressivo, comentou: - Assim tenho que ir como representante extraoficial dos Estados Unidos. Posso perguntar o que disse a Monroe para que aceitasse? Sorrindo, Jason se acomodou na poltrona. - Expliquei-lhe que desejava enviar a meu próprio representante a Inglaterra, ter alguém em cena, por assim dizer, mas que tal indivíduo seria mais efetivo se contasse com alguma aprovação expressa do Departamento de Estado. E como vê, o secretário esteve de acordo comigo. Com uma careta, Christopher comentou pensativo: - Vejo que até certo ponto servirá melhor que meu plano original, salvo que agora ficarei definitivamente marcado como norte-americano. No outro caso poderia ter havido algumas suspeita, mas com uma carta de apresentação do Secretário de estado dos Estados Unidos não haverá nenhuma dúvida a que partido apostei.


-Sim, dou-me conta disso. Mas isto não altera absolutamente nossos planos, só reforça o que eu considerava um ponto débil. Ainda tem que realizar a mesma missão. - De acordo -interrompeu-lhe Christopher-. A sanção oficial aplainará meu caminho, e talvez se os ingleses acreditarem que só sou um observador, não se surpreenderão quando lhes formular certas perguntas. Se a sorte me ajudar, e se for muito ardiloso, não aprofundarão além do superficial. Estas cartas de introdução que comenta Monroe na carta farão com que minha missão seja mais fácil por um lado e mais difícil pelo outro. - Estou seguro de que estará à altura das circunstâncias -observou Jason com secura. - Naturalmente. Possivelmente até lhe adicionem certo encanto... burlar os britânicos é algo no que me tornei muito experiente. - Por certo, dará maior credibilidade ao feito de escoltar e atuar como tutor da senhorita Ashford. -Sim, isso também -disse, cortante. Jason se sentiu surpreso pela falta de entusiasmo em sua voz e a expressão sombria que cruzou pelo rosto severo de Christopher. Com aparente despreocupação, Jason mudou de tema. -Como acaba de chegar à cidade, suponho que ainda não compareceu à venda dos irmãos Lafitte na Têmpera. - Não, não o fiz - respondeu sem interesse Christopher, mas seus olhos se entrecerraram de repente e se escureceram -. A que se deve esta súbita curiosidade a respeito de minhas relações com Lafitte? -Lhe endureceu a voz ligeiramente ao adicionar-: Não sou um instrumento que possa ser usado contra Jean. Com gesto compungido, Jason admitiu: - Não pode me culpar por tentá-lo, sobre tudo em vista do que aconteceu na última venda. Com a atenção fixa em Jason, mas sem que suas feições delatassem nada, exceto certa vivacidade no olhar, Christopher inquiriu: - O que aconteceu em realidade? Devo supor que foi algo fora do normal? -Oh, sim! Muito fora do normal - replicou Jason com os dentes apertados-. Lafitte foi muito longe esta vez; um inspetor da alfândega e uma força de doze homens, enviados pelo governador, apresentaram-se para deter a venda. Por desgraça, os esbirros de Lafitte lhes estenderam uma emboscada, mataram Stout e feriram de morte a outros dois. O resto estão prisioneiros na fortaleza de Lafitte em Grand Terre. E como pode imaginar, o governador está fora de si... e não lhe culpo. As atividades de Lafitte são um ultraje para Nova Orleans e a Louisiana. -Outros discordam. Jason lhe jogou um olhar penetrante. -Você?


A sombra de um sorriso zombador apareceu em seus lábios. -Oh, não, eu não. Jean se enredou muito com os piratas e, como você diz, os assassinos de sua ilha Grand Terre. Mudou todo muito da época em que se fazia contrabando em pequena escala e com certo apego à respeitabilidade. Adverti-lhe que chegaria sua hora se não mudava, mas fez ouvidos surdos a meus conselhos. - Isso é muito desafortunado. Seu Jean Lafitte possui muitas qualidades admiráveis. - Jason vacilou e logo acrescentou-: Consideraria a possibilidade de ir a Grand Terre e tentar convencer Lafitte de que libere os alfandegários que retém prisioneiros, quer dizer, aos que ainda estão vivos? -Estava esperando esse pedido -confessou Christopher com ironia. -Fará-o? Christopher encolheu os ombros. - Digamos que tenho alguns assuntos pendentes em Grand Terre e que não me importaria transmitir sua petição a Jean. Não posso prometer nada mais. - Muito bem. Terá que bastar com isso - aceitou Jason a contra gosto. Christopher, acreditando terminada a reunião, começou a levantar da poltrona, mas Jason lhe indicou que ficasse. - Além da carta de apresentação de Monroe, eu tinha outra razão para chamar por você - começou Jason-, mas temo que permiti que a conversa se separasse do tema principal. Já fiz acertos com um navio holandês que zarpará dentro de uns dez dias. O navio é o Scheveningen. Estou familiarizado tanto com o navio como com o capitão; terão uma travessia tão agradável e tranquila como é possível nesta época do ano. - Não me deixa muito tempo para ver o Lafitte. - Não. A viagem à Inglaterra é mais importante. Se lhe causar muitos problemas, concentre-se nos preparativos da viagem. -Não acredito que enquanto eu esteja ausente em Grand Terre, você e sua adorável esposa considerem uma carga tomar sob amparo a Nicole e à senhora Eggleston, verdade? Depois de tudo, elas não conhecem ninguém na cidade, e Nicole deve alternar em sociedade. Jason lhe lançou um olhar divertido, mas exasperado ao mesmo tempo. Finalmente, disse em tom zombador: - Reconhecerei uma coisa, é muito hábil para aproveitar-se de uma situação! Sim, maldição, Catherine e eu nos ocuparemos da educação de Nicole. Sorrindo, Christopher ficou de pé. - Nicole não arruinará sua reputação em sociedade. - E acrescentou com picardia-: Isso sim, eu não confiaria nela onde há jogos de azar: parece gostar muito de apostar com meu criado pessoal. Jason fechou os olhos com angústia imaginando o escândalo se Nicole invadisse os salões de jogo reservados aos cavalheiros.


-Acredito que seria conveniente que esta noite trouxesse Nicole e à senhora Eggleston para jantar. Depois lhe farei saber se me atrevo a apadrinhá-la. -Perfeitamente -respondeu Christopher em tom amistoso-. A que hora devemos chegar? - Ao redor das sete, mais ou menos. E espero que minha esposa não se desgoste muito comigo por trazer convidados no último minuto. Adeus... quase espero com interesse conhecer sua pupila. Assobiando baixo e tão satisfeito como fosse possível está-lo em sua situação, Christopher caminhou a passo vivo para sua própria casa. Ao chegar, tirou imediatamente a capa e se reuniu com as damas no salãozinho da parte posterior da moradia. Na lareira chispavam as lenhas, dissipando a umidade que geralmente invadia as casas de Nova Orleans durante o inverno. Nicole estava de pé olhando pela porta que dava ao pátio ladrilhado e a senhora Eggleston se achava sentada no sofá de damasco rosa com as mãos ocupadas em algum bordado. Ambas as mulheres lhe olharam ao entrar, e Nicole, lhe observando, enquanto cruzava o salãozinho e se sentava junto à senhora Eggleston, acreditou que era uma injustiça que a só presença dessa figura alta e garbosa fizesse correr o sangue por suas veias como cavalos fogosos. Detestava sua debilidade por ele e desejava com ardor que tivesse um olho torto e o rosto manchado de varíola; então possivelmente poderia combater a atração física que a consumia. Com surpresa, admitiu que, desde a chegada da senhora Eggleston, Christopher tinha sido a cortesia personificada, e que a tinha tratado com tal indiferença e falta de paixão que a feriam e ao mesmo tempo a enfureciam. Se só pudesse esquecer aqueles momentos passados entre seus braços, esquecer que esse corpo fornido e duro lhe tinha ensinado o prazer delicioso do amor... Se ainda fosse a virgem intacta que acreditava a senhora Eggleston, não seria tão doloroso, mas agora conhecia a magia que podia oferecer sua boca, e lhe ver atuar como se fossem estranhos era uma forma de tortura intolerável. Mas não podia esperar-se outra coisa dele, disse-se com tristeza. .. Christopher lhe lançou um olhar apreciativo de soslaio. Ela estava linda com esse vestido azul que realçava admiravelmente sua silhueta alta e esbelta. O cabelo parecia uma cascata de cachos de cabelo soltos que lhe roçavam os ombros e à luz difusa do salãozinho não tinham seu habitual tom avermelhado; eram só uma exuberante profusão de cachos escuros. Não lhe via os olhos ocultos sob as pestanas grossas e escuras que tinha baixado com modéstia, e se perguntou como tomaria a notícia que tinha vindo lhes dar. Nicole aceitou a informação do jantar iminente e da próxima ausência de Christopher por alguns dias sem pestanejar, mas a notícia de que zarpariam em dez dias, fez com que o olhasse nos olhos com atitude inquisitiva. - Dez dias - repetiu quase sem fôlego-. Estaremos preparadas até lá?


-Oh, sim, meu amor -apressou-se a interferir a senhora Eggleston, animada-. Não tem nada que temer, não há nada que possa te pôr em evidência, e como o senhor Savage e sua querida esposa se ofereceram a introduzimos em sociedade, terá uma esplêndida oportunidade de aperfeiçoar suas maneiras. - E acrescentou com um sorriso picaresca-: Se é que isso fosse necessário! Nicole não teve mais o que dizer e encolhendo os ombros respondeu: -Se você diz... Por mais que Christopher a observasse com atenção, não podia discernir como a tinha afetado a notícia; Nicole estava se convertendo com rapidez em uma perita em esconder suas emoções. Por um segundo desejou, irracionalmente, que lhe lançasse um dos tenebrosos olhares do «jovem Nick», já que lhe irritava sobremaneira aquela boneca na moda que tinha ocupado o lugar do Nick. Devia transbordar de alegria por essa súbita transformação, mas estava zangado. E como reconhecia que seus pensamentos eram ilógicos e ridículos, também se sentia furioso consigo mesmo. Contemplou com alívio a perspectiva de sua viagem a Grand Terre, pois possivelmente ali poderia encontrar algum recurso para a situação conflitiva em que se encontrava. Mas não tinha muitas esperanças. O jantar com os Savage transcorreu em meio de um clima agradável. Catherine, encantadora em um traje cor lavanda claro que realçava o tom violeta de seus olhos, simpatizou imediatamente com a senhora Eggleston. Nicole, por sua parte, sofreu um súbito e agudo ataque de acanhamento, mas logo se achou enfrascada na conversa que Catherine manteve com fluidez durante toda a noite. Após o jantar deixaram os cavalheiros a sós com seus conhaques e charutos e as três mulheres, guiadas por Catherine, dirigiram-se a uma espaçosa sala de estar decorada em atrativos matizes de ouro. Enquanto conversavam frivolidades, a mente de Catherine esteve ocupada em fazer conjeturas sobre a relação entre Christopher e Nicole. Que bela era! Pensou Catherine com uma pontada de inveja ao comparar o corpo escultural de Nicole com o seu próprio, tão miúdo. Mas logo sorriu: as mulheres pequenas como ela desejavam, invariavelmente, ser deusas altas, e as esbeltas, como Nicole, provavelmente ansiavam também ser distintas. Perguntou-se quais preferiria Christopher Saxon. Quando os convidados partiram e Catherine estava se preparando para ir à cama, fez ao Jason alguns comentários sobre Nicole. Jason, sentado em uma poltrona e vestido com uma bata cor esmeralda como seus olhos, observava a sua esposa enquanto ela escovava o ondulado cabelo negro ante o espelho. Dava gosto vê-la com o pesado arbusto de cabelo pendurando até a cintura ainda esbelta, apesar dos cinco filhos que tinha dado a luz. Vislumbrando o corpo curvilíneo através da camisola transparente de fina gaze, Jason não estava prestando muita atenção a suas palavras até que Catherine comentou em tom preocupado:


- Nicole Ashford é uma das jovens mais adoráveis que conheci. Espero que Christopher Saxon se comporte como é devido com ela. Não me agradaria absolutamente que ela saísse ferida... os homens podem ser muito desconsiderados! Cruzando o quarto com grande rapidez até onde ela estava, Jason tomou entre seus braços com o semblante muito sério. -Acreditei que fazia tempo que tinha mudado sua opinião sobre mim. - Oh, e assim é, meu querido! Não me referia a como é agora, mas não pude evitar recordar o desventurada e miserável que me fez sentir algumas vezes. Não desejaria a Nicole que passasse pelo mesmo sofrimento. Jason encolheu os ombros. -Eles terão que resolver suas próprias diferenças. Tudo o que me importa é você. -lhe contemplando o rosto, murmurou com voz pastosa-: Amo-te, Catherine, amo-te com loucura. E neste momento quão único desejo é te fazer amor. - Inclinou a cabeça escura e a beijou com ardor. Catherine esqueceu com prontidão a Nicole Ashford e se dedicou a agradável tarefa de provar a seu marido que seus sentimentos eram correspondidos plenamente.


CAPÍTULO XX Enquanto a piragua se aproximava de Grand Terre, Christopher percebia a atmosfera rarefeita antes mesmo de avistar as ilhas. Não havia nada tangível que reforçasse suas suspeitas de ser vigiado por olhos hostis ao ir-se aproximando; contudo, seu instinto lhe assegurava que atrás da espessa folhagem se escondiam espiões da Barataria que seguiam todos os seus movimentos. Enquanto caminhava na praia voltou a sentir a mesma onda de suspicacia, mesmo que exteriormente a ilha parecesse à mesma de sempre. Tinha descartado sua roupa elegante e uma vez mais estava vestido como o capitão Sable. Não tinha se incomodado em barbear-se em dois dias e uma barba incipiente lhe sombreava o rosto. Ninguém lhe interceptou o passo enquanto se encaminhava a mansão de Lafitte, mas no ar seguia flutuando essa incômoda sensação de vigilância contínua que indicava bem às claras que os mesmos piratas estavam muito inquietos pelo último encontro com os homens do governador. A julgar pelos chiados e as risadas que saíam dos bordéis pelos quais passava, o jogo e a prostituição não tinham cessado, e a baía estava tão lotada de navios como em suas melhores épocas, mas era inegável que existia uma atmosfera de expectativa e de hostilidade. Também percebeu mudanças no calabouço; um contingente de guardas armados patrulhavam a área, e Christopher não teve nenhuma dúvida de que os homens de Stout se encontravam prisioneiros nesse lugar. Alguns indivíduos armados, Dominique You entre eles, também atrasaram seu avanço para a casa de Lafitte, mas não lhe impediram o passo, já que muitos lhe reconheceram como o capitão Sable. Jean lhe recebeu com afabilidade, mas seus olhos estavam alerta e vigilantes. Sabendo que não ganharia nada com um bate-papo convencional, Sable perguntou com certa ironia: -Suponho que sabe por que estou aqui. Lafitte encolheu os ombros com indiferença. - Pois claro, mon ami. Só me ocorre uma razão para ter retornado neste momento, a menos que tenha vindo para perguntar pelo espião de La Belle Garce. Christopher meneou a cabeça. - Ah, já me parecia. Vieste para negociar a liberdade dos homens do governador, não é assim? Arriscando um sorriso, Christopher inquiriu:


- Há algo que não saiba? Com o olhar duro, Lafitte disse em voz baixa: - Há muitas coisas que não sei. O que não sei a respeito de ti, mon ami, é até onde te tem o governador em seu bolso. O sorriso se apagou do rosto de Christopher, que bramou: - Oh, por todos os demônios, não acreditará que trocaria de camisa com tanta facilidade! Lafitte encolheu os ombros mais uma vez. - Quem sabe? Já ocorreu antes. Christopher lhe lançou um olhar assassino, inseguro pela primeira vez nos longos anos de trato com este homem. Lafitte lhe sustentou o olhar sem que seus olhos negros revelassem grande coisa. Finalmente, Christopher disse com serenidade. -Se for isso o que pensa, não tenho nada que dizer. -Aguardou um segundo e ao ver que Lafitte não respondia, levantou-se e perguntou-: Sou livre para partir ? Lafitte lhe olhou pensativamente, e em seguida com expressão envergonhada e zangada ao mesmo tempo, murmurou: - Sente-se! Não tenha tanta pressa, mon ami. Circunspeto, Christopher se afundou na poltrona, mas a curiosidade lhe impulsionou a perguntar: -Em realidade acha que Claiborn me comprou? Um bufido recebeu suas palavras e Lafitte grunhiu com amabilidade: - Se assim fosse mon ami, não estaria sentado onde está, nem sequer teria pisado em Grand Terre. Sabendo que era uma verdadeira imprudência, mas incapaz de conter-se, com os olhos dourados brilhantes e zombadores, Sable inquiriu: - Acha que poderia me deter? Lafitte não sabia se zangava-se ou ria, mas ganhou a risada e soltou uma estrondosa gargalhada. - Há uma coisa que sempre admirei em ti, Sable, e é sua arrogância. E não, não estou do todo seguro de poder te deter. Talvez sim, talvez não... Quem sabe? Mas a pergunta não vem ao caso. Já está aqui e não te guardo rancor nem animosidade. Relaxando, Christopher aventurou: -Escutará o que tenho a dizer? - Ora! Sei para que vieste. Está aqui para solicitar a liberdade dos homens do governador. -Muito bem, e se fosse assim? -replicou Christopher-. Alguém tem que negociar sua liberdade... por que não eu? - Muito bem, falaremos, mas lhe advirto, Sable, estou muito, mas muito aborrecido com esse dissimulado e santarrão do Claiborn. - Jean, violaste a lei, ainda está violando a lei, e não pode culpar ao governador por tentar pôr fim a suas atividades.


Encolerizado e lançando chamas pelos olhos, Lafitte ficou de pé de um salto. -Como pode dizer isso? Que lei estou violando? Uma lei promulgada por esses ditosos comerciantes norte-americanos para monopolizar o comércio a seu favor? Importa-me um nada sua lei! -gabou-se Lafitte estalando os dedos no ar-. Eu vendo artigos melhores e mais baratos aos cidadãos de Nova Orleans e por isso estou fora da lei! Me diga, por que se deve favorecer aos norte-americanos e por que devo pagar um imposto de importação por meus produtos? Inflexível, Christopher lhe advertiu: - Não estou aqui para discutir contigo; vim para te convencer de que solte os homens do governador e os entregue a mim. - Por que devo fazê-lo? São bons reféns - disse Lafitte mal-humorado. -É um néscio se acha isso! - explodiu Christopher, exasperado-. Escuta, Jean, esta vez foste muito longe! Mataste três agentes fiscais! Acha acaso que Claiborn vai ficar quieto? Está resolvido a reunir tropas e dinheiro para te aniquilar. Se liberar a esses homens, tranquilizarão-se alguns ânimos e dará a impressão de que não é um pirata qualquer, que assassina ou pede resgate pelo primeiro que deseja. Os olhos de Lafitte brilharam de astúcia. - Não me parece que Claiborn chegue muito longe com essas petições. O ouro, mon ami, nos bolsos adequados volta surdos os ouvidos de certos homens às petições do governador. Indo às nuvens, Christopher resmungou: - Muito bem, se livra do problema com subornos... esta vez! Mas lhe advirto, Jean, um dia chegará sua hora. As leis e seu cumprimento estão incrementando e não pode te burlar delas eternamente. É um maldito imbecil se não te der conta de que o sentimento público vai crescendo contra você! -Ora! O que você sabe do sentimento público! Ainda se reúnem como rebanhos a minhas vendas. A última na Têmpera, apesar dessa jogada estúpida de Stout, foi um êxito fabuloso. Um dia sim e outro não, sigo enviando contrabando a Donaldsonville e ainda encontro compradores ansiosos, compradores que não estão dispostos a pagar o preço de seus comerciantes honestos. Deixa que esses presumidos compitam livremente comigo e já veremos quem beneficia mais aos compradores. Christopher apertou a mandíbula e ficou de pé. - Certamente não estamos de acordo. Mas pelo demônio, Jean, me entregue esses homens. Lafitte lhe observou por cima de seus dedos unidos pelas gemas. Christopher podia vê-lo sopesar as vantagens e as desvantagens de conservar os reféns. O silêncio se prolongou por uns minutos. - Muito bem, farei-o, mas só para provar que sou um homem honesto e que estava protegendo minhas mercadorias e meus homens. Christopher não quis discutir. Tudo o que queria agora eram os prisioneiros e piraguas para transportá-los de retorno à Nova Orleans.


- Podemos partir hoje? - perguntou com frieza. -Se o desejar. Posso te emprestar três botes. Uns poucos prisioneiros estão ilesos, salvo alguns machucados e coisas pelo estilo, e eles poderão dirigir seus botes. Também posso te dar suficiente comida para a viagem como amostra de minhas boas intenções. Meus próprios homens lhes escoltarão até algumas milhas da cidade... Alguma objeção? Claro que tinha, mas não podia fazer nada a respeito. Só esperava que os homens de Lafitte não os degolassem nos pântanos. Ocultando suas reservas, respondeu com indiferença: - Nenhuma! Estudaram-se mutuamente; depois de tantos anos de amizade estavam em lados opostos pela primeira vez. - É uma lástima, não acha? que estejamos tão longe da concórdia e harmonia que tínhamos faz apenas uns meses -comentou Lafitte, ao fim -. Confio em ti, meu amigo, não me traia. Christopher não lhe respondeu. Tanto Lafitte como ele sabiam que por mais que pudessem estar em lados opostos no futuro próximo, o passado tinha forjado um vínculo que seria impossível de romper. - O que me diz de Allen Ballard? - perguntou de súbito Lafitte, rompendo o incômodo silêncio. - Ainda desejo que o mantenha prisioneiro, se não te importar. - Pois claro, ainda somos o bastante amigos para dispensarmos favores um ao outro - assentiu Lafitte lentamente. Ignorando esse comentário, Christopher seguiu falando: - Pode desacorrentá-lo, mas te assegure de que não escape. Zarparei para a Inglaterra dentro de uma semana, e já retorne ou não em setembro, eu gostaria que o liberasse. A surpresa fez Lafitte levantar uma sobrancelha. -Soltá-lo? A um espião? O semblante de Sable não mostrou nenhuma expressão. -Sim. Prometi fazê-lo. Para então teremos muito pouco que temer dele. A informação que possui será antiquada nesse momento e portanto, inútil. - Pelo visto, mudou muito, meu amigo. Em outra época teria ordenado que lhe quebrassem o pescoço sem um só remorso. -Possivelmente. Pode ser que liberá-lo seja tão somente uma concessão a minha própria vaidade. Lafitte fez um gesto expressivo com as mãos. - Muito bem, será como você diga. Nada mais retinha Christopher em Grand Terre, assim se levantou de seu assento.


- Agradaria-me partir o antes possível, se não te importar; sigamos adiante com o que devemos fazer. Não trocaram mais palavras, e umas duas horas mais tarde Christopher, os prisioneiros e os escoltas estavam a caminho de volta de Nova Orleans. Não foi uma viagem pesada nem difícil, embora sim desagradável. Passou acordado toda a noite porque não confiava nos homens de Lafitte. E também os prisioneiros lhe preocupavam: três ou quatro estavam gravemente feridos e os outros fracos; rogava que, nenhum morresse antes de chegar à cidade. Ninguém morreu e não pôde reprimir um suspiro de alívio quando os esbirros de Lafitte os abandonaram a umas milhas ao sul da cidade. Navegaram os últimos lances em completo silêncio. Na penumbra do anoitecer Christopher vislumbrou em pouco tempo o cais e o armazém da ribeira perto da rua Tchoupítoulas que Jason e ele tinham escolhido como ponto de reunião. As piraguas se deslizaram em silencio até os pilote, e enquanto Christopher saltava ao cais com um ágil salto, percebeu um pequeno grupo de homens que se separava do armazém ruinoso e avançava em sua direção. Reconheceu Jason que ia à cabeça e, com surpresa, ao Daniel Patterson cujo uniforme parecia desconjurado nesse sórdido distrito da cidade. Não sabia ao certo como se realizaria a troca, e o fato de que Jason estivesse ali naquele momento, encheu-lhe de maus pressentimentos; seu primeiro pensamento foi para Nick... algo tinha lhe acontecido! Mas o olhar inquisitivo que enviou ao Jason fez com que este meneasse a cabeça. - Não, ela não me arruinou socialmente; só acreditei conveniente estar aqui. Patterson não está muito contente com minha maneira de me encarregar do assunto, e daria qualquer coisa para saber como averiguou nosso plano. Parece que os espiões da marinha não são tão inúteis como eu pensava. Além disso, tenho notícias para você: zarparão depois de amanhã, na quinta-feira. Mas basta já disso, explicarei-lhe todos os detalhes mais tarde. Me diga, como foi tudo? Para então os homens de Patterson estavam em torno das três piraguas e ajudavam a desembarcar aos maltratados prisioneiros. Alguns o faziam por sua conta, mas outros, incapazes de caminhar, foram colocados rapidamente nas macas e levados longe dali. Observando com atenção a cena, Christopher respondeu com indiferença: - Tudo partiu como era de esperar. Jean os devolve em sinal de boa fé, e diz que só estava tratando, como todo bom cidadão, de proteger suas mercadorias. - Jason grunhiu de exasperação. - Não é tão simples, e Lafitte sabe de sobra! Christopher se limitou a encolher os ombros, mas antes que pudesse fazer um comentário, Patterson avançou para eles com passo vivo e semblante sério. O oficial Daniel T. Patterson era um homem jovem, muito formal e sério. A julgar pela fria saudação que lhe brindou se notava às claras que desaprovava não só a interferência de Jason mas também a de Christopher Saxon.


- Agradaria-me ter algumas palavras com você, se for possível. A pergunta se parecia mais a uma ordem que a outra coisa e Christopher já estava bastante farto de todo aquele assunto. Arqueando uma sobrancelha como em rechaço do tom desanimado de seu interlocutor, perguntou: -Agora? - Agora! - replicou Patterson, irritado. Christopher, lançando um olhar penetrante a Jason, perguntou-se a que o tinha exposto exatamente. Mas o semblante de Jason era inescrutável na escuridão e Christopher teve a convicção de que Jason estava tão ansioso de interrogá-lo como o próprio Patterson. Christopher suspirou, na aparência resignado a seu destino. - Muito bem, acabemos com isto de uma vez. Não dormi muitas horas nestes dois dias e não estou do melhor humor, mas se insistir... Entraram e uma onda de umidade e aroma de mofo misturado com um aroma de especiarias rançosas lhes invadiu. O edifício de madeira estava vazio e seus passos ressonaram lúgubres ao cruzá-lo. Patterson lhes conduziu até o que devia ser o escritório quando o armazém era usado. O quarto estava deserto, salvo por duas cadeiras de vime desvencilhadas e um escritório de pinheiro desmantelado. Uma pequena lamparina sobre a mesa iluminava com luz fraca o lugar e Christopher se perguntou de repente se não tinha sido o maior parvo do mundo. Rechaçou sentar-se na cadeira que lhe ofereciam e se recostou contra a parede com os braços cruzados em aparente descuido e os olhos alerta enquanto Patterson fechava a porta. Jason, com uma desenvoltura que revelava suas frequentes visitas a aquele lugar, abriu cuidadosamente uma gaveta do escritório e tirou três copos sujos e uma garrafa de licor barato. - Espero que desculpem a qualidade do licor -disse com um sorriso sardônico -. A maioria dos habitantes da zona respondem melhor a este uísque barato que a outros mais refinados. Um gole? Patterson meneou energicamente a cabeça, aborrecido pela tentativa de Jason de converter um assunto de estado em uma reunião social. Mas Christopher, desprezando a suspeita de que o uísque pudesse estar adulterado com alguma droga, e mais para chatear ao Patterson que por desejar um gole, assentiu e observou Jason lhe servir uma quantidade generosa e logo outra para ele mesmo. Depois de esperar até que Jason começasse a beber de seu copo, Christopher fez o mesmo e deu uma olhada aos dois homens que tinha diante dele. Perguntava-se quanto tinha descoberto Patterson por sua conta e quanto lhe tinha contado Jason. Era evidente e até compreensível que o homem se mostrasse hostil, pois estava muito claro que o oficial lhe considerava quase em um plano de igualdade com o notório Lafitte. As perguntas, quando chegaram, foram às esperadas Com quantos homens contavam os irmãos Lafitte? Quantas munições? Que classe de fortificações? Que


rotas usava Lafitte para introduzir suas mercadorias de contrabando na cidade? Quantos navios estavam amarrados em Grand Terre? O interrogatório continuou, durante horas, e a todas as perguntas Christopher, imperturbável, respondia de modo desesperador: - Não sei! Nunca os contei e a verdade é que não me interessa tanto como para pensar muito nisso. Está perdendo seu tempo e o meu! Jason não parecia interessar-se em outra coisa que no conteúdo de seu copo, e o contemplava como se estivessem ali todas as respostas que procurava Patterson. Como passava o tempo e Christopher não se mostrava mais disposto a ajudar que ao princípio, Patterson foi às nuvens e explodiu: -Maldição! Me dê às respostas devidas ou lhe prenderei, e então veremos o pouco que lhe interessa! - Já lhe tolerei muito, Patterson - replicou Christopher com um grunhido-. Me prenda se, se atrever! Se for tão estúpido para fazê-lo, prometo-lhe que em menos de quarenta e oito horas nos encontraremos no campo de honra dos Trois Capelines junto ao caminho de Metarie. O oficial empalideceu visivelmente. Já fosse de ira ou pela provocação descarada de Christopher, antes que Patterson pudesse falar Jason interveio: -Daniel -disse suavemente-, não se podem apresentar queixas contra ele, e além disso negociou a liberdade desses homens. - Não o esqueci, e tampouco que o senhor Saxon manteve estreitas relações comerciais com esse proscrito! -respondeu Patterson, inflexível. - Estou de acordo, mas também te adverti que o senhor Saxon é um homem muito obstinado -demarcou Jason pacientemente. Voltou a olhar para Christopher e este, obedecendo a um impulso perverso, lhe piscou com descaramento e murmurou: - É verdade, trata-se de algo desafortunado desde seu ponto de vista, mas deve admitir que o adverti. Jason fez uma careta. - Algum dia tenho a suspeita de que lhe pendurarão... tanto por sua rebeldia ante a lei como por sua língua ingovernável e mordaz! Por única resposta, Christopher sorriu exibindo seus dentes brancos e regulares. Depois de se afastar do muro, deixou o copo sobre o escritório e perguntou como ao azar: - Posso partir agora? -Não! -replicou Jason severamente-. Patterson terminou com você, mas eu não! E me admiro por minha própria decisão de lhe usar como instrumento neste assunto! Patterson soltou um bufo evidenciando sua opinião sobre a utilidade de Saxon, mas não disse nada mais e partiu bruscamente não sem antes despedir-se de Jason com um seco boa noite e ignorando Christopher de modo descortês. Quando


Christopher ficou a sós com Jason, seus olhos deixaram de olhar com descaramento, mas se voltaram frios e ameaçadores. -Não gostei de seu último comentário -disse deliberadamente -. Nem a intromissão de Patterson por sua culpa. Jason lhe observou de soslaio. - Não fiz nenhum segredo de meus sentimentos com relação à Lafitte e não pode me culpar se trato de lhe arrancar tanta informação como é possível. Ironicamente, acrescentou-: Não tirei nada deste fiasco, se lhe servir de algum consolo, exceto que você é um homem de palavra. Então ocorreu a Christopher que todo esse episódio tinha sido uma prova: Jason tinha querido comprovar se podia negociar a liberdade da desafortunada força de Stout, e estava uma vez mais medindo sua lealdade. Quase distraidamente, disse: - Tudo isto poderia muito bem ter sido uma farsa. Ao ver o olhar penetrante de Jason, adicionou com secura: - Jean e eu poderíamos ter nos confabulado. Ele possivelmente entregou esses homens simplesmente para lhe infundir mais confiança em mim. -E me diz isso! Acredita que não o pensei? Devo lhe confessar que ainda não tenho uma opinião formada sobre você. Dormirei mais tranquilo quando se encontrar a caminho da Inglaterra, porque não lhe tenho muita confiança, amigo Saxon, no concernente a Lafitte. - Jason o olhou fixamente. - Surpreende-me que me encomende à missão de ir a Inglaterra -comentou Christopher sem expressão na voz-. Deseja mudar de planos? - Não seja ridículo! Claro que não! É só com respeito a sua relação com o Lafitte onde radicam minhas dúvidas -exclamou com exasperação. Depois, ao mesmo tempo em que um sorriso sedutor iluminava suas feições severas, ofereceu-lhe outro gole-. Basta já de discussões. Falemos agora de sua missão na Inglaterra. Christopher aceitou com rapidez a mudança de tema, assim como um segundo copo de licor, embora se perguntou como sentaria em seu estômago vazio. -Você mencionou que adiantou a data de partida? -disse Saxon. -Sim. Como disse, é depois de amanhã. Tive a intenção de comunicar-lhe em nossa última reunião, mas me separei do tema. Monroe aceitou a proposta do ministro da guerra da Inglaterra, Casclereagh, para começar as negociações diretas. - Mmm. Meu único comentário é que Monroe deve ter feito isso faz algum tempo. Agora os britânicos tratarão com maior afinco de apoderar-se de tudo o que possam antes que se declare a paz. -Suspeito o mesmo. Por certo que agora é ainda mais imperioso que antes ter alguém na Inglaterra que esteja de nosso lado. -Não temos um representante oficial? -perguntou Christopher. -Só um cavalheiro chamado Reuben Beasley, agente de nossos prisioneiros de guerra. Acredito que Monroe incluiu uma carta de apresentação para ele. E também reside em Londres neste momento um jovem secretário de Albert Gallatin.


Acredito que só está ali para observar e informar a Gallatin da disposição de ânimo de Londres. Como você, está ali extraoficialmente; de fato mais que você, pois nem sequer tem cartas de apresentação do secretário de estado. -Encontro-me com ele? - Não. Parece-me que não nos será de muita utilidade. Mas amanhã lhe entregarei toda a informação que tenha a respeito. Serviu-se outra ronda de uísque, e bebendo-o lentamente, desfrutando de seu sabor, Christopher considerou que ia ficar mais bêbado que uma Cuba se ficasse mais tempo. Mas Jason parecia não ter pressa e comentou divertido: - Devo felicitá-lo por sua pupila. Quase com apreensão e muito receoso, Christopher repetiu: - Me felicitar? -Sim. Você disse que não me envergonharia e não o fez. Mas devo admitir que me derrotou em uma partida de cartas... é uma excelente jogadora! E é uma sorte que zarpem na quinta-feira, pois os pretendentes estarão logo clamando a sua porta. Suas maneiras são encantadoras. No sábado jantamos na mansão do governador e o próprio Claiborn se sentiu muito atraído por ela, mas só de forma platônica, compreende-me, que é um homem devoto de sua esposa. E no domingo a levamos a ópera. A ópera em si não foi um grande êxito, mas Nicole sim foi. Juro que pensei que teria que abrir passagem com a força. Um brilho indefinível brilhou nos olhos de Christopher, mas o tom glacial de sua voz foi inconfundível ao perguntar: -E Nicole encontrou algum que lhe agradasse? -Isso não poderia dizê-lo. Mas estou seguro de que o descobrirá por si mesmo... ela é, depois de tudo, sua pupila. -Talvez. - e bruscamente mudou de tema-. Se Monroe tiver aceito a sugestão de Castlereagh, acordou-se já onde se desenvolverão as negociações? - Não. Recorde que Monroe escreveu a resposta faz apenas um mês... nem sequer chegou a Inglaterra ainda. Também nomeamos uma nova comissão: John Adams será o chefe e os outros são um federalista chamado James Bayard, o presidente da Câmara de Representantes, Henry Clay, Jonathan Russell e Albert Gallatin. Finalmente Madison nomeou Campbell para o posto do Gallatin como ministro. É um grupo formidável. - Mas obterão algo? - inquiriu Christopher, sarcástico. - Bem, Gallatin e Bayard estão na corte do czar neste momento, aparentemente fazendo negociações de paz com a Inglaterra. Quem sabe o que podem obter? Você, espero, terá mais êxito do que eles conseguiram até agora. Seguiram conversando mais uns minutos e resolveram dois temas de vital importância. O primeiro, e muito mais fácil, era uma chave simples a disposição de Jason para qualquer notícia que quisesse enviar a Christopher. Sabendo as dificuldades pelas quais passaria o correio durante a guerra, teria que ter em conta que


as cartas nunca poderiam chegar à Inglaterra. Mas Jason disse que faria o impossível para manter Christopher à corrente dos sucessos de Nova Orleans. O segundo tema era mais difícil. O meio de deixar a Inglaterra em um momento em que estava em guerra com os Estados Unidos foi algo que discutiram com detalhe. Obviamente, nenhum navio inglês zarpava com destino aos portos norteamericanos. Se Christopher tivesse êxito e conseguisse documentos de valor, a rapidez seria da maior importância, e não houvesse tempo para tomar uma rota indireta, como ir de um porto a outro antes de zarpar para os Estados Unidos. Depois de muitos raciocínios e discussões, lembrou-se que utilizariam os serviços de vários corsários que pululavam pelas costas inglesas segundo a informação que tinha Jason. Christopher esteve de acordo em tudo, mas burlou dele, pois achava muito divertido que os usasse em vista da opinião que tinha de Lafitte. Mas Jason disse em tom cortante: -Estes, meu jovem amigo, são corsários honestos! - E Christopher mordeu prudentemente a língua. O mais difícil de tudo era escolher o momento oportuno. Nenhum tinha ideia de quanto tempo Christopher passaria na Inglaterra e não se atreveram a fixar uma data para a volta. Teriam que fixar vários dias e horas diferentes nos quais Christopher pudesse tomar contato com o navio norte-americano. Finalmente se decidiu que cada mês, começando desde 25 de abril, um corsário permaneceria à expectativa perto da costa de Sussex, nas proximidades da pequena aldeia de Rottingdean. O navio ficaria ancorado durante várias horas do crepúsculo até a meia-noite, e partiria se não se via o sinal de Christopher na praia. A data trocaria a intervalos mensais, sendo um dia mais tarde a cada vez. O capitão ignoraria tudo, exceto que devia recolher a um ou dois passageiros e depois voltar imediatamente com destino à Nova Orleans. usaria-se um sinal simples, como a luz de uma lanterna. Talvez não fosse o melhor plano -resultava arriscado e deixava muito ao azar- mas foi o melhor que lhes ocorreu. Solucionado o problema a sua satisfação, tomaram outro copo do uísque barato, e foi só quando terminou a garrafa e ambos estavam bêbados quando Christopher e Jason começaram a passear pelas ruas em direção a seus respectivos lares. Tinha começado a chover, e amaldiçoando baixinho, Christopher aconchegou a jaqueta ao corpo. Ao lhe ver, Jason se pôs-se a rir. - Espere até chegar à Inglaterra, meu amigo. Espere até que chova na Inglaterra.


QUARTA PARTE O PATIFE E A VADIA «Ódio e amor. Por que, talvez se perguntem. Não sei, mas sinto e vivo atormentado.» Catulo

CAPÍTULO XXI

Em fevereiro, enquanto a senhora Eggleston e Christopher se dedicavam a polir o porte e o comportamento de Nicole, Londres se viu paralisada pelas geadas mais prolongadas e severas que tinha sofrido em séculos. O rio Tamisa entre a ponte de Londres e Blackfriars se converteu em um caminho de gelo sólido, e a população passeava por essa extensão gelada como se fosse a «Rua Flutuante». Todas as ruas que davam ao rio ostentavam nas esquinas grandes letreiros onde se anunciava que se podia cruzar sem perigo, e em pouco tempo se levantou uma feira sobre o gelo. Foi algo digno de ver-se. Os barracos dos padeiros, açougueiros, barbeiros e cozinheiros se apinhavam cobrindo tudo. Havia balanços, postos de livros, boleras, lojas de brinquedos... exatamente igual a uma feira comum. A «Grande Geada» terminou, mas lhe seguiram nevadas extraordinárias que continuaram sem interrupção durante seis semanas. O tempo era ainda atroz nos últimos dias de março, quando Christopher e seu grupo desembarcaram na Inglaterra. Amaldiçoando o vento e a chuva, Christopher conseguiu levá-las rapidamente ao Grillions, um hotel da moda, na rua Albermarle. Juntos, os três primeiros meses de 1814 tinham sido penosos e gélidos na Inglaterra, mas além dessa turbulenta cortina de neve e gelo, do outro lado do Canal


da Mancha, o império de Napoleão entrava em colapso. Schwarzenburg conduzia os austriacos e Von Blücher os prusianos ao centro de Paris. Wellington derrotava Soult em Toulouse, e em 6 de abril de 1814, Napoleão aceitava sua derrota e abdicava. Abandonou Paris a meia-noite a caminho de seu exílio na ilha de Elba, e Luis de Borbón, que tinha envelhecido e engordado no desterro, era agora rei da França, Luis XVIII. Em abril chegou a seu fim o inverno mais cruel desde de muitos séculos, assim como a longa guerra contra Napoleão. Na Inglaterra o júbilo popular se manifestava nos diferentes brancos dos chapéus e nos brancos estandartes dos Borbones hasteados por toda parte. Apesar da atmosfera festiva que reinava em qualquer parte, nem Christopher nem Nicole tiveram a sensação de ter voltado ao lar. Era compreensível no caso dele, que tinha partido a contra gosto e sob circunstâncias cruéis e penosas. Inglaterra não era a não ser um país estranho para ele, e além disso, agora se encontrava em guerra com sua própria pátria de adoção. Nicole, por sua parte, não tinha sentimentos muito arraigados pela Inglaterra, já que também a tinha abandonado sendo quase uma menina fazia muitos anos. Mas a alegrou sair do confinamento do navio, onde a proximidade constante de Christopher durante a longuíssima viagem foi uma verdadeira tortura para ela. Dos três, só a senhora Eggleston estava em realidade feliz pela volta. Ela sim estava de novo no lar, E tinha a Nicole e Christopher com ela! Durante a semana que seguiu a sua chegada à cidade se dedicaram a empapar-se das últimas notícias e das intrigas que circulavam por Londres. Christopher ouviu com certa pena a notícia da abdicação de Napoleão. A guerra com o império francês tinha chegado a seu fim e agora as tropas britânicas estavam livres para servir na América. Amaldiçoou cheio de amargura a necessidade de atuar com cautela. No momento não podia fazer mais que sorrir e representar o papel do filho pródigo que retorna a sua terra natal. A primeira semana de abril passou com rapidez. Christopher se dedicou a uma grande variedade de assuntos que, embora corriqueiros, exigiam-lhe muito tempo, como ver um banqueiro da cidade, estabelecer seu crédito, alugar uma carruagem com cavalos, selecionar um agente para os negócios que poderiam apresentar-se e, sobre tudo, acostumar-se ao ambiente de uma cidade estranha. Logo as damas descobriram as delícias das lojas de Bond Street, e depois de vencer certa resistência por parte da senhora Eggleston, dedicaram-se a adicionar algumas bagatelas a seus guarda-roupas. Para as entreter, Christopher as assinou à Biblioteca Colburn e até as acompanhou em alguns lugares de interesse como a Galeria Nacional, o Museu de Londres e os animais selvagens que se exibiam no Exeter, por nomear uns poucos. Entretanto, entre as atividades de Christopher houve duas omissões notáveis e curiosas: não fez uso de nenhuma de suas cartas de apresentação nem se esforçou por encontrar os tutores de Nicole. Em seu segundo dia em Londres, entretanto, realizou uma discreta visita a Somerset House, instituição monumental onde se


registravam e conservavam todos os nascimentos, matrimônios e falecimentos e descobriu, para seu grande alívio e satisfação, que Simon Saxon era ainda o sexto barão de Saxony. Seu avô vivia, e não pela primeira vez Christopher se perguntou como receberia a notícia de sua volta esse ancião irascível. Entretanto, evitou comentar a respeito e além de averiguar que Simon Saxon estava atualmente em sua residência de Londres, não fez nada para provocar um encontro entre eles. Estava ocupado adaptando-se a Londres, descobrindo a disposição de ânimo das massas, familiarizando-se com a cidade e empapando-se das correntes, rumores e notícias que corriam como um rastro de pólvora. Depois de mais ou menos dez dias compreendeu que não podia permanecer mais nas sombras. Sua primeira visita oficial foi a Alexandre Baring, diretor da importante instituição bancária de Hope e Baring que atendia os interesses norte-americanos na Europa. Baring era, além disso, um membro destacado do Parlamento que tinha realizado uma vigorosa campanha contra a guerra com os Estados Unidos e pela abolição das nefastas ordens da Assembléia que davam a Grã-Bretanha o direito de interceptar os navios norte-americanos e levar a quem quisessem. Recebeu Christopher cordialmente, e depois de lhe oferecer assento, charutos e um refresco, procedeu a ler a carta de apresentação de Monroe. Levantando a vista da carta, falou: - Não é minha intenção lhe desalentar, mas no momento é muito pouco o que posso fazer por você. Sua estadia aqui é extraoficial e ainda estamos em guerra. Posso lhe introduzir na sociedade, mas temo que só até ali poderá chegar minha influência. Christopher assentiu com os olhos muito brilhantes - Certamente. Não é mais do que esperava e me dou conta de suas dificuldades. -Sorriu-. Só confio que você continue com seus esforços em favor de nosso país no Parlamento. - Pode ficar tranquilo nesse ponto, mas é uma situação detestável que não pode mudar com facilidade. Ao menos vós nomeastes uma comissão para as negociações de paz. -Com um sorriso melancólico, acrescentou-: Tomara que nós os britânicos façam o mesmo e escolhamos por fim um lugar para realizar as conversações. - Me perdoe! Eu tinha entendido que o lugar para as conversações seria Gotemburgo, na Suécia -exclamou Christopher, surpreso. - Não, já não é ali. No princípio era, mas agora existe um movimento, Deus sabe por que, para mudar as conversações ao Gante, no Flandes Oriental - explicou Baring. - Compreendo - murmurou Christopher lentamente -. E esta mudança de lugar demorará sem dúvida alguns meses o começo das conversações, ou pelo menos várias semanas. - Isso temo. Mas tenha presente que a Grã-Bretanha deseja a paz.


Christopher assentiu com cortesia, pouco disposto a discutir seus pontos de vista, que eram muito diferentes. Baring, depois de tudo, era membro do Parlamento britânico, e como tal, embora desejasse a paz, devia velar pelos interesses de seu próprio país. Christopher partiu pouco depois sem ter agregado muito mais. Retornou a suas acomodações no Grillions e passou vários minutos passeando por seu elegante salão privado. Era possível que a Grã-Bretanha desejasse a paz, mas não antes de outra ressonante vitória na América do Norte. Um golpe de mestre que ensinasse a esses desavergonhados súditos coloniais de antigamente quem era a verdadeira potência. O fato de que o lugar para as conversações de paz estivesse em dúvida ainda, apontava uma demora segura. Embora Monroe e Castlereagh concordaram finalmente em iniciar as negociações diretas e os norte-americanos já tinham renomado seus delegados, parecia que a Grã-Bretanha não tinha feito nada, criando, em consequência, mais atrasos. Uma demora que talvez lhes permitiria capturar Nova Orleans. Christopher soprou com desdém. Embora dependia dele encontrar provas contundentes, amaldiçoou o fato de não poder fazer muito por agora, exceto introduzir-se na voragem da sociedade britânica e esperar topar-se por azar com algo ou alguém que lhe desse a informação desejada. Reuniu-se com as damas na sala de estar das acomodações que lhes tinham atribuído. Era a hora do chá e esperava compartilhá-lo com elas. Foi à senhora Eggleston quem tirou o tema: -Quando iremos visitar sua família, Christopher? Já passamos uma semana em Londres e considero que é uma descortesia de nossa parte não ter avisado a nenhum membro de sua família de nossa chegada. Christopher a olhou com certa consternação. Evitava a sua família porque não se sentia seguro de poder suportar as possíveis recriminações e as terríveis repercussões que semelhante visita pudesse conduzir. Como iria reagir seu avô ao inteirar-se de sua presença em Londres? E Robert... o querido e bondoso tio Robert... tramaria algum novo complô para desfazer-se dele? Sua família era uma complicação que não necessitava por agora, meditou. Por desgraça, a senhora Eggleston estava disposta a insistir: -E então, Christopher? -perguntou ao ver que ele se mantinha em silêncio. Afogando um juramento contra as velhinhas intrometidas e sabendo ao mesmo tempo em que tinha razão, respondeu-lhe com certa reticência: -Suponho que poderia me apresentar em Cavendish Square esta mesma noite e ao menos deixar um cartão se não haver ninguém na casa. A senhora Eggleston lhe jogou um olhar inquisitivo, mas antes que pudesse seguir com o tema, Nicole formulou as perguntas que tanto ela mesma como Christopher teriam preferido ignorar: - Meus tios estão a par de minha volta? Tem-lhes escrito ou devo fazê-lo eu mesma?


Também a Nicole tinha agradado viver sem propósito fixo durante todo esse tempo, mas a pergunta tão atinada da senhora Eggleston lhe fez impossível seguir evitando sua própria ambígua situação. Christopher jurou baixinho ante a pergunta inesperada de Nicole. Deliberadamente tinha evitado informar aos Markham da volta de sua sobrinha devido a um problema que lhe deixava perplexo: resultava-lhe impossível suportar a ideia de que Nicole não permanecesse sob seu amparo. Disse-se com severidade que esse sentimento passaria logo, que a razão de que existisse se devia aos longos anos que tinham passado juntos, às aventuras compartilhadas em alto mar; tinha-a visto crescer, tinha-a ajudado a amadurecer do impetuoso Nick à senhorita extremamente desejável que estava sentada diante dele. E como a maioria dos cavalheiros enfrontados a duas damas determinadas a formular perguntas inconvenientes, sentia-se acossado e um tanto exasperado. - Não, não lhes informei, maldição! Não tinha me dado conta de que estava tão ansiosa por voltar para seu seio! - Estava sendo injusto, e se arrependeu imediatamente das provocadoras palavras que tinham saído de seus lábios. Os olhos de Nicole se escureceram de cólera e a senhora Eggleston assumiu imediatamente o papel de conciliadora. - Estou segura de que Nicole não quis dizer nada parecido, e a verdade, Christopher, não deveria utilizar essa linguagem diante de damas. Reprimindo com grande esforço a ira inexplicável que crescia dentro dele, disse com voz apertada: -Peço-lhes mil desculpas. E já que estão descontentes com meu proceder, ocuparei-me imediatamente de cumprir seus desejos. -Sem mais, inclinou-se com rigidez e partiu dali. -Vá! -exclamou a senhora Eggleston, bastante surpreendida por aquela explosão de mau gênio-. O que acontece com Christopher? Jamais tinha lhe visto atuar deste modo. «Não sabe nem a metade do que é capaz», pensou Nicole, furiosa. Deixou a xícara de chá sobre o pires com um golpe seco revelando sua irritação. Mas o sorriso que deu à senhora Eggleston um segundo mais tarde foi tão amável como podia esperar-se de uma senhorita bem nascida. Com um encantador encolhimento de ombros, comentou em tom leve: - Talvez não se encontre bem, ou talvez a visita que efetuou aos escritórios do senhor Baring não resultou de seu agrado. Não podemos sabê-lo. A senhora Eggleston aceitou a explicação com reservas. -Sim, suponho que pode ser isso. Entretanto, pressinto que atrás de sua indecorosa explosão de mau gênio se esconde algo mais que uma manhã desperdiçada! E obvio à senhora Eggleston tinha acertado. Christopher, para sua grande consternação, via-se obrigado a fazer coisas que não desejava. Ao abandonar às


damas, amaldiçoou sua má sorte por ter posto os olhos em Nicole Ashford, em sua mãe - essa maldita e cativante Annabelle! -, em seu tio Robert e em Jason Savage. Uma vez em suas acomodações, dedicou as horas seguintes a redigir cartas aos Markham, que terminavam, inexoravelmente, retorcidas e jogadas na lareira vazia. Não tinha nenhum pretexto nem motivo para não lhes haver avisado antes da volta da Nicole. E como sabia à perfeição, quanto mais tempo deixasse passar sem lhes notificar a presença da jovem em Londres, mais suspeita recairiam sobre sua história. Esticou a mão em busca de uma nova folha de papel e logo, soltando uma maldição, amassou-a entre as mãos e a jogou longe de si. Ao fim teve que reconhecer que não ia escrever aos parentes de Nicole, pelo menos não por agora, e a razão para não fazê-lo era assunto dele. E que o diabo levasse a quem lhe questionasse essa decisão... Nicole inclusive! Era impossível, sabia, mantê-la na casa de um homem solteiro por mais tempo, até com a companhia da senhora Eggleston. Legal e até moralmente, devia lhes haver escrito assim que pisaram na Inglaterra, e uma vez que seus tutores soubessem onde estava Nicole, ele não poderia fazer nada para evitar que a levassem de seu lado. Christopher tinha tentado adiar o quanto possível o encontro tanto com sua família como com os tutores de Nicole, mas estava lhe acabando o tempo. Absorto em seus pensamentos, cravou o olhar no brilho de suas botas altas. Se atuasse sozinho não teria esperanças de fazer nada por Nicole. Mas seu avô era um lorde, e se tudo o que Nicole tinha contado ao Allen fosse verdade, lorde Saxon sem dúvida poderia exercer grande influencia em benefício da jovem. Suficiente talvez para conseguir que Nicole ficasse livre de sua tutela? Possivelmente. Mas então surgia outro problema: se os Markham lhes despojava de sua autoridade sobre ela e sua vasta fortuna, quem ocuparia seu lugar? Se chegasse a contrair matrimônio, seu marido herdaria esses bens, pensou distraidamente. Ao dar-se conta do fio de seus pensamentos, deu um coice como se alguém lhe tivesse dado uma punhalada pelas costas. Marido? De Nicole? Santo céu, não! Era ridículo! tinham-se mútua antipatia, salvo essa estranha química que geravam seus corpos e isso, pensou com desdém Christopher, isso se debilitaria até desaparecer. Não, definitivamente não lhe ofereceria o matrimônio como saída para suas dificuldades. Não encontrou nenhuma solução sentado em seu quarto, mas sim chegou a uma decisão: procuraria seu avô imediatamente. Chamou Higgins e se vestiu com especial cuidado para o encontro: calças cinza clara, colete branco e jaqueta negra de veludo com botões dourados. O grosso cabelo escuro, um pouco mais comprido do que ditava a moda, foi escovado até brilhar como a asa de um corvo ao sol. Com seu corpo alto e elástico, feições aristocráticas e firmes, e sua elegante desenvoltura, era um jovem que orgulharia a qualquer avô... mas orgulharia a lorde Saxon?


Diversas emoções assaltaram Christopher ao aproximar-se da imponente mansão de Cavendish Square. Não temia a seu avô nem ao Robert, mas sentia certos receios e se encontrava inquieto. Simon era muito capaz de fazer lhe jogar de sua casa e Robert, se visse a possibilidade de sair impune, não vacilaria em lhe identificar como desertor da Armada Real. Ergueu a cabeça com arrogância. Se Simon não quisesse lhe reconhecer, que se fosse ao diabo. Entretanto, no mais profundo de seu ser ansiava fazer as pazes com seu avô. Depois de dar um golpe curto e seco à pesada porta de carvalho, foi recebido com amável desdém por um mordomo muito rígido, que, sem fazer nenhum comentário, fez-lhe passar e tomou seu cartão de apresentação. Fingindo indiferença, Christopher disse rapidamente: -Queria ver lorde Saxon agora mesmo, se é que se encontra em casa. Pode dizer que é por um assunto pessoal. Houve um fugaz brilho de interesse nos olhos descoloridos do mordomo ao ler o nome impresso no cartão. -Se aguardar aqui, senhor, verei se lorde Saxon está livre para lhe receber disse antes de desaparecer pelo comprido corredor branco e dourado. Agora que faltavam escassos instantes para o reencontro, impacientou-se e, desassossegado, mediu o chão luxuosamente ladrilhado com passos curtos e nervosos, sem reparar sequer na elegância do ambiente que lhe rodeava. Ficou tenso de repente ao ouvir uma porta que se abria de repente e o rugido de uma voz que nunca tinha esquecido: - Onde diabos está? É um néscio cabeça oca! Não lhe faça esperar como se fosse um mendigo... é meu neto que voltou ao lar! Um homem alto vestido elegantemente muito similar à roupa de Christopher, com olhos chamejantes como ouro brunido, a tez escura sulcada de rugas e marcada pelo tempo, e grosso cabelo escuro irrompeu no vestíbulo. A semelhança entre eles, Simon e Christopher, era incrível. Este se veria assim dentro de quarenta anos; para Simon era como voltar ao passado e ver seu próprio rosto liso e firme lhe devolvendo o olhar. Produziu-se um brusco silêncio. Ambos se estudaram sem pronunciar uma palavra. Christopher, com o coração palpitante, reprimia um sorriso impaciente enquanto o júbilo substituía seus antigos temores. -Bom - disse o ancião com irritação-, vejo que tornaste, e já era hora de que o fizesse. Agora sim os lábios de Christopher se torceram em um amplo sorriso. - Digo o mesmo! Você está igual, senhor, se posso dizê-lo. - Logo se desvaneceu o sorriso e os olhos de Christopher esquadrinharam aquelas feições tão conhecidas e queridas. - Pelo que tinha ouvido dizer, esperava lhe encontrar muito mudado comentou Christopher lentamente-. Alegra-me lhe ver com saúde, senhor.


Lhe observando por debaixo das grossas sobrancelhas, sem poder ocultar seu regozijo, Simon replicou com voz possante: -Jovenzinho desconsiderado, por que desapareceu desse modo? Quase me manda à tumba! E agora tem a desfaçatez de perguntar por minha saúde! Ora! Tenho vontade de te jogar a chutes de minha casa! As palavras mal tinham saído de sua boca quando se voltou com brutalidade ao mordomo que aguardava suas ordens e lhe gritou: - E você, cabeça oca, por que fica aí parado? Te encarregue de que preparem um quarto para o meu neto! - O olhar feroz se voltou para Christopher e perguntou em tom peremptório-: Onde estão suas malas e a bagagem? Não me diga que viajaste sem nada! Sem deixar-se perturbar pelo tom metade zangado, metade conciliador de sua voz, Christopher respondeu com tranquilidade: - Estou no momento no Grillions, e antes que faça mais planos, devo lhe advertir que não estou sozinho. - Casado, né? Bem, me alegro muito, disso. Sempre que ela seja uma boa garota, é obvio. Não permitirei a entrada nesta casa de nada que deva passar pela alfândega, seja ou não sua esposa! Mas veem! Entra em meu estúdio! A mão fornida do ancião lhe puxou pelo braço, enquanto com a outra lhe dava uma vigorosa palmada nas costas. Ambos passaram ao interior do estúdio. - Que me condenem, moço, mas esta é uma muito grata surpresa! murmurou ao fim como se lhe arrancassem as palavras do mais fundo de seu ser. A sós voltaram a observar-se mutuamente. Christopher compreendeu, tristemente, que seu avô tinha ignorado completamente o que tinha sido de sua vida até aquele momento, e se encontrou sem saber o que dizer. O que se podia expressar depois de quase quinze anos de ausência? Simon também se formulava uma pergunta parecida, mas no momento não necessitava palavras. Contentava-se em satisfazer seus olhos com aquelas feições amadas que tinha temido nunca mais voltar a ver. E estava orgulhoso do que via. Graças a Deus, o moço estava a salvo, pensava. A salvo e de retorno ao lar. Com gesto sério para ocultar a emoção que lhe embargava, Simon ordenou: -Sente-se! Não fique aí me olhando! -encaminhou-se aos licores que havia em um canto do salão e serviu generosas poções de conhaque francês em finas taças de cristal. Ofereceu uma a Christopher e se sentou. Depois de tomar um gole, Simon perguntou diretamente -: Bem, agora, jovenzinho, diga-me por que escapou dessa maneira. Deve compreender que me passaria o aborrecimento! Condenação, moço! Se tivesse esperado, teria te explicado as coisas. Surpreso, Christopher lhe olhava sem compreender. - Me explicar às coisas? - Naturalmente! Maldição, Christopher, o que eu poderia fazer a não ser dar a razão a Adrian Ashford? Aí estava Annabelle, chorando como uma Madalena,


jurando que a tinha violado. Adrian estava disposto a te matar, e eu não tive mais remedeio que atuar como o fiz. - Havia um tom de súplica na voz do ancião-. Sei que fui muito duro contigo e que não merecia isso. - Fez uma pausa ao advertir o olhar sobressaltado de Christopher-. Tive que dizer o que te disse... não podia, sob nenhum conceito, dizer a Adrian que sua esposa era uma mentirosa e uma libertina que abria de pernas com a maior facilidade... E que seu amante era meu filho, não meu neto! Mudo de assombro, Christopher lhe olhou fixamente. Por último falou com voz rouca: - Sabia? -Naturalmente! Não que planejassem te usar como bode expiatório. Mas já fazia algum tempo que tinha me dado conta de que existia uma relação amorosa entre Robert e Annabelle, e que se aproveitava de ti e respirava seu amor de moço. Apesar de tudo, nunca suspeitei que se propunham pôr chifres ao Adrian e lhe fazer acreditar que você era o amante. - Logo acrescentou com pesar-: Sinceramente, jamais pensei que você carregaria a culpa. Serei honesto... estava furioso contigo por ser semelhante néscio romântico, com Annabelle e Robert por criar aquela situação e comigo mesmo por não ter sabido antes daquele plano maquiavélico e o cortar pela raiz. -Cravando os olhos penalizados em Christopher, perguntou suavemente -: Era tão necessário para ti desaparecer desse modo? Teria que ter compreendido que jamais teria te condenado sem antes ouvir sua versão dos fatos... sua versão e a sós. Por que nunca me enviou notícias tuas durante todos estes anos? Pensava que não me interessaria saber algo de ti? Pôde acreditar que não me voltaria louco de preocupação? Era o momento mais embaraçoso da vida de Christopher, de maneira nenhuma conseguiria justificar sua atitude de todos esses anos. Era óbvio que Simon não suspeitava que Robert quase o tinha vendido como um escravo, nem sabia, aparentemente, de sua tentativa de vê-lo fazia cinco anos para reconciliar suas diferenças. Por mais que odiasse e desprezasse a seu tio, não podia delatá-lo ante o Simon. Simplesmente não podia voltar para difamar a seu único filho vivo. Se lhe revelasse toda a verdade, seu avô ficaria destroçado, assim Christopher chegou a uma decisão: o que havia entre seu tio e ele ficaria em segredo entre os dois. Olhando fixamente os olhos de seu avô e com um sorriso melancólico nos lábios, mentiu-lhe: - Temo-me, senhor, que tomei sua palavra ao pé da letra quando disse que não desejava me ver nunca mais. O rosto de Simon ficou pálido e Christopher amaldiçoou sua torpe língua. Rogou-lhe sinceramente: -O suplico, senhor, não se zangue. Minha própria insensatez foi à causadora de toda esta situação e me levavam os demônios quando lhe abandonei. Ninguém poderia ter impedido que fizesse o que fiz aquele dia... nem sequer se me tivesse chamado de novo a seu lado um instante depois teria prestado atenção. Não se culpe. Vendo que a angústia se desvanecia de seu rosto enrugado, Christopher continuou em tom leve -: Tudo ficaria bem com o tempo. Fiz como muitos outros jovens e ofereci


meus serviços à armada. Devo dizer que foi bastante bom e que minha decisão não foi um erro, embora tenha vivido precariamente às vezes. - A armada, né? - explodiu Simon enquanto seus olhos esquadrinhavam o rosto de Christopher. Odiando-se intensamente, este respondeu, imperturbável: -Sim. Depois de sair de casa, dirigi-me como um louco à pequena aldeia depois de Beddington's Corner. E me topei por acaso com vários marinheiros de licença. A vida que levavam soava tão excitante que antes de sequer pensá-lo, tinha me alistado. -Adicionou em tom firme-: E jamais o lamentei, senhor, exceto por haver partido de seu lado com tanta amargura na alma. Simon desprezou suas palavras com um gesto. - Basta! Tudo isso pertence ao passado, e agora está de novo em casa. Menos mal -grunhiu-. É meu herdeiro, não o esqueça. Quando eu morrer, será teu o título e tudo o que vem com ele. Lhe ocorreu de novo que Robert poderia ter tido outro motivo mais sinistro para desfazer-se dele e desejar sua morte. A fortuna dos Saxon era imensa e nada desprezível. O título de barão de Saxony era muito antigo e respeitado e orgulharia a qualquer homem que o ostentasse... mas mataria Robert por ele? Nada nas feições de Christopher traiu seus pensamentos. - Minha volta é muito recente para que falemos de sua morte. Confio em que passarão muitos anos antes que me converta em lorde Saxon. -Já! Pouco te importa, se tivesse morrido em qualquer momento nestes anos você nunca o teria sabido! Ao menos posso te desculpar de estar suspeitosamente interessado no estado de minha saúde! - soprou Simon. Christopher sorriu: Simon ocultava sempre o que sentia realmente atrás de uma aparência áspera e às vezes até agressiva. Seu avô jamais deixaria que soubesse a intensidade de suas emoções pelo reaparecimento de seu neto mais velho. O mais perto que podia chegar eram esses comentários, como de desculpa, concernentes aos feitos que conduziram ao afastamento de Christopher e essas perguntas cheias de recriminações sobre o paradeiro de seu neto durante todos esses anos. Ao ver o sorriso displicente de Christopher, Simon explodiu: -Se retornou para ficar aí sentado sorrindo como um idiota seria preferível que voltasse a partir. Uma incontrolável explosão de gargalhadas recebeu essas palavras, e depois de um momento de ofuscação, Simon também sorriu com certa reticência. -Agora já basta disso, demônio, e conta-me tudo! Desapareceu parte da alegria de Christopher e titubeando às vezes, mas atendo-o mais possível à verdade, entreteve seu avô com suas aventuras. A extensa narração se tornou difícil em certas partes, especialmente ao tratar de explicar por que, depois de alistar-se na marinha com tanto entusiasmo, teve que desertar do navio


e não voltar mais para a Inglaterra. Simon, certamente, desaprovou com vigor o fato de que Christopher tivesse abandonado uma carreira naval com tanta facilidade. E ele, ao não poder implicar ao Robert, não podia justificar suas ações. Assim que se limitou a encolher seus largos ombros e disse: - Tinha completado um período e feito minha aprendizagem; passando o tempo descobri que a vida de um marinheiro britânico não era para mim. -E naturalmente, jamais te passou pela cabeça que eu poderia ter conseguido que lhe convertessem em oficial! -replicou Simon com amargura -. Maldita seja, Christopher! Se tivesse me escrito, teria me encarregado com gosto de ver que te pusessem no lugar apropriado. Asseguro-lhe, me entristece pensar em meu neto, meu herdeiro, como um humilde marinheiro, quando agora já poderia ser capitão ou mais ainda! Um Saxon, o futuro barão de Saxony, um modesto marinheiro! Que vergonha! Ociosamente, Christopher se perguntou como reagiria o ancião se chegasse a inteirar-se de que não só tinha sido um modesto marinheiro, mas também um pirata! Durante as horas seguintes urdiu um relato coerente e engenhoso de navios mercantes, de como tinha feito uma fortuna em Nova Orleans e de seu desejo de voltar para o lar. Mencionou distraidamente suas aventuras de corsário, deixando a impressão de que a maior parte de suas riquezas e terras provinham de sua boa sorte nas mesas de jogo, o qual, em realidade, era certo na maioria dos casos. E como todas as noites trocavam de mão imensas fortunas desse mesmo modo nas mesas de jogo dos clubes de Pall Mall, não resultava nada degradante. Quando concluiu seu relato, Simon lhe olhou fixamente nos olhos durante uns segundos que lhe pareceram um século, e Christopher se perguntou até que ponto teria acreditado na história seu avô. Para falar a verdade, Simon estava convencido de que o único certo de toda essa fábula era a parte referida a como tinha ganho dinheiro no jogo; quanto ao resto, embora poderia ser verdade, reservava-se sua opinião, pois apesar de um intervalo de quinze anos, detectava certa falsidade no relato de Christopher. Mas Simon era ardiloso e se reservou suas dúvidas. - Ao menos tiveste o sentido comum de retornar a seu lar. Christopher esteve em um tris de assinalar que estava só de visita e que agora era seu lar a plantação da Louisiana. Mas era impensável dizer semelhante coisa. Teria que esperar e confiar em que mais adiante pudesse lhe fazer entender que não retornaria a sua antiga vida na Inglaterra. Por sorte, Simon não continuou com o tema, mas abordou outro tão delicado como aquele: - Vejamos -ordenou Simon-, notei que não mencionaste a sua esposa. Por quê? Com um sorriso apaziguador, Christopher respondeu: - Porque não tenho esposa, senhor. Devo lhe explicar minha situação com mais detalhe. -Bem, segue adiante então, não perca tempo.


Christopher começou a falar do encontro fortuito com a senhora Eggleston e Nicole Ashford, mas mal tinha mencionado o nome da primeira quando advertiu uma expressão muito peculiar no semblante de Simon. -Letitia Eggleston? -exigiu Simon, impaciente-. Letty, sabe onde se encontra? Surpreso, Christopher balbuciou: -Letty? refere-se à senhora Eggleston? -Maldição, é obvio que sim! Nunca a chamei de outro modo em minha vida! E se ela, uma jovenzinha tão arrebatada e temperamental se deixou convencer... Simon se interrompeu de repente para lançar olhadas ferozes a seu neto que lhe olhava perplexo-. Não te deixe enganar por esses ares de mosca morta que tem! Mas era a mulher mais teimosa do mundo e eu um jovem néscio, arrogante e de gênio forte! Ela poderia ter sido sua avó! Aturdido, ficou olhando fixamente para Simon, sem poder assimilar a ideia de que a digna e doce senhora pudesse ter sido qualificada alguma vez de arrebatada e temperamental e que seu avô, aquele homem mal-humorado e resmungão, tivesse contemplado a possibilidade de casar-se com ela. Tudo aquilo lhe deixava estupefato. Engoliu em seco e perguntou fracamente: - Estavam comprometidos? -Sim. Maldição, acabo de lhe dizer isso. Mas tivemos uma briga atroz por algo insignificante, e eu saí como um energúmeno jurando que não voltaria a vê-la jamais. Duas semanas depois, por puro despeito, propus matrimônio a sua avó. Esse, moço, foi o maior erro de minha vida! Fascinado por aquela parte da história familiar, desconhecida para ele, Christopher lhe impulsionou a seguir: -E então? Simon se agitou incômodo. - Nunca amei a sua avó, não o negarei, mas as pessoas de nossa fila poucas vezes se casam por amor e fui bom com ela. Mas Letty foi sempre a única mulher para mim. - Zangado, resmungou-: Entretanto, poderia havê-la estrangulado o dia que se casou com esse descarado do Eggleston! Simon cravou o olhar na taça de conhaque intacta em sua mão e seus olhos refletiram toda a amargura que sentia. - Não cometa o mesmo erro, moço! Tive que sofrer por minhas ações e causei dor também a muitas outras pessoas! Christopher guardou prudente silêncio. Simon, compreendendo que se desafogou e revelado seus sentimentos como nunca o tinha feito, olhou a seu silencioso neto com olhos gelados, como se lhe desafiasse a fazer algum comentário, e grunhiu: - Provavelmente tudo isto é muito aborrecido para ti, e para falar a verdade, é-o. Agora bem, me conte como chegou a ter Letty viajando contigo.


Christopher passou a contar à história que tinham preparado para explicar aquela situação. Simon a escutou até o final em completo silêncio; nem sequer a presença de Nicole Ashford pareceu lhe desconcertar. - Então essa menina esteve com Letty todo este tempo - murmurou Simon quando Christopher pôs fim a sua história-. Sempre me perguntava onde estaria. Sabia que Letty se afeiçoou a essa criatura e que os tios dela eram um par de abutres, soube a primeira e única vez que os vi. Agora, o que devemos fazer? - Esquadrinhou o rosto cuidadosamente inexpressivo de Christopher e bufou-: Quer que as acolha em minha casa, né? -Se você aceitar - respondeu Christopher imediatamente e com sinceridade -. Não está certo que siga ocultando o paradeiro de Nicole a seus tutores. E sei que assim que lhes notifique sua presença, descerão sobre ela como corvos e a encerrarão no campo sem dúvida nenhuma. Por certo, não permitirão que a senhora Eggleston a acompanhe. -Sem dúvida. Posso te dizer, moço, que vão levantar uma poeirada de mil demônios. Durante anos estiveram vivendo de sua fortuna, todos sabem. Até tentaram que declarassem morta à garota o outono passado. Mas os tribunais rechaçaram a petição, disseram que teriam que aguardar quando tivesse cumprido sua maior idade, quer dizer até seus vinte e um anos, antes de tomar essa decisão. O tio não gostou, mas o filho, Edward, ficou furioso. -Simon soltou uma risadinha maliciosa-. Vou gostar de ver sua cara quando descobrir que a menina voltou! Christopher sorriu com inapetência. - Descobrirá também que terá que se ver comigo se tiver algum comentário que fazer a respeito - disse o jovem com ardor. «Oh, Oh, o vento sopra nessa direção!» Brilharam-lhe subitamente os olhos. - Esta noite já é muito tarde para trazer as damas, mas amanhã a primeira hora espero que os três estejam aqui sem falta. «Voto a Deus!», pensou Simon divertido uma vez que Christopher partiu. Isto sim que era agradável, e ia resultar do mais entretido. Seu neto em casa, Letty com ele, e a batalha pela pequena Ashford para dar mais emoção ainda ao reencontro. Jubilosamente decidiu que superar em manhas os Markham proporcionaria mais distração de que tinha desfrutado em toda sua vida.


CAPÍTULO XXII

A perspectiva de uma mudança a Cavendish Square era aduladora. Contudo, apesar de haver concordado rapidamente com as exigências de Simon, Christopher tinha suas reservas. Não lhe agradava a ideia de enganar e aproveitar-se de seu avô, mas se consolava sabendo que haveria se sentido muito ofendido se, se tivesse negado. A senhora Eggleston, ao se inteirar do plano à manhã seguinte durante o café da manhã, também teve suas reservas, mas as suas foram de índole puramente social. -Christopher -perguntou-, é correto? Para ti sim o é, mas Nicole e eu não estamos nem pelo mais remoto aparentadas com lorde Saxon. As pessoas não poderiam comentar de nós por viver em sua casa? Era uma pergunta válida e um problema que Christopher não tinha tido em conta. A só presença de uma dama tão respeitável assegurava a reputação de Nicole enquanto vivesse com ele, mas, quem assumiria esse mesmo papel para preservar o bom nome da senhora Eggleston enquanto vivesse sob o mesmo teto que Simon? Era uma situação muito incomum, posto que nem seu avô nem ele eram tutores legais de Nicole, e sem dúvida se especularia bastante sobre como estavam às coisas. Não tinham necessidade alguma de que os fofoqueiros inveterados e os propagadores de escândalos se interessassem no papel que cumpria a senhora Eggleston em todo aquele assunto. Era ridículo se, se considerava a idade dos envolvidos, mas em vista daquele antigo compromisso matrimonial entre eles - e haveria alguns que o recordariam com toda segurança- era um problema que devia ser resolvido. Felizmente Simon, muito mais preparado e perspicaz que Christopher e a senhora Eggleston, quando seu neto lhe visitou essa manhã e lhe explicou a nova complicação, disse com um bufido. - Assim acaba de pensar nisso, né? Bom, moço, eu o pensei ontem à noite mesmo! - Muito agradado consigo mesmo, Simon continuou-: Já fiz acertos para que minha irmã Regina venha de visita. Ficou viúva, como saberá, e vive em uma pequena residência de Chigwell, em Essex. Enviei-lhe uma mensagem com um moço de quadra ontem à noite depois que partiu e não faz mais de dez minutos que voltou com sua resposta. Regina chegará esta noite, assim tudo está perfeitamente solucionado. Christopher retornou ao Grillions e comunicou à senhora Eggleston os acertos que tinha feito Simon. A anciã murmurou com um tom de admiração na voz:


- Que preparado foi! Claro que sempre foi. - E sem mais, os serventes começaram a preparar tudo para a mudança a Cavendish Square. Nicole permaneceu absorta em seus pensamentos toda a manhã. Não podia entender por que Christopher parecia reticente de informar aos Markham de sua presença em Londres. Por quê? De repente lhe tinha ocorrido que queria retê-la a seu lado por carinho, mas desprezou o pensamento com firmeza. Não ia se deixar enganar por ele nunca mais! Nicole estava se acostumando a deixar-se levar pela senhora Eggleston e por Christopher. Tinha perdido seu espírito de luta. Levava uma vida prazenteira; a anciã era boa e carinhosa com ela; Mauer, competente e divertida; Christopher, geralmente muito cortês, quase como um tio, encarregando-se de todo o necessário. Era pouco menos que impossível fazer outra coisa que aquilo que se pedia dela, e tudo o que lhe exigia era que usasse vestidos bonitos e elegantes e que atuasse de modo encantador. Resultava-lhe cada vez mais difícil lembrar-se dos dias em La Belle Garce e da criatura revoltosa que tinha sido. Pareciam-lhe um sonho às vezes em que Christopher a possuiu e até quase acreditava que era a senhorita recatada, doce e um pouco coquete que aparentava ser. Simon lhes deu uma amável boas-vindas e logo se ausentou, pois odiava ver a casa revolta. Por volta das cinco da tarde as damas estavam comodamente instaladas em uma impressionante série de quartos do primeiro piso, cada uma com quarto e vestidor privados. Compartilhavam uma elegante sala de estar decorada em suaves cores de amarelo com um chamativo tapete de intenso tom azul safira. As acomodações de Christopher se encontravam na ala oposta, separada por um amplo corredor atapetado de cor rubi e presumivelmente eram tão elegantes como as da senhora Eggleston e Nicole. Os serventes tinham seus próprios quartos, como a maioria do pessoal de lorde Saxon, no segundo piso da mansão. A chegada de Regina essa noite, quase três horas mais tarde que o esperado, causou uma pequena revolução, pois viajava com uma donzela e um criado pessoal, além de seu moço de quadra e seu chofer. Lady Darby era uma mulher alta de costas erguida cujas feições poderiam descrever-se como distinguidas, mas belas. Tinha o nariz longo, a boca grande e um queixo firme e decidido. Como seu irmão, Simon, tinha o cabelo escuro, mas embora fosse quinze anos mais nova, seus cachos escuros estavam generosamente veteados de fios de prata. Uma vez que lhe tiraram as suntuosas peles forradas de seda, ficou embelezada com um elegante vestido de intensa cor castanha avermelhada. Levava o cabelo preso e recolhido em um severo, mas atrativo coque que acentuava seus traços distinguidos. Regina estava envolta em um ar de majestade e indiferença que a fazia sobressair entre todos. Mas nada disso era verdade, já que sua aparência formidável ocultava um ser bondoso e equânime. Irrompendo no salão, exclamou:


- Meus queridos! Sinto muito incomodar por chegar tarde, mas simplesmente me resultou impossível fazê-lo antes. - Olhando burlonamente a seu irmão, repreendeu-lhe-: Vá, Simon, nunca pensei que a sua idade fosse tão impetuoso! Enquanto ele balbuciava e lhe jogava olhadas ferozes, Regina cruzou o vasto salão e abraçou carinhosamente à surpreendida senhora Eggleston -. Queridíssima Letitia, é maravilhoso voltar a verte! Como pôde partir desse modo? É tão grato te encontrar outra vez, E que maravilhoso é que esteja na casa de Simon! Teremos tempo de sobra para conversar em nossas horas de lazer. Deixando à senhora Eggleston em um estado vizinho a estupefação, os olhos de Regina caíram sobre Nicole, que estava de pé junto a um sofá de cetim. -Querida! Que criatura tão adorável te tornaste! Os cavalheiros se amontoarão a nossa porta! Fará furor em muito pouco tempo. Oh, vou divertir-me muitíssimo, estou segura! Comprometo-me a afirmar que dentro de duas semanas não teremos uma só noite livre. Nicole estava fascinada. Que mulher tão encantadora era lady Regina Darby! Fez-lhe uma graciosa reverência e disse: -Agradeço suas amáveis palavras. É muito gentil de sua parte e de lorde Saxon nos acolher nesta casa. Espero não ser uma decepção para vocês. -Decepção? Minha querida, eu jamais me decepciono! Ninguém se atreveria a me decepcionar! - replicou Regina com uma piscada maliciosa. Ao voltar-se com lentidão, o olhar inquisitivo de Regina caiu sobre a figura displicente de Christopher recostado com descuido contra o suporte da chaminé. Com seu traje habitual de jaqueta negra de veludo e calças claras, era um homem que atraía os olhares de todas as mulheres. Observou-lhe com atenção durante uns segundos sem revelar o que pensava dele. -E então, Christopher? -disse friamente-. retornaste para ficar ? Ou tem a intenção de desaparecer sem avisar e partir o coração de seu avô outra vez? -Regina! -trovejou Simon. -Oh, vá! -suspirou a senhora Eggleston, consternada. Tudo estava se desenvolvendo de modo tão prazenteiro até aquele momento, pensou. Tinha esquecido que Regina não tinha cabelos na língua. Nicole, um pouco separada dos outros, observava a cena com muitíssimo interesse. O capitão Sable, como ainda seguia pensando em Christopher em algumas ocasiões, sempre foi um enigma para ela, e por mais que se esforçasse, não podia lembrar-se de havê-lo visto antes em Beddington's Corner, embora sabia que assim devia ter sido. Tinha muita curiosidade por saber algo dele, e essa era a primeira oportunidade que lhe apresentava de conhecer algo mais de seu misterioso passado. Portanto não foi nada estranho que observasse atentamente enquanto Christopher, imperturbável na aparência apesar das palavras mordazes de sua tia avó, fazia uma reverência e, com um sorriso zombador nos lábios, dizia com ar conciliador:


- Considera oportuno me brindar com esta recepção inquietando-se por minha partida? - Touché! Concedo-te uma coisa, jovenzinho, é indubitável que te converteste em um homem muito atrativo e sem cabelos na língua. Mas não tente me enganar! - replicou acremente Regina. E quando Simon abria a boca, voltou-se para ele, exclamando-: Oh, te cale, querido! Todos somos família, e nas famílias sempre se formulam perguntas embaraçosas! Vamos! Não é para tanto! E agora, falando em prata... me deem algo para comer! Juro-lhes, estou morrendo de fome! A noite passou rapidamente enquanto Regina lhes punha a par das últimas intrigas da sociedade. Formulou poucas perguntas a respeito da chegada repentina dos hóspedes, e deu a sensação de aceitar como autêntico o relato que lhe contaram. Mas Christopher receava muito de lady Darby; intuía que sua tia avó de maneira nenhuma tragaria esse conto sem reservas. Várias vezes, durante a noite, observou em seus olhos escuros um brilho especulativo ao lhe olhar. Essa noite uma sensação de frustração e de dúvida lhe manteve insone. «Devo ser o néscio mais arrogante de nossa época», pensou aborrecido, «por ter acreditado que podia retornar a Inglaterra, me desfazer de Nicole e da senhora Eggleston como se fossem malas imprestáveis, enganar a meu avô, descobrir os planos de ataque à Nova Orleans e depois partir.» À manhã seguinte Simon e ele planejaram dar um passeio por St James Street; lorde Saxon queria mostrar seu neto nos diversos clubes de homens aos quais pertencia e que se encontravam ali. Mas, quando Christopher desceu para tomar o café da manhã, esperava-lhe uma carta que tinha sido entregue em mãos. Depois de dar uma olhada ao conteúdo, franziu o cenho. Para que quereria vê-lo Alexandre Baring o antes possível? Encolheu os ombros, já o averiguaria dentro de pouco. Procurou Simon e se desculpou por não poder lhe acompanhar. No momento seguinte saiu para a residência de Baring na cidade. Ao chegar minutos mais tarde, conduziram-lhe à biblioteca, onde este estava conversando com um homem de idade amadurecida. Encontravam-se comodamente sentados em confortáveis poltronas de respaldos muito altos e estofos de couro marroquino vermelho. Ao lhe ver entrar, Baring ficou de pé imediatamente. -Muito amável de sua parte vir tão rapidamente. Em realidade, esperava que o fizesse. Mas entre, tenho aqui algo que será uma agradável surpresa para você! Dizendo isto, Baring levou Christopher até a poltrona onde se achava sentado o homem mais velho. - Albert, este é o cavalheiro de quem estive te falando. Monroe, poderia adicionar, tem-me escrito muito favoravelmente sobre ele. Christopher Saxon, apresento-lhe ao senhor Albert Gallatin. Albert, interessará-te saber que Saxon chegou de Nova Orleans faz não mais de duas semanas. Estou seguro de que terão muito do que falar mais tarde.


Christopher olhou para Gallatin cheio de assombro. Depois de estreitar as mãos, exclamou: - Senhor! Nunca esperei lhe ver em Londres. A última notícia que tive de você era que estava em São Petersburgo, Rússia. - Assim era... sem absolutamente nada para fazer, exceto passar por turista durante meses. Como não estava obtendo nada, Bayard e eu decidimos partir. Tinha a esperança de que ao chegar aqui Alexander teria boas notícias para me dar, mas parece que não se avançou nada. Baring pareceu incômodo. - Expliquei-o nas cartas, meu governo rechaça dos plano toda mediação, pois considera que não se justifica uma intromissão estrangeira nesta guerra. Ao menos, agora que o senhor Madison aceitou a ideia de Castlereagh de cercar negociações diretas, salvou-se um dos maiores obstáculos. -E a questão da partida injustificada? -inquiriu Gallatin cortante. Mais incômodo que antes, Baring respondeu: -Simplesmente, não podemos aceitar suas demandas a respeito sem perder nossa armada. É inútil e pouco realista discutir esse tema em forma abstrata quando é uma necessidade, imperiosa por nossa parte. Maldição, Albert, estivemos lutando por nossas vidas! Gallatin não se mostrou comovido pelos comentários apaixonados de Baring, mas Christopher os achou intrigantes. Os Estados Unidos, na aparência, tinham declarado aquela guerra pela partida injustificada de marinheiros norte-americanos, e agora dava a sensação de que, apesar da proposta de iniciar as conversações de paz, a Grã-Bretanha se negava a considerar sequer esse tema nas conversações. Então Christopher perguntou com frieza: - Considera correto que seus navios de guerra interceptem nossos navios em alto mar e tirem deles a cidadãos norte-americanos para lhes fazer servir pela força na armada britânica? - Era um tema que impregnava fundo nos sentimentos de Christopher, pois não lhe tinham enganchado a ele mesmo? E se essa experiência lhe marcou para toda a vida... quanto mais não a padeceriam os norte-americanos? Baring fez ouvidos surdos à pergunta. Não aprovava aquela prática, e não podia fazer muito para impedi-la. Mas nesses mesmos navios havia desertores britânicos que eram necessários para lutar contra Napoleão. Estava convencido, por outra parte, de que muito poucos marinheiros norte-americanos foram enganchados, e tinha suas dúvidas de que se recrutou realmente a algum. Foi Gallatin, um homem paciente e moderado, quem dissipou a leve hostilidade que flutuava no ambiente, ao afirmar com calma: - Não acredito que seja tanto uma questão de direito como de saber se chegará a deter-se de uma vez. - Olhou inquisitivamente a Baring antes de continuar-: Então, não temos que discutir o assunto da partida; entretanto, nossos governos acordaram negociações diretas. O que temos que discutir? O tempo?


- Sei, sei -comentou Baring, exasperado-. Não sei com certeza em que direção se encarrilharão as conversações. Por agora, contento-me sabendo que está se avançando para que os diálogos comecem. - sorrindo, adicionou-: Já sabem como são estas coisas. Gallatin sim sabia. Primeiro se produziu a oferta de mediação do czar durante a qual, segundo Ramanzov, o embaixador russo, os norte-americanos demonstraram «muito ardor em suas aspirações de paz. Agora tinham aceito as negociações diretas e renomado uma nova comissão, só para descobrir que o bando britânico não só não tinha renomado a sua, mas também além disso, queria trocar o lugar onde deviam se realizar. Às vezes pensava que jamais se sentariam ao redor da mesa de negociações. Desde aí a visita nada ortodoxa que tinham realizado a Inglaterra James Bayard e ele mesmo. Não conseguiram nada durante os meses passados na Rússia, absolutamente nada. E cansados de aguardar em vão, Bayard e ele tinham deixado John Quincy Adams em seu papel de enviado dos Estados Unidos a Rússia em São Petersburgo. Gallatin admitia ante si mesmo que toda a viagem a esse longínquo país tinha resultado um fiasco. Bayard e ele tinham chegado a aquela capital fazia quase um ano e só meia hora mais tarde tinham descoberto que os britânicos tinham rechaçado a mediação do czar. Tentaram partir imediatamente para os Estados Unidos, mas se encontraram com os formalismos diplomáticos que lhes obrigavam a permanecer no país. Como enviados especiais à corte de São Petersburgo deviam visitar o czar e apresentar seus créditos. Desde aí em adiante, só este poderia decidir quando se considerariam terminados seus esforços para mediar entre ambos os países. E durante os últimos nove meses, Bayard e Gallatin foram turistas involuntários. Sim, certamente que sabia muito bem «como são estas coisas». Christopher também tinha suas próprias ideias de como eram aquelas coisas. Gallatin podia pensar que a causa da demora era um assunto de mera circunstância e formalismo, mas Christopher tinha a crescente certeza de que os britânicos, deliberadamente, estavam dando voltas ao assunto para ganhar tempo e dar um golpe mortal aos Estados Unidos. Entretanto, não podia, sob nenhum conceito, fazer um comentário semelhante diante de Baring. Com essa ideia em mente, engenhou antes de partir para marcar um encontro privado com Gallatin. A chegada deste e Bayard a Londres era uma contingência que nem Jason nem ele tinham considerado. Não lhe afetaria em nada e de fato poderia prestar maior atenção às razões que ele mesmo tinha dado para estar em Londres. Perguntava-se, contudo, o que acreditariam poder conseguir esses dois homens. Como ele mesmo, eram visitantes sem fila diplomática em uma nação hostil. É obvio lhes excluiria de todas as recepções oficiais, e dava a sensação de que se encontrariam em uma posição bastante incômoda sem poder fazer grande coisa, salvo permanecer à margem e recolher a informação que pudessem. Esperava quase o mesmo em seu caso, mas por outro lado, seu propósito era infiltrar-se e, por qualquer


meio que estivesse a seu alcance, averiguar com exatidão quais eram os planos dos britânicos para os Estados Unidos do Sul, em especial para Nova Orleans. Gallatin e Bayard estavam em uma situação totalmente diferente. Eram comissionados de paz designados diretamente pelo governo dos Estados Unidos. Em seu caso, atendia interesses privados, os seus próprios e os de Jason Savage, apesar da excelente carta de apresentação de Monroe. Impaciente pela reunião com Gallatin, passou o resto da manhã inquieto e com os nervos exaltados. E como não desejava que ninguém impedisse o encontro, evitou passar por Cavendish Square e arrumou para matar o tempo até a hora da entrevista vagando sem rumo pelas ruas de Londres. Apresentou-se no domicílio de Gallatin quinze minutos antes da hora fixada e se alegrou ao ser recebido imediatamente em suas acomodações. Christopher estudou com atenção aquele homem. Não era estranho que sentisse curiosidade por esse ex-ministro cujo mandato para a comissão se impediu durante tanto tempo e causado tal furor no Congresso. Albert Gallatin não era um indivíduo a quem pudesse encontrar-se em meio de uma briga parlamentaria. Era paciente, tolerante e moderado, um pensador cabal, não dado a agir com precipitação. Christopher abrigava esperanças de que os outros comissionados designados pelo governo fossem do mesmo calibre. Gallatin lhe recebeu com um sorriso e esperou até que Christopher estivesse sentado frente a ele para perguntar: - Agora, meu jovem amigo, o que posso fazer por você? - Não estou seguro de que possa fazer algo por mim. Só queria lhe falar em privado. - Tem algo a dizer que não possa ser mencionado diante de Baring? -Gallatin se mostrou um tanto surpreso. Sentindo-se em situação desvantajosa, mas resolvido a expressar seus pontos de vista, Christopher falou: -Sim. Assim é, em efeito. Acredito que o senhor Baring está trabalhando sinceramente em nosso benefício, mas também estou convencido de que todo este atraso é deliberado. - E considerando que, já postos, merecia a pena falar com absoluta claridade, concluiu desafiante -: Acredito que o governo de Castlereagh está impedindo intencionadamente o começo das conversações de paz. Estou totalmente convencido de que os britânicos anseiam outra vitória ressonante na América para reforçar sua posição na mesa de negociações. -Oh, estou convencido de que isso é exatamente o que estão planejando. - Seriamente? - inquiriu Christopher, confundido pela serena aprovação de Gallatin. -Oh, sim, meu jovem amigo, estou persuadido de que nossos companheiros britânicos têm em mente a conquista territorial -respondeu Gallatin com um suspiro de fadiga-. Tal e como estão às coisas, têm uma boa vaza, e sua posição é forte depois


da guerra com Napoleão, mas estou de acordo em que gostariam de nos derrotar por uma ampla margem. Isto me ensinará a jogar a intrigas internacionais, pensou sarcasticamente Christopher. Aparentemente tinha subestimado ao comedido senhor Gallatin. Este, lhe olhando com muita atenção, adivinhou seus pensamentos e disse com lentidão: - Estou me habituando a que a gente diga uma coisa e faça outra. Acredito que não há nada que possamos fazer você e eu. Comuniquei a Monroe minhas suspeitas e espero que se dê conta de que teremos sorte se podermos conservar nossas fronteiras como estavam antes da guerra. Proponho-me lhe advertir energicamente de que os britânicos lançarão uma ofensiva maciça antes do fim do ano e que seria prudente assinar a paz o quanto antes. Poderíamos estar em grave perigo como nação se não o fizermos. É muito mais aconselhável esquecer qualquer ideia sobre conquistar o Canadá antes de nos encontramos de novo sob o domínio britânico. - Isso é precisamente o que eu penso. Alegra-me saber que lhe tem escrito a respeito. Por onde quer que vou comprovo a supremacia britânica -disse Christopher com absoluta sinceridade -. E lhe confesso que me preocupou sobremaneira. Nosso Congresso deve estar vivendo em um mundo de sonhos se acredita que poderemos ganhar algo mais nesta guerra inútil. Gallatin lançou um olhar cheio de ironia a Christopher. - Nosso Congresso vive em um mundo de sonhos. – Em seguida, como não havia muito mais que adicionar, disse- Agradeço-lhe profundamente sua visita e o fato de me dar a conhecer sua opinião. Você teve mais oportunidades que eu de observar a situação, e confesso que é reconfortante saber que não estou sozinho em minhas suspeitas. Carrego a esperança de convencer Monroe e ao Madison. - Concordo inteiramente com você e ofereço-lhe meus sinceros desejos de que obtenha seu propósito. -ficou de pé e adicionou-: Senhor, se em algo posso lhe servir, por favor, não vacile em me comunicar imediatamente. Faria-me profundamente feliz fazer tudo o que esteja a meu alcance para lhe ajudar. - Foi um oferecimento sincero, pois Christopher instintivamente respeitava e admirava ao Gallatin. Ficando também de pé, Gallatin lhe estendeu a mão e disse: - Tenha a absoluta segurança de que lhe chamarei se for necessário. E não demore nem um segundo em me procurar, se eu puder lhe servir em algo. Os norteamericanos devem se manter muito unidos. - Especialmente quando nos encontramos em um país que está em guerra com o nosso! Soltando uma gargalhada, Gallatin assentiu. -Especialmente! Foi um final agradável para a reunião, e Christopher partiu dali sentindo-se mais crédulo e seguro de não estar perdendo o tempo em uma investigação inútil.


Haveria uma invasão sem lugar a dúvidas. Mas, quando? E o mais importante de tudo, onde? Como era de esperar, Simon estava bastante zangado pela deserção de Christopher em seu primeiro dia em Cavendish Square, e quando reapareceu minutos antes do jantar, o ancião resmungou: - Bem, é muito amável por sua parte te reunir conosco esta noite. Não há nada mais que tenha que fazer? Como única resposta Christopher lhe sorriu, o qual enfureceu ainda mais a seu avô. As damas não demoraram para chegar e então o desgosto de Simon se derrubou ao outro tema que lhe preocupava. Fulminando com o olhar a sua irmã, exclamou, irritado: - O que é essa tolice que ouvi sobre uma fastuosa festa em casa o mês que vem? Maldição, Gina, advirto-lhe seriamente, não permitirei que ponha minha casa de pernas pra cima com suas maquinações! Está aqui como minha hóspede, não o esqueça! - Oh, vá! Este também foi meu lar antigamente! E como - perguntou não sem razão -, iremos apresentar Nicole se não for com um grande baile de gala? Qualquer outra coisa seria miserável e indigna. Até Letitia está de acordo comigo! -Oh, sim, Simon, é imprescindível - interveio a senhora Eggleston -. Não é verdade que em realidade não te importa? - rogou, e seus olhos azuis se aumentaram e se cravaram, suplicantes, no rosto de Simon. Algo que se parecia perigosamente ao rubor tingiu as feições enxutas de Simon, e estupefatos, Nicole e Christopher viram como se derretia sob o olhar suplicante da senhora Eggleston. Afundando-se nas profundidades azuis daquele olhar, murmurou: - Bom, não acredito que um só baile seja uma experiência muito penosa. Depois, franzindo o cenho com fúria, arrancou os olhos dos da senhora Eggleston e grunhiu a Regina: - Mas recorda bem isto, não quero ver esta casa envolta em sedas rosadas nem nenhuma outra tolice semelhante! Regina se limitou a sorrir com ingenuidade, feliz com o resultado. Mas por outro lado, em nenhum momento albergou dúvidas a respeito: seu irmão sempre tinha sido um parvo quando Letitia estava por perto e Regina com toda falta de vergonha se aproveitou disso. Mais que surpreendida da brusca mudança de lorde Saxon, Nicole jogou uma olhada a Christopher como se ele pudesse resolver o mistério, e este, adivinhando sua perplexidade, articulou com os lábios: - Mais tarde. Entretanto, passaram vários dias antes que tivesse oportunidade de conversar a sós com Nicole. Essa noite seu avô tinha jantado no clube com vários de seus


amigos, e depois da refeição em Cavendish Square, a senhora Eggleston e lady Darby se encerraram no salãozinho azul ocupadas nos preparativos da festa. Nicole, a quem as horas e os dias lhe pareciam séculos, estava praticando apaticamente no piano do salão de música quando Christopher, que saía para passar a noite fora, entrou esperando encontrar às três damas reunidas. Ao ver que Nicole estava sozinha, vacilou, mas como a relação entre eles tinha sido quase amistosa ultimamente, julgou que não era necessário afastar-se de repente. Fechando a porta a suas costas, cruzou o vasto salão até onde ela estava sentada atrás do brilhante instrumento de jacarandá. -Propõe-te seguir uma carreira musical? -perguntou ele, brincando. - Nada disso! Sua tia avó e a senhora Eggleston me desterraram de suas intrigas depois que lhes perguntei por que é tão importante convidar à princesa Esterhazy e à condessa Llevem – Nicole disse com uma careta. - Por que é tão importante? - inquiriu Christopher, interessado. Os olhos topázio da moça brilharam com picardia. - Bem, verá, as duas são patrocinadoras no Almack's, e lady Darby diz que devem me outorgar documentos probatórios. Cada semana se prepara uma lista para os convites e se meu nome não aparecer nela, estarei arruinada socialmente. Ao ver a expressão de desdenhosa incredulidade de Christopher, Nicole exclamou com convicção: - É verdade! Lady Darby até citou um verso que se refere a isso. Me deixe ver se o recordo. - Franzindo levemente a testa, concentrou-se e logo lhe iluminou o rosto ao dizer com ar de triunfo-: Tenho-o! «Dessa mágica lista tudo depende, Fama, fortuna, amigos e amantes: É ela a que agrada ou irrita a Todos sem distinção de fila, sexo ou idade. Se uma vez no Almack's lhe aceitam, Como os monarcas, nada indevido fará; Mas, banido dali a noite da quarta-feira, Por Deus, nada correto lhe reconhecerão! Christopher sorriu com certo cinismo; o famoso poeminha do senhor Henry Luttrell tinha ficado gravado na memória de Nicole. -E todo seu êxito depende dessa lista e dessas duas damas? -perguntou com secura. -Sim, no que à lista se refere, mas há mais patrocinadoras. Lady Darby mencionou a lady Pulôver, quem, conforme disse, é muito vaidosa, e a lady Cowper. Parece que esta última é muito agradável e gentil. Há outras mais, acredito, mas estes são os únicos nomes que recordo neste momento. Darby diz que não tem por que


haver nenhum contratempo, mas se a princesa Esterhazy ou a condessa Llevem põem reparos por causa de meus tios e esta situação nada convencional, terá que abordar a lady Pulôver. - sorrindo ironicamente, concluiu-: Aparentemente, esta adora armar grande revoo e poderia interessar-se em me proteger, embora só fosse para incomodar aos outros. E sua tia avó está totalmente convencida de que se fracassa todo o resto, lady Pulôver fará precisamente isso. - Hmm. Parece que minha tia avó o tem tudo muito bem calculado e que agarrou as rédeas em suas mãos. - Fingindo grande consternação, Christopher gemeu: Espero sinceramente que não tente se encarregar de mim! Nicole soltou uma risada alegre, pois era a primeira vez em anos que se sentia de verdade cômoda com ele. - Entendo-te. É a mulher mais mandona que já conheci, mas o faz com tal encanto que não se pode menos que estar de acordo com seus planos. Nem sequer seu avô lhe nega nada, por isso vi. -Vá, aí é onde te equivoca! -replicou Christopher em tom zombador -. Foi à senhora Eggleston quem conseguiu que ele desse seu consentimento para a festa, como você bem sabe. Estava presente! Baixando a vista dos olhos risonhos de Christopher e quase respeitosamente, inquiriu: - Houve algo entre eles? Não é minha intenção bisbilhotar, mas foi tão evidente que seu avô deu seu consentimento para o baile por causa da senhora Eggleston que não pude menos que sentir curiosidade. Christopher, apoiado com displicência contra o piano, ao contemplar a cabeça encurvada de Nicole, teve súbita consciência da encantadora massa de cachos de cabelo artisticamente emaranhados que deixavam à vista seu pescoço branco. Sentiu um impulso quase irresistível de inclinar-se e beijar esse ponto tentador onde o pescoço se unia aos ombros acetinados, e com muita dificuldade conseguiu dominarse. Aquela pose recatada e quase tímida que tinha assumido enfeitiçava Christopher. Tão encantado estava que se surpreendeu contemplando-a com o mesmo semblante com que Simon tinha contemplado à senhora Eggleston, até que Nicole, sobressaltada pelo longo silencio, levantou os olhos e ele se recuperou imediatamente. Amaldiçoando-se por dentro por sua própria estupidez, disse em tom frio: -Sim, houve algo entre eles. Parece que estiveram comprometidos em sua juventude. Devido a uma discussão ou outra, a senhora Eggleston rompeu o compromisso e cada um se casou por seu lado. - Entendo - respondeu Nicole lentamente, embora em realidade não entendia nada. Era difícil imaginar à senhora Eggleston discutindo com alguém, e em especial tão acaloradamente para chegar a uma ruptura de compromisso, algo que não se podia remediar; até nestes dias um compromisso matrimonial obrigava tanto como o casamento, e quase cinquenta anos atrás o teria sido muito mais. Mas esta relação de épocas remotas não podia ter convertido de maneira tão visível a lorde Saxon em


escravo dos caprichos da senhora Eggleston, pensou com rapidez Nicole, e surpreendida, exclamou: -Ainda está apaixonado por ela. A boca de Christopher se curvou em uma careta sarcástica. - Assim parece. É incrível, não acha? Um Saxon amando a alguém e ao longo de tanto tempo? - Cale-se! - gritou Nicole, zangada por seus comentários depreciativos-. por que tem que dizer coisas como essas? -clamou com paixão e lançando dardos com os olhos-. Acredito que desfruta de muito causando transtornos, fazendo declarações tão cínicas como essa! -E você não? -replicou ele, tenso e por alguma razão tão zangado como ela -. Acredito que provocaste mais transtornos que eu em toda minha vida! - Isso é injusto! Oh! - Com lágrimas brilhando inexplicavelmente em seus olhos, gritou-: Oh, odeio-te Christopher Saxon! Odeio-te com toda minha alma! O jovem a contemplou enquanto se crispava um músculo em sua mandíbula, e logo, esquecendo todos seus bons propósitos, atraiu-a a seus braços e murmurou com voz pastosa: -Bem, aqui tem outro motivo para me odiar ainda mais! -Capturou os lábios suaves da moça com sua boca dura e desumana em um beijo colérico sem paixão e sem ternura, mas quando Nicole se debateu com violência contra ele, à chama agridoce e ardente do desejo que se acendia sempre entre seus corpos cobrou vida. Para vergonha própria, Nicole se sentiu apertando-se com ardor contra o corpo musculoso de Christopher e gozando perversamente da dor que lhe causava seu abraço. Mas depois, quando seu beijo se tornou mais intenso e quente, ele a soltou empurrando-a com rudeza de seu lado como se ela fosse um ser vil e desprezível. Em seus olhos flamejou o desprezo e algo parecido ao ódio. A seguir virou e sem uma só palavra saiu rapidamente do salão deixando a uma Nicole confundida a suas costas. Comovida tanto pelo beijo como por seu inesperado final, deixou-se cair com lentidão sobre o tamborete do piano. Haviam se sentido tão confortáveis um com o outro, pensou aturdida, tão cômodos por uma vez, sem nenhum trasfondo nem corrente traiçoeira, e de repente tudo tinha explodido em algo tenebroso, violento e desagradável. Conseguiria alguma vez permanecer impassível quando ele estava perto?, perguntou-se sombriamente. Conteve o fôlego, angustiada, ao comprovar que lhe odiava tanto como lhe amava. Por que, pensou com desespero, tinha que ser precisamente ele? Por que todas essas lembranças espantosas que nos destroem? Christopher avançava a grandes pernadas em direção a seu clube enquanto desejava que as coisas fossem diferentes. Mas, apesar de tudo, desconfiava da senhorita Nicole Ashford e se perguntava até que ponto se pareceria com sua mãe debaixo daquele exterior inocente e tentador. Sabia por experiência própria que Nicole era como um camaleão, trocando com tanta celeridade ante seus mesmos olhos, do Nick a Nicole Ashford, que lhe deixava maravilhado.


Mas essa noite, por mais que tentasse, não podia culpá-la de nada. Foi ele quem tinha feito pedacinhos a frágil paz que tinha reinado entre eles. Não teve motivos para dizer o que disse, nem razão alguma para enfurecê-la. Se não fosse tão desejável, pensou com brutalidade, e ele não estivesse tão endiabradamente ansioso de possuí-la outra vez! Esse olhar de desprezo e de odeio a Nicole tinha sido tanto para ela como para ele mesmo; desprezo por não poder manter suas mãos longe dela, porque podia lhe comover ainda como o fazia; e ódio porque nenhuma mulher podia lhe arrancar de sua glacial indiferença. Mais carrancudo que nunca e com um gênio de mil demônios, uniu-se a uns conhecidos e se sentou a uma mesa de faraó em um dos salões de jogo do Boodle'S. Christopher não tinha estado ocioso naqueles últimos dias. As apresentações de seu avô lhe valeram converter-se em membro não só no Boodle's, mas também no White's e Brook's, os clubes mais famoso da aristocracia inglesa. Naturalmente, Simon também apresentou seu neto aos filhos e sobrinhos de seus amigos, e em consequência, Christopher era agora bem conhecido entre os membros dos círculos mais aristocráticos. Mas resolvido a encontrar a prova da invasão que tanto necessitava, inclinou-se preferentemente para os militares. E como lhe desgostava sobremaneira a ideia de usar os amigos de Simon, catalogava os conhecidos recentes em duas categorias. Por um lado estavam esses alegres petimetres que só se preocupavam com o corte de suas jaquetas, os cavalos e o jogo, com quem se reunia pelo mero prazer de passar um momento divertido. Pelo outro, estavam os militares sérios que podiam ter acesso à informação e de quem suspeitava uma natureza indiscreta e corrupta. Sendo mais um homem de ação que de manhas e enganos, sua situação atual o fazia sentir paralisado e impotente, uma circunstância que tendia a manter seu gênio apenas debaixo do ponto de ebulição. Mas, apesar de tudo isso, estava fazendo alguns progressos. Tinha maquinado para acordar um encontro com um capitão de cavalaria da Casa Real da Inglaterra, e logo estava àquele jovem tenente da marinha, de licença naquele momento por uma ferida recebida em Orthes. O capitão Buckley, conforme supunha Christopher, tendia a ser indiscreto, e albergava a esperança de que o tenente Kettlescope resultasse corruptível. Seus pensamentos abandonaram a mesa de faraó ao refletir sobre os dias que lhe esperavam no futuro próximo, sobre as noites que passaria bebendo e jogando enquanto tratava de captar qualquer informação, qualquer comentário fortuito que pudesse converter-se em feito sólido. Grunhiu em seu interior, amaldiçoando ao Jason. Depois sorriu porque sabia que uma vez apresentada àquela ideia, nada poderia lhe haver impedido de tomar parte nela. Mas debaixo de todas essas preocupações e inquietações, havia uma grande satisfação por voltar a estar com seu avô. Ainda tinha algumas reserva a respeito a sua tia avó Regina. Mas o outro membro da família a quem tinha desejado ver e ao mesmo tempo temia encontrar não tinha aparecido ainda, nem o tinham mencionado Simon nem Regina. Onde diabos estava Robert?


CAPÍTULO XXIII Enquanto Christopher jogava faraó, Robert Saxon estava conduzindo furiosamente seu cabriolé em direção a Londres. Uma expressão de ódio distorcia suas feições distinguidas, que já mostravam os sinais de uma vida dissipada. «Maldito!», pensava cheio de um furor maligno, «por que não morreu e também morreu Simon, esse velho idiota!» O coração de Robert não albergava muito afeto por ninguém, salvo por si mesmo. Era um homem frio que tinha desejado só duas coisas em toda sua vida. Uma a negou a vida por nascer segundo e a outra uma cruel sacanagem do destino. Mas Robert não era um homem que se deixasse intimidar por tais insignificâncias como um irmão mais velho ou o fato de que a mulher que desejava tivesse um marido. Seu irmão tinha sido muito mais fácil de tirar do meio. Quando Gaylord e sua esposa partiram em uma viagem de lazer a Conwall muitos anos atrás, Robert lhes tinha acompanhado, até que chegaram a um lance especialmente perigoso e traiçoeiro do caminho que bordeaba a costa. Na estalagem onde se detiveram para a última mudança de cavalos, Robert sugeriu que ficaria para trás para esperar a uns amigos que se reuniriam com eles. Gaylord tinha sido um homem gentil e afável e aceitou a ideia imediatamente sem suspeitar jamais que seu irmão mais novo tivesse algum motivo traiçoeiro. Portanto se despediram alegremente e Gaylord e sua esposa partiram ignorando que Robert tinha cortado em parte os suspensórios da carruagem. A uns três quilômetros de distância da pousada, o couro debilitado se rachou por completo, e a carruagem se precipitou ao mar; deixaram um filho pequeno, Christopher, como único obstáculo no caminho de Robert. Mas era um homem paciente e confiava em que encontraria alguma forma de desfazer-se de seu sobrinho. O acidente de Gaylord tinha resultado tal como ele o tinha planejado, mas nem Annabelle nem Robert tinham previsto que ela morreria no aparente acidente de navegação que custaria a vida de seu marido, deixando a jovem viúva livre para voltar a casar-se. Ninguém saberia jamais a fria fúria que havia sentido e a dor lacerante que padeceu ao inteirar-se da morte de Annabelle. Isso e a suspeita... que demônios tinha ido mal esse dia? Por que esse moço, Giles, estava com eles no veleiro? Acaso Adrian descobriu o complô muito tarde para salvar-se e decidiu que Annabelle morreria com ele? Ou esta se afogou por tratar de salvar a seu filho? Essas eram perguntas que nunca obteriam resposta, e como ácido lhe tinham carcomido a alma durante aqueles longos seis anos, corrompendo o pouco de bom que existisse nele.


Morta Annabelle, converteu-se em um homem diabólico cuja única satisfação era saber que, ao menos, seu outro desejo estava a seu alcance... ele e ninguém mais que ele seria o próximo barão de Saxony. Mas então, cinco anos atrás, Christopher retornou, Christopher de quem esperava que morresse no mar, e se viu forçado a tratar uma vez mais de desfazer-se da única pessoa que frustrava suas ambições. Aquela vez tinha planejado um assassinato, mas seu sobrinho escapou outra vez. Robert entrecerrou os olhos e levantando o látego fustigou grosseiramente os cavalos lhes exigindo maior velocidade. Um sorriso torcido e cruel se desenhou em sua boca enquanto fazia um juramento cheio de veneno: «Esta vez não escapará, meu querido sobrinho! Esta vez não... embora tenha que fazê-lo com minhas próprias mãos». A carta de Simon que comunicava a chegada de Christopher tinha chegado às mãos de Robert enquanto estava de visita na casa de uns amigos em Kent, quase ao anoitecer. Apresentou as desculpas devidas e partiu o antes possível depois de jantar, ignorando as objeções muito razoáveis contra uma viagem noturna. Robert tinha se mostrado inflexível por mais que soubesse que não chegaria a Londres essa noite. Mas precisava descarregar toda sua fúria atravessando a campina de noite naquela viagem veloz e enlouquecida, enquanto reunia suas forças para enfrentar Christopher. Não tinha ideia do que este poderia ter contado ao Simon, e a carta de seu pai era singularmente direta, pois só lhe informava que Christopher se encontrava acomodado com ele em Cavendish Square. Ao ler essas linhas nada gratas empalideceu. Christopher ainda vivo e de volta! E não era difícil ler entre linhas que ambos se reconciliaram. Amaldiçoando, Robert jogou com violência a nota ao chão. A relação entre pai e filho era de cautelosa indiferença. Simon vivia em Cavendish Square a maior parte do ano, desfrutava da temporada em Brighton, e logo, quando essas diversões acabavam ou se voltavam aborrecidas, procurava refúgio na paz e quietude de Surrey. Robert também vivia em Londres, já que possuía um piso muito elegante e muito caro em Stratton Street. Mas seu pai e ele estranha vez se encontravam, normalmente só quando as dívidas de Robert se voltavam muito prementes ou algum grave escândalo parecia estar a ponto de lhe arruinar. De outro modo, seus únicos encontros eram em alguns eventos notáveis das temporadas de Londres e Brighton. A esposa de Robert, uma mulher doentia, havia falecido fazia sete anos ao dar a luz a um menino morto. E foi precisamente esse acontecimento o que lhe tinha inspirado a ideia da morte acidental de Adrian para liberar por fim a Annabelle. Robert sempre tinha acreditado que era muito irônico que seu próprio plano lhe tivesse feito perder à única pessoa que lhe importava de verdade. Seus outros filhos, pois teve dois em seu matrimônio, não lhe professavam mais amor e carinho que os que ele lhes tinha. Anne estava felizmente casada com um galhardo e jovem par do reino e se encontrava em York esperando o nascimento de


seu terceiro filho. Seu outro filho se achava ainda em Eton, e Robert tinha a esperança de que Simon apadrinhasse o moço, encarregando-se de lhe atribuir o dinheiro suficiente para viver de acordo a sua fila quando terminasse seus estudos e se instalasse em Londres. Se Christopher tivesse perguntado por que não se mencionou o nome de Robert, Regina lhe teria respondido com acritude que era porque seu tio era uma besta tão fria e insensível. Embora possuía até certo grau o encanto dos Saxon e podia seduzir aos incautos com facilidade, não se granjeava o carinho de seus familiares. Simon amava a seu filho mais novo, mas não lhe ocultavam suas falhas e excessos, pois muito frequentemente tinha tido que resgatá-lo de negócios sujos e desonrosos. Mas ninguém conhecia a verdadeira gravidade e periculosidade dessas faltas. Nem sequer Regina, que via mais à frente do amor paternal de seu irmão, teria suspeitado jamais que seu sobrinho tivesse cometido um crime. Mas enquanto o cabriolé rodava com estrondo o caminho de Londres, Robert guardava em seu coração um ânsia terrível de matar. Outra das missivas de Simon despertou também fúria e consternação em outras pessoas. - Meu Deus, não posso acreditá-lo! Nicole tem que estar morta! O barão Saxon deve estar se referindo a uma impostora! -exclamou Edward Markham quando seus pais essa noite lhe tinham comunicado a má notícia -. O que está fazendo ela em Londres, se na verdade é Nicole? Por que não apresentou-se aqui em seu lar! Deve ser uma farsante! Não acredito! A missiva de Simon aos Markham foi redigida nos términos mais corteses possíveis, mas, como na destinada a seu filho, só expôs os fatos nus. A senhorita Ashford, sua sobrinha, estava no momento de visita em Cavendish Square. Tinha chegado à Inglaterra fazia uma semana mais ou menos, procedente da América do Norte. Pareceria-lhes bem vir a lhes visitar? -Lhes visitar? - gritou enfurecido Edward-. Ela também está de visita? Bem, abandonará Cavendish Square no mesmo instante em que ponha minhas mãos sobre ela! Quem se acredita que é lorde Saxon? Você é seu tutor, não ele! Edward tinha se acostumado a considerar morta a Nicole e a acreditar que só era questão de tempo que toda sua fortuna e suas terras passassem a suas mãos. A família Markham em sua totalidade tornou-se confiada com o correr dos anos, pois estavam convencidos de que Nicole devia ter sido vítima de alguma perfídia. Todos eles se sentiram alarmados ao conhecer seu paradeiro, mortificados e um tanto receosos. William, seu tio, dedicou-se a represar para suas arcas as rendas e grossas somas de dinheiro que pertenciam a Nicole para comprar propriedades em seu nome, e não ansiava que se fizesse uma revisão de contas sobre sua tutoria. Edward, acreditando que tudo seria seu sem uma esposa irritante atada a seu pescoço, estava mais que furioso. E a Agatha desgostava sobremaneira a ideia de ter que compartilhar o papel de senhora de Ashland com a detestável filha de Annabelle.


Nenhum deles, entretanto, duvidava de que o plano original de casar Nicole com o Edward se realizaria agora. Este a desposaria, e não haveria então pergunta embaraçosas sobre como e onde se gastou o dinheiro durante a minoria de idade da jovem. E então, como uma manada de lobos famintos, começaram a preparar-se para ir a Londres o antes possível. Simon escreveu as missivas com singular entusiasmo e júbilo, cheio de malícia; agora estava esperando os resultados de seu trabalho com muita impaciência. Tinha brincado com a ideia de pôr sobre aviso a seus hóspedes de Cavendish Square da provável invasão da casa por Robert e os Markham, mas a desprezou com rapidez, pensando que era mais divertido que os agarrasse de surpresa. Robert chegou a Londres à manhã seguinte e se dirigiu a seu piso para descansar algumas horas depois dessa viagem exaustiva de toda a noite. Ao despertar pela tarde, vestiu-se com seu habitual estilo descuidado para a visita que faria a seu pai. Aos quarenta e três anos, Robert era ainda um homem atrativo e de boa aparência. A despeito desse ar de dissipação, das profundas rugas burlonas de seu rosto, possuía um grande feitiço para o sexo débil. De um pouco mais de um metro e oitenta de estatura, seu corpo era tão musculoso e magro como era a vinte anos. O cabelo moreno estava realçado por duas asas chapeadas que arrancavam das têmporas, e igual a Christopher, tinha a tez azeitonada como a dos ciganos. Os olhos eram de uma cor estranha... nem verdes nem dourados; a boca era fina e reta, a contrapartida exata dos lábios curvados e sensuais de Christopher; entretanto, Robert era um homem de grande atrativo. Enquanto se vestia para a visita, todos os habitantes de Cavendish Square estavam na mansão tomando o chá. Reuniram-se no salão principal, que ostentava uma imponente chaminé de mármore italiano e paredes recobertas de cortinas de seda cinza claro. Lady Darby, em seu papel de anfitriã, estava servindo chá de um pesado bule de prata, enquanto Nicole, vestida com um traje de cetim verde salgueiro, encontrava-se sentada ao lado da senhora Eggleston em um sofá chippendale estofado em rosa. Simon havia se acomodado à esquerda de lady Darby e Christopher permanecia de pé junto a sua poltrona. Os dois homens estavam conversando amigavelmente quando se anunciou chegada de Robert. As três damas levantaram a cabeça, só um tanto surpreendidas, embora Regina se perguntou o que quereria Robert de Simon agora e cruzou os dedos para que não causasse uma cena desagradável. Supôs que se sentiria desiludido ao ver Christopher depois de haver-se acreditado herdeiro de Simon durante anos, mas esperava que se comportasse como todo um cavalheiro por uma vez em sua vida. Robert, dominado por completo depois de ter descarregado toda sua fúria, era muito hábil e ladino para mostrar seu desgosto. Mas então algo passou que lhe fez esquecer Christopher completamente.


A presença de Regina atrás da mesinha de chá não era surpreendente já que sempre passava uma temporada com Simon. Mas seu pai não tinha mencionado na missiva à senhora Eggleston nem Nicole, e Robert não estava preparado absolutamente para a presença da filha de Annabelle. A teria reconhecido em qualquer parte. Era verdade, pensava enquanto seus olhos devoravam a figura recatada de Nicole sentada junto à senhora Eggleston, que seu cabelo carecia da cor vermelha fogo que brilhava no de sua mãe, mas os brilhos castanhos avermelhados dos cachos escuros eram um inegável aviso dos dela. A similitude radicava na textura de pétala da cútis rosada, o arco zombador das sobrancelhas finas e escuras, na curva tentadora de seus lábios, no nariz reto e quase arrogante e o corpo esbelto de peitos amadurecidos e erguidos. A maior diferencia estava na cor dos olhos. Não eram verdes como esmeraldas; entretanto, a forma era a mesma, e Robert se encontrou de súbito perdido em suas profundidades cor topázio. Afastou a vista com grande esforço e olhou sem ver a senhora Eggleston. Recordava-a vagamente, e durante a apresentação que efetuou Regina pôde recuperar seu aprumo. - É uma agradável surpresa voltar a vê-la, senhora Eggleston -disse com um sorriso frio nos lábios-. Espero que desfrute de sua estadia em Londres. Esta balbuciou alguma resposta ininteligível, pois Robert sempre tinha tendido a fazê-la se sentir confundida. Tendo saudado a senhora Eggleston, podia uma vez mais presentear seus olhos com a filha de Annabelle. Incapaz de remediá-lo e enfurecendo mais ainda a Christopher, que os estava observando com atenção, Robert sustentou a mão de Nicole mais tempo do estritamente necessário para logo lhe beijar os dedos magros e elegantes. Sob seu intenso olhar, a jovem não pôde dominar o leve rubor que tingiu suas bochechas, mas com um sorriso inseguro elevou os olhos e se enfrentou abertamente a seu olhar. Robert ficou enfeitiçado, e nesse momento transferiu a paixão que tinha sentido por Annabelle a sua filha Nicole. Esqueceu-se de tudo, salvo da moça que tinha ante seus olhos, e só a voz cortante de Simon conseguiu tirá-lo de seu desvaneio. - Deixa de empregar seu indubitável encanto com minhas hóspedes e veem saudar seu sobrinho! -exigiu Simon, extremamente irritado. O verdadeiro propósito de sua visita a Cavendish Square voltou de repente para sua memória, mas dissimulou com habilidade sua ira e com um sorriso sardônico nos lábios, virou-se para o ancião. -Me perdoe! -exclamou com serenidade-. Mas acontece tão poucas vezes que lhe visitem pessoas tão encantadoras que esqueci de mim mesmo. Olá, Christopher. O antagonismo entre os dois homens foi instantâneo e tangível. Como poderosas bestas de presa, seus olhares chocaram como relâmpagos em um céu escurecido enquanto o ar quase chispava com a força de emoções misteriosas e intensas contidas com muita dificuldade.


Christopher tinha ficado rígido no instante em que Twickham anunciou Robert, mas agora, com o rosto impassível e os olhos brilhantes e desafiadores, inclinou-se com estudada cortesia, murmurando: -Querido tio, é uma grande satisfação voltar a verte depois de todos estes anos. Robert arqueou uma sobrancelha, incrédulo. - Satisfação? Sorrindo burlonamente, Christopher replicou: - Sim! Não tem ideia de com quanto ardor esperei me encontrar contigo... outra vez. Se entrecerraram seus olhos ao captar o duplo sentido de suas palavras, encolheu os ombros e disse com aparente tranquilidade: - Que grato para mim! Procurarei não te decepcionar! - Estou plenamente seguro de que não o fará! Espero com supremo interesse te agradar em tudo! -prometeu Christopher com um toque de ameaça na voz. Robert ficou tenso, mas antes que pudesse responder, Simon percebeu que essa conversa tinha ido muito longe e lhes interrompeu. -Então! -pigarreou com força-. Bem, filho, tem muito bom aspecto. Embora não tinha esperado verte por aqui antes da próxima semana. - Vá, isso sim que o duvido! - replicou Robert com um sorriso sinistro -. Deveria ter sabido que a curiosidade pela chegada inesperada de Christopher me traria rapidamente. Depois de tudo, não é frequente que alguém surja de entre os mortos, por assim dizer, retorne à mansão ancestral. De todos os ocupantes do salão, o único que captou a inimizade implícita nessas palavras foi Christopher, que já tinha decidido a conduta a seguir, e deixou passar o comentário. Um momento depois a conversa se generalizou e se permitiu um suspiro de alívio, contente de que seu primeiro encontro borrascoso com seu tio tivesse passado. Contudo, apertou os lábios e lançou um olhar assassino a Simon. Esse velho patife ia ter que lhe dar algumas explicações, pensou. Avançada a noite, Christopher procurou a seu avô para conversar com ele em privado, mas Simon, já fosse por acidente ou de propósito, tinha saído rapidamente para o clube e Christopher se viu obrigado a adiar suas perguntas. Essa noite, deitado em sua cama, repassou uma e outra vez na conversa mantida com seu tio, sabendo que este ainda lhe odiava e estava furioso por sua volta a Inglaterra. Permaneceu deitado em meio da escuridão durante um longo tempo, seguro de que sua presença em Cavendish Square era uma maldição para Robert. E toda a repulsão e ódio que tinha acreditado superados sumiram no desespero uma vez mais. Agitado e atormentado, não só pelas velhas lembranças, mas também pela cena de Nicole sorrindo a Robert, revolveu-se no leito sem poder separar a jovem de Annabelle. E essa tarde, ao ver Nicole e seu tio juntos, as lembranças se amontoaram em sua mente.


«Oh, Meu Deus! Estou louco», pensou com dor, «louco por permitir que o passado me destrua, e louco por me deixar enredar nessa história antiga em um momento como este.» Entretanto, Christopher não era o único que se revolvia na cama essa noite. A confrontação entre Christopher e Robert tinha desassossegado profundamente a Simon, já que era consciente de que, apesar das palavras corteses que tinham trocado, existia algo perigoso e sinistro entre esses dois homens. Tinha esperado que a presença inesperada de seu filho sacudisse Christopher e lhe fizesse tomar alguma atitude reveladora. Mas, refletia pesaroso, seu neto sabia perfeitamente como ocultar seus sentimentos, e além de uma ligeira rigidez no corpo e a expressão impassível de seu rosto, não tinha revelado absolutamente nada. «E o que esperava?», perguntou-se, «o que queria? Que Christopher se jogasse no pescoço de Robert para lhe demonstrar seu afeto? Ora! Só porque suspeitava que este pode ter tido algo a ver com o desaparecimento súbito de seu neto e sua repentina inclinação pelo mar, não é desculpa para procurar provas do que não existe. E o que ganharia, se, se confirmassem suas suspeitas? Saber que seu filho é mais descarado ainda do que já suspeita? Faria-te feliz isso?» Como nenhum pai deseja opinar o pior de sua descendência, Simon não quis pensar mais no tema. Christopher tinha voltado para ele isso era tudo o que importava. À manhã seguinte, depois do café da manhã, o neto solicitou uma entrevista privada com seu avô. Esperando uma solicitude semelhante depois da aparição de Robert, Simon a concedeu imediatamente e levou Christopher a seu gabinete. Simon fechou a porta a suas costas e logo, não do melhor humor a essa hora da manhã, perguntou zangado: - O que acontece? O que é que está te carcomendo tanto que nem sequer me permite tomar o café da manhã em paz? Sabendo que tinha terminado de comer fazia mais de meia hora, Christopher ignorou seus queixa. Esperou até que se sentasse atrás do escritório antes de falar com a maior seriedade: - Não é nada de grande importância, mas suspeito que não lhe agradará o que tenho a lhe dizer. Simon ficou tenso temendo que por fim ouviria a verdade do que já suspeitava. E tão preparado estava para as palavras abomináveis que estava seguro deviam chegar, que durante um segundo depois de ter falado Christopher, permaneceu com o olhar cravado no vazio. Depois, quando compreendeu o significado real das simples palavras de seu neto, repetiu lentamente: -Desejas te mudar? Ter sua própria casa? Isso era exatamente o que queria Christopher. Durante toda a noite acordado chegou por fim a uma decisão. Ficar e viver com Simon era impossível. Nas próximas semanas, o mais provável era que tivesse que fazer algumas coisas e ver várias


pessoas, e teria que conservar certo segredo. Se quisesse conseguir algo necessitava liberdade de ação, liberdade para ir e vir a seu desejo a horas desusadas sem que ninguém pudesse comentar ou perguntar-se que fazia e por que. Nas primeiras horas da madrugada tinha decidido que os espiões trabalhavam melhor nas sombras. Mas existia outra razão para que desejasse ter seu próprio alojamento longe daquela casa. Não tinha nenhum desejo de voltar a ver Robert inclinado solicitamente sobre a mão de Nicole. Recordava-lhe com muita intensidade a seu tio e Annabelle. A própria jovem lhe perseguia em seus sonhos todas as noites contra sua vontade, e sua proximidade podia derivar em uma paixão física que ele desprezava como uma debilidade. Não era um perito em lutar contra a tentação, e acreditava preferível afastar-se de sua própria sedutora. Tinha completado o que se propôs, trazê-la de volta a Inglaterra, e já não estava sob sua responsabilidade. Tudo o que existisse entre eles tinha terminado para sempre; tinha morrido. Christopher esperava alguma discussão, mas Simon lhe surpreendeu lhe dizendo com indiferença: - Faz o que queira. Já é muito velho para que te dê ordens. - Ao ver a expressão de assombro de Christopher por debaixo de suas sobrancelhas grossas e eriçadas, inquiriu secamente-: Visitará-nos de vez em quando, espero. - Oh, pode estar seguro disso! Devo interpretar então que não tem nenhum inconveniente em que consulte a meu agente sobre alojamentos adequados para mim? -perguntou com cortesia Christopher embora ambos sabiam que era um mero formalismo. -Sim, muitíssimos inconvenientes, mas duvido que tome em conta. Só estou agradecido de que não tenha decidido arrebatar de meu lado a jovem Nicole nem a Letty! -Com um sorriso afetuoso, confessou-: Durante a semana passada me afeiçoei muito com essa criatura. Graças a Deus não se parece em nada a sua mãe! Brinda prazer com apenas observá-la e é doce e encantadora em todos os sentidos. Consciente da repentina expressão de indiferença no rosto de seu neto, mudou de tema imediatamente-: Naturalmente, Regina terá a todos muito inquietos e apurados com esse baile que lhe ocorreu oferecer, e é muito sensato ao procurar uma residência distinta a esta. Não te culpo absolutamente! Eu mesmo o faria, se esta não fosse minha casa. Rindo com verdadeira alegria ao ouvir o tom lastimero de seu avô, tentoulhe: -Deseja vir comigo? Mas Simon se limitou a rir. - Não, não fugirei de Regina. - Embora ele sorrisse, sentiu uma pontada no coração ao observar Simon. Os sinais de sua passada enfermidade eram mais evidentes do que Christopher tinha notado em um princípio: seu avô usava bengala de vez em quando, e seu corpo parecia mais frágil. A cútis se via estragada sobre as


maçãs do rosto proeminentes. De repente, se aborreceu com toda essa trama e as mentiras e verdades pela metade nas quais estava envolvido e desejou com toda sua alma que o relato que tinha contado fosse certo. Mas não se podia retroceder agora, era totalmente impossível. - Bom, se isto resultar muito para você, já sabe que minhas portas estarão abertas. - Já! Aposto cinquenta libras que cuidará muito bem de que não me mude contigo! Os olhos ambarinos do ancião pareciam dançar no rosto contrastando com a expressão afligida de Christopher. - Vovô! Pensa que eu possa ser capaz de semelhante coisas! -exclamou Christopher em tom de recriminação. Cravando um olhar penetrante no rosto juvenil de seu neto, Simon declarou bruscamente: -Acredito que é capaz de muitas coisas. Coisas que prefiro não conhecer. - E decidindo que mais valia que tomasse por lobo que por ovelha, acrescentou com deliberação -: É igual a Robert nisso. A risada desapareceu imediatamente dos olhos do jovem, que disse com voz apagada: -Você também é capaz de muitas coisas! Não pensou que teria me interessado saber que lhe tinha escrito? Simon teve a benevolência de demonstrar certo embaraço, mas fanfarroneou: -Eu o fiz, e sou o único que precisava sabê-lo, jovenzinho! Não houve nenhum comentário por parte de Christopher, que seguiu sentado sobre uma esquina do escritório com uma perna pendurando enquanto parecia absorto estudando os poucos cabelos negros que cresciam no dorso de sua mão. Os segundos passavam, e sem dizer nada ainda endireitou parcimoniosamente os punhos brancos da camisa. Sem olhar para Simon, perguntou descuidadamente: -Há alguém mais a quem lhe tenha escrito e que não considerou necessário fazer-me saber? - E olhando com rapidez em direção a seu avô, captou a expressão de culpa que cruzou fugazmente por seu semblante -. Aos Markham, possivelmente? ronronou com voz sedosa. - Precisamente, sim! Sim, fiz-o! - replicou Simon, desafiante, irritado por esse jogo do gato e rato. -E não acreditou que me interessaria sabê-lo? Que eu gostaria de estar preparado? - explodiu Christopher lançando faíscas pelos olhos. -Eu estou preparado! -rugiu Simon-. E sou o único que precisa está-lo! Como Christopher seguia lhe olhando com desgosto, acrescentou em tom conciliador: Não há razão para inquietar as damas. De todos os modos, tão somente conseguiríamos as preocupar. Quando chegarem esses Markham e seu filho, eu me encarregarei deles. Já verá se o faço!


Christopher observou o brilho de excitação nos olhos de seu avô e tudo se esclareceu para ele. - Isto lhe diverte muitíssimo! Está desfrutando! -acusou-lhe Christopher reprimindo a risada. Jogando um olhar colérico a seu neto, Simon se manteve em altivo silêncio, mas segundos depois seus lábios se crisparam em um esboço de sorriso. - Talvez - admitiu a contra gosto. Logo seu rosto foi à própria imagem da piedade hipócrita ao dizer lugubremente -: Ficam tão poucos prazeres a minha idade, e você quer me negar isso. Reprimindo a risada com muita dificuldade, Christopher meneou a cabeça. - Oh, não, vovô! Tem minha bênção para divertir-se como tenha vontade! Especialmente quando o que lhe agrada mais é desconcertar e prejudicar os Markham! Alheios a que lhes contemplariam com ironia, os Markham estavam preparados para invadir Cavendish Square. Mas surpreendentemente, depois de sua chegada a Londres na quinta-feira, Edward mudou de opinião e recusou acompanhar seus pais à mansão de Cavendish Square. Mais ardiloso que William ou Agatha, supôs corretamente que lorde Saxon não tinha intenção de pôr Nicole nas mãos de seus tutores. Também pôde imaginar a confrontação que se desenvolveria entre eles: lorde Saxon arrogantemente inflexível e seu pai bramando e fanfarronando enquanto sua mãe se deixava levar pela histeria. Não, pensou com um calafrio, não lhes acompanharia. Permitindo, em troca, que seus pais ameaçassem e insultassem a seu gosto, ele apareceria com toda a candura de um primo carinhoso, e ocultando apenas a vergonha que sentia pela atitude de seus progenitores, procederia a cortejar Nicole por sua conta. Considerou, muito agradado consigo mesmo, que não havia necessidade de jogar tudo em uma cartada. Se seus pais fracassavam e não conseguiam a custódia de Nicole de uma maneira, ele o faria de outra. Não desejava separar-se de sua prima depois de uma cena desagradável que ela não esqueceria facilmente, e que com segurança recordaria com desagrado. William e Agatha, é obvio, sentiram-se irritados por sua mudança de opinião. Era extremamente irritante em vista do zangado e furioso que tinha estado ao princípio. Agora se mostrava indiferente e não encontravam motivo para isso, já que Edward não lhes tinha comunicado de seus próprios planos. Em consequência, na sexta-feira pela manhã, o dia depois da reunião de Simon com Christopher, só William e Agatha foram a elegante mansão de Cavendish Square. Saiu a lhes receber um Twickham extremamente desdenhoso e altivo. Simon lhe tinha ordenado ser tão arrogante como lhe desse a vontade, assim que lhes olhou de cima abaixo com desprezo e murmurou com desdém: - Aguardem aqui, verei se o senhor recebe esta manhã.


Deixou o casal de pé no vestíbulo e majestosamente desapareceu pelo corredor. Ao encontrar Simon sozinho no salãozinho onde se servia o café da manhã, com um brilho conspirador nos olhos, Twickham, quase em um sussurro excitado, disse: -Chegaram, senhor! Deixei-lhes esperando no vestíbulo. -Já! -bufou Simon com satisfação. Um brilho combativo apareceu em seus olhos nesse momento; depois observou Twickham pensativamente -. acha que devemos lhes fazer esperar mais de trinta minutos? Refletindo com prazer que seu senhor não tinha estado tão corajoso e ativo como agora desde a muito tempo, Twickham se permitiu um esboço de sorriso que distendeu suas severas feições e respondeu com serenidade: -Sim, senhor, acredito que será suficiente lhes deixar esperar ao redor de trinta minutos. O cavalheiro já se mostrava um pouco impaciente. Para então estará mais que vexado! A ponto de esfregar as mãos de júbilo, Simon comentou: -Sabe uma coisa, Twickham? Vou desfrutar muito disto! Maldição, é uma maravilha que meu neto tenha retornado para casa! Não tinha me divertido tanto assim há anos!


CAPÍTULO XXIV Enquanto os Markham esperavam no vestíbulo com cólera crescente, Simon se acomodou na poltrona para saborear aquele encontro iminente e tão prometedor. Twickham se atarefou no gabinete enquanto pensava com carinho e satisfação em quão afortunados eram por ter de novo o senhor de volta. No andar de cima, em seu quarto de vestir, completamente alheia ao desagradável encontro que estava por vir, Regina estava pensando mais ou menos o mesmo. O retorno de Christopher tinha beneficiado muito a seu irmão e lhe estava agradecida por isso, e em especial por haver-se encontrado tão oportunamente com Letitia Eggleston. Regina preferia o celibato para ela, mas não podia suportar ver um homem solteiro sem urdir imediatamente algum plano para alterar seu estilo de vida. Um solteiro era de algum modo uma afronta pessoal a sua honra, e considerava um dever retificar rápida e eficientemente esse estado tão deplorável. Durante anos tinha exortado Simon para que voltasse a casar-se, sem regular esforços para lhe apresentar viúvas e solteironas adequadas, mas para sua grande mortificação, Simon não quis saber nada delas. Quando morreu o coronel Eggleston, depois de elevar uma breve prece por sua alma, sentiu-se cheia de alegria, quase até a indecência, convencida de que, depois de um curto período de luto, Letitia se casaria com Simon como deveriam ter feito há anos. Quando se inteirou da partida brusca e inesperada da senhora Eggleston quase mordeu a língua de chateio e irritação. Mas agora tudo sairia bem. Ela mesma se ocuparia de que assim fosse. No momento não lhe preocupava muito o celibato de Christopher, ao menos não tanto como o de Simon. Mas sim a repassou em sua mente e decidiu com sensatez que uma vez que casasse seu irmão se encarregaria dos assuntos do jovem. Como tinha se afeiçoado muito a Nicole, era lógico chegar à conclusão de que seria muito desejável uma união entre Christopher e ela. Esta, sentada em seu quarto, tinha o olhar perdido no espaço, sentindo-se inexplicavelmente deprimida. Um momento antes permitiu que Mauer a vestisse, e quando a senhora Eggleston entrou no quarto para lhe perguntar se desejava ir à Biblioteca Colburn, negou-se com inapetência. Nem sequer a notícia de que Christopher as acompanharia despertou nela alguma reação. Bastante preocupada, a senhora Eggleston tinha informado o jovem dessa negativa, mas Christopher se limitou a encolher os ombros, e momentos depois a senhora Eggleston e ele saíam da casa em direção à biblioteca.


Sabendo que eles se ausentaram, Nicole passeou pelo quarto, e cedendo a um súbito arranque de inquietação, desejou havê-los acompanhado. Qualquer coisa teria sido melhor que sua própria companhia. Incapaz de tolerar sua solidão um minuto mais, começou a descer pela escada em busca da Regina, sem saber que lady Darby seguia dando voltas, indecisa, a respeito de seu traje matinal no quarto de vestir. Nicole, absorta em seus pensamentos enquanto tratava de averiguar por que se sentia tão diminuída e dócil ultimamente, estava já à metade da escada que desembocava no vestíbulo principal, quando advertiu a presença de um homem e uma mulher lá embaixo. Parou, surpreendida, porque era impróprio de Twickham deixar alguém de pé nesse lugar, e quando olhou o casal com crescente curiosidade, o reconhecimento foi instantâneo. Deixou escapar um grito sufocado de surpresa e consternação, e ao ouvi-lo William e Agatha, que tinham estado sussurrando um com o outro cheios de ira, ergueram a vista. Se Nicole tinha reconhecido seus tios, eles levaram muito mais em dar-se conta de que a jovem alta e adorável com esse elegante vestido de cambraia francesa era sua sobrinha. A auréola intangível de desenvoltura aristocrática e graça que parecia rodeá-la os fez vacilar, e nesses poucos segundos em que se observaram atônitos, pela mente de Nicole passou um pensamento intrancedente. Maravilhou-se ao ver que cinco anos não lhes tinham mudado muito. Agatha estava mais gorda, seu cabelo era mais claro, o vestido a rodeava com a mesma indecência de sempre, e tinha escolhido para a manhã um de seda castanho avermelhado que não lhe sentava nada bem. E William tinha o rosto mais vermelho se fosse possível, o cabelo murcho e indescritível, muito mais espaçado que antes, e tinha aumentado o perímetro de seu corpo à altura do ventre. Com a vista cravada sem piscar na jovem esbelta que estava na metade da escada, William se sentiu atacado pela fúria ao compreender de repente que poderia resultar bastante complicado e difícil esmagar aquela criatura indesejável sob as leis da obediência e a submissão mais absolutas. Certamente, já não era uma menina a quem mandar a vontade, nem estava plenamente à disposição deles; agora contava com o amparo de lorde Saxon. Já não poderiam repreendê-la e despedi-la à vontade, nem seu dinheiro poderia ir parar impunemente às mãos de seus tutores. Ao pensar o que revelaria uma investigação a fundo dos anos de tutoria, aumentou a sensação de injustiça que lhe dominava, e sua ira, reprimida até então com muita dificuldade, rompeu as cercas de contenção enquanto se lançava escada acima soltando um juramento. Uma mão de ferro se fechou dolorosamente ao redor do frágil pulso da jovem enquanto tentava arrastá-la escada abaixo. Lhe jogando um olhar malévolo, ordenou: -Você vem comigo! E agora mesmo! Que próprio de ti escapar de nosso lado e nos envergonhar depois de tudo o que fizemos por ti. É uma insolente e uma


ingrata. Mas lhe prometo isso, vais lamentar profundamente nos haver matado de vergonha dessa forma. Veem comigo agora, digo-te! Nicole, depois do primeiro momento de surpresa, estava furiosa, e retorcendo o pulso na mão de William, lutou com violência para liberar-se. Esquecendo imediatamente todos os preceitos inculcados em seu cérebro pela senhora Eggleston, explodiu: - Me solte de uma vez, viscoso rato imundo, ou te sacudirei os miolos de um bom golpe! Pasmado por tal linguagem própria de um marinheiro saindo dessa imagem de refinamento e elegância, William afrouxou os dedos, Nicole rapidamente lhe cruzou a cara com uma sonora bofetada e, além disso, deu-lhe um chute na tíbia. Uivando de raiva e de dor, William a agarrou por um braço e a sacudiu com brutalidade. -Vá, é uma cadela! Eu lhe...! Simon acabava de indicar a Twickham que conduzisse os Markham ao gabinete quando o alarido furioso de William vibrou no ar. O ruído sacudiu Simon de sua abstração e se pôs em ação imediatamente. Movendo-se com a velocidade de um homem da metade de seus anos, jogou a um lado o estupefato Twickham e partiu com resolução para o vestíbulo. Ao ver Nicole lutando com desespero com um homem a quem ele não tinha duvidado em qualificar de verme imundo e voraz, sua cólera explodiu. -Como se atreve! Solte-a neste mesmo instante, descarado! - rugiu com uma voz que tremia de fúria. Seus olhos despediam faíscas de ouro fundido enquanto avançava pelo vestíbulo-. Como se atreve! -voltou a troar, e sua voz ressonou por toda a mansão atraindo a vários serventes que chegaram correndo, além de Regina. Esta, de pé na escada, abrangeu a situação de uma olhada, mas sabendo que seu irmão aborrecia as interrupções, conteve a língua. William, irritado, compreendendo muito tarde que tinha transbordado todos os limites imagináveis, tentou congraçar-se com um sorriso desventurado enquanto Agatha sofria um ataque de histeria. Balbuciando desculpas incoerentes e sufocando ruidosamente suas choramingações, permanecia de pé no centro do vestíbulo ignorada de todos, salvo por uma ou duas olhadas nervosas que lhe lançaram os serventes mais jovens. Se William se contentou em concentrar sua atenção em Simon para desculpar-se, a cena poderia ter tido outro final, mas cometeu o engano fatal de tratar usar Nicole para salvar-se. Com o mesmo sorriso conciliador no rosto, aplaudiu-lhe o braço e murmurou: - Vá, vá, isto não é o que parece. A pequena e eu só tínhamos uma briga sem importância, não é assim, querida? Esta, ainda enfurecida e horrorizada pelo acontecido, mas desejando que o desgosto não passasse a maiores, talvez teria seguido o exemplo de William e tratado


de serenar os ânimos se este, desvanecido levemente o sorriso e com um olhar maligno em seus olhos, não lhe tivesse apertado ameaçadoramente o braço e insistido: - Não é assim, querida? Sacudindo a mão de cima com repugnância, disse com voz gelada: - Por favor, solte meu braço neste mesmo instante! Não, não era uma briga sem importância! Você me atacou e estava tentando me levar daqui à força. Todos os pressente contiveram a respiração ao mesmo tempo, sobressaltados, e Simon, controlando sua ira com muita dificuldade, aproximou-se da escada a grandes passos. Com um pé no primeiro degrau, ameaçou com voz forte: - Saia de minha casa imediatamente e nunca mais volte a aparecer à cara por aqui! Se for tão imprudente para tentá-lo, farei-lhe jogar a golpes de minha porta como o cão covarde que é! Encolerizado pelo trato desdenhoso de Simon, o rosto de William refletiu toda a maldade que albergava sua alma, e girando de súbito para olhar para Nicole, resmungou: -Tudo isto é por sua culpa, prostituta perversa! Mas eu sou seu tutor e virá comigo! - Jogando um olhar de aversão a Simon, disse com desprezo-: Ultrapassa-se você, senhor. Nicole é minha sobrinha e eu sou seu tutor legal. Você não tem nenhum direito de me impedir de tirá-la imediatamente desta casa! E William começou a complicar ainda mais sua posição, já por si precária, agarrando de novo o braço de Nicole com mão torpe e rude, enquanto ordenava com altivez: - Me acompanhe agora mesmo. Mais tarde podem enviar todos os seus pertences a nossa casa. Sabendo que Simon não conseguiria ajudá-la se ela não dava o primeiro passo, Nicole pensou rapidamente que o dono da casa não permitiria que a levassem contra sua vontade, mas também que não poderia fazer nada se ela não lutasse por sua conta. O tom e as maneiras ditatoriais de William lhe tinham demonstrado que seu tio não tinha mudado nestes anos, e quando a fez baixar um degrau puxando rudemente seu braço, sua decisão estava tomada. Erguendo-se com orgulho, disse em tom decidido: - Não tenho intenção alguma de ir a nenhuma parte com você. - Logo, retorcendo com rapidez o braço para liberá-lo da mão que o agarrava, virou-se e subiu dois degraus, tentando evitar um novo conflito. Mas William, amaldiçoando e soltando palavrões, agarrou-a pelo ombro. Fazendo-a girar com brutalidade, e esquecendo completamente a Regina no alto da escada e ao Simon e outros que lhe observavam, golpeou grosseiramente a Nicole em uma bochecha e gritou: - Já nos ocuparemos disso, senhorita! Aprenderá quem é seu amo depois de que tenha terminado contigo! Uma chama de ira soltou as rédeas do gênio de Nicole, e com a marca da mão de William lhe ardendo no rosto, explodiu com voz cheia de asco e ódio:


-Toma esta, sapo gordo e repugnante! -e devolveu sua violência com um murro surpreendente à bochecha esquerda. William se bamboleou sobre os calcanhares e Nicole, considerando que era melhor rematar a tarefa, acertou outro em sua proeminente barriga. Tudo tinha ocorrido com tanta rapidez que aqueles que observavam ficaram momentaneamente paralisados, mas enquanto William retrocedia aos tropeções pela escada, Regina, a quem começava a cansar a teatralidade de Agatha, começou a descender com resolução. Simon, sustentando a bengala como se fosse um pau, subiu com fúria a escada e começou a dar golpes severos sobre os ombros de William, já aturdido e cambaleante. Este novo ataque foi suficiente para lhe fazer perder o equilíbrio, e soltando uma corrente de blasfêmias, caiu rodando pelos oito ou nove degraus que lhe separavam do chão até terminar feito um novelo aos pés de Agatha. -Já! -grunhiu Simon, satisfeito e com um brilho de alegria nos olhos. Nicole lhe jogou uma olhada e a piscada audaz que lhe devolveu fez que aparecesse a risada a seus olhos cor topázio. Desviando rapidamente o olhar para não tornar-se a rir pela satisfação evidente que mostrava Simon, observou Regina enquanto esta passava majestosamente junto ao corpo caído de William e da choramingona Agatha para tomar um vaso cheio de rosas e arrojar a água ao rosto da histérica. O líquido sossegou as choramingações de Agatha e até William ficou mudo, contendo sua enxurrada de palavras soezes por um momento. Subitamente, o silêncio reinou no majestoso vestíbulo de Cavendish Square. Depois, no estilo mais imponente e augusto, Regina disse com calma pasmosa: -Twickham, encarregue-se de que estes visitantes sejam tirados daqui imediatamente! - Lançando um olhar severo com olhos em que dançavam uma faísca de brincadeira e alegria, os dois culpados que ainda estavam ao pé da escada, ordenou: - Nicole, volte a seu quarto. Discutiremos isto mais tarde. Simon, acredito que seria melhor que te retirasse também. Recorda que o médico disse que os esforços são maus para sua saúde. Compreendendo com rapidez a insinuação, Simon resmungou: -Sim, sim, tem toda a razão. - Então, Nicole e ele empreenderam uma veloz retirada subindo o resto dos degraus e se esfumaram. William, ao ver que desaparecia sua presa, ficou de pé, cambaleante, e gritou em tom discordante: - Não! Nicole vai conosco. Regina lhe cravou um olhar de advertência e disse sem paixão: - Isso nem pensá-lo, senhor! Entrastes, sem ser convidados, em casa de meu irmão e acossou e maltratou a nossa hóspede; você me insultou usando uma linguagem que espero não voltar a ouvir nunca mais; e sua esposa quase me


ensurdeceu com seus chiados destemperados. Com todos estes fatos frescos em minha mente, posso lhe assegurar que jamais poremos Nicole em suas mãos. Mais ainda, estou pensando seriamente em apresentar queixa contra você e sua esposa. Seria muito prudente de sua parte sair daqui antes que tome essa determinação! Mudo por uma vez, William ficou olhando-a com a boca aberta e antes que se desse conta, Twickham, com a ajuda de um ajudante, guiou habilmente a ambos até a rua fechando logo a pesada porta a suas costas Inclinando-se com respeito ante a Regina, Twickham disse solenemente: -Se me permite dizê-lo, senhora, isso foi muito bem dito. -Bem, Twickham, eu também acredito assim -admitiu Regina .com sua acostumada modéstia -. Simon, onde está? -chamou Regina -. Sei que com toda segurança está aparecendo pela borda do corrimão superior como um vulgar servente. Desça de uma vez! -Já! -ladrou Simon, aparecendo tão depressa que corroborou o sarcasmo de Regina. Em tom ofendido, continuou-: Que outra coisa podia fazer quando te mostrou tão mandona comigo? E em minha própria casa! Direi-te uma coisa, Regina, não tolerarei sua atitude arrogante! - Infortunadamente, arruinou sua carga de recriminações soltando uma gargalhada divertida -. Foi muito esperta ao tirá-los de cima dessa maneira -admitiu-. Sempre disse que era muito rápida e eficaz para ser mulher! Sua irmã se limitou a soltar um bufo impróprio de uma dama e perguntou: - Onde está Nicole? - Aqui estou - gritou ela e desceu atrás de Simon para o vestíbulo. Consciente dos olhares curiosos dos serventes ainda reunidos ali, Simon levou às duas damas a seu gabinete. Sabia que Twickham se encarregaria de que nada do ocorrido durante esse escandaloso incidente da manhã se divulgasse entre os serventes, mas suspeitava que durante uns quantos dias haveria muitas risadinhas dissimuladas na cozinha e nos estábulos. Enquanto lhe brindava bastante regozijo, era consciente de que se tratava de um assunto grave e isso lhe incomodava. Nicole também estava a par da seriedade da situação, e sentindo que se degradou, estava profundamente envergonhada de seu próprio papel na briga. Em voz baixa e mortificada, disse: -Quero me desculpar por minha contribuição a esta cena deplorável. Não devia perder a paciência nem bater em meu tio. Se me jogarem à rua, não será mais do que mereço. - Estou completamente de acordo. Comportou-te como uma lavadeira, nem mais nem menos - replicou Regina com cordialidade, enquanto um brilho quente nas profundidades de seus olhos escuros suavizava o significado de suas palavras-. Mas admito que neste caso não posso te culpar. Que ser mais vil e repulsivo é seu tio! Não é de se estranhar que não deseje voltar para seu lar. Mas -continuou Regina com o


cenho franzido-, o que aconteceu é um fato grave. O que temos que fazer agora, Simon? As duas damas se sentaram em um sofá de brocado vermelho enquanto Simon o fazia em uma grande poltrona de couro negro de respaldo muito alto situado frente ao divã. Encontrava-se muito sério e pensativo e Nicole, cheia de culpa por seu comportamento vergonhoso e segura de que, a pesar da piscada cúmplice na escada, ele estava aborrecido com ela, temeu que decidisse jogá-la de sua casa. Até este momento não se deu conta do quanto se afeiçoou a lorde Saxon e sua irmã Regina. Se a expulsavam dali seria uma verdadeira tortura, quase como voltar a perder a sua família. Arrependeu-se com amargura de suas ações, e uma vez mais quis desculpar-se. Mas Simon levantou uma mão e não lhe permitiu falar. Mediu-a severamente com o olhar e depois, quando ela acreditava não poder suportar seu silêncio muito mais tempo, Simon lhe sorriu. -Ah! -soprou com satisfação-. O que temos que fazer, né? Bem, lutaremos! Lançou um olhar penetrante a Nicole-. Não é assim, moça? O medo que tinha gelado o coração da moça pareceu derreter-se e lhe sorriu tremulamente. -Se você diz, senhor. -É claro que o digo! Vá, não permitiria a esse sapo gordo e repugnante, como acredito que lhe chamou, que tocasse nenhum só de meus cães! -ficou pensativo uns segundos e logo acrescentou-: Esse homem sim que se parece com um sapo, não lhes parece? Regina soltou um suspiro de exasperação. -Sapo gordo ou não -disse resolutamente-, ele é o tutor legal de Nicole. Não tínhamos direito de lhe rechaçar. Legalmente, pode tirá-la desta casa e lhe ordenar que faça o que lhe agrade. -Olhando para Nicole, Regina, sempre franca, perguntou-: Não desejo te ferir, querida, mas como é possível que tenha dois seres tão vis e mesquinhos por parentes? - Eles não estão aparentados comigo em realidade - respondeu Nicole -. Tia Agatha é meio-irmã de minha mãe, e quando meus pais morreram não houve ninguém mais que me reclamasse. - Entendo - comentou Regina lentamente -.Isso significa que poderia se revogar sua tutoria. Em especial se alguém como Simon estivesse disposto a expor o problema ante os juízes. Está-o? -perguntou a Simon. - É obvio que sim! Não acabo de dizê-lo acaso? - grunhiu com acritude -. Agora que os Markham chegaram à cidade, darei uma volta e visitarei meu amigo, o juiz White em Russell Square. Ele saberá exatamente o que se deve fazer... não tenho dúvida disso! É um tipo muito hábil e sagaz. Além disso - acrescentou, pensativo-, os Markham não vão fazer nada. Tenho a suspeita que seu tio esteve esbanjando sua fortuna, e aposto o que queiram que não lhe faz nenhuma graça à ideia de uma


investigação. Não faremos nada e estaremos à expectativa. Atrevo-me a dizer que por um tempo ao menos esperarão pacientemente e guardarão silêncio. - Hm. Por uma vez estou de acordo contigo. Particularmente se existir algo ilegal em seus manejos da herdade -refletiu Regina -. Certamente, não procurarão uma resolução por via judicial. E embora o fizessem, os contratempos de hoje lhes poriam em uma posição desfavorável. Somos muitos os que podemos jurar que golpeou Nicole em um arrebatamento de cólera, e acredito que o fato de não ser parentes diretos pesará contra eles. Especialmente se a fortuna de Nicole excede em muito os recursos que eles têm. É assim, querida? -Assim acredito -respondeu Nicole, insegura-. Realmente não tenho ideia. -Assim é -replicou Simon, seco-. William Markham é apenas um camponês. A propriedade que possui proporcionaria a sua família uma vida confortável, nada mais. O pai de Nicole era um homem rico. Poderia ter comprado e vendido uma dúzia de vezes alguém como Markham sem sequer adverti-lo. Segundo eu o vejo, tudo o que devemos fazer é esperar e desgastá-los com a espera. Nicole alcançará a maioria de idade dentro de três anos, e se, se casa antes herdará sua fortuna então. - Mas não posso viver a suas costas durante três anos -exclamou Nicole, pois considerava que Simon já tinha feito muito por ela. - Por que não? - grunhiu Simon -. Não vejo nada de mau nisso. Letitia e você serão minhas protegidas e eu vou arcar com todos os gastos. É uma ninharia para mim e não me farão mudar de opinião, posso lhe assegurar isso. Nicole mordeu os lábios. Atormentava-lhe a consciência por estar vivendo em Cavendish Square mediante enganos, e isto a levou a protestar ainda mais. - Não seria correto. Não posso lhe permitir semelhante coisa. Deve haver uma maneira mais simples. -Não pode me permitir isso? - explodiu Simon, irascível-. Me escute bem, senhorita, ou me permite isso ou vai com seu tio. Essas são as alternativas, escolhe! Duas manchas vermelhas arderam nas bochechas de Nicole e seus olhos castanhos adquiriram o brilho frio e duro de topázio quando explodiu seu temperamento explosivo. -Você sabe que não há possibilidade de fazer uma escolha! Mas devo insistir em que se leve um registro estrito de todos seus gastos em benefício da senhora Eggleston e meu, e quando eu puder dispor livremente de minha fortuna, reembolsarei-lhe até o último penique. - Havendo-se esquecido novamente que as senhoritas de linhagem nunca falavam ou atuavam como ela o estava fazendo, ficou de pé com ira e saiu do salão a passo vivo. Uma vez que a porta se fechou com firmeza detrás dela, Regina e Simon se estudaram o um ao outro em silêncio. Finalmente, Simon sorriu pesaroso. - Tem um espírito rebelde, essa moça! Suponho que não devia ter sido tão contundente.


-Exatamente! -respondeu Regina, categórica-. Em realidade, Simon, espantame às vezes. Não havia motivo para ser tão pouco diplomático. O arrependimento de Simon durou um suspiro e imediatamente voltou a olhar a sua irmã com cenho sério. - Ora! Não comece agora com uma de suas famosas broncas! A manhã já foi bastante movimentada! - Estou de acordo - replicou ela. Ficando de pé, continuou-: Quando verá o juiz White? Não considero conveniente que o atrase muito tempo. Depois de tudo, é possível que os Markham decidam recorrer a um advogado e cercar uma ação contra nós. - Esta tarde. Enviarei-lhe uma carta esta mesma manhã para ver se tem inconveniente. Satisfeita? -Simon fez uma careta. -Sim, querido, muito satisfeita. Mas, recorda, não abuse de suas forças. Sei que te desgosta que se fale de sua saúde, mas esteve à beira da morte com o último ataque cardíaco que padeceu faz cinco anos. E seu médico diz que não deve te fatigar em excesso. - Ignorando a cólera crescente que refletia o semblante de seu irmão, acrescentou-: por que não permite que Christopher se encontre com o juiz? - Maldita seja, Gina! Se você e esse lisonjeador de meu neto continuarem me mimando deste modo, mais vale estar morto. Além disso -terminou com um sorriso muito juvenil-, estou me divertindo enormemente. Meneando a cabeça e sorrindo, Regina lhe beijou afetuosamente na cabeça. - Eu sei que é assim, velho rabugento! Mas por mim, não te exceda. -Já! Soltando uma gargalhada em resposta a sua habitual réplica mal-humorada, Regina saiu do salão. Mas seu sorriso se desvaneceu enquanto subia lentamente a escada. A situação era séria. Se a lei obrigava Nicole a viver com os Markham, não lhe cabia nenhuma dúvida de que a vida da jovem seria um calvário. Não só uma vida miserável mas também perigosa, considerou ao recordar a expressão ameaçadora e maligna que havia aparecido nos olhos de William e o modo selvagem como a tinha golpeado. Entretanto, assim como Simon, considerava que no momento os Markham se contentariam resmungando. Se fossem sensatos, refletiu sem alegria, mostrariam seus rostos sorridentes e fingiriam que Nicole, com as benções de seus tutores, estava de visita na casa dos Saxon e nenhuma palavra mais. Enquanto não lhe exigissem contas imediatamente e não lhe pedisse dinheiro, o senhor Markham provavelmente não pressionaria muito para mudar a situação. Era de lamentar que tivessem que passar três anos para que mudassem as circunstâncias, porque estava segura de que se repetiriam várias vezes as cenas com os Markham antes que Nicole alcançasse a maioridade... a menos que se casasse. Regina se deteve com o pé no ar e um sorriso lhe iluminou o rosto. Sim. Era exatamente o que precisava! Com um objetivo à vista, e para cúmulo um prazenteiro,


Regina sorrio com alegria e se encaminhou a suas acomodações para terminar sua preparação, tão bruscamente interrompida. Desceu mais ou menos uma hora mais tarde sentindo que apresentava seu melhor aspecto, especialmente depois de ter recolhido o cabelo com fios brancos em um elegante coque e usando um vestido de sarja cor castanha pardo que sentava às mil maravilhas e realçava seu corpo anguloso. Deteve-se um momento no quarto de Nicole, mas a jovem, conforme lhe informou Mauer, encontrava-se abaixo no jardim de inverno. Olhando à donzela com ar pensativo, perguntou-lhe: - Como está Nicole? Mauer titubeou ao princípio, mas logo falou sem rodeios. - Terá um horrível hematoma durante uns dias onde esse monstro a golpeou. Mas não comentou muito a respeito. Regina abandonou o quarto com o cenho franzido. Mas no momento, deixaria Nicole liberada a seus próprios recursos e não a incomodaria. Com essa ideia, dirigiu-se ao salão matinal sem saber ao certo o que faria, algo bastante incomum em alguém com o temperamento de Regina. Mas antes que pudesse meditar mais profundamente sobre esta circunstância ou aborrecer-se de sua própria companhia, a senhora Eggleston e Christopher chegaram a casa. Ela trazia as bochechas avermelhadas e se mostrava entusiasmadíssima com os diversos livros que tinha escolhido. -Oh, Regina, note o que trouxe. Fui muito afortunada ao conseguir um exemplar do Corsário, de lorde Byron, que como saberá, acaba de ser publicado. - É maravilhoso, querida. Embora não me interesse muito à obra desse jovem escritor, sei que é muito popular desde que se publicou Childe Harold faz um ou dois anos. -Oh, sim, eu me entusiasmei quando encontrei um exemplar dessa obra logo que chegamos. É um jovem admirável! - Não discutirei contigo, mas estiveste fora do país muito tempo e não sabe nada de suas ilícitas relações amorosas. A maneira como se comportaram Caro Lamb e ele é algo incrível. Embora - acrescentou Regina com satisfação -, parece-me que essa aventurinha já terminou. Ouvi que ele pensa propor matrimônio a Annabella Milbanke. Sabia que já o rechaçou uma vez? Os olhos azuis da senhora Eggleston estavam redondos de curiosidade. -Vá, não! Como faz para inteirar-se de todas estas coisas? Christopher, compreendendo que as duas damas estavam a ponto de sentarse comodamente a trocar intrigas sociais, reprimiu um sorriso. -Se ambas me desculparem, tenho uma entrevista pendente com meu agente para visitar alguns alojamentos, e não desejo lhe fazer esperar. A senhora Eggleston se despediu com um sorriso e repetiu uma vez mais quão feliz lhe tinha feito sua companhia, mas Regina, deixando a fofoca de lado, deteve-lhe.


- Eu gostaria de ter umas palavras contigo primeiro, Christopher. Letitia, por favor nos desculpe um momento, por favor? Desconcertada, mas adivinhando que Regina queria falar em privado com seu sobrinho neto, murmurou algo sobre o chá e desapareceu com rapidez. Sua partida deixou um silêncio embaraçoso na sala. A atitude relaxada e sorridente de Christopher deu lugar a certa tensão e cautela ao perguntar uns segundos depois: - Bom, tia, do que se trata? Regina vacilou, pois acreditava conveniente deixar que Simon lhe informasse dos acontecimentos dessa manhã, mas desejava ver por si mesmo como tomava Christopher à notícia da chegada dos Markham e em especial observar sua reação ao se inteirar do ataque sofrido por Nicole nas mãos de William Markham. portanto lhe narrou o acontecido de maneira franca e concisa. Mas pela reação dele, mais houvesse lhe valido economizar o fôlego. Só pôde captar aquela muito leve sacudida do músculo de sua bochecha direita e o estranho brilho que lhe iluminou os olhos para lhe revelar ao menos que sentia algo. Regina observou com atenção suas feições morenas e atrativas esperando ver algum sinal que lhe indicasse que o ataque de Markham a Nicole tinha afetado, mas não descobriu nada. E quando terminou de falar, Christopher se limitou a perguntar com a maior indiferença: - E onde se encontra Nicole agora? Frustrada pela insensibilidade que demonstrava, Regina esteve em um tris de não dizer-lhe mas repensando, respondeu irada: - Realmente não sei para que quer sabê-lo; está no jardim de inverno. Christopher arqueou as sobrancelhas ao ouvir o tom iracundo de Regina, e acrescentou um elo mais à cadeia de frustrações de sua tia, comentando sereno: - Bem, então, se Nicole abandonou seu quarto, não pode lhe haver perturbado tanto a visita dos Markham. -Com um irritante sorriso zombador na boca sensual, acrescentou-: E se conhecesse Nicole, provavelmente se divertiu bastante com o acontecido. Agora, quer me desculpar? Regina lhe fulminou com o olhar, desejando com ardor poder decifrar o que acontecia atrás das espessas pestanas escuras que rodeavam aqueles olhos impenetráveis. Mas não podia, e teve que consolar-se com esses mínimos sinais de emoção que tinha vislumbrado. Quando deixou a sua tia se desvaneceu o ar de indiferença que adotou com ela e seu rosto se converteu de súbito em uma máscara fria e cruel. Subindo a escada de dois em dois chegou rapidamente a seu quarto. Rechaçou a ajuda de Higgins e trocou de roupa vestindo as calças de couro e botas de montar. Só lhe levou um segundo, e quando estava a ponto de sair, disse por cima do ombro em tom cortante: -Averigue onde estão alojados os Markham. Assim que tenha visto Nicole, farei-lhe uma visita ao senhor William Markham.


O jardim de inverno estava na parte posterior da grande mansão e era o orgulho do chefe de jardineiros de lorde Saxon. O teto abovedado de cristais e a exuberante folhagem de plantas exóticas e as flores multicoloridos que se viam em qualquer parte, constituíam um presente para a vista, além de excitar agradavelmente os sentidos. No imenso salão se construiu uma cascata em miniatura cujas águas caíam em um lago para peixes e se viam bancos de pedra aos lados dos atalhos aparentemente naturais que serpenteavam pela área em todas as direções. Por desgraça, exibia-se ou utilizava em muito contadas ocasiões, só quando se preparava um grande baile ou alguma função importante. Nicole tinha descoberto que era o único lugar onde podia achar um pouco de intimidade, e frequentemente escapava ali em busca de paz e silêncio. Christopher a encontrou sentada em um dos bancos de pedra junto ao lago. Não lhe ouviu aproximar-se e por uns momentos a contemplou enquanto Nicole parecia estar absorta nos peixinhos alaranjados e dourados que nadavam na água pouco profunda. Ainda vestia o mesmo traje lavanda e o cabelo, que hoje usava solto, ocultando parte de seu rosto quando se inclinou para a água. Ele pronunciou seu nome em voz baixa, e ela deu um coice ao ouvi-lo. Seus olhares se cruzaram e Nicole soube imediatamente que já lhe tinham contado o acontecido essa manhã. Entretanto, não pôde dizer qual tinha sido sua reação pois tinha as feições sob cuidadoso controle. Por outra parte, Christopher sempre tinha, um perfeito domínio de si mesmo em qualquer situação, pensou com amargura. Nada lhe perturbava nem lhe arredava... maldito fosse! Nicole lhe saudou com frieza, mantendo firmemente as rédeas de suas emoções. Tudo o que necessitava agora, decidiu nervosa, era outra cena desagradável para voltar-se completamente louca. Mas Christopher não parecia interessado em originar outra situação penosa ao deixar que seus olhos contemplassem o rosto da jovem. Sem fazer comentários advertiu a tez empalidecida e o rictus amargo da boca normalmente suave e generosa. Logo esticou a mão e lentamente lhe levantou o queixo. Seus olhos se cravaram então no escuro hematoma que desfigurava uma bochecha perfeita. Seus dedos, incrivelmente suaves e gentis, roçaram-na com suavidade, e quando ela se encolheu de dor, os lábios de Christopher se afinaram e lhe brilharam de fúria os olhos. Mas Nicole, incapaz de suportar seu silêncio ou seu toque, era muito consciente de suas próprias emoções para reparar nas dele, e lhe afastando a mão com brutalidade, exclamou: - Já me machucaram uma vez esta manhã, propõe-te agora te desfrutar nisso? A expressão de Christopher não variou, salvo para voltar-se possivelmente um pouco mais dura, e ressurgiu nela seu velho ressentimento pela habilidade com que ele tinha de permanecer insensível e distante. E esse ressentimento não diminuiu nem um ápice quando com um olhar zombador, comentou em tom frio: - Não recordo ter desfrutado jamais de seus infortúnios, Nick.


Lançando faíscas pelos olhos e com um leve rubor de ira lhe tingindo as bochechas, provocou-lhe: - Ao menos teria que estar acostumada a ser golpeada... você mesmo o fez bastante frequentemente! acha que William o faz tão bem como você? Por um segundo Nicole se perguntou se não teria ido muito longe. Mas Christopher não tomou nenhuma medida, salvo dizer em tom mordaz: -É possível que tenha te dado uns bons puxões de orelhas, os quais tinha bem merecidos em algumas ocasiões, mas temo que não recordo haver te golpeado nunca tão forte para te machucar a cara dessa maneira! -Não! -respondeu ela docemente-. Em lugar disso, seduziu-me. Um músculo se esticou na mandíbula de Christopher e ela teve a vã satisfação de ver que tinha conseguido lhe irritar. Contudo, a sensação de triunfo durou pouco, pois Christopher replicou com serenidade: -Sim, fiz-o. Mas acredito que sou mais o ofendido que o ofensor. Como poderia saber que não era só uma oferecida atrás de uma aventura ou que não foi a amante de Allen? Não fiz nada mais que o que teria feito qualquer homem em minha situação. E -acrescentou com crueldade e fanfarronice apesar de si mesmo-, pareceme recordar que você também desfrutou com isso. Mudou o semblante de Nicole e sem pensar, levantou-se de um salto e deu uma palmada com todas suas forças na boca de Christopher. Instintivamente, ele fechou os olhos e retrocedeu, surpreso e colérico. Ao abrir os olhos uma fração de segundo depois, a irritação era evidente neles. Nicole, com mais rebeldia que nunca, aguardou sua reação, odiando-se e lhe odiando pela aparente facilidade que tinha para enfurecê-la e cegá-la de raiva. O que tinha esse homem, perguntava-se com fúria, que a impulsionava a lhe desafiar, a lhe açular até lhe fazer reagir tão cegamente como ela? Christopher a contemplou longamente até que seus lábios se torceram em um sorriso tenso. Por último, disse malicioso: -Não me surpreende que seu tio tenha te batido! Se te comportar com ele como o faz comigo, acredito que deveria lhe felicitar em lugar de lhe oferecer a ponta de minha espada! Nicole lhe observou com cautela agora, pois o conhecia o suficiente para saber que, apesar dessas palavras indiferentes, estava furioso e que a bofetada enlouquecida que lhe tinha dado não seria perdoada com facilidade. - O que quer dizer com isso? - inquiriu com o cenho franzido. - Não pensará que William vai conseguir escapar com apenas uns golpes de meu avô - respondeu tranquilamente e com a expressão imperturbável. - Não irás desafiar-lhe a um duelo! - sussurrou Nicole com a boca seca e os olhos redondos de medo.


Christopher sorriu, mas seus olhos permaneceram frios e implacáveis e ela leu a resposta neles. Esquecendo imediatamente a discussão que acabavam de manter e pousando uma mão trêmula sobre seu braço, suplicou quase sem fôlego: - Oh, Christopher, não o faça! É um homem perigoso, e não te enfrentará a menos que tenha tomado suas medidas para sair vencedor! Matará-te! Só foi um golpe... não um insulto mortal. Esquece-o! Afastou-lhe a mão sem demonstrar emoção alguma. - Acredito que corresponde a mim decidir se foi um insulto mortal ou não replicou, cortante. -Oh, mas... Escureceu-se seu rosto de ira mal contida quando interrompendo-a, tomou pelos ombros e a repreendeu: - Cale a boca, Nick! Talvez esteja disposta a esquecer suas ações, mas eu não. Ninguém pode atrever-se a te golpear enquanto esteja sob meu amparo. É possível que eu o faça se me incite a isso, mas não o permitirei a esse lixo! -Com os lábios curvados em uma expressão desdenhosa ao ver a incredulidade com que lhe olhava, acrescentou-: Oh, sim, nem sequer teria te maltratado... exceto possivelmente por mim mesmo! Confundida, ficou olhando fixamente seu rosto zangado, desejando com desespero poder lhe compreender, mas além da irritação fria que refletiam seus olhos, suas feições não revelavam absolutamente nada. Não pôde remediar sentir uma pontada de medo por ele e disse em voz apenas audível: - Tenha muito cuidado, Christopher. Apertou-lhe mais os ombros quase até lhe machucar e sua boca se curvou em um rictus irônico. -Se preocupa por mim? Caramba, isso sim que é difícil de acreditar! Voltou a invadi-la-a ira e lutou com violência para soltar-se das mãos que lhe deixavam prisioneira. -É uma besta! -ofegou-. Me solte! - Oh, não, querida. Deve-me algo por esse desdobramento de péssimas maneiras de alguns minutos. - Baixou a cabeça e contemplou o rosto acalorado de Nicole com os olhos brilhantes e quase risonhos. Nicole ficou imóvel, mas levantou o queixo em atitude desafiante. - Adiante, então, me golpeie! É óbvio que não existe muita diferença entre meu tio e você! - burlou com desdém. -Oh, sim que há, minha pequena puta! -disse ele suavemente-. Muitas diferenças. - E atraindo-a bruscamente para ele, capturou-lhe os lábios com sua boca dura e cruel em um beijo rude e desapaixonado. Desesperada, Nicole tentou sufocar o intenso prazer que corria por suas veias pela pressão quase dolorosa daquela boca sobre seus lábios, mas até sabendo que a estava beijando para castigá-la, para feri-la, fundiu-se contra seu corpo vigoroso e


quente e entreabriu os lábios sucumbindo ao premente assalto de seus sentidos. O corpo de Christopher respondeu imediatamente a suave pressão e com algo semelhante ao triunfo Nicole sentiu crescer o desejo nele enquanto os corpos se apertavam mais e mais. A mão de Christopher começou a deslizar-se provocadoramente ao longo de suas costas, urgindo-a a pressionar-se mais contra ele enquanto lhe acariciava os quadris. A surda dor de paixão que sentia em seu corpo se tornou quase intolerável quando a língua de Christopher explorou e saboreou o doce sabor de sua boca. Então soube que se ele a desejava, não lhe deteria. Quando Christopher levantou a cabeça lentamente e a contemplou com olhos nublados de paixão e desejo Nicole compreendeu que ele também experimentava essa emoção insensata e desenfreada que fazia ferver o sangue. Em algum recôndito lugar do cérebro de Christopher soava um alarme lhe advertindo que a qualquer momento poderiam descobri-los, mas já não podia retroceder, e soltando um gemido apertou contra ele o corpo frágil de Nicole sem lhe importar se o próprio rei os descobria. Sua boca procurou a dela com impaciência, e esquecidos ambos do mundo que os rodeava, deixaram-se cair suavemente no chão junto ao lago. Avassalada por um desejo ardente, Nicole se limitou a exalar um murmúrio de resistência quando Christopher lhe levantou a saia e jogou de lado a camisa interior de renda enquanto sua mão quente e premente procurava a suave feminilidade entre suas coxas. Encontrou às cegas o delicado triângulo e quando os dedos hábeis começaram a esfregar e a acariciar introduzindo-se profundamente dentro dela, o último resto de prudência se desvaneceu e só ficou neles a necessidade imperiosa de fundir-se em um só. Então a possuiu rapidamente e a pressão turgente de sua masculinidade ao penetrar compulsivamente na morna e úmida calidez acolhedora encheu Nicole de prazer e saciou seu apetite carnal. Os corpos se fundiram ao compasso de um ritmo sensual precipitando-se ao encontro das investidas e ataques um do outro, esquecidos de tudo o que os rodeava, exceto daquela desumana labareda de paixão que os devorava. Esse desejo imperioso e impulsivo que ardia neles tinha muito de prazer delicioso e de amarga tortura, mas nenhum deles estava disposto a admitir que suas raízes eram algo mais profundo, mais formoso e duradouro que o mero apetite carnal. Neste momento Christopher só tinha consciência do suave corpo sinuoso que se retorcia debaixo dele, e Nicole dessa força musculosa, palpitante e dura que estava dentro dela. As primeiras névoas turbulentas da culminação lhe nublavam já a mente e quando o prazer agudo convulsionou seu corpo enquanto a boca ávida de Christopher sossegava seu gemido de supremo êxtase. Cheia, permaneceu ali deitada sem poder mover-se, sentindo a erupção de prazer de Christopher com uma sensação de estranha ternura. Permaneceram abraçados durante longos minutos enquanto as bocas se fundiam e se saboreavam.


Finalmente Christopher se moveu e começou a levantar o corpo muito devagar, separando-se dela, e por um segundo interminável a olhou fixamente nos olhos. Uma expressão indecisa e preocupada apareceu em suas feições ao dizer: - Nicole, eu... - Logo, como se advertisse de improviso a situação em que se achavam, levantou-se com precipitação. Já de pé e depois de arrumar a roupa, inclinou-se displicente e lhe baixou as saias. Sem dizer uma palavra ainda e com o rosto pétreo uma vez mais, ajudou-a a levantar-se. Desvanecida a paixão, Nicole sentiu vergonha e fúria contra si mesmo pelo que acabava de passar. Nunca antes tinha odiado tanto ao Christopher nem se aborreceu dessa maneira a si mesmo. Com mãos que tremiam de angústia e confusão terminou de endireitar o traje, incapaz de olhar ao Christopher, temendo que seu rosto refletisse a mesma expressão zombadora de sempre. E quando por fim se preparou para enfrentar-se a seu olhar, o que viu a encheu de ira e desesperança. O semblante de Christopher estava vazio e gelado, seus olhos dourados se viam ermos e remotos. Até sua voz quando falou pareceu sem vida, como se tivesse liberado uma terrível batalha e a tivesse perdido. - Peço-te desculpas pelo que aconteceu. Prometo-te solenemente que nunca mais voltará a ocorrer. Essas palavras não fizeram nada para apaziguar a confusão de vergonha e cólera que fervia nela. Queria algo mais dele que uma mera desculpa que soava como se ela não significasse nada para ele, como se fosse um formalismo mais. Lágrimas contidas deram um brilho inusitado a seus olhos ao replicar com violência: -Não aceitarei! Parece acreditar que pode fazer tudo a seu desejo e que depois umas poucas palavras de desculpa são suficientes! Bem, não é assim! - Tinha as emoções tão em carne viva que nem sequer considerou as do Christopher, sem compreender que ele estava tão envergonhado e se odiava tanto ou mais que ela pelo que tinha ocorrido. Entretanto, as palavras agudas lhe feriram e com um brilho selvagem no olhar, grunhiu: -E o que me diz de ti, querida? Não percebi que lutasse denodadamente contra mim! Maldita seja, Nick, sou nada mais que um homem! Sinto muito. Não tinha a intenção de que isto acontecesse. Pode estar bem segura de que o lamento mais amargamente do que jamais possa imaginar. Fiz a promessa de não voltar a te tocar nunca mais, e a quebrei. Como pensa que me sinto? - Logo acrescentou com mais amargura ainda -: É a última mulher com quem queria me enredar! Enfrentaram-se cara a cara, ambos furiosos sem pensar no que diziam ou sequer no que faziam. Ferida e perplexa pelo ódio que ele parecia sentir por ela, Nicole lhe cruzou a bochecha de uma bofetada. Christopher não se desforrou, mas endureceu sua mandíbula e seus olhos se voltaram de gelo. .


- Isso, acredito, é suficiente! Admito que te provoquei, mas não abuse muito de sua boa sorte! Horrorizada pelo que estava fazendo, Nicole deu a volta e cravou o olhar vazio em outra direção, mantendo-se erguida e rígida como uma estátua. - Me deixe, Christopher. Parece que não somos capazes de atuar como pessoas normais quando estamos juntos e a sós. Ou brigamos O... - Pareceu atacá-la uma risadinha histérica antes de continuar- ... ou fazemos algo parecido a fazer amor. -voltou-se bruscamente e lhe olhou com tristeza -: Mas não é isso, verdade? Não nos amamos, odiamo-nos. Com o semblante sombrio, Christopher não tentou negar suas palavras. Limitou-se a assentir, mas ela não soube dizer se o fez para afirmar o dito ou para despedir-se. Depois, andando a passos largos e elásticos, deixou-a sozinha no jardim de inverno. Mas não pôde deixar para trás o que tinha acontecido entre eles. Levava-o consigo e não encontrou alívio para a guerra sangrenta que se travava em seu peito. Ela era como Annabelle. Era-o. Era sua filha. Tal mãe, tal filha, trovejou em seu cérebro. E como duas poderosas serpentes se atracaram as duas emoções mais violentas e contraditórias que existem, o amor e o ódio, revolvendo-se e retorcendo-se em uma batalha de morte dentro dele. Tão entrelaçadas estavam que Christopher, cego à realidade, era incapaz de distinguir uma da outra, o amor do ódio, o presente do passado.


CAPÍTULO XXV A mansão de Cavendish Square parecia deserta quando Christopher a atravessou ao sair do jardim de inverno. Perguntou a razão a Twickham e este lhe respondeu que seu avô tinha ido visitar o juiz White em Russell Square e que as damas tinham ido ver a senhora Bell, a costureira da Regina. Christopher vacilou uns momentos e considerou a ideia de reunir-se com seu avô, mas logo, decidindo que tiraria mais satisfação e alívio para sua fúria enfrentando ao Markham, assentiu com frieza e subiu correndo a escada. -Os Markham estão alojados em um hotel do Piccadilly. Aqui tenho a direção -disse Higgins enquanto entregava uma parte de papel. -Obrigado -disse Christopher. Logo, recordando repentinamente a entrevista com o agente, resmungou-: Higgins, vá ver este tal Jenkins. Devia me encontrar com ele faz uma hora! Me desculpe ante ele. Pensa em algo e logo te encarregue de ver os alojamentos que tem para me oferecer. Mas pelo amor de Deus, encontre algum lugar onde possa viver que não seja este antes que me volte louco! Surpreso, Higgins olhou para seu patrão sem compreender por que não se mostrava tão imperturbável como sempre. -Tão mal vão as coisas? Christopher sorriu com ironia. - Pior! Estou a um tris de perder a pouca prudência que resta e a retirada não só é necessária, mas também além disso desejada com desespero! - Sem mais, deu meia volta e saiu apressadamente da sala deixando Higgins aflito e desconcertado, com o olhar cravado nas costas que se afastava. Christopher não teve dificuldade em encontrar William Markham, nem este se surpreendeu quando lhe anunciaram sua visita. Tinha estado preparando-se para algum outro encontro com os Saxon, mas não imaginou a presença do jovem nem lhe esperava tão cedo. William calculou que os Saxon levariam um dia ou dois para decidir quais seriam suas ações futuras. Tinha esperado que esse movimento tomasse a forma de um reconhecimento de seus direitos por escrito de parte do advogado de lorde Saxon. Em consequência, quando levaram Christopher a sua presença e viu o perigoso brilho de seus olhos, William não só se sobressaltou, mas também começou a inquietar-se de verdade. Esse jovem fornido, de ombros largos e quadris estreitos, que entrou no saguão com passo firme, possuía um ar tão ameaçador e turbulento que desassossegou


por um momento ao William e lhe fez desejar que Edward não se fosse precisamente essa tarde a Long Acre para comprar uma carruagem. Christopher parou ao cruzar a soleira sem esforçar-se em ocultar seu desprezo por William. Em tom peremptório, inquiriu: -Você visitou a casa de meu avô esta manhã? -Bom, sim -começou William à defensiva-. Sim, visitei-lhe. - Reavivado seu sentimento de injustiça, continuou em tom mais enérgico-: E lhe direi que me trataram com a maior descortesia e arrogância! A senhorita Ashford é minha pupila, e seu avô, apesar de ser um lorde, não tem nenhum direito a interferir. - Mesmo que você lhe bata? - perguntou Christopher com voz sedosa. William engoliu em seco nervosamente. -Ela se comportou com descaramento, e como seu tutor -começou a dizer com cólera -, como seu tutor legal, tenho o direito de repreender a minha pupila. Foi uma impertinente, senhor! Christopher fez correr a vara entre suas mãos quase como se a acariciasse enquanto seu olhar não se afastava nem um segundo do rosto cada vez mais vermelho de William. -Você está equivocado -disse por fim, cortante-. Nicole Ashford não é de sua incumbência... não o foi desde que fugiu de sua tirania faz cinco longos anos. William ficou rígido de ira, mas Christopher lhe ignorou. - Darei-lhe um bom conselho, senhor Markham - disse Christopher placidamente-. Eu em seu lugar me esqueceria de Nicole Ashford para sempre e voltaria para a granja. Meu avô saberá cuidá-la como merece. E é obvio, se não seguir meu conselho - fez uma pausa e um sorriso desagradável lhe curvou os lábios-, temome que nos veremos no desafortunado dever de solicitar uma investigação sobre o manejo da herança de Nicole durante sua tutela. William esteve a ponto de engasgar-se de ira. -Como se atreve a me ameaçar! Farei-lhe jogar deste hotel, e quando vir a meu advogado, você descobrirá que é uma imprudência difamar a um homem inocente! - Inocente? - burlou-se Christopher-. Não acredito. E estou seguro de que poderemos provar o contrário. Sabendo muito bem que sua administração dos bens da jovem não resistiria a mais superficial investigação, protestou: -Espere, aguarde um minuto! Discutamos isso! - Eu acreditava que era isso o que estávamos fazendo - murmurou secamente Christopher. -Sim. Sim, claro. -Tentado salvar as aparências, continuou em tom conciliatório-: Sente-se, por favor, e vejamos se podemos chegar a um acordo. - Existe uma única linha de conduta aceitável para mim. Você e sua esposa retornam a sua granja e se esquecem de Nicole Ashford. Também passará todo o


controle da fortuna da jovem a meu avô -continuou em tom duro e inflexível-. Se não o fizer, prometo-lhe que o lamentará profundamente - grunhiu com ar ameaçador. Uma raiva surda sacudiu o corpo de Markham e pareceu lhe amordaçar lhe deixando sem respiração. Fazendo um supremo esforço falou com voz estrangulada: - Entendo. Irritava-lhe, mas estava paralisado. Não podia permitir o luxo de que revisassem suas contas. Era mil vezes preferível perder a Nicole e sua fortuna e guardar o que pudesse antes que arriscá-lo tudo lutando contra os Saxon. -Perfeito! -replicou com aspereza Christopher. Virou-se; logo, como recordando algo, voltou-se lentamente e olhou de frente a William uma vez mais-. Ah, sim, só uma coisa mais. - E deliberadamente cruzou a bochecha do William com a vara. Seus olhos eram agora duas raias de ouro ao grunhir com suavidade-: Não volte jamais para pôr uma mão em cima de Nicole Ashford! A próxima vez, matareilhe! William, perplexo e mudo, viu Christopher inclinar-se com exagerada cortesia e partir a seguir. Uma vez que ficou sozinho na sala, apertou os punhos e quase gritou sufocado de fúria e mortificação. Mas reprimiu suas emoções, suspeitando que era afortunado de que o jovem Saxon não lhe tivesse desafiado a um duelo. E se escapava a uma investigação legal de seus manejos seria duplamente afortunado. A chicotada ardia em sua bochecha e pulsava dolorosamente quando irrompeu com violência nos aposentos de Agatha para lhe ordenar que começasse a fazer as malas: partiriam para o campo assim que retornasse Edward. Não lhe deu nenhuma explicação, e quando lhe perguntou com acanhamento o que fariam com respeito à Nicole, respondeu-lhe bramando com tanta cólera que ela sofreu um desmaio. Informado sua esposa de tudo, William saiu de seu quarto e se dedicou a afogar seu ressentimento e humilhação com várias taças de cerveja escura e amarga. Com o passar das horas foi se resignando mais e mais e contemplava o futuro com olhos mais serenos. A ira não tinha minguado, mas podia ver as vantagens de abandonar a cidade e poder salvar o que pudesse da fortuna de Nicole, que já tinha passado a suas arcas. Edward, entretanto, ao inteirar da mudança de planos, olhou a seu pai com estudada indiferença e comentou com frouxidão: - Muito bem. Mamãe e você podem se retirar ao campo. -E você? - explodiu William fazendo ressaltar a marca lívida em sua bochecha. Edward sorriu com doçura e sacudiu uma imaginária bolinha de pó da manga antes de responder em um murmúrio: -Oh, proponho-me provar a sorte e me casar com a herdeira.


- Bem, desejo-te que te divirta muito com ela. É toda uma gata raivosa. Será uma arpía como esposa, e lhe advirto, poderia não valer a pena apesar de toda sua fortuna - resmungou William. Edward observou, imperturbável, a seu pai. - Pode ser, mas duvido muito que minha desposada sobreviva à lua de mel. Ao estudar com atenção os olhos cândidos e azuis de seu filho, William estremeceu. Edward tinha um não sei o que, que lhe assustava de vez em quando. - Faça o que ache conveniente. - Isso é o que me proponho. Edward tinha se convertido em um jovem muito desejável e atrativo. Até poderia dizer-se que era bonito, com esse cabelo loiro e encaracolado de reflexos de prata e olhos azuis de olhar lânguido bordeados de pestanas sedosas e arqueadas, nariz aquilino de proporções clássicas e boca apaixonada de lábios carnudos e sensuais. Era mais alto que o comum e seu corpo era tão enrijecido como o resto de sua pessoa. OH, sim, Edward, um jovem extremamente formoso, podia ser muito simpático e sedutor. Era a esperança de muitas mães com filhas casadouras e o desespero de muitas senhoritas ansiosas. Mas debaixo daquela aparência polida escondia uma natureza perversa; excessiva, venenosa e egoísta, não queria a ninguém exceto a si mesmo. William era consciente desse traço desagradável de seu filho, e levantandose pesadamente da cadeira, repetiu: - Faça o que ache melhor. Mas recorde, de agora em diante os Saxon controlarão sua fortuna. Eu não me atreveria a brigar com eles sobre esse tema. Sua mãe e eu saímos amanhã para a granja. Seu filho desprezou os conselhos com um gesto negligente de mão. - Adeus então. A sós em seus aposentos, Edward refletiu longamente sobre os passos a seguir. Primeiro se encarregaria de encontrar um alojamento permanente, é obvio, mas disso poderia encarregar-se algum servente. O mais importante no momento era Nicole Ashford. Deslizou-se por seu apartamento com a graça e a elasticidade de uma serpente, esmigalhado entre a necessidade de apresentar-se ante Nicole o quanto antes e a prudência de esperar até que tivesse passado o desgosto provocado pela visita de seus pais. Mas ao final ganhou a necessidade. Era vital para ele reencontrar-se com Nicole antes que ela fosse apresentada em sociedade, já que uma herdeira jamais carecia de admiradores, e Edward sabia muito bem. Descontou por completo ao Christopher como ameaça, pois para a maneira de pensar daquele jovem ambicioso, se Saxon tivesse o olhar posto na herdeira, teria comprometido sua reputação e a teria obrigado a casar-se com ele antes de fazê-la retornar a Inglaterra.


O ataque a seu pai não o inquietava absolutamente, nem despertava nele desejo de vingança algum. Estava furioso com William por sua estupidez no manejo da situação e amaldiçoava a inépcia de seus progenitores. Depois de passar várias horas planejando com supremo cuidado os passos a seguir, decidiu que, depois de tudo, visitaria imediatamente a sua prima, fingindo que acabava de chegar à cidade. É obvio se mostraria escandalizado e mortificado pelo acontecido assim que lhe informasse. Olhou-se ao espelho e ensaiou uma expressão doída e horrorizada. Isso era exatamente. Tinha conseguido a expressão perfeita! Dava a seu perfil essa aparência de confusão varonil que cativava tanto às damas. Empenhado em produzir uma impressão favorável sobre sua prima, Edward se poliu com grande esmero à manhã seguinte. Escolheu uma jaqueta muito elegante azul escuro, calças de dril de cor crua, gravata branca engomada, e um alto chapéu de castor com asa frisada, completando seu traje com uma lustrosa bengala de cano. Contemplou-se agradado no alto espelho de seu quarto e depois se dirigiu onde estavam seus pais para se despedir. Depositou um beijo morno na bochecha de sua mãe, estreitou a mão de seu pai de forma mecânica, acompanhou-os até a carruagem e ficou olhando até que desapareceram de sua vista pela rua empedrada. Depois, girou e subiu sem pressas a seu próprio veículo, um tílburi comprado na tarde anterior. Como já eram passada as onze, conduziu a carruagem diretamente a Cavendish Square. Estava tão seguro de si mesmo que nunca lhe passou pela cabeça que pudesse ser mal recebido na casa de lorde Saxon. Twickham leu o cartão de apresentação com algo semelhante ao assombro, pois não se podia negar que aquele jovem Adônis não se parecia em nada ao resto da família. Com certos remilgos, Twickham levou Edward a uma sala de receber fora do vestíbulo principal. Edward o agradeceu com uma inclinação de cabeça e esperou a que Twickham se fosse para passear a vista pelo salãozinho, loteando mentalmente o valor de todos os móveis e quadros que via. Acabava de decidir que lorde Saxon devia ter as arcas repletas de dinheiro a julgar pelo luxuoso tapete e as poltronas de veludo, quando Simon entrou na sala. - Para que deseja ver a senhorita Ashford? -gritou-lhe ele sem preâmbulos. Edward permitiu que suas feições adquirissem uma expressão simpática e atrativa. -Oh, rogo-lhe que me desculpe, senhor, mas se não for um grande inconveniente para você, desejaria ver minha prima. - Mostrando-se um pouco perturbado, continuou-: Devo me desculpar pela conduta de meus pais ontem pela manhã. Acabo de chegar a Londres e lamento muito não ter estado aqui para impedir que ocorresse uma cena tão lamentável como essa. Espero com sinceridade que minha prima não me culpe por isso.


Inquieto, Simon estudou ao jovem que tinha diante. Twickham já o tinha advertido, mas as meras palavras não podiam transmitir com exatidão a boa aparência do Edward. Simon, como a maioria dos de sua geração, desconfiava de uma beleza masculina tão evidente e perfeita. Lhe teria impressionado mais se Edward tivesse algum defeito que estragasse a perfeição de suas feições. Mas Simon era um homem justo e o moço parecia sincero. Além disso, era o primo de Nicole. - Não lhe culpo! - respondeu finalmente Simon ao jovem -. Mas você não pode levar a mal se ela não se mostrar ansiosa de lhe receber. Seu pai, lamento dizêlo, foi extremamente grosseiro ontem. É indubitável que você já se inteirou do que aconteceu. Exibindo um semblante envergonhado, Edward mordeu o lábio. - É obvio. Compreendo. E pode lhe dizer que de minha parte que convenci a meus pais de que retornem ao campo. Como eu, eles estão muito afligidos pelo acontecido. - É melhor que assim seja! - bufou Simon. E como Christopher não tinha comentado com ninguém o acontecido entre William Markham e ele, Simon olhou com mais simpatia ao jovem por ter conseguido que seus pais abandonassem a cena. Jogou outro olhar penetrante a Edward, e tendo decidido que Nicole poderia gostar de reunir-se com seu primo, disse-lhe: - Venha comigo então. Sua prima está no salão da manhã com lady Darby, minha irmã, e a senhora Eggleston. Quando entrou no salãozinho momentos mais tarde, Edward exibiu seu máximo encanto. Fingindo um profundo respeito se inclinou ante as senhoras e dirigindo-se à senhora Eggleston, comentou: - Fomos muito afortunados de que minha prima estivesse sob seu cuidado, senhora. Jamais poderei lhe agradecer o suficiente por trazê-la ilesa de retorno à Inglaterra. Devo acrescentar, também, que sentimos terrivelmente sua falta quando partiu de Beddington's Corner. A senhora Eggleston, embora com certo receio ao recordar que quando menino tinha sido bastante malvado em seu trato com Nicole e com ela mesma, mostrou-se disposta a deixar-se deslumbrar por suas maneiras deliciosos e seu sorriso aparentemente sincero. Regina, sem contar com outros antecedentes que a deplorável atitude de seus pais, também estava disposta a deixar-se deslumbrar por sua fascinação. Só Nicole lhe estudou com reticência quando por fim se aproximou dela. Encontrava-se de pé perto de uma janela aberta que olhava sobre o parque, os raios do sol ao derramar-se sobre seu cabelo escuro arrancavam reflexos de fogo das profundidades de seus cachos. Tinha a aparência de uma deusa com seu vestido de suave musselina amarelo claro que se aderia a seus peitos para cair em graciosas dobras até os pés.


Foi quase natural que Edward ficasse desconcertado ante aquela visão, não só pela figura alta e esbelta da jovem, mas também pela beleza perturbadora de seu rosto de delicadas feições. -Nicole? -perguntou com certa insegurança. Era tão evidente o assombro, que ela sorriu cheia de júbilo mostrando seus dentes perfeitos e brancas e duas graciosas covinhas nas bochechas. - Sim, primo, sou eu. Edward considerou imediatamente que um matrimônio com sua prima poderia resultar mais agradável do que tinha imaginado em um princípio, assim que lhe sorriu com deleite. - Simplesmente não posso acreditá-lo! Sei que é uma descortesia mencionálo, mas, minha querida prima, está absolutamente irreconhecível -comentou Edward com risada fácil. - Melhor que antes, espero. -Oh, sim! -exalou Edward, sincero por uma vez, embora nada atordoado. Admitiria sem reserva que Nicole era formosa. Admitiria também que mais de um homem seria muito afortunado de desposá-la, dinheiro à parte, mas tudo o que ela representava para ele era uma grande riqueza. Uma esposa não estava entre as coisas pelas quais suspirava Edward, nem sequer uma tão bonita. Durante a hora seguinte empregou todo seu encanto e sedução para congraçar-se não só com sua prima, mas também com lorde Saxon e lady Darby. E seus esforços não foram em vão, já que ao sair dali uma hora mais tarde transbordava de satisfação por ter conseguido um dos convites bordeadas de ouro para o baile de apresentação em sociedade da jovem. As damas de Cavendish Square estavam muito consternadas pelo bom aspecto de Edward. -É inconcebível! -exclamou Regina com irritação-. Acreditava que Simon teria mais sentido comum que o que demonstrou permitindo um encontro entre a Nicole e esse primo tão sedutor e esplêndido que tem! Às vezes me pergunto onde está sua inteligência! - Oh, querida! Ele é tão bonito - lamentou-se a senhora Eggleston. Logo animando-se, acrescentou-: Mas Christopher é muito mais... - Procurou desesperadamente uma palavra para lhe definir. -Viril? Masculino? Vigoroso? Potente? Sensual? -perguntou com secura Regina. -Todas essas coisas! -exclamou a senhora Eggleston ruborizando-se. - Bem, tão melhor se for assim, mas as jovens decentes não devem reparar em tais coisas! - replicou Regina -. Supõe-se que as tem que cortejar com galanterias e deliciosos maneiras, e não que percam a cabeça por um homem como Christopher! - Sei. Sei - murmurou à senhora Eggleston, agitada -. Mas algumas vezes, Gina, pergunto-me... Entrecerrando os olhos, Regina a insistiu:


-Pergunta-te o que? Perturbada e com o rosto aceso, admitiu: - É que não posso menos que sentir que... - O que? - insistiu Regina, impaciente. -Que tiveram relações íntimas! -exalou de um puxão a senhora Eggleston sentindo-se como uma traidora para com Nicole e Christopher. Com ansiedade crescente aguardou a que Regina irrompesse em uma corrente de ofensas e de palavras de desaprovação. - Hmm, isso acha? – perguntou com interesse. -Sim. Sim, isso acredito -confessou à senhora Eggleston, perplexa ao ver que um sorriso agradado curvava os lábios de Regina -. Não está desgostada? - perguntou com curiosidade. - Naturalmente que sim. É muito deplorável! Mas não o vê, tola? Se Nicole e Christopher já estão comprometidos não temos nada que temer de homens como Edward Markham. Se meu sobrinho neto verdadeiramente comprometeu a reputação dessa jovenzinha, não será muito difícil lhe arrancar uma proposta de matrimônio. É o que deve fazer um cavalheiro como ele. -Você acha? -perguntou sua amiga com incerteza-. Não me parece acrescentou com franqueza-, que ao Christopher lhe possa forçar a fazer algo que não deseja, cavalheiresco ou não. Sorrindo bondosamente, Regina tomou a mão da senhora Eggleston. - Não se preocupe, querida. Deixa-o tudo por minha conta. Recorda que até agora Christopher teve, por dizê-lo assim, a Nicole para ele sozinho. Mas se descobrir que há outros homens interessados nela, interessados e lhe propondo matrimônio, bom... -disse confiante-, estou segura que se mostrará mais disposto a declarar-se, o ciúmes - acrescentou sabiamente -, incitaram a mais de um a fazê-lo. E de nós depende que Christopher morra de ciúmes! - Oh, Regina, é tão sagaz! - suspirou a senhora Eggleston com admiração. -Sim, é obvio que sim, querida. Mas estas damas não tinham por que haver-se preocupado pela reação de Nicole. Edward era na verdade um homem muito bonito de maneiras muito atrativos, que granjeava a simpatia de muitos, mas a jovem tinha uma memória excelente. Sem o mínimo esforço podia enumerar todas e cada uma das brincadeiras malévolas e mesquinhas que lhe tinha feito quando eram meninos. Ninguém podia ter mudado tanto, concluiu pensativamente. Recordava muito bem as laterais sangrentas de seu cavalo quando Edward o montava; as cotoveladas e golpes furtivos e as vezes que, deliberadamente, tinha-lhe criado problemas com seus pais; e sobre tudo, podia recordar aquele sórdido episódio com a criada nos estábulos de Ashland. E Nicole era o bastante ardilosa para compreender que seria mais prudente deixar que Edward fizesse seu jogo que lhe enviar sem mais a passeio.


Afastou os pensamentos de seu primo com impaciência, pois sua mente voltava sem poder resistir ao desastroso encontro que tinha tido com Christopher. «O que te passa» se perguntou com desespero. «Assim que te toca, ou mostra a menor preocupação ou carinho, derrete-te como uma imbecil doente de amor!» Angustiada, conteve a respiração ao recordar a maneira indesculpável e licenciosa com que se entregou a ele. Era consciente de que Christopher a considerava já pouco menos que uma vulgar rameira, mas ela com seus próprios atos lhe tinha dado toda a razão. Fechou os olhos, angustiada, e elevou uma prece: «Oh, Meu Deus, permite que se rompam os laços que nos unem! me permita viver sem ter sempre sua sombra a minhas costas. Por favor!». Correu cegamente a sua cama e jogando-se de bruços, golpeou a colcha de seda com os punhos fechados para descarregar toda sua impotência enquanto passava de uma emoção dolorosa a outra pior ainda. Odiava Christopher pelo que fazia, aborrecia o poder que parecia exercer sobre ela. Detestava-lhe, pensou com paixão, por despertar nela a poderosa emoção do amor e depois lhe jogar na cara, odiava-lhe por excitar sua sensualidade desenfreada, por ser capaz de arrastá-la a abismos insondáveis de imprudência e irresponsabilidade. Mas Nicole era uma jovem de vontade férrea; não perderia o tempo lamentando-se por coisas que não podiam mudar. Suspirando, sentou-se na cama. Sua fúria tinha desaparecido com a mesma rapidez com que tinha chegado. Arrumou os cachos com mão trêmula, pensando que estava perdendo o tempo ao pensar em Christopher Saxon. Ele não era o único que podia ser tão exasperadamente indiferente. Também ela era capaz de atuar da mesma forma, e um dia, algum dia, prometeu-se com seriedade, recuperaria-se daquele falso feitiço. As acomodações que tinha examinado Higgins enquanto Christopher mantinha sua confrontação com William Markham tinham recebido primeiro sua aprovação e a do jovem pouco depois. Uma semana mais tarde já não vivia na mansão dos Saxon e estava particularmente feliz por ter saído da órbita de Nicole. O desenfreio com que se entregou a ela no jardim de inverno o envergonhava, e desejava voltar-se indiferente a aquela emoção inexplicável que se desencadeava entre eles. Esse desejo foi um incentivo mais para acelerar o plano original de buscar um alojamento privado, pois estava decidido a pôr a maior distancia possível entre Nicole e ele. Poderia encontrar-se com Simon em algum dos clubes ou acompanhar ao ancião cavalheiro quando ia a seus lugares de diversão favoritos. Requeria pouco esforço averiguar quando as damas não estavam na casa, e então poderia lhe visitar em Cavendish Square sem temor a enfrentar-se com Nicole. Se, se encontrava com ela ao passar, poderia atuar com equanimidade, conversar de coisas intrancedentes durante uns minutos e depois separar-se de forma amigável.


Regina, alheia como todos os outros ao que tinha acontecido, estava furiosa com a situação; Christopher resultava mais escorregadio que uma enguia. Para cúmulo de desgraças, cada vez que Nicole se ausentava da casa para provar algum vestido ou para cavalgar no Hyde Park em companhia de Robert ou de Edward, aparecia Christopher e passava longas horas com seu avô ou com a senhora Eggleston e ela mesma, e desaparecia minutos antes da chegada de Nicole. Não importava as vezes que tinha desejado reuni-los, demorar a partida de Christopher, lhe exigir que a acompanhasse, ou averiguar quando voltaria a visitá-los. Este sempre conseguia burlá-la e não era estranho que Regina se sentisse muito incômoda e irritada com ele. Por sua parte, se Christopher estava informado dos planos casamenteiros de sua tia avó para lhe unir com a Nicole, não o demonstrava. Até quando Regina, posta entre a espada e a parede, começou a elogiar ao Edward Markham, insinuando solapadamente que Nicole parecia estar muito interessada nele, Christopher a desconcertou ainda mais murmurando com marcada indiferença: - Seriamente? Ao não receber nenhuma satisfação por esse lado, Regina procedeu a falar de Robert, a quem aborrecia com toda a alma, como possível pretendente à mão de Nicole, espraiando-se em seus encantadores atributos até a náusea. Mas tudo foi em vão. Christopher permanecia insensível e parecia indiferente a ela e seus pretendentes. Em realidade, o jovem não visitava Cavendish Square mais do estritamente necessário. Instalado com comodidade em um luxuoso apartamento no Ryder Street, Com seu próprio círculo de amigos que aumentava dia a dia, vivia Como a maioria dos jovens aristocratas da cidade, e visitar os parentes não era uma recreação muito desejável. E assim começaram a passar as semanas e os meses: enquanto Nicole ocupava seu lugar na sociedade londrina, esforçando-se por esquecer Christopher, ele passava seus dias e suas noites cultivando a amizade da camarilha militar, prestando muita atenção a qualquer intriga que pudesse lhe indicar onde achar provas sobre os planos britânicos para invadir Nova Orleans. Em maio se realizou o grande baile de apresentação de Nicole e foi proclamado corno o acontecimento social do ano. Até acudiu o príncipe regente, cujo espartilho rangeu de maneira alarmante ao redor de seu volumoso ventre ao inclinar-se para beijar a mão de Nicole. A jovenzinha estava mais bonita e radiante que nunca com seu elegante traje de cetim branco bordado com fios de ouro, pérolas ao redor do pescoço e o cabelo vermelho escuro recolhido no alto da cabeça. Converteu-se imediatamente na mulher mais admirada e cortejada desde muitos anos. Christopher é obvio esteve presente, mas não formou parte de sua corte de admiradores essa noite e só a acompanhou durante um dança, uma alegre dança escocesa, antes de partir com discrição em direção ao salão de jogo. A aprovação para o Almack's se conseguiu sem um só murmúrio de desacordo de parte da condessa de Llevem e o êxito de Nicole foi magistral. No


campo político, Wellington entrou triunfalmente em maio na cidade de Paris como embaixador britânico, e por fim chegaram os créditos oficiais de Albert Gallatin como membro da delegação de paz. Este e Bayard, apoiados por Alexander Baring, tinham sido bem recebidos em círculos privados e faziam o possível para abrir canais de comunicação extraoficiais, Com a esperança de acelerar o começo das conversações do Gante. Finalmente, depois de semanas de inatividade, os britânicos designaram sua comissão: três homens de tal penosa mediocridade que até o Gallatin ficou consternando. O painel de negociadores britânico estava formado por um escuro advogado, William Adams Henry Coulbourn, um anódino subsecretário de guerra; e o vice-almirante lorde Gambler, o chefe da missão, um marinheiro competente, embora bastante sem inspiração. E talvez o mais desalentador de tudo foi à nomeação como secretário de Anthony St. John Baker, detestado já em Washington. As perspectivas de êxito das negociações de paz não eram muito aduladoras. Em junho Christopher observou com ar sombrio, assim como metade da Inglaterra, o desembarque no Dover dos passageiros do HMS Impregnable, uma procissão de soberanos, estadistas e comandantes militares da Quádruplo Aliança: o czar da Rússia usando um uniforme profusamente adornado com cordões de ouro; o rei da Prusia, cujas calças brancas pareciam a ponto de arrebentar as costuras em seu volumoso traseiro, o príncipe Von Metternich, chanceler do Império Austríaco; o marechal de campo Von Blücher, chanceler da Prusia. Todos estavam ali, avançando pelo cais engalanado para a ocasião com magnífica pompa militar e a presença dos Scott Grei e três regimentos da admirável infantaria ligeira, o 43°, o 52° e o 95°, heróis do vitorioso exército britânico. Era um espetáculo grandioso e a multidão aplaudia e gritava com entusiasmo, mas Christopher se sentia impaciente e com uma persistente sensação de incapacidade e impotência. Foi em junho também quando este recebeu a primeira das cartas cifradas de Jason Savage, e a abriu surpreso e satisfeito ao mesmo tempo. Mas ao jogar uma olhada à missiva se aguou sua alegria e soltando um juramento leu a respeito da detenção de Pierre Lafitte em abril às mãos de um pelotão de dragões. Lhe tinha denegado a possibilidade de ser posto em liberdade sob fiança: os funcionários da alfândega se encarregaram disso. John Grimes, o fiscal do distrito, provocou um grande escândalo ao se demitir e unir-se a Edward Livingston para preparar a defesa. Christopher se perguntava como teria reagido Jean ante a detenção de seu irmão, mas logo encolheu os ombros: a notícia era de meses atrás e ele estava a um oceano de distância. Um rumor particularmente insistente a respeito da partida imediata de vinte e cinco mil soldados britânicos para a América fez com que fosse se encontrar pela última vez com Gallatin. A reunião foi desalentadora; apoiando-se na informação de Christopher, Gallatin escreveu a Monroe insistindo em suas próprias deduções de que essas tropas se usariam para atacar Washington, Baltimore e Nova Iorque. Gallatin e Christopher concordaram em que era uma insensatez que os norte-americanos, uma


vez iniciadas as conversações de paz, não aceitassem ao menos algumas das concessões exigidas pelos britânicos. Estes eram muito fortes, e devido a sua vitória na longa guerra contra Napoleão, acreditavam-se invencíveis. Gallatin reconheceu ao fim que não podia fazer nada mais na Inglaterra, e em 6 de julho de 1814 se reuniu com outros membros da comissão de paz norte-americana no Gante, deixando Christopher em Londres para que fizesse tudo o que estivesse a seu alcance. Nicole continuava sendo a rainha da temporada; nenhuma reunião da moda estava completa sem sua presença. A rivalidade entre Edward e Robert pela mão da jovem herdeira não tinha passado inadvertida, e já se apostava nos clubes de cavalheiros pelo possível ganhador. O ingresso do herdeiro de um ducado ao círculo de admiradores da Nicole fez elevar as apostas a cifras astronômicas com o correr dos meses. Até Christopher tinha depositado sua aposta no livro do Waiter's com um sorriso sardônico nos lábios: apostou seu dinheiro no ducado. Passavam semanas sem que se encontrassem Nicole e Christopher e quando o faziam era só por um momento. Cada um inclinava cortesmente a cabeça ou sorria com frivolidade enquanto continuavam liberando suas batalhas privadas. Por fim em 8 de agosto de 1814 começaram as conversações de paz no Ghent. Christopher sentiu alívio, mas cresciam suas frustrações a cada segundo. Estava convencido mais que nunca de que os britânicos planejavam um ataque decisivo a alguma das cidades mais importantes da América do Norte, mas já nem sequer tinha a segurança de que Nova Orleans fosse o verdadeiro objetivo. Uma noite, quando se encontrava mais deprimido que de costume, um dos amigos que cultivava deliberadamente entre a camarilha militar, um tal capitão Buckley a quem o conhaque tinha solto a língua, começou a dar a lata ao Christopher sobre os laços que uniam aos norte-americanos. BuckIey fez algumas alusões de embarques de tropas e inclusive deu a entender que uma poderosa ofensiva na região dos Grandes Lagos só seria uma manobra fingida: a verdadeira batalha teria que ser liberada em Nova Orleans. Christopher dissimulou a mescla de excitação e consternação que lhe assaltou e sorriu com indiferença: - O que me importa isso , amigo? Eu estou aqui na Inglaterra. Outra taça? Mas assim que chegou a seu apartamento pouco depois, sentou-se e escreveu toda a informação para o Gallatin com a esperança de que pudesse usar-se nas negociações. As longas noites acordado bebendo garrafa detrás de garrafa de conhaque, o ar viciado de fumaça de charutos e cigarros dos salões de jogo e a vida licenciosa que levava estavam começando a deixar rastros nele. Lhe tinha enfraquecido o rosto e parecia tenso, a pele estava tirante sobre os ossos, seu gênio se tornou mais vivo e explodia por qualquer coisa. Os rumores e as intrigas estavam bem, mas ele não tinha nada sólido no que apoiar-se para estabelecer uma prova contundente. No cúmulo do desespero tinha ido visitar o Ministério da Guerra e a brigada de cavalaria da Casa Real da Inglaterra, onde havia se tornado uma figura familiar, mas esperava não ser um rosto suspeito. Percorria os corredores e visitava os diversos


escritórios conversando com um e outro enquanto se perguntava se o que andava procurando estaria atrás de alguma daquelas portas. Era uma tarefa que lhe enchia de frustração e, pior ainda, sua consciência tinha adquirido o costume de atormentá-lo nos momentos mais inesperados. Embora tenha preparado com astúcia para manter a suas variadas amizades em dois níveis bem diferenciados, de vez em quando se sobrepunham. Era precisamente nessas ocasiões quando se sentia mais incômodo e desassossegado, porque o fazia ver as claras que ele era em realidade um espião que utilizava a todos para seus próprios fins. Mas podia ignorar tais remorsos de consciência com certa desenvoltura quando recordava como se sentiria se Nova Orleans chegasse a cair nas mãos dos britânicos. Até certo ponto, a atitude para a guerra na América da maioria dos ingleses reforçava sua própria convicção de que a uma imensa maioria não se importava absolutamente com o que acontecia do outro lado do oceano. Em certo modo foi uma surpresa para ele descobrir que grande parte do povo era indiferente e até estava mal informado sobre a guerra na América do Norte. Em geral a população britânica se interessou mais em ficar ao dia da terrível guerra com Napoleão, e não deixavam vagar seus pensamentos para um assunto tão insignificante como o daqueles obstinados colonos. O conhecimento de que quase todos viam a guerra como uma simples revolta interna, que logo seria resolvida pela Grã-Bretanha, só acrescentava a determinação de Christopher de encarregar-se de que acontecesse justamente o contrário. Seu avô não tinha sido de grande ajuda tampouco quando ele, por pura curiosidade perversa, fez menção do tema. Simon, mostrando-se surpreso, perguntou: -Estamos em guerra com a América do Norte? Exasperado, Christopher elevou seus olhos ao céu e replicou: -Sim, há dois anos! Simon, incômodo, murmurou: - Bem, sabia que algo andava acontecendo por ali -o qual resumia a atitude generalizada na Inglaterra. Para meados de agosto Christopher já estava quase disposto a admitir a derrota. Tinha estado quase cinco meses vivendo na Inglaterra, tinha hipóteses em abundância e rumores aos montes. Mas nenhuma maldita prova! Esse pensamento reverberava em seu cérebro dia a dia como um canhão, e soube que estava disposto a empreender qualquer maldade ou crime sem importar qual, já que tão somente algo assim aliviaria sua crescente sensação de ineficácia e futilidade.


CAPÍTULO XXVI Durante esses meses Nicole se convenceu de que a atração que tinha existido alguma vez entre Christopher e ela tinha morrido para sempre. Agora podia lhe encontrar nas reuniões sociais sem perder a compostura, e se o coração ainda lhe dava um salto no peito quando seus olhares se cruzavam de improviso, repetia-se que com o tempo também isso desapareceria. Em grande parte Robert Saxon era responsável por aquela mudança aparente. Engenhoso e cortês, e o bastante parecido ao Christopher para cativar sua atenção e interesse, era para Nicole uma forma agradável de separar-se de seus jovens e ardentes admiradores. Provocador e reservado, entretanto, engenhava com habilidade para lhe fazer saber que ela era o objeto de seu desejo. Gostava da companhia do Robert. Ele podia fazê-la rir com seus comentários extravagantes, e contudo, quando seus olhos verdes se iluminavam com um brilho inusitado ao olhá-la, o sangue corria um pouco mais rápido pelas veias da jovem e várias vezes se encontrou perguntando-se como seriam seus beijos. Se encontrava Robert atrativo, mantinha a distancia prudencial e deliberada de seu primo Edward. Não se deixaria cativar por seu encanto, mas tampouco desejava lhe enfurecer. Recordava muito bem as mesquinhas vinganças durante sua infância. Mas Edward parecia surdo a suas indiretas, e se não queria dar pé a uma cena desagradável, a jovem teria que submeter-se a seus galanteios. Resultava-lhe uma tarefa muito pesada, e mais de uma vez teve que morder a língua para não gritar sua incredulidade ante a adulação evidente do Edward. Encontrava-lhe encantado em excesso, muito condescendente e se mostrava tão obviamente prendado dela que não podia pensar que fosse sincero. Além disso era extremamente vaidoso e propenso a polir-se. Acreditava-se muito galante e valente, assegurando-se de que Nicole soubesse que sua bengala de malaca era em realidade um estoque habilmente construído, e dando a entender com fanfarronice que ela não tinha nada que temer quando ele a escoltava. Nicole se encontrou em um verdadeiro apuro tratando de não começar a rir a gargalhadas. Pensava esse indivíduo acaso que lorde Saxon ou lady Darby permitiriam que ela fosse a alguma parte onde existisse o mínimo risco? Em certo modo passeando pelo Hyde Park com todos os conhecidos saudando-os amavelmente, era ridículo que alguém fizesse alarde de uma bengala de estoque. Mas por outro lado, Edward era bastante grotesco. Depois de mantê-lo à distância, aborrecida de posturas afetadas e de seu bate-papo banal, não era de se estranhar que se voltasse com alivio para o Robert e seu galanteio amadurecido e excitante.


Com este não estava em guarda, podia sentir-se tranquila e tirou o chapéu esperando com ânsia esses momentos em que podiam escapar ao olhar vigilante da Regina. Os olhos do Robert a voltavam consciente de ser toda uma mulher e de que ele era um homem extremamente sedutor e atrativo. Sedutor e descarado também, pensou divertida uma noite no Vauxhall Gardens, quando ele a arrebatou habilmente da presença de lady Darby e da senhora Eggleston levando-a por um dos atalhos serpenteantes que ofereciam solitária intimidade. Ela estava particularmente formosa essa noite com um diáfano vestido branco e o cabelo arrumado em uma nuvem de suaves cachos de cabelo que caíam ao redor de seus ombros macios e leitosos. Sua mão descansava levemente sobre o braço musculoso do Robert, e seus olhos cor topázio se viam iluminados pela risada ao dizer alegremente: -Está te comportando de um modo muito escandaloso! Quero dizer, muito indecoroso.. Sabe que lady Darby vai se pôr furiosa conosco? - Enquanto você não desaprove meus atos, isso é tudo o que me importa respondeu Robert. A luz da lua acentuava as atrativas nervuras chapeadas de seu cabelo escuro, e com aquele traje escuro com botões dourados estava muito distinto. -Não me importa -respondeu sinceramente-. Algumas vezes me sinto tão limitada que riria a gritos dessa tolice. Não vejo por que não posso dar um passeio sequer sem uma acompanhante! É totalmente ridículo! Nicole estava acostumada à liberdade, uma liberdade que teria escandalizado a aqueles que a conheciam agora, e os rígidos convencionalismos da aristocracia inglesa a faziam sentir-se oprimida com frequência. Desgostava-lhe profundamente a constante vigilância de lady Darby e da senhora Eggleston, ou de sua donzela se não havia ninguém mais disponível. Nem sequer podia caminhar sozinha pelo Hyde Park, ir à biblioteca ou à loja da costureira sem escolta, e quando recordava a despreocupada liberdade de seus dias em La Belle Garce, algumas vezes sua indignação não conhecia limites. Seu expressivo rosto deixou transluzir alguns destes sentimentos, e Robert, com os olhos cravados em suas tempestuosas feições, sentiu encolher-se o coração no peito, e sem pensá-lo duas vezes, estreitou Nicole entre seus braços. Contemplando sua expressão surpreendida, disse suavemente: -Necessitam-se acompanhantes para damas tão belas como você, querida. E jamais permitem que saia de sua vista por temor a que aconteça algo como isto. - E deliberadamente a beijou na boca. Foi um beijo morno e vacilante e não assaltou seus sentidos como os do Christopher, mas muito grato apesar de tudo. Quando a soltou apareceu um sorriso tímido nos lábios de Nicole e perguntou em tom recatado: -E o que há tão terrível nisto?


Robert acreditou que podia controlar-se, mas a suave doçura complacente da boca de Nicole foi sua perdição, e murmurou: - O mau é que conduz a isto! - E com essas palavras a envolveu em um abraço passional enquanto seus lábios forçavam os da Nicole tratando de entreabri-los para poder beber com avidez o mel que guardavam. Nicole lhe devolveu o abraço generosamente, seu coração ferido pareceu reviver e cicatrizar suas feridas com os beijos apaixonados do Robert. Beijou-a por um longo tempo, e por último, com os olhos quase negros de paixão e com uma nova chama de ternura em suas profundidades, soltou-a por um instante. Contemplou o rosto adorável e jovem que tinha diante e com voz pastosa de emoção, murmurou: - Amo-te, Nicole! Adoro-te, minha vida! - Estreitando-a uma vez mais contra seu corpo alto e musculoso, cobriu-lhe a cara de beijos apaixonados, encontrando por último a boca e apoderando-se de seus lábios com um beijo ardente que pareceu eterno. Foi assim como os encontrou Regina. Escandalizada primeiro e furiosa depois, observou com incredulidade os corpos entrelaçados antes de estalar em tom imperioso: -Tornaste-te louco, Robert? O que significa isto? As duas figuras se separaram, embora lentamente, e Nicole, cativada pela ideia de que alguém tão bonito e perfeito como Robert Saxon pudesse amá-la, olhou a Regina sem compreender, enquanto ele, com um sorriso agradado, avançou e quis tranquilizar a sua tia. - Sei, minha querida tia, sei que isto é totalmente irregular, mas Nicole e eu... Regina, lançando raios pelos olhos, disse com irritação: -Falarei contigo dentro de um minuto! Nicole, volte imediatamente com lorde Saxon e a senhora Eggleston! Contigo falarei assim que cheguemos a Cavendish Square. Decepcionaste-me, senhorita, posso lhe assegurar isso. Vá agora! Bruscamente Nicole voltou para a realidade, mas levantando o queixo de modo rebelde, preparou-se para a batalha, até que Robert interveio: - Vá, querida. É melhor que lady Darby e eu discutamos isto entre nós. Lançando a Regina um olhar eloquente, Nicole obedeceu e desapareceu imediatamente pelo atalho. Apenas tinha se perdido de vista, quando Robert, voltando-se para enfrentar a sua tia, disse com frieza: -Era necessário falar nesse tom com minha prometida? A surpresa fez Regina perder o fio de seus pensamentos, e repetiu como atordoada: - Sua prometida? -Sim. Ainda não falei com meu pai como deve fazer-se, mas suponho que não haverá nenhum inconveniente -explicou Robert, impaciente -. E se o deseja, esperarei até depois de ter conversado com ele antes de fazê-lo formalmente com Nicole, mas me parece uma situação bastante ridícula. Proponho-me me casar com ela e estou quase seguro de que me aceitará.


-Está muito equivocado! -exclamou Regina em tom glacial enquanto se erguia com orgulho-. Existe um compromisso prévio entre Nicole e Christopher; seu pai já deu sua aprovação para as bodas. - Era uma mentira flagrante, mas Regina jamais permitia que tais minúcias se interpor em seu caminho. Tinha tomado à decisão de que Nicole e Christopher deviam casar-se e nada a deteria. O semblante do Robert se escureceu de fúria e mortificação. - Não acredito! - explodiu furioso-. Christopher não se aproximou dela mais de meia dúzia de vezes em todo o verão. Eu fui o único que a acompanhou constantemente, não ele! É para mim a quem ela acode, não a ele! Regina adotou um gesto de impaciência. - Meu querido sobrinho, isso não tem nada a ver! Se quer fazer o ridículo por uma jovenzinha muito mais nova que sua própria filha, dane-se você, mas te esqueça de Nicole Ashford porque ela não é para ti. Casará-se com o Christopher, tenha presente o que digo. O ódio brilhou em seus olhos e seus lábios se afinaram em um sorriso tenso e desagradável quando Robert se inclinou com rigidez. - Veremos, minha queridíssima tia, veremos. Regina lhe observou com atenção enquanto ele se afastava a grandes pernadas furiosas. Podia ver que Robert lhe apresentaria muitas dificuldades. Era uma verdadeira lástima, pensou com frieza, que suas preferências tivessem que cair sobre a Nicole. Mas logo deu de ombros com indiferença: um reverso como este faria muitíssimo bem a alma de seu sobrinho. Mas se não queria que seus próprios planos sofressem um contratempo semelhante, devia abordar ao Simon imediatamente. Era imprescindível lhe convencer de que devia corroborar a mentira que acabava de inventar. Tinha a esperança de que seu irmão não resultasse um osso muito duro de roer. Simon não resultou nada difícil de dirigir, embora sim deu um susto momentâneo a Regina. Ela, por seu lado, mostrou-se fria e cortês com a Nicole durante o resto da noite, e como a tensão entre elas era evidente e Robert tinha abandonado a reunião tão de improviso, não lhes resultou difícil à senhora Eggleston e a lorde Saxon deduzir que algo fora do comum tinha passado. Já em Cavendish Square, Regina em tom cortante enviou Nicole a seu quarto, aparentemente como castigo, e logo, enquanto os três se acomodavam no salão azul para conversar durante uns minutos antes de retirar-se para dormir, Regina revelou tudo, até seu embuste. A senhora Eggleston soltou um grito afogado ao ouvir o relato do comportamento vergonhoso da Nicole e terminou de escutar o resto do acontecido com uma expressão sobressaltada em seu doce rosto. Logo, franzindo levemente o cenho, perguntou com acanhamento: - Simo aprovou esse enlace? -É obvio que não! -declarou Regina-. Eu o inventei!


Simon permaneceu em silêncio quando sua irmã terminou de falar; simplesmente ficou com o olhar fixo na taça de conhaque. Por último levantou os olhos e olhou fixamente para Regina por debaixo das grossas e hirsutas sobrancelhas negras. - Alguma vez parou para pensar que a jovenzinha poderia escolher ao Robert em lugar do Christopher? - perguntou com serenidade. Pasmada, Regina o olhou boquiaberta. - Simon! Não pode dizer a sério que prefere ver a Nicole casada com o Robert! Não é minha intenção te ferir, e sei que ele é seu filho, mas não negará que fez a vida de sua primeira esposa um inferno. Frequentemente penso que ela morreu só para escapar dele! Simon assentiu com a cabeça. Não se iludia com seu filho mais novo, mas se sentiu na obrigação de dizer umas palavras em seu favor: - Robert não queria casar-se com essa pobre criatura pálida e doentia, mas eu insisti com teima nisso. Era -continuou sorrindo com tristeza -, uma excelente união. Forcei-lhe a aceitá-la, acreditando que estava fazendo o melhor para ele. - Com o rosto sério e subitamente perturbado, jogou um olhar à senhora Eggleston -. Teria pensado que aprendi minha lição, considerando que eu fiz exatamente o mesmo. A senhora Eggleston lhe sorriu com os olhos úmidos. - Não deixe que te aflija, querido, todo isso pertence ao passado. Regina os observou longamente, indecisa entre retroceder e lhes permitir que arbitrassem o assunto ou ficar e lutar pela Nicole, mesmo que essa mocinha não desejasse sua intervenção. Decidiu-se pela jovem, simplesmente porque qualquer parvo podia ver com claridade que só era questão de tempo que Letitia e Simon resolvessem seu próprio futuro, algo que ambos podiam fazer sem sua ajuda, reconheceu com certo pesar, enquanto que Nicole... -Tudo isto está muito bem! -afirmou com energia e novos brios-. Mas não converte ao Robert em um marido adequado para a Nicole. - Hmm, não, é verdade. Mas não tolerarei que se force a essa jovenzinha a contrair matrimônio com meu neto só porque nós três acreditam que é uma ideia magnífica. Se quiser ao Robert, não nos poremos em seu caminho -disse Simon com pesadumbre. Regina poderia lhe haver sacudido. Que momento escolhia seu irmão para ficar romântico! As pessoas de sua posição estiveram se casando sem amor durante séculos, e agora ele apresentava objeções como se, se propor casá-la com um homem que tivesse um pé na tumba e fosse mais feio que um sapo, em vez do magnífico animal que era Christopher. -Muito bem -recalcou ela com frieza-. Se não estar disposto a ajudar, não há nada que eu possa fazer. - Mas logo se desvaneceu imediatamente sua frieza e choramingou-: Mas, Simon, Nicole não quer ao Robert, só acha! Até Letty opina que


a jovem e Christopher estão apaixonados, mas que são muito estúpidos e orgulhosos para reconhecê-lo. Simon jogou uma olhada à senhora Eggleston. -É verdade o que diz, Letty? A senhora Eggleston pregou nervosamente a saia de seu traje de cetim azul claro e sem atrever-se a olhá-lo aos olhos, disse em tom apagado: -Acredito que sim. Nós fomos como eles uma vez e permitimos que nosso orgulho nos cegasse. Simon empalideceu, pois era a primeira vez que ela fazia um comentário tão direto sobre a ruptura de seu próprio compromisso matrimonial. Mas cada coisa a seu tempo, refletiu. -Que isto fique em um término médio. Não lhe negarei nem confirmarei ao Robert que existe um acordo entre a Nicole e Christopher, e por agora recusarei meu consentimento a uma união entre o Robert e ela. Isso era mais do que podia esperar Regina e tinha que dar-se por satisfeita. Ao menos, pensou reconfortada, no momento Simon não permitiria que tivesse lugar um compromisso matrimonial entre Nicole e seu filho. O dia do Christopher começava de maneira simples: praticava a esgrima todas as manhãs no Angelo'S. Tinha passado várias horas ao longo daqueles meses praticando boxe no salão Gentleman Jackson, no número 13 do Old Bond Street, mas embora desfrutava das luvas, seu verdadeiro amor era a espada. Lhe encontrava com frequência no Angelo's com um espadim em sua mão fornida enquanto descarregava parte de suas energias reprimidas. Essa manhã ficou ali com o capitão Buckley e o tenente Kettlescope para passar uma hora ou duas praticando com os floretes. Talvez havia uma dúzia ou mais de cavalheiros no ginásio, vários deles observando ao miúdo francês Angelo enquanto este lhes revelava os detalhes intrincados de uma parada bastante complicada. Houve uma troca de saudações e o capitão BuckIey e Christopher se dirigiram aos vestuários. O tenente Kettlescope, um jovem magro de sonolentos olhos azuis, decidiu de repente que não queria fatigar-se muito e se sentou junto a uma janela que dava ao pátio. O capitão BuckIey sorriu divertido. - Temo-me que Anthony é um verdadeiro ocioso. Pergunto-me como faz para cumprir suas funções a bordo do navio. Christopher deu de ombros. Não estava de ânimo para bate-papos banais. Ainda lutava com sua consciência por usar a esses dois oficiais para seus próprios fins, e algumas vezes lhe resultava difícil cercar uma conversa despreocupada e alegre. Hoje não era diferente, mas quando se encontraram na areia minutos depois, parte de seu mau humor tinha desaparecido. Christopher era um oponente formidável, um espadachim consumado a quem poucos quereriam enfrentar-se em um verdadeiro duelo de destreza. O capitão


BuckIey, alguns anos mais velho que ele, tampouco era um novato, mas era mais baixo e de compleição robusta; o que lhe faltava de altura o compensava em fúria. Saudaram-se com uma reverência zombadora, logo as pontas dos floretes se beijaram brevemente e se ouviu gritar: «Em garde!» Durante a meia hora seguinte só se ouviram os assobios e os choques das folhas de aço dirigidas por mãos peritas. O capitão Buckley, ofegando e impotente contra a folha do Christopher, pediu uma trégua. - Maldição, Chris, alguma vez baixa sua maldita guarda? Acreditei que te tinha com essa flanconade, mas foi muito veloz para a minha, maldito seja! Eram os únicos que usavam o estrado de madeira. Advertiram que outros cavalheiros, inclusive Angelo, estavam reunidos perto da frente do edifício rindo e brincando. O capitão Buckley, sempre curioso, dirigiu-se imediatamente ao grupo e perguntou em tom de brincadeira: - O que lhes diverte tanto que estão todos grasnando como uma manada de gansos por uma casca de pão? - É Daventry! Sabe uma história do mais divertida sobre o Brummel e o regente. Devia escutar! Christopher não estava muito interessado no último conflito entre Prinny e seu petimetre preferido, assim ficou onde estava. Não prestava muita atenção à história que contavam e seu olhar percorreu o grupo. Subitamente viu ali ao Robert. Este estava ocioso fora do círculo de homens e era evidente que tinha acompanhado ao fofoqueiro Daventry, pois Christopher poderia jurar que seu tio não tinha estado ali mais cedo. Aparentemente, ao Robert tampouco interessava muito a história que estavam contando, porque quando seus olhares se cruzaram, começou a avançar com resolução para o Christopher. A presença de Robert no Angelo's essa manhã era acidental. Passados já os anos de brios juvenis, estranha vez sentia a necessidade de esgotar-se em tais atividades. Mas era um excelente jogador de esgrima e tinha observado com muita atenção os últimos minutos do lance entre seu sobrinho e Buckley. Seu afã por perseguir e conquistar Nicole o tinha feito deixar para um momento mais oportuno a luta encarniçada que tinha com Christopher, mas a discussão de ontem à noite com Regina indicava dolorosamente que seu sobrinho ainda podia torcer seus planos. A ideia de que Nicole pudesse ser a esposa do jovem despertou toda sua fúria adormecida. Ao ver o objeto de seu ódio de pé em atitude negligente frente a ele, muito mais próximo à idade da Nicole que ele mesmo, uma cólera cegadora lhe invadiu. A dominou, mas seus olhos eram hostis. - Dirigiu esse florete bastante bem para alguém obviamente tão pouco treinado -burlou-se Robert quase enlouquecido de ciúmes. Christopher lhe olhou com frieza.


-E como sabe se estou ou não estou treinado? me parece que o fiz muito bem. Robert encolheu os ombros e como ao descuido tomou um dos floretes que penduravam da parede. - Não há dúvida de que aprendeste um ou dois truques de salão - comentou com desdém fazendo correr a folha flexível e mortal pela palma da mão-. Mas eu, sobrinho, matei a um homem em um duelo. -Como? -inquiriu ironicamente Christopher-. Com uma estocada pelas costas? - Maldito seja! - grunhiu Robert com os dentes apertados. E sem deter-se para considerar seus atos, arrancou o botão da ponta do florete e logo, sem dar sequer a sabida advertência ao adversário, arremeteu contra Christopher com a folha nua. Com agilidade felina este se separou de um salto e instintivamente parou o bárbaro ataque do Robert. Seguiu um raivoso intercâmbio de movimentos rápidos, mas Christopher se recuperou com rapidez. Concentrando-se em esquivar a folha nua que brandia seu tio, retrocedeu sem pressa ante várias ameaças, parando-se habilmente, quase com indolência. Depois de um momento, quando foi evidente que Robert tinha a intenção de continuar aquela luta desigual, Christopher comentou sem emoção: - Seu florete não tem botão, ou é que não o tinha advertido? -Seriamente? Temo-me que não sei do que está falando. - Investiu com violência apoiando-se sobre o pé direito e lhe lançou uma estocada ao peito, mas Christopher desviou a folha sem dificuldade. Os opositores ficaram momentaneamente cara a cara e o jovem, que começava a encolerizar-se, provocou-lhe: - Terá que te esmerar mais que isso, tio. Ou só pode avantajar aos fracos e os néscios? Seu tio soltou o ar de seus pulmões com um assobio de raiva retrocedeu. - Prometo-te que lamentará o que há dito. - Algum outro encontro com uma patrulha Marinha ou tinha em mente algo mais honorável desta vez? As folhas se chocaram com violência e Robert, com olhos gelados e furiosos, começou a lançar uma série de estocadas mortais e deliberadas com a intenção de induzir Christopher a um estorvo prematuro. Friamente, este avaliou a situação. Era inconcebível que Robert tivesse perdido a razão até o extremo de tentar lhe matar em um salão de cavalheiros, mas algo estava consumindo a aquele homem, deixando-o irracional. Christopher se arriscou a jogar uma olhada em direção ao grupo de homens que, indiferentes ao que acontecia no estrado, seguiam conversando animadamente no outro extremo do salão. Ninguém estava lhes emprestando atenção no momento. Ele poderia lhes pedir ajuda,


mas desprezou a ideia no mesmo instante em que cruzou por sua mente: seu orgulho não o permitiria. Enquanto continuavam lutando ferozmente, Kettlescope deu um súbito grito de alarme: - Meu Deus! Senhor Saxon, caiu o botão do florete! Cuidado! Cuidado! Kettlescope estava contemplando uma mosca no parapeito da janela quando o ritmo furioso da luta entre o Christopher e Robert chamou sua atenção. Uma ou outra vez os botões se soltavam por acidente e Kettlescope supôs naturalmente que isso era o que tinha ocorrido àquela vez, assim como vários cavalheiros que agora olhavam em direção aos combatentes. Acreditando que Robert deteria seu ataque agora que tinham atraído à atenção dos pressente, Christopher baixou a guarda. Mas Robert, incapaz de resistir um alvo tão tentador, com deliberação e maldade lançou uma estocada com a velocidade de um raio; Christopher se recuperou com rapidez e desviou a folha do alvo, mas a ponta do florete se deslizou ao longo de seu braço deixando uma vermelha ferida de onde começou a emanar abundante sangue. Kettlescope foi quem se aproximou primeiro a eles e Buckley seguiu a dois passos de distância. Os outros, alarmados agora, correram para os duelistas. Entretanto, todos estavam convencidos de que tinha sido um acidente desafortunado; um acidente terrível que poderia haver acontecido a qualquer um. As aparências deixavam entrever que Robert, alheio à falta do botão em seu florete, não tinha podido deter a última investida. O instinto de conservação se sobrepôs ao ódio que albergava no coração e fez com que aproveitasse imediatamente o equívoco. Jogando a folha a um lado e com uma expressão trágica no rosto, gritou: -Oh, Meu Deus! Não tinha ideia! Sobrinho, está ferido gravemente? Com um grande esforço, Christopher resistiu à tentação de lhe trespassar o florete no peito nesse mesmo instante, mas a ferida não era tão leve como parecia e estava perdendo sangue a ritmo alarmante. Kettlescope extraiu um grande lenço branco e estava lhe enfaixando o braço para deter o sangue quando Christopher disse em voz baixa e tensa: -Viverei! Por desgraça para ti! Kettlescope levantou a cabeça, assombrado, mas Robert já se afastava dizendo em tom preocupado: - Devo encontrar um médico. Angelo, qual é o cirurgião mais próximo? Meu sobrinho deve receber assistência médica imediatamente! Ignorando os rogos do grupo, Christopher, inflexível, procedeu a trocar-se de roupa vestindo o traje de rua e só consentiu em permanecer quieto quando chegou o médico. Este franziu os lábios e se mostrou preocupado ao examinar a ferida longa e profunda no braço musculoso, mas depois de curá-la com um pó antisséptico e


enfaixá-la de novo com suave musselina branqueada, afirmou com olhar carrancudo que não havia nada que não curassem umas semanas de repouso. Depois de lhe dar instruções precisas sobre o cuidado que devia receber a ferida duas vezes ao dia durante uma semana e sobre o uso de uma tipoia para evitar que voltasse a abrir-se, o médico fechou sua negra maleta de couro e partiu. Robert tinha aproveitado bem o tempo e luzia agora uma expressão tão afligida de tio consternado que fez chiar os dentes de Christopher. Ninguém pôs em dúvida sua aparente preocupação, e uma vez que este, acompanhado de dois cavalheiros, partiu, o incidente passou ao esquecimento... depois de tudo, era só um desafortunado acidente. A notícia da ferida do Christopher chegou a Cavendish Square ao meio-dia e ao ouvi-la, Nicole sentiu que lhe aceleravam os batimentos do coração. Por sua mente passou fugazmente a ideia de que ela era responsável pelo que tinha ocorrido, mas logo tratou de convencer-se de que não foi nada mais que um acidente, como diziam todos. Entretanto, teve que admitir que Christopher ainda podia comovê-la. Lorde Saxon não perdeu tempo e foi rapidamente a Ryder Street ver como estava seu neto. Robert, empenhado em eximir-se da culpa, tinha sido quem levou a notícia a seu pai, mas depois de uma azeda troca de palavras entre eles, ninguém pôs em dúvida de que lorde Saxon culpava a seu filho do acidente. Christopher estava descansando à contra gosto na cama quando chegou seu avô. Estava pálido pela perda de sangue e a febre lhe pesava nos olhos, mas ao ver a preocupação no rosto do ancião, animou-se um pouco e lhe sorriu com certa indolência. -Vá, que coisa mais absurda passou! -disse com a nota justa de pesar-. Não sei qual dos dois se sentiu mais néscio... Robert por não dar-se conta de que o botão caiu de seu florete ou eu por não ser mais ágil. Aquelas palavras frívolas e ditas em tom leve acalmaram o temor do avô, como tinha sido sua intenção. Quão último desejava Christopher era que Simon soubesse que o ataque foi premeditado. Esse conhecimento só afligiria ao ancião e portanto se esforçou por lhe convencer de que tinha sido um acidente. Com Robert acertaria as contas mais adiante. Regina, embora um pouco inquieta pela ferida do Christopher, estava encantada com a situação. Graças ao contratempo de hoje ficava descartada por completo qualquer possibilidade de que Robert pudesse pedir a mão de Nicole e ser bem recebido por Simon. Seu irmão jamais daria seu consentimento agora! E o terno coração de Nicole não se encolheria de pesar cada vez que pensasse no pobre Christopher confinado em seu leito de dor? Mas com gesto resolvido decidiu que não era suficiente abrigar a vaga esperança de que a enfermidade de Christopher comovesse Nicole. Ela, Regina, devia encarregar-se em pessoa de que Robert já não pudesse entrar e sair a seu gosto da casa e cortejar a jovem quando lhe desejasse.


Não foi até na quinta-feira pela manhã, dois dias mais tarde, quando fizeram Nicole ver clara e firmemente que já não poderia manter mais conversações com Robert. Como este geralmente a levava para cavalgar no parque, essa manhã durante o café da manhã a jovem comentou: - Alegra-me tanto que o dia esteja bonito! Desfrutarei muito cavalgando com o Robert no parque hoje. Mas se desconcertou bastante quando Regina replicou em tom gelado: - Temo-me que não passeará a cavalo no parque nem em nenhuma outra parte em companhia do Robert durante algum tempo. - Perdão, como disse? - perguntou sem compreender. Sabia que Regina se incomodou por sua conduta durante a noite no Vauxhall Gardens, mas depois de receber uma grande reprimenda por ter se comportado de uma forma indigna de uma dama, acreditou que o aborrecimento de Regina tinha passado. Esta, jogando faíscas pelos olhos, disse sem reservas: - Ambos mostraram uma deplorável falta de boas maneiras e é óbvio que não se pode confiar em vocês. Decidimos que é melhor que não veja tão frequentemente a meu sobrinho. Os olhos de Nicole se entre fecharam e sua boca adotou um rictus duro. -Estão me proibindo que lhe veja? -perguntou em tom detestável. -Oh não, querida! - apressou-se a responder à senhora Eggleston amavelmente-. Não pense tal coisa! O que acontece é que a perseguição da que te faz objeto é excessivamente notória e consideramos que não deveria lhe permitir que absorvesse tanto seu tempo. Não está bem visto, já sabe. Furiosa e bulindo de rebeldia e ressentimento, Nicole terminou sua comida; a torrada tinha sabor de areia e o chá à água de sentina. Se antes se sentia oprimida, a conversa dessa manhã lhe tinha revelado com crueldade a pouca liberdade que gozava uma jovem de posição social. Tremeram-lhe os dedos de raiva contida ao deixar a xícara no prato com um golpe surdo. Ocultando sua ira, perguntou sem expressão na voz: - Então, se não posso cavalgar no parque, podem me dizer o que farei? A senhora Eggleston lhe sorriu com carinho. - Vamos, querida, esqueceste que lorde Lindley mencionou que viria de visita esta manhã? Nicole fez uma careta indigna de uma dama. Tinha-o esquecido e não estava muito segura de querer respirar o marcado interesse de lorde Lindley nela. Mas pouco depois, quando este e um conhecido seu entraram no salão matinal, não demonstrou nenhuma inapetência ao saudar os dois jovens com a maior amabilidade. A senhora Eggleston, observando-a com carinho, sorriu-lhe transbordante de júbilo, e Nicole teve vontade de dar uma patada no chão de pura raiva.


Normalmente lorde Lindley era um jovem tímido, mas essa manhã estava cheio de entusiasmo; tudo se devia à presença do retraído cavalheiro que havia trazido consigo. Quase balbuciando se desculpou: - Espero de coração que me perdoem por trazer o Jennings-Smythe comigo. Mas acaba de retornar da América do Norte e estou fazendo todo o possível para lhe fazer sentir cômodo em Londres. É algo assim como um herói, como saberão. - Ao ver o olhar inquisitivo de Nicole, continuou-: É verdade! Vá, se precisamente o ano passado, um corsário muito notório, um tal capitão Sable, atacou seu navio e lhe capturou. Só graças a seu grande engenho pôde Jennings-Smythe escapar ileso. Ocultando a agitação e o medo que lhe sacudiam o corpo, Nicole sorriu com debilidade ao jovem calado que estava ao lado de lorde Lindley. Com a esperança de ter entendido mal as palavras de este, perguntou estupidamente: - É verdade? Capturou esse homem? Jennings-Smythe lhe dedicou um amplo sorriso. -Oh, sim, o capitão Sable de La Belle Garce quase afundou meu navio e nos obrigou a nos render. Levaram-me junto a todos os outros a uma sórdida ilhinha de onde ao fim me preparei para escapar. Não fugi de uma prisão mas sim da toca de um contrabandista. -Seriamente? -respondeu Nicole com um vago sorriso, e mais atemorizada com o que queria admitir, perguntou como ao descuido-: E você viu esse capitão Sable? Jennings-Smythe mostrou um gesto sério e quase pomposo. - Bom, uma vez somente, mas posso lhe assegurar que lhe reconheceria sem dificuldade. Não é um homem que possa esquecer-se facilmente. Nicole sorriu com frouxidão e comentou algo sem importância. Logo se sentiu profundamente agradecida quando Regina e a senhora Eggleston intervieram na conversa tratando com grande deferência ao recém-chegado. Quando por fim pôde escapar, Nicole correu a suas acomodações com uma só ideia em mente, avisar ao Christopher. Temerosa de revelar muito por escrito, decidiu que seria melhor falar com ele em pessoa. Graças a um suborno conseguiu que Mauer levasse à nota as acomodações do Christopher, mas só lhe dizia que devia lhe ver imediatamente. Tinha vacilado muito a respeito de como assiná-la e temendo que ele pudesse não advertir a urgência e importância da situação, assinou-a Nick, esperando que compreendesse que essa petição tinha a ver com o capitão Sable. Foi só então quando se precaveu com um sobressalto que foi metade alegria, metade medo que se Jennings-Smythe tinha escapado de Grand Terre, Allen também poderia havê-lo feito. Pela primeira vez a assaltaram a culpa e os remorsos. Tinha estado tão absorta no Christopher, em Londres, que nem sequer tinha pensado uma vez sequer no Allen. Enchia-a de júbilo a ideia de que este pudesse encontrar-se em liberdade, mas na Inglaterra era algo completamente diferente.


«Oh, Allen, me perdoe!», pensou angustiada, «mas por favor, por favor, fica a salvo e livre em alguma outra parte, em qualquer lugar menos em Londres, onde poderia reconhecer ao Christopher» Nervosa e inquieta passeou por suas acomodações aguardando a resposta. Quando esta chegou se sentiu aliviada e zangada ao mesmo tempo. O senhor Saxon, informava-lhe, estava com seu servente pessoal no Sussex para passar ali um período de tempo indefinido.


CAPÍTULO XXVII A decisão de viajar a Sussex tinha sido bastante difícil de tomar para Christopher. Era somente em Londres onde tinha esperanças de averiguar alguma informação útil, mas a capital não era o melhor lugar para passar uma convalescença. Tinha verdadeiro horror de sua tia avó e da senhora Eggleston, que sem dúvida cairiam sobre ele com suas famosas infusões e poções caseiras, e tampouco desejava sofrer as visitas quase diárias de seu avô, ante quem se via obrigado a fingir para não intranquilizá-lo mais do devido. Além disso, pensou contrariado, o mais provável era que seus amigos atrasassem sua cura antes de acelerá-la. Absolutamente determinados a lhe levantar o ânimo, apinharam-se em suas acomodações, bebido seu conhaque, rido e falado até esgotar-se e ao final cair bêbados sobre o chão de seu dormitório. Não, definitivamente, Londres não era o lugar adequado para alguém que necessitava vários dias de repouso e tranquilidade. Mas, sobre tudo, decidiu que tinha estado perseguindo uma quimera. Tinha sido desatinado tanto de parte do Jason como dele mesmo pensar que poderia descobrir algo importante. Até antes de aceitar este plano improvável, estimou que seria difícil ter êxito, mas tinha tido a esperança de superar os obstáculos com um pouco de sorte. Agora chegava a triste conclusão de que tinha perdido muito tempo em Londres. Em Nova Orleans poderia estar fazendo coisas de mais proveito e com melhores resultados dos que conseguia na Inglaterra. Era uma decisão amarga, mas já a tinha tomado; se tivesse que embarcar de volta, primeiro teria que estabelecer um ponto de onde partir, daí sua escolha por Sussex. A ferida do braço lhe proporcionava um pretexto excelente para abandonar a cidade, já que ninguém se surpreenderia que desejasse passar uns dias de paz e quietude na costa. Empregaria esse tempo em proveito próprio, a pesar da dor e o desconforto do braço, e alugaria uma cabana solitária na praia. Finalmente decidiu que uma vez curado o braço tentaria pela última vez averiguar sobre os planos britânicos sobre Nova Orleans. Alugou a moradia até primeiro de outubro, já que em trinta de setembro era uma das datas fixadas de antemão com Jason para comunicar-se com o corsário. Se até então não tivesse obtido nada, faria sinais ao navio e partiria dali com as mãos vazias, salvo os rumores e as últimas notícias que tivesse. Sentindo que por fim estava assumindo o controle da situação, guardou sua carruagem e os cavalos no estábulo da estalagem mais próxima e se dedicou totalmente a repousar e relaxar-se. O tempo transcorria rapidamente para o Higgins e


para ele na cabana; pouco a pouco Christopher foi recuperando as forças e o vigor perdidos. Passava os dias percorrendo e explorando a costa e até se arriscou algumas vezes a nadar na água gelada para exercitar com suavidade os músculos do braço ferido; pelas tardes descansava nos afloramentos rochosos próximos à praia de calhaus e depois de toda uma jornada ao ar livre, dormia profundamente pelas noites. A única nota discordante foi quando descobriu a pouca distância da cabana, sobre a costa, uma elegante residência que reconheceu imediatamente como a que estava acostumado a alugar Robert quando ia a Brighton. Tinha esquecido esse fato e a casa lhe trouxe reminiscências de sua primeira juventude, quando vinha com frequência a Brighton com seu avô a fins do verão para visitar a esposa do Robert e seus filhos nessa mesma casa. Era estranho que o tivesse esquecido, mas agora tratou de desprezar essas lembranças, pois não desejava que algum pensamento sobre o Robert perturbasse a paz que tinha encontrado. Christopher tinha muito tempo para refletir. Deitado na areia com as costas apoiada contra os escarpados situados frente ao mar e o vento lhe revolvendo o cabelo escuro, passava horas observando o oceano sempre cambiante, algumas vezes totalmente absorto em seus pensamentos, que pareciam seguir o ritmo indolente das ondas ao quebrar na praia. Durante aquelas longas meditações descobriu com surpresa que não se arrependia de nada do que tinha feito até agora. Salvo, talvez, não ter sido tão parvo com Annabelle ou ter tratado com maior delicadeza a Nicole, mas até essas coisas eram mero caprichos passageiros. Desprezou com cinismo a aversão que acreditava sentir pelo papel que estava desempenhando na Inglaterra; se em realidade lhe tivesse aborrecido, simplesmente não o teria feito. Seus pensamentos sim voltavam de vez em quando para a Nicole, mas ele era, apesar de tudo, um homem insensível e desumano e tinha encerrado aquelas lembranças nas profundidades mais recônditas de sua mente. Deveria lhe agradecer tudo o que tinha feito por ela, pensou com ironia, pois lhe tinha oferecido suficientes aventura e excitações para que lhe durassem o resto de sua vida. Quando estivesse casada com algum cavalheiro respeitável e aborrecido, rodeada de meninos malcriados, provavelmente lhe recordaria com nostalgia. Ao pensá-lo deixou escapar uma súbita gargalhada áspera e cruel que afugentou a uma gaivota curiosa. Que importância tinha? Em menos de um mês ele estaria navegando de retorno a seu lar e Nicole provavelmente decidindo a qual de seus pretendentes lhe entregaria sua mão e seu corpo esbelto e flexível. Ante seus olhos apareceu de repente à visão inesperada daquela figura de formas perfeitas, e furioso sentiu a resposta instantânea de seu próprio corpo. Amaldiçoando, ficou em pé de um salto, despiu-se e se jogou no mar. A água estava gelada e entumecedora e a ferida do braço lhe impedia de nadar com braçadas vigorosas e rápidas, mas sem arredar se internou até que o sentido comum lhe fez nadar de novo para a praia. Caminhou despreocupadamente até onde tinha deixado à roupa e se deixou cair sobre uma gasta manta. O mergulho desterrou Nicole de seus


pensamentos e agora, sentado uma vez mais frente ao mar, suas reflexões giraram ao redor do Simon. Tendo decidido já que partiria para fins de setembro, perguntava-se, realmente aflito, como o comunicaria a seu avô. Não podia partir ao mar sem dizer uma palavra, escapando como um ladrão noturno. Lhe teria gostado de desterrar a ideia de sua partida iminente como fez com a da Nicole, mas isto era algo ao qual devia enfrentar-se. Aborrecido pelo giro que tomavam seus pensamentos, pegou uma pedra com mão impaciente e o jogou na água espumosa da beira, desejando desembaraçar-se de seus problemas com a mesma facilidade. Não podia assumir um ar indiferente e dizer com a maior tranquilidade: «passei momentos muito gratos em sua companhia durante esta visita, avô, mas agora devo retornar a Nova Orleans, isso seria impossível! Não encontrou nenhuma solução a aquele verdadeiro problema e depois de um momento, frustrado e encolerizando-se cada vez mais, deu-se por vencido. Pensaria em algo quando chegasse o momento: não teria mais remédio. Os longos passeios que dava pela praia ouvindo o murmúrio compassado das ondas e a revoada das gaivotas sobre sua cabeça lhe tinham feito muito bem. A brisa marinha o despojou dos bafos de tantas noites de bebidas em salões cheios de fumaça; o sol ardente acentuou o bronzeado de sua pele e seus olhos perderam aquela expressão de aborrecimento, tão evidente nos últimos tempos. Passou uma semana e logo outra e Christopher se encontrou curiosamente resistente a voltar para a vida ruidosa e à multidão de Londres. Higgins e ele tinham estado sozinhos e tranquilos todo o tempo, salvo as viagens forçosas de Higgins até Rottingdean para abastecer-se de mantimentos. Enquanto isso ele se encarregava de manter a pequena cabana tão limpa e ordenada como seu camarote de La Belle Garce. Mas, ao finalizar a segunda semana, Christopher, vendo que sua ferida não era nada mais que uma linha vermelha sem importância, tomou a decisão de retornar a Londres. Com uma data de partida para Nova Orleans fixada com firmeza em sua mente, sentiu a necessidade imperiosa de fazer o último intento para converter em êxito a missão que tinha resultado até agora um fracasso. Ao chegar a suas acomodações ao entardecer do dia seguinte, Christopher encontrou um amontoado de notas, cartões e convites lhe aguardando. Sem muito interesse jogou uma olhada a algumas delas e deu de ombros. Já veria se havia algo importante depois de jantar. Tomou um longo banho para relaxar da viagem e logo, vestindo somente uma bata de brocado, sentou-se a degustar uma das excelentes comidas que preparava sua caseira. Ao terminar de comer acendeu um charuto e se serviu uma taça de conhaque, e só então recordou a pilha de correspondência amontoada em uma esquina do aparador de mogno. Além disso, não foi a não ser até depois das dez da noite quando descobriu a mensagem de Nicole.


Releu-a com o cenho franzido. Que demônios significava? Enquanto olhava a assinatura, as rugas da frente se afundavam mais e mais. Só lhe ocorria um motivo para que ela tivesse assinado «Nick». Fosse qual fosse a razão pela qual precisava lhe ver, devia relacionar-se com o capitão Sable. E a maldita nota era de duas semanas atrás! Jogou de lado o charuto pela metade e chamando com impaciência ao Higgins, começou a vestir-se com rapidez. Em um tempo surpreendentemente curto se encontrou a caminho de Cavendish Square. Mas para sua grande frustração, ela não estava em casa nesse momento. Twickham lhe informou que a senhorita Ashford tinha ido a uma reunião no Almack's com lady Darby e a senhora Eggleston. Amaldiçoando baixo, Christopher desceu rapidamente pela escada e jogou uma olhada a seu relógio. Não eram onze horas ainda e com sorte chegaria ao King Street antes que se fechassem as portas para impedir o acesso dos atrasados. Não se admitia a ninguém depois dessa hora em ponto da noite, nem sequer ao grande Wellington em pessoa. Por sorte levava postos as calças curtas até o joelho, pois seu uso era obrigatório e uma das regras inflexíveis da instituição. Mais de um cavalheiro vestido com calças largas tinha sido despedido com altivez da mesma porta. Christopher chegou ao Almack's quando faltava só um minuto para as onze. Deixando o chapéu e as luvas, entrou no salão de baile uns segundos depois e procurou com o olhar a cabeça avermelhada de Nicole. Encontrou-a sem dificuldade já que estava em um extremo do salão rodeada de um verdadeiro enxame de admiradores. Seus ombros nus ressaltavam graças a sua pele de suave tom adamascado, e levava um vestido de seda opaca cor ouro coberto por outro de tênue gaze brilhante. O brilho do lustre que pendia sobre sua cabeça arrancava reflexos de fogo de seus cachos de cabelo escuros. Contemplou-a por um longo momento do outro extremo do muito vasto salão sem reparar no caleidoscópio de mulheres com brilhantes vestidos de seda e cetim e de cavalheiros com brancas gravatas engomadas e jaquetas de veludo que passavam constantemente ante seus olhos. Com algo semelhante a um sobressalto, compreendeu que Nicole não era só uma moça provocadora e tentadora que tinha perturbado seus sonhos e lhe tinha obcecado contra sua vontade. E voltou a ocorrer-lhe a desagradável ideia de que foi um néscio ao pô-la fora de seu alcance. Mas deu de ombros em seguida: as mulheres eram mulheres. Entretanto, assim que essa cínica premissa cruzou por sua mente, advertiu ao Robert de pé junto a ela, e se entrecerraram os olhos de Christopher. Lhe alargaram as narinas como as de um tigre a ponto de defender seu território contra um predador intruso e uma emoção violenta e poderosa lhe percorreu o corpo. Não reconheceu essa emoção avassaladora, só soube que tinha que rodear o corpo gentil de Nicole com seus braços e afastá-la de Robert. Cruzou o grande salão a grandes pernadas resolvidas e firmes e chegou junto à Nicole no momento preciso em que Robert estava a ponto de levá-la à pista de baile para uma valsa que começava a soar. Com


um brilho zombador em suas pupilas douradas, Christopher lhes bloqueou o passo deliberadamente e depois de inclinar-se com cortesia, murmurou: - Minha dança, conforme acredito! - E antes que Robert ou Nicole pudessem adivinhar suas intenções, levou a jovem com prontidão à pista. O inesperado de sua presença no salão, assim como a sensação grata que lhe produzia sua mão familiar ao redor da cintura ao dançar ao compasso da música melodiosa e vivaz, fez com que o coração de Nicole pulsasse com rapidez em seu peito e teve medo de que Christopher pudesse ouvi-lo. Mas ao levantar os olhos e descobrir o brilho malicioso daqueles olhos rodeados de grossas pestanas escuras cravados nela, não pôde controlar sua risada cristalina. - Christopher – repreendeu-lhe tratando de permanecer séria-, como pudeste! Robert ficará furioso! Reprimindo um sorriso de triunfo, o jovem deu de ombros enquanto seguiam girando pelo piso brilhante. - Não me importa o mínimo enquanto você não esteja zangada. Está-o? Um tanto desconcertada, observou as feições escuras que estavam um pouco cima de sua cabeça. Essa noite ele tinha um não sei o que estranho que o fazia vê-lo diferente, algo que não podia definir com palavras, e enquanto seguia lhe observando uma expressão estranha passou fugaz por seus olhos turvando-a imediatamente. - Não - respondeu ela por fim -. Não, não estou zangada absolutamente. - E lhe sorriu tão alegre e naturalmente que Christopher sentiu um batimento do coração estranho e surpreendente em suas veias e murmurou com voz pastosa: -Quando me sorri dessa maneira é uma sorte que estejamos em meio de uma multidão ou temo que não seria responsável por minhas ações. Despreocupada e alegre, Nicole lhe lançou um olhar cândido por debaixo das longas pestanas arqueadas. - Oh? Por favor, te explique - brincou ela. Agitou-se mais sua respiração ao ver o brilho que ardeu nas pupilas douradas do Christopher e confundida, desviou a vista quando lhe rodeou mais a cintura. Mas logo, ao recordar que estavam dançando nos sagrados recintos do Almack's, Christopher se relaxou e sorriu com indolência. - Sabe muito bem a que me refiro, minha pequena putinha! Afie suas unhas com algum outro! -disse com voz sem inflexões, embora em seus olhos seguia brilhando a faísca de fogo. Dançaram em silencio durante um momento, mas Nicole teve absoluta consciência do corpo viril que se movia sem nenhum esforço aparente ao compasso do dela. Lhe sustentava a mão sem apertá-la e o toque de sua outra mão sobre a cintura era seguro e destro. Enquanto se deslizavam ao redor do salão a assaltaram lembranças dessas mesmas mãos, duras e acariciantes, movendo-se sobre seu corpo, e se esticou inconscientemente. Como se lhe lesse os pensamentos, Christopher lhe aconselhou:


- Relaxe. Não tenho a intenção de me jogar sobre ti. - E acrescentou em tom seco-: Está a salvo, aqui! Incapaz de conter-se, Nicole replicou em tom mordaz: - Mas não, temo-me, no jardim de inverno de seu avô! Endureceram-se as feições de Christopher e sua expressão se tornou fria e zombadora ao responder imediatamente: -Sempre teve uma língua rápida, Nick. Entretanto, parece-me recordar que esse dia, precisamente, não me rechaçou. Nicole engoliu em seco com esforço, rasgada entre a fúria e a vergonha. Sem olhar aos olhos zombadores do Christopher vaiou: - Por que me recorda o que seria melhor que esquecêssemos os dois? -Porque -grunhiu com ferocidade-, eu não posso esquecê-lo! É uma tentação de todos os diabos -continuou com voz dura-, para qualquer homem, e apesar de todos meus defeitos, eu sou certamente um homem! Os dois ficaram desconcertados pela veemência com que havia dito essas palavras. Christopher, consternado por sua confissão, desviou a vista e perguntou com brutalidade: - Por que motivo desejava me ver? -Jennings-Smythe, o oficial daquele paquete inglês que capturou o ano passado, está aqui em Londres! O semblante do Christopher não delatou surpresa alguma, embora se uniram levemente suas sobrancelhas. Mas depois, ao recordar que muitos pares de olhos curiosos os seguiam enquanto dançavam, mostrou-se despreocupado. - Está segura? -perguntou-lhe, cortante. Nicole assentiu com vigor sem pensar naqueles que poderiam estar observando-os. - Oh, sim! - Logo recordou de repente o difícil da situação em que se encontravam e lhe apertou a mão com força-. Esta noite está aqui, Christopher. Vi-lhe faz um momento. Ele não pareceu comover-se pela revelação, e lhe teria esbofeteado com gosto por sua indiferença. Mas sorriu docemente para benefício dos espectadores e disse com os dentes apertados: - Ele pode te reconhecer como Sable, pensaste nisso? - Não. Mas é óbvio que você sim. Acha que me denunciará? Se o fizer, como desfrutará! Que magnífica revanche tomará então ao vê-los me levar a rastros e carregado de correntes! Ainda há, acredito, um preço por minha cabeça. Vá, até poderia cobrá-lo! -Oh, te cale! -exclamou com irritação, lhe amando e lhe odiando ao mesmo tempo. Elevou logo a vista, suplicante, e enfrentou a aqueles olhos de olhar sarcástico -. Christopher, tome cuidado. Jennings-Smythe está aqui esta noite, não pode entender isso? e se chegasse a verte e te reconhecer como Sable, não há nenhuma dúvida de que sairia daqui carregado de correntes.


-E te importaria? -inquiriu ele docemente com o olhar fixo nos olhos topázio. Toda a compostura ganha à custa de grandes esforços, sua teimosia por Robert, tudo se desmoronou em um instante enquanto pensava com pena que seria sublime poder reconhecê-lo. «Sim! Sim! Morreria se algo te acontecesse!» Mas a cautela freou sua paixão, ajudou-a lutar contra seus instintos e respondeu com indiferença: - Bom, seria embaraçoso como compreenderá. Depois de tudo, se lhe prendessem, alguém poderia ter curiosidade a respeito de minha relação contigo. Ao Christopher lhe gelou o sorriso nos lábios e seus olhos adquiriram um brilho glacial. -Oh, Christopher... -exclamou ela, contrita. Odiava-se por ter quebrado a intimidade do momento e desejou haver mordido a língua antes de dizer uma mentira tão flagrante. Mas o dano já estava feito e ao terminar a valsa ele a devolveu com prontidão ao Robert e fez uma reverência sem dizer uma palavra. Enquanto se afastava, voltou à cabeça e lhe disse: -Obrigado uma vez mais por me informar da presença do tenente JenningsSmythe. Agora devo ir e ser apresentado! Alarmada por sua temeridade e consciente só do perigo; Nicole replicou severamente: - Não seja néscio! Christopher lhe sorriu, embora seu sorriso não fosse agradável, e se afastou deixando Nicole furiosa e morta de medo ao mesmo tempo. «Esse imbecil teimoso e cabeça oca!», pensou estremecida de raiva. Mas seu coração angustiado gritava em silêncio: «Oh, pelo amor de Deus, Christopher, não o faça!» Entretanto, não havia forma de lhe deter, e sem lhe importar que Robert a estivesse observando com franca especulação, seguiu-o com a vista, afligida, enquanto ele procurava que o apresentassem a Jennings-Smythe. Nicole espremeu as mãos e a rigidez invadiu seu corpo ansioso ao ver um Christopher sorridente estreitar a mão de um Jennings-Smythe ligeiramente surpreso. Não podia ouvir o que diziam, mas dava a sensação de que sua apreensão e medo tinham sido desnecessários. Jennings-Smythe não reconheceu ao cavalheiro alto e galhardo que estava de pé ante ele. Colérica mas aliviada, pôde por fim desviar o olhar. Robert Saxon, a quem nada tinha passado inadvertido, comentou com cautela: - Meu sobrinho parece haver te turbado. - Nicole se deu conta de que era imprescindível desviar a atenção de Robert do que acabava de passar entre Christopher e ela, mas estava tão aturdida que não podia pensar em nada que dizer. Mas logo, ao dar-se conta de que assim como Robert a olhava com curiosidade, o mesmo estavam fazendo outros no salão, dominou suas emoções violentas e encontradas e lhe devolveu um sorriso radiante. - OH, que disparate! Reconhecerei, entretanto, que seu sobrinho é em excesso arrogante. Imagine, me levar dessa maneira, que divertido e brincalhão!


Robert a submeteu a um olhar inquisitivo e severo, mas Nicole mantinha uma estreita vigilância sobre suas emoções uma vez mais e seu semblante despreocupado e cândido acalmou o ciúmes de Robert. Mas a lembrança abrasadora de que Nicole tinha que casar-se com Christopher quase lhe leva a lhe perguntar aí mesmo se na verdade existia um compromisso matrimonial entre ela e seu sobrinho. Entretanto, um salão de baile lotado de gente não era o lugar ideal para semelhante pergunta e estava seguro de que Regina lhes afligiria com sua presença em qualquer momento, assim mudou de tema. Nicole se sentiu muito agradecida quando lady Darby se aproximou andando majestosa um momento depois e sugeriu em tom que não admitia réplica que partissem. Seguiu-a com docilidade através do salão e fora do edifício. Uma vez em Cavendish Square Nicole rechaçou a xícara de chocolate que lhe ofereceram e se retirou à intimidade de seu quarto. Se esteve aturdida e se mostrou pouco comunicativa com Mauer enquanto a despia, esta não deu maior importância ao feito. A senhorita devia ter dor de cabeça, e voltaria a mostrar-se corajosa e alegre pela manhã. Sozinha, vestida com uma suave camisola de cambraia da Holanda, Nicole rondou, afligida, por suas acomodações; o sono se mostrou esquivo enquanto os pensamentos buliam com fúria em sua cabeça. Que néscio condenado era esse homem ao cortejar o perigo de modo tão evidente!, decidiu com absoluto desdém. E ela era mais estúpida que ninguém por haver-se preocupado por ele. «Que lhe pendurem! Dançarei jubilosamente debaixo do pelourinho», disse-se a si mesmo com os olhos brilhantes de cólera e lágrimas contidas. Enquanto Nicole soltava fumaça em suas acomodações, Christopher tratava de bater-se em rápida retirada do Almack'S. Depois de seu primeiro arranque de ira cegadora devido ao falatório provocador de Nicole, compreendeu que estava provocando o perigo indo em busca de Jennings-Smythe. Entretanto, aproximar-se desse indivíduo quando ele estava preparado e o outro homem despreparado tinha sido o procedimento mais sagaz de todos. Mas depois de ser apresentados e saído ileso do encontro, decidiu evitar seu trato no futuro. Estava quase totalmente seguro de que Jennings-Smythe não lhe tinha reconhecido. Mas com o tempo era provável que relacionasse ao corsário capitão Sable com o londrino Christopher Saxon, e Christopher não desejava ter parte no desenlace que sobreviria. Era uma hora avançada, mas a ideia de dormir não lhe atraía muito e procurando alguma forma de passar o tempo foi atrás de Buckley e Kettlescope. Depois de uma busca infrutífera por vários clubes, encontrou-os nas acomodações de Kettlescope. Com eles estavam dois guardas montados da brigada da Casa Real da Inglaterra e os quatro tinham bebido além da conta. Kettlescope lhe lançou um olhar turvo e lhe ofereceu uma taça de vinho. Embora se resignou a ficar com eles, bebeu o vinho com pouca alegria. Mas o


desagrado que sentia pela cena se desvaneceu e entrecerrou os olhos para concentrarse quando Buckley murmurou: - Estamos celebrando que Kettlescope partirá ao mar. - Seriamente? Para onde? - perguntou Christopher, indiferente. Kettlescope sorriu com sonolência. - Isso é um segredo! Mas devo me apresentar e estar preparado para zarpar em qualquer momento! Buckley, com melhor cabeça para o licor, riu com dissimulação. - Zarparão para a América do Norte! Todo mundo sabe que lançaremos outra ofensiva. Um fornido guarda-florestal falou inesperadamente em tom judicioso: - Ninguém sabe ainda quem dirigirá o ataque, mas ouvi que Wellington rechaçou o oferecimento e que Pakenham tem a esperança de livrar-se da campanha da América do Norte. Todos se perguntam quem será o comandante em chefe. Com a vista cravada no vinho de sua taça, Christopher murmurou em tom seco: - Pergunto-me se alguém realmente conhece algo concreto a respeito desse ataque a América do Norte. Durante meses estive ouvindo que se prepara esse bendito ataque, mas ninguém parece saber com certeza quando ou onde. - sorrindo sedutoramente, acrescentou-: Acredito, meus amigos, que só estavam procurando um pretexto para lhes embebedar! -Não é assim! -grunhiu Buckley em tom desagradável-. Digo-te que vi o memorando por acaso sobre o escritório do major Black. -Oh, sim, outro memorando famoso! -burlou-se Christopher, mas com olhos alertas e a mente muito ativa. Buckley estava o bastante ébrio para ser indiscreto, e a conversa tinha surgido com tanta naturalidade e em um momento tão oportuno que Christopher não pôde menos que ter a certeza de que essa noite se inteiraria de algo importante. -É a pura verdade! Estava tudo ali, as tropas, o destino, e a data! - É possível? - inquiriu Saxon com evidente incredulidade-. Se for assim, o qual duvido, meu amigo, nos conte o que dizia. - Essa é informação secreta - murmurou recordando seu dever-. Não deveria mencioná-lo. -Precisamente! -concordou Christopher. Logo, como uma ocorrência tardia, acrescentou-: Mas se o maior Black deixa esse memorando sobre seu escritório com tanta negligência, é um verdadeiro milagre que não se perdeu. Um dos guardas pôs-se a rir. - Por Deus, Saxon, isso sim que é suculento! O Ministério da Guerra sempre está perdendo esses preciosos documentos. Justamente o mês passado se perdeu um concernente a um embarque de provisões que se necessitavam com urgência; levoulhes quase duas semanas encontrá-lo. Enquanto isso um dos oficiais de mais alta fila


gritava aos quatro ventos que o tinham roubado. Foi muito embaraçoso para ele quando o encontrou em uma pilha de papéis sobre seu escritório. Christopher se uniu às gargalhadas gerais, mas por dentro amaldiçoou a interrupção. Sem que resultasse muito evidente tinha que levar a conversa de novo a esse ditoso relatório. Era a primeira prova concreta que tinha ouvido desde sua chegada a Inglaterra, e sob nenhum conceito deixaria que lhe escorresse de entre os dedos. Rindo ainda comentou distraidamente: -Bem, confiemos em que ao memorando do major Black não lhe ocorra o mesmo! E a sorte pareceu lhe acompanhar a ele, pois Buckley mordeu o anzol. - Ja! Isso é extremamente improvável! O major o guardou debaixo de sete chaves, como uma virgem em um convento de monjas! -Oh! -exclamou ironicamente Christopher-. Parece-me recordar que mais de uma enrubescida virgem conseguiu escapulir-se de alguns desses velhos conventos de pedra. - Pode ser, mas neste caso nossa pequena virgem está fechada hermeticamente em uma caixa forte no escritório do major -disse Buckley com suficiência. Perdendo interesse somente na aparência, Christopher deu de ombros. -Possivelmente seja assim, meu amigo. Possivelmente seja assim. Fez um grande esforço por permanecer ali uma hora mais, rindo e bebendo, mas já estava elaborando um plano. Enquanto caminhava com lentidão para seu alojamento, quase à alvorada decidiu que roubaria esse ditoso memorando. Roubá-lo e logo. Mas não tão rápido, refletiu cheio de frustração, recordando que o próximo navio norte-americano não se aproximaria da costa até em trinta de setembro. Com a cabeça cheia de pensamentos confusos entrou em suas acomodações e se despiu distraidamente. Se tinha que roubar esse documento imediatamente, encontraria-se sem lugar a dúvidas na situação pouco invejável de ter em seu poder um papel que o poderia mandar à forca. Retê-lo quase trinta dias era uma loucura! Mas esperar poderia ser desastroso. Conhecia o lugar onde se guardava esse relatório naqueles momentos, mas poderia dizer o mesmo dentro de uma ou duas semanas? Deitado na cama e sem conseguir dormir, meditou sobre as revelações daquela noite e procurou a maneira de utilizar o que sabia em seu proveito. Não cabia dúvida de que teria que deixar passar um ou dois dias antes de voltar a passear pelo Ministério da Guerra e meter-se por acaso no escritório do major Black para inspecioná-lo, assim como também jogar uma olhada à caixa forte. Esta não lhe preocupava muito: seus dedos ágeis e sensitivos podiam abrir qualquer fechadura. Roubar o memorando apresentava poucos problemas; mas a oportunidade era em realidade seu maior obstáculo. Com um grunhido de raiva amaldiçoou sua sorte, já que o destino punha em suas mãos aquela ocasião dois dias depois da


entrevista de agosto. Não se atrevia a esperar muito para tirar o documento por razões óbvias, mas de que demônios lhe serviria se tinha que aguardar quase trinta dias antes de poder partir rumo à Nova Orleans?


CAPÍTULO XXVIII

À noite acordado não lhe proporcionou nenhuma solução e à manhã seguinte Christopher estava sentado com a vista perdida no vazio procurando ainda alguma maneira de resolver o dilema. Só uma coisa era certa: antes que terminasse a semana teria esse memorando em seu poder. A única maneira possível de ocultar o roubo era substituir o original com um falsificado e confiar em que ninguém percebesse a diferença. Para conseguir tal falsificação, entretanto, teria que comprometer no plano a outra pessoa e isso era, precisamente, o que não desejava fazer. A linha de ação mais óbvia era introduzir ao Higgins. Não só estava totalmente convencido de sua lealdade aos Estados Unidos, como também era um perito falsificador; precisamente por esse grande talento deu com seus ossos naquele navio da Armada Britânica, já que a outra opção era o cárcere. Embora Christopher não tivesse contado ao Higgins à missão que cumpriria na Inglaterra, suspeitava frequentemente que o homem sabia muito bem qual era. Mas como era resistente a envolver a alguém mais no que podia resultar uma intriga muito perigosa, Christopher tinha excluído de propósito do segredo a seu criado e amigo pessoal. Mas não lhe levou muito tempo compreender que não ficava outra alternativa que incluir o Higgins; era a única pessoa em quem podia depositar sua absoluta confiança. Uma vez que os britânicos descobrissem o desaparecimento do memorando, ou quando chegassem à conclusão de que tinha sido roubado, não cabia dúvida de que alterariam seus planos, com o qual o documento se voltaria imprestável em suas mãos. Assim por força teria que haver uma falsificação dentro dessa maldita caixa forte. Por um momento considerou falar com o Higgins imediatamente, mas o adiou com a esperança de que se apresentasse alguma outra solução. Se não chegava a ocorrer-se outra ideia quando estivesse a ponto de consumar o roubo, então e só então o diria. Sacudindo-se de seus pensamentos, vestiu-se rapidamente e trocou com Higgins os comentários habituais. Entretanto, o criado percebeu o mau humor de seu amo. Quase com indiferença, perguntou: - Há algo no ar, chefe? Christopher lhe jogou um olhar afetuoso e exasperado.


- Nada que não possa esperar. Falarei disso contigo mais tarde. Neste momento vou visitar meu avô. Já estará informado de que retornei à cidade e a menos que deseje receber uma bronca ensurdecedora, será melhor que vá e lhe tranquilize. Enquanto vestia a jaqueta, acrescentou-: Diga à caseira que não jantarei aqui esta noite e faça o que te agrade o resto do dia. Não me espere antes da meia-noite. Christopher chegou a Cavendish Square muito antes da hora em que começavam as visitas sociais. Além disso, encontrou Nicole e Simon sentados ainda à mesa, tomando o café da manhã; Regina e a senhora Eggleston ainda não tinham descido de suas acomodações. Simon se mostrou encantado de lhe ver e muito aliviado ao comprovar que seu aspecto era saudável e vigoroso. Já tinha dado a ordem de que colocassem outro jogo de café da manhã para seu neto, quando Christopher se adiantou e disse em tom despreocupado: - Não se preocupe. Já comi esta manhã. Contudo, não me viria mal uma xícara de café. Nicole lhe ignorou concentrando-se com ferocidade no bacon e no ovo esquentado que tinha no prato. A repentina agitação que a assaltou ao lhe ver a enfureceu e afirmou mais sua resolução de não ter nada a ver com ele. Ontem à noite tinha prometido que dançaria debaixo do pelourinho e manteria sua palavra, pensou sombriamente. Não ia seguir com esse amor obsessivo por um homem que, obviamente, não queria a ninguém. Por desgraça, não podia levantar-se da mesa e sair com passo majestoso do salãozinho de café da manhã, pois seria muito penoso para o Simon. E apesar da aparente boa vontade de este por tolerar os intentos de Regina de mantê-la separada do Robert, Nicole queria muito ao ancião e não desejava lhe perturbar. Com toda deliberação, manteve os olhos cuidadosamente separados da cabeça escura daquele demônio que tinha em frente. Embora não pareceu lhe prestar atenção, Christopher advertiu o gesto intransigente no rosto de feições delicadas de Nicole. Tinha visto o Nick adotar essa atitude muitas vezes a bordo de La Belle Garce para não reconhecê-la. Mas se a expressão obstinada recordava ao Nick, certamente nada mais nela o fazia. Quase com indolência, mal dando ouvidos aos comentários de seu avô, Christopher a estudou enquanto ela seguia sentada fingindo que ele não estava sentado à mesa. Usava um vestido de chacona cor damasco com uma fita encaracolado de renda marfim ao longo do decote e seus cachos de cabelo lustrosos emolduravam seu semblante borrascoso. Estava muito atrativa. E Christopher soube o que era sentir um impulso avassalador de tomá-la entre seus braços e fazer que ela fosse tão consciente dele como ele dela. Enquanto a seguia contemplando, a curva voluptuosa de seus lábios atraiu o olhar involuntário de Christopher e sua mente ficou cativada sem prestar já mais atenção às palavras de Simon.


Consciente da falta de interesse de seu neto, Simon titubeou e logo começou a divagar enquanto os observava com crescente curiosidade. E continuava falando como se Christopher estivesse lhe escutando em vez de ser apenas consciente de sua presença no salãozinho. Simon descobriu, satisfeito, que era tão óbvio como o nariz de seu rosto que esses jovenzinhos estavam perdidamente apaixonados. Também saltava à vista, pensou com chateio, que ou eram muito obstinados para admiti-lo ou muito estúpidos para dar-se conta. Que par de néscios teimosos! Simon voltou atrás imediatamente. Não, que lhe condenassem se ia se converter em um velho intrometido. Seria muito melhor que os dois encontrassem sua própria solução: ele não ia colocar a cabeça nesse vespeiro. Mas sim lhe consolou saber que a afirmação de Regina de que existia algo entre Christopher e Nicole tinha uma base sólida. Isso lhe facilitava seguir alimentando a irritação que sentiu contra Robert ao inteirar do acidente em que tinha ferido a seu neto. E enquanto permanecesse furioso contra Robert, este não se animaria a lhe perguntar se existia na verdade um compromisso matrimonial entre Christopher e Nicole. Além disso, admitiu a contra gosto, desejava que esses dois jovenzinhos contraíssem matrimônio. No mais profundo de seu coração reconhecia que não queria, sob nenhuma circunstância, que Robert ganhasse o afeto de Nicole. Christopher, ao dar-se conta de que só tinha estado escutando pela metade ao Simon, afastou bruscamente o olhar do rosto de Nicole e disse: -Perdoe-me? Como disse? Temo-me que estava pensando em outra coisa. Com um brilho malicioso nos olhos, Simon gritou: - Bem, preste atenção então! Perguntava se vai te reunir conosco em Brighton para o resto da temporada. Partimos na segunda-feira e não acredito que retornemos a Londres até a primavera. - Ao ver a expressão surpreendida de Christopher, Simon acrescentou a modo de explicação -: depois de passar uns meses na costa de Brighton, sempre me mudo a Baddington's Corner para passar o inverno, e juro que não voltarei a abandoná-lo nunca mais. Mas assim que chega a primavera, o impulso de vir a Londres se volta muito forte para mim e me encontro uma vez mais em Cavendish Square. Depois, o maldito círculo vicioso volta a começar. Provavelmente descobrirá que te passa o mesmo. Christopher, com um sorriso evasiva nos lábios, assimilou pensativamente essa nova informação. Brighton era a praia favorita do príncipe regente, e como tinha começado a prestigiá-la com sua presença há vários anos, o pequeno povoado se converteu no lugar predileto dos membros da aristocracia durante os meses de outono. E Brighton, recordou Christopher com uma confusa mescla de sentimentos e emoções, estava a muito poucos quilômetros de Rottingdean e seu ponto de reunião com o navio corsário. Quase pensando em voz alta, disse lentamente: -Tenho uma cabana perto de Rottingdean; como saberá é onde estive estas últimas semanas. Melhor passar uma temporada ali em vez de compartilhar sua casa


de Brighton, mas irei todos os dias para gozar dos deleites e diversões que possa oferecer o povoado. - Isso é ridículo! Pude entender o desejo de intimidade que tinha em Londres, mas realmente, Christopher, é uma verdadeira tolice que tenha que viajar todos os dias desde alguma cabana ruinosa quando pode viver rodeado de comodidades e como corresponde a sua fila. Estive esperando ansiosamente poder te ter comigo sob o mesmo teto outra vez ao menos durante uns poucos meses. A ideia tentou ao Christopher, embora só fosse para agradar a seu avô, mas se desculpou com muita amabilidade e cortesia. - Agradeço seu convite, avô, mas já tenho uma residência nas cercanias e preferiria conservar minha casa como tenho feito no passado. - Um brilho zombador brilhou em seus olhos ao acrescentar-: Se você o permitir, entretanto, estarei encantado de passar algumas noites ali de vez em quando. Será isso satisfatório? Não era o que Simon tinha em mente, mas foi o bastante sagaz para aceitá-lo sem mais discussões. Afundando o nariz no London Teme, começou a resmungar dizendo coisas desagradáveis contra os jovens e sua falta de respeito aos mais velhos. Christopher sorriu e murmurou-: -Hei dito que me comprometo a passar a noite de vez em quando. Simon lhe fulminou com o olhar um momento antes de explodir, irritado: -Te cuide muito bem para não faltar com sua palavra! -e logo voltou a colocar o nariz no jornal. Nicole, depois de esforçar-se para terminar a comida que tinha no prato, deixou muito cuidadosamente o guardanapo sobre a mesa e, ficando de pé, disse com voz baixa: - Me desculpem, por favor. Tenho que tratar alguns assuntos com Mauer. Christopher a olhou sem rodeios à cara com um curioso brilho nos olhos dourados, e surpreendendo tanto a Nicole como a ele mesmo, disse lentamente: -Deve partir agora mesmo? Tinha a esperança de poder te persuadir a me acompanhar num passeio. É uma manhã muito bonita e tenho uma calesa nova que eu gostaria de provar. Vem comigo? O semblante de Nicole não traiu a inundação de emoções que desatou o convite. Em seus lábios tremeu um ofegante sim, mas o reprimiu com força. Não! Não ia permitir que o tom de rogo de sua voz a hipnotizasse, pensou com fúria, recordando a angústia que tinha padecido temendo por sua segurança e o cinismo e crueldade que ele tinha demonstrado ao pavonear-se ante o tenente Jennings-Smythe. Não! Não voltaria a ser uma parva pela segunda vez: quem não deseja queimar-se foge do fogo. Mas viu que Simon, apesar de seu aparente interesse no periódico, estava atento a conversa, assim deu a sua voz uma nota de fundo pesar ao dizer com a maior candura: -Oh, quanto o lamento, mas devo me ocupar de alguns assuntos sem falta esta manhã, e já fiz planos para a tarde.


Christopher captou a falsidade de seu pesar e replicou com ironia: -Outra vez, então. Talvez em Brighton? Sorrindo e sentindo que tinha dado o primeiro passo contra sua misteriosa fascinação, respondeu vagamente: -Talvez. Antes que pudesse pressioná-la mais ou pensar em uma réplica adequada, a senhora Eggleston entrou na sala; estava especialmente atrativa essa manhã com um elegante vestido da moda de cambraia francesa azul e uma pequena touca de renda sobre seus cachos chapeados. Ao ver Christopher lhe iluminou a cara e lhe sorriu com calidez. Seus bondosos olhos azuis refletiram toda a alegria que sentia. Era a personificação da doce fada madrinha dos contos infantis, pensou Christopher sem poder remediá-lo. À senhora Eggleston lhe ruborizaram as bochechas de prazer e disse com voz doce e melodiosa: - Quanto me alegro de verte, Christopher! Parece que com tantos bailes e festas poucas vezes temos o prazer de sua companhia. Faz-me feliz que viesse esta manhã. Deve fazê-lo mais frequentemente. Simon que tinha baixado o jornal ao entrar à senhora Eggleston, resmungou: - Isso é uma tolice, Letty! O moço acaba de retornar ontem à noite à cidade como bem sabe. E não pode vir de visita muitas vezes mais porque também sabe que partimos a Brighton na segunda-feira. - lançando a seu neto um olhar carrancudo, acrescentou com sarcasmo-: Por sorte se dignou em vir nos visitar e passar uma noite que outra conosco em Brighton. Sem perturbar-se pelo humor diabólico de Simon, a senhora Eggleston aprovou a decisão do jovem com um amplo sorriso. - Que agradável! Ao menos lhe veremos mais frequentemente que aqui em Londres. Nicole, cuja retirada se postergou pela entrada da senhora Eggleston, aproveitou o intervalo de silêncio e disse apressadamente: - Me desculpem, por favor. - E depois de sorrir vagamente aos três, saiu da sala. Christopher ficou olhando a porta por onde ela tinha saído, um tanto perplexo ante seu próprio convite impulsivo e o sentimento de desgosto que lhe embargava pela resposta que lhe tinha dado. Tirou de cima a velha sensação de fracasso e decidiu que era muito melhor que tivesse recusado. Ao fim ela não significava nada para ele, pensou, não totalmente convencido. A senhora Eggleston não prestou atenção alguma ao olhar quase perdido de Christopher depois do desaparecimento de Nicole, mas sim indagou ansiosamente a respeito de sua ferida e de sua estadia em Sussex. - Senti-me muito decepcionada quando Nicole mencionou que tinha estado no Almack's ontem à noite e eu não te vi. Ficou muito tempo ali? - perguntou de súbito.


Christopher deu uma resposta vaga, já que não desejava comentar esse tema em especial. Mas a senhora Eggleston parecia estar interessada em não falar de outra coisa. Tentou ignorar as perguntas da dama, mas ela atraiu sua atenção ao comentar quase de passagem: -Claro que lorde Lindley não esteve ali ontem à noite, mas seus cuidados a Nicole foram muito óbvios ultimamente e não me surpreenderia se fizesse uma proposta de matrimônio a nossa adorável Nicole. Ocultando seu conflito íntimo depois de um sorriso imperturbável, Christopher perguntou aparentando com pouco interesse: - O filho do duque de Strathmore? - Ante o gesto afirmativo da senhora Eggleston, acrescentou jovialmente -: Bom, isso é excelente para ela. Imagine, Nicole duquesa. - Estou segura de que será uma duquesa adorável - replicou à senhora Eggleston com uma aspereza desconhecida nela. Christopher sorriu, pois sabia muito bem por que estava tão zangada com ele. Ao ficar de pé, comentou em tom de brincadeira: - Mas não confiem plenamente em consegui-lo. Quem sabe, algum outro, até eu mesmo, poderia ocupar o lugar do respeitável lorde Lindley. Tanto Simon como à senhora Eggleston reagiram levantando de súbito as cabeças e ele desejou haver mordido a língua. Irritado consigo mesmo, apresentou suas desculpas e partiu pouco depois. Uma consternada senhora Eggleston olhou ansiosamente ao Simon sem saber o que pensar. Se Regina tivesse estado presente teria sabido como interpretá-lo, mas por agora sua mente estava ocupada com Letitia e Simon. Durante todos esses meses a relação entre Letty e seu irmão não tinha progredido como era de esperar e isso a exasperava. E o que mais a irritava era que Simon, ao ter por fim a Letty sob seu mesmo teto, parecia contentar-se deixando as coisas como estavam. Sentando-se à mesa, Regina refletiu que se ao menos Letitia pusesse um pouco mais de empenho para que Simon se declarasse, tudo seria mais fácil. A senhora Eggleston, entretanto, não era nem vaidosa nem ambiciosa, nem dada às paqueras ou flertes fáceis. Não lhe tinha ocorrido que poderia casar-se de novo, nem que Simon pudesse pensar em desposá-la. Quando cada manhã se olhava ao espelho, tudo o que via era uma mulher murcha e descolorida com o cabelo prateado pelos anos. Sentia falta da doce serenidade de seus olhos azuis, e a curva sensual e atrativa dos lábios. Quase aos setenta anos seu rosto de delicadas feições ainda conservava o rastro da jovem encantadora que tinha sido e da calidez e bondade genuínas que irradiava. Mas Regina tinha decidido que aquela situação inaceitável entre a Letitia e Simon não se podia prolongar por mais tempo. Ela em pessoa se encarregaria disso! Uma vez que Regina se sentou e o calado Twickham lhe serviu o café da manhã, a senhora Eggleston exclamou cheia de deleite:


-Oh, minha querida, acredito que por fim Christopher vai fazer um esforço para fixar seu interesse em nossa querida Nicole. Acaba de estar aqui e pelo que há dito, penso que está considerando com seriedade desposar a Nicole. - Acrescentou sonhadoramente -: Umas bodas em dezembro seria o ideal, não está de acordo? Simon permaneceu calado atrás de seu jornal, mas Regina olhou a sua amiga com um brilho calculador nos olhos. A senhora Eggleston, refletiu Regina com bom critério, parecia mais encantadora que nunca aquela manhã; o prazer que sentia por Christopher e Nicole acrescentava um resplendor rosado a suas bochechas e aumentava o brilho de seus claros olhos azuis. «É a pessoa mais doce que conheço», pensou com carinho Regina. Seu olhar se deslocou com rapidez ao outro extremo da mesa e ali, pensou zangada, estava Simon escondido atrás de seu maldito Teme em lugar de cortejá-la. Lhe ocorreu de súbito um plano tortuoso e disse depois de um instante: - Que encantador! E que maravilhoso para ti! Suponho que estará louca de alegria por ser independente uma vez mais e não ter que estar à inteira disposição de Nicole. Regina sabia que essa era a maior mentira de sua vida. Letitia não estava à inteira disposição da jovem; a tratava como a um membro querido da família. E Regina, depois de ter surrupiado deliberadamente à senhora Eggleston parte da história daqueles últimos anos, tinha uma ideia aproximada de sua verdadeira posição econômica. Sabia que partes da história de seu amiga eram escuras. Por que arrastar a uma criatura como Nicole com ela quando não dispunha de nenhum dinheiro? E devia ter sido extremamente afortunada de que alguns de seus senhores lhe permitissem ficar com a menina. Estava segura de que se encontrava em uma situação de extrema pobreza e que sem a assistência de Nicole e do Christopher ficaria na rua. Também sabia que não havia nenhum perigo de que isso chegasse a ocorrer, posto que estes não o permitiriam, nem ela mesma se fosse o caso, e Simon, bom, Simon moveria céu e terra para impedi-lo se soubesse. Regina era bem consciente de que a senhora Eggleston jamais diria uma só palavra a seu irmão sobre seu estado financeiro. Sua afirmação teve um efeito surpreendente em Simon. -Que tolice é esta? -exclamou golpeando a mesa com o jornal -. Letty não tem nenhuma necessidade de pensar sequer em ir-se! -Oh, que disparate! -replicou Regina ao descuido-. Um casal de recém casados com toda segurança não quererá ter uma velha com eles, por muito que a apreciem. Não está de acordo, querida? - inquiriu olhando diretamente aos olhos da Letitia. O sorriso da senhora Eggleston se apagou ao pensar que não teria mais a seus queridos Nicole e Christopher perto dela e a ideia de não ver Simon cada dia foi para ela um tortura. Sobrepondo-se com muita dificuldade, respondeu:


-Oh, sim, certamente! O que dizia Regina, compreendeu cheia de desdita, era verdade. Sem dúvida não poderia intrometer-se na lua de mel, nem permanecer em Cavendish Square só com o Simon. O futuro risonho que tinha imaginado se desvanecia em um momento deixando-a gelada e atemorizada. O que podia fazer? Regina ignorou com firmeza o olhar afligido de sua amiga e disse com a maior desfaçatez: - Vê-o, Simon? Letty compreende. Não me cabe dúvida que já tem feito planos para uma contingência semelhante. Pensa voltar a viajar ao estrangeiro, querida, talvez a América do Norte? Estou segura de que depois de todos os lugares interessantes que viu não quererá ficar na Inglaterra. Escureceu-se ainda mais o semblante de Simon e seus olhos se voltaram escuros e tormentosos, enquanto a senhora Eggleston lutava com valentia para mostrar uma compostura e serenidade que não sentia. Encolhia-se em seu interior, incapaz de acreditar que a querida Regina, que conhecia bem sua situação, pudesse ser tão cruel. Deu-se conta, consternada, que tinha cifrado suas esperanças no sustento de sua amiga para esses dias longínquos em que Nicole não necessitasse mais de seus serviços. Mas aqueles dias “longínquos” estavam, repentina e aterradoramente, frente a ela, e era óbvio que Regina não pensava tomar parte em seu futuro. Reunindo suas poucas forças com um esforço sobre-humano, disse em tom alegre: -Sim. Claro. Isso é precisamente o que farei! - Logo, temerosa de cair no ridículo se lhe saltavam as lágrimas, levantou-se de repente da mesa e murmurou-: Me desculpem, tenho algumas coisas que fazer! - E fugiu dali tratando de esconder sua aflição, que era bastante evidente. Pretendendo que não tinha ocorrido nada de verdadeira importância, Regina lubrificou com cuidado a manteiga em uma torrada e a seguir a mordeu com deleite enquanto aguardava a explosão de cólera de Simon sobre sua cabeça. Não teve que esperar muito. -Vá! -trovejou Simon depois de um momento de silêncio aterrador-. Espero com sinceridade que esteja satisfeita de ti mesma! Nunca pensei que veria o dia em que trataria com tanta frieza a uma velha amiga. Sinto-me envergonhado de ti, Regina! Caramba, é o mesmo que se lhe houvesse dito diretamente que fizesse as malas e partisse imediatamente! Como pudeste? - OH, o que vai! - replicou Regina sem poder conter-se -. Letty o entende. Além disso, o que outra coisa pode fazer? Com toda segurança Nicole não a necessitará quando se casar! - Ja! Só porque Christopher fez um comentário sem importância não é nenhuma razão para supor que Nicole e ele se casarão! E em dezembro para cúmulo! - Foi Letty quem sugeriu dezembro -respondeu Regina em tom melífluo. Simon estava visivelmente agitado e furioso e ela cruzou os dedos por debaixo da


mesa esperando que fosse porque ao fim compreendia que algum dia não muito longínquo, o agradável grupo familiar de Cavendish Square tinha que se separar. Condenada Gina, pensou Simon contrariado, por que não podia ocupar-se de suas próprias coisas! Tudo tinha sido tão perfeito e maravilhoso e agora isto! Ao diabo com as mulheres intrometidas! Recolheu o jornal com um humor péssimo, mas Regina não ia permitir que aquela conversa tão interessante morresse. Sua voz soou clara e muito razoável ao dizer: - Talvez todos estamos equivocados ao cifrar nossas esperanças nesse único comentário do Christopher, mas Letty deveria pensar o que fazer no caso de que Nicole se case logo. Todos podemos ver que é muito improvável que esta jovenzinha comece o novo ano, se não casada, certamente não sem ter sido prometida em matrimônio. - Oh, não vou negá-lo, mas essa não é razão para meter na cabeça de Letty a ideia de que tem que sair a dar voltas pelo mundo! - replicou Simon acaloradamente. Abrindo muito os olhos, Regina perguntou com assombro fingido: - Vá! O que pode fazer se não isso? Nada a retém na Inglaterra! Espero que me visite de vez em quando e também a Nicole. Mas realmente, Simon, não está atada a nós. Olhando a sua irmã com desagrado, Simon disse mordendo as palavras: -Já sei! Mas não vejo por que não pode encontrar uma casinha cômoda e acolhedora perto da tua em Essex. - Entusiasmando-se com a ideia e muito contente de si mesmo, continuou-: Sabe, Gina, nunca me preocupei que vivesse sozinha, mas se Letty estivesse contigo me agradaria muito. - Estou convencida disso - respondeu sua irmã, cortante. E isso era precisamente o que estava decidida a evitar. Se Simon pudesse colocar Letty em sua casa, poderiam passar meses antes que ele se declarasse e ela não estava disposta a permiti-lo. Com absoluta frieza continuou mentindo-: Mas jamais resultaria, Simon. Desfruto da companhia de Letty, mas temo que tê-la comigo dia após dia me voltaria louca. Sabe bem como aprecio minha liberdade e fazer sempre o que quero, como vivo viajando de um lado a outro todo o tempo. A pobre Letitia terminaria com os ossos moídos seguindo meu ritmo de vida. Não, isso seria inaceitável. Simon lhe jogou um olhar feroz, aborrecido pela crítica implícita a Letty. - Que curioso, Letty não te aborreceu nestes meses! - explodiu, agressivo. - Talvez isso seja verdade, querido, mas houve tanta excitação, já sabe, entre a temporada e todo o resto, que ninguém no mundo poderia me haver aborrecido respondeu com soltura. Uma vez mais a conversa parecia a ponto de morrer quando Simon recolheu o jornal com gesto sério. Desesperada e jogando sua última carta, comentou em tom aflito-: Oh, que parva que sou, Simon! Esqueci-me por completo. Oh, pobre Letitia, que atrocidade cometi com ela! Pobre, pobre querida! -O que acontece? Maldição, diga-me - exigiu Simon. Adotando uma expressão de desconsolo, Regina murmurou:


-Pobre Letty! Saberá que não ficou absolutamente nada de sua fortuna. O coronel morreu lhe deixando só dívidas e ela esteve trabalhando para ganhar a vida estes últimos anos. E eu, como uma parva, tagarelava incitando-a a viajar pelo mundo. O que deve pensar de mim? - Deixou escapar um suspiro-. É uma pena que seja assim, mas suponho que terá que começar a procurar alguma colocação para manter-se. Devo escrever a várias de minhas amizades... uma delas sem dúvida necessitará uma ama de chaves ou uma dama de companhia. -Simon abriu a boca e suspeitando o que ia dizer, continuou falando depressa-: Por desgraça, eu nunca poderia lhe oferecer esse emprego comigo porque em seguida adivinharia que é por caridade e já sabe o suscetível e orgulhosa que é. - Pensativa, acrescentou -: Agora me deixe ver... Oh, já o tenho, justo o que necessitamos! Precisamente a semana passada à senhora Baldwin mencionou que estava pensando em procurar uma dama de companhia. - Ficando de pé, continuou-: O direi a Letty agora mesmo! minha Pobrezinha, sei que deve estar aniquilada imaginando que eu não faria nada para ajudá-la! - Sente-se! - troou Simon e a violência com que sublinhou essa palavra foi inconfundível -. A senhora Baldwin? Essa velha bruxa é a mulher mais grosseira e ditatorial que conheço em Londres e você poria Letty a sua mercê! - Mas Simon, que outra coisa posso fazer? - perguntou Regina com sensatez. A senhora Baldwin lhe pagará generosamente, deve admiti-lo. - Ora! - bufou Simon e com ágeis pernadas surpreendentemente juvenis saiu da sala dando uma estrondosa portada a suas costas. Com um beatífico sorriso nos lábios, Regina se dispôs a beber seu chá. Simon não procurou a Letitia imediatamente. Retirou-se a seu gabinete para meditar sobre tudo o que sua irmã lhe tinha revelado. A ideia de sua pequena Letty trabalhando todos esses anos para manter-se resultava abominável, e que pudesse verse forçada a fazê-lo de novo era intolerável. Simon tinha enviuvado fazia mais de vinte e cinco anos e durante todo esse tempo nunca tinha pensado em voltar a casar-se. Seu matrimônio não foi infeliz, mas não chegou a apreciar a vida conjugal. E a senhora Eggleston, a única mulher que poderia lhe haver feito trocar de parecer, tinha abandonado o país antes que a ele lhe ocorresse que agora os dois, no crepúsculo de suas vidas, estavam livres para casarse. As revelações de Regina despertaram nele todo seu instinto protetor. E tinha medo de que Letitia partisse novamente de maneira tão furtiva como o tinha feito de Beddington's Corner cinco anos atrás. Recordando sua pena e incredulidade de então, aquele homem alto e ainda galhardo apesar de lhe faltar poucos meses para cumprir setenta, passeou agitadamente pela sala. O matrimônio era a única resposta. Tinha querido desposar Letitia desde que ele tinha seus vigorosos dezessete anos e ela uns tímidos dezesseis. Mas agora que o momento tinha chegado, assaltavam-lhe os mesmos temores e incertezas que a


qualquer homem de qualquer idade nos momentos prévios a uma declaração: Amavalhe? Aceitaria sua proposta de matrimônio? Devia casar-se com ele, pensou com fúria. Ele a tinha amado durante toda sua vida e não tolerava a ideia de passar o resto de sua vida sem Letty a seu lado. Resolvido, buscou-a e a descobriu ao fim de um momento em uma pequena sala ao fundo da casa. A senhora Eggleston estava de costas a ele, frente a uma janela com vista a um lugar com o olhar perdido no vazio e pensamentos sombrios em sua mente. Seus ombros frágeis e pequenos tinham adquirido uma postura abatida e ao vê-la daquele modo, Simon sentiu o impulso irresistível de protegê-la com toda sua ternura. Mas vacilou. Pela primeira vez em sua vida sem saber o que fazer, os medos e as dúvidas ocupavam agora o lugar de sua habitual segurança e confiança em si mesmo. E enquanto seguia preso de incerteza, o som dilacerador de um soluço baixo chegou a seus ouvidos. Instantaneamente jogou no vento todas as outras considerações e correu ao lado da senhora Eggleston. -Letty, Letty, querida, não deve chorar! -rogou-lhe. Suas feições duras e sulcadas de rugas se suavizaram e expressaram toda sua dor quando a fez voltar-se carinhosamente e suas mãos fortes e nodosas se pousaram com calidez sobre os ombros frágeis e trêmulos da senhora Eggleston. -Oh, meu querido! -gaguejou ela, tentando corajosamente recuperar a compostura. Mas foi em vão: sentia-se tão sozinha, tão desnecessária e completamente desolada que o rosto do Simon, tão preocupado e ansioso, foi sua perdição. Seus grandes olhos azuis se encheram de lágrimas e os pudicos preceitos praticados ao longo de toda uma vida se desvaneceram quando se jogou em seus braços e soluçou: - Oh, Simon! Sou tão desventurada! O que posso fazer? Os braços de Simon se fecharam instintiva e possessivamente ao redor de seu corpo miúdo. -Letty, Letty -murmurou meigamente com os lábios contra os sedosos cachos brancos que repousavam contra seu peito. Sentindo-a por fim entre seus braços depois de tantos anos intermináveis, voltou toda sua confiança e exclamou quase com agressividade -: Vá, casará-te comigo! E esta vez não aceitarei um não como resposta! - Logo, em um tom incrivelmente terno, acrescentou-: Pensa nos anos que perdemos, meu amor. Por favor, não permita que também percamos os que ainda ficam. - Oh, Simon, não! Não o permitiremos! Sempre te amei e não poderia suportar que nos separássemos outra vez - disse com sinceridade a senhora Eggleston com a cara pálida. Simon, incapaz de resistir à tentação, baixou a cabeça e beijou com ardor a sua Letty pela primeira vez desde a juventude. Talvez o beijo não tivesse o fogo e a paixão de tinha a cinquenta anos, e certamente Letitia tinha perdido as graciosas curvas de uma donzela de dezesseis e


Simon os poderosos músculos de um jovem de dezessete, mas foi tão doce para ambos como qualquer beijo entre amantes. -Oh, Letty, amo-te tanto! Fomos tão néscios! -disse ele por último sustentando amorosa e protetoramente à senhora Eggleston entre seus braços. Uma mão de dedos delicados e finos se elevou e lhe acariciou a bochecha com carinho. - Oh, sim, fomos, Simon, mas ao menos temos o presente; - sussurrou a senhora Eggleston com o rosto radiante de felicidade, os olhos azuis mais brilhantes que nunca e um rubor muito atrativo nas bochechas. Mas então se abriu passado um pensamento inoportuno que lhe fez enrugar a testa. Lhe cravando o olhar nos olhos, perguntou-: Simon, Regina lhe disse algo? Contemplou-a com semblante inexpressivo e perguntou fingindo surpresa: - Regina? Caramba, o que ela tem a ver conosco? A senhora Eggleston deixou escapar uma risadinha sufocada, segura já de que nem a piedade nem a caridade tinham levado Simon a declarar-se. -Oh, nada, Simon querido. Nada absolutamente. Ela voltou a levantar a cabeça para lhe olhar aos olhos e Simon não pôde menos que beijá-la de novo. Mas debaixo da felicidade que lhe alagava corria o temor de que Letty descobrisse que Regina sim tinha falado, e quando a ajudou a sentar-se em um pequeno sofá de veludo rosa, disse com energia: - Casaremo-nos imediatamente. Obterei uma licença especial e no domingo a tomarei por esposa! -Oh, mas Simon, é aconselhável isso? O que pensará as pessoas? -protestou à senhora Eggleston genuinamente escandalizada por semelhante pressa. Simon tomou uma mão entre as suas e implorou: - Letty, tem alguma importância? A nossa idade? - Oh, Simon, não! Claro que não! - respondeu quase sem fôlego e os olhos brilhando de amor. E o que outra coisa podia fazer ele a não ser beijá-la de novo depois de uma capitulação tão doce e desejada?


CAPÍTULO XXIX

Nicole tinha abandonado o salãozinho onde tomavam o café da manhã sem um objetivo particular em mente, procurando só escapar da presença prejudicial e destrutiva de Christopher Saxon. Depois de vagar sem rumo por suas acomodações sem encontrar nada que lhe fizesse esquecer o rosto zombador de Christopher, tocou a campainha para chamar Mauer. Depois de vestir uma capa vermelha de lã, deixou dito que ia dar um passeio pelo Hyde Park. Era costume, sempre que saía da casa de Cavendish Square, que a acompanhasse um servente, circunstância que ela considerava irritante. Mas como a criada quase sempre era Médica, se preparava para suportar sua companhia sem muito ressentimento. Depois de tudo, recordava-se uma e outra vez, não era culpa da pobre Médica. A criada caminhava sossegadamente atrás de Nicole, que passeava com ar pensativo por um dos agradáveis caminhos do parque sem olhar sequer os acianos de floração tardia nem as margaridas de penetrante perfume que alegravam o chão. Como tinham se enredado as coisas em sua vida! pensava em um arrebatamento de ira. Fugiu da Inglaterra para escapar de uma armadilha e estava descobrindo que tinha caído em outra muito pior. Agora as coisas que em outras circunstâncias tinha aceito sem protestar a exacerbavam e a irritavam de tal modo que às vezes acreditava que se voltaria louca. As acompanhantes, a falta de intimidade, o ter que dar conta de cada minuto, que seus conhecidos tivessem que ser passados primeiro por lorde Saxon e lady Darby, mais os lugares que ela simplesmente não podia visitar porque «Querida minha, é impossível», davam-lhe a sensação de estar murchando-se. Absorta em seus pensamentos, continuou o passeio sem advertir as olhadas admirativas a seu passo ou o calor do sol que brilhava em um céu sem nuvens. Reconheceu com desconsolo que não podia seguir vivendo assim por muito mais tempo. Não suportava aquela rígida e inflexível ordem social que dominava as vistas de seus semelhantes. Tinha saudades com desespero da liberdade que tinha conhecido, desejava poder deixar cair à máscara da Nicole Ashford e deixar que Nick, o Nick de língua vivaz e maneiras atrevidas, que se vestia como queria e agradava a quem lhe interessava agradar, pudesse sair de sua prisão. Mais desolada que nunca, admitiu que o matrimônio era sua única saída, a menos que estivesse disposta a que todos os que a conheciam lhe dessem as costas. Não era de se estranhar que Nicole não quisesse viver como uma reclusa ou permitir


que os fofoqueiros soltassem a língua mais do que já lhes tinha solto por sua volta tão pouco ortodoxa. O que desejava era uma solução e talvez a oferecia um matrimônio, refletiu com ar melancólico. As mulheres casadas gozavam de mais liberdade, lhes permitiam mais licencia e se fosse viver no campo, onde a vida cotidiana era mais informal, mais sossegada e livre, então não se sentiria tão sufocada e apanhada. Um sorriso irônico lhe curvou o suave e carnudo lábio inferior. Matrimônio... com quem? Só podia pensar em um homem, e o casamento com Christopher era impensável. Oxalá estivesse ainda vivendo nessa felicidade enganosa que havia lhe oferecido sua teimosia por Robert! Mas desgraçadamente o que tinha sentido por ele era isso nada mais, um capricho infantil. O matrimônio com um homem a quem não amasse era inaceitável. Além disso, recordou-se com pesar, Robert tinha estado mais perto de ser excluído de Cavendish Square que nenhum outro. Certamente ninguém aceitaria seu enlace com ele. E quanto ao resto de seus pretendentes, bom, Edward nem merecia ser contado entre eles, e embora lhe agradava a companhia de lorde Lindley, não tinha desejo algum de passar o resto de sua vida com ele. Havia outros, mas nenhum lhe partiria o coração se decidisse afastar-se de sua vida. Possivelmente em Brighton se sentiria melhor, pensou. Mas logo suspirou. A quem acreditava que estava enganando? Christopher estaria ali e sempre que Christopher se encontrava nas imediações não havia paz para ela. Desejando poder amá-lo plenamente ou detestá-lo com toda sua alma e não viver rasgada pelo conflito que bulia em seu peito, sacudiu com resolução esses pensamentos da cabeça. Devia pensar em Brighton, recordou-se com firmeza, e se repetiu que era uma parva por amargurar-se por coisas que não podia alterar. Decidindo que fazia muito tempo que estava fora de Cavendish Square, deu a volta, e estava a ponto de dizer a Médica que retornariam imediatamente, quando a deteve a voz de Robert. - Por todos os céus! Nicole! - O prazer que lhe produzia aquele encontro inesperado foi evidente, e com um sorriso Nicole ergueu a vista e lhe viu conduzindo com perícia a calesa em direção a ela. - Olá, Robert. Como está esta manhã? -saudou-lhe com soltura, consciente de que era a primeira vez que se encontravam sem a presença vigilante de Regina desde a fatídica noite em que ele a beijou. Robert também era muito consciente disso e sem vacilação, disse: -Quer dar um passeio comigo? Pode ordenar a sua criada que nos espere na porta sul. E embora seja possível que minha tia não aprove minha companhia, não acredito que encontre nada impróprio em um passeio pelo Hyde Park à vista de todos. Nicole aceitou imediatamente, dominada por uma onda de rebeldia contra Regina e lorde Saxon que a induzia a reafirmar sua própria independência. Sentada ao lado do Robert um momento depois, soltou uma gargalhada cristalina. - Já sabe, ambos estaremos desonrados assim que concerne a lady Darby.


Os olhos verde mar brilharam estranhamente e Robert replicou: -E o que nos importa? É um belo dia e estamos juntos... isso é tudo o que interessa. Houve uma época em que tal franqueza teria agradado a Nicole, mas não aquela manhã, ao menos sabendo que nunca poderia lhe devolver o afeto que ele sentia por ela. Percebeu subitamente que passear com Robert não tinha sido o mais sensato por sua parte, em especial já que poderia ter que rechaçar seus requerimentos de amor, e desejou não ter aceito seu convite com tanta precipitação. Com uma leve nota de reticência em suas palavras, respondeu: -Sim, é sem dúvida um dia encantador e foi muito gentil por sua parte me convidar para dar um passeio. Robert advertiu uma nota de reticência e se desvaneceu seu entusiasmo. Carrancudo, perguntou sem rodeios: -Preferiria não passear comigo? Nicole engoliu em seco penosamente, sabendo perfeitamente que no passado tinha induzido Robert a acreditar que seus cuidados não eram recebidos com desagrado. E agora se enfrentava ao terrível problema de tratar de lhe fazer entender que por mais que sua companhia lhe resultava muito grata, ele nunca seria outra coisa que um bom amigo para ela. Robert captou com rapidez seu embaraço, mas atribuindo-o a outros motivos, antes que ela pudesse pensar uma resposta adequada perguntou com aspereza: -É verdade então? Vais te casar com Christopher? Nicole ficou pálida e seus olhos se converteram em dois imensos topázios enquanto sussurrava: - Me casar com Christopher? - Com a vista cravada nas orelhas do cavalo, ele replicou com fúria: -Oh, sim, não lhe disseram ainda? Minha querida tia se assegurou bem de que eu soubesse aquela noite no Vauxhall Gardens. Durante vários segundos Nicole ficou sem fala, entre uma onda de fúria cega e outra de deliciosa esperança. A irritação ganhou, infelizmente, e agarrando o braço do Robert com os dedos crispados e o rosto desfigurado pela cólera, exigiu: -Do que está falando? Christopher é o último homem com quem me casaria! Como se atrevem a dizer que me casarei com ele! Não sei nada... ninguém me disse uma palavra! Robert a olhou com olhos calculadores que se detiveram no peito agitado da jovem e no rictus irado de sua boca sensual. Relaxando-se levemente, muito agradado e tranquilizado por sua reação, disse arrastando as palavras: - Assim parece. - Com mais curiosidade em seu olhar penetrante, perguntou-: Não tinha a menor ideia disto? Nenhuma suspeita de que minha tia e, presumo também, meu pai tinham acertado já um acordo matrimonial com Christopher? Apertando os dentes, Nicole respondeu, irritada:


-Certamente que não! Vá, devem estar loucos se pensarem que eu poderia... E Christopher precisamente, que mal me tolera. -Oh, eu não diria isso -resmungou Robert secamente-. Ontem à noite no Almack's pareceu fazer algo mais que te tolerar! Nicole desprezou essa ideia sacudindo a cabeça com veemência. - Christopher é capaz de fingir qualquer emoção que considera necessária nesse momento. Não te deixe enganar por ele! - Muito bem, querida. Mas o que vai fazer? Regina diz que o matrimônio já está arrumado. -Já veremos o que acontece! - explodiu Nicole, furiosa-. Me leve com Médica. Proponho-me averiguar imediatamente o que se esteve fazendo a minhas costas! Sua tia e seu pai me explicarão em detalhe o que planejaram e desfrutarei lhes informando que podem começar a anular esses projetos. Robert deu de ombros e obedeceu sem mais comentários. Não invejava a Regina e ao Simon o tormentoso encontro que lhes esperava e uma parte do nó de fúria que lhe tinha acompanhado aquelas semanas se afrouxou. Nicole estava muito zangada, muito surpreendida para não dizer a verdade. Era óbvio que não sabia nada do que proclamava Regina e que não queria ter parte em um matrimônio com seu sobrinho. Sentindo-se mais esperançado do que tinha estado em semanas, viu com satisfação como Médica e ela empreendiam a volta a Cavendish Square. Nicole partia com passo irado pela rua, tão indignada estava que nem sequer prestava atenção aos rogos de Médica para que diminuísse a marcha. Mais irada que nunca em toda sua vida, conforme podia recordar, subiu precipitadamente pelos degraus de pedra da residência e depois de jogar um olhar de ódio ao pobre Twickham, exclamou: -Onde está lorde Saxon? Desejo lhe ver imediatamente! Um pouco desconcertado por aquela jovenzinha de mau gênio e olhos que despediam raios, Twickham procurou torpemente uma resposta e por fim disse: - Lorde Saxon levou à senhora Eggleston a uma entrevista com o bispo. - E incapaz de conter-se, desvanecendo-se de súbito seu ar altivo e majestoso, mostrou um sorriso radiante -. Senhorita, vão se casar no domingo. Por um momento Nicole não acreditou no que ouvia; logo, desaparecendo parte de seu aborrecimento, antes de sentir uma onda de deleite correndo por suas veias, repetiu em tom estupefato: -Lorde Saxon vai se casar com a senhora Eggleston? Assentindo vigorosamente com a cabeça, Twickham quase balbuciava: -OH, sim, senhorita! É tudo tão romântico! Ele se declarou não faz mais de uma hora e ela aceitou. Posso lhe dizer que nada poderia me agradar mais. Recuperando imediatamente a compostura, continuou com voz enrijecida -: foram se encarregar de uma licença especial e lady Darby está neste momento na imprensa falando com o jornalista com a esperança de encontrar uma participação adequada


para enviar a suas muitas amizades. - Logo, esquecendo outra vez suas maneiras, disse com franqueza -: Será umas bodas íntima, já sabe. Não há tempo para fazer preparativos para mais de uns quantos parentes e amigos. Um pouco aturdida, Nicole assentiu, e como em um transe subiu a escada rumo a seu quarto. A senhora Eggleston e lorde Saxon casados! Não era de tudo inesperado, mas por outro lado estava quase pasmada de assombro. Pensar que alguém dessa idade se apaixonasse e se casasse era algo difícil de entender em um princípio, mas quanto mais examinava a ideia mais lógica lhe parecia. O que podia ser mais razoável que lorde Saxon desejasse fazer sua esposa à mulher a quem tinha amado toda sua vida? O que tinha a ver a idade com o amor? Ao menos para eles o futuro se apresentava luminoso e tentador, refletiu com certa melancolia. De repente, recordou para que tinha voltado para casa. A notícia das bodas iminente e a ausência da Regina e de lorde Saxon a tinham distraído no momento e impedido de desafogar suas objeções ao suposto acordo matrimonial com o Christopher, e agora passeava por suas acomodações esperando o momento propício para fazê-lo. Que cinismo! E Christopher! Já veria quando o encontrasse! Já veria! de repente, entrecerrando os olhos, parou em seco. Lorde Saxon e lady Darby podiam estar agora fora de seu alcance, mas não Christopher. Uma vez tomada à decisão, pediu uma vez mais sua capa e sem deter-se para considerar se era prudente ou não, ignorou o surpreendido protesto de Twickham e saiu voando pela porta principal. Com o queixo levantado e agressiva, e pensamentos ardentes, furiosos e irracionais lhe nublando a mente, empreendeu o caminho rumo ao Ryder Street, onde se encontrava o alojamento do Christopher. A perfídia de que ele era capaz a cegava de fúria. Pensar que enquanto ele sentia prazer em fazer comentários depreciativos sobre ela e que, depois de havê-la ignorado durante meses e tratado como se fosse uma buscona ambiciosa, tivesse a desfaçatez de aceitar casar-se com ela, fazia a Nicole arder como chama, e a jovem bramava de fúria ao chegar ao Ryder Street. Foi um Higgins pasmado de assombro quem lhe abriu a porta e a deixou passar às acomodações de Christopher. - Céus, senhorita Nicole! O que faz aqui? Não deveria estar nesta casa, especialmente sem companhia! Não veio ninguém com você? Nenhuma criada? Nenhum servente? Nicole jogou sua bolsa de mão sobre uma enorme poltrona de couro. - Quero ver o Christopher! E quero lhe ver neste mesmo instante! O que tenho que lhe dizer é privado e estou farta de que me acompanhem em qualquer lugar que vá! -Com os olhos ardendo de fúria, continuou com ardor -: Sou perfeitamente capaz de andar sozinha pela cidade, como sabe muito bem! Agora, onde está Christopher? Higgins respondeu com toda sinceridade:


- Não tenho nem ideia. Partiu esta manhã para visitar seu avô e não me deixou dito aonde iria depois. Disse, isso sim, que não lhe preparassem jantar para esta noite, assim não lhe espero até a meia-noite. Frustrada, mas ainda furiosa, olhou fixamente para o Higgins e com uma voz que tremia de indignação, exigiu: - O que sabe a respeito desta absurda ideia de que Christopher vai casar se comigo? Os olhos redondos do Higgins se voltaram mais redondos ainda e seu rosto mostrou uma expressão do mais absoluto assombro e ficou com a boca aberta. - Christopher e você vão se casar? - perguntou ao fim com uma nota de inconfundível prazer na voz. Nicole lhe deu um olhar de total desdém. - Absolutamente! Isso é ridículo! Mas Robert Saxon me contou esta manhã que já se fez acertos para me casar com o Christopher, e me proponho deixar bem claro que sob nenhuma circunstância vou aceitar semelhante coisa. Nicole percebeu nebulosamente, apesar de seu temperamento fogoso, que se vingava com prejuízo de si mesmo, mas estava tão enfurecida e cega de raiva que lhe importava muito pouco. -E bem? Sabe algo a respeito? -repreendeu ao perplexo Higgins. Este se recuperou com rapidez, e ao ouvir o nome do Robert franziu a testa com desgosto. - Robert Saxon te contou esse conto? E esquecendo que era a senhorita Nicole Ashford, a herdeira, e que Higgins só era um criado, ouviu-se a si mesmo responder: -Sim. Encontrei-lhe por acaso esta manhã no Hyde Park e me disse que lady Darby lhe tinha comunicado fazia algum tempo que se acertou a união de Christopher comigo, e que lorde Saxon deu sua aprovação. Higgins a olhou com uma mescla de decepção e aborrecimento. -E você lhe acreditou? -inquiriu em tom cáustico esquecendo o trato formal. Com um relâmpago de dúvida em seus olhos e o primeiro sinal de incerteza na voz, Nicole respondeu: -Por que não devo fazê-lo? Por que mentiria sobre algo assim? É o tio de Christopher como saberá, e não um patife fofoqueiro! Higgins a estudou pensativamente, muito contente de repente pelo desenvolvimento dos acontecimentos. Por um momento tinha acreditado que Christopher não lhe tinha contado sobre suas intenções matrimoniais, mas assim que apareceu na conversa o nome do Robert, soube do que se tratava. Então decidiu que tinha chegado o momento de esclarecer várias coisas a Nicole. Lhe contar a história de sua mãe ia ser um tanto difícil, mas tinha que fazer. Depois de tudo, já fazia sete anos que Annabelle estava morta e Nick só era uma criança quando perdeu a sua mãe; estava convencido de que o tempo devia ter atenuado suas emoções.


Adotando a atitude autoritária do segundo oficial de bordo de La Belle Garce, Higgins lhe ordenou que deixasse de passear pela sala como uma gata enjaulada e que se sentasse de uma vez. Depois de uma silenciosa batalha interior, Nicole bufou e se sentou com o corpo rígido contra as cômodas almofadas do sofá da sala de estar do Christopher. Em seus olhos topázio brilhavam as chamas da rebeldia ao dizer: - Por que não devo acreditar em Robert Saxon? Ele foi para mim a bondade personificada, coisa que não posso dizer do Christopher! Higgins se sentou em frente a ela, as mãos sobre as coxas e os cotovelos em ângulo reto com seu corpo robusto. Inclinou-se para frente e um brilho severo brilhou em seus olhos castanhos, que pareciam ter perdido seu habitual brilho risonho. Então começou a falar com lentidão e em tom carinhoso: - Agora vou te contar algo que acredito que não sabe. Não vai gostar, e não posso te censurar por isso. Aconteceu faz muito tempo e é possível que uma vez que saiba não te mostre tão ansiosa de falar das virtudes de Robert Saxon. Nem, poderia adicionar, pensar tão mal do Christopher. Nicole não pôde menos que mostrar-se cética; contudo, o respeito que sentia por esse homenzinho que tinha em frente lhe fez guardar silêncio. Confiava no Higgins. Nunca lhe tinha mentido e sempre a tratou com imparcialidade e justiça. E portanto, esperou confiante o que tinha que dizer sabendo que não seria um embuste. Entretanto, assim que começou e mencionou pela primeira vez a sua mãe, sua mãe e Robert, Nicole se voltou para trás e lutou contra seu relato objetivo e frio de que o homem com quem tinha considerado por um momento casar-se e sua própria mãe foram amantes adúlteros. Deixou-lhe um desagradável sabor amargo na boca, mas depois de liberar uma terrível batalha emocional, aceitou a palavra de Higgins. Tinha que fazê-lo, posto que explicava o porquê do assédio repentino e perseverante de Robert, esse peculiar brilho que aparecia em seus olhos verde mar e a força que tinha derrubado naquela declaração apaixonada pelo Vauxhall Gardens. Sentindo-se ligeiramente enojada ao saber que ela não devia ter sido nada mais que o reflexo de sua mãe para ele, cravou o olhar desventurado no semblante bondoso do Higgins. -Continue - pediu em voz baixa -. Suponho que o que segue será pior, verdade? - Assim é, Nick, assim é - respondeu Higgins pesaroso, e com gesto inseguro passou distraidamente a mão pela cabeça onde o grisalho cabelo castanho já começava a clarear. Finalmente, endurecendo seu coração, olhou a Nicole aos olhos e lhe contou sem rodeios o resto da história: de como sua mãe tinha seduzido ao Christopher, a maneira como ela e Robert lhe tinham usado como tela e para acabar o último ato monstruoso de Robert. Caiu um pesado silêncio na sala quando terminou de falar, e incapaz de seguir olhando o rosto de Nicole, que estava congelado em uma expressão de horror,


levantou-se e nervosamente começou a ordenar algumas conta e comprovantes que estavam sobre o aparador de mogno. -Compreenderá agora por que Robert Saxon não é de confiança. E entende agora por que frequentemente Christopher parece atuar de modo tão irracional contigo? Não havia censura em sua voz, só uma espécie de melancólica compaixão, e perdida em seu próprio pesadelo Nicole quase não lhe escutou. Tentou falar; mas as palavras não saiam de sua boca; estavam presas na garganta. Tragou saliva convulsivamente tratando de separar de sua mente as coisas terríveis e monstruosas que Higgins havia dito a respeito de sua mãe e Christopher e da baixeza da conduta do Robert. Mas os espantosos pensamentos seguiam amontoando-se em sua mente sem lhe dar paz, transpassando-a como facas afiadas enquanto ela seguia sentada ali com o rosto pálido e tenso e olhos que pareciam suplicar ao Higgins que se retratasse daquelas palavras abomináveis. Um estremecimento de horror e asco lhe sacudiu o corpo ante a ideia repulsiva de que sua própria mãe se deitou com o Christopher e conhecido a magia misteriosa daquele corpo viril movendo-se sobre ela; de fato, foi sua própria mãe quem o tinha iniciado. Tremeram seus lábios ao tentar uma vez mais falar, censurar o que lhe acabava de relatar Higgins, mas as palavras se recusavam a sair. E então compreendeu com angústia que jamais sairiam, porque no mais fundo de seu coração sabia que tudo era verdade. Tinha que ser verdade, nenhuma mentira podia ser tão monstruosa e aborrecível. Esclarecia razões de coisas de outro modo inexplicáveis: a animosidade mal contida entre Christopher e Robert, as poucas vezes em que ele a tinha tocado como se a odiasse. Revelava as motivações ocultas por trás daqueles momentos de deliberada brutalidade entre eles: Christopher a tinha estado castigando pelos atos de sua mãe. Afundou a cabeça entre as mãos com um soluço angustiado e Higgins, profundamente afetado por sua evidente aflição, serviu com rapidez um conhaque em uma taça e a obrigou a tomá-lo com tosca ternura. - Vamos, Nick, não há motivo para que fique assim. Aconteceu faz muito tempo e não pode te culpar de nada - consolou-a Higgins desejando não ter aberto a boca. Depois de forçar-se a tragar um ou dois sorvos de conhaque, cravou o olhar no rosto bondoso de Higgins e falou com estupidez: - Christopher sim me culpa. -Sim, não me cabe dúvida disso -confessou com dor Higgins-. Mas não o vê, Nick? -começou a dizer ansiosamente-. Agora que conhece a verdade, talvez não te inclinará a considerar Christopher como uma besta selvagem. E assim que pense melhor dele, comportará-te de outra maneira e bom, Nick, deve admitir que quando é amável com o Christopher, ele te corresponde do mesmo modo. Seu intumescimento começava a ceder e perguntou ironicamente: - Higgins, por acaso está tratando de se fazer de casamenteiro?


Este teve a ingenuidade de ruborizar-se e mostrar-se culpado. - Bom, vamos, Nick, não pode me negar que Christopher e você fazem um bom casal - replicou com descaramento. Nicole tragou o resto do conhaque e ficando de pé, observou com severidade: -Pode ser tão boa como conveniente, mas até você mesmo admitirá que o que ele e eu fazemos não está nada certo! Acredito que estiveste bebendo muito vinho, Higgins. -Como não lhe respondeu, ela continuou em tom fatigado-: Não se preocupe, não deveria fazer uma brincadeira tão má. Não sei se lhe agradeço ou te amaldiçoo. Entretanto, acredito que no momento vou lhe agradecer isso embora não seja mais que porque agora entendo as razões que explicam muitas coisas que resultavam incompreensíveis. -Calou e se formou uma ruga em sua testa. Quase como pedindo desculpas, murmurou-: Posso ver bem por que duvida da palavra de Robert, mas, Higgins, acredito que neste caso estava me dizendo a verdade, e me proponho chegar ao fundo disto. Alguém deve lhe haver dito que havia matrimônio. - Fez uma pausa tratando de recordar as palavras exatas do Robert-, Lady Darby -murmurou lentamente e com convencimento. Ambos estavam muito absortos na conversa para prestar muita atenção ao que passava ao redor e em consequência se sobressaltaram quando se abriu a porta de repente e Christopher em pessoa entrou de repente. Seria impossível dizer qual dos três estava mais assombrado. Sem dúvida, Higgins e Nicole não lhe esperavam, e pela expressão de Christopher se via claramente sua estranheza ao encontrar a jovem em suas acomodações. Também resultava evidente que estava muito aborrecido pelo que achou ao entrar. - Que diabos está fazendo aqui? - exigiu diretamente enquanto jogava um olhar inquisitivo ao redor procurando lady Darby ou à senhora Eggleston. Nicole umedeceu os lábios procurando com ânsia as palavras adequadas. Higgins de repente recordou algo que reclamava atenção urgente e resmungando uma desculpa saiu rapidamente. Os dois se encontraram cara a cara e Christopher voltou a perguntar: -E bem? Pode me fazer o favor de explicar sua presença aqui? Oxalá não fosse tão consciente de sua masculinidade, pensou com desespero, uma dignidade que sua própria mãe tinha despertado e seduzido e que agora exercia uma atração quase irresistível nela. Nicole vacilou e ao ver que os olhos dourados a estudavam com impaciência crescente, soltou com brutalidade: - Falei com Robert esta manhã e ele me disse que se acertou um acordo matrimonial entre você e eu. Como se um raio tivesse caído sobre sua cabeça, Christopher ficou olhando-a enquanto dúzias de ideias amalucadas cruzavam por sua cabeça. -Não seja ridícula! - explodiu finalmente-. Me acredite, não há nenhum acordo, ao menos - acrescentou com sinceridade -, nenhum que eu conheça.


Rechaçando a lembrança de seu passado que seguia obcecando-a, insistiu com teimosia. - Robert assegurou que lady Darby lhe disse que tudo estava arrumado. E que até seu avô tinha dado seu consentimento. Apareceu uma careta de brincadeira no rosto de Christopher ao comentar com cepticismo - Isso sim que me parece duvidoso! Talvez Simon seja dominante, que queira sair-se com a sua em tudo, mas não lhe falta sentido comum. E só alguém que careça totalmente de sentido comum seria tão temerário para arrumar um matrimônio entre nós dois! Nicole tragou a réplica violenta que estava a ponto de sair de seus lábios e murmurou: - É possível, mas Robert estava muito seguro do que lhe havia dito lady Darby. Resignando-se ao inevitável, Christopher ofereceu um assento a Nicole, e uma vez que ela se sentou, ele perguntou com serenidade: - O que te parece se começar pelo princípio e me conta o que sabe? Quando disse Regina ao Robert? Nicole vacilou sem vontade já de seguir aquela conversa embaraçosa. Desviou o olhar ao falar. - Faz umas poucas semanas fomos passar a noite ao Vauxhall Gardens. Lady Darby conversou uns momentos a sós com o Robert e o disse então. Entrecerrando os olhos, ele se inclinou descuidadamente contra o aparador de mogno com os braços cruzados sobre o peito e esquadrinhou o rosto que Nicole tratava de ocultar a sua vista. - Vejamos, por que te parece que ela faria semelhante coisa? - inquiriu em tom melífluo. - Não tenho a menor ideia! A resposta não pareceu lhe satisfazer e se aproximando tomou o queixo com dedos inflexíveis e a obrigou a lhe olhar. - Não seria por que encontrou aos dois em uma situação comprometedora? E talvez quisesse afastar Robert com essa advertência? As bochechas avermelhadas de Nicole foram resposta suficiente, e com um pouco parecido à repugnância aparecendo nos olhos, soltou-lhe o queixo com brutalidade, como se sua pele de súbito lhe queimasse. Sua voz soou fria agora: -Conhecendo minha tia avó, se pescou ao Robert e a ti se comportando de modo indiscreto, seria perfeitamente capaz de mentir para favorecer seus próprios propósitos. Há várias semanas me dei conta de que por alguma estranha razão gostaria de nos ver casados. E suspeito que disse o primeiro que lhe ocorreu. Mas te tranquilize: no momento não tenho nenhuma intenção de me casar contigo. Assim que essa cabecinha frívola que tem pode esquecer esse conto do Robert e não prestar


atenção às intrigas no futuro! -Com olhar duro e zombador, seguiu provocando-a -. Me acredite, se quisesse me casar contigo, já lhe faria saber isso. Endureceram-se os lábios de Nicole e se levantou de um salto. Pegando a bolsa com tanta força que seus nódulos ficaram brancos, cuspiu-lhe à cara: -Muitíssimo obrigado! Tranquiliza-me o inexprimível saber que posso confrontar o futuro sem um porco canalha como você! Contemplando as feições enérgicas e vivazes da moça e seus olhos topázio lançando faíscas de fogo, uma curiosa expressão cruzou pelo semblante de Christopher e em tom suave, quase ameaçador, murmurou: - Disse que no momento não tinha intenções de me casar contigo! Nicole conteve a respiração com um ofego de pura raiva. Esquecendo que o que mais desejava seu coração era casar-se com Christopher ou que só minutos antes havia se sentido rasgada e angustiada pelo enorme dano que lhe tinham feito Robert e sua mãe, gritou com fúria: - Animal! acha sinceramente que só tem que trocar de ideia! Que eu não terei nada que dizer a respeito? Um sorriso indolente brincou nos lábios de Christopher quando se endireitou afastando-se do aparador, e antes que Nicole tivesse tempo de adivinhar suas intenções, estava presa no anel de aço de seus braços. Com a boca zombadora a escassos centímetros por cima da dela, atormentou-a: - Oh, estou seguro de que terá muito a dizer! Mas há formas de lidar com jovenzinhas teimosas que não sabem o que é bom para elas. Nicole deu um salto como se a tivessem picado, mas Christopher se limitou a apertar mais os braços e habilmente se apossou de sua boca com lábios duros e quentes, exigindo que ela correspondesse a sua carícia. O beijo foi o assalto a seus sentidos já familiar para ela, metade selvagem, metade terno, e com um suave gemido de vergonha e de desejo mesclados, entregou-lhe seus lábios entreabertos sem resistência enquanto a língua de Christopher explorava sua boca. Dolorosamente consciente da solidez daquele corpo colado ao dela, da enérgica investida de suas coxas contra suas pernas e da força brutal desses braços que a rodeavam sem lhe deixar respirar, Nicole lutou com coragem contra o desejo traiçoeiro de lhe devolver a carícia, de permitir que esse abraço voraz e selvagem terminasse como ordenava a natureza; lhe permitir que a levantasse em seus braços e a levasse a cama que estava na outra sala e sentir outra vez esse delicioso mistério do corpo de Christopher possuindo-a. Mas então, quando suas mãos começavam a lhe acariciar febrilmente a cabeça escura, a lembrança insidiosa do que lhe tinha contado Higgins reviveu como um réptil venenoso que salta de uma escura caverna e de súbito, cheia de repugnância de que sua mãe tivesse conhecido aquela mesma magia, retorceu-se com fúria para escapar de seus braços.


Christopher não tentou abraçá-la outra vez; em troca, com olhos que eram meras raias douradas em seu rosto moreno e o peito subindo e descendo com agitação, disse em tom glacial: -Se for assim como atua com o Robert e se for assim como te pescou Regina, não me surpreende que mentisse como o fez. Nicole lhe fulminou com o olhar: - Ao menos Robert teve a decência de não impor-se a uma mulher que resiste! -Que resiste? -brincou sem poder conter-se-. Não tente essa linha de defesa! Estava tão desejosa como eu! -Basta! -gritou Nicole com aborrecimento-. Não vim aqui para brigar contigo! me acredite, apesar do que pudessem indicar minhas ações em sentido contrário, não tinha desejos de que me seduzisse. E se de verdade fosse todo um cavalheiro não me colocaria em uma situação tão degradante. Um triste sorriso de arrependimento enrugou a bochecha de Christopher. - Estou de acordo, mas ambos já conviemos em que nem eu sou um cavalheiro nem você, minha pequena revoltosa, é uma dama. Acredito que ambos somos igualmente culpados desta situação. O ânimo belicoso se desvaneceu rapidamente em Nicole graças à atitude conciliadora de Christopher e com voz fatigada disse: - Ao menos há algo em que sim podemos estar de acordo! E agora acredito que é melhor que parta antes que digamos algo que possa destruir este acordo momentâneo. Ele ficou olhando-a por uns segundos que pareceram intermináveis e advertiu a nuvem de tristeza que empanava seus olhos topázio. Era consciente da necessidade imperiosa que tinha de tomá-la de novo entre seus braços e lhe exigir que lhe permitisse dissipar aquele ar de tristeza que parecia envolvê-la. Mas logo, burlando-se de si mesmo por ser um parvo e um louco, encolheu os largos ombros e disse em voz alta: -Ordenarei uma carruagem para ti e te escoltarei de retorno a Cavendish Square; com sorte ninguém jamais adivinhará que estiveste aqui. O que disse quando abandonou a casa? - Não disse nada, só saí correndo - respondeu em tom baixo sem decidir ainda se a ajuda de Christopher era o que desejava realmente. Dava-se perfeita conta da dívida que tinha com ele, do enorme dano feito por sua mãe e pela primeira vez se sentiu envergonhada e contrita por algumas das coisas que tinha pensado dele. A revelação do Higgins tinha posto ao Christopher sob outra luz e ainda não tinha tido tempo de aceitar a ideia de que ele fosse vulnerável, de um Christopher Saxon incauto e vítima de enganos, com os mesmos defeitos e debilidades que qualquer pessoa. Uma estranha onda de ternura a invadiu lhe oprimindo o coração, e por um segundo quase se esqueceu de si mesmo e tratou de expressar algumas das emoções


conflitivas que brigavam em seu interior. Mas com um olhar ao rosto varonil seu impulso morreu. Em um estado de ânimo curiosamente dócil deixou que ele se encarregasse dela e lhe seguiu. Puderam retornar a Cavendish Square sem contratempos. A incomum atitude obediente de Nicole incomodou ao Christopher, e com certa exasperação disse no momento em que ficaram a sós: -Quer me fazer o maior favor de deixar de me mortificar com esse ar lânguido! Não te senta bem, posso lhe assegurar isso. Arrancada bruscamente de seus desagradáveis pensamentos, Nicole lhe dirigiu um olhar carrancudo. -Se você não gostar, pode partir ! -replicou. Ele apertou a boca com irritação, mas não disse mais nada sobre o tema. Em troca perguntou: -Onde estão meu avô e as damas? Com grande sobressalto Nicole recordou as notícias que lhe tinha comunicado Twickham anteriormente. Esquecendo momentaneamente seu aborrecimento e com os olhos brilhantes de malícia, exclamou quase com alegria: - Oh, Christopher, não lhe contei isso! A senhora Eggleston e seu avô vão casar-se! Este domingo! Se tinha esperado lhe surpreender sofreu uma desilusão, pois ele não exibiu estranheza nem assombro. -Perguntava-me quando se decidiria! - comentou ele jovialmente. -Esperava-o! -exclamou ela em tom acusatório. Sorrindo com ironia, comentou: -Claro que sim. Qualquer que os conhecesse teria se dado conta de que só era questão de tempo que Simon lhe proporia matrimônio. E jamais existiu nenhuma dúvida de que a senhora Eggleston o aceitaria. Até eu podia me dar conta disso! Um tanto ofendida, disse ressentidamente: - Bem, não tem por que presumir tanto disso. Eu estou encantada com a notícia e não permitirei que seu cinismo me estrague isso. Cortante, com os olhos duros e incrédulos, replicou: - Poderia acaso eu te jogar algo a perder, Nicole? Com horror se ouviu dizendo em tom torturado: -Bem sabe que sim, Christopher! Soubeste-o sempre. O jovem ficou paralisado; seus olhos eram como adagas de ouro que tratavam de rasgar o véu que cobriu de súbito as feições de Nicole. O ar da sala pareceu ranger enquanto ele assimilava essas palavras impulsivas, pouco disposto a aceitar o que pareciam insinuar. E Nicole, incapaz de suportar por mais tempo a intensidade de seu olhar penetrante e inquisitivo, aterrorizada de que pudesse arrancar o segredo de seu coração, murmurou distraidamente:


- Não me agrada estar sempre em desacordo contigo... especialmente agora que estou vivendo com seu avô e de que te devo tanto. Oxalá pudéssemos ser aliados, deixar de lado o passado e nos tratar um ao outro com a cortesia e o afeto que tem a aqueles que são amigos queridos. -Amigos queridos! - bufou ele com sarcasmo. O louco desejo de interpretar algo vital e revelador em suas palavras morreu imediatamente, como um floco de neve sob o tórrido sol do deserto. Cruzando a sala com ágeis pernadas, agarrou-a pelo braço com força e com sua mão de longos dedos aristocráticos lhe levantou a cabeça com brutalidade. -Amigos! -cuspiu-. Jamais poderá haver amizade entre nós! Esquece que me deve algo, Nick! Recorda isto a próxima vez que te remoa sua sórdida consciência! Soltou-a com desdém, e encaminhando-se à porta disse em tom sarcástico: - Agora que expressaste sua gratidão e se acalmaram seus temores de um possível matrimônio comigo, acredito que é hora de que me parta. Felicita por mim ao casal recém comprometido quando reaparecerem, fará-me o favor? Saiu dando uma portada empenhada em pôr toda Londres entre Nicole e ele, mas a entrada inoportuna de Regina fez com que parasse em seco. -Oh, Christopher, está aqui. Ouviste a notícia? Não é emocionante? -disse Regina, perguntando-se por que teria aquele gesto tão sério. -Sim. Inteirei-me -respondeu com rigidez-. Nicole acaba de me contar isso. Ignorando o fato de que ele obviamente estava a ponto de sair e encantada de que na aparência tivesse vindo visitar Nicole, Regina continuou: -Fica um momento mais? Tenho milhares de planos para as bodas e como é seu neto, eu gostaria de discuti-los contigo. - Quase com grosseria Christopher replicou: - Estou seguro de que Simon pode dirigir suas próprias bodas e o que ele não possa fazer, você, minha queridíssima tia, será muito capaz de resolvê-lo a seu modo. Agora me desculpe, por favor. Lhe observando com exasperação, Regina explodiu: - Realmente é o homem mais grosseiro que conheço É uma lástima que Robert não te fez perder um pouco mais desse sangue quente que corre por suas veias! - Christopher lhe fez uma reverência de insultante cortesia. -Senhora, devo lhe buscar e lhe pedir que retifique seu engano? - Oh, não seja tolo! Sabe bem que não o disse a sério -respondeu Regina, mal-humorada-. Em realidade, Christopher, faria perder a paciência a um santo. Me diga agora, como está seu braço? - Muito bem, obrigado. Foi só um arranhão. - E afiando seu olhar subitamente, com a atenção presa em algo que havia dito ela, acrescentou-: Possivelmente fique. Há algo que queria perguntar a Nicole. Muito contente com a mudança de opinião, Regina comentou com amabilidade:


- Bem, volta com ela e me reunirei com vocês em um momento. Tenho que me desembaraçar desta capa e ter umas palavras com a cozinheira sobre o jantar de esta noite. Christopher voltou a entrar na sala de estar tão bruscamente que Nicole deu um salto. Ainda um pouco aturdida pelo modo grosseiro como ele tinha recebido seu débil intento de estancar as feridas do passado, olhou-lhe com olhos suspicazes quando ele fechou a porta e se aproximou dela. E não foi de todo irracional que pusesse um dos sofás de damasco rosado como barreira protetora entre eles ao vê-lo avançar resolutamente. Com um sorriso desdenhoso nos lábios, murmurou: - Não te escape! Quero umas palavras contigo e não temos muito tempo. Logo acrescentou a modo de explicação -: Regina retornou e se reunirá conosco em uns momentos. Apertando os dentes de raiva por seu tom desconsiderado e maneiras arrogantes, Nicole replicou, tensa: - Acredito que você e eu já falamos muito hoje! - Mm, é possível, mas a menos que deseje que se desencadeie uma terrível trifulca sobre sua cabeça, será melhor que me escute. Desconfiada, perguntou: -O que quer dizer com isso? -Só isto: acredito que é aconselhável não mencionar o que te disse Robert. Ante sua expressão de dúvida, comentou razoavelmente -: Regina o inventou de improviso, não me cabe dúvida, e trazer á tona só causaria complicações das quais, acredito, ambos podemos prescindir. -Com sedutora franqueza, admitiu-: Não me seduz a ideia de dizer a Regina, ou a meu avô se for o caso, que vivem uma felicidade enganosa se pensarem que podem acertar um matrimônio entre nós. Em especial se considerarmos que pode não ser nada mais que um íntimo desejo de Regina. Para economizarmos a todos de um momento embaraçoso, é melhor ignorar esse rumor por agora, porque, me acredite, Nicole, isso é tudo o que é. Depois de um momento de vacilação, Nicole assentiu com a cabeça. - Muito bem, não direi nada -assegurou-lhe, apática, pois tudo o que queria agora era a intimidade de seu quarto e tempo para reenfocar seus pensamentos e assimilar o que tinha averiguado naquela tarde traumática. Mas Christopher não parecia ter nenhuma pressa por partir. Nicole lhe olhou inquisitivamente E ele acrescentou: - Há algo mais que desejo discutir contigo. Me diga exatamente quando se inteirou Robert desse suposto compromisso entre você e eu. Recorda que noite foi com exatidão? Nicole, perplexa, franziu ligeiramente o cenho e perguntou com curiosidade: - Por que tanto interesse nisso?


- Porque acredito que me esclareceria algo que me desconcertou há duas semanas mais ou menos. Lembra-te quando foi? Nicole ficou um momento mais lhe olhando fixamente tratando de descobrir por que era tão importante a data para ele. E então, com claridade pasmosa relacionou dois incidentes aparentemente desconexos. Uma garra lhe apertou o coração, seus olhos topázios se dilataram de horror e sussurrou. - Foi à noite prévia a seu acidente. A noite anterior à manhã em que lhe feriram. -Obrigado, querida, isso explica muitas coisas -sorriu Christopher. -OH, Christopher! Ele não o fez! Não o teria feito deliberadamente! Seria possível? - Foi quase um grito pedindo que aquietasse seus temores, mas Nicole, a quem ainda lhe queimava a lembrança das anteriores ações vis e rasteiras de Robert, não esperava, em realidade, que Christopher o fizesse. Os olhos dourados do Christopher se voltaram frios e impenetráveis ao responder arrastando as palavras: - Isso fica por ver-se, não te parece?


CAPÍTULO XXX

Depois de averiguar o que queria, Christopher teria preferido afastar-se de Cavendish Square imediatamente. Mas já tinha se comprometido, e teve que conciliar com o inevitável. Aquela tarde lhe proporcionou uma curiosa sensação de regozijo; tanto foi assim que até chegou a aceitar o convite de Regina para jantar essa noite na mansão. Era o mínimo que podia fazer, já que o jantar seria uma celebração e não aceitá-la teria sido uma grosseria imperdoável. Por um momento pôde esquecer esse memorando tão tentador que seguia fora de seu alcance. Tinha sido por causa de este que retornou tão inesperadamente a suas acomodações. Por precaução, receava aproximar-se de Buckley muito logo depois da indiscreta conversa da noite anterior e por isso tinha evitado ir aos lugares onde sempre se reuniam. Mas ao não encontrar lugar onde poder concentrar-se no dilema, tinha voltado para Ryder Street com a intenção de delinear um plano de ação. A presença inoportuna de Nicole malogrou seu propósito e uma vez que teve relacionado o ataque inoportuno de Robert com a notícia de Nicole a respeito de um suposto acerto matrimonial, soube que não poderia afastar-se de Cavendish Square sem averiguar se sua dedução tinha sido correta. Essa noite, observando Regina durante o jantar, perguntou-se com certa ironia se ela teria alguma vaga noção do resultado dessas afirmações deliberadamente falsas que tinha feito ao Robert, ou se, se dava conta de que era precisamente ela a que lhe tinha ajudado a relacionar os dois fatos com sua pergunta a respeito da ferida, formulada quase por compromisso. De fato não tinha sido necessário que Nicole lhe confirmasse a data para convencer-se dos motivos que impulsionassem ao Robert a atacá-lo daquela maneira. Brincou por um momento com a ideia de fazer saber a este que Regina lhe tinha mentido para tirar-lhe de cima, mas a descartou imediatamente; desgraçadamente, Christopher era o bastante incorrigível para deixar que seu tio seguisse sofrendo por essa informação errônea. Produzia-lhe um prazer perverso pensar no ciúmes e inveja que devia estar padecendo seu muito amado tio. O jantar resultou muito agradável; Christopher e Robert foram os únicos convidados em Cavendish Square; este último tomou a notícia das bodas iminente de seu pai com certa indiferença e murmurou todas as felicitações apropriadas em um tom que não ajudou muito a esconder seu desinteresse mais absoluto. Christopher, pelo contrário, foi muito sincero e quente ao expressar seu beneplácito pelas bodas. Também se sentiu culpado quando compreendeu que o matrimônio de seu avô lhe


servia para seus próprios planos. Com Letitia a seu lado como esposa, Simon não ia sentir tanta falta do neto quando ele partisse da Inglaterra e esse pensamento aliviou os remorsos de sua consciência. Se Robert não demonstrava atração alguma pela notícia do segundo matrimônio do Simon, certamente não desdobrava o mesmo desinteresse pela Nicole. Encantado pelo convite para jantar em Cavendish Square, passou toda a noite tratando de chamar a atenção da jovem, mas Nicole se mostrava muito esquiva e nada receptiva. Carrancudo, observava-a do outro extremo do salão, posto que pela segunda vez essa noite ela tinha frustrado seu intento de manter uma conversa privada. Naturalmente, perguntava-se se o súbito e evidente desagrado que manifestava por sua companhia teria algo a ver com a conversa daquela manhã. Nicole tinha sido tão firme, tão categórica e veemente ao negar qualquer tipo de compromisso entre Christopher e ela, que agora esta atitude lhe desconcertava em grande medida. Existiria acaso esse acordo e sua tia e seu pai teriam exercido pressão sobre ela até fazê-la ceder a seus requerimentos? Era um pensamento perturbador, mas depois de um momento de reflexão, descartou-o. Então, por que lhe esquivava e desviava o olhar cada vez que ele a buscava? Por que lhe demonstrava tanta reserva no trato, quase como se encontrasse repugnante sua companhia? Olhando furtivamente para Christopher, captou o brilho de perspicaz regozijo que brilhava em seus olhos dourados, e a ira lhe cegou. Era óbvio que seu sobrinho conhecia a razão da estranha conduta da jovenzinha e uma vez mais Robert lhe odiou com todas suas forças. Algum dia, jurou-se ferozmente, algum dia se livraria dele, do mesmo jeito que se livrou de seu pai! E seria logo, muito em breve. Quase como se pudesse lhe ler os pensamentos, Christopher lhe sorriu e levantou sua taça de vinho em um brinde zombador. Agora que sabia toda a verdade a respeito de Robert, Nicole sentia tanto asco por ele que quase não podia suportar lhe ter por perto. A ideia de que alguma vez tivesse considerado casar-se com ele lhe dava náuseas. Observou com dissimulação aos dois homens por entre suas espessas pestanas e se perguntou como podia Christopher comportar-se com tanta indiferença e olhar a seu tio à cara com esse sorriso frio e imperturbável sem dar rédea solta a sua fúria. Mas essa habilidade era o fruto de muitos anos de ocultar seus verdadeiros sentimentos, de dominar um ódio escuro e selvagem que corroia sua alma como um câncer insaciável. Christopher tinha vivido muitíssimo tempo com a traição do Robert e como um tigre à espreita, podia esperar. Não existia nenhuma dúvida em sua mente de que andando o tempo seu tio cairia em suas mãos e então não teria piedade. Por isso lhe sorria. Mais tarde, uma vez que se fez o último brinde pela felicidade do casal, Christopher se preparou para partir, não sem antes prometer que assistiria às bodas esse domingo. Foi só enquanto Christopher estava no vestíbulo despedindo-se uma vez mais de seu avô, quando surgiu o tema:


- Os planos para ir a Brighton seguem ainda em pé -comentou Simon ao passar-, embora Letty e eu não chegaremos até finais de setembro. -Com um desafio no olhar, continuou-: Ela e eu iremos a Beddington's Corner na segunda-feira. Julguei que seria melhor que tivéssemos umas semanas de intimidade antes de nos reunir com Gina e Nicole na casa de Kings Road. Christopher reprimiu uma gargalhada e com certa malícia nos olhos, murmurou secamente: - E não pode esperar para presumir dela ante suas amizades! -Ora! Isso não tem nada a ver! Todos os homens têm direito a uma lua de mel e eu não sou diferente. Além disso, Letty me expressou seu desejo de visitar Beddington's Corner e não vejo nenhuma razão para negar-lhe. Tem muitas amizades que não vê há anos. Não esqueça que crescemos juntos nesse lugar. E ali foi onde fomos noivos a primeira vez. –Seu olhar se tornou quase sonhador quando terminou em voz suave-: É um lugar cheio de lembranças para nós. Christopher não respondeu, pois não havia necessidade de fazê-lo. Um momento depois, Simon pareceu voltar para a realidade e comentou em seu malhumorado tom habitual: - Edward Markham e Robert vão acompanhar Gina e Nicole a Brighton. Vais te reunir com eles? Ante a menção de Robert se desvaneceu nele todo desejo de ir à costa. A única razão para encaminhar-se para ali tinha sido a presença de seu avô no lugar e com ele ausente não tinha nenhum motivo para viajar a popular praia. Tinha estado refletindo muito sobre a inconveniência de abandonar Londres com tanta antecipação ao encontro com o corsário norte-americano. Tinha alguma possibilidade, embora remota, de averiguar algo mais a respeito dos planos britânicos se permanecia onde estava. Sabendo que Robert estaria em Brighton não titubeou mais. -Não acredito. Tenho muitos compromissos no momento para abandonar Londres. –Ao ver o olhar carrancudo sob as espessas sobrancelhas negras, acrescentou precipitadamente-: Mas tenha certeza, que estarei em Brighton quando a senhora Eggleston e você terminarem a lua de mel. -Muitos compromissos, né! –grunhiu Simon-. Uma loira bailarina de opereta estaria mais perto da verdade! Christopher mordeu o lábio e se perguntou como teria chegado essa intriga aos ouvidos de Simon… acreditava ter sido mais discreto. -Isso pôde ser verdade a semana passada, mas Sonia e eu nos separamos: ela era, temo-me, excessivamente ambiciosa. Simon se limitou a bufar enquanto Christopher se dirigia para a porta. - Bom, suponho que devo me sentir honrado de que sequer vá a Brighton quando eu esteja ali! -Nem mais nem menos! –replicou rápido o jovem sorrindo-lhe afetuosamente.


-Ora! Saia de minha vista, patife do diabo, e te assegure de estar aqui no domingo! Christopher partiu, e como não era muito tarde e a noite era agradável, estava completamente avivado quando sua carruagem o deixou diante de seu domicílio. Para sua surpresa, ao entrar em suas acomodações descobriu ali ao BuckIey, passeando-se de um lado a outro como um lobo enjaulado. -Ah, ao fim chega! Pensava que nunca o faria! Seu servente me disse que estava em um jantar familiar, mas nunca imaginei que voltaria tão tarde - resmungou BuckIey a modo de saudação. Christopher lhe sorriu amavelmente, embora ficou em seguida em guarda. Quando Higgins entrou na sala, ordenou que trouxesse uma garrafa de conhaque da excelente adega da casa. Com os olhos cravados no rosto avermelhado de BuckIey, perguntou como ao acaso: - Vá, o que te traz por aqui? BuckIey parecia incômodo e um pouco perturbado, o qual aumentou os receios de Christopher. Que mosca tinha picado o capitão? Não o averiguou até bastante tempo depois, durante o qual BuckIey, obviamente com uma grande preocupação em mente, dava voltas com desassossego enquanto falava dos temas mais corriqueiros. Higgins retornou com o conhaque, e depois de servir aos dois cavalheiros se manteve ocupado no outro extremo da sala, sem prestar aparentemente atenção ao que falavam, mas com os ouvidos muito abertos. Christopher podia dizer que não flutuava nada no ar, mas não lhe enganava. BuckIey jogou um olhar apreensivo em direção ao Higgins e por um momento Christopher teve a impressão de que lhe pediria que jogasse dali a esse homem. Mas pensando-o melhor se inclinou confidencialmente para o Christopher, que estava ajeitado no sofá, e disse em tom premente e baixo: - A respeito de ontem à noite, espero que esquecerá a conversa que tivemos. Todos tínhamos umas quantas taças a mais e não me agradaria pensar que disse algo indevido. O semblante de Christopher foi uma hábil máscara de perplexidade ao lhe olhar. - Meu querido Buckley, de que diabos está falando? A tez avermelhada do capitão pareceu avermelhar-se ainda mais quando murmurou à defensiva: -É por esse maldito memorando! Jamais deveria mencioná-lo e eu gostaria de ter sua palavra de cavalheiro de que não dirá nada a respeito! - Adotando um gesto altivo e desdenhoso, recalcou com deliberada rigidez no tom:


-Perdoe-me! Não sou uma velha fofoqueira! Por que tinha que mencionar tal coisa? Foi uma conversa privada entre nós e não tenho o costume de repetir tudo o que ouço por acaso. A indignação de Christopher e seu tom ofendido aliviaram notavelmente ao capitão Buckley, que tratou de lhe acalmar em voz baixa e se esforçou por estancar seus sentimentos feridos. Christopher o permitiu com grande gentileza enquanto se perguntava se Buckley tinha ideia da necessidade de seus atos. Mesmo que ele não tivesse estado tão vitalmente interessado nesse documento, o comportamento do Buckley essa noite teria acrescentado sua curiosidade ao extremo. E durante um momento de pura tensão, considerou a possibilidade de que lhe estivesse estendendo uma armadilha, de que alguém desejava que se interessasse com viveza no que acontecia em Whitehall. Não, decidiu depois de refletir, Buckley era sincero em seu afã por emendar qualquer deslize de sua língua, e se Christopher tivesse sido o que aparentava, tudo teria concluído ali mesmo. O único desejo do capitão tinha sido de se assegurar do silêncio de seu amigo, e assim que este lhe convencesse de que nada transcenderia do conversado a noite anterior, preparou-se para partir. Ao acompanhá-lo à porta, Christopher perguntou com indiferença: -Veremo-lhe amanhã de noite no baile de lady Bagely? - OH, não, meu amigo! De fato, estarei fora da cidade durante duas semanas a partir de manhã. Logo, ante a muda pergunta do Christopher, acrescentou com certa vergonha: - Minha mãe está de cama e afirma com veemência que será seu leito de morte. Como o comandante de minha companhia é um bom amigo da família, envioume de licença a casa por duas semanas para tranquiliza-la. - Espero que não seja nada grave. - Não, certamente que não; minha mãe faz isto pelo menos três vezes ao ano e acredito que se ofenderia muitíssimo se caísse gravemente doente de verdade... Desfruta muito da atenção que lhe oferecemos! Christopher se despediu e seu sorriso se desvaneceu assim que Buckley se perdeu de vista. Parecia que tinha escolhido seus instrumentos sabiamente, depois de tudo, quando decidisse cifrar suas esperanças de averiguar algo sobre a invasão de Nova Orleans no Buckley e Kettlescope. Tinha tido razão ao pensar que o primeiro seria o mais indiscreto, meditou com regozijo. Graças a Deus tinha sido dotado de uma língua solta. Sem perceber o brilho especulativo dos olhos do Higgins, despediu-se de seu criado e partiu à cama, mas não para dormir. Deitou-se e permaneceu acordado olhando o teto enquanto considerava a melhor maneira de se apoderar do documento. Obviamente teria que roubá-lo, e um ladrão solitário teria maiores possibilidades de escapar sem ser descoberto que dois. Não diria nada ao Higgins, já


que desse modo não haveria discussões nem brigas se simplesmente lhe apresentava um fait accompli. Não duvidava absolutamente do Higgins, mas desejava evitar seu amigo da preocupação e a consternação que lhe causaria aquele plano. Já teria tempo de solicitar sua colaboração para falsificar o memorando quando este estivesse em suas mãos. Além disso, se lhe capturassem e lhe pendurassem, preferia morrer sozinho. Era muito melhor manter na mais absoluta ignorância ao Higgins o maior tempo possível. À manhã seguinte, antes que despertasse seu criado, Christopher saltou da cama e sem barbear-se vestiu-se depressa com roupas de quando era o capitão Sable. Rapidamente empreendeu o caminho a Newton e Dyott Street, na paróquia de St. Giles. Em um princípio tinha considerado ir ao famoso distrito de Whitechapel em Londres, mas depois de meditá-lo cuidadosamente, chegou à conclusão de que St. Giles era o lugar certo para o que necessitava. Depois de tudo, as ruas Newton e Dyott eram o centro de operações de todos os ladrões e batedores de carteira de Londres, e apesar de não necessitar de seus serviços teria que aprovisionar-se de úteis ferramentas para abrir a caixa forte do escritório do major Black. Os habitantes de St. Giles suspeitariam de um homem presunçoso e na moda, mas um tipo desalinhado e com roupa andrajosa como a que vestia hoje não despertaria curiosidade alguma. Depois de vários tropeços, encontrou o que procurava, um jogo de ferramentas que orgulharia a qualquer chaveiro ou ladrão de dedos ágeis. Antes de voltar para Ryder Street com sua curiosa aquisição, teve também a precaução de comprar diversas fechaduras de diferentes tamanho e complexidade. Pouco depois, ao retornar a suas acomodações, escondeu rapidamente suas aquisições dessa manhã na última gaveta da cômoda de carvalho que tinha em seu quarto e com rapidez se despojou de seu puído traje. Imediatamente puxou o cordão da campainha chamando Higgins para que lhe preparasse uma nova muda de roupa e trouxesse água quente para o barbeado. Uma hora mais tarde ninguém teria relacionado ao jovem cavalheiro alto e bem vestido que desceu à rua e se dirigiu à papelaria com o esfarrapado e tosco patife que acabava de fazer várias compras nas ruelas da paróquia de St. Giles. Comprou plumas de escrever de diversas grossuras e uma grande variedade de tintas, assim como também uma ampla seleção de papéis. De volta uma vez mais a Ryder Street na hora de almoçar, escondeu tudo em um dos compartimentos do aparador de mogno antes de tocar a campainha para que Higgins lhe servisse a comida. Imediatamente depois de comer, dirigiu-se a seu quarto, e abrindo a gaveta onde estavam todas as luvas, rebuscou entre eles até encontrar um par que não lhe importava perder, guardou-o no bolso interior da jaqueta, e avisando ao Higgins de que retornaria para jantar essa noite, saiu indolente em direção ao Whitehall e ao Ministério da Guerra. Uma vez ali averiguou o caminho ao escritório do Major Black sem lhe dar muita importância e pouco depois, depois de jogar uma olhada ao escritório deserto de Buckley, encontrava-se nos domínios daquele cavalheiro.


Christopher tinha topado uma ou duas vezes com o major ao visitar o Buckley, assim que lhe conhecia de vista, mas até agora nunca esteve em seu escritório. Ao encontrá-lo, golpeou a porta para ser admitido em seu interior. Reunindo todo o aprumo e a despreocupada arrogância de um aristocrata de berço, entrou com muita calma. - Lamento lhe interromper, mas pensei que o capitão Buckley se encontraria aqui -murmurou jogando um olhar vago ao redor do quarto. O major, um tipo cordial e fanfarrão, exclamou: -Vá, não! Buckley está de licença por duas semanas. Posso lhe ajudar em algo? Christopher, tendo observado com atenção à pesada, caixa de ferro em um canto, adotou uma expressão de fingido chateio. : -Oh, você tem razão. Que tolice havê-lo esquecido! Em realidade não era nada importante; é que quando veio a minha casa ontem à noite deixou esquecidos este par de luvas e como passava por aqui, pensava devolver-lhe - respondeu lhe subtraindo toda importância e depositando as luvas sobre o escritório do major. - Pode deixar comigo , se quiser - sugeriu o major. - Não, não será necessário. É provável que possa lhe ver antes que você. Obrigado de todos os modos. Cumprida a missão, voltou a guardar as luvas no bolso interior da jaqueta e, como o major era bastante loquaz, perdeu uns quantos minutos mais de conversa com ele. Entretanto, Christopher utilizou esse tempo a seu favor estudando com discrição a caixa forte que supostamente guardava o documento. Por isso podia ver, não resultaria muito difícil de abrir, em especial se passava os dias seguintes familiarizando-se com as ferramentas úteis que tinha adquirido essa manhã. Ao retornar outra vez ao Ryder Street mandou Higgins fazer várias diligências pela cidade; trâmites que estavam destinados a lhe manter longe de seus aposentos durante algumas horas. Quando se encontrou sozinho, abriu o pacote de ferramentas de chaveiro e passou toda a tarde refrescando tudo o que sabia a respeito de fechaduras e as distintas formas de abri-las. A volta de Higgins pôs fim a essas atividades, e Christopher fingiu mostrar-se muito agradado com as novas gravatas, a mescla especial de rapé encarregada na farmácia e as amostras de tecido que tinha pedido do alfaiate. Higgins não se enganava; sabia que tinha lhe enviado a percorrer toda Londres deliberadamente, mas no momento guardou silêncio. Os dois dias seguintes pareceram cortados pelo mesmo padrão tanto para o Christopher como para o Higgins. Ele passava hora após hora na intimidade de seu quarto praticando com as distintas fechaduras e o outro percorrendo inutilmente as ruas de Londres. depois de jantar cedo, Christopher se envolvia em uma capa escura e passava toda a noite observando os movimentos dos guardas nas imediações do Ministério da Guerra. Fazia tempo já que, em conversas intrancedentes, conseguiu


averiguar as diversas rotinas das mudanças de guarda, mas agora certificar-se dos procedimentos era de vital importância. Finamente, chegou à noite em que tinha decidido que devia dar o golpe. Depois de dar permissão ao Higgins para que fosse descansar até o dia seguinte, passou as horas que faltavam até as duas da madrugada passeando por suas acomodações e ardendo de impaciência. Quando o relógio deu a hora, ficou em movimento rapidamente, quase com ferocidade, despojado do elegante traje que vestia e vestindo umas escuras calças e uma camisa entalhada de grosseiro algodão negro. No bolso levava fósforo, uma vela e o jogo de ferramentas que tinha comprado em St. Giles. Ao aproximar-se do Ministério da Guerra, localizou a janela pela qual se introduziria ao edifício. Escolheu o momento oportuno, evitou os guardas e entrou com a agilidade de um gato. Estava seguro de que ninguém tinha detectado seus movimentos, e depois de apagar todo rastro de sua entrada, correu pelos silenciosos corredores e subiu os dois lances de escadas que levavam ao escritório do major Black. A porta estava fechada com chave. Mas já tinha imaginado; rapidamente se ajoelhou diante dela. Vigiando o estreito corredor em penumbras, trabalhou com rapidez até que se abriu a porta com um suave «click». Entrou, e depois de fechar colocou uma cadeira de madeira debaixo do trinco: isso serviria para lhe avisar e um momento de pausa. Logo cruzou a sala e deu uma olhada à rua iluminada com gás dois pisos mais abaixo. Um salto perigoso, pensou. Suavemente abriu o fechamento da janela. Uma vez deixado livre a via de escapamento, ajoelhou-se diante da imponente caixa forte. Com supremo cuidado extraiu os utensílios de serralheiro e acendeu a vela. Apesar de tantas horas de prática, Christopher ficou surpreso e agradado pela facilidade com que a abriu. Uma vez destrancada a fechadura, vacilou e logo fez girar a pesada porta sobre suas dobradiças deixando-a totalmente aberta. À luz da vela viu que estava cheia de dúzias de documentos selados e postos fitas. «Tomara que o que procuro não esteja selado!», rogou interiormente. Depois de meses de lhe menosprezar, a sorte estava de seu lado, pois o memorando foi o terceiro documento que tocou. Só era uma simples folha de papel, mas tinha em seu poder o futuro de Christopher. Ao lhe dar uma olhada, lhe secou a boca, e sem perder um segundo mais deslizou o documento em seu bolso interior; ficando em movimento com muita rapidez e sigilo, fechou a caixa forte, voltou a travar a janela, retirou a cadeira da porta e a colocou exatamente onde a tinha encontrado. Já no corredor fechou a porta a suas costas e com rapidez voltou a fechá-la com chave. Salvo pelo memorando que lhe queimava como uma brasa no peito, todo o resto estava exatamente como antes de sua chegada.


Sem fazer um só ruído e mantendo-se nas sombras do edifício em penumbra, chegou à planta baixa sem ser visto. Saiu pelo mesmo caminho por onde tinha entrado fazia escassos minutos e se deixou cair silenciosamente à rua empedrada. Quando seus pés tocaram o chão se sentiu invadido por uma súbita onda de entusiasmo, mas a dominou com ferocidade; quando entregasse o documento ao Jason em Nova Orleans, então e só então poderia desfrutar de seu triunfo. Mesmo assim, seguiu lhe acompanhando uma deliciosa sensação de satisfação enquanto caminhava com rapidez e decisão em direção ao Ryder Street. Uma vez no interior e na segurança de suas acomodações, depositou o documento sobre a mesa e quase distraidamente molhou um pano com a água da jarra que estava sobre o lavabo de mármore e começou a limpar os rastros de cortiça queimada da cara. Mas o memorando se fazia irresistível, e com o rosto ainda manchado se sentou a lê-lo. O general de divisão sir Edward Pakenham estaria ao comando da expedição. Enquanto assimilava isto, Christopher soltou um assobio. Assim seria o cunhado favorito de Wellington, depois de tudo. Pakenham, que tinha abrigado à esperança de ter «lutado na América». Ele com o alto escalão, tropas e provisões adicionais zarparia de Spithead na primeira semana de novembro, obviamente sob ordens secretas. O destino imediato seria a Jamaica, onde na Baía Negril se uniriam à frota do almirante Cochrane e às tropas que estariam agrupando sob as ordens do general de divisão John Lambert. Nova Orleans e os territórios circundantes seriam o objetivo final. Na Jamaica lhes aguardariam novas ordens. Com ar pensativo, Christopher deixou o memorando de novo sobre a mesa. Se lhe favorecia a sorte e quaisquer dos deuses que velavam por patifes como ele mesmo, chegaria à Nova Orleans ao redor da mesma data em que Pakenham partisse rumo à Jamaica, a condição de que não houvesse nenhuma mudança de última hora no plano atual. Se tudo ia bem, Nova Orleans teria seis semanas, e esse lapso poderia ser tempo suficiente para demonstrar aos britânicos o que podiam fazer os norteamericanos quando lhes perseguisse. O suave ruído da porta do dormitório ao abrir-se de par em par lhe indicou imediatamente que já não estava sozinho e Christopher, protegendo o memorando que estava sobre a mesa com seu corpo, virou-se e enfrentou a um Higgins surpreso e sobressaltado. - Senhor! - gritou obviamente confundido não só pelo traje de Christopher mas também pelas manchas que sujavam seu rosto. «Agora chega o inevitável», pensou Christopher, irritado. A hora de informar ao Higgins do verdadeiro motivo que lhes tinha feito retornar a Inglaterra. Mas seguia sendo resistente a envolver ao outro homem. Entretanto, não podia fazer outra coisa, já que necessitava a habilidade e a arte de Higgins. Os dois antigos amigos se observaram mutuamente até que Higgins rompeu o silêncio.


-Encontrou o memorando? -dilataram-se os olhos do Christopher, mas recuperando-se com rapidez, perguntou: -Quanto tempo sabe? - Só da visita do capitão Buckley a outra noite quando conseguir lhe ouvir falar de certo memorando - murmurou Higgins adotando uma expressão de inocência. Logo acrescentou com afabilidade -: Conheço-te muito bem, Christopher, e não pude menos que deduzir que desejava esse documento mais que qualquer outra coisas neste mundo. - Bem, espero sinceramente que ninguém mais possa ler meus pensamentos como você! - replicou Christopher exasperado. - Oh, não, senhor! Não tem nada que temer. É só que, bom... - Higgins encolheu os ombros-, os dois lutamos contra os britânicos muitas vezes e estado juntos em muitos apuros para não nos conhecer um ao outro. Às escuras feições de Christopher se iluminaram brevemente com um sorriso afetuoso. - Isso é verdade, meu amigo, isso é verdade. O momento de embaraço passou e Christopher pôs ao Higgins a par de tudo antes de tirar o tema das habilidades de seu criado. Quando terminou, Higgins assentiu lentamente. - Figurava-me que esse era o plano, mas não estava muito seguro. Creíste em realidade que eu te deixaria sozinho? - Não! Só acontece que me desgosta te envolver em algo pelo qual bem poderiam nos pendurar! - Não tenha nenhum temor por isso, sou um velho muito pícaro para me deixar pescar como um vulgar caipira da prisão. Sairemos bem desta, já o verá acrescentou com confiança. Com um brilho malicioso de risada nos olhos, acrescentou-: Eu era um dos mais hábeis e manhosos neste negócio até que Bow Street se interessou de maneira desmedida por mim. Lhe dando uma palmada no ombro, Christopher perguntou. - Bem, amigo, acha que ainda é o melhor? - É obvio que sim! E lhe provarei isso quando terminar com esse documento. Não poderá distinguir um do outro. Várias horas depois, quando Christopher comparou as duas folhas de papel, viu que eram idênticas, até na leve mancha que cruzava a esquina superior esquerda do original. Agora tudo o que ficava por fazer era devolver o documento falsificado ao escritório do major Black. Os dois homens discutiram esse ponto minuciosamente. Era arriscado, tão arriscado como tinha sido roubá-lo em primeiro lugar, mas juntos chegaram a uma decisão; em lugar de voltar a tentar a sorte tentando repetir a façanha daquela noite, Christopher visitaria o escritório do major ao dia seguinte pela tarde e em um descuido de este, ou em algum outro momento oportuno, deslizaria a folha de papel


entre as pilhas de documentos que lotavam o escritório. O motivo para esta nova visita apresentava algumas dificuldades, mas finalmente Christopher decidiu que já pensaria em algo; embora fosse um pretexto tão fraco como necessitar a direção particular de Buckley. Albergava a esperança de que a falta do memorando não fosse descoberta nem se sentisse falta de em um ou dois dias, já que para então a visita do Christopher teria passado ao esquecimento se lhe acompanhava a sorte. Sem dúvida surgiriam algumas especulações, mas como todo mundo estava informado de como se transportavam os documentos no Whitehall e no Ministério da Guerra, apostava a cabeça a que se atribuiriam à negligência de alguém ao arquivá-los quando descobrissem o memorando sobre o escritório do major em lugar de estar sob chave na caixa forte. Ao dia seguinte, Christopher se apresentou ante o major Black e perguntou pela direção do capitão Buckley na campina. Perdeu tanto tempo como foi possível sem despertar suspeitas, mas não se apresentava nenhuma oportunidade para devolver o documento. Já se tinha despedido com toda cerimônia e seguia pensando com fúria e desespero em outro lugar onde deixá-lo, quando chocou com o assistente do major que entrava no escritório com uma braçada de pastas. Todos os papéis voaram pelos ares e enquanto se desculpavam mutuamente e se precipitavam a recolher e reunir os papéis, Christopher aproveitou para deslizar a folha de papel de seu bolso em uma das pastas. Novamente ofereceu suas desculpas, mas o assistente, um jovem cavalheiro muito agradável, alegou: -Foi minha culpa, senhor. Tinha tanta pressa que não olhava por onde ia. Bem mereço isso! Agora terei que passar horas e horas ordenando estes documentos, porque não há forma de saber onde vai cada qual. Christopher o compadeceu profundamente, mas ao afastar-se dali seus pés pareciam voar e um sorriso lhe curvava os cantos dos lábios. Encontrariam o memorando, e ninguém estaria totalmente seguro de onde tinha estado. De agora em diante tudo o que ficava por fazer era esperar, o qual sem dúvida lhe faria interminável. Higgins e ele não abandonariam Londres até o dia anterior à entrevista. Viajariam até Brighton pela manhã, e horas depois da chegada, mas antes da noite seguinte, teria que enfrentar a seu avô. Não era uma perspectiva de seu especial agrado, sobre tudo porque não podia lhe dar nenhuma explicação nem tão sequer desculpas. Que demônios lhe diria? Por um momento pensou em lhe escrever uma carta, mas desprezou a ideia imediatamente. Não, não se comportaria como um covarde, de algum jeito devia preparar Simon para que aceitasse sua partida e entretanto evitar a toda custa lhe dar sequer um indício de que com a informação que agora tinha em seu poder, era imprescindível que retornasse aos Estados Unidos.


Recusou pensar em Nicole. Ela podia lhe comover de maneira insuportável, lhe encher de desejos selvagens, de ardentes saudades, mas era inflexível quanto a não cair nas sutis redes que ela sabia tecer com tanta naturalidade e candura. Entretanto, a ideia de casar-se com ela não lhe abandonava; muito pelo contrário, como uma tentadora promessa de sorte rondava uma e outra vez em sua cabeça, até lhe levar a bordo da loucura. Aturdido pelo fio que tinham seguido seus pensamentos, convenceu-se de que viveriam melhor separados, de que quando zarpasse para a América do Norte o último laço que ainda ficava cortaria definitivamente. Não era fácil lhe pedir que esperasse até que ele voltasse... E se o fazia? Como se lhe tivesse picado um escorpião, Christopher deu um coice. Isso séria inaceitável! E essa mesma noite, perdendo-se nos encantos de outra loira bailarina de opereta, esteve seguro de ter tomado a decisão mais acertada. Uma mulher servia tanto como outra, e o tempo destruiria os curiosos dardos de algo semelhante à dor e a pena que se cravavam em seu coração cada vez que vislumbrava um futuro sem essa mulher de olhos topázio entre seus braços.


CAPÍTULO XXXI

As bodas de lorde Saxon e da senhora Eggleston se fixou para a uma da tarde e foi uma festa íntima posto que Letitia e Simon só tiveram duas dúzias de convidados. De fato, este tinha insistido para casar-se no despacho do juiz White contando com a Regina e Christopher como as únicas testemunhas, mas sua irmã prontamente tinha posto fim a esse desatino. Portanto, Simon e Letitia recitaram seus votos na sala mais formosa e elegante da mansão de Cavendish Square, adornada profusamente com enormes vasos de prata cheios de flores, crisântemos tempranos de grandes cabeças emplumadas e crespas amarelas e brancas, rosadas campainhas de urze silvestre, margaridas, acianos azuis de floração tardia, rosas vermelhas que impregnavam o ar com sua fragrância, aromáticos cravos e majestosos cachos de gladíolos. As portas de vidraça estavam totalmente abertas permitindo que se vislumbrasse o jardim clássico como cortina de fundo. O terraço adjacente estava rodeada de enormes vasos de porcelana que transbordavam de todas as flores imagináveis. A cerimônia foi breve. Nicole, ao contemplar o gesto terno, quase reverente com que Simon colocava o anel no dedo de Letitia, sentiu um nó na garganta e por um momento atroz, temeu começar a chorar ruidosamente, como acabava de fazer Regina. Entretanto, uma vez que se disseram as palavras finais, lady Darby recuperou com rapidez a serenidade e voltou a ser a mulher enérgica e franca de sempre, transbordante de alegria e sorrisos para com os recém casados. O banquete nupcial que seguiu à cerimônia se desenvolveu em meio de um ambiente alegre e cordial; todas as tensões se relaxaram e se fizeram numerosos brinde pelos noivos enquanto anoitecia lentamente. Com o correr das horas, entretanto, Nicole haveria se sentido muito mais feliz se três dos convidados partissem. Ao Robert esquivava por razões óbvias; o gesto zombador de Christopher e a risada sarcástica que lhe iluminava os olhos cada vez que se encontravam seus olhares a enfureciam e a angustiavam como se lhe estivessem cravando a folha de uma faca no coração. E Edward, com sua atitude aduladora e servil e ridículas, atacava-lhe ainda mais os nervos já de por si superexcitados. Como uma raposa acossada por três perigosos cães de caça, Nicole se deslizava de um pequeno grupo brincalhão e risonho a outro vigiando com cautela a seus três torturantes.


Christopher era o mais fácil de evitar, pois não fazia nenhum tento de solicitar sua companhia e a tratava com sua indiferença habitual. E contudo, Christopher a perturbava muito, tão bonito e elegante com sua jaqueta de veludo negro rodeada ao corpo e a gravata branca engomada que realçava suas enxutas feições morenas. Por mais que se esforçasse, seus olhos iam, de forma inexorável, em direção a ele. Estava furiosa consigo mesma por aquela manifestação de debilidade e com Christopher por poder destruir tão facilmente o controle de suas emoções. Robert, cada vez mais perplexo pela frieza com que o tratava Nicole, observava-a constantemente com o sobrecenho franzido, sentido-se surpreso por sua mudança de atitude. Perito como era na arte da caça, não tentava lhe impor sua companhia. Talvez fosse um capricho passageiro, pensava com impaciência, ou possivelmente seu ardor a tinha assustado. Quaisquer que fossem os motivos, Robert estava disposto a esperar confiando em que com o tempo terminaria sendo sua esposa. Edward também tinha advertido a falta de interesse de Nicole pela companhia do Robert e se regozijava em seu interior pelo aparente rechaço que tinha sofrido seu rival. Agora, com segurança, Nicole cederia a suas lisonjas e requerimentos, gabava-se entusiasmado, e seu temor crescente a adoecer na prisão por dívidas passava a segundo plano. Edward se encontrava em verdadeiros apuros. Acostumado às enormes somas de dinheiro procedentes da fortuna de Nicole e desdenhando qualquer intento de viver de acordo a seus modestos ganhos, suas extravagâncias lhe tinham enterrado em dívidas até o pescoço. Sua alfaiate favorito já não lhe concedia mais crédito; seu sapateiro tinha afirmado com certa grosseria que se não receber um pagamento substancial dentro de trinta dias, demandaria-lhe por dívidas; e seu caseiro comentou com inequívoca intenção que se o senhor Markham não se apresentava com o dinheiro para pagar os três meses de aluguel que lhe devia, muito em breve se encontraria com todos seus pertences embargados e com seus ossos no cárcere. As reclamações de seus credores aumentavam em intensidade e turbulência, e a alusão ao compromisso com uma herdeira bem relacionada já não bastava para lhes conter. Quão único agora poderia lhe salvar da ruína era um matrimônio urgente com Nicole. Mas ela, até depois de desterrar ao Robert, não parecia inclinada a lhe favorecer com suas preferências e Edward se debatia entre a fúria e o medo do que lhe proporcionaria um fracasso em seus planos. Era verdade que havia outras herdeiras em Londres, mas desde que começaram seus reversos de fortuna, os tutores se cuidavam muito bem de impedir Edward Markham que empregasse sua evidente beleza masculina para granjear os favores de suas enriquecidas pupilas. Ignorando os lânguidos olhares que jogava em sua direção, Nicole desejou pela enésima vez que não tivessem incluído seu primo no convite. Acossava-a e lhe seguia os passos representando tão bem o papel do escravo prendado de sua beleza, que ansiava esbofeteá-lo com todas suas forças. Chiando os dentes, prometeu-se que


faria exatamente isso se Edward voltasse a comentar mais um de seus comentários corriqueiros com um: «Que engenhosa é, prima! Pensar que a uma beleza como a tua se une um cérebro ágil e agudo me deixa realmente pasmado». Desesperada por escapar de seus cuidados que a asfixiavam, cravou as unhas nas Palmas das mãos enquanto sorria inflexível aos olhos azuis do Edward, e lhe disse com tensão: - Quer me trazer um copo de limonada, Edward? - E quando seu primo, desempenhando seu papel à perfeição, obedeceu à ordem, saiu disparada para o jardim, onde esperava achar paz e solidão. Era uma noite deliciosa, o ar estava morno mas a brisa insinuava já a proximidade do outono. Os jardins estavam enfeitados com lanternas de alegre colorido e luzes brilhantes que eram como grinaldas de resplandecentes safiras, rubis e esmeraldas em meio da escuridão, criando um mundo à parte e mágico. Alguns casais mais jovens, aproveitando o interesse dos mais velhos nos noivos, passeavam lentamente pelos largos atalhos. Nicole, ao achar um banco de pedra isolado e parcialmente oculto atrás de uma trepadeira de rosas coberto de flores perfumadas, deixou-se cair com inapetência, esperando que Edward não lhe ocorresse procurá-la nos jardins. Sentada ali em silêncio e muito quieta com os olhos fechados, desfrutava da noite até que de súbito teve saudades do mar com tanta intensidade que por um momento acreditou sentir o rítmico balanço do navio, o suave assobio das ondas ao açoitar o casco e o aroma penetrante do ar marinho. Mas a voz de Edward rompeu o feitiço e soltando um suspiro lhe viu aproximar-se com um copo alto de limonada na mão. -Obrigado, primo -disse ao recebê-lo, mas acrescentou em tom cortante -: Estou surpresa que os convidados fiquem até tão tarde. Diria-se que deviam haver partido faz horas. Surdo à insinuação evidente da jovem, sorriu vagamente e se sentou junto a ela, cuidando de não enrugar as calças de cor marrom rodeadas estreitamente ao corpo como uma segunda pele. -Oh, não, querida! Todo mundo está se divertindo muito para pensar em irse! E não pode culpá-los em realidade: lorde Saxon ofereceu uma variedade incrível de aprimoramentos. Deve admitir também que não se dá umas bodas como esta com frequência - murmurou Edward e terminou com uma risadinha afetada que irritou os nervos de Nicole. - Pode ser - replicou com azedume -, mas já passa das nove e ninguém sugeriu sequer que é hora de retirar-se. Não esqueça que todos viajamos amanhã a Brighton depois de que lorde Saxon e a senhora Eggleston... quero dizer lady Saxon saiam para Beddington's Corner. Ainda devo fazer minhas malas e penso que você terá também seus próprios assuntos de que te ocupar. Edward fingiu não entender o giro que Nicole dava à conversa.


- Já fiz todos os acertos com o caseiro; meu criado já fez minhas malas e não tema, estarei aqui te aguardando amanhã, a mais demorar às dez. A mudança a Brighton contava com a plena aprovação de Edward. Não só escaparia dos credores inoportunos que tinham começado a fazer guarda ante sua porta como também afastaria Nicole de seus pretendentes mais fervorosos. Edward estava resolvido a casar-se com Nicole antes de sair de Brighton. A ideia de seduzi-la jamais se separava de seus pensamentos, e ao observar a seu redor os jardins quase desertos, o pensamento de criar uma situação comprometedora cruzou imediatamente por sua cabeça. Reprimindo o sorriso malicioso que lhe curvava o canto da boca, sugeriu com indiferença: - Damos um passeio, prima? Os jardins são uma tentação deliciosa. Nicole esteve a um tris de lhe dizer que se fosse a passeio mas, dominando seus sentimentos, reprimiu o impulso e aceitou o convite. Depois de tudo, raciocinou, caminhar lhe dava algo que fazer e era uma noite encantadora. Passaram os minutos seguintes perambulando pelos jardins iluminados pela lua em surpreendente harmonia; as lanternas multicoloridas irradiavam um resplendor carnavalesco e o ar suave da noite era embriagador. Quando se aproximaram do pavilhão prateado pela lua, Edward exclamou cheio de entusiasmo: - Que inteligente foi lorde Saxon ao mandar construir um pavilhão nos jardins! Vamos, me acompanhe ao interior! Nicole não viu nenhum risco em entrar, embora lhe chamou poderosamente a atenção esse súbito interesse de Edward pelo edifício. Muito em breve descobriu, entretanto, que seu primo aparentemente tinha interpretado mal sua complacência, pois mal tinham entrado quando a agarrou entre seus braços. -Está louco? -exclamou ela lhe sacudindo com violência pelos ombros. E Edward, consciente de que só tinha uns minutos para realizar seu plano, murmurou: - Sim! Estou louco por ti! - E com deliberação lhe arrancou a fina renda que lhe cobria os seios lhe rasgando o vestido pelo ombro. Enfurecida mais que assustada, Nicole lutou ferozmente para escapar de seu abraço, mas Edward era muito mais forte do que sugeria sua figura esbelta e magra. . Os cachos arrumados tão laboriosamente horas antes caíram em uma sedutora desordem ao redor de seus ombros e seus olhos topázio brilharam de cólera quando Nicole lhe cuspiu: - Me solte, sapo imundo! Perdeste o pouco miolo que tem? Edward, contemplando aqueles ombros de cor nata, assim como a suave curva insinuante dos peitos que tinham ficado a mostra por seu ataque, sentiu-se de repente possuído de uma paixão genuína. Sem fingir mais, sem sequer lhe importar se


os passos que tinha ouvido se aproximavam ou afastavam, disse com voz pastosa pelo ardor: - Sim! Você me converteste em um néscio, querida prima, e temo que terá que pagar as consequências! Sua boca assaltou a da Nicole e ela ficou pasmada por um instante pela temeridade das ações daquele imbecil. Logo, quase tremendo de asco e de fúria lutou com denodo por livrar do doloroso ataque dos lábios de Edward, da língua que forçava sua entrada violando-a e ultrajando-a, enquanto as mãos masculinas se cravavam dolorosamente em seus braços. Edward não lhe dava pausa; pelo contrário, as convulsões de seu corpo ao retorcer-se lhe excitavam ainda mais, e com um movimento deliberado e brutal, empurrou-a jogando-a sobre um dos divãs próximos para logo deixar cair todo o peso de seu corpo sobre ela. Completamente aturdida e sem poder acreditar no que estava passando, Nicole tratou de esclarecer seus pensamentos. Edward era muito forte para ela e as duas alternativas que tinha eram gritar para atrair a todo mundo ou ganhar em astúcia a seu atacante. Atemorizou-lhe gritar ao imaginar o escândalo em que se veria envolta. Bem, já tinha vencido em astúcia a seu primo várias vezes antes e com toda segurança poderia fazê-lo de novo. Obrigando a seu corpo a permanecer relaxado, suportou os beijos e lhe deixou acreditar que se resignou a sua sorte. Ao sentir que a belicosidade a tinha abandonado, Edward se sentiu exultante, seguro de que seus encantos masculinos tinham ganho a batalha. Então baixou o guarda: suas mãos ambiciosas procuraram torpemente deslizar-se debaixo das saias e seus lábios lhe soltaram a boca em busca da tentadora curva acetinada dos peitos. O toque fez correr um formigamento de asco pela pele da jovem e só concentrando-se com determinação em sua próxima jogada pôde evitar que se delatasse toda a repugnância que sentia por ele. A débil luz do pavilhão detectou uma garrafa de champanha meio vazia e duas taças em uma mesinha próxima. Sem dúvida o que ficava de um encontro de amantes, pensou com amargura. Mas com a arma à vista, começou a levantar lentamente um braço acariciando ao mesmo tempo a Edward para evitar que adivinhasse suas intenções. Com o braço livre, moveu pouco a pouco uma perna lhe deixando acreditar que era para facilitar as torpes carícias de suas mãos ambiciosas, e quando o considerou oportuno, atacou como uma tigresa no cio. Cravou a fundo os dentes na orelha do Edward e com toda frieza levantou o joelho flexionado abrupta e dolorosamente entre as pernas de seu atacante. Edward soltou um chiado de extrema dor, esquecendo nesse instante toda ideia de sedução, entre a agonia que lhe queimava entre as coxas e a dor entumecedora da orelha. Dobrou-se em dois, arrancando literalmente a orelha dos dentes da Nicole e com as mãos protegendo-as virilhas. Nicole aproveitou esse instante de surpresa e lhe empurrou com violência antes de saltar ao chão. Agarrando


a garrafa pelo pescoço, golpeou-a com força contra o bordo e com as pontas afiadas a dirigiu ao Edward e grunhiu com ironia: -Me toque outra vez, primo, e essa bonita cara que tem será o pesadelo dos meninos durante o resto de sua miserável vida! Edward se encontrava em um estado de comoção e assombro de que alguma mulher pudesse resistir a seus encantos, estupefato de que uma jovem da condição da Nicole não se deprimiu de pura vergonha ante seu ataque. Não saía de seu assombro pela brusca e inexplicável mudança de voltas, e só pôde ficar deitado ali gemendo com o rosto pálido e a orelha sangrando profusamente sobre as almofadas de cetim. Nicole lhe contemplou com desdém por um instante e logo em um tom de voz que transmitia todo o asco que sentia por ele, ordenou-lhe: -Te domine de uma vez, idiota! Te incorpore, não te matei, imbecil! - É indubitável que não lhe mataste, querida, mas estou convencido de que seu pobre primo se sente como se o tivesse feito -comentou em tom cortante Christopher da soleira da porta, com o rosto inescrutável à luz da lua. Surpreendentemente, a sensação de Nicole foi alivio ao ver que tinha sido Christopher quem os tinha surpreendido. Deixou a garrafa com gesto de fadiga sobre a mesa. - À noite e o excesso de vinho afligiram a meu primo. Sugeriria que acompanhasse a sua carruagem enquanto eu retorno a casa e reparo os danos que fez em meu vestido. Edward, ao ver que lhe escapava a oportunidade das mãos, ficou de pé com esforço e gritou com voz enrouquecida: - Não! Casarei-me com ela! - E ao comprovar que Christopher permanecia curiosamente impassível, gaguejou-: Não podem desejar um escândalo! Desposarei-a no instante em que possa obter uma licença especial e ninguém se inteirará jamais do que ocorreu esta noite! Sua honra estará à salva! -E sua fortuna feita! -exclamou Nicole, furiosa-. Eu, por minha parte, não tenho nenhuma intenção de me casar contigo, Edward. Christopher entrou no pavilhão e depois de examiná-la fugazmente, perguntou: -Encontra-te bem? Jogando para trás um dos cachos de cabelo caídos, respondeu com sinceridade: -Sim. Um pouquinho desalinhada e perturbada, mas ilesa. - Então sugiro que suba a seu quarto e que Médica ou Mauer lhe arrumem o penteado e o vestido enquanto eu me encarrego do senhor Markham. Com a sensação de ser arremessada como uma criatura incomoda, Nicole se ergueu e seus olhos topázio brilharam de indignação. -Não me dê ordens! -disse com os dentes apertados-. Se por acaso não o recorda, isso é precisamente o que eu sugeri faz só um momento.


-Claro. Por que não o faz então? Ou é que me equivoquei ao avaliar a situação? Que isto não é nada mais que uma briga de amantes? -ronronou em tom ameaçador, e então Nicole caiu na conta de que, apesar de sua atitude impassível, Christopher em realidade parecia uma fúria. E era perigoso. Um pressentimento atroz fez com que estremecesse de espanto quando viu o olhar que lançou a Edward. Correu então através do pavilhão e se aferrou ao braço de Christopher. Quase a rastros conseguiu tirá-lo para fora e quando estavam a um passo de distância do pavilhão, disse em voz baixa: - Meu primo é irritante e chato, mas não me fez nenhum dano! Cresci com ele, Christopher, e sei dirigi-lo. O que presenciaste aí dentro é um exemplo típico de como terminavam todas nossas brigas de meninos. - Logo, em tom pensativo, acrescentou sinceramente -. Embora Edward geralmente encontrava a maneira de vingar-se depois. Examinando as unhas à luz da lua, Christopher perguntou sem expressão na voz: -Quer que o mate? -Faria-o? - inquiriu sem pensar e ao ler a resposta em seus olhos dourados como os de um tigre, lhe secou a garganta. Engoliu com dificuldade -. Não quero que lhe faça mal, Christopher. É um idiota e mal posso lhe suportar, mas não lhe faça mal. -Dá-te conta de que se persistir em te pedir em matrimônio, se for ao Simon com o conto do acontecido esta noite, pode muito bem se encontrar presa a ele pela vida toda? Voto a Deus! - explodiu ele olhando-a fixamente aos olhos-. Se alguma outra pessoa te tivesse encontrado nessa situação comprometedora, neste mesmo instante estaria ante o Simon, e não haveria outra alternativa que te dar em matrimônio ao Edward. Sacudida por essa inesperada possibilidade, Nicole desviou o olhar do ódio nu que refletia o rosto do homem. - Não o tinha pensado - resmungou estudando os sapatos de cetim-. Mas ninguém nos encontrou -disse por fim olhando ao Christopher outra vez. Apoiou a mão sobre seu braço e suplicou-: Deixe ir a casa e contar-lhe eu mesma ao Simon. E se você fosses ajudar ao Edward... -Simon pode acreditar em ti, mas como vais manter fechada a boca de seu primo? Como vais te assegurar de que não será a fofoca de todos os clubes do Pall Mall? De que não lhe fecharão todas as portas da sociedade? - exigiu Christopher com ira. Tomando-a pelos ombros, sacudiu-a com força-. Não te dá conta de que pode te arruinar? - O pode te importar isso? - replicou ela à defensiva, pois estava confundida pela preocupação que via em seus olhos e aturdida pela proximidade de seu corpo quente e duro. Christopher lhe jogou um olhar desdenhoso e afastando-a dele, disse grosseiramente mordendo as palavras:


- Só Deus sabe! – Passando a mão pelo cabelo escuro e rebelde, murmurou-: Volte a casa e não diga uma só palavra a ninguém. Deixe Edward a meu cuidado e troca essa expressão de sua cara, não vou lhe fazer mal. Só lhe darei um susto maiúsculo! Nicole não perdeu mais tempo conversando e se deslizou como um fantasma perdendo-se na escuridão. Sem expressão na cara, Christopher esperou até vê-la desaparecer, em seguida virou-se e voltou a entrar no pavilhão com resolução. Edward tinha recuperado um pouco o aprumo e estava de pé apoiado com cautela sobre uma das mesas. Ao ver Christopher que entrava nesse momento, balbuciou: -Sei que o que fiz foi mau, mas a amo! Tenho a intenção de me casar com ela! Comportarei-me honoravelmente com ela, me acredite! Os olhos de Christopher eram meras faixas douradas no rosto moreno e ameaçador. -Não o fará, amigo, se em algo aprecia sua vida! Sairá daqui e não dirá nada absolutamente do que ocorreu esta noite. Por alguma razão sua prima deseja te proteger, mas me deixe te dizer isto, se não fosse por Nicole, seria um homem morto. Agora saia imediatamente de minha vista e mantenha a boca bem fechada! E, Markham, se chegar ao ouvir um só sussurro, uma só insinuação, uma só palavra do que aconteceu esta noite, matarei-te, sem dúvida alguma. De todos os modos talvez o faça, assim mantenha-se longe de mim! A valentia não era precisamente um dos pontos fortes de Edward, assim perdeu o pouco ânimo que tinha recuperado e como um coelho assustado-se escapuliu do pavilhão, agradecido de escapar com vida e sem lhe importar no momento ter fracassado em seu intento de casar-se com a rica herdeira. Por desgraça, essa disposição de ânimo não lhe acompanhou por muito tempo e quando alcançou a segurança de suas acomodações e bebido várias taças de conhaque, convenceu-se de que a intervenção de Nicole em seu benefício tinha sido porque ela, de fato, guardava-lhe certo carinho oculto e que as terríveis ameaça de Christopher tinham sido só isso, ameaças. Christopher não poderia lhe ferir, pensou com desdém, acariciando abstraído o bengala de estoque que sempre tinha a seu lado, mas que hoje não tinha levado porque não o aconselhava a etiqueta. Se o tivesse levado consigo essa noite, Saxon não teria se mostrado tão arrogante e valente. Ele teria se encarregado disso! repetiu-se até que, convencido de que Christopher Saxon era um valentão arrogante de quem poderia encarregar-se quando quisesse e seus planos com respeito à Nicole foram prosperando, Edward planejou continuar como se nada tivesse ocorrido. Christopher permaneceu no pavilhão vários minutos mais depois da partida precipitada de Edward, lutando por dominar o impulso primitivo de lhe seguir e lhe romper todos os ossos do corpo. Como se atrevia a pôr uma mão em cima de Nicole, pensou com ira mal contida. E contudo, ao recordar o ridículo que se viu Edward


dobrado em duas e a ferocidade e rapidez que tinha mostrado Nicole para defender sua honra, a risada lhe sacudiu o corpo. Era ardilosa como uma raposa! Provavelmente, Edward sofreria menos em suas mãos que nas dela! Só lhe teria matado, enquanto que Nicole lhe teria aleijado pelo resto da vida! Rindo, recostou-se contra o gonzo da porta do pavilhão e cravou o olhar no caminho pelo qual Edward tinha fugido a toda pressa. Interveio então a fatalidade: Robert e o amigo de lorde Lindley, o tenente Jennings-Smythe, havendo escapado para fumar um charuto, encaminhavam-se ao pavilhão por um dos tantos atalhos que desembocavam ali. Christopher não os tinha advertido. Ao aproximar-se por um dos lados viram Christopher de perfil com a parte inferior da cara sombreada e a luz da lua reforçando o negrume de seu cabelo, fazendo ressaltar as espessas sobrancelhas e as narinas. O parecido com o capitão Sable era de tudo inconfundível. Christopher não lhes ouviu aproximar-se, absorto como estava em seus próprios pensamentos, e Jennings-Smythe teve vários segundos para observar com atenção seu robusto perfil. O tenente não podia acreditar no que viam seus olhos, e estava tão surpreso que disse sem pensar: - Capitão Sable! Seu sobrinho é um maldito corsário norte-americano! Christopher, ouvindo vozes longínquas mas sem entender o que se dizia, olhou naquela direção e reprimiu um grunhido de exasperação. Tinha sido para evitar ao Jennings-Smythe que tinha saído aos jardins, consciente de que cedo ou tarde poderia lhe reconhecer. até agora tinha se preparado para evitar as confrontações cara a cara e em geral sempre tinha havido um salão cheio de gente entre eles. Parecia, entretanto, que sua sorte acabava de lhe abandonar. Endireitando-se, afastou-se com preguiça do pavilhão e encaminhou seus passos com lentidão para onde eles estavam detidos no centro do caminho. -Tomando o ar noturno? -inquiriu em tom leve. Duvidando imediatamente de seus sentidos ao contemplar as feições aristocráticas de Christopher, o tenente resmungou uma resposta corriqueira. Christopher não perdeu muito tempo com eles. Fez um comentário amável e logo com enganosa indolência começou a caminhar para a casa. Carrancudo, deslizou-se no interior de um salãozinho deserto da parte traseira da mansão. Teria que elaborar um plano alternativo em caso de que JenningsSmythe lhe tivesse reconhecido. O mais importante era que alguém, já fosse Higgins ou ele mesmo, estivesse na costa para subir ao navio a fins de setembro e pudesse fazer chegar o memorando às mãos de Jason em Nova Orleans. Se lhe prendiam, Higgins teria que levá-lo a América do Norte. E se ele, Christopher, não era o bastante hábil ou preparado para convencer a todos de que Jennings-Smythe estava de tudo equivocado, então mereceria que lhe pendurassem, disse-se com cinismo, sem duvidar nem por um momento de sua própria habilidade para impedir o desastre. Seu


raciocínio era correto até esse ponto, mas o que não tinha tomado em consideração era que Jennings-Smythe lhe tinha delatado sem dar-se conta diante de Robert. Este observou a cena com marcado interesse, seguro de que por fim tinha dado com algo que ocasionaria a ruína definitiva de Christopher. Guardou silêncio até que desapareceu seu sobrinho de vista e logo, olhando fixamente o tenente, perguntou com indiferença: - Disse que meu sobrinho é um corsário? Esse tal capitão Sable? por que não lhe comentou algo a respeito? A ideia de que o capitão Sable e o neto do barão Saxon pudessem ser o mesmo homem era tão descabelada que Jennings- Smythe temeu fazer o ridículo e disse em tom de desculpa: - Devo ter me equivocado e me sinto como um verdadeiro parvo. Só foi um truque da luz, já me compreende, porque agora que lhe vi de frente e com plena claridade, caio na conta de que não há nada mais que um parecido superficial. Se tivesse sido qualquer um menos Robert, aquela explicação teria bastado, mas este desejava encontrar algo que pudesse desacreditar ao Christopher, até uma mentira. Já em suas acomodações, Robert repassou o que tinha ouvido e pela primeira vez em meses sentiu um relâmpago de triunfo. Teria preferido investigar a verdade da informação do Jennings-Smythe imediatamente, mas já estava tudo preparado para o traslado a Brighton e não havia tempo suficiente para visitar essa manhã o Ministério da Marinha, ao menos não se desejava acompanhar a Nicole e a sua tia na viagem. Certamente, não tinha intenção de deixar Edward como único acompanhante durante a viagem, especialmente quando estava claro como a água que o primo olhava com cobiça a Nicole. Robert tinha aguardado todo esse tempo para vingar-se e estava disposto a esperar um pouco mais -sobre tudo porque nesse momento em particular para ele era mais importante recuperar a Nicole -, descobrir o que tinha passado entre eles, conseguir que voltasse a lhe sorrir com carinho. Isso e nada mais que isso era muito mais importante que ficar em Londres fazendo averiguações sobre alguma informação desonrosa a respeito de seu sobrinho. Já haveria tempo para isso! Valeria a pena fazer uma visita ao Ministério da Marinha e averiguar o que se sabia do capitão Sable.


QUINTA PARTE VESTÍGIOS DE AMOR

«O cour á é raisons que a raison ne connaît point.» «O coração tem razões que a razão desconhece.» Provérbio francês.

CAPÍTULO XXXII

Brighton não guardava lembranças felizes para Nicole. Tinha sido ali onde seus pais e irmão faleceram no naufrágio do veleiro, e quando um dia Regina e ela passaram diante da elegante mansão Ashford, não pôde reprimir um calafrio de horror e dor que lhe sacudiu o corpo ao recordar aquele dia nefasto. Regina tinha sugerido que poderiam visitar a casa para ver se os Markham tinham efetuado modificações ou a tinham prejudicado em alguma forma durante sua tutoria, mas ela se negou sacudindo com ardor a cabeça. Não acreditava poder suportar caminhar por essa casa e muito menos aparecer naquele balcão onde tinha estado sentada aquele dia terrível olhando com os olhos aumentados pelo espanto como se afundava no mar o reluzente iate branco. O tempo foi aliviando sua dor, mas não podia deixar de associar Brighton com aquela desgraça. Sentia falta terrivelmente da nova lady Saxon, embora Regina fosse a bondade personificada: tinha esquecido, sem dúvida, seu deslize com Robert. Mas Gina não podia substituir a compreensão e doçura de Letitia nem a rudeza sarcástica de lorde Saxon. Além disso, a casa parecia triste e vazia sem os recém casados. Entretanto, Brighton tinha certas vantagens, reconhecia em seu íntimo. Por um lado, podia ouvir as ondas quebrando-se contra o dique e em companhia de Médica encontrava um pouco de consolo e certa distração passeando pela praia enquanto a brisa marinha lhe despenteava os cachos e lhe acariciava as pálidas bochechas. A vida em Brighton era tranquila, apesar da afluência de aristocratas e


gente enriquecida que vinham da cidade nessa época do ano tomando o pequeno povoado por assalto, e Nicole descobria dia a dia que tinha um pouco mais de liberdade e menos restrições que em Londres. Talvez, pensava ironicamente, por fim se acostumou a aquela classe de vida e de agora em diante iria murchando em uma insípida existência sem rebelar-se mais contra as estúpidas limitações impostas pela boa sociedade. Sentada em seu quarto uma tarde em meados de setembro, meditava sobre Robert e a situação tão estranha que existia entre eles. Tolerava sua companhia tanto como a de Edward, mas a frieza de seu trato não parecia incomodar ao Robert tanto como a seu primo, quem continuava cortejando-a, mas que agora era mais propenso a revelar seu verdadeiro caráter, depois de ter compreendido por fim que sua ardente demonstração a noite das bodas não lhe tinha servido de nada e que Nicole não se deixava enganar por seu fingido amor. Além disso, cada vez que ela rechaçava seus convites para dançar ou preferia outras companhias antes que conversar com ele em privado, tendia a zangar-se e mostrar seu desgosto, mas com Robert era diferente. Este aceitava todo seu desprezo com bons modos, sorrindo-lhe com ironia enquanto seus olhos inquiriam com afabilidade o porquê daquela mudança de atitude. Não podia lhe dizer que não confiava nele ou que jamais poderia esquecer que tinha sido o amante de sua mãe, e pior ainda, que tinha traído de maneira tão brutal ao Christopher. Robert nunca a importunava, mas assim como Edward, não retrocedia jamais em seu galanteio, embora mais refinado e sedutor. A primeira vista parecia que Robert tinha tomado o rechaço de Nicole sem sinais de irritação, mas interiormente ardia de ciúmes. Havia tentado surrupiar mais informação de Jennings-Smythe sobre esse tal capitão Sable, mas ele sempre desviava a conversa com algum comentário jocoso burlando-se de si mesmo por seu equívoco. Inteirou-se de algumas coisas mais em bate-papos informais, mas nada que pudesse relacionar Christopher com o corsário norte-americano. Finalmente, Robert decidiu que sua única opção era contratar um investigador particular e em meados da segunda semana de setembro foi isso precisamente o que fez. Em 24 de setembro Simon e Letitia chegaram a Brighton irradiando felicidade. Com sua volta a casa de Kings Road pareceu despertar subitamente de sua letargia e se encheu de risadas alvoroçadas e comentários alegres enquanto amigos e conhecidos iam visitar para felicitar ao casal e lhes dar a boas-vindas a Brighton. O ar de melancolia que tinha envolvido Nicole se dissipou com o retorno do casal e descobriu que agora podia suportar com equanimidade o persistente e cada vez mais fastidioso galanteio de Edward e que até podia sorrir de vez em quando para Robert Saxon. Com firmeza se disse uma e outra vez que esse novo vigor, essa borbulha de excitação que tinha no peito se devia a que lorde Saxon e sua esposa haviam tornado a formar parte da família, mas foi unicamente seu coração ingovernável e turbulento o que reconhecia que esse sentimento poderia ter algo a ver com o fato de que em menos de uma semana voltaria a ver Christopher.


Simon e Letitia tinham advertido imediatamente que já não recebia ao Robert com as mesmas amostras de afeto e cordialidade de tempos atrás e ambos estavam cheios de curiosidade por saber os motivos que tinham impulsionado Nicole a mudar de atitude com ele. Simon, acreditando que era obra de Regina, tinha-a repreendido à primeira oportunidade: - Vamos, Gina, o que disse a Nicole para que evite ao Robert dessa maneira? Adverti-te que deixasse em paz a essa garota, no que se refere ao Robert, eu não lhe poria obstáculos no caminho. E o disse a sério! Não desejo que se case com Robert, mas aprendi a lição e não quero participar de uma confabulação para separá-los. Regina se ergueu quão alta era em atitude desafiante e indignada. - Isso não é justo, Simon! Não sei do que está falando! Pode ter a certeza de que não disse nada a Nicole para que evitasse ao Robert. Não tive por que fazê-lo! desencantou-se de seu filho desde antes das bodas e o teria advertido se tivesse prestado atenção! - Assim não estiveste te intrometendo! - grunhiu depois de um momento. -Me intrometendo! -exclamou Regina-. Vá, jamais faria semelhante coisa! - Não me venha com essa! É uma mulher sem escrúpulos, Gina! E é perfeitamente capaz de mentir com o maior descaramento se te convier! - Mas, ao ver que sua irmã se encolerizava cada vez mais, acrescentou rapidamente-: Bom, já basta de tudo isto! Talvez Letty possa averiguar por que a menina tomou tanta aversão a Robert. Letitia pôde em efeito averiguar o que tinha ocorrido: Nicole se desafogou com ela. Regina tinha ido visitar sua íntima amiga, lady Unton, e Simon estava trancado com seu agente de negócios deixando Letitia e Nicole sozinhas. Estavam as duas sentadas bebendo limonada sob os frondosos ramos de um olmo a um lado da casa quando Nicole, entre hesitações e suspiros, relatou a Letitia tudo o que lhe tinha revelado Higgins. Não tinha pensado contar-lhe a ninguém, mas o carinhoso interesse de Letty a respeito de Robert lhe soltou a língua e o relato brotou de sua alma atormentada. Tudo, sem omitir nada. Lady Saxon, com os pálidos olhos azuis dilatados de assombro e consternação, escutou em silêncio, e seu único comentário quando Nicole se deteve foi: - Oh, Meu Deus! Que barbaridade! -Sim, é certo. Também foi horrível para mim saber que minha mãe foi uma criatura tão depravada. - Baixando a cabeça, disse com a voz estrangulada-: tentei lhe buscar desculpas, tratei de recordá-la como eu acreditava que era, mas é impossível. Tudo no que posso pensar é que não só foi a amante do Robert, mas também do Christopher! -Uma angústia atroz se refletia em seus olhos quando os cravou no semblante compassivo de Letitia e gemeu-: Como pôde! Como pôde Robert compartilhá-la com Christopher! Oh, sei que foi para distrair meu pai, mas o lógico


teria sido que, amando-a Robert como a amava, não quisesse compartilhá-la desse modo. Letitia desviou o olhar e disse com muita cautela: -Talvez Robert não sabia. Nicole ficou olhando-a fixamente. Por fim perguntou, desolada: - Quer dizer que mamãe também traía ao Robert? Que ele acreditava que esses encontros eram arrumados só para servir de pretexto? -Sim, querida, temo que isso é precisamente o que quero dizer. - Letitia apertou a mão de Nicole -. Querida, me escute! Sua mãe era uma mulher mimada. Conheci-a desde menina e sempre desejava ser adorada por todos os homens que lhe apresentavam, jovens ou velhos. Não acredito que em realidade amasse jamais a nenhum deles, mas isso não quer dizer que fosse totalmente malvada e cruel. Oh, querida, o que estou tratando de te explicar é que não era malévola, não fazia com más intenções, simplesmente fazia essas coisas. -Continuou em tom desventurado-: Christopher adoecia de um amor juvenil tão evidente que acredito que lhe resultou impossível resistir a tentação de lhe seduzir! É provável que Robert e ela pensassem lhe usar como escudo, mas foi sua vaidade que a induziu. - Senhora Eggleston! - explodiu Nicole tão escandalizada que até esqueceu seu novo título-. Como pode dizer isso! Está desculpando o que ambos pensavam fazer? Incômoda, retorceu as mãos. - Oh, não! O que tento te esclarecer é que sua mãe era egoísta e imprudente e que usava às pessoas, mas como o faria uma criatura mimada e paparicada. Não pensava no mal que estava fazendo a Christopher. Robert e ela necessitavam um bode expiatório e ele estava à mão. A sua mãe só interessava o que a afetava pessoalmente. Pode entender o que quero dizer? -Acredito que sim. Mas isso não diminui sua culpa nem diminui o que fez. - Oh, não, jamais disse isso! Só estava tratando de te explicar como Annabelle via as coisas. Provavelmente nunca lhe ocorreu que era injusta com seu pai por lhe ser infiel ou que estava traindo ao Robert ao tomar como amante ao Christopher. Ela não pensava nessas coisas. -E Robert? -inquiriu Nicole sem ânimo. -Oh, Meu Deus! -murmurou Letitia com desconsolo-. Não desejo ser cruel, querida minha, mas Robert jamais teria sido conveniente para ti. Era ciumento e malévolo desde menino e devo admitir que nunca simpatizei com ele. Pelo que me contaste, culpo-lhe por tudo o que aconteceu. Provavelmente foi sua ideia utilizar ao Christopher e enviá-lo para fora da Inglaterra. E neste caso não posso dizer que foi algo improvisado nem impulsivo. Robert queria que Christopher morresse e estou segura de que desejava desacreditá-lo e desonrá-lo mais que... -interrompeu-se de repente como se tivesse ido muito longe. Nicole sorriu com melancolia.


- Mas não podemos dizer isso a seu marido. - Por Deus, não! Robert já lhe causou suficientes pesares tal como estão as coisas. Isso já passou, acabou-se; não há nada que possamos fazer por trocá-lo. Só resta esquecer e seguir em frente. - Com os olhos cheios de lágrimas, inclinou-se para frente e disse com absoluta sinceridade -: Querida, não deixe que isto te destrua! Tireo da cabeça e esqueça-o. Nicole lhe deu um sorriso triste e desolado. -Acredito que o farei agora que o discuti com você. Sinto-me mais aliviada, menos confundida e zangada. Possivelmente com o tempo poderei vê-lo com mais objetividade. - Sim, isso, meu amor! Tenta-o! -insistiu lady Saxon com carinho. Nicole descobriu que havia dito a verdade: era como se essa conversa tivesse aliviado seu ressentimento e sua dor. Mas se a dor de Nicole se aliviou com esse bate-papo, lady Saxon estava agora no paroxismo da aflição. A presença de Robert a enchia de ira e sem ser sequer consciente disso, jogava fogo pelos olhos cada vez que ele olhava para Nicole. Aquela revelação a atormentava e lhe causava horror só de pensar no dano atroz que tinha feito Robert a aqueles a quem ela amava. Essa noite, depois da conversa com Nicole, a aflição de Letitia era tão grande que não podia conciliar o sono. De repente viu claro que tinha que fazer algo para enfrentar Robert com o que sabia, mas não via a forma de fazê-lo sem envolver ao Simon de algum jeito. Revolvia-se, preocupada, na cama tratando de não incomodar a seu marido que aparentemente dormia profundamente. Quase deu um salto quando a voz de Simon brotou na escuridão: - Letty! O que acontece? Estiveste inquieta e te remexendo na cama há horas! - Não é nada, Simon. Tive uma terrível dor de cabeça toda a noite e não posso dormir. Esperava não perturbar seu sono. - A voz lhe tremeu ligeiramente. Simon percebeu esse ligeiro tremor e a estreitou entre seus braços. -O que acontece, querida, por que está tão afligida? - Resolvida a lhe ocultar a verdade, fez um comentário corriqueiro, mas Simon não quis dar-se por satisfeito e com uma intuição assombrosa perguntou: -É Robert? Percebi que te mostraste tensa em sua companhia desde ontem. Letitia ficou rígida e consciente disso imediatamente, Simon exclamou em tom peremptório: -Me conte o que fez! E Letty, não o evite com desculpas como uma dor de cabeça! Conheço-te muito bem e é óbvio que Robert fez algo que te alterou. Agora me diga o que é e nada de mentiras. Letitia vacilou um momento mais, mas Simon a beijou com ternura na bochecha e suplicou:


- Por favor, amor, diga-me. Que mais podia fazer salvo contar-lhe tudo depois disso? Quando concluiu, Simon guardou silêncio por alguns segundos. O coração de Letitia sofria por ele. Logo a afastou um pouco e deixou escapar um suspiro de angústia. - Todo este tempo temia que fosse algo assim -disse por fim, pesaroso-. Suspeitava-o, mas não queria acreditá-lo. Por quê? Por que, Letty, Robert é assim? Sempre tratei de ser justo com ele e Deus sabe que em todo momento lhe quis e protegi. Tratar a um menino dessa maneira! Seu único sobrinho! Lhe vender a uma morte segura! -Atormentado, explodiu-: Asseguro-lhe isso, Letty, não acredito que possa suportar sua presença nunca mais. Esta vez não posso lhe perdoar. - Simon, Simon. Não te torture desta maneira. Por favor, tente dormir. Recorda que aconteceu faz muito tempo. Distraidamente, ele arrumou os lençóis com movimentos lentos e penosos e Letitia lhe compadeceu com toda sua alma. Agora era ela quem lhe embalava entre seus braços amorosos e lhe beijava a têmpora com infinita ternura. - Simon, não permita que te consuma a dor. Robert é como é e não pode te culpar disso. Te conforme sabendo no fundo de seu coração que sempre fez todo o possível por ele. É um homem feito e já o era quando Annabelle e ele planejaram seus atos criminais. Não é tua culpa; ensinou-lhe o que pôde e se ele preferiu não aprender, não há nada que você possa fazer a respeito. Esquece-o -suplicou-lhe. - Tentarei, Letty. Tentarei. Mas duvido que possa ser tão indulgente como você ou como parece ser Christopher. - Não acredito que lhe tenha perdoado, Simon. Algumas vezes penso que só está esperando que cometa um engano como um tigre que espreita a sua presa revolveu-se Letitia, inquieta. Em Londres, Christopher parecia em efeito um tigre, um tigre enjaulado. Não lhe resultava fácil esperar, e a ideia de que Jennings-Smythe pudesse causar alguma calamidade a qualquer momento não melhorava em nada seu mau humor. Antecipando-se ao jogo, Christopher espalhou que partiria de Londres e iria a Brighton. Não queria precisar mais seus planos, comentando casualmente que talvez efetuaria algumas viagens ao continente. Tinha saldado suas dívidas, informado já ao caseiro a data de sua partida e virtualmente fechado suas malas. O memorando se encontrava em uma bolsa de couro muito fino presa a sua cintura. Estava preparado. Os dias de setembro pareciam não passar nunca. Ainda não tinha decidido com exatidão o que diria a seu avô e isso lhe atormentava com crescente e dolorosa frequência. Não se envergonhava do fato, mas seria Simon um homem pormenorizado se soubesse? Mais que nunca, Christopher tinha consciência do odiosa e degradante que era sua posição, mas o pior momento de todos foi em 28 de setembro.


Levantou-se tarde depois de uma noite de farra com o capitão Buckley e o tenente Kettlescope, como uma espécie de despedida de Londres. Doía-lhe terrivelmente a cabeça e tinha um gosto ruim na boca. Acabava de beber a quarta taça de café negro muito forte e amargo quando entrou Higgins e pôs o London Teme sobre a mesa sob seu nariz. -Incendiaram Washington! Com uma sensação de incredulidade crescente, Christopher leu o título: Washington INCENDIADA! Pálido como a morte, devorou o artigo. O capitão Harry Smith acabava de retornar da América do Norte. Fez a viagem em um tempo extraordinariamente curto -vinte e um dias- e com ele chegaram os despachos que informavam sobre a captura e incêndio de Washington. Durante a semana de 19 de agosto, os britânicos tinham feito retroceder as linhas norteamericanas expulsando-as da capital e tinham capturado a cidade, saqueando-a a vontade. O general de divisão Robert Ross tinha ordenado em pessoa a destruição da Casa Branca, o Capitólio, o Ministério de Fazenda, o da Guerra e o Arquivo Nacional. Christopher, cada vez mais furioso, continuou lendo a respeito dos terríveis estragos que tinham feito as tropas britânicas invasoras na capital norte-americana e os remorsos que pudesse ter tido se desvaneceram. Com a morte na alma, fechou o jornal dando um golpe sobre a mesa enquanto exclamava com raiva: -Juro por Deus, lamentarão ter cometido esta infâmia! -Contendo apenas a ira, prometeu solenemente-: Que venham a Nova Orleans e lhes ensinaremos que ninguém ataca nossa capital impunemente! Christopher e Higgins saíram de Londres cedo à manhã seguinte e chegaram a Brighton pouco depois do meio-dia. Simon estava encantado de ver seu neto e não tentou ocultá-lo. - Céus, moço, como me alegro de verte! - troou quando Christopher entrou na biblioteca onde Simon estava folheando distraidamente as últimas revistas de hípica. -O mesmo digo, senhor! Posso ver que a vida conjugal é muito amena e saudável. Lhe vê muito feliz e satisfeito, e lady Saxon transborda de felicidade! -Não é verdade? -comentou o ancião com prazer-. Desfrutamos muito de nossa visita a Beddington's Corner e decidimos retornar ali em primeiro de outubro. Gina pode levar Nicole para ver os lugares de interesse aqui na cidade se a garota não quiser enterrar-se no campo tão cedo. Christopher sorriu evasivamente e se perguntou se não deveria aproveitar esse inesperado momento íntimo com seu avô para lhe comunicar que ao dia seguinte de noite partiria da Inglaterra. Procurou as palavras em vão pois se entupiam em sua garganta. Não podia, a poucos minutos de sua chegada, dizer ao ancião que voltaria a estar ausente por um período indeterminável. Deliberadamente deixou de lado essa


tarefa desagradável e em troca se acomodou na poltrona e saboreou esses preciosos minutos a sós com seu avô. Simon também tinha estado lutando por encontrar as palavras adequadas, mas de natureza muito diferente. Desejava com toda a alma dizer a seu neto que estava a par de tudo que tinha acontecido durante esses últimos anos, mas por alguma razão desconhecida lhe resultou impossível trazer o tema a tona. Obviamente, Christopher não tinha querido que ele soubesse e Simon estava convencido de que seu neto não gostaria de saber que a sórdida história tinha chegado a seus ouvidos através das mulheres da família. Por um segundo Simon franziu o cenho ao compreender de súbito que o passado poderia ser um obstáculo intransponível entre Nicole e Christopher e lhe endureceu ainda mais o coração contra seu filho. Robert não só tinha estado a ponto de ocasionar a morte a seu neto, como também parecia que sua perfídia e iniquidade poderiam destruir qualquer esperança de felicidade que albergassem os dois jovens. «Ah, maldição!», pensou com chateio. - Acontece algo, senhor? - perguntou Christopher observando o gesto de preocupação de seu avô. - Hã? - grunhiu Simon dominando-se rapidamente -. Não, só estava sonhando acordado. - sorrindo com aparente acanhamento, acrescentou-: Encontrome divagando nos momentos menos apropriados. Deve ser a idade. Daqui a pouco estarei completamente senil! - É muito difícil! - refutou Christopher, não muito satisfeito com o pretexto de Simon, mas deixando-o passar. Se fosse algo importante, averiguaria-o logo. Nicole não se inteirou da chegada de Christopher até que se reuniu com as pessoas que tinha convidado Regina para tomar o chá. Ao lhe ver inesperadamente lhe deu um tombo no coração, mas se esforçou por sorrir com amabilidade quando ele se aproximou. - Bom, está muito bonita. Brighton te fez maravilhas - brincou ele enquanto seu olhar apreciava o encantador vestido que usava e o brilho de seus olhos. -Brighton? -exclamou ela com um sorriso radiante-. Oh, eu o atribuo a estar longe de ti! Escureceram-se os olhos de Christopher e por um segundo angustiante ela acreditou que ele se desforraria. Mas Christopher se limitou a encolher os ombros. -Segue tendo a mesma língua de sempre, Nick -comentou com secura e logo, sem mais conversa, afastou-se dali. Nesse mesmo instante chegava Edward e Nicole perdeu de vista ao Christopher ao tratar de ignorar cortesmente seu primo. Edward Markham estava desesperado, e mais tarde, ao passear por seu quarto, repassou mentalmente as pavorosas dívidas que tinha e chegou à conclusão de que estava sem recursos financeiros de nenhuma classe. Enquanto ponderava sua situação uma e outra vez, só uma coisa ficou claro: devia casar-se com uma herdeira. E a única com a qual queria casar-se rechaçava com desdém seus galanteios. «Maldita


Nicole», vaiou, furioso. Antes do incidente no pavilhão tinha estado muito seguro de que ganhar a mão de sua prima seria uma tarefa facilíssima, mas agora era óbvio que se equivocou ao julgá-la. Amaldiçoou a Nicole uma vez mais, mas amaldiçoou mais a insensatez que lhe levou a aquela desafortunada partida de naipes a noite anterior. Tinha estado seguro de que por fim a sorte lhe acompanharia e que poderia recuperar suficiente dinheiro para manter a distancia os credores inoportunos. Em troca, ao levantar-se da mesa de jogo nas primeiras horas da madrugada, estava endividado em vários milhares de libras mais. Era impossível ignorar a dívida. Precipitaria-se à ruína se não a pagasse antes de finalizar a semana. Em realidade, até lhe tinha ocorrido assassinar Nicole, tão grande era seu ressentimento contra ela, mas ao avaliar sua situação compreendeu que lhe seria mais fácil desposá-la: forçá-la a casar-se com ele. Uma vez tomada a decisão, dedicou-se a aperfeiçoar um plano precipitado e temerário. O aluguel de uma carruagem com quatro cavalos lhe custaria até o último penique que restava, mas estava disposto a arriscar-se levando em conta a fortuna que estava em jogo. Como obter que Nicole subisse à carruagem? Era difícil raptá-la na rua em pleno dia! Ela não aceitaria encontrar-se com ele em nenhum lugar adequado a seus propósitos, mas e com outra pessoa? Mas, quem? E por que um encontro secreto? Queimou os miolos com desespero, e depois de várias horas não tinha chegado a solução alguma. Nicole não iria ao encontro de qualquer um e por certo menos ainda de forma clandestina. Contudo, ele tinha que fazer com que fosse a algum lugar solitário. Lhe ocorriam dúzias de lugares adequados a seus propósitos, mas a pergunta Espinosa ainda seguia em pé: como demônios fazer com que Nicole fosse ali sozinha. Finalmente, deu com uma estratagema bastante engenhosa. Nicole tinha o costume de passear pelo parque todas as tardes acompanhada de uma das criadas da casa de lorde Saxon. Tudo o que teria que fazer era sair a seu encontro quando ela empreendesse a volta à mansão, lhe comunicar a mensagem desesperado de que lorde Saxon tinha sofrido um ataque fulminante e mortal e então, sem lhe dar tempo para pensar, subiria-a à carruagem sem a criada que a acompanhava. No momento em que Nicole começasse a perguntar por que tinha ao seu dispor uma carruagem com quatro cavalos e caísse na conta de que iam em direção a Kings Road, seria muito tarde. Sentia-se bastante agradado com esta última estratégia. A única falha que podia prever era a incerteza de que Nicole estivesse sozinha com sua criada. Teria que correr o risco... isso e a remota possibilidade de que por alguma razão desconhecida sua prima não fosse dar seu passeio habitual pelo parque. Mas a sorte não podia seguir sendo tão mesquinha com ele.


CAPITULO XXXIII

Christopher encarou seu último dia na Inglaterra com excitação e temor ao mesmo tempo. O que mais temia era ter que dizer ao Simon que partiria para a América do Norte e a ideia da despedida lhe angustiava até o insuportável. Não sabia como lhe explicaria que em algum momento entre as horas do entardecer e a meianoite embarcaria de retorno a sua terra de adoção. O ancião já estava se espraiando a respeito dos deliciosos e felizes natais que passariam esse ano em Beddington's Corner. Até tinha deixado cair indiretas de que talvez passaria a mansão de Londres ao poder de Christopher, já que Letitia e ele preferiam a paz da aldeia onde se encontrava a casa senhorial. De mau humor, Christopher vagava pela casa de Brighton. Uma vez até riu a gargalhadas de si mesmo. Pensar que ele, como qualquer jovenzinho, temia enfrentarse a seu avô nessa entrevista iminente e imperiosa lhe resultava ridículo. Era indubitável que a Inglaterra lhe tinha mudado, pensou com não pouca ironia. Descobriu que se tornou muito civilizado, e de algum modo menos homem. Por que outro motivo tinha esses esporádicos remorsos de consciência e essa aversão a partir, essa aflição tão terrível por ter que despedir-se de seu avô? Quanto a Nicole... De momento esta estava lendo na biblioteca, mas como era comum ultimamente, cada vez que a deixavam sozinha seus pensamentos voavam ao Christopher. Suspirando com resignação fechou o livro. Do que servia pensar nele? Para que torturar-se por alguém a quem não podia mudar? De repente não suportou mais a solidão e se dirigiu à porta. Quase tinha chegado quando esta se abriu de repente, e por pouco não lhe bateu. - Céus, Nicole, não me avisaram que estava aqui! Poderia haver te machucado ao abrir a porta - explodiu Christopher, exasperado, parando em seco. - E como ia saber que estava a ponto de entrar como um touro com uma vespa na orelha? - replicou Nicole, irada. Ambos se estudaram com cautela. Logo Christopher lhe sorriu com dissimulação antes de soltar uma gargalhada. - Em paz! Guarda suas presas afiadas. - Você começou! - respondeu à defensiva, furiosa, consciente de sua presença masculina. Pareceu-lhe que seu rosto estava mais magro, mais robusto e duro e que tinha um não sei o que, que ela não podia definir, uma auréola de


temeridade imprudente que lhe fez perguntar-se o que estava fazendo exatamente em Brighton. Se preparou para perguntar com calma: - Quanto tempo passará conosco? Christopher vacilou um momento, logo encolheu os ombros e respondeu com desenvoltura: - Temo-me que não ficarei aqui absolutamente. - Ante o olhar de assombro da jovem, disse lentamente-: Higgins e eu passaremos esta noite em minha casa perto de Rottingdean. –Sorrindo-lhe com tranquilidade, terminou em tom leve-: E quanto a amanhã, quem sabe onde estaremos. - Foi o mais perto da verdade que pôde chegar. Mas Nicole lhe conhecia muito bem e uma horrível premonição lhe gelou o sangue. Lhe cravando o olhar nos olhos dourados, perguntou com voz tensa: -Partirão, verdade? Vão retornar a Louisiana. Christopher respirou fundo como se tivesse recebido um golpe mortal, mas seu semblante permaneceu impassível. -Sim. Sim, vamos, Nick. - A admissão de sua viagem lhe chocou. Não tinha pensado dizer a Nicole sob nenhum conceito, e muito menos antes de comunicar a seu avô. Entretanto, quando ela o adivinhou não pôde lhe mentir. «Pergunto-me se isto é um adiantamento», pensou com cinismo «já que a incapacidade de mentir se considera uma virtude». Uma terrível sensação de perda invadiu todo o corpo da jovem e ficou paralisada. Ele partia. Christopher não estaria mais ali para açulá-la e deixá-la: louca de paixão e de fúria. Deveria alegrar-se, disse-se com firmeza. O orgulho lhe esticou as costas e replicou com desinteresse: - Vá, que boa notícia! - Com os grandes olhos topázio inexpressivos atrás das longas pestanas negras e um sorriso na boca generosa, continuou em tom forçadamente alegre-: Deve estar encantado de te liberar de mim por fim. Nunca te agradeci tudo o que tem feito por mim e espero que agora que nossos caminhos vão se separar me permitirá... -Te cale, Nick! - explodiu Christopher com tensão enquanto um músculo se crispava em sua bochecha. Nicole meneou a cabeça e seus escuros cachos de fogo dançaram ao redor de seus ombros quando continuou com obstinação: - Não! Deve me permitir isso. Devo te dizer... Christopher a calou da única maneira que podia fazê-lo: tomando-a rudemente nos braços com mãos firmes a atraiu com brutalidade contra seu corpo e lhe cobriu a boca com seus lábios. Beijou-a por um longo tempo. Foi um assalto longo, voraz e apaixonado que a deixou trêmula e débil entre aqueles braços poderosos que a rodeavam deixando-a sem fôlego. Em seguida, lhe apoiando a cabeça contra seu ombro enquanto sua boca se movia com dolorosa ternura sobre os cachos suaves da moça, disse com voz pastosa:


- Não diga mais nada. As palavras não significam muito para ti e para mim. Dizemos coisas que não queremos nem sentimos e muito frequentemente deixamos que nosso mau gênio nos domine. Algum dia, talvez, poderemos ser capazes de falar como seres humanos sensatos, mas que Deus me perdoe, porque no concernente a ti, não sou um ser racional. Nicole ergueu de repente a cabeça e o olhou nos olhos, assombrada de suas palavras. Abriu a boca, mas não saiu nem um só som e Christopher, impulsionado tanto pela ideia de que ao dia seguinte poria um oceano entre eles como pelo corpo dócil e em atitude de entrega, não pôde resistir a saborear uma vez mais a doçura de sua boca. Os lábios de Nicole se separaram docemente e ante aquela entrega tão inesperada escapou de seu peito uma afogada maldição. Christopher estreitou ainda mais esse corpinho frágil contra seu peito; suas mãos lhe acariciaram as costas e os quadris fazendo com que Nicole compreendesse com que força a desejava. Mas então, ao recordar contra sua vontade onde se encontravam, afastou-a com suavidade e comentou com um sorriso irônico: - É mais potente e eficaz que o vinho, Nick. Faz com que um homem perca a cabeça e faça coisas que logo lamente. Nicole, naturalmente, interpretou mal o que ele estava dizendo e ficou tensa, mas Christopher não lhe deu oportunidade de responder; em troca insistiu para que sentasse. Depois de sentá-la no centro de um elegante sofá de veludo cor cervo, ajeitou-se com descuido sobre um dos braços. Lançando a Nicole um olhar estranho de desolado arrependimento e ao mesmo tempo de firme determinação, um olhar zombador e arrogante, começou a falar muito devagar: - Nem sempre te tratei como merecia. Não me desculparei, entretanto, pelo que fiz. - Olhando-a com malícia, confessou descaradamente -: Que o céu me ajude, mas dadas iguais circunstâncias, é provável que fizesse o mesmo. Desejava-te então, desejo-te agora, e devo admitir que nenhuma outra mulher me teve tão enredado e confundido como você. Me acredite, coquete descarada, alegrarei-me de te perder de vista! Suas palavras desconsideradas foram como uma bofetada na cara de Nicole. Sempre tinha sabido que lhe faria feliz não vê-la mais, mas a deixava pasmada que pudesse admiti-lo com tanta facilidade. Brincou com a seda do vestido para ocultar o tremor de suas mãos e olhou para outro lado para que ele não visse a dor refletida em seus olhos, temendo delatar quão fundo a feria sua indiferença. Christopher estava lhe observando o semblante com atenção, mas as pestanas escuras não deixavam ver a expressão de seus olhos dourados. Era dolorosamente consciente de que estava levando mal a situação, mas se sentia incapaz de mudar. Sua habitual soltura e facilidade de palavra lhe abandonavam por completo diante de Nicole. Dizia o que não devia, fazia o que não devia e embora fosse quão último desejasse neste mundo, sempre parecia provocar uma terrível disputa. Tentar


responder com frivolidade não pareceu tampouco ser a resposta a julgar pela rigidez de suas feições. Nicole, alheia ao olhar penetrante e insistente de Christopher, sabia que devia fazer alguma observação informal e desprovida de seriedade, uma réplica graciosa, mas as palavras entupiram na garganta. Finalmente, ressurgiu seu orgulho e se dominou. Com um radiante sorriso, disse: - Bem, suponho que te confundir, como diz que tenho feito, deve ser uma espécie de vitória para mim! -Maldição, Nicole! Não estamos em guerra! -grunhiu Christopher desejando de parte dela algo mais que um comentário fácil e frívolo, embora não muito seguro do que realmente queria e procurava. Mas ela, perdida em sua própria e amarga batalha contra seu coração, não percebeu a curiosa nota de súplica da voz de Christopher; tudo o que registrava sua mente era a ira apenas oculta que refletia seu rosto. Com amarga resignação soube por que jamais poderia haver outra coisa que ira e recriminações entre eles: por culpa de sua mãe. As náuseas lhe revolviam o estômago ao pensar na traição brutal que tinha sofrido ele à mãos de sua mãe. Podia lhe culpar por odiá-la? Por feri-la? Com resignação disse então: - Oh, Christopher! Basta já de mentiras entre nós! Sei o que te aconteceu faz anos e sei por que me odeia. Diz que não estamos em guerra, mas recorde. Recuperou um pouco seus brios e continuou com paixão -: Sempre estaremos em guerra! Minha mãe se encarregou disso! Eu poderia tentar fazer lhe esquecer isso durante milhares de anos, poderia deixar que me pisoteasse no pó, mas jamais acalmaria todo o ódio que acumulaste. Christopher ficou imóvel, tão imóvel como uma estátua de gelo com as grossas sobrancelhas negras unidas em um cenho sombrio sobre seus olhos entrecerrados. - Exatamente, do que está falando? -perguntou com frieza. Nicole ficou em pé de um salto e com os punhos apertados aos lados do corpo, afirmou com franqueza e sem reservas: -Higgins me contou tudo a respeito de minha mãe e de ti! A respeito de como Robert e ela lhe enganaram e como ele te vendeu a uma patrulha marítima. Christopher, dominado por uma fúria glacial como nunca lhe tinha visto antes, amaldiçoou com fluidez desconcertante. Os olhos dourados brilharam perigosamente e sua boca se reduziu a uma linha dura em seu semblante ao exclamar com cólera incontrolável: -E é por isso que é tão pormenorizada? Por isso é que está tão disposta a deixar que te beije? Porque essa velha história despertou sua simpatia? Bem, me economize isso! Levantou-se de um salto e lhe jogando um olhar de supremo desagrado, murmurou com ferocidade:


-Esquece o que aconteceu no passado! Eu já o fiz! E com toda segurança não necessito à filha de Annabelle choramingando por mim como se eu fosse um gatinho afogado! -Choramingando! -repetiu Nicole. Todo remorso, todo pesar pelas ações de sua mãe, até sua própria angústia pela partida de Christopher se desvaneceram no ar indo às nuvens. Com o rosto pálido e os grandes olhos escuros lançando faíscas de fogo, deu com rapidez um passo adiante e antes que ele pudesse adivinhar suas intenções lhe deu uma sonora bofetada -. Não é mais que um estúpido! - gritou, zangada e com lágrimas de raiva lhe brilhando nos olhos. Iracundo, puxou-a pelos ombros aprisionando-a com deliberada brutalidade enquanto ela lutava por soltar-se. - Aí, acredito -disse ele, tenso- é onde entro eu. E como parece que nos dissemos todo o necessário, me despeço agora de ti. Com sorte, não teremos que voltar a nos ver de novo antes que vá. Tenha a plena segurança de que cuidarei muito bem de estar fora de seu caminho! Apenas consciente de que estava se escondendo detrás de sua cólera, Nicole, em um arranque de ira cega e surda, lançou a Christopher um olhar de desesperança e desafio mesclados. -Faça isso! -exclamou com beligerância-. Juro por Deus, benzerei o dia que zarpe! Nunca é cedo demais para me satisfazer! Um fulgor estranho relampejou nos olhos de Christopher enquanto lhe estudava as feições tormentosas por um momento; quase, pensou ela com estranheza, como se as estivesse memorizando; depois os lábios aristocráticos de Christopher se torceram em uma careta zombadora e disse com frieza: -Esta é a Nick que lembro. E aqui há algo mais para que você me recorde! Atraindo-a de repente entre seus braços e capturando possessivamente os lábios apenas entreabertos, apertou seu corpo contra o dele. Seus lábios abrasavam os dela como uma chama, lhe ordenando, lhe exigindo que respondesse a aquela deliberada incitação desumana a seus sentidos. Nicole lutou cega e desesperadamente contra a frouxidão insidiosa, contra as labaredas de desejo imperioso e apaixonado que lhe lambiam o corpo. A boca de Christopher não lhe dava trégua; seus lábios a impeliam a render-se, a ceder ao desejo físico que corria por suas veias. Inconscientemente, amoldou suas formas a aquele corpo duro e musculoso, aderindose mais a ele. «Maldito seja!», pensou com fúria com uma parte de sua mente. Christopher estava liberando sua própria batalha; rígido de desejo mal contido, ansiava intoleravelmente a Nicole por essa única e última vez; só mais uma vez poderia perder-se nessa carne, poderia senti-la estremecer-se debaixo de seu corpo, poderia ter na boca o sabor incomparável dessa pele macia e sedosa e cheirar seu perfume peculiar e delicioso. «Ai, Jesus!, por que ela de entre todas as mulheres? Não tinha aprendido já que uma Ashford era uma bela feiticeira com poderes sobrenaturais e misteriosos, uma criatura de luxúria e mentiras, de paixão e traição?»


Frenético agora por romper a tênue teia de seda que lhe envolvia, Christopher separou bruscamente a boca dos lábios de Nicole e com um tranco a separou de seu lado. Respirava com dificuldade, tinha os olhos nublados pelo desejo, mas sua voz soou fria e remota ao falar. -Acredito que ambos teremos algo que recordar um do outro, Nick, queiramos ou não. –Virou-se, mas então, como se recordasse algo, deteve-se em seco e a olhou por cima do ombro-. Ainda não fiz planos definitivos para minha partida e não disse nada a meu avô. Apreciaria que não dissesse nenhuma palavra a ninguém até que eu o tenha comunicado em pessoa. Nicole não pôde suportar lhe olhar à cara, temerosa de suas próprias emoções. Assentiu, aturdida, concentrando-se em reprimir as lágrimas que pugnavam por rodar por suas bochechas. Incapaz de resistir, Christopher a olhou longamente pela última vez selando em algum recôndito lugar do coração e da mente o belo quadro que se apresentava a seus olhos. Quase como um faminto a devorou com os olhos assimilando as feições perfeitas, o arbusto de escuros cachos chamejantes, os grandes olhos rasgados e separados sob as sobrancelhas arqueadas e brilhantes, a boca voluntariosa e apaixonadamente carnuda e sensual e esse corpo alto e esbelto de admiráveis forma. «OH, Deus!», pensou com uma dor dilaceradora na alma, «por que tem que terminar assim?» Jogou-lhe um último olhar e sem outra palavra, encaminhou-se à porta a grandes pernadas e saiu da sala. Com o som da portada retumbando nos ouvidos, Nicole se deixou cair com lentidão no sofá. Foi-se, pensou estupidamente. Não, não era verdade, argumentou febril, faltavam alguns dias ainda. Alguns dias nos quais teria que atuar de maneira normal, sorrir, rir e fingir que não estava morrendo por dentro. Angustiada, fechou os olhos com força meditando sobre a amarga fachada que teria que apresentar no futuro. «Farei-o. Posso obtê-lo! E algum dia lhe esquecerei. Farei-o! Tenho que fazêlo.» Impulsionado por diferentes emoções que as que acossavam a Nicole, Robert Saxon tinha estado investigando por toda Londres em busca desse escorregadio capitão Sable. Averiguou que em efeito existia um capitão Sable, que era um corsário norte-americano e que sua cabeça tinha preço. Mas além do comentário de JenningsSmythe, Robert não tinha nada no que apoiar-se para continuar. Não lhe cabia dúvida de que Christopher era esse corsário e desejava jogar essa informação à cara de Simon. Encarregaria-se de que todos conhecessem a verdade, de que todos soubessem de uma vez por todas a classe de patife que era realmente Christopher. Robert visitou a casa essa tarde para falar com Nicole com a esperança de poder induzi-la a aceitar dar um curto passeio pelo campo. O fato de que fossem quase as cinco quando se aproximava da casa de Kings Road não lhe preocupava absolutamente. Não anoiteceria até quase as sete, e devolveria a Nicole à mansão muito antes disso.


Mas sofreu uma desilusão. Nicole, lhe informaram, tinha ido caminhar pelo parque e não retornaria até dentro de meia hora. Sem desanimar-se, estava a ponto de ir em sua busca, decidido a convencê-la de que lhe acompanhasse, quando Simon lhe falou. - Robert, eu gostaria de ter umas palavras contigo, se não te importar! ordenou-lhe. - Tem que ser neste preciso momento? Ia em busca de Nicole - respondeu lhe olhando com irritação. - Ela pode esperar - replicou Simon, irritado. -Tenho que te dizer algo e quero que seja agora! Robert encolheu os ombros e seguiu seu pai ao gabinete, uma sala pequena e agradável com painéis de carvalho nas paredes. Um armário de ébano com incrustações de exóticos desenhos dava um toque oriental ao aposento, mas o escritório de arce encaracolado atrás do qual se sentava Simon era de puro estilo inglês. Robert, impaciente por partir, ficou de pé no centro da sala com as luvas e o chapéu de asa estreita em uma mão. - Bem, do que se trata? - perguntou com irritação -. Não tenho muito tempo. -Sente-se -disse tranquilamente Simon com olhos frios e desdenhosos, lhe assinalando uma cadeira próxima. Com certa reticência, Robert obedeceu, mas o estranho tom de seu pai lhe alertou de que algo não andava bem. Lorde Saxon tinha passado em agonia os dois dias desde que Letitia lhe contou o acontecido entre seu filho e seu neto anos atrás. Tinha amado à ovelha negra da família apesar das muitas decepções ao longo dos anos, mas não podia perdoar o que fez a Christopher. Quando o primeiro sentimento de horror e repugnância se desvaneceu, acreditou que o enterraria no esquecimento; que embora seu afeto pelo Robert jamais seria o mesmo, poderia, em certo modo, continuar lhe vendo com um pouco de carinho. Mas depois de duas noites de insônia, atormentado pelo que tinha feito aquele filho de sua carne, soube que não era verdade. Todo o amor que albergasse por ele tinha morrido e acreditou que era não só justo, mas também correto lhe informar de por que não seria nunca bem recebido em seu lar. Era a decisão mais difícil e dura de sua vida, mas ao fim teve que reconhecer que Robert era um homem perverso e vil e que ele jamais poderia mudar isso. Não cabia ignorá-lo, nem tampouco tolerar as ações desprezíveis de seu filho. Tinha sido um gole penoso e amargo mas agora, chegado o momento decisivo, descobria que já nada lhe comovia. Até temendo esse instante, com apreensão de não ser capaz de fazê-lo, soube que não era assim. Com semblante frio e pétreo se dirigiu a seu filho sem nenhuma emoção: - Esta será a última vez que entrará em minha casa, em qualquer de minhas casas. Tolerei-te muitíssimas coisas ao longo dos anos, sofri um escândalo atrás de outro por ti; pago suas dívidas, intercedi em inumeráveis ocasiões. Mas acabou. Foi muito longe, Robert, com o que fez ao Christopher. Que Deus me perdoe, mas eu não


posso te perdoar por isso. Já era bastante terrível que Annabelle Ashford e você lhe usassem para ocultar suas relações adúlteras, mas lhe vender! Lhe vender para que fosse a uma morte certa! Isso não o posso tolerar! -quebrou-se então o formidável domínio que tinha exercido sobre suas emoções e quase suplicando, perguntou-: Por que, Robert? Por que, no nome de Deus? Era um jovem tão bonito e alegre, um verdadeiro gozo para mim. Ele não te fez nenhum mal. Asseguro-lhe isso, jamais chegarei a entender como pôde havê-lo feito. -Simon fez uma pausa. Seu rosto parecia ter envelhecido em um instante e refletia toda a tristeza que alagava sua alma -. Poderia ter sido a causa de sua morte. Não tem nenhum pingo de remorsos? Robert empalideceu assim que ouviu as primeiras palavras de seu pai. Seus piores temores se confirmavam finalmente: Christopher tinha posto a seu próprio pai contra ele. Uma onda de rancor se abateu sobre ele e de péssimo humor replicou: - Não lhe fez nenhum mal. Pode você vê-lo por si mesmo, ele se beneficiou pelo acontecido. Simon lhe olhou sem poder acreditar no que ouvia. Um estremecimento de repugnância lhe sacudiu o corpo ao compreender que Robert não via nenhum mal no que tinha feito. Uma sensação de impotência correu por suas veias e admitiu com cansaço: -Sim, parece que se beneficiou. Mas não era isso o que tinha em mente, verdade? - Conhecendo a resposta e enfastiado da cena, disse asperamente -: Adeus, Robert. Agradeço a Deus que, apesar de todas as penúrias que suportou, Christopher tenha se convertido em um jovem tão magnífico. Ao menos posso me orgulhar de um neto, se não de um filho. Robert ficou de pé de um salto, dominado pela sensação de injustiça no trato, e decidiu romper até a última barreira de contenção. Com um olhar feroz nos olhos, gritou: - Equivoca-se! Você acredita que é maravilhoso. Já! Não é mais que um pirata comum. Um patife dos mares procurado por nosso almirantado por seus crimes contra nossos próprios navios. Pergunte a seu prezado Christopher sobre o capitão Sable! Lhe pergunte! Já verá. Já verá que não é o ser angélico que você acredita. É um maldito pirata! -Silêncio! -troou Simon com o semblante distorcido pela fúria -. Está mentindo, lançando calúnias em seu contrário para te desculpar. Não o tolerarei! Saia desta casa neste mesmo instante! Neste instante, disse, ou te arrancarei com minhas próprias mãos essa língua mentirosa da garganta! além de toda atitude racional, Robert colocou ambas as mãos sobre o escritório e adiantando o torso pôs a cara diante da de Simon para seguir destrambelhando: -Não é justo! É a ele a quem deve tratar assim. É um pirata! O tenente Jennings-Smythe lhe reconheceu. - Inventando com frenesi a história enquanto ia


falando, continuou acaloradamente-: É verdade! Ele me disse isso! Se não acredita em mim, pergunte-o! Já verá! Simon lhe contemplou por mais de um minuto em silêncio. Robert parecia tão seguro que lhe fez vacilar. Com certo assombro reconheceu que suas acusações não lhe perturbavam nem um pouco. Era muito factível que Christopher fosse um pirata, mas isso tinha pouca importância para o Simon. Acaso não tinham pontuado de tal a sir Francis Drake? Entretanto, como uma última concessão a seu filho considerou que devia falar com o Christopher. - Muito bem, farei-o -admitiu em tom sereno-. Mas já seja verdade ou mentira, não muda em nada a situação entre nós. Uma vez que tenha falado com ele, abandonará esta casa e me economizará o duvidoso prazer de voltar a verte em toda minha vida. - Levantando da poltrona, Simon saiu a toda pressa do gabinete, resolvido a pôr ponto final a esse penoso assunto o antes possível. Cheio de rancor e exultante de regozijo perverso, com um sorriso de satisfação lhe curvando os lábios, Robert voltou a afundar-se na poltrona. Agora, que Christopher se virasse para sair daquela, pensou com malevolência. Talvez lhe voltassem as costas e lhe proibissem pisar nas casas de seu pai, mas Christopher compartilharia a mesma sorte! Simon, negando-se a mandar a um dos serventes chamar o Christopher a sua presença, ao fim de uma curta busca deu com ele em seu quarto. Quando Simon entrou, Christopher estava comodamente sentado sobre a esquina de uma mesa de mogno observando Higgins enquanto este lustrava um par de botas adornadas com borlas. Ante a entrada inoportuna de seu avô, o jovem ficou de pé imediatamente, alerta e cauteloso ao mesmo tempo. Lorde Saxon jogou um olhar feroz ao Higgins e com sua acostumada acritude e mau gênio, ordenou: - Fora! Quero falar quatro palavras com meu neto. Higgins deu uma olhada ao Christopher e ao ver o leve sinal de assentimento de sua cabeça, inclinou-se e saiu. -Era necessário lhe falar com tanta rudeza? Tenho em muito alta estima ao Higgins, senhor - inquiriu. - Ora! Não trate de me evitar com tolices. O que tenho que dizer é muito privado e pessoal e não quero que ninguém nos ouça. Se o desejar, desculparei-me com ele mais tarde. Arqueando uma sobrancelha com ironia, Christopher repetiu: -Desculpar-se com ele? Isso seria digno de ver-se. Você jamais se desculpou com ninguém. - Maldito seja, deixe de tratar de me desviar de meu propósito! Robert está abaixo no gabinete e fez uma afirmação terrível e prejudicial em seu contrário. -


Observando seu neto por debaixo das grossas sobrancelhas franzidas, disse-: Diz que é um pirata, um tal capitão Sable e que sua cabeça tem preço. É verdade? Os olhares se encontraram, ouro contra ouro. - Bem, é realmente esse tal capitão Sable? O penetrante olhar de Christopher não se desviou nem um segundo quando este assentiu com uma breve e fria inclinação de cabeça. - Sim, é verdade - respondeu lacônico e categórico, sem oferecer explicações, nem desculpas. O que podia fazer? Expressar remorsos hipócritas? Gritar aos quatro ventos que não tinha sido culpa dele, mas sim das circunstâncias? Ninguém lhe acreditaria, pensou com fúria. A confissão, apesar da indiferença que sentisse momentos antes, foi um rude golpe para Simon. Não o tinha acreditado de tudo, não tinha querido acreditá-lo. Os olhos dourados do ancião se empanaram e com lentidão, como se fosse um ancião esgotado, deixou-se cair em uma poltrona próxima. -Temia que fosse assim - disse com pesadumbre. Sabendo que tinha que dar alguma explicação, embora não toda a verdade, Christopher tinha temido aquele momento. Tinha tido a esperança de poder abandonar a Inglaterra sem que seu avô chegasse a inteirar-se da existência do capitão Sable. Certamente, jamais pensou dizer-lhe que já tinha desejado com ardor não ter que lhe ferir com isso. Por muito que tivesse ensaiado essa cena em sua mente, a realidade da dor e o sofrimento de Simon era mil vezes pior que o que pôde imaginar. Apertou os dentes e um músculo se crispou em sua mandíbula; cravando o olhar nele procurou com desespero as palavras que pudessem diminuir o golpe. Incapaz de suportar lhe ver tão desolado, sem o fogo e a paixão avassaladora que lhe caracterizavam, Christopher murmurou com voz apagada: - Vovô, lhe teria economizado esta grande dor se tivesse podido. Não posso mudar o que sou ou o que fui. – Deixando-se cair sobre um joelho cobriu a mão aristocrática de veias azuis que ainda aferrava-se a bengala de ébano com sua mão forte e torrada, em um gesto do infinito carinho-. Não posso nem sequer pedir perdão pelo que fiz. Mas não o fiz para lhe ferir nem lhe envergonhar. - A voz grave, profunda, adquiriu um tom de súplica ao seguir falando-: Cada um de nós deve viver como estima conveniente. Não espero que você aprove o que fiz, mas por amor de Deus, não me condene por ser eu mesmo, por ser o que sou: um corsário norteamericano, primeiro pelas circunstâncias e depois por escolha. A cabeça de Simon se levantou como uma mola ao ouvi-lo e os descoloridos olhos dourados do ancião sondaram os de seu neto, mais brilhantes e intensos, fixos nos dele com seriedade e determinação. - Norte-americano? - gritou com irritação. Christopher assentiu com firmeza; logo sem afastar o olhar do rosto sério de seu avô, declarou com veemência: -Agora Nova Orleans é meu lar! Minhas terras, minha fortuna, meu futuro, tudo se encontra nos Estados Unidos. Em efeito, fui um corsário, o capitão Sable que


proclama Robert. Sim, ataquei navios britânicos, até... -acrescentou deliberadamente-, afundei-os. Mas seja como for, não foi para lhe causar sofrimento nem angústia. -Em tom desolado, terminou-: Durante muito tempo acreditei que nunca mais voltaria a lhe ver; foi uma época em que odiava tudo o que fosse britânico. Vivi minha vida de acordo com minhas próprias regras e não posso alegar agora que o lamento. -Admirável -comentou secamente Simon. Christopher ficou tenso e se ergueu quão alto era. - Não foi minha intenção lhe aborrecer - replicou, cortante. - Ja! Alguma vez disse que me aborrecesse, disse isso, moço? - explodiu Simon, irascível-. Agora vais me escutar, fanfarrão do diabo! Talvez seja norteamericano, talvez tenha sido corsário, mas é meu neto antes de tudo e meu herdeiro também, se, se trata disso! Christopher lhe estudou animado em parte pelo tom irado da voz, mas inseguro ainda a respeito de quanta dor tinha causado sua confissão ao ancião. Simon parecia estar recuperando-se um pouco, embora a confidência que acabava de lhe fazer devia lhe haver ferido profundamente. Entretanto, Simon não lhe deu oportunidade de dizer nada mais. Elevando-se de repente da poltrona com a bengala sustentada com firmeza em uma mão, olhou carrancudo a seu neto que estava atento e alerta. -Agora bem -começou Simon agressivamente-, tenho algumas coisas que te dizer, cabeça oca! Primeiro, é meu neto e jamais o esqueça! Segundo, maldito o que me importa o que fez... -deteve-se de repente recordando ao Robert e o que lhe havia dito-. Sempre que não tenha prejudicado de propósito a gente inocente... e não refiro a aqueles que puderam sofrer calamidades no curso de suas atividades de corsário. Isso é a guerra e o entendo. A menos que tenha lutado de modo contrário às regras e sem justiça ou sido um covarde em seus ataques. - Vacilou e olhou sombriamente ao Christopher-. Não estou dizendo que não preferiria que não tivesse sido esse capitão Sable ou que não desejaria que sua lealdade se inclinasse para a Inglaterra. Mas como não é assim, não posso me afligir pelo que não sou capaz de mudar. Quão único importa é que é, como disse, o que é e eu seria o imbecil maior do mundo se te negasse porque discrepamos em política. Christopher sorriu com certa tristeza. - Considera factível que Robert compartilhe essa opinião tão pormenorizada? - Deixe-o por minha conta. Esse conto não sairá desta casa. Eu me encarregarei de que assim seja! - bufou Simon. - Não me parece que possa ser assim tão fácil, senhor. Existe... -fez uma breve pausa e logo continuou-: ... uma certa inimizade entre nós dois e não acredito que guarde silêncio simplesmente porque você o ordene. - Vacilou uns segundos. Não estava seguro do próximo passo a dar. Não tinha planejado o desenlace dessa situação tão difícil, mas ao pensar no tempo que lhe escapava das mãos e que em questão de horas se reuniria com o corsário norte-americano, essa parecia ser sua


única oportunidade para comunicar ao Simon sua partida iminente. Mas não podia revelar seus planos sem mais: Simon deduziria imediatamente que aquela viagem a Inglaterra tinha tido outro propósito que uma mera visita pessoal e lhe causaria ainda mais sofrimentos. Era possível que pudesse perdoar ao capitão Sable, mas a um espião? Christopher considerava que não. Em um momento de inspiração compreendeu que podia usar ao Robert como pretexto para sua partida e assim economizar-se outras explicações. -Acredito -começou a dizer lentamente-, que seria aconselhável que eu partisse para a América do Norte. Esta mesma noite. Antes que Robert tenha oportunidade de causar problemas. Uma vez que esta guerra tenha concluído... - Um sorriso zombador apareceu em seus lábios enquanto continuava-: ... esta guerra a que você presta tão pouca atenção, minhas antigas atividades de corsário deixarão de ser um perigo. Então poderei retornar. Até então, temo-me, senhor, que não posso me arriscar a permanecer aqui. Ao ver a expressão decepcionada de Simon, Christopher aduziu: - Jennings-Smythe sabe quem sou. Reconheceu-me e pode me identificar como o capitão Sable. Não muito convencido e levantando o queixo com obstinação, Simon perguntou: - Como viajará? Nenhum navio sai rumo à América do Norte. - Posso partir esta noite para a França. Dali tomarei um navio que vá às Antilhas, ou a Cuba. Não importa o porto que seja; em algum momento me arrumarei para chegar até um navio norte-americano que navegue por essas águas ou que consiga burlar o bloqueio do Golfo. Não se preocupe, chegarei a Nova Orleans de uma forma ou outra. Só levará tempo. - Fria e deliberadamente reprimiu os remorsos por aquelas mentiras: era muito melhor que seu avô acreditasse nisso antes que conhecer a existência desse corsário norte-americano em águas inglesas. Ao Simon não gostava, mas via com claridade o perigo que corria seu neto. Contudo, resistente a lhe deixar partir, argumentou: - Por que deve ser esta noite? Por que não amanhã ou depois de amanhã? Ele mesmo se deu conta das respostas assim que pronunciou aquelas palavras. Qualquer atraso agora que Robert estava falando abertamente do capitão Sable, podia ser fatal. Uma garra gelada lhe aprisionou o coração ao pensar em Christopher acorrentado e condenado à forca, e quando falou suas palavras quase não se ouviram : Tem razão. Deve partir esta noite. O murmúrio rasgou ao Christopher sabendo como sabia quanto devia Simon estar temendo essa separação... e acaso não a temia ele tanto como seu avô? - Esta vez - disse persuasivamente -, não será como a última. Agora você sabe aonde me dirijo e também sabe que voltarei logo: é uma promessa. Simon ficou de pé sem nenhuma pressa. Não podia dizer as palavras de despedida, ainda não. Teriam outro momento a sós antes que terminasse a noite e


Christopher partisse. Então, talvez, poderia lhe dizer adeus sem essas tolas lágrimas que lhe enchiam os olhos. - Esta noite, depois do jantar, quero falar contigo um pouco mais em meu gabinete. Depois disso poderá te escapulir da casa. Enquanto isso, falarei com Robert. Direi-lhe que não pude te encontrar e que sua história é uma farsa digna de representar-se no Covent Garden. Direi-lhe que terá que lhe dizer isso à cara diante de mim para me convencer de que não é nada mais que um conto para te prejudicar. Isso o manterá calado até manhã, pelo menos. Para então já deveria ter chegado a Dover. Advirto-te, entretanto, que não perca tempo. Tratarei de manter ao Robert calado todo o tempo possível, mas só conseguirei enganá-lo durante um ou dois dias no máximo. Christopher assentiu. -Já as damas o que lhes dirá? - Simplesmente que lhe chamaram com urgência da França por assuntos de negócios e que não têm que comentá-lo com ninguém. Qualquer outra pessoa que pergunte por ti, obterá a mesma resposta. Cedo ou tarde deixarão de perguntar. Logo, estudando as botas, murmurou ferozmente -: Quão único tem que fazer é retornar aqui assim que te seja possível. Christopher ficou contemplando seu avô sem incomodar-se em ocultar o que sentia por ele. Com esse cálido sorriso sedutor que tão poucos tinham visto alguma vez em seus lábios, e os olhos dourados, normalmente tão duros, refletindo agora toda a ternura de seu amor por ele, disse titubeando um pouco: - Lamento na alma que tenha tido que ser assim. E lamento que você tenha que apresentar desculpas por mim. A próxima vez, o prometo, não haverá necessidade de uma separação precipitada como esta. - Voto a Deus, mais te valerá que não seja assim! - gritou Simon, irascível. Brilhavam-lhe os olhos de emoção contida e saiu pesadamente do quarto, grunhindo-: Não sei por que perco meu tempo contigo! Aí está Robert me esperando no gabinete e graças a ti terei que me voltar manso com ele para manter sua boca fechada. E justo quando estava preparando uma grandiosa cena para lhe deserdar! Durante longos momentos, Christopher ficou olhando a porta por onde tinha saído Simon. Invadia-lhe uma grande tristeza e sentiu que lhe rasgava o coração. Recuperou-se bruscamente e fervendo de impaciência puxou a campainha para chamar Higgins a seu lado. Pensou com ironia que estava se voltando uma mocinha muito sensível, e com deliberação trocou o fio de seus pensamentos perguntando-se como estaria tomando Robert as ordens de seu pai. Por desgraça, quando Simon chegou a seu gabinete, este estava vazio. Ao perguntar ao Twickham o que tinha passado, recebeu a surpreendente informação de que o senhor Robert partiu com Médica, a criada de Nicole. -Com uma das criadas? -repetiu Simon-. O que está fazendo com uma delas? - Em realidade, não poderia dizê-lo, senhor - respondeu com cortesia Twickham, mas ao ver fogo nos olhos de lorde Saxon, apressou-se a acrescentar-:


Embora ouvi mencionar o nome da senhorita Nicole e o de Edward Markham. Era algo que tinha a ver com o parque de Brighton. Talvez a senhorita Nicole enviou uma mensagem a algum dos choferes para que fosse recolhĂŞ-los no parque e o senhor Robert decidiu ir ele mesmo em seu lugar. -Talvez -admitiu Simon evasivamente. Parecia improvĂĄvel, embora em efeito seu filho tinha falado de ver a Nicole. Possivelmente tinham ido dar um passeio. A essas horas? Com o Edward Markham? Decididamente isso soava estranho. Muito estranho.


CAPÍTULO XXXIV

E em realidade era muito estranho. Edward Markham estava com Nicole, mas não devido a um convite dela ou sequer para agradá-la. Ele, efetivamente, tinha posto em prática seu plano para raptá-la e a sorte parecia estar de seu lado por uma vez. Tinha alugado a carruagem com um mínimo de esforço. Até o tempo lhe sorria. A tarde era uma encantadora sinfonia outonal de ar fresco revigorante e de folhas escarlate e ouro. Nicole, em efeito, tinha ido ao parque escoltada somente por Médica. Exultante, Edward as tinha visto desaparecer por uma das muitas alamedas. Desde seu lugar vantajoso à saída, espreitou, impaciente, que Nicole terminasse de dar seu passeio habitual, recusando pensar na deprimente possibilidade de que pudesse encontrar-se com amigos durante a caminhada. Nicole deu um passeio mais longo que de costume, meditando sobre Christopher e a cena que tinham tido na biblioteca. A enérgica caminhada esclareceu um pouco sua mente e liberou parte de sua frustração e infelicidade reprimidas. Alegrava-se, disse-se com severidade, de que Christopher se afastasse de seu lado. Era melhor. Com ele fora de sua vida, sem a possibilidade de lhe ver de novo, sabendo que se achava ao outro lado do mundo e provavelmente com um considerável número de conquistas femininas, ela por fim estaria livre dessa absurda emoção que sentia por ele. Por último foi Médica quem cortou o passeio. Não gostava de caminhar e acreditava louca a sua ama por desejar fazê-lo quando podia ir de carro, e depois de sofrer em silencio durante bastante tempo, finalmente se aproximou da jovem e lhe falou: -Senhorita Nicole, não acredita que deveríamos empreender a volta? São quase as cinco e a senhorita não deu ordens para que nos busque de carruagem. -Suponho que tem razão, Médica. Muito bem, retornemos. - Pouco depois chegavam a grande porta principal do parque de Brighton e começaram o comprido passeio até a casa de Kings Road. Não tinham dado mais de uns quantos passos nessa direção, quando a súbita aparição de Edward, frenético e aflito a desconcertou. -Querida! -gritou ele pateticamente-. Tenho uma notícia espantosa! Não sei como lhe dizer isso Mas eles acreditaram que seria conveniente que a ouvisse de lábios de alguém de sua família.


Nicole empalideceu e seu primeiro pensamento foi para Christopher. Com os olhos topázio quase negros de apreensão, agarrou o braço de Edward com desespero. - O que acontece? diga-me já, maldito seja! O que é? -Lorde Saxon! -disse Edward com dramatismo-. morreu! Sofreu um ataque fatal faz não muito tempo. Veem, necessitam-lhe! Te apresse! Aturdida, Nicole se deixou conduzir docilmente por Edward, que lhe fez cruzar quase a trancos a rua até a carruagem que esperava ao outro lado. Era tão grande sua dor e tão genuína sua aflição que nem sequer reparou em que tinham deixado Médica frente ao parque, nem se perguntou por que os habitantes de Kings Road tinham julgado conveniente que fosse um familiar quem o comunicasse. Quase paralisada pela assombrosa e dramática notícia, Nicole, como tinha calculado Edward, prestou pouca atenção à direção em que ia a carruagem. Com o olhar vazio cravado no guichê da carruagem não se deu conta ao princípio de que iam com grande rapidez em direção contrária à mansão de Kings Road. Edward a observava com dissimulação desde seu assento do outro lado da carruagem. «Agora, querida priminha, não te liberará de mim com desculpas!», pensou com perversidade. Dentro de dois dias ou menos, possivelmente, estariam casados, e muito antes disso Nicole deixaria de ser a virgem inocente que era agora. Ele se encarregaria disso! Um sorriso malvado apareceu em seus lábios enquanto considerava as delícias e prazeres que logo seriam deles. Tempo suficiente para dobrá-la a sua vontade, pensou com satisfação, e uma expressão malévola cruzou, fugaz, por seu semblante. Nicole a advertiu e reagiu imediatamente constatando várias coisas: Médica não estava com ela; deveriam ter chegado a Kings Road fazia vários minutos; e finalmente, ao incorporar-se no assento e jogar uma rápida olhada à paisagem, deu-se conta de que nem sequer iam na direção correta. Dirigiam-se ao norte! Lentamente voltou a recostar-se no assento com o semblante em branco; contendo a fúria do sangue que fervia em suas veias, seu cérebro funcionava a um ritmo quase frenético. Era óbvio que Edward a tinha enganado e com amargura amaldiçoou sua própria estupidez. Devia ter compreendido que ele tentaria um ardil semelhante cedo ou tarde, era tão típico dele, pensou com desdém. Devia propor-se casar-se com ela em Gretna Green... a menos que tivesse pensado matá-la. Não podia desprezar totalmente essa possibilidade e Nicole lhe dirigiu um olhar calculador. Não, decidiu finalmente, não a assassinaria... Era muito covarde para isso! Mas até os medrosos assassinam se lhes pressionam muito, recordou-se, inquieta, e Edward devia estar desesperado para ter planejado algo tão descabelado e precipitado. Franziu o cenho de súbito. Não tão precipitado se lorde Saxon tinha sofrido um verdadeiro ataque fatal. Passariam horas antes que alguém, em algum momento, pensasse nela, sentisse surpreso por sua tardança. Teria aproveitado Edward essa circunstância dolorosa para suas próprias necessidades? Era uma ideia horripilante, e todo o medo e o pesar que havia sentido voltaram a acossá-la.


-Edward -disse por fim-, sei que não vamos à casa de lorde Saxon. Adivinho que nós fugimos para nos casar em Gretna Green. Mas me diga a verdade, lorde Saxon está em efeito morto ou só o inventou para me fazer subir à carruagem? Edward tinha esperado toda sorte de recriminações de parte de sua prima. Certamente não tinha imaginado que reagiria com tanta calma nem que lhe afetaria dessa maneira a sorte de lorde Saxon. E como sua pergunta tomou despreparado, disse-lhe a verdade: -Que eu saiba, lorde Saxon está tão vigoroso e saudável como sempre. Ante o olhar de desprezo de Nicole, acrescentou rapidamente: - Tinha que te dizer algo que te comovesse profundamente, que te fizesse perder a serenidade. Que mais podia fazer? -É uma víbora rasteira! -cuspiu ela com absoluto desdém-. Que outra coisa podia fazer? Direi-te que outra coisa pode fazer: ordenar que detenham este carro imediatamente e eu fingirei que este episódio tão irritante e desagradável jamais aconteceu. Talvez me tenha em seu poder no momento, mas vou dizer algo, querido primo -disse arrastando as palavras com sarcasmo-, nada fará com que me case contigo! Vais ficar bastante ridículo quando me recusar a repetir as promessas sacramentais. Os olhos azuis de Edward refletiram ódio e rancor quando este resmungou: - Em seu lugar eu não falaria com tanta intrepidez! Quando chegarmos a Gretna Green estará mais que contente de te casar comigo, especialmente que nesse momento poderá estar levando meu filho em seu ventre. Por certo, eu terei cumprido meu papel para assegurar que assim seja. Planejei até o mínimo detalhe, querida prima, assim não espere ajuda dos Saxon! A menos que nos alcance dentro das próximas horas, o qual é improvável, não lhe servirão de nada. Nem sequer lorde Saxon te respaldaria assim que compreendesse que já não é virgem e que poderia existir a possibilidade de um filho. Nicole engoliu as palavras furiosas que se amontoavam em sua garganta, pois não desejava lhe irritar e que unisse a ação à palavra... ainda não. Edward era um imbecil se acreditava que poderia cometer esta loucura impunemente. Jamais se casaria com ele! e não lhe resultaria fácil violá-la. Mas até no caso de que o obtivesse, mesmo que ela ficasse grávida, não se casaria com ele jamais. Encararia o escândalo, as falações, a desonra E de algum jeito se livraria da criança antes que nascesse. - Não tem nada que dizer, querida? - mofou-se Edward interrompendo seus pensamentos. Nicole encolheu os ombros, não romperia as hostilidades até ter decidido com exatidão o que pensava fazer. Respondeu então quase com indiferença: - O que posso dizer? Obviamente pensaste em tudo. -Assim é -concordou Edward, agradado-. Assim é. E é muito inteligente ao entender que seria insensato tratar de entorpecer meus planos. Todo este assunto te resultará menos penoso se cooperar. - Uma careta egoísta lhe torceu os lábios ao


acrescentar com jactância-: Diz-se que sou muito competente na arte de fazer amor e estou seguro de que apreciará muitíssimo mais minha destreza e experiência se não resistir. Há muitas mulheres, como saberá, que estariam contentes de tomar seu lugar. -Oh, é possível? -replicou Nicole evasiva, enquanto com dissimulação jogava uma olhada ao interior da carruagem em busca de algum objeto que pudesse utilizar como arma. Se opunha sua própria força a do Edward poderia ganhar uns minutos de pausa; existia a remota possibilidade de sair vitoriosa em uma luta de vontades entre eles, mas não desdenharia nada que pudesse pôr a vantagem de seu lado. Ao princípio lhe pareceu que não havia nada que lhe servisse. A carruagem estava vazia, além deles; se Edward havia trazido bagagem estava amarrada com cordas sobre o teto. Seu chapéu estava sobre o assento a seu lado, mas o descartou imediatamente, pois não tinha nada que pudesse lhe ser útil. Mordendo os lábios, jogou uma última e desesperada olhada em redor e então o viu: a bengala de malaca de Edward. A bengala-florete. Seus olhos acariciaram com cobiça o objeto fino e mortal que repousava inocentemente ao lado de seu primo. Nicole nunca havia se sentido tão só e impotente em toda sua vida e ao ir cobrindo a distância, enquanto a mortiça luz do entardecer dava passo ao resplendor prateado da lua, sentia-se cada vez mais frustrada e furiosa. Não estava assustada nem temia ao Edward, mas compreendia que com cada hora que passava ia se acabando seu tempo, que logo seu primo cumpriria suas ameaças e a forçaria a aceitar suas repugnantes carícias. Estremeceu de asco ao imaginar a sensação das mãos de Edward vagando livremente por todo seu corpo. Como se adivinhasse seus pensamentos, Edward lhe sorriu na penumbra da carruagem. - Nervosa, querida? - perguntou com suavidade -. Não se preocupe, restam ainda alguns minutos antes que me deixe levar por meus mais baixos instintos. Com a boca ressecada, Nicole perguntou sem expressão na voz: - O que está esperando? Que a lua brilhe com todo seu fulgor para realizar sua atuação? - Essa sim que é uma possibilidade! Mas não, está equivocada. Aproxima-se um trecho do caminho particularmente estreito e cheio de curvas e me desgostaria que meu corpo fosse jogado de um lado a outro no momento mais crucial. Apreciará minha consideração quando vir o que quero dizer. Enfastiada de ocultar sua ira e desprezo, de pretender uma resignação que não sentia, replicou com ironia: - Duvido que tenha tido consideração por alguém em toda sua egoísta vida! Em tom quase coloquial, continuou-: Deveria saber, Edward, que está arriscando essa vida com o que está fazendo. Acha por acaso que um matrimônio impedirá a um dos Saxon que desafiem a um duelo? -Soltou uma cristalina gargalhada ao ver a repentina expressão de incerteza de Edward. Era, obviamente, um ponto que não tinha


considerado. Brilhou um reflexo dourado de burla nos olhos topázio de Nicole ao continuar lentamente e saboreando as palavras-: Vejamos: primeiro está o próprio lorde Saxon, muito destro ainda com uma pistola segundo o dizem. E logo vem Robert. Robert deve ser excelente com a espada, não o acha? E quanto ao Christopher, bom, ouvi que o é com ambas! - A voz soou áspera de improviso refletindo toda sua repugnância ao explodir-: Em realidade acha que lhe deixarão sair com a tua com impunidade? Especialmente se nos alcançam. Edward soltou uma gargalhada nervosa. - OH, não seja ridícula! Nenhum deles é tão tolo nem se preocupa tanto por ti para me desafiar a duelo. E ninguém nos alcançará! Nesse momento, para refutar suas palavras, a carruagem se inclinou perigosamente jogando Edward contra a porta e Nicole para o outro lado, procurando, desesperada, uma asa de couro para agarrar-se. Não tiveram oportunidade de recuperar o equilíbrio antes que outro vaivém mais perigoso e súbito que o anterior fizesse Edward rodar pelo chão e amaldiçoava a gritos enquanto Nicole, obstinada a uma asa, mal podia manter-se no assento. Ao ver que seu primo estava lutando por recuperar o equilíbrio, não perdeu um segundo e inclinando-se velozmente, recolheu a bengala que tinha rodado a seus pés. Em um abrir e fechar de olhos esteve escondido entre as dobras de sua capa. A carruagem, depois de um detestável chiar de rodas e de uma sacudida que lhes agitou os ossos, deteve-se de repente com muita dificuldade em equilíbrio. Fora Nicole podia ouvir o cocheiro gritando com o condutor com voz agitada e Edward, endireitando-se por fim, abriu a porta de repente. A carruagem estava tão inclinada que lhe obrigou a subir até o teto para poder sair do carro. A salvo finalmente no chão, Edward exigiu em tom furioso: -Que demônios passa? Produziu-se uma troca de vozes que Nicole tratou de escutar com toda atenção. Aparentemente, tinha havido um inesperado e muito profundo buraco no caminho e ao girar de repente para evitá-lo, o carro se desviou para a sarjeta. Uma das rodas traseiras saiu do caminho e estava profundamente enterrada na terra. No carro vazio Nicole sorriu. Não sabia em realidade se algum dos Saxon tinha saído em sua busca, mas qualquer atraso a beneficiava. Mas acreditava, entretanto, que a ajuda estaria a caminho, pois Médica sem dúvida teria retornado a Kings Road esperando encontrá-la ali... E a lorde Saxon morto! Quando descobrissem que este estava são e salvo, soaria o alarme e alguém -o coração saltou alocadamente em seu peito quando recordou o rosto moreno e furioso de Christopher- ; alguém, com certeza, deduziria o que tinha acontecido. Estavam na estrada principal rumo a Escócia e era a primeira que tomaria qualquer um que fosse resgatá-la. Os minutos passavam e os homens seguiam lutando para liberar o carro preso. Nicole se sentia cada vez mais animada. Edward, de modo que podia ouvir-se, não estava se congraçando com os choferes ao gritar e amaldiçoar sem cessar por seus


desafortunados esforços por voltar a colocar a carruagem sobre o caminho. Ao contemplar a paisagem iluminada pela lua desejou com ardor que sua porta não estivesse obstruída. Talvez, pensou, teriam que passar ali toda a noite. Isso seria muito conveniente para o complô miserável e ruim de Edward. Mas ao minuto seguinte suas esperanças caíram por terra quando o carro se sacudiu de súbito com violência; a roda girou loucamente por uns segundos, logo se liberou de repente e entre enérgicas sacudidas e cambaleios o pesado veículo rodou triunfalmente para o caminho. A alma de Nicole caiu aos pés quando o carro se endireitou, mas se consolou acariciando a bengala-florete que seguia ocultando debaixo da capa. Edward ia receber uma desagradável surpresa, pensou apertando os lábios. O objeto de seus pensamentos subiu engatinhando ao carro um momento mais tarde e exclamou em tom desagradável: -Esses imbecis incompetentes! pensaria-se que pelo dinheiro que lhes estou pagando teriam que saber conduzir. Nicole não comentou nada; o coração lhe palpitava aloucadamente no peito. Tinha que atuar agora, enquanto ele estava um pouco agitado ainda pelo inesperado acidente e antes que viajassem muito mais longe. Com olhos brilhantes de determinação, aguardou até que Edward se sentasse. Antes que tivesse tempo de darse conta do que estava ocorrendo, Nicole atacou imediatamente sustentando a espada com absoluta firmeza na mão e ele se encontrou com o meio metro de folha nua ante os olhos. Instintivamente se encolheu contra o respaldo do assento e Nicole ordenou com enganosa suavidade: - Quieto, Edward. Não me dê um sobressalto pois poderia te ferir sem querer. Edward ficou imóvel, com os olhos cravados na folha brilhante a escassos centímetros da cara. Nicole tinha escolhido acertadamente o rosto como alvo, sabendo que Edward faria qualquer coisa para proteger suas belas feições. A jovem lhe observava com ironia enquanto ele tratava em vão de fundir-se nas almofadas do assento de couro. Inexplicavelmente voltou para sua memória a cena no cárcere em Grand Terre. Reviveu a insolência de Christopher quando ela tinha apontado a pistola a sua cabeça diante do Allen em sua própria cela. Sem incomodar-se em ocultar o desprezo que sentia por aquele covarde que tinha